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ÍNDICE

DEDICATÓRIA.............................................................................................................. I
AGRADECIMENTO............................................................................................................
II
RESUMO...............................................................................................................................
III
ABSTRACT..........................................................................................................................
IV
SIGLAS E ACRONIMOS…………………………………………………………….. V
INTRODUÇÃO........................................................................................................................
Pág. 1
Pergunta de Partida......................................................................................................
Pág. 2
Objectivos.............................................................................................................. Pág. 2
Hipótese................................................................................................................. Pág. 3
Metodologia........................................................................................................... Pág. 3
CAPÍTULO Iº – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.– Regime Político e Sistema de Governo: Asserções Teóricas………………… Pág. 4
1.1– Sistemas de Governo Pág.10
a) Sistema de Governo Parlamentar: Pág.11
b) Sistema de Governo Presidencialista: Pág.13
c) Sistema de Governo Semipresidencialista:……………………………….
Pág 14
CAPÍTULO IIº – O CONTEXTO POLÍTICO DA INDEPENDÊNCIA
2. – As Bases Ideológicas do Sistema Político Angolano em 1975………………….Pág. 15
2.1– A Lei Constitucional de 1975 e a 1ª República…………………………………Pág. 16
2.2– A Revisão Constitucional de 1991 e o Início da IIª República………………….Pág. 19
2.3 – A institucionalização do Semipresidencialismo em África: O caso Angolano Pág. 21
CAPÍTULO IIIº – A CONSTITUIÇÃO ANGOLANA DE 2010 E O INÍCIO DA IIIª
REPÚBLICA

3. – O Regime Político Angolano………………………………..…………………. Pág. 27


3.1 – O Sistema de Governo Angolano……………………………………………… Pág. 30
3.2 – Características do Sistema de Governo Angolano…………………………….. Pág. 31
3.3 – O Sistema de Governo Angolano face aos Sistemas Parlamentar e Presidencialista
Pág. 34
3.4 – Estabilidade, Eficácia e Maleabilidade do Sistema PolíticoAngolano……………….
Pág. 36
3.5 – Sistema de Governo na IIª República vs Sistema de Governo na IIIª Rep……. Pág. 38
CONCLUSÃO............................................................................................................ Pág. 45
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DEDICATÓRIA

No desenvolvimento deste trabalho de conclusão de fim de curso, houve a


participação de algumas pessoas dentre as quais dedicamos:

Primeiramente aos nossos Pais, Fernando Ramos, Serafina Antónia S. Ramos, e


Sunday Awoniyi e Marta da Silva, por todos os sacrifícios e apoio incondicional
durante este processo de formação. “O mérito é tão nosso quanto vosso”, ao orientador
do trabalho, aos familiares e amigos, e a todos que de certa forma contribuíram para a
realização deste projecto, o nosso muito obrigado.

I
AGRADECIMENTOS

À Deus, pai celestial, pelo dom da vida e por ter iluminado o nosso caminho
durante esta caminhada.
Aos nossos familiares pelo apoio incondicional na nossa formação, com especial
ênfase aos nossos pais (Marta da Silva, e Sunday Awoniyi) (Fernando Ramos, e
Serafina Ramos) por acreditarem que seriamos capazes, pela paciência e sobretudo por
apostarem em nós como ferramenta ideal para o futuro.
Agradecemos a todas aquelas pessoa que directa ou indirectamente estiveram
connosco durante esta jornada, prestando o seu apoio na preparaçao desta monografia,
em especial a todos nossos amigos, colegas e professores que foram muito
importantesna nossa vida acadêmica.
Ao nosso professor Antonio Quiriri, especial agradecimento, pela orientação,
paciência, atençao e rigor no que concerne a elaboraçao deste trabalho, através do qual
muitas portas para o conhecimento foram abertas.

II
RESUMO

Angola teve a primeira Lei Constitucional efectiva com a proclamação da


Independência, em 11 de Novembro de 1975, adoptando como princípio estruturante de
organização do poder político do tipo monolítico. Esta forma de governo sustentava-se
no MPLA, constituindo a vanguarda da classe operária e cabendo-lhe como partido
marxista-leninista, a direcção política, económica e social do Estado nos esforços para a
construção da sociedade socialista. Em 1991 e 1992, deu-se a primeira abertura para a
democracia multipartidária que teve como ápice a realização das primeiras eleições
legislativas, seguidas das eleições presidenciais. Em 2010, aprovou-se a primeira
Constituição da história do país, que marcou o início da IIIª República. Nesta
Constituição, tal como na Lei de Revisão Constitucional de 1992, consagrou-se o
Estado Democrático de Direito, mas, diferente da Lei Constitucional de 1992, a
Constituição ora aprovada efectiva o alargar dos direitos e liberdades fundamentais dos
cidadãos. Além da efectivação do Regime Democrático, o novo texto constitucional
adopta um Sistema de Governo híbrido, designado “Presidencialista-Parlamentar”. É,
portanto Presidencialista-Parlamentar, por haver um único processo eleitoral que
legitima quem deve governar o Estado (maioria parlamentar) e o seu cabeça de lista que
consta no boletim eleitoral junto do partido político será o Presidente da República e
Chefe do Executivo.
Palavras-chave: Regime Político, Sistema de Governo, Constituição.

III
ABSTRACT

Angola had the first actual Constitution with the proclamation of independence
on 11 November 1975 adopting a structuring principle of organization of the political
power of the monolithic type. This form of government held in the MPLA, being the
vanguard of the working class and fitting him as a Marxist-Leninist party, the political
leadership, economic and social status of the efforts to build a socialist society. In 1991
and 1992, he gave the first opening for multi-party democracy that was to climax the
holding of the first parliamentary elections, followed by presidential elections. In 2010,
it approved the first Constitution of the country's history, which marked the beginning
of the Third Republic. In this Constitution, as the Constitutional Review Act 1992,
consecrated the democratic rule of law, but unlike the Constitutional Law of 1992, the
Constitution now approved effective the broadening of fundamental rights and freedoms
of citizens. In addition to effecting the Democratic Regime, the new Constitution adopts
a hybrid government system, called "Presidential-Parliamentary". It is therefore
Presidential-Parliamentary, because there is a single electoral process that legitimizes
who should rule the state (parliamentary majority) and its head of list contained in the
electoral bulletin from the political party will be the President and Chief Executive.
Keywords: Political Regime, Government System, Constitution.

IV
SIGLAS E ACRÓNIMOS

CRA………………………………… Constituição da República de Angola


LC……………….……………………………….. …… Lei Constitucional
CRP…………………………………Constituição da República de Portugal
MPLA……………………… Movimento Popular de Libertação de Angola
URSS………………………… União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
PALOP…………………… Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
UNITA……………... União Nacional para Independência Total de Angola
LC/75………………………………………….. Lei Constitucional de 1975
FNLA…………………………... Frente Nacional de Libertação de Angola
FRELIMO………………………….. Frente de Libertação de Moçambique
MPD………………………………………. Movimento para a Democracia
PCD-GR……… Partido de Convergência Democrática/ Grupo de Reflexão
OGE…………………………………………... Orçamento Geral do Estado

V
INTRODUÇÃO

A indagação sobre os regimes políticos e sistemas de governo é recorrente em Ciência


Política, Relações Internacionais e Direito Constitucional, tendo o seu ponto de ressurgência
no século XX marcado pelo processo de democratização de muitos Estados. O presente
trabalho versa sobre a Evolução do Sistema de Governo Angolano (1992-2010). Procuramos
centralizar a pesquisa numa abordagem político-constitucional do recorte normativo que
preside à organização formal (segundo os textos constitucionais) dos diferentes órgãos de
soberania, procurando descrever as relações que se estabelecem entre os mesmos no quadro
da separação de poderes.

Regimes Políticos e Sistemas de Governo são dos temas que enriquecem o campo da
Ciência Política, com destaque para o campo do Direito Constitucional. Trata-se igualmente
de um tema de alguma produção académico-científica, sem, contudo existirem estudos que
aprofundem questões teóricas e empíricas que envolvem as relações de poderes na
configuração do Sistema de Governo angolano, pelo facto de se presenciar uma escassa
doutrina de produção científica. E, como escreve o Professor Carlos Feijó, “para além do que
consta de uma “mão-cheia” de monografias, de uma ou outra colectânea avulsa de estudos
jurídico-dogmáticos, de uns poucos trabalhos de mestrado e de alguns artigos em revista,
pouco se tem infelizmente produzido”.

Embora tal facto ocorra, não pretendemos com este trabalho, defender nenhuma tese
nem apresentar conclusões ou ideias acabadas, mas levantar pistas e interrogações para novas
reflexões e pesquisas. Afinal, o que pretendemos é transmitir de forma descritiva o ponto da
situação das reflexões que se vêm fazendo sobre a questão que nos propomos a abordar, fruto
da douta intervenção e dedicação assídua dos mais variados autores da Ciência Política e
áreas afins, clássicos e contemporâneos, nacionais e internacionais.

O presente trabalho tem como objectivo geral de compreender o funcionamento do


Sistema Político Angolano. O mesmo encontra-se balizado em três capítulos. O Capítulo Iº
apresenta as questões ligadas às conceptualizações, mormente as diversas perspectivas
introdutórias apresentadas pelos diferentes autores sobre os Regimes Políticos, bem como os
elementos subjacentes nos regimes democráticos e não democráticos. Vai tratar igualmente

1
dos Sistemas “puros” de Governo (Parlamentar e Presidencialista) com breve apresentação da
invenção francesa (Sistema de Governo Semipresidencialista) que nos permitirão encontrar os
pontos que assemelham e dissemelham o Sistema de Governo Angolano e os sistemas de
governo ora referidos.

No Capítulo IIº, procuramos elaborar de forma sintética e objectiva um estudo com


uma introdução histórica para aclarar os antecedentes políticos, económicos e sociais,
endógenos e exógenos que estiveram subjacentes na configuração do Sistema Político-
Constitucional angolano, com especial destaque para a Lei Constitucional de 1975 e as
revisões constitucionais de 1991 e 1992.

Por fim, o Capítulo IIIº incide sobre a dinâmica das mudanças que ocorreram no
Sistema Político Angolano com a aprovação da Constituição de 2010 e o consequente início
da IIIª República. Neste capítulo, nos interessamos em descrever analiticamente a tipologia e
a qualidade do Regime Político Angolano, o Sistema de Governo Angolano e as
particularidades que o diferenciam e aproximam dos sistemas “puros” de governo.

Objectivos de Pesquisa

• Objectivo Geral:
• O objectivo geral é, pois, o de compreender o funcionamento do Sistema Político
Angolano.
• Objectivos Específicos:
• Caracterizar o Sistema de Governo Angolano na IIª República
• Caracterizar o Sistema de Governo Angolano na IIIª República;
• Comparar o Sistema de Governo angolano face aos Sistemas de Governo Parlamentar
e Presidencialista;

Problema Científico / Pergunta Científica

Durante o período pré e pós elaboração da Constituição da República de Angola,


houve discussões a favor e contra. Houve quem defendesse a adopção de um Sistema de
Governo Parlamentar, como também houve quem defendesse um modelo Presidencialista.
Entretanto, passado algum tempo depois das eleições gerais de 31 de Agosto, algumas
dúvidas ainda pairam sobre a identificação do Sistema de Governo Angolano. Portanto, o
presente trabalho procura responder a seguinte pergunta:

2
• Qual é o Sistema de Governo adoptado na Constituição de 2010?

Hipótese

Os Sistemas de Governo são elementos importantes a ter em conta na estruturação do


Sistema Político de qualquer Estado que se queira Democrático e de Direito. Após estudarmos
com alguma dedicação o tema a que nos propomos apresentar, podemos apresenta a seguinte
hipótese:

• O Sistema de Governo angolano é, do ponto de vista formal, Presidencialista-


Parlamentar, por haver apenas um único processo eleitoral que legitima quem deve
governar o Estado (maioria parlamentar) e o seu cabeça de lista que consta no boletim
eleitoral junto do Partido Político será o Presidente da República e Chefe do
Executivo, segundo o artigo 109.º da CRA.

Metodologia de Investigação

No que diz respeito à metodologia, utilizamos o método qualitativo por considerarmos


que existe uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo
indissociável entre o mundo objectivo e a subjectividade do sujeito que não pode ser
traduzido em números. Quanto a abordagem, o presente trabalho circunscreve-se ao âmbito
descritivo, porquanto, envolveu o uso de técnicas padronizadas de colecta de dados. Quanto
aos procedimentos técnicos, nos propusemos a fazer uma pesquisa bibliográfica, pelo facto do
presente trabalho ser elaborado partir de material já publicado, sobretudo livros, artigos,
jornais, revistas e matérias disponíveis na internet.

3
CAPÍTULO Iº – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Este capítulo apresenta o enquadramento teórico-conceptual que norteará toda a
reflexão que se pretende fazer sobre o tema em destaque. Está estruturado em três secções. A
primeira, intitulada ‘‘Regime Político e Sistema de Governo: Asserções Teóricas”. A segunda
secção, designada ‘‘Origem e Tipologia dos Regimes Políticos’’. E a terceira, intitulada
‘‘Sistemas de Governo”.

1. – Regime Político e Sistema de Governo: Asserções Teóricas

A bibliografia relevante sobre o tema em epígrafe, refere que é muito frequente existir
uma grande confusão entre Regime e Sistema, aplicando-se os dois termos indistintamente
para se referirem à mesma coisa. Fala-se, muitas vezes, em Regime para se referirem à
estrutura do aparelho do Poder, e em Sistema para evidenciarem a forma de designação dos
Órgãos de Soberania. Todavia, os autores mais prudentes quanto à terminologia costumam,
por vezes, afirmar que é preciso mudar o Sistema de Governo para preservar o Regime
Político, reconhecendo assim a possibilidade de alterar o Sistema de Governo sem mudar o
Regime Político1. O termo Sistema diz respeito ao conjunto dos elementos de um todo e à sua
interacção permanente, ao passo que a palavra Regime diz respeito ao modo como esse todo
se forma e funciona.

Os conceitos e a tipologia de Regimes Políticos e Sistemas de Governo são das


matérias mais estudadas nos domínios da Ciência Política, Relações Internacionais e Direito
Constitucional, mas paradoxalmente, continuam a oferecer um vasto campo para estudo e
investigação, não só por persistirem algumas divergências, mas também pela proliferação de
particularidades, sobretudo nos sistemas constitucionais emergentes2. Neste contexto, a noção
de Regime Político deve ser claramente diferenciada das outras formas políticas,
nomeadamente, dos conceitos de Sistema de Governo e Sistema Político:

1
Fernandes, António José. (1995). Introdução à ciência política: Teorias, métodos e temáticas. Porto: Porto
Editora, p.143.
2
Almeida, Adão de. (2009) Autorizações Legislativas e Controlo Parlamentar do Decreto-Lei Autorizado: O
Caso Angolano, Coimbra, Almedina p.23

4
a) Regime Político: Segundo o Dicionário de Política, Regime Político diz respeito ao
conjunto das instituições que regulam a luta pelo Poder e o seu exercício, bem como a prática
dos valores que animam tais instituições 3.

Para o Professor Marcelo Caetano4, entende-se por Regime Político “o modo como em
cada sociedade se estrutura e exerce o poder político. Em consequência, e para o mesmo
autor, estaremos perante a determinação de um Regime Político, sempre que se tem em
consideração as concepções fundamentais das relações entre o indivíduo e a sociedade
política cuja ideologia o poder político tem por missão verter na Ordem jurídica”.

Nestes termos, e influenciados pela perspectiva tripartida de Platão e Aristóteles,


podemos classificar os regimes políticos em Monárquicos por contraposição aos
Republicanos, bem como em democráticos por oposição aos totalitários.

 Regimes Democráticos e não Democráticos

A mais importante distinção na formulação de políticas está entre regimes políticos


democráticos e não democráticos. Esta distinção atende a um duplo critério:
1) O da fonte de legitimidade do Poder: soberania popular (eleitoral) ou poder
conquistado por alguém (autocracia) - que pode ser um só indivíduo (monocracia), ou
um grupo de indivíduos (partido único, junta militar, bando de aventureiros);
2) O da actitude do Poder face aos direitos naturais dos cidadãos: o Poder aceita
limites à sua actuação, em função da necessidade de garantir liberdades individuais
(liberalismo político, Democracia, Estado de Direito), ou não aceita quaisquer limites,
por considerar que os interesses colectivos a prosseguir pelo Estado são muito mais
importantes do que os direitos do cidadão (ditadura, autoritarismo, totalitarismo).

A utilização combinada dos dois critérios indicados leva-nos à principal divisão dos
regimes políticos existentes nos dias de hoje: Democracia e Ditadura:

A Democracia: É o regime político que assenta na dupla ideia que, pertencendo o


Poder ao povo, a escolha dos governantes é feita por eleições (soberania popular) e o
exercício do Poder é limitado pelos Direitos Humanos de cada pessoa (Estado de Direito).

3
Bobbio, Norberto, Dicionário de Política. 11ª edição, UNB, p.1091
4
Caetano, Marcello. (2012) Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, 6ª edição, Almedina, p.35

5
Assim, a questão que se impõe circunscreve-se em respondermos a seguinte pergunta: O que é
um Regime Democrático?

Para Norberto Bobbio, por regime democrático, entende-se primariamente um


conjunto de regras de procedimento para a formação de decisões colectivas, em que está
prevista e facilitada a participação mais ampla possível dos interessados 5. Se a totalidade da
população adulta, reunida periodicamente em assembleia plenária, pode participar
directamente na tomada de decisões, isto é, no exercício da soberania, diz-se que o regime é
de democracia directa; se pelo contrário, a totalidade da população adulta apenas pode
participar na designação e no controlo dos governantes, diz-se que o regime é de democracia
representativa6.

Aprofundando o que se entende por regime democrático, Robert Alan Dahl enumerou
os seguintes requisitos7:

1) Eleições livres, justas e frequentes: Isto é, os dirigentes são escolhidos em eleições


frequentes e conduzidas com justiça, em que a coerção é, comparativamente, pouco
habitual.
2) Liberdade de Expressão: Na realidade, os cidadãos têm o direito de expressar, sem
perigo de castigo severo, sobre questões políticas amplamente definidas, incluindo
críticas a dirigentes, ao governo, ao regime, à ordem socioeconómica e à ideologia
dominante.
3) Acesso a fontes alternativas de informação: De facto, existem fontes alternativas de
informação independentes, que não estão sob o controlo do governo ou de qualquer
outro grupo político, que tente influenciar as crenças e actitudes políticas públicas.
4) Autonomia de associação: Assim, os cidadãos têm o direito de formar associações ou
organizações relativamente independentes, incluindo partidos políticos independentes
e grupos de interesses
5) Cidadania inclusiva: Com efeito, a nenhum adulto que resida permanentemente no
país e que esteja sujeito às suas leis podem ser negados os direitos que estão ao dispor
de outros.

5
Bobbio, Norbeto.(1997) O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo.6ª Edição, Paz e Terra,
p.11
6
Fernandes, António José. (1995). Introdução à ciência política: Teorias, métodos e temáticas. Porto: Porto
Editora, p.148
7
Carvalho, Manuel Proença de. (2005) Manual de Ciência Política e Sistemas Políticos e Constitucionais
Lisboa, Quid Juris, p.74

6
A Ditadura, por seu lado, é o regime político que assenta na dupla ideia de que,
independentemente da forma de acesso ao Poder, cabe apenas aos respectivos titulares
governar o país, sem eleições livres (autocracia) e de que há sempre supremacia dos interesses
colectivos nacionais sobre os direitos individuais de cada pessoa. Importa, contudo, distinguir
nos nossos dias três espécies de ditadura:

a) A ditadura monárquica: corresponde à sobrevivência de monarquias absolutas, ou


monarquias governantes (sem eleições nem parlamento), sobretudo em alguns
países árabes;
b) A ditadura de partido único: resulta dos modelos comunista e fascista puros, onde
um partido conquista o Poder, elimina os outros e governa sozinho sem fazer
eleições e desrespeitando todos ou muitos direitos fundamentais dos respectivos
cidadãos;
c) A ditadura militar: é a que decorre de um golpe de Estado, bem sucedido, vibrado
pelas Forças Armadas, cujos chefes (os que estavam em funções, ou outros que os
afastam) se constituem em “junta militar” para resolver aquilo que alegam ser um
grave problema nacional (como o Chile de Pinochet ou na Grécia dos coronéis).

 Ditaduras autoritárias e Ditaduras totalitárias8:

O critério da distinção dessas duas espécies diferentes, dentro do género comum de


Ditadura, tem a ver com o maior ou menor grau de respeito pela dignidade da pessoa humana
por parte do Poder Político.

Diz-se autoritário, o regime político ditatorial que, sem pôr em causa as liberdades
essenciais do ser humano (viver, trabalhar, pensar, praticar ou não uma religião, ver respeitada
a intimidade da sua vida familiar, emigrar para o estrangeiro ou exilar-se), impõe no entanto
proibições ou limites severos ao exercício dos chamados “direitos políticos” (votar, ser eleito,
formar partidos, participar em eleições livres, ser membro de partidos ou movimentos de
oposição ao Governo, exprimir-se livremente, etc. Exemplos: a França napoleónica; a
Alemanha de Bismarck; Portugal, Espanha e Grécia na primeira metade do século XX.

Diz-se totalitarismo, diferentemente, o regime político que, além de recusar os


direitos políticos fundamentais (porque impõe o partido único, a ausência de qualquer

8
Amaral, Diogo Freitas do (2014) Uma Introdução à Política.Lisboa: Bertrand Editora, p.176 e 177.

7
oposição legítima, a censura, a polícia política contra os adversários do Governo considerados
como criminosos), também viola sistematicamente as liberdades essenciais do ser humano
(perseguições étnicas, proibição de culto de qualquer religião, de viajar no estrangeiro, etc.).

b) Sistema de Governo: Em Ciência Política, o Sistema de Governo é visto como o


modo pelo qual os diferentes órgãos do aparelho político são divididos e distribuídos,
mormente o Executivo e o Legislativo, e como os governos desempenham as suas
competências no âmbito de um sistema institucional9.

Para o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o Sistema de Governo “é a forma que


obedece a estruturação dos órgãos do poder político soberano do Estado, envolvendo o elenco
desses órgãos, a sua composição, o processo de designação, o estatuto dos respectivos
titulares, a sua competência em geral e a sua inter-relação funcional, em particular, o modo de
funcionamento e as formas de controlo da sua actuação10. É a partir desta definição que
procuraremos orientar o presente trabalho, no que toca à caracterização do Sistema de
Governo Angolano. Quanto ao Regime Político, sublinhamos, desde já, a noção apresentada
pelo Professor Marcelo Caetano.

c) Sistema Político: é o conjunto dos processos de decisão e das relações de poder que
dizem respeito à totalidade de uma sociedade global. Sistema político refere-se ainda ao
conjunto de instituições, grupos ou processos políticos caracterizados por um certo grau de
interdependência recíproca11. Como refere Aristóteles, o homem por natureza é um “ser
gregário” e, analogamente, o Sistema Político resulta de um sistema de interacções, presentes
em todas as sociedades independentes, que desempenha as funções de integração e adaptação,
através do emprego ou da ameaça do emprego de uma coerção física legítima12.

O sistema político compreende, pois, os dois tipos de estruturas políticas existentes na


sociedade global: por um lado, as estruturas que constituem o aparelho do Estado, dotadas da
faculdade legítima de recorrer a força para se fazer obedecer; por outro lado, as estruturas que,
apesar de desempenharem funções e papéis políticos (partidos políticos, grupos de interesses e
de pressão e grupos parapolíticos ), não fazem parte do aparelho global do Estado.

9
Cf. Pasquino, Gianfranco (2010) Curso de Ciência Política. 2ª edição, Cascais:P rincipia
10
Cf. Sousa, Marcelo Rebelo de (1984) O Sistema de Governo Português antes e depois da Revisão
Constitucional, Congnitio, p.12.
11
Bobbio, Norberto, Dicionário de Política. 11ª edição, UNB, p.1173
12
Cf. Almond, Gabriel.(1956) Comparative Politicas Systems, The Journal of Politics

8
Se observarmos os esquemas de Easton e de Lapierre relativos ao sistema político
verificamos que este está inserido num meio ambiente do qual recebe inputs (exigências,
recursos, apoios e limitações) e ao qual fornece outputs (decisões executadas). O meio
ambiente do sistema político divide-se em ambiente interno ou intra-societal e ambiente
externo ou extra-societal, cada um dos quais integra outros sistemas que estão em interação
constante com o sistema político. Assim, segundo a terminologia de Lapierre, o ambiente
intra-societal é constituído pelos sistemas biossocial (ou sociogenético), ecológico (ou
sociogeográfico), económico e cultural; enquanto o ambiente extra-societal é composto, no
dizer de Easton, pelos sistemas políticos internacionais, sistemas internacionais ecológicos e
sistemas sociais internacionais.

Os sistemas políticos modernos, através do aparelho do Estado, são chamados a


intervir, cada vez mais, nos diversos domínios da atividade humana, para garantir a satisfação
de interesses coletivos e para criar as condições necessárias ao desenvolvimento económico e
social. Mas os órgãos competentes do aparelho do Estado, que ocupam o centro de decisão do
sistema político, só decidem mediante a informação (exigências e apoios) que recebem do
exterior, isto é, do ambiente do sistema, tendo em conta os recursos de que dispõe e as
limitações que têm de respeitar.

O Sistema Político é, portanto o sistema legítimo de manutenção da ordem ou de


transformação da sociedade e, segundo Gabriel Almond, as características mais importantes e
comuns a todos os sistemas políticos, são as seguintes:

a) Todos os Sistemas Políticos possuem estruturas políticas específicas – o que difere é o


grau e a forma de especialização estrutural;
b) As mesmas funções são exercidas em todos os sistemas políticos – o que difere é a
frequência do seu exercício, as estruturas que as exercem e o modo como são
exercidas;
c) Todas as estruturas são multifuncionais – o que difere é o grau de especificidade de
cada função em relação a cada estrutura, e o número de funções que cada estrutura
desempenha;

Em síntese, podemos depreender que o termo «sistema» diz respeito ao conjunto de


elementos de um todo e à sua interacção permanente, enquanto a palavra «regime» diz
respeito ao modo como esse todo se forma e funciona.

9
1.1 – Sistemas de Governo

De modo geral, o sistema de governo identifica os mecanismos de distribuição


horizontal do poder político e, consequentemente, o modo como se articulam os Poderes do
Estado, notadamente o Executivo e o Legislativo. Como se sabe, são dois os modelos
predominantes no mundo: o parlamentarismo e o presidencialismo. Mais recentemente,
consolidou-se em alguns países uma fórmula híbrida, que combina elementos dos dois
sistemas clássicos. Trata-se do semipresidencialismo, modelo que apresenta duas
particularidades: os poderes do Parlamento são limitados e o chefe de Estado não desempenha
apenas funções cerimoniais ou simbólicas, titularizando poderes próprios e efectivos.
Segundo o Professor José António Fernandes, o principal elemento dos Sistemas de
Governo é a sede do Poder, e todo o processo político se traduz essencialmente numa luta
pela sua aquisição e manutenção. No entanto, há que distinguir a sede do exercício da sede
de apoio, e esta da sede efectiva ou real.

Por isso, parece útil distinguir, no que respeita à sede do Poder, a sede do exercício da
sede de apoio, e esta da sede efectiva ou real do Poder. A “sede do exercício” correspondente
ao órgão ou conjunto de órgãos sem o consentimento dos quais o Poder não está disponível é
a que mais interessa para identificar o Sistema de Governo, na medida em que diz respeito ao
próprio aparelho do Poder; enquanto a “sede de apoio” diz respeito aos grupos, estratos
sociais e classes, que estão numa relação de obediência consentida com o aparelho do Poder,
quer de uma maneira activa, quer de uma maneira passiva, pelo que não constituem uma
resistência que implique o eventual uso da força, nem uma fonte de competição para ocupar o
Poder, e a “sede efectiva” concerne aos grupos ou órgãos que desfrutam da capacidade de
influenciar e, até, controlar o exercício do Poder, sendo sempre difícil a sua identificação13.

Geralmente, os textos constitucionais situam a sede do exercício do Poder em um dos


órgãos supremos do Estado, ao qual atribuem a responsabilidade de consentir quando e em
que circunstância o Poder deve ser exercido. É este o órgão que responde perante o eleitorado
pela política geral da governação do país, e é a sua preponderância em relação aos outros
órgãos de soberania que permite identificar o tipo de sistema de governo.

13
Fernandes, António José. (1995). Introdução à ciência política: Teorias, métodos e temáticas. Porto: Porto
Editora, p.150.

10
Não obstante os desvios desta natureza e, por conseguinte, a não correspondência da
sede real com a sede aparente do exercício do Poder, é aos textos constitucionais que os
estudiosos recorrem para identificar os Sistemas de Governo. Entre os sistemas parlamentares
e os sistemas presidencialistas, existem sistemas mistos com pendor parlamentar ou
presidencialista. Interessa-nos aqui analisar os sistemas de governo de desconcentração de
poderes, Parlamentar, Presidencialista e Semipresidencialista, com prejuízo do Sistema de
Assembleia.

a) Sistema de Governo Parlamentar:

 Origem Histórica

O Sistema de Governo Parlamentar teve a sua origem na Inglaterra, onde evoluiu ao


impulso da luta plurissecular, aspérrima, ininterrupta, da liberdade contra a tirania, dos
direitos do homem contra o despotismo dos monarcas.

Este Sistema de Governo resulta de uma evolução histórica, não sendo, assim, uma
criação teórica, não havendo obra ou autor que previamente traçou as suas características e
implementação. As suas características foram se delineando aos poucos, durante séculos, até
que se chegasse à forma precisa, sistematizada pela doutrina como parlamentarismo 14. Em
1265, Simon de Montfort, nobre francês, chefiou uma revolta contra o Rei da Inglaterra,
promovendo uma reunião com carácter de uma assembleia política. Em 1295, o Rei Eduardo I
oficializou estas reuniões, consolidando a criação do Parlamento. A partir de 1332, começa a
se definir a criação de duas Casas no Parlamento. Uma com os barões (Câmara dos Lordes) e
outra com os cidadãos, cavaleiros e burgueses (Câmara dos Comuns).

Com a Revolução Inglesa (ápice nos anos de 1688 e 1689) e a expulsão do rei
católico, Jaime II, assume Guilherme de Orange e Maria, protestantes, e sua sucessora Rainha
Ana. Neste período, estabelece-se o hábito de convocação pelo soberano de um Conselho de
Gabinete. Em 1714, assume Jorge I, príncipe alemão de origem e educação. Sem saber inglês,
o monarca deixou de presidir as reuniões dos ministros. Assim, o gabinete passou a deliberar
de per si, com a ausência do soberano.

14
Lopes, André Luiz. (2010) Noções de Teoria Geral do Estado; Belo Horizonte, Escola Superior Dom Hélder
Câmara p.38

11
Discutidos e resolvidos os assuntos do governo; o membro mais ilustre era
incumbido de levar ao Rei suas resoluções, e, assim, foi surgindo a figura do Primeiro-
ministro. Neste período de mais de meio século, foi fixada definitivamente a independência
do Gabinete. O Rei reina, mas não governa, já que a administração do Estado era feita pelo
gabinete.

 Principais características:

O Sistema Parlamentar é um sistema de governo que se caracteriza essencialmente


pelas seguintes:

1) Responsabilidade política15 do Governo perante o Parlamento;


2) Reconhecimento do Parlamento como fonte de todos os poderes;
3) Não eleição do Chefe de Estado por sufrágio universal;
4) Dissolução do Parlamento pelo Chefe de Estado.
5) Divisão do poder executivo em duas partes: um Chefe de Estado, normalmente
exercido pelo Monarca ou pelo Presidente da República, e um Chefe de Governo,
exercido por um Primeiro -Ministro ou Presidente do Conselho de Ministros;

O Chefe de Estado em regra exerce poderes formais, ao contrário do Governo que


dirige a acção do poder executivo, assumindo a administração política sob a direcção de um
Chefe de Governo (Primeiro-Ministro, Chanceler, Presidente do Conselho de Ministros). O
Governo é formado no quadro parlamentar e constituído pelo Chefe do Partido maioritário, ou
coligação de partidos que tenham a maioria parlamentar. Os membros do Governo, em regra,
são deputados e, por isso, integram o Parlamento. O Primeiro-Ministro é indicado ou
nomeado pelo Chefe do Estado, sendo o líder do partido vencedor das eleições legislativas16.

O Primeiro-Ministro e o Governo são responsáveis politicamente perante o


Parlamento e apenas se mantêm no poder se tiverem o apoio e a confiança deste órgão.
Quando o Governo já não dispuser da confiança do Parlamento, ver-se-á na necessidade de se
demitir. É esta responsabilidade política do Governo perante o Parlamento que constitui o

15
A responsabilidade política que toca aos Ministros, no sistema parlamentar, não se confunde com a
responsabilidade criminal nem com a responsabilidade civil, as quais atingem os governantes por princípios
gerais de direito. A responsabilidade criminal é matéria de direito penal: pressupõe a prática de crime e acarreta a
aplicação de penas pecuniárias ou corporais. O Estado de Direito não prescinde do princípio da responsabilidade
criminal.
16
Araújo, Raul Carlos. (2009) O Presidente da República no Sistema Político, Casa das Ideias, p.69.

12
traço fundamental do Sistema Parlamentar, pois faz com que o papel do Chefe do Estado seja
reduzido.

b) Sistema de Governo Presidencialista:

 Origem Histórica:

Contrariamente ao Sistema Parlamentar, que é fruto de uma longa e empírica


construção e sedimentação, o Sistema Presidencialista está longe de ser o resultado de um
processo de produção natural, sendo um “produto de laboratório”. O Sistema de Governo
Presidencialista foi idealizado pelos norte-americanos, na Convenção de Filadélfia, e
consubstanciado na Constituição Federal de 1789. Foi uma solução de cunho prático, uma
experiência coroada de êxito, tendo resultado da aplicação das ideias democráticas,
concentradas na liberdade e na igualdade dos indivíduos, na soberania popular, conjugadas
com o espírito pragmático dos Pais Fundadores do Estado norte-americano17.

 Características do Sistema de Governo Presidencialista

O Sistema Presidencialista, fundamenta-se no princípio da separação de poderes, na


eleição do Chefe do Estado por sufrágio universal, na atribuição ao Presidente da República
das funções de Chefe do Estado e Chefe do Executivo, na independência do Governo face ao
Parlamento e na impossibilidade do Chefe de Estado dissolver o Parlamento.

Nos sistemas presidencialistas, as instituições estão concebidas de forma muito


semelhante à primitiva ideia de separação de poderes defendidas por Lock e Montesquieu.
Com efeito, nestes sistemas opõem-se fundamentalmente dois órgãos: um encarregado de
delinear, mediante a função legislativa, as linhas gerais da acção política (o Parlamento); o
outro com a incumbência de dar a execução às leis (o Presidente). Ambos de carácter
representativo, independentes quanto à origem e ao exercício dos poderes que
constitucionalmente lhes cabem. Nem o Presidente pode dissolver o Congresso, nem o
Congresso pode destituir o Presidente (salvo em caso de “impeachment”).

17
Lopes, André Luiz. (2010) Noções de Teoria Geral do Estado; Belo Horizonte, Escola Superior Dom Hélder
Câmara p.41

13
c) Sistema de Governo Semipresidencialista:

 Origem histórica

O Sistema Semipresidencialista tem a sua origem na V República francesa e, no meio


académico, foi inicialmente autonomizado, na categorização dos sistemas de governo, por
Maurice Duverger no seu livro "Échec au Roi" de 197818. O modelo semipresidencialista
surge como uma alternativa que busca reunir as qualidades dos sistemas, “ditos puros,”
evitando ao máximo os seus vícios, por exemplo: concentração de poderes numa só figura,
possibilidade de crises institucionais entre o executivo e o legislativo (presidencialismo), ou
instabilidades governativas (parlamentarismo).

 Características do Sistema de Governo Semipresidencialista

Este sistema é caracterizado pela existência de um Chefe de Estado eleito por sufrágio
universal e por um Primeiro-Ministro que é o chefe de Governo, nomeado pelo Presidente
saído da maioria do Parlamento. Por isso também é conhecido na literatura como “dual-
executive regime”. O Chefe de Estado partilha funções executivas, preside ao Conselho de
Ministros, possui direito de veto e pode dissolver o Parlamento. No semipresidencialismo, o
poder executivo é partilhado.

O Governo é formado pelo Primeiro-Ministro, que o chefia, e pelos Ministros, que são
nomeados pelo Presidente da República sob proposta do Primeiro-Ministro, de acordo com os
resultados das eleições legislativas. É, um misto de parlamentarismo e presidencialismo, há
uma bicefalia, pois existe um Presidente da República eleito por sufrágio universal, secreto e
periódico que pode ou não presidir o Conselho de Ministros (França e Angola até 21 de
Janeiro de 2010), havendo o risco de coabitação com o Primeiro-Ministro, nomeado mediante
os resultados das eleições legislativas (artigo 187 da CRP) 19.

18
Cf. Novais, Jorge Reis. (2007) Semipresidencialismo, vol. I, Coimbra, Almedina, p.64 e 71
19
Pinto, João. (2013) in Invstitia: Democracia e Estado de Direito. Revista da Faculdade de Direito da
Universidade Independente de Angola, p. 132.

14
CAPÍTULO II – O CONTEXTO POLÍTICO DA INDEPENDÊNCIA

Pretendemos neste capítulo, reflectir sobre as bases ideológicas que estiveram


subjacentes na articulação e configuração político-normativa do Sistema Político Angolano,
mormente a forma de legitimação do Presidente da República na Iª República, os poderes do
Conselho da Revolução, bem como a estruturação do Sistema de Governo na IIª República.
Não pretendemos neste capítulo, examinar todos os acontecimentos da Iª e IIª Repúblicas, mas
sim lançar as bases que nos permitirão caracterizar o Regime Político e o Sistema de Governo
na IIIª República.

2. – As Bases Ideológicas do Sistema Político Angolano em 1975

A década de 1970 testemunhou a independência de vários Estados africanos e o seu


consequente alinhamento a um dos blocos liderados pelos Estados Unidos da América ou pela
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), na vigência da Guerra Fria. Tal escolha
implicou o reordenamento ideológico, político e económico destes Estados, transformando os
seus territórios em espaços de profundas confrontações ideológicas, políticas e bélicas, de
flagrantes violações aos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos20.

Com a proclamação da independência a 11 de Novembro de 1975 pelo Presidente do


MPLA, Dr. António Agostinho Neto, marcando assim o culminar de um tempestuoso
processo de transição para a independência, as decisões impunham-se e, antes delas, as
opções políticas. Um dia antes, o Comité Central do MPLA aprovara “por aclamação” o
primeiro texto Constitucional (e com ele a Lei da Nacionalidade). À semelhança da maioria
dos países do Bloco do Leste e de todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
(PALOP), o MPLA adoptou o Sistema de Partido único, ao proclamar a independência de
forma unilateral e ao definir-se como o legítimo representante do povo angolano. Com isso,
excluiu os demais movimentos revolucionários da possibilidade de concorrerem
democraticamente ao poder, recusando, assim a alternância democrática.

20
António, Nelson Domingos. (2015) Transição pela transação: uma análise da democracia em Angola,
Luanda: PoloBooks, p. 93.

15
Relembra-nos o Professor Nelson Domingos, que o facto de o MPLA ter sido um dos
principais movimentos na luta contra o colonialismo português, não o legitimava como o
autêntico representante do povo angolano, sobretudo, sem a anuência deste. Nem lhe concedia
o direito de suprimir a competição partidária, uma vez que os demais movimentos (FNLA e
UNITA) lutaram igualmente pela independência nacional”.

A legitimidade de um governo nos moldes democráticos radica (...)” do


reconhecimento por aqueles a quem a vontade do sujeito se dirige de que ele actua de acordo
com uma lei digna de acatamento geral, isto é, de que ele está no seu direito ao manifestar
certa vontade”21, ou seja, deve emergir da livre escolha dos cidadãos por meio do voto
(eleição).

2.1– A Lei Constitucional de 1975 e a 1ª República

A 1ª República de Angola nasce mergulhada numa profunda crise política e militar,


situação que condicionou tanto o processo de transição política para a independência, como as
opções políticas e ideológicas que conformaram a primeira Lei Fundamental do novo Estado
africano, Angola22. Enquanto Movimento proclamador da independência, a Lei Constitucional
de 1975 adoptou um modelo de organização do Estado marxista-leninista enquadrado na
família constitucional de matriz soviética, cujas linhas orientadoras foram enunciadas logo no
discurso de proclamação da independência e os objectivos enfatizados no artigo 1.º da
LC/7523.

Segundo o Professor João Pinto, o Sistema de Governo na 1ª República era do tipo


Presidencialista de herança soviética24, em que predominava a “democracia popular”. Neste
modelo, as instituições do Estado são dirigidas por pessoas indicadas pelo partido governante,
sendo a apresentação de candidaturas para os cargos electivos exclusiva do partido MPLA e
das organizações por ele dominadas. Não havia claramente uma separação de poderes, a

21
Caetano, Marcello. (2012) Manual de Ciência Política e Direito Constitucional, 6ª edição, Almedina, p.5
22
Araújo, Raul Carlos Vasques. (2009) O Presidente da República no Sistema Político, Luanda, Casa das Ideias,
p.229
23
Almeida, Adão de. (2009) Autorizações Legislativas e Controlo Parlamentar do Decreto-Lei Autorizado: O
Caso Angolano, Coimbra, Almedina p.69
24
Pinto, João. Direito Administrativo Angolano, Luanda, UnIA, p.77.

16
função dos tribunais era tratada em apenas dois artigos 44.º e 45.º, e não eram vistos como
verdadeiros órgãos autónomos por razões de natureza do próprio regime.

Na visão do mesmo autor, tratava-se de uma “democracia popular” formal, porquanto,


tudo dependia do “centralismo democrático” maculando assim qualquer tentativa de debate
plural de ideias que caracteriza as sociedades abertas: debate de ideias sem que para tal seja
censurado ou retalhado por ter posições diferentes da maioria, existência de diversos partidos
para um projecto de sociedade, independentemente das opções políticas; existência de
tribunais como órgãos de soberania com competências de fiscalização dos actos de outros
órgãos.

Na sua apreciação acerca dos elementos comuns dos sistemas constitucionais


instituídos pelas primeiras Constituições dos países africanos de língua portuguesa, o
Professor Jorge Miranda destaca os seguintes elementos25:

a) Concepção monista do poder e institucionalização de partido único


b) Abundância de fórmulas ideológico-proclamatórias e de apelo às massas populares;
c) Empenho na construção do Estado – de um Estado director de toda a sociedade;
d) Compreensão acentuada das liberdades públicas, em moldes autoritários e até, em
alguns casos, totalitários;
e) Organização económica de tipo colectivizante;
f) Recusa de separação de poderes a nível da organização política e primado formal da
assembleia popular nacional.

A Lei Constitucional da 1ª República Popular de Angola era, portanto, na sua essência


uma constituição-programa, uma vez que era a concretização do programa do partido no
poder, o MPLA.

 Órgãos de Soberania na Lei Constitucional de 1975

A Lei Constitucional de 1975, não utilizava a expressão “órgãos de soberania”,


porquanto a soberania era do povo, mas cabia ao MPLA, Partido – Estado representá-la (art.
2.º da LC/75). No seu título IIIº “Dos Órgãos do Estado”, a LC/75 consagra cinco órgãos do
poder político: O Presidente da República (capítulo I), a Assembleia do Povo (capítulo II), o

25
Miranda, Jorge. (2013) in Revista da Faculdade de Direito da Universidade Independente de Angola. Ivstitia,
Democracia e Estado de Direito N.º1, p.9 e 10

17
Conselho da Revolução (capítulo III), o Governo (capítulo IV) e os Tribunais (Capítulo V).
Interessa-nos aqui, olhar para os Poderes do Presidente da República e do Conselho da
Revolução:

 O Presidente da República

O Presidente da República é o ponto central do exercício do poder político. Não era


eleito por sufrágio universal, confirmando assim, o Sistema Monopartidário. Ele é o Chefe de
Estado e, nesta qualidade, é o representante máximo da “Nação Angolana” (artigo 31º.), na
medida em que preside ao Conselho da Revolução art.32º., alínea a), órgão a quem compete
definir e orientar a política interna e externa do país artigo 38.º, alínea b) que é executada
pelo Governo, enquanto órgão executivo (art. 40.º). O próprio Presidente da República,
conjuntamente com o Conselho da Revolução, orienta a condução da política do Estado (art.
40.º). Há assim, uma dupla possibilidade de intervenção do Presidente da República nos
processos de definição e condução da política do Estado:

Em primeiro lugar, como líder do Conselho da Revolução (na definição das políticas);
em segundo lugar, quanto à sua execução, enquanto Presidente da República – órgão
unipessoal – e como presidente do Conselho da Revolução. Enquanto Chefe do Estado, o
Presidente da República confere posse aos membros do Governo e aos Comissários
Provinciais, nomeados pelo Conselho da Revolução, declara a guerra e faz a paz após
autorização do Conselho da Revolução, dirige a defesa nacional, bem como indulta e comuta
penas.

 O Órgão Legislativo: Conselho da Revolução

A Assembleia do Povo era definida como sendo o «órgão supremo do Estado» (artigo
34º da LC), sendo deferida para legislação ordinária a fixação da sua composição, sistema de
eleição, competência e funcionamento. Até ao seu surgimento, institui-se um órgão que se
denominou de Conselho da Revolução (artigo 35º): «Enquanto não se verificar a total
libertação do território nacional e não estiverem preenchidas as condições para a instituição da
Assembleia do Povo, o órgão supremo do poder de Estado é o Conselho da Revolução26».

26
Lei Constitucional de 1975. Capítulo IIIº. – Conselho da Revolução.

18
O Conselho da Revolução que era presidido pelo Presidente da República (artigo 37º
da LC) tinha as seguintes atribuições:

1. Exercer a função legislativa, que poderá delegar no Governo;


2. Definir e orientar a política interna e externa do país;
3. Aprovar o Orçamento Geral do Estado e o Plano Económico elaborado pelo Governo;
4. Nomear e exonerar o Primeiro-Ministro e os restantes membros do Governo, sob
indicação do MPLA;
5. Nomear e exonerar os comissários provinciais, sob indicação do MPLA;
6. Autorizar o Presidente da República a declarar a guerra e a fazer a paz;
7. Decretar o estado de sítio ou o estado de emergência;
8. Decretar amnistia.

Podemos verificar que o sistema de governo estava marcado por uma forte influência
de tipo parlamentar, numa perspectiva de sistema de partido único27. Era o Conselho da
Revolução que detinha todas as funções legislativas, e era ele que designava o Primeiro-
Ministro, os membros do Governo e os Comissários Provinciais, para além de ser da sua
competência definir e orientar a política interna e externa do país28.

2.2 – A Revisão Constitucional de 1991 e o Início da IIª República

O período que corresponde as décadas de 1970 a 1990 foi marcado por inúmeros
processos de transformações dos sistemas políticos, económicos e sociais, sobretudo no Sul e
Leste da Europa e na América do Sul, ficando conhecidos como “A terceira vaga de
democratização”. Estes processos não ficaram alheios ao continente africano onde vários
países, como Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau,
buscaram reordenar suas ideologias e seus sistemas políticos e económicos, iniciando longos
processos de transições de regimes autoritários para regimes democráticos multipartidários29.

27
Araújo, Raul Carlos Vasques. (2009) O Presidente da República no Sistema Político, Luanda, Casa das Ideias,
p.239 e 240
28
A configuração do Sistema de Governo no momento constituinte de 1975 é de natureza parlamentar, mas as
alterações constitucionais que se foram fazendo ao longo dos tempos, (não retratadas neste trabalho) deram uma
característica presidencial com a elisão da figura do 1º Ministro.
32
António, Nelson Domingos. (2015) Transição pela transação: uma análise da democracia em Angola,
Luanda: PoloBooks, p130

19
Em Angola, as alterações à Lei Constitucional introduzidas em Março de 1991, através
da Lei nº 12/91, destinaram-se principalmente à criação das premissas constitucionais
necessárias à implementação da democracia pluripartidária, à ampliação do reconhecimento e
garantias dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, assim como a consagração
constitucional dos princípios basilares da economia de mercado30.

A Revisão Constitucional de 1991 estendeu-se a todo o texto da Lei Constitucional,


introduzindo-se novos conceitos no ordenamento jurídico de Angola:
1) Houve uma despolitização da Lei Constitucional, que foi expurgada de toda carga
ideológica. Assim, o conceito “Popular”, com tudo o que ele significava, foi retirado
de todas as designações desde logo do nome do país, que passou a designar-se apenas
República de Angola, em vez de República Popular de Angola. O mesmo se fez em
relação aos tribunais.
2) Consagrou-se Angola como um Estado Democrático e de Direito.
3) Procedeu-se à ampliação dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Muitas das
alterações resultaram de propostas apresentadas pela amnistia Internacional no seu
Memorando à Comissão Nacional para a Revisão da Lei Constitucional, de 6 de
Fevereiro de 1991:
a) Proibição da tortura e de outros tratamentos ou punições cruéis desumanos ou
degradantes;
b) Reconhecimento constitucional das liberdades de expressão, de reunião, manifestação
e de associação;
c) Liberdade de organização profissional e sindical;
d) Liberdade de imprensa;

4. Reintrodução do cargo de Primeiro-Ministro, entidade que não era o Chefe de


Governo, mas o principal colaborador do Presidente da República na chefia do
Executivo.
5. Transitoriamente, até à realização das eleições multipartidárias de Setembro de 1992,
o Presidente da República manteve a acumulação de funções de Chefe do Estado,
Chefe de Governo e Presidente do Parlamento.

Para já, importa frisar que a Revisão Constitucional de 1991 constituiu a primeira fase
do processo de transição democrática, que visou consagrar a liberalização política do Sistema

30
Preâmbulo da Lei de Revisão Constitucional; Lei n. º 23/92, de 16 de Setembro.

20
Político. Ela teve, tal como referimos acima, o objectivo imediato de criar um espaço político
que possibilitasse uma transição política pela via de reformas políticas progressivas.

 A Revisão Constitucional de 1992

A Revisão Constitucional de 1992 é feita na sequência, por um lado da decisão do


partido no poder, MPLA, de realizar a segunda fase do que denominou de “Revisão ampla e
profunda” da Lei Constitucional angolana e, por outro lado, das decisões saídas dos acordos
de Bicesse. O Preâmbulo da Lei que aprova a Lei de Revisão Constitucional, Lei n.º 23/92, de
16 de Setembro, faz a síntese dos objectivos almejados, dado que, pela primeira vez na
história de Angola, se iriam realizar eleições gerais multipartidárias, num quadro democrático.
Por esta razão, diz o Preâmbulo, que “A Revisão Constitucional estava virada essencialmente
para a classificação do sistema político, separação de funções e interdependência dos órgãos
de soberania, bem como para explicitação do estatuto e garantias da Constituição, em
conformidade com os princípios já consagrados de edificação em Angola de um Estado
democrático de direito”31.

2.3 – A institucionalização do Semipresidencialismo em África:


O caso Angolano

Com a terceira vaga de democratização32, muitos Estados africanos que estiveram sob
o domínio dos regimes autoritários monopartidários, optaram por transitar para regimes
democráticos multipartidários e duas configurações institucionais foram alicerçais, sendo a
primeira, a adopção de um novo Sistema Eleitoral e a outra de um novo Sistema de
Governo33.

Consideramos, tendo em conta a vasta literatura africana antes do seu período de


transição política, que muitos Estados africanos, após a independência optaram por um
Sistema de Governo que se caracterizava como Sistema de partido único presidencialista, que
se legitimou através de um discurso hegemónico que pregava a centralização do poder numa

31
Araújo, Raul Carlos Vasques. (2009) O Presidente da República no Sistema Político, Luanda, p. 263.
32
Huntington, Samuel. (1991). The Third Wave: Democratization in the Late Twentieth Century.
33
Pereira, Gilberto. (2013). O Desenho Constitucional e a Presidencialização do Sistema de Governo. Working
Paper n.º 22, Observatório Político, www.observatoriopolitico.pt

21
pessoa, ou estrutura (geralmente os militares), como condição de “proteger os interesses
nacionais, garantir a unidade nacional e evitar a desagregação social.34”

Ante este cenário, o sistema de governo presidencialista que alguns Estados africanos
apresentavam, foi objecto de algumas especulações. Por um lado, defendia-se que o Sistema
Presidencialista ostentava o perigo de personificação do poder e que, por conseguinte, seria
melhor a adopção do Sistema Parlamentarista ou semipresidencialista por outro lado, que o
mesmo sistema de governo não se adequava à eventual transição para o regime democrático
multipartidário35.

Numa análise e confrontação entre instituições formais e não formais nas Democracias
africanas, Michael Bratton refere que é possível verificar três instituições informais que
parecem especialmente pertinentes, a saber: o clientelismo, a corrupção e o “Big Man” no
presidencialismo36. Esta perspectiva explica o perigo da personificação do poder que o
sistema presidencialista acarreta para o continente. Pois, neste sistema, independentemente
das disposições constitucionais, o poder é intensamente personalizado em torno da figura do
Presidente. Ele é, literalmente, acima da lei, controla em muitos casos, uma grande proporção
dos bens do Estado, sem a prestação necessária das contas37.

Com a transição política, ou seja, a transição para regimes democráticos


multipartidários, muitos Estados africanos, principalmente, os da língua oficial portuguesa
(PALOP), optaram por um sistema de governo semipresidencialista, muito por influência do
sistema português. Esta opção deriva da possibilidade deste sistema de governo possibilitar a
adequação dos poderes do Presidente e do Parlamento, tentando, com isso, “eliminar alguns
dos vícios dos dois sistemas puros: o presidencialismo e o parlamentarismo”38. O processo de
transição política em África está relacionado com dois problemas fundamentais:

Primeiro, o facto de poucos países africanos terem conseguido alcançar algum grau
de sucesso neste processo, onde alguns até regrediram para regimes autoritários ou
34
Évora, Roselma. (2013). Cabo Verde: Democracia e sistema de governo, in Costa, Suzano & Sarmento,
Cristina (orgs). Entre África e a Europa: Nação, Estado e Democracia em Cabo Verde. Almedina, p. 336
35
Mainwaring, Scott. 1993. “Presidentialism, Multipartidarism, and Democracy: The Difficult Combination”.
Comparative Political Studies, vol. 26, nº 2, pp. 198-228.
36
Bratton, Michael. (2007). “Formal versus Informal Institutions in Africa”. Journal of Democracy, vol. 18, nº3,
pp. 96-110.
37
Walle, Nicolas Van de. (2003). “Presidentialism and Clientelism in Africa’s Emerging Party Systems”.
Journal of Modern African Studies, vol. 41, nº2, pp. 297-321.
38
Pereira, Gilberto. (2013). O Desenho Constitucional e a Presidencialização do Sistema de Governo. Working
Paper n.º 22, Observatório Político, publicado em 16/02/2013, disponível em: www.observatoriopolitico.pt
Acesso em 15 de agosto de 2014.

22
permaneceram no que podemos definir como “zona cinzenta” entre a democracia e o
autoritarismo39.

Segundo, em alguns países que alcançaram a transição política, os partidos políticos


responsáveis pela luta de libertação nacional e pela independência venceram as eleições
fundadoras do regime democrático, como é o caso de Angola (MPLA), da Guiné-Bissau
(PAIGC) e de Moçambique (FRELIMO). A excepção é revelada em Cabo Verde (MpD) e
São Tomé e Príncipe (PCD-GR), onde foi a oposição que chegou ao poder. Angola,
Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, são Estados africanos de
língua oficial Portuguesa que, do ponto de vista institucional, optaram pelo sistema
semipresidencial, com configurações e características diferentes.

Em Angola, optou-se por uma lei constitucional em 1992, que possibilitou a


consagração de um sistema de governo semipresidencial, com forte pendor presidencial.
Entretanto, a configuração prática deste sistema suscita debates entre os investigadores,
alguns dos quais defendendo tratar-se de presidencialismo e não de semipresidencialismo.
Considera-se que o sistema aproveitou a maioria parlamentar para que o Presidente da
República se tornasse titular do Governo, dispensando a existência do Primeiro-Ministro40.
Desta forma, cabe ao Presidente da República, orientar e definir a política nacional do povo
angolano, demitir o governo e poder nomear e exonerar o Primeiro-Ministro, presidir ao
Conselho de Ministros, decretar a dissolução da Parlamento, convocar eleições e referendos,
bem como assinar e promulgar as leis do Parlamento e os decretos-leis do governo.

 O Sistema de Governo na Lei Constitucional de 199241

A IIª República, apesar de iniciada com a Lei n.º 12/91, conheceu um novo
desenvolvimento constitucional com a aprovação da Lei n.º 23/92, de 16 de Setembro. O
Sistema de Governo aí estabelecido é, no seu preâmbulo, definido como sendo
semipresidencialista, reservando ao Presidente da República um papel activo e actuante.

39
Carothers, Thomas. (2002). “The End of the Transition Paradigm”. Journal of Democracy,, nº pp. 5-21.
40
Santos, José. (2007). “Entre o Futungo e a Assembleia: Considerações sobre o Sistema Político Angolano”, In
Lobo, Marina & Neto, Octavio (Orgs.) O Semipresidencialismo nos Países de Língua Portuguesa. Lisboa:
Imprensa de Ciências Sociais, pp. 49-78.
41
Feijó, Carlos Maria. (2007) in Revista de Negócios Estrangeiros: Publicação do Instituto Diplomático do
Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, p.29 e seguintes.

23
O Presidente da República de Angola possuía, segundo esse texto, um vasto leque de
poderes que visavam torná-lo num órgão fundamental do sistema de governo angolano. A ele
cabia, de acordo com o n.º 1 e 2 do art.º 56.º, definir a orientação política do país, assegurar o
funcionamento regular dos órgãos do Estado e garantir a independência nacional e a
integridade do país, acumulando três títulos: a) é o chefe de Estado; b) é o Comandante-Chefe
das Forças de Defesa e Segurança; c) é o garante da Lei Constitucional de Angola.42.

Eleito por sufrágio universal, directo e secreto (art.º 57.º n.º 1) por um período de
cinco anos (art.º 59.º), o Presidente da República detinha um vasto conjunto de poderes, entre
os quais se destacava o poder de definir a orientação política do país (art.º 56.º, n.º 2); o poder
de dissolução do Parlamento (alínea e) do art.º 66); o poder de nomear o Governo alínea a) e
b) do artigo 66.º; poder de veto das leis (art. 60.º); o poder de presidir e definir a agenda do
Conselho de Ministros (alínea d) do artigo 66.º); ou o poder de convocar referendos al. o) do
art.º 66.º.

A bicefalia do poder executivo é assegurada pela existência de um Governo, que tem


pelo seu lado a missão de “condução da política geral do país”, para a qual detém um lato
conjunto de competências (art.º 110.º a 112.º), e que é constituído por um Primeiro-Ministro,
Ministros e Secretários de Estado (art.º 108.º, n.º 1).

O Primeiro-Ministro, para além de propor ao Presidente da República os demais


membros do Governo al. b) do art.º 66.º, tinha por missão “dirigir, conduzir e coordenar a
acção do Governo” (art.º 114.º, n.º 1), competindo-lhe, por exemplo, coordenar e orientar a
actividade dos restantes membros do Governo (al. a) do art.º 114.º), bem como representar o
Governo perante a Assembleia Nacional a nível interno e externo (al. b) do art.º 114.º. Em
contrapartida, o Governo angolano deparava uma dupla frente de responsabilização política,
que se consubstanciava na possibilidade de tanto o Presidente da República como o
Parlamento, este através da aprovação de uma moção de censura (al. f) do art.º 118.º), o
poderem demitir (art.º 105.º, n.º 2).

Neste período, caracterizado pelo sistema de governo semipresidencialista, houve, em


dado momento, conflitos entre as competências do Presidente da República e do Primeiro-
ministro.,Quando chamado pelo Presidente da República a pronunciar-se sobre quem deveria
assumir a chefia do Governo, se o Presidente da República, se o Primeiro-Ministro, a decisão

42
Ibid, 64 e seguintes

24
do Supremo Tribunal foi clara: segundo a Lei Constitucional, o Chefe de Governo é, em
Angola, o Presidente da República. Argumentando que a articulação dos arts. 68.º, 114.º,
117.º e 118.º, alínea c) da Lei Constitucional atribuem ao Presidente da República a
preeminência na cadeia de comando do executivo – e que lhe cabe, portanto, poderes de
direcção e chefia do Governo –, entendeu o Supremo Tribunal que as funções do Primeiro-
Ministro são as de mero coadjutor do Presidente da República.

Deste modo, a decisão do Supremo Tribunal de Angola, teve como efeito transformar
a diarquia executiva característica dos sistemas semi-presidenciais expressamente prevista no
texto constitucional, num presidencialismo particular e “anomalamente” forte, porque
desprovido de um sistema adequado de checks and balances.43.

Caracterização do Sistema de Governo Angolano na IIª República

Variáveis Sistema de Governo na 2ª Republica


1º Designação do Chefe de Sufrágio Universal directo (art.57)*
Estado

2º Composição do Governo O Chefe de Estado é o Presidente do Conselho de


Ministros, existindo também um primeiro-ministro
(art.108) *
O Governo é responsável politicamente perante o
3º. Responsabilidade política Presidente da República e a Assembleia Nacional.
do Governo: (Art.105) *
4º. Dissolução do O Chefe de Estado pode dissolver o Parlamento. (art.66)*
Parlamento:
Os membros do Governo não pertencem ao Parlamento, e
5º. Separação de poderes e vice-versa. (art.107,82)*
de funções:
Julga a acção do Governo e o Chefe de Estado.*
6º. Papel do eleitorado:
7º. Sede aparente do poder: O Chefe de Estado.*

43
Coutinho, Francisco Pereira, (2007) in Revista de Negócios Estrangeiros: Publicação do Instituto Diplomático
do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, p.77

25
 Síntese conclusiva:

Diferentes das outras revisões feitas ao longo da Iª República, nas revisões de 1991 e
1992, os legisladores constituintes não se limitaram em alterar a letra, mas também o espírito
da própria Lei Constitucional. Portanto, a observação feita em torno do Regime Político e do
Sistema de governo que vigorou em Angola na IIª República, permite-nos chegar as seguintes
conclusões:
1) A Lei Constitucional angolana de 1992 instituiu um sistema de governo
semipresidencialista, reservando um papel politicamente activo ao Presidente da
República, à Assembleia Nacional e ao Governo.
2) Nessa estrutura bicéfala, cabe ao Presidente da República a definição da orientação
política do país e, por consequência, a assunção de um papel preeminente na cadeia de
comando do executivo, conclusão a que também chegou o Tribunal Constitucional;
3) O Presidente da República é o Chefe de Estado, simboliza a unidade nacional,
representa a nação (interna e internacionalmente), assegura o cumprimento da Lei
Constitucional e é o Comandante em Chefe das Forças Armadas Angolanas;
4) O Presidente da República possui um conjunto diversificado de poderes (próprios,
partilhados, de controlo e simbólicos) do qual se destacam: a nomeação do Primeiro-
Ministro, a nomeação dos demais membros do Governo, a exoneração do Primeiro-
Ministro e a demissão do Governo e a dissolução da Assembleia Nacional;
5) A Lei Constitucional de 1992 consagrou um Regime Político Democrático pluralista,
baseado na Democracia indirecta ou representativa; um Sistema Eleitoral de
Representação Proporcional para a eleição dos Deputados, e um Sistema de maioria de
duas voltas para a eleição do Presidente da República.

26
CAPÍTULO IIIº – A CONSTITUIÇÃO ANGOLANA DE 2010 E O INÍCIO
DA IIIª REPÚBLICA
A IIIª República foi inaugurada com a promulgação da chamada “Constituição
atípica”, em Fevereiro de 2010. A sua atipicidade reside no inédito desenho do Sistema de
Governo adoptado pelos legisladores constituintes: Presidencialista-Parlamentar. Neste
Capítulo, vamos reflectir sobre o Regime Político na Constituição Angolana de 2010, e a
caracterização do Sistema de Governo, procurando evidenciar os traços que os assemelham e
os distanciam dos Sistemas “puros” de Governo.

3. – O Regime Político Angolano

Os regimes políticos polarizam-se num extremo, nos regimes democráticos


(Democracia direta e indireta) e no outro extremo, nos regimes não democráticos (Ditadura
monárquica, militar, de partido único, etc.). Porém, existe uma relativa falta de consenso ou
controvérsia quanto aos critérios de classificação dos regimes políticos, sobretudo, quando em
causa está a classificação de regimes híbridos, ou até mesmo regimes em transição
democrática, como é o caso angolano. Todavia, pressupostos como a Liberdade, Igualdade
entre os cidadãos e a eleição dos governantes de forma livre, periódica e democrática,
costumam ser elementos centrais e minimalistas para a caracterização de um regime
democrático44.

O Regime Político angolano caracteriza-se por ter uma “origem eclética”, que engloba
formas políticas da antiga metrópole, elementos de cultura política da luta de libertação
nacional, formas de cultura política Bantu, assente na história e na tradição política das várias
comunidades que compõem o mosaico etnolinguístico de Angola”. Este regime político
configura uma organização política importada das denominadas ‘‘sociedade abertas’’ é,
literalmente, um regime constitucionalmente democrático de direito e multipartidário45.
Todavia, trata-se de um regime político em transição para a democracia com avanços e
recuos. O princípio democrático encontra-se consagrado no ordenamento jurídico angolano no
nº 1 do art. 2º da Constituição da República de Angola, ao dispor que:

44
Cf. Correia, Adérito (2001) Sistemas e Processos Eleitorais: funções, implicações e experiências, Universidade
Católica de Angola, Faculdade de Direito, Luanda.
45
José, Gildo Matias (2012) Congruência Ideológica e Política em Angola: Análise comparativa dos Deputados
eleitos para Assembleia Nacional e respectivos Eleitores. Dissertação de Mestrado, Lisboa, Instituto
Universitário de Lisboa, p.22

27
“A República de Angola é um Estado Democrático de Direito que tem como
fundamentos a soberania popular, o primado da Constituição e da lei, a separação de
poderes e interdependência de funções, a unidade nacional, o pluralismo de expressão e de
organização política e a democracia representativa e participativa.”

A par deste artigo constitucional, podemos acrescer os artigos 4.º (Exercício do poder
político), 6.º (Supremacia da Constituição e legalidade) e 23.º (Princípio da igualdade), todos
da CRA, que no nosso entender, apresentam os pressupostos centrais para o exercício do
Estado Democrático de Direito. Estas são algumas das revelações constitucionais da vontade
de concretizar a ideia central de um Estado Democrático de Direito, que se consubstancia, de
modo geral na sujeição do poder político a princípios e regras jurídicas.

Podemos, a partir destes pressupostos, deduzir que o Regime Político Angolano é


formalmente democrático, baseado na democracia indireta ou representativa. Todavia, esta
afirmação não deixa de suscitar questionamentos, a medida que a praxe política se distancia
do ápice da pirâmide jurídico-normativa, ademais, não basta que as normas sejam escritas,
devem ser vivenciadas. Mas aconselha-nos Bobbio que, “em todos os países democráticos há
uma grande lacuna entre a democracia real e a democracia ideal”. Deste modo, torna-se
crucial responder a seguinte questão: O que é um Estado democrático de direito?

Para o Professor Carlos Araújo, o “Estado democrático de direito é um estado


constitucional, que define o primado da Constituição sobre todos os atos políticos,
administrativos e jurisdicionais do Estado. Pressupõe igualmente, a garantia da proteção
jurídica e abertura da via judiciária, para se assegurar ao cidadão uma defesa sem lacunas bem
como o princípio da proporcionalidade ou princípio da proibição dos excessos que assegura os
limites do estado em caso de declaração de estado de sítio ou de exceção e na limitação das
restrições de direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”46.

Ao arrogar-se como tal, (Estado Democrático de Direito), o Estado angolano, deve


naturalmente ser orientado pelos princípios inerentes a esta forma de governo e, como
sustenta Raymond Aron, citado por Cafussa, para “a sobrevivência do regime democrático, é
vital o respeito e a aceitação das regras pré-determinadas. Este é um dos aspetos
fundamentais de uma concepção democrática, pois, só o respeito às leis, vistas como as

46
Araújo, Raul Carlos Vasques; Nunes, Elisa Rangel (2014) Constituição da República de Angola Anotada,
tomo I Luanda p. 183.

28
normas fundamentais que regem o funcionamento do Sistema Político, permite o pluralismo e
a consequente coexistência de interesses e fins divergentes47.”

 Qualidade Democrática do Regime Político Angolano

Em Angola, não existe em termos genéricos, uma cultura democrática e isso está
patente no funcionamento e relacionamento dos partidos políticos, do aparelho de Estado e
das organizações da sociedade civil. Tal situação é resultado do peso da nossa história: a
nossa cultura de raiz não é verdadeiramente democrática; as lideranças dos movimentos de
libertação nacional não tinham referências democráticas (nem em Portugal, nem nos países
vizinhos, nem nos países do leste europeu onde muitos dos líderes estudaram)48.

Embora a Constituição da República de Angola consagre uma série de direitos e


liberdades fundamentais, como já referimos, não deixamos de verificar que, em Angola ainda
se vive um tipo de Democracia “minimalista” própria de países em transição, que designamos
aqui por “Democracia à la carte”, uma democracia essencialmente eleitoralista onde se
valoriza mais o processo de legalização e legitimação do poder, em detrimento de outras
formas de participação política que não estejam ligadas aos partidos políticos ou melhor, que
não estejam em alinhamento com o partido político que suporta o governo.

Sobre este especto, relembra-nos Jean-Jacques Rousseau, que a participação política


não se deve limitar ao exercício do voto. Rousseau considera que a falta de intervenção ou
participação ativa dos cidadãos na vida política propícia o amolecimento do amor da pátria do
interesse privado, a imensidão dos Estados, as conquistas e o abuso do governo”49, pondo em
causa as liberdades dos cidadãos.

Por outro lado, a “opinião pública” transmite a ideia de que o Regime Democrático
Angolano ainda não está consolidado, não só pela dificuldade do exercício de algumas
liberdades, mas também devido à pobreza da população. As pessoas estão mais preocupadas
em resolver as suas necessidades vitais, como habitação, vestuário e saúde, entre outros, do

47
Aron, Raymond .op. cit. CAFUSSA, Alberto (2008) A tendência de Voto do Eleitor Angolano nas Eleições
Legislativas de 2008, Kilombelombe, Luanda, p.56
48
Vidal, Nuno; Justino de Andrade. (2005) O Processo de Transição para o Multipartidarismo em Angola, 3ª
edição, Luanda: Firmamento, p. 213
49
Rousseau, Jean-Jacques, (1762) Do Contrato Social, Tradução de Rolando Roque da Silva, Edição eletrónica:
Ed.Ridendo o Castigat Mores (www.jahr.org) p.131.

29
que querer participar das questões públicas ou políticas50. Porém, este desencanto pode
acelerar ainda mais com a crescente desconfiança lançada sobre a classe política angolana,
acusada de práticas de má gestão do erário público e partidarização excessiva, tendo como
consequência aquilo que Alain Touraine chama de “crise da representatividade”. É como se as
pessoas já não se sentissem representadas e o seu papel de cidadão tivesse sido reduzido ao de
meros eleitores.

Deste modo, as garantias constitucionais perdem sentido à medida que a vida social,
económica e cultural se degrada, pondo em causa a identidade da própria democracia. Esse
questionamento ganha mais força quando se analisam as taxas de abstenção dos cidadãos nos
três pleitos eleitorais e se percebe que essas têm sofrido um aumento acentuado nos tempos
mais recentes. Estes e outros factores sustentam a argumentação da Freedom House e demais
observatórios políticos internacionais que de forma geral e sistemática, têm colocado Angola
nas últimas posições nos rankings sobre o índice de democracia.

3.1– O Sistema de Governo Angolano

A Constituição Angolana de 2010 apresentou uma nova configuração do Sistema


Político Angolano quer ao nível do Sistema Eleitoral, como na clarificação formal do Regime
Político. Dentre estas questões, o Sistema de Governo foi um dos temas que mais debates
suscitou (no espaço público nacional e não só): Em Portugal, o Professor Vital Moreira,
denominou-o como “Presidencialismo superlativo”, dado que para si, aproveitou-se a maioria
parlamentar resultante das eleições legislativas de 2008 para tornar o Presidente da República
o Titular do Governo, dispensando a existência de um Primeiro-Ministro e descartando
também a dependência política do governo perante o Parlamento51.

Carlos Feijó, que inicialmente distanciava o Semipresidencialismo como melhor


Sistema de Governo para Angola refere que com a aproximação do texto constitucional – por
via jurisdicional – à realidade social e política marcada por uma espécie de “constante
idiossincrática”, a melhor opção de sistema de governo para Angola é a presidencialista. Por

50
Dombo, Grimaneza Dúcia Quiluanje,(2014) A Democracia e Liberdade de Expressão em Angola: 2013.
Griciúma, p.69.
51
Pereira, Gilberto.(20013) O Desenho Constitucional e a Presidencialização do Sistema de Governo, Working
Paper #22, Observatório Político, publicado, URL: www.observatoriopolitico.pt. p.6

30
sua vez, Nelson Pestana – muito próximo do que sustentara o Professor Vital Moreira, conclui
que a adopção do actual sistema de governo foi o consumar de um “presidencialismo
extremo”52. Por seu lado, João Melo afirma tratar-se de “um sistema híbrido”, cujas
competências atribuídas ao presidente pela Constituição são as próprias de qualquer sistema
presidencial (mesmo de base parlamentar, como passa a ser o nosso), em que o chefe de
Estado e o chefe do Governo são a mesma pessoa.

A grande maioria dos autores apresentados tendem a classificar o Sistema de Governo


saído da CRA de 2010 como Presidencialista. Porém, questiona-se, se, com base somente na
observação da Constituição, o referido sistema será mesmo Presidencialista? A constatação
axiomática é de que o Sistema de Governo não é exclusivamente parlamentar. Todavia,
também não se adequa em exclusivo ao presidencial. O Professor Jorge Miranda concorda
advertindo que “o sistema de governo angolano, não sendo, evidentemente, um sistema
parlamentar, tão pouco se ajustaria ao modelo presidencial”. Assim, as razões são encontradas
na Constituição.

3.2 – Características do Sistema de Governo Angolano

O Sistema de Governo Angolano, acolhido na CRA, resultou do proposto pelo


“Projecto C” da Comissão Constitucional, o qual caracteriza expressamente o Sistema de
Governo como Presidencialista – Parlamentar. Este Sistema de Governo tem as características
de um sistema híbrido, ou melhor é uma mescla de presidencialismo e parlamentarismo.
Trata-se de um sistema que surge como uma alternativa que busca reunir as qualidades dos
sistemas puros, sem incidir necessariamente em algumas de suas vicissitudes. Não se trata de
um modelo híbrido desprovido de unidade e coerência. Pelo contrário, trata-se de uma
fórmula dotada de identidade própria, capaz de oferecer soluções adequadas para alguns dos
principais problemas da vida política angolana.

Neste Sistema de Governo, a legitimidade do Presidente da República coincide com a


maioria parlamentar, num sufrágio único onde o cabeça de lista ou número um da lista de
Deputados do partido ou coligação de partidos mais votado nas eleições gerais governa. O

52
Cf. Pestana, Nelson. Sistema “Parlamentar-Presidencial” ou Presidencialismo Extremo? In: Angola Brief, May
2011, V. 1 No 16. Disponível em: http://goo.gl/eTNby

31
Presidente da República é simultaneamente, Chefe de Estado e Titular do Poder Executivo
(art. 108.º), evitando assim a existência de um governo bicéfalo, que pode gerar paralisia ou
conflitos institucionais na falta de maioria absoluta. O mesmo não tem responsabilidade
política perante nenhum órgão, dispondo ainda de importantes poderes normativos, não
podendo ser destituído por razões políticas.

Existe ainda, neste Sistema de Governo, a possibilidade de o Presidente da República


dissolver a Assembleia Nacional por via da sua auto-demissão (art. 128.º n.º 2). Repare-se,
que não se trata aqui de uma competência própria do Presidente da República de dissolver a
Assembleia Nacional. Trata-se, apenas, de um corolário do exercício do “suicídio político” do
Presidente. A auto-demissão do Presidente da República é uma faculdade e não uma
competência jurídico-constitucional.

Para Marcy Lopes, quando uma Constituição confere ao Presidente da República a


competência de dissolver o Parlamento, o exercício deste poder não acarreta o termo do
mandato do Presidente da República, mas tão-somente o do Parlamento. No caso angolano, a
análise da arquitectura constitucional ajuda-nos a depreender que existe uma impossibilidade
jurídico-constitucional de o Presidente da República dissolver o Parlamento e de o Parlamento
destituir o Presidente da República. É, aquilo a que se tem chamado de um mecanismo de
checks and balances, ou freios e contrapesos53.

Existem competências próprias do Presidente da República (art.119), enquanto Titular


do poder Executivo ou Governante (art.120.º), competência em matéria de diplomacia ou
política externa (art. 121.º), Comandante em Chefe e Segurança Nacional (art.123.º),
exarando actos normativos e administrativos que assumem a forma de Decretos Legislativos
Presidencial (próprios sobre a orgânica do executivo, autorizados pela Assembleia Nacional e
provisórios desde que não sejam matéria de reserva legislativa absoluta da Assembleia e o
OGE, Decretos Presidenciais, Despachos e directivas, indicações e ordens do Comandante-
em-Chefe segundo os artigos 125.º (Forma dos actos) e 126.º (Decretos legislativos
presidenciais provisórios).

53
Lopes, Marcy; Feijó, Carlos Maria, (2015) Constituição da República de Angola: Enquadramento Dogmático:
nossa visão, Vol. III, Almedina, p.475.

32
Segundo O Professor Carlos Araújo, o Sistema de Governo apresenta as seguintes
características54:

a) Legitimidade democrática electiva do Presidente da República, tal como acontece com


a eleição dos deputados da Assembleia Nacional, o que confere a estes dois órgãos de
soberania que exercem o poder político a mesma legitimidade democrática;
b) Separação e interdependência entre o Poder Executivo (Presidente da República) e o
Legislativo (Assembleia Nacional), e existência de um sistema de freios e contrapesos
constitucionalmente previstos;
c) O Executivo não é politicamente responsável perante o Parlamento, não podendo este
derrubá-lo, nem o Presidente pode dissolver o Parlamento. Apesar disso, o Presidente
da República pode, mediante o instituto de auto-demissão política, em caso de
perturbação ou grave crise insanável na relação institucional com a Assembleia
Nacional, provocar a dissolução do Parlamento (art.128º da CRA);
d) Há incompatibilidade entre a função governamental e o mandato parlamentar;
e) O Presidente da República é o Titular do Poder Executivo.

A forma de eleição do Presidente da República, sendo o cabeça de lista do partido


político ou coligação de partidos políticos vencedor das eleições legislativas, conferem ao
Presidente da República a possibilidade de exercer o Poder Executivo no quadro da maioria
parlamentar.

O sistema de governo angolano não está isento de dificuldades se, por exemplo, o
partido ou coligação de partidos políticos não vencerem as eleições com maioria absoluta.
Neste caso, ter-se-á, como hipótese, um Presidente da República que é o cabeça de lista do
partido ou coligação de partidos vencedores das eleições, mas terá um parlamento maioritário
contra si. Parece-nos que os legisladores angolanos arquitectaram um sistema único e
«atípico», com pontos fortes e fracos:

54
Araújo, Raul Carlos Vasquez (2018) Introdução ao Direito Constitucional Angolano 2ª Edição, p.145

33
 Pontos Fortes do Sistema de Governo Angolano55:

1. Presidente da República é o Chefe do executivo, eleito como o cabeça de lista do


Partido mais votado, eleição directa por constar do boletim de voto;
2. O Vice-Presidente é o n.º 2 da Lista de Deputados às eleições gerais;
3. O Presidente delega nos Ministros de Estado e Ministros, que nomeia e exonera
livremente;
4. Incompatibilidade com o exercício de Presidente da República ou auxiliar do Titular
do executivo com a de Deputado;
5. Estabilidade do exercício do poder do Presidente e respeito mútuo salvo em caso de
renúncia ou auto demissão e consequente limitação constitucional;

 Pontos Fracos do sistema de Governo Angolano

1. Irresponsabilidade directa dos membros auxiliares do executivo e gestores ao


Parlamento;
2. Lealdade Política dos Deputados à disciplina Partidária e ao líder do Partido e seus
órgãos em caso de conflito entre a liberdade de consciência e a disciplina partidária
(autoridade política da liderança) ;
3. Incipiente cultura judicial em matéria de fiscalização judicial;
4. Auto-demissão do Presidente que obriga o fim do mandato dos Deputados por
hostilidade do Parlamento;
5. Impossibilidade de demissão do Vice-Presidente pelo Presidente em caso de conflitos
políticos salvo auto-demissão, renúncia ou destituição;

3.3 – O Sistema de Governo Angolano face aos Sistemas Parlamentar e


Presidencialista

As várias leituras da arquitectura constitucional angolana partilham a ideia de que o


Sistema de Governo Angolano possui características do presidencialismo, alterando as
interpretações quanto ao nível de presidencialização, mas também do parlamentarismo,
atendendo, fundamentalmente, à forma ou modalidade de eleição do titular do Poder
55
Pinto, João (2015) A constituição angolana de 2010: A democracia plural e o sistema de governo. Disponível
em: www.club-k.net.

34
Executivo. É neste espírito que Alex de Tocqueville na sua obra “A Democracia na América”,
ensina-nos que a melhor forma de compreendermos o nosso próprio sistema de governo é
compará-lo com os outros. Deste modo, a análise comparada permite-nos desenvolver e testar
explicações sobre os processos políticos assim como as mudanças nos sistemas políticos.

Como temos vindo a referir ao longo do Capítulo IIIº, o Sistema de Governo acolhido
na Constituição Angolana de 2010 é híbrido, pois, resulta de uma combinação dos elementos
presidencialista semipresidencialista e parlamentar. Não obstante, o mesmo possui
características próprias que o diferenciam dos referidos sistemas de governo.

A característica determinante no contraste com o presidencialismo do actual sistema


de governo angolano é o sistema eleitoral, que garante a eleição simultânea do Presidente e da
Assembleia para a eleição tanto dos lugares para deputados quanto para o Presidente da
República (arts.106º, e 143.º). Percebe-se que no presidencialismo é imperativo que haja a
dupla legitimidade saída de eleições directas separadas dos poderes executivo e legislativo;
por outro, tanto no parlamentarismo quanto no semipresidencialismo, é imperativo que o
Presidente coexista paralelamente com o governo liderado por um Primeiro-Ministro, essa
possibilidade é também nula no sistema de governo angolano, já que o Presidente da
República é simultaneamente chefe de estado e titular do poder executivo e, não tem
responsabilidade política perante nenhum órgão.

Quanto ao Parlamentarismo e ao Semipresidencialismo, evidencia-se o facto de o


Presidente poder dissolver o Parlamento (nos termos já explicados) e daí resultarem novas
eleições gerais para ambos os ramos. E ainda, quanto ao semipresidencialismo, os membros
do governo não pertencerem ao Parlamento56.

No sentido contrário, aspectos isolados de cada um dos sistemas, encontram-se


incorporados na nova CRA como: do presidencialismo, as chefias do Estado e do Governo; a
inexistência da figura do Primeiro-Ministro; os membros do Governo não pertencem ao
Parlamento; a não responsabilidade política do executivo/governo perante o Parlamento; bem
como, a legitimação tanto do Presidente quanto do Parlamento por sufrágio universal directo.

56
Pereira, Gilberto.(20013) O Desenho Constitucional e a Presidencialização do Sistema de Governo, Working
Paper #22, Observatório Político, publicado em 16/02/2013, URL: www.observatoriopolitico.pt. p.6

35
O Sistema de Governo Angolano face aos Sistemas Presidencialista e Parlamentar

Sistema
Variáveis Sistema Presidencialista Sistema Parlamentar Presid/Parlamentar
1º Designação do Sufrágio orgânico Sufrágio Universal
Chefe de Estado Sufrágio Universal (processo hereditário) directo (art.106). *
Presidente da
República é o Chefe
2º Composição O Chefe de Estado é o O Chefe de Estado não de Estado, o titular
do Governo Chefe do Governo faz parte do Governo do Poder Executivo
(n.º 1 do art.º108.º) *
O Executivo é
3º. O Governo é
A formação, independente da
Responsabilidade independente dofuncionamento e Assembleia Nacional
política do Parlamento quanto à subsistência do Governo (ou Parlamento)
Governo: formação e subsistência. dependem do quanto à formação e
Parlamento. subsistência *
4º. Dissolução do O Chefe de Estado não O Chefe de Estado pode O Chefe de Estado não
Parlamento: pode dissolver o dissolver o Parlamento, a pode dissolver” a
Parlamento. solicitação do Chefe do Assembleia
Governo. Nacional97. **
Os membros do Governo Os membros do Governo Os membros do
5º. Separação de não pertencem ao fazem parte do Executivo não
poderes e de Parlamento, e vice-versa. Parlamento: pertencem à
funções: Colaboração permanente Assembleia Nacional,
entre os dois órgãos. e vice-versa.*
Julga o Primeiro- Julga o Chefe de
6º. Papel do Julga o Chefe de Estado. Ministro Estado e a acção do
eleitorado: e a acção do Governo. Executivo.*/**
7º. Sede aparente Presidente da
do poder: Presidente da República. Parlamento. República *

3.4 – Estabilidade, Eficácia e Maleabilidade no Funcionamento do Sistema


Político Angolano

O modelo de Sistema de Governo angolano possibilita a eleição de Governos


minoritários ou seja, resulta da Constituição de 2010 a possibilidade de ser eleito Presidente
da República o cabeça-de-lista do partido que vence as eleições gerais com maioria relativa.
Neste cenário, e na ausência de uma coligação pós-eleitoral, estar-se-ia perante um quadro em
que a maioria parlamentar teria mecanismos para obstaculizar sistematicamente o exercício do
poder político, podendo registar-se bloqueios e crises que afectam quer a estabilidade quer a
eficácia governativa. Para uma realidade de disciplina partidária ou partidocracia como a

36
nossa, o mais provável é que os Deputados da oposição nunca votassem a favor de qualquer
proposta apresentada pelo Presidente (Executivo unipessoal).

Por outro lado, um cenário de oposição sistemática do Parlamento ao Presidente da


República também é possível quando o seu partido venceu as eleições gerais com maioria
absoluta, mas a maioria parlamentar não apoia o Presidente. Neste sentido, a atenção recai
sobre a organização intra-partidária e a sua capacidade de assegurar uma relação estável entre
o Executivo e o Legislativo para garantir a sustentabilidade, continuidade e eficácia
governativa.

A disciplina partidária e a coesão partidária são imprescindíveis, porque o contrário


significa que o Executivo tende a perder o apoio da sua maioria legislativa e,
consequentemente, a instabilidade. Para subsistir, o partido político que controla os recursos
organizativos para influenciar quer o Executivo, que foi indigitado por si, quer os Deputados à
Assembleia, que foram igualmente propostos por si, procura manter uma disciplina partidária
dos seus membros nessas instituições representativas, o que significa uma certa anuência dos
Deputados às propostas do titular do Poder Executivo, que de forma recíproca atenderá às
determinadas exigências da sua maioria parlamentar.

Em ambos os casos, a oposição sistemática do Parlamento ao Presidente pode gerar


uma situação de “perturbação grave ou crise insanável na relação institucional”. É assim que o
legislador constituinte optou por consagrar a figura da “auto-demissão política do Presidente
da República, que predispõe a dissolução da Assembleia Nacional e a convocação de eleições
gerais antecipadas. Portanto, nestes termos, o mecanismo da auto-demissão ou “Bomba
Atómica”, funciona para condicionar a acção dos actores políticos, criando quer incentivos à
cooperação, quer incentivos à competição57.

57
Menezes, André Caputo; Feijó, Carlos Maria. (2015) Constituição da República de Angola: Enquadramento
Dogmático: nossa visão, Vol. III, Lisboa: Almedina, p. 432

37
3.5 – Sistema de Governo na IIª República vs Sistema de Governo na IIIª
República

Tem sido comum a qualificação do Siste de Governo na II República como


Semipresidencialista, assim como se tem vindo a referir o sistema adoptado em 2010 como
parlamentar-presidencialista, designação de que se reclamava o Projecto constitucional que
veio a ser aprovado.

Também à laia de rótulos tem sido frequente qualificar cada um dos períodos
dominados por um diferente texto constitucional como sucessivas Repúblicas, a I
correspondente ao período da democracia socialista de partido único, a II ao período da
democracia multipartidária e até uma III inaugurada com a aprovação da primeira
Constituição com esse nome e a primeira eleição democrática do Presidente da República em
2012.58

Vários factores concorriam, todavia, para a persistente vocação presidencialista do


sistema semipresidencial delineado na Lei Constitucional de 1992. Na realidade, segundo o
Professor Onofre dos Santos, o “aparente” semi-presidencialismo instituído em 1992 baseava-
se na repartição dos poderes entre o Presidente da República e o Governo. Ao Presidente da
República competiria definir a orientação política do país, assegurar o funcionamento regular
dos órgãos do Estado e garantir a independência nacional e integridade do país 59 . Ao
Governo caberia conduzir a política geral do país e ser o órgão superior da administração
pública60 .

Contudo, era clara a posição dominante do Presidente da República sobre o Governo


não só através do seu poder de nomear o Primeiro-Ministro e de o demitir61, como pelo poder
que lhe era atribuído de presidir ao Conselho de Ministros, o que incluía o poder de convocar,
fixar a agenda de trabalhos, dirigir e orientar as reuniões e sessões do Conselho de Ministros.
Neste intrincado quadro jurídico-constitucional podia, academicamente, discutir-se se havia
alguma separação entre a chefia do Estado e a chefia do outro órgão executivo de soberania, o
Governo.

58
4 Preâmbulo da Constituição da República de Angola.
59
Cfr. n.º 2 do artigo 56 da LC/1992.
60
Cfr. n.º 1 do artigo 105.º da LC/1992
61
10 Cfr. alíneas a) e c) do artigo 66.º da LC/1992

38
A dúvida poderia insinuar-se na medida em que a Lei Constitucional estabelecia que o
Governo era simultaneamente responsável politicamente perante o Presidente da República e
a Assembleia Nacional62 resultando, logicamente, desta dupla responsabilidade do Governo, a
possibilidade do Governo cair por uma deliberação do Parlamento que constituísse uma
moção de censura63 ou a não aprovação de um voto de confiança64. Como ficaria realmente o
Presidente na sua qualidade de chefe do Governo perante uma votação no Parlamento que
pusesse em causa o executivo colectivo?

A posição dominante do Presidente da República não se esgotava, no entanto, apenas


sobre o Governo, mas sobre o próprio poder legislativo na medida em que a Lei
Constitucional igualmente lhe atribuía o poder de dissolução do Parlamento. Foi o Tribunal
Supremo, na sua veste de Tribunal Constitucional com que actuou até 2008, que pelo seu
Acórdão de 21 de Dezembro de 1998 declarou que “as competências do Presidente da
República estabelecidas na Lei Constitucional lhe atribuem a preeminência na cadeia de
comando do poder executivo, o poder de direcção e chefia do Governo”. Apoiado no
entendimento deste aresto constitucional (ou não... o Presidente da República fez uso dos seus
poderes excepcionais durante esse período face ao acentuar dos efeitos da guerra), o
Presidente da República veio mesmo a prescindir, em Janeiro de 1999, do cargo de Primeiro-
Ministro65.

 A consolidação do Sistema Presidencialista:

Assim como o rótulo semipresidencialista não prevaleceu sobre as condições


históricas da realização da Lei Constitucional de 1992, também o rótulo ambíguo de sistema
presidencialista-parlamentar de um dos três Projectos que foram apresentados durante a
discussão na Comissão Constitucional poderá ir contra a realidade porque, lá diz o ditado, “o
que tem de ser tem muita força”.

A Constituição de 2010 teve a coerência de pôr na letra da Constituição o que foi não
apenas uma preferência de forma de governo como uma prática que se foi sedimentando ao
longo de quase quarenta anos de vida política angolana e com dois diferentes Presidentes da

62
Cfr.n.º 2 do artigo 105.º da LC/1992.
63
Cfr. alínea f) do artigo 118.º da LC/1992.
64
Cfr. alínea g) do artigo 118.º da LC/1992.
65
Santos, Onofre dos (2013) O Sistema Politico de Angola de 1992 a 2012: Origens do Sistema Politico
Angolano

39
República. Uma prática, aliás, que diversos autores entroncam numa herança colonial e
também africana66.

O Prof. Doutor Raul Araújo, na sua tese de doutoramento “O Presidente da República


no Sistema Político Angolano” refere a certa altura que fizera a demonstração ao longo da sua
monografia do carácter e essência do sistema de governo angolano, com a ressalva de que “as
explicações dadas não detalhavam as razões da progressiva personalização do poder
presidencial em Angola, mesmo depois de terminada a guerra civil, em 2002”. Na mesma
monografia, Raul Araújo adianta que “Wladimir de Brito67 e Carlos Feijó68 defendem que, em
África, e particularmente em Angola, devemos ter em conta aquilo que eles denominam de
“constante idiossincrática”: “a colectiva representação e aceitação de um modelo-tipo de
qualquer organização de uma dada sociedade fundada na legitimidade do tipo tradicional,
modelo cuja configuração formal e funcional é determinada por um pequeno número de
elementos da sua estrutura nuclear e cuja própria subsistência depende desses elementos”.

Raul Araújo prossegue dizendo que “Carlos Feijó vai mais longe na sua
fundamentação” e defende que na “sociedade angolana, os elementos que hoje formam a
constante idiossincrática devem ser recolhidos na história e na sociologia: e um deles é a
chefia unipessoal e o Conselho Consultivo”. E explicita: “é este um elemento na constante
idiossincrática angolana da organização política, uma vez que quer no período précolonial
como no colonial, a organização política e económica da sociedade era estruturada na chefia
unipessoal controlada por um conselho de notáveis”.

Raul Araújo, ao mesmo tempo que manifesta o seu pleno acordo que estes elementos
nucleares, fundados no passado histórico e social, acabam por condicionar a organização
política dos países africanos (e não só), concordando ainda que tais elementos explicam
igualmente a razão de ser da “aceitação” tácita que se faz da concentração de poderes nos
Chefes de Estado africanos, não está decididamente de acordo em aceitar tais elementos como
determinantes na fundamentação do regime político de qualquer sistema de governo ou
regime político. E expressa que, “apesar da persistência desses elementos culturais e

66
Alexandrino, José Melo, (2012) “Natureza, Estrutura e Função da Constituição: O Caso Angolano”, in
Estudos de homenagem ao Prof. Doutor Jorge Miranda, vol. II – Direito Constitucional e Justiça Constitucional,
Lisboa, pp. 317-340
67
Brito, Wladimir, (2003) “Proposta para Sistema de Governo para futura Constituição”, Luanda, Outubro de,
texto não publicado.
68
Feijó, Carlos, (2007) “O semi-presidencialismo em Angola. Dos casos à teorização da Law in the Books e da
Law in Action, in Revista de Negócios Estrangeiros, 11.4, Especial, Lisboa, Setembro,

40
históricos, é necessário que, cada vez mais, os princípios estruturantes do Estado democrático
de Direito sejam seguidos e materializados”. E acrescenta: “Desta forma, é necessário que, ao
mesmo tempo que se respeitam os condicionantes culturais de cada povo, se organize o poder
político na base do princípio da separação de poderes, sob pena de se criarem déspotas e
antidemocráticos”.

Todavia, como o próprio Doutor Raul Araújo implicitamente admite, a separação de


poderes, só por si, pode não ser suficiente, nos casos como os de Angola em que o Presidente
da República é ao mesmo tempo o líder do MPLA, o partido que possui desde 1992 a maioria
parlamentar que serviu de apoio ao Governo até às eleições gerais de 2012 e do Poder
Executivo depois dessas mesmas eleições, não existindo no país uma oposição constitucional
para o exercício dos seus poderes.

Acontece é que não se pode clamar, como frequentemente se ouve em África, que não
devem ser “importados” os sistemas democráticos europeus ou americanos devendo procurar-
se encontrar um sistema que respeite as tradições consuetudinárias africanas as quais
notoriamente apontam, como acima se reconheceu, para uma vincada personalização do poder
e, depois, clamar também contra a concentração de poderes do Chefe do Estado. A simples
separação de poderes, que aliás é uma das marcas de água da actual Constituição angolana,
pode, de facto, não ser o suficiente para assegurar os chamados pesos e contrapesos
requeridos por um sistema democrático perfeito, pelo menos quando o Presidente da
República eleito é igualmente o chefe do partido que dispõe de uma significativa maioria
absoluta no Parlamento.

Neste sistema, o Presidente da República é eleito por sufrágio universal, e é


simultaneamente o Chefe do Estado e o titular do Poder Executivo o qual é exercido
“auxiliado por um Vice-Presidente, Ministros de Estado e Ministros”69 , numa versão que
traduz o que decidiu o Tribunal Supremo em finais de 1998 no contexto da Lei Constitucional
de 1992, ao referir a preeminência da cadeia de comando do executivo e a considerar que as
funções de Primeiro-Ministro eram as de mero “coadjutor” do Presidente da República...
sendo óbvia a similitude de expressão coadjutor e órgão auxiliar do Presidente da República
utilizada na Constituição.

69
Cfr. n.ºs 1 e 2 do artigo 108.º da CRA.

41
É certo que na actual Constituição deixou de existir o Governo como órgão autónomo
de soberania. Em seu lugar ficou como reminiscência constitucional o Conselho de
Ministros70, cujo papel é auxiliar a função governativa e administrativa do Presidente da
República. Hoje, “o Conselho de Ministros é um órgão auxiliar do Presidente da República na
formulação e execução da política geral do País e da Administração Pública” 71. Enquanto na
Lei Constitucional de 1992 o Governo era a autoridade superior da Administração Pública,
hoje essa autoridade é o Presidente da República que a exerce essencialmente auxiliado pelo
Conselho de Ministros, um órgão com relevância constitucional, mas que lhe está
inteiramente subordinado, embora necessário não só para a referida formulação e execução da
política geral do país e da administração pública, bem como na preparação dos actos
normativos do Presidente da República. Mas essa era já na prática a situação no âmbito da Lei
Constitucional tal como a interpretava o Tribunal Supremo no seu citado Acórdão de 21 de
Dezembro de 1998:

“A Lei Constitucional distingue de uma certa maneira os poderes próprios do


Presidente da República, daqueles que ele exerce em comum com o Governo. Os primeiros
são aqueles em que o Presidente da República exerce sem referenda ministerial, quer dizer,
por decisão pessoal sem necessidade de consultar o Primeiro-Ministro (algumas alíneas do
artigo 66.º) e eventualmente os ministros interessados. Os segundos são aqueles para os quais
é necessário a referenda do Primeiro-Ministro (e eventualmente de outros Ministros) – artigo
110.º alínea a), naqueles casos em que recusando o acordo o Governo pode paralisar uma
decisão presidencial. Esta distinção jurídica não corresponde à exacta realidade. Na prática,
sendo o Presidente da República a presidir às sessões do Conselho de Ministros, as suas
decisões nunca são vetadas por referenda ministerial porque tratadas naquele órgão. E temos
que há sempre acordo entre o Presidente da República e o Governo” 72. No actual sistema, o
que era a prática passou a ter expressão constitucional, pois os Ministros de Estado e os
demais Ministros passam a exercer os seus cargos no uso de poderes delegados pelo
Presidente da República73.

70
Cfr. artigo 134.º da CRA.
71
Cfr. n.º 1 do artigo 134.º da CRA
72
Acórdão de 21 de Dezembro de 1998 do Tribunal Supremo, in Jurisprudência Constitucional, Colectânea de
Acórdãos do Tribunal Supremo na veste de Tribunal Constitucional 1996/2008, Volume 0, Edijuris, 2009, pp. 33
e ss.
73
Cfr. artigo 137.º da CRA

42
A Constituição passa a definir apenas três órgãos de soberania: o Presidente da
República, a Assembleia Nacional e os Tribunais74.

A Assembleia Nacional é o órgão legislativo por excelência, dispondo de competência


para legislar em todas as matérias, salvo as reservadas por lei ao Presidente da República.

Enquanto relativamente ao Poder Executivo e o Poder Legislativo se pode referir que,


dada a disciplina partidária reinante no Partido maioritário (cuja hegemonia remonta ao início
da Iª República) e sendo o seu Presidente igualmente o Presidente da República possam não
funcionar no contexto da actual maioria os mecanismos de pesos e contrapesos, pois
dificilmente o Presidente da República veria as suas propostas recusadas ou postas em causa
na Assembleia Nacional, cabe ao Poder Judicial exercer aquela função de checks and
balances, visto este poder escapar efectivamente ao poder partidário.75.

 Características dos Sistemas de Governo na IIª e IIIª Repúblicas

Sistema de Governo na IIª Sistema de Governo na IIIª


Variáveis República República
1º Designação do Sufrágio Universal directo Sufrágio Universal directo
Chefe de Estado (art.57). * (art.106). *
O Chefe de Estado é o Presidente da República é o Chefe
Presidente do Conselho de de Estado, o titular do Poder
2º Composição do Ministros, existindo também Executivo (n.º 1 do art.º108.º) *
Governo um Primeiro-ministro
(art.108) * LC
O Governo é responsável O Executivo é independente da
3º.Responsabilidade politicamente perante o Assembleia Nacional (ou
política do Presidente da República e a Parlamento) quanto à formação e
Governo: Assembleia Nacional. subsistência * art.139 CRA
(Art.105) *LC
4º. Dissolução do O Chefe de Estado pode O Chefe de Estado pode dissolver”
Parlamento: dissolver” a Assembleia a Assembleia Nacional art. 97. **
Nacional art.97. * LC
Os membros do Governo não Os membros do Executivo não
5º. Separação de pertencem à Assembleia pertencem à Assembleia Nacional,
poderes e de Nacional, e vice-versa.*art. e vice-versa.* art.149 CRA
funções: 82 LC
Julga a acção do Governo e Julga o Chefe de Estado e a acção
6º. Papel do do Chefe de Estado.* do Executivo.
eleitorado:
7º. Sede aparente Presidente da República *
do poder: O Chefe de Estado.*

74
Cfr. n.º 1 do artigo 105.º da CRA
75
Cfr. artigos 6º e 226.º da CRA

43
Síntese conclusiva:

Cada Estado desenha o seu Regime Político, o seu Sistema Eleitoral, assim como o seu
Sistema de Governo e, em certa medida, o Sistema de Partido, buscando sempre a
concretização de objectivos políticos de relevância nacional, entre os quais ganha especial
destaque a estabilidade funcional do regime. O Regime Político, o Sistema de Governo e o
Sistema Eleitoral em vigor são uma emanação da Constituição da República de Angola,
recentes, por isso, e buscam a sua afirmação e consolidação. Normalmente os modelos de
governação estão traçados no sentido de terem identidades específicas e, como refere o
Professor João Pinto, o caso angolano é inovador, de ruptura sui generis, pelas seguintes
razões:

1) O Sistema Político é democrático e pluralista, pois, o exercício do poder político


subordina-se à Constituição através de eleições gerais que legitimam o Partido que
Governa, segundo os artigos 1.º, 2.º, 3.º, 6.º e 106 da CRA.
2) É Presidencialista-Parlamentar, por haver um único processo eleitoral que legitima
quem deve governar o Estado (maioria parlamentar) e o seu cabeça de lista que consta
no boletim eleitoral junto do Partido Político será o Presidente da República e Chefe
do Executivo, segundo o artigo 109.º da CRA. Quando nos sistemas clássicos
Presidencialista ou Parlamentar o Chefe de Estado ou é eleito para governar
separadamente dos deputados ou Poder Legislativo de duas câmaras (Senado e
Câmara dos Representantes (EUA) ou dos Lordes e dos Comuns Inglaterra) ou ainda o
Chefe do Executivo, Primeiro-Ministro é Chefe do Partido que ganha as eleições
Legislativas e o Chefe de Estado é uma figura simbólica monárquica (Rei ou Rainha)
ou eleito pelo Parlamento (Itália e Alemanha).

3) Há separação de poderes, pois, o exercício da função executiva é incompatível com a


função legislativa e judicial segundo o artigo 149.º da CRA.
4) O Sistema de Governo angolano adoptado pode degenerar em totalitarismo do
Executivo face aos outros órgãos, em caso de falta de coordenação entre o Partido com
a maioria parlamentar e o Titular do Executivo e os seus coadjuvadores.

44
CONCLUSÃO

O presente trabalho incidiu sobre o Regime Político e Sistema de Governo na


Constituição Angolana de 2010. Procuramos responder a pergunta: Qual é o Sistema de
Governo angolano? Para tal, adoptamos uma óptica tripartida, para conhecermos a evolução
do Sistema Político Angolano:

Apesar de conhecer cerca de quatro décadas de existência, o Estado angolano tem


registado assinaláveis mutações constitucionais que naturalmente se têm reflectido na forma
como o seu Regime Político e Sistema de Governo têm vindo a ser estruturados. Na verdade,
se a comummente designada Iª República estava associada a um “sistema de governo
soviético” resultante da adopção de uma forma de governo marxista-leninista, a abertura
democrática ocorrida no início da década de noventa propiciou, o surgimento de um Sistema
de Governo Semi-presidencialista que privilegiava ao Presidente da República um papel
activo e actuante”, análogo, pelo menos formalmente, ao existente em alguns países
ocidentais, como em Portugal, ou em França.

Assim, com base no acima exposto, entendemos que o Regime Político Angolano é
“formalmente democrático”, com avanços e recuos e, o Sistema de Governo angolano é
híbrido, Presidencialista-Parlamentar do ponto de vista formal e, do ponto de vista prático,
Presidencialista com algumas características próprias. É um ensaio que exige uma reflexão
académica, pois, o custo das eleições ou o seu processo “irracional” num período de tempo
pode dilacerar o tecido social, exigindo-se estabilidade dos processos eleitorais, estabilidade
governativa e consequentemente o bem-estar económico e social dos cidadãos. É exemplo
disto, os conflitos da, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau, Zimbabwe e Angola
de 1992 a 2002, quase sempre resultado de eleições presidenciais, e só pacificados com
governos de unidade e reconciliação nacional, fracturando o tecido social por clivagens
regionais, étnicas ou culturais. Portanto, só com um Regime Democrático que atenda à coesão
e segurança pode a democracia vencer, caso contrário o voto étnico ou racial pode vencer,
proliferando os partidos políticos e os protagonistas, limitando o desenvolvimento social.

45
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