Você está na página 1de 11

III Reunião de Antropologia da Saúde – UFRN/Natal (setembro 2019)

GT Psicoativos, direitos humanos e agenciamentos políticos: estratégias do “bem


viver” dentro de cenários de precariedade.
Coordenadoras: Ana Gretel Echazu (UFRN), Isabel de Rose (UFAL)
Total: 18 trabalhos aceitos

24/09
Sessão 01 (14 as 16hs): Políticas públicas, antiproibicionismo e redução de danos
1 - Clordana H. Lima de Aquino Oliveira
clordanaquino@gmail.com
Reflexões sobre o paradigma cannabico na esfera criminal e medicinal frente à nova
politica antidrogas no Brasil
Atualmente o Brasil enfrenta um novo desafio com relação à política antidrogas, as
contradições que se estabelecem na formulação das leis permite que seus agentes
militares, jurídicos façam uso do poder tomando decisões acerca das circunstâncias de
quem se enquadra como traficante ou usuário, fora outras graves implicações constituintes
nesse novo projeto antidrogas sancionado pelo governo federal, como permitir a internação
compulsória e
involuntária desses indivíduos considerados epidêmicos a ordem nacional. Frente a este
debate de proibição, o Brasil vive um novo episódio diante lutas que estão sendo
reivindicadas por famílias de pacientes, que encontraram na maconha medicinal uma
alternativa para a melhoria de saúde. A variedade de patologias que comprovadamente
estão sendo sanadas ou controladas com o tratamento a base de cannabis, vem ganhando
forte destaque mesmo diante a severa política proibitiva. Buscaremos refletir por tanto,
sobre a permanência e resistência ao uso da cannabis, dada a perspectiva antropológica
que interpela usuários, famílias de pacientes bem como as associações (especificamente as
paraibanas) que estão frente a esta luta, mesmo sob os riscos da ilegalidade, dos estigmas
sociais propagados, e diversas outras complicações que não cessaram o uso da maconha.
Percebendo o nítido atraso que o país se encontra com relação à temática das drogas,
observaremos as implicações promotoras destes impactos sociais, evidenciados por meio
dos dados estatísticos que revelam o significativo aumento da violência, e o despreparo
para lidar com essas questões que necessitam de uma formatação política, de reeducação
básica, onde se permita acesso e produção de pesquisas a estes conteúdos criminalizados.
Sobretudo, que se escute ao clamor de uma nação que sofre com dor, seja pela ausência
de saúde ou, pela ausência dos que se vão na mira de uma guerra declarada.

2. O ESTIGMA DOS JOVENS USUÁRIOS RECREATIVOS DE MACONHA DA PRAÇA DA


IGREJA MATRIZ DA CIDADE DE CEARÁ-MIRIM: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA DO
COLETIVO CAÓTICA COMO GRUPO ATUANTE NESTE ESPAÇO.
Thiago Jonas Nascimento de Souza 1; Laiz da Cruz Brandão Costa 2
tjbass2013@gmail.com; laiz_costa@yahoo.com.br
Resumo
A juventude periférica do Brasil é sempre marginalizada quanto a sua conduta e seus
modos de viver e ser – sobretudo quando esta juventude é negra. Sendo assim, com
relação a juventude periférica cearamiriense não seria diferente. Partindo da reflexão sobre
os conceitos de “sonho de pureza” e a “produção dos estranhos” em Bauman, presentes em
seu livro Mal-estar na pós-modernidade, como também discutindo as interseccionalidades
de gênero, raça e classe, a partir do artigo da Patrícia Hill Collins, Em direção a uma nova
visão: raça, classe e gênero como categorias de análise e reflexão, buscamos compreender
como a sociedade produz o “perfil transgressor” da juventude usuária de maconha da praça
da Igreja Matriz, localizada na cidade de Ceará-Mirim-RN – um espaço de vivências e
socialização de adolescentes e jovens adultos. Neste trabalho, que é construído sobre o
formato de um relato de experiência do Coletivo Caótica (grupo de jovens artistas poetas
que produzem zines e eventos na praça da Igreja Matriz), que tem como um de seus locais
de atuação este espaço, também será discutida a problemática da guerra às drogas no
Brasil e do consequente encarceramento em massa da juventude negra a partir da análise
de Juliana Borges em seu livro O que é encarceramento em massa?, já que este estigma
ao usuário de psicoativos serve para construir um arquétipo do outro, o jovem periférico,
negro, usuário de canábis, onde este é sempre o modelo suspeito, o criminoso em
potencial, portanto, aquele que deve ser abordado e, consequentemente, enquadrado pela
ação policial.
Palavras-chave: Juventude. Interseccionalidade. Psicoativos.
1 Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
2 Membro do Coletivo Caótica e ativista anarquista.

3. Os Clubes Sociais de Cannabis (CSC) na Comunidade Autônoma do País Vasco


(CAPV), Espanha: a filosofia de redução de riscos e danos e a luta social pela
normalização do consumo da maconha
SILVA, Guilherme Borges
guidhu@gmail.com
Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás. Bolsista PDSE/CAPES no
Instituto Vasco de Criminología (IVAC-KREI) - Universidad del País Vasco. Pesquisador do
Núcleo de Estudos sobre Criminalidade e Violência (NECRIVI/UFG) e do Núcleo de Estudos
Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP)
Resumo: Busco desenvolver nessa apresentação acerca dos Clubes Sociais de Cannabis
(CSC) na Comunidade Autônoma do País Vasco (CAPV), Espanha. Os clubes são
entidades sem fins lucrativos e compostos por pessoas maiores de idade consumidoras de
maconha. Baseiam-se na filosofia de redução de riscos e danos, e entre os objetivos
destacam-se a normalização do consumo da planta e a promoção de um consumo
responsável. Através da análise bibliográfica e da investigação de campo, explorarei os
seguintes pontos: 1) A formação e organização dos CSC na CAPV, dando ênfase para os
instrumentos teóricos e filosóficos que dão base à concepção dessas entidades, como a
filosofia de redução de riscos e danos, a normalização do consumo e uma política de
drogas que promova o consumo responsável de maconha; 2) Os desafios e as contradições
dos CSC no contexto da legislação proibicionista espanhola e; 3) Por fim, os principais
pontos da proposta do novo modelo de regulação sobre a cannabis na CAPV produzido
pelo Grupo de Estudios de Políticas sobre El Cannabis (GEPCA). Concluímos que a
proposta apresentada é fundamental no desenvolvimento de uma política de drogas que
preze pelos Direitos Humanos e o Estado Democrático de Direito.
Palavras-chave: maconha; normalização; política de drogas.

4. Desafios que envolvem o uso cultural da Cannabis dentro do panorama


proibicionista de guerra às drogas
Francisco Savoi de Araujo
Mestrando em Antropologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia)
fransavoi@yahoo.com.br
Este trabalho consiste em uma reflexão a respeito da Cannabis, tendo como objetivo
contextualizar a sua proibição no Brasil e no mundo para, em seguida, buscar compreender
o uso desta planta dentro da cultura Rastafari. Com uma história milenar que se originou na
Ásia, a Cannabis é uma planta que possui vestígios datados de pelo menos 4000 a.C. que
evidenciam seus usos e contribuições para diversos fins, quando as fronteiras entre o
lúdico, terapêutico, religioso e até mesmo econômico se mostram, na prática, bastante
borradas. Apesar de toda esta versatilidade, ou até mesmo em sua razão, a partir do século
XX a Cannabis foi se tornando cada vez mais polemizada dentro do panorama da guerra às
drogas que foi se instaurando ao longo da época em muitos países, uma guerra muito bem
demarcada por um recorte de raça e de classe que mata e aprisiona setores muito
específicos da população brasileira de modo a estabelecer uma verdadeira higienização
social. Para que seja possível desenvolver um pensamento crítico a respeito da Cannabis -
e do uso de substâncias psicoativas em geral - devemos considerar que o juízo de valor
atribuído a esta planta vai variar nos diferentes contextos em que ela é utilizada. Seus
efeitos sobre o organismo humano podem, assim, receber interpretações bastante plurais, e
muitas vezes contraditórias, quando diferentes fatores socioculturais irão determinar
normas, regras e tabus bastante específicos para controlar (ou não) o seu uso. Deste modo,
a planta pode estar socialmente integrada, em uma posição de centralidade, dentro de
determinado grupo social, enquanto que em outro grupo pode ocupar um papel de
marginalidade e fortemente estigmatizada.
Palavras-chave: cannabis; proibicionismo; resistência

24/09 – Sessão 02 (14 as 16hs): Gênero, corpo, raça e usos de psicoativos nas
intersecções
1. Tecendo encontros: trabalhando violência sexual com mulheres em situação de rua
na cidade de Fortaleza-CE.
Drieli Venâncio da Silva Sousa
Psicologa e Redutora de Danos.
Coletivo Balanceará - Redução de Riscos e Danos.
drieli_venancio@hotmail.com
O presente trabalho trata-se de um relato de experiência de um grupo terapêutico ofertado
para mulheres em situação de rua, acompanhadas pelo projeto Corre pra Vida, voltado ao
atendimento e acompanhamento de pessoas em situação de rua pelo Governo do Estado
do Ceará. Empiricamente, observamos que viver na rua, para as mulheres, perpassa pela
necessidade de construírem relações que assegurem a viabilidade da sua vida cotidiana,
uma vez que sozinhas são mais vulneráveis a violência sexual e opressões de gênero
presentes na rua. Entretanto discorrer sobre o tema da violência sexual, nos foi sempre
desautorizado, pois para boa parte dessas mulheres, aceitar a violência sexual do parceiro
era por vezes a única condição de proteção em meio as demais violações do cotidiano. O
grupo acontecia todas as terças-feiras pela manhã, facilitado por redutora de danos e
terapeuta ocupacional. O convite era lançado as mulheres atendidas pelo serviço a
participarem do grupo com a finalidade de aprenderem a costurar retalhos para compor
mantas a serem utilizadas por elas mesmas. No ato da costura, íamos construindo reflexões
sobre as situações de violência sexual e a rede de serviços de proteção social, bem como
nos aproximarmos e compreendermos suas demandas. Enquanto profissionais e serviços
que assistem esta população, devemos estar atentos aos impactos que os modos de vida
na rua tem sobre a complexidade da situação de rua para as mulheres, que demanda a
ampliação do próprio conceito de cuidado e a inclusão dessas diferenças nas politicas de
atenção à população em situação de rua.
Palavras-chaves: psicoativos; direitos humanos; práticas de cuidado; agenciamento
políticos.

2. O problema nunca foi a droga: mulheres negras, proibicionismo e Necropoder.


Anne Rodrigues 1
O presente trabalho discute os atravessamentos do proibicionismo das drogas na vida de
nós mulheres negras, a partir de uma perspectiva antirracista, antiproibicionista e
decolonial. A soberania do Estado é determinada pelo necropoder, que atua contra as
nossas vidas a partir da intersecção do racismo, sexismo e proibicionismo. O proibicionismo
das drogas como política pública se constitui em uma política de morte, que atualiza o
racismo nas sociedades pós-coloniais. Para nós mulheres negras, a Guerra às Drogas tem
produzido violências sistêmicas análogas as sociedades escravistas: privação de liberdade,
objetificação dos corpos, estupros, subjugação, assédio, genocídio, epistemicídio, e uma
gama de dores. Abordo o racismo como elemento metabólico contraditório da
contemporaneidade, que dispõe da lei, dos sistemas de justiça, do complexo industrial
prisional e da mídia para efetivação da soberania do Estado racista brasileiro sobre nossos
corpos.Com as metodologias do estudo de trajetórias e vivencias compartilhadas, foi
constatado que os dispositivos de poder da Guerra às
Drogas atingem as mulheres negras pela questão racial, e não necessariamente pelo uso
ou conflitos com a lei. Aponto políticas de resistências a partir da perspectiva histórica das
mulheres negras pelo bem- viver, autocuidado e luta em rede.
Palavras-chave: Mulheres Negras, Drogas, Racismo e Necropoder
1 Graduada em Licenciatura em História pela UNEB. Colabora na Rede Nacional de
Feministas
Antiproibicionistas-RENFA. Co-autora do artigo: Perspectivas Insubmissas de Mulheres
Negras sobre o Proibicionismo das Drogas da coleção Feminismos Interseccionais e Luta
Antimanicomiais.

3 - Juliana Nicolle Rebelo Barretto (ONG Ateliê Ambrosina)


julianada01@hotmail.com
Gestação, parto e a consagração do Daime.
Proponho apresentar algumas reflexões abordadas na minha tese intitulada “O parto na luz
do Daime”: Corpo e Reprodução entre Mulheres Oasqueiras, desenvolvida a partir da
imersão etnográfica junto a mulheres residentes da vila de Irineu Serra, localizada no
município de Rio Branco, estado do Acre. Trata-se da comunidade fundada pelo líder
religioso Raimundo Irineu Serra, nas primeiras décadas do séc. XX, local onde surgiu a
religião ayahuasqueiras Daime. Pretende-se refletir sobre noções de conhecimento
obstétrico, entre essas mulheres que fazem parte do sistema religioso Daime, relacionando
o corpo, como um espaço receptivo de energia, a formas de cuidado específicas. Nesse
contexto, a assistência à mulher gestante, parturiente e puérpera, fornecida é relacionada a
todo sua história de vida e o protagonismo do parto é atribuído não só a mulher, mas
também ao estado de proteção divina proporcionado pelo Daime.
Palavras-chave: mulheres, ayahuasca e parto.

4 - O lugar da mulher no Santo Daime: expansão da conscientização do poder


feminino
Dávila Maria da Cruz Andrade / PPGCR – UFPB
davilamcan@gmail.com
Santo Daime é uma religião surgida em meados da década de 1930 no Acre, região Norte
do Brasil. A utilização da beberagem indígena ayahuasca que nesse contexto é chamado
de daime é uma característica central deste culto. O presente trabalho envolve os estudos
de gênero e religião, nos interessa refletir sobre o lugar da mulher no Santo Daime. No
espectro desse tema ainda pouco abordado, permeiam muitas questões sobre o lugar da
mulher nessa religião, os espaços dados, negados e conquistados O tema que desperta a
reflexão nesse estudo, está situado ao que estudos de gênero chamam de estratégias de
empoderamento feminino. Através de observação participante, ou mesmo relatos de
experiências em campo, se observa um alongamento, ou expansão a conscientização do
espaço e do poder feminino no Santo Daime, e em demais movimentos que se encontram
nesses círculos. Esse movimento eclode anualmente num encontro chamado EMFLORES –
Encontro de Mulheres na Floresta, que nasceu no Céu do Mapiá -AM, e vem acontecendo
de forma itinerante pelas igrejas daimistas no nordeste. O bem estar das mulheres,
enquanto seguidoras do Santo Daime, tem espaço central nesses círculos, seja nas rodas
de conversa, que a cada ano instiga a reflexão e discussão e mesmo ações nesse sentido.
Como também a dimensão do sagrado feminino e do empoderamento do próprio corpo é
levantada nas danças e em outras atividades corporais, auto-cuidado e cuidado com a outra
ou relatos compartilhados. Aqui, traremos reflexões sobre essas trajetórias femininas e
como vem influenciando nesse campo religioso.
Palavras-chave: Santo Daime, Mulheres, EMFLORES

5 - A CURA BANTU: SABERES E FAZERES AFRO-DIASPÒRICOS NO BRASIL


Maria Sampaio do Nascimento[1]
No início do século XVI chegaram ao Brasil primeiras tradições africanas. Em terras
brasileiras esses saberes e fazeres africanos resultaram na prática religiosa bantu
denominada Calundu. Os calunduzeiros praticavam benzimentos, curandeirismo,
adivinhações incorporação de espíritos ancestrais e culto aos mortos. Outros saberes como
rezas católicas, danças e usos de elementos da natureza foram agregados às essas
práticas africanas. Os adeptos dessas práticas acreditavam na cura a partir desses ritos.
Segundo estudiosos práticas afro-brasileiras como a Umbanda tiveram a sua origem com a
crença e a devoção dos saberes utilizados pelos calunduzeiros. Acredita-se que os espíritos
Pretos-Velhos são ancestrais africanos em religiões Afro. Consideram-se os Pretos Velhos
espíritos calunduzeiros que realizam cura em pessoas a partir de sua crença e devoção. O
objetivo desse artigo é relatar o depoimento de cinco pessoas que acreditam ser curadas
por esses espíritos.
Palavras-chave: Calundu, Crença; Pretos Velhos.

25/09
Sessão 01 (14 as 16:30): Xamanismos contemporâneos e religiões ayahuasqueiras
1. O yajé entre os indígenas Siona de Colômbia: Transformações rituais como
processo de revitalização cultural e de resistência
Esther Jean Langdon
UFSC/IBP
estherjeanbr@gmail.com
Este trabalho explora as estratégias implementadas pelos indígenas Siona para manter sua
sobrevivência física e cultural frente a violência armada e a exploração petroleira em seu
território ancestral. Segundo as palavras dos Siona, “seu conhecimento e uso ritual de yajé
(Banisteriposis sp.) se constituem o ‘eixo’ principal para sua sobrevivência como grupo
étnico” frente as violências e grandes transformações que vem marcando esta região da
Amazônia Colombiana/Equatoriana nos últimos 30 anos. Através da história da revitalização
dos rituais de yajé pelos taitas Siona junto com os jovens líderes, este trabalho apresenta as
reconfigurações rituais e as estratégias emergentes para a resistência frente as empresas
internacionais e o governo colombiana. As reconfigurações rituais centradas no uso de yajé
tratam da continuidade de o que os Siona consideram como tradição e apontam para o
agenciamento deles próprios numa situação interétnica em que os atores externos estão
constantemente presentes e tentando exercitar sua influência. A análise parte da discussão
teórica de Miguel Bartolome no seu livro Procesos Interculturales (2005), em que as
transfigurações culturais são reconhecidas como parte da dinâmica cultural e das
estratégias adaptativas geradas pelos próprios atores. Nas mudanças dos rituais de yajé, a
identidade não é abandonada, mas se constrói a largo de um processo social de
identificação em que as os Siona deixam aspectos do passado para continuar sendo quem
são.
Palavras Chaves: yajé, identidade, transfigurações rituais

2. Lígia Duque Platero


ligia.duque.platero@gmail.com
Doutora em Ciências Humanas com ênfase em Antropologia Cultural, pelo Programa de
Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), da Universidade Federal do Rio de
Janeiro
Medicinas da floresta e a “cura dos vícios” em uma igreja urbana do Santo Daime
Neste artigo, tenho em vista problematizar questões sobre como práticas do povo indígena
Yawanawá – o consumo do rapé, da sananga e do kambô - foram traduzidas e
ressignificadas em uma igreja urbana do Santo Daime do Rio de Janeiro, na qual enfatiza-
se a “cura dos vícios”. Nesse sentido, o problema do artigo são as inovações e práticas de
cuidado que vêm sendo inseridas nessa igreja urbana do Santo Daime, relacionadas à
categoria êmica de “cura dos vícios”. Se, por um lado, a ayahuasca, a sananga, o kambô e
o rapé são vistos pelos daimistas como substâncias psicoativas que podem ser utilizadas no
tratamento de dependências (o abuso de drogas e de comportamentos moralmente
condenáveis) –, por outro lado, o rapé é visto de modo dual e ambíguo, pois ele próprio é
alvo da categorização (e até da acusação) de “vício”. Nesse sentido, tenho o objetivo de
descrever e problematizar a categoria “cura dos vícios” utilizada nessa igreja e analisar
essas dualidades e ambiguidades relativas aos possíveis tratamentos informais de
dependência com o consumo de medicinas da floresta, inseridas nessa igreja devido à
aliança com o povo indígena Yawanawá. Para a realização do artigo, utilizo dados
etnográficos coletados em trabalho de campo da tese de doutorado (Platero, 2018),
realizado entre 2015 e 2017, nessa igreja urbana do Santo Daime aliada ao povo indígena
Yawanawá (Pano). Dados estes que também estão sendo utilizados na escrita de um
projeto de pós-doutorado, relacionado a conversões religiosas e “cura dos vícios” nessa
igreja do Santo Daime.
Palavras-chave: Cura dos vícios, Medicinas da floresta, Dependência química.

3. Estratégias de resistência e não-esquecimento em comunidades ayahuasqueiras


Maíra de Oliveira Dias
Museóloga | UFPB
Mestre e doutoranda em Ciências das Religiões
PPGCR/CE/UFPB
maira.dias@yahoo.com.br
Este trabalho propõe questões sobre estratégias de resistência e não-esquecimento em
comunidades ayahuasqueiras que, em algumas circunstâncias, inferem processos de
salvaguarda patrimonial estatal na dimensão cultural. Estas táticas não são exclusivas
dessas comunidades, estando presentes em muitos grupos de religiosidade contra
hegemônicas, de modos de vida não-brancos, geograficamente fora dos eixos de poder.
Mas nestas comunidades, para além dessas categorias de exclusão citadas está o uso
regular de uma bebida psicoativa – considerada sagrada inclusive. Então abordar seus
processos de transmissão dos modos de vida enquanto processos de cultura é rapidamente
lido como tentativa de construção de legitimidade e muitas vezes soa como um discurso
acusatório, de uma possível operacionalização do patrimônio cultural para “disputar
campos”, principalmente quando mobiliza recursos estatais para este reconhecimento. Mas
interessa a este trabalho romper com essa unicidade de resposta a estas estratégias e
poder lê-las também enquanto exercício de seus direitos culturais, de seus direitos
humanos a exercerem suas identidades fora dos padrões predominantes, cultivar sua
cultura, preservar suas memórias. Buscando trazer a perspectiva das redes que vão se
formando através dos agentes de forma fluida, êmica, mas intencional. Em um contexto de
dados crescentes de racismo religioso, onde a laicidade do Estado que existia em retórica
desde a Constituição Federal de 1988 fica cada vez mais esgarçada, onde proibicionismo é
reforçado enquanto prática de “combate às drogas”, como seguem essas comunidades
resistindo e existindo? Quais são as dinâmicas desenvolvidas, os espaços de sociabilidade
formados, a agência do psicoativo dentro dessas
redes de não-esquecimento?
Palavras chave: Ayahuasca, cultura, não-esquecimento

4. O Daime e o direito pela cura


Discente: Josué Silva Abreu Júnior (Doutorando UFBA)
josuebh@gmail.com
Orientador: Edward MacRae
Este trabalho busca apresentar concepções e práticas de saúde e cura de participantes do
Daime, assim como as questões legais e políticas envolvidas. O Daime é uma religião
fundada em 1930, em Rio Branco/AC, por Raimundo Irineu Serra. Durante os rituais, os
participantes utilizam uma bebida homóloga, conhecida genericamente por ayahuasca,
utilizada também por outras religiões, diversas comunidades indígenas, dentre outros
grupos. A principal razão pela qual os seguidores do Daime utilizam esta bebida é a busca
pela cura de doenças como depressão, alcoolismo, quebranto e outras. Os primeiros
seguidores eram, em sua maioria, imigrantes nordestinos que trabalharam nos seringais
acreanos, porém, na década de setenta o Daime passou a acolher jovens universitários de
classe média, influenciados pelo movimento hippie e por práticas terapêuticas do universo
New Age. Terapeutas holísticos, assim como médicos e psiquiatras, passaram a integrar a
ayahuasca em suas práticas. A inclusão de novos membros e novas práticas terapêuticas
resultou em diversas cisões dentro do Daime. A expansão da ayahuasca chamou a atenção
do governo brasileiro e esta bebida foi incluída na lista das substâncias proscritas. Após
longos debates e estudos científicos, o direito de uso religioso da ayahuasca foi garantido.
O uso em contexto análogo ao médico e psicológico ainda é notado, embora tenha sido
proibido até que pesquisas científicas comprovem sua eficiência. A partir de bibliografia
sobre o tema e trabalho de campo em centros de Mata de São João/BA, Rio Branco/AC e
Pauiní/AM, este trabalho abordará concepções e práticas de saúde e cura presentes no
Santo Daime, assim como o dialogo com o conhecimento científico, o governo brasileiro e
outros contextos nos quais a ayahuasca é utilizada.
Palavras chave: [Ayahuasca] [Santo Daime] [Antropologia do Direito]

5. Jonathan Nunes de Souza (PPGAS/DAN/Universidade de Brasília)


jonathan23.4@hotmail.com
Entre Humanos e Não-humanos no CEEU: Dados (Auto)etnográficos sobre
Desenvolvimento Espiritual e Práticas de Cura em Maceió/AL.
Proponho apresentar neste trabalho dados que foram coletados na realização de uma
pesquisa (auto)etnográfica sobre experiências com substâncias psicoativas em um contexto
ritualístico cujas atividades estão voltadas para questões envolvendo cura, espiritualidade,
expansão da consciência... De modo mais específico, procuro focalizar o modo pelo qual
substâncias como ayahuasca, rapé, kambô e sananga são identificadas e (re)significadas
pelas pessoas que frequentam as atividades ritualísticas desenvolvidas no Centro
Espiritualista Estrela Universal – CEEU, em Maceió-AL. Trata-se de um contexto onde
humanos (subjetividades, indivíduos, pessoas...) se relacionam com não-humanos
(substâncias, "medicinas", "plantas"...) a fim de alcançarem diferentes estados da
consciência e estabelecerem contatos com planos espirituais da existência. Refletindo
abordagens teórico-analíticas sobre questões que envolvem as relações estabelecidas
entre os diferentes corpos (físicos e espirituais, humanos e não-humanos...) que configuram
o cenário (neo)xamânico apresentado no/pelo CEEU, este trabalho pretende colocar em
evidência o modo como as diferentes pessoas inseridas nesse contexto traduzem
percepções e sensações diversas acerca das suas experiências com substâncias
psicoativas específicas. Seguindo o caráter (auto)etnográfico proposto, compartilho também
das experiências que foram por mim vivenciadas enquanto pesquisador que no exercício da
observação participante não teve receios em ser afetado pelos fenômenos que regem os
trabalhos ritualísticos desenvolvidos no CEEU.
PALAVRAS-CHAVE: (Auto)etnografia; Espiritualidade; Cura.

Sessão 02 (16:30 as 18hs): Reflexões sobre drogas e medicamentos,


legalidades/ilegalidades e bem viver
1. Pode a gestão autônoma de medicação (GAM) ser um dispositivo de redução de
danos?
Proponentes:
1. Indianara Maria Fernandes Ferreira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
indianara.way@gmail.com
2. Ana Karenina de Melo Arraes Amorim
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
O trabalho presente parte de uma experiência da pesquisa com a estratégia de cuidado
Gestão Autônoma de Medicação (GAM). A GAM foi trabalhada a partir de uma pesquisa-
intervenção institucionalista (Lourau) de inspiração cartográfica (Deleuze, Guattati) em um
Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPSAD) em Natal-RN. A GAM
tem como princípios potencializar processos de autonomia e garantir acesso à informações
sobre medicamentos como meio de atenuar as consequências, na vida das pessoas, do
consumo excessivo de medicamentos no contexto de saúde mental. O consumo acrítico de
medicamentos psiquiátricos se torna ainda mais delicado no contexto de álcool e outras
drogas visto que pessoas que fazem uso abusivo/problemático de "drogas"
lícitas e ilícitas são "tratadas" com prescrições e consumos excessivos de
drogas psiquiátricas. Nesse sentido, destacamos preocupações em torno de interações
entre múltiplas substâncias (líticas, ilícitas e prescritas) bem como dos mais diversos efeitos
no cotidiano e na vida das pessoas. A experiência com o dispositivo grupal, que contou com
a participação de usuários e trabalhadores durante 10 meses no ano de 2018, aponta para
o potencial do dispositivo GAM para o cuidado na perspectiva da ética da redução de
danos. A experiência mostra uma borragem nas fronteiras entre drogas prescritas, líticas e
ilícitas apontando para a importância da articulação entre a luta antimanicomial e
antiproibicionista na defesa dos direitos humanos e no cuidado em liberdade diante de
inúmeros e difíceis retrocessos nas políticas de saúde mental e nas políticas de álcool e
outras drogas no cenário brasileiro.
Palavras-chave: Gestão Autônoma de Medicação; Redução de Danos; Saúde Mental.

2. AS “DROGAS DA INTELIGÊNCIA”: apropriações e subjetividades no uso de


psicofármacos para potencializar o desempenho cognitivo
Igor Fidelis Maia (Doutorando PPGCS- UFBA)
igorfmaia@yahoo.com.br
Esta pesquisa procura explorar e analisar as alterações subjetivas produzidas nos usuários
de medicamentos psiquiátricos utilizados com a finalidade de aprimorar o desempenho
cognitivo em atividades de estudo. Assim, pretende-se discutir como o uso dessas
substâncias altera a autopercepção dos indivíduos que se engajam numa carreira
(BECKER, 2008) que frequentemente resulta num consumo regular, atentando também
para como é influenciada a relação que eles estabelecem com os controles sociais próprios
ao setting (ZINBERG, 1984) em que estão inseridos. Denominadas popularmente como
“drogas da inteligência”, são oficialmente indicadas para doenças como o Transtorno do
Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Narcolepsia 1 , mas utilizadas de forma não
prescrita para aumentar os rendimentos cognitivos. São usualmente consumidas com o
intuito de potencializar o desempenho em atividades de leitura e escrita, geralmente entre
universitários ou pessoas que estão buscando a aprovação em processos seletivos para
cargos públicos. Essas substâncias, como a Ritalina e Modafinil, prometem a seus usuários
estudar durante longas horas com concentração acentuada, facilitando atingir, dessa forma,
um desempenho superior ao normal em provas, concursos, trabalhos acadêmicos, etc. O
presente trabalho é um recorte da pesquisa de doutorado em Ciências Sociais em
andamento e tem como objetivo apresentar e discutir um caso de uso de psicoativos que
desloca de forma inusitada a orientação médica do consumo de fármacos estimulantes.
Através de relatos extraídos da aplicação de entrevistas semi-abertas com pessoas que se
inserem nesses grupos, esse trabalho tem como objetivo compreender como a experiência
com as “drogas da inteligência” reatualiza a existência social de seus usuários.
Palavras-chave: Ritalina, Psicofármacos, Aprimorador Cognitivo.
3. Bruno Calisto de Carvalho (Universidade de Brasília / University of Pennsylvania)
brunocmc@gmail.com
Bem-estar atomístico: improvisos farmacológicos nas margens da Filadélfia
Este artigo mostra como moradores de rua na Filadélfia apropriam mecanismos de bem-
estar social à escala individual através de drogas. A ruptura da infraestrutura Fordista-
Keynesiana e o advento da neoliberalização criou as condições de possibilidades para que
indivíduos recém-vulneráveis improvisem seu bem-estar. Nos anos 1970 e 1980, o
desemprego em regiões industriais não apenas pressionou indivíduos a entrarem no
mercado ilegal de drogas, mas o abandono estatal também fez proliferar agências
psicoativas voluntárias. Antes um mecanismo coletivo provido pela industrialização vigorosa
e paradigma estatal compassivo, o bem-estar estadunidense foi externalizado de seus
pilares estruturais e passou a ser de responsabilidade individual. A partir de um estudo
etnográfico de 2013 a 2015 entre moradores de rua em Kensington, antigo bairro industrial
respeitado na cidade estadunidense da Filadélfia, teorizo como a governamentalidade
atomizada toma forma nos corpos vulneráveis de moradores de rua que fazem uso regular
de drogas. A dissolução da infraestrutura Fordista-Keynesiana importa mas é processo
histórico incompleto e teoricamente insuficiente para uma etnografia sensível. Eu
complemento que a técnica psicoativa não é mero escapismo, inversão histórica, violência
estrutural ou irresponsabilidade moral, mas uma apropriação farmacológica do bem-estar
como método intertextual intencional, volátil, conscientemente trágico e grotesco, fruto da
responsabilização atomística. Moradores de rua se engajam em ofícios intravenosos de
bem-estar ao lado das fábricas abandonadas onde seus antepassados trabalhavam, uma
mimese do antigo mecanismo instrustrial-estatal improvisado para a escala atomizada da
ponta da agulha.
Palavras-chave: bem-estar; drogas; atomização.

4 - Pautas culturais de uso e políticas públicas sobre drogas no início do século XX.
Carlos Eduardo Martins Torcato
carlostorcato@uern.br

A ênfase na autonomia dos sujeitos e sua vivência como ser político está na base da
renovação da historiografia que ocorreu a partir dos anos de 1960/70, contribuindo muito
para isto a antropologia. Neste sentido, a apresentação proposta pretende mostrar como
eram as pautas de consumo de psicoativos no início do século XX, período comumente
pensado como início do regime proibicionista. O liberalismo enquanto doutrina política e
existencial foi um importante elemento de resistência das pessoas que utilizavam
psicoativos, quando o poder público buscou regulamentar e restringir o uso das substâncias
usadas na terapêutica da época. Pautadas pelos princípios de soberania do próprio corpo e
pela autonomia de decisão em relação aos processos terapêuticos, as pessoas resistiam de
inúmeras formas às tentativas
de monopolização da prescrição de medicamentos por parte da classe médica oficialmente
reconhecida. Pretende-se apresentar similaridades e diferenças do contexto brasileiro com
o britânico e o estadunidense da mesma época, mostrando que parte da classe médica
utilizou suas prerrogativas para manter os tratamentos de uso continuados de psicoativos,
em resistência aos novos agentes e políticas proibicionistas. O objetivo é problematizarmos
algumas categorias, tais como a própria noção de proibicionismo e o uso médico
sancionado legalmente.