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26/04/2016 Importar­se demais. Essa é a maldição das classes trabalhadoras | baderna.

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Importar-se demais. Essa é a maldição das


classes trabalhadoras
por David Graeber

Por que a lógica básica da austeridade foi aceita por todo mundo? Porque a solidariedade passou a
representar um agelo Busca

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A crise do trabalhismo e a
direita rediviva
Ilustração de Matt Kenyon

Metal Connection – S01E01


É uma boa pergunta. Você imaginaria que um governo que provocou tanto sofrimento
A crise do antagonismo
àqueles com menos condições de resistir, sem ao menos mudar os rumos da economia,
bloqueado: 2013, 2014 e
correria risco de suicídio político. Em vez disso, a lógica básica da austeridade foi aceita por
além
quase todo mundo. Por quê? Por que políticos que prometem sofrimento prolongado
ganham qualquer condescendência da classe trabalhadora, pra não falar em apoio? Os novos navios negreiros

Acredito que a própria incredulidade com a qual comecei fornece uma resposta parcial. Os “Nós não mudamos as leis.
trabalhadores podem ser, como incessantemente nos lembram, menos meticulosos com Nós mudamos o mundo. E
assuntos de lei e propriedade que seus “superiores”, mas eles também são muito menos aí as leis tem que correr
obcecados consigo mesmos. Eles se importam mais com seus amigos, famílias e atrás da gente.”
comunidades. No conjunto, ao menos, são pessoas fundamentalmente melhores.

Em certa medida isso parece refletir uma lei sociológica universal. Há muito as feministas
apontam que aqueles que estão na parte de baixo de qualquer arranjo social desigual Arquivo
tendem a pensar mais sobre, e portanto importar-se mais com, aqueles no topo do que os
do topo em relação a eles. As mulheres em toda parte tendem a pensar e saber mais sobre
as vidas dos homens do que os homens pensam sobre as mulheres, assim como os negros
dezembro 2014
sabem mais sobre os brancos, os empregados sobre os empregadores e os pobres sobre os
ricos. novembro 2014

outubro 2014

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E sendo os humanos as criaturas empáticas que são, o conhecimento leva à compaixão. Os


agosto 2014
ricos e poderosos, no entanto, podem permanecer alheios e indiferentes, porque podem se
garantir. Vários estudos psicológicos recentes confirmam isso. Pessoas nascidas em famílias abril 2014
da classe trabalhadora invariavelmente se dão melhor em testes de percepção dos
março 2014
sentimentos alheios do que os filhos dos ricos ou das classes médias. De certa forma, o
resultado não é exatamente inesperado. Afinal, isso é o que ser “poderoso” fevereiro 2014
fundamentalmente significa: não ter de prestar muita atenção no que os outros ao redor
janeiro 2014
estão pensando e sentindo. Os poderosos empregam outros para fazê-lo por eles.

E quem eles empregam? Principalmente filhos das classes trabalhadoras. Aqui, creio que
tendemos a ser tão cegos por uma obsessão com o (ouso dizer, uma romantização do?)
Categorias
trabalho fabril como nosso paradigma de “trabalho de verdade” que nos esquecemos do que
a maior parte do trabalho humano de fato consiste.

Mesmo na época de Karl Marx ou Charles Dickens, os bairros de trabalhadores abrigavam Feminismo
mais empregadas domésticas, engraxates, varredores, cozinheiros, enfermeiros, taxistas,
professores, prostitutas e feirantes que empregados em minas de carvão, fábricas têxteis ou Indígenas

fundições. Hoje, isso é ainda mais verdadeiro. O que consideramos arquetipicamente como LGBT
trabalho de mulheres – cuidar de pessoas, encarregar-se de suas vontades e necessidades,
explicar, confortar, antever o que o patrão quer ou está pensando, para não mencionar Metal Connection

cuidar, vigiar e conservar plantas, animais, máquinas e outros objetos – representa uma Mudança climática
proporção muito maior daquilo que a classe trabalhadora faz quando está trabalhando do
que martelar, talhar, carregar ou colher coisas. Rádio

Isso é verdade não apenas porque a maioria das pessoas da classe trabalhadora são Revista

mulheres (pois a maioria das pessoas em geral são mulheres), mas porque temos uma
versão distorcida do que os homens fazem. Como os trabalhadores do metrô em greve
recentemente tiveram de explicar a usuários indignados, os funcionários do metrô não
passam a maior parte de seu tempo recolhendo bilhetes: eles passam a maior parte de seu
tempo explicando coisas, consertando coisas, procurando crianças perdidas, e cuidando dos
idosos, doentes e desorientados.

Se pensarmos bem, não é isso, basicamente, a vida? Os seres humanos são projetos de
criação mútua. A maior parte do trabalho que fazemos é uns com os outros. As classes
trabalhadoras apenas fazem uma parte desproporcional. Elas são as classes cuidadoras, e
sempre foram. É apenas a incessante demonização dos pobres por aqueles que se
beneficiam dos seus cuidados que torna difícil, num fórum público como este, reconhecê-lo.

Como filho de uma família de classe trabalhadora, posso atestar que é disso mesmo que nos
orgulhamos. Constantemente nos disseram que o trabalho é uma virtude em si – que ele
forma caráter ou coisa assim – mas ninguém acreditava nisso. A maioria de nós entendia que
o melhor seria evitar o trabalho, a menos que ele beneficiasse outras pessoas. Do trabalho
que beneficiasse alguém, fosse ele construir pontes ou esvaziar penicos, você poderia se
orgulhar. E há outra coisa de que definitivamente nos orgulhávamos: que somos pessoas que
cuidam umas das outras. Isso é o que nos distinguia dos ricos que, na nossa percepção, a
metade do tempo sequer se dedicavam a cuidar de seus próprios filhos.

Há uma razão pela qual a maior virtude burguesa é a austeridade, e a maior virtude na classe
trabalhadora é a solidariedade. Porém essa é precisamente a corda na qual a classe hoje está
pendurada. Houve um tempo em que se preocupar com sua comunidade podia significar
lutar pela própria classe trabalhadora. Naqueles dias costumávamos falar de “progresso
social”. Hoje vemos os efeitos de uma guerra sem trégua contra a própria noção de uma
política da classe trabalhadora ou comunidade de classe trabalhadora. Isso deixou a maioria
dos trabalhadores com poucos meios de expressar essa preocupação, senão dirigindo-a a
noções artificiais: “nossos netos”; “a nação”; seja através de patriotismo chauvinista ou de
apelos ao sacrifício coletivo.

Como resultado, tudo está posto ao revés. Gerações de manipulação política finalmente
transformaram esse senso de solidariedade num flagelo. Nossa preocupação com o outro foi
transformada em arma contra nós mesmos. E assim deve permanecer até que a esquerda,
que pretende falar pelos trabalhadores, comece a pensar séria e estrategicamente sobre no
que consiste a maior parte do trabalho, e o que aqueles que o realizam pensam ser a virtude

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contida nele.

David Graeber é um antropólogo e ativista americano. Participou de movimentos como


o Occupy Wall Street e os protestos antiglobalização de 2002

http://twitter.com/davidgraeber

Publicado originalmente no guardian.com


Tradução: Pedro Moraes e Francine Cavalcante
Revisão: Idelber Avelar

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