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f EDIÇÃO ESPECIAL SCIENTIFIC tt

AMERICAN -
www.mentecerebro.com.br
N2 9 RS 12,90 ê 4,50
Junte as partes e comP-lete sua coleção
de especiais sobre as ciências da mente.
Confira aqui nossos lançamentos e não deixe faltar
nenhuma parte do conhecimento na sua coleção.

MEMÓRIA DA PSICANÁLISE
Uma coleção composta de seis edições de dicadas aos principais
pensadores e teóricos da psique. Ao completá-la, você terá uma visão
apurada dos pesquisadores que fundaram as bases desse conhecimento:
Freud, Jung, Klein, laca n, Winnicott e aqueles que desenharam o futuro .

CONCEITOS DA PSICANÁLISE
Esta coleção, composta de 21 livros, com textos de especialistas
internacionais, trata dos fundamentos da teoria e da prática psicanalíticas:
Angústia, Associação livre, Castração, Complexo de Édipo, Depressão, Eros,
Exibicionismo, Fantasia, Fobia, Histeria, O Inconsciente, l ibido, Narcisismo,
Paranóia, Perversão, Sadomasoquismo, Sublimação, O Superego, Afe tos e
Emoções, Inveja, Culpa.

MEMÓRIA DA PEDAGOGIA
A coleção que traz em seis volumes os grandes pensadores da educação
aborda as diferentes tradições filosóficas e as propostas alternativas de
educação e formação. Obra de referência para pais, professores, educadores
e estudantes: Piaget, Vygotsky, Montessori, Freire, Ferreiro
e os pesquisadores do futuro.

ESPECIAIS
Diversas edições especiais, cada uma dedicada a um tema específico,
apresentando diferentes abordagens sobre neurociências, psicologia e outras
áreas: Doenças do Cérebro, Sonhos, Inteligência, Percepção e Memória.

Se você perdeu a lguma


edição, solicite ao seu jornaleiro
ou acesse www.lojaduetto.com.br MAIS QUE REVISTAS. CON HEOMENTO.

A sua .
rev1sta d e p s1co
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. . I
1
r-------~Um delicado
~ALABARISMO

• E
vi ta r os excessos emocionais- e os prejuízos que po-
dem trazer - talvez seja um desafio tão antigo quanto

• a presença do homem sobre a Terra. Afinal, por um


lado a emoção- definida pelo dicionário Houaiss como
"agitação de sentimentos"- nos protege de riscos (no caso do
medo), estabelece limites e nos confere fo rças para nos defen-
dermos (em momentos de raiva) ou nos aproxima de diferentes
grupos (se pensarmos na empatia ou paixão). Por outro, pode nos
colocar em situações difíceis- que paralisam ações, deAagram
atos dos quais nos arrependemos e conduzem ao sofrimento.
É exatamente como o elixir que pode curar ou matar: o efeito
depende da quantidade ministrada.
Não há emoções intrinsecamente "boas" ou "más", embora
muitas pessoas - como alguns colaboradores desta edição
- recorram ao termo "positivo" para designar sentimentos pra-
zerosos como alegria e bom humor e denominem raiva, irritação
e tristeza como "negativas" apenas para facilitar a leitura. Manti-
vemos as mesmas terminologias, embora seja importante reiterar
que emoções, por si sós, não são boas nem ruins. O efeito que
causam em nós depende em essência da forma como lidamos
com elas. Podemos considerar, portanto, que esprimi-las ade-
quadamente seja extremamente benéfico. Da mesma maneira,
a euforia constante pode ser entend ida como um sentimento
vazio de representações e patologicamente maníaco, capaz de
nos privar do senso crítico, encobrindo variações necessárias
de humo r. Afinal, mais q ue estabilidade, o equilíbrio emocional
representa Aexibilidade.
E, dia após d ia, esse delicado malabarismo com aquilo que
sentimos, gostaríamos de senti r e consideramos adequado
exprimir exige destreza psíquica. Para atrapalhar nossa "con-
centração" concorrem determinações neurológicas, hormonais,
psíquicas e sociais. Em meio a tantas variáveis, uma pergunta
é quase inevitável: temos autonomia para lidar com paixões,
desejos, alegrias, culpas, arrependimentos e arroubos de irrita-
ção? Provavelmente menos do que a maioria de nós gostaria.
Ainda assim, compreender processos mentais e cerebrais que
subjazem a nossos estados emocionais certamente nos ajuda a
fazer escolhas conscientes, cuidadosas e saudáveis.
Boa leitura!

Gláucia Leal
glaucialeal@duettoeditorial.com.br
www.mentecerebro.com.br
DIRETOR GERAL: ALFREDO NASTARI
DIRETORA ADJUNTA: ANA CLÁUDIA FERRARI
EDITORA EXECUTIVA: BETH KLOCK
SUMÁRIO
ESPECIAL EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES

REDAÇÃO MENTE&CÉREBRO
redacaomec@duettoeditorial.com.br
EDITORA: Gláucia Leal
EDITORA·ASSISTENTE: lucia na Christante
REVISÃO: Edna Adorno (coordenação), Antonio Mello,
( Tormentos da ira
lara Milani, Luiz Roberto Malta e Márcio Medrado Í RIS MAUSS

DIRETORA DE ARTE: Simone Oliveira Vieira Podemos ter controle sobre nossos senti mentos?
ASSISTENTE DE ARTE: Maria luiza Santos Cabette Ao longo dos séculos, essa perg unta tem
EDITOR DE ARTE: Monique Bruno Elias
ASSISTENTE DE ARTE: Fabio Kato intrigado estudiosos do comportamento
PESQUISA ICONOGRÁFICA: Silvia Nastari (coordenação),
Sara Alencar e Thaisi Lima
GERENTE DE PRODUÇÃO GRÁFICA: Ana Martinez
PRODUTORA GRÁFICA: Sylvia Ferreira
TRATAMENTO DE I MAG EM: Carina Vieira e Cintia Zardo 1 Loucos de raiva
tt.m=:~m
T HOMAS H üLSHOI'F

Algumas situações deAagram


Spektrum der W i ssen schaft
Verlagsgesellschaft, Slevogtstr. 3-5 explosões de irritação. Aprender
69126 Heidelberg, Alemanha
EDITOR: Carsten Konneker
a lidar com esses arroubos é
DIRETORES-GERENTES: Markus Bossle e Thomas Bleck mais saudável que reprimi-los
Mente&Cérebr o é uma publicação da Ediouro, Segmento-
Duetto Editorial Ltda., com conteúdo internacional
fornecido pela G&G, sob licença de Scientific Amerlcan, In c.
Rua Cunh a Gago, 412- cj. 33- Pinheiros- São Paul o, SP
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1 Raízes da violência
CIORC IO MAUNVERNI

Duetto
COM ITÊ EXECUTIVO
Alterações neu roquímicas
explicam os comportamentos
Jorge Carneiro, Edimilson Cardial,
Luiz Fernando Pedroso e Alfredo Nastari hostis que em alguns casos
PUBLICIDADE (publicidademec@duettoeditorial.com.br) podem ser sintoma de distúrbios
DIRETORA COMERCIAL: Cibele Tommasini
EXECUTIVOS DE CONTAS: Edgar Ghoraieb, Ricardo Bigal
psiqu iátricos
e Rogério lapoian
CIRCULAÇÃO E MARKETING
DIRETOR: André Felipe D'Amato
GERENTE DE MARKETING: Ana Kekl igian
SUPERVISORA: Simone Carvalho de Araújo
2 Sentimentos sob controle
EuSAUETH PACHERIE
GERENTE DE ASSINATURAS: David Casas
OPERAÇÕES DE ASSINATURAS: Patrícia Blacconaro Nossas emoções dependem da forma como
MARKETING DIRETO E INTERNET: Daniela de Oliveira
VENDAS PESSOAIS: Helena Ezequiel encaramos a vida e das avaliações que fazemos
EVENTOS: Daniela lago
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NÚCLEO MU LTIMÍDIA
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Edição Especial n • 9, ISSN 1807-1562. Distribuição com
exclu sividade para todo o BRASIL: DINAP S.A. Rua Dr.
2 Questão de equilíbrio
K ARL B ECHTER E K ATIA GASCHLER
Kenkiti Shimomoto, 1678. Números avulsos podem ser
solicitados ao jornaleiro, à central de atendimento ao leitor Psiqu ismo e sistema imune estão estreitamente
- (11) 3038-6300- ou pelo site www.l ojaduetto.com .br ao
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IMPRESSÃO: EDIOURO GRÁFICA imunológ ica, mas em casos c rô nicos pode
DIRETOR RESPONSÁVEL: Alfredo Nastari enfraquecer as defesas do organismo
3 Sair da depressão
FERNANDA VASCONCELLOS
Além das drogas, tratamentos como a estimulação
magnética transcraniana podem ser eficazes contra
o distúrbio que afeta 20% da população do planeta

4 Cicatrizes da infância
KATHARINA BRAUN E)ORe BocK
A formação dos circuitos neurais é influenciada
pelas emoções. Traumas infantis podem se
transformar em transtornos psíquicos na fase adulta
6 ·~ ·~ª·· º.r.ºg·ª· ·~·b·ª·~·ª·ºª··P.ª.!·~·ª'º··!
PAOLA EMILIA CICERONI
Mentes instáveis Avanços das neurociências e da psicologia
L ESLIE SABBACH ajudam a compreender os mecanismos biológicos
Im pulsividade juvenil pode ser conseqüência da dos relacionamentos amorosos
fraca integração de áreas cerebrais respo nsáveis
pelo planejamento cognitivo e tomada de decisão
7 Consciência iluminada
U LRICH KRAFT
5 Por trás das palavras Bem mais que um método de relaxamento,
STEVE KuMCHAK a meditação pode modificar aspectos de
Expressões e gestos se somam às palavras nossa personalidade de fo rma duradoura
no turbilhão de sinais que, processados
ininterruptamente pelo cérebro, definem
nosso pensamento 8 Angústias da decisão
L ESLIE SAilllACH
Reflexões baseadas em arg umentos racionais são
5 De bem com a vida fundamentais num momento de escolha, mas não
BÁRBARA L. FREDRICKSON garantem ausê nc ia de culpa e arrependimento
A aleg ria fortalece o corpo c a mente, estimula
a criatividade, nos torna mais tolerantes ao stress
e preparados para enfrentar tempos de crise 8 Liberdade ou ilusão?
MICHAEL PAUEN
Os neurô nios determinam os processos
6 .Q. pgg.~r..gg . r.t~9 de decisão, mas até que ponto somos
U LRICH KRAFT mario netes de nosso próprio cérebro?
A capacidade de achar
graça tem sido estud ada
nos últimos anos pela 9 Golpe de sorte
geloto logia; a c iência PAOLA EM ILIA CICERONE
quer desvendar Sucessos e fracassos não são fruto do acaso.
o que está po r trás As melhores oportunidades surgem quando
das gargalhadas aprendemos a lidar bem com o que sentimos

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egria ou irritação, medo ou depressão, por vezes, conduzem ao
urpresa, pesar ou orgulho: suicídio. Se uma pessoa armada ou
s acontecimentos mais ba- um motorista enfurecido resolve dar
nais despertam múltiplas emoções. livre vazão a sua raiva, é fácil prever
Elas acompanham cada instante do a catástrofe. A capacidade de regular
nosso cotidiano, onipresentes como as próprias emoções parece, portan-
o ar que respiramos. No entanto, to, constituir necessidade vital para a
empenhamo-nos quase sempre em sobrevivência do Homo sapiens.
conter nossos sentimentos ou em Acreditar que temos nossos sen-
mantê-los dentro de limites tolerá- timentos sob controle está longe de
veis. Assim, quase nenhuma emoção significar que isso de fato aconteça.
escapa ao crivo da consciência. Talvez eles continuem borbulhando
Por que, afinal, buscamos con- sob a superfície da consciência.
trolá-las? Elas não são valiosas de- Essa era a opinião de Freud, que
mais para ser reprimidas? Afinal, sem introduziu na psicologia o conceito
o afeto dificilmente ajudaríamos ou- de recalque: sentimentos muito
tro ser humano ou criaríamos nossos dolorosos ou incompatíveis com o
filhos; e, sem nos roer de raiva, ideal que temos de nós mesmos são
talvez jamais criássemos coragem exilados sem maiores delongas no
para pôr o vizinho no seu devido inconsciente. Mas a energia própria
lugar. Portanto, para que o esforço das nossas emoções precisa de esca-
de reprimir esses sentimentos? pe-como uma panela de pressão - ,
Outra questão: como conse- e acaba se manifestando, por exem-
guimos conter nossas emoções? plo, sob a forma de perturbações
Profundamente enraizado em neuróticas ou mesmo físicas.
nossa herança biológica, o animal Outros pesquisadores mais tar-
dentro de nós parece muito mais de sustentaram a hipótese de Freud.
forte que qualquer mecanismo Na década de 30, Franz Alexander
mental de mediação. (1891-1964), psicanalista e um dos
Esses temas estão no centro de fundadores da medicina psicos-
~ uma área de pesquisa na qual psicó- somática, descobriu que a pressão
logos, sociólogos, antropólogos e, sangüínea tende a subir de forma
mais recentemente, neurocientistas constante nas pessoas que reprimem
têm adquirido valiosos conhecimen- sistematicamente suas emoções.
tos. Tradicionalmente, aquela pri- Não era apenas de parâmetros
meira questão - se o homem pode confiáveis para as emoções e o seu
de fato controlar emoções- sempre controle que Alexander carecia. Na
foi respondida afirmativamente. Os verdade, suas descobertas basea-
estóicos já o postulavam. Marco vam-se em meros dados estatísticos,
Aurélio (120-180 d.C.), por exemplo, e não na experimentação. Por isso,
escreveu em suas Meditações: "Livre ele não conseguiu elucidar a possível
da paixão, a mente humana torna-se relação de causa e efeito existente
mais forte". E, quase 2 mil anos de- entre o controle das emoções e a
pois, em O mal-estar na civilização, de saúde de um indivíduo.
1929, Sigmund Freud explicou por De lá para cá, no entanto, os
POR IRIS MAUSS que emoções transbordantes seriam estudos sobre o tema foram aprofun-
Formada em psicologia e douto- inconciliáveis com o convívio social. dados. Isso abre caminho para que o
randa da Universidade Stanford, Com certeza, elas nem sempre modo como os seres humanos regu-
em Paio Alto, Califórnia, onde pes-
quisa de que forma controlamos a trazem à tona apenas o que há de lam seus sentimentos seja estudado.
raiva e a irritação. bom em nós. A raiva pode transfigu- O psicólogo )ames Cross, professor
TRADUÇÃO: Sergio Tel/aro/i rar-se em violência; reações fóbicas e da Universidade Stanford, na Ca-

www.mentecerebro.com.br 7
Texas, em Austin, descobriu que os
repressores de sentimentos têm mais
dificuldade em memorizar detalhes
de experiências emocional mente
sig ni ficativas. Tampouco no relacio-
namento inte rpessoal eles se saem
tão bem, como demonstrou Emily
Butler, da Universidade do Arizona,
em Tucson. Em questionários com
respostas anô nimas, pessoas que
não deixam transparecer nenhum
sentimento em conversa com seus
interlocutores foram consideradas
por estes menos simpáticas - e
também menos interessantes.
Está claro que, além dos efeitos
físicos de curta duração, o controle
das emoções acarreta conseqüências
duradouras. Num estudo publicado
A RAIVA PODE lifórnia, coordena uma equipe que A maioria dos participantes so- e m 2003,)ames C ross e OI iverJohn,
transfigurar-se investiga estratégias para controlar os licitados a manter expressão neutra da Universidade Berkeley, pergun-
em violência;
depressão e reações sentimentos e a forma como isso afeta conseguiu esconder sinais de suas taram a estudantes em que medida
fóbicas por o bem-estar psíquico e a saúde. emoções. Nem por isso, no entanto, eles controlavam seus sentimentos
vezes conduzem De início, uma surpresa desagra- eles sentiram menos repugnância, no dia-a-dia. Com base nas respos-
ao suicídio
dável aguardava os voluntários no nojo o u até medo - confor me se tas, os voluntários foram divididos
laboratório de Cross: eles deveriam verificou pelas respostas ao questio- em dois g rupos: o daqueles que
assistir a filmes chocantes, gravações nário- do que aqueles que haviam davam expressão mais freqüente a
em vídeo que despertam repulsa, assistido às mesmas cenas sem ter suas e moções e o dos "repressores".
como a amputação de um braço ou recebido instruções específicas. A comparação resultou numa
rituais africanos exibindo a prática Mas um dado chamou a atenção: série de di ferenças sig ni ficativas.
da circuncisão. Sem virar o rosto. apesar da suposta impassibilidade, Q uem preferia e ngoli r a raiva, o
Num desses experimentos, o sistema nervoso autônomo reagiu medo ou o pesar revelou-se, em mé-
Cross solicitou a metade de seus vo- com particular intensidade nos que dia, mais pessimista, com tendência
luntários que, na medida do possível, haviam reprimido a emoção, o que à depressão e mais inseguro. Além
não fizessem caretas ao assistir às permite inferir uma reação veemen- disso, essas pessoas fazem menos
cenas. Eles deveriam se concentrar te de stress. Esse dado fortalece a amizades e suas relações tendem
em manter expressão neutra, de noção de que controlar emoções a ser superficiais. Temperamentos
modo que ninguém pudesse ver o fortes pode ser nocivo à saúde. mais fr ios, portanto, parecem já
que estavam sentindo. Esse tipo de de in ício em desvantagem, e em
autocontrole é chamado de "supres- Em desvantagem diversos aspectos.
são" pelos psicólogos. Todavia, o efeito negativo do con- Um est ud o do pesquisador
A outra metade não recebeu trole da expressão emocional não belga Jo han Denollet, médico do
instrução alguma. C ross filmou as se restringe ao aumento do stress. Hospital Universitário de Antuér-
expressões faciais do grupo e regis- Como demonstram em vários es- pia, deu ainda um último empurrão-
trou reações fisiológicas como con- tudos os psicólogos Roy Baumeister zi nho nessa conclusão preocupante.
dutibilidade elétrica da pele e freqü- e Dianne Tice, ambos da Univer- Ele perguntou a pessoas que haviam
ência e intensidade dos batimentos sidade Estadual da Flórida, em sofrido infarto quais eram seus "há-
cardíacos. Todos os participantes Tallahassee, pessoas que reprimem bitos emocionais". Denollet queria
responderam a um questionário suas emoções são menos capazes saber desses pacientes com que
sobre o que haviam sentido durante de resolver desafios intelectua is. freqüê ncia eles tinham mau humor
a exibição dos vídeos. Jane Richards, da Universidade do ou outras emoções negativas, tais

8 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


como medo, raiva ou remo rso, e
se compar tilhavam seus estados de
Aprendizado emocional
espírito com os outros ou preferiam Psicólogos distinguem pelo volvida por Aaron Beck, auxiliam Flexibilidade é
g uardá-los para si. Qua ndo, dez menos três aspectos diferentes pacientes de forma sistemática a
anos dep ois, D e no lle t to rn ou a na reação aos sentimentos: 1) abandonar hábitos negativos de
indispensável
contatar os mesmos pacientes, com os reflexos físicos deles decor- pensamento. Em vez de partir para ver
o intuito de repetir as perg untas, rentes, tais como taquicardia sempre da pior das hipóteses,
cerca de 5% deles haviam morrido.
ou sudorese; 2) sua expressão procura-se reanalisar mental- a mesma
comunicativa, mediante gestos mente momentos de crise. Para
Mas tanto ent re os q ue hav iam e linguagem; e 3) o plano da ati- que uma tal reappraisa/ (reava- situação sob
relatado ter emoções negativas com vidade mental. Desde a década liação) tenha êxito, pode ser útil
freq üência acima da média como de 60, estudiosos das emoções colocar-se no papel de outra
diferentes
entre os que tinham demonstrado vêm se dedicando com ênfase pessoa ("há outros jeitos"), ima- ângulos e
à questão de como as expe- ginar cenários alternativos ("não
te ndência à repressão emocional, os
rimentamos e interpretamos estou em perigo") ou voltar a assim alterar
mortos perfaziam um to tal de 25%. subjetivamente. E isso porque atenção para aspectos positivos
O u seja, uma taxa de mortalidade a avaliação cognitiva de uma da questão. Mediante o exercí- tnodos de
ci nco vezes maior. Dar vazão aos situação parece contribuir para
nossa reação emocional ao mun-
cio repetido, essas técnicas são,
então, internalizadas e podem
pensar
sentimentos parece, portanto, não
apenas humano como também - c do que nos cerca. Foi isso que contribuir para manter impulsos
demonstraram, por exemplo, negativos sob controle.
literalmente- de im portância vital.
os psicólogos Stanley Schachter O poder do pensamento,
e )erome Singer num estudo no entanto, tem seus limites.
Basta observar famoso: voluntários que, sem sa- Como descobriu o pesquisador
As descobertas de Denollet nos de i- ber, receberam pequenas doses americano )oseph LeDoux, com
xam num dilema. A psicologia diz de adrenalina experimentaram base em experimentos com
altos picos ou grandes quedas animais no final da década
que, sem adequar nossas emoções,
de ânimo quando comparados de 90: por meio de conexões
não podemos ir adiante; mas, de- respectivamente com tipos neuronais diretas, informações
pendendo da forma como faze mos brincalhões ou sombrios. sensoriais recebidas estimulam
isso, nos to rnamos indivíduos mais Hoje, o aprendizado de es- os centros cerebrais da emoção
solitários e fisica me nte doentes. tratégias cognitivas desempenha no sistema límbico. Por essa via,
Felizmente, pesqu isas mais recen- papel importante no tratamento desencadeiam-se reações rapi-
dos transtornos do afeto, como díssimas de pavor, sem que elas
tes apontam um a possível saíd a.
a angústia e a depressão. Abor- tenham de passar pelo refúgio
Controlar demonstrações d o que dagens terapêuticas como a da do pensamento consciente, o
sentimos não tem necessariamente "reelaboração cognitiva", desen- córtex cerebral.
conseqüências rui ns: basta fazermos
uso saudável dessa habi lidade.
Nos estudos mencio nados, os
voluntários controlavam apenas seu
comportamento, e não os sentimen-
tos em si. Mas outra moda lidade de
controle d as emoções tem por alvo
menos o comportamento visível que
a experiência interior, subjetiva.

A vida cotidiana nos mostra que
• ....

·-
~
.....,
~ O'- ~

isso é possível. Somos capazes de ~~~ ...-.~':' ~


''; ~:--:-:.;: t ~
ver a mesma situação sob difere ntes
ângulos e, mediante uma alteração
no modo de pensar, de exercer in-
Auênc ia sobre nossas emoções. U m
garçom lento, por exemplo, é capaz
de nos fazer ferver o sangue. Em
ge ral, porém, basta observar q ue o
pobre homem está apenas ataranta-
o
>
Q
..
www.mentecerebro.com.br 9
do com o grande afluxo de fregueses É possível, portanto, que certas na amígdala, que, como se sabe, tem
que nossa irritação se dissipa. estratégias ajudem bastante no participação no modo como se lida
Diversos pesquisadores inves- controle das emoções. Se podemos com emoções negativas. Estratégias
tigaram o controle cognitivo das manipular nossos sentimentos de de pensamento podem, portanto,
emoções - e se ele é capaz de acordo com o modo como ava- baliza r reações emocionais com
evitar as conseqüências negativas liamos uma situação, então isso eficácia. Ou seja, as coisas em si não
já descritas. Mas como ensinar deve ser passível de verificação no são nem boas nem ruins: é o pensa-
voluntários a se sentir, com a força cérebro. Assim pensaram também mento que as faz assim. As pessoas
do pensamento, menos mal diante Kevin Ochsner e Silvia Bunge, hoje que se saíram bem com a estratégia
de cenas horripilantes? Solicitando pesquisadores da Unive rsidade de reelaboração cognitiva disseram
a eles, por exemplo, que reflitam Colúmbia, em Nova York, e da ter tido menos náusea e nojo e de-
sobre as seqüências em vídeo com Universidade da Califórnia, em monstraram atividade reduzida em
a máxima objetividade, ou seja, que Davis, respectivamente. seu sistema nervoso autônomo.
contemplem as cenas de uma ampu- A grande questão, no entanto,
tação, por exemplo, com os olhos de Solene controle é se esse método é de alguma valia
um médico. Voluntários que se valem Os neuropsicólogos examinaram também na vida cotidiana, ou seja,
dessa estratégia de racionalização voluntários com o auxôio da tomo- em situações reais. Foi com o in-
não apenas deixam transparecer mais grafia por ressonância magnética tuito de examinar essa questão que
raramente sentimentos negativos em funcional (fMRI). Esse método torna Richard Davidson, da Universidade
seu comportamento como também visível a atividade em diferentes de W isconsin, em Madison, partiu
ESTRATÉGIAS dizem experimentar menos mal-estar regiões cerebrais por meio do teor ao encontro dos mestres do contro-
COMPORTAMENTAIS e repulsa. Além disso, nesses experi- de oxigênio no sangue. Durante a le emocional: os monges tibetanos.
podem ajudar
a pessoa em mentos, verificou-se menor ativação tomografia, Ochsner e seus colegas Meta importante dos budistas é se
situações críticas do sistema nervoso autônomo. exibiram imagens chocantes de desligar de todos os sentimentos
cirurgias, de crianças com doenças negativos e pensar sempre de forma
fatais e de cães bravos mostrando os positiva. Vistos de fora, os monges
dentes. Eles ora pediam aos partici- de faro aparentam impassibilidade
pantes que apenas as contemplas- admirável. Declaram sentir muito
sem, ora que se distanciassem delas menos medo, pesar ou raiva. Man-
o má ximo possível, empregando têm, ao contrário, uma inclinação
para tanto uma estratégia específica, para a calma e a passividade. Mes-
treinada de antemão. Essa estratégia mo em situações nas quais outros
consistia na reelaboração cognitiva morrem de medo, os monges tibe-
da "história por trás da imagem". Por tanos exibem solene autocontrole
exemplo: "Imagine que o bebê da mental. Literalmente: ameaçados
imagem logo estará curado". Ou: "O de tortura pela ocupação chi nesa,
cachorro está bem longe de você, alguns preferiram a auto-imolação
contido por uma cerca alta". pelo fogo - com um sorriso nos
Deu certo. Quando os voluntá- lábios, conta-se.
rios seguiram o conselho de refletir
sobre a imagem com distancia- Dueto desigual
mento, o córtex pré-frontal revelou Para o estudo do controle emo-
nítido aumento de atividade. Essa ciona l humano, a meditação dos
região cerebral é responsável pelo monges seria o objeto de pesquisa
chamado controle executivo- isto é, ideal, afirma Davidson. Para sorte do
por quase tudo que tenha a ver com pesquisador, o Dal ai Lama, supremo
planejamento, decisão e execução representante do budismo tibetano,
de ações. Quanto mais ativas se é bastante aberto às neurociências
revelavam as células nervosas dessa e já estimulou em diversas ocasiões
região, maior era a calmaria em regi- encontros entre budistas, psicólogos
ões do sistema límbico e sobretudo e neurocientistas.

10 MENTE&CÉREBRO • EQUILfBRIO DAS EMOÇÕES


David son, po rtanto, pôs mãos
à obra. Por meio da eletroencefa-
lograAa (EEC), registrou as ondas
cerebrais de oito monges enquanto
estavam mergulhados em prát icas
meditativas. Os participantes de
seu estudo tinham de 10 mil a 50
mil horas de meditação- não e ram,
portanto, iniciantes. Os padrões de
EEGs desses monges fora m compa-
rados aos de novatos em meditação
que tinham passado por treinamen-
to de apenas uma semana.

Outras culturas
Resultado desse duelo desigual:
durante a meditação, os monges
apresentaram maior porcentagem
das chamadas o ndas gama- padrões
velozes, de freqüência entre 25 e 42
hertz - , que acompanham estados REPRESSÃO PERIGOSA: d ar vazão aos arroubos pode ser benéfico
elevados de atenção. As ocorrên-
cias revelaram-se especialmente que a própria antropóloga teve o pobre homem consistiria, digamos,
pronunciadas em duas regiões do desprazer de experimentar na pele, em nos colocar por um momento na
lobo fron tal, ambas e nvolv idas no quando certa vez perdeu o controle pele dele. Essa mudança de perspec-
controle das emoções. De aco rdo diante da família que a hospedava: tiva tenderá a suscitar compreensão:
com Davidson, a atividade gama dos prec isou de imediato encontrar um pequeno atraso já não parece
monges está entre as mais intensas novas acomodações. coisa tão dramá tica, afi na l, não
já descritas na lite ratura não-pato- Ainda assim, Briggs Acou tão estamos com pressa, e a comida vai
lógica. N a opinião do pesquisador, fascinada com o convívio pacíAco acabar chegando, mais cedo ou mais
esses modelos neuronais expressam da tribo que descreveu suas pes- tarde. Graças a ta l estratégia, pode-
a capacidade dos monges de con- quisas de campo num livro que mos modiAcar impulsos negativos.
trolar pensamentos e sentimentos, se tornou clássico: Never in mrger. E, com algum treino, ela nos permite
exercitada durante anos. Nele, recomendava tomar os utkus ver as coisas com outros olhos, sem
No Anal da década de 60, por como exemplo no controle eficaz que a consciência se veja obrigada
exemplo, a antropóloga ame ricana de emoções negativas. Nos anos a volta e meia nos repreender para
Jean Briggs viveu vários meses e ntre seguintes, o utros pesq u isadores que o façamos.
os utkus, tribo inuíte do ártico cana- classificaram as conclusões da an- Todav ia, mu itas questões per-
dense. A pesquisadora espantou-se tropóloga como parciais. Ela teria, manecem abertas. Por que algumas Long-term medltators
self-lnduce hlgh-
sobretudo com a raridade de confli- por exemplo, se deixado levar ape- pessoas têm mais diAculdade em amplltude gamma
tos entre eles. Submeteu seus anA tri- nas pela expressão emocional que controlar as próprias emoções? Que synchrony durlng
mental practlce.
ões a questionários pormenorizados os utkus demonstravam, e não por estratégias de controle são mais Richa rd Davidson et ai.,
e observou seu dia-a-dia. Ao fazê-lo, relatos da vida emocional inte rior. eficazes? Como se pode aprendê- em PNAS, vol. 101, n• 46,
págs. 16369-16373, 2004.
constatou que a manifestação de Seria, portanto, possível supor que las? O que podemos assimilar de
emoções, como irritação e raiva, era eles pertencessem à categoria dos outras culturas? Seja como for, o Individual dlfferences
In two emotlon
extremamente malvista. Até mesmo repressores de sentimentos. balanço provisório dos pesquisa- regulatlon processes:
os bebês eram ig norados pelos dores é esperançoso. Não estamos lmpllcatlons for affect,
relatlonshlps, and
utkus quando começavam a berrar. Papeis mentais simplesmente à mercê dos nossos well-belng. )ames ).
Adultos que, furiosos, levantassem Voltemos ao garçom atrapalhado: sentimentos. O ser humano deve Gross e Oliver P. )ohn, em
journal of Personality and
a voz eram tidos ou por idiotas ou um método de controle emocional - e pode - se tornar senhor das Social Psychology, vol. 85,
um perigo para a comunidade - o interessante para não explodir com o próprias emoções. < n• 2, págs. 348-362, 2003.

www.mentecerebro.com.br 11
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o que trânsito congestio"'·
do, políticos deso nestos,
computadores quebra-
ou explicação que têm é algo que
depende do contexto cultural. A
chamada patologia dos humores,
dos e sujeira de cachorro na rua têm por exemplo, predominante desde
em comum;> Acertou: nos irritamos a Antigüidade até a Idade Média,
com tudo isso . Ficamos bastante partia d o princípio de que um
inco mod ados sempre que não desequilíbrio entre os "humores
conseguimos atingir um objetivo, corporais" cond uz ia aos qua tro
satisfazer um desejo o u quando pri ncipais temperamentos huma-
~ nossa auto-estima é atacada. nos. O excesso de bile (em g rego,
5
~ A irritação é uma reação hostil kholé) determinaria violentas e cala-
I~
a dete rminado estímulo. Ainda que
o primeiro impulso dure apenas
mitosas explosões temperamentais
e de raiva, isto é, o tipo colérico.
g
à poucos segundos, o estado pode No final da Idade Méd ia e
É perdurar por mais te mpo e ser durante o Renascimento, passou a
~ reav ivado a q ualquer momento. predominar a concepção de que a
i!

I"
l!
Embora a percebamos como desa-
gradável, a irritação em si- sobre-
irritação irrefreada não traria des-
graça apenas àquele contra o qual o
tudo quando bem vivida - pode ser sentimento se dirige, mas também


z
divertida também. ao pró prio enfurecido. A ira e a
Essa emoção básica tem muitas inveja foram até incluídas entre os

ªi
;::;.
§

:!:
facetas - e m português, a palavra
"irritação" provém do latim irritare,
que sig ni fica "incitar, estimula r,
sete pecados capitais.
Irritação e raiva são emoções
b as t an te in tensas, assoc iadas a
~
i!
OI provocar". Pode transformar-se em for tes reações corporais. Elas se ma-
~

~ inveja, ciúme, quando se trata da nifestam sobretudo em três planos,


-8 - suposta- posse de outra pessoa. todos sujeitos ao controle direto
3
8 T ambém o desejo de v ingança do cérebro: alterações somáticas
1" aparece quando a irritação é pro - típicas, aumento da pressão arte rial
~
2
i!
vocada por uma ofensa. e tensionamento dos músculos.
Por raiva e ntendemos uma
~
OI
i!
e moção mais de nsa, explosiva, em Três partes
~ que a irritação desencadeia reação Universo cultural à parte, todos os
~ imediata, e a e nergia represada seres humanos têm "posturas bási-
descarrega-se no chamado acesso cas" geneticamente determinadas
de raiva. Q uando raiva e irritação frente à irritação e à ra iva. Elas
se voltam para determinado alvo conduzem aos mesmos processos
por um período de tempo maior, no sistema nervoso e, além disso,
falamos e m ódio. Por fim , a ira a expressões gestuais semelhantes.
vincula irritação à confro ntação e Contudo, isso pode ser alterado por
à justificação intelectuais, fazendo, influências culturais ancestrais.
então, da "raiva dos injustiçados" a Pa ra melhor compree nde r
"ira dos justos". como isto se dá, é possível pensar
Todas as culturas conhecem a numa concepção si mplificada do
irritação, a raiva e a ira. Mas o valo r sistema cerebral em três partes:

www.mentecerebro.com.br 13
I) O "cérebro reptiliauo"compreende como a adrenalina, os folículos pi- podemos voltar nossa atenção para
o tronco cerebral e porções do dien- losos se eriçam (filogeneticamente, elas, analisá-las e nomeá-las. É isso
céfalo. "Moram" aí reAexos e instin- gesto primordial da sensação de que, de acordo com o contex to,
tos. Essa é a base instintiva sobre a ameaça, que, no homem, se manifes- transforma a irritação em inveja,
qual se assentam nossos sentimentos. ta por intermédio da pele arrepiada), vingança ou decepção.
Éaí que se funda nosso estado geral aumentam a pressão arterial e os O córtex modera e governa
de excitação. Ele dá a medida do batimentos cardíacos, melhorando nossas reações emocionais. Se
quanto vamos nos irritar. a irrigação dos órgãos. reagimos a uma ofensa, estamos,
2) No sistema lrmbico v ivemos Com isso, nosso metabolismo se de início, à mercê da resposta do
emoções como a irritação sob a for- adapta à situação causadora da irrita- sistema límbico. Depois, com o au-
ma de estados de espírito incons- ção. Paralelamente, o sistema límbico xílio do córtex cerebral, analisamos
cientes que exercem forte inAuên- cuida ainda para que nosso modo o custo-benefício e definimos como
cia sobre nosso comportamento. de expressão se conduza de acordo vamos lidar com essa raiva.
De especial importância há aí uma com a emoção vivida: o sentimento O caso da reação de irritação,
estrutura c hamada amígdala. Em se manifesta tanto no tom de voz no e ntanto, não tem a ver com cir-
cobaias, ao serem estimuladas cer- como na mímica e nos gestos. cuitos neuronais fixos e definidos,
tas regiões da amígdala, observa-se 3) No plano superior desse nos- operando nas já mencionadas re-
uma esperada reação ag ressiva, so modelo simplificado do cérebro giões do cérebro. Tampouco existe
acompanhada de gestos "irritados". está o córtex. Em termos gerais, um "centro da raiva" específico no
O sistema límbico envia sinais ao essa parte governa os movimentos cérebro, único responsável por
cérebro reptiliano, em especial à voluntários, processa conscie n- esse sentimento. A irritação surge
porção chamada hipotálamo. temente os estímulos senso riais da in teração de várias estruturas
Essa estrutura cerebral possui e é responsável por processos cerebrais bem diferentes que go-
íntima vinculação com a hipófise cogni tivos complexos, tais como vernam o nível geral de excitação
-nossa glândula hormonal suprema o pensamento ou a fala. Vivemos no sistema nervoso e os processos
-e controla o nível dos hormônios. as emoções conscientes sobretudo somáticos automáticos; identificam
FATOS COTIDIANOS, Desse modo, ao experimentar a por meio do lobo frontal - a porção e processam sentimentos; efetuam,
como trânsito emoção da raiva, o corpo é de anterior do córtex. Assim, em vez com ajuda da memória, uma com-
difícíl, podem
desencadear reações imediato "acionado para o ataque". de relegá-las à periferia da cons- paração da situação presente com
desproporcionais São liberados hormônios do stress, ciência como sensações indistintas, situações irritantes do passado.
Alé m disso, pesquisas recentes
revelaram que a própria conexão
neuronal entre as células ce rebrais
pode se mod ifica r quando fortes
impressões emocionais se repetem
de forma constante. Técnicas de
diagnóstico por imagem mostra-
ram tais modificações em vítimas
de eventos traumáticos.
Assim co mo não existe um
"centro da ra iva", tampouco h á
um hormônio específico que seja
responsável pela irritação. Em vez
disso, toda uma série de hormônios e
neurotransmissores está relacionada
a essa emoção, tais como a adrenali-
na, a noradrenalina, a dopamina e a
testosterona (ver quadro na png. 16).
A adrena lina, hormônio do
stress, é liberada em caso de pe-
rigo e põe o corpo em estado de

14 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


atenção máxima: as fu nções car- Noradrenalina
díaca e c irculatória, a respiração, o
e dopamina
processamento dos estímulos por
parte do cérebro e outras fu nções atuam
passam a operar no máximo, a fim
de modo
de possibilitar pronta reação. Nesse
contexto, fala-se d e uma reação semelhante
de fuga ou luta, na qual todas as à adrenalina:
reservas de energia são postas a
serviço de excitação e atividade aceleram os
corporal elevadas. Em linhas gera is, batimentos
a noradrenalina atua de modo se-
melhante à adrenalina, acelerando cardíacos e
os batimentos cardíacos. Assim intensificam
como a dopam ina, ela inAuencia
sobretudo o grau de vigilância e
grau de
de excitação. vigilância e
O sistema límbico governa
a expressão facial, capaz de de-
de excitação
nu nciar involun tariamente nosso
estado e mociona l. A expressão
típica da irritação compõe-se de um
franzir do rosto, de uma ruga de ira
ou raiva na fronte e da contração do
múscu lo da testa. Essa mím ica faz
com que os olhos se apertem, pro-
tegendo-se da incidência excessiva
de luz. É assim que nos encapsula-
mos, isolando-nos da causa da ira. FUNÇÃO PROTETORA: postura corporal e alterações de voz são sinalizadores sociais
Também no plano mental usamos
"proteção para os olhos", tornando- que nos circundam, a fim de nos nos distanciar dos outros, discutir
nos como cegos para uma possível prepararmos. Se um indivíduo de- com eles ou nos proteger.
solução do conAito. monstra irritação, os outros podem Mas torna-se difícil reagir de
se manter a uma ma ior distância, forma apropriada à irritação quan-
Mantendo distância até que a irritação "desapareça", do ela só se mostra velada, repri-
Os gestos e a postura do corpo o que diminui a possibilidade e a mida pelo desejo de se mostrar
em item outros sinais de nossa ocorrência de agressão ou conAito. simpático, pelo medo da punição
irritação - o punho cerrado, por A irri tação lem uma fu nção de ou pelo sentimento de cul pa. Isso
exemplo, ou um tensionamento vi - advertência e proteção. conduz a comentários ácidos, do
sível da musculatura. O tom da voz Se estamos irritados e identi- tipo: "Você já não parece tão gordo
também se altera e ela pode passar ficamos irritação nos outros, pode- como antes!".
a soar estridente ou abafada. mos enviar-lhes sinais apaziguadores. Pode-se ide ntificar com nitidez
A expressão gestual, a postura Um tom de voz mais dócil e conci- a irritação velada pela comunicação
do corpo e o tom de voz são, em liador, gestos tranqüili zadores, uma não-verbal -em especial, pela ex-
p rincípio, resultado de nossos postura corporal mais humilde ou pressão gestual ou pela e ntonação.
sentimentos. Ao mesmo tempo, co- um sorriso cordial são sinais que Mal-e ntendidos e pe rturbações
municam a lgo. É muito importante sua-v izam a irritação alheia. Se podem advir daí. E, a longo prazo,
para nós, bem como para todos lidamos de forma apropriada com a provocar ainda mais hostilidade.
os outros ani mais que vivem em irritação e a raiva, elas se tornam úteis Assim descreve a psicoterapeuta
sociedade, descobrir em que estado na regulação dos relacionamentos Verena Kast outra fu nção impor-
de espírito se encontram aqueles sociais: por meio delas, é possível tante da irritação: ela nos mostra

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são . E, por outro lado, tampouco
Testosterona e agressividade
se apresenta se mpre associada a
A testosterona desempenha papel importante na gênese da agres- sentimentos de raiva. Ainda assim,
sividade humana, mas não decisivo. Homens jovens, que em geral há certa conexão entre agressão e
possuem um alto nível da substância, apresentam - do ponto de irritação: um estado de ânimo irri-
vista estatístico - maior gosto pelo risco e são mais agressivos do
tadiço -raivoso há de co nduz ir a um
que outros grupos populacionais. Alegorias costumam retratar a ira
como um homem jovem: um guerreiro, por exemplo. comportamento ag ressivo .
Contudo, se a testosterona estimula a agressividade nos ma-
míferos inferiores, esse não parece ser necessariamente o caso nos Poder e vingança
primatas e, em particular, no próprio homem. Nele, a testosterona Essa d issociaç ão parc ial entre raiva
presente no sangue só exibe aumento nítido após um êxito esportivo e irritação, por um lado, e agressão,
ou social, o que ocorre em ambos os sexos, embora o nível hormo- por outro, não ocorre apenas no ser
nal seja sem dúvida maior nos jovens do sexo masculino. Talvez a
humano. Muitos ani mais limitam
lembrança de uma excitação geral associada ao "êxtase da vitória"
e o desejo de revivê-lo expliquem a conduta agressiva e combativa seu compor ta me nto agress ivo a
surgida do estado inicial de irritação. gestos ameaçad o res q ue não se
fazem acompanhar de ações de lu ta
efetiva. Todo aquele que só deseja
demonstrar com cre dib ilidade sua
posição hierárq uica e sua d isposi-
ção para a defesa ou o ataque poupa
energia e tem nas mãos as melhores
cartas da evolução. Foi necessário
desenvolver mecanismos para co-
mun icar a disposição de lutar.
O desenvolvimento desses me-
canismos pode, em última análise, ter
conduz ido à d issociação ao menos
parcial entre nossos sentimentos de
irritação e raiva e o comportamento
ag ressivo. Também a fala auxilia os
humanos a tomar o cami nho da
d iscussão irritada, em lugar do das
vias de fa to. Mas quando a irritação
efetivamente conduz à agressão, ela
pode estar a serviço da imposição
da própria vontade, da aquisição de
pode r ou do restabelecime nto da
auto-est ima ferida, por vingança.
Po r fi m, uma fo rma particular
que algo não vai bem e nos ajuda são sim ilares. Nos an imais, uma da raiva serve à sondagem dos pró-
a mod ificar relações que julgamos certa confusão até se justifica: não prios limites. C rianças pequenas,
insupo rtáveis, ou ao menos difíceis podemos perguntar-lhes sobre seu na fase e m que começam a querer
de suportar. "Q uem se permite ficar estado de ânimo; só depreender de impo r a própria vontade, e jovens
irritado acredita que a vida ainda seu com portame nto as emoções na puberdade toma m consciênc ia
pode mudar." A raiva e a irri tação q ue porventura sentem. Nos seres da pró pria vitalidade em explosões
nos dão a energia necessária para humanos, entretanto, a situação é de raiva, de que se valem para son-
efetuar essas modificações. Uma das difere nte, principalmente em virtu- dar os limites de sua ação agressiva.
formas de isso ocorrer é por meio de de sua capacidade de contro lar os Se o mundo ao redor não reage
d a agressão. próprios sentimentos com o auxílio de forma apropriada a esse co m-
Em princípio, porém, compor- da razão: a irritação não conduz , portamento, isso é com freqüência
tamento ag ressivo e irritação não portanto, necessariamente à ag res- interpre tado como fraqueza ou

16 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


POR UM FIO: tomar
consciência do que afasta o medo e a sensação de Violência
sentimos é um passo impotência. As emoções voltam
fundamental para nossa atenção para o problema a
surge
lidarmos com a particularmente
agressividade ser resolvido. Assim, em vez de
"Ora, não se irrite!", deveríamos
em situações
di zer: "Trate de se irritar, sim
agressivas impróprias e são in- - mas com moderação". de stress social
capazes de controlar a própria Para lidar de forma apropriada -quem está
raiva tenham sofrido um longo com esses sentimentos é funda-
período de carência afetiva e sido mental, antes de mais nada, tomar encurralado
privados de carinho e proteção. consciência de nossa irritação, acredita que
Reiteradas experiências de vio- com todos os seus indicadores
lência também podem provocar físicos e emocionais. O passo se- somente o
o comportamento agressivo, o guinte é dar expressão consciente ataque pode
que, por sua vez, dificulta a cons- ao sentimento: as palavras nos
trução de novas relações sociais. permitem manifestar a irritação salvar sua
Nesse caso, é possível que, com sem ter de recorrer à violência auto-estima
tal comportamento, se busque física. Não podemos nos esque-
inconscie ntemente evitar novas cer, porém, de que também as
fa lta de interesse. Raiva e agressão decepções e rompimentos. palavras e os gestos podem ferir
podem, então, se intensificar. Irritação e raiva, ambas ati- muito, em particular quando ma-
Pouco importa se nosso filho de vamo sistema nervoso simpático nifestam irritação velada. Nesse
ª
~
~
3 anos começa a espernear diante
~ dos doces no supermercado ou
e põem o corpo em estado de
alerta. Se, em decorrê ncia de
sentido, seria salutar que todos
aprendêssemos e exercitássemos
~
2 se um jovem resolve adornar com stress prolongado no ambiente desde pequenos como reconhecer
; grafite o muro de nossa casa -em
Q
de trabalho, não logramos ate- e conviver com a irritação.
ambos os casos é necessário que, no llllá- las, medidas auto máticas Por fim, é fundamental ainda
interesse deles próprios, mostremos do sistema ne rvoso e processos ter clareza de que, com nosso
os limites do comportamento acei- honnonais são postos em cur- comportamento, está em nos-
távcl. E podemos fazê-lo deixando so, com graves conseqüências: sas mãos ir ri ta r ou não nossos
clara a nossa irritação- posta aí a passamos a sofrer de um estado semelha ntes. Também somos
serviço da comunicação. de tensão e de distúrbios cardio- responsáveis, portanto, pela
Em ge ral, somos capazes vasculares crônicos - sobretudo irritação e pela raiva ao nosso
de conter a irritação, seja por hipertensão arterial-, e nosso sis- redor, e devemos levá-las a sério.
medo de vingança, seja em de- tema imunológico se enfraquece. A irritação pode nos ajudar a
co rrênc ia d e sentime ntos de impor respeito por nossos limites
cul pa, por exemplo. Se, porém, Moderação, por favor e a articular nossos próprios in te-
não consegui mos fazê -lo, uma Esses sentimentos são parte do resses. Ao mesmo tempo, porém,
11
reação raivosa exagerada pode "equipamento emocional básico cabe-nos respeitar os limites c a
facilmente conduzir à agressão dos seres humanos. Não pode- integridade dos outros.
destrutiva e ao emprego da vio- mos bani-los. Pelo contrário: sua Da próxima vez que você
lência- relacionamentos têm, en- presença indica um conflito ou um se irritar porque alguém quer Emotionen.
Eine Einführung
tão, seu fim precipitado, ou danos perigo a nos ameaçar, razão pela passar à sua frente na fila, basta für beratende,
são causados a nosso semelhante. qual devemos dar atenção a essa que você expresse essa irritação. therapeutische,
padagogische und
Explosões de violência surgem presença e levá-la a sério. Graças Mas sinalize também ao outro soziale Berufe.
particularmente em situações a esses sentimentos, refletimos so- sua disposição conciliatória. Se Thomas Hülshoff. UTB
de stress social - o encurralado bre nossos próprios limites, recha- fizer isso, terá boas chances de Reinhardt, 2001 .
Tenho raiva: o papel
acredita que somente o ataq ue çamos - se necessário- quem se esclarecer de form a sensata o positivo das emoções
pode salvar sua auto-estima. aproxima deles c nos protegemos conflito e resolvê-lo. A irritação, é negativas nos
relacionamentos.
É freqüe nte que crianças e de intrusões indevidas. A energ ia de supor, vai desaparecer - ela já jane G. Goldberg.
jovens que apresentam reações que a irritação põe à disposição terá cumprido sua função. ne-: Mercuryo, 2000.

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Raízes da violência
O ATOR Michael
Douglas no filme Um
dia de fúria, de 1993

E
m Boston, há uma lancho- Fáceis e econômicas de criar, essas
nete onde, antes de comer, moscas-das-frutas têm também a
é preciso brigar. Trata-se de vantagem de apresentar comporta-
uma caixa transparente dentro da mentos diferentes conforme o sexo
qual duas drosófilas disputam um - machos e fêmeas combatem de
pratinho de levedo em meio a gol- maneiras distintas, com esquemas
pes de patas e investidas furiosas. reconhecíveis com base nos movi-
Os encontros deste bizarro clube mentos de cada um.
de lutas, administrado por Edward Numa pesquisa publicada re-
Kravitz, neurobiólogo da Facul- centemente nos Proceedings of the
dade de Medicina de Harvard, National Academy of Sciences, Kravitz
são meticulosamente registrados demonstrou que, modificando
em vídeo. O objetivo é estudar as geneticamente os neurônios de
bases biológicas da agressividade, um inseto macho, podiam ser
uma das expressões mais antigas e atribuídas ao seu cérebro as ca-
comuns a todas as espécies, cujos racterísticas cerebrais de uma
mecanismos desencadeantes per- fêmea em idade adulta. Muitos dos
manecem porém um enigma. comportamentos dessas moscas
Os modelos animais ajudaram alteradas, desde os sexuais aos
pesquisadores a compreender rituais de corte, mudavam para se
patologias como câncer e d iabetes assemelhar aos das fê meas. Apesar
e são hoje indispensáveis no desen- d isso, seu modo de combater per-
volvimento de todos os tratamentos manecia o mesmo.
modernos. No entanto, só nos úl-
timos anos adquiriram importância Origens comuns
na pesquisa sobre o comportamen- "É a primei ra prova experimental
to humano. Isso porque as novas de que, modificando um gene, se
tecnologias de análise molecular, influi também sobre um compor-
trazendo à luz a complexa rede de tamento", observa Bruce Baker,
circuitos bioquímicas por trás de biólogo da Universidade Stanford.
cada pulsão, permitem identificar Com o colega Kravitz, Baker
pontos comuns a várias espécies. estuda o papel da galanina, um
"À primeira vista, a drosófila é dos principais neurotransmissores
muito diferente do homem, mas é envolvidos no estímulo de agres-
~ um ótimo ponto de partida para sividade e galanteio. "Sign ifica
~ isolar as moléculas que suscitam também que a agressividade é um
~ comportamentos agressivos por- traço extremamente conservado
3 que conhecemos todo o mapa do ao longo do processo evolutivo,
i seu DNA e muitos dos seus genes e depende de mecanismos que se

~
encont ram correspondência no desenvolvem muito cedo, an tes
o genoma humano", observa Kravitz. mesmo da determinação do sexo.

www.mentecerebro.com.br 19
~
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~
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~
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EM LABORATÓRIO, Os comportamentos podem ser Klaus Miczek, da Un ivers i- "A serotonina desempenha papel
drosófilas disputam muito diferentes de uma espécie dade Tufts, e Craig C . Ferris, da centra l no contro le da ag ressi-
violentame nte uma
porção de levedo; para outra, mas parece claro que as Unive rsidade de Massachusetts, vidade em todos os mamíferos,
abaixo, o mesmo moléculas na base desses estímulos concentraram a atenção em dois e con hecemos pelo menos 14
inseto visto através -
sao as mesmas." neurotransm issores: serotonina e receptores d ife re ntes no cérebro
de microscópio
Os pesquisadores empregam vasopressina. Em muitas espécies, humano", observa o neurobiólogo
técnicas de engenharia genética entre elas o ser humano, baixos Robert Sapolsky, da Universidade
para obter animais knock-oul - pri- níveis de serotonina correspondem Stanford. "Muitas outras moléculas
vados de um gene de que se quer a comportamentos agressivos. Os potencializam o comportamento
estudar a função - , ou knock-in, ratos, por exemplo, atacam muito agressivo. Entre elas a dopamina,
quando a seqüência de DNA é mais facilmente outro animal de- adrenali na e norad renalina, que
aumentada. No entanto, a idé ia pois de consumire m substâncias aumentam o metabolismo e a fo rça.
de que existam "genes da violên- que estimulam os receptores sero- Também a testosterona contribui,
cia" h oje está desca rtada. Mais tonérgicos, impedi ndo o cérebro mas não tanto quanto se pensa.
atenção vem sendo dada a um de metaboli zar a molécula. Ao Nas fêmeas, é muito importante
grupo de neurotransmissores que contrário, drogas como a fenAu ra- a relação en tre progesterona e es-
têm como característica comum a mi na, que estimulam esses recep- trogênio liberados no sangue." Nos
presença, no interior da própria es- tores, diminuem a freqüência dos mamíferos de ambos os sexos, além
trutura molecular, do aminoácido comportamentos agressivos. disso, altos níveis de estrogênio po-
triptofano. No entanto, há muitas dem alterar o equilíbrio do "eixo do
outras moléculas que contribuem Mais força stress", constituído por hipófise, hi-
na modulação da intensidade da Se saturar os receptores d e sero- potálamo e glândulas supra-renais,
resposta agressiva. tonina reduz a ag ressivi dade, a estas responsáveis pela secreção de
vasopressina, ao contrári o, a ali- glicocorticóides, conhecidos como
menta, agindo dire tamente sobre hormônios do stress.
o hipotálamo, região do cérebro Em 2004, estudos conduzidos
onde têm origem muitos estímu- com gatos pelo neurologista Alan
los comportamentais. Na década Siegel, da Universidade de Nova
de 90, estudos clínicos conduzidos Jersey, demo nstraram que também
por Emil F. Coccaro, da Unive r- alg umas mo léc ula s d o s istema
sidade da Pensilvânia, mostraram imunológico, como as citocinas,
que também no ser human o a são capazes de potenc ial izar o
escassa secreção de serotonina é co mp orta m e nto ag ress ivo, da
acompanhada de agressiv idade. mesma for ma que outros neuro-
Os instintos agressivos se- transmissores como o ácido gama-
riam, portanto, simplesmente aminobutírico (GA BA) e diversos ~­
provocados pela carência de neuro peptídeos. A serotonina li>

uma molécula? A química da permanece, de qualquer modo, o ~


go;
violência parece mais complexa. detonador principal de cada respos-

20 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


ta agressiva, e por isso as pesquisas rociências do Conselho Naciona l A própria definição de agressi- A agressão é um
se concentram nos ratos, que têm de Pesquisa de Roma. Segundo vidade ainda não foi estabelecida
receptores cerebrais extremamente ele, "o estudo dos neurotransmis- pela comunidade científica. "Nos
comportamento,
semelhantes aos dos humanos. sores e dos genes implicados em animais, a agressividade é tipica- enquanto a
H oje é também possível c riar tais distúrbios podem dar apenas me nte medida pela freqüência dos
agressividade
roedores geneticamen te modi- indicações sobre os mecanismos ataques dirigidos a um intruso que
ficados que aprese nta m traços biológicos de base na espécie ultrapasse os limites do seu terri- é o estado
típicos de problemas psiquiátricos estudada. Dada a semelhança de tório. Mas é uma medida indi reta, motivacional,
complexos como a depressão e estruturas e funções existen tes en- porque a agressão é um comporta-
a esqui zofrenia, mas os resul ta- tre os vertebrados, é provável que me nto, e nquanto a agressividade é resultado de
dos destas pesquisas d evem ser tais mecanismos sejam altamente o estado motivacional, um conjun - um conjunto
interpretados com c uidado. "De- conservados também no homem, to das alterações neu roquímicas e
senvolver modelos animais para mas isso deve ser verificado experi- fisiológicas que estão na base da de alterações
estuda r os distúrbios hum anos mentalmente. No que diz respeito agressão", diz 13artolomucci. neuroquímicas
é um instrumento muito impor- aos ratos transgênicos, por sua vez, O limi te conceitual é evidente
tante para compreender as bases modificar um ou mais genes pro- também no Ma1111al diaguóslico e e fisiológicas
dos distúrbios psiquiátricos, mas duziria animais com caracte rísticas estatístico de tm11stomos mwtais (DSM-
os resultados obtidos d evem ser análogas às de um paciente psiqui- IV), que cita os comportamentos
interpretados com cautela", ex- átrico, mas quase nunca podemos agressivos como sintoma de vários
plica o neurocientista Alessandro reduzir uma síndrome complexa à distúrbios psiquiátricos, mas não
Bartolomucci, do Instituto de Neu- disfunção de um só gene". dá uma definição convincente da

COMPORTAMENTOS HOSTI S freqüentes podem ser sintoma de vários distúrbios psiquiátricos

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agressividade, como acontece para Nos países anglo-saxões, há com macacos silves tres mostra-
a depressão. "Estamos diante de uma grande ate nção para o exces- ram que, depois da mo rte por
um fenômeno complexo, desen- so de agressividade de crianças doença dos machos dominantes
cadeado por razões diversas, que e ado lesce ntes, muitas vezes e mais violentos, as fê meas pre-
evoluiu como resposta a pressões descrito com a expressão inglesa fe riam aqueles menos agressivos.
seletivas muito difere ntes, da defe- bullyiug, que remete às atitudes Além disso, os pesq uisadores
sa do território à sexualidade, mas agressivas a experiê ncias sociais constataram q ue, depois de dois
é também modulado e ate nuado nos primeiros anos de v ida do anos da ausência dos mais agres-
por fatores sociais. Felizmente, na indivíduo (ver qrwdro abaixo). No sivos, o g rupo repudiava novos
maioria dos casos a agressividade entanto, estudos recentes indicam indivíduos muito violentos.
pode ser inibida e não desembocar que também as relações sociais À medida que as bases biológi-
e m comportamentos viole ntos", entre adultos contam muito. As cas da agressividade se tornam mais
observa Bartolomucci. pesquisas de Sapolsky e Share claras, ga nha força a hipótese de

Vítimas e agressores na sala de aula

Entre as tantas formas de agressividade, uma em particular to-


mou conta das escolas: aquela que, na literatura internacional,
ficou conhecida pelo termo inglês bu/lying. O pioneiro dos estu-
dos sobre o tema foi o psicólogo norueguês Dan Olweus, que, no
Início dos anos 70, na esteira de um grave Incidente registrado
pela crônica policial, começou a investigar sistematicamente o
fenômeno. A ele se deve a primeira definição: o aluno é objeto de
ações de bullying, ou, de fato, é abusado ou vitimizado, quando
é exposto, repetidamente, às ações ofensivas postas em prática
por parte de um ou mais colegas.
Na raiz dos comportamentos do "valentão" há quase sem-
pre a vontade de intimidar e dominar. O abuso de poder se
manifesta com modalidades diversas: física (na qual se agride a
vítima com socos e chutes, ou também se busca invalidar suas
realizações pessoais); verbal (em que se ridiculariza, se insulta, se
escarnece repetidamente); e de forma indireta, registrada com
mais freqüência entre as meninas (na qual o agressor difunde
fofocas incômodas, pequenas calúnias, excluindo a vítima dos
grupos de convivência social).
Os "valentões" que não modificam as suas modalidades
de Interação serão, quando adultos, pessoas com forte risco
de comportamentos anti-sociais, ou desvlantes. As vítimas
freqüentemente perdem auto-estima e se culpam, reações que
comportam perda de concentração e rendimento escolar. Em al-
guns casos, há somatlzação, com dores de cabeça, de estômago,
ataques de ansiedade, pesadelos: todos distúrbios que podem
ter conseqüências psicológicas também na fase adulta. Para
evitar o constrangimento, as vítimas chegam a deixar a escola,
a não sair mais de casa e, em casos extremos, a suicidar-se.
Foi um caso de triplo suicídio que levou o governo norueguês
a encarregar Olweus de estudar o fenômeno. Nos anos 80, a aná-
lise e as medidas para combater o bullying chegaram aos outros
países escandinavos, e dali aos Estados Unidos, Canadá, Japão,
Holanda e Reino Unido. O agressor ataca no trajeto entre casa
e instalações escolares e nos banheiros de escolas, mas o lugar
principal da agressão é dos mais insuspeitos: a sala de aula. Isto
é, sob os olhos mais ou menos conscientes dos adultos.

22 MENTE& CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


tratare controlar os comportamen- Impulso criminoso
tos muito violentos com uma nova
classe de drogas que estimulam os VIsão de corte transparente A serotonina
receptores de serotonina, conheci-
dos como serenics. H oje, a atenção
desempenha
é d irig ida aos inibidores seletivos de papel central
recaptação da serotonina, usados
como antidepressivos. O objetivo
no controle do
é modular os impulsos de maneira 'iij
....c: comportamento
específica, sem induzir os pacientes
a um estado de apatia. A Auoxetina - e violento em
. Q,
...
Q,
todos os
já se demonstrou eficaz em alguns )(
41
t:
casos, assim como outras molé- •O
u mamíferos
culas que agem sobre o receptor
I B da serotonina, mas ainda com
muitos efeitos colaterais.

Mais otimismo
A poss ibil idade d e expandir
o emprego desses inibidores Córtex orbitofrontal
en trou, porém, em compasso de (COF)

es pera no fim do ano passado, da l a ]


qu ando a FDA, agênc ia ameri- Hipotálamo Sistema límbico
ca na que regulame nta alimentos Hipocampo
e medica mentos, ve rificou u ma
relação e ntre o uso d e Auoxetina
e a freqüê ncia dos suicídios e m Pessoas que cometem atos violentos de forma impulsiva, motivadas
por explosões de irritação, podem sofrer de alterações neuroquímicas.
adolesce ntes tratados por síndro- Segundo o pesquisador Gerhard Roth, coordenador do Instituto de
mes depressivas. Estudos do Cérebro, da Universidade de Bremen, Alemanha, o baixo
O freio p rincipal aos inves- nível de serotonina, que funciona como calmante e redutor do medo,
timen tos no dese nvo lvi men to está vinculado a comportamentos agressivos. O neurotransmissor é
de drogas nesse cam po d e ri va, sintetizado nos Núcleos da Rafe. Partindo dessa área, chega a várias
estruturas do cérebro (setas vermelhas), onde participa da transmissão
porém , d a impossi b ilidad e d e
de estímulos. lesões no hlpocampo e na amígdala podem afetar a
registrar novas mo léculas para seleção e o processamento de informações emocionais. Estudiosos
regular a agressiv idade. A FDA também acreditam que alterações fisiológicas e disfunções no córtex Social factors
aprova, de fato, somente fárma- pré-frontal estão associadas a ações Impulsivas. and Individual
vulnerablllty to
cos desti nados ao t ratamento de chronlc stress
patologias específicas, mas, como exposure. A.
já se d isse, o DSM-IV não dá uma porém, mais otimistas. Sapolsky novos tratame ntos, os cientistas Bartolomucci, em
Neuroscience Biobehavior
defi nição da ag ressividad e como recenteme nte propôs uma te rapia são os primeiros a lembra r que o Review, vol. 29, n• 1, págs.
distú rbio patológ ico. O úni co gêni ca voltada para modifica r controle farmacológico da agres- 67-81, 2005.
estudo clínico específico iniciad o a sec reção de C RH , hormônio sividade é um te rre no delicado Gene therapy In
por uma empresa farmacê utica é que induz a hipófise a libe ra r do ponto de vista ético. Q ue m neurologlcal dlsease.
aquele sobre o uso d a eltoprazina cortisol e inAuencia o equ ilíbrio sofre de agress ivid ade patoló- R. Sapolsky, em Methods
in Molecular Mediáne, vol.
para controlar a agressividade d e dos est rogênios. Segundo ele, g ica poderia se beneficiar, mas 104, págs. 75-78, 2005.
pacientes paranóicos e esqu izo- seria tecnicamente possível inserir sempre há o risco de encorajar o Medlan bundle
frê nicos efetu ado por uma e m- genes por meio d e drogas e m al - t ratame nto de um grande número neurons coordlnate
presa que, no entanto, arq uivou guns neurônios, a fim de controlar de pessoas c ujo comportamento behavlours durfng
o proje to e m 1994. a resposta ao stress e também à agressivo é de terminado não por Drosophlla male
courtshlp. B. S. Baker,
Se os laboratórios não inves- agressividade. Seja q ual for oca- disfunções bioquímicas, mas por em Nature, vol. 430, págs.
tem, os pesqu isadores parecem, minho tomado pela pesquisa para fatores sociais. nec 564-569, 2004.

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A emoção é determinada
pelas avaliações que fazemos.
Q uem nunca lamentou ter
cedido à cólera, sentido
uma alegria mesquinha,
ou ficou paralisado quando era pre-
crispados e a voz, mais forte e
rouca. E não nos esqueçamos do
comportamental: se Flávia não fosse
contida, di ria palavras muito duras
O que sentimos influi em ciso agir;> Quem não quer cultivar ao culpado. Por fim, a emoção é
emoções consideradas positivas, acompanhada por uma experiência
nossas crenças e vice-versa permanecer sere no na adversidade, subjetiva, difícil de ser estudada: o
indignar-se sinceramente com as próprio fato de sentir raiva.
injustiças sofridas por outros ou Flávia pode agir sobre os efeitos
se regozijar francamente com os de suas emoções, sejam eles fisioló-
ELISABETH PACHERIE
êxitos dos amigos? As emoções de- gicos, expressivos, comportamen-
sempenham papel essencial na vida tais ou subjetivos (os componentes
social e ética. Mas em que medida cognitivo e de avaliação são causas
podemos controlá-las, moldá-las, e não efeitos). De início ela age
educá-las e privilegiar o cultivo de sobre a expressão de sua raiva. Suas
umas em detrimento de outras? regras de polidez não permitem
Filósofos, moralistas, pedagogos que manifeste sua irritação e, ainda
e psicólogos há séculos procuram menos, qualquer violênc ia física ou
essas respostas. verbal d iante de Alexandre, que
As e moções têm pelo menos é visita. Ela faz um esforço, tenta
seis componentes- para assimilar substitui r a expressão de raiva por
cada um deles podemos usar um um sorriso, sem dúvida um pouco
exemplo. Supo nhamos que Flávia pálido, e minimizar a gravidade do
esteja com raiva de Alexandre, que incidente. Q uando estiver sozinha,
acabou de quebrar a peça mais a raiva poderá irromper.
preciosa de sua coleção de vasos
chineses. Este episódio tem um Engrenagens emocionais
componente cogni tivo. Enquanto A manifestação pública das expres-
ela não souber ou não acreditar que sões e comportamentos emocionais
seu vaso fo i quebrado, não terá ne- é regida por normas sociais, que va-
nhuma razão para ficar com raiva, riam confo rme a cultura: japoneses
e se não souber que o culpado fo i proíbem a expressão das emoções
Alexandre, não terá motivos para negativas muito mais que ameri-
ficar ressentida com ele. A emoção canos. Como interiorizamos essas
tem um componente de ava liação. normas? As interações sociais de-
Flávia reage à situação em função sempenham aqui um g rande papel:
de seus interesses, motivações, nossas emoções não são somente
va lores, objetivos e desejos. Ela reguladas pelas conseqüências de
não teria a reação que teve se a nossas ações, mas também pela
coleção não lhe fosse cara. Além consciência das emoções que os
disso, a ra iva suscita nela alterações outros exprimem em relação a estas
fisiológicas habitualmente regula- ações. Nós imaginamos como a
das pelo sistema ne rvoso autôno- nossa conduta é percebida e jul-
mo. Ritmo cardíaco e respiração gada pelos outros; conforme sua
se aceleram, a te nsão mu scular aprovação ou reprovação, sentimos
aumenta e, quando a ativação é vergonha, orgulho ou culpa.
pa r ticul armente acent uada, os O psicólogo Paul Harris mos-
~ vasos sa ngüíneos se contraem. trou que essas emoções complexas,

!! O utro componente é o ex-


pressivo: os traços ficam tensos, as
sobrancelhas, franzidas, os punhos,
em que levamos em conta a avaliação
do outro, são manifestadas e com-
preendidas mais tardiamente pelas

www.mentecerebro.com.br 25
crianças que as emoções simples, nos desejadas. Vergonha, orgulho, substânc ias mostram que é possível
como alegria ou tristeza. Uma crian- estima ou autodesprezo tempe ram ag ir sobre as emoções, modificando
ça que comete uma transg ressão e as expressões e ações emocionais. diretamente as representações do
percebe a reprovação da mãe ex- Flávia não exprimiu sua raiva, corpo, sem mudar necessariamente
perimenta uma reação de angústia. mas continua a senti-la. Como se os pró prios estados corporais.
Pouco a pouco, conseguirá antecipar livrar desse desagradável sentimento Mas, atenção: ao criarmos uma
essa reprovação e o mal-estar q ue a de irritação? Para William ) ames, distorção sistemática entre os esta-
acompanha. Éassim que a mera idéia filósofo e médico do fim do século dos do corpo e as represen tações
de transgressão desencadeia a an- XIX, o sentimento subjetivo nada q ue o cérebro faz deles, esta mos
gústia -e que as normas sociais são mais é que a percepção das altera- muitas vezes preparando um futuro
progressivamente interiorizadas. ções fisiológicas, agradáveis ou de- de indi fere nça. Certas técnicas de
Flávia não cede à cólera, pois sagradáveis, induzidas pelo processo medi tação são menos nocivas. Esses
imagina a vergonha que sentiria se emocional. Dito de outra forma: nós métodos produzem efeitos sobre o
ficasse transtornada: assim, ante- sentimos medo porque fugimos e sistema simpático e os batimentos
c ipa as conseqüências de atos que trememos, e não o inverso. ca rdíacos, que modulam a quali-
fariam ainda mais mal a ela - e as- dade das emoções percebidas pelo
sim se abstém. Talvez ela nem leve Maconha e uísque cérebro. A med itação profunda
em conta a ava liação dos outros, De faro, Flávia está tensa e sente também altera de forma mais d ireta
mas sim a imagem que tem de si necessidade imperativa de se expres- nossas representações cerebrais dos
própria como uma pessoa razoável sar. Estes elementos sugerem alguns estados do corpo.
e comedida. Ela teria remorsos, meios de agir sobre o sentimento. A emoção é determinada pela
ou tra emoção negativa, caso se Flávia pode tentar respirar com mais mane ira co mo representamos a
mostrasse colérica e agressiva. calma, refrescar o rosto ou dar um situação e pela ava liação que dela
Dessa forma, "e ngren age ns passeio para relaxar os músculos. fazemos. Assim, a ra iva de Flávia
PARA WILLIAM )AMES,
emocionais" que o peram desde a Difere ntemen te de W illi am provém em grande parte do fato
sentimos medo porque
trememos e fugimos infância opõem a certas emoções )ames, os psicólogos W. Wu ndt de que e la acredita que Alexandre
- e não o contrário que não desejamos outras ainda me- e E. Titchener, ambos do século é culpado. Essa convicção faz parte
XIX, consideram que a experiê ncia de sua represe ntação da situação.
emocional não é uma resposta a Trata-se de um ponto importante,
alterações no estado do corpo, mas sobre o qual o espírito é capaz de
a causa delas. exercer controle; antes de deixar
Mais recentemente, o neuro- sua ira explodir ela pode pensar
logista António Damásio propôs a rapidamente: "Ele não é c ulpado,
conciliação desses dois pontos de eu é que não deveria ter colocado
vista. Segundo ele, a percepção dos um o bjeto escorregad io em suas
estados corporais depende do en- mãos". S ua animosidade co ntra
caminhamento para o cérebro dos Alexa ndre ser ia aplacada, ainda
influ xos nervosos que eles suscitam; que a tristeza permanecesse.
essas in fo rmações se repartem no Imag inemos agora que A le-
córtex somatossensorial, no interior xa ndre seja verdadeirame nte res-
de áreas cerebrais dispostas como po nsável pelo incidente: ele faz ia
em um mapa. malabarismos com o vaso ch inês
Algumas drogas interferem nos antes de deixá-lo cair. D esta vez
sinais corporais e produzem falsas Flávia não pode modular sua re-
represe ntações dos estados do presentação da situação, já que ele
corpo. É o caso da maconha, q ue de fato agiu mal. Ela deve e ntão
modifica a percepção do espaço, avaliar se o vaso era suficienteme nte
ag indo sobre os mapas me nta is. importante para deixá-la ofe ndida
Assim, um uísque, um cigarro de com um amigo; se considerar que
maconha ou um calmante ajudariam o vaso não era assim tão precioso,
Flávia a relaxar. Os efeitos dessas sua ra iva desaparecerá.

26 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


Algumas
reaçoes
emocionais
são tão
arraigadas que
costumam ser
desencadeadas
antes mesmo
que tomemos
consciência
delas

SIMBOLOGIA DO DESAPEGO: posição das mãos de Buda lembra necessidade de renunciarmos ao que não podemos ter

Exercícios como esse, bastante tarde a consciência percebe que não razões para pensar assim, invocam
simples, são dos mais árduos, pois se trata de uma serpente, mas de um seus fracassos passados. Mas não
exigem certo desapego dos bens gal ho torto. Em tais casos, a ação são tanto essas crenças que alimen-
materiais. Esta atitude é recomenda- sobre as representações não é de tam seus sentimentos de impotência
da pelos fllósofos estóicos, mas seu nenhuma ajuda, a não ser a poste- e inferioridade: são os sentimentos
resultado, freqüe ntemente, é o de riori. Algumas reações emocionais de impotência que as levam a acre-
tornar a pessoa indiferente a tudo, já são tão arraigadas que costumam ditar que não se sairão bem. Nestes
que ela fica receosa de não suportar ser desencadeadas antes mesmo que casos, não é eficaz tentar convencer
o sofrimento ligado a uma perda. O tomemos consciência delas. a pessoa de que a opinião negativa
mais difícil é saber desfrutar de uma Assim, as terapias puramente que ela tem de si mesma não se ba-
coisa enquanto a possuímos e saber cognitivas que agem sobre crenças seia em boas razões. É melhor agir
renunciar a ela quando nos escapa. conscientes não são encazes contra de forma a reorientar sua atenção
certas fobias específicas, como o para experiências positivas e criar
Com generosidade medo de aranhas ou de lugares va- situações propícias à emergência
O neurobiólogo americano Joseph zios. Isso não escapou à sagacidade de emoções positivas.
LeDoux mostrou que há dois cir- de Montaigne: coloquemos, sugeriu Descartes advertiu que não
cuitos neuronais que o engendram ele, um filósofo em uma gaiola sus- há nada a temer nas emoções se
o medo: um consciente e outro in- pensa por um fio de ferro no alto dermos a elas li vre curso com ge-
consciente. O primeiro vai dos olhos da torre de Notre-Dame de Paris; nerosidade. Trata-se de participar
ao tálamo e à área visual primária, o fato de ele saber que é impossível plenamente de nossas emoções e
que nos permite tomar consciência cair não o impedirá de olhar com não de sofrer com elas. Se Flávia Em busca de
do que vemos, até ganhar os centros pânico para baixo. está prestes a exercer sua cólera Espinoza. António R.
Damásio. Companhia
emocionais do sistema límbico. O Além disso, freqüen temente com generosidade, isto é, se com- das Letras, 2004.
medo é então suscitado por uma as emoções causam as crenças preende que cada uma de suas
O cérebro emocional.
representação consciente. tanto quanto as crenças causam as palavras pode modificar a situação Joseph Ledoux.
Uma outra via leva diretamente emoções. As pessoas deprimidas, em um sentido que deseja e aprova, Objetiva, 1998.
do tá lamo à amígdala, sem passar diante de uma situação estressante, então sua raiva se tornará, como Criança e emoção.
pelo córtex: trememos diante de mostram-se convencidas de que não outras emoções, um instrumento Paul Harris. Martins
uma forma sinuosa no mato e só mais se sairão bem. Interrogadas sobre as a ser usado a seu favor. nec Fontes, 1996.

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stress debilita as defesas Antes, porém, cabe vol tar às
do organismo - até aí ne- origens da pesquisa sobre stress.
nhuma novidade. O que Nos anos 70 o endocrinologista
surpreende são algumas evidências vienense Hans Selye formulou a
que indicam que o tumulto e a irrita- hipótese de que o stress reprime a
ção do dia-a-dia também promovem resposta imunológica. Duas décadas
reação contrária, isto é, fortaleceriam depois, chegou-se a postular que as
o sistema imunológico. Como expli- sobrecargas psíquicas persistentes
car esses efeitos antagônicos;> Essa é de fato predispunham a um núme-
a pergunta que muitos cientistas se ro razoável de doenças. Naquela
fazem há anos. Se o stress enfraque- época estava em alta a idéia de que
ce o sistema imunológico, por que as características naturais de cada
em algumas doenças auto-imunes pessoa eram decisivas nessa questão.
ele é capaz de intensificar as reações Apesar de todos os esforços, não foi
inapropriadas do organismo, que possível provar a existência de algo
ataca si próprio? semelhante a uma "personalidade
Por um lado, o sistema imuno- amedrontada com tendência ao
lógico representa uma complexa câncer", nem um "caráter colérico
rede de inúmeros componentes, propenso ao infarto".
cujos efeitos correlatos ainda não Durante algum tempo, super-
foram plenam ente ente ndidos. valorizou-se o papel dos estímulos
Por outro, stress não quer dizer estressares no surgimento das doen-
sempre igual. Podemos pensar em ças. Um bom exemplo é a famosa
um jovem universitário pendurado úlcera estomacal, antes atribuída
~ por uma corda de bungee jwnping, exclusivamente ao stress. No en-

1
" olhando para o precipício. Ou o
mesmo estudante, amedrontado
- com as provas, ou sentado em seu
tanto, seu verdadeiro causador,
como se descobriu, é uma bactéria:
Helicobacter pylori. O mesmo ocorre
J quarto, sofrendo há meses porque com muitas outras doenças cuja
a namorada o deixou. Em cada uma causa principal está em infecções
dessas situações o stress sentido ou predisposições genéticas.
pelo rapaz é diferente. Ainda assim, não se discute mais
Em 2004 a psicóloga Suzanne o fato de que aspectos psíquicos
Segerstrom, da Universidade de realmente influem no surgimento e
Kentucky, publicou uma rev isão desenvolvimento de muitos proble-
sistemática na qual foram avaliados mas de saúde porque alteram o qua-
mais de 300 estudos sobre o tema dro imunológico. Há mais de dez
realizados ao longo dos últimos 30 anos, o psicólogo Sheldon Cohen,
anos. Ela mostrou que está cada vez da Universidade Carnegie Mellon,
POR RL BECHTER E mais clara a maneira como cargas publicou um estudo no New England
... psíquicas diversas atuam sobre o Joumal of Medicine revelando o efeito
Karl Bechter é professor sistema imunológico. Além disso, negativo do stress sobre infecções
da Universidade de Ulm e
médico-chefe do Hospital estudos mais recentes fornecem das vias respiratórias. Cohen agru-
Distrital de Günzburg. Katja indícios de como podemos influir pou diversos voluntários com vírus
Gaschler é doutora em
biologia e Jornalista científica.
mentalmente sobre as defesas de causadores de resfriados e constatou
TRADUÇÃO: Pau/o Soethe nosso organismo. uma correlação clara entre a intensi-

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dade dos sintomas e o nível de stress mucosas, consegue invadir o orga- com funções regulatórias conheci-
dos atingidos. Além disso, diversas nismo, o corpo põe em ação todo das como citocinas, que entre outras
pesquisas comprovam: os estressa- um arsenal biológico. coisas causam fe bre e inflamação.
dos padecem mais de doenças como Para os especialistas em stress, Também faze m parte da resposta
alergias, asma, artrite reumatóide e só faz sentido disting uir entre as inespecífica as células NK (do
esclerose múltipla. duas principais estratégias de defesa inglês natural killer), que se ligam a
do sistema imunológico (ver quadro na células infectadas ou degeneradas e
fJ f P lo1 f' Jr pág. 38). A imunidade inespecífica, as induzem a adotar um programa
Para entender as interações e ntre também chamada de inata, reage "suicida" de auto-eliminação.
psiquismo e sistema imunológico com rapidez: dentro de minutos ou Em compensação, para consti-
deve mos co nsiderar mais atenta- ho ras. Ela estimula diferentes tipos tuir sua segunda frente de defesa o
me nte o modo pelo qual ambos de células polivalentes a combater os corpo precisa de alguns dias - é a
se relacionam. O corpo dispõe de agressores, sejam quais forem . São chamada resposta específica. Diver-
múltiplas possibilidades de com- exemplos conhecidos os macrófagos sos tipos de linfócitos assumem aqui
bater invasores externos. Se um -células que literalmente devoram a fu nção de destruidores específicos,
agressor, a despeito das barreiras as partículas estranhas. Além disso, pois reconhecem uma característica
anatômicas o ferecidas por pele e eles emitem moléculas mensagei ras peculiar do agressor que invadiu o
organismo-aquilo a que chamamos
antígeno. Os linfócitos-T, por exem-
O sistema imunológico plo, atacam células contaminadas
~~~~~ que apresentam o antígeno do
agressor na superfície. Linfócitos-H,
po r sua vez, produzem anticorpos
que se ligam a agentes patógenos,
para que sejam recon hecidos mais
fac ilmente pelos macrófagos.
Há ainda d o is out ros tipos
de linfócitos-T que participam da
defesa imunológica: células-TH I
produze m uma citocina que es-
t imula a resposta im une e assim
apóiam a destruição de células con-
tam inadas, ao passo que as células-
TH2 liberam citocinas que tratam
sobretudo de reforçar a defesa já
adquirida e, ao mesmo tempo, pôr
fim às reações inflamatórias.
Mas como pode o psiquismo
infl uenc iar as funções imunoló-
gicas;> Entre os principais agentes
está o sistema simpático, ramo do
sistema nervoso autôno mo que
tem efeito "estimulador" sobre
o o rganismo. As fibras nervosas
do simpático comunicam-se com
órgãos im porta ntes do sistema
imunológico, como medula óssea,
ti mo, baço e linfonodos. Além dis-
so, o sistema simpático dispõe de
uma ligação direta com a medula
supra-re nal que, ativada por ele,

30 MENTE&CÉREBRO • EQUIÚBRIO DAS EMOÇÕES


RESPOSI"A ESPECIFJCA:Iinfócitos T produzem citocinas que destroem invasores e reforçam defesas

lança na circulação grande qua nti- um homem muito forte da tribo ínea e logo se posicionam no fro nt A curto
dade de adrenalina e noradrenalina. vizin ha. Ao se encontrarem, ele mais avançado para tratar o quanto
Muitas células de defesa possuem agita a clava, furioso. Essa visão antes de mord idas, arranhões e
prazo, o stress
receptores especiais aos quais esses desencadeia em você a "reação de cortes na pele e nos músculos. Ao ntensifica
dois hormônios do stress se ligam. luta ou fuga": os pêlos se arrepiam, mesmo tempo são reprimidos alguns
1 resposta
Por meio de uma cadeia de sinali- o coração dispara, o sangue irriga aspectos da resposta imunológica
zação essas substâncias impedem os músculos e assim por diante. O específica, por exemplo, a prolifera- tmunológica;
ou esti mulam a transcrição de sistema imunológico, porém, já está ção de linfócitos-T. Em face da in- em casos
determinados genes, controlando se precavendo contra as infecções tenção belicosa do enciumado Léo, A •

assim, por exemplo, quais citoci nas dos ferimentos que seu oponente essa é uma providência sensata, pois : romcos,
serão produzidas e em que quanti- enfurecido poderá lhe causar. a divisão celular implicaria gastos de :lebilita as
dade. Em seguida, outra estrutura O exemplo não é dos mais energia num momento em que os
cerebral, o hipotálamo, estimula atuais, mas, como explica o estudo músculos precisam dela com muito esistências
por meio da hipófise as glândulas de Segerstrom, situ11ções de stress de mais urgência. orgânicas
supra-renais a liberar cortisol, hor- curta duração realmente intensificam
mônio que inibe a inflamação e está a resposta imunológica inespecífica. Perigo persis <. 1te
ligado ao stress. Essa substância Quando, por exemplo, num expe- Atualmente, entretanto, essas re-
encontra receptores específicos rimento científico, pede-se a uma ações de adaptação têm pouca
em células imunológicas como pessoa que faça um discurso de im- utilidade: se perdemos o ônibus
macrófagos e linfócitos-T. proviso ou resolva tarefas de cálculo por pouco, ou se um motorista sai
A estratégia de defesa em duas de cabeça, o número de células NK cantando pneu à nossa frente para
fases explica por que o stress pode aumenta abruptamente. Isso não estacionar na única vaga disponível,
tanto estimular quando deprimir o significa que houve um recrutamento as células NK acabam tendo pouca
sistema imunológico. Para exem- de novas tropas, mas sim uma reor- serventia. Não há motivo para tanta
plificar, vamos fazer uma viagem ganização do exército já disponível. preocupação: quando a irritação
à pré-história: imagine que você Células de defesa inespecíficas são passa, o sistema imunológico acal-
tenha roubado a mulher de Léo, mobilizadas para a corrente sangü- ma-se em pouco tempo.

www.mentecerebro.com.br 31
U m efei to mui to d ife re nte é efeitos negativos muito claros, seja pratica me nte não c hega m a de-
ocasionado pelo stress de longa sobre a imunidade inespecífica, senvolver anticorpos quando va-
duração, que surge q u a nd o a seja sob re a específica. A equipe da c inadas contra gripe. Pesq uisa
pessoa atingida precisa redefi nir psicólogaJanice Kiekolt-Ciaser, da mais recente, também coorde nada
sua identidade ou seu papel socia l: U niversidade do Estado de O hio, por Kiekolt-Giase r, concluiu que
um acidente com seqüelas g raves, por exemplo, demonstrou em 1996 indivíduos que passaram por essa
uma doença crônica ou a pe rda que pessoas res po nsáveis pelo situação mantêm dura nte muito s
do e mprego. Pesquisas revelam cônjuge acometido de Alzheime r anos uma debilidade maior diante
das doenças. Neles, a concentração
de determinada c itoc ina- interle u-
cina 6 (I L-6)- é quatro vezes mais
Estabilidade tênue a lta. Em situações normais, essa
substâ ncia atua na resposta imu-
nológica quand o há inAamações.
Suspeita-se que o excesso de IL-6
pode causar doenças ca rd íacas e
- ' - - --::-:H - Hipotálamo c ircu latórias, osteoporose, artrite
/-_._-,;:-:S:':::S~- Hipófise
e alguns tipos de câncer.
..~~~f- Locus ceruleus
'tf.":cilf-- Núdeo do trato solitário A IL-6 é um dos muitos exem-
~w-- Tronco encefálico plos de que a ligação entre o sistema
imunológico e o cérebro não é de
mão única. Além de desempenhar
pape l de defesa, ela ativa o eixo
hormonal que regula o hipotálamo,
o hipófise e o córtex da supra-renal.
Com isso, esta última emite maior
quantidade de cortisol, o que exerce
uma pressão negativa sobre o siste-
ma imunológico.
Situações mais leves de stress,
como a aproximação de uma prova,
não passam despercebidas pelo sis-
tema imune. Muitos estudos tratam
dos efei tos dessas contrariedades
da vi da, compa rativamente mais
Fígado inofensivas. Nelas, a resposta imu-
Rim
nológica parece transferi r-se das
A RESPOSTA AO STRESS. Os nervos conectam o cérebro a todos os células-TI-l I para as células-TH2,
órgãos e tecidos. Situações de perigo ou desafio ativam a resposta do mas não está claro como isso se dá.
cérebro ao st ress, que e nvolve a libe ração de hormônios estimuladores Como explicar a inAuência do
da ativação fisiológica e regula o sistema imunológico. Os compo- stress nas doenças auto -imunes!
ne ntes fundame ntais nesta resposta ao stress são o hipotá lamo e o
Ao contrário da noção corriqueira,
/ocus ceruleus, a hipófise, o siste ma nervoso simpát ico e as glândulas
supra-renais. nelas o sistema imunológico não
fica sim ples me nte "h ipe rativo".
A RESPOSTA IMUNOLÓGICA. O sistema imunológico opera co mo
Observa-se uma redução do nú-
uma rede descentra lizada, respondendo automaticamente a qualquer
agente que invada ou perturbe o funcioname nto do organismo. As mero de linfóci tos. O problema é
cé lulas imunológicas produzidas na medula óssea, linfonodos, baço e que determinadas células-T agri-
ti mo se comunica m entre si por meio de pequenas proteínas chamad as dem célu las inócuas do corpo por
citocinas. Esses mensageiros químicos também podem mandar sinais engano. Em 2004, a imunologista
ao cérebro, pela corrente sangüínea ou por via nervosa, como o nervo
Cecile King, da U niversidade da
vago, que os envia ao núcleo do trato solitário.
Califórnia, demonstrou em animais

32 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


como essa população de células se
mu ltiplica inte nsame nte quando
a s d e fesas do o rgan ismo es t ão
enfraquecidas. Segund o King,
trata-se provavelmente da tentativa
de compe nsar danos causados por
infecções ou por stress.
As mudanças do sistema imu-
nológico pelo stress são compreen-
didas como adaptações evolutivas
que na verdade estão a serviço da
saúde. Mas quando a sobrecarga
dura muito tempo, o cérebro e as
células imunológicas se adaptam
aos quad ros hormonais caracterís-
ticos do stress e perdem com isso
a capacidade de reagir a eles. Ao
se tornar insensível, o sistema de
stress acaba tornando seu portador
mais susce tível a doenças. E, em
casos extremos, as defesas entram PROGRAMA SUICIDA natural kil/ers induzem células infectadas à auto-eliminação
totalmente em colapso e começam
a se comportar erraticamente. Um lembranças de momentos aleg res Richard Davidson, da U niversida- Cérebro pode
fator decisivo de risco é a idade: e tristes e então acompa nhou seus de de W isconsin, c rê que o cérebro
ser "treinado'/
quanto mais anos de vida, maio r a impulsos elétricos cerebrais. Com pode ser treinado nessa habilidade.
dificuldade do sistema imune de dar isso ide ntificou atividade assimétri- Antes da vacina contra gripe, e le para que o
conta do stress. ca no córtex pré-frontal em alguns pediu a 25 volu ntários q ue fizessem
comportamento
O que pode mos ap ree nder deles. D e fa to, estados de espírito um programa de meditação duran-
desses resultados para lidar com as negativos e até mesmo depressão, te dois meses. Conforme o espera- seja mais
sobrecargas psíquicas do dia-a-d ia? segund o a lgu ns estudos , estão do, aqueles que hav iam med itado sereno
É prat icamente impossível ev itar correlac io nad os com a at ivação produz iram muito mais anticorpos.
por completo o stress cotidiano. Na excessiva do lado dire ito, ao passo Além d isso, a função cerebral se
verdade não se pode querer desviar que pessoas com mais "a leg ria alterou nessas pessoas: a atividade
de toda e qualq uer situação estres- de vi ver" ap rese ntam o có rtex do lado esquerdo passou a ser mais
sante. O s desafios têm seu sentido pré-frontal esquerdo comparativa- intensa, também quando as pessoas
na medida e m q ue servem para mente mais ativo. O s participantes não estavam medita ndo.
treinar o sistema imunológico. O tomaram injeção contra gripe para Psiquismo e sistema imunológ i-
mesmo vale para lidar com a sujeira q ue seu sistema imunológico fosse co estão imbricados um no outro.
e com as temidas infecções. H igiene ana lisado. De fato, geraram mais Q uando se puxa um dos nos, todo
em excesso - sobretudo na infância ant icorpos os que ti nham ativ i- o conjunto se movime nta. Todavia,
-é contraproduce nte. dade maior no lad o esquerdo do ne m sempre está claro o que é causa
The end of stress as
cérebro. O estado emocional teve e o que é efeito. De fato, sabe-se que we know lt. B. McEwen
L.. do :lireito efeito mensurável sobre a função infecções causadas por vírus e bacté- e E. Norton-Lasley.
)oseph Henry Press,
Na luta contra infecções importa do siste ma de defesas próprio a rias influe nciam a atividade cerebral,
2003.
sabe r se estamos entre os o timistas cada corpo. de manei ra d ireta o u por me io da
Psychologlcal stress
o u en tre os rea listas. Q uanto a Resta a perg unta sobre a possi- resposta imunológica, e podem de- and the human
isso, c hamou a atenção o estudo bilidade de aprender a ser otimista. se ncadear distúrbios psíquicos. Para lmmune syste m: a
meta-analytlc study
conduzido pela psicóloga Melissa "Tornar-se mais sereno" certamente superar a visão dual ista de corpo e of 30 years of lnqulry.
Rosenkranz, da Universidade de é um projeto e m que a maioria das espírito, precisamos compreende r S.C. Segerstrom e G. E.
Miller, em Psychological
W isconsin, em 2003. Ela pediu a pessoas de nosso tempo precisaria muito mais sobre a dinâm ica dessa Bulletin, vol. 130, n• 4,
seus vo luntários que evocassem investir muito esforço. O psiquiatra delicada trama. ~ págs. 601-630, 2004.

www.mentecerebro.com.br 33
POR fR ANDA VASCONCEUOS
Jornalista

o s númecos são p<eo- problema, já que a depressão


cupantes: 10 milhões envolve alterações neuroquí-
de brasileiros sofrem micas - embora também tenha
de depressão. Estima-se que o fortes impli cações psíquicas,
di stú rbi o se ma ni feste em 15% e mocionais e sociais. Do ponto
a 20% da popul ação d o plane ta de vista neurológico, o cé re bro
pelo me nos um a vez du ra nte do depress ivo sofre queda dos
a vida. Q uem sofre a pri mei ra níveis dos neuro transmisso res
crise tem 50% de chance de se roto n ina, d opa mina e no ra-
re inci dência. Após o segundo drenalina. Os antidepressivos
episódio, a probabilidade sobe restabelecem esses níveis.
para 70% e a partir do tercei- Além das quatro classes de
ro pula para 90%. Apesa r das antidepressivos comercializados
estatísticas pouco an imadoras, desde as décadas de 80 e 90 (ver
existem diversos recursos dis- quadro na pág. 37), o arse nal de
poníveis para controlar a doença combate à doença ganhou novas
~ que, dependendo da intensidade, armas em 2005, quando fo ram
;:)

r
~
além da tristeza profu nda e inex-
plicável, pode incluir entre seus
lançados no Brasil os inibidores
de noradre nalina e se rotonin a
~~ sinto mas distúrbios de sono e de zen lafaxina e dul oxctina (perten -
,.s apetite, irritabi li dade, cansaço, centes à categoria de antide pres-
~
pe rda da memória, do res de si vos atípicos). "O fato de agire m
[ cabeça e no corpo, proble mas em dois neurot ransmissores faz
õ
~ digestivos e até mesmo pensa- co m q ue esses medicamentos
i!
~ mentos sui c idas. funcio nem melhor. A remissão
<!
~ Até a década d e 70, quando do q uadro e o início da ação são
iS
c: surgiram os prim eiros antide- mais rápidos que os ve rificados
~
.g pressivos, o ún ico tratamento com as outras classes de a ntide-
~ d isponível contra o distúrbio pressivos. Além disso, também
~
era a psicoterapia. Atualm en te, dimi nu i o número de recaídas",
ª
~
~
existem mais de 60 medicamen-
tos no mercado. Eles estão na
explica a psiquiatra Verusca
Lastor ia, da Universidade Fe-
!5
,
§ linha de frente no combate ao dera( de São Pau lo (U ni fesp).

www.mentecerebro.com .br 35
Antidepressivos e neurogênese

A depressão pode causar diminuição de regiões es- tupaias estressadas. Contudo, resultados contra-
pecíficas do cérebro. Estudo realizado com tupaias ditórios não demoraram a aparecer.
(animais nativos da Ásia, semelhantes a esquilos) Fritz Henn, do Instituto Central de Saúde Men-
pelo neurocientista Eberhard Fuchs, do Centro tal de Mannheim, Alemanha, descobriu que não há
de Primatologia de Gõttingen, Alemanha, foi o relação entre a taxa de neurogênese e a alteração
primeiro a apontar nessa direção. Ele mostrou que do humor em ratos. Até mesmo Gould considerou
nos animais "deprimidos" - isto é, sem iniciativa e a neurogênese apenas um efeito colateral dos me-
que pouco se alimentavam- o hipocampo, impor- dicamentos: os novos neurônios na verdade seriam
tante centro de processamento da memória de artefatos do tratamento.
longo prazo, apresentava tamanho reduzido. Esse Não obstante, a equipe de René Hen e Luca San-
encolhimento progressivo, no entanto, foi detido tarelli, da Universidade Colúmbia, em Nova York,
com o uso de antidepressivos. publicou resultados que mostravam claramente o
Algo semelhante foi observado em seres huma- efeito emocional resultante da neurogênese. Os
nos. A psiquiatra Yvette Sheline, da Universidade de pesquisadores colocaram camundongos em situa-
Washington, analisou o hipocampo de 38 mulheres ções de stress: obrigaram-nos a procurar comida
com depressão crônica e constatou que a redução sob uma luz forte- esses animais temem a lumino-
do hipocampo era menor nas que faziam uso pro- sidade. De fato, quanto mais medo sentiam, mais
longado dessas drogas em comparação às que ti- tempo levavam para o cumprimento da tarefa. Ao
nham iniciado o tratamento havia menos tempo. mesmo tempo, um grupo de roedores foi tratado
Tudo indica, portanto, que os antidepressivos com antidepressivos por várias semanas. Passados
conferem algum tipo de proteção ao tecido cere- 21 dias, precisavam de apenas dois terços do tem-
bral. Mas, com base nesses resultados, seria possível po para encontrar comida, em comparação com
concluir que células isoladas também morrem em outro grupo de animais, tão estressados quanto os
conseqüência da depressão? Além disso, os antide- primeiros, mas não submetidos a tratame nto. Além
pressivos seriam capazes de estimular a formação disso, o primeiro grupo desenvolve u 60% mais
de novos neurônios- a chamada neurogênese? novos neurônios. Um terceiro grupo, de controle,
No fim dos anos 90, Fuchs demonstrou, em recebeu a droga por apenas cinco dias e não apre-
ANTI DEPRESSIVOS parceria com Elizabeth Gould, da Universidade sentou nenhuma alteração, nem comportamental,
PARECEM conferir Princeton, que macacos expostos a stress constante nem anatômica.
proteção ao tecido formavam um número me nor de novos neurônios. Fica claro, portanto, que tudo depende da dura-
cerebral, freando a Pouco depois, eles comprovavam que os antide- ção do tratamento. Isso explicaria por que também
degeneração neuronal pressivos de fato estimulam a ne urogênese em os humanos respondem à terapia farmacológica so-
mente depois de algumas semanas: se o mecanismo
de ação da droga é a formação de novos neurônios,
é razoável supor que o efeito só apareça depois
de algum tempo. Afinal, neurônios funcionais não
amadurecem do dia para a noite; ao contrário, o
processo se dá passo a passo: células-tronco indife-
renciadas presentes em regiões diversas do cérebro
transformam-se, por divisão celular e de acordo
com a necessidade, em neurônios novos.
No entanto, todo esse raciocínio ainda não é a
comprovação de que a neurogê nese seja capaz de
conter a depressão. Para demonstrar essa hipóte-
se, os pesquisadores tomaram um novo caminho.
Usando raios X, bloquearam o nascime nto de
neurônios hipocampais em camundongos. Depois,
submeteram os animais a stress e lhes administra-
ram antidepressivos. Resultado: sem neurogênese,
os medicamentos não produziram efeito algum.
Alguns cientistas supõem que o nível plasmático
de neurotransmissores- elevado pelos antidepres-
sivos- cause a neurogênese no hipocampo. "Mas
ainda não sabemos dizer como essas drogas pro-
vocam crescimento celular", explica Hen.

36 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


Segundo a méd ica, essa classe de
drogas é especialmente eficiente
para pacientes com dep ressão
moderada ou grave, associada a
sinto mas somáticos, co mo dores
no corpo .

Terapias complementares
A lé m da terapia farmacológica,
atividades como ioga, meditação e
acupuntura são cada vez mais bem-
vis t as pelos especialistas como
comple mento para os modernos
antid e pressivos no co mbate à
depressão. "Medicamento é indis-
pensável e ao mesmo tempo insu-
fici e nte", reconhece o psiqu iatra
Ceraldojosé Ballone, coordenador ACUPUNTURA REDUZ ou elimina efeitos colaterais dos remédios,
do si te Psiqweb. A ciência vem des- aumentando tolerância a eles

cobrindo que, assim como o exer-


cício físico, exercitar a mente pode
estimular a gênese de novas células Arsenal farmacológico
cerebrais e ajudar no tratamento Assim con1o
de depressão, ansiedade e stress. ANTIDEPRESSIVOS DISPONÍVEIS NO MERCADO
Segundo Ballone, somente nos • lnlbldores da monoamlnaoxldase (lmao)- Foram os primei-
a prática
casos de depressão leve é possível ros antidepressivos largamente usados. Eles inibe m a ação de física, o
uma enzima responsável pela degradação dos neu rotransmis-
melhorar sem medicame ntos.
sores noradrenalina, dopamina e serotonina. Raramente são exercício
A ioga foi o complemento es- prescritos como tratamento de primeira linha porque exigem
colhido pela empresária paulistana uma dieta especial para evitar interações potencialmente peri- mental pode
C láudia Pereira, d e 40 anos, no gosas, embora esporádicas, com certos alimentos. No entanto, estimular
combate à de pressão e ao pânico. ainda são indicados como último recurso.
O pro blema começou em 1999, • Antldepresslvos trlcícllcos (ADT) -Inibem a recaptação dos a gênese
neurotransmissores noradrenalina e serotonina. Os ADTs têm
desencadeado por complicações
efeitos colaterais desagradáveis como sonolência, boca seca e
de células
financeiras. Ela evitou o tratamento
durante mais de seis anos, e o caso
visão e mbaçada; cerca de 30% dos pacientes param de tomar cerebrais e
o medicamento por causa desses problemas. Eles são poten-
evoluiu para crises de pânico, no cialmente letais em altas doses. No entanto, ainda podem ser ajudar no
começo de 2006. "Fiquei apática e a melhor escolha para certos casos de depressão.
passei a ter medo terrível, não sei • lnlbldores seletivos de recaptafãO de serotonlna (ISRS)- Dro-
tratatnento
do quê. O telefone não pod ia tocar gas como Prozac e Paxil bloqueiam a recaptação da serotonina de ansiedade
que eu achava que alguma coisa pelos neurônios pré-sinápticos. Eles substituíram os ADTs por-
horrível ti nha acontecido", conta. que provocam menos efeitos colaterais e apresentam menor e stress
probabilidade de morte em casos de overdose. Mesmo assim,
Foi nesse ponto q ue decidiu procu-
efeitos adversos como problemas gastrointestinais e sexuais
rar um psiquiatra e começou a to-
não são raros. Indicações de que os ISRSs possam aumentar
mar antidepressivo. "Voltei a ficar pensamentos e ações suicidas em crianças e adolescentes le-
bem, parecia outra pessoa." Como varam a uma advertência obrigatória no uso do medicamento
não sentia mais nada, a empresária para essas faixas etárias nos Estados Unidos e à proibição para
decidiu abandonar a medicação e, menores na Inglaterra.
após uma sobrecarga de trabalho, • Atípicos - Afetam vários sistemas neurotransmissores ou
os sintomas voltaram. A solução foi usam mecanismos diferentes para o bloqueio da recaptação.
Alguns exemplos são bupropion, venlaflaxina, nefazodona e
novamente recorrer aos reméd ios,
mirtazapina.
mas desta vez acompanhados da

www.mentecerebro.com.br 37
ioga. "Acho importan te praticar ao t rata mento clín ico me dic a-
uma atividade física, alguma coisa mentoso, ajudando na redução ou
que faça a pessoa olhar para si e eli minação de efeitos colaterais po-
desacelerar. A depressão me fez tenciais e aumentando a tolerânc ia
esq uecer das coisas de que e u às drogas.
gostava. Agora estou me tratando Além disso, as agulhas melho-
e tentando levar a vida menos a ram a qualidade do sono e podem
sério." Ela pretende persistir nos ser benéficas para tratar quadros
dois tratame ntos. para le los como gastri te, dor de
Outra técnica que vem sendo cabeça e tensão pré-menstrual.
pesqu isada para o combate à Elas potencializ am os efeitos do
depressão é a acupuntura. "Empiri- tratamento e costumam acelerar
camente, ela aux ilia no tratame nto a melhora", explica o psiquiatra
de depressão leve, que muitas vezes Francisco Carlos Machado Rocha,
não exige o uso de remédios. Em do departamento de psiquiatria da
casos mais avançados, tem sido um Unifesp, especialista em medicina
recurso terapêutico complementar c hinesa e acupuntura.

Estimulação localizada

Aexcitação localizada de células cerebrais é realizada nético diminui em relação ao aumento da distância,
por meio de um aparelho de estimulação magnética ele penetra poucos centímetros no córtex (à dir.). O
transcraniana (EMT). Quando os pesquisadores ope- campo, precisamente localizado, induz uma corrente
ram uma bobina de EMT perto do couro cabeludo elétrica nos neurônios próximos, ativando as regiões
de um indivíduo, um campo magnético poderoso e do cérebro focalizadas (embaixo à dir.). O principal
variável atravessa a pele e os ossos, de modo seguro e benefício da EMT é que ela não requer nenhuma
indolor. Cada pulso, que dura milissegundos, conté m conexão e létrica direta com o corpo, como é o caso
pouca e nergia. Uma vez que a força do campo mag- da terapia eletroconvulsiva.

Campo
magnético
Neurônios
ativados
Vr-- -- -Estrutura de \
posicionamento

~
~
g em repouso
!5
"

38 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EM OÇÕES


efeitos colaterais são mínimos, mas Do ponto
há relatos de dor de cabeça nas pri-
meiras sessões", explica o psiquiatra
de vista
Roni Broder Cohen, que conseguiu neurológico,
aprovação da comissão de ética da
o cérebro do
Unifesp para utilizar a técn ica clini-
camente. Segundo ele, o tratamento depressivo
requer dez a 15 sessões de cerca sofre queda
de 45 minutos. "É o suficiente para
70% dos casos", diz. dos níveis
Mais antiga e polêmica, mas dos neuro-
também eficiente para depressão
g rave, é a eletroconvulsoterapia, o transnlissores
conhecido eletrochoque. A eficá- serotonina,
cia no tratamento do transtorno
é muito alta (em torno de 90%), dopamina e
comparada com as medicações (em noradrenalina
torno de 70%), segundo Ballone. O
psiquiatra explica que o tratamento
consiste na aplicação de uma carga
elétrica no cérebro, com o paciente
anestesiado (é uti lizada anestesia
geral com duração e m torno de 5
mi nutos). A estimulação produz
uma convulsão, mas muito dife-
rente da que oco rre na epilepsia,
ISOLAR-SE PODE AGRAVAR o problema: g rupos de ajuda têm papel pois a anestesia promove relaxa-
impor ta nte n o processo de recuperação mento muscular. "O eletrochoque
é usado como primeira alternativa
Falar sobre o problema como as pessoas se sentem mais capazes para depressão g rave em países
forma de resolvê-lo ou amenizá-lo de enfrentar seus problemas e dei- nórdicos, e nos Estados U nidos
é o sistema adotado por grupos de xam de se sentir como ETs." Para os é bastante aplicada. Já no Brasil,
auto-ajuda específicos para portado- que preferem se expor menos, outra existe mu ito preconceito, se ndo
res de distúrbios psiquiátricos como opção são os grupos de auto-ajuda praticada somente em universi-
depressão e pânico. Instituições sem on-line. Existem diversos espalha- dades. Trata-se de um tratamento
fins lucrativos como a Associação dos pela internet. muito seguro, com complicações
Brasileira de Familiares, Amigos e mínimas, especialmente em casos
Portadores de Transtornos Afetivos Casos extremos em que os medicamentos são con-
(Abrata) e a Associação Pró-Saúde Além da depressão leve e modera- tra-indicad os, como na gravidez e lf!i!:MMJi~1
Menta l (Fênix) organizam reuniões da, existem os casos mais graves, em pacientes idosos."
Depressão & doença
semanais para pacientes e parentes, com grande risco d e su icídio. Apesar de os médicos prefe- nervosa moderna.
em que as pessoas partilham suas Cerca de 30% dos pacientes não rirem não usar a pa lavra "cura" Maria Silvia Bolguese.
Fapesp/Via Lettera, 2004.
experiênc ias. "Como não se trata respondem nem aos medicamentos quando o assunto é tratamento do
Biologia da depressão.
de um tratamento, e sim de um mais modernos. Para esses casos, a distúrbio (assim como acontece em julio Licinio e Ma-li Wong.
coadjuvante contra a depressão, não novidade é a estimulação magné ti- outras doenças crônicas, como dia- Artmed, 2006.
existe orie ntação específica. Os par- ca transcraniana (EMT), aplicada betes e pressão alta), o termo-chave Requlrement of
ticipantes se encontram e trocam ainda de forma experimental tanto é "controle". Os dive rsos recursos hlppocampal
neuro genesls for the
experiências", explica o psicólogo no Brasil como no exterior. "A da ciência e as terapias disponíveis behavloral effects of
Adriano Camargo, presidente exe- EMT pode ser usada também em permitem que o paciente mante- antldepressants. L.
Santerelli, R. Hen et ai.,
cutivo da Abra ta. "Ao escutar relatos casos mais leves de depressão, para nha o controle dos sintomas e leve em Science, n2 301, págs.
de vivências parecidas com as suas, diminuir o tempo de tratamento. Os vida normal. 805-809, 2003.

www.mentecerebro.com.br 39
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Wisconsin, estudaram chimpanzés

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iperatividad e, déficit
d e atenção, aut ismo , para saber o que ocorria quando a
transtornos alimentares, cria perdia precocemente os geni-
esquizofrenia, ansiedade e depres- tores. Os resultados confirmaram
são formam um rosário de proble- as observações dos estudos com os
mas sobre os quais se estendia, bebês de orfanato: os chimpanzés
antigamente, um véu de silêncio. que cresceram sem a mãe apresen-
Hoje ocupam mais espaço na tavam d istúrbios comportamentais
mídia e, em gera l, são atribuídos crônicos. Brincavam menos, eram
a traumas viv idos na primeira mais ansiosos e menos interessados
POR KATHARINA BRAUN
E JORG BOCK infância. Até recentemente, essa e m explorar o ambiente que os
afirmação carecia de evidências congêneres criados com a família.
Katharina Braun científicas. Está cada vez mais cla- Entre as fêmeas, poucas procriaram
é professora de
neurobiologia da ro, no entanto, que experiências e, quando o fize ram, não souberam
Universidade Otto von traumáticas influem decisivamente cuidar da cria.
Guerlcke de Magdeburgo,
Alemanha, onde Jõrg Bock
nas conexões do cérebro infantil Como a presença ou ausência
é pesquisador. e no equilíbrio dos neurot rans- de experiências emocionais pode
TRADUÇÃO missores, ca usando mudanças acarretar a lterações tão drásticas
Mareei Crave/li
que aumentam a vulnerabilidade de comportame nto? Nos últimos
a transtornos psíquicos em fases anos, neurobiólogos começaram
posteriores da vida. a investigar a influência das expe-
Pesquisas realizadas nas últimas riências emotivas e processos de
décadas mostram que, na primeira aprendizagem precoces no cérebro
infância, experiências com fo rte de animais. ]á se sabia que os neu-
conteúdo afetivo dirigem o desen- rô nios podem estabelecer cone-
volvimento psicológico da criança. xões distintas quando, em certas
Nos anos 40, René Spitz, do Ins- fases do desenvolvimento, faltam
tituto Psicanalítico de Nova York, estímulos para as várias regiões
estudou centenas de bebês nascidos do córtex cerebral. Pesquisadores
em um orfanato. E observou que agora invocam a intervenção do
um em cada dez manifestava uma sistema límbico, que desempenha
atitude de retraimento em relação papel fundamental no controle do
ao meio. Além disso, a maioria comportamento na aprendizagem
sofreu atraso no desenvolvimento e na configuração da memória.
psíquico geral. Nosso grupo fo i o primei ro
a estudar como se formam os
Vazio afetivo vínculos entre filhotes e progeni-
Para determ inar a causa desses tores, fenômeno conhecido como
transtornos, Spitz realizou um es- imprinting filial. Apresentamos a
tudo de longo prazo com crianças pintinhos recém-nascidos g rava-
de orfanato. Descobriu que, além ções que simulavam os sons de uma
de estímulos intelectua is, lhes galinha, ao mesmo tempo que co-
faltava principa lmente carinho locamos uma galinha de pano para
emocio na l. Essas primeiras pes- que eles se aconchegassem. Como
quisas sugerem claramente que as esperado, os pintinhos associaram
crianças adaptam o próprio com- o estímulo sonoro até então priva-
portamento ao meio circundante do de significado- a voz artificial
durante as primeiras experiências da mãe - à situação emocional,
emocionais após o nascimento. assimilando o imprinting. Logo
Nos anos 50 e 60, Clara e foram capazes de distinguir os ruí-
Harry H arlow, da Universidade de dos maternos de outros estímulos

www.mentecerebro.com.br 41
Seleção de acústicos. Corriam em direção à os animais do grupo de controle. determinam q ua is modelos d e
"mãe" tão logo os ouviam. Do excesso de ofertas de conexões comportamento e de aprendizado
sinapses nos Queríamos saber o que se passa sinápticas inespecíficas só permane- serão possíveis mais tarde.
primeiros no cérebro dos animais durante esse cerão ativas as que processam estí- A bioquímica cerebral também
processo. Descobrimos mudanças mulos emocionais importantes. Elas é alterada no imprinting filial. A
meses de
consideráveis na arquitetura neuro- serão integradas à rede neuronal, mudança afeta principalme nte os
vida é nal de algumas áreas cerebrais que, podendo ser ainda mais reforçadas. neurotransmissores. Após o uvir o
regida por nos mamíferos, correspondem ao As inúmeras conexões não envolvi- som da galinha, os pintinhos com
córtex associativo. O som aprendido das no estímulo, por sua vez, serão imprinting produzem mais gluta-
estímulos ativa muito mais essas zonas nos eliminadas. Assim, a rede neuronal mato que aqueles para os quais o
emocionais animais que assimilaram o imprinting poderá reagir de forma mais precisa som carece de sentido. A substância
que nos animais do grupo de contro- aos estímulos sign ificativos. então ativa os receptores NMDA
que têm le, isto é, sem uma mãe artificial subs- (N -metii -D -aspartato), o que serve
ongem tituta. Além disso, os neurônios dos Condições adversas para consolidar o vínculo emocio-
primeiros reagem ao estímulo com Nos an imais que cresceram sem nal entre a cria e os progenitores.
no contato impulsos elétricos menos intensos, contatos sociais, a falta dessa se- Se, durante a aprendizagem, o glu-
com os pais ou seja, são mais sensíveis. leção de sinapses os impe de de tamato não se ligar aos receptores
A mudanç a provavelmente otimizar seus ci rcuitos límbicos. NMDA, os animais deixarão de
ocorre por uma reorganização das O incremento e a e liminação associar o som à situação emocional
sinapses. De fato, nos primeiros 90 si náptica só ocorrem quando o e assim não há imprinting.
minutos depois do início do imprin- an imal pode associar o estímulo Também nos humanos a se-
ting filial, aumentam as conexões de acústico à situação emocional po- leção das sinapses é regida por
uma área do cérebro dos animais sitiva. Um estímulo afetivamente processos de aprendizagem e
que nos mamíferos corresponde ao neutro não basta: se os sons não aq ui sição d e exper iênc ia. Nos
setor anterior do córtex cingular, são acompanhados da presença da primatas, são inúmeras as conexões
parte do sistema límbico. O sistema galinha artificial, as mudanças neu- criadas e depois eliminad as em
nervoso parece querer captar e fixar rais não ocorrem nos filhotes. Por várias áreas cerebrais e no sistema
no maior número possível de canais outro lado, bastam 30 minutos de límbico em particular. Entretanto,
o novo estímulo que carrega um estímulo acústico e a presença da
valor de sobrevivência. mãe de pano para iniciar a seleção
Durante a aprendizagem , as das sinapses. As primeiras expe- Sempre na memória
sinapses diminuem novame nte . riências emocionais contribuem
Com uma semana de vida, os pinti- para determinar o padrão funda- O fenômeno de imprinting se
IMPRINTING FILIAL: distingue de outros processos
nhos com imprinting apresentaram mental dos circuitos neuronais no
pintinhos associam de aprendizagem em aspec-
estímulo sonoro à me nos sinapses excitatórias nas sistema límbico durante o início do tos característicos: ocorre em
figura materna áreas associativas do córtex q ue desenvolvimento. Esses padrões "fases sensíveis" da vida, bas-
tando um breve contato com
o estímulo, objeto ou situação
para que fique fixado per-
manentemente na memória.
Após poucos dias de vida, os
filhotes distinguem a voz da
mãe de outros sons. Recém-
nascidos de mães deprimidas
podem se tornar emocional-
mente carentes em razão da
falta de tonalidade afetiva na
voz materna. Os bebês podem
distinguir o odor do peito da
mãe do de outras mulheres, o
que não ocorre naqueles ama-
mentados com mamadeira.
a capacid ade de adaptação do
cérebro dos filhotes primatas tem
um lado obscuro, pois é eficiente
também em condições adversas;
quando há, por exemplo, carência
afetiva e experiências traumáticas.
O resultado po de levar a erros
de conexão no sistema límbico,
capazes de provocar transtornos
comportamentais e psíquicos.
Pa ra verificar essa hipótese,
estudamos filhotes de degu (Octo-
don degus), uma espécie de roedor
comum no C hile. Os degus "falam"
entre si de fo rma muito complexa:
sua comunicação por meio de sons
desempenha um papel importante PRIMEIRAS VIVÊNCIAS determinam padrões de fun cionamento do sistema límbico
na família e na colônia. Além disso,
os genitores participam ativamente amígdala, centro do medo e da sultados das pesquisas em deg us
da criação dos filhotes. agressividade; e o hipocamp o, e raros em condições de privação.
Separamos os pequenos deg us porta de entrada pa ra as in fo r- Evidentemente não podemos rea-
da família durante períodos rela- mações destinadas à memória. A lizar experimentos similares com
tivamente lo ngos e em di ve rsas longo prazo, o equilíbrio entre as humanos. Após a dissolução do
fases do desenvolvimento. Quando regiões límbicas pode mudar com bloco soviético, entretanto, pes-
examinamos o consumo de energia conseqüências imprevisíveis para a quisadores est udaram bebês de
no cérebro dos fi lhotes separados, estabilidade psíquica. orfanatos romenos e constataram
co nstata mos u ma redu ção da O equilíbrio entre os neuro- redução análoga da .atividade no
atividade no sistema límbico. In- transmissores também pode ser sistema límbico anterior quando
vestigamos as mudanças, ao longo modificado, particularmente entre comparada à atividade nos bebês
do tempo, nas sinapses desses dopam ina e serotonina, substâncias normais. Um déficit similar é en-
roedores. Em fi lhotes que crescem reg ul adoras do processamento contrado em pacientes que sofrem
ao lado dos ge nitores e dos irmãos, cerebral das emoções. Nos deg us de transto rnos de ate nção e de
o número de sinapses no córtex com carências emocionais alteram- esqui zofrenia.
cerebral inicialmente aumenta, para se tanto a quantidade das fibras À primeira vista, essas altera-
depois diminuir. Se, ao contrário, nervosas produtoras de serotonina ções do comportamento se asse-
nas primeiras semanas de vida as ou de dopam ina como a densidade melham incrivelmente aos sinto-
crias são se paradas dos pais por dos respectivos receptores. Apenas mas de bebês hiperativos ou com
apenas algumas horas, observa-se três dias depois de algumas breves déficit de atenção. É possível que
um número maior dessas conexões. separações foram suficientes para experiências emocionais inAuam
A situação é similar à observada nos aumentar o número de receptores no desenvolvimento cerebral dos
pintinhos que não receberam im- de dopamina e serotonina em al- bebês da mesma forma que nos
printing Alia i. Também neste caso g umas partes do sistema límbico. filho tes de outras espécies. Uma
parece, portanto, que a experiência É interessante lembrar que mui tos conseq üê ncia dramática destas
desagradável afeta as sinapses. transtornos psíquicos humanos exi- co nexões cerebrais alteradas é
bem um desequilíbrio justamente a for mação d e uma rede neu ral SAIBA MAIS '
Convívio social dessas moléculas. mal est rutu ra d a que favoreça O primeiro ano
Outras partes d o sistema límbico Todas essas mudanças biológi- distúrbios compo rtamentais e de de vida. René A. Spitz.
cas podem inAuir diretamente no aprendizagem. O que poderia Martins Fontes, 1983.
dos deg us mudam em fu nção da
ex periênc ia emocional, como o parece r ingênuo, portanto, tem Dinâmicas do apego.
aprendizado e no convívio social
Anna Oliverio Ferraris,
núcleo accumhens, que colabora e causa r transtornos psíq uicos, sido comprovado: afeto faz bem em A Mente do Bebê
na gê nese da s compu lsões; a como sugerem os prim ei ros re- à saúde menta l. rrec no 1, 2006.

www.mentecerebro.com.br 43
ostumamos culpar os jovens jovens foram bem menos estudados

C por situações que talvez


pudessem ser faci lmente
evitadas- como acidentes de carro
do que de crianças e de adultos. Com
o avanço das pesquisas, no entanto,
vem ficando cada vez mais claro que
nas madrugadas. Nesses casos, quase a habilidade mental de um adoles-
sempre há indícios de uso de álcool cente não é igual à de uma pessoa
ou outras drogas pelos motoristas. mais velha, embora muitas vezes ele
Pesquisas neurocientífkas recentes, se comporte como adulto. Os pro-
entretanto, sugerem que a preocupa- cessos fisiológicos por trás do con-
ção dos adultos não se deve apenas trole cognitivo do comportamento
à suposta falta de responsabilidade ainda não estão totalmente maduros.
dos mais novos. Estudos mostram Se somarmos ainda os estímulos
que quando adolescentes executam estressares, abundantes nas grandes
certas tarefas, seu córtex pré-frontal cidades, fica mais fácil explicar por
- região cerebral que participa das que tantos acidentes ocorrem com
tomadas de decisão - trabalha de pessoas nessa faixa etária.
forma mais intensa do que a mesma
estrutura no cérebro mais maduro
diante de circunstâncias idênticas. Uma das características mais mar-
Além disso, outras áreas do sistema cantes do cérebro adolescente está
nervoso, que costumam auxiliar nes- no fu ncionamento do córtex pré-
ses momentos, mostram-se menos frontal, responsável pelas funções
ativas durante a puberdade. Quando executivas que atuam no compor-
confrontados com situações desafia- tamento voluntá rio e planejado. É
doras, os adolescentes parecem me- o que apontaram as pesquisas da
nos hábeis em avaliar os fatores em psicóloga Beatriz Luna, diretora do
jogo e reagir de forma apropriada. Laboratório de Desenvolvimento
Compreender as capacidades Neurocognitivo da Universidade
e limitações do cérebro ao longo de Pittsburgh. Com ressonância
dos diversos estágios do desenvol- magnética funcional (fMRI) e testes
vimento é essencial na ava liação psicológicos que mobilizam funções
psicológica e na educação. Ironi- visuais e motoras, Luna escaneou o
camente, embora a adolescência, e cérebro de adolescentes e adultos
mais especificamente a puberdade, enquanto eles olhavam luzes aleató-
seja recon hecida como uma fase rias piscando na tela do computador.
importante, a mente e o cérebro dos Duas situações foram ava liadas:

POR
jornalista científica especializada
em medicina.
TRADUÇÃO: Mareei Crave/li

' .., www.mentecere bro.com .br 45

-- ·... J
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'
respostas equivocadas, manter a
compostura e não ceder às tenta-
ções", diz a pesquisadora.

Recrutando neurônios
A maturação das habil idades exe-
cutivas só ocorre no fim da adoles-
cência, isto é, pouco depois dos 20
anos. Além disso, outras funções
cogniti vas estão em dese nvolvi-
mento durante a puberdade, corno
a memória de trabalho, que auxilia
na orientação do comportamento
voluntário. As imagens em fMRI
obtidas por Luna indicam que os
adolescentes não são capazes de
mobilizar com eficiência as áreas
que contribuem para o funciona-
mento da memória de trabalho.
Susan F. Tapert, da Universidade
da Califórnia em San Diego, tam-
O GRANDE DESAFIO quando os indivíduos tentavam se mento. Para o cérebro adolescente é bém observou fraca integração de
DOS JOVENS é se concentrar rapidamente no novo mais difícil anular deliberadamente a algumas funções cerebrais durante a
conhecer melhor para
evitar as a rmadilhas foco de luz e quando a instrução era reação exógena. puberdade. Ela investigou a memória
das próprias atitudes evitar olhá-lo diretamente. Luna e outros pesquisadores de trabalho espacial em indivíduos
afirma m que, embora os adoles- no início (12 a 14 anos) e no final
Exógeno e endógeno centes possam eve ntualmente ( 15 a 17 anos) da adolescência com
A pesquisadora observou que, para manifestar o controle cognitivo fM RI. "Os mais velhos apresentaram
realizar a mesma tarefa, o córtex na tomada de decisão, o poder um número menor de áreas ativadas
pré-fro ntal dos mais jovens foi mais endógeno ainda está em amadure- enquanto realizavam tarefas, e usa-
solicitado do que o dos adultos. "A cimento. "Testes visuais e motores ram mais o córtex parietal inferior
extensão dessa região mobilizada exigem que o córtex pré-frontal que os participantes mais jovens",
pelos adolescentes é similar à que coordene as atividades do resto do explica Tapert. Ela acredita que os
os adultos usam para realizar tarefas cérebro. O que a fMRI nos mostrou voluntários com mais de 14 anos
bem mais complexas", explica Lu na. foi que na fase intermediária entre a utilizaram menos neurônios e em-
Segundo ela, o uso excessivo do infância e a vida adulta é comum o pregaram estratégias diferentes das
córtex pré-frontal pode induzir ao uso dessa região de forma exacer- dos mais jovens. As áreas ativadas
erro, especialmente em situações bada, enquanto os adultos acionam sugerem que eles resolveram a tarefa
mais difíceis ou de maior risco. também outras áreas, distribuindo por meio de estratégia verbal, em vez
Especialistas em psicologia cog- melhor a carga de trabalho", explica. de por tentativa e erro.
nitiva distinguem dois tipos de con- Assim, se algo inesperado ocorre Ao longo da adolescência, o
trole do comportamento: exógeno e em uma situação já estressante, cérebro passa a mobilizar mais regi-
endógeno. O primeiro é reflexo, uma o adolescente tende a esgotar os ões e distribui r certas tarefas a áreas
resposta "automática" a estímulos recursos do córtex pré-frontal. A especializadas, reduzindo assim o
externos, como as luzes que apare- sobrecarga cognitiva acaba preju- esforço cerebral necessário para
cem na tela. O controle endógeno é dicando as funções executivas e, chegar ao mesmo desempenho. "Fui
voluntário e resulta do propósito de, conseqüentemente, a capacidade de surpreendida com a magnitude da
por exemplo, esforçar-se para não planejare fazer escolhas. Isso talvez mudança obse1vada nesse intervalo
olhar os pontos de luz. No córtex explique por que os adolescentes relativamente pequeno", diz a psicó-
pré-frontal maduro predomina o se comportam de forma impulsiva. loga. Adolescentes mais novos po-
controle endógeno do comporta- "Para o adulto é bem mais fácil inibir dem ter bom desempenho em testes

46 MENTE&:CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


de memória de trabalho espacial, mas o tamanho do cérebro não muda de que a impulsividade adolescente
precisam recru tar mais neurônios. muito depois dos 6 anos. Ele se seja explicada apenas pela neurobio-
Também são menos capazes de rea- torna mais espesso, mas já rem cerca logia. Um deles é Robert Epstein,
lizar tarefas adicionais se estiverem de 90% do tamanho adul to. Sua da Universidade da Califórn ia em
previamente estrcssados. Segundo dimensão geral é estável durante a San Oiego e fundador do Centro
Taperr, só no final da adolescência adolescência, mas seus componentes de Es tudos Comportamentais de
a memória de trabalho espacial é mudam de forma c tamanho", expli- Carnbridge. Ind ignado, ele não
distribuída de forma eficiente entre ca. As imagens revelaram alterações acredita que o cérebro adolescente
as diferentes regiões cerebrais. nas conexões entre os neurônios que seja diferente do adulto. "Isso não
participam dos processos de tomada existe. É uma farsa coordenada
Processo de depuração de decisão, julgamento e controle pelas indústrias farmacêuticas que
As técnicas de imageamento cerebral da impulsividade, bem como das financiam pesquisas."
apóiam a hipótese de que o cérebro projeções do córtex pré-fro ntal Para desmascarar o suposto mi to
adolescente, sobretudo as áreas en· para outras regiões. As pesquisas segundo o qual o desenvolvimento
volvidas na tomada de decisão e no mais recentes sugerem que o córtex cerebral estaria na origem dos pro-
controle do comportamento, passa pré-frontal continua a amadurecer blemas comportamentais do adoles-
por alterações físicas significativas. até os 20 anos. "É impressionante cente, Epstein cita o livro Blnmilrg the
O pesquisador Jay N. Ciedd, do se- que essas mudanças durem tanto bmi11, de 1998, de Elliot Valenstein,
tor de psiquiatria infantil do Instituto rempo", comenta C iedd. da Universidade de Michigan. Para
Nacional de Saúde Mental, Estados Nem todos os especialistas, o autor, certos neurocientistas são
Unidos, demonstrou que o córtex porém, estão de acordo com a idéia inAuenciados pelos grandes labora-
pré-frontal dorsolateral, importante
para o controle da impulsividade,
sofre uma poda sináptica sistemáti· Uso excessivo
ca, isto é, a eliminação de conexões
desnecessárias entre os neurônios
do córtex
- o resultado é a transmissão mais pré-frontal
eficiente dos sinais neurais.
pode induzir
A maioria dos pesquisadores ad-
mire que essa "depuração" neuronal ao erro,
seja um meca nismo fundamental especialmente
de maturação do sistema nervoso,
assim como o depósito adicional de em situações
mielina, que promove o isolamento difíceis ou de
elétrico dos axônios que enviam
sinais de um neurônio a outro. maior risco
As duas alterações aprimoram o
funcionamento cerebral. Enquanto
a depuração sináptica aumenta a
eficácia de operações locais, a mieli-
nização acelera a transmissão neural.
A conseqüência é o aumento da
capacidade do córtex pré-frontal de
impor comportamentos voluntários
planejados, aponta Luna.
Um dos estudos recentes con-
du zidos por C iedd acompanhou o
desenvolvimento cerebral de 307
crianças e adolescentes por meio de
fMR I e testes neuropsicológicos.
"Foi surpreendente descobrir que PODAS SlNÁPTir:AS: a mie linização acelera a transmissão neural

www.mentecerebro.com.br 47
Corpo e mente em transformação por Suzana Herculano-Houzel

É durante a adolescência que a pessoa ganha em O lobo frontal passa pelo mesmo processo de
média 20% da sua estatura final e 50% de seu peso produção de exuberância sináptica até a puberda-
adulto- o que pode representar de 30 em a 50 em e de, seguida de eliminação sináptica e expansão da
cerca de 30 kg em três anos. E, enquanto espicham, substância branca que interconecta regiões dife-
os jovens adquirem duas características da idade: rentes do próprio córtex frontal. A mudança nessas
tornam-se estabanados e começam a passar horas interconexões permite a transmissão em tempo
na frente do espelho. A razão mais provável para hábil de sinais nervosos entre regiões cerebrais e,
isso é que o cérebro se vê subitamente obrigado a desse modo, a integração funcional entre partes
ajustar seus mapas sensório-motores à nova reali- diferentes do córtex pré-frontal.
dade corporal. As áreas da linguagem, por exemplo, espalha-
O estirão de crescimento traz um problema das nos dois lados do cérebro, conversam melhor
curioso para o cérebro resolver. A proporcionali- entre si -e o domínio da linguagem no adolescente
dade do corpo, que vinha sendo mantida ao longo se desenvolve; as ações motoras, que exigem que o
da infância, rapidamente muda: com pés, pernas, cérebro processe um estímulo, gere e execute uma
mãos e braços subitamente mais longos, o corpo resposta, se aceleram: o tempo de resposta a estí-
adolescente não é simplesmente uma versão maior mulos diminui exponencialmente ao longo da in-
do corpo infantil. É de esperar, portanto, que ele fância e se estabiliza aos 14 ou 15 anos. Além disso,
não case mais com sua imagem criada pelo cére- a expansão da substância branca está relacionada
bro ao longo da infância. Na verdade, é apenas à melhora em várias funções pré-frontais básicas
natural que o adolescente estranhe o reflexo de que caracterizam a evolução do comportamento
sua imagem. adolescente, como a memória de trabalho, a capa-
E talvez olhar-se no espelho seja justamente cidade de seleção e inibição de comportamentos, e
uma maneira de realinhar os mapas do corpo a supressão de respostas automáticas.
em mutação, na medida em que isso oferece ao A adolescência é também um período de inten-
cérebro uma oportunidade de avaliar visualmente so aprendizado social. Depois de termos conhecido
as novas proporções corporais e fazê-las casar em casa o básico sobre as relações interpessoais e
com a realidade somestésica (percepção tátil e do as regras da vida em família, passamos a aplicar
uror próprio corpo). Isso é função do córtex parietal, esse conhecimento a um mundo que se torna
Suzana Herculano- que contém os mapas somestésicos do corpo e as cada vez maior, à medida que o círculo de relações
Houzel formou-se em estruturas corticais que fazem o alinhamento entre pessoais e o papel social de cada um se expandem,
b iologia e fez doutorado as várias percepções do corpo por todos os senti- impulsionados pela necessidade do novo. E viver
e pós-doutorado dos. As alterações corporais, portanto, acontecem em sociedade requer uma série de talentos. É pre-
em neurociências na
Universidade de
justamente na época em que tem início a redução ciso ter flexibilidade cognitiva para responder de
Paris e na Alemanha. da substância cinzenta e supostamente a limpeza acordo com o contexto e aprender a generalizar
Éautora de O cérebro sinápt ica, no córtex parietal, aos cerca de 10 anos sobre experiências passadas para negociar situa-
nosso de cada dia, nas meninas e 12 a nos nos meninos, quando co- ções novas.
Sexo, drogas, rock'n'ro/1 &
nexões inúteis ou inconvenientes são e liminadas Todas essas habilidades se desenvolvem graças
choca/ate e O cérebro
em transformação. - possivelmente as que representavam o esquema à combinação da experiência com o amadurecimen-
"velho" do corpo infantil. to das últimas regiões corticais que faltavam: o cór-
tex orbitofrontal (COF) e as estruturas associadas
do chamado circuito social, como o giro temporal
superior (ver ilustração ao lado). São provavelmente
essas mudanças a base da transformação compor-
tamental que coroa o fim da adolescência: o tor-
Junção têmporo-
parietal
nar-se responsável, moral e empático. Essas áreas
são responsáveis pelo uso das emoções como guias
de decisões realmente importantes, pelo arrepen-
dimento e pelo aprendizado emocional com os
próprios erros, pela antecipação das conseqüências
dos próprios atos, pela flexibilidade para parar de
fazer algo que era bom mas deixou de ser e, por
fim, pela relação íntima com o viz inho através

/
Córtex
do entendimento das suas sensações, intenções
e reações que a empatia e a teoria da mente - o
colocar-se no lugar do outro- permitem.
orbi tofrontal
Pó lo do lobo
temporal
I Sulco temporal
superior

48 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


controlam as diferenças culturais e Em 186
estudam o funcionamento cerebral
sociedades
por meio de estímulos emocional-
mente neutros e não de decisões pré-industriais
comportamentais socialmente re-
não há sequer
levantes", diz a pesquisadora. Em
relação à influência do meio, ela um termo
afirma que as imagens de fMR I que denomine
mostram que o cérebro é um sis-
tema vulne rável e, em situações esse período
estressantes, o adolescente tem da vida
mais dificuldade de se controlar do
que o adulto. Segundo a psicóloga,
o cérebro adolescente não estaria
totalmente "pronto" - o que é bom,
pois permite que ele se desenvolva

DIFERENÇASINEVITAVEIS: influências culturais são decisivas no desenvolvimento dos outros, o que existe é um conli-
JIIIIIIH", afirma. Para isso, foi formulada

tórios farmacêuticos, os quais teriam sequer um termo que identifique uma experiência que confrontasse
interesse em "culpar" o cérebro, esse período da vida. Além disso, estímulos internos e externos e os
porque isso abriria caminho para a maioria dos jovens observados cientistas pudessem, assim, estudar
que os médicos prescrevessem mais passavam a maior parte do tempo como as respostas são inibidas em
drogas psicoativas. (Vale lembrar entre adultos e não segregados com situações contraditórias.
que nenhuma pesquisa apresenta· seus próprios pares. O estudo mos· "O teste visual e motor é difícil,
da neste artigo foi financiada pela trou que não havia comportamento pois todo o cérebro é acionado
indústria farmacêutica.) anti-social em metade das culturas para prestar atenção aos estímulos
Outro argumento de Epstein - analisadas, e, mesmo quando havia, visuais", diz Luna. Para não olhar
mais convincente -é que os estudos sua manifestação era mode rada. as luzes é preciso que o córtex se
que indicam alterações físicas no Baseado em pesquisas como essa, comunique com as regiões sub-
cérebro adolescente tendem a ana- Epstein considera "equivocado culpar corticais, ge rando uma resposta
lisar apenas a sociedade ocidental. o cérebro por tudo o que há de ruim endógena ("Não vou olhar as lu-
Segundo ele, algumas raras pesqui- em nós, pois a influência ambiental zes") que suplanta a resposta reflexa
Adolescência e
sas em países em desenvolvimento sobre o comportamento é tremenda. e exógena ("O lhe a luz"). Como pslcopatologla. D.
ou em países orientais mostram Vivemos numa sociedade na qual as é mais difícil para o adolescente Marcelli e A. Braconnier.
Artmed, 2006.
que seus adolescentes não se com- crianças vivem distantes dos adultos realizar tarefas que exigem con-
Adolescent braln
portam como os americanos, por e, portanto, aprendem umas com as trole voluntário, ele está mais ex· development:
exemplo. "No plano multicultural outras. Isso gera problemas", argu- posto a decisões equivocadas. Em opportunltles. Ronald
E. Dahl e Linda Patia
não há nada que se assemelhe a um menta. Segundo ele, nas sociedades situações com poucas exigências Spear (orgs.), em Annals of
cérebro adolescente", afirma. Epstein em que a transição da adolescência concorrentes, ele de fato se com· lhe New York Academy of
Sciences, vol. 1021, 2004.
gosta de citar o livro Adoleswrce: mr para a vida adulta é suave, a suposta porta como o adulto. Nas culturas
lntellectual ablllty and
mrtllropologicnl in4rliry, de 199 1, dos angústia ou revolta adolescente sim- pré-industriais, esse é o meio mais cortlcal development
antropólogos Alice Schlegel, da plesmente não é observada. comum e, assim, o adolescente não In chlldren and
adolescents. P. Shaw et
Universidade do Arizona, e Herbert manifesta condutas arriscadas. Mas a/., em Nature, vol. 440,
Barry, da Universidade de Pittsburgh. Cérebro pronto? isso não quer dizer que seu cérebro págs. 676-679, 2006.
Eles estudaram ado lescentes de Luna não concorda com a opinião de não esteja sendo depurado, ou O cérebro em
transforma~ão.
186 culturas pré-industriais e des- Epstein, mas a considera interessante melhor, que não exista algo único S. Herculano-Houzel.
cobriram que em 60% delas não há e respeitável. "Seus experimentos em relação à adolescência. mec Editora Objetiva, 2005.

www.mentecerebro.com.br 49
N
enhum pensamento desa- Nossa vida emocional é governa-
gradável passa pela mente da de forma decisiva pelo chamado
O cérebro lida com um fluxo do sr. K. enquanto ele ca- sistema límbico, conjunto de estru-
constante de sinais. Expressões, minha para o supermercado, pouco turas localizadas nas profundezas do
antes do horário de o comércio cérebro. Ali, os estímulos sensoriais
gestos e palavras revelam o que fechar. Mas ao entrar no estabele- recebidos ganham coloração emo-
desejamos e pensamos cimento registra o olhar fulminante cional particular. Como comprovam
da moça do caixa, ansiosa pelo diversos estudos, trata-se de atribui-
final do expediente. No momento ção a cargo sobretudo da amígdala.
em que pega o cartão de crédito Essa componente do sistema límbico
POR STEVE KUMCHAK
para pagar pelas mercadorias, a em forma de amêndoa atua como o
Psicólogo e Jornalista
cientifico. funcionária é incapaz de conter a sinal de alarme, respondendo com
TRADUÇÃO: Sergio Te/Iara/i explosão: "Chega tarde e, ainda por mobilização total a estímulos sinali-
cima, sem dinheiro! Adoro quando zadores de perigo: o corpo se arma
isso acontece...". para fugir ou atacar.
Nesse momento, uma torrente Édiante dessa escolha que K. se
de informações o atinge. O rosto vê no supermercado. A expressão
vermelho da moça, sua careta de facial da moça do caixa, seu tom de
desgosto e tom de voz grosseiro. voz malcriado, o significado de suas
Não resta dúvida: ela está mesmo palavras - todos esses sinais - são
furiosa!Os sinais explosivos que o sr. interpretados como ameaça. A con-
K. recebe são decifrados e avaliados seqüência disso é que ele começa a
em diversas regiões do cérebro com suar, o coração bate mais forte e ele se
a rapidez de um raio. Logo, também prepara mentalmente para o contra-
ele está irritado: "Quem ela pensa ataque. Mas, antes mesmo que possa
que é, essa idiota?". tomar consciência dos sentimentos
Há mais de um século, psicólo- sinalizados, outras regiões cerebrais
gos e neurocientistas investigam a na- devem entrar em ação- em particu-
tureza das emoções c a forma como lar áreas sensoriais mais externas do
nossa mente as processa. Descobri- córtex. Elas se distribuem por todo o
ram que a comunicação emocional córtex cerebral, separadas de acordo
desempenha papel importante no com o sentido em questão: visão,
convívio social. Charles Darwin já audição e assim por diante.
suspeitava do sentido e do propósito A perda de certas funções em
da exteriorização dos sentimentos. A pacientes com lesões no cérebro
expressão facial típica que acompa- sugere que os hemisférios cerebrais
nha emoções básicas como alegria, reagem de forma diversa às emo-
raiva ou repugnância foi descrita por ções. Pacientes com lesões do lado
ele como um código herdado, capaz direito - resultantes, por exemplo,
de incrementar a cooperação dentro de derrame- podem perder a capa-
de um grupo e aumentar as chances cidade de reconhecer as emoções
... de sobrevivência. transmitidas por expressões faciais.
Um grupo de jovens pesqui- Descobertas como essa conduziram
sadores alemães tem investigado a à formulação da chamada "hipótese
fundo a li nguagem de nossos senti- dos hemisférios". Segundo ela, o
, mentos. São psicólogos, médicos e hemisfério direito seria responsável
físicos que procuram resposta para pelos sentimentos, ao passo que o es-
a seguinte pergunta: como, afinal, o querdo responderia pela linguagem
cérebro processa os sinais emocio- e pela lógica.
nais recebidos pelos diversos órgãos O psicólogo Richard Davidson,
dos sentidos? da Universidade Harvard, contesta

www.mentecerebro.com.br 51
Qual teori a estaria correta, "É plausível supor que o sistema
então? "Para responder a perguntas límbico responde a estímulos-chave
dessa natureza, é necessá rio um antes mesmo de a informação con-
amplo esforço de pesquisa", afirma tida na imagem chegar ao córtex vi-
a psicolingüista Johanna Kissler, sual", acredita)unghofer. "A amígda-
da Uni ve rsidade de Constança, la, por exemplo, poderia, em frações
Alem anha. "Por isso, submete- de segundo, dirig ir nossa atenção
mos pessoas a diversos estímulos visual para estímulos importantes."
- imagens ou palavras portadoras A ativação do sistema lím bico,
de carga emocional, por exemplo verificada em medições com fM RI,
- e, paralelamente, medimos a favorece essa interpretação. Do
atividade cerebral." Para tanto, ponto de vista evolutivo, tal reação-
os pesquisadores se valem de di- relâmpago da "atenção direcionada"
ferentes procedimentos: além do faz sentido: quem se afasta a toda
tradicional EEC, emprega m o velocidade de potenciais fontes de
magnetoencefalograma (M EC) perigo ou se aproxima rapidamente
ou a to mog rafia fu nciona l por de estímulos atraentes - de uma
ressonância magnética (fMR I). A presa, por exemplo -aumenta suas
combinação desses métodos permi- chances de sobrevivência.
te compreender com mais exatidão A seqüência de fotos revelou
o processamento dos sentimentos ainda mais. O sinal cerebral mos-
no cérebro. trou-se nitidamente mais forte do
lado direito, provavelmente porque
Atenção direcionada as redes neuronais responsáveis por
Seu colega Markus Junghofer atenção e orientação espacial se
lançou-se à investigação de como situam no hemisfério direito. Mas o
percebemos imagens de conteúdo que acontece quando submetemos
emocional. Ele mostrou a pessoas as pessoas a palavras ou frases de
saudáveis fotos contendo cenas conteúdo emocional? Na maioria
neutras, repugnantes e estimulan- de nós, as áreas responsáveis pelo
tes. O deta lhe da apresentação processame nto da linguagem si-
foi o fato de as cenas cintilarem às tuam-se no hemisfério esquerdo.
centenas numa tela, sucedendo-se Nesse caso, será esse lado o mais
à razão de até cinco por segundo. ativo ou prevalecerá ainda assim o
A seqüência veloz permitiu ao pes- hemisfério direito?
quisador medir até mesmo respostas Os pesquisadores de Constança
PARA CHARLES a suposição. Com o auxílio de me- brevíssimas do cérebro ao conteúdo examinaram também essa questão.
DARWIN, a capacidade dições efetuadas com eletroence- emocional apresentado. Para tanto, em vez de imagens, apre-
de demonstrar no
rosto o que sentimos falografia (EEC), ele descobriu que Os resultados mostraram que, sentaram aos participantes adjetivos
pode facilitar a em pessoas tristes ou deprimidas o 200 milissegundos após terem pis- de cargas neutra, positiva e negativa.
cooperação no grupo hemisfério direito é o mais ativo, cado na tela, as imagens com carga Mais uma vez, constataram a presen-
e aumentar as chan ces
enquanto nas mais alegres e felizes, emocional deAagraram um pronun- ça do já mencionado sinal elétrico
d e sobrevivência
o esquerdo revela maior atividade. ciado sinal elétrico no córtex visual, imediato no córtex visual, em res-
Épossível, portanto, que o hemisfé- tão mais forte quanto mais provoca- posta a estímulos emocionais-agora,
rio cerebral direito processe apenas tiva a imagem em questão, fosse ela porém, com predominância do lado
e moções chamadas negativas, uma cena de sexo ou de perigo (r1er esquerdo do cérebro (quadro na página
como o luto, o medo ou a repug- quadro na página ao lado). Portanto, o ao lado). Evidencia-se, pois, que a
nânc ia, cabendo ao esquerdo a conteúdo emocional dos estímulos rápida ativação do sistema límbico
parte agradável de nossa vida emo- sensoriais inAuencia rapidamente o faz com que os sinais recebidos sejam
cional. Essa suposição ficou conhe- processamento cerebral em regiões processados com mais precisão pelas
cida como "hipótese das valências". sensoriais mais externas. regiões cerebrais correspondentes.

52 MENTE&CÉREBRO • EQUILfBRIO DAS EMOÇÕES


O utro integ rante do g rupo, A idéia
o neurologista Dirk Wildgruber,
baseou seus experimentos na ento-
de que o
8
nação das palavras. Com freqüência, ,...... hemisfério
o modo como dizemos as coisas .....VI
õ
>
direito seria
transmite mais informação emocio- o 11 11
nal do que o que estamos dizendo. .E
b4 emocional e
.._,
Isso se verifica quando conteúdo e
Q) o esquerdo,
entonação se apartam um do outro, "O
::s
.....
11 •
ractona 1//
como no caso da ironia. "Adoro :g_o ··t·························
quando isso acontece...", diz a caixa, E
<(
é uma
mas K. compreende muito bem a
crítica, porque percebe mais autenti- simplificação
cidade no tom do que no enunciado. -4 grossetra
Aos participantes de sua experiência,
o 100 200 300
Wildgruber apresentou frases como Tempo (milissegundos)
''Tenho visitado a Agnes todo fi m de
semana", ditas por um ator ora com
alegria, ora com frustração e ora de
I EMOÇÕES INSTANTÂNEAS: o cérebro reage de forma distinta diante
de cada uma das imagens menos de 200 milisseg undos depois de
fo rma neutra. Elas foram gravadas e
editadas em computador de forma a
diferir apenas em altura e na duração
I observá-las. A intensidade das reações registradas por encefalografia
varia da menos intensa à mais forte.

0 ~---------------------------------------------------'
das vogais. Isso bastou para que os modalidade sensorial em questão e poderiam explicar a perturbação no
ouvintes percebessem a força da de como se dá a estimulação. processamento de emoções.
expressão emocional. No futuro, os pesq uisadores Embora ainda haja muito por
pretendem investigar as pertur- pesquisar, uma coisa é certa: a noção
Secreção reduzida baçõe s no processame nto d os popular de um hemisfé rio direi to
No entanto, para percebê-la, preci- sentimentos nas pessoas que so- "emocional" oposto a um hemisfério
sam não apenas ouvir e compreender frem de distúrbios psíquicos. Na esquerdo "racional" nada mais é que
as frases, mas ta mbém d irigir sua Univers idade de Mannhe im, na uma simplificação grosseira. É fato
atenção para a qualidade sonora de Alemanha, a psiquiatra Cabriele que muitos estudos mostram um
cada uma, armazenando-a na memó- Ende estuda pacientes deprim idos. processamento mais intenso de sinais
ria operacional. Tudo isso pode ser Eles têm mais dificuldade de reco- emocionais do lado direito do cére-
constatado na leitura dos padrões de nhecer os sentimentos dos outros, bro, mas a comunicação emocional
atividade registrados pelas imagens assim como de comunicar os seus demanda tantos canais e processos
de tomografia funcional. Além disso, próprios, supostamente em virtude parciais diferentes que a "hipótese
a coloração emocional estimulou da secreção reduzida de certos neu- dos hemisférios" pode, no máximo,
duas áreas do córtex- uma na por- rorransmissores no cérebro. Com almejar um grau restri to de acerto.
ção frontal do cérebro, outra no o auxílio d a espectroscopia por A comunicação emociona l
lobo parietal- e, aliás, de modo mais ressonância mag nética (ERM), a ainda é uma equação com muitas
pronunciado do lado direito. pesq uisadora mede os produtos do variáveis. Por experiência própria,
"O êxito na diferenciação das metabolismo no tecido nervoso dos sabemos que também nosso estado
entonações baseia-se, no entanto, pacientes. No hipocampo- região de es pírito influencia a maneira
em numerosas contribuições par- cerebral importante para a memória como acolhemos os sentimentos
ciais dos dois hemisférios", salienta de longo prazo - , os depressivos alheios. Se K. tivesse sido promovi-
o pesquisador, incitando à reAexão. exibem uma quantidade menor de do naquele dia, talvez pouco tivesse
Está claro, portanto, que não se metabóli tos do neu rotransmissor se importado com o mau humor da
pode afirmar d e forma cabal se acetilco li na do que as pessoas moça do caixa. Mas deixou-se con- SAIBAMAIS ,.
cabe de fato ao hemisfério direito saudáveis. Cabe agora descobrir tagiar pelo rancor da funcioná ria
O cérebro emocional.
a primazia no trato das emoções. se as mesmas d isfunções na central - ainda que tenha se arrependido joseph LeDoux.
Isso parece depender, antes, da de sentimentos do sistema límbico logo em seguida. "0' Objetiva, 1998.

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C)
á 7 0 anos , Cecilia Como pode a confiança no futuro

H O 'Pay ne fez seus votos


pe rpétuos na congre·
gação das Irmãs Pobres de Nossa
ajudar no prolongamento da ex·
pectativa de vida? É possível que
bons sentimentos viv idos hoje
Senhora em Milwaukee, Estados tenham co nseqüê nc ias de tão
Unidos. Na ocasião, a madre supe· longo prazo? E, se é assim, como
riora lhe pediu que escrevesse um e ncarar as e moções positivas: são
breve relato sobre a própria vida, uma questão de desti no ou podem
incluindo fatos decisivos da infân· ser geradas delibe radame nte?
cia e dos tempos de escola, bem Uma nova disciplina, a "psi·
como experiências de natureza colog ia positi va", começa a dar
re lig iosa que tivessem contribuído as primeiras respostas a essas per·
para levá-la ao convento. g untas. Fundada há uma década,
Décadas d epois, o relato de é fr uto da inic iativa de Martin
Ceci lia foi publicado, juntamen te E. P. Seligman, então presidente
com as anotações de outras no· da Associ ação America na d e
viças que haviam ingressado na Psicologia (APA). Como muitos
cong regação na mesma época. psicólogos, ele dedicou boa pa rte
Três psicólogos da Universidade de sua carreira d e pesq uisador
de Kentucky d ecid iram exam i· ao estudo das d oe nças mentais.
nar o material. Eles reali za ram, No que se refere à busca de uma
na ocas ião, um a mpl o estud o cura pa ra transtornos psíquicos,
sobre envelhecime nto e mal de progressos signi ficativos foram
Alzhei me r. Os psicólogos David feitos nos últimos 50 anos. Por
Snowd on, Wa llace Friese n e outro lado, a psicologia produ-
Deborah Danner avaliara m 178 ziu poucos métodos capazes de
relatos autobiográficos, a fim de ajudar as pessoas a alcançar maior
definir seu "teor emocional" com plen itude pessoal. Seligman que-
base e m manifestações d e felici· ria corrigir esse desequil íbrio e
dade, interesse, a mor e esperança. com a ajuda do psicólogo M ihaly
O que o bserva ram fo i notável: Csikszentmihaly i, da Universida·
aparentemente, as freiras alegres de de C hicago, recomendou aos
vivera m até dez anos mais que as pesquisadores que se ded icassem
que pouco enxergavam o lado à investi gação daquilo que "faz a
bom d e sua existê ncia terrena. vida va le r a pena".
Há muito tempo c ie nt istas Há d ive rsas razões para os
notaram que, em geral, as pessoas sentime ntos considerados posi·
que se sentem bem vivem mais. tivos te rem sido alvo de pouca
Essa descobe rta, porém, suscita atenção no passado. Em primei ro
mais pe rguntas que respostas. lugar, essas e moções são mais

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difíceis de investigar que seus Por fim, também a metodo lo -
equi va lentes negativos. Alegria, gia de investigação representa um
prazer e satisfação não se distin- problema. Com freqüê ncia, cien-
guem e ntre si com ta nta nitidez ti stas tentaram abordar a questão
quanto irritação, tristeza e medo. dos bons sentimentos valendo-se
Assim, a ciência dife re ncia apenas de modelos desenvolvidos para
um punhado de bons sentimen- seus congêneres negativos. Estes
tos: para cada emoção positiva trazem consigo o im pu lso para
identificada existem três ou qua- que se aja de determinada ma nei-
tro negativas. ra: a irritação gera a necessidade
Também nossas poss ibili- do ataque, o medo co mpe le à
dad es d e ex pressão co rp ora l fuga, o nojo produz o desejo de
reve lam-se mai s b em compa r- vomi tar. É claro q ue nem sem-
timentadas quando se tra ta de pre o bedecemos às cegas a tais
emoções q ue ca usam descon - impulsos; ainda assim, a margem
forto . No mundo todo, qualquer de manobra no tocante à ação
pessoa é capaz de distinguir com se estreita num instante. Quem
precisão uma expressão raivosa ou sente medo não ape nas pensa
triste ou amedrontada. No pólo na fuga: também seu corpo se
oposto, toda exp ressão espo n- prepara para essa ação, e levando
tânea de co ntenta mento - seja tanto a freq üência cardíaca como
ela de júbilo, vitória ou bem- a pressão arterial.
aventurança - apresenta sempre Vistas dessa manei ra, as emo-
os mesmos atribu tos: os cantos ções desconfortáveis nada mais
da boca se alçam e os múscu los são do que soluções eficazes para
em torno dos olhos contraem-se problemas recorrentes com que
involuntariamente, faze nd o com já se debatiam nossos ancestrais.
que as maçãs do rosto se elevem Emoções posi tivas, no e ntanto,
e pequenas rugas surjam ao redor não se deixam explicar com tanta
dos olhos. facilidade. Do ponto de vista evo-
lutivo, alegria, prazer e gratidão
P ·oblema:r. ancestrais parecem ter sido de pouca utili-
A d istribuição desigual de recur- dade na garantia da sobrevivên-
sos atinge até o sistema nervoso cia. Terão representado alguma
autônomo, que comanda órgãos va ntagem na nossa capacidade de
internos, vasos sangüíneos e g lân- adaptação ou apenas sinaliza riam
dulas. H á 20 anos, os psicólogos ausência de perigo?
Paul Ekma n e Wallace Friesen, da A inAuência q ue estados de
U niversidade da Califórn ia e m ân imo posit ivos exercem sobre
São Francisco, e Robert Leven- pensamento e comportamento
son, da Universidade de Indiana, admite investigação psicológica.
demonstraram que irri t ação, Em um de nossos experimentos,
medo e tristeza provocam reações mostra mos t rec h os c u rtos de
mensuráveis do corpo, o que não fi lmes às pessoas, com o intuito
se verifica em relação a diversas de induzi -las a determinado es-
emoções prazerosas. tado emocional. Um bando de
pingüi ns brincalhões g ingando
no gelo gerou alegria; pacíficas
ROSTO HUMANO apresenta cenas da Natureza, serenidade. O
sinais semelhantes para
sentimentos variados de satisfação, medo fo i suscitado com imagens
o que torna difícil distingui-los de alturas vertigi nosas, e a tris-
Alegria faz pensar melhor As mais contentes foram as que Em geral,
demonstraram melhor capacidade
associativa. Criatividade, portan-
pessoas
to, não é só questão de talento, mas bem-
• também de humor apropriado.
Em outros experime ntos, a
hunloradas
•• 1'-
i'-'
Humor

Qood•o ) ?
psicóloga investigou se a capaci- têm mais
••
•• Noite
dade diagnóstica de um médico
depe ndia de sua disposição emo-
c ional. Ela deu a alguns méd icos
facilidade
em usar a
u m saquinho de doces e pediu criatividade,
Experimentar sentimentos positivos abre o pensamento das que pensassem em voz alta e n-
pessoas. Um "exame de vista" (à esquerda) que opõe a percepção de q uanto examinavam o caso de são flexíveis
conjunto àquela do detalhe solicita que escolhamos qual das figuras um paciente com um problema no e abertas
abaixo mais se assemelha à de cima. O bem-humorado tende a se
orientar pela impressão geral e a escolher os triângulos- prova de fígado. Comparados aos demais,
um pensamento mais abrangente. Da mesma forma. pessoas com os médicos premiados com doces
a novas
estado de ânimo positivo conseguem bons resultados no teste não apenas avalia ram com mais
." .
expenenetas
de "associações remotas" de Mednick (à direita). Evidentemente, rapidez os di fere ntes dados, como
sentimentos positivos amp liam nosso horizonte mental e nos
permitem solucionar problemas com mais rapidez demonstraram menor tendência a
se fi xarem um único pensame nto,
reve lando-se dispostos a des-
reza, mediante cenas de morte e de pensame nto mais abrangente. cartar conclusões precipitadas.
de fu nerais. As imagens-controle Os mal-humorados, ou neutros, Outro experimento semelhante
mostravam um velho e aborrecido se conce nt raram nos detalhes. mostrou que med iadores bem-
protetor de tela de computador. humorados saíram-se melhor no
Imediatamente após essa pe- Mais que talento encaminhamento de negociações
quena sessão de cinema, testamos Efeitos semelhantes foram obser- complexas. Conclusão: o pensa-
a capacidade dos participa ntes de vados pela psicóloga Alice lsen, da me nto das pessoas que se sentem
entreter novos pensamentos. Para Universidade Cornell, em Nova bem é mais criativo, mais Aexível,
tanto, mostramos a eles um con- York. A fim de mensurar o efeito mais abrangente e mais abe rto.
junto de três figuras geométricas dos sentimentos positivos sobre a Assim como as emoções posi-
(ver quadro acima) e perguntamos criatividade, ela usou o teste das tivas dão origem a novas idéias e
q ua l de dois outros conjuntos "associações remotas" do psicó- novas possibi lidades de ação, elas
mais se parecia com o primeiro. logo Sarnoff tvlednick. A tarefa podem conduzir também a mu-
Não se tratava de o bter uma dos participantes consistia em, da nças profundas e duradouras.
resposta cerra ou errada: e m um diante de três palavras, encontrar Quando as crianças riem
caso, as figuras se assemelhavam uma quarta que apresentasse nexo em plena folia ou os
em sua configuração geral; e m temático com as anteriores. Se, por adu ltos se divertem
outro, no detal he. Esse "exame exemplo, as palavras são "humor",
de vista" mostrava, porém, se "quadro" e "noite", a resposta cor-
uma pessoa percebia, antes, a reta é "negro". Antigamente esse
impressão geral ou se, ao con trá- reste era empregado para deter-
rio, se concentrava nos detalhes. minar di ferenças individuais de
Os resultados revelaram que os criatividade. lsen, no entanto,
bem- h umorados tenderam a se aplicou-o apenas a pessoas
orie ntar pela forma global- sinal consideradas bem-humoradas.

INSTIGADOS AO BOM HUMOR por


cenas como esta, participantes de
uma experiência conseguiram lidar
melhor com tarefas estressantes

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jogando futebol, sua motivação tem a nervoso autô nomo e na
pode ser me ramente hedon ista; circulação cardiovascular.
mas o fato é que, ao fazê-lo, estão
construindo recursos físicos, in- De coração aberto
telectuais e sociais: o movimento Em um de nossos experimentos,
faz bem à saúde, as estratégias submetemos os partic ipantes a
de jogo contribuem para a capa- uma situação de pressão, comu-
cidade de solucionar problemas, nicando-lhes que teriam exata-
a camaradagem fo rtalece laços mente um m inuto para preparar
sociais. Estudos mostram que algo um discurso, que seria reg istrado
se mel h a n te acon tece ta mb ém em vídeo e avaliado pelos demais
com macacos, ratos e esquilos. participantes. O prazo curtíssimo
Testamos também a relação para o cu mprime nto da tarefa ge-
entre resistência psíquica e ale- rou angústia e elevou a freqüência
gria de viver. Solicitam os aos cardíaca e a p ressão arte rial.
pa rticipantes dessa experi ê ncia Logo e m seguida, most ramos
que descrevessem seu estado a cada um deles um de quatro
emocional e sua visão do futuro. filmes: d ois deles estim ulavam
Entrevistamos o mesmo grupo de sentimen tos positivos- diversão
pessoas seis meses depois. Nesse e conte ntam e nto - , ao passo q ue
meio tempo, as torres gêmeas o terceiro pouco os afetava e o
do World Trade Ce nter vieram quarto causava tristeza. Enquanto
aba ixo. Como e ra de esperar, assistiam ao Rime, acompanhamos
quase todos estavam abatidos os indicadores de stress.
na segunda entrevista e mais da Nos indi víduos que assistiram
meta de foi d iag nosticada com a um dos Rimes alegres, o nível
depressão. No entanto, aqueles de stress retornou ao inicial com
nos quais havíamos identiRcado, mais rapidez que nas pessoas que
no início d o a no, maior capa- viram o Rime neutro. E os que só
cidade de resistência seg uiram podiam se entristecer com o quar-
nutrindo alguns sentime n tos to Rime foram os que precisaram
positivos, mesmo depois do li de de mais tempo para se recuperar
Setembro. A gratidão foi o mais do susto (ver quadro 11a pág. à direita).
mencionado. Os otimistas disse- Fica evidente que os se ntimentos
ram, por exemplo, ter constatado positivos exerceram influência b e-
que "a maioria das pessoas neste néRca no sistema cardiovascular.
mundo é boa". O ânimo manifes- Contudo, são ainda em grande
tado diante da vida claramente os parte desconhecidos os mecan is-
havia protegido da depressão. mos cognitivos e Rsiológicos p or
Encontramos, enfim , uma trás desses processos. Tampouco
maneira de medir o efeito Rsio- nossa pergunta inicial encontra-
lógico provocado pelas emoções se respondida: de que forma os
positivas. Era plausível supor que sentimentos positivos promovem a
se ntimentos bons modiRcassem longevidade( Está claro que fazem
a reação do organismo ao stress. mais que produzir mero bem-estar
Isso Rca mu ito evide nte no sis- momentâ neo. Sua atuação mode-
radora em situações estressantes
sugere que eles poderiam, a longo
A LONGO PRAZO ~ prazo, reduzir o dano causad o
estudo mostra que quem está feliz no
presente tem mais chance de manter ao sistema cardiovascular pelos
esse estado no futuro sentimentos negativos. A isso vem
Um filme alegre contra o stress As freiras
O Situação angustiante 6 Filme €) Reação cardiovascular alegres
A viveram até
dez anos
mats que
suas colegas
melancólicas
~....
\ -

Tempo (segundos)

Sentimentos positivos ajudam as pessoas a se seguida, ligamos um videocassete para mostrar


acalmar com mais rapidez em situações estres- a cada um deles um filme divertido, tranqüilo,
santes? A fim de examinar essa hipótese, ligamos neutro ou triste. Ao mesmo tempo, comunicamos
aparelhos medidores de pressão, freqüência a todos que o discurso solicitado não era para
cardíaca e Irrigação sangüínea da mão em nossos valer. Em todos os voluntários, os valores medi-
vo luntários. De p ois, demos a eles um minuto dos retornaram ao ponto de partida. Contudo,
para que fizessem um discurso a ser gravado naqueles que assistiram aos filmes agradáveis,
em vídeo e avaliado. Como era de esperar, as esse retorno à normalidade se deu de forma
medições registradas dispararam. Mas, logo em bem mais rápida.

se soma r, no entanto, outro fenô- ma is abrangente na primeira conduzem a uma postura mental
meno: quem está contente hoje já etapa incrementou tanto o ân imo abrangente e à solici tude, o q ue,
está a caminho de ser igualmente positivo como a abrangência de por sua vez, desencadeia mais
mais feli z no futu ro. pensamento na segunda. Ou seja, emoções positivas.
Ju nto com o psicó logo Tho- pessoas em geral bem-humoradas Isso most ra que necessitamos
mas )oiner, da Un iversidade do evidentemente se deixam levar de métodos que nos permitam ex-
I : I
Estado da Flórida, examinamos se com mais facilidade numa contí- perimentar sentimentos positivos
o ânimo positivo e o pensamento nua espiral ascendente. com mais freqüência. Decerto, o Posltlve emotlons
In early life and
mais abra ngente estim ulam ou Sentimentos positivos não humor e o riso parecem ofe recer longevlty. D. D. Danner,
mesmo fortalecem um ao outro. modificam apenas o indivíduo: o cami nho mais curto; em tempos D. A. Snowdon e W. V.
Com o auxílio de testes- padrão difíceis, todavia, é mais fáci l falar Friesen, em journal of
atuam de fo rma contagiosa. Boas
Personolity and Social
feito com in terva lo de c inco ações geram contentamento, por- do que fazer. Meu conselho é Psychology, vol. 80, págs.
semanas, comparamos o estado que podemos nos orgulhar delas, que procuremos a felicidade em 804-813, 2001.

de ânimo e a postura mental de embora mui tas vezes prat icá-las todas as situações da v ida. Q uem The role of posltlve
emotlonsln
138 est udantes uni ve rsitá ri os. seja uma forma de fug ir das pró- deseja descobrir algo de bom num posltlve psychology:
O resultado foi que a disposição prias dores e faze r ao ou tro o que mundo complexo e, em parte, the broaden-and-
bullt theory of
positiva na primeira etapa redun- gostaría mos que fizessem para opressivo, precisa apelar para
posltlve emotlons.
dou, na segund a, num incremento nós. O fato é que os que recebe- as próprias fo rças e para as de B. L.,Fredrickson em
desse mesmo estado de ânimo e ram ajuda sentem-se agradecidos, seus se melhantes. Afi nal, o mais American Psycho/ogist, vol.
56, págs. 218-226, 2001 .
em maior abrangência de pensa- e mesmo "espectadores" casuais poderoso aliado no caminho para
Felicidade autêntica.
mento. Do mesmo modo, mas em se alegraram. Numa reação em a maturidade e a força interior é M. E. P. Seligman,
sentido inverso, o pensamento cadeia, os sentimentos positivos nossa consciência. Objetiva, 2004.

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S3Q~0~3 S\10 0 1~9Jll0b3 • 0~93~Pl':I31N3~ 09
OS!J op Japod o
Q
uando ouvimos uma boa sensatos e costuma livra r-se de
piada, daquelas que nos características inúteis. Portanto, o
faze m desatar a rir, nossa ímpeto de rir deve ter contribuído
boca produz uma série de sons para a sobrevivência no decorrer
vocál icos, cada um com duração da evolução, ou nossas gargalhadas
de 1/ 16 de segundo, repetindo-se a teriam tido o mesmo destino dos
cada 1/5 de segundo. O diafragma dinossauros. Filósofos da Antigüi-
sacode, o coração bate mais rápido, dade form ularam teorias sobre a
a pressão arterial sobe e as pupilas se natureza do humor, mas, na ciência,
dilatam. Enquanto emitimos esses o fenô meno permaneceu obscuro
sons, o ar sai de nossos pulmões por muito tempo.
a mais de I 00 km/ h , antes que, Atualmente há muitos estudos
passados cerca de dois segundos, a sobre características humanas ele-
operação se repita. E quem quer que mentares, tais como a capacidade
esteja ouvindo essa barulheira, muito de sen t ir medo, mas a pesqui sa
provavelmente vai ficar curioso e sobre o riso- a gelotologia- pouco
querer saber o que está perdendo. a pouco ganha espaço. As tecno-
Adultos riem 20 vezes por dia, logias de imageamento cerebral
em média. C rianças, até dez vezes permitem que neurologistas ob-
mais. Rir é componente tão sólido servem como diferentes regiões
da existência humana que esque- do cérebro reagem às piadas. Os
cemos como são curiosos esses resultados mostram que humor
acessos de alegria. Por que rimos é coisa sé ria, demanda certas ca-
quando alguém conta uma piada ou pacidades me ntais e desempenha
nos toca de leve a sola dos pésl O papel central na vida em sociedade.
sr. Spock, por exemplo, tripulante M u itos gelotologistas chegam a
da nave Enterprise na série Jonwdanas considerar o riso a mais antiga
estrelas, não entendia as risadinhas forma de comunicação.
dos terráqueos: "Humoo t um t provável que nossos ante -
conceito estranho. Não tem lógica", passados tenham começado a rir
dizia. O escritor húngaro Arthur muito antes do advento da fala.
Kostler (l905- 1983) caracterizava o Nossos centros da linguagem
riso como um reAexo de luxo, sem situam-se no córtex mais recente,
nenhuma uti lidade biológica. ao passo que o riso provém de
De modo geral, porém, a Na- uma parte mais antiga do cérebro,
tureza não faz investimentos in- responsável também por emoções

POR ULRICH KRAFT


Médico e Jornalista
científico.
TRADUÇÃO: Sergio Te/faro/i

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tão primordiais q uanto o medo e a Por isso se d iz que a criança começa sugere que o humor está firmemen-
alegria. t por isso, aliás, q ue o riso a rir porque as pessoas próximas te instalad o no cérebro.
escapa ao contro le consciente. Não riem para ela com freq üência. t natural que um d o m humano
se pode rir de verdade atende ndo a tão fu nd ame ntal tenha despertado
um comando e tampouco é possível Dom humano o interesse d a neurologia. Armados
reprimi r voluntariame nte uma boa Na década de 40, o psicólogo ame- de equipamentos de eletroencefa-
ga rgal had a. "Estamos fa lando de rica no )ames Leuba demo nstrou lografia (EEC) e de to mografia por
algo bastante arraigado na natureza que não era bem assim. Sempre q ue ressonânc ia magnética funcional
h umana", afirma Robert Provine, faz ia cócegas em seus dois fil hos, (fMRI), os neurocientistas decidi-
ps icólogo da Un iversida de de ele usava uma máscara para ocultar ram investigar o centro do humo r.
Maryland, em Baltimo re, um dos qualquer expressão fac ial que su- N essa busca, ltzhak Fried, d a
pio neiros na pesquisa do humor. gerisse diversão. T ão logo o dedo U niversidade da Ca li fór nia e m
Ri r é uma faculdade inata ou paterno roçava- lhes a barriga, as Los Angeles, teve ajud a do acaso .
ad qu irida? A questão di v ide os crianças explodiam em gargalhad as. Procurando a o rigem d os ataques
pesquisadores. Um recém-nascido O riso, portanto, não é mimético. epilépticos de uma de suas pacien-
já sorri dormindo, embora se trate Mesmo c rianças nascidas surdas tes, o neuroci rurgião impla ntou
apenas de um reflexo involuntário. ou cegas começam a ri r por volta eletrodos na superfície do cérebro
Só aos 3 m eses surge o primei- dos 3 meses. Embora o padrão de da adolescente de 16 anos para ob -
ro sorri so "deliberado" do bebê, som em itido por elas seja d iferente, se rvar a atividad e neuro nal. Além
provocado pela visão de pessoas o desenvolvimento do humo r segue disso, esse méto d o permitia estimu-
conhecid as, como pais ou irmãos. vias mais o u menos parecid as. Isso lar, com fracas correntes elétricas,
determinadas reg iões cerebrais.
Com isso, Fried conseg uiu influen-
c iar a competê ncia lingüística da
paciente, bem como a capacidade
de movimento de sua mão. Então
algo espantoso aconteceu. Quando
os pesqu isadores est imu laram a
área moto ra supleme ntar (AMS),
no lobo frontal esque rdo, a garota
de repente começou a ri r. Fried
elevou a corre nte elétrica, e o uviu
uma gargalhada retumbante. Quis
saber o nde estava a graça. "Vocês,
m éd icos!", ex plicou a pac ie nte,
d ivertind o-se a valer. "Vocês são
uns sujeitos e ngraçad os, and ando
em volta d a gente."
A AMS, com seus poucos cen-
tímetros quad rados, desempenha
papel central no planejamento das
ações. Sempre que desejamos nos
mover ou dizer alg uma coisa, essa
região é ativada. Os sinais avançam,
e ntão, rumo ao córtex motor, que
controla os músculos necessários à
execução da ação.
PARA O SR. SPOCK, Ao q ue tudo indica, também
personagem de o acio namento dos músculos do
jornada nas estrelas,
humor é "conceito ~ riso tem seu ponto d e partida na
sem lógica" ~ AMS. A descoberta causou fu ror. A

62 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


SÓ AOS 3 MESES surge o primeiro sorriso "deliberado" do bebê, provocado pela visão de pessoas conhecidas

impre nsa se apressou em anunciar xos por um breve instante. Depois liam ou ou viam u ma sé r ie d e É provável
que o centro do humor no cérebro o cérebro se lança à solução do piadas, De rks registrava o padrão
havia sido encontrado. Mas logo proble ma. Abandonamos, então, da atividade e létrica no cérebro.
que nossos
na publicação de seus resultados o ponto de vista inicial e procu- Para determ inar com exatidão o antepassados
Fried freou qualquer euforia pre- ramos uma perspectiva a partir da momento da risada, um eletrodo
tenham
coce. O riso certamente teria um qua l a comicidade da concl usão adicional foi fixado ao múscu lo
componente físico, mas também seja compatível com o restante da z igomático dos voluntários - res- começado
um aspecto cognitivo e outro emo- história. Por fim ocorre-nos que o ponsáve l por elevar os ca ntos da a rir muito
c ional. Esse fato não autorizaria sentido da piada, adq uirido com a boca quando rimos. O psicólogo
restring ir o senso de humor a uma mudança de perspectiva, ta lvez não constatou que a atividade cerebral antes do
única região do cérebro. seja óbvio, mas é d ivertido -e ates- não se rest ringe a determinada advento
tamos esse novo e surpreendente área, ao contrário, estende-se por
Viagem criativa conhecimento no mínimo comum boa parte do córtex. Em seguida, da fala
Ouvir uma piada, achar e ngraçado, sorriso. Todo esse processo se passa ele analisou mais profu ndamente
rir. Por trás dessa cade ia causal apa- em alguns segundos. a seqüência temporal das ondas e
rentemente tão cotidiana e natural O hum or é um a espécie d e va les no traçado da atividade elé-
oculta-se um processo trabalhoso. viagem exploratória e c riativa, na trica cerebral e teve uma surpresa.
De acordo com a teoria da incon- qual importa que nos distanc ie - Cerca de 1/5 de segundo depois do
g ruência, o humor se baseia na mos rapidamente de expectativas desfecho cômico de cada piada os
percepção de uma incoerência, de e previsões aventad as no início. potenciais elétricos disparavam ele
um paradoxo. Entender uma piada Saltamos para uma nova perspec- repente rumo a valores positivos.
verbal -lida ou contada - demanda tiva e, como recompensa, vivemos O utros 140 m ilissegundos e as
vários passos do pensamento. Pri- um a divertida c sur preende nte linhas oscilavam de fo rma ig ual -
me iro, especulamos sobre o desfe- desco be rta . O psicólogo Pe ter me n te abru pta , mas na direção
c ho lógico da histó ria, substituído Derks, da Faculdade Wi ll iam & contrá ria e apenas nas pessoas
por um final inesperado. De início, Mary, na Vi rg ínia, tornou visível que compreendiam a piada e riam.
a comicidade do arre mate parece esse salto mental com o auxílio da Dispondo dessas in fo rmações,
sem sentido, pois não se e ncaixa no eletroencefalografia. Enquanto dez Derks era capaz de prever se os
contex to. Por isso ficamos perple- participantes de uma experiência participantes achariam engraçada

www.mentecerebro.com.br 63
ou não u ma piada a ntes mesmo misfério direito, no entanto, deve ter A neu ropsicóloga Prathiba
de a me no r sugestão d e sorriso algo a ver com isso, particularmente Shammi, da Universidade de To-
esboçar-se. O humo r teria de fato o lobo frontal direito. Pessoas com ronto, seguiu essa pista e testou
sua fo nte no cérebro e repousaria alguma lesão nessa área não apenas o papel do lobo frontal d ireito.
sobre mecanismos cognitivos. sofrem de alterações da personali- Numa espécie de teste de múltipla
Derks não conseguiu descobrir dade, como tendem também a achar escol ha apresentou piadas com
exatamente em que regiões cere- tudo engraçado - riem demais, e diferentes fina is aos participantes
brais reside o senso de humor. O he- nos momentos errados. de sua experiência: fi nal lógico mas

Cócegas e gargalhadas são tema de pesquisa

Às vezes basta o indicador aproximar-se ameaçado- Tão logo a esponja tocava a mão do participan-
ramente da barriga da "vítima" para que ela já caia te, as imagens da tomografia se iluminavam em
na risada. Entretanto, não conseguimos fazer cóce- determinada região do córtex somatossensorlal.
gas em nós mesmos. A psicóloga Sarah-Jayne Blake- Até aí, nenhuma surpresa, pois se trata do local
more, do University College de Londres, acredita em que o cérebro processa informações táteis pro-
ter descoberto o desmancha-prazeres: o cerebelo. venientes dos órgãos e da pele, transformando-as
Em um de seus experimentos, ela foi auxiliada por em percepções. Mas quando os participantes da
um robô que fazia cócegas na mão esquerda dos experiência guiavam o robô fazedor de cócegas
participantes com uma espécie de esponja. O robô com a própria mão, a atividade nessa região do
era controlado pelos próprios participantes, que o cérebro era nitidamente menor que no momento
guiavam com a mão direita, ou então comandado em que outra pessoa assumia o controle. O que
por um dos pesquisadores. Enquanto isso, com o isso mostra é que quando fazemos cócegas em
auxílio da fMRI, Blakemore acompanhava o que se nós mesmos uma pa rte dos impulsos nervosos
passava o Interior do crânio. que deve riam chegar ao córtex somatossensorlal
é reprimida.
Parecido com uma co uve-flor e situado na
parte posterior da cabeça, o ce rebelo faz cons-
tantes previsões sobre que percepções poderão
resultar d e determinado movimento do corpo.
Se o prognóstico coincide com a realidade, ele
envia sinais inibitórios ao córtex somatossensorial
e a percepção é ignorada. É bom que seja assim,
pois, do contrário, passaríamos o tempo todo
ocupados com nossos movimentos. Imagine se,
ao falar, você sentisse cada movimento da língua!
Assim, o cerebelo de fato estraga o prazer que
teríamos ao fazer cócegas em nós mesmos, mas,
em compensação, trata de liberar capacidade ce-
rebral suficiente para que lidemos com estímulos
inesperados que vêm de fora. Quando os pesqui-
sadores programaram o robô para ate nde r com
um atraso de 1/5 de segundo ao comando da mão
direita do participante para acionar a esponja, a
brincadeira funcionou: os participantes conse-
guiram fazer cócegas em si mesmos. Portanto, o
cerebelo se deixa enga nar- mas só com o auxílio
do amigão de lata.

64 MENTE&:CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


não engraçado, final com arremate à compreensão. Ai nda assim, os principalmente a difere nça entre Rir nos
cômico e final burlesco. participantes com lesões cerebrais compreender uma piada e consi-
foram perfeitamente capazes de derá-la e ngraçada, Coei decidiu
mostra que,
Arremate cômico t irar conclusões sensatas. estudar a vertente emoc ional do a qualquer
Exemplo: um estudante se candi- Até recentemente ignorava-se riso. Reuniu 14 pessoas saudáveis e
momento,
data a um emprego de férias. "No o papel desempenhado pelo lobo as fez ouvir uma fita com piadas que
começo, você vai gan har 150 euros frontal direito em humanos. O cór- seguiam sempre o mesmo padrão podemos
por semana", diz o patrão. "Mas, no tex frontal é a área cerebral que mais de pergunta e resposta: "Por que mudar
próximo mês, o salário sobe para cresceu na história evolutiva. A ele o os tubarões não devoram advoga-
200 euros." As possíveis respostas ser humano deve suas singulares ca- dos~ Porque até os tubarões têm lá nosso
do estudante: "Aceito. Quando pacidades cognitivas. Ali são tiradas seu orgulho". Usando a fMRI, os modo de
começo~". Ou: "Puxa, que legal. conclusões e resolvidos problemas pesquisadores mediram a atividade
Volto no mês que vem!". Ele ainda complexos. De acordo com os estu- cerebral dos parti cipantes. encarar
poderia dizer: "Ei, chefe, esse seu dos de Vinod Coei, da Universida- Que a porção posterior do lobo as coisas
nariz é grande demais para sua de de Toronto, o lobo frontal direito temporal esquerdo fosse se ilumi-
ca ra". A tarefa dos participantes confere a flexibilidade mental, e os nar, isso eles já esperavam. Afi nal, aí
consistia em escolher a versão mais pac ientes com lesões nessa região se situa uma área importante para o
engraçada. Tanto as pessoas saudá- tê m dific u ldade em abandonar processamento da linguagem. Mas
veis quanto as com lesão cerebral idéias e noções já co ncebidas . também a reg ião correspondente
fora do córtex frontal sempre com- Os psicólogos gostam de testar do lado oposto revelou-se ativa, e
preendia m a piada, completando-a essa flexibilidade com ajud a de isso foi algo incomum: em geral, o
com o arremate cômico apropriado exercícios que consistem em com- lobo temporal direito permanece
(a segunda opção). Os portadores pletar palavras. Eles propõe m as quieto quando a linguagem está em
de alg uma lesão no lobo fronta l sílabas iniciais e os pacientes devem ação. A fim de processar os jogos
direito em geral optara m pelo final completar com um final óbvio e de palavras, porém, o cérebro dos
grotesco (o últ imo). outro mais original. Por exemplo, participantes parecia se valer dos
A comicidade depende do "cata ... logo" se ria uma solução dois hemisférios.
elemento surpresa - isso também simples, ao passo que "cata...crese", Mas, co mo Coei
os pacientes parece m perceber, uma solução mais elaborada. suspeitava, essas ati-
mas não que o final burlesco não A "mudança de perspectiva" vidades neuronais
tenha sentido no contexto geral é crucial quando se passa de uma refletem ape nas o
proposto. Como supõe Shammi, solução logicame nte antecipada processo mera-
as piadas mais elaboradas lhes es- para um cenário desconcertante. mente cognitivo.
capam porque eles não são capazes Mas nós freqüentemente muda- Fa ltava analisar o
de dar o salto men tal em d ireção à mos de perspectiva sem rir a cada "aspecto afetivo", o
outra perspectiva, imprescindível vez. Para entender esse mistério, e componente emocio-

NEUROBIOLOGIA DA PIADA: observar


expressão de riso no outro pode
deflagrar a mesma atitude em nós

l
j
G
Supondo
que o ·,
........,.., (.. \'
pensamento
fosse um
trem, a
risada o
deteria
quando ele
avançasse
por trilhos
errados

GÁS DO RISO: até


ser usado como
anestésico por
volta de 1840, o
óxido nitroso foi
conhecido por
suas propriedades
hilariantes e
usado para fins l ·..irr. 111" ·.
recrecionais

na!. Entender u ma piada é uma quando saboreamos um delicioso de recompe nsa hedônica pelos
coisa; divertir-se com ela é outra alm oço, te mos relações sex uai s mesmos circuitos neuro nais suge-
bem d ife rente. Essa d ife rença se ou nos alegramos co m a lgum re q ue o riso desempenhou um
manifesta também no plano neuro- sucesso intelectual. Portanto, o importa nte papel na evolução da
biológico. Tão logo os partic ipan- prazer de uma boa garga lhada espécie humana.
tes d a expe riência achavam graça comparti lha as caracterís ticas de A neurologista Barbara Wild,
numa piada, ativava-se ainda outra outros prazeres. da U nivers idade d e Tübingen,
região de seu cérebro: o chamado Alemanha, estuda de que maneira o
córtex pré-frontal ventromedial. Fora dos t rilhos cérebro reage aos desenhos anima-
E quanto maior a diversão, ta nto Quando se trata de comer ou se dos do cartunista americano Cary
mais in tensa a atividade. Sabemos, reproduzir, o prazer é uma recom- Larson. O observador precisa se pôr
por outros experimentos, que essa pensa que garante a peren idade mentalmente no lugar das persona-
área está ligada de a lg uma forma dessas atividades e a sobrevivência gens da ação e, depois, abandonar
a nosso sistema de recompensa, da espécie. O fato de que exista esse posto, para então rir da situação
que e nt ra em ação, por exemplo, um "prêmio pelo riso" sob forma infeliz em que se e nco ntram.

66 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


que o pensamento fosse um trem,
a risada o deteria quando ele avan-
çasse por trilhos e rrados. Wild
concord a: "O cérebro se ocupa
constantemente de formular regras.
Mas são as exceções, as g uinadas
surp ree nd e ntes, q ue mais nos
chamam a atenção", explica. Essas
mudanças abruptas podem gerar
sentimentos negativos, mas desper-
tam os positivos também. "Quando
descobrimos que o novo não é ruim
nem uma ameaça, rimos aliviados."
Para o neurocientista Vilayanur
Ramachand ran, da Universidade
da Califó rnia em Sa n Diego, um
dos pioneiros no estudo das bases
da consciência, "a principal utili -
dade do ato de rir consistia origi-
nalmente em dar ao indivíduo uma
possibilidade de comunicar a seu
grupo social que a anoma lia por ele
descoberta era trivial e não oferecia
motivo para preocupação". Assim,
"há! há! há!" signi fica desmobiliza-
ção: não há perigo, relaxem. De
resto, o riso desarma não apenas no
âmbito proverbial, mas também no
sentido biológico: ele rompe a rea-
ção de "lutar ou fugir" que situações
ameaçadoras de flagram, faz cair o
nível de adrenal ina e contribui para
redu zir a tensão.
W ild gostaria d e faze r uso
.JI terapêutico desses efeitos positivos
no tratamento de distúrbios como
Ao investigar a neurolog ia da Pouco a pouco, portanto, des- a depressão. "Em psicoterapia, o
piada, pesquisadores do humo r fa- faz-se a névoa e m to rn o d es - humor parece ser tabu", diz. "E, no
zem descobertas acerca de fu nções sa q ualidade tão hum ana. Mas e ntanto, rir liberta. Mais importan-
ainda mais en ig máticas do cérebro. por que, afinal, a possuímos? A te ainda, talvez: rir nos mostra que, SAIBA MAIS
O s prime iros resul tados dessas esse respeito, mesmo munidos da a qualquer mo me nto, podemos História do riso e
pesquisas mostram que o desenho é fM RI e da ele troe ncefa lografia, do escárnio. George
mudar nosso modo de encarar as
Minais. Editora Unesp,
processado em conjunto por diver- os pesquisadores podem apenas coisas." É precisa mente a essência 2004.
sas regiões cerebrais. Além do cór- especular. Segundo o especialista de tod a piada que W ild gostaria
Laughter, a sclentlflc
tex fro ntal, ativam-se importantes em inteligência art ificial Marvin d e co muni car a seus pac ie ntes lnvestlgatlon. R.
centros da emoção em áreas que, Mi nsky, do Instituto de Tecnolog ia - se necessário, com uma pi tad a Provine. Viking Books,
do ponto de vista evolu tivo, são de Massachusetts, é provável que de ironia. "Devemos compreender 2000.
mais antigas, tais como a amígdala e o hum or tenha se desenvolvido que nossos problemas pode m ser Neural correlates
o hipocampo. Isso evidencia co mo para chamar nossa atenção para os encarados de uma perspectiva to - of laughter and
humour. B. Wild et
são profundas as raízes do se nso de erros do pensamento lógico e das talmente dife rente, capaz de revelar a/., em Brain, vol. 126,
humor no sistema nervoso. conclusões que tiramos. Supondo seu lado cômico." 2003.

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Q uem já se ,,.;,onou sabe, aqui o prazer ou desejo apetitivo
quando v ivemos essa ( por a lgo) do co nsumado (em
experênci a nos trans- algo). Além disso, desejo e amor
formamos. O amor é capaz de nos não constitue m um fim e m si
levar ao desespero ou ao êxtase. E mesmos: têm metas b iológicas
talvez até à guerra, se considerar- palpáve is e concretas.
mos a história do rapto de H elena O prazer sexual não se desen-
e à campanha contra Tróia. H oje, volveu visando a satisfação pessoal,
g raças aos prog ressos das neuro - mas para encorajar a reprodução.
ciências e da psicologia comporta- Tampouco as sensações profundas
menta l, começamos a compreender co mum e n te e t iq uetadas co mo
as bases biológicas profundas e os "amor" podem negar seu pano de
mecanismos subjacentes ao que se fundo biológico: auxiliam no esta-
passa em nós quando experime n- belecimento e na manutenção de
tamos sentimentos de paixão, afeto um vínculo entre parceiros. Esses
ou contentamento. As descobertas mecanismos são comandados por
revelam algumas pequenas surpre- estruturas cerebrais particulares e
sas. Examinados do ponto de vista por neurotransmissores. Prazer e
biológico, muitos dos véus român- amor são, portanto, essencialmente
ticos q ue recobrem o fenô meno do produzidos no cérebro e deter-
amor desprende m-se facilmente. mi nam nosso comportamento em
~ No entanto, um permanece: o do fu nção de um objetivo.
:i
desejo sexual. Q uando buscam sua Quando se trata de considerar
f~
l:t
o rigem, os c ientistas logo esbarram
numa série de e ni gmas. Por que
quem nos desperta a libido, um
aspecto fundamental se im põe:
8 desejamos uma pessoa específica?
orientação sex ua l depe nd e e m
~
ã A que se deve o fato de senti rmos primeiro luga r d a nossa própria
~
pa ixão ou desejo? sexualidade. O interesse por uma
i~
Em primeiro lugar, há que se pessoa não se defi ne apenas pelas
~ fazer uma observação. Existe uma características do corpo do outro,
'i
] dife re nça fu ndamenta l e ntre o mas princ ipalmente por aspectos
,.;
é prazer por alguma coisa e o prazer psíqu icos e cerebrais de quem
em alg uma coisa - ou seja, entre sente a atração. Fundamental im-
~! as se nsações que temos quando portância têm aí os hormônios, e
~
3 almejamos algo e o que sentimos ao sobretudo os sex uais. M uito antes
~ obtê-lo. Especialistas diferenciam da pube rd ade, eles encaminham

POR PAOLA EMIUA CICERONE


Jornalista.
TRADUÇÃO: Mareei Crave/li

www.mentecerebro.com.br 69
terá em média menos característi-
cas masculinas.
Além disso, eles apresentarão
com freqüência orientação homos-
sexual e exibirão comportamento
mais maternal. O motivo é que, por
causa do stress, a testosterona se
apresentou cedo demais no cérebro.
Os descenden tes "feminilizados"
nem sempre são homossexuais: se
criados com fêmeas sexualmente
ativas, em geral desenvolvem orien-
tação heterossexual. Isso mostra de
forma clara que o comportamento
sexual não pode ser explicado ape-
nas pelos hormônios. Ao contrário:
fato res hereditários, influências
hormonais e experiências indivi-
duais e a interação com os outros
ORANGOTA NGOS o desenvolvimento não apenas de processo natural fazendo com que membros do grupo atuam aí em
se unem só para nossos órgãos genitais, mas tam- células nervosas supérfluas sejam estreita vinculação.
a fecundação e
vivem o resto do bém de partes do cérebro rumo ao descartadas. Graças a essa interfe- Como pode, porém, o stress
tempo como eremitas masculino ou feminino. rência, morrem menos neurônios, atuar sobre cérebros masculinos,
Antes mesmo do nascimento, razão pela qual a área frontal do preferência sexual e conservação
começam a atuar. Num fe to ge- hipotálamo dos mamífe ros de da espécie7 Para a sociobiologia, sob
neticamente masculino, pequenas sexo masculino é bem maior e mais condições de vida difíceis, a femi ni-
quantidades do hormônio sexual rica em neurônios. Nos humanos, lização dos cérebros reduziria a taxa
testosterona chegam ao cérebro porém, essa diferença é menor do de natalidade em uma comunidade,
no (dtimo terço da gravidez, in- que, por exemplo, nas ratazanas. o que possibilitaria oferecer cuidado
fluenciando seu desenvolvimento. maior aos raros descendentes.
Receptores sensíveis a esses hor- Preferência sexual Essa explicação bem poderia
mônios sexuais encontram-se em O hipotálamo é de especial impor- se aplicar aos seres humanos, que
numerosas regiões cerebrais. Pela tâ ncia na orientação e no compor- têm com portamento sexual em
determinação do sexo respondem tamento sexual. Isso se evidencia no parte desvinculado da meta da
sobretudo receptores hormonais fato de as células nervosas do hipo- reprodução e voltado à obtenção
situados no hipotálamo. Quando tálamo anterior exibirem intensa do prazer. Pesquisas realizadas até
a testosterona exerce sua influência atividade quando um animal macho agora com humanos confirmam as
durante a fase pré-natal crítica, o se aproxima de um parceiro sexual descobertas oriundas dos modelos
cérebro será masculino. Na ausên- ou quando copula. Se essa região animais. Também no nosso caso o
cia desse hormônio, feminino. estiver lesada, o comportamento hipotálamo anterior desempenha
Curiosamente, porém, não é a sexual dos machos no tocante à papel decisivo no tocante à pre-
testosterona em si que surte efeito cópula será prejudicado, ainda que ferência sexual. Os homossexuais
nesse processo: antes, ela é trans- mantenham o interesse em fêmeas. do sexo masculino possuem menos
formada em estrogênio, em geral Certas ex periê ncias durante neurônios nessa região do cérebro
conhecido pelos leigos como o hor- a g ravidez também podem in- que os heterossexuais, exibindo,
mônio sexual feminino. Fetos gene- fluenciar a orientação sexual dos sob esse aspecto, uma estrutura
ticamente fem ini nos se protegem descendentes. Dentre elas, sobre- cerebral mais aparentada à femi ni-
dessa ação específica do estrogênio tudo o stress parece desempenhar na. Além disso, também nos seres
auxiliados pela alfafetoproteína. papel importante. Se uma ratazana humanos o stress pré-natal parece
Durante o desenvolvimento do cé- em gestação for exposta a stress, o conduzir com mais freqüênc ia
rebro, a testosterona interfere num cérebro de seus rebentos machos descentes do sexo masculino à

70 MENTE&:CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


orie ntação homossexual. Até o roedores que vivem nas pradarias menta claramente durante a có-
momento, no entanto, os conheci- dos Est<tdos Unidos. Es tritamente pula, de acordo com o sexo do
mentos adquiridos em relação ao monogâmicos, esses <tnim<tis preo- animal: nos machos, sobe o nível
ser humano são escassos e, em boa cupam-se bastante com seus descen- de vasopressina; nas fêmeas, o de
parte, indiretos. Não admira que den tes. Mas seus vizi nh os que oxitocina. Também nos humanos
suscitem controvérsia - ou mesmo habitam as Montanhas Rochosas, esses dois ho rmôn ios parecem
completa rejeição, baseada no ao contrário, trocam de parceiro importantes na estimulação sexual,
argumento de que, nesse âmbito, com freqüê ncia c logo abandonam a na e reção c na capacidade de
os resultados de experiências com prole à própria sorte. A semelhança orgasmo. Nos homens, o nível de
animais não seriam transferíveis à física c genética entre essas duas vasopressina no sangue aumenta
esfera humana. espécies é muito grande. Mas dois durante a expectativa sexual, c o de
Entretanto, admite-se cada vez hormônios presentes no hipotála- oxitoci na, durante o orgasmo. Na
mais que existem bases biológicas mo, a vasopressiva e a oxirocina, mulher, acreditam alguns pesqui-
na preferência por um parceiro de revelam diferenças notáveis entre sadores, a vasopressina redu ziria
mesmo sexo ou do sexo oposto. elas. O roedor monogâmico tem no o desejo sexual, c a oxitocina
Está claro que a formação indi - cérebro um número bem maior de dcscmpcnhar i<t seu papel tanto
vidual do cérebro desempenha receptores para aqueles hormônios durante a fase do Oene quanto da
papel tão importante quanto a que seu parente promíscuo. cópula. Contudo, essas são apenas
educação ou a sociedade, e a defi- Em geral, a concentração transposições de resultados expe-
nição do caminho a trilhar parece sangüínea desses hormônios au- rimentais obtidos com an imais.
ocorrer nos primeiros estágios do
desenvolvimento.
O roedor
Do flerte à cópula ./\

Sexo e desejo decerto não são tudo


monogamtco
na vida. Para a maioria dos seres tem no
humanos, a qualidade do relaciona-
mento com o parceiro possui, no mí-
cérebro um
nimo, importância equivalente. De número bem
resto, a atração sexual e o vínculo maior de
com o parceiro atendem ao mesmo
propósito biológico: assegurar a receptores
reprodução da espécie. Um rápido para a
exame de nossos parentes mais pró-
ximos nos mostra a multiplicidade vasopressina
de relacionamentos possíveis. Os e a oxitocina
orangotangos, por exemplo, só se
unem para a fecundação e vivem o que seu
resto do tempo como eremitas, os parente
gibões são monogâmicos, os gorilas
formam haréns e os chimpanzés
promíscuo
vivem trocando de parceiro. Entre
humanos, encontramos todas essas
variações, embora a tendência à mo-
nogamia seja predominante. A va-
riedade de tipos de relacionamento o
aponta para o fato de que o vínculo
com o parceiro está sujeito a fortes
inAuências culturais e sociais.
1~ PRAZER E AMOR
determinam
comportamentos
Bases biológicas da monogamia com a finalidade de
fora m encontradas em pequenos atingir objetivos

www.mentecerebro.com.br 71
As normas soc iais, a educação, as que, nas fê meas, é antes a oxitocina Como se art ic u lam , então,
expectativas podem preval ecer que estimula o cuidado com a c ria. o amor c as funções cerebrais?
sobre a influê ncia exercida po r um É de supor que o nível hormonal Ex is tem cen tros de prazer o u
hormônio específico. elevado durante o acasalame nto neurotransmissores da felicidade?
Mas e quanto ao vínculo entre ajude a fortalecer o vínculo entre N esse contex to, o a no de 1954
os parcei ros? D e fato , no caso parceiros. Também entre huma- represe nta um marco para a pes-
dos roedores, os dois hormônios nos a vasopressina e a oxitoc ina quisa. Nesse ano, os neurocientistas
desempenham papéis importantes parecem ter, ao menos em parte, as american os )ames O lds e Peter
também nesse âmbito. O macho mesmas funções. Considerando-se Mi lne r implantaram no cérebro
das pradarias, de cérebro rico em o amor como vínculo entre parcei- de ratos peque nos e letrodos que
vasopress ina, apresenta v ín c ulo ros, teríamos dado aí um primeiro tran smitiam estímu los elétricos.
mais fo rte com sua parceira c se passo para a compreensão biológica O s animais gostaram tanto que
preocupa mais com a prole, ao passo desse fenômeno. se detinham constantemente nos

Imagens de um cérebro apaixonado

Eles estudavam principalmente multicultural e multiétnica, com 11 que torna visível a atividade de várias
sensações negativas como medo nacionalidades diferentes. áreas cerebrais em um determinado
ou depressão, já que é mais fácil Surpreendentemente, nenhum momento, com alta resolução espa-
irritar ou assustar voluntários dos participantes acabara de se cial. Éverdade que o desconfortável
que produzir alegria ou mesmo apaixonar- todos estavam em uma tubo do scanner não é exatamente
amor de modo confiável em relação mais longa, de dois anos em propício à produção de sentimentos
laboratório. Ainda assim, decidi- média, e extremamente satisfatória. amorosos. Mostramos ao voluntário
mos dar o primeiro passo para o Mas a seleção tinha funcionado: deitado no scanner uma foto da
desbravamento neurocientífico ao responder a um questionário pessoa amada, pedindo que pen-
de sensações positivas. Começa- psicológico do amor que já tinha sasse nela e relaxasse. Como nos
mos com o amor romântico. sido aplicado a centenas de apaixo- relataram, todos puderam sentir
Pedimos a milhares de es- nados, nossos voluntários atingiram claramente seu afeto.
tudantes de Londres e adja- "valores de amor" mais altos que Como medida de controle, os
cências que se manifestassem os melhores do estudo anterior. voluntários observaram fotos de três
caso se sentissem truly, madly Para maior garantia, fizemos um colegas do mesmo sexo e idade que
and deeply, ou seja, "verdadeira, teste psicológico suplementar que, seus parceiros. Além disso, a foto do
O AFETO NOS
enlouquecida e profundamente" à semelhança de um detector de parce iro não tinha detalhes especí-
TORNA FORTES:
sensações apaixonados. Recebemos cerca mentiras, fundamentava-se na me- ficos e um observador de fora não
amorosas parecem de 70 respostas, três quartos de dição da resistência da pele. Quase deveria poder diferenciar esta foto
desativar diversas mulheres. Solicitamos uma breve todos os voluntários começaram a das outras. Comparamos a atividade
regiões cerebrais descrição da relação, fizemos suar diante da foto do parceiro. cerebral nas duas situações distintas.
responsáveis por entrevistas e finalmente sele - Analisamos os apaixonados Quatro áreas diferentes, bem
emoções como cionamos 11 voluntárias e seis com a tomografia de ressonância pequenas, se iluminavam apenas
medo e tristeza voluntários, numa composição magnética funcional, procedimento quando os participantes pensavam

72 MENTEótCÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


lugares em que os c ientistas rea- óbvia a que isso conduziu foi que o vos que percorriam toda a região
lizavam a estimulação. estímulo elétrico ativava no cérebro estimulada. Logo um sistema de
Além d isso, apren deram por um centro de recompensa ou mes- células nervosas ocupou o centro
conta próp ria a pressionar uma mo de prazer. das atenções - um sistema que se
alavanca que lhes proporcionava Mui tas regiões do cérebro são orig ina no mesencéfalo, percorre
tais estímulos. O resultado foi que sensíveis à estimulação elétrica, mas a lateral do hipotálamo e abastece
passaram a se estimular milhares de apenas em poucas áreas o estímulo com o neurotransmissor dopam ina
vezes por hora, negligenciando até conduzi u os animais ao excesso, grande parte do prosencéfalo.
mesmo suas necessidades naturais o que se verificou sobretudo na Com isso, au men tou o in te-
- um comportamento que lembra a latera l d o hip otá lam o. Não se resse dos cie nt istas nas funções
fo rte dependência de drogas ou, em encontrou aí o suposto centro do desempen hadas pela dopamina,
certo sentido, o de um ser humano prazer: na verdade, a esti mulação que os pesqu isadores viam, e m
m uito apai xo nado. A suposição ins tigava també m feixes de ner- parte, como uma espécie de sinal

carinhosamente nos parceiros. To-


CORES DA PAIXÃO:
das e las se localizavam espelhadas As regiões cerebrais
nas duas metades do cérebro, no do sistema límbico
chamado sistema límbico, que con- em amarelo são
trola as emoções e m geral. Por sua ativas apenas nos
vez, não encontramos diferenças apaixonados que
significativas de atividade no córtex no tomógrafo
óptico entre a reação às fotos do par- viram uma foto
ceiro e às de colegas. Ao que parece, do parceiro. Os
então, o "cérebro visual" apenas "módulos do amor"
estão em meio a
transmite a info rmação objetiva ao
(imagem à esquerda), regiões o nde várias áreas desativadas, princi- quatro estruturas
"cérebro emotivo". diferentes, sobre
A imagem da atividade no siste- estão dois de nossos módulos do palmente na metade dire ita do
cujas funções sabe-
ma límbico diferenciava-se claramen- amor. Talvez eles tragam o elemento cérebro: todas estavam associa- se alguma coisa:
te de modelos antes encontrados e rótico para o amor romântico. das a sensações negativas. Partes o córtex cingular
em estudos da emoção no contexto O terceiro módulo do a mo r da amígdala, por exemplo, que ajuda a reconhecer
de sensações positivas. No caso está localizado no córtex cingular é estimulada em situações de sensações; a
das quatro áreas ativadas, trata-se, anterior, estrutura que nos ajuda a tristeza, medo e agressão. Apa- ínsula integra a
então, efetivamente de algo como reconhecer nossos sentimentos e os rentemente, sensações amorosas informação dos
módulos de amor especializados. do parceiro, capacidade certamente conseguem subjugar essas regi- órgãos sensoriais;
essencial para o amor. O quarto mó- ões cerebrais. e partes do núcleo
Provavelmente, cada um deles tem
dulo, por fim, é uma parte da ínsula, Como pesquisadores do caudado e do
uma função específica, sobre a qual putâmen também
por ora podemos apenas especular. situada no interior do diencéfalo e cérebro, podemos afirmar que
estão ativas na
Assim, por exemplo, drogas estimu- que tem diversas funções. Sua ativi- o amor não t raz apenas felici- excitação sexual.
lantes como a cocaína ativam áreas dade aumenta quanto mais atraentes dade, mas também nos torna
bem mais extensas no ser humano, forem os rostos apresentados. Apa- corajosos e dóceis. Em nossos
incluindo os quatro módulos do amor rentemente, essa estrutura integra voluntários, aliás, o lobo frontal
que identificamos. Pode-se concluir a percepção visual ao mundo emo- anterior direito est ava pratica-
que o amor representa apenas uma cional. Além disso, parece receber mente desativado, sendo muito
parte dos estados eufóricos, do pon- informações da região estomacal: ativo no caso de pessoas depres-
to de vista não apenas psicológico, talvez o "frio" na barriga faça uma sivas ou tristes. Terapias em que
mas também neuronal. parada na ínsula, antes de encontra r a atividade dessa região é amor-
Além disso, essas zonas distin- o caminho até a consciência. tecida com fortes pulsos magné-
guem o amor da pura excitação Um a emoção tão complexa ticos estão beneficiando pessoas
sexual. Com efeito, o desejo estimula como o amor não exige apenas com depressão profunda. Em
regiões do hipotálamo que nas nos- uma atividade cerebral única, mas muitos casos, o amor seria uma
sas experiências ficavam inativas. Por também um equilíbrio sutil entre ótima opção de tratamento, mas
outro lado, o amor sensual parece regiões ativadas e desativadas. Em infelizmente ele não é prescrito
ativar o núcleo caudado e o putâmen nossos experimentos, descobrimos sob encomenda.

www.mentecerebro.com.br 73
Quatro áreas de prazer. Basearam essa conclusão bro. Se esse sistema é experimen- continuada atividade das vias ner-
na observação de que sua atividade talmente desativado, recompensas vosas e simula, assim, antes o prazer
cerebrais aumenta quando da prática de todo elét ricas , química s ou naturais - apetitivo - por alguma coisa do
diferentes, bem tipo de ação vinculada a sensações deixam de surtir efeito - como se que o prazer - consumado - na
agradáveis - seja quando os animais não existissem sensações de prazer obtenção do que se queria. Além
pequenas, disso, a dopamina faz com que, já
se auto-estimulam com a eletri- pelas quais os animais seguem repe-
se iluminavam cidade, quando ingerem comida tindo determinada tarefa. Não está durante as fases de expectativa e
saborosa, quando da copulação ou claro, porém, se os ratos são d e fato de preparação, o organismo oriente
apenas quando
estão sob a influência de drogas, capazes de experimentar o prazer seu comportamento para as m etas
os participantes como a cocaína, a anfetamina, a na forma como nós o concebemos. almejadas, aprendendo a utilizar
pensavam heroína ou a nicotina. Ainda que sejam , isso signifi- novas informações que prenunciam
Assim como aprendem a se auto- caria dizer que os pesquisadores a viabilidade de alcançá-las.
carinhosamente estimular, os animais descobre m encontraram um centro do prazer,
nos parceiros como administrar por conta própria bem com o neurotransmissores Orgasmo por eletrodos?
essas substâncias, sobretudo quando do prazer? Não é bem assim. Na A implantação de eletrodos no cére-
são injetadas diretamente no sistema verdade, a estimulação elétrica do bro de humanos só é admitida quan-
de células dopaminérgicas do cére- hipotálamo lateral conduz a uma do da necessidade de intervenção

lucros e custos: o relacionamento na balança


Estilos de amor devem combinar? "Opostos se cresceram separados, sendo que os univitelinos não
atraem", diz um ditado. Mas a análise de nossos eram mais semelhantes entre si que os d izigóticos,
questionários revela que os estilos de amor nos cujos genes se diferenciam tanto quanto em irmãos
casais não refletem essa lei de complementaridade. não-gêmeos. Deduz-se daí que o amor é determinado
Os dois parceiros freqüentemente tendem a ter o essencialmente pelo aprendizado social. O modo de
mesmo estilo de amor. Segundo o psicólogo social amar de uma pessoa parece ser influenciado forte-
Harold Kelley, as pessoas só constroem uma relação mente por experiências amorosas na infância e na
durável se puderem se recompensar mutuamente. juventude, e com isso também por pai e mãe. Talvez
Em analogia a processos econômicos de troca, numa um jovem se oriente pelo exemplo dos pais, ou chegue
relação surgem tanto lucros quanto custos, que po- à conclusão de quere r fazer tudo de modo diferente,
dem ser reunidos num balanço do relacionamento. desenvolvendo sua própria construção social do amor.
Se os estilos de amar dos parceiros forem parecidos, O amor não é uma fatalidade: é determinado em pri-
isso geralmente significa lucro de ambos- isso vale meiro lugar por nossas experiências e essencialmente
pelo menos para as formas romântica, amigável, pelo que fazemos dele.
pragmática e altruísta de amar. Entre dois amantes Como surgem sentimentos de amor apaixonado?
ciumentos, por sua vez, surgem tantos conflitos que Pela teoria dos dois fatores do psicólogo social Stanley
os altos custos podem esfacelar a relação. Se dois Schachter, as emoções aparecem quando interpreta-
amantes lúdicos se encontram, em algum momento mos excitação fisiológica de origem sexual de modo
pode acontecer o seguinte: se um se retrai, o outro cognitivo. Conferimos a elas, por assim dizer, uma
também se distancia e o "jogo" acaba. Éverdade que etiqueta correspondente: euforia, tristeza, raiva
ambos usam o mesmo repertório comportamental, etc. Mas, se há várias fontes de excitação, o cérebro
que leva aqui à ruptura da relação. A teoria da troca parece ter problemas em distingui-las.
pode parecer muito prosaica, na medida em que acha Situações dramáticas, portanto, podem aumentar
um denominador comum puramente racional para os sensivelmente o amor apaixonado. Esse fenômeno
relacionamentos amorosos. No entanto, uma análise é ilustrado pelo chamado efeito Romeu-e-Julieta. Os
fria de custo-benefício ajuda os pares a entender por dois famosos adolescentes tiveram de lutar pelo seu
que a sua relação não funciona. E também mostra o amor contra a resistência d e todos em volta. Não seria
que ambos perderiam com uma separação. espantoso que ambos interpretassem a sua excitação
O psiquiatra e psicanalista John Bowlby ressalta em parte como expressão de seu interesse mútuo. De
que o estilo de amar de uma pessoa parece repetir o fato, pesquisas confirmam que pais que quiseram evi-
de seus pais. Um estudo com gêmeos parece anular tar relacionamentos românticos dos filhos acabaram
um componente biológico herdado: pesquisadores por alcançar o contrário: a pressão de fora fortalece
examinaram os estilos de amor em gêmeos que os sentimentos de um pelo outro.
médica, razão pela qual são poucas
as pesquisas existentes nessa área.
Pacientes que sofreram estimulação
elétrica do hipotálamo lateral rela-
tam "sensações difíceis de descrever,
como se algo de interessante c ex-
citante fosse acontecer". Sensações
agradáveis ver ificaram-se também
na estimulação de outras reg iões
elo cérebro, como, por exemplo, do
septo lateral. As experiências vividas eróticas ou pornográficas revelam respondem pelo processamento ele TANTO EM RATOS
como em humanos
nesses casos foram descritas como fortes mudanças de atividade em sensações de todo tipo.
sensações prazerosas
um prazer semelhante ao orgasmo. diversos pontos do cérebro, es- Aos olhos dos psiquiatras, os parecem desativar
Se um paciente podia se auto- pecialmente em sua extremidade tormentos mentais experimentados regiões cerebrais
estimular nessa região, ele o fazia anterior. O padrão dessas mudanças pelos amantes se aproximam do responsáveis
por emoções
em grande medida, sem, contudo, de atividade é bastante semel hante transtorno obsessivo. Os pensa- desagradáveis
atingir o orgasmo de fato. em mulheres c homens. É de supor mentos dos apaixonados costumam
que os cérebros masculino c femi- ser incessantemente dirigidos para
Até a loucura nino processem sensações ele prazer o mesmo objeto, uma única preocu-
Nos últimos anos, com o auxílio de forma parecida. pação - os aman tes não sossegam
dos métodos de diagnóstico por Os estímulos e situações capa- enquanto o desejo não é saciado.
imagem, como a tomografia nuclear zes de provocar em nós sensações In terpretaremos aqui essa ob-
ou por emissão de pósitrons, cien- ele prazer são bastante diversos e sessão usando uma nova perspecti-
tistas puderam verificar reações em va riados: um pôr-do-sol, a presen- va, propiciada por estudos recentes:
seres humanos c expandir muitos ça ela pessoa amada, o prêmio da biólogos mediram a concentração
elos conhecimentos adquiridos em loteria, uma boa refeição, sexo ou ele substâncias que refl etem o
experiências com animais. O estudo drogas. Isso propõe tarefas difíceis a fu ncionamen to cerebral e con-
dessas imagens identificou uma série nosso cérebro: devemos reconhecer cluíram que elas são alteradas da
de regiões cerebrais que, diante de e avaliar as diversas situações, talvez mesma forma nos amantes e nas
emoções diversas, revelam intensa associá-las a alguma lembrança pessoas que sofrem de transtornos
atividade. Uma mesma estrutura ce- e, então, reagir - com ações, por obsessivos. Amar como um louco,
rebra l pode, no entanto, ser estimu- exemplo. As demandas ao cérebro portanto, não seria uma mera figura
lada tanto por sensações agradáveis podem ser, portanto, bastante di- de linguagem.
como por sentimentos indesejados, ferenciadas. Seria de esperar, pois, A pesquisadora Donatella Ma-
como o medo. A existência de cen- que também as mudanças de ativi- razziti e seus colegas da Univer-
tros específicos de prazer não pôde dade nas diversas áreas do cérebro sidade de Pisa, Itá lia, testaram a
até o momento ser comprovada de apresentassem forte diferenciação hipótese de que do amor à obsessão
modo inequívoco. de um caso a outro. Mas certas re- e ao delírio haveria apenas um passo
Experiências com pessoas se- giões cerebrais permanecem ativas medindo a concentração do chama-
xualmente excitadas mediante a durante as situações emocionais elo transportador de serotonina. Essa
contemplação de imagens ou cenas mais variadas, o que significa que proteína está presente no sangue e
também no cérebro, onde regula a
concentração de serotonina, neuro-
transmissor que inAui no humor e
no comportamento. Três g rupos de
voluntários foram examinados: "nor·
mais", apaixonados há pouco tempo
e pessoas com transtornos compulsi-

f .
.... vos. A constatação: o transportador
de se rotonina var iou de forma
anál oga nos apaixonados e nos
pacie ntes obsessivo-compulsivos.
C omo inte rp re ta r essa cons-
tatação? A serotonina participa da
regu lação de funções instintivas,
como ape tite, sono, dor, tempe-
ratura corporal e sexua lidade. A
O APEGO representa uma vantagem evolutiva, na medida em que consolida o vínculo do casal e substância está ligada a transtornos,
facilita os comportamentos parentais como dependência, impulsividade e
ansiedade, e modula a atividade de
Vínculo, dependência e desapego conjuntos de neurônios no cé rebro,
agindo sobre o comportamento do
indi víduo. Mediante uma modifi-
Paixão e apego são emoções funcionais pa ra relacionamentos dura- cação do sistema serotoninérgico a
douros. Um impulso oposto, no e ntanto, pode nos impelir a buscar
imagem do ser amado transforma-se
outro parce iro mesmo quando temos um re lacionamento estável.
Alguns estudiosos, como o etologista Norbert Bischof, consideram em obsessão.
esse comportamento como uma reação ao "excesso de segurança", N o transtorno obsessivo-com-
uma sensação à qual se reage afastando-se do objeto de apego, pulsivo, há preocupação constante.
nada mais, nada menos do que o que os adolescentes fazem quando Acred itando, por exem plo, que a
sente m a exigência de se desvencilhar dos afetos infa ntis.
porta está mal fechada, a pessoa
Alguns neurofisiologistas falam e m "resposta de saciedade": uma
espécie de dessensibilização do cérebro em relação a um estado ve ri fica-a incessantemente. Em
que durou demais. Todavia, a experiê ncia não pára de demonstrar neurobiologia, a "crença na porta
o quanto são variáveis os indivíduos e as condições existe nciais: mal fechada" baseia-se na atividade
existe m aqueles em const ante busca de novas aventuras, mas tam- de grupos de neurônios que são ati-
bém pessoas cujo a pego perdura longamente; existem as diferenças vados de forma repetida e descon-
de temperamento que dividem; as afinidades e letivas que une m;
trolada. Suspeita-se que uma cadeia
os casos da vida. As culturas, e nfim, tê m o poder de amplificar um
ou outro aspecto do a mor, acrescenta ndo complexidad e a nossos de retroação passando pelo córtex
comportamentos, escolhas e emoções. e tálamo reative permanentemente
A complexidade nesse campo é notável. O apego, por exemplo, a atividade nervosa do mesmo
representa uma va ntagem evolutiva, na medida em que consolida grupo de neurônios. O papel da
o vínculo do casal e facilita os comportamentos parentais, mas
seroton ina nessa at ivid ade ainda
seu e xcesso leva à obsessão e ao ciúme. Esses sentimentos pode m
aparece r a qualque r momento da relação: na fase da atração, na não foi demonstrado, mas, se de fato
do apego, mas também depois de uma separação "definitiva". É na existi r, o caráter obsessivo da paixão
força do víncu lo que afundam as raízes, as ambivalê ncias e as lutas seguiria a lógica do e terno retorno
daqueles q ue, ao se separar, têm de resolver o conflito criado e ntre das imagens obsessivas.
o desejo de novidade e a fo rça da dependência.
Entretanto, os pensamentos lan-
Romper um relacionamento não é fácil: a racionalidade tem de
entrar em acordo com a emotividade, o dito com o não-dito; muitas cinantes do apaixonado e os trans-
vezes também é preciso sair em busca de uma nova identidade para tornos obsessivos se distinguem pelo
substituir aquela que, com a falta da ligação, se desagrega. Como "grau de certeza" experimentado e
o apego, o processo do "des-apego" também tem seus prazos: é pela capacidade da pessoa de aceder
preciso se desacostumar, como acontece com a droga. a seus próprios estados psíquicos. No
transtorno obsessivo predominam a

76 MENTE&CÉREBRO • EQUILfBRIO DAS EMOÇÕES


perdidamente apaixonadas, mas que Após a fase
ainda não tiveram relações sexuais
com o ser amado.
de conquista
a serotonina
Antes do sexo cede lugar à
Nessa fase de expectativa, a concen-
tração no transportador de seroto- dopamina,
nina sofre as modiflcações carac- o ''hormônio
terísticas dos pacientes obsessivos.
Um ano depois {prazo considerado do prazer /1

suflciente para a consumação do


caso), a medição mostrou que as
taxas de transportador de serotonina
voltavam a seu nível inicial e a ob-
sessão desaparecia. O amor insano
seria uma "patologia" que curamos
ao saciá-lo. O paciente obsessivo,
ao contrário, jamais se tranqüi liza
quando a porta é fechada.
Do ponto de vista hormonal, na
primeira fase do amor, a obsessiva,
são acionados circuitos de neurônios
que utilizam a serotonina. Estudos
genéticos sugerem que estas redes
CRENÇA DA PORTA mal fechada: há atividade ne urona l similar entre têm papel inibidor do compor-
pacie ntes obsessivos e pessoas apa ixo nadas tamento, suscitando nos apaixo-
nados formas de amor duráveis e
dúvida (o paciente não se convence entre a obsessão livremente consen- românticas, marcadas pela timidez
de que a porta está fechada) c a tida e o delírio. e caracterizadas por preocupações
introspecção (tem consciência do A associação entre obsessão quase obsessivas em relação ao par-
absurdo de suas idéias obsessivas c e paixão é confirmada por uma ceiro, com um envolvimento e uma
sabe que emanam de sua mente). Em observação flsiológica: a atividade fldelidade mais acentuadas.
certas formas de delírio prevalecem, cerebral das pessoas que sofrem de Q uando o amado é conquis-
ao contrário, a certeza (a pessoa está transtornos obsessivo-compulsivos tado, porém, a serotoni na cede
convencida de que alguém a quer caracteriza-se pela hiperatividade de lugar à dopamina, o "hormônio do
mal) e a perturbação das capacidades uma região chamada núcleo caudal, prazer". Os grupos de neurônios
de introspecção {prevalece a con- a mesma que é ativada quando os que utilizam a dopamina intervêm
vicção de que tem razão e de que os apaixonados pensam no ser amado. nos componentes ligados ao prazer Affectlve
outros estão errados). Trata-se, portanto, de um novo e até mesmo naqueles ligados à neurosclence.
A paixão evoluiria assim entre a índice fornecido pelo imageamento dependência. Pesquisas evidencia- The foundatlon
obsessão e o delírio: o apaixonado ofhuman and
cerebral em favo r da semelhança ra m um sistema dopam inérgico
animal emotlons.
está convencido do valor do ser entre os dois estados. particular em pessoas que buscam ]. Panksepp. Oxford
amado e de seu sentimento, mas Sabemos que o amor também pem1anentemente aventuras sexuais. University Press, 1998.
sabe que essa idéia é um produto de proporciona fel icidade e intensa Elas têm freqüentes variações cíclicas Drogensucht
seu psiquismo. As idéias delirantes se satisfação, ao passo que o transtorno do humor, o que as torna versáteis. - Elngrlff und
Elngbllck lns
distinguiriam das dos apaixonados obsessivo é um sofrimento. O nde Assim um funcionamento que oscila Gehlrn. R.
pelo fato de que o amante tem cons- situar a fronteira? Marazziti e seus entre esses dois sistemas cerebrais, Schwarting, H.
ciência de seu tormento: escravo de colegas estudaram a fase precoce o da serotonina e o da dopamina, Kettenmann e M.
Gibson, (orgs.), em
seu desejo, está consciente disso. A do amor, definida por Stendhal teria o dom de tornar a pessoa
Kosmos Gehim, adendo
biologia endossa a concepção de como uma paixão não consumada, intensamente apaixonada e, depois, a "Neuroforum", pág.
que o sentimento amoroso situa-se restringindo a pesquisa a pessoas calmamente satisfeita. ..-ec 66, 2001.

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ermelho, amarelo, verde. dentre eles, Matthieu Ricard. Com
Diante das diferentes cores todos, o resul tado foi o mesmo.
nas imagens de ressonância "A felicidade é uma habilidade que
mag nética fu ncional (fM RI), o se pode aprender, tanto quanto a
neuropsicólogo Richard Davidson, prática de um esporte ou o toque de
da Universidade de W isconsin, um instrumento musical", concluiu
identifica as regiões do cérebro que o pesquisador. Nas pessoas mais
apresentam atividade significativa infelizes e pessimistas, o predomínio
enqua nto seu voluntário pratica é do córtex frontal direito-em casos
meditação. Com certeza, o tubo extremos, elas sofrem de depressão.
estreito e barulhento do tomógrafo Tipos otimistas, ao contrário, que
é um dos locais mais estran hos atravessam a vida com um sorriso
onde o monge Matthieu Ricard já nos lábios, têm o córtex frontal
meditou nos seus mais de 30 anos esquerdo mais ativo. Experimentos
de vida budista. mostraram que essas pessoas su-
Sem o Dalai Lama, é provável peram com mais rapidez emoções
que a insólita colaboração entre o negativas. Fica evidente que essa
neuropsicólogo e o monge jamais região cerebral mantém sob controle
tivesse acontecido. Há poucos anos os sentimentos "ruins"e, dessa forma,
Davidson visitou o chefe espiritual talvez responda também pelo equi-
do budismo tibetano em seu exílio líbrio mais feliz e pela paz de espí-
na Índia. Discutiram as descobertas rito que caracteriza tantos budistas.
mais recentes e, em particular, como De imediato, choveram críticas:
surgem as emoções negativas no cé- como podia ele saber, arinal, se
rebro. Raiva, irritação, ódio, inveja, aqueles mestres já não possuíam
ciúme - coisas praticamente desco- cérebro "feliz" antes de pisar num
nhecidas para os monges budistas, mosteiro? A objeção fazia sentido e

--- e @ já que eles encaram com serenidade


e satisfação até mesmo o lado ruim
as pesquisas prosseguiram. Em um
dos experimentos, foram recruta-
-- da vida. Pesquisador das emoções,
Davidson queria saber se atividades
dos voluntários entre funcionários
de uma empresa de biotecnologia.
puramente mentais poderiam modi- Metade formou um grupo de con-
ficar o cérebro c, em caso afirmativo, trole, enquanto os 23 restantes rece-
de que forma isso atuaria sobre o beram treinamento em meditação,
estado de espírito e a vida emocional com aulas semanais de duas a três
de uma pessoa. Os budistas vêem horas, com mais uma hora diária de
sua doutrina como uma ciência da treino em casa.
mente, e a meditação, como meio O treinamento mental deixou
de treiná-la. vestígios, observados por elctroen-
cefalografia (EEC). A atividade no
Otimismo à esquerda lobo frontal dos que aprenderam a
O primeiro voluntário de David- meditar deslocou-se da direita para
son, um religioso de um mosteiro a esquerda. Eles relataram sentir
indiano, trazia na bagagem mais menos medo e um estado de espírito
de 10 mil horas de meditação. No mais positivo. No grupo de contro-
laboratório, surpreendeu os pesqui- le, as ondas cerebrais não revelaram
~ sadores. Seu córtex frontal esquerdo muda nça. Os novos resultados
~
~
revelou-se muito mais ativo que o de corroboravam a hipótese inicial: a
~ outras 150 pessoas sem experiência meditação é capaz de modificar de
~ de meditação. O neuropsicólogo forma duradoura a atividade cere-
~·~~iJ~!!Íiililiii~~t:~!:b~::.liiii:.J o continuou testando mais monges e, bral. E, ao que parece, isso funciona

www.mentecerebro.com.br 79
não apenas para os monges, mas aberto, a explosão me pareceu mais fe nômeno controlável de forma
também para leigos. suave, como se eu estivesse bem consciente? Carter e Pettigrew
Nesse meio tempo, o psicólogo longe", justificou o voluntário. descobriram que sim.
Paul Ekman, da Universidade da Outro fenômeno que interessa Os pesquisadores solicitaram
Califórnia em São Francisco, tam- aos neurocientistas e fez Olivia a 76 monges budistas, com idade
bém se interessou pelos monges. Cartere Jack Pettigrew, da Univer- entre 5 e 54 anos, que fizessem a
Ele se ocupa das emoções básicas, as sidade de Q ueensland, Austrá lia, cham ada meditação focada em
reações emocionais inatas- o susto viajar até o Himalaia, é a rivalidade um só ponto. Duran te a prática,
que nos faz tremer as pernas, por binocular. Em geral, o cérebro não ou pouco depois dela, os monges,
exemplo, quando um rojão explode encontra problemas pa ra fundir dotados de óculos especiais, foram
inesperada mente perto de nós. numa única imagem a informação obrigados a contemplar ao mesmo
Respondemos de forma automática visual recebida pelos olhos. Mas o tempo dois padrões diferentes- um
a esses ruídos súbitos, graças ao que acontece quando, por meio de para cada olho. Resul tado: mais da
stnrtlerejlex, o reflexo de susto - que é um aparelho apropriado, cada olho metade conseguiu prolongar niti-
sempre idêntico em todas as pessoas vê uma imagem diferente? damente cada fase das comutações
e escapa ao controle da consciência. Não podemos ver as duas coisas típicas da rivalidade binocular.
No entanto, nem todos se as- ao mesmo tempo, razão pela qual o Alguns foram capazes até mesmo
sustam na mesma intensidade, isso cérebro resolve a disputa de forma de reter uma imagem por mais de
porque a magnitude da contração diplomática: primeiro, decide-se cinco minutos- façanha impensável
muscular permite inferir o estado de por uma das imagens para, então, para os voluntários sem experiência
espírito do indivíduo. Q uem sente passados algu ns poucos segundos, meditativa. O feito, no entanto,
emoções negativas com freqüência mudar para a outra. E sai pulando revelou-se dependente da técnica
tem o reflexo bem mais pronunciado. daqui para lá e de lá para cá: nossa de meditação utilizada. Quando,
Portanto, Ekman esperava que nos percepção consciente alterna sem em vez da meditação focada em
monges budistas a reação de susto cessar as imagens percebidas por um só ponto, os monges emprega-
estivesse abaixo da média. Mesmo um olho e pelo outro. No entanto, ram outro método- voltado a um
assim, o resultado o deixou perplexo. a modalidade do estímulo, ou seja, mergulho interior mais genérico-,
DALAI LAMA: Depois de um forte e súbito ruído, o tipo de imagem apresentada aos a alternância constante das imagens
investimento em
pesquisa cerebral na nada se moveu no rosto do mestre. olhos, determina para que lado manteve-se a habitual. Assi m, a
busca pela compaixão "Enquanto eu rumava para o estado penderá a disputa. Seria esse um estabilização da percepção visual
depende não apenas da meditação
em si, mas também do modo como
ela é praticada.

Mistério da consciência
Os pesquisadores australianos apro-
veitaram para investigar também a
"cegueira induzida por movimento",
fenômeno até então aparentemente
inconsciente. Em um dos experi-
men tos, o voluntário contempla
uma grande quantidade de pontos
que disparam numa tela. Entre eles,
porém, é possível ver alguns pontos
fi xos, em geral de outra cor, que
tendem a desaparecer ao lado do
movimento dos outros. É como se
o cérebro os apagasse, mas não por
muito tempo: eles costumam voltar
por brevíssimos instantes, coisa que o
indivíduo não tem como impedir.

80 MENTE&CÉREBRO • EQUILfBRIO DAS EMOÇÕES


PELA MEDITAÇÃO é possível mod ificar aspectos da consciência e da personalidade

Um d os monges, porém, um cérebro por breves períodos, têm com essa h ipótese - e algumas Pesquisadores
eremita que se dedicava havia déca- freqüências em torno de 40 Hz evidências parecem confirmá-la - ,
das e em total solidão ao mergulho e parecem acompan har esfo rços as ondas gama constituem um tipo
acreditam que
A •
interior, pôde perfeitamente elimi- cognitivos intensos. Os resultados de freqüência superior de controle neuromos se
nar os pontos fixos que em geral mostram que, por mais relaxado que sincronizaria e reuniria regiões
afloram cintilantes à consciência. A que um monge budista possa pa- diversas, espalhadas por diferentes
comunicam
equipe deduz iu que, na mente des- recer, seu cérebro não se desliga de partes do cérebro. por meio de
ses mestres da meditação, algumas modo algum enquanto ele medita. Isso explicaria por que a me-
uma espécte
coisas transcorrem de modo não Mas o que mais fascina os cientistas ditação é tida como um caminho
usual. "Diferentes modalidades de é a segunda possível explicação para alcançar outros estados de de código
meditação e tempo de treinamento para a existênc ia das ondas gama consciência. "Se todos os neurônios identificador:
conduzem a modificações de curto - hipótese que, aliás, envolve um vibram em sincronia, tudo se unifi-
e longo prazo no plano neuronal", dos maiores mistérios da pesq uisa ca, já não se distingue nem sujeito as ondas gama
concluíram os pesquisadores. cerebral: a consciência. nem objeto. E essa é precisamente a
Richard Davidson encontrou característica central da experiência
outras comprovações dessa tese, Experiência espiritual espiri tual", diz Davidson. Mesmo
g raças à ajuda de Matthieu Ricard Quando tomamos um cafez inho, o antes da meditação, a at ividade
e de mais sete monges enviados que percebemos conscientemente gama no cérebro dos monges era
pelo Dalai Lama a seu laboratório é a impressão geral - os componen- visivelmente mais intensa que no do
nos Estados U n idos. Nesse caso, tes isolados são processados pelo restante dos volu ntários, sobretudo
a forma de meditação solic itada cérebro em diversas regiões. Uma no córtex frontal esquerdo, decisivo
foi a conhecida como compaixão reconhece a cor preta, outra identi- para o equilíbrio e mocional. Na
incondicional. Os monges deveriam fica o aroma típico, uma terceira, a opinião do neuropsicólogo, essa é
se manter nesse estado por um curto forma da xícara e assim por diante. mais uma prova de que, pela medi- O monge e o filósofo:
período de tempo e, em seguida, Mas não se descobriu até hoje que tação, é possível modificar aspectos o budismo hoje. Jean-
François Revel e Matthieu
deixá- lo. Enquanto isso, Davidson área cerebral junta todas as peças da consciência e da personalidade Ricard. Mandarim, 1998.
registraria suas ondas cerebrais com desse quebra-cabeça. Por isso, os como um todo. "As conexões no Studylng the well-
auxílio de 256 sensores distribuídos estudiosos da consciência supõem cérebro não são fi xas. Isso quer tralned mlnd. M.
por todo o crânio. A compa ração que os neurônios e nvolvidos se co- dizer que ning uém precisa ser Barinaga, em Science,
302 (5642), págs. 44-46,
com um g rupo de novatos revelou muniquem por intermédio de uma para sempre o que é hoje." Disso,
2003.
diferenças gritantes. Durante a espécie de código identificador- as Ricard não tinha dúvida alguma:
Alteratlons In braln
med itação, a chamada atividade ondas gama. Q uando os neurônios "Meditação não significa sentar-se and lmmune functlon
gama sofreu forte aum e n to no para "preto", "aroma" e "xícara" embaixo de uma mang ueira e curtir produced by mlndful
medltatlon. R. Davidson
cérebro dos monges, ao passo que vibram juntos a uma freqüência o mo mento. Ela envolve profundas
et ai., em Psychasomatic
mal se alterou nos inexperientes. Em de 40 H z, o cafez inho "surge" modificações no ser. A longo prazo, Medicine, vol. 65, págs.
geral, ondas gama só aparecem no na nossa consciência. De acordo nos tornamos outra pessoa". nec 564-570, 2003.

www.mentecerebro.com.br 81
I
magine que você tenha de es- Todos os dias nos confron-
colher entre dois empregos que tamos com escolhas. Às vezes,
igualmente lhe agradam. Ambos essas decisões são d ifíceis, pois
oferecem bom salário, mas um exige é preciso apostar na qualidade
poucos deslocamentos, enquanto daquilo que vamos escolher e na
o outro impõe viagens freqüentes. satisfação que nos trará.
Você opta pelo primeiro e apesar de
gostar do trabalho, descobre um dia No vermelho
que a pessoa admitida para a outra Segundo as teorias clássicas da eco-
vaga ganha um salário bem maior nomia, os profissionais da decisão
que o seu. Decepcionado com sua (corretores da bolsa de valores, por
opção, você se sente responsável por exemplo) aprimoram suas estraté-
essa escolha. E se arrepende. gias de escolha fundando-se sobre
Numa outra situação, você tem o "valor esperado", isto é, a proba-
de escolher entre viajar para a praia bilidade de obter certo resultado
ou para o campo. Você fecha os multiplicado por esse resultado.
olhos e imagina o vento do mar no Um jogador de cassino calcula a
rosto. Então pensa: "Será que, se for probabilidade de ganhar R$ 100 no
para a praia, vou ficar pensando no vermelho e R$ 500 no verde. Se a
charme de um chalé com lareira e no chance de ganhar R$ 100 é de uma
clima ameno da montanha?". Con- em dez e a de conseguir R$ 500 é
clui que sim e escolhe viajar para o de uma em 100, o "valor esperado" é
campo. Você não se arrepende. de dez no primeiro caso e de cinco
Neste caso, foi possível an- no segundo. Se for racional, ele
tecipar as emoções que a outra preferirá apostar no vermelho.
escolha causaria. A manobra men- Entretan to, sabe-se que as
tal ajuda na decisão. Todos nós decisões humanas, na prática, são
procedemos assim recorrendo às influenciadas por diversas consi-
nossas experiências, de modo que derações pouco racionais. Muita
os arrepend imentos "fictícios", gente prefere uma soma menor
aqueles que imag inamos como (digamos, R$ 450) com probabili-
conseqüência eventual de nossas dade de ganho de 100% (tem-se a
escolhas e os sentimentos que os certeza de ganhar a quantia) a um
acompanham, estão na essência de valor superior associado a uma pro-
muitas decisões. babilidade menor (R$ 1 mil, com

POR LESUE SABBAGH


Jornalista científica especializada
em medicina.
TRAOUÇÀO: Mareei (rovefli

www.mentecerebro.com.br 83
chance de 50%), ainda que neste princípio é análogo ao da roleta. hora, diversos pares de roletas são
caso o lucro possível seja maio r. Por Na competição, os jogado res apresentados, cada uma com apostas
que somos tão racio nais? são colocados diante de um moni tor e probabilidades variáveis.
É possível examinar esse meca- de compu tador onde aparecem, a Na primeira parte do teste, os
nismo voltando-nos para algumas interva los regulares, duas roletas. participantes desconhecem os resul-
pessoas que, po r causa de lesão Eles escolhem uma delas para jogar tados da roleta que não escolheram.
cerebral no córtex órbita-frontal {na depois de pensar bem, já que as Assim, é impossível haver arrependi-
altura da testa, bem acima dos olhos), possibilidades de ga nho não são mento: no máximo, eles podem Acar
nunca se arrependem. Elas têm as mesmas. Pode-se escolher entre satisfeitos ou decepcionados com
diHculdades conside ráveis na vida uma roleta que oferece 50% de o resultado da sua ro leta, como a
cotidiana e, sem saber antecipar os oportunidade de ganhar R$ 40 e pessoa que escolheu o emprego sem
arrependimentos a que estarão sujei- 50% de perder R$ lO(fi!}ura 1a), por viagens e ignora o destino de quem
tas, são incapazes de tomar decisões exemplo, e outra com 80% de chan- aceitou o outro.
que possam satisfazê-las. Em nosso ce de perder R$ IOe 20% de ganhar Observa mos as reações dos
estudo, propusemos a esses pacientes R$ 40. Logicamente, os jogadores pa rticipa ntes de dois modos. No
-e a voluntários sãos- um jogo cujo escolhem a primeira. Durante uma prime iro , colocamos e le t rodos

Anatomia cerebral no jogo da roleta


© jogador normal © jogador com lesão no córtex 6rblto·frontal

1a 1b 1. Os participantes devem escolher entre


Primeira roleta Segunda roleta Primeira roleta Segunda roleta duas roletas e clicar naquela com que
desejam jogar. Num primeiro caso (a), o
participante escolhe jogar com a primeira
roleta- que dá 50% de chance de perder
RS 10 e 50% de ganhar RS 40-, em
vez da outra - com a qual teria 80% de
possibilidade de perder RS 10 e 20% de
ganhar RS 40. O resultado da segunda roleta
não é mostrado. Na roleta escolhida, ele
perde RS 10 e fica decepcionado. Depois,
nas outras três escolhas que faz, ele fica
indiferente (b), e em seguida contente. As
reações das pessoas sãs e daquelas com
lesão no córtex órbito-frontal são idênticas
neste caso.

@ ®
Muito Indiferente
©G \t) ©
Contente Indiferente Muilo
contente 2. Numa segunda parte da experiência,
2c 2d escolhe-se entre as duas roletas, mas,
quando elas param de rodar, o jogador
vê o resultado da roleta não escolhida.
Seu grau de contentamento ou decepção
difere da primeira experiência, pois agora
ele compara. Assim, quem lamenta ter
perdido RS 10 sem saber que poderia ter
ganho RS 40, fica louco de arrependimento
quando vê o re sultado da segunda roleta.
Contrariamente, perder apenas RS 10, e
não RS 40, traz satisfação, e ganhar RS 10
sem perder quatro vezes esse valor deixa-
o extasiado. Nos pacientes com lesão no
córtex órbito-frontal, a emoção não varia
quando vêem a segunda roleta, pois eles
não se arrepe ndem.

84 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO OAS EMOÇÕES


EM ESTUDO, jogador saudável se mostra satisfeito por ter perdido RS 10 e não RS 40; em pacíentes com lesão a emoção não varia

em seus dedos e constatamos que rea lmente tiveram sorte. O fato tentes de embolsar os R$ 10. Mos- Segundo
quanto mais forte a emoção, maior de os participantes com o u sem traram-se, porém, mais satisfeitos de
neurologistas,
a corrente elétrica registrada, pois lesão cerebral terem apresentado as perder a quantia ao ver que na outra
as mãos ficavam umedecidas de mesmas reações mostra que a zona roleta teriam perdido R$ 40. Sega- algumas
suor. No o utro, pedimos que des- cerebral em questão não intervém nhassem R$ 40, sabendo que na ou- pessoas sao
crevessem como se sentiam naquele na capacidade de ficar contente ou tra perderiam o mesmo valor (figura
mome nto anotando, numa escala de descontente com o resultado de 2d), então ficariam muito satisfeitos. incapazes de
-50 a +50, se estavam bem ou mal. uma experiência. produzir os
Todos tiveram reações similares. Nu m segundo momento, os Perdas e ganhos
Se o ponteiro parava, por exemplo, participantes tiveram de optar entre A diferença mais evidente verifi- ''marcadores
num po nto da roleta que repre- as duas roletas, mas, depois de feita cou-se nos jogadores cujo córtex somáticos"
sentasse perda de R$ 10, quando a escol ha, foram informados sobre o órbito-frontal é lesado: eles ficam
poderia parar numa área que lhes resultado da outra roleta. Com isso, decepcio nados se perdem R$ IO,
que antecipam
faria ganhar R$ 40 (figura -~r~), todos tinha m chance de se arrepe nder mas essa decepção não é reforça- as escolhas
eles se decepcionavam. quando o resu ltado da segu nda da por saber que na outra roleta
roleta se mostrava melhor que o da seria possível faturar R$ 40; ela é
Antecipações prejudicadas escolhida. Eles estavam numa sinta- a mesma de quando não sabem o
Além disso, os dois grupos não sen- ção parecida à do trabalhador que outro resultado. Do mesmo modo,
tiram nenhuma emoção particular fica sabendo dos ganhos do colega se ganham R$ 10, ficam contentes.
ao ganhar R$ lO numa situação em no emprego que recusou. Mas a satisfação não aumenta se
q ue poderiam ganhar R$ 40: a ale- Neste caso, os participantes sãos contamos a eles que na outra roleta
gria de ganhar menos é temperada mostraram-se muito decepcionados teriam perdido R$ 40 (figura 2d).
pela d ecepção de não ter ganho ao perder R$ lO e ver que na outra A ausência de arrependimento
mais (figura 1b nn príg. no Indo). Do roleta teriam ganho R$ 40. Eles parece invejável, mas, de fato, tem
mesmo modo, eles expressaram haviam feito uma escolha e e ram um lado prejudicial. Pessoas capazes
pouca emoção ao perder R$ IO responsáveis pelas conseqüências, já de se arrepender antecipam no pre-
numa situação em que poderiam que teriam ganho mais se tivessem sente os arrependimentos que terão
ter perdido R$ 40: a decepção de escolhido o outro equi pamento. se fizerem uma ou outra escolha,
perder R$ 10 é compensada pelo Ficaram igualmente desapontados graças a seu córtex órbito-frontal, e
alívio de não ter perd ido mais. Por ao ganhar R$ I Oe ver que poderiam essa antecipação aprimora as esco-
o utro lado, ficaram contentes em ter conseguido quatro vezes mais. lhas: no fim do jogo, constatamos
ganhar R$ 10 q uando poderiam Quando desconheciam os resulta- que os participantes normais ga-
ter perdido mais: desta vez, eles dos da segunda roleta, ficavam con- nharam em média R$ 60, enquanto

www.mentecerebro.com.br 85
A diferença
entre a
decepção e o
arrependimento
está na culpa
presente no
segundo caso

PENSAR HIPOTETICAMENTE ao planejar uma jogada engendra sentimentos de responsabilidade

aqueles com lesão no córtex órbito- definido como a emoção ligada essa anomalia não resu lta de falta de
frontal terminaram devendo R$ 20. à capacidade de representar a si conhecimento ou de inteligência.
O córtex órbito -fronta l, que mesmo em situações hipotéticas. Segundo o neurologista An-
nos permite antecipar o arrepen- Sendo um sentimento desagradável tónio Damásio, ela se ria conse-
dime nto no momento de tomar associado à noção de responsabili- qüência de um déficit emocional.
uma decisão, é respo nsável pela dade, tiraríamos dele lições e, assim, Os pacientes seriam incapazes de
capacidade de nos projetarmos diminuiríamos os riscos de decep- produzir "marcadores somáticos",
emocionalmente no futuro, o que ção quando precisássemos decidir isto é, reações emocionais mani-
facil ita decisões A diferença entre a algo. Essas experiências esclarecem festadas quando antecipamos uma
decepção e o arrependimento está muito sobre a maneira como toma- decisão, as quais nos previnem dos
no sentimento de culpa, presente mos decisões e mostram que cada resu ltados prováveis da escolha que
no segundo caso: pacientes com um se projeta inconscientemente nos preparamos para fazer (por
lesão cerebral se decepcionam no futuro quando se confronta exemplo, o desconforto que senti-
quando a seta pára num valor nega- com escolhas. Eis a origem do mos diante da idéia de repreender
tivo, o que mostra que são capazes arrependime nto: em tempos pré- severamente um amigo).
de antecipar um bom resultado e históricos, o cérebro humano teria Nossos estudos sugerem que
de sofrer uma emoção negativa se desenvolvido essa capacidade, que o arrependimento constituiria um
o objetivo não é alcançado. lhe conferia uma condição superior marcador somático controlado
na tomada de decisões. primeiramente pelo córtex órbito-
Conquista da evolução Tal superioridade é tão clara frontal. Essa região teria se tornado
Todavia, a decepção não aumenta que numerosos estudos mostram muito importante por conduzir
se a outra roleta tem um bom que pessoas com lesão no lobo todas as situações de escolha, no-
resultado: eles não imaginam que órbito-frontal encontram grande tadamente pela produção de "arre-
teriam se dado melhor se tivessem di Acuidade para tomar decisões no pendimentos antecipados". Assim,
fei to outra opção. A capacidade meio social. Por exemplo, tendem o arrependimento seria um "efeito
The involvement of de pensar em termos hipotéticos a perder o emprego, são incapazes secundário" de nossa capacidade
the orbitofrontal
cortex in the engendra o sentimento de responsa- de manter relações pessoais estáveis de tomar decisões. Inversamente, as
experience of regret. bilidade diante da situação presente. com as pessoas próximas e fazem pessoas incapazes de se arrepender
N. Camiile et ai., em
Science, vol. 21, págs. Do ponto de vista neurobioló- repetidamente investimentos finan- tomam decisões que com freqüência
1167-70, 2004. gico, o arrependimen to pode ser ceiros desastrosos. Curiosamente, as colocam em dificuldade. nec

86 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES



S
egunda-feira de manhã. U m está baseada princ ipalmente no
h om e m sa i de c asa pa ra córtex cerebral, mas informações
tomar o ônibus que o levará mais recentes e detalhadas indicam
ao trabalho. O calor do sol bate e m outros compone ntes processados
seu rosto. A disposição que sente é e m d ife re ntes áreas d o cérebro.
tanta que resolve caminhar até o Com o prog resso das pesquisas,
escri tório, embora isso signifiq ue logo conhece re mos a base neu-
15 minutos a mais do que o traje to ropsicológica da consciê ncia; neu-
do ônibus. roc ientistas e cie ntistas cognitivos
A situação é tão prosaica que, po de rão e ntão o fe rece r novos
antes mesmo de atingir o próximo dados para enriquecer os debates
quarteirão, ele já está pensando em filosóficos e ta lvez torná- los mais
outras coisas. Os filósofos identifi - objetivos. O u talvez os pesquisa-
cam aí problemas muito complexos do res acabe m levanta ndo novas
que os tê m mantido ocu pad os questões filosóficas fundamentais.
por mais de 20 0 a nos. De alguma Vamos su por que os estud iosos
maneira os sent idos e os neurô nios descubram que chegamos a nossas
do perso nagem de nosso exemplo crenças, julgamentos e decisões por
captaram o brilho do sol como uma meio de um processamento direto
sensação "agradável", e foi isso que de info rmações pelos neurônios.
o fez tomar a sú bita decisão de Isso pode ria signi fica r que o ho -
caminhar e m vez de recorre r ao me m que saiu de casa cedo para
ônibus. Todo mundo já passou por trabalhar não tomou a decisão de
situações desse tipo sem se dar con- camin har até o trabalho de livre e
ta da exata conexão e ntre uma si m- es pontânea vontade, mas reag iu
ple s atividade neuronal, a resposta como fantoche absolutamente
subjetiva a ela e o livre exercício g uiado pela particular conexão dos
da vontade. Será que a atividade neurônios e m seu cérebro.
cerebral e a sensação "agradável" O fato é que as ativid ades
são, em última análise, a mesma cerebrais estão ligad as de modo
coisa, ou essa sensação consciente inex tricável à concepção dos seres
surge como efeito secundário da huma nos acerc a de si mesmos.
ação dos neurônios? Precisamos, portanto, recorrer à
Estamos d iante do antigo dile- fi losofia para avaliar os avanços
ma entre mente e corpo: qual é a biológicos na solução do quebra-
POR MICHAEL PAUEN
Professor de filosofia da relação entre os processos físicos ca beça d a relação mente-corpo.
Universidade Otto von do orga nismo e a consciê nc ia? Como os processos cerebrais se
Guericke, em Magdeburgo,
Alemanha.
Cérebro e mente são mesmo duas re laciona m à consciê nc ia? Se rá
TRADUÇÃO:j osé Oscar de ent idades d iferentes? Já há algum possível explicar cie ntificame nte a
Almeida Marques tempo sabe mos que a consciê nc ia consciê nc ia? E, nesse caso, como

www.mentecerebro.com.br 89
esses resultados influenc iariam formula diversas hipóteses sobre sos que os fazem seguir por um
nossa auto-imagem de seres dota- o que outras pessoas na rua estão caminho diferente do inicialmente
dos de livre-arbítrio e responsáveis pensando ou sentindo, baseando- planejado. A atividade neuronal
pelas próprias ações? se em expressões faciais ou outras também influencia a percepção dos
informações que ele experimenta processos mentais: quando nosso
Duelo filosófico indiretamente, por meio do filtro de personagem vira a esquina e con-
Para muitos filó sofos , durante seus sentidos. Mas tem acesso direto tinua a caminhar, se vê em uma rua
séculos, a mente era uma entidade a seus próprios pensamentos e dese- bastante sombria e arrepende-se da
autônoma, freqüen te mente con- jos; acesso, aliás, que só ele tem. decisão de não tomar o ônibus.
cebida como um "homúnculo", ou Isso nos conduz à primeira Mas os dualistas também su-
ser humano em miniatura, capaz de questão formulada acima: como os põem que os processos físicos e
observar o que ocorria no cérebro. processos cerebrais se relacionam mentais contraste m uns com os
Hoje a consciência é considerada à consciência? Há dois pontos de outros, algo problemático do ponto
uma representação de um grupo vista dominantes na filosofia quan- de vista cie ntífico. Tal hipótese
de processos mentais - tais como to à abordagem desse problema torna muito difícil explicar como
crenças, desejos ou temores - ex- - os dualistas ac reditam que o processos não-materiais podem
perimentados diretamente de uma cérebro e a mente apóiam-se em influenciar atividades materia is.
perspectiva pessoal. "Diretamente" dois diferentes tipos de processo; Os monistas de hoje não têm essa
sig nifica estarmos consc ientes para os monistas, um único tipo di ficuldade, pois conside ram o
desses estados sem depender de de processo subjaz às atividades func ionamento da mente efeito
informações de nossos sentidos. da mente e elo cérebro. de segunda ordem proveniente do
Assim , enquanto o homem Para os dualistas, as percepções mundo físico. Para eles, a consciên-
caminha até seu local de trabalho, são geradoras de im pulsos nervo- cia surge das atividades neuronais
da mesma maneira que campos
magnéticos advêm de corre ntes
elétricas em um fi o enrolado. Essa
idéia está muito mais de acordo
com a concepção científica, mas
antes de a aceitarmos como verda-
deira devemos ao menos verificar
empiricamente a existência da
interação - isto é, provar que um
campo mental consciente pode ser
encontrado e defin ido. Mas não
dispomos, no presente, ele pistas
para explorar esse fenômeno.
De acordo com os monistas,
um único tipo ele processo ocorre
na cabeça, independentemente de a
atividade se desenrolar no domínio
mental ou neuronal. A di ferença
entre cérebro e consciência reside
simplesmente na maneira pela qual
são acessadas as informações . Se
esse acesso se dá por uma pers-
pecti va pessoal interna - como
ao perceber de manei ra agradável

PENSO, LOGO EXISTO: o filósofo


francês René Descartes é tido como
pai da doutrina dualista

90 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


a base de um tipo particular de Se consciência
atividade consciente, ainda não es-
taremos em condições de entender
é resultado
como a atividade dos neurônios se direto
relac iona à experiência consciente.
somente da
E essa é a pista para responder a
nossa segunda questão, sobre se é atividade
real mente possível uma expli cação cortical, então
cientínca da consciência.
Um fi lósofo procuraria formular seríamos
essa tese de forma um pouco mais apenas
clara. O que importa é a difere nça
entre uma simples determinação de marionetes
que a consci€ncia es tá associada a ele nossos
certos eventos neuronais e nossa
capacid ade de explicar por que
próprios
isso ocorre. Mesmo que seja pos- neurônios
sível descrever precisamente o que
acontece nos neurônios durante um
dado processo consciente, tudo o
que essa descrição nos diz é que tais
processos ocorrem sob certo con-
junto de circunstâncias, mas não
explica por que são especinca mente
essas as presentes e não outras.
Pode mos e nte nd er melho r o
q ue isso signinca examinando dois
famosos "experimentos mentais". O
primeiro deles se refere a Maria, uma
A PENAS FANTOCH ES1 Estudar o fu ncionamento cerebral nos ajuda a neurobiologista extre mamente ta-
com preender o livre-arbítrio lentosa que sabe tudo sobre como os
seres humanos percebem as cores.
o calor do sol na pele -, então os remos um vio loncelo "acústico" de Só que Maria é daltô nica e nunca
processos estão no âmbito da cons- um violoncelo "óptico". pôde ver nenhuma cor. Será que
ciência. Mas se ocorrem a partir de Se a diferença entre cérebro e seu perfeito conhecimento da per-
uma perspectiva externa -como ao consciência for atribu ída ao fato de cepção das cores lhe permite saber
observarmos outras pessoas na rua utilizarmos dois modos diferentes como é a experiência de pe rceber
sorrim.lo e o lhando para o sol -, u de acesso, então ninguém poderá uma cor? Não. Se um dia da for
processo é neuronal. alegar que a "real idade" está relacio- capaz de ver uma cor, experimentará
Embo ra essa teoria possa pa- nada apenas a processos neuronais. uma situação absolutamente nova.
recer um pouco artincia l, a vid a Corpo e mente terão então a mes- Aceitar isso, entretanto, significa que
cotidiana mostra que fe nômenos ma importâ ncia: nenhum será mais o conhecimento neurobiológico não
apare nteme nte distintos são muitas real que o o utro, e ambos serão nos pode fo rnecer nenhuma con-
vezes d uas faces da mesma moeda. d ig nos de estudo c ientínco. Para clusão segura acerca dos processos
Quando vamos a um concerto e os mo nistas, processos mentais são ocorridos na consciência- o que nos
vemos e ouv imos um vio lo ncelo, idênticos a processos cerebrais. leva a acreditar na extrema impro-
usamos doi s tipos de input per- babilidade de em algu m momento
te nce ntes a um processo ún ico Cores e morcegos encontrar explicação para a relação
de percepção. Mas e nquanto eles Resta, porém, um problema. Mes- entre cérebro e consciência.
estive re m d e acordo espacial e mo q ue possa mos identi fica r os Isso se torna ainda mais comple-
temporalmente, jamais d iferencia- processos neuronais que forma m xo com um segundo experimento

www.mentecerebro.com.br 91
mental, realizado nos a nos 70 pelo estejam ligados a processos mentais número de características objetivas
filósofo T homas Nagel, da Unive r- específicos, mas isso não é suficien- ident ificáveis ex te rname n te. Já
sidade de Nova York. Suponhamos te pa ra entendermos por que são conhecemos muitos aspectos dos
ma is uma vez que a consciê ncia seja esses os processos presentes e não vários estados de consciência, mas
apenas um fe nômeno ce rebral. Ima- outros, e não sabemos o que ocor- nosso saber ainda é insu ficiente. É
gi nemos também conhecer absolu- reria do po nto de vista subjetivo mui to cedo para afirmar que um d ia
tame nte tudo sobre os processos se os processos neuro nais fossem surg irá uma explicação ab rangen te
físicos q ue se passam no cérebro modificados. Assim, não estamos a respei to, mas tampouco temos
dos morcegos. Teríamos nesse caso ce rtos se morcegos - lagartos ou p rova d e que essa possi bilid ade
uma idé ia clara da co nsciência dos minhocas- têm consciê nc ia. Essa esteja excluída.
morcegos? Saberíamos "como é" ser pe rcepção to rna difícil responder a À medida que aprendemos mais
VISÃO HO LÍSTI CA. um mo rcego? ou tras questões ainda mais pe rtur- sobre a consciência, te mos de ig ual-
o filósofo holand ês bado ras: a parti r de qual momento mente considerar as implicações.
Espinoza é conhecido Libe rdad e e ilusão podemos afirmar que um feto pos- Suponhamos por um mo me nto ser
por suas idé ias Em ambos os exemplos nos fa lta sui consciê ncia e, conseqüenteme n- possível provar q ue a consciência
monistas, que
fundem mu ndo físico uma explicação. Podemos aceitar te, deve ser considerado ind ivíduo, é rea lmen te sinôni mo de certa
e ment al que a lg uns processos ne uro na is capaz de sentir do r? ativid ade nos neurônios do córtex
Algun s filósofos e c ientistas ce rebral. Teremos de lidar então
argumentam que o conhecimento com uma terceira grande questão:
da atividade neuronal não é, e m qual a conseqüência d isso para
princípio, adequado para fornecer a imagem que os seres humanos
expl icações sobre a consciênc ia. fazem de si mesmos?
Mas essa noção pode es ta r su- Se a atividade mental se identi-
bes tim a ndo o prog resso a fica a processos cerebrais, seg uindo
ser alcançado po r futuras le is pred itivas da Natureza, então
descobertas científicas. Nos não podemos mais afi rmar que a
séculos XV II e XVII I, por vontade seja livre. Nosso compor-
exemplo, era não plau- ta mento não será determinado por
sível que a luz bran- nós, mas sim por leis que governam
ca fosse composta de a atividade neuronal.
luzes de o ut ras cores Po r mais que esse a rgumento
-um conceito estabele- nos desagrade, é difícil discordar de
cido por lsaac New ton. sua lógica - até percebermos que
Cie nt is t as d e ponta, a liberdade está vinculada a duas
como Robert Hooke, d is- cond ições. Ja mais descreve ríamos
cord ara m absolutamente da um comportamento como livre se
teori a newtoniana, mas hoje se ele fosse de algum modo imposto
aceita pac ificame nte o fa to de por algo ex terior a nós. E a libe r-
a luz branca consistir num dade também deve ser separada de
espectro colorido comple- coincidências fortuitas. Se fo r mera
to. Ao acolhe rmos essa coinc idência os neurônios do sr.
descobe rta, abrimos P. provocarem sua decisão de ir a
caminho para expli- pé para o escritório, então ela não
cações científicas se o riginou em sua livre vontade,
p lausíveis para mas foi uma ocorrência aleatória.
mu itos outros Ações livres devem ser atribuídas
fe nômenos óp- a uma pessoa, e essa li berdade
ticos. surge, então, como uma espécie de
Para ente nder ato de criação. Pode mos atender
a consciê ncia, pre- aos do is c rité rios se traduzi rmos
cisa mos de um maior "libe rdade" por "autodete rm ina-

92 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


ção". Essa tradução é muito ma is Há um núcleo
que si mples jogo de palavras, pois
esclarece a lgo que co mum e nte
constituído
passa despercebido nas d iscussões pelos traços de
sobre a liberdade da vontade: a
personalidade e
liberdade requer uma pessoa, um . - .
self, que deve determi nar-se a si conv1cçoes mats
próprio. A determinação do self fundamentais
distingue uma ação livre de outra,
executad a de maneira mecânica. O que definem o
que é esse se!f? Certamente não se ser humano
trata de uma alma inte rna ou um
ho múnculo pilotando o destino.
É, ao contrá rio, uma espécie de
núcleo constituído pelos traços de
personalidade e convicções mais
fu ndamentais que definem o ser hu-
mano. Por exemplo, se eu acredito
que roubar é um ato repreensível,
en tão levarei ao caixa do super-
me rcado todas as mercadorias que
apanhei e paga re i por elas. Essa
ação é produto de minha vontade
espontânea, d irig ida por minha
própria determinação.
Q ue significa, então, para nosso
livre-arbítrio, que as convicções
e, conseqüentemente, o im pulso ENTENDER OS PROCESSOS neurológicos dos morcegos não significa conhecer
in ic ial de nossas ações estejam a consciência desses animais
baseados na atividade neuronal?
Se uma convicção específica está tempo todo. Mesmo quando as p rocessame nto das se nsações
na base de um ato motivado pela ações são desencadeada s por físicas pelo cérebro, que o tornam
livre vontade, essa vontade não é processos pré-conscientes, nosso consciente de que o corpo es tá
ameaçada pelo fato de a convicção comportamento deve ainda assim caminhando, pode apenas ser mais
ter base neuro nal. ser considerado autodeterm inado. lento do que o tempo necessá rio
Po r isso, o s tão discutidos expe- para processar as instruções para
Prime iro a ação rimentos realizados nos anos 70 cam inhar. É possíve l que tais
De fato acontece o oposto: ao efeti- pelo neuropsicólogo Benj am in experimentos modifiquem a con-
var um traço fundamental da perso- Libet, da Un iversidade da Ca- cepção sobre o papel da consciên-
nalidade, o processo neuronal forne- lifór nia em São Francisco, não c ia na tomada de dec isões.
ce a nossos desejos e convicções o contradizem a tese de que há com- A consciência e a capacidade
poder de agir - ele provê condições portamentos autodeterminados. d e determinar as próprias ações
para a ação autodeterminada. N ossa Libet descobriu que algumas ações são centrais para nossa noção de
autodeterminação não é colocada simples, como caminhar ou mover ser humano. E nossas conce pções
em risco quando nossos conceitos a mão, são inic iadas por processos dese mpe nham papel cruc ial em Como a mente
e convicções morais efetivam-se em neuronais a ntes de a pessoa tomar a lg uns dos assu ntos mais inten- funcio na. Steven Pinker.
Companhia das Letras,
uma base neuronal. a decisão conscie nte de produzir samente debatidos na atualidade. 1998.
De acordo com nossa defini- a ação. São discutíveis as conse- Quanto mais apre ndermos sobre Theories of
ção de autodeterminação, traços qüências desse experime nto, mas os meca nismos subjacentes à cons- consclousness: an
lntroductlon and
centrais da persona lidade devem e le ev ide nte me n te não ref uta ciência e ao livre-arbítrio, mais fácil assessment. William
estar conscientemente at ivos o a idéia de autodeterminação; o será resolvê-los. ne< Seager. RouUedge, 1999.

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A
sorte é real mente cega? sivelmente relacionados à sorte.
Psicólogos q ue trata ram O projeto, financiado por várias
do te ma ex plicam que, inst ituições, entre as quais a As-
po r t rás d a co nv icção de que sociação Britân ica para o Avanço
so mos "sorr u d os" ou "a z a ra - da Ciê nc ia, gerou um man ua l
d os", há o desejo de ma nte r o s chamado O fn tor sorte, tradu z ido
aco ntecime n tos so b con t ro le, em mais de 20 idio mas.
sobre tudo os q ue nos inqui etam . Não é a primei ra vez que a
A e xplicação te m a ntecede nte ciê ncia tenta revelar as leis da sorte
histó rico: já na década de 20 o e do azar. Há alg uns anos, o físico
antro pólogo Bro ni slaw M a lino- Richard A.). Matthews estudou as
wski o bservou que os pescadores chamadas leis de Murphy, a irônica
nati vos da M elanésia recorria m suma do pessimismo resumida na
a mag ias se mpre que ti nham de máxima "se alguma coisa pode dar
ex plo rar águas desco nh ecid as. errado, dará". Matthews investigou,
Quando perma neciam e m regi- em particular, por que uma fatia de
ões vizi nhas, poré m, con fiavam pão com manteiga cai geral mente
ape nas nas próprias hab ilid ades. com o lado da manteiga para bai-
"As supe rstições oferecem uma xo. O fa to foi confi rmado por um
se nsação ilu sória d e co n t ro le estudo experi mental, patrocinado
dos eve ntos, q ue pode aj uda r a po r um fa brica nte de manteiga: o
aplaca r nossas ansiedades", d iz aparente azar deve-se simplesmente
o psicólogo a merica no Stu a rt à relação física e ntre as dimensões
Vyse. "Po r isso elas são necessá - da fa tia e a altura em q ue estava
rias nos momentos e m q ue nos colocada. São também explicáveis
se ntimos vulneráveis." outros tipos de infortúnio, como o

I
'
Os arg um e ntos são vá lidos,
mas insu ficie ntes, segundo o psicó-
logo Ric hard W iseman, professor
fa to de que qua ndo retiramos duas
me ias da gaveta gera lmente elas
não são do mesmo par.
~ da Universidade de H ertfordsh ire, Além d isso, só damos atenção
::1 Inglaterra. Ex- ilusio nista e in teres- a certos fatos quando eles ocorrem
~ sado em fenômenos pa ranormais, -como a c hegada do ô nibus assim
W iseman conduziu um complexo que se ace nde um cigarro-, o que
estudo sobre os mecanismos pos- co ntribui para reforçar nossos

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preconceitos e nos fazer ignorar as mos conta de que certos eve ntos, dos traços de pe rsonalidade que
leis da probabilidade. "A diferença como acertar na loteria, são raros, disting uia m as d uas categorias
e ntre eventos ordinários e extraor- mas não impossíveis. "Quando permi tiu concluir que os azarados
dinários é subjetiva", explica o ganhamos em um cassino , não são mais tensos e concentrados,
psicólogo Lore nzo Montali, da pensamos no fato de que alguém ao passo que os sortudos tendem
Universidade de Milão-Bicocca. tinha, necessariamente, de ganhar", a considerar as coisas de forma
"Estar atrasado, por exemplo, é diz Montali . mais relaxada, mas sem perder de
um fato comum, mas certamente vista o contexto geral. Wiseman
será recordado como um golpe de Superstição e habilidade deu aos participantes um jornal,
sorte se graças a ele somos salvos A mesma conclusão foi obtida so licitando que co ntasse m as
de um desastre." pelo estudo realizado em 2002 fotos impressas e prometendo
Ao estudar o pensamento não po r Paola Bressan, professora de um p rê mi o aos que o fizessem
racional, Michael Wohl, psicólogo psicologia da U nive rsidad e de corretam e nte. Ora, o núme ro so-
da Un iversidade Ca rl eton, e m Pádua, e publicado em 2002 na licitado estava gravado de fo rma
Ontário, veri ficou que muitos jo- revista Applied Coguitive Psychology. evidente sobre uma das páginas,
gadores obsti nados estão conven- Ao pesquisar pessoas que acre- algo que muitos "azarados" não
cidos de que podem influe nciar o ditam em eventos paranorma is, perceberam , pois estavam con-
andamento de um jogo de azar ela mostrou que certos aconteci- centrados demais na tarefa.
graças à própria sorte, ignorando mentos parecem ex traordinários Se leva rm os e m conta os
as leis da probabilidade e supe- porque não se leva em conta a d ados coletados, te r sorte sig-
restimando as possibilidades de probabilidade de que ocorram . nifica saber escolher ou criar as
vitória. Muitas vezes não nos da- Pesquisadores interessados nes- oportunidades e as ocasiões mais
ses temas, porém, tendem a analisar vantajosas. "Estamos fazendo uma
co mportamentos específicos e pesquisa estatística sobre o me-
não a nossa relação com a sorte canismo que poderíamos defi nir
enquanto tal. Segundo Wiseman, com a expressão 'como o mundo
isso ocorre porque "o conceito de é pequeno!'; tal mecanismo nos
sorte é difíc il de defini r, ou porque leva a encont rar freqüentemente
muitos psicólogos não gostam de pessoas que 'por acaso' conhecem
enfrentar temas ligados à supersti- outras pessoas ligadas a nós", ex-
ção ou à magia". plica o psicólogo. "Sabemos que
Para tradu zi r esse conceito os 'fel izardos' são também hábeis
tão evasivo em termos concretos, para estabelecer ligações e ntre
W iseman publicou em 1994 um diversos grupos de indivíduos,
anú ncio no jornal soli citando aumentando assim a possibilidade
q u e p esso as particularme n te de encontros úteis."
sonudas ou azaradas entrassem Os o utros "fatores" da sorte
em contato com ele p a ra que consistem, segundo W iseman,
se us comportamentos fossem em seguir a própria intuição, ser
analisados. Descobriu que cerca otimista quanto ao futuro, não
de 9% desses indivíduos podiam cap itular diante das dificuldades
ser consi derados azarados e 12% e tentar, até onde possível, enfa-
favorecidos pela sorte. tizar aspectos positivos, inclusive
Todos os outros e ntravam na d os eventos negativos . Em suma,
méd ia. A a nálise ex perime ntal trata-se de aprender a considerar
as coisas de outra forma. Wiseman
observa que dependendo do pon-
ÍCONES DE AZAR, como to de vista, mais que a situação em
o gato preto: certos fatos
si, a pessoa pode se conside rar
parecem extraordinários
porque não levamos e m bem ou mal sucedida. Em minha J
conta sua probabilidade pesquisa, vários e ntrevistad os ...,
PERSEGUIDORES DE SIGNIFICADOS: atribuir valor sobrenatural a eventos cotidianos pode tornar o mundo menos ameaçador para alguns

Ficção e fortuna ac redi tavam te r sorte na vi d a, Ainda que


mesmo que tivessem experimen-
Quem é mais simpático: Gastão ou o Pato Donald? Intérpretes do tado fatos dramáticos, doenças ou
vivam numa
imaginário coletivo, os personagens de Walt Disney resumem tam- lutos. O que pensa uma pessoa que espéde de
bém nossa atitude diante da sorte. Gastão é a tal ponto sortudo que
foi e nvolvida, involuntariamente,
às vezes é obrigado a se defender da sorte que o brinda constante- ilusão, os
mente com honrarias e prêmios. Pode nos fazer rir, mas a simpatia e m incide nte g rave e "infeliz", que
do leitor- e de Margarida, que Gastão tenta, em vão, conquistar saiu d ele seriamente ferida mas, otimistas
- vai para o azarado Donald. Gastão é irritante porque não faz
esforço para ganhar dinheiro e prestígio, enquanto o Pato Donald
"felizmente", viva? "Em geral, os desfrutam
pessimistas se julgam si mples-
tenta, inutilmente, lutar contra o azar que o persegue. Tio Patinhas,
me nte realistas, mas os oti mistas, dos efeitos
por sua vez, obteve êxito financeiro com multo trabalho.
Em suma, a sorte nos agrada, mas os sortudos, nem tanto. "Em
aind a que vivam numa espécie benéficos de
parte porque", comenta Wiseman, "é sempre mais consolador en- de ilusão, desfrutam dos efeitos
contrar alguém mais tolo ou azarado que nós." E talvez também positivos dessa atitude", assinala o suas crenças
porque as cômicas desventuras dos personagens dos quadrinhos psicólogo. O mesmo ocorre com
-catastróficas, mas sem conseqüências permanentes - nos aíudam pessoas que tê m fé - tema de ou-
a tornar mais leve acontecimentos graves. Torcemos pelo Coiote
tra pesq uisa de Wiseman - , algo
em suas tentativas, sempre fracassadas, de capturar Beep Beep.
E gostamos da Ironia com que Charlie Brown comenta os peque- que lhes permite dar sentido aos
nos desastres cotidianos que marcam sua vida. A simpatia desses eventos que marcam a vida.
personagens nasce da energia com que enfrentam as dificuldades Confiar na sorte é algo que,
cotidianas. Assim, no mundo dos quadrinhos e do cinema, são embora banal, está na base de
poucos os personagens afortunados, como Lucky Luke, o imbatível
n ossa v isão d e mu ndo. Pao la
pistoleiro criado pelo belga Morris.
Bressan recorda que "a tendê ncia
Além disso, muitas vezes um super-herói deve suas caracterís-
ticas a um evento dramático que o tornou diferente das pessoas a dar ordem e sig nificado ao que
normais e tem, assim, um "calcanhar-de-aquiles" que nos faz acontece a nossa volta, criando
temer por seu destino. O próprio mecanismo da narrativa, que rapidamente relações e nt re even-
precisa ser alimentado por infortúnios e contrastes, torna a sorte tos simul tâ neos ou sucessivos
algo pouco atraente. Parafraseando Tolstoi, poderíamos dizer que - como o t rovão e a tempestade
todos os personagens sortudos são afortunados do mesmo modo
e, portanto, um pouco tediosos. Isso foi explorado magistralmente ou a ingestão de comida estraga-
por Pirandello ao retratar, no conto "O diploma", o maléfico anti- da e mal-esta r - é indispensável
herói Rosário Chiàrchiaro, que solicita e obtém um reconhecimento pa ra a sobrevivência". As pessoas
oficial de seus poderes funestos. Assim, ele consegue ao menos mais incli nadas a essa atitude, os
extrair alguma vantagem da superstição de seus compatriotas, que
"persegu idores de sig ni ficado",
condenaram sua família e ele próprio à marginalidade.
conforme a expressão de Paola,

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Embora causem dizendo que não somos responsá-
veis por nossos fracassos", resume
desconforto, Wiseman, que hoje oferece verda-
situações deiras "lições de sorte" a gere ntes
e outros interessados: "Alguns dos
indeterminadas
meus alunos 'azarados' conseguem
nos pe~mitem mudar radicalmente a vida quando
amadurecer assimilam as regras que sugiro. Ser
sortudo quer dizer enfrentar os
emocionalmente problemas de for ma criativa".

Bruxos do bem
Recorrer a videntes também é uma
fo rm a de afastar incertezas, con-
fiando a outros o nosso destino.
Wiseman explica: "Essas pessoas,
muitas vezes, levanta m problemas
que nem sequer existem, ofere-
cendo-nos então uma solução
custosa. E são bastante astutas
para nos convencer de que sua
,a intervenção afastou uma ameaça
na verdade inexistente. Já aqueles
N

~
; que procuram v identes tendem
o a ignorar as predições negativas,
CARTAS DO DESTINO: recorrer a videntes é um modo de afastar incertezas concentrando-se nas posi tivas. É
uma atitude típica de quem não
te nd em a subesti mar as leis da Nessa perspectiva, sorte c azar gosta da incerteza. Minha expe-
probabilidade e a encontrar um são causas externas instáveis, que riência sugere que são justamente
ma io r número de "coincidênc ias", conferem senti do a um even to que as situações indeterminadas que
que atribuem à sorte ou a expe- até e ntão não tinha sentido algum nos permitem assumir o controle
riências paranormais. "Trata-se c reduzem a ansiedade causada sobre nossa vida".
de ilusões cognitivas, que, porém, pela incerteza. Ao mesmo tem- Muitos confiam a inda em
nos ajudam a viver melhor", expli- po, isso nos absolve de qualquer amuletos, como, por exemplo, um
ca a psicó loga. c ulpa: "É um erro que pro tege o objeto que carregavam consigo
Atribuir os acontecimentos à eu", explica Mon tali, "tanto mais em um mome nto partic ularmente
sorte permite q ue a pessoa seja tendemos a atribuir os êxitos aos favo rável da vida. "Os ta lismãs nos
mais indulgente consigo mesma. nossos tale ntos e os fracassos ao dão a sensação de que retomamos
"Segundo a teoria da atribuição, azar". Esse erro pode alimentar o co ntro le da situação e têm a
proposta em 1958 pelo psicólogo preconce itos. "Um estud o fei to vantagem de não servir como des-
Fritz H e ider, quando ana lisa mos em 1974 most rou que indivíduos culpa para não e nfrentarmos as
a causa de um fato, podemos nos de ambos os sexos, interrogados situações; aliás, algumas pessoas
basear em uma dime nsão interna sobre as causas do êxito profissio- 'sortudas' que estudamos carre-
ou externa em relação a nós mes- na l de pessoas famosas, tendem a gavam um", conclu i o psicólogo.
mos e estável ou instável quanto atribuir o sucesso dos homens à Wi se man está preparando um
O fator sorte. Richard ao tempo", explica Monta li. Em capacidade destes e o das mulhe- "amuleto científico", isto é, um me-
Wiseman. Record, 2003. suma , podemos atribuir o mau res à so rte." dalhão no q ual serão inscri tos os
Bellevlng In maglc: desemp e nho em um exame ao "A superstição e o pensamento princípios que inspiram a "escola
the psychology of
nosso despreparo, à má vontade mágico são instru mentos para da sorte". Sua proposta é testar ex-
superstltlon.
Vyse Stuart. Oxford do professor ou à co nstante anti- enfrentarmos a incerteza: quando perime ntalmen te a eficácia desse
University Press, 1997. patia deste em relação a nós. nos consideramos azarados estamos o bjeto com seus alunos. nec

98 MENTE&CÉREBRO • EQUILÍBRIO DAS EMOÇÕES


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