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PARA ADMINISTRAR SEU TEMPO

Ana Maria Rossi *

Falta de tempo. Quem nunca se queixou disso? Tem dias que temos a
impressão de que alguém adiantou os ponteiros do relógio e o tempo parece
pouco para o tanto que se tem por fazer, no trabalho ou em casa. As pilhas de
papéis vão se acumulando sobre a mesa e corre-se sempre, mais uma vez, contra
o tempo.
Pesquisas indicam que, atualmente, os profissionais têm uma extenuante
carga horária de 50 a 52 horas trabalhadas, por semana. E estes mesmos estudos
apontam que este tempo passado dentro do escritório só tende a aumentar e deve
ser, até o final desta década, de cerca de 54 horas/semana.
Esta foi uma das questões discutidas no último Congresso de Stress da
ISMA-BR, que aconteceu em junho passado. E a principal conseqüência disso é o
aumento no nível de stress que pode se apresentar de diferentes maneiras: dor de
cabeça, dores musculares, elevação da pressão arterial, dificuldade para dormir,
uma ansiedade tremenda, ou um desânimo devastador. E, claro, um cansaço que
parece não ter fim.
Ouvi do pesquisador americano Steven Sauter, chefe da Seção de Ciência
Organizacional e Fatores Humanos do National Institute for Occupational Safety
and Health (NIOSH), o maior e mais importante instituto americano direcionado
para as relações entre colaboradores e corporações que, nos Estados Unidos, um
quarto dos trabalhadores relatam altos níveis de stress dentro das empresas. E
que 26% dos empregados americanos afirmam que se sentem exaustos ou
sugados pelo trabalho. Ou seja, esse não é um problema exclusivo dos brasileiros.
O que fazer então? Mais uma vez, a resposta é simples. Cada um, da sua
maneira, deve encontrar formas de lidar com o excesso de stress e administrar
seu tempo da mesma maneira que faz com o orçamento da empresa: com
cuidado, comprometimento e tudo anotado na ponta do lápis. Se conseguimos
administrar nossos compromissos profissionais com responsabilidade, por que
não fazemos o mesmo com nossa vida e, de quebra, com nosso tempo? Esse é o
desafio e a lição de casa de cada um de nós para os próximos meses.

COMO TER UMA ROTINA MENOS ESTRESSANTE

Ter equilíbrio nos dias de hoje parece ser mesmo um grande desafio. É
preciso ter equilíbrio na hora de se alimentar, no tempo gasto com o lazer, na
quantidade de exercícios físicos feitos todos os dias. Com o stress não é diferente.
Para isso é importante entender que existem dois tipoS de stress: o positivo,
chamado de “eustresse”, e o negativo, o “distresse”. Ambos causam reações
fisiológicas similares: mãos e pés tendem a ficar suados e frios, a aceleração
cardíaca e a pressão arterial a subir, o nível de tensão muscular a aumentar. No
nível emocional, no entanto, as reações ao stress são bastante diferentes. O
eustresse motiva e estimula a pessoa a lidar com a situação. Ao contrário, o
distresse acovarda, fazendo com que se intimide e fuja da situação.
Muitos sintomas de stress negativo - dores musculares, pressão alta,
fadiga, taquicardia, ansiedade e angústia - têm sido atribuídos ao acúmulo das
pressões no trabalho. Estudos indicam que quem tem grandes responsabilidades,
mas pouca autonomia para tomar decisões, é o que corre os maiores riscos do
stress negativo. Esta é uma realidade enfrentada tanto pelo executivo, que sofre
pressões de superiores e subordinados, como pelo operário na linha de
montagem. Outra fonte de tensão é o profissional que acredita ser apenas mais
um número na organização.
Para as mulheres, soma-se às pressões corporativas a dupla jornada de
trabalho. A boa nova é que um estudo recente feito pela ISMA-BR (International
Stress Management Association) com 220 profissionais – sendo metade de
homens e a outra metade de mulheres – mostrou que as mulheres são menos
suscetíveis às doenças causadas pelo stress do que os homens. Isso porque elas
verbalizam melhor suas emoções, buscam ajuda profissional nos primeiros sinais
de um sintoma, praticam técnicas de relaxamento com mais freqüência e têm mais
fé.
Enfim, para encontrar o tal equilíbrio é importante que tanto a empresa
quanto seus colaboradores estejam conscientes dos fatores estressantes que
partilham e devem dispor-se a fazer as adaptações necessárias para que tenham
maior controle pessoal. As emoções e a saúde física dependem quase que
exclusivamente da sua interpretação do mundo exterior. E quanto mais você
entende as pressões e situações que o influenciam, melhor você se adapta às
suas demandas. Que tal começar a fazer este treino?

COMO DRIBLAR A ANSIEDADE

Vivemos uma rotina em que o tempo parece cada vez mais escasso. Os
motivos são muitos e passam pelo excesso de tarefas no trabalho e também nos
afazeres pessoais. Uma das conseqüências desses excessos é a ansiedade – em
maior ou menor grau. É aquela sensação de “que não vai dar tempo para fazer
tudo o que tenho agendado”. Daí o coração acelera, a pressão arterial aumenta. A
ansiedade é uma das principais responsáveis pelo aumento no nível de stress.
Primeiro, é importante saber que é normal que as pessoas se sintam
ansiosas em algumas situações. A ansiedade é uma resposta adequada a uma
condição estressante. Por exemplo: você tem que finalizar um relatório em
pouquíssimas horas. A ansiedade será, então, inevitável. Ela funciona como um
sistema de alarme que pode ajudar a pessoa a concentrar-se na situação e
racionalizá-la. Ela pode possibilitar que o relatório fique pronto no prazo exato.
Mas a ansiedade torna-se um problema quando começa a interferir nas
tarefas pessoais e profissionais. É a chamada ansiedade generalizada. Os
sintomas podem incluir preocupação, dificuldade de concentração, falta de sono e
nervosismo. As sensações físicas mais comuns são batimentos cardíacos
acelerados, tontura, dor de cabeça, náusea, suor nas mãos e nos pés e dores
musculares. Ou seja, além da mente, o corpo também fica fora de controle. Como
lidar com isso? É preciso aprender a dominar ou domar esta ansiedade,
literalmente. Tem gente que recorre a atividades de relaxamento, como o tai chi
chuan, o yoga, a meditação – que também tem efeitos poderosos para reduzir o
nível de stress.
Outros preferem se dedicar a ações mais explosivas, que represem esta
energia extra. E daí vale correr, andar em ritmo rápido, nadar, pedalar. Mas tem,
ainda, uma atitude certeira que ajuda – e muito - nos momentos de alta ansiedade.
É bem simples: basta parar para respirar fundo. Por alguns instantes, sentado de
maneira confortável, faça algumas expirações e inspirações mais prolongadas e
focadas na região abdominal. Tem um efeito poderoso para reduzir a ansiedade e
canalizar o seu potencial de forma positiva. É importante incorporar estas paradas
no dia-a-dia e não apenas quando você está ansioso ou tenso. Quem ganha é
você.

MAIS PLANEJAMENTO, MENOS STRESS

Dezembro representa para muitos um mês curto – por conta dos feriados
das festas ou férias coletivas –, de muitas comemorações, mas também de
trabalho extenuante. É a época em que as empresas estão correndo para finalizar
o planejamento estratégico do ano seguinte. Em conseqüência disso, o nível de
stress costuma ficar altíssimo. Algumas pessoas chegam a desenvolver fadiga
crônica, causada inclusive pelo excesso de trabalho acumulado ao longo do ano.
A fadiga crônica afeta o sistema de imunidade e o cérebro. Os sintomas vão
desde a sensação de cansaço às juntas doloridas e esquecimento – quando você
não consegue lembrar nem onde colocou a chave do carro. São pessoas que têm
febre constantemente, dores de garganta, fraqueza muscular, distúrbios do sono,
dores de cabeça e, muitas vezes, no corpo. É aquela gripe que nunca passa ou a
garganta que não melhora. Esses sinais indicam que você ultrapassou o limite de
stress tolerado por seu corpo. E pode ter certeza de que não vão ser alguns dias
de férias que vão fazer a diferença para recarregar as baterias.
O que é preciso aprender é que os níveis de stress não se elevam de um
dia para o outro, após um acontecimento único. Existe um efeito acumulativo. É
preciso aprender a lidar com o excesso de pressão, de tarefas e o pouco tempo
ditado pelos prazos apertados. Essas lições passam por um processo de
autoconhecimento: aprender a dizer não, impor limites, saber pisar no freio,
organizar e equilibrar o tempo gasto no trabalho e nas atividades pessoais. Tem
gente que encontra sua válvula de escape nas técnicas de relaxamento, outros se
dedicando a um hobby ou a uma atividade física. Cada um deve encontrar a forma
que lhe satisfaz e traz calma para lidar com os excessos diários.
O que sugiro aqui é que cada um aprenda a fazer mais do que o
planejamento da empresa, mas, sim, o planejamento da própria vida. Que tal abrir
uma planilha pessoal? Que tal elaborar uma agenda com horários e tarefas a
serem cumpridas? Atitudes simples como estas podem fazer a diferença para que
você comece o ano pensando não apenas em planos – na dieta, na ginástica,
naquele curso, mas com atitudes. E, quem sabe, ter um 2006, menos estressante
e mais saudável.

CANSAÇO DEMAIS TEM JEITO

Dor de cabeça constante, dificuldade para dormir, dores pelo corpo, queda
na produtividade, gastrite, irritação em excesso. Todos esses sintomas podem
significar uma única coisa: você está cansado demais. Nos últimos meses do ano
isso é bem comum, principalmente entre aqueles que ainda têm dificuldade em
dosar - e equilibrar - seus níveis de stress. É nesta época que as empresas
preparam seus relatórios de avaliação, planejamentos e orçamentos para o ano
seguinte.
Excesso de trabalho somado à tensão em demasia pode ser devastador
para a saúde. Níveis elevados de stress podem levar a uma síndrome conhecida
como burnout: é a sensação de estar literalmente ‘sem saída’, comprometido pelo
trabalho até o último fio de cabelo. Quem sofre de burnout pode ter, além dos
problemas de saúde relacionados ao stress, depressão, alienação e exaustão
total.
Pesquisa feita pela ISMA-BR, International Stress Management Association,
associação que estuda o stress e suas formas de prevenção, indica que 70% dos
brasileiros sofrem na saúde os danos dos níveis elevados de stress e desses 30%
apresentam o burnout. Como sair dessa? Não existem receitas prontas. Quando o
assunto é stress, cada um precisa encontrar seu caminho. Tem gente que
encontra sua válvula de escape nas terapias de relaxamento, como ioga,
meditação, tai chi chuan e afins. Tem gente que prefere correr, nadar ou caminhar.
E tem aqueles que precisam, ainda, da ajuda de um especialista, que oriente
sobre técnicas eficientes para lidar com a ansiedade e a tensão.
A boa notícia é que a proximidade com as férias de final de ano tendem a
reduzir essa tensão. Mas para isso é preciso aprender a planejar os dias de folga
com antecedência. Ainda não pensou o que vai fazer nestes dias? Não deixe para
a última hora. Se já não bastasse a correria nas atividades diárias, você ainda vai
somar a isso a organização dos dias de folga? Apenas o fato de vislumbrar a
proximidade das férias, com destino certo, já causa relaxamento. E lembre-se:
tente se programar respeitando seus limites e suas necessidades, sem excesso
de vai-e-vem.
Coloque um freio na rotina acelerada. Aprenda a fazer as coisas com
calma, com organização. Seu nível de cansaço, com certeza, irá reduzir. E, nesse
momento, talvez seja a hora de você fazer seu próprio balanço anual e programar
um planejamento estratégico para sua vida: a forma como você lida com sua
rotina de trabalho precisa ser programada, alterada e, quem sabe, você consiga
ter um dia-a-dia menos estressante.

MANIA DE PERFEIÇÃO

Cometer erros, às vezes, faz parte do aprendizado e do crescimento de


qualquer profissional. E não saber lidar com isso pode gerar altos níveis de stress.
Isso tem um motivo: por trás da mania de não querer cometer - ou aceitar - erros,
está alguém extremamente perfeccionista. É sabido que gente assim tende a
sofrer os efeitos do stress de maneira mais arrebatadora. Se não consegue
cumprir um prazo pré-estabelecido, lá vem a temida dor de estômago ou uma forte
crise de enxaqueca. E se o trabalho não saiu exatamente da forma como queria
ou imaginava, o sofrimento físico e emocional vem à tona, como uma pressão alta
ou uma crise de ansiedade.
O perfeccionista não tenta negociar um novo prazo. Por quê? Porque tem
dificuldade em lidar com possíveis críticas. Essa característica de personalidade
tende a prejudicar as relações pessoais e profissionais. E a tendência é se impor
uma pressão superior – além daquelas que o chefe ou a empresa já coloca sobre
todos. Se você identificar algumas tendências perfeccionistas no seu dia-a-dia
profissional ou pessoal, faça algumas mudanças. Este tipo de reflexão vale a
pena. A primeira delas é confrontar o medo que lhe motiva a buscar perfeição.
Você pode temer que as pessoas não gostarão de você. Na realidade, o oposto
parece verdadeiro: as pessoas tendem a respeitar aqueles que têm coragem de
admitir quando erram ou não conseguem desempenhar determinada tarefa.
Ninguém gosta do ‘sabe tudo’, daquele que se julga capaz de fazer tudo. Portanto,
da próxima vez que cometer um erro ou perceber que não vai dar conta do
recado, procure não se justificar ou negar.
Se está evitando algumas atividades com receio de se expor, se pergunte
se essas inibições não estarão impossibilitando-o de atingir seu potencial. Se a
resposta for positiva, procure se expor às situações que lhe causam apreensão
gradualmente. Pense que a imperfeição é uma característica dos seres humanos.
Seu corpo vai lhe agradecer e sua relação com os colegas de trabalho ou mesmo
em casa tendem, com certeza, a se tornar mais flexível e agradável.

DÁ PARA REDUZIR A ANSIEDADE

Ansiedade. Esta á uma emoção rotineira para a maior parte das pessoas.
Prova disso é que na última pesquisa realizada pela ISMA-BR - International
Stress Management Association, 81% dos entrevistados afirmou se considerar
vítima da ansiedade. E hoje existe uma série de motivos para que isso aconteça.
Quem não passa por um momento de ansiedade ao longo do dia, que dirá da
semana? É a cobrança do chefe para que o trabalho seja feito dentro do prazo –
curtíssimo, muitas vezes –, a pressão da família por mais momentos juntos, a
divisão das tarefas profissionais e pessoais. A questão é que sentir ansiedade é
algo pra lá de normal, porque é uma resposta fisiológica do organismo a situações
estressantes. Provavelmente, se não fosse a tal ansiedade você não conseguiria
terminar o trabalho no prazo e não se agendaria de uma forma mais organizada
para ter tempo para a casa e para o trabalho.
A ansiedade funciona como um sistema de alarme que pode ajudar a
pessoa a se concentrar na causa e racionalizá-la. Ela se torna um problema
quando começa a interferir no seu dia-a-dia, quando passa a se tornar uma
ameaça constante que escraviza. É a chamada ansiedade generalizada. Os
sintomas podem incluir preocupação, dificuldade de concentração, falta de sono e
nervosismo. As sensações físicas podem causar aceleração dos batimentos
cardíacos e causar tontura, dor de cabeça, náusea, suor nas mãos e pés ou dores
musculares. Ou seja, além da mente, o corpo também fica fora de controle.

Como controlar isso?

Aprender a controlar seus pensamentos irracionais e negativos é um


caminho. Isso ajuda a fazer com que a ansiedade não o paralise. Outra forma
extremamente eficiente de fazer isso é com a prática da respiração abdominal.
Funciona da seguinte forma: posicione-se confortavelmente; inspire pelo nariz,
dilatando os músculos do abdômen, e expire pelo nariz ou pela boca, contraindo
estes músculos. Estabeleça uma respiração rítmica e profunda. Procure clarear a
mente de qualquer pensamento ativo, concentrando a atenção em relaxar todos
os músculos do corpo. Quanto à tendência em antecipar fatos negativos, procure
focar no "aqui e agora". São técnicas bem similares à da meditação e que podem
ser feitas no escritório ou em casa. O ideal é praticar estas técnicas de
relaxamento de duas a três vezes ao dia. Outro ponto: expresse suas emoções.
Falar com pessoas que têm experiências similares as nossas ajuda a racionalizar
nossos problemas. O que importa é você encontrar maneiras de se libertar dessas
emoções que o aprisionam. Isso ajuda a reduzir o estresse e você passa a ter a
tão almejada qualidade de vida.
* Ana Maria Rossi, Ph.D, é presidente da ISMA-BR, International Stress
Management Association, Doutora em psicologia clínica e comunicação verbal,
Mestre em Comunicação de Massas e Mestre em Psicologia, e representante no
Brasil do National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH). Mais
informações no site http://www.ismabrasil.com.br/

CRIATIVIDADE E SEUS PRINCÍPIOS

Rui Santo

"Toda reforma interior e toda mudança para melhor


dependem exclusivamente da aplicação do nosso
próprio esforço." (Immanuel Kant)

Criatividade tem dois pilares fundamentais de sustentação. O primeiro, a


disciplina rígida e imóvel, promove a continuidade e produtividade. O segundo, a
flexibilidade esférica - em todas as direções, incentiva as liberdades plenas.
É muito difícil encontrar inovação ou "criatividade produtiva" sem que haja
uma certa disciplina, às vezes muito rígida, por mais paradoxal que possa parecer.
Um quarto tem um ponto de luz fixo, que devido a sua imobilidade permite a
liberdade completa de movimento. Se faltar luz, o movimento cessa ou fica
tumultuado, se houver algum.
A certeza da disposição da lâmpada abre a liberdade para locomoção e
libera tempo para qualquer outra abordagem, desde que respeitadas as
características de iluminação.
James Young, ex-presidente de criação da Thompson mostra que os
trabalhos de publicidade só ganham prêmios porque há uma data de entrega - até
certa hora - a partir do qual o candidato está desclassificado. "Cheguei à
conclusão", diz o publicitário, "que a produção de idéias é um processo tão
consolidado como a produção de um carro, que também corre por uma linha de
montagem. Caso não houvesse esse ponto limite, 'o prazo' que disciplina
rigidamente toda a produção criativa não haveria propaganda, nem telas de
pintura (data de exposição), não haveria desfile de moda, nem outros resultados
criativos.
A criatividade, para ser produzida e obter efeitos inovadores, tem que,
necessariamente, ter algum ponto limite a partir do qual o processo se reinicia,
neste novo patamar".

A única certeza é a mudança

Embora o limite mais comum seja o tempo (data de lançamento de um


produto ou inauguração de um serviço) não é o único.
Simultaneamente, os criativos precisam contornar dificuldades de verbas,
quantidade de pessoas para realizar as idéias, impedimentos
técnicos/tecnológicos, aspectos de segurança e tantos outros, conforme a área de
atividade.
Assim, a liberdade criativa convive com a disciplina estruturada para
atingirmos alvos, metas e outros objetivos comuns nas empresas atuais.
Sem liberdade criativa vamos produzir "mais do mesmo”, mas também se
não nos impusermos limites, sem disciplina, podemos embaraçar os avanços e
não sair do lugar.

* Rui Santo é engenheiro sênior internacional, professor de Criatividade


(MBA/PECE/USP, MBA/FIA e MBA/FIPT/IPT), artista plástico, autor de várias
técnicas de criatividade, consultor em Criatividade e Inovação e palestrante em
empresas e eventos. E-mail: ruisanto@uol.com.br
COMO SER INDISPENSÁVEL - OS TRÊS PORQUINHOS

 Ricardo Jordão Magalhães

"Eu quero dedicar a próxima canção para aqueles que


perderam suas vidas no ataque terrorista que ocorreu
em Londres na semana passada e também às vítimas
dos ataques no Iraque. Eu quero transformar a próxima
canção numa oração, uma oração para que todos nós
não nos transformemos nos monstros que queremos
derrotar."
Bono Vox, 21.07.05, Milão, Itália

Querida(o) amiga(o), hoje eu vou contar a vocês uma história, uma história
sobre Três Porquinhos. Era uma vez três porquinhos: Accioly Entretenimento,
Ticketronic e Pão de Açucar. Um dia, na maior floresta de pedras do país, essa
turma decidiu se unir para realizar um serviço PORCO, MUITO PORCO.
O primeiro porquinho, com histórico de gestão de empresas de
telemarketing, daquelas que ganham dinheiro por atender telefone, perturbar a
vida dos outros, não resolver os problemas dos clientes, resolveu, depois de um
histórico de realização de festas particulares perdulárias em Angra dos Reis, meter
os pés pelas mãos, e com mania de grandeza, com vontade de aparecer na capa
da CARAS, trazer para o Brasil, nada menos nada mais do que o MELHOR DO
MUNDO, o U2.
O segundo porquinho, muito amigo do primeiro porquinho, com um
pequeno histórico de venda de ingressos para shows que acontecem apenas no
Rio de Janeiro, suportado por uma tecnologia impossível de se analisar por
permanecer fora do ar quando deveria estar trabalhando, resolveu se transformar
da noite para o dia no maior vendedor de ingressos para shows da Internet
brasileira.
O terceiro porquinho, grande vendedor de alfaces, leite e biscoito de
chocolate, resolveu ampliar o seu negócio, pensar-fora-da-caixa, aumentar o
portfólio de produtos e aí, porque não, vender ingressos para shows ao lado da
banquinha de pães.
Em algum momento mágico, estes três porquinhos resolveram craniar
idéias porcas e entregar o serviço MAIS PORCO que eu já vi nos últimos anos na
minha querida cidade de São Paulo: a venda de ingressos para o show do U2 no
Brasil.
O feito dos três porquinhos foi tão fantástico que eles conseguiram colocar
o Brasil nas paradas populares de notícias no mundo inteiro. O "Caos da venda de
ingressos" saiu na BBC de Londres e na gigante agência de notícias Reuters, que
distribuiu a notícia da DESORGANIZAÇÃO e AMADORISMO dos três porquinhos
para todos os cantos do mundo.
MUITO OBRIGADO, três porquinhos! O Brasil agradece.
"Ah, mas esse tipo de coisa também acontece lá fora", afirma o primeiro
porquinho.
ACONTECE NADA! ESTE tipo de coisa NÃO ACONTECE lá fora, e quando
acontece, o PORCO que fez a PORCARIA VAI PRESO, e não para a capa de
CARAS.
Com quem este porquinho aprendeu a dizer esse tipo de coisa? Só
porque "Sempre aconteceu" devemos então aceitar que sempre aconteça?
Quem tá ensinando isso para os brasileiros? QUEM?!
"Ah, mas nós não esperávamos tantas visitas no site de vendas na web",
afirma o segundo porquinho.
O que são "Tantas visitas"? 2.000 visitas?
2.000 visitas é o número máximo de visitas que o site da Ticketronic diz que
pode receber simultaneamente segundo eles mesmos...
2.000 visitas é muito?
Pára com isso!
"Ah, mas foram mais de 100 mil pessoas que foram aos pontos de vendas",
afirma novamente o primeiro porquinho.
MENTIRA! MENTIRA! MENTIRA!
Quem contou o número de pessoas?
A Polícia não contou.
O Accioly e sua trupe contaram?
Nem a pau, Juvenal!
O terceiro porquinho contou?
MENTIRA! Eu estive pessoalmente na fila para comprar os ingressos e
posso afirmar que NINGUÉM DA DESORGANIZAÇÃO passou por lá para dar
satisfação para alguém, muito menos contar as pessoas e se preocupar com elas.
TODOS SE ESCONDERAM quando alguém de PULSO deveria ter ABRAÇADO O
PROBLEMA e FAZER O QUE DEVERIA SER FEITO. E mesmo que 100 mil
pessoas tenham aparecido nas filas para comprar o ingresso, esse número é
muito comum nas bilheterias de São Paulo para comprar ingressos para finais de
campeonato de futebol, e nem por isso os ORGANIZADORES do futebol deixam
você 14 horas numa fila sem te dar a mínima safistação ou solução.
"Nós não sabemos de nada, somos apenas os patrocinadores", afirma o
terceiro porquinho.
NÃO SABEM DE NADA?
É exatamente isso que acontece quando você tenta SER algo que você não
é, quando você tenta vender algo NOVO com as MESMAS pessoa e mesma
estrutura: você acaba entregando um serviço PORCO.
A minha história de terror para comprar os ingressos para o show do U2
aconteceu numa filial do Pão de Açucar que eu "costumava" frequentar. Uma
epopéia que se extendeu por 20 horas, mas que não deveria ter durado mais do
que duas horas, afinal, eu permaneci a apenas 300 metros do guichê por mais de
12 horas sem DAR UM PASSO sequer.
A situação permaneceu caótica durante todo o dia, completamente fora de
controle e totalmente sem LIDERANÇA. Em um determinado momento eu senti
uma grande pena do Carlos, o gerente da filial do Pão de Açucar.
Cercado por clientes completamente ENLOUQUECIDOS e ALTERADOS
emocionalmente após 14 horas de fila, Carlos não conseguia responder às
perguntas básicas da multidão: "Eu estou aqui desde as 6h, são 22h! Quando
vocês vão dizer o que vão fazer para me atender?"; "Cadê os líderes desse
evento?"; "Qual é a posição do Pão de Açucar?"; "Como eu posso acreditar que
vocês não sabem de nada por tanto tempo?".
No meio de tudo isso, Carlos, o gerente, estava completamente
desamparado e abandonado pela LIDERANÇA dos três porquinhos.
Meses atrás este mesmo gerente havia me ajudado a escolher frutas e
peixes enquanto falávamos sobre design de prateleiras e atendimento ao cliente.
Hoje, aqueles jovens pensavam tudo sobre o Carlos, menos que ele era um cara
bacana e que sabia muito sobre supermercados.
Nas escolas de negócio deste país costuma-se falar muito sobre os
populares CASOS DE SUCESSO de empresas que sempre foram bem-sucedidas,
mas eu acredito que os CASOS DE FRACASSO que passamos todos os dias têm
ainda muito MAIS a ensinar para todos nós.
A história original sobre os três porquinhos me ensinou muita coisa quando
eu era criança. Me ensinou a FAZER A LIÇÃO DE CASA antes de dizer que já sei
de tudo, me ensinou a ser HUMILDE com todas as pessoas, me ensinou a ser
EXCELENTE no que eu faço, me ensinou que NÃO EXISTE lobo forte o bastante
para me vencer se eu NUNCA ME ESQUECER DE PRATICAR estes valores
como os tijolos e alicerces da minha casa.
A velha história dos três porquinhos não é apenas sobre eles, é sobre o
lobo mal.
Na nova versão, nessa epopéia da compra de ingressos, quem é o
lobo mal?
Bem, falsas grávidas, idosos que compram ingressos para faturar um
dinheirinho extra no mercado livre, mulheres que furam a fila, executivos
engravatados que viraram cambistas para compensar o bônus que não receberam
no mês passado, seguranças corruptos que em vez de fazer o seu trabalho
passaram a contrabandear ingressos, pessoas comuns que se transformaram em
monstros apenas para salvar as suas peles e seus ingressos mesquinhos.
Dois raios não caem no mesmo lugar. Eu espero que os três porquinhos de
hoje, como os três porquinhos da história original, APRENDAM com seus erros,
ESTUDEM o que saiu errado, REFLITAM sobre suas escolhas, mudem seu
COMPORTAMENTO com a experiência vivida na pele e façam algo
DRAMATICAMENTE DIFERENTE na próxima empreitada.
Eu continuo sem os ingressos, mas com a dita senha aguardando a ligação
do Pão de Açucar. As horas de fila não foram um total desperdício. Todos,
inclusive eu, aprenderam alguma coisa com essa experiência. Eu conheci novas
pessoas, comportamentos e idéias. O tempo foi usado para ler, conversar e até
TRABALHAR. Cada pessoa que esteve por lá testou seus instintos, seus limites,
seus desejos.
Eu vou continuar comprando no Pão-de-Açucar, se precisar vou comprar
ingresso no Ticketronic e se o Accioly trouxer outro U2 para o Brasil, vou comprar
o show. No século 21, o cliente não esquece do que aconteceu, mas perdoa.
Eu acredito no Brasil. Eu acredito em não furar fila. Eu acredito no Procon.
Eu acredito na Polícia. Eu acredito que quem dá, leva; quem bate, apanha; quem
rouba, morre. Eu vou fazer a minha parte, e acredito que os outros também,
inclusive os três porquinhos.
NADA MENOS QUE ISSO INTERESSA!
QUEBRA TUDO! Foi para isso que eu vim! E você?

* Ricardo Jordão Magalhães é fundador e presidente da BIZREVOLUTION,


onde ele ajuda as pessoas e as empresas a descobrir o que elas têm de melhor,
quebrar paradigmas e inventar o futuro através de consultoria, treinamento e
publicações. Site: www.bizrevolution.com.br/blog