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TRESPASSE

JURISPRUDÊNCIA RELEVANTE:

ACSTJ de 14-04-2005
Estabelecimento comercial Trespasse Direito ao arrendamento
I - Enquanto objeto de negócios, o estabelecimento comercial não envolve necessariamente o local em que
estiver instalado, podendo firmar-se com a partilha a distinta titularidade dum e doutro.
II - Quando com a transmissão do estabelecimento - inter vivos, por trespasse, ou mortis causa, por via
sucessória - se coloque a questão da relação do mesmo com o local em que está instalado, o princípio da
livre formação ou composição do estabelecimento está limitado pelo que se deva considerar como o seu
âmbito mínimo ou necessário enquanto organização de factores produtivos, isto é, pelos elementos sem os
quais não assume existência autónoma, e pelos que integram o seu âmbito imperativo, como é o caso dos
contratos de trabalho.
III - Os outros elementos, que constituem o denominado âmbito máximo, como é o caso dos direitos reais
sobre imóveis, da firma e do passivo, só se transmitem, na primeira das hipóteses referidas, se os
contratantes manifestarem a sua vontade nesse sentido.
IV - Em regra, o trespasse não implica a transmissão forçada do local em que o estabelecimento funciona,
só assim não sendo quando efectivamente integre o âmbito mínimo ou necessário do estabelecimento em
questão.
V - Mesmo quando defendida a afectação natural do local ao estabelecimento que nele funcione, é de
ressalvar a possibilidade da sua exclusão por declaração nesse sentido.
VI - O trespasse não tem por pressuposto a existência prévia dum arrendamento, limitando-se o art.º 115,
n.º 1, do RAU, a fixar os termos em que a transmissão da posição de arrendatário comercial ou industrial
se pode operar em caso de trespasse.
VII - Visto que pode transmitir-se o estabelecimento sem o local em que funciona, pode também reivindicar-
se o mesmo sem que tal implique a entrega do local em que está instalado.
Revista n.º 404/05 - 7.ª Secção Oliveira Barros (Relator) * Salvador Barros Ferreira de Sousa

ACSTJ

Processo: 98B1020

I - Na definição do bloco dos elementos componentes do estabelecimento comercial e movidos pelo trespasse vigora o princípio "da
livre composição ou livre formação do estabelecimento" objecto daquele.

II - De entre os elementos nucleares do "estabelecimento" um grupo deles a que a doutrina chama de "lastro ostensivo" do
estabelecimento comercial, compõe o "âmbito mínimo ou necessário" e situa-se no âmago da empresa como organização de
factores produtivos e sem o qual aquele nem existe.

III - Outros elementos do estabelecimento comercial são os que se inscrevem no seu "âmbito natural".
IV - De entre os elementos nucleares do estabelecimento, o chamado "lastro ostensivo", outros há que igualmente integram o
estabelecimento e transitam pelo trespasse entre esferas jurídicas contratantes, mas agora por imposição da lei.
Constituem o chamado "âmbito imperativo" do estabelecimento comercial, onde se incluem os contratos de trabalho.
V - Fora destes limites ao referido princípio da livre composição ou formação do estabelecimento comercial, e que integram o
"âmbito mínimo ou necessário" de trânsito pelo trespasse, situam-se os elementos que a doutrina vem designando por "âmbito
máximo" e que só transitam entre esferas jurídicas negociantes do trespasse, se as vontades nesse sentido se manifestarem (v.g.,
os direitos reais sobre imóveis, a firma e os débitos puros).

VI - Assim, o crédito por benfeitorias efectuadas pelo arrendatário trespassante no locado, onde funciona o respectivo
estabelecimento comercial, não faz sequer parte do núcleo do estabelecimento trespassado, ou seja, do seu "lastro ostensivo", dos
seus factores ou vectores de produção empresarial ou dos seus resultados.

VII - Esse crédito é uma mera expansão das relações jurídicas típicas do contrato de arrendamento que não da actividade comercial
desenvolvida pelo estabelecimento trespassado, ou seja, do seu "lastro ostensivo", dos seus factores ou vectores de produção
empresarial ou dos seus resultados.
ACSTJ

Processo: 004240

I - Consagra-se, no artigo 37, ns. 1 e 4 da LCT, o princípio de que a transmissão do estabelcimento não afecta, em regra, a subsistência
dos contratos de trabalho, nem o respectivo conteúdo, tudo se passando, em relação aos trabalhadores, como se a transmissão não
houvesse tido lugar.

II - Torna-se necessário, para que exista "transmissão de estabelecimento", susceptível de desencadear o regime consagrado no
mencionado artigo 37, que se verifique a conservação da identidade do estabelecimento e a prossecução da sua actividade, ou seja,
que o transmissário tome a exploração de um estabelecimento que estava e continua em actividade.

DOUTRINA:

COUTINHO DE ABREU - trespasse como a transmissão da propriedade de um


estabelecimento por negócio entre vivos.

O trespasse exige, pois, uma transmissão do estabelecimento no seu todo ou


como universalidade: é insuficiente aquela que incida sobre apenas alguns dos seus
elementos. Por certo que as partes, ao abrigo da sua autonomia privada, poderão, do
estabelecimento, retirar os elementos que entenderem. O trespasse não deixará de o
ser até ao limite de o conjunto transmitido ficar de tal modo descaracterizado que já
não possa considerar-se um estabelecimento em condições de funcionar.

A lei especifica, a propósito da transmissão do arrendamento, que o trespasse


deve abarcar instalações, utensílios, mercadorias e outros elementos. Não oferecerá
dúvidas reportar que outros elementos abrangerá os fatores incorpóreos, com relevo
para diversos direitos de crédito, nome, patentes e marcas.

Perante um trespasse de âmbito máximo, que englobe, pois, o passivo, teremos


de distinguir os sues efeitos internos dos externos. Quanto aos internos, o trespassário
adquirente fica adstrito, perante o trespassante, a pagar aos terceiros o que este lhes
devia. Quanto aos externos: o alienante só ficará liberto se os terceiros, nos termos
aplicáveis à assunção de dividas e à cessão da posição contratual, o exonerarem ou
derem acordo bastante.

MENEZES CORDEIRO:
 Âmbitos de Entrega

Num concreto negócio de trespasse, gozam as partes de liberdade para


excluírem da transmissão alguns elementos do estabelecimento. Todavia, tal exclusão
não pode abranger os bens necessários ou essenciais para identificar ou exprimir a
empresa objeto do negócio. Desrespeitando-se o âmbito mínimo (necessário ou
essencial) da entrega (constituindo, portanto, pelos elementos necessários e suficientes
para a transmissão de um concreto estabelecimento), impossibilitado fica o trespasse;
objeto do negócio translativo serão então singulares bens (ou conjuntos de bens) de um
estabelecimento, não o próprio estabelecimento.

Fazem parte do âmbito natural de entrega os elementos que se transmitem


naturalmente com o estabelecimento trespassado, isto é, os meios transmitidos ex
silentio, independentemente de estipulação ad hoc; tais bens, não havendo cláusulas a
exclui-los, entram na esfera jurídica do trespassário.

Com maior ou menor segurança, é possível enumerar diversos elementos que integram
normalmente este âmbito de entrega. Por força da lei (supletiva), incluem-se no âmbito
natural os logótipos e as marcas. O CPI anterior (1995) era claro quanto à transmissão
(em principio) natural destes sinais distintivos. No CPI atual (2003), o art.304-P/3,
continua a ser claro quanto à transmissão natural dos logótipos. Mas o artigo 211(1 do
Código de 1995 (transmissão natural de marca) não tem correspondente no Código
vigente. Contudo, pode concluir-se no artigo 31º/5 a inclusão da marca no âmbito
natural de transmissão. Diz ele: se no logótipo ou na marca figurar o nome individual, a
firma ou a denominação social do titular (…), é necessária cláusula para a sua
transmissão. Quer dizer, se na marca não constar o nome, etc., do titular, ela é
transmitida naturalmente com o respetivo estabelecimento, não precisando de cláusula
ad hoc.

Quanto a outros elementos, o silêncio das partes é acompanhado pelo silêncio


da lei. Sabemos no entanto que o estabelecimento é organização de meios ou
elementos para o exercício de uma atividade de produção destinada à troca. Sejam ou
não essenciais para a existência da empresa, todos esses bens contribuem para a
organização e são parte do estabelecimento. Sabemos também que ele é bem jurídico
complexo-unitário, e coisa. O mais razoável será, portanto, que aqueles elementos
sobre que pesa o silêncio se transmitam naturalmente; trespassado o estabelecimento,
fica o trespassante obrigado a entregar o complexo de bens que o compõem. Entre esses
bens contam-se, por exemplo, máquinas, utensílios, mobiliário, matéria prima,
mercadoria, inventos patenteados, modelos de utilidade, desenhos ou modelos. E os
prédios? Os prédios têm suscitado mais controvérsia. Entendia tradicionalmente a
jurisprudência que, na falta de estipulação especifica, o trespasse não implica a
transmissão do prédio (do trespassante) onde o estabelecimento funciona. Na doutrina,
a pertinência dos imóveis ao âmbito natural é afirmada por uns e negada por outros. O
Professor COUTINHO DE ABREU não descortina razões que validem um tratamento
diferenciado do prédio em face de bens que, tal como ele, fazem parte do
estabelecimento, são os seus elemento. Tanto mais quanto é certo não ser em geral
desprezível a importância dos imóveis. Para já não falar dos estabelecimentos
absolutamente vinculados, o peso dos imóveis na estrutura organizatório-exploracional
das empresas é em muitos casos determinante – pense-se nos hotéis, estabelecimentos
de bairro de venda ao público, nos cinemas, nos parques de estacionamento e guarda
de automóveis, nos pavilhões desportivos, etc. Em muitos outros casos, os prédios são
feitos à medida das empresas respetivas, são projectados em função de especificas
atividades empresariais. Por conseguinte, quando num contrato de trespasse se não faça
menção à transmissão do prédio e não se conclua, por interpretação do negócio, que ele
foi excluído, deve concluir-se que a propriedade do mesmo foi naturalmente
transmitida,

O trespasse coenvolve naturalmente a transmissão da propriedade de todos os


elementos que a esse titulo pertenciam ao trespasse – podendo todavia nalguns casos
um ou mais desses elementos não se transmitir, ou seja, nos casos em que a exclusão
resulta de uma disposição negocial, ou corresponde à vontade real e concordante das
partes.

Veja-se agora os elementos empresariais na disponibilidade do trespassante a


titulo obrigacional (o trespassante tem o gozo desses bens por ser titular de direitos de
crédito).
Por força do artigo 285º/1CCom, as prestações laborais a que os trabalhadores
subordinados se haviam obrigado perante o trespassante continuam a contar-se entre
os elementos do estabelecimento trespassado.

No âmbito convencional de entrega incluem-se os elementos empresariais que


apenas se transmitem por mor de estipulação ou convenção (expressa ou tácita) entre
trespassante e trespassário.

Os créditos do trespassante ligados à exploração da empresa mas cujos objetos


não sejam meios do estabelecimento não devem considerar-se elementos ou meios
empresariais. Todavia, podem ser transmitidos juntamente com o estabelecimento
desde que o trespassante e trespassário nisso concordem; farão então parte do âmbito
convencional de entrega. É o que resulta dos artigos 577º, ss do CC – por acordo
(expresso ou tácito) entre trespassante-credor e trespassário, pode o primeiro ceder
simples créditos ao segundo, independentemente do consentimento do devedor,
contanto que a cessão das partes ao crédito não esteja, pela própria natureza da
prestação ligado à pessoa do credor (art.577º e 583º).

Os contratos (rectius, posições contratuais do trespassante) ligados à exploração


da empresa mas cujos objetos não sejam elementos do estabelecimento, bem como os
débitos resultantes da exploração do estabelecimento, também não devem ser
considerados elementos ou meios empresariais. Mas podem igualmente ser
transmitidos juntamente com o estabelecimento trespassado. Contudo, tais posições
contratuais e débitos não fazem parte, em regra, de qualquer dos âmbitos de entrega;
nem sequer do âmbito convencional – pois (ainda em regra), a respetiva transmissão
exige a intervenção de terceiros (não bastando a convenção entre trespassante e
trespassário). É o que resulta das normas legais gerais.

Assim, para os contratos, e ressalvadas as hipóteses previstas na lei, valem as regras dos
artigos 424º CC – é necessário não apenas o acordo entre trespassante e trespassário
mas também o consentimento do contraente cedido (art.424ºCC: no contrato com
prestações reciprocas, qualquer das partes tem a faculdade de transmitir a terceiro a
sua posição contratual, desde que o outro contraente, antes ou depois da celebração do
contrato, consinta na transmissão).
Mais debatida que a cessão de posições contratuais ou de créditos tem sido a
transmissão singular de dívidas (ou, mais latamente, a responsabilização ou co-
responsabilização do trespassário pelas dividas relativas ao estabelecimento anteriores
ao trespasse. Talvez por neste domínio serem mais vincados os virtuais conflitos de
interesses.

De um lado, os interesses dos credores do trespassante reclamando a


transmissão das dividas ou, de preferência, a responsabilização de trespassante e
trespassário – uma vez que pode o trespasse envolver a diminuição da garantia
patrimonial dos créditos (concedidos, as mais das vezes, tendo em vista o
estabelecimento) e ser a impugnação pauliana possível (art.610º e ss). Do outro ado, os
interesses do trespassário (para já não falar dos seus credores) reclamando a não
transmissão dos débitos (que ele pode até desconhecer), pelo menos contra sua
vontade.

Os trabalhos preparatórios dos atuais CCom e CCiv registam propostas


especificamente dirigidas à tutela dos credores do trespassante, mas nenhuma delas
obteve consagração legal. São pois aplicáveis as regras gerais do direito civil. Não
obstante, na vigência do CC de 1867, alguns espécimes jurisprudenciais afirmaram a
transmissão automática das dividas em caso de trespasse (do estabelecimento
comercial). Estes acórdãos, além de não se terem fundado na lei, argumentaram
conceitualisticamente: ainda que a lei o não declare expressamente, não pode deixar de
considerar-se o estabelecimento comercial como um todo uno e indivisível (…) e assim,
realizando o trespasse, a pessoa que o tomou, ficou, ipso facto, sujeita ao cumprimento
de todos os encargos que o oneravam; sabendo-se que a loja ou estabelecimento é uma
universalidade, compreendendo todo o conjunto de relações jurídico-comerciais ligadas
à atividade do comerciante, portanto o ativo e o passivo. Na vigência do atual CC, a
jurisprudência e a doutrina dominantes negaram a referida transmissão automática das
dívidas. Com razão. De harmonia com o artigo 595º, a transmissão a titulo singular de
dividas referentes a estabelecimento só pode verificar-se por acordo entre trespassante
e trespassário, ratificado pelos credores (isto é, com aprovação ou assentimento
destes), ou por acordo entre o trespassário e os credores, com ou sem consentimento
do trespassante; em qualquer dos casos, a transmissão só exonera o trespassante
havendo declaração expressa dos credores – respondendo ele solidariamente com o
trespassário caso não haja essa declaração. Por conseguinte, ainda que num escrito se
diga que o estabelecimento é trespassado com todo o seu ativo e passivo, esse facto,
por si só, não significa assunção pelo trespassário das dividas do trespassante relativas
ao estabelecimento, a transmissão dos débitos exige o consentimento dos credores.

Excecionalmente, porém, o trespassário pode ter de responder por dividas


anteriores ao trespasse. É assim nos casos regulados pelos artigos 285/1 e 2 do CT e
209/2 CRCSPSS, e nos casos de trespasse de e.i.r.l.

CASSIANO DOS SANTOS:

ÂMBITO MINIMO - Há, em cada caso, um limiar em que a exclusão de


determinados elementos não é mais possível, sob pena de se descaracterizar o
estabelecimento, ou seja, de ele ser destruído enquanto tal – passando a existir um
conjunto de elementos que já não é um estabelecimento, ou que, pelo menos, já não é
aquele estabelecimento. A esse limiar chama-se, na doutrina da empresa, âmbito
mínimo: para haver negociação do concreto estabelecimento, tem de ser respeitado
esse âmbito, funcionando ele como limite à liberdade de exclusão e de conformação ou
configuração do estabelecimento na negociação.

O estabelecimento pode ser negociado no seu âmbito mínimo. Se este não for
observado, pode haver, naturalmente, negócio, mas ele terá outro objeto que não
aquele estabelecimento. Como o estabelecimento é essencialmente um
mecanismo/organização para a intervenção no mercado, e, nesse plano, o seu valor
especifico decorre da simbiose entre os valores de organização e os valores de
exploração, o âmbito mínimo apura-se a partir desses valores: ao âmbito mínimo
pertencem todos aqueles elementos que, em concreto, são imprescindíveis para
sensibilizar e transportar aqueles valores específicos de memória e de eficiência
organizativa que conferem ao estabelecimento o seu especial valor de posição e para
tornar reconhecível nas mãos do adquirente.

O âmbito mínimo não é composto por um numero fixo de bens a priori, nem é
composto necessariamente por um conjunto fechado ou rígido de bens (salvo os casos
especiais, designadamente quando o estabelecimento é absolutamente vinculado, por
ter uma relação de incindibilidade com certo bem). A averiguação sobre se, num dado
negócio, foi respeitado o âmbito mínimo, reporta-se sempre ao conjunto de elementos
envolvidos na negociação ou a envolver, se o juízo for ex ante – portanto, é sempre um
juízo em concreto (duplamente em concreto: parte daquele estabelecimento e da sua
especial configuração e atenta no especifico negócio).

A averiguação supõe sempre uma análise dos elementos transmitidos ou a


transmitir e uma avaliação de quais são os específicos valores que contradistinguem
aquela empresa, para se concluir com o juízo de que se respeitou ou vai respeitar o
âmbito mínimo desses valores e da organização concreta. Ora, quanto mais
sedimentada estiver a imagem publica do estabelecimento – o que terá em regra uma
relação direta com o tempo de funcionamento – mais o seu especifico valor radicará
nela e menos na organização – sem que se possa prescindir desta, naturalmente. Ora,
como a imagem pública se relaciona muito menos diretamente com os fatores
produtivos, que têm uma relação muito mais intima e direta com a organização, pode,
na esteira de ORLANDO DE CARVALHO, falar-se de uma lei tendencial da negociação do
estabelecimento, nos termos da qual os estabelecimentos que têm mais tempo de
funcionamento (e em especial uma imagem mais sedimentada) tendem a carecer de um
menor numero de elementos para a sua transmissão – sendo mais reduzido o seu
âmbito mínimo. Mas, note-se, terá sempre que ser espelhada a organização e aquela
concreta organização.

Assim compreendido o âmbito mínimo e o próprio estabelecimento, não há


qualquer fundamento para se sustentar em geral que só há estabelecimento ou negócio
sobre ele se houver ou for incluído o contrato de arrendamento.

Respeitando o limite à liberdade de conformação que é o âmbito mínimo, os


contraentes são livres de negociar o estabelecimento. Podem fazê-lo com discriminação
dos bens transmitidos, mas podem também omitir essa discriminação. Assim, outro
problema, distinto daquele, é o de saber, num dado negócio no qual não se faz menção
aos elementos do estabelecimento-coisa composta que são envolvidos, quais os
elementos efetivamente transmitidos (isto é, que são abrangidos pela declaração de
vontade genérica de transmitir a empresa). Por vezes, não se faz de todo menção aos
elementos que o compõem e que são envolvidos na negociação; noutros casos, faz-se
uma enumeração exemplificativa dos elementos transmitidos (é sempre por
interpretação das declarações das partes que se conclui sobre a natureza da
enumeração). Em tais hipóteses, entende-se que o estabelecimento é negociado no seu
âmbito natural.

A determinação do âmbito natural envolve um juízo duplo, concreto e abstrato.


O ponto de partida é o conjunto de elementos que compõem o estabelecimento em
causa. Na medida em que, na empresa, a unidade prevalece sobre a multiplicidade, e
que a agregação dos vários fatores numa mesma organização traz ao universo jurídico
um bem novo que é o estabelecimento, quando este é transmitido o principio é o de
que o negócio envolve todos os elementos que nele estão integrados, com exceção
daqueles para cuja transmissão a lei exige uma convenção especifica – isto é o âmbito
natural. Sublinhe-se que o âmbito natural se reporta aos elementos que são fatores
produtivos, tal como existem no concreto estabelecimento (quer dizer, com o direito
que o titular deste detém sobre eles), e que, portanto, em rigor, não são os elementos
em si mesmos que são objeto de transmissão natural mas os direitos ou títulos sobres
eles ou as posições jurídicas deles emergentes (o direito de propriedade ou o contrato
de locação, por exemplo, e não os bens que incide a propriedade ou a locação); por
outro lado, o âmbito natural permite apenas a transmissão da posição jurídica pré-
existente ou de uma de conteúdo mais restrito, e não outra mais ampla.

O âmbito natural pode ser objeto de exclusões expressas ou tácitas realizadas no


negócio (possíveis até ao limite do âmbito mínimo) e podem-lhe ser aditados elementos
que pertencem ao âmbito máximo, mediante convenção que obedeça aos requisitos de
transmissão.

O fundamento da transmissão natural é, assim, a natureza especial do


estabelecimento como bem: sendo ele composto por múltiplos elementos, mas sendo
essencialmente uno, a negociação dele que tome como referencia o estabelecimento
deve envolver em principio todos os elementos que integram o concreto
estabelecimento. A pertinência do âmbito natural não se funda, assim, em preceitos
legais como o artigo 1112ºCC: este limita-se a regular o problema da relação entre a
transmissão do contrato e o outro contraente, supondo que ele foi transmitido nas
relações trespassante-trespassário, quer por se entender naturalmente transmitido,
quer por ter sido objeto de acordo especificamente dirigido à sua transmissão.

Do mesmo modo, preceito que estabelecem a necessidade de consentimento do


outro contraente em posições contratuais não obstam à inclusão no âmbito natural.
Sempre que a cessão de um contrato está sujeita a consentimento do outro contraente,
este, colocando um requisito exterior às relações trespassante-trespassário, é condição
de eficácia (excecionalmente, poderá considerar-se que é mesmo condição de validade)
da estipulação explicita ou implícita de transmissão, mas não contende com a inclusão
do direito no âmbito natural. Sempre que a cessão de um contrato está sujeita a
consentimento do outro contraente, este, colocando um requisito exterior às relações
trespassante-trespassário, é condição de eficácia da estipulação explicita ou implícita de
transmissão, mas não contende com a inclusão do direito no âmbito natural – como se
alcança da constatação de que, se tiver havido consentimento prévio, e mesmo que
nada se diga no contrato de trespasse, o direito deve considerar-se naturalmente
incluído no negócio (pois existe na empresa e a lei não exige uma convenção especifica,
mas apenas o consentimento do terceiro), ou, ainda, de que, se nada se tiver dito, e o
consentimento sobreviver, as razoes que fundam a existência de um âmbito natural e o
seu conteúdo, levam a que o direito se deva considerar transmitido.

Pertencem, assim, ao âmbito natural, consoante o concreto estabelecimento, os


direitos sobre as mercadorias, as matérias-primas, as máquinas, os contratos, incluindo
o contrato de arrendamento, contrato de concessão ou agência, o nome, as patentes ou
as marcas.

Ao âmbito natural contrapõe-se o âmbito máximo. Este é o composto por todos


aqueles elementos para os quais a lei, por disposição especifica ou por força de
princípios gerais que fluam do ordenamento jurídico, exige uma convenção
especificamente dirigida à sua transmissão. Por regra esta convenção será tácita.

Do âmbito máximo faz parte a firma, os direitos reais sobre imóveis. É assim
porque resulta do nosso ordenamento jurídico-privado um principio segundo o qual
esses direitos não se transmitem sem uma declaração especificamente dirigida à
transmissão, ainda que, nos termos gerais, ela possa ser tácita. O professor CASSIANO
DOS SANTOS rejeita, pois, uma transmissão implícita com a transmissão do
estabelecimento.

A igual regime estão sujeitas as dividas, para a transmissão das quais a lei
também supõe uma especifica convenção ou uma vontade ad hoc do adquirente: o
artigo 595º/1/a) CC, exige a ratificação pelo credor do contrato entre o antigo e o novo
devedor, pressupondo um acordo especificamente dirigido à transmissão; esto está,
aliás, em conformidade com a regra geral de que ninguém se obriga sem uma declaração
de vontade nesse sentido. A solução é razoável: tratando-se de um elemento da
empresa que é objetivamente um desvalor, a sua assunção não pode ser feita de modo
implícito. A declaração comum pela qual o estabelecimento se transmite com todo o
ativo e passivo, reportando especificamente às dividas e a todas elas, é suficiente para
que cada uma das dividas se considere transmitida, assumindo o adquirente da empresa
a obrigação de as pagar.

Um bem do âmbito natural ou do âmbito máximo pode, em concreto, pertencer


ao âmbito mínimo – o que coloca questões quanto à transmissão e entrega, sendo que
o âmbito desta é determinado pelo especificamente acordado, pelo âmbito natural e
pelas exclusões efectuadas, sempre com a prévia determinação de que o objeto do
negócio foi efetivamente aquele estabelecimento.

Ao lado da obrigação de transmitir elementos, pode haver prestações para obter


a imissão do adquirente na posse do estabelecimento. Trata-se de obrigações que são
assumidas para potenciar a transmissão da organização e sobretudo dos valores de
imagem pública, tendo um relevo complementar da transmissão dos fatores produtivos
– das quais se distinguem por derem puras prestações e não elementos de organização.
Não sendo fatores produtivos, só são incluídas no negócio se houver convenção, ainda
que possam considerar-se implicitamente pactuadas em certos casos (é o caso de certas
comunicações de contactos ou de saber-fazer que não estejam incorporados em
documentos). O incumprimento de eventuais obrigações não poe em causa a
transmissão do estabelecimento, mas elas são suscetiveis de execução e ação por
cumprimento defeituoso, nos termos gerais.
Há ainda que considerar o âmbito necessário ou imperativo da transmissão: em
certos casos, por razoes que nada têm a ver com a esfera de interesses mercantis, a lei
impõe que a transmissão da empresa se faça com cetos valores.