Você está na página 1de 6

Das primitivas capelas de Garcia Paes, a freguesia tardia do Mont Serrat

José Roberto Vasconcelos

Antes, cumpre pedir a misericórdia da plateia para com o palestrante, haja


vista que não puderam os organizadores contar com outro de melhor oratória e,
principalmente, de maiores saberes.
Assim, seguimos...

Aberto o Caminho Novo de Minas, do qual se incumbiu, fixou-se Garcia


Rodrigues Paes às margens do rio Paraíba do Sul, assenhorando-se de vasta
porção de terras, cuja posse veio logo depois legalizada, com concessões de
numerosas sesmarias a si e a cada um de seus inúmeros filhos, como recompensa
a empreitada daquela via pioneira.

A principal, e das mais vastas, dessas concessões compreendia uma área


geograficamente estratégica para todos quanto utilizavam-se daquela ligação
direta, exclusivamente por terra e mais curta, entre o Rio de Janeiro e as
nascentes Minas Gerais.

Principiava a grande gleba muito antes o Paraíba do Sul e, transpondo o


Paraibuna, adentrava em território mineiro. E nela fundou Garcia Paes as três
pioneiras fazendas, prima inter pares em toda a serra acima: a da Várzea, ao sul, a
da Paraíba, ao centro, e a da Paraibuna ao norte, cujas sedes destas últimas
ficavam sobranceiras aos rios que lhes emprestaram o nome.

A sede da fazenda da Paraíba era o meio da jornada, o embrião civilizatório


urbano da que velha paróquia, da vila, da cidade e do antigo município, que do rio
adotou igual topônimo, na reorganização administrativa dos municípios da velha
província, ocorrida de 1833.

A região demorou dois séculos para ser, efetivamente, adentrada e


povoada pelo homem branco. Ocupação então só do litoral – Rio de Janeiro e seu
recôncavo, Angra dos Reis, Ilha Grande, Paraty, Cabo Frio, São João da Barra e o
núcleo pioneiro de interiorização, Campos dos Goytacazes.

Firmava-se Garcia Paes não somente em grande potentado territorial. A


estratégica localização de suas fazendas, como já dito, proporcionou-lhe ganhos
econômicos e financeiros em nada desprezíveis: explorava o vantajoso comércio
de víveres com os viajantes do Caminho Novo, cada vez mais crescente dado a
corrida do ouro nas Minas Gerais, e a administração das passagens sobre os rios
Paraíba do Sul e Paraibuna, cuja parte das rendas que cabiam a Coroa, financiou
as primeiras obras importantes de abastecimento de água na cidade do Rio de
Janeiro.

O isolamento geográfico, em meio a um sertão de densa floresta, de vias de


comunicação precárias, acrescido do arraigado sentimento religioso daqueles
tempos, logo fez Garcia erguer dois modestos templos religiosos quão logo terá
chegado a esses rincões: “na margem do Rio Paraíba, da banda d’além uma
Capela, dedicando-a a Conceição da Santa Virgem e aos Apóstolos S. Pedro e S.
Paulo...”1, conforme nos relata Monsenhor Pizarro; e a do Mont Serrat, que
trataremos mais adiante.

Da localização da primitiva Capela da Paraíba, quanto menos de sua


aparência, a qual foi elevada á categoria de “Curada” em maio de 1719, portando,
há recentes 300 anos findos, nada se sabe.

Se não há documentos, ao menos a tradição popular sobre ela sobreviveu.


E isso graças a um clérigo, o padre Teófilo Dutra, antigo capelão da Casa de
Caridade de Paraíba do Sul. Este, em 1929, ao publicar seu livro “Flores e
Flores”, registrou da memória coletiva que ainda subsistia, que o velho templo
situava-se numa pequena ilha ás margens do rio, a qual seria frontal e muito
próxima ao Jardim Velho, hoje Praça Marquês de São João Marcos. Desapareceu,
o autor nos diz, arrasada por inundações do rio nos idos de 1906...

1
Pizarro, pág. 102.
Por certo terá sido, como era a prática comum de então, no interior dessa
primitiva capela que, em 1738, foi sepultado os restos mortais do insigne Garcia
Rodrigues Paes.

Mas voltemos a bom Monsenhor Pizarro, que nos relata que, tendo o
primeiro templo arruinado, “pela fraqueza de sua construção”, Pedro Dias Paes
Leme, um dos filhos de Garcia, e sucessor do pai nos títulos e domínios sobre as
fazendas, deliberou erguer outro “em lugar mais apto, por sobranceiro ao rio” e que
“entrou à classe das igrejas perpétuas depois do Alvará de 2 de janeiro de 1756”.

Deste templo erguido por Pedro Dias se conhece, ao menos, uma imagem
contemporânea: um desenho do botânico inglês Willian John Burchell, que visitou
a velha paróquia e o pequeno arraial de então, já adentrado em anos o século XIX.
Naquela peça iconográfica constata-se que a capela ficava junto a casa grande da
Fazenda da Paraíba, a dos tempos de Garcia Rodrigues Paes, no alto morro
frontal a antigas balsas de travessia, a hoje Praça Marquês de São João Marcos, o
Jardim Velho.

Seguiu-se ainda outro templo a ser erguido antes do atual, este definitivo,
de grandes proporções e solidez, a que se deve o seu princípio (e que foi o grande
impulsionador) a um carioca de nascimento, mas com profunda ligação a terra
sulparaibana: João Gomes Ribeiro de Avelar, o Visconde da Paraíba.

O terceiro templo, e anterior ao atual, como dito, se ergueu frontal a antiga


praça da barca, o popular, e belo, Jardim Velho. Fora construído em bom tamanho,
mas, estranhamente, todo em madeira, com torre sineira. Não substituiu este ao
anterior, dos tempos de Pedro Dias, já há muito caído em ruínas. Veio a abrigar,
com a dignidade que se convinha, aos misteres dos sacramentos da fé, pois há
muito eram eles precariamente celebrados em um dos cômodos da antiga casa
grande de Garcia Rodrigues, a qual também servia de sede ao Registro da
Paraíba.

Não muitas léguas ao norte da Paraíba, seguindo o Caminho Novo, ficava a


segunda mais importante das três grandes fazendas de Garcia Paes: a da
Paraibuna, cuja denominação também obteve do rio que originalmente lhe cortada
o território original.

Sabe-se que na Fazenda da Várzea, a terceira das propriedades de Garcia


na zona sulparaibuna, não terá tido capela própria (aliás, a localização da sede
desta, parece, perdeu-se na poeira do tempo, não deixando memória...). E igual
tratamento teria, muito possivelmente, a do Paraibuna se, ao contrário daquela, as
características geográficas locais, que a separava da Fazenda da Paraíba, não
fossem tão relevantes. E essa relevância substanciava-se nas abruptas elevações
que caracteriza a Serra das Abóboras, que separa os vales dos rios Paraíba do
Sul e o do Paraibuna.

O trecho do Caminho Novo, ainda que relativamente curto, entre Paraíba do


Sul e Paraibuna, era no entanto percurso demorado e perigoso, notadamente no
trecho além da cumeada, a descer para o vale do rio Paraibuna; quase
intransitável nos períodos de chuvas naqueles primeiros tempos. E ali, sobranceira
e com rara beleza e imponência, elevasse uma grande formação rochosa, com
quilômetros de extensão, e algumas centenas de metros de altitude, um verdadeiro
“paredão”, que hoje denominamos Pedra do Paraibuna.

Na segunda década do século XIX, já tendo recebido significativas


melhorias, percorreu esse trecho do Caminho Novo o diplomata russo Langsdorff,
com destino a Minas Gerais, que dele nos diz:

“Com tempo bom e seco, o caminho estava relativamente bom, o que


aliviou as dificuldades de nossos animais novos. Todavia, em tempo de muita
chuva, ele deve ficar extremamente ruim, quase intransitável”2.

Daquela característica geográfica tão singular, como serrado tivesse sido


que, muito provavelmente, terá inspirado a Garcia Rodrigues ali erguer, em sua
fazenda do Paraibuna, templo sob a invocação da Senhora do Mont Serrat e, por
longuíssimo tempo, permaneceria capela filial da paróquia da Paraíba. E a
exemplo desta, também Pedro Dias, ainda no século XVIII, fez construir um novo

2
SILVA, págs. 12.
templo em substituição ao originalmente erguido pelo pai nos difíceis primeiros
tempos de desbravamento e ocupação.

Sobre a capela de Pedro Dias, mais uma vez, nos é precioso o que dela
nos notícia Monsenhor Pizarro:

“... levantado com 36 palmos de comprido, desde a porta principal, até o


arco do cruzeiro, e largura 23, dali ao fundo da Capela, com a extensão de 24
palmos, e largura de 18, é de muita utilidade e necessária, não só aos viandantes
da estrada geral para as Minas, mas ao Destacamento efetivo do Registro, que ali
se estabeleceu...”3.

Era, literalmente, uma capelinha, com aproximadamente 14 metros totais de


comprimento, por 5 metros, na sua maior largura, e uns 4 na menor. Dela há
documento iconográfico contemporâneo em que, discretamente, figura:
Porém, nas suas singelas proporções abrigava já a majestosa imagem de
sua Padroeira, de singular beleza que, felizmente, se conserva no atual templo, no
distrito de igual nome, em Levy Gasparian, o qual encontra-se atualmente em
processo de restauração.

Se Paraíba, quatro templos se sucederam, três foram os do Mont Serrat.


O atual, tristemente descaracterizado, despido dos ornamentos de suas
paredes internas, de seu forro, de seu assoalho e, até mesmo, de seu altar-mor
em talha dourada é, no entanto, dos primeiros cuja arquitetura é de linhas a
neogóticas no Vale do Café.
Sua construção já não foi no mesmo entorno da velha Fazenda da
Paraibuna dos tempos de Garcia Paes. O sítio escolhido foi a proximidade da
ponte sobre o rio, e vizinho a Estação de Mudas da Estrada União e Indústria, a
qual esta cedeu a área necessária para aquele fim.

Sob a direção de Jacinto Alves Barbosa, 1º Barão de Santa Justa, uma


comissão se formou e, com donativos de ricos e pobres, ilustres e desconhecidos,
todos devotos da Senhora do Mont Serrat, um novo templo foi erguido servindo-

3
Pizarro, págs. 106.
lhe, como ainda lá está, como que de moldura, ao fundo, o monte serrado, a Pedra
do Paraibuna.

Julho de 1869 a nova Capela é inaugurada com grande pompa: missa


solene é celebrada, com um Te Deum Laudamus sendo entoado, contando com
presenças ilustres, a do próprio Imperador do Brasil, D. Pedro II, acompanhado de
seu genro, o Duque de Saxe.

Entretanto, a Capela do Mont Serrat permaneceria ainda, como uma das


filias da velha freguesia da Paraíba, por mais quinze anos...
Somente em 1884, após longas demandas dos moradores locais, é que o
pleito emancipacionista canônico foi atendido, elevando-se a já quase bicentenária
capela filial a categoria das paróquias autônomas e perpétuas, como Freguesia de
Nossa Senhora do Mont Serrat.

Da Paraíba e da Paraibuna, foram os núcleos primeiros de aglomeração,


para posterior dispersão e povoamento, das correntes povoadoras de grande parte
do médio vale do rio Paraíba do Sul. E deles, principalmente do primeiro, a partir
da segunda metade do século XVIII, vieram os Barroso Pereira, os Gonçalves
Area, os Pereira Nunes, os Borges de Carvalho, os Werneck, os Godoy de Morais,
os Andrades, os Corrêa e Castro, os Pontes França e outros muitos troncos
famíliares que vão desbravar e povoar as zonas que darão origem a cidades,
como Paty do Alferes, Vassouras, Valença, Três Rios, Areal e Levy Gasparian, ou
aqueles ainda hoje distritos, como Sebolas, Bemposta e Sacra Família do Tinguá.

Bibliografia básica:
PIZARRO, José de Sousa e Araújo – Memórias Históricas do Rio de
Janeiro, e das Províncias Anexadas à Jurisdição do Vice-Rei do Estado
do Brasil, Vol. IV,
SILVA, Danuzio Gil Bernardino da (org.) – Os diários de Langsdorff, Editora
Fiocruz, Vol. I.
SILVA, Pedro Gomes da Silva – Capítulos de História de Paraíba do Sul,
Edição da Casa de Caridade de Paraíba do Sul, RJ, 1991.