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JEAN BODIN:
POLÍTICA E SOBERANIA

6.1 BODIN E SEU CONTEXTO

Jean Bodin (1529-1530/1596), nascido em Angers, dedicou-se ao estudo das letras


jurídicas, em Toulouse, onde também foi professor da área, assim como advogou em
Paris, destacando-se por sua ampla cultura humanística e formação enciclopédica. Em
teoria política, destaca-se por ser um autor que enaltece o absolutismo, o poder
absoluto,1 e o amplo exercício da soberania, tendo sobre esta discorrido com
cientificidade e sistematicidade como nenhum autor da teoria política. De fato, na leitura
de Barros, especialista no assunto:

“A primeira exposição sistemática da soberania é normalmente atribuída ao


jurista francês Jean Bodin (1529/1930-1596), que reclama justamente da falta de
uma clara definição desse conceito. Há, de fato, a necessidade de formular a
definição de soberania, porque não existiu nem jurisconsulto nem filósofo
político que a tenha definido, embora seja o ponto principal e o mais importante
a ser entendido no tratado sobre a República (República I, 8, p. 179)” (Barros, A
teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 27).

Na análise comparativa entre Bodin (1529-1530/1596), na França, Maquiavel


(1469/1527), na Itália, e Hobbes (1588/1679), na Inglaterra, destacam-se propostas e
respostas aos problemas de Estado muito diferentes. Os três pensadores propõem o
fortalecimento do poder, sua centralização, como forma de conferir maiores poderes ao
Estado; esse é o ponto em comum. No entanto, Bodin tem solução que passa pela via do
Direito, Maquiavel tem solução que passa pela ideia de virtù, e Hobbes propõe a
delegação completa de poderes e autonomias de governo ao soberano. Leia-se:

“Mas, o necessário fortalecimento do poder que, como o Florentino e o pensador


de Malmesbury, Bodin defende, terá de repousar na ideia objectiva de Direito, e
não na virtude política de um déspota eficaz ou na entrega, pelos indivíduos, dos
seus direitos subjectivos a um omnipotente ‘Deus Mortal’” (Serra, História da
filosofia do direito e do estado, 1990, p. 135).

Bodin escreveu vários trabalhos, sobre diversos assuntos, destacando-se também


seus pronunciamentos como advogado. Contudo, cumpre sejam ressaltadas estas duas
principais obras: Método para a fácil compreensão da história (1566); Os seis Livros da
República (1576), que são de decisiva significação para o tema da política, e, em
particular, para o tema da soberania.2 Sua principal obra, Da república, foi escrita em
francês e, depois, traduzida para o latim pelas próprias mãos do autor.3 No percurso de
sua obra, o que a torna peculiar, entre outros fatores, é o fato de, para opinar sobre o tema
da política, passar Bodin necessariamente em revista a tradição e a história das
instituições comparadas, de forma que seu conhecimento sobre o tema não é obtuso nem
circunscrito.4
Os momentos pósteros da história, após o advento de suas obras, caminham no
sentido da centralização e do absolutismo, que se dará, em seu auge, com Luís XIV (O
rei sol, Le roi soleil), ao que virá, na sequência, a reação com a Revolução Francesa, no
século XVIII (1789). De qualquer forma, o que se quer deixar anotado é o fato de que o
temor da desagregação e da desordem sociais, das guerras fratricidas, da intolerância
religiosa, da perda de territórios, das disputas político-internacionais assolava a
consciência dos pensadores e desafiava as habilidades dos juristas, motivo pelo qual a
obra de Jean Bodin faz distinção, à medida que reflete sobre possíveis soluções para os
problemas de Estado. Sobre sua influência:

“Embora Bodin tenha relativizado, no decurso das suas análises, o seu conceito
absoluto de soberania (passe a contradição de termos), a verdade é que
favoreceu, objectivamente, a marcha do regime monárquico francês para o
absolutismo” (Serra, História da filosofia do direito e do estado, 1990, p. 140).

6.2 SOBERANIA

Bodin preocupa-se em definir o que seja uma república (sinônimo de Estado), e o faz
com base na caracterização de alguns elementos primordiais para sua constituição. Sua
definição virá representando “o conjunto de famílias ou de colégios submetidos a uma só
e mesma autoridade” (Método para a fácil compreensão da história VI, p. 351 B).5
No entanto, dizer que a mera reunião de famílias e/ou colégios dá origem a uma
república não basta; o outro elemento caracterizador, apresentado na definição de Bodin,
não pode ser olvidado: as famílias e/ou colégios devem estar reunidos sob a mesma
autoridade, de modo que o poder aí já se identifica como uma regência centralizada dos
diversos grupos. Ajunte-se a isso o fato de que os grupos em convívio numa república
constituem seu espaço comum, e partilham de coisas comuns com vistas a certa utilidade
geral.6
Toda república é governada a partir da convivência harmônica de três espécies de
leis, a saber: a lei moral, cujo âmbito de aplicação e atuação é o foro íntimo de cada
indivíduo, governando suas decisões e posturas frente à vida e aos demais indivíduos; a
lei doméstica, cuja delimitação se circunscreve ao âmbito da casa, aplicada pelo chefe de
família sobre seus dependentes; a lei civil, que se aplica a todos os partícipes da sociedade
política, tendo por âmbito de aplicação as relações entre as famílias e os colégios.7
Com base na caracterização do espaço da sociedade, e de suas formas de se organizar
por leis, é que surge o mister de se identificar o quarto elemento de distinção da definição
bodiniana: a soberania. De fato, é ela definida com o seguinte destaque:

“A soberania é o verdadeiro fundamento, o eixo sobre o qual se move o estado


de uma sociedade política e do qual dependem todos os magistrados, leis e
ordenanças; ela é que reúne as famílias, os corpos e os colégios, e todos os
particulares num corpo perfeito (República I, 2, p. 43)”.8

Ora, nesses termos, a soberania é o cimento das relações sociais, é o solo sobre o qual
se constroem os modos de vida e o convívio em sociedade;9 sem ela, torna-se impossível
a vida organizada politicamente, inviabilizando-se a ideia e o projeto de existência do
Estado. Por isso, sua ampla extensão e significação:
“O uso do adjetivo absoluto implica atribuir ao poder soberano as características
de superior, independente, incondicional e ilimitado. Ilimitado porque qualquer
limitação é incompatível com a própria ideia de um poder supremo: ‘A soberania
não é limitada, nem em poder, nem em obrigações, nem em relação ao tempo’
(República I, 8, p. 181). Incondicional na medida em que este poder deve estar
desvinculado de qualquer obrigação: ‘A soberania dada a um príncipe sob
condições e obrigações não é propriamente soberania nem poder absoluto’
(República I, 8, p. 187). Independente, pois seu detentor deve ter plena liberdade
de ação: ‘Assim como o papa não tem suas mãos atadas, como dizem os
canonistas tampouco o príncipe soberano pode ter suas mãos atadas, mesmo se
o desejar’ (República I, 8, p. 192). Superior porque aquele que possui o poder
soberano não pode estar submetido ou numa posição de igualdade em relação a
outros poderes: ‘É preciso que os soberanos não estejam submetidos aos
comandos de outrem’ (República I, 8, p. 191)” (Barros, A teoria da soberania de
Jean Bodin, 2001, p. 236).

Constituindo algo indivisível por definição,10 pode-se dizer que a soberania é o


elemento mais importante caracterizador do Estado. O poder contido na soberania,
incontrastável, é também inalienável:

“Os direitos da soberania são considerados inalienáveis, pertencentes apenas ao


soberano: ‘É preciso que as marcas da soberania sejam tais que não possam ser
convenientes senão ao príncipe soberano; de outro modo, se elas são
comunicáveis aos súditos, não se pode dizer que sejam marcas da soberania’
(República I, 10, p. 298)” (Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001,
p. 243).

Como consequência disso, quem exerce o poder absoluto, quem exerce a soberania,
quem lhe confere existência atual e funcionamento prático não pode estar restrito,
constrangido, limitado, castrado, em sua atuação.11 Ocorre que, para Bodin, ser a
representação de um poder absoluto é poder agir com a máxima liberdade possível no
sentido de fazer cumprir as metas do Estado, o que se torna inviável se, por exemplo, as
leis se antepõem a essas intenções do exercente do poder soberano. Em tais condições:

“É preciso que os soberanos possam dar a lei aos súditos e anular ou revogar as
leis inúteis para fazer outras; o que não pode ser feito por aquele que está
submetido às leis ou por aquele que está sob o comando de outrem” (República I,
8, p. 191).12

Assim, o soberano vive na legalidade, não porque se submete às leis, mas porque
confere leis à sociedade. A sociedade sem leis, sem ordem, é o caos, é a anarquia e a
bandalheira generalizada. O Estado distingue-se por governar-se a partir de leis que se
estabelecem sobre os poderes das famílias e dos colégios. Assim, o soberano confere leis
ao povo, para que a sociedade possa cumprir suas metas e fins. Nesse poder de fazer as
leis, de dar leis ao povo, também está compreendido o poder de modificá-las, alterá-las,
corrigi-las, emendá-las, conforme a necessidade. Essas necessidades repousam sobre a
ideia de conveniência do soberano, ou, ainda, na ideia de vontade do soberano, pois é ele
o princípio, o meio e o fim das determinações sociais.13 Nas palavras de Bodin:

“A primeira marca do príncipe soberano é o poder de dar lei a todos em geral e


a cada um em particular” (República I, 10, p. 306).14
À ideia do legislar acresçam-se estas outras atribuições, todas exclusivas do detentor
do poder soberano: nomear, julgar, declarar guerra, julgar, ter sentença de vida ou morte:

“O primeiro e mais importante é nomear os mais altos magistrados e definir para


cada um o seu ofício; o segundo é promulgar ou anular as leis; o terceiro é
declarar a guerra e concluir a paz; o quarto é julgar em última instância, acima
de todos os magistrados; e o último é ter o direito de vida e de morte até mesmo
nos casos em que a lei não considera a possibilidade de clemência” (Método VI,
p. 359 B).15

6.2.1 Formas de exercício da soberania

Com base na noção de soberania é que se forma a tripartição de formas pelas quais
ela pode ser exercida.16 Ela é sempre una, indivisível e incontrastável, porém os modos
pelos quais pode ganhar conformação e ser exercida é que possibilitam essa divisão, aliás
muito semelhante à das formas de governo aristotélicas, em três:

“A soberania pertence necessariamente seja a um só indivíduo, seja a um


pequeno número de notáveis, seja ao conjunto de todos ou pelo menos da maioria
dos cidadãos, e nós temos, segundo o caso, uma monarquia, uma aristocracia ou
uma democracia” (Método VI, p. 368 A).17

Essa tripartição permite a Bodin discorrer também sobre as mudanças e


transformações do ordenamento jurídico. Esse tema encontra-se em sua mente pelo fato
de seu contexto político-social denunciar a necessidade de reflexão sobre as alterações
constantes de governo e das leis. A sua época a fragilidade e a volatilidade do poder
estavam evidenciadas.18 E, então, mais uma vez, a ideia de soberania será fundamental
para responder à questão, pois se a soberania passa de um para outro governo, então se
está diante de uma real modificação do ordenamento jurídico. Eis o critério bodiniano.19
Dos três modos de encarnação e exercício da soberania num Estado, Bodin
posiciona-se favoravelmente no sentido da monarquia, pelos argumentos que usa:

“Entre os três estados, o monárquico é considerado a forma mais adequada para


a República. Os argumentos utilizados por Bodin para provar sua superioridade
são de diferentes procedências. O primeiro vem da história, que revela a
aprovação dos povos antigos: ‘Vemos que todos os povos da terra de toda
antiguidade, quando se deixaram guiar pela luz natural, não tiveram outra forma
de República senão a monarquia’ (República VI, 4, p. 188). Os relatos históricos
mostram que os estados populares e aristocráticos, quando estão em perigo,
recorrem à forma monárquica: ‘Os estados aristocráticos e populares, vendo-se
em perigosa guerra contra os inimigos, ou contra eles mesmos, ou em dificuldade
de processar um poderoso cidadão [...] instituem um ditador como monarca
soberano, pois sabem que a monarquia é a âncora sagrada, à qual é necessário
recorrer em dificuldades’” (República VI, 4, p. 188).

Outro argumento vem da autoridade tanto dos grandes pensadores quanto das leis de
Deus:
“Se procurarmos a autoridade, encontraremos as mais altas personalidades
afirmando que a monarquia é a melhor forma de estado [...] e mesmo na lei de
Deus é dito: quando o povo faz um rei, como os outros povos, não toma um
estrangeiro; está bem demonstrado que Deus aprova a monarquia, dando lições
ao rei de como deve governar; assim também os outros povos daquele tempo não
tinham senão monarcas (República VI, 4, p. 189)” (Barros, A teoria da
soberania de Jean Bodin, 2001, p. 321).

No entanto, o argumento definitivo, e que pesa como nenhum, é este dado por Bodin:

“A principal marca de uma República, que é o direito da soberania, não pode


estar nem subsistir, falando propriamente, senão numa monarquia, pois só um
deve ser soberano numa República. Se são dois, ou três, ou vários, ninguém é
soberano, visto que não se pode dar nem receber a lei de um companheiro”
(República VI, 4, p. 178).20

6.3 LIMITAÇÕES AO PODER SOBERANO

Foi tratado do tema da soberania e do poder absoluto. Analisou-se quais seriam essas
características distintivas e que conferem singularidade do poder conferido ao soberano,
dando-se autonomia política e de ação ao Estado, na pessoa de seu(s) governante(s). Pela
impressão primeira que se tem da definição de soberania, nada há que se possa opor a ela,
e, então, ela não possuiria limites. De fato, a impressão não é falsa, mas há algo que a ela
se antepõe: são as leis naturais e as leis divinas.21 Veja-se:

“Se o soberano tem seu campo de ação demarcado pelas leis divinas e naturais,
algumas leis humanas comuns a todos os povos e pelas fundamentais da
República, o que os súditos devem fazer quando forem transgredidos esses
limites: obedecer passivamente ou resistir aos comandos do soberano? Se a
resistência é legítima, de que maneira ela pode se realizar? A questão da
obrigação política tornou-se uma das mais relevantes no debate teórico francês
da Segunda metade do século XVI, principalmente em razão do agravamento das
guerras de religião, envolvendo católicos e huguenotes” (Barros, A teoria da
soberania de Jean Bodin, 2001, p. 268).

Os limites ao poder soberano estão aí. Não são dados por homens, por instituições,
por classes sociais, nem por poderes eclesiásticos. São dados pelas leis, anteriores ao
soberano, existentes na natureza e criadas por Deus:

“O detentor da soberania está necessariamente submetido à lei divina, segundo


Bodin, porque é, antes de mais nada, um súdito de Deus. O soberano não pode
transgredi-la em hipótese alguma, devendo observá-la constantemente no
exercício do poder. Se está isento das leis positivas, que provêm de sua vontade,
o mesmo não acontece diante da lei divina, expressão da vontade de Deus, que
ultrapassa e sustenta seu poder: ‘todos os príncipes da Terra estão submetidos à
lei divina e não têm poder de contrariá-la, se não querem ser culpados de crime
de lesa majestade, fazendo guerra contra Deus’ (República I, 8, p. 192-193)”
(Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 247).
As leis divinas e naturais são, portanto, um parâmetro para definir a diferença entre
o monárquico e o tirânico. De fato, o que se há que dizer é que a concentração de poderes
e a ilimitação da soberania não são para Bodin sugestões para que o exercente do poder
deles se utilize arbitrariamente, pois as leis naturais e divinas antecedem seu poder
terreno:

“A maneira mais clara de reconhecer o exercício tirânico do poder, segundo


Bodin, é o desrespeito às leis divinas e naturais, que representam o principal
limite para o exercício do poder: ‘A mais notável diferença do rei e do tirano é
que o rei se conforma às leis de natureza e o tirano as pisoteia’ (República II, 4,
p. 57)” (Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 279).

No entanto, a contradição, numa teoria desse naipe, haveria de surgir. De fato, apesar
de o soberano ter limites e dever respeitá-los, ainda assim, em caso de infração à lei divina
e à lei natural, não será jamais o povo o julgador de seus procedimentos, de suas condutas.
Disso decorre a total impossibilidade de facultar-se ao povo a desobediência sob pretexto
de descumprimento das referidas leis. Isso, para Bodin, criaria a instabilidade do poder:22

“Mas a acusação de crueldade, de impiedade e de injustiça no exercício da


soberania não pode, em hipótese alguma, justificar a resistência, mesmo que o
soberano ordene coisas que são consideradas contrárias às leis de Deus e da
natureza” (Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 279).

Não há autoridade que possa julgar o soberano por sua conduta, pois isso seria
mesmo uma afronta à própria soberania. A esse que afronta tal poder, a sentença é uma
só, a morte:

“Se o súdito deseja tomar ou violar o estado de seu rei, por qualquer meio que
seja, ou deseja, num estado popular ou aristocrático, de companheiro tornar-se
senhor, ele merece a morte” (República II, 5, p. 70).23

Bodin está numa encruzilhada, e, entre optar por conceder direitos de resistência e
oposição ao povo, ou mesmo às autoridades eclesiásticas,24 sua escolha é pela
manutenção do poder soberano, causa e sentido da ordem social:

“Mas entre o poder do sobrenome e a obediência às leis divinas e naturais não


existe um intermediário que tenha o direito de exigir seu cumprimento. Nenhum
agente social pode obrigar o soberano a respeitá-las. De fato, elas não são dotadas
de eficácia legal, pois não exercem coerção jurídica sobre o soberano” (Barros, A
teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 248).

CONCLUSÕES

A leitura da obra de Bodin revela uma preocupação intensa com a questão da


soberania. É ela o núcleo de seus estudos e de suas pesquisas, e representou algo com
significado para a constituição dos limites soberanos do Estado moderno. Sua obra,
portanto, fundamenta e justifica, doutrina e esclarece sobre algo que historicamente
haveria de se tornar uma realidade concreta e necessária para a modernidade. O conceito
de soberania será, na história moderna, vital para a autoafirmação do próprio Estado.
Ademais, a obra de Jean Bodin revela intensa preocupação com o tema do poder,
sobretudo do poder absoluto. Esse poder é compreendido no sentido da necessidade de
proteção da própria existência da sociedade política. A desordem e o desgoverno são
males que Bodin quer ver afastados da sociedade. Por isso, aqui a ideia de soberania ganha
a extensão e a dimensão verificadas; é indivisível, incontrastável e absoluta.
_________
1Sobre Bodin: “Bodin est cependant le père du gouvernement absolu par la rigueur
et la logique qu’il a mises dans sa construction de la souveraineté” (Prélot, Histoire
des idées politiques, 12. ed., 1994, p. 222).
2Sobre a gestação e o paulatino desenvolvimento de sua teoria da soberania por suas
obras: “A teoria bodiniana da soberania encontra-se esboçada no Método para a fácil
compreensão da história (1566) e claramente enunciada em Os seis Livros da
República (1576). Mas já é possível observar sua formação no decorrer de um
audacioso projeto de constituição, a partir da reunião e da comparação sistemática
dos ordenamentos jurídicos das mais variadas Repúblicas, de um direito universal,
isto é, de um conjunto de princípios que receberam aprovação de todos os povos ou
pelo menos dos mais conhecidos. Assim, o primeiro capítulo aborda o percurso
intelectual de Bodin até a sua elaboração – a formação escolástica com os carmelitas,
os estudos jurídicos na Universidade de Toulouse, a forte influência do humanismo
jurídico, evidenciada no Discurso ao Senado e ao povo de Toulouse sobre a
educação a ser dada aos jovens de uma República (1559), a mudança de perspectiva
com a prática forense, o início do processo comparativo dos sistemas legais das
principais Repúblicas, a associação entre direito e história – e o segundo capítulo, a
inspiração, os recursos utilizados e a realização desse projeto, materializada
na Disposição do direito universal (1578), que representa o rompimento definitivo
com a autoridade do direito romano, modelo e referência obrigatória do raciocínio
jurídico medieval, abrindo caminho para a constituição de um direito nacional”
(Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 27).
3“Bodin escreveu em francês uma obra densa e volumosa em seis livros,
intitulada De la republique. Foi em seguida traduzida para o latim pelo próprio autor
em 1579” (Mosca, História das doutrinas políticas, 1968, p. 142).
4“No trabalho comparativo de Bodin, a história passa a adquirir um papel
preponderante: primeiro, porque possibilita o conhecimento dos diversos
ordenamentos jurídicos que já existiram, e depois, porque pode revelar a razão das
leis e seus fundamentos sociais e políticos. Daí o seu empenho em elaborar um
método para a fácil compreensão da história” (Barros, A teoria da soberania de Jean
Bodin, 2001, p. 62).
5Apud Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 201.
6“A existência de algo em comum entre as várias famílias introduz o terceiro
elemento da definição bodiniana. Para a constituição de uma República, não basta a
simples associação de várias famílias; elas devem necessariamente partilhar algo.
Seria uma contradição entre os termos, argumenta Bodin, não haver algo de comum
ou de público numa res publica, como ‘o domínio público, o tesouro público, as
ruas, as muralhas, as praças, os templos, os mercados, os usos, as leis, os costumes,
a justiça, as penas e outras coisas semelhantes’ (República I, 2, p. 43)” (Barros, A
teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 223).
7Cf. Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 233.
8Apud Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 227.
9Sobre a complexidade do conceito: “O conceito de soberania (souveraineté,
majestas na versão latina), destinado a ter tamanha repercussão nos séculos
seguintes, é mais complexo do que a sua definição faz supor.
Na Republique,soberania é o poder absoluto e perpétuo de uma República; no De
republica, o poder supremo sobre os cidadãos e súditos, e desvinculado das leis
(summa in cives ac subditos legibusque soluta potestas)” (Serra, História da
filosofia do direito e do estado, 1990, p. 136).
10“Segundo Jean Bodin, a soberania é indivisível por definição” (Serra, História da
filosofia do direito e do estado, 1990, p. 137).
11“Numa sociedade política, ter poder absoluto significa estar acima das leis civis:
‘Aquele que melhor compreendeu o que é poder absoluto disse que não é outra coisa
senão a possibilidade de revogar o direito positivo’ (República I, 8, p. 193)”
(Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 237).
12Apud Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 237.
13“Essa mudança pode ser explicada pela ênfase dada ao caráter absoluto do poder
soberano, que se manifesta essencialmente no poder de criar, de corrigir e de anular
as leis civis de acordo com a vontade do seu detentor” (Barros, A teoria da soberania
de Jean Bodin, 2001, p. 240).
14Apud Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 240.
15Idem, ibidem.
16“O conceito de soberania torna-se, então, o centro a partir do qual gravita a teoria
política de Bodin. Ele é utilizado, por exemplo, como critério para a classificação
dos regimes políticos, para a discussão do problema das mudanças constitucionais e
para a escolha da melhor forma de constituição” (Barros, A teoria da soberania de
Jean Bodin, 2001, p. 299).
17Apud Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 300.
18“Portanto no império da razão, o homem pode encontrar soluções capazes de
amenizar, caso não seja possível conter, as mudanças políticas. Entre o determinismo
das leis naturais e o acaso da fortuna, Bodin aposta na ação do homem virtuoso, no
sentido maquiavélico daquele que sabe aproveitar com audácia as circunstâncias
favoráveis, para manter o quanto for possível o estado da República” (Barros, A
teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 314).
19“Só há mudança realmente no ordenamento político, quando o poder soberano
muda de mãos. Outras modificações, sejam elas religiosas, econômicas ou sociais,
não alteram a constituição da República. A passagem da soberania de um agente
para outro, isto é, de um estado para outro, é que determina a verdadeira
transformação política” (Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 306).
20Apud Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 322.
21“Está, porém, submetido às leis de Deus e da natureza, cujo cumprimento fará
recto o seu governo” (Serra, História da filosofia do direito e do estado, 1990, p.
137).
22“Neste caso, embora, em princípio, não seja possível negar aos súbditos um certo
direito à desobediência, Bodin afirma ser preferível a tirania à anarquia”
(Serra, História da filosofia do direito e do estado, 1990, p. 137).
23Apud Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 276.
24“Mas isso não implica uma sujeição à autoridade eclesiástica. O soberano é
considerado totalmente livre e independente, inclusive diante do sumo pontífice. Se
o seu poder vem de Deus, ele não necessita de um intermediário que lhe traduza a
vontade divina, pois ela é nítida e inteligível a todos. Na mais fiel tradição dos
defensores da liberdade da Igreja galicana, Bodin parece manter suas ideias
fundamentais: distinção e independência do poder temporal e do poder espiritual;
autoridade limitada do papa sobre o clero francês; autoridade do rei sobre a Igreja
francesa” (Barros, A teoria da soberania de Jean Bodin, 2001, p. 247).