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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

CURSO DE BACHARELADO EM LETRAS


ESTUDOS LITERÁRIOS – NARRATIVA
ALUNO: CHRYSTIAN REVELLES GATTI
MATRÍCULA: 201911266
A LOUCURA COMO REDENÇÃO NO CONTO "O PERU DE NATAL" DE MÁRIO DE
ANDRADE

Nosso narrador-protagonista, Juca, abre a narrativa com uma visão panorâmica que passa
pelos últimos acontecimentos vivenciados por sua família – a morte de seu pai, o luto, a
normalidade do lar pequeno-burguês, a chegada do primeiro natal sem o patriarca. Apesar de toda a
narração acontecer a partir de um centro (o ponto de vista do próprio personagem Juca), há algo de
onisciente em suas afirmações, pois parece capaz de sondar os sentimentos, os pensamentos e
intenções dos todos.

O processo pictórico começa pelas próprias memórias de Juca, moldando a imagem de uma
mãe submissa e infeliz, do pai medíocre e estraga-prazeres, enfim, vamos sendo conduzidos em um
espaço psicológico no qual somos finalmente apresentados à identidade do próprio personagem, a
fama de louco que conquistou ao longo da vida por seu atrevimento. Ora, encontramos já aqui uma
certa dialética, alguma contradição entre a reprovada ousadia de Juca que, ao mesmo tempo em que
é julgada como loucura, lhe concede a liberdade de uma "existência sem complexos", e a
normalidade e previsibilidade da vida pequeno-burguesa da família que, apesar de toda a
honestidade e da ausência de brigas e dificuldades econômicas, não experimentava mais que um
sentido "muito abstrato" da felicidade.

Depois de ter nos levado ao longo de seus pensamentos, vamos compreendendo o


nascimento da sugestão atrevida de que comessem peru no natal, que vem para romper com a
atmosfera lúgubre que se arrastava por meses, a sombra opressora do fantasma paterno que ainda
pairava sobre a família. Com a declaração de seu desejo de comer peru, o foco vem para o presente,
para o aqui-agora cênico – chegamos ao espaço objetivo onde se dá a interação entre os
personagens.

O tratamento dramático começa com a reação da mãe e da tia, que assentam as bases para o
que será o grande conflito vivido pelos personagens ao longo do conto – o embate entre a
lembrança penosa do pai e a renovação do amor familiar. Voltamos para as memórias de Juca, que
nos relembra o passado injusto e submisso das mulheres da família (a mãe, a tia e a irmã, suas "três
mães"). Juca então percebe, e aqui nos relevando mais alguns traços de onisciência, que todos
estavam secretamente "felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura".
Ora, todos desejam secretamente a felicidade, mas não querem a culpa da ousadia, do
rompimento. Se faz necessário relegar este desejo reprimido a um terceiro, o Louco, aquele
que por sua doidice é perdoado de se atrever a dizer o que não deve ser dito, a liberar o desejo
reprimido, a desafiar o peso da autoridade, da tradição. É com grande autoconsciência que
Juca declara: "todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo".
Longe de ressentir-se – e, muito pelo contrário, tomado por uma profunda empatia –
Juca não apenas não rejeita como abraça com um amor quase cristão esse papel, porque é
através da permissividade de sua estigma de doido que poderá quebrar os grilhões que
osbtruem a felicidade, a renovação, a satisfação dos prazeres e desejos censurados pela
hipocrisia e pela memória da opressiva do pai. O sentimento do protagnista chega no cume
quando suas três mães se "esparramavam" chorando naquele conflito entre a felicidade que
nunca viveram e o luto opressivo do qual não podiam, por si mesmas, alcançar a libetação.

É uma grande ironia que, apesar do Natal nos remeter ao espírito cristão, à vitória
sobre a carne e sobre os instintos materiais, aqui é justamente a carne e o desejo que podem
trazer a felicidade que – novamente, com grande ironia – é impedida pela moral e pelo
espírito do patriarca falecido que assombra o lar. Não à toa, o clímax da narrativa será a "luta
entre os dois defuntos" – de um lado, o peru, representando a carne, o prazer e a libertação das
correntes do falecido; do outro, a sombra opressora, imagem daquele pai que não permitia o
menor hedonismo, "qualquer lirismo", o menor "aproveitamento da vida".

No ponto auge da trama, Juca percebe que a imagem do pai ameaça retornar e
censurar, enchendo de silêncio e luto a reunião familiar. Por seu atrevimento, Juca nos levará
ao desfecho feliz – com grande ironia e com uma contradição quase jocosa, se percebendo
incapaz de dissipar a alma penada, nosso narrador-protagonista se equipará das armas da
hipocrisia e da política, e de uma hipocrisia e de uma política maiores ainda que as da
burguesia, da tradição e do próprio espírito natalino quando, sem mencionar o peru, diz que
"papai" há de estar contente "no céu" de vê-los reunidos. Não conseguindo apagar a sombra
do patriarca, Juca a realoca como uma "estrelinha" contemplável e idealizada no céu, e é com
esse golpe de loucura e hipocrisia que, uma vez tornado "culto puro de contemplação", o
fantasma do pai perde seu poder e Juca vê toda a família se entregar com sensualidade ao
aproveitamento da vida, à renovação do amor, a libertação daquela atmosfera cinzenta que a
alma penada ainda provocava. É com essa ironia ímpar e maravilhosa que, através da carne,
da hipocrisia e, principalmente, da loucura, Juca acaba por se encher da compaixão cristã e
efetivamente realizar o espírito natalino.

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