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MECÂNICA DOS SOLOS I

Curso Básico de Mecânica dos Solos – Carlos de Sousa Pinto

CAPÍTULO 1 – ORIGEM E NATUREZA DOS SOLOS


A Mecânica dos Solos na Engenharia Civil

Qual a importância da Mecânica dos Solos? Fundações, escavações, escoamento


de água.

Grandes insucessos da Engenharia Civil no início do século passado levaram a


uma mudança na abordagem dos problemas envolvendo o solo. Passou-se a tratar
a Engenharia de Solos como uma Ciência Física, em função de sua variabilidade
de comportamento, e não mais com a exatidão de uma Ciência Matemática,
imutável.

Início da Mecânica dos Solos dado por Karl Terzaghi, em seus estudos sobre
pressões da água nas tensões e solução matemática para a evolução dos
recalques em argilas.

Mas o que é a Mecânica dos Solos? Integração entre conhecimentos de Mecânica,


Química e Física Coloidal e Geologia.

O comportamento dos solos depende da constituição do solo e do movimento de


partículas entre si. Tal comportamento é distante da Mecânica dos Sólidos
Deformáveis – da Resistência dos Materiais – e próximo da Mecânica dos
Sistemas Particulados. As soluções clássicas da Mecânica dos Sólidos
Deformáveis são empregadas em maciços de solo – barragens e estruturas de
contenção – em virtude da simplicidade e pela proximidade observada entre os
resultados matemáticos e o comportamento real

Constituição do solo: Minerais: 45%, Ar: 25%, Água: 25%, Matéria Orgânica: 5%

As partículas constituintes dos solos

Qual a Origem dos Solos? Decomposição de rochas da crosta terrestre por


processos físicos, químicos e biológicos (intemperismo).

Intemperismo físico: responsável pelas fragmentações, fissurações e


desagregações na rocha-mãe, transformando uma superfície homogênea e coesa
em uma rocha descontínua. Exemplos: ação dos ventos, processos físicos da água
(evaporação e congelamento), mudanças de umidade e temperatura.
Intemperismo químico: responsável pelas alterações na estrutura interna da
rocha, alterando sua composição, geralmente associado à elevadas diferenças de
pressão e temperatura do ambiente em que as rochas estão inseridas, e à
presença de água. Exemplos: transformação de carbono em diamante, reações
químicas do solo com a água

Intemperismo biológico: quando as alterações na rocha são relacionadas à fauna


e flora, podendo, consequentemente, ocasionar ações físicas e químicas.
Exemplo: produção de gases, ácidos orgânicos e substâncias por bactérias,
fungos, algas, líquens e musgos, que, quando incorporadas à água, agem sobre os
minerais das rochas (intemperismo químico); tocas ou ninhos de animais no solo
facilitam a entrada de água (que pode causar os dois tipos de intemperismo), e o
surgimento de plantas que, por meio de suas raízes, exercem força sobre as
paredes das fendas, contribuindo para a desagregação (intemperismo físico).

O tamanho e formato das partículas é variável de acordo com a rocha original e


com o tipo de intemperismo atuante. É possível diferenciar determinadas
partículas por meio de identificação visual e tátil, ainda que, no solo, estejam
presentes partículas de diversos tamanhos. Frequentemente adota-se a
separação de silte e argila como 0,075 mm (#200) – por questões práticas. A fração
argila frequentemente é considerada como tendo diâmetro inferior a 0,002 mm.

Número # Série Normal Série Intermediária


3’’ 75 mm -
2 1/2'’ - 63 mm
2’’ - 50 mm
1 1/2’’ 37,5 mm -
1 1/4’’ - 31,5 mm
1’’ - 25 mm
3/4’’ 19 mm -
1/2’’ - 12,5 mm
3/8’’ 9,5 mm -
1/4'’ - 6,3 mm
Nº 4 4,75 mm -
Nº 8 2,36 mm -
Nº 16 1,18 mm -
Nº 30 600 μm -
Nº 50 300 μm -
Nº 100 150 μm -
Nº 200 75 μm -
Fração Fração Limites definidos pela ABNT
Matacão De 25 cm a 1 m
Pedra De 7,6 cm a 25 cm
Pedregulho De 4,8 mm a 7,6 cm
Fração grossa Areia grossa De 2 mm a 4,8 mm
Fração grosseira Areia média De 0,42 mm a 2 mm
Areia fina De 0,05 mm a 0,42 mm
Fração fina Silte De 0,005 mm a 0,05 mm
Fração de finos Argila Inferior a 0,005 mm

As partículas resultantes dependem da composição da rocha matriz. O quartzo,


presente na maioria das rochas, é resistente à desagregação e forma grãos de
areias e siltes. Os feldspatos, com menor resistência à desagregação, são os
minerais mais atacados pelas naturezas e formam os argilominerais, compostos
que apresentam comportamento muito diferente em relação às areiais e siltes.

Identificação do solo por meio de ensaios

Análise Granulométrica

A análise granulométrica é composta de duas fases: peneiramento e


sedimentação. A primeira fase, o peneiramento, possui uma limitação de
tamanho em virtude da abertura das peneiras (#200 = 0,075 mm). A segunda fase,
a sedimentação, é baseada na Lei de Stokes: “a velocidade de queda de partículas
esféricas em um fluido atinge um valor limite que depende do peso específico do
material da esfera (γs), do peso específico do fluido (γw), da viscosidade do fluido
(μ) e do diâmetro da esfera (D)”
γs − γw
v= . D²
18. μ
Índices de consistência (Atterberg)

A fração fina tem grande importância para a Engenharia, por causa da superfície
específica mais elevada.

Exemplo: superfície específica de um cubo de 1 cm de aresta (6cm²/cm³) e do


mesmo cubo, mas seccionado em cubos de 0,2 cm de aresta (30 cm²/cm³) e de 0,1
cm de aresta (60 cm²/cm³)

Os limites de Atterberg se baseiam na constatação de que um solo argiloso


apresenta comportamentos bem distintos conforme o seu teor de umidade.
Quando muito úmido, se comporta como um líquido; ao perder parte de sua água,
apresenta comportamento plástico; e quando mais seco, se torna quebradiço.

Em condições normais, só se apresentam os valores do LL e do IP como índice de


consistência dos solos. LP só é empregado para determinação do IP.

O LL é definido como o teor de umidade do solo com o qual uma ranhura nele feita
requer 25 golpes para se fechar numa concha (Aparelho de Casagrande). Diversas
tentativas são realizadas, em diferentes umidades; anota-se o número de golpes
e obtém-se o limite por interpolação (NBR 6459).

O LP é definido como o menor teor de umidade com o qual se consegue moldar


um cilindro de 3 mm de diâmetro rolando-se o solo com a palma da mão (NBR
7180).
Exemplo:

Limite de Liquidez 1 2 3
Amostra Úmida + Tara (g) 18,79 22,52 21,95
Amostra Seca + Tara 16,69 19,44 18,77
Água (g)
Solo (g)
Tara (g) 7,87 7,95 7,58
Umidade (%)
Número de golpes 46 31 23
Inserir os valores num gráfico monolog (umidade x log do número de golpes)

Gráfico: y = -0,2004x + 33,026

Limite de Plasticidade 1 2 3
Amostra Úmida + Tara (g) 14,76 13,80 16,27
Amostra Seca + Tara 13,90 13,04 15,64
Água (g)
Solo (g)
Tara (g) 7,64 7,12 10,54
Umidade (%)
LP = (U1+U2+U3)/3
IP = LL − LP

As partículas constituintes dos solos

Solos LL% LP%


Residuais de arenito (arenosos finos) 29-44 11-20
Residual de gnaisse 45-55 20-25
Residual de basalto 45-70 20-30
Residual de granito 45-55 14-18
Argilas orgânicas de várzeas quaternárias 70 30
Argilas orgânicas de baixadas litorâneas 120 80
Argila porosa vermelha de São Paulo 65-85 25-40
Argilas variegadas de São Paulo 40-80 15-45
Areias argilosas variegadas de São Paulo 20-40 5-15
Argilas duras, cinzas, de São Paulo 64 42

Atividade das argilas

Os índices de Atterberg indicam a influência dos finos argilosos no


comportamento do solo, mas também são função da areia presente. Quando se
quer ter uma ideia sobre a atividade da fração argila, os índices devem ser
comparados com a fração argila presente.
índice de plasticidade (IP)
Índice de atividade (IA) =
fração argila (menor que 0,002 mm)

Argila é considerada normal quando eu IA está entre 0,75 e 1,25. Argilas com IA
menor do que 0,75 são consideradas inativas e com IA maior do que 1,25 são
consideradas ativas.

Emprego dos índices de consistência

Os índices de consistência podem ser utilizados para prever o comportamento do


solo. Terzaghi relacionou a compressibilidade do solo com seu LL:

Índice de compressão (Cc ) = 0,009. (LL − 10)

De maneira análoga, diversas correlações empíricas são apresentadas, muitas


vezes restritas a solos de determinadas regiões ou formação geológica particular.

Os Índices de Atterberg representam bem solos sedimentares, no entanto não se


aplicam tão bem a solos residuais, necessitando de correlações específicas.

Exercícios

1.1 – Calcule a superfície específica dos seguintes sistemas de partículas,


expressando-as em m²/g. Admita que a massa específica das partículas seja de
2,65 g/cm³:
a) areia fina: cubos com 0,1 mm de aresta
b) silte: esferas com 0,01 mm diâmetro
c) argila caulinita: placas em forma de prismas quadrados com 1 μ (micra =
micrômetro = 10-6 m) de aresta e 0,1 μ de altura
d) argila esmectita: placas em forma de prismas quadrados com 0,1 μ de
aresta e 0,001 μ de altura

1.2 – Considerando que uma molécula de água tem cerca de 2,5 Å (angstrom =
10-10 m) e que, envolvendo as partículas, a camada de água tem pelo menos a
espessura de 5 Å, estime a umidade de solos constituídos de grãos como os
referidos no Exercício 1.1, quando eles estiverem envoltos por uma película de
água de 5 Å.

1.3 – Na determinação do Limite de Liquidez de um solo, foram feitas cinco


determinações do número de golpes para que a ranhura se feche, com teores de
umidade crescentes, e obtidos os resultados apresentados a seguir. Qual o Limite
de Liquidez desse solo?
Tentativa Umidade (%) Nº de golpes
1 51,3 36
2 52,8 29
3 54,5 22
4 55,5 19
5 56,7 16
Com a mesma amostra, foram feitas quatro determinações do limite de
plasticidade, e obtiveram-se as seguintes umidades quando o cilindro com
diâmetro de 3 mm se fragmentava ao ser moldado: 22,3%, 24,2%, 21,9% e 22,5%. Qual
o Limite de Plasticidade desse solo? Qual o Índice de Plasticidade?

1.4 – Com os Índices de Atterberg da tabela abaixo, estime qual das argilas – a
argila orgânica das baixadas litorâneas ou a argila orgânica das várzeas
quaternárias dos rios – deve ser mais compressiva, ou seja, apresenta maior
recalque para o mesmo carregamento.

Solos LL% LP%


Argilas orgânicas de várzeas quaternárias 70 30
Argilas orgânicas de baixadas litorâneas 120 80

1.8 – Quando se deseja conhecer a distribuição granulométrica só da parte


grosseira do solo (frações areia e pedregulho), não havendo a fase de
sedimentação, pode-se peneirar diretamente o solo no conjunto de peneiras?

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