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FGTS: essa galinha bota ovos de ouro?

Diego, Renan e Vitor

10 de junho de 2019 
 

 
 
O que são o FGTS e o PIS/PASEP? 
O  Fundo  de  Garantia  do  Tempo  de  Serviço  (FGTS)  é  um  benefício 
que foi criado em 1966 com intuito de proteger o trabalhador demitido sem 
justa  causa,  por  meio da abertura de uma conta vinculada ao contrato de 
trabalho.  Hoje,  o  dinheiro  do  fundo  pode  ser  retirado  não  só  por  quem  foi 
demitido  injustamente,  mas  também  por  aqueles  que  precisam  do 
montante  para  o  tratamento de algumas doenças, como o da AIDS e o do 
câncer, ou para o auxílio na aquisição da casa própria, por exemplo.  
Cada  vez  que  um  trabalhador  é  iniciado  em  um  emprego  com 
carteira  assinada,  uma  nova  conta  é  criada  e  vinculada  ao  seu  FGTS. 
Portanto,  uma  única  pessoa  pode  ter  várias  contas  e  cada  uma 
corresponde  a  uma empresa na qual houve vínculo empregatício. Há duas 
formas de se encontrar uma conta do fundo: 
● Conta  Ativa  -  Conta  vinculada  a  um  contrato  de  trabalho 
vigente.  Recebe  depósitos  mensais  por  parte  do  empregador. 
O saldo rende juros e atualização monetária 
● Conta  Inativa  -  Conta  vinculada  a  um  contrato  de  trabalho 
extinto.  Não  recebe  depósitos  regularmente,  mas  pode  ter 
saldo  positivo,  caso  o  trabalhador  não  tenha  se  enquadrado 
nas  regras  para  saque.  O  saldo  também  rende  juros  e 
atualizações monetárias 
O  empregador  deve  depositar,  mensalmente,  o  valor 
correspondente à 8% do salário de cada funcionário no fundo, somando-se 
assim  aproximadamente  um  salário  a  mais  pago  anualmente  para  cada 
um  de  seus  funcionários.  Apesar  de  até  ser  considerado  seu  14º  salário,  o 
empregado  sofre  com  uma  rentabilidade  anual  considerada  muito  baixa: 
de  3%  mais  a  TR  (Taxa  Referencial,  que está zerada desde 2017), rendendo 
menos que a poupança e há 20 anos, abaixo também da inflação. 
Já  o  PIS/PASEP  (Programa  de  Integração  Social  e  Programa  de 
Formação  do  Patrimônio  do  Servidor  Público  respectivamente)  são 
contribuições  sociais  recolhidas  pelas  empresas, que são transformadas em 
benefícios  a  trabalhadores  dos  setores  privado  e  público.  Todos  os  anos  o 
governo,  através  destes  programas,  distribui  partes  do  fundo  a 
trabalhadores  em  forma  de  Abono  Salarial,  que  se  inicia  em julho e finaliza 
em junho do ano posterior. 
 
O que o governo quer com esses benefícios? 

 
O  consumo  no  Brasil  vem  diminuindo  gradativamente  nos  últimos 
anos,  assim  como  o  crescimento  da  economia.  O  quarto  trimestre  de  2018 
apresentou  um  avanço  de  apenas  0,1%  no  PIB  nacional,  enquanto,  para 
piorar,  de  janeiro  a  março  de  2019,  o  índice  chegou a encolher 0,2%. Com 
esses  números,  o  cenário  é  de  preocupação  na  equipe  econômica  do 
governo,  o  que  leva  a  ser  cogitada  a  liberação  do  saque  do  FGTS,  para 
que essa queda seja amenizada.  

 
“É o voo da galinha” 

Porém,  o  Ministro  da  Economia  Paulo  Guedes  já  deixou  claro  que  a 
medida  só  será  tomada  caso  a  aguardada  Reforma  da  Previdência  seja 
aprovada.  Segundo  ele:  "Vamos  liberar  PIS-Pasep,  FGTS,  mas  assim  que 
saírem  as  reformas. Se abre essas torneiras sem as mudanças fundamentais, 
é  o  voo  da  galinha.  Você  voa  três,  quatro  meses  porque  liberou  e  depois 
afunda  tudo  outra  vez.  Na  hora  em  que  fizer  as  reformas  fundamentais,  aí, 
sim,  libera  isso.  É  como  se  fosse  a  chupeta  de  bateria.  Senão,  anda  três 
metros e para tudo outra vez". 
No  final  do  ano  de  2016,  o  governo  Temer  liberou  o  saque  do  FGTS 
das  contas  que  estavam  inativas  até  dezembro  de  2015,  o  qual 
representou  uma  injeção  de  R$  44  bilhões  na  economia.  A  medida 
estimulou  o  pagamento  de  dívidas  e  o  consumo  dos  brasileiros,  causando 
uma contribuição de cerca de 0,5% no PIB de 2017. 
 

O  caso de reaquecimento da economia do governo anterior inspirou 
Guedes  a  fazer  algo  similar,  mas  com  algumas  mudanças.  A  diferença  da 
medida  tomada  pelo  atual  ministro  e  pelo  ex  presidente  Michel  Temer  é 
que  dessa  vez  os  saques  poderão  ser  feitos  em  contas  ativas  e  inativas.  A 
necessidade  da  inclusão  das  contas  ativas  é  devido  ao  saque  do  FGTS 
realizado  no  governo  anterior,  que  já  consumiu  parte  dos  recursos  inativos 
do  fundo.  Dessa  forma,  se  agora  não  houvesse  a  inclusão,  o valor injetado 
seria  de  apenas  R$  8  bilhões,  o  que  é  considerado  insuficiente  para  dar 
fôlego à economia. Contando com a inserção, esse valor subiria para R$ 22 
bilhões, 5% do fundo, que por sua vez é visto como suficiente para reanimar 
a economia. 
 
Remediação? 
A  proposta  ligou  um  alerta  entre  os  investidores  e  empresários  do 
mercado  imobiliário.  Uma  das  preocupações  seria  com  a  queda  dos 
investimentos  no  programa  Minha  Casa  Minha  Vida  (MCMV),  uma vez que 
os  recursos  do  fundo  são  usados  no  financiamento  de  compra  e 
construção das moradias do programa.  
De  acordo  com  o  presidente  da  Associação  Brasileira  de 
Incorporadoras  Imobiliárias,  Luiz  França,  tal  impacto  no  setor  se  deve  ao 
fato  dos  empreendimentos  do  MCMV representarem 78% dos lançamentos 
e  67%  das  vendas  no  País  nos  últimos  12  meses. “Se prejudicar a habitação 
popular,  o  setor  da  construção  civil  vai  ter  uma  grande  retração  na 
geração de empregos e de impostos”, acrescentou França. 
Nesse  sentido,  é  necessário  precisão  no  volume  de  recursos  a  serem 
liberados,  já  que  uma  medida  exacerbada  acarretaria  em  um  golpe  duro 
no  setor  imobiliário,  porém  uma  baixa  quantia  seria  insuficiente  para  o 
reaquecimento da economia. 
A  palavra  remediação  surge  do  latim  “remederi”,  cujo  significado  é 
curar,  restaurar.  O  ministro,  ao  autorizar  a  liberação  de  saques  do  FGTS, 
pretende  medicar  a  economia  adoecida  que  se  vive  nesses  últimos  anos. 
No  entanto,  assim  como  qualquer  medicamento,  para  que  se  tenha  o 
efeito  desejado,  deve-se  seguir  uma  orientação  precisa  do  quanto  e  de 
quando tomar, ou então os efeitos colaterais podem ser catastróficos.