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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

FUNDAÇÃO DE ENSINO SUPERIOR DE PASSOS – FESP –


ASSOCIADA À UEMG

FACULDADES INTEGRADAS DO SUDOESTE MINEIRO

CURSO DE DIREITO DE PASSOS

DOS DIREITOS SOCIAIS AO ESTATUTO DO IDOSO:

A TRAMITAÇÃO PROCESSUAL PRIORITÁRIA

LIARA ALMEIDA MACARINI BALDINI

PASSOS (MG)

SETEMBRO 2013
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LIARA ALMEIDA MACARINI BALDINI

DOS DIREITOS SOCIAIS AO ESTATUTO DO IDOSO

A TRAMITAÇÃO PROCESSUAL PRIORITÁRIA

Monografia na forma de Trabalho de


Conclusão de Curso apresentado à
Faculdade de Direito de Passos –
FADIPA – Fundação de Ensino
Superior de Passos – Universidade
do Estado de Minas Gerais, como
requisito parcial para obtenção do
título de bacharel em Direito.

Orientadora: Profª Mestre – Tayara


Talita Lemos

Passos (MG)

Setembro 2013
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LIARA ALMEIDA MACARINI BALDINI

DOS DIREITOS SOCIAIS AO ESTATUTO DO IDOSO

A TRAMITAÇÃO PROCESSUAL PRIORITÁRIA

COMISSÃO JULGADORA:

Presidente da Banca

Membro Examinador Convidado

Membro Examinador Convidado


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DEDICATÓRIA

À minha amada e preciosa avó Therezinha, que na minha vida


sempre representou a voz da experiência e uma força
estabilizadora enorme, que abdicou de luxos, regalias e
confortos para que eu pudesse me dar aos meus. Minha
valiosa “vozinha”, dádiva de Deus em minha vida, exemplo real
de superação humana, força, trabalho e fé, que guarda no
olhar e na pele as marcas de toda uma vida, que guarda em si
uma infinidade de conhecimentos e ensinamentos, e que
quando transmitidos a mim me fazem aprender e crescer cada
dia mais.
Agradeço todos os dias a Deus, por me conceder o privilégio e
a imensurável alegria da sua presença, e por nos aproximar
tanto e fazer de nós duas tão unidas, amigas e sintonizadas,
união essa que me traz maturidade e experiência. Deus me
deu você, porque tinha um plano: Fazer-me feliz.
À minha estimada avó não bastaria dizer tudo isso, pois a
verdade é que não tenho palavras para agradecer todo
comprometimento a mim despendido. Espero poder retribuir
tudo o que é e que foi a mim dedicado.
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AGRADECIMENTOS

Muitos e tão especiais...

A Deus, Pai de infinito amor e bondade, que me abençoou com


a graça da vida.

Aos meus amados e valorosos pais, arrimos inabaláveis,


Raimundo e Eliene, que me trouxeram com todo o amor e
carinho a este mundo, dedicaram, cuidaram e doaram
incondicionalmente seu sangue e suor em forma de amor e
trabalho por mim, despertando e alimentando em minha
personalidade, ainda na infância, a sede pelo conhecimento e a
importância deste em minha vida. Pela presença, apoio e,
sobretudo pela educação primorosa.

À minha amada irmã, Laís, amiga de sempre, obrigada por


todos os dias me ensinar a ser alguém melhor e mais humilde.
Obrigada por simplesmente existir!

Ao Fred, pelo carinho, amor e, sobretudo pela paciência.

À minha querida, brilhante e competente orientadora


Professora Tayara Talita Lemos, sem a qual não haveria a
materialização desse estudo. Obrigada pelo comprometimento
e dedicação.

Às minhas queridas e estimadas amigas da Faculdade de


Direito, amizades que tonaram esses cinco anos mais doces,
mais engraçados, mais felizes e mais vividos.

Enfim, obrigado por todos aqueles que contribuíram direta e


indiretamente para a realização deste modesto trabalho
monográfico.
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RESUMO:

BALDINI, Liara Almeida Macarini. Dos direitos sociais ao Estatuto do Idoso: A


tramitação processual prioritária. 70f. FESP. UEMG. Monografia - Graduação em
Direito. Faculdade de Direito de Passos, 2013.

O Estado Social, calcado na valorização dos direitos coletivos percorreu longo


caminho, tendo se consolidado no Brasil através da Constituição de 1988, trazendo
à tona a preocupação com grupos sociais que necessitam de tutela diferenciada do
Estado, a exemplo dos idosos. O presente trabalho aborda alguns aspectos
processuais do Estatuto do Idoso – Lei 10.741, de 1º/10/2003, norma fundada nos
princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana - concentrando-se
especialmente no art. 71, que trata do acesso à justiça pelos idosos, assim como
consagra a prioridade no trâmite processual às pessoas com sessenta anos de
idade. Faz-se ainda uma retrospectiva dos direitos sociais, passando pelos direitos
constitucionalmente garantidos da razoável duração do processo e da celeridade
processual os quais desembocaram no direito à tramitação processual prioritária,
ápice dos dispositivos processuais que visam à defesa dos interesses dos idosos,
cuja principal função é assegurar, de fato, o efetivo acesso à justiça a quem, pelas
circunstâncias da vida, não pode esperar pela longa duração do processo.

Palavras-chave: Direitos sociais; Estatuto do Idoso; Tramitação processual


prioritária.
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LISTA DE ABREVIATURAS

art. artigo

arts. artigos

ed. edição

f. folha

nº. número

p. página

v. volume
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LISTA DE SIGLAS

CF – Constituição Federal

CNJ – Conselho Nacional de Justiça

CPC – Código de Processo Civil

ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente

EI – Estatuto do Idoso

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

LICC – Lei de Introdução ao Código Civil

LINDB – Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro

PNI – Política Nacional do Idoso


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SUMÁRIO

RESUMO.............................................................................................................. 06

INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 11

1. DIREITOS SOCIAIS FUNDAMENTAIS DE SEGUNDA DIMENSÃO............... 13

1.2 O princípio da igualdade................................................................................. 17

2. TUTELA DOS DIREITOS DOS IDOSOS NO BRASIL .................................... 22

2.1 Situação do idoso na sociedade ao longo do tempo ..................................... 22

2.2 O direito à velhice ........................................................................................... 23

2.3 Tutela constitucional do idoso ........................................................................ 24

2.4 O estatuto do idoso ....................................................................................... 27

2.5 Principio da Absoluta Prioridade ................................................................... 29

3. OS DIREITOS CONSTITUCIONAIS QUE LEVAM À TRAMITAÇÃO


PRIORITÁRIA ...................................................................................................... 33
3.1 A Tutela constitucional do processo ............................................................... 33
3.2 O acesso à justiça .......................................................................................... 35
3.2.1 O acesso prioritário à justiça ...................................................................... 37
3.3 O princípio da efetividade ............................................................................... 39
3.4 A celeridade processual e a razoável duração do processo .......................... 40

4. A TRAMITAÇÃO PROCESSUAL PRIORITÁRIA ............................................ 43

4.1 Prioridade na Tramitação processual para o idoso ........................................ 43

4.2 A prioridade na Lei 8.842/1994 – Política Nacional do Idoso.......................... 45


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4.3 A prioridade no código de processo civil ........................................................ 46

4.4 A prioridade na Lei 10.741/2003 - Estatuto do Idoso .................................... 47

4.5 A prioridade na Lei 12.008/2009 - Lei da tramitação processual prioritária .... 49

4.6 Do requerimento à concessão do benefício para idoso ................................ 51

4.7 Do recurso ..................................................................................................... 55

4.8 Renúncia e revogação da tramitação processual prioritária .......................... 56

4.9 A tramitação prioritária para o idoso e sua eficácia ...................................... 58

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 63

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 66


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INTRODUÇÃO

O presente trabalho, intitulado “Dos direitos sociais ao estatuto do idoso: a


tramitação processual prioritária” foi realizado com o objetivo de abordar as questões
pertinentes ao instituto processual da prioridade na tramitação no que tange aos
idosos.
O trabalho apresenta sua estrutura definida em quatro capítulos, sendo que
no primeiro, aborda-se a questão dos direitos sociais sob a ótica do princípio da
igualdade, vez que são direitos que nasceram abraçados a ela.
No capítulo seguinte tem a situação do idoso, ainda na órbita do princípio da
igualdade, passando pela conjuntura do idoso ao logo da história, do direito à
velhice, assim como considerações quanto aos efeitos do Estatuto do Idoso sob a
ótica da Constituição Federal, bem como dos princípios constitucionais de acesso à
justiça, efetividade, razoável duração do processo e celeridade processual, além do
princípio da prioridade absoluta, norma fundamental para existência e compreensão
do instituto da tramitação processual prioritária para o idoso.
No capítulo III, traça-se uma retrospectiva das normas existentes em nosso
ordenamento jurídico que culminaram na tramitação processual prioritária, através
de retrospectiva dos direitos sociais que levaram à positivação do instituto, haja vista
que, com o surgimento dos direitos sociais, o Estado passou a pautar sua ordem
jurídica de forma que a jurisdição pudesse alcançar sua finalidade precípua, qual
seja, a eliminação dos empecilhos que impedem o amplo acesso à justiça, bem
como afastar a possibilidade da negativa da prestação jurisdicional. Assim, o
legislador ordinário arrazoou a criação do instituto da tramitação processual
prioritária, ápice dos dispositivos processuais que visam à defesa dos interesses dos
idosos.
Esse instituto foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela Lei nº.
10.173, de 09 de Janeiro de 2001, que acrescentou os artigos 1211-A, 1211-B,
1211-C ao Código de Processo Civil e que, com a promulgação do Estatuto do
Idoso, Lei nº. 10. 741/2003 foram parcialmente revogados, pois o estatuto prevê em
seu artigo 71 a tramitação processual prioritária para os idosos, ou seja: pessoas
com idade igual ou superior a sessenta anos, sendo que a lei fazia menção à idade
de sessenta e cinco anos para ter direito ao benefício.
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O instituto consagrou-se com a edição da Emenda Constitucional nº. 45 de


2004, que instituiu entre o rol de direitos fundamentais a razoável duração do
processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação, haja vista que o
fator tempo, principalmente no âmbito do direito processual, é uma preocupação
constante e se reflete na edição de diversos diplomas normativos que tentam
minorar seus efeitos sobre a prestação jurisdicional, buscando aliar a celeridade à
efetividade processual, entre os quais destaca-se a tramitação processual prioritária.
Após a constitucionalização do princípio da razoável duração dos processos,
vários atos normativos brasileiros conferiram preferência ao trâmite processual de
indivíduos em condições de vulnerabilidade, caracterizando-se, em especial, idosos
e pessoas gravemente enfermas.
O presente trabalho trata da tramitação processual prioritária, somente no
que tange ao idoso, pois conforme as alterações introduzidas pela Lei 12.008/2009,
que modificou os artigos 1211-A, 1211-B, 1211-C ao Código de Processo Civil, não
só os idosos poderão ser beneficiados pela prioridade na tramitação processual,
mas também pessoas acometidas por enfermidades graves que comprovem dentro
do processo essa circunstância, pois a demora do Judiciário é prejudicial a todas as
pessoas e a intenção do legislador foi favorecer aqueles que, muitas das vezes,
dependem do provimento judicial para dar continuidade a uma vida digna.
Em suma, os quatro capítulos do presente trabalho mostram o longo e
tortuoso caminho percorrido pela tramitação processual prioritária até ela se
consagrar no Estatuto do Idoso, no Código de Processo Civil e finalmente na
Constituição Federal através da celeridade processual e da razoável duração do
processo.
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CAPÍTULO I

1. DIREITOS SOCIAIS FUNDAMENTAIS DE SEGUNDA DIMENSÃO

Ubi societas, ibi ius. Onde há Sociedade, há o Direito. A Sociedade precisa


do Direito para regular suas relações. O Direito, por sua vez, não teria razão de
existir se não houvesse a sociedade. A Sociedade, com sua dinâmica é que
impulsiona a evolução do Direito.
Com os direitos humanos fundamentais não seria diferente. Os direitos
humanos não são estáticos no tempo. Modificam-se conforme as mudanças
históricas, as transformações e as necessidades da sociedade e na medida em que
as possibilidades permitem a sua efetivação. O rol de direitos do homem de hoje não
é o mesmo de sempre, nem será o mesmo para sempre.
Como bem sublinha Norberto Bobbio

Direitos que foram declarados absolutos no final do século XVIII, como a


propriedade sacre inviolable foram submetidos a radicais limitações nas
declarações contemporâneas, direitos que as declarações do século XVIII
nem sequer mencionavam, como os direitos sociais, são agora proclamados
com grande ostentação nas recentes declarações. Não é difícil prever que,
no futuro, poderão emergir novas pretensões que no momento nem sequer
podemos imaginar, como o direito a não portar armas contra a própria
vontade, ou o direito de respeitar a vida também dos animais e não só dos
homens (BOBBIO, 2004, p.38).

Os direitos fundamentais de segunda geração, também chamados de


direitos coletivos ou de coletividade dominaram o século XX. São os direitos sociais,
culturais e econômicos que foram introduzidos na ordem constitucional depois que
as revoluções sociais colocaram fim ao Estado Liberal e idealizaram Estado Social,
um Estado provedor de direitos sociais. Tais direitos nasceram arraigados ao
princípio da igualdade, sem o qual jamais teriam razão de existir.
A partir da Primeira Guerra Mundial, da Revolução Industrial e os problemas
que surgiram com o capitalismo, a ideia de que o Estado deveria ser visto como um
aliado da população e não mais como um inimigo, parecia ser a mais sensata, pois
somente o Estado poderia aprovisionar à sociedade seus direitos sociais, essenciais
para restituir a igualdade entre seus membros.
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Os direitos sociais fizeram germinar a consciência de que tão essencial


quanto salvaguardar o indivíduo, conforme havia ocorrido na concepção clássica dos
direitos da liberdade, era resguardar a instituição, uma realidade social aberta à
valoração dos indivíduos como um todo.
O Estado Liberal proporcionou o Estado Social, estado que permitiu fossem
garantidos os direitos fundamentais, sobretudo à liberdade, porém, as liberdades
individuais conquistadas no século XVIII não foram suficientes à obtenção da
dignidade humana.
O homem que estava livre da arbitrariedade e absolutismo do Estado passou
a precisar de sua ajuda para se defender e satisfazer não somente às suas
necessidades, mas de toda a coletividade. Ao lado dos direitos individuais de
liberdade, deveriam estar os direitos sociais da coletividade.
Manuel Gonçalves Ferreira Filho sintetiza bem este fenômeno:

Ao mesmo tempo em que a produção cresce velozmente, beneficiando os


capitalistas, a miséria e a exploração colhiam os que, juridicamente livres e
iguais em direitos aos donos das máquinas, deviam alugar-se aos mesmos
para ter o pão de que viver (FERREIRA FILHO, 1984, p. 277).

O Estado, então, ao invés de ficar inerte frente à sociedade que clamava por
um posicionamento seu, passou a atuar de maneira positiva nas relações
socioeconômicas, garantindo-lhes a tão aclamada igualdade, pautada na busca da
dignidade humana.
Os ideais socialistas foram os precursores dos direitos sociais, conforme
leciona Fábio Konder Comparato “os direitos sociais surgiram como criações do
movimento socialista, que sempre colocou no pináculo da hierarquia de valores a
igualdade de todos os grupos ou classes sociais, no acesso às condições de vida
digna” (COMPARATO, 2007 p. 35).
No início de 1848 – o ano do Manifesto Comunista – um vendaval político
varreu a Europa Ocidental, ameaçando colocar por terra, em pouco tempo, o edifício
conservador e imperial, que o Congresso de Viena erigira em 1815. As palavras de
ordem eram: nacionalismo, trabalho e liberdade. Iniciando-se com a revolução
popular de Paris em 24 de fevereiro, em questão as poucas semanas o movimento
estendeu-se, como um rastilho de pólvora, ao sudoeste da Alemanha, Baviera,
Áustria, Hungria, Lombardia, os Estados Pontifícios e a Itália meridional. Foi a
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“primavera dos povos”, que retrocedeu, porém, em pouco tempo, a um rigoroso


inverno político. Com a mesma velocidade do seu desencadeador, o movimento
insurrecional foi sufocado e seus líderes mortos, presos ou deportados.
(COMPARATO, 2007 p. 174).
A revolta popular de Paris, irrompida em 23 de fevereiro de 1848, visou
claramente não só à derrubada do rei, mas à reinstauração da República, nos
moldes do espírito revolucionário de 1792 e 1793 e então se decidiu convocar de
imediato uma assembleia constituinte. (COMPARATO, 2007 p. 174).
A Constituição francesa de 1848 reconheceu algumas exigências do
operariado. Entretanto, a plena afirmação dessa nova dimensão dos direitos
fundamentais só veio a ocorrer no século XX, por intermédio da Constituição
Mexicana de 1917 e da Constituição de Weimar de 1919, nas quais os direitos
econômicos e sociais foram inicialmente positivados (COMPARATO, 2007, p. 54).
A Carta Política mexicana de 1917 foi a primeira a atribuir aos trabalhistas à
qualidade de direitos fundamentais, ao lado das liberdades individuais e dos direitos
políticos (arts. 5º e 123). Tal precedente histórico mostra-se relevante se
considerarmos que na Europa a consciência de que os direitos fundamentais
também possuem uma dimensão social só se afirmou após a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), sendo que nos Estados Unidos, ainda, hoje, a ideia de
extensão dos direitos fundamentais ao campo socioeconômico é largamente
contestada. (COMPARATO, 2007, p. 178)
A Constituição Mexicana de 1917, reagindo ao sistema capitalista, foi a
primeira a prever a desmercantilização da força de trabalho, reconhecendo a
igualdade substancial entre as posições jurídicas dos trabalhadores e dos
empresários no âmbito da relação contratual que os permeia. (COMPARATO, 2007,
p. 181)
Outro marco importante foi promulgação da Constituição Alemã de Weimar,
em 1919, que assim como a Constituição Mexicana consagrava os direitos sociais,
como os direitos trabalhistas, à educação, à seguridade social e previdência,
proteção à maternidade, limitação da jornada de trabalho, direito a terra, à
assistência social, entre outros.
Importante observar, dentro deste contexto, que a Constituição de Weimar
exerceu decisiva influência sobre a evolução das instituições políticas em todo o
Ocidente. Confirmando este entendimento:
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O Estado da democracia social, cujas linhas-mestras já haviam sido


traçadas pela Constituição mexicana de 1917, adquiriu na Alemanha de
1919 uma estrutura mais elaborada, que veio a ser retomada em vários
países após o trágico interregno nazifascista e a Segunda Guerra Mundial.
A democracia social representou efetivamente, até o final do século XX, a
melhor defesa da dignidade humana, ao complementar os direitos civis e
políticos – que o sistema comunista negava – com os direitos econômicos e
sociais, ignorados pelo liberal-capitalismo. De certa forma, os dois grandes
pactos internacionais de direitos humanos, votados pela Assembleia Geral
das Nações Unidas em 1966, foram o desfecho do processo de
institucionalização da democracia social, iniciado por aquelas duas
Constituições do início do século. (COMPARATO, 2007, p. 192-193)

A partir destes marcos outros países adotaram um modelo de Constituição


Social, no Brasil, teve inicio com a Constituição de 1934, que também passou a se
dedicar à regulação da Ordem Econômica e Social.
Mas foi a Constituição da República de 1988 que consolidou no Brasil os
direitos sociais, abrangendo como fundamentos da República a dignidade da pessoa
humana e o valor social do trabalho, assim como a erradicação da pobreza e a
criação de uma sociedade justa, solidária e pluralista, além do reconhecimento e
estabelecimento de uma gama de direitos sociais.
Sintetizando todo este processo tem-se que o Estado Social não foi algo que
se instituiu e, com o tempo, teve fim, mas sim um Estado que se iniciou no século
XX, idealizado por Karl Marx, e hoje, após ter se amoldado e se desenvolvido junto
com a sociedade se solidificou no chamado Estado de Direito, cujo ponto de
chegada é o Estado Democrático de Direito, o qual se estabeleceu visando garantir
os direitos econômicos, culturais e sociais.
Nas palavras de Tayara Talita Lemos

O Estado Social ofereceu solução à insuficiência do Estado Liberal e


resolveu os conflitos sociais através da satisfação das necessidades, mas
não foi capaz de evitar o totalitarismo, uma vez que os ideais do Estado
Social compatibilizavam-se com a centralização do poder. (...) Assim, para
minimizar os efeitos antidemocráticos que o Estado Social causou (por mais
estranho que isso possa parecer), surge o Estado Democrático de Direito.
Nesse modelo, o Estado traz à democracia um caráter universalizante,
posto que se funda na efetiva partilha de poder entre os cidadãos. Ademais,
o Estado Democrático de Direito reconhece de forma universal, e não
apenas no âmbito intraestatal, os direitos fundamentais, revelando-se como
o modelo mais eficaz na garantia dos direitos humanos. Esse modelo
revela-se também como síntese e superação do modelo de Estado Liberal e
Social. Dessa maneira, ficam resguardados alguns de seus traços, como a
manutenção de direitos e garantias antes assumidos, mas também declara
outros direitos fundamentais, além de buscar a sua efetivação universal. O
Estado Democrático de Direito está intimamente desligado/afastado do
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liberalismo, no qual se dava mais valor a não intervenção do Estado, fosse


ela por meio da legislação ou por meio de execuções diretas. É uma
renovação do Estado Social e do Estado Liberal. A ampliação do
reconhecimento e da proteção dos direitos individuais ocorre por meio de
uma ampla positivação desses direitos e sua constitucionalização material
(LEMOS, 2009, p. 4).

1.2 O princípio da igualdade

Para Jean Jacques Rousseau “se indagarmos em que consiste


precisamente o maior de todos os bens, que deve ser o fim de qualquer sistema de
legislação, chegaremos à conclusão de que ele se reduz a estes dois objetivos
principais: a liberdade e a igualdade” (ROUSSEAU, 2001, p. 62).
Sob o signo da igualdade surgiram os direitos sociais.
O princípio da igualdade, no Estado Social, deixou de ser analisado apenas
sob a ótica formal – perante à lei- para significar a igualdade na lei, permitindo,
assim, o tratamento diferenciado entre pessoas que se encontrassem em situações
jurídicas distintas, em busca da realização da igualdade.
A partir dessa nova concepção, o que é vedado são as diferenciações
arbitrárias. O tratamento desigual de casos diferentes na justa medida da
heterogeneidade, em conformidade com as finalidades amparadas pelo direito é
exigência em que se funda o Estado Democrático. Sob esta ótica, o princípio da
igualdade serve de direção tanto ao legislador, ao editar a lei, como ao Poder
Judiciário, na aplicação da lei e, sobretudo, ao particular, na escolha da adoção de
suas condutas.
Alexandre de Moraes citando Montesquieu salienta que “o verdadeiro
espírito da igualdade está longe da extrema igualdade, tanto quanto o céu da Terra.
Os homens nascem iguais, mas a sociedade os faz perder esta igualdade, e o
homem só se torna igual ao outro novamente através das Leis” (MORAES, 1997, p.
68).
O conceito de igualdade material se ampara na premissa de que todos os
seres humanos devem ser tratados de forma equânime, devendo todos estar
equiparados no que diz respeito às possibilidades de concessão e desfrute de
oportunidades, uma vez todos possuem o mesmo grau de dignidade humana.
Na igualdade material, as oportunidades, devem ser oferecidas para todos,
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tanto na busca pela apropriação dos bens materiais, quanto na busca pelo
aprimoramento espiritual.
A igualdade material é um princípio que rege a norma programática.
Sobre as normas programáticas, ensina J. J. Gomes Canotilho:

O problema das “imposições constitucionais” coloca-se hoje nos


seguintes termos: existem preceitos constitucionais que
constituem verdadeiras “ordens” de actuação positiva dirigidas,
sobretudo ao legislador, no sentido de este emitir uma ou várias
leis de execução, simultâneas ou sucessivas, e necessárias: (1) à
conformação jurídica de situações de facto; (2) à regulamentação
de questões específicas; (3) à criação de pressupostos
necessários para nova evolução do regime constitucional; (4) à
adaptação das leis antigas aos novos princípios da lei
fundamental. Os termos amplos em que se define o âmbito das
imposições constitucionais procuram intencionalmente captar
várias intenções de uma “ordem constitucional”. Um ponto
essencial se pode detectar na descrição das imposições
constitucionais: elas não constituem direito “self executing”,
necessitando da “interpositio” do legislador (ou de outros órgãos
constitucionais) no sentido da sua transformação em direito actual”
(CANOTILHO, 1994, p. 297).

Normas programáticas, na definição de Jorge Miranda são:

De aplicação diferida, e não de aplicação ou execução imediata;


mais do que comandos-regras explicitam comandos valores;
conferem elasticidade ao ordenamento constitucional; têm como
destinatário primacial - embora não único - o legislador, a cuja
opção fica a ponderação do tempo e dos meios que vêm a ser
revestidas de plena eficácia (e nisso consiste a
discricionariedade); não consentem que o cidadão ou quaisquer
cidadãos invoquem já (ou imediatamente após a entrada em vigor
da Constituição), pedindo aos Tribunais o seu cumprimento só por
si, pelo que pode haver quem afirme que os direitos que delas
constam, máxime os direitos sociais, têm mais natureza de
expectativas que de verdadeiros direitos subjetivos; aparecem,
muitas vezes, acompanhadas de conceitos indeterminados ou
parcialmente indeterminados. (MIRANDA, 1990, p. 218)

Maria Helena Diniz, sobre o tema, ensina:

As normas constitucionais programáticas são as em que o


constituinte não regula diretamente os interesses ou direitos nela
consagrados, limitando-se a traçar princípios a serem cumpridos
pelos poderes públicos (Legislativo, Executivo e Judiciário) como
programas das respectivas atividades, pretendendo unicamente a
consecução dos fins sociais pelo Estado. (DINIZ, 2009, p. 114).

E ainda sintetizando o conceito de norma programática tem–se o


entendimento do Prof. José Afonso da Silva que normas programáticas “são aquelas
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que traçam princípios a serem cumpridos pelos órgãos estatais (legislativo,


executivo, judiciário e administrativo) visando à realização dos fins sociais do
estado”. (SILVA, 2010, p. 138).
A instauração da igualdade material no plano legislativo infraconstitucional
visa dar efetividade prática às normas constitucionais, inclusive, às normas
programáticas.
Igualdade material é tratar de modo desigual os desiguais na exata medida
de suas desigualdades.
José Afonso da Silva examina o preceito constitucional da igualdade como
direito fundamental sob o prisma da função jurisdicional:

A igualdade perante o Juiz decorre, pois, da igualdade perante a lei, como


garantia constitucional indissoluvelmente ligada à democracia. O princípio
da igualdade jurisdicional ou perante o juiz apresenta-se, portanto, sob dois
prismas: (1) como interdição ao juiz de fazer distinção entre situações
iguais, ao aplicar a lei; (2) como interdição ao legislador de editar leis que
possibilitem tratamento desigual a situações iguais ou tratamento igual a
situações desiguais por parte da Justiça (SILVA, 2010, p. 221).

Nélson Nery Júnior procura expressar a repercussão do princípio


constitucional da igualdade, no âmbito do Direito Processual Civil, da seguinte forma:

O Artigo 5º, caput , e o inciso n. I da CF de 1988 estabelecem que todos são


iguais perante a lei. Relativamente ao processo civil, verificamos que os
litigantes devem receber do juiz tratamento idêntico. Assim, a norma do
artigo 125, n. I, do CPC, teve recepção integral em face do novo texto
constitucional. Dar tratamento isonômico às partes significa tratar
igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida de
suas desigualdades (NERY JÚNIOR, 1999, p. 42).

O ordenamento jurídico constitucional brasileiro dá mais ênfase ao que


dispõe a igualdade formal, ou seja, garante igualdades e algumas desigualdades,
desde que positivas com vistas ao bem comum.
Como afirmou Rui Barbosa ao discursar para os formandos em Direito da
Universidade de São Paulo em 1920, e resgatando a proposta de igualdade
pugnada por Aristóteles, que “a regra da igualdade não consiste senão em quinhoar
desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualam. Nessa desigualdade
social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da
igualdade” (BARBOSA, 2003, p. 39).
Neste mesmo sentido, Alfredo Augusto Becker salienta que:
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Desde logo, cumpre ter sempre bem claro, que o referido princípio de
igualdade é o da igualdade geométrica (proporção) e não o da igualdade
aritmética (quantidade). Partindo-se do fato científico de que os homens são
iguais na Biologia e na Psicologia, a evolução social tem sido no sentido de
se igualizarem geometricamente os homens em tudo que seja desigualdade
aritmética de indivíduo para indivíduo. E esta gradual e sempre maior
tendência à igualdade geométrica entre os indivíduos, que a evolução
humana tem revelado, é regida pelo princípio de igualdade que consiste em
tratar desigualmente aos indivíduos desiguais, na proporção em que eles se
desigualam (BECKER, 1998, p.194-195).

E reforçando a idéia de desigualdade, cumpre observar que a desigualdade


na lei se produz no momento em que a norma diferencia de modo não razoável ou
arbitrário um tratamento específico a pessoas diversas, ou seja, como afirma
Alexandre de Moraes:

Para que as diferenciações normativas possam ser consideradas não


discriminatórias, torna-se indispensável que exista uma justificativa objetiva
e razoável, de acordo com critérios e juízos valorativos genericamente
aceitos, cuja exigência deve aplicar-se em relação à finalidade e efeitos da
medida considerada, devendo estar presente por isso uma razoável
relação de proporcionalidade entre os meios empregados e a finalidade
perseguida, sempre em conformidade com os direitos e garantias
constitucionalmente protegidos (MORAES, 1997, p. 67).

A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988, abre


o título dos direitos e garantias fundamentais afirmando no "caput" do art. 5º que
"todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza". A igualdade de
todos prevista neste artigo deve se compatibilizar com o princípio da dignidade da
pessoa humana e com os objetivos definidos no art. 3º. Portanto, não basta ao
Estado se abster de discriminar, mas deve também atuar positivamente no sentido
da redução das desigualdades e da inclusão social.
Conforme Alexandre de Moraes

A Constituição Federal de 1988 adotou o princípio da igualdade de direitos,


prevendo a igualdade de aptidão, uma igualdade de possibilidades virtuais,
ou seja, todos os cidadãos tem o direito de tratamento idêntico pela lei, em
consonância com os critérios albergados pelo ordenamento jurídico. Dessa
forma o que se veda são as diferenciações arbitrárias, as discriminações
absurdas, mostrando-nos que o tratamento dos casos desiguais, na medida
em que se desigualam, é exigência do próprio conceito de Justiça.
(MORAES, 1997, p. 67).
24

E ao tecer seus comentários a respeito dos objetivos fundamentais da


República que também se pautam na igualdade, Alexandre de Moraes faz a
seguinte observação:

Os poderes públicos devem buscar os meios e instrumentos para promover


condições de igualdade real e efetiva e não somente contentar-se com a
igualdade formal, em respeito a um dos objetivos fundamentais da
República: construção de uma sociedade justa. Para adoção desse preceito
deve existir uma política legislativa e administrativa que não pode contentar-
se com a pura igualdade legal, adotando normas especiais tendentes a
corrigir os efeitos díspares ocasionados pelo tratamento igual dos desiguais
(MORAES, 1997, p. 76).

Assim, os direitos sociais caracterizam-se como direitos traçados pela busca


da igualdade entre os indivíduos e que, para se tornarem materialmente eficazes
demandam à ingerência ativa e continuada do Poder Público, demandando uma
espantosa diversidade de políticas públicas que devem ter por objetivo a sua
concretização, ao passo que os direitos individuais fundamentais exigem do Estado
apenas a sua não violação. É o princípio da igualdade que impulsiona a acepção a
qual os direitos sociais mostram-se essenciais à liberdade do indivíduo.
25

CAPÍTULO II

2. TUTELA DOS DIREITOS DOS IDOSOS NO BRASIL

2.1 Situação do idoso na sociedade ao longo do tempo

A palavra “idoso” vem do latim, do substantivo aetas, palavra feminina que


corresponde a idade ou espaço de tempo, da qual se originou a palavra idade
(VILAS BOAS, 2005, p. 42). O Estatuto do Idoso considera como tal, aquele que
tenha sessenta anos de idade ou mais.
A História nos mostra que o idoso exerceu diferentes e importantes papéis
na formação da sociedade.
Nas primeiras civilizações o número de idosos era muito pequeno, eram
poucos os que conseguiam chegar a uma idade mais avançada devido às condições
precárias da época, sobretudo as de alimentação, higiene e saúde. Os poucos que
existiam exerciam papéis de suma importância onde viviam, pois eram os chefes de
família, considerados guias espirituais e religiosos e principalmente fonte de
experiência, conhecimento e sabedoria, a quem os mais novos deviam respeito e
obediência.
Com o passar dos anos, a sociedade vai se transformado, deixando de
desenvolver as atividades tipicamente agropecuárias, para se tornar uma sociedade
voltada para o capital e, consequentemente, uma sociedade urbanizada e industrial,
sendo que a partir daí a consideração e estima dada à sabedoria, ao conhecimento
e à experiência dos idosos, dá lugar privilegiado à valorização da força física e à
capacidade produtiva do homem, relegando aos velhos a condição de ser humano,
marginalizado, decadente e inútil em razão do decaimento de seu vigor físico,
próprio da idade.
Os avanços tecnológicos, buscando sempre a melhoria na qualidade de vida
e a longevidade permitiram que as pessoas começassem a viver mais. Logo nos
países, onde isso ocorreu primeiro (países desenvolvidos) o que se viu foi a inversão
da pirâmide demográfica aumentado o número de idosos e diminuindo
significativamente a população de crianças de jovens.
26

No Brasil, caminha-se para o mesmo fenômeno, pois segundo os resultados


do Censo realizado pelo IBGE em 2010, a população idosa aumentou de forma
significativa1, sendo este, um dos fatores que torna necessária a atuação por parte
do poder público no que diz respeito à programação de políticas públicas que
atendam essa faixa etária, e por parte da sociedade espera-se a superação dessa
visão capitalista que valoriza apenas o ser humano que produz e que trata o idoso
como o “maior abandonado”, esquecendo que foram eles que construíram a
sociedade, o conhecimento que nós adquirimos e que cada um é a extensão de um
idoso.

2.2 O direito à velhice

Velhice é fato, é algo que não se pode fugir. Só não envelhece aquele que
morre jovem. Hoje envelhecer é diferente do que era há 100 ou 50 anos, isso,
porque para muitos, as condições de vida em sociedade não permitia envelhecer.
Contudo, o envelhecimento da população é um fato que já não pode mais ser
desconsiderado. Hoje mais pessoas estão vivendo mais e melhor, longevidade essa,
proporcionada pelos avanços da medicina e da tecnologia, além da preocupação
das próprias pessoas em viver mais com qualidade de vida e exercendo plenamente
os seus direitos.
Tem-se que, se os direitos fundamentais não são assegurados aos
indivíduos quando ainda eles são crianças, adolescentes e adultos, estes
simplesmente perdem o direito de se tornarem idosos, o que leva a simples
conclusão que, tornar-se idoso é um direito humano fundamental, já que é a própria
expressão do direito à vida, que precisa ser garantida até quando a natureza
biológica indicar.
O direito à vida não se traduz em oferecer apenas as condições de vida,
mas de vida social do idoso para que possa exercer a cidadania em todos os
sentidos, ou seja, participar do desenvolvimento da sociedade, usufruir dos direitos
assegurados a ele e ser respeitado em seus direitos.
Portanto, a velhice, ou seja, tornar-se idoso, é um direito humano
1
O Resultado do Censo 2010, trás a informação de que “O alargamento do topo da pirâmide etária pode ser
observado pelo crescimento da participação relativa da população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em
1991, passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010.” Resultados Censo 2010. www.ibge.gov.br.
27

fundamental, porque é expressão do direito à vida com dignidade, direito essencial


de todos os seres humanos e para a positivação, eficácia e efetividade deste direito,
é imprescindível a elaboração de políticas públicas que visem esses indivíduos.

2.3 Tutela constitucional do idoso

O idoso, pessoa humana que é, goza de todos os direitos fundamentais


inerentes a essa qualidade, direitos estes que estão estampados em todo o nosso
sistema jurídico.
Com a promulgação da Constituição Federal em 1988, quando se solidificou
o Estado Democrático de Direito, e à pessoa humana foi conferida primazia, tendo
subordinado o poder público à ordem democrática fundamental é que os direitos,
tanto individuais, quanto sociais ganharam eficácia.
Os direitos sociais, segundo José Afonso da Silva,

São prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou


indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam
melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar
a igualização de situações desiguais. Dessa forma, possibilita ao indivíduo
exigir do Estado prestações positivas e materiais para a garantia de
cumprimento desses direitos (SILVA, 2010. p. 286).

A atual Constituição, de forma generalizada no artigo 1º, inciso III, trouxe o


princípio da dignidade humana, que para Immanuel Kant é uma qualidade inerente
ao ser humano, sendo “fundamento da dignidade da natureza humana e de toda
natureza racional” (KANT, 1960, p.79).
Nossa carta Magna erige a dignidade da pessoa humana como princípio
norteador de toda a interpretação constitucional, norteando inclusive o direito de
igualdade, dando o entendimento de que a distribuição de direitos independe das
características externas, condição financeira, gênero, cor e, sobretudo a idade do
indivíduo. Ainda em seu artigo 3º estipula que um dos objetivos da República
Federativa do Brasil é promover o bem de todos sem preconceito ou discriminação
em face da idade da pessoa.
Além desses dispositivos, que de certa forma são genéricos, a Constituição
trouxe também, os artigos 229 e 230, considerados direitos sociais, e assim, não
necessitariam de lei infraconstitucional para serem efetivados, pois uma vez
28

inseridos na Constituição, seriam suficientes para garantir e assegurar a proteção ao


idoso.
Vale dizer, conforme destaca Sampaio que:

(...) a Carta Política vigente, como nenhuma anteriormente o fez, dedicou


vários versículos às pessoas idosas e, ainda, no pertinente à velhice fala na
assistência social, na proteção que se deve dar aos velhos [...] , sobre o
amparo e o dever que os filhos maiores têm na ajuda dos genitores na
velhice, na carência ou nas enfermidades. (SAMPAIO, 2004, p. 2)

A Constituição Federal estendeu aos idosos os direitos sociais que até então
não estavam elencados constitucionalmente. Assim, houve um grande avanço na
proteção aos direitos dos idosos na Lei Maior, garantindo a eles o exercício de sua
cidadania.
A tutela constitucional do idoso se inicia de forma indireta já no art. 3º da CF:
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do
Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades
sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação.

E se estende ao artigo 6º que trata dos direitos sociais:


Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a
segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Há ainda outro artigo na Constituição que menciona o idoso:


Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma de regime geral,
de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que
preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da lei,
a: (...) § 7º É assegurada aposentadoria no regime geral de previdência
social, nos termos da lei, obedecidas as seguintes condições: (...) II -
sessenta e cinco anos de idade, se homem, e sessenta anos de idade, se
mulher, reduzido em cinco anos o limite para os trabalhadores rurais de
ambos os sexos e para os que exerçam suas atividades em regime de
economia familiar, nestes incluídos o produtor rural, o garimpeiro e o
pescador artesanal.

A tutela ao idoso se dá de forma explicita e direta por ocasião do artigo 203,


da CF:

Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar,


independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por
objetivos: I - a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência
e à velhice; (...) V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à
pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir
29

meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família,


conforme dispuser a lei.

Assim como no artigo 229:

Art. 229. Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e
os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice,
carência ou enfermidade.

E finalmente o artigo 230 que amplia o rol dos responsáveis pelo idoso,
considerando como tais a família, a sociedade e o Estado, aos quais é imposto o
dever de promover os direitos sociais e de bem estar, a fim de garantir a dignidade
deles.

Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as


pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo
sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.§ 1º - Os
programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em
seus lares.§ 2º - Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a
gratuidade dos transportes coletivos urbanos.

Apesar de todos os dispositivos acima transcritos estarem inseridos na


Constituição Federal, o que se observa é que há a necessidade de elaboração de
legislação infraconstitucional para tutelar os direitos constitucionalmente previstos,
tal como o Estatuto do Idoso, porque não é sempre que a Constituição consegue
externar a sua força normativa.
A força normativa da Constituição refere-se à efetividade plena das normas
contidas na Carta Magna de um Estado. O princípio da força normativa da
constituição foi vislumbrado por Konrad Hesse, que afirmava que toda norma
Constitucional deve ser revestida de um mínimo de eficácia, sob pena de figurar
“letra morta em papel” (HESSE, 1991, p.19).
Hesse afirma que a Constituição não configura apenas o “ser” (os princípios
basilares que determinam a formação do Estado), mas um dever ser, ou seja, a
Constituição deve incorporar em seu bojo a realidade jurídica do Estado, estando
conexa com a realidade social (HESSE, 1991, p.19)
Para Konrad Hesse:

Os pressupostos que permitem à Constituição desenvolver sua força


normativa referem-se tanto ao conteúdo da Constituição quanto à
práxis constitucional. Enunciaremos abaixo os principais requisitos:
Quanto mais o conteúdo de uma Constituição lograr corresponder à
30

natureza singular do presente, tanto mais seguro há de ser o


desenvolvimento de sua força normativa. Isso lhe há de assegurar,
enquanto ordem adequada e justa, o apoio e a defesa da consciência
geral. Deve também a Constituição mostrar-se em condições de
adaptar-se a uma eventual mudança dessas condicionantes (sociais,
políticas, econômicas, e principalmente as referentes ao estado
espiritual de seu tempo). Por fim, a Constituição não deve assentar-se
numa estrutura unilateral, se quiser preservar a sua força normativa
num mundo em processo de permanente mudança político- social.
Deve, então, incorporar, mediante meticulosa ponderação, parte da
estrutura contrária. Pois caso a Constituição ultrapasse os limites de
sua força normativa, a realidade haveria de pôr termo à sua
normatividade, derrogando os princípios que ela buscava concretizar.
O desenvolvimento da força normativa da Constituição não depende,
como dito, só do conteúdo da Constituição, mas também de sua
práxis. A concepção de vontade de Constituição deve ser partilhada
por todos os partícipes da vida constitucional. O comprovado respeito
à Constituição é fundamental, sobretudo naquelas situações onde sua
observância revela-se incômoda (HESSE, 1991, p. 20-22).

Assim, fez-se necessário a regulamentação dos direitos dos idosos, que


exigem prestações positivas para se tornarem efetivos, o que foi feito por meio de
legislações infraconstitucionais.

2.4 O estatuto do idoso

Depois de anos de discussão, regulamentando o art. 230 da Carta Política e


complementando a Lei que institui a Política Nacional do Idoso, finalmente foi
aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado no dia 1º de outubro de 2003, pelo
presidente da República, a Lei 10.741/03, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso.
O Estatuto dispõe regras e procedimentos para a formulação e execução
das políticas públicas, destinados à população com sessenta anos ou mais, que no
próprio Estatuto é definido como idoso. A aprovação dessa Lei teve como
fundamento principal a necessidade de uma legislação garantidora dos direitos dos
idosos, vindo regulamentar a Política Nacional do Idoso, Lei nº. 8.842, de 4 de
janeiro de 1994 que dispõe sobre a política nacional do idoso – PNI, criando o
Conselho Nacional do Idoso e tendo como objetivo assegurar os direitos sociais do
idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação
efetiva na sociedade, bem como regulamentar os artigos 229 e 230.
A Lei 8.842/94, meramente programática, estabeleceu princípios e diretrizes
para promover os direitos dos idosos, no entanto, foi falha na efetivação dos
mesmos, conforme esclarece a promotora de justiça Sandra de Oliveira Julião:
31

No que se refere aos direitos dos idosos, apesar da Lei 8.842/94, não houve
uma efetiva implementação das políticas públicas nela estabelecidas para
assegurar tais direitos. Da mesma forma, o Estado não se instrumentalizou
para assegurar aquilo que havia sido previsto em lei. E, o pior, não havia
nenhuma previsão legal de qualquer penalidade para o caso de omissão ou
descumprimento daquilo que estava disposto naquela legislação, que é
meramente programática. (JULIÃO, 2004, p. 12)

A implantação do Estatuto demonstrou a preocupação da sociedade


brasileira com o seu novo perfil populacional. O aumento da expectativa de vida
proporcionado pela melhoria das condições de saneamento básico, bem como pelos
avanços da medicina, e a redução das taxas de mortalidade e natalidade
proporcionam, cada vez mais, ao Brasil, não ser um país apenas de jovens, pois
segundo o IBGE, no censo realizado em 2010, o Brasil contou mais de 18 milhões
de pessoas acima dos 60 anos de idade, o que já representa 12% da população
brasileira.
Esse perfil populacional exigiu do Estado e da sociedade ações efetivas
voltadas à garantia dos direitos fundamentais das pessoas idosas.
O Estatuto do Idoso, conforme enuncia seu art. 1º, é destinado a regular os
direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.
Assim, para o ordenamento jurídico nacional é considerado idoso a pessoa que
tenha completado 60 anos ou mais. A pessoa completa 60 anos exatamente no
primeiro segundo do dia em que faz aniversário, independentemente da hora do dia
em que tenha nascido.
O Estatuto do Idoso, conforme adverte Uadi Lammego Bulos em sua obra
sobre Direito Constitucional, assegurou os direitos constitucionais que foram então
implementados por referida lei:

Os direitos e garantias fundamentais dos idosos, por assim dizer, ganharam,


com o advento da Lei n. 10741/2003, um valiosíssimo impulso legislativo,
cujo escopo foi 'amparar a terceira idade'. Nesse sentido tem entendido o
STF em seus julgados, corroborando o fato da 'terceira idade' ter merecido
tutela constitucional destacada, providência muito oportuna, pois o respeito
aos idosos deve ser levado a sério, em todos os seus termos. (BULOS,
2007, p. 1334).

Os direitos dos idosos foram, portanto, reconhecidos com a Lei nº 10.741/03,


que estabeleceu benefícios e garantias à terceira idade, além de penas severas
àqueles que desrespeitarem ou abandonarem os idosos.
32

O artigo 2º do Estatuto visando ainda assegurar aos idosos, as


oportunidades e facilidades, para preservação, de sua saúde física e mental e seu
aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade,
dignidade e felicidade consagrou o princípio magno que rege todos os dispositivos
do Estatuto do Idoso: o princípio da proteção integral.
Comentando o Estatuto do Idoso Hélio Abreu Filho, afirma que:

O espírito do Estatuto está nas normas gerais que referem sobre a proteção
integral; a natureza e essência encontram-se no artigo 2º, quando
estabelece a gama de direitos do idoso e visualiza sua condição como ser
constituído de corpo, mente e espírito – já prevê a preservação de seu bem
estar físico, mental e espiritual – e identifica a existência de instrumentos
que assegurem seu bem estar por lei ou outros meios. (ABREU FILHO,
2004, p. 10).

O Estatuto do Idoso é uma das leis mais avançadas e modernas já criadas


no Brasil, compreendendo cinco grandes tópicos: Direitos fundamentais, conforme
definidos na Constituição Federal; Medidas de Proteção ao idoso em estado de risco
pessoal ou social; Política de Atendimento, por meio da regulação e do controle das
entidades que atendem ao idoso; Acesso à Justiça, com a determinação de que o
idoso tem prioridade nos trâmites judiciais e a competência do Ministério Público na
defesa do idoso e Crimes em Espécie, instituindo-se novos tipos penais para
condutas lesivas aos direitos dos idosos. (DAVID, 2003, p. 78). É fruto de uma nova
realidade, que não pode sob nenhuma hipótese ser desconsiderada, qual seja, o
envelhecimento da população brasileira.
Ao longo de seus 118 artigos, o EI traz uma legislação capaz de ensejar
profundas mudanças através dos mecanismos de garantia da implementação de
suas normas com a previsão de fiscalização e sanção, educação e conscientização
da sociedade.
De certa forma o Estatuto seguiu a diretrizes já existentes na Política
Nacional do Idoso, contudo, não criou tão-somente direitos para os idosos, mas um
sistema inteiro de proteção ativa.

2.5 Principio da Absoluta Prioridade

Prioridade, segundo o mais popular dos dicionaristas brasileiros, AURÉLIO


BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA é: 1. Qualidade do que está em primeiro lugar,
33

ou do que aparece primeiro; primazia. 2. Preferência dada a alguém relativamente


ao tempo de realização de seu direito, com preterição do de outros; primazia. 3.
Qualidade duma coisa que é posta em primeiro lugar, numa série ou ordem
(FERREIRA, 2011, p.710).
ABSOLUTA, segundo o mesmo “Aurélio” (hoje sinônimo de dicionário de
nossa língua), significa ilimitada, irrestrita, plena, incondicional (FERREIRA, 2011,
p.39).
A soma dos vocábulos revela o sentido do princípio: qualificação dada aos
direitos assegurados à população idosa, a fim de que sejam exercidos com primazia
sobre quaisquer outros.
Nos moldes previstos na lei 9.069/90, o Estatuto da Criança e do
Adolescente – ECA, o art. 3º da lei 10.741/03 estabelece o princípio da prioridade
absoluta na efetivação dos direitos fundamentais dos idosos.
No ECA a prioridade absoluta está prevista no art. 4º:

Art. 4º.É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do


poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos
referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer,
à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária.

Assim como na Constituição se faz presente no art. 227:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança


e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária,
além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão.

A prioridade absoluta para os idosos se faz presente somente no âmbito da


legislação infraconstitucional, posto que o idoso, diferentemente da criança
encontra-se em pleno exercício de sua cidadania, de sua liberdade e de seus
direitos.
O artigo 3º. caput, do Estatuto do Idoso, dispõe exatamente sobre a
prioridade no direito à vida, saúde, alimentação, educação, cultura, esporte, lazer,
trabalho, cidadania, liberdade, dignidade respeito e convivência familiar e
comunitária, que obrigatoriamente deverá ser assegurada solidariamente pela
família, comunidade e o Poder Público nos mesmos padrões do artigo 230 da CF.
34

o
Art. 3 É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder
Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do
direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao
lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à
convivência familiar e comunitária.

A intenção da Constituição Federal, bem como do Estatuto do Idoso não é


de visualizar o homem a partir das etapas da vida, entretanto, esta divisão se dá afim
de que sejam implementadas políticas públicas diferenciadas, para assegurar os
direitos fundamentais de cada homem, de acordo com suas necessidades
específicas, ou seja, na medida de sua desigualdade.
A garantia de prioridade compreende atendimento preferencial imediato e
individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à
população; preferência na formulação e na execução de políticas sociais públicas
específicas; destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas
com a proteção ao idoso; viabilização de formas alternativas de participação,
ocupação e convívio do idoso com as demais gerações; priorização do atendimento
do idoso por sua própria família, em detrimento do atendimento asilar, exceto dos
que não a possuam ou careçam de condições de manutenção da própria
sobrevivência; capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de
geriatria e gerontologia e na prestação de serviços aos idosos; estabelecimento de
mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de caráter educativo sobre
os aspectos biopsicossociais de envelhecimento e garantia de acesso à rede de
serviços de saúde e de assistência social locais.
Para Hélio Abreu Filho o Estatuto do Idoso:

(...) estabelece um sistema jurídico-político institucional que se propõe a


garantir os direitos dos idosos, protegendo-os da ação ou omissão da
sociedade ou do Estado, da falta, omissão ou abuso da família ou ainda em
razão da própria conduta do idoso (art. 43). Na realidade o Estatuto de
propõe a regular um sistema de garantias dos direitos fundamentais e de
cidadania, sem prejuízo da proteção integral. Esse sistema de garantia
jurídico-político-institucionais compreende a priorização absoluta da
efetivação dos direitos, a descentralização político administrativa e a
participação da população (...). A prioridade absoluta está embasada no
“princípio da prevalência do melhor interesse do idoso.(ABREU FILHO,
2004, p.22)

O Estatuto do Idoso foi criado para preservar os direitos dos idosos, evitar
discriminação e marginalização das pessoas nessa faixa etária, pois tendo a Ciência
35

desenvolvido instrumentos capazes de prolongar a vida do homem, oferecendo


tecnologia, proteção e segurança, a Lei, a Sociedade e o Direito não poderiam ficar
alheias a todo esse processo, assim para aprimorar o tratamento jurídico e social
dispensados aos idosos é que se elaborou acertadamente o Estatuto do Idoso,
calcado no princípio da prioridade absoluta.
O Estatuto do Idoso é, sem dúvida, em termos de garantia aos direitos
fundamentais e sociais, a lei mais aclamada existente no Brasil, tendo evoluído
bastante no âmbito de proteção ao idoso quando previu a prioridade absoluta. No
entanto, é também uma das mais desconhecidas pelos próprios idosos que em sua
grande maioria não tem conhecimento dos direitos a eles inerentes, sendo também
largamente desrespeitada pelo poder público no que diz respeito à elaboração de
políticas públicas, assim como pela sociedade que inúmeras vezes deixa de
observar e aplicar o direito do idoso.
36

CAPÍTULO III

3. OS DIREITOS CONSTITUCIONAIS QUE LEVAM À TRAMITAÇÃO


PRIORITÁRIA

3.1 A Tutela Constitucional do Processo

A Constituição é sem dúvida a norma orientadora de toda a teoria do


processo, assim como é a norma que orienta todo arcabouço jurídico. No dizer de
Enrico Tullio Liebman citado por Luiz Guilherme Marinoni:

O estudo dos institutos do processo se é realizado ignorando ou


negligenciando a ligação com outros ramos do direito e em particular com o
direito constitucional, torna-se um tedioso e estéril cômputo de formalidades
e de termos; ele adquire, ao contrário, o seu verdadeiro significado e se
enriquece de razões diversamente importantes quando é entendido como o
estudo do aparato indispensável de garantias e de procedimentos,
estabelecido para a defesa dos direitos fundamentais do homem, no rigor da
disciplina necessária de uma função pública (MARINONI, 1999, p.18).

Com o surgimento dos direitos sociais, o Estado passou a preocupar-se com


a efetividade da prestação jurisdicional, conforme dito linhas atrás. A garantia de
acesso à justiça deixou de ser apenas formal e passou a consistir no direito do
cidadão a uma ordem jurídica justa. Para tanto, fez-se necessário além da criação
de mecanismos aptos a tutelarem o direito assegurado, como as ações
constitucionais que asseguram a observância dos direitos fundamentais, a
eliminação de barreiras que impedem a jurisdição de realizar os fins estatais.
O que se observa é que com o decorrer dos anos as ciências do Direito, vêm
sofrendo profundas influências dos preceitos constitucionais.
Tal acepção é apontada por Paulo Bonavides, o qual denota que:

[...] o sentido peculiar em que envolveu o constitucionalismo moderno, que


não segue a rota do individualismo tradicional, favorecido e amparado pela
separação clássica, mas envereda pelos caminhos do social, visando não
apenas a afiançar ao Homem os seus direitos fundamentais perante o
Estado (princípio liberal), mas, sobretudo, a resguardar a participação
daquele na formação da vontade deste (princípio democrático), de modo a
conduzir o aparelho estatal para uma democracia efetiva, onde os poderes
públicos estejam capacitados a proporcionar ao indivíduo soma cada vez
mais ampla de favores concretos (BONAVIDES, 2010, p. 65-66).
37

Segundo Luis Antônio Longo “do vínculo entre o Direito Constitucional e o


Direito Processual Civil nasce para o cidadão uma série de garantias inerentes ao
estado democrático, garantias que têm como ponto de partida os princípios
processuais constitucionais, que não se resumem àqueles positivados pelo
ordenamento jurídico” (LONGO, 2003, p.35).
A garantia da inafastabilidade de acesso à justiça apresenta-se como um
direito assegurado a cada um dos jurisdicionados individualmente, e, também, à
própria coletividade em obter do Estado a prestação jurisdicional sempre que
presente lesão ou ameaça de direito. Na Constituição de 1988, observa-se que tal
princípio está previsto no art. 5º, XXXV, in verbis: “a lei não excluirá da apreciação
do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.
Na Carta Magna de 1988 o legislador positivou a impossibilidade de excluir
do Judiciário a lesão ou a ameaça a direitos, sem fazer referência a serem esses
direitos individuais como se tinha nas Constituições anteriores, dirigindo-se
atualmente a todos os direitos individuais, coletivos ou difusos, ou seja, todos têm
acesso à justiça para postular tutela jurisdicional preventiva ou reparatória
relativamente a um direito.
Segundo se extrai do art. 1º do Código de Processo Civil jurisdição é o poder
que o Estado detém para aplicar o direito a um determinado caso, com o objetivo de
solucionar conflitos de interesses e, com isso, resguardar a ordem jurídica e a
autoridade da lei.
A análise etimológica da expressão "jurisdição" mostra a presença de duas
palavras do latim: juris, que significa direito e a palavra dictio, que significa dizer. E
esse "dizer o direito", que o Estado chama para si a responsabilidade, transforma-se
em uma função, ou melhor, em poder. E esta função do Estado é própria do Poder
Judiciário (CORREIA, 2010, p.48).
A jurisdição é a garantia de existência do Estado Democrático de Direito, a
permanência e manutenção do ordenamento jurídico, e a respeitabilidade à
Constituição Federal no que se reporta à obediência aos seus princípios, valores e
vontades.
A jurisdição opera por meio dos juízes de direito e tribunais regularmente
investidos, jurisdição é atividade do juiz, quando aplica o direito, em processo
regular, mediante a provocação de alguém que exerce o direito de ação.
A noção de jurisdição como poder-dever de aplicar o direito ao caso
38

concreto, compondo os conflitos de interesses surge quando o Estado chama para si


essa tarefa. Ao proibir a autotutela e vedando aos particulares a composição dos
conflitos de interesses sem a intervenção estatal, disponibiliza-se o direito de ação,
instrumento pelo qual resta autorizado ao indivíduo provocar a tutela jurisdicional
estatal sempre que direito individual, coletivo ou difuso seja violado ou no prenúncio
de o ser, assegurando-se ao máximo o acesso à justiça (CORREIA, 2010, p.47).

3.2 O acesso à justiça

O acesso à justiça, garantia constitucional, insculpida no art. 5º, inciso XXXV,


da Constituição Federal, o direito à ação (art. 2º, do CPC), bem como o de ter um
processo direcionado à entrega do direito material de maneira efetiva e eficaz (art.
262, do CPC) a todos os jurisdicionados, independente de posição econômica,
social, cultural, propiciando que o Estado alcance o propósito de prestar a jurisdição,
a que se desincumbiu (CARPENA, 2003, p. 20).
Mais do que um direito público subjetivo, é a ação e por consequência o
acesso à justiça um poder constitucionalmente conferido aos cidadãos. Por outro
lado, o poder de ação coloca o Estado em situação de dever, o dever de prestar a
jurisdição, bem como de fazê-lo de forma mais eficiente para o exercício da
cidadania. (CORREIA, 2010, p.65).
O acesso à justiça não fica somente reduzido ao sinônimo de acesso ao
Judiciário e suas instituições, mas sim, a uma ordem de valores e direitos
fundamentais para o ser humano (CESAR, 2002, p. 51).
Na verdade, por acesso à justiça deve-se entender como a proteção a
qualquer direito, sem qualquer restrição. Não sendo somente a garantia formal da
defesa dos direitos e o de acesso aos tribunais, mas também, a garantia de proteção
material desses direitos, assegurando a todos os cidadãos, independente de
qualquer condição social ou mesmo de idade.
Com esse parâmetro conota-se que não se limita somente ao individuo ater-
se aos procedimentos de acesso à justiça normatizada e praticada pelo Estado. A
esse se deve total atenção e respeito para enquadrar àqueles que do Poder
Jurisdicional necessitam e precisam ver efetivado um direito (TORRES, 2005, p.85).
39

Em resumo, o Estado precisa ter mecanismos os quais solucionem os


conflitos, e por esta lógica, exigem-se instrumentos que efetivamente atendam aos
direitos dos cidadãos. Obter a justiça para todos é garantia primordial do Estado, não
restringindo ao Judiciário, todavia, visando à realização da ordem jurídica justa e
equitativa.
A partir desse princípio tem-se entendido que o texto constitucional, em sua
essência, garante uma tutela qualificada contra qualquer forma de denegação da
justiça, abarcando situações processuais e substanciais.
Tal desígnio tem servido de apoio à concepção de um sistema processual
que efetivamente tutele todos os direitos, seja pelo esforço interpretativo que procure
suprir as eventuais imperfeições, seja pela atribuição a certos institutos processuais,
que possui a função de cobrir as falhas existentes no sistema processual
(WATANABE, 2000, p. 27).
Desse modo é a observação de Kazuo Watanabe ao referir que o princípio
da inafastabilidade da jurisdição “deve ser entendido não como uma garantia formal
de bater às portas do Poder Judiciário, mas, sim, como garantia de acesso à ordem
jurídica justa, consubstanciada em uma prestação jurisdicional célere, adequada e
eficaz” (apud DIDIER JR, 2007, p. 38).
Segundo Sérgio Gilberto Porto, ao se referir à garantia de acesso à Justiça
“[...] esta garantia não se resume apenas ao ingresso da ação ou pleito frente ao
Judiciário, mas, sim, vai muito mais longe, tendo guarida durante todo o processo,
enquanto instrumento de efetivação do direito material ameaçado ou violado,
reclamado ao Estado” (PORTO, 2003, p.19).
Desse modo tem-se hodiernamente desenvolvido a compreensão de que
não basta garantir o acesso ao Judiciário, mas esse acesso deve dar uma resposta
efetiva aos jurisdicionados, razão pela qual o legislador, em especial, tem inovado o
sistema jurídico pátrio com a edição de leis que contemplem esse escopo. A
previsão da tramitação processual prioritária no ordenamento jurídico brasileiro, que
mais a frente será abordada, é uma delas.
O princípio da inafastabilidade da jurisdição visa garantir a todos o direito de
acesso à justiça por meio do exercício do direito de ação e de defesa, restando
assegurada uma prestação jurisdicional efetiva.
Assim, tem-se que o acesso à Justiça, é algo mais amplo do que a simples
demanda do juízo. A prestação jurisdicional de forma efetiva encontra uma série de
40

obstáculos, em relação ao próprio processo enquanto instrumento realizador do


direito material.
No que tange o acesso do idoso à justiça, primeiramente a Lei nº 10.173, de
09 de Janeiro de 2001, instituiu o direito dos litigantes idosos a uma preferência de
tramitação a ser observada nos procedimentos em que figure pessoa de idade igual
ou superior a sessenta e cinco anos como parte ou interveniente acrescentando os
arts. 1.211-A, 1.211-B, 1.211-C do CPC, sendo a mesma posteriormente revogada
pela Lei 12.008/2009 que reduziu a idade para sessenta anos, nos moldes do art.
71, caput do Estatuto do Idoso.
Esta regra beneficia tanto o autor como o réu e, ainda, o terceiro
interveniente. A razão do tratamento especial é intuitiva: o litigante idoso não tem
perspectiva de vida para aguardar à lenta e demorada resposta jurisdicional e, por
isso, merece um tratamento processual, mais célere, a fim de poder, com
efetividade, se prevalecer da tutela jurisdicional.
Em suma, enquanto o acesso à justiça pode ser visto como uma garantia
fundamental do homem, o acesso prioritário dos idosos à jurisdição reflete a
necessidade de se mudar os paradigmas sócio-institucionais da questão, tendo em
vista as peculiaridades da população idosa. (SOUZA, 2012, p. 145).

3.2.1 O acesso prioritário à justiça

O acesso à justiça não é garantia de efetividade dos direitos


constitucionalmente positivados, especificamente dos idosos, sobretudo porque o
processo é um mecanismo complexo, e muita das vezes é também moroso. Desta
feita é latente a necessidade de atender prioritariamente o idoso perante o judiciário
e demais órgãos da administração.
Em um modelo ideal e até utópico de prestação jurisdicional todos teriam a
satisfação de seus interesses em um prazo razoável, pois justiça tardia é,
verdadeiramente, uma forma de injustiça.
Segundo, Rosmar Antonini Rodrigues Cavalcanti de Alencar o acesso
prioritário à justiça pode abranger quatro situações distintas: 1) a prioridade etária
incondicionada, 2) a prioridade etária condicionada, 3) a prioridade temática, 4) e a
prioridade passiva.
A prioridade etária incondicionada é aquela que assegura ao idoso a
41

preferência de tramitação dos processos sempre que for uma das partes litigantes. A
simples comprovação da idade e da condição de idoso basta para garantir o acesso
prioritário à prestação jurisdicional. Seu fundamento doutrinário está em garantir
isonomia processual ao idoso em conflito com pessoa que esteja em melhores
condições de expectativa de vida (ALENCAR, 2008, p. 339).
A prioridade etária incondicionada pode ser mostrar abusiva pois pressupõe
que todo idoso estará com pouca expectativa de vida ao atingir os 60 anos de idade,
ideia comprovadamente equivocada (SANTOS, 2012, p. 147).
Já a prioridade etária condicionada vincula o deferimento da garantia à
constatação de que a questão em conflito está relacionado à tutela de direito
fundamental específico dos idosos, v.g., a proibição de discriminação por idade,
conforme dispõe o artigo 96 do Estatuto do Idoso que criminaliza a conduta de
descriminação da pessoa por motivo de idade. (SANTOS, 2012, p. 147).
A prioridade temática é aquela em que os processos deverão receber
atenção prioritária de tramitação e julgamento quando a questão colocada perante o
Poder Judiciário tiver relação com o processo de envelhecimento ou a tutela difusa e
coletiva dos direitos dos idosos. (SANTOS, 2012, p. 147).
Trata-se de medida afirmativa de proteção e de promoção, a favor dos
idosos, com o objetivo de contribuir para a eliminação das desigualdades sociais,
jurídicas e institucionais, de modo a assegurar o gozo da igualdade substancial, em
relação a outros setores da população. (SANTOS, 2012, p. 147).
A prioridade temática de acesso à justiça é, portanto, uma garantia de
prioridade à tutela coletiva de direitos. (SANTOS, 2012, p. 147).
No que tange à área penal a prioridade processual passiva conceitua-se
como aquela destinada a proteger o idoso que se encontra privado da liberdade em
razão da prática de crime e como regra, estabelecem-se mecanismos de
agravamento das penas quando a vítima do crime for pessoa idosa, porém, somente
concedem benefícios ao acusado idoso quando o mesmo atinge idade avançada ou
é acometido de moléstia incapacitante, procurando a adoção de medidas
alternativas à privação da liberdade do idoso acusado ou condenado pela prática de
crime e a adoção de providências para a melhor individualização da execução da
pena privativa de liberdade. (SANTOS, 2012, p. 148).
Finalmente, tem-se que o acesso prioritário também se concretiza com a
criação e a implementação de órgãos judiciários especializados no julgamento das
42

questões relacionadas ao envelhecimento.


No sistema brasileiro, a Lei Federal nº 10.741/2003 (Estatuto do Idoso)
estabelece que o Poder Público deverá criar juízos especializados e exclusivos para
idosos, conforme previsão do artigo 70, do EI, contudo o que se vê é que no Brasil,
em 2010, haviam 14.410 juízes de primeiro grau (CNJ, s/f), porém, o Conselho
Nacional de Justiça identificou, até 26/3/12, a existência de apenas 264 órgãos
jurisdicionais especializados na questão dos idosos (1,83%) (SANTOS 2012, p.148).
Nas regiões sudeste e sul do Brasil, consideradas as mais populosas, com
56,5% da população brasileira (IBGE, 2010), e detentoras do maior movimento
judiciário do país, haviam criado somente 123 juízos especializados ou
semiespecializados (SANTOS 2012, p.148).
.
3.3 O princípio da efetividade

O Princípio da Efetividade é, sem dúvida, forma de exercício pleno da


garantia do acesso à Justiça.
Em razão de sua previsão no Pacto de San José da Costa Rica, ratificado
pelo Brasil, tem-se o direito a um processo com duração razoável. A Convenção
Americana de Direitos Humanos, Pacto San José da Costa Rica, no art. 8, I,
estabelece:

Toda pessoa tem o direito a ser ouvida com as devidas garantias e dentro
de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e
imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer
acusação penal formulada contra ela, ou para que se determinem os seus
direitos ou obrigações de natureza cível, trabalhista, fiscal ou de qualquer
natureza.

Teori Albino Zavascki foi feliz ao referir que sob a denominação de direito à
efetividade de jurisdição queremos designar o conjunto de direitos e garantias que a
Constituição atribuiu ao indivíduo que provoca a atividade jurisdicional ao reivindicar
bem da vida de que se considera titular, por ser impedido de fazer justiça pelas
próprias mãos (autotutela). A estes são assegurados meios expeditos e eficazes de
exame da demanda a serem apreciados pelo Estado (ZAVASCKI, 2007, p.66).
Então, o Estado, que detém o privilégio exclusivo do poder jurisdicional,
43

deve impulsionar sua atividade com mecanismos processuais adequados para


garantir a utilidade da sentença, a aptidão dela para garantir, em caso de vitória, a
efetiva e prática concretização da tutela.
Esse direito fundamental à tutela jurisdicional implica no reconhecimento da
existência de um direito à proteção jurisdicional adequada e efetiva.
Para Daniel Mitidiero “a tutela deverá ser efetiva, por realizar em tempo hábil
a prestação jurisdicional, dispondo de meios para a outorga da proteção às partes. A
efetividade da tutela jurisdicional traduz uma preocupação com a especificidade e a
tempestividade da proteção judicial”. (MITIDIERO, 2012, p. 92-94).
O resultado da demanda deve ser o mais favorável possível ao direito
material, em tempo razoável às partes. É evidente que tutela efetiva não é sinônimo
tão somente de tutela prestada rapidamente: entretanto, seguramente não é efetiva
a tutela prestada a destempo.
Ademais, quanto mais demorada a tutela, maior o dano que experimenta a
parte que tem razão. É fundamental, portanto, que o processo ofereça meios para
que seja concedida a proteção tempestiva às partes o que, aliás, é dever
constitucional do Estado, sobretudo para os idosos, que em regra tem o curso da
vida abreviada, dado justamente a sua idade.
Ainda para Daniel Mitidiero, “a efetividade da tutela jurisdicional reclama uma
prestação jurisdicional tempestiva, sem descurar do ideal de justiça e do devido
processo legal, por consistir no vínculo teleológico entre meio e fim, entre o
instrumento processual e a tutela prometida pela Constituição ao direito material”.
(MITIDIERO, 2012, p. 93).

3.4 A celeridade processual e a razoável duração do processo

Do princípio da efetividade desdobram-se os princípios da celeridade


processual e da razoável duração do processo. Ambos, nascidos
constitucionalmente com a reforma do Judiciário, ou seja, com a Emenda
Constitucional nº 45, de 2004, que estabeleceu no artigo quinto: Art. 5º caput, inciso
LXXVIII “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável
duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”.
Tal dispositivo constitucional surgiu impulsionado pelos anseios da
44

sociedade que espera que o Poder Público na pessoa do Estado-Juiz, possa


idealizar condições necessárias para o exercício efetivo da jurisdição calcada no
princípio da eficiência.
A ideia de duração razoável do processo está ligada à efetividade da
prestação da tutela jurisdicional, num período razoável, visando atingir o escopo da
utilidade, sem, todavia, sacrificar o ideal de justiça da decisão.
A garantia à razoável duração do processo e aos meios que garantam a
celeridade de sua tramitação não deve ser entendida em termos absolutos, quando
a própria norma relativiza, ao se referir um critério: a razoabilidade. O que se quer
evitar, portanto, são dilações indevidas sem uma prestação jurisdicional acelerada,
que ponha em risco a qualidade da entrega da prestação jurisdicional
(GUAGLIARIELLO, 2007, p. 02).
A demora do processo sempre foi um entrave para a efetividade do direito
de acesso à justiça. Não tem sentido que o Estado proíba a justiça de mão própria e
não confira ao cidadão um meio adequado e tempestivo para a solução dos
conflitos. Se o tempo do processo prejudica a parte que tem razão, seria
ingenuidade imaginar que a demora do processo não beneficia justamente àqueles
que não têm interesse no cumprimento das normas (MARINONI, 2004, p. 02).
Seguindo a lição de J. J. Canotilho, “ao demandante de uma proteção
jurídica deve ser reconhecida à possibilidade de, em tempo útil [...], obter uma
sentença executória com força de caso julgado”. E, prossegue o renomado autor
Português: “a justiça tardia equivale a uma denegação da justiça”. (CANOTILHO,
2003, p. 499).
Proteção judicial em tempo adequado não quer dizer justiça acelerada, pois
esta significa a diminuição de garantias materiais que pode conduzir a uma justiça
pronta, mas materialmente injusta.
Para Guagliariello,

Não se pode olvidar que tanto o direito ao processo célere, quanto o direito
ao contraditório e à ampla defesa, direitos e garantias, em princípio, não
devem conflitar, mas se harmonizar na busca da efetividade. Da mesma
forma, se de um lado da balança encontramos o princípio da celeridade do
processo, que visa a sua utilidade, não podemos sacrificar o ideal de justiça
da decisão, que demanda um processo dialético-cognitivo exauriente que,
por sua vez, demanda tempo. É por isso que o Poder Constituinte Derivado
inseriu mecanismo harmonizador ao determinar que a duração do processo
seja razoável. (GUAGLIARIELLO, 2007, p. 02).
45

Diante disso, visando estabelecer um ponto de equilíbrio entre a celeridade e


o devido processo legal, “volta o discurso sobre a instrumentalidade das formas no
procedimento e a séria advertência sobre a sua função vital no direito processual
moderno” (DINAMARCO, 2008, p. 344).
É por esta razão que se faz necessária à adoção de mecanismos (meios e
procedimentos) que visam um acesso cada vez mais adequado à justiça para tornar
o processo mais justo e efetivo, sobretudo para os idosos, que, teoricamente, já não
têm tempo e nem podem aguardar a morosidade da justiça.
46

Capítulo IV

4. A TRAMITAÇÃO PROCESSUAL PRIORITÁRIA

4.1 Prioridade na Tramitação processual para o idoso

A longa duração do processo é, sem dúvida, a maior barreira à entrega da


prestação jurisdicional.
Não é raro que o proveito obtido com as demandas ajuizadas seja usufruído
pelos descendentes das partes, haja vista o longo período de tempo que leva a
solução do processo. A demora no curso de um processo na justiça decorre de
vários fatores.
Primeiro, a falta de estrutura adequada do Poder Judiciário caracterizada
pelo enorme número de processos por juiz, a escassez e baixa qualificação dos
serventuários da justiça aliada à má remuneração e ainda os vários casos de
corrupção, além da gama de recursos cabíveis das decisões judiciais.
Muitas vezes, uma ação é decidida em primeira instância em menos de um
ano, mas a interposição de inúmeros recursos, com intento específico de protelar o
final da demanda faz com que o processo arraste-se durante anos.
Além destes, outros fatores, também graves impedem o cidadão de acessar
a justiça, como: o desconhecimento do próprio direito, que é umas das
consequências do baixo grau de instrução formal da população brasileira, o temor de
represálias em função do ajuizamento da ação e ainda o descrédito no Poder
Judiciário.
No caso dos idosos, a delonga no processo é ainda mais grave já que à
evidência, o idoso não pode esperar pela longa duração do processo.
Assim, os obstáculos enumerados acima impedem o Estado de prestar ao
cidadão, sobretudo ao cidadão idoso, a atividade jurisdicional de forma justa como
lhe é assegurado constitucionalmente e também nas legislações infraconstitucionais,
como por exemplo, o Estatuto do Idoso.
Neste contexto, o legislador ordinário adotou uma série de medidas
processuais visando conceder a maior eficácia à jurisdição e a minimização dos
47

obstáculos do acesso à justiça, como: a instituição de procedimentos especiais, a


previsão dos Juizados Especiais para causas de valor menos elevado e que não
exijam prova pericial complexa, a limitação às hipóteses de cabimento de alguns
recursos, a previsão da assistência judiciária gratuita da Lei nº. 1.060/50 e
principalmente a prioridade de tramitação dos processos judiciais para o idoso e
também para os portadores de doença grave (art. 1211-A do CPC) de forma a
conferir ao processo a maior eficácia possível.
No presente trabalho monográfico a questão da tramitação prioritária será
abordada somente no que tange ao idoso.
A norma constitucional é o princípio fundamental para a tramitação
prioritária, sobretudo porque ela é subprincípio dos princípios constitucionais de
efetividade previstos no artigo 5º, incisos XXXV e LXXVII, que tratam do acesso à
justiça, da razoável duração do processo e da celeridade processual.
Embora tenha aparecido no ordenamento jurídico pátrio antes da edição do
inciso LXXVII, é a Constituição Federal que oferece respaldo para que a tramitação
processual prioritária exista e se efetive como instituto de direito processual.
Os princípios constitucionais, ao lado da Política Nacional do Idoso e do
Estatuto do Idoso, foram todos promulgados com o intuito principal de assegurar aos
jurisdicionados idosos um acesso efetivo à justiça.
Os princípios constitucionais, segundo Luís Roberto Barroso são:

O conjunto de normas que espelham a ideologia da Constituição, seus


postulados básicos e seus fins. Dito de forma sumária, os princípios
constitucionais são as normas eleitas pelo constituinte como fundamentos
ou qualificações essenciais da ordem jurídica que institui (BARROSO, 1999,
p. 147).

Segundo Carlos Henrique Abrão, “a regra excepcional do benefício da


tramitação prioritária veio ao encontro da situação nacional, de congestionamento e
fluxo contínuo de processos, cuja demora assusta de sobremaneira o
jurisdicionado”. (ABRÃO, 2012, p.44).
A prioridade na tramitação dos processos no âmbito do Poder Judiciário é
uma conquista merecida e justa aos idosos. A pessoa que chegou à velhice não
deve e nem tem condições de esperar durante alongado prazo para ver o seu caso
resolvido. Alencar enfatiza o significado desse direito:
48

A prioridade de tramitação para a pessoa idosa não significa que esta seja
mais digna que as demais pessoas, nem que o princípio da dignidade da
pessoa humana só se aplique aos idosos. Não. Em verdade, para se
entender que a relação entre prioridade de tramitação para as pessoas
idosas e o primado do homem atende ao postulado da isonomia, deve-se
ter presente a noção do princípio da diferença, consistente em uma
distribuição que melhore a situação de todas as pessoas – trazendo
benefício ao idoso que o iguale à pessoa que esteja em melhores condições
de expectativa de vida visando a efetivar a justiça social, especialmente
quando confere esperança à pessoa idosa de que seu conflito será
solucionado em prazo mais curto, aumentando, assim, a efetividade do
princípio da dignidade humana de forma compatível com o princípio da
igualdade. (ALENCAR, 2008, p.340).

A prioridade na tramitação dos processos é o ápice dos dispositivos


processuais que visam à defesa dos interesses dos idosos e concede ao longevo,
prioridade no trâmite processual, já que ele não pode esperar pela longa duração do
processo.

4.2 A prioridade na Lei 8.842/1994 – Política Nacional do Idoso

Buscando a efetividade dos princípios e dos direitos sociais constitucionais


bem como a positivação dos direitos dos idosos, em 4 de janeiro de 1994 foi
instituída a Lei nº. 8.842/94 que dispõe sobre a Política Nacional do Idoso – PNI.
A PNI pretendeu dar formato e efetivação ao disposto na CF, que a até então
era o documento mais sólido de declaração dos direitos dos idosos, possibilitando o
acesso destes aos postulados fundamentais inseridos na referida lei, inclusive o
direito à prioridade, objetivando, sobretudo, garantir ao idoso os direitos de
cidadania, além de assegurar os direitos sociais criando mecanismos e condições
adequadas para promover a autonomia, integração e participação efetiva deles na
sociedade.
Dessa forma tem-se que a PNI consiste em um conjunto de ações
governamentais, ou seja, políticas públicas, com o desígnio de afirmar os direitos
sociais dos idosos, atendendo às suas necessidades básicas relativas à educação,
saúde, habitação e urbanismo, esporte, trabalho, assistência social e previdência e o
acesso à justiça, mediante tutelas individuais ou coletivas.
Conforme a própria lei estabelece em seu artigo 4º, a PNI tem como
principais diretrizes norteadoras: atribuir competências a órgãos e entidades públicas
para atuar junto às organizações da sociedade civil representativas dos interesses
49

dos idosos, com vistas à formulação, implementação e avaliação das políticas,


planos e projetos, priorizando o atendimento dos idosos em condição de
vulnerabilidade e fomentando a discussão e o desenvolvimento de estudos
referentes à questão do envelhecimento.
A diretriz que trata da prioridade se dá nos seguintes termos:

Art. 4º Constituem diretrizes da política nacional do idoso: (...)


III - priorização do atendimento ao idoso através de suas próprias
famílias, em detrimento do atendimento asilar, à exceção dos idosos que
não possuam condições que garantam sua própria sobrevivência; (...)
VIII - priorização do atendimento ao idoso em órgãos públicos e privados;
(...)

Assim, referida lei foi a primeira legislação infraconstitucional a tratar do


instituto da prioridade na tramitação, no que diz respeito aos idosos, cuidando ainda
de regulamentar os artigos 229 e 230 da Constituição Federal.

4.3 A prioridade no código de processo civil

Após a Lei 8.842/1994, primeiro diploma normativo a tratar da prioridade


para os idosos, em 2001, a Lei nº. 10.173/2001 introduziu os artigos 1211-A, 1211-
B, 1211-C, no CPC, estabelecendo a tramitação prioritária para os idosos, nos
seguintes termos:

Art. 1211-A. Os procedimentos judiciais em que figura como parte ou


interveniente pessoa com idade igual ou superior a 65 (sessenta e cinco)
anos terão prioridades na tramitação de todos os atos e diligências em
qualquer instância.
Art. 1211-B. O interessado na obtenção desse benefício, juntando prova de
sua idade deverá requerê-lo à autoridade judiciária competente para decidir
o feito, que determinará ao cartório do juízo as providências a serem
cumpridas.
Art. 1211-C. Concedida a prioridade esta não cessará com a morte do
beneficiado, estendendo-se em favor do cônjuge supérstite, companheiro ou
companheira, com união estável, maior de 65 (sessenta e cinco) anos.

A Lei n°. 10.173/2001, orientada pelos princípios constitucionais do acesso à


justiça e da isonomia, já revogada, acrescentou os arts. 1.211-A, 1.211-B e 1.211-C
ao CPC, prevendo que mediante solicitação da parte cuja idade fosse superior ou
igual a 65 anos seria concedida a prioridade no trâmite do processo em qualquer
50

instância, buscando proporcionar ao jurisdicionado a partir de certa idade a devida e


justa entrega da prestação jurisdicional em vida.
Importante assinalar que o legislador ordinário ao definir o texto legal, tratou
de limitar a idade para concessão ao benefício, estipulando-a para sessenta e cinco
anos. Como se sabe, a Lei 8842/94 no seu artigo 2° preceitua que o idoso é a
pessoa maior de sessenta anos de idade.
Conclui-se, portanto, que o legislador à época, não garantiu ao idoso o
acesso à justiça de forma prioritária, mas sim garantiu ao maior de sessenta e cinco
anos este benefício.
O diploma legal informava ainda que, uma vez concedida, a prioridade não
cessaria pela morte do beneficiado, sendo estendida em favor do cônjuge supérstite,
companheiro ou companheira, com união estável, desde que também maior de
sessenta e cinco anos.
A verdade é que a preocupação do legislador ordinário foi estabelecer o
disposto nos artigos supramencionados fundamentado na análise social que
abrange a sociedade contemporânea. A prioridade de acesso à justiça ao individuo
com idade igual ou superior a sessenta e cinco anos, se deve ao fato de que uma
vez vencedor da demanda ajuizada, tenha este chance de gozar, ainda vivo, o bem
da vida pleiteado.

4.4 A prioridade na Lei 10.741/2003 - Estatuto do Idoso

Posteriormente à promulgação da Lei nº. 10.173/2001 a tramitação


processual prioritária foi tratada no Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) no artigo 71
e parágrafos, que inclusive foi o normativo legal que revogou a Lei n°. 10.173/2001.

Art. 71. É assegurada prioridade na tramitação dos processos e


procedimentos e na execução dos atos e diligências judiciais em que figure
como parte ou interveniente pessoa com idade igual ou superior a 60
(sessenta) anos, em qualquer instância.
o
§ 1 O interessado na obtenção da prioridade a que alude este artigo,
fazendo prova de sua idade, requererá o benefício à autoridade judiciária
competente para decidir o feito, que determinará as providências a serem
cumpridas, anotando-se essa circunstância em local visível nos autos do
processo.
o
§ 2 A prioridade não cessará com a morte do beneficiado, estendendo-se
em favor do cônjuge supérstite, companheiro ou companheira, com união
estável, maior de 60 (sessenta) anos.
51

o
§ 3 A prioridade se estende aos processos e procedimentos na
Administração Pública, empresas prestadoras de serviços públicos e
instituições financeiras, ao atendimento preferencial junto à Defensoria
Pública da União, dos Estados e do Distrito Federal em relação aos
Serviços de Assistência Judiciária.
o
§ 4 Para o atendimento prioritário será garantido ao idoso o fácil acesso
aos assentos e caixas, identificados com a destinação a idosos em local
visível e caracteres legíveis.

Revogando a disposição do CPC que dispunha sobre a tramitação prioritária


como direito aos que tinham idade igual ou superior a 65 (sessenta e cinco) anos, e
pautando-se pelo artigo 2ª da Política Nacional do Idoso, o Estatuto do Idoso definiu
como pessoa idosa aquela que possui idade igual ou superior a 60 anos (art. 1º do
EI) e por consequência como beneficiário da prioridade na tramitação dos
processos.
Dessa forma, a prioridade elencada no Código de Processo Civil passou a
ser lida em conformidade com a disposição do Estatuto, uma vez que por se tratar
de lei posterior e especial à redação da norma do CPC, os dispositivos acabaram
revogados, conforme inteligência da LICC – Lei de Introdução ao Código Civil, hoje
denominada Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro (Lei nº. 12.376 de 30
de dezembro de 2010).

Art. 2º da LINDB. Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor


até que outra a modifique ou revogue. §1° A lei posterior revoga a anterior
quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou
quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior.

Para Carlos Henrique Abrão “inspirou-se o legislador ordinário, nessa


quadra, pela construção da política nacional do idoso, revendo a Lei nº. 10.173, de
09 de janeiro de 2001, assegurando à pessoa idosa, com idade igual ou superior a
sessenta anos, a tramitação prioritária” (ABRÃO, 2012, p. 17).
O EI dispõe de um título dedicado ao Acesso à Justiça, nos artigos 69, 70 e
71, dispositivos que prevêem a possibilidade de criação de varas especializadas e
exclusivas do idoso (art. 70), e assegura a prioridade na tramitação dos processos e
procedimentos e na execução dos atos e diligências judiciais em que figure como
parte ou interveniente pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, em
qualquer instância (art.71).
52

Portanto, os três artigos do CPC ficaram tacitamente revogados com a


disposição do Estatuto do Idoso, (LINDB, art. 2.º §1.º), que prevê a prioridade na
tramitação processual para o idoso, quem seja os maiores de sessenta anos.
Referido artigo 71, como de resto todas as outras disposições normativas
contidas na Lei n° 10.741/2003, tem aplicação imediata no âmbito dos órgãos que
compõem o Estado, tanto por ser dispositivo que tem por finalidade fazer valer
direitos fundamentais, quanto por seu parágrafo terceiro dispor que a preferência se
estende aos processos e procedimentos na Administração Pública.
A observância do artigo 71 do Estatuto do Idoso, portanto, é obrigatória,
devendo ser aplicado não só nos processos judiciais como também nos processos e
procedimentos que tramitam na Administração Pública em geral.

4.5 A prioridade na Lei 12.008/2009 - Lei da tramitação processual


prioritária

Seis anos após a publicação do Estatuto do Idoso, o diploma normativo nº.


12.008/2009 de 29/07/2009, conhecido como lei da tramitação processual prioritária,
teve por finalidade adequar o texto do Código de Processo Civil às disposições
normativas do Estatuto do Idoso, e os artigos 1.211 A, B, C passaram a vigorar com
a seguinte redação:

Art. 1.211-A Os procedimentos judiciais em que figure como parte ou


interessado pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, ou
portadora de doença grave, terão prioridade de tramitação em todas as
instâncias.
Art. 1.211-B A pessoa interessada na obtenção do benefício, juntando prova
de sua condição, deverá requerê-lo à autoridade judiciária competente para
decidir o feito, que determinará ao cartório do juízo as providências a serem
cumpridas.
§ 1º Deferida a prioridade, os autos receberão identificação própria que
evidencie o regime de tramitação prioritária.
Art. 1.211-C Concedida a prioridade, essa não cessará com a morte do
beneficiado, estendendo-se em favor do cônjuge supérstite, companheiro ou
companheira, em união estável.

“O advento do EI foi o verdadeiro marco regulatório, procurando o legislador,


quando elaborou a Lei 12.008/2009, reduzir o tempo de duração do procedimento e,
com isso, respeitar os direitos da terceira idade” (ABRÃO, 2012, p. 17).
53

Já, para Eduardo Henrique Rufini, além de adequar a redação do EI, a lei
introduziu uma nova modalidade de beneficiados:

O principal motivo da modificação na norma processual não teve como


finalidade exclusiva adequar a redação ao disposto no Estatuto do Idoso,
mas sim introduzir uma nova modalidade de beneficiados. A partir de agora,
as pessoas acometidas por doenças graves terá o direito de gozar do
benefício da tramitação processual diferenciada. O legislador optou por
favorecer não somente os idosos, mas todos aqueles que possam sair
especialmente prejudicados com o alongamento injustificável da prestação
jurisdicional. É claro que a demora do judiciário é prejudicial a todas as
pessoas, independentemente de sua condição física, financeira ou de idade,
mas a intenção do legislador foi favorecer aqueles que, muitas das vezes,
dependem do provimento judicial para dar continuidade a uma vida digna,
em conformidade com o princípio da dignidade da pessoa humana. O
legislador também considerou que o perigo da demora injustificada na
prestação jurisdicional tem o poder de causar lesão grave ou de difícil
reparação à parte litigante. Dessa forma, resta claro que todas as pessoas
acometidas por enfermidades graves podem sofrer prejuízos irreparáveis
derivados da demora na tramitação processual, como o simples fato de não
poderem desfrutar de um direito reconhecido, em razão do próprio
falecimento causado pela enfermidade. (RUFINI, Eduardo Henrique.
Principais alterações introduzidas pela Lei nº 12.008/2009. Novos
mecanismos jurídicos adotados para a celeridade na tramitação processual.
Jus Navigandi, Teresina, ano 14, n. 2268, 16 set. 2009 . Disponível em:
<http://jus.com.br/artigos/13516>. Acesso em: 26 jul. 2013).

A Lei 12.008/2009 acrescentou o §1º ao art. 1.211-B do Código de Processo


Civil. Quanto ao art. 1.211-C, houve alteração considerável no que tange à
abrangência do benefício, pois a redação do artigo mencionado deixa claro que
concedido benefício, esse não cessará com a morte do beneficiado, estendendo-se
em favor do cônjuge supérstite, companheiro ou companheira, em união estável,
independentemente da idade, excluindo a expressão "maior de 65 anos" da antiga
redação. Além de alterar os artigos supramencionados do Código de Processo Civil,
a Lei 12.008/2009 tratou também de adicionar o art. 69-A à lei 9.784 de 1999, que
regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal.
O artigo adicionado passa a vigorar com a seguinte redação:

"Art. 69-A. Terão prioridade na tramitação, em qualquer órgão ou instância,


os procedimentos administrativos em que figure como parte ou interessado:
I - pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos;
II - pessoa portadora de deficiência, física ou mental;
III – (VETADO)
IV - pessoa portadora de tuberculose ativa, esclerose múltipla, neoplasia
maligna, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia
grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia
grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte
deformante), contaminação por radiação, síndrome de imunodeficiência
54

adquirida, ou outra doença grave, com base em conclusão da medicina


especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída após o início do
processo.
§ 1º A pessoa interessada na obtenção do benefício, juntando prova de sua
condição, deverá requerê-lo à autoridade administrativa competente, que
determinará as providências a serem cumpridas.
§ 2º Deferida a prioridade, os autos receberão identificação própria que
evidencie o regime de tramitação prioritária".

As modificações trazidas pela Lei 12.008/09 são ferramentas formidáveis


para colaborar com uma prestação jurisdicional justa, digna e célere a quem se
socorre na via judicial, em respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana,
constitucionalmente assegurado a todos os cidadãos brasileiros e estrangeiros
residentes em território brasileiro, e neste caso específico, aos idosos.

4.6 Do requerimento à concessão do benefício para o idoso

O requerimento para que o feito tramite com prioridade será feito pela
parte que assim desejar, podendo ser pleiteado em petição apartada ou mesmo na
peça inicial, ou quando for o caso, na contestação, juntando documento de forma a
comprovar a idade igual ou superior a sessenta anos.
Para Carlos Henrique Abrão o requerimento se dá seguinte forma:

“Comumente, regra geral, o polo ativo mostra interesse de pleitear o


benefício, porquanto a postulação, normalmente está radiografada no
preceito da faixa etária. A regra geral dita elemento documental para efeito
de análise e sua demonstração, independente de litisconsórcio,
consequentemente atendido, o requisito, far-se-á a concessão do benefício.
(ABRÃO, 2012, p.35)

Segundo inteligência do artigo do art. 71, §1º do Estatuto do Idoso, bem


como do art. 1211-B do CPC, o interessado na obtenção da tramitação prioritária,
fazendo prova de sua idade, requererá o benefício à autoridade judiciária
competente para decidir o feito. Assim, deferida a prioridade, os autos receberão
identificação própria que evidencie o regime de tramitação prioritária do beneficiado.
Essa identificação realizar-se-á de acordo com o regimento interno de cada
Tribunal ou Juízo, uma vez que tem por finalidade apenas diferenciar os autos dos
demais que encontram em tramitação. Essa identificação própria irá auxiliar os
serventuários e juízes, na movimentação dos autos processuais em regime de
55

prioridade, provocando diretamente maior celeridade na prestação jurisdicional para


os que litigam amparados pelo benefício.
Da mesma forma, se a idade de sessenta anos vier a ser completada
durante a tramitação do feito, ou mesmo após a prolação da sentença, não importa,
pois desde que o interessado proclame sua intenção em se beneficiar do instituto,
formulando o requerimento, e comprovada sua situação etária, o feito, a partir de
então, será incluso na classe prioritária.
É de se levar em conta que há possibilidade da concessão da prioridade de
ofício, apesar do EI – Art. 71, § 1º, determinar que o interessado fazendo prova da
idade legal deverá requerer o benefício junto à autoridade judiciária competente.
Em princípio, a parte, através de seu advogado, é quem deve requerer a
prioridade, até porque o juiz pode não ter informação concreta a respeito. “Extraídos
os elementos formadores do convencimento, a prioridade da tramitação dependerá
de expresso requerimento, mas nada inibe que o juízo proceda dessa forma de
ofício” (ABRÃO, 2012, p. 35).
É certo que se trata de norma dispositiva, mas diante das normas
constitucionais no tocante ao acesso à justiça e da duração razoável do processo, a
concessão da prioridade para o idoso ganha contornos de norma de ordem pública.
Assim, havendo elementos nos autos, no caso do idoso, qualquer documento oficial
que informe a data de nascimento compatível à concessão do benefício (maior de
sessenta anos de idade), o juiz pode conferir a prioridade no trâmite processual de
ofício.
Luiz Roberto Barroso reproduzindo a lição da doutrina clássica divide as
normas jurídicas em duas grandes categorias: a das normas cogentes e a das
normas dispositivas.
As normas cogentes são preceptivas, quando obrigam a determinada
conduta, e proibitivas, quando a vedam. São normas que visam a impor-se
à vontade dos seus destinatários, condicionando absolutamente a sua
conduta e não permitindo a ocorrência de desvios ou alternativas ao
regramento legal imposto. A vontade individual de optar é, nesses casos, de
nenhuma valia e de nenhum efeito. De outra parte, as normas dispositivas
são aquelas que deixam aos destinatários a liberdade de disporem de
maneira diversa da regulamentada pela norma, a qual tem, um efeito
supletivo à vontade das partes. (BARROSO, 1999, p. 54).

A lição do processualista Marcos Vinicius Gonçalves subsidia a tese


proposta de que a concessão da prioridade de ofício é norma cogente:
56

São cogentes as que têm por objetivo assegurar o bom andamento do


processo e a aplicação da jurisdição, como as que dizem respeito ao tipo de
procedimento a ser observado, e dispositivas, aquelas que levam em conta,
primacialmente, os interesses das partes. As normas de processo civil são,
na imensa maioria, cogentes. Salvo algumas exceções, não é dado às
partes nem ao juiz, afastar a sua incidência. (GONÇALVES, 2005, p.10).

Para Carlos Roberto Gonçalves, “normas cogentes, também denominadas


de ordem pública ou de imperatividade absoluta. São mandamentais (ordenam ou
determinam uma ação) ou proibitivas (impõe uma proibição)” (GONÇALVES, 2003,
p.33).
O autor, comungando do entendimento de Henri de Page, 1933, p. 113,
afirma que:
As normas cogentes se impõem de modo absoluto, não podendo ser
derrogadas pela vontade dos interessados. Regulam a matéria de ordem
pública e de bons costumes, entendendo-se como ordem pública o conjunto
de normas que regulam os interesses fundamentais do Estado ou que
estabelecem, no direito privado, as bases jurídicas da ordem econômica ou
social. A imperatividade absoluta de certas normas decorre da convicção de
que determinadas relações ou estados da vida social não podem ser
deixados ao arbítrio individual, o que acarretaria graves prejuízos à
sociedade (GONÇALVES, 2003, p.33).

Destarte, o juiz, tomando conhecimento através de prova documental


constante dos autos, pode conceder o benefício de ofício, pois, repita-se, trata-se
norma de ordem pública, em que o interesse público prevalece sobre o interesse
privado.
Conforme o que nos traz a Exposição de Motivos do Código de Processo
Civil, a prestação da tutela jurisdicional não é um serviço privado das partes, mas um
interesse público de toda sociedade, a qual o juiz deve velar. Conforme o disposto
no art. 125, II do CPC, tem-se que o juiz dirigirá o processo, competindo-lhe velar
pela rápida solução do litígio, além do inciso LXXVIII, do Art. 5º da Constituição
Federal, in verbis, que orienta o magistrado no mesmo sentido: “a todos, no âmbito
judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os
meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. Deve, pois, o juiz nesse caso,
ficar atento no caso de inércia da parte, para garantir a celeridade na tramitação do
processo. (FREDERICO, 2006, p.3)
Desta feita, o que se vê é que a regra da prioridade ao idoso acode
relevante interesse social, logo, ainda que inerte a parte interessada, o juiz, se tiver
conhecimento através de prova documental, poderá, de ofício, conceder a
57

tramitação processual prioritária.


Outro ponto que merece destaque no que toca à tramitação processual
prioritária para o idoso é a possibilidade do requerimento para concessão do
benefício ser elaborado pelo Ministério Público. À luz do artigo 75 do EI, tem-se que:

Art. 75. Nos processos e procedimentos em que não for parte, atuará
obrigatoriamente o Ministério Público na defesa dos direitos e interesses de
que cuida esta Lei, hipóteses em que terá vista dos autos depois das partes,
podendo juntar documentos, requerer diligências e produção de outras
provas, usando os recursos cabíveis.

Assim, uma vez que o MP atuará como fiscal da lei e defensor dos direitos e
interesses dos idosos e, nessa condição, o Parquet pode elaborar o pedido de
prioridade de que trata o Art. 71, no caso de inércia do interessado.
Do mesmo modo, é imprescindível a participação do Ministério Público nos
processos e procedimentos, mesmo que não for parte, atuando na defesa dos
direitos e interesses das pessoas com mais de sessenta anos, pois o art. 77 do
mesmo diploma legal adverte que a falta de intervenção do MP acarreta a nulidade
do feito, podendo ser declarada de ofício pelo juiz ou ser requerida por qualquer
interessado.
Quanto à abrangência do benefício, a lei processual civil, assim como o EI,
contempla a parte ou interveniente pessoa com idade de sessenta anos, de modo
que são beneficiários também todos aqueles que tenham sido admitidos no
processo, seja por intervenção voluntária ou provocada. Da mesma forma, não há
empecilho à concessão do benefício ao réu que tenha interesse legítimo na
celeridade do processo. A lei faz menção à parte, não importando se autor ou réu.
Vale considerar que a tramitação processual prioritária não abrange a
pessoa jurídica, mas simplesmente as pessoas físicas que completaram sessenta
anos. Conforme leciona Carlos Henrique Abrão, 2012, p. 31:

Salientamos, na oportunidade, que a prioridade não alcança empresa cujos


sócios, pessoas físicas, sinalizam referido benefício, consoante
entendimento do Superior Tribunal de Justiça, Ministro Pádua Ribeiro, no
Agravo de Instrumento nº. 468648, julgado em 06.11.2003. Referida posição
deve ser bem destacada, posto que, em muitos casos, os sócios que
completaram sessenta anos requerem o benefício, porém não poderão ser
atendidos, isto porque é a empresa que figura no polo processual.(ABRÃO,
2012, p. 31).

O § 2º do art. 71 do EI estende o benefício ao cônjuge supérstite,


58

companheiro ou companheira, com união estável, maior de sessenta anos, no caso


de morte do beneficiado, sendo a intenção desta norma evitar qualquer discussão
quanto à possibilidade dessas pessoas valerem-se do benefício, pois na verdade,
todo aquele que suceder o idoso falecido, desde que comprove a faixa etária exigida
na lei, fará jus ao benefício.
Malgrado tal disposição do Estatuto do Idoso, o Código de Processo Civil,
em seu art. 1211-C, que teve sua redação modificada pela Lei 12.008/2009,
estabelece que uma vez concedido benefício da tramitação prioritária, esse não
cessará com a morte do beneficiado, estendendo-se em favor do cônjuge supérstite,
companheiro ou companheira, em união estável, independentemente da idade,
excluindo a expressão "maior de 65 anos" da antiga redação. Assim, tem-se que a
concessão do benefício não é simplesmente intuitu personae.
Essa mudança sugere que não mais interessa a idade do cônjuge
sobrevivente ou companheiro sobrevivente em união estável, uma vez que o
benefício instituído já não se encontra ligado somente ao fator idade, mas sim, com
a condição do beneficiado.

4.7 Do recurso quando da denegação da tramitação processual


prioritária

Da decisão que negar o benefício da prioridade caberá o recurso de agravo


de instrumento, conforme previsão da Lei 11.187/05, que institui o artigo 522 do
CPC, que assim dispõe:

Art. 522, CPC - Das decisões interlocutórias caberá agravo, no prazo de 10


(dez) dias, na forma retida, salvo quando se tratar de decisão suscetível de
causar à parte lesão grave e de difícil reparação, bem como nos casos de
inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é
recebida, quando será admitida a sua interposição por instrumento.

Pois como se pode notar, a denegação da tramitação processual prioritária


poderá causar ao litigante lesão grave e de difícil reparação. O próprio objeto do
pedido é suficiente ao enquadramento da exigência. É necessário que a prestação
jurisdicional seja rápida. O idoso precisa do resultado rápido do processo para suprir
suas necessidades mais prementes e urgentes, do que aquelas necessárias aos
não-idosos
59

Igualmente, o agravante quer a prioridade, justamente porque se tiver que


esperar o trâmite normal do feito, poderá não usufruir do seu resultado. “O agravo
retido seria de inutilidade quase total diante do objetivo de acelerar desde logo o
curso do processo” (DINAMARCO, 2003, p.81). “Se o agravante tiver que suportar
os efeitos da decisão agravada, a ser apreciada sob a forma retida, terá que
aguardar a longa duração do processo, frustrando o objetivo da lei que invoca
(Estatuto do Idoso – Art. 71). Enfim, se a decisão agravada for apreciada a posteriori
(Art. 523, CPC), não haverá mais interesse” (FREDERICO, 2006, p.5).
Considerando que a vida do idoso, em tese, é mais abreviada e de que ele
necessita do resultado rápido do processo, não pode aguardar o resultado final da
causa pelo trâmite normal, sob pena de se consumarem inúmeros efeitos negativos,
sendo o principal deles, a possibilidade de não usufruir do resultado da prestação da
tutela jurisdicional.
Sendo o benefício concedido, a parte contrária não terá legítimo interesse
em impugná-lo ou mesmo será ofertada a oportunidade de contrarrazoar eventual
recurso, pois conforme ensina Dinamarco: “Será legítimo o interesse de alguém à
lentidão do processo? Invocando-se nessa linha o inciso LXXVIII, do Art. 5º da
Constituição Federal, que trata justamente da celeridade processual” (DINAMARCO
2003, p.82).
O benefício da tramitação prioritária pela faixa etária, uma vez concedido é
imutável e tem natureza irreversível.

4.8 Renúncia e revogação da tramitação processual prioritária em virtude


da idade

O benefício da prioridade na tramitação da causa identifica-se com as


particularidades da lide, capacidade que pode ser levantada em qualquer fase ou
etapa do procedimento ou processo, desde que atendido seu requisito principal: a
idade. Apesar de sua natureza pessoal, a qualquer momento comporta revogação,
se contraprova for acostada ao procedimento, como por exemplo, ficar provado que
a parte contrária tenha apresentado documento falso com a finalidade de comprovar
a idade. Há somente esta hipótese, pois como já informado linhas atrás, o comando
é de natureza cogente.
60

Quando o beneficiário vier a óbito, a redação do artigo 1.211-C do CPC


deixa claro que concedido benefício, esse não cessará com a morte do beneficiado,
estendendo-se em favor dos herdeiros, cônjuge supérstite, companheiro ou
companheira, em união estável, independentemente da idade, excluindo a
expressão "maior de 65 anos" da antiga redação.
De tal modo que feita a concessão do benefício, na sua essência, destaca o
interesse da parte e a comprovação documental para exame do Juízo.
De modo semelhante, a revogação do benefício suscita recurso de agravo, o
qual poderá receber efeito suspensivo, ditando-lhe assim justa correspondência com
a comprovação dos requisitos legais exigidos (ABRÃO, 2012, p.67).
Quanto à renúncia do benefício, tem-se que tal possibilidade se mostra
contraditória, pois se a parte pleiteia o benefício, não há sentido em renuncia-lo.
Entretanto, ainda que de forma inusual a parte poderá renunciar.
Conforme entendimento de Carlos Henrique Abrão:

A renúncia reveste-se de validade e eficácia para o normal andamento da


causa, sem qualquer tarja de conotação prioritária, de tal sorte que o
renunciante submete-se ao rito comum de andamento. E nesse sentido,
feita a renúncia e homologada pelo juízo, por se tratar de direito próprio,
ainda que transmissível aos herdeiros, aos sucessores, ao cônjuge e ainda
ao companheiro, a medida não poderá ser atacada por qualquer recurso.
Definitivamente, ao abrir mão de uma prerrogativa legal, submete-se o autor
da causa, por tal ângulo, à regularidade da tramitação, dentro do conceito
próprio que lhe é peculiar. [...] Destarte a referida prioridade, havendo
expressa renúncia pelo requerido, pessoa idosa, nada obsta prejuízo acaso
seja conceda a respectiva tramitação privilegiada, matéria de ordem pública.
Estamos diante de uma realidade fática, cuja tramitação prioritária é do
processo, mas antes pressupõe o requerimento da parte. (ABRÃO, 2012, p.
68).

A renúncia gera efeitos, dentre os quais se destaca a impossibilidade de


transmissão do benefício, conforme dispõe o artigo 1.211-C do CPC, pois uma vez
que o interessado abriu mão do benefício, a condição transmite aos demais.
A renúncia pode transparecer algo incomum, inusual, pois tal benefício não
denota qualquer prejuízo, pelo contrário, o titular do direito só tem a se beneficiar
com ela. Todavia, não havendo simulação ou qualquer falsidade material ou
ideológica, aliado ao fato de que no cartório onde tramita a causa não existe
congestionamento, a renúncia será interpretada de forma natural (ABRÃO, 2012, P.
70).
Com isto, o idoso que é beneficiário da tramitação processual que deseja
61

renunciar a mesma, desde que não seja com intenção de prejudicar ou causar dano,
ou mesmo delongar a satisfação da obrigação, pode perfeitamente assim o fazer,
entretanto, caberá ao juiz, na hipótese em que ocorra prejuízo ou dano a uma das
partes, analisar no caso concreto a concessão ou não da renúncia postulada.

4.9 A tramitação prioritária para o idoso e sua eficácia

O direito de prioridade processual conferido ao idoso não fere o princípio da


isonomia, pelo contrário, busca efetivá-lo, promovendo a dignidade da pessoa
humana.
Quanto à efetividade e eficácia desse direito a crítica que faz Carlos
Henrique Abrão é da seguinte forma:

O que se constata é que a prioridade cai na vala comum dos demais


procedimentos e acaba sendo uma contramão naquilo objetivado pelo
legislador, pois a concessão do benefício deveria impor regras práticas,
permitindo ao jurisdicionado, mediante transparência e clareza ímpar, saber
se a circunstância confere o privilégio existente. (ABRÃO, 2012, p. 37-38)

Segundo os dados que constam da sexta edição do relatório “Justiça em


Números”, divulgado em 14/09/2010 pelo Conselho Nacional de Justiça, o Brasil tem
cerca de 86,6 milhões de processos judiciais em tramitação.
Para Carlos Henrique Abrão:

A crescente evolução do envelhecimento da população, somada ao


abandono da terceira idade, traz dados ainda mais relevantes, haja vista
que a maioria dos aposentados sobrevive de pensões e soldos, e
necessitam reivindicar seus direitos contra o governo ou grandes empresas
por meio da justiça. Identifica-se, pois, que a Lei nº. 12.008/2009, alterando
o art. 1.211-A do CPC, adequando-se à redação do art. 71 do Estatuto do
Idoso, teve por escopo alargar a base do acesso e a tramitação prioritária
em relação ao idoso (ABRÃO, 2012, p. 5).

“A prioridade, não encontra dificuldade na sua concessão, cujo ônus da


prova é do interessado, o problema é que não há mecanismo suficiente para
acompanhar e analisar se efetivamente o benefício na prática funciona” (ABRÃO,
2012, p. 2).
O mesmo autor continua seu raciocínio quanto à efetividade afirmando que:
62

A tramitação prioritária ainda não recebeu devido tratamento e a melhor


atenção da primeira e segunda instâncias.[...] A grande maioria dos
cartórios não ostenta no sistema o evento dos processos prioritários, sob a
égide da legislação em vigor. A infraestrutura precária faz com que o
elemento humano apenas registre na capa essa situação, o que não é muito
satisfatório [...] Em linhas gerais, falta um padrão, critério, a destacar o
tempo de duração razoável daqueles procedimentos envolvendo idosos [...]
O simples fato de ser idoso [...] por si só, não desencadeia a efetividade da
tramitação prioritária do processo. (ABRÃO, 2012, p. 5-6)

As dificuldades quanto à efetivação da tramitação processual prioritária são


várias. Uma delas é que, a lei não determinou prazos específicos quando a parte for
beneficiária dela. Assim, o beneficiário da tramitação prioritária não tem condições
de exigir o julgamento imediato e cobrar a solução no prazo determinado, pois esses
não existem, devendo como qualquer outro jurisdicionado, apenas aguardar o
desfecho de sua pretensão ao tempo e modo que determinar o Poder Judiciário.
Outra questão que impede a agilidade do trâmite dos processos judiciais
envolvendo idosos são os prazos atribuídos ao Poder Público. Sem sombra de
dúvida, o Poder Público é o principal alvo das ações envolvendo idosos,
especialmente porque é ele quem está no pólo passivo das demandas de concessão
e revisão de aposentadorias, ações civis públicas para provimento de
medicamentos, tratamentos médicos e até alimentos entre outras como ações para
recebimento dos expurgos inflacionários de pessoas que pouparam toda a vida.
(ABRÃO, 2012, p. 72). O prazo atribuído ao Poder Público para contestar um feito
judicial é quatro vezes maior do que aquele concedido aos cidadãos comuns.
Portanto, em se tratando de prazo comum para contestação, em geral quinze dias, o
prazo do Poder Público é de sessenta dias, assim como o prazo para apresentação
de recursos em geral, que para os cidadãos, dentre eles os idosos é de quinze dias,
para o Poder Público é dobrado, tudo isso à inteligência do art. 188 do Código de
Processo Civil que prescreve "Computar-se-á em quádruplo o prazo para contestar e
em dobro para recorrer quando a parte for Fazenda Pública ou o Ministério Público”.
Feita essa consideração, tem-se que a uma solução para tornar a tramitação
efetiva neste aspecto, seria a de que quando fosse concedida a tramitação
processual prioritária esses prazos privilegiados fossem abolidos, sendo concedidos
prazos iguais para ambas às partes, tornando o andamento do processo mais
célere.
Outra causa de ineficácia da tramitação prioritária é o congestionamento do
fluxo processual, pois como já dito linhas atrás, o Brasil tem cerca de 86,6 milhões
63

de processos judiciais em tramitação, congestionamento esse que se dá por


diversas causas, sendo uma delas o esclarecimento crescente das pessoas,
contribuindo com a morosidade da justiça que não está preparada pra tal. Observa-
se que a população, estando esclarecida e sendo conhecedora de seus direitos, não
aceita seus direitos ofendidos. Para Carlos Mário da Silva Velloso:

A causa principal da lentidão da justiça é o aumento do número de


processos, uma verdadeira explosão de ações, que decorre do fato de que,
à medida que se acentua a cidadania, as pessoas procuram mais os
tribunais, certo que a Constituição de 1988 deseja que a cidadania seja
exercida por todos, convocados os cidadãos a fiscalizar a coisa pública,
efetivando-se essa fiscalização mediante o ajuizamento de medidas
judiciais. (VELLOSO, 1998, p.76)

A tramitação prioritária não é efetiva porque “muitas vezes, a prioridade


representa mero despacho de expediente, de simples rotina, com tarja nos autos, e
comparativamente com outros feitos, não há qualquer diferenciação em razão da
tramitação” (ABRÃO, 2012, p. 62).
A demora na solução dos processos envolvendo pessoas de mais de
sessenta anos não causa as mesmas implicações da demora de processos
envolvendo pessoas que ainda não atingiram esta idade. Por inúmeras razões,
principalmente físicas e psíquicas, os idosos já não possuem a mesma resistência
que possuem pessoas mais novas, pois é fato indesmentível o decaimento do vigor
físico.
Ponderando sobre a temática da tramitação processual prioritária Humberto
Theodoro Júnior faz esclarece que:

A razão do tratamento especial ao idoso é intuitiva: o litigante idoso não tem


perspectiva de vida para aguardar a lenta e demorada resposta jurisdicional
e, por isso, merece um tratamento processual mais célere, a fim de poder,
com efetividade, se prevalecer da tutela jurisdicional. (THEODORO JÚNIOR
2003,p.23).

Inúmeros são os motivos que justificam a necessidade da eficácia da


tramitação preferencial para idosos, mas na prática o que se percebe é que no caso
em que tramitam como parte ou interveniente pessoa idosa, inúmeras são as
sentenças que chegam tão tarde a ponto de o próprio idoso não receber o que tinha
direito. Com razão, Miguel Reale Júnior, 2004, p.78 aduz que “não há nada pior que
a injustiça célere, que é a pior forma de denegação de justiça. Por outro lado, o
64

excesso de tempo na prestação jurisdicional pode-se tornar até mesmo injustiça”,


Rui Barbosa, dessa forma, se torna contemporâneo ao dizer em “Oração aos moços”
(1920), “a justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”.
E assim, nasce o maior e o mais grave problema de quando se estuda a
morosidade da justiça de processos envolvendo idosos e a ineficácia da tramitação
processual prioritária. A solução da demanda judicial muitas das vezes chega tarde
demais. Quando um idoso morre sem receber um direito que pleiteava em juízo
pode-se afirmar que a justiça foi ineficaz, e infelizmente o Poder Judiciário cai mais
uma vez no descrédito da sociedade. Isto é um desrespeito ao texto constitucional,
às legislações infraconstitucionais e principalmente à própria sociedade.
Malgrado todas as questões que geram a ineficácia e a ineficiência da
tramitação prioritária, importante colacionar a lição apresentada pelo magistrado
Carlos Henrique Abrão, 2012, p. 72-74 propondo medidas para solucionar a questão
da efetividade da tramitação processual prioritária e a consequente morosidade da
justiça no que toca à ela:

“Os predicados que contribuiriam para agilizar o procedimento sob a


disciplina da Lei nº. 12.008/2009: a) infraestrutura destinada ao
acompanhamento dos procedimentos específicos de idosos [...]; b)
tramitação diferenciada, específica, com monitoramento e rastreamento dos
procedimentos; c) prioridade real em todas as diligências, tutela antecipada
e prestação jurisdicional, conforme a ordem do benefício concedido; d)
planejamento, reestruturação, com princípio programático de solução
instrumental dessas lides; e) meios alternativos concilatórios, inclusive em
segundo grau, para alcançar o tempo razoável de duração do processo; f)
estudo sistemático das demandas repetitivas para tutelas coletivas e
abrangentes; g) disposição de súmulas e uniformização jurisprudencial em
prol da efetividade da tramitação prioritária; h) pacificação prioritária de
índices nos processos eletrônicos; i) transparência e previsibilidade,
notadamente em segundo grau, para definição dos recursos dessa
natureza; j) criação de câmaras especializadas, inclusive conciliatórias,
destinadas à especialização por matéria e provimentos de urgência; k)
retrato do número de feitos envolvendo processos de pessoas idosas e
portadoras de grave moléstia; l) imediata distribuição dos recursos e
provimentos de urgência de processos de tramitação prioritária; m) análise
pelas instâncias superiores do STJ e STF dos processos disciplinados pela
Lei nº. 12.008/2009; n) setores especializados dos Juizados de Pequenas
Causas para atendimento, acompanhamento e decisões de processos de
tramitação prioritária; o) exame das causas de congestionamento e solução
de continuidade para redefinição do conteúdo e tramitação prioritária; p)
identificação dos litígios e dos casos nos quais o Estado retarde o
cumprimento da obrigação de ordem judicial; q) extensão do benefício, na
hipótese de óbito, aos descendentes do beneficiário, cristalizando a
finalidade de ordem judicial; r) imposição de sanções, litigância de má-fé,
perdas e danos, atos atentatórios contra a dignidade da Justiça contra o
devedor, que retarda o cumprimento da ordem judicial; s) incidência da
Teoria da Causa Madura, quando reformadas as sentenças de extinção, em
primeiro grau, para análise de mérito em segundo grau, art. 515, §3º, do
65

CPC; t) descomplicar o sistema de precatórios, regime especial, nos casos


de processos de tramitação prioritária; u) utilização obrigatória da
conciliação em todas as causas regidas pela Lei nº. 12.008/09; v) colheita
antecipada de prova e incidência do princípio da prova emprestada; w)
formação de litisconsórcio necessário ou facultativo nas causas nas quais
figurem interesses de idosos, podendo ser ampliado o número até o máximo
de cinquenta pessoas; x) responsabilização depurada e fundada na
responsabilidade objetiva reportada ao Estado-Juiz, inclusive sob a ótica do
dano moral, em virtude da demora excessiva na tramitação da causa e na
eternização de concreta solução. (ABRÃO, 2012, p. 72-74).

Por derradeiro, a indispensável efetividade a qual guarnece os


procedimentos de idosos, inaugura e exterioriza a destacada função da tramitação
prioritária. A eficácia normativa e sua eficiência na realidade dependem do
acompanhamento da causa, da incidência da regra e da prioridade aplicada em
todos os atos processuais realizados.
66

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por todas as considerações feitas o que se nota é que na prática, a


tramitação processual é mera formalidade constante da capa dos autos. É instituto
que existe, mas não funciona.
Com a nova abordagem do princípio da isonomia, surgida com o
aparecimento dos direitos sociais, os chamados direitos de segunda geração, o
Estado passou a buscar a instituição de uma ordem jurídica justa que se conforme
com a finalidade resguardada pelo ordenamento jurídico.
Para que a jurisdição alcance os fins do Estado e realize a igualdade é
necessário, entre outros elementos, a eliminação de barreiras que impedem o amplo
acesso à justiça. Os problemas que o cidadão comum enfrenta ao tentar acessar à
Justiça são vários e muitas vezes importam na negativa de prestação jurisdicional.
Neste contexto, foi que o legislador ordinário adotou uma série de medidas
processuais que visam conceder maior eficácia à jurisdição, sobretudo no que tange
ao acesso dos idosos à jurisdição.
Com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros, o número de pessoas
com mais de sessenta anos se tornou significativamente expressivo no Brasil e os
indivíduos pertencentes a tal grupo, quem sejam, as pessoas experimentadas na
arte de viver, passaram a reivindicar uma melhor condição de respeito a direitos que
lhes eram sonegados.
O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/03), elaborado e positivado para
acompanhar essa realidade, prevê o benefício da tramitação preferencial dos
processos àqueles com idade igual ou superior a sessenta anos (art. 71), atuando
como partes ou intervenientes, mediante simples requerimento nos autos.
A razão do tratamento especial tem fundada razão de ser: o litigante idoso
não tem perspectiva de vida para aguardar à lenta e demorada resposta jurisdicional
e, por isso, merece um tratamento processual, mais célere, a fim de poder, com
efetividade, se beneficiar da tutela jurisdicional.
Essa inovação legislativa justifica-se, pois se a prestação jurisdicional, for
prestada tardiamente, pode ser incapaz de trazer resultados práticos ao interessado,
em virtude do falecimento da parte. O benefício tem como objetivo concretizar não
somente os princípios constitucionais da isonomia e do acesso à justiça, mas
também a garantia da duração do processo sem dilações indevidas, inserida na CF
67

pela Emenda Constitucional nº 45. Desta feita, após a constitucionalização do


princípio da razoável duração dos processos vários atos normativos brasileiros
conferiram preferência ao trâmite processual de indivíduos em condições de
vulnerabilidade, caracterizando-se, em especial, idosos e pessoas gravemente
enfermas. Dentre eles, destaca-se elaboração da Lei 12.008/09, legislação
específica para a tramitação processual prioritária.
Portanto, o que se pode observar é que o Brasil, legalmente falando, está
bem estruturado no que se refere aos processos em que figure como parte o idoso,
porém, na prática, o que se percebe é que as medidas legais tomadas se mostraram
não tão eficientes caso se leve em consideração os aspectos relativos ao Poder
Judiciário.
O efetivo respeito pelo princípio da razoável duração do processo e a
prioridade processual para os idosos requerem políticas de maior investimento no
Poder Judiciário, lançando mãos dessas medidas de forma imediata, para que então
se chegue a essa finalidade.
O que o idoso, assim como a sociedade espera de um processo é que ele
distribua a justiça em um período razoável, sem delongas que excedam o prazo
necessário para chegue a um resultado seguro e pautado em garantias para as
partes. Assim sendo, o processo ideal é aquele que faz cessar o conflito social logo
que possível.
Uma crítica que pode ser feita à tramitação prioritária é a de que os
processos que exigem prioridade (urgência) na sua tramitação são tantos, que tal
imposição acaba não tendo aplicabilidade, pois o que se sabe é que, na prática dos
tribunais, a aplicação da regra da priorização processual concedida ao idoso
acontece pela colocação de carimbo ou etiqueta na capa dos autos do processo
com os dizeres: “tramitação preferencial idoso”. Tal providência é observada pelo
Cartório, no momento da autuação ou mediante determinação do Juízo, uma vez
constatado o implemento do requisito da idade, sem qualquer efetivo respeito que
produza maior celeridade na entrega da prestação jurisdicional.
Faz-se necessário organizar fisicamente e virtualmente, a depender do caso,
as lides de forma a que o julgador não possa desobedecer à ordem de julgamento, e
que dentro da ordem cronológica dos processos um idoso não seja preterido por
outro. Afinal alcançado o requisito objetivo da idade, não há na lei critério de
distinção e preferência para o mais idoso.
68

A disciplina da tramitação prioritária da causa exige transparência e acesso


às informações processuais, de tal modo que possam, os interessados, fazer o
acompanhamento e solicitar providências, com o fim de solucionar os entraves e
quaisquer barreiras, colocando em evidência o princípio constitucional abraçado.
O tempo razoável da duração do processo somente se fará presente na
justiça brasileira quando se houver uma reforma, não só da legislação processual,
mas de todos os mecanismos que servem de instrumento para o acalentado senso
da efetividade preconizada, apenas a letra fria disciplinada da norma não constitui
mecanismo que prioriza a efetividade e instrumentalidade processuais definidas pelo
legislador.
69

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