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Ilmo. Sr.

Presidente da Comissão Processante instituída pela Portaria de


número 1208/2018.

Servidor: Joel da Rocha, brasileiro, casado ocupante do cargo de Guarda


Patrimonial, matricula nº 18.768.

JOEL DA ROCHA, já qualificado anteriormente, vem por meio desta apresentar


DEFESA, vem, à presença de Vossa Excelência, apresentar CONTESTAÇÃO
aos fatos alegados na inicial, aduzindo os motivos de fato e de direito que
seguem:

SÍNTESE DA EXORDIAL

Informa à autora que o requerido em uma conversa telefônica com o servidor


Adão Wilson dos Santos, aduz que foi supostamente gravada por este e
compartilhada em diversos grupos de Whatsapp, incita o companheiro de
trabalho à pratica de insubordinação, induzindo-o a não respeitar os
Supervisores e Inspetores, e que durante a gravação o mesmo atribuíra fatos
desrespeitosos contra alguns integrantes da Guarda Patrimonial.

DA REALIDADE DOS FATOS

Cumpre esclarecer que foi uma conversa informal entre os dois em momento
de sua folga por volta das 22:00min.

Que desconhece quem tenha repassado esta gravação no grupo de Whatsapp.

Que é servidor há 20 anos e que sempre cumpre com os seus deveres como
Guarda Patrimonial, o mesmo tendo sua nota recém-avaliada acima de 9,8.

Que é um “desabafo” que o depoente faz questão de registrar e que justificaria


a sua conversa, diz respeito às precárias condições de trabalho e a troca de
local de serviço de seu colega.

Assim, não há elementos para imputar culpa ao requerido, o que resulta na


improcedência dos pedidos vindicados pela autora.
DO DIREITO

Quando se fala em reparação de danos é necessário que haja um ato ilícito a


ser reputado ao agente causador deste, para que então se desencadeie a
obrigação de indenizar por tais danos.

A explicação do que é ato ilícito pode ser encontrada no Código Civil em seu
artigo 186, senão vejamos:

Art. 186. Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou


imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Na responsabilidade civil, o centro de exame é o ato ilícito. O dever de


indenizar vai repousar justamente no exame da transgressão ao dever de
conduta que constitui o ato ilícito.

Com isso, constata-se que não houve qualquer prática de ato por parte do
requerido que pudesse caracterizar como ato ilícito, considerando que, como
dito alhures, o mesmo simplesmente teve uma conversa calorosa.

A conduta do agente para acarretar responsabilidade civil deve


comprovadamente causar dano ou prejuízo à vítima. Sem o dano não há que
se falar em responsabilidade civil, pois sem ele não há o que reparar.

Maria helena Diniz (2003, pag. 112) conceitua dano como a “lesão (diminuição
ou destruição) que, devido a certo evento, sofre uma pessoa, contra sua
vontade, em vontade, em qualquer bem ou interesse jurídico, patrimonial ou
moral.”

A Constituição Federal assegura no caput do artigo 5º e inciso X o direito a


reparação do dano, seja ele moral ou material:

“Art. 5º todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito á vida, à igualdade, à segurança e a propriedade, nos
termos seguintes:
[...]

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das


pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral
decorrente de sua violação;”

Sendo assim, o dano é o prejuízo resultante da lesão a um bem ou direito. É a


perda ou redução do patrimônio material ou moral do lesado em decorrência da
conduta do agente, gerando para o lesado o direito de ser ressarcido para que
haja o retorno de sua situação ao estado em que se encontrava antes do dano
ou para que seja compensado caso não exista possibilidade de reparação.

Em tese a conversa de ambos aconteceram fora do horário de trabalho dos


servidores e, em razão disso, não cabe à Administração Pública investigar, por
meio de Procedimento Administrativo Disciplinar, situações ocorridas “na vida
privada do servidor” o que, segundo se entende, estaria violando o art. 148, da
Lei n° 8.112/1990, que discorre apenas sobre a apuração de responsabilidade
do servidor praticada no exercício das suas atribuições.

Sabidamente, quem objetiva preservar uma informação, especialmente quando


imbuída de conceitos pessoais sobre determinados fatos ou pessoas, não é a
Internet o local mais adequado.

O WhatsApp, ferramenta utilizada supostamente pelo requerido, somente a


título de ilustração, alcançou em fevereiro, desse ano, mais de 1 bilhão de
usuários. Assim, quem faz uso de tais ferramentas virtuais, logicamente,
assume o risco de que as informações, uma vez compartilhadas, saem do seu
controle, desnaturando-se quanto ao conceito de privadas.

FUNDAMENTAÇÃO

Consta dos autos que foi determinada a instauração de Processo


Administrativo Disciplinar Portaria n° 1208/2018 – GAB de 12/07/2018, em face
do servidor Guarda Patrimonial Joel da Rocha, por se entender presentes
indícios da prática de transgressões disciplinares previstas no Decreto
Municipal n° 7421/2007, e consubstancialmente com a Lei Municipal
n°2.215/1991, tendo em vista diálogo virtual mantido numa gravação telefônica
divulgada na ferramenta virtual de relacionamento Whatsapp, em que teria
ofendido a alguns superiores hierárquicos.

Apesar da autonomia conferida aos Municípios pela Constituição Federal para


a regulamentação do regime jurídico aplicável aos seus servidores, os
princípios constitucionais da impessoalidade, imparcialidade e moralidade do
administrador no exercício de suas atividades, devem ser observados e
análogos aos seus regimes e vice-versa.

A Lei nº 8112/90, que dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos
civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais, define e
delimita o objeto do processo disciplinar, especificando que se destina à
apuração da responsabilidade do servidor por infração praticada no
exercício de suas atribuições, ou que tenha relação com as atribuições do
cargo em que se encontre investido, ex vi: Art. 148. O processo disciplinar é
o instrumento destinado a apurar responsabilidade de servidor por infração
praticada no exercício de suas atribuições, ou que tenha relação com as
atribuições do cargo em que se encontre investido.

Denota-se que somente o exercício irregular das atividades funcionais do


servidor público, que desencadeie em descumprimento a deveres ou
inobservância a proibições, devidamente comprovados ou que existam fortes
indícios dessas infrações é que deverão ser apurados.

Essencial, portanto, que exista o nexo causal entre a função


exercida/atribuições do cargo com a suposta infração praticada. Sobre a
questão, oportunas as citações de Mauro Roberto Gomes de Mattos, em sua
obra Lei nº 8.112/90 Interpretada e Comentada, Ed. América Jurídica, p.
778/779:

Com maestria, J. Guimarães Menegale já advertia em 1962: 'O uso do poder


disciplinar não é arbitrário, não o faz a autoridade quando lhe aprouver, nem
como preferir (...) Necessária é, para a aplicação do poder disciplinar, a
ocorrência de 'irregularidade no serviço', quer dizer, explicitamente 'falta aos
deveres da função' e não, portanto, mera insuficiência profissional
genérica.'(MENEGALE, J. Guimarães. O estatuto dos funcionários. Forense,
1962, p. 637.v.II) (...) Somente o exercício irregular das atividades funcionais é
que possibilitam a instauração do processo administrativo disciplinar: 'Com
efeito, pelo exercício irregular de suas atividades funcionais, descumprimento
dos deveres e inobservância às proibições, o servidor responde administrativa,
penal e civilmente. A responsabilidade administrativa decorre da prática pelo
servidor de atos comissivos ou omissivos, considerados irregulares no
desempenho do cargo ou função' (BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Processo
administrativo disciplinar. Max Limmonad, 2003, p. 79.)

No caso, não se vislumbra que os fatos imputados ao requerido tenham sido


praticados no exercício de suas atribuições, tendo em vista que se trata de
diálogo ocorrido em seu horário de folga de seu trabalho. Embora o diálogo
tenha sido mantido entre dois colegas de trabalho, não estavam os dois, nessa
situação, no exercício de suas atribuições, ou seja, o fato não se amolda à
previsão legal relativa à ofensa a autoridade ou superior hierárquico. Também
não se pode dizer que tenha relação com as atribuições do cargo em que o
requerido está investido (Guarda Patrimonial), consoante descrito no Decreto
Nº 7.421/ 2007, no bem como executar outras tarefas que lhe forem atribuídas.

Trata-se de diálogo mantido em uma conversa telefônica, gravada sem o


consentimento do requerido sendo que, se acaso o requerido empregou
expressões injuriosas que ofenderam a alguns superiores hierárquicos, ou
mesmo a Própria classe da Guarda Patrimonial, o meio processual adequado
para reparação de eventual dano moral é ação de indenização, mas como
visto, não configura indício da prática de transgressão disciplinar, justamente
porque o fato não está vinculado ao exercício das funções do servidor ou
sequer tem relação com as atribuições do cargo que ocupa. Trata-se da
inobstante de que o grupo virtual não está vinculado oficialmente a Prefeitura
Municipal de Cascavel, todos os seus integrantes seriam servidores e amigos e
que e os assuntos tratados no âmbito daquele grupo restringiam-se
exclusivamente ao funcionamento interno da Corporação, e não a assuntos da
vida privada dos seus membros. No entanto, como visto, não há como se
estabelecer o nexo causal entre a função exercida/atribuições do cargo do
requerente com a suposta infração praticada, apenas porque o grupo virtual era
formado por servidores da Guarda Patrimonial que debatiam assuntos, entre
outros, relacionados à Corporação, em rede social desvinculada do serviço
público. Pondere-se que o Supremo Tribunal Federal, por ocasião do
julgamento da ADPF nº 130, asseverou que a liberdade de expressão está a
salvo de qualquer restrição em seu exercício, seja qual for o suporte físico ou
tecnológico de sua veiculação, assegurando-se, nos casos em que a livre
manifestação do pensamento viole direito de terceiro, posterior indenização
pelos danos acarretados.

No decorrente quanto à instaurada sindicância, através da Portaria 1208/2018,


para apuração de fato caracterizada como fatos desrespeitosos acometidos
contra alguns integrantes da Guarda Patrimonial. Argumenta que o processo
administrativo está eivado de irregularidades e ilegalidades, já que a Comissão
Processante foi composta por servidores não estáveis, em estágio probatório.

Conforme o Estatuto do Servidor de Cascavel, o mesmo não exige que os


servidores que integram a comissão processante sejam "estáveis"; mas
conforme o Dr. Christiano Leornado Gonzaga Gomes, a comissão processante
deve ser constituída por servidores estáveis, sendo assim esta estaria violando
o princípio administrativo da hierarquia, imparcialidade e independência da
comissão processante".

A composição da comissão processante por servidores não estáveis também


contraria a lei, a jurisprudência e a doutrina, levando a ferir a imparcialidade
dos mesmos e a conferir o direito à anulação de todo o processo
administrativo.

Dispõe o Estatuto dos Servidores do Município de Cascavel:

"Art. 226 - O processo administrativo será instaurado pelo Prefeito Municipal,


mediante Portaria, em que se especifique o seu objeto e designem as
autoridades processantes.

§ 1º O processo administrativo será realizado por uma comissão composta de


03 (três) membros, servidores públicos municipais, na forma do Artigo anterior,
escolhidos, sempre que possível, dentro da categoria hierárquica igual ou
superior ao indiciado. No ato da designação, será indicado qual dos membros
exercerá as funções de Presidente”.

Por sua vez, o artigo 149 da Lei nº. 8.112/90 determina que o "processo
disciplinar será conduzido por comissão composta de três servidores estáveis
designados pela autoridade competente".

Apesar da autonomia conferida aos Municípios pela Constituição Federal para


a regulamentação do regime jurídico aplicável aos seus servidores, os
princípios constitucionais da impessoalidade, imparcialidade e moralidade do
administrador no exercício de suas atividades, devem ser observados.

A intenção do legislador ao editar o artigo 149 da Lei 8.112/90, foi resguardar o


princípio da imparcialidade e moralidade no julgamento administrativo, uma vez
que o servidor estável, membro de comissão disciplinar, não se intimidará com
a hipótese de pressão dos seus superiores em razão da ausência do receio de
perda do emprego público.

Assim, embora a legislação municipal não exija explicitamente que a Comissão


seja composta por servidor estável, é verdade que o art. 226 do Estatuto dos
Servidores de Cascavel, não se conforma, neste aspecto, com os princípios
informadores do processo administrativo estabelecido na lei nacional e na
própria Constituição Federal.

Desta forma, é nulo o processo administrativo conduzido por comissão


processante de servidores não estáveis, por violar os princípios da
imparcialidade, impessoalidade e moralidade.

Nesse sentido, este também é o entendimento deste egrégio Tribunal, in


verbis:

EMENTA: PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR - FALSIDADE DE


DOCUMENTO - PENA DE DEMISSÃO - COMISSÃO PROCESSANTE -
COMPOSIÇÃO - MEMBROS SEM ESTABILIDADE - IMPOSSIBILIDADE. - O
direito processual administrativo impõe determinadas condições aos membros
de comissão processante com o objetivo de garantir a total isenção no
julgamento. - Uma das condições impostas para a legitimidade da comissão
administrativa processante é todos os seus membros sejam servidores
estáveis, haja vista que a estabilidade põe a cavaleiro o servidor de demissão
""ad nutum"".

(APELAÇÃO CÍVEL / REEXAME NECESSÁRIO Nº 1.0702.06.307441-4/002 -


COMARCA DE UBERLÂNDIA - REMETENTE: JD 2 V FAZ PUBL
AUTARQUIAS COMARCA UBERLÂNDIA - APELANTE (S): MÁRCIA
ARANTES OSÓRIO - APELADO (A)(S): MUNICÍPIO UBERLANDIA -
RELATOR: EXMO. SR. DES. BELIZÁRIO DE LACERDA). EMENTA: AÇÃO
ORDINÁRIA - PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO - COMISSÃO
PROCESSANTE - MEMBROS - EFETIVIDADE - REQUISITO - GARANTIA DA
IMPARCIALIDADE E INDEPENDÊNCIA DA DECISÃO. - A comissão
processante deve ser composta por servidores públicos estáveis, para que se
garanta a imparcialidade e a independência das decisões adotadas nos
procedimentos administrativos disciplinares, preservando-se, em última
instância, o devido processo legal e a solução justa no caso concreto. - Ainda
que não haja previsão expressa, na norma municipal, para que a comissão
processante seja composta por servidores estáveis, deve-se proceder à sua
interpretação em consonância com os artigos 221 da Lei Estadual n. 869/52 e
149 da Lei Federal n. 8112, visto que a mens legis que inspirou o legislador
quando da elaboração de tais leis visava garantir a correção, imparcialidade e
justiça das decisões adotadas em âmbito administrativo. (APELAÇÃO CÍVEL /
REEXAME NECESSÁRIO Nº 1.0702.07.379068-6/001 - COMARCA DE
UBERLÂNDIA - APELANTE (S): MUNICÍPIO UBERLANDIA - APELADO
(A)(S): IGLAUCIA MARTINS NASCIMENTO - RELATOR: EXMO. SR. DES.
DÁRCIO LOPARDI MENDES).

EMENTA: REEXAME NECESSÁRIO. AÇÃO ANULATÓRIA DE ATO


ADMINISTRATIVO. PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. PENA DE
DEMISSÃO. COMISSÃO PROCESSANTE. COMPOSIÇÃO. SERVIDORES
NÃO EFETIVOS. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTE DESTE EGR.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA. CONFIRMAR A SENTENÇA. 1. Consoante
orientação jurisprudencial e doutrinária "o processo disciplinar deve ser
instaurado por portaria da autoridade competente na qual se descrevem os
atos ou fatos a apurar e se indiquem as infrações a serem punidas,
designando-se desde logo a comissão processante, a ser presidida pelo
integrante mais categorizado. A comissão - especial ou permanente - há que
ser constituída por funcionário efetivo, de categoria igual ou superior à do
acusado, para que não se quebre o princípio hierárquico, que é o sustentáculo
dessa espécie de processo administrativo". 2. Confirma-se a sentença,
prejudicado o recurso voluntário.

APELAÇÃO CÍVEL / REEXAME NECESSÁRIO Nº 1.0702.05.217298-9/002 -


COMARCA DE UBERLÂNDIA - REMETENTE: JD 1 V FAZ PUBL
AUTARQUIAS COMARCA UBERLÂNDIA - APELANTE (S): MUNICÍPIO
UBERLANDIA - APELADO (A)(S): MARCELO BRAGA DE OLIVEIRA -
RELATOR: EXMO. SR. DES. CÉLIO CÉSAR PADUANI

DOS REQUERIMENTOS FINAIS

Diante do exposto requer:

a) Que o presente demanda seja julgado TOTALMENTE IMPROCEDENTE,


absolvendo o requerido;

b) Protesta o requerido por todos os meios legais e legítimos para comprovar a


veracidade de suas alegações, notadamente depoimento pessoal, juntada de
documentos novos e oitiva de testemunhas, em consonância com o art. 369 do
CPC.

Cascavel, 12 de Setembro de 2018.

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JOEL DA ROCHA – Matrícula 12.215-7