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COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS.

Resistência a tração de fundações reaterradas com aterro


cimentado: Influência do grau de cimentação e variação
geométrica
Cesar Alberto Ruver, M.Sc.
Doutorando da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, Brasil,
cesar@ufrgs.br

Fernando Schnaid, D.Phil.


Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, Brasil,
fernando@ufrgs.br

Nilo Cesar Consoli, Ph.D.


Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, Brasil,
consoli@ufrgs.br

RESUMO: Neste trabalho são apresentados os principais aspectos e conclusões de um estudo


dirigido para avaliar o desempenho de fundações submetidas a esforços de tração, quando do
tratamento do solo reaterrado com cimento. No presente estudo foi avaliada a influência do grau de
cimentação (teor de cimento) da camada de reaterro na resistência à tração, além da influência da
variação geométrica da fundação e do reaterro (diâmetro, profundidade, embutimento da fundação e
diâmetro da camada estabilizada). O estudo foi realizado com base em análises numéricas feitas a
partir do método de elementos finitos. Inicialmente foi feita uma retro análise para a definição do
modelo que melhor representasse os resultados de ensaios realizados em centrifuga, e em seguida
partiu-se para as simulações considerando a variação dos parâmetros acima referidos. A partir do
tratamento dos dados, verificou-se que o aumento do grau de cimentação da camada de reaterro e
do embutimento da fundação aumentam a resistência à tração. Já o diâmetro da camada cimentada
proporciona aumento na tensão de ruptura à tração até uma relação do diâmetro da fundação pelo
diâmetro da camada cimentada que varia entre 4,0 e 6,0, dependendo do grau de cimentação e do
embutimento, sendo que acima desta relação à tensão de ruptura à tração não varia.

PALAVRAS-CHAVE: Fundações, Resistência à Tração, Reaterro Cimentado.

1 INTRODUÇÃO (Fox, 1948 apud Rowe e Booker, 1981). Por


volta dos anos 1960 iniciaram os primeiros
As fundações submetidas aos efeitos de tração trabalhos experimentais com fundações
são principalmente utilizadas em torres de tracionadas (Balla, 1961 apud Rowe e Davis,
transmissão de energia elétrica e 1982a; Davis, 1982b; Ilamparuthi e
telecomunicações (telefone, radio e televisão), Muthukrishnaiah, 1999). A partir dos anos 1980
estruturas portuárias (ancoragem de começaram a ser publicados diversos trabalhos
embarcações) e marinhas (plataforma de teóricos levando em consideração a
extração de petróleo), além de pontes estaiadas, heterogeneidade do solo e o comportamento
ancoragens em muros de arrimo (tirantes), não elástico (ex.: Rowe e Booker, 1981; Tagaya
caixas d´água, entre outras estruturas. et al, 1983; Ghaly e Hanna, 1994; Rao e Kumar,
Os primeiros registros de publicação de 1994). A partir de então, se intensificaram os
trabalhos teóricos envolvendo tração de ensaios de campo (modelos em verdadeira
fundações datam da década de 1940, sendo o grandeza) e de centrifuga (protótipos) tanto
solo era considerado homogêneo e elástico para areia (ex.: Andreadis et al, 1981; Rowe e

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Davis, 1982a; Murray e Geddes, 1987; Tagaya Bhattacharya et al, 2008) e inserção de estacas
et al, 1988; Ilamparuthi e Muthukrishnaiah, (ex.: Sawwaf e Nazir, 2006). Rattley et al
1999; Dickin e Laman, 2007; Sakai e Tanaka, (2007) e Consoli et al (2007) publicaram
2007), argilas (ex.: Rowe e Booker, 1981; trabalhos pioneiros com resultados de ensaios
Rowe e Davis, 1982b; Dyvik et al, 1993; de arrancamento, realizados em centrífuga, de
Andersen et al, 1993; Merifield et al, 2001; fundações reaterradas com areia cimentada e
Goss e griffiths, 2001; Garcia et al, 2008) ou não cimentada. Os resultados obtidos pelos
camadas de areia e/ou argila ou mistura de autores mostram que uma adição de até 5% de
ambos (Ex.: Stewart, 1985; Trautmann e cimento gerou ganhos de resistência da ordem
Kulhawy, 1988; Bouazza e Finlay, 1990; de até 5 vezes, quando comparado aos
Pacheco et al, 2008; Abreu, 2008). Também a resultados do solo sem cimentação.
partir dos anos 80, diversos autores começaram Desta forma, neste trabalho é proposto o
a utilizar o método de elementos finitos para estudo numérico do comportamento de
simular o comportamento tensão-deformação fundações tracionadas reaterradas com areia
para fundações tracionadas (ex.: Rowe e Davis, cimentada, levando em consideração não
1982a; Rowe e Davis, 1982b; Tagaya et al, somente o teor de cimento, mas também a
1983; Andersen et al, 1993; Dickin e King, influência geométrica como, tamanho da
1997, Brich e Dickin, 1998; Ilamparuthi e fundação, relação de embutimento e a relação
Dickin, 2000; Merifield et al, 2001; Thorne et do tamanho da cava e o tamanho da fundação.
al, 2004; Merfield et al, 2006; Dickin e Laman,
2007; Sakai e Tanaka, 2007).
Os trabalhos acima citados levavam em 2 RETRO ANÁLISE
consideração os efeitos geométricos
(tamanho/forma/tipo das fundações e a relação O ponto de partida da modelagem numérica foi
de embutimento) e as propriedades geotécnicas a retro análise a partir dos trabalhos de Rattley
dos solos envolvidos, como coesão e ângulo de et al (2007) e Consoli et al (2007). Os autores
atrito, além do grau de compactação, teor de realizaram ensaios de arrancamento em
umidade e granulometria. Diversos trabalhos centrífuga em modelo reduzido (placas
também discutiram o mecanismo de ruptura, quadradas de alumínio com lado de 30 mm e
dividindo as fundações tracionadas em rasas espessura de 5 mm). Na execução dos ensaios,
(“shallow foundations”) e profundas (“deep primeiramente era preparada a câmara com
foundations”), sendo que nas primeiras a argila, após era feita a escavação da argila
ruptura atinge a superfície dos solos e nas (caulinita) no formato de tronco de cone
segundas ocorre a ruptura local, sem haver invertido. Em seguida as placa eram assentes
propagação até a superfície. numa profundidade de 45 mm – embutimento
Um dos maiores desafios da engenharia ( H / D ) de 1,5. O reaterro foi feito com areia
geotécnica tem sido contornar os problemas da não cimentada e cimentada nos teores de 1%,
baixa capacidade de carga de alguns solos. No 3% e 5% de cimento. Os ensaios foram
caso das fundações submetidas à tração as realizados sob uma aceleração de 50 vezes a
principais técnicas de contornar estes problemas aceleração da gravidade.
têm sido o tratamento da camada de reaterro. Para a modelagem numérica foram adotadas
Muitos autores como, Stewart (1985), Bouazza as mesmas características geotécnicas ( c' , φ ' ,
e Finlay (1990), propuseram a substiuição do E ' e G0 ) dos materiais empregados nos ensaios
material de reaterro, por material diferente do
dos autores (ver Tabela 1 as características do
escavado por outro com características
material de reaterro) e tipo de fundação. Quanto
melhores, por exemplo, a substituição da argila
as dimensões geométricas, utilizou-se a
por areia. Posteriormente surgiram trabalhos
proporcionalidade de 50 vezes as dimensões
técnicos que sugerem o reforço das fundações
dos ensaios de centrífuga de modo melhor a
com geossintético (ex.: Ilamparuthi e Dickin,
simular as condições de campo (aceleração da
2001a; Ilamparuthi e Dickin, 2001b;
gravidade - g ). Considerando que foi utilizado

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um modelo assimétrico, para as simulações


foram consideradas fundações circulares
(diâmetro de 1,7 m) de mesma área que a
quadrada. Ainda, foi considerado um vão
abaixo da fundação, bem como uma camada de
baixa resistência na interface argila-areia
cimentada.

Tabela 1. Resultados dos ensaios de laboratório


realizados por Rattley et al (2007) e Consoli et al (2007)
Teor de RCS
φ' c' G0 * E ' **
Cimento (kPa) (kPa) (MPa) (MPa)
0% 0 34,70 0 50 1,67
1% 25 35,30 17,7 249 8,30
3% 87 39,80 28,2 566 18,67
5% 365 41,50 57,4 973 32,43
* para uma tensão efetiva média de 20kPa, ** E ' = G0 / 30

Para as simulações numéricas foi utilizado o Figura 1. Malha de elementos finitos utilizada na retro
análise
Software Abaqus. Para a areia não cimentada e
cimentada foi utilizado o modelo elástico-
A Figura 2 mostra os resultados da retro
plástico com critério de ruptura de Ducker-
análise a partir do modelo de elementos finitos.
Prager, para a argila ( E ' = 20 MPa) e a
Em termos de tensão de ruptura, os resultados
fundação em aço ( E´ =2.100 MPa) foi utilizado
dos ensaios e a análise numérica, apresentaram
o modelo elástico linear, e para a interface foi
uma diferença entre -3,25% e 0,91%, o que do
considerado o modelo elasto-perfeitamente
ponto de vista geotécnico representa uma ótima
plástico com o módulo de elasticidade da
aproximação.
interface ( Ei' ) em função do módulo de
Ensaio - 1% cim Ensaio - 0% cim
elasticidade da areia cimentada ( E ' ) - 300
Ensaio - 3% cim
FEM - 0% cim
Ensaio - 5% cim
FEM - 1% cim
Ei = 0,0002 ∗ E '2 −0,0023 ∗ E '+0,1072 , e a FEM - 3% cim FEM - 5% cim

250
tensão de ruptura da interface ( τ i ) em função
Tensão de Arrancamento (kPa)

da coesão da areia cimentada ( c' ) - 200

τ i = 4,2834 ∗ Ln(c' ) − 8,8068 . A Figura 1


150
mostra a malha de elementos finitos adotada na
retro análise. 100
Quanto às condições de contorno, foi
considerado um deslocamento vertical nulo na 50
face inferior da malha e deslocamento
horizontal nulo nas faces laterais esquerda e 0
0,0% 1,0% 2,0% 3,0% 4,0% 5,0%
direita. Para não ocorrer influência do tamanho
Deformação
do modelo (malha), o mesmo foi expandido em
10 vezes o diâmetro da placa. Foi aplicado um Figura 2. Comparação entre os resultados dos ensaios
executados na centrífuga realizados por Rattley et al
deslocamento vertical da ordem de 5% do (2007) e Consoli et al (2007) e as análises numéricas por
diâmetro da placa na face inferior da mesma, elementos finitos (FEM) realizados neste trabalho.
dividido em 200 incrementos. Verificou-se que
incrementos maiores e menores não alteraram
os resultados, sendo o valor incremental
adotado satisfatório também em termos de 3 ANÁLISE NUMÉRICA
tempo de processamento da CPU.

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Uma vez definido e ajustado o modelo, partiu-


se para as análises numéricas por elementos A Figura 4 mostra um exemplo da análise
finitos do presente trabalho. Nos trabalhos de numérica feita considerando a configuração de
Rattley et al (2007) e Consoli et al (2007), foi H / D = 1,0 , D = 1,5m e um teor de cimento de
estudado a influência da cimentação (diferentes 5%, variando somente a relação do diâmetro da
teores de cimento) na resistência a tração. Os cava pelo diâmetro da fundação ( Dcava / D ).
autores se restringiram a uma geometria, sem se
Como pode ser visto na Figura 4, quanto maior
ater, por exemplo, aos diferentes diâmetros da
o valor de Dcava maior o valor da tensão de
placa e embutimentos.
Para o estudo numérico foram definidos três arrancamento para provocar um mesmo
diâmetros distintos ( D ) – 0,5m, 1,0m e 1,5m; e deslocamento relativo vertical ( ω / D ) da
diferentes profundidades de assentamento ( H ) fundação. Este aumento da tensão de
para configurar três diferentes embutimentos arrancamento ocorre até uma determinada
( H / D ) – 0,5, 1,0 e 2,0. Levando em relação de diâmetro da cava ( Dcava ), quando
consideração as dificuldades de execução e então passa a ter um valor praticamente
controle das fundações em campo no formato constante. No caso da Figura 4, as curvas de
de tronco de cone, foi definido para estas tensão se sobrepõem para uma relação de
análises, a escavação - e posterior aterro Dcava / D igual ou maior 10,0, sendo as curvas
cimentado - na forma de cava cilíndrica. Assim, de tensão de arrancamento pelo deslocamento
foi feita a análise numérica para diferentes vertical relativo são as mesmas para as relações
diâmetros de cava e reaterro ( Dcava ), de modo a de Dcava / D de 20,0 e infinito.
se obter as relações de diâmetro da cava e Dcava/D=1,0
diâmetro da fundação ( Dcava / D ) de 1,0; 2,0; 250 Dcava/D=2,0
Dcava/D=3,0
Dcava/D=4,0
3,0; 4,0; 5,0; 6,0; 10,0, 20,0 e infinito. A Figura Dcava/D=5,0
Tensão de Arrancamento (kPa)

200 Dcava/D=6,0
3 apresenta a geometria básica do modelo Dcava/D=10,0
Dcava/D=20,0
adotado no presente trabalho. Dcava/D=infinito
150

100

50

-
0,0% 0,5% 1,0% 1,5% 2,0%
Deslocamento Vertical Relativo (ω /D )

Figura 4. Curvas de tensão de arrancamento pelo


deslocamento vertical relativo para uma mesma
configuração geométrica ( D = 1,5m e H / D = 1,0) e
Figura 3. Geometria básica do modelo definido para o para um teor de 5% de cimento
presente trabalho
A Figura 5 mostra a tensão de ruptura à
As características geotécnicas utilizadas na tração (para uma deformação de 1,5% de D ,
presente análise numérica foram as mesmas definido por Rattley et al, 2007 e Consoli et al,
utilizadas para a retro análise. Desta forma, 2007) pela relação de Dcava / D . Através da
criados os modelos e definidas as malhas de Figura 5, nota-se que a partir de uma
elementos finitos, foram feitas as análises determinada relação de Dcava / D não ocorre
considerando as mesmas variantes da retro
análise (condições de contorno, deformações mais variação (aumento) da tensão de ruptura à
controladas, número de incrementos, etc.). tração, permanecendo praticamente constante.
4 RESULTADOS A tensão de ruptura à tração depende do
embutimento e do nível de cimentação (ver
4.1 Influência do Diâmetro da Cava (Reaterro) Tabela 2), sendo que a máxima ocorre entre as

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relações de Dcava / D =4,0 (exemplo: H/D=0,5 e vermelho e menor que 1% em amarelo) para diferentes
teores de cimento, Dcava / D e embutimento, mantido o
1,0% de cimento) e 6,0 (exemplo: H/D=2,0 e
5,0% de cimento), levando em consideração diâmetro de 1,5 m da fundação
5% de Cimento
uma diferença máxima de 5% em relação a Dcava/D
3 4 5 6 10 20
tensão de ruptura em Dcava / D infinita. H/D

0,5 13,8% 7,5% , 22% 0,8% 0,0% 0,0%


450 1,0 40,2% 9,9% 6,6% 4,3% 0,3% 0,0%
H/D=0,5 - 1% cim H/D=1,0 - 1% cim
400
H/D=2,0 - 1% cim H/D=0,5 - 3% cim
2,0 58,6% 33,8% 8,9% 3,5% 1,2% 0,1%
H/D=1,0 - 3% cim H/D=2,0 - 3% cim 3% de Cimento
Tensão de Arrancamento (kPa)

350
H/D=0,5 - 5% cim H/D=1,0 - 5% cim
Dcava/D
300 H/D=2,0 - 5% cim H/D 3 4 5 6 10 20
250 0,5 9,1% 5,3% 3,5% 2,0% 0,0% 0,0%
200 1,0 29,6% 3,8% 3,0% 2,6% 1,4% 0,0%
150
2,0 54,8% 27,9% 4,6% 2,3% 1,0% 0,1%
100
1% de cimento
Dcava/D
50
H/D 3 4 5 6 10 20
-
0,5 7,7% 2,3% 2,2% 1,9% 1,7% 0,2%
2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 1,0 25,9% 4,2% 2,8% 1,9% 0,5% 0,0%
Dcava/D
2,0 44,0% 12,5% 0,7% 0,6% 0,4% 0,0%
Figura 5. Curvas de tensão de ruptura à tração pela
diferentes relações de Dcava / D para uma fundação de 4.2 Influência do Diâmetro da Fundação
diâmetro de 1,5 m, e diferentes teores de cimento e
embutimentos. As discussões apresentadas a cerca das Figuras
4 a 6 restringem-se um único diâmetro de
A Figura 6, mostra exemplos de diagramas fundação ( D =1,5 m). Assim, a fim de verificar
de deslocamento vertical para um configuração se existe algum tipo de normalização dos
específica ( D =1,5 m, H / D =1,0 e 1% de resultados para diferentes diâmetros, foram
cimento). Para esta mesma configuração, na realizadas análises para mais dois - D = 1,0 e
Figura 5 pode-se verificar que para um valor de 0,5 m.
Dcava / D acima de 4 o valor da tensão é A Figura 7, mostra os resultados da tensão de
praticamente constante. Através dos diagramas ruptura em função da relação Dcava / D , para
de deslocamento da Figura 6, é possível diferentes diâmetros. Pela Figura 7, pode-se ver
verificar que para Dcava / D acima de 4 os que ocorre sobreposição das curvas
diagramas são os mesmos. Na Figura 6 (b), normalizadas, variando somente o diâmetro.
Dcava / D = 5, verifica-se que as deformações Assim, concluí-se que a carga de ruptura é
permanecem dentro da camada cimentada, não proporcional à área da fundação, sendo a tensão
atingindo a interface vertical. Já a Figura 6 (c), de ruptura a mesma.
Dcava / D = 4, parece ser a faixa de transição
4.3 Influência do Embutimento da Fundação
entre o deslocamento zero e a interface vertical.
Estas mesmas características entre a tensão de Pela Figura 8, é possível observar que a tensão
ruptura à tração e os diagramas de de ruptura aumenta com o embutimento da
deslocamento foram verificados para as demais fundação. Esta variação tende a uma curva
configurações geométricas e diferentes teores logarítmica para os três níveis de cimentação
de cimento. estudados. O incremento de tensão em função
do embutimento é maior para maiores níveis de
cimentação. Ainda, como já citado, a tensão de
ruptura é a mesma para os diferentes diâmetros
estudados.
Tabela 2. Diferenças de tensão verificadas entre a relação Obs.: cor vermelha desl. de 2% e cor azul de 0%.
Dcava / D infinita e a indicada (menor que 5% em

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270

240

210
H/D=0,5 - D=0,5 H/D=1,0 - D=0,5
H/D=2,0 - D=0,5 H/D=0,5 - D=1,0
180 H/D=1,0 - D=1,0 H/D=1,5 - D=1,0
H/D=0,5 - D=1,5 H/D=1,5 - D=1,5

Tensão (kPa)
150 H/D=1,0 - D=1,5

120
(a)
90

60

30

-
2 3 4 5 6 7 8 9 10
Dcava/D

Figura 7. Curvas de tensão de ruptura à tração para um


reaterro cimentado a um teor 3%, variando as relações de
(b)
Dcava / D e o diâmetro das fundações

4.4 Influência do Teor de Cimento no


Reaterro de Areia

Através da Figura 9, é possível observar que o


aumento da tensão de ruptura tende a ser
exponencial (para baixos valores de
(c) embutimento) e/ou linear (para altos valores de
embutimento) em função do teor de cimento.
Esta mesma tendência pode ser observada no
trabalho elaborado por Rattley et al (2007) e
Consoli et al (2007), mesmo havendo diferença
de configuração geométrica.

5% cim - D=0,5m 3% cim - D=0,5m


1% cim - D=0,5m 5% cim - D=1,0m
350
(d) 3% cim - D=1,0m 1% cim - D=1,0m
300 5% cim - D=1,5m 3% cim - D=1,5m
1% cim - D=1,5m
250
5% cimento
Tensão (kPa)

200

150 3% cimento

100

50 1% cimento

(e) 0
0,5 1 1,5 2
Figura 6. Diagramas de deslocamento (para 2% ω/D), H/D

para uma fundação com diâmetro de 1,5m, para uma Figura 8. Curvas de tensão de ruptura à tração pelo
camada de reaterro cimentado com um teor 1% e embutimento ( H / D ) variando o diâmetro das
embutimento de 1,0, para as relações de Dcava / D de fundações e o teor de cimento do reaterro
(a) infinito, (b) 5, (c) 4, (d) 3 e (f) 2.

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450 H/D=0,5 - D=0,5 H/D=0,5 - D-1,0 finitos feitas a partir de retro análises permite
H/D=0,5 - D=1,5 H/D=1,0 - D=0,5
400 H/D=1,0 - D=1,0 H/D=1,0 - D=1,5 representar as diferentes configurações
H/D=2,0 - D=0,5 H/D=2,0 - D=1,0
350
H/D=2,0 - D=1,5 Ratley et al (2007) geométricas e simular o comportamento de
300
diferentes materiais geotécnicos;
2. A tensão de ruptura a partir de um
Tensão (kPa)

H/D=2,0
250
determinado diâmetro de cava (reaterro
200
H/D=1,5
H/D=1,0
cimentado) não varia (diferença de até 5%);
150
3. A relação entre o diâmetro da cava
100
(reaterro cimentado) e o diâmetro da fundação,
H/D=0,5
50
a partir do qual a tensão não aumenta, varia
0
1% 2% 3% 4% 5%
entre 4,0 e 6,0, e depende do embutimento e do
Teor de Cimento teor de cimento adicionado à areia;
Figura 9. Curvas de tensão de ruptura à tração pelo teor 4. As curvas tensão à tração versus
de cimento variando o diâmetro das fundações e o deformação relativa são normalizáveis, ou seja,
embutimento das fundações
elas se sobrepõem. Isso indica que a carga de
ruptura é proporcional á área da fundação;
5 ANÁLISE DE VARIÂNCIA 5. A tensão de ruptura aumenta de forma
logarítmica com o embutimento para o mesmo
De modo a validar os resultados e conclusões teor de cimento;
obtidas neste trabalho, realizou-se uma análise 6. A tensão de ruptura aumenta de forma
de variância dos dados amostrais. As exponencial/linear com o aumento do teor de
variáveis independentes consideradas foram os cimento para um mesmo embutimento;
diâmetros das fundações ( D =0,5; 1,0 e 1,5 m), 7. Do ponto de vista estatístico, as variáveis
embutimento ( H / D = 0,5; 1,0 e 2,0), teor de independentes não significativas foram o
diâmetro e relação do diâmetro da cava e da
cimento (1, 3 e 5%) e a relação do diâmetro da
fundação (quando o valor tensão de ruptura na
cava e da fundação ( Dcava / D ). Em termos de
relação Dcava / D não diferenciar em mais de 5%
dados válidos foram utilizados somente os
da tensão na relação no infinito), e as variáveis
pontos cuja tensão de ruptura em uma
significativas foram o embutimento ( H / D) e o
determinada relação de Dcava / D não variaram
teor de cimento.
em mais de 5% da tensão da relação Dcava / D
infinito. A variável dependente é a tensão de
ruptura (a um nível de 1,5% de deslocamento 7 AGRADECIMENTOS
vertical relativo). Para o presente estudo foi
considerado um nível de 95% de confiança. Os autores desejam expressar sua gratidão à
O tratamento estatístico demonstrou que as Agência Brasileira de Energia Elétrica (ANEEL
variáveis independentes diâmetro ( D ) e relação - Projeto P&D CEEE-GT/UFRGS # 9936455)
do diâmetro da cava e da fundação ( Dcava / D ) pelo suporte financeiro ao grupo de pesquisa.
não são significativas. Além disso, eliminando
as variáveis não significativas, obtem-se um
REFERÊNCIAS
coeficiente de determinação ( R 2 ) da ordem de
80%, no caso da análise dos dados por Abreu, E. M. (2008). Fundações Especiais para Linhas de
regressão linear múltipla. Transmissão Problemas e Soluções Adotadas, Anais
do Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e
Engenharia Geotécnica (COBRAMSEG), ABMS, CD-
Rom;
6 CONCLUSÕES
Andersen, K.H.; Dyvik, R.; Schroder, K.; Hansteen;
O.E.; Bysveen, S. (1993). Field Tests of Anchors in
A partir do presente trabalho pode-se citar as Clay II: Predictions and Interpretation, Journal of
seguintes conclusões: Geotechnical Engineering, Vol. 119, N. 10, p. 1532-
1. A análise numérica através de elementos 1549;

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COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS.

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