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Educação para o mercado x educação para

o mundo do trabalho:
impasses e contradições

Silvia Andreia Zanelato De Pieri Oliveira*


Maria de Lourdes Pinto de Almeida**

Resumo
Este artigo foi concebido com o ob- relações que se estabelecem, estimu-
jetivo de analisar a educação na so- lando novas formas de pensamento, a
ciedade capitalista e suas interações educação nesta complexidade é deter-
entre os cenários para o mercado e o minante para a emancipação do tra-
mundo do trabalho, inserindo as con- balhador.
tradições históricas das mudanças nos
modelos de gestão nas organizações Palavras-chave: Educação. Trabalho.
empresariais e suas interfaces com o Empregabilidade.
trabalhador. Os processos educativos
foram modificados em cada modelo de
produção, no atendimento de exigên- *
Pedagoga. Mestranda em Políticas e Pro-
cias das empresas, resultando em um cessos Educacionais do PPGE da Uniplac
investimento que trouxesse um índice - SC. Autora de vários trabalhos aprovados
maior de produtividade e, por conse- em congressos nacionais e Internacionais,
qüência, mais lucro. A educação, in- tais como AÀrse (Portugal) e Anped (Ca-
xambu), IV EBEM (Unesp - Rio Preto).
fluenciada pela sociedade capitalista,
E-mail: silvia.oliveira@serrana.sesisc.org.br
pela tecnologia e comunicação, pas- **
Historiadora e pedagoga. Mestra e Doutora
sou do plano social para o individual. em História, FilosoÀa e Educação pela FE da
O termo empregabilidade fortalece a Unicamp. Pós-Doutora em Políticas Educa-
condição para inserir e permanecer cionais pela USP. Pós-doutoranda em Política,
no mercado de trabalho; a educação Ciência e Tecnologia sob a tutela do professor
passa a ser vista como um produto, Doutor Renato Dagnino, IG da Ucicamp. Atua
um serviço, de caráter mercadológico. no PPGE Uniplac/SC e no Gepes – Unicamp.
Reconhecendo que no espaço do tra- Email: malu04@gmail.com
balho acontecem diferentes processos
educativos, onde o conhecimento é
colocado em prática, construído nas Recebido: 09/09/2009 – Aprovado: 23/10/2009

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O mundo está passando por um víduos e conduzi-los ao desabrochar
processo acelerado de transformação, pleno de suas faculdades espirituais,
que se manifesta na mudança de diver- é colocada, inversamente, sob a de-
sos aspectos estruturais, acionada pela terminação direta das condições de
globalização da economia, da política, funcionamento do mercado capitalista.
É, com efeito, aquilo que poderíamos
da sociedade, da cultura, das institui-
chamar de “concepção produtivista
ções e do meio ambiente. Globaliza-se
de educação” que domina o panorama
de forma excludente e sem precedentes, educativo da segunda metade do sé-
afirmando o ideário neoliberal. Associa- culo XX. (SAVIANI, 2005, p. 22).
dos à globalização estão o desenvolvi-
mento rápido da ciência e da tecnologia, A educação nesse cenário é vista
a emergência da sociedade do conheci- como um bom investimento, na promes-
mento e a nova estrutura de trabalho e sa de que, quanto mais a classe domi-
desemprego estrutural. nante investisse nela, maior o retorno
produtivo de seus trabalhadores. “A
A globalização introduziu novos con- educação passou, pois, a ser concebida
ceitos em termos de eficiência da or-
como dotada de um valor econômico pró-
ganização de produção, do modelo de
prio e considerada um bem de produção
gestão, de perfis de qualificação dos
padrões de inversão, das vantagens (capital) e não apenas de consumo.” (SA-
competitivas, e outras. Essas novas VIANI, 2005, p. 22).
formas organizacionais são caracteri- No fim da década de 50 e início da dé-
zadas pelo aumento da flexibilidade, cada de 60, Theodoro Schultz (1962 e
com redução de custos e o melhora- 1973) elaborou o conceito de capital
mento da qualidade da produção e no humano, vinculando-o a uma função
controle de materiais, que resultam agregada macroeconômica, para expli-
em ganhos significativos de produtivi- car as diferenças de desenvolvimento
dade. (RIBEIRO, 2003, p. 227). econômico social entre as nações e
Em retrospectiva histórica, pode- as diferenças e desigualdades entre
grupos sociais ou entre os indivíduos.
mos observar que tanto na primeira Re-
(FRIGOTTO, 1998, p. 36).
volução Industrial (final do século XVIII)
quanto na segunda (final do século XIX) Esse conceito de capital humano
é marcante o esforço concentrado na difundia a correlação entre o crescimen-
busca de estratégias para maximizar o to econômico e os níveis educacionais de
desempenho humano, entendido como uma determinada sociedade, cujo racio-
mais uma peça na linha de montagem. cínio lógico conduz à ideia de que a edu-
cação altera as habilidades humanas,
A educação, que tenderia, sobre a base
do desenvolvimento tecnológico propi- ampliando os índices de produtividade
ciado pela microeletrônica, à universa- e, consequentemente, os níveis de renda
lização de uma escola unitária capaz na sociedade.
de propiciar o máximo de desenvolvi-
mento das potencialidades dos indi-

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A visão produtivista da educação em- e mudança de hábitos e de maneiras
penhou-se no primeiro período, entre de pensar e agir; a tecnologia também
os anos de 1950 e 1970, em organizar passa por um intenso desenvolvimento,
a educação de acordo com os ditames influenciando no comportamento das
do taylorismo-fordismo através da organizações e das pessoas que dela
chamada “pedagogia tecnicista”, que
participam.
se procurou implantar, no Brasil, atra-
vés da lei n. 5692 de 1971, quando se No segundo período, a partir do final
buscou transportar para as escolas os dos anos de 1980, entram em cena as
mecanismos de objetivação do traba- reformas educativas ditas neoliberais
lho vigentes nas fábricas. (SAVIANI, que se encontram em andamento. Sob
2005, p. 23). a inspiração do toyotismo, busca-se
flexibilizar e diversificar a organização
“O investimento em “capital hu- das escolas e o trabalho pedagógico, as-
mano” passou a constituir-se na chave sim como as formas de investimentos.
de ouro para resolver o enigma do sub- Neste último caso, o papel do Estado
desenvolvimento e das desigualdades torna-se secundário e apela-se para a
internacionais, regionais e individuais.” benemerência e voluntariado. (SAVIA-
(FRIGOTTO, 1998, p. 37). A dissemi- NI, 2005, p. 23).
nação de cunho ideológico era de uma
Do investimento de uma educação
perspectiva de desenvolvimento dos
pautada na fragmentação e especiali-
países do Terceiro Mundo e, para os
zação de cunho produtivista, começa o
indivíduos, a promessa de garantia de
período destinado a uma educação que
melhores empregos e ascensão social,
visava desenvolver habilidades e com-
vinculado à tese do pleno emprego.
petências para entendimento e atuação
Trinta anos depois da disseminação da de todo o processo. Os trabalhadores não
teoria do capital humano, nada daquilo mais “cuidam” apenas da sua máquina,
que postulava se efetivou – a possibili- mas de várias, explorando ainda mais
dade da igualdade entre nações e entre a força de trabalho e aperfeiçoando os
grupos sociais e indivíduos, mediante mecanismos de controle.
maior produtividade e, conseqüente-
mente, em termos de nações, maior No âmbito da pedagogia toyotista, as
competitividade e equilíbrio e, entre capacidades mudam e são chamadas
grupos e indivíduos, ascensão na car- de “competências”. Ao invés de habi-
reira profissional, mobilidade social e lidades psicofísicas, fala-se em desen-
conseqüente diminuição das desigual- volvimento de competências cognitivas
dades. (FRIGOTTO, 1998, p. 38). complexas, mas sempre com o objetivo
de atender às exigências do processo de
Com a terceira Revolução Indus- valorização do capital. Nesse sentido,
trial, iniciada logo após a Segunda Guer- as ferramentas que buscam superar
ra Mundial, as mudanças mundiais se os obstáculos decorrentes da fragmen-
intensificaram com uma rapidez inédi- tação do trabalho, em particular no
ta, a tradicional cultura organizacional que diz respeito a todas as formas de
das empresas cede lugar à inovação desperdício, tais como multitarefa ou o

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controle de qualidade feito pelo traba- sa a ser considerado uma esfera alta-
lhador, não têm como objetivo recons- mente lucrativa de aplicação do capital,
tituir a unidade rompida, mas evitar o que passa a influenciar decisivamente
todas as formas de perda e assim am- os fins e os meios envolvidos.” (IANNI,
pliar as possibilidades de valorização 2005, p. 33).
do capital. (KUENZER, 2005, p. 80).
Os processos educativos e formativos,
A era da informação, por sua vez, que ao mesmo tempo são constituídos
também conhecida como “era pós-in- e constituintes das relações sociais
dustrial” (início da década de 1990 até [...] passam por uma ressignificação
a atualidade), tem como característica no campo das concepções e políticas.
mais marcante a velocidade e imprevi- Estreita-se ainda mais a compreensão
sibilidade com que as mudanças estão do educativo, do formativo e da quali-
ocorrendo. ficação, desvinculando-os da dimensão
ontológica do trabalho e da produção,
Há um novo processo de ocidentali- reduzindo-os ao economicismo do em-
zação, onde se verifica a mobilização prego e, agora, da empregabilidade
dos recursos disponíveis dos meios de [...]. (FRIGOTTO, 1998, p. 14).
comunicação, da mídia, da imprensa
escrita e eletrônica, na tentativa de A ideia da educação tem apenas um
reeducar povos, nações e continen- caráter mercadológico, aliada a uma vi-
tes. Neste processo, a língua inglesa são imediatista, pela qual os resultados
tornou-se uma língua universal. Toda precisam aparecer a curto prazo. O de-
a matéria fundamental para a vida senvolvimento humano passa a ser visto
pública, no que se refere a questões po- como mais um número, sem considerar
líticas, econômicas, sociais, culturais, o contexto social, as interferências cul-
educacionais etc., é tratada em inglês. turais e políticas e, ainda pior, sem uma
Estima-se que 88% de toda a literatu-
ação efetiva de emancipação.
ra científica e técnica é publicada ori-
Simultaneamente, ainda se desen-
ginalmente em inglês. Neste contexto,
volvem os “meios de comunicação de
é importante que se note que uma das
formas de se perder a soberania e a massa”, a indústria cultural, as corpo-
identidade cultural é deixar-se sedu- rações da mídia. São poderosos agentes
zir completamente por outra língua culturais, que influenciam decisiva-
que não a própria. (RIBEIRO, 2003, mente a educação, a socialização, com-
p. 213-214). preendendo indivíduos e coletividades
São evidentes a presença e influência
Embora não seja o único fator de-
dos meios de comunicação no modo pelo
terminante, as novas tecnologias da
qual uns e outros se inserem na socie-
informação e da comunicação estão con- dade, no mercado, na cultura, política e
tribuindo sobremaneira para a trans- imaginário. Em diferentes gradações, a
formação do mundo em uma verdadeira mídia difunde, reitera ou altera quadros
aldeia global, influenciando diretamen- mentais de referência de indivíduos e
te a educação, a cultura e a sociedade, coletividades em todo mundo. (IANNI,
“Tudo o que diz respeito à educação pas- 2005, p. 33).

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Passamos a encarar fatos trazidos manter-se empregada, sujeitando-se às
pela mídia como verdades absolutas e leis de mercado, da oferta e da procura.
os naturalizamos como parte do nosso As novas gerações não contam mais com
dia a dia, Pela mídia prevalece a inexis- o trabalho assalariado e certamente
tência da individualidade e passamos a disputarão entre si espaço no trabalho
viver em “bandos”, caracterizados por informal ou de prestação de serviços.
algo ou objeto adquirido, identificando A crise do trabalho assalariado, en-
que fazemos parte deste contexto glo- tendida como o aumento exponencial
balizado. Prega-se como marketing de do desemprego estrutural e precari-
uma vida social responsável campanhas zação do trabalho, constitui-se num
que promovem a solidariedade, a com- dos problemas políticos e psicossociais
paixão e o olhar pelo outro; desse modo, mais agudos da história humana e, ao
qualquer um pode fazer educação, basta mesmo tempo, explicita uma das con-
querer, num movimento que cada vez tradições mais profundas deste fim de
mais acentua a responsabilidade do ci- século. (FRIGOTTO, 1998, p. 14).
dadão com a sociedade e o descaso das As estatísticas apontam que o de-
autoridades e órgãos competentes. semprego aumenta, inclusive nos paí-
A educação realizada no alto desta ses chamados do Primeiro Mundo. O
revolução tecnológica parece não mais trabalho fragmentado cede lugar aos
corresponder às novas exigências que processos de produção flexível, que, ao
emanam do mundo do trabalho. Os pro- contrário dos sistemas rígidos, melhor
blemas que permeiam o mundo sugerem se adaptam às variações e incertezas
que a educação e o trabalho precisam ser de mercado, alterando não só as formas
vistos em consonância com o movimento produtivas, mas, de modo contundente,
geral da sociedade. o processo de trabalho e também a edu-
O universo de incertezas da realidade cação de modo geral.
econômico-social e política permeia a O discurso e a prática da “qualidade
conceituação dos fatos e o rumo das total” em educação, por exemplo, têm
ações. A ausência de clareza quanto a imposto a visão de que a estrutura de
que tipo de formação as pessoas deve- pensamento e as estratégias de ação
riam receber, para se adaptar às trans- do capitalismo são as únicas possíveis
formações em curso, confunde-se com na sociedade em que vivemos; já estão
as ainda presentes orientações do mo- predefinidos os pressupostos da ação.
delo taylorista-fordista. Está em curso Qualquer discussão mais estrutural e
uma ressignificação dos processos de política passa a ser considerado inútil
formação dos trabalhadores no con- e o que importa é definir “como fazer”.
texto das transformações produtivas, Tudo baseia-se no gerenciamento [...].
inclusive do ponto de vista semântico. (RIBEIRO, 2003, p. 230).
(FRANCO, 1998, p. 103).
No decorrer desse tempo passou-se
A classe trabalhadora, que em épo- a entender os investimentos na forma-
cas anteriores lutou por melhores condi- ção do trabalhador como algo de res-
ções de trabalho, hoje busca arduamente

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ponsabilidade própria, processando-se Considerando os ciclos de produ-
o deslocamento do plano social para o ção e mudanças do sistema capitalista
individual. A qualificação, atualização no decorrer da história, é notório que
constante, a preparação para o mercado o processo educativo também acom-
de trabalho são estratégias de marketing panha esta ciclicidade, exigindo um
para a venda de mão de obra ao capital investimento na formação profissional
na promessa de uma oportunidade de para cada necessidade apontada pela
trabalho, como se apenas esta formação indústria, entendendo a educação como
fosse responsável pelo caos econômico. elemento essencial para uma posição no
É preciso que o trabalhador se submeta mercado de trabalho.
ao capital, compreendendo sua própria A empregabilidade ganhou espaço
alienação como resultante de sua prá- e centralidade a partir dos anos de
tica pessoal “inadequada”, para o que
1990, sendo definida como o eixo fun-
contribuem os processos de persuasão
damental de um conjunto de políticas
e coerção constitutivos da hegemonia
capitalista. (KUENZER, 2005, p. 80). supostamente destinadas a diminuir
os riscos sociais do grande tormento
Transferir a responsabilidade do deste final de século: o desemprego.
Estado e das organizações para o ca- (GENTILI, 2005, p. 52).
ráter privado de cada trabalhador es-
Havia uma forte tendência a ca-
tabelece cada vez mais uma relação de
racterizar a empregabilidade como uma
dependência e mendicância para que ele
possibilidade de visualizar o futuro, na
consiga ser visto no “lugar” e na “hora”
perspectiva de “arranjar” um emprego e,
certa, na espera de uma “ajuda divina”
sobretudo, de se manter nele. A educa-
que chega para poucos. É uma corrida
ção passa, assim, a ser uma mercadoria
para chegar a lugar algum, em busca de
disponível para compra no mercado, vis-
não se sabe o quê.
to que cada vez mais o Estado se isenta
Uma bela palavra soa nova e parece da responsabilidade que é de seu dever e
prometida a um belo futuro: “empre- a competição e a individualização entre
gabilidade”, que se revela como um
parente bem próximo da flexibilidade, os indivíduos tornam-se elementos cada
e até como uma de suas formas. Trata- vez mais comuns na atual sociedade.
se para o assalariado, de estar dispo- Um incremento no capital humano
nível para todas as mudanças, todos
individual aumenta as condições de
os caprichos do destino, no caso, dos
empregabilidade do indivíduo, o que
empregadores. Ele deverá estar pronto
para trocar constantemente de traba- não significa, necessariamente, que,
lho (como se troca de camisa, diria a por aumentar suas condições de em-
ama Beppa). Mas, contra a certeza de pregabilidade, todo indivíduo terá seu
ser jogado “de um emprego a outro”, lugar garantido no mercado... Sim-
ele terá uma garantia razoável”, quer plesmente, porque no mercado não há
dizer, nenhuma garantia de encontrar lugar para todos. “Empregabilidade”
emprego diferente do anterior que foi não significa, então, para o discurso
perdido, mas que paga igual. (FOR- dominante, garantia de integração, se-
RESTER, 1997, p. 118).

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não melhores condições de competição so objetivo inicial é conhecer a educação
para sobreviver na luta pelos poucos nesta sociedade capitalista, trazemos
empregos disponíveis: alguns sobre- para a nossa leitura o entendimento do
viverão, outros não. (GENTILI, 2005, termo “empregabilidade” numa visão
p. 54). que podemos chamar de “neoliberal”.
Forma-se, assim, um grande pa- A empregabilidade é um conceito mais
radoxo, pois, ao mesmo tempo em que rico do que a simples busca ou mesmo
o mercado de trabalho exige cada vez a certeza de emprego. Ela é o conjunto
mais um trabalhador qualificado e a de competências que você comprova-
busca desta condição passa a ser discur- damente possui ou pode desenvolver
so de empresários e da comunicação de – dentro ou fora da empresa. É a condi-
massa, que não se cansa de divulgar a ção de se sentir vivo, capaz, produtivo.
falta de mão de obra qualificada, dimi- Ela diz respeito a você como indivíduo
nuem-se consideravelmente os postos e não mais a situação, boa ou ruim da
empresa – ou do país. É o oposto ao
de trabalho, reforçando o processo de
antigo sonho da relação vitalícia com a
exclusão e impotência da classe traba-
empresa. Hoje a única relação vitalícia
lhadora. Nesta perspectiva, deve ser o conteúdo do que você sabe
o indivíduo é um consumidor de conhe- e pode fazer. O melhor que uma em-
cimentos que o habilitam a uma compe- presa pode propor é o seguinte: vamos
tição produtiva e eficiente no mercado fazer este trabalho juntos e que ele
de trabalho. A possibilidade de obter seja bom para os dois enquanto dure;
uma inserção efetiva no mercado de- o rompimento pode se dar por motivos
pende da capacidade do indivíduo em alheios à nossa vontade. [...] (emprega-
“consumir” aqueles conhecimentos que bilidade) é como a segurança agora se
lhe garantam essa inserção. Assim, o chama. (MORAES, 1998, p. 53).
conceito de empregabilidade se afasta
Torna-se claro que as promessas
do direito à educação: na sua condição
transcendem a “dura realidade”. As
de consumidor o indivíduo deve ter a
liberdade de escolher as opções que estratégias de subordinação são utiliza-
melhor o capacitem a competir. (GEN- das de forma dominadora, enfatizando
TILI, 2005, p. 55). as desigualdades e, pior, há um proces-
so de “culpabilidade”, pelo quel a busca
Assim, o discurso da “sociedade do constante de qualificação e atualização
conhecimento” serve para quem? Ou não garante a proximidade do perfil de-
melhor, para quê?, uma vez que é pos- sejado. Surge, então, um novo nicho no
sível vasculhar no “setor” da educação mercado da educação, agora ensinando
e selecionar apenas o que interessa. ao indivíduo o que falar, o que pensar,
Novamente nos perguntamos: Interessa que seja muito próximo daquele que
para quem? Que conhecimento é este quer ouvir, melhor dizendo, dizer res-
sob medida? É possível fazer uma edu- postas que o outro espera ouvir.
cação com visão apenas do micro, sem Assim como a empregabilidade,
entendimento da totalidade, da esfera conceitos como revolução tecnológica,
social, da condição humana. Como nos-

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sociedade do conhecimento, qualidade sua função de trabalhador alienado, ao
total, em seus diferentes âmbitos, nada mesmo tempo em que assegure as con-
mais são do que fetiches usados nos dis- dições necessárias à sua própria repro-
cursos de ordem capitalista. dução. (KUENZER, 1989, p. 77-78).
É por questões como essas, de ca-
O papel dos processos educativos, mor-
mente a formação técnico-profissional,
ráter determinista e mecanicista, que a
qualificação e re-qualificação, neste educação é caracterizada como mais um
contexto, é de produzir cidadão que campo de disputa hegemônica, cujo pa-
não lutem por seus direitos e pela pel social é repleto de conflitos, contra-
desalienação do e no trabalho, mas ci- dições e antagonismos. De acordo com
dadão “participativos, não mais traba- Frigotto, na
lhadores, mas colaboradores e adeptos
perspectiva da classe dominantes, his-
ao consenso passivo e, na expressão
toricamente, a educação dos diferentes
de Antunes (1996:10), a tornarem-se grupos sociais dos trabalhadores deve
déspotas de si mesmos. (FRIGOTTO, dar-se a fim de habilitá-los técnica, so-
1998, p. 48). cial e ideologicamente para o trabalho.
A formação dos trabalhadores numa Trata-se de subordinar a função social
da educação de forma controlada para
perspectiva de desenvolver a liderança,
responder às demandas do capital.
polivalência, tornando-os flexíveis e
(1995, p. 26).
criativos, fica subordinada à lógica do
mercado, do capital, portanto, da degra- Portanto, a educação é entendida
dação, da segmentação e da exclusão. como uma condição regulada e subordi-
Reduz a educação ao atendimento às nada às necessidades do capital. Como
necessidades do mercado de trabalho e prática social, atividade humana e his-
à lógica empresarial. tórica, se reduz a processos educativos
A educação do trabalhador para o que visam doutrinar, domesticar, treinar
processo capitalista, para o trabalho homens aptos para o desenvolvimento
alienado, se dá, portanto, através de de suas tarefas laborais.
formas de organização e controle do tra-
De um lado, a ideologia da globaliza-
balho dividido, de estratégias adminis- ção e, de outro, a perspectiva mistifi-
trativas, tais como rotatividade interna, cadora da reestruturação produtiva
alargamento de tarefas e nível baixo de embasam, no campo educativo, a nova
participação nas decisões, treinamento vulgata da pedagogia das competên-
para a execução do trabalho, política sa- cias e a promessa de empregabilidade.
larial, política de benefícios, formas de Ao individualismo do credo neoliberal
supervisão, instruções de segurança e somam-se os argumentos fundados no
credo do pós-modernismo que realçam
saúde, e assim por diante. O seu objetivo
as diferenças (individuais) e a alteri-
central é a constituição de um trabalha- dade. Neste particular a diferença e
dor que combine a posse de um conjunto a diversidade, dimensões importantes
de habilidades técnicas necessárias – e da vida humana, mascaram a violên-
não mais do que isso – a um conjunto de cia social da desigualdade e afirmam
condutas convenientes, de modo a assu- o mais canibal individualismo. (FRI-
mir, o mais espontaneamente possível, GOTTO, 2005, p. 71).

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Nesse sentido, a visão desta edu- É nessa perspectiva que a educa-
cação sob os olhos dos “senhores de ne- ção deve se colocar, na condição e bus-
gócios” refuta a ideia de Frigotto, que ca de uma ideologia política, na qual o
contribui de forma significativa à nossa núcleo e a participação sejam de baixo
discussão ao afirmar: para cima, intervindo nas relações de
A qualificação humana diz respeito ao trabalho, de sociedade, contrapondo-se
desenvolvimento de condições físicas, às ideias pragmáticas e enganosas do
mentais, afetivas, estéticas e lúdicas modelo neoliberal.
do ser humano (condições omnilate- Hoje não se discute mais a educação
riais) capazes de ampliar a capacidade somente para o trabalho, mas a educa-
de trabalho na produção dos valores de ção integral do homem para o trabalho
uso em geral como condição de satisfa- e para a cidade. À medida que o conhe-
ção das múltiplas necessidades do ser cimento passa a ser o elemento-chave
humano no seu devenir histórico. Está, do novo paradigma produtivo, a trans-
pois, no plano dos direitos que não formação educacional torna-se um fa-
tor fundamental no desenvolvimento
podem ser mercantilizados e, quando
dos seus requisitos básicos: capacida-
isso ocorre, agride-se elementarmente
de inovadora, criatividade, integração
a própria condição humana. (FRIGOT- e solidariedade. Uma nova abordagem
TO, 1995, p. 31-32). para a educação traz implícita a ne-
O ponto de partida dessa qualifica- cessidade de uma nova organização
institucional, ou de uma reformulação
ção é o pressuposto de que o indivíduo é de papéis dos atores envolvidos no pro-
um agente ativo e não pode reagir meca- cesso da educação. (RIBEIRO, 2003,
nicamente às situações do seu entorno. p. 227).
A realidade não está pronta e acabada;
A ideia de uma educação para o tra-
é construída ou criada pelos sujeitos a
balho, na qual o aprender a fazer nada
partir de suas ideias, modelos, estrutu-
mais é do que fazer sempre, sem erros
ras que organizam o seu conhecimento
e repetitivamente, gerando produtivida-
desta realidade.
de, transcende para a possibilidade do
No âmbito da educação, o trabalho, na fazer diferente, de tornar o trabalhador
perspectiva marxista de categoria on- não apenas um apêndice da máquina,
tológica e econômica central, constitui- mas como alguém que estabeleça o diá-
se, ao mesmo tempo, num dos eixos
logo e participação em todas as esferas,
mais debatidos tanto para a crítica
seja de ordem familiar, seja comunitá-
da perspectiva economicista, instru-
mentalista e moralizante de educação ria ou escolar.
e qualificação, como na sinalização de Assim, educação, trabalho, socie-
que tipo de educação e de qualificação dade civil e capitalismo estão intrinse-
humana se articula às lutas e interes- camente ligados a um objetivo comum.
ses de classes populares. (FRIGOTTO, Não seria essa uma ideologia política
1995, p. 45). alienante, tendo como causa o apazigua-
mento de luta de classes.

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[...] A cidadania é mais do que receber é fato que essas práticas não apenas
uma educação moderna, é o direito fracassam nas questões sociais; há sé-
de desempenhar um papel ativo no rios comprometimentos econômicos,
mercado e no processo político e exige resultando em outra crise do modelo ca-
uma certa posição econômica e social, pitalista, sinalizando que mais um ciclo
que o Neoliberalismo e, por extensão,
chega ao fim.
a Globalização tornam impossível, já
Dessa forma, a educação é um dos
que a proposta para a transformação
da economia não se fez e não se faz com caminhos para a reconstrução daquilo
equidade. (RIBEIRO, 2003, p. 229). que se perdeu, ou melhor, talvez nun-
ca tenhamos a liberdade e a igualdade
Percebe-se, em grande escala, o dos cidadãos. Como, então, vivermos
descrédito da atividade político-partidá- melhor nesta sociedade que incentiva o
ria, visto que prevalecem os interesses individualismo, a perda da identidade,
particulares, os discursos em defesa de o enfraquecimento das classes e dos su-
si próprio, fatos infundados; estabele- jeitos? A negação do outro?
cem as CPIs, que se tornam matérias de
jornais e revistas, sem uma participação A educação é o resultado de um proces-
so complexo de relações conscientes e
efetiva da sociedade. Somos espectado-
inconscientes, espontâneas e provoca-
res de shows que não queremos, mas
das da pessoa com os outros, a comuni-
pagamos para assistir. dade, a sociedade, a natureza, o meio
Dessa forma, considerando a reali- ambiente, a cultura, os valores e os
dade posta, o exercício da cidadania, com contra-valores, o transcendente. Rela-
vistas à promoção e à participação efeti- ções estas que envolvem as dimensões
va de sujeitos, ainda é o caminho para a afetivas, cognitivas e comportamentais
superação das desigualdades, capaz de da pessoa em seu universo interior e
enfrentar os desmandos autoritários e exterior, produzindo, progressivamen-
políticos que vivenciamos todos os dias. te, sínteses existenciais que articulam
um certo sentido para a vida e uma
O desenvolvimento de uma nação não certa sensação de segurança e felicida-
se mede tão-somente pelas variáveis de, ou, dependendo de fatores adver-
comuns das estatísticas econômicas, sos, produzem sensação de fracasso.
mas principalmente pela existência de (RIBEIRO, 2003, p. 233).
um clima de liberdade e de igualdade
de oportunidades para todos os cida- É necessário um constante estra-
dãos e pela capacidade de atendimento nhamento daquilo que nos cerca, do que
às necessidades de alimentação, de está posto nos meios de comunicação,
trabalho, de saúde, de segurança, e nas propostas políticas, nas relações de
de educação de um povo. (RIBEIRO, trabalho, nos pacotes econômicos; é pre-
2003, p. 231). ciso estabelecer fatos e dados que nos
Prova disso é que, mesmo que as tornem mais políticos e “incômodos”. É
práticas neoliberais estejam arraiga- nas pequenas ações do dia a dia, na edu-
das de ilusões, considerando o mercado cação dos filhos, nas relações interpes-
financeiro como o “salvador do mundo”, soais, que selecionamos o que nos serve

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e o que nos é descartável, estabelecendo lhes corresponde, incluindo até as for-
valores e paradigmas que tornem nossa mas mais amplas que estas possam
vida mais humana e que nos deem a con- tomar... e ser dos homens é o seu pro-
dição de aprendermos a viver juntos. cesso de vida real. (MARX; ENGELS,
1989, p. 20).
Cada modelo de educação contém su-
jeito, objetivos, metodologias, conteúdo O conhecimento só tem um verda-
programático e avaliação próprios. A deiro significado quando é colocado na
vinculação destes tipos de educação prática, quando se percebe como algo
com a estrutural social vigente se dá ou importante, ligado às atividades diárias
no sentido de mantê-la, prestigiando do sujeito, fazendo parte das relações
as classes dominantes, o Neoliberalis- sociais, dentre as quais aquelas estabe-
mo e a Globalização, ou de transformá- lecidas no seu ambiente de trabalho.
la atendendo os interesses fundamen- Assim, é nas relações sociais, não
tais da cidadania e da própria Nação,
de forma isolada, que acontece a produ-
que se quer independente. (RIBEIRO,
ção do conhecimento, visto que o homem
2003, p. 234-235).
a cada interação, como condição de sua
Cabe, dessa forma, termos clare- existência, constrói a sua história. Con-
za dos pressupostos que permeiam a forme Kuenzer (1989), se o conhecimen-
nossa prática, se queremos continuar to é elaborado socialmente nas relações
doutrinando conforme os interesses dos sociais estabelecidas, o operário tam-
dominantes, ou nos engajarmos num bém o produz, mesmo nas condições de
movimento de resistência pelo que está trabalho que não favoreçam o pensar, o
posto. Essa não é uma tarefa fácil. É refletir, o planejar, pois todos os dias há
preciso ter vontade própria, vontade situações que precisam ser resolvidas.
política, renunciar aos interesses indivi-
Nesse processo, ele vai experimentan-
duais, em busca de um discurso coletivo
do, analisando, refletindo, indagando,
que desperte a análise e a discussão da discutindo, descobrindo; e desta forma
realidade, promovendo uma ação efetiva ele vai construindo um conjunto de ex-
e participativa de todos. Esse processo plicações para a sua própria ação, ao
só é possível quando se estabelece a prá- mesmo tempo que vai desenvolvendo
xis, numa relação dialética. ”O homem um conjunto de formas próprias de ¨fa-
só conhece a realidade à medida que ele zer¨. Esse processo extrapola o âmbito
cria a realidade humana e se comporta do próprio trabalho, a partir das exi-
antes de tudo como ser prático.” (KO- gências que a vida em sociedade deter-
SIK, 1976, p. 22). mina. Assim, articulado com o saber
Marx e Engels afirmam que sobre o trabalho, ele vai desenvolven-
do um saber social [...]. (KUENZER,
são os homens que produzem as suas 1989, p. 183).
representações, as suas idéias, mas os
homens reais, atuantes, e tais como Assim, é também no espaço do tra-
foram condicionados por um determi- balho que há a possibilidade de acon-
nado desenvolvimento das suas forças tecer diferentes processos educativos,
produtivas e do modo de relações que pois, conforme enfatiza Gramsci,

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não há nenhuma atividade da qual se tes, os valores, dotados da capacidade
possa excluir qualquer intervenção in- de propiciar-nos meios de orientação,
telectual – o Homo faber não pode ser de comunicação e participação. (AR-
separado do Homo sapiens. Além dis- ROYO, 1998, p. 143-144).
so, fora do trabalho, todo homem de-
Os olhares de como fazer educação
senvolve alguma atividade intelectual;
ele é, em outras palavras, um “filóso- se modificam; incorporam-se os saberes
fo”, um artista, um homem com sensi- escolares, sociais, trajetórias pessoais,
bilidade; ele partilha uma concepção experiências profissionais, suscitando
do mundo, em uma linha consciente não apenas os programas prontos e defi-
de conduta moral, e portanto contribui nitivos, mas, sim, as diversas dimensões
para manter ou mudar a concepção do da formação humana.
mundo, isto é, para estimular novas
formas de pensamento. (GRAMSCI,
1957, p. 121). For the education market x the
É reconhecendo o significado de world of work: dilemmas and
suas ações, num processo de buscar ex- contradictions
plicações, estabelecer relações e, simul-
taneamente, trabalhar e aprender que Abstract
acontece a educação que se espera. Para
isso, este aprender não é aquele pauta- This article was designed to ana-
do nas intenções da classe dominante, lyze education in capitalist society
do capital, mas aquele que “empodera”, and the interactions between the sce-
que move e promove a mudança. narios for the market and the world of
work by the contradictions of histori-
[...] o que diferencia a pedagogia mo- cal changes in the field of manage-
derna é ser “humanista” ou estar a ment in business organizations and
serviço de um projeto-processo de auto- their interfaces with the worker. Edu-
construção como humanos e não estar cational processes have been modified
a serviço de um projeto pré-definido de in each production model, the care re-
fora. Educar nada mais é do que huma- quirements of enterprises, resulting
nizar, caminhar para a emancipação, a in an investment that brings a higher
autonomia responsável, a subjetivida- level of productivity and consequent-
de moral, ética. Nosso objeto tem sido ly more profit. Education influenced
as relações entre trabalho-educação- by capitalist society, technology and
humanização-emancipação. Nesses communication has moved from the
processos mais globais encontra maior social to the individual, the term em-
relevância nosso ofício de mestres: de- ployability strengthens the require-
mocratizar o saber, a cultura e o conhe- ment to enter and remain in the labor
cimento, conduzir a criança, jovem ou market, education is now seen as a
adulto a aprender o significado social e product, service, character merchan-
cultura dos símbolos construídos, tais dising. Recognize that the scope of
como as palavras, as ciências, as ar- work happen different educational

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