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A FILOSOFIA ESTÓICA DE SÊNECA COMO MEDICINA DA ALMA

Durante a Antiguidade Clássica, período onde os povos romanos e gregos


desenvolveram o pensamento humano com diversas teorias acerca de problemáticas que
envolviam a existência do homem no mundo antigo destacamos a presença do Estoicismo
como filosofia que atuava como medicina da alma. O filósofo romano Lúcio Aneu Sêneca,
preceptor de Nero, Imperador romano que governou entre os anos de 54 a 68 da Era Cristã,
deixou-nos ampla variedade de obras voltadas para o estudo da moral humana como
princípios essenciais para o combate de vícios responsáveis pela perturbação da alma do
homem.
Dentre essas obras, selecionamos as “Cartas à Lucílio” como fonte de estudo que
exemplifica e abre-se como leque investigativo com a multiplicidade de temas que concorrem
para a proposta final do filósofo em reduzir o sofrimento humano ocasionado pelas
inconstâncias do ser. As atitudes viciosas como a ambição, o medo da morte, a avareza, os
prazeres desenfreados do sexo e todo tipo de ação direcionada pela irracionalidade do homem
deveriam ser combatidos com os preceitos morais estóicos que auxiliariam o mesmo a viver
de acordo com as leis da natureza.
O Estoicismo foi uma filosofia fundada por Zenão de Cicio, região da ilha de Chipre
no século III a.C., retirando seu nome da palavra grega Stoa (cujo significado é Pórtico). Tais
pensadores reuniam-se neste local para discutirem sobre os princípios filosóficos que
ordenavam à existência humana observada em três esferas do pensamento estóico: Ética,
Lógica e Física.
À medida que a História Ocidental avançou e o mundo helênico de Alexandre da
Macedônia cedeu lugar à expansão imperial de Roma durante o século II a.C., tais filosofias
advindas da Grécia Antiga adentraram no mundo romano seduzindo vários membros
aristocratas que buscaram no Estoicismo um instrumento racional para ingressarem no mundo
político guiado pela hegemonia do Senado Romano.
Foi sob a égide Imperial Romana que o Estoicismo alargou suas fronteiras adaptando-
se as necessidades de Roma para responder quais princípios filosóficos conduziriam o homem
a uma vida pautada pela razão libertadora dos sofrimentos da alma, visto por Sêneca como
enfermidades degenerativas do ser. Viver segundo a Natureza era espelhar-se no Cosmos
Universal ordenado pela razão. Para combater as mazelas humanas, a filosofia se revestia de
um caráter medicinal, fornecendo os “remédios” para a prática de ações virtuosas
responsáveis em dissipar a imoralidade dos vícios. Viver de acordo com a physis (Natureza)
era encontrar a paz interior que levaria o indivíduo a tranqüilidade da alma.
Sêneca consegue de forma perspicaz captar as problemáticas sociais, culturais,
políticas e econômicas que assolavam o espírito do homem da Antiguidade. Em suas Cartas a
Lúcilio, um discípulo seu, materializou em letras vivas questões humanas que ainda hoje nos
atingem de forma pujante. Longe de afirmarmos que o Estocismo de Sêneca se aplica a
contemporaneidade, cometendo um anacronismo simplório, somente deixamos em aberto a
importância de seus escritos como registro histórico que apresenta os sofrimentos da alma do
homem num tempo distante ao nosso.
Hoje, podemos visualizar problemas referentes a doenças da alma estudados em
ciências da saúde como a Psiquiatria e a Psicologia. Enfermidades como a síndrome do
Pânico e a Depressão, são fenômenos contemporâneos que indicam como o homem ainda
hoje padece de um sofrimento da alma específico do mundo Pós-Moderno.

Fabrício Dias Gusmão Di Mesquita


Historiador graduado pela UFG.