Você está na página 1de 6

E. E. Pe.

José Scampini

Apostila sobre o Pré-modernismo


Aluno(a): ______________________________________nº: _________ _____º ano: ______
Literatura/Língua Portuguesa – Prof. Gil
EXERCÍCIOS
EUCLIDES DA CUNHA
O livro Os sertões, de Euclides da Cunha, é de difícil classificação. Para criar todo o embasamento científico necessário ao
estudo das condições que contribuíram para um conflito como o de Canudos,
Euclides da Cunha dividiu sua obra em três partes:
A Terra (primeira parte) – apresentação detalhada das características do sertão nordestino;
O Homem (segunda parte) – retrato do sertanejo, em que o texto procura demonstrar o impacto do meio sobre as pessoas;
A Luta (terceira parte) – narração dos embates entre as tropas oficiais e os seguidores de Antônio Conselheiro.
A seguir, você vai ler três textos, extraídos da obra Os sertões, que analisamos em nossas aulas. O texto I, retirado da primeira parte, é
uma descrição da caatinga; o texto II, da segunda parte, descreve o sertanejo; e o texto III, da terceira parte, trata da guerra e de seu
significado. Após a leitura dos textos, responda a questão.
TEXTO I
Então a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo
de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas. Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o;
enlaça-o na trama espinescente e não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes; com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e
desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos retorcidos e secos, revoltos,
entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, de flora
agonizante...
Euclides da Cunha. Os sertões.
São Paulo: Círculo do Livro, 1975. p. 38.
TEXTO II
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência,
entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das
organizações atléticas. (...) Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida
sertaneja – caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.
Idem, p. 92-3.
TEXTO III
Decididamente era indispensável que a campanha de Canudos tivesse um objetivo superior à função estúpida e bem pouco
gloriosa de destruir um povoado dos sertões. Havia um inimigo mais sério a combater, em guerra mais demorada e digna. Toda aquela
campanha seria um crime inútil e bárbaro, se não se aproveitassem os caminhos abertos à artilharia para uma propaganda tenaz, contínua
e persistente, visando trazer para nosso tempo e incorporar à nossa existência aqueles rudes compatriotas retardatários.
(...)
Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão
integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores que todos morreram. Eram quatro apenas: um
velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.
Idem, p. 405 e 476.

O relato de Euclides da Cunha revela influência da época e, ao mesmo tempo, o emprenho em chegar à verdade dos fatos.
1) Identifique no texto II um trecho que comprove a influência de teorias raciais existentes no começo do século XX e transcreva-o.
2) Os textos I, II e III são trechos, respectivamente, das três partes que constituem a obra Os sertões. Pode-se afirmar que a própria
estrutura da obra revela uma concepção naturalista? Por quê?

I - Os sertões
Leia a seguir um trecho do livro Os sertões, de Euclides da Cunha. Na descrição da vila de Canudos e dos sertanejos que para lá se
dirigiam, o leitor toma conhecimento de um dos fatores determinantes do conflito: a vida de sofrimento e privações no interior do sertão
brasileiro.
Aspecto original
"O povoado surgia, dentro de algumas semanas, já feito em ruínas. Nascia velho. Visto de longe, desdobrado pelos cômoros,
atulhando as canhadas cobrindo área enorme, truncado nas quebradas, revolto nos pendores - tinha o aspecto perfeito de uma cidade cujo
solo houvesse sido sacudido e brutalmente dobrado por um terremoto. (...)
Feitas de pau-a-pique e divididas em três compartimentos minúsculos, as casas eram paródia grosseira da antiga morada
romana: um vestíbulo exíguo, um atrium servindo ao mesmo tempo de cozinha, sala de jantar e de recepção; e uma alcova lateral, furna
escuríssima mal revelada por uma porta estreita e baixa. Traíam a fase transitória entre a caverna primitiva e a casa. O mesmo desconforto
e, sobretudo, a mesma pobreza repugnante, traduzindo de certo modo, mais do que a miséria do homem, a decrepitude da raça.
Vinham as caravanas de fiéis de todos os pontos, carregando os haveres todos; e, transpostas as últimas voltas do caminho,
quando divisavam o campanário humilde da antiga Capela, caíam genuflexos sobre o chão aspérrimo. Estava atingido o termo da
romagem. Estavam salvos da pavorosa hecatombe, que vaticinavam as profecias do evangelizador. Pisavam, afinal, a terra da promissão -
Canaã sagrada, que o Bom Jesus isolara do resto do mundo por uma cintura de serras...
Chegavam, estropeados da jornada longa, mas felizes."

3) Como é descrito o povoado que está sendo construído pelos seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos?
Releia este trecho, observando os adjetivos destacados:
"Feitas de pau-a-pique e divididas em três compartimentos minúsculos, as casas eram paródia grosseira da antiga morada romana: um
vestíbulo exíguo, um atrium servindo ao mesmo tempo de cozinha, sala de jantar e de recepção; e uma alcova lateral, furna escuríssima
mal revelada por uma porta estreita e baixa. Traíam a fase transitória entre a caverna primitiva e a casa."
4) O que os adjetivos sugerem a respeito das casas de Canudos?
03.Depois de descrever o povoado, o narrador volta-se para as pessoas. Que motivação elas tinham para ir até o povoado e ali
5) "Vinham de todos os pontos, carregando os haveres todos." Essa frase oferece uma importante pista sobre a condição social dos fiéis
que mudam-se para Canudos. Que condição é essa?
6) Que explicação o texto dá para o fato de, mesmo chegando "estropeados", os romeiros estarem felizes?

AUGUSTO DOS ANJOS


A linguagem característica dos poemas de Augusto dos Anjos surpreende os leitores. O poeta recorre à ciência para melhor
definir suas preocupações com a origem da angústia moral que, a seu ver, atormenta a humanidade. Obcecado com a ideia das forças da
matéria, que pulsam em todos os seres e conduzem ao “nada” absoluto, o poeta usa o verme como símbolo desse processo de
decomposição. Leia atentamente o poema abaixo, um soneto no qual o eu lírico trata da morte em sua dimensão física, e responda as
questões seguintes.
O Deus-Verme
Fator universal do transformismo,
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo


Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,


Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,


E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
Augusto dos Anjos. Eu. In: Alexei Bueno (Org.). Obra
completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 209.

1) Além do uso de termos da ciência – tais como teleológica, antropomorfismo, bactéria, verme, hidrópicos, vísceras –, o assunto do poema
chama a atenção: a “caracterização” do verme que se alimenta dos corpos em decomposição. Qual é essa caracterização? Explique como
o poeta a realiza.

2) O tema da morte é abordado por muitos poetas, que tratam de sua dimensão espiritual ou sentimental. Como a morte é apresentada no
poema?

3) No título do poema, o verme é definido como um “deus” a quem se destina “a carne podre”. Explique de que maneira esse processo de
“divinização” dos vermes revela uma visão racional da morte.

A ideia Vem essa luz que sobre as nebulosas


De onde ela vem?! De que matéria bruta Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem do encéfalo absconso que as constringe,
Vem da psicogenética e alta luta Chega em seguida às cordas da laringe,
Do feixe de moléculas nervosas, Tísica, tênue, mínima, raquítica...
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!
Quebra a força centrípeta que a amarra, Em sua diária ocupação funérea,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra E vive em contubérnio com a bactéria,
No molambo da língua paralítica! Livre das roupas do antropomorfismo.

O deus-verme Almoça a podridão das drupas agras,


Fator universal do transformismo Janta hidrópicos, rói vísceras magras
Filho da teleológica matéria E dos defuntos novos incha a mão...
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Jamais emprega acérrimo exorcismo Cabe a seus filhos a maior porção!

4) De acordo com o primeiro texto, de onde provêm as ideias humanas? Essa é uma concepção materialista ou capitalista? Explique.
5) As ideias humanas conseguem libertar-se? Explique.
6) O verso “Tísica, tênue, mínima, raquítica...” apresenta interessantes particularidades rítmicas. Comente
7) “Psicogenética”, “absconso” e “molambo” são palavras de um mesmo nível de linguagem? Explique.
8) O segundo texto é particularmente desagradável. Identifique o tema e responda: que postura existencial nos transmite um poema como
esse? Comente.
9) De que forma o segundo procura superar a incapacidade de expressão atribuída no primeiro poema ao “molambo da língua paralítica”?
Explique.
10) A poesia de Augusto dos Anjos é um sucesso de público.
a) Releia em voz alta os poemas e responda: os versos são agradáveis ao ouvido? Comente.
b) A linguagem científica produz algum efeito sobre o leitor? Comente.
c) Esse tipo de poesia lhe agrada? Por quê?
11) Qual é a característica principal de Augusto dos Anjos?

MONTEIRO LOBATO
1) No prefácio da primeira edição de Urupês, diz Monteiro Lobato:
"E aqui aproveito o lance para implorar perdão ao pobre Jeca. Eu ignorava que eras assim, meu Tatu, por motivo de doença. Hoje é com
piedade infinita que te encara quem, naquele tempo, só via em ti um mamparreiro de marca. Perdoas?"
A partir deste fragmento, considerando o contexto do artigo "Urupês" e a trajetória intelectual de Lobato, responda:
a) O que significa 'mamparreiro' - termo corrente no norte do Brasil?
b) O que Lobato descobre em relação à natureza física e mental do caboclo brasileiro, assim como à sua condição histórica e política, que
lhe permite fazer esta auto-crítica ainda em 1918?

2) Dois olhares para o mesmo conflito:


I. Euclides da Cunha, no final de Os Sertões, registrava:
“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, [...] caiu no dia
5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e
uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”
II. Já Olavo Bilac, escrevendo sobre o mesmo episódio, comemorava: “Enfim, arrasada a cidadela maldita! Enfim, dominado o antro negro,
cravado no centro do adusto sertão, onde o Profeta das longas barbas sujas concentrava sua força diabólica, feita de fé e de patifaria,
alimentada pela superstição e pela rapinagem!”
a) Que visão cada trecho manifesta sobre o episódio?
b) O que pode explicar duas visões tão diferentes a respeito de um mesmo acontecimento?
c) Essas visões diferentes refletem a visão da época? Por quê?

Jeca Tatu
Na descrição de Jeca Tatu, Monteiro Lobato despe-o da idealização que, para ele, marcava a representação da figura do caboclo:
"(...) a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro
recente e o aborígine de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e
sorna, nada a põe de pé.
Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.
De pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para "aquentá-lo", imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostar um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há
de ser de cócoras. (...)
Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo...
Quando comparece às feiras, todo mundo logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao
homem só custa o gesto de espichar a mão e colher (...)
Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço - e nisto vai longe. (...)
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores - nada revelador de
permanência.
Há mil razões para isso; porque não é sua a terra; porque se o "tocarem" não ficará nada que a outrem aproveite; porque para
frutas há o mato; porque a "criação" come; porque...
Jeca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
— Não paga a pena.
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem
culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive."
3) O narrador sugere que a figura do caboclo é idealizada indevidamente. Transcreva o trecho em que isso é demonstrado.
4) Explique por que o narrador critica essa idealização.
5) O texto ironiza o desempenho de Jeca Tatu em três papéis: o de mercador, o de lavrador e o de filósofo. Como Jeca se sai em cada um
deles?
6) Que aspecto se destaca na descrição do "jeca", feita pelo narrador?
7) Essa caracterização do caboclo, vista por muitos como "preconceituosa", valeu inúmeras críticas a Monteiro Lobato. Para você, a
imagem construída pelo autor denotação preconceito em relação ao sertanejo? Comente.

Resumão sobre este assunto:


Questionário sobre autores pré-modernistas:
1. Dentre todos os autores da prosa pré-modernista, comente a questão da linguagem apresentada em suas
obras. (Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato e Graça Aranha).
2. Comente a mudança apresentada do ponto de vista de análise das questões sociais/ literárias das obras pré-modernistas.
3. Percebendo a visão da época, uma visão determinista de mundo, comente a questão do preconceito na obra
de Euclides da Cunha e de Monteiro Lobato e faça um paralelo com o preconceito na obra de Lima Barreto.
4. Cite o livro mais importante de Euclides da Cunha, suas partes e seu assunto.
5. A obra de Euclides da Cunha constitui um marco literário e social. Narra, com zelo de cientista as campanhas militares contra os
seguidores de Antônio Conselheiro. O que há aí de literário?
6. Comente sobre o Jeca Tatu.
7. A personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato nega ou confirma o tratamento romântico dado ao homem rural?
8. Quais os autores pré-modernistas abordam o determinismo cientifico em suas obras e como isso aparece?
9. Comente a visão de mundo de Augusto dos Anjos.
10. Associe Augusto dos Anjos, essa sua visão de mundo e sua obra a uma vanguarda europeia e explique.

Interesses relacionados