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UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS – IFCH


PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM LETRAS
SEMINÁRIO DE DISSERTAÇÃO I – PROF. ERNANI FREITAS – ALUNA EDUARDA MARTINELLI

Fichamento do texto de MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio da pesquisa social. In: MINAYO, Maria
Cecília de Souza (Org.); DESLANDES, Suely Ferreira; GOMES, Romeu. Pesquisa social: teoria, método e
criatividade. 30. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. p. 9-29.

O desafio da pesquisa social

1. Ciência e Cientificidade
 Na sociedade ocidental a ciência é a forma hegemônica de construção de realidade, pois tem como
pretensão ser a única promotora e critério de verdade (p.10).
 Existem várias razões pelas quais a ciência é superior a outras formas de conhecimento, no entanto,
duas principais são apresentadas no texto: a primeira está na possibilidade de a ciência responder
questões técnicas colocadas pelo desenvolvimento industrial. Já a segunda, se estabelece na
linguagem estabelecida pelos cientistas e fundamentada em conceitos, métodos e técnicas para a
explicação e compreensão do mundo, dos fenômenos, das coisas, etc. Essa linguagem é controlada
e instituída por uma comunidade que administra sua utilização (p.10).
 Paul de Bruyne observa a possiblidade de a cientificidade comportar um pólo de unidade e um
pólo de diversidade. Ou seja, existem semelhanças profundas no que se refere aos
empreendimentos que inspirados na ideia geral de um conhecimento por conceitos. No entanto, a
cientificidade não contém apenas uma maneira de adquirir conhecimento – ela tem, em si, variadas
possibilidades de realização e maneiras concretas (p. 11).
 Partindo dessa reflexão, chegamos a várias questões: a primeira se refere à possibilidade de
tratarmos, objetivamente, sobre uma realidade da qual nós próprios somos agentes – se agimos
nela, como a trataremos de maneira objetiva e concreta? A segunda questão tem ligação com a
anterior – se procurarmos agir de maneira objetiva sobre as ciências sociais, não estaremos
retirando dela o que lhe é mais particular, ou seja, a subjetividade? A terceira e última questão
propõe que seja pensado sobre que método geral poderia ser utilizado para explorar uma realidade
sempre marcada pela diversidade e especificidade (p. 11-12).
 A cientificidade deve ser pensada como uma ideia reguladora, não um conjunto de normas e regras.
Dessa maneira, o fazer científico pode se encaminhar para duas vias: uma onde elabora suas
teorias, métodos e estabelece seus resultados; e outra, onde inventa, retifica, elabora outros
caminhos, segue em outras direções (p. 12). Essa direção comprova que o cientista deve ser
humilde, lembrando sempre que qualquer conhecimento, além de aproximado, é construído (p.13).
 No texto (p.13) encontra-se a seguinte citação, retirada de Bruyne “na realidade histórica do seu
devir, o procedimento científico é ao mesmo tempo aquisição de um saber, aperfeiçoamento de
uma metodologia, elaboração de uma norma” (1991, p. 16).
 O objeto das ciências sociais é histórico, dessa maneira, a provisoriedade, o dinamismo e a
especificidade são características fundamentais das questões sociais (p.13).
 O objeto de estudo das ciências sociais possui consciência histórica, ou seja, tanto o pesquisador
quanto a sociedade em geral dão sentido e intenção à pesquisa. O nível de consciência histórica
das ciências sociais está referenciado ao nível de consciência histórica social (p. 14).
 Um outro aspecto das ciências sociais é o fato de que ela é intrínseca e extrinsecamente ideológica.
Apesar de veicular pontos de vista historicamente construídos, suas contribuições ultrapassam as
intenções de seu desenvolvimento (p. 14).
 O objeto das ciências sociais é essencialmente qualitativo. Elas possuem instrumentos e teorias
capazes de aproximarem-se do que é a vida humana em sociedade, ainda que de forma incompleta.
Para tanto, ela “aborda o conjunto de expressões humanas constantes nas estruturas, nos processos,
nos sujeitos, nos significados e nas representações” (p. 15).

2. O conceito de metodologia de pesquisa


 Entende-se por metodologia “o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da
realidade” (p.16).
 A metodologia “inclui as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que
possibilitam a construção da realidade e o sopro divino do potencial criativo do investigador”
(p.16).
 A metodologia “enquanto conjunto de técnicas, deve dispor de um instrumental claro, coerente,
elaborado, capaz de encaminhar os impasses teóricos para o desafio da prática” (p.16).
 A valorização demasiada das técnicas produz “ou um formalismo árido, ou respostas
estereotipadas” (p. 16). Ignorá-las leva ao empirismo ou a especulações. Contudo, a criatividade
do pesquisador é essencial. Muitas vezes, a quebra de paradigmas relacionados ao trabalho
científico, auxilia no seu progresso (p. 17).
 Entende-se pesquisa como “a atividade básica da Ciência na sua indagação e construção da
realidade” (p. 17). A pesquisa vincula conhecimento e ação, ou seja, tudo que é um problema
intelectual, já foi um problema da vida prática (p. 17). As questões da investigação estão, portanto,
vinculadas a interesses e circunstâncias sociais, encontrando, no real, seus objetivos e suas razões
(p. 18).
 Toda investigação inicia com uma questão, sempre articulada com conhecimentos prévios, mas
que também pode demandar a criação de novos referenciais (p.18). Teorias são construídas para
explicar ou entender fenômenos, processos ou conjunto de fenômenos e processos (p. 18). No
entanto, por mais bem elaborada que uma teoria seja, ela nunca conseguirá explicar todos os
fenômenos e processos, por isso o investigador observa apenas um recorte da realidade (p. 18).
 Teorias são explicações parciais da realidade e cumprem funções muito importante: a) colaboram
para esclarecer melhor o objeto de investigação; b) ajudam a levantar as questões, o problema, as
hipóteses com mais propriedade; c) permitem maior clareza na organização dos dados; d) e ajudam
na análise dos dados organizados (p. 18-19).
 Resumindo, teoria é “um conhecimento de que nos servimos do processo de investigação como
um sistema organizado de proposições, que orientam a obtenção de dados e a análise dos mesmos,
e de conceitos, que veiculam seu sentido” (p. 19).
 Para que a afirmação anterior seja melhor compreendida, deve-se saber que proposições são
declarações afirmativas sobre fenômenos e processos. As proposições de uma teoria devem ter as
seguintes características: a) serem capazes de sugerir questões reais; b) serem inteligíveis; c)
representarem relações abstratas entre as coisas, fenômenos e processos (p. 19).
 Teorias se utilizam de um conjunto de proposições logicamente relacionadas. Portanto, o
pesquisador deve se aprofundar nas obras de diferentes autores que estudam o tema que lhe
preocupa, inclusive daqueles que tem teorias ideologicamente diferentes das suas (p. 19).
 Na pesquisa se trabalha com a “linguagem científica das proposições que são construções lógicas;
e conceitos que são construções de sentido” (p. 20).
 Conceitos servem para “ordenar os objetos e os processos e fixar melhor o recorte do que deve ou
não ser examinado e construído” (p. 20). As funções dos conceitos podem ser separadas em
cognitivas, pragmáticas e comunicativas (p. 20). No aspecto cognitivo, o conceito é delimitador
(p. 20). Em sua função pragmática, o conceito deve ser operativo, ou seja, deve permitir que o
pesquisador o utilize em campo (p. 20). E por fim, em seu caráter comunicativo, deve ser de tal
forma claro, específico e abrangente que os demais interlocutores participantes da mesma área de
interesse possam compreendê-lo (p. 20-21).
 De acordo com Kaplan (1972): “a) conceitos de observação direta são os que se colocam em um
grau bastante operacional. Servem sobretudo para a etapa descritiva de uma investigação; b)
conceitos de observação indireta são os que articulam os detalhes da observação empírica,
relacionando-os. Nesses dois primeiros casos temos conceitos construídos a partir do campo
empírico; c) conceitos teóricos são os que articulam proposições e se colocam no plano da
abstração” (p. 21).
 Deve-se lembrar que cada corrente teórica tem seu próprio conjunto de conceitos e que, para
entendê-los, o pesquisador deve se apropriar do contexto em que foram criados e das posições de
outros autores que dialogam com a pesquisa (p. 21).

3. A pesquisa qualitativa
 A pesquisa qualitativa se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode
ser quantificado. Ela trabalha com o universo de significados, valores, crenças, motivações,
correspondentes a um nível mais denso das relações, dos processos e dos fenômenos, e que não
pode ser reduzido a variáveis (p. 22).
 A diferença entre qualitativo e quantitativo é referente as suas naturezas. No entanto, os dados
qualitativos e quantitativos não se excluem – pelo contrário – se complementam, pois, “a realidade
abrangida por eles interage dinamicamente, excluindo qualquer dicotomia” (p. 22).
 O Positivismo trouxe para os estudos científicos termos matemáticos para a compreensão da
realidade. Uma das principais características do método quantitativo -enquanto pensado como
suficiente para explicar a realidade social - é a objetividade (p. 23). Para os positivistas, a análise
social poderia ser objetiva se fosse realizada por instrumentos padronizados e, supostamente,
neutros (p. 23).
 Em oposição ao Positivismo, a Sociologia Compreensiva prega a compreensão, como já diz seu
nome, da realidade humana vivida socialmente (p. 23). Em suas diferentes manifestações, “o
significado é o conceito central de investigação” (p. 23).
 Ambos posicionamentos são alvos de inúmeras críticas. O Positivismo é criticado por “restringir
o conhecimento da realidade social ao que pode ser observado e quantificado” (p. 24). À
Sociologia Compreensiva, as críticas se referem “ao empirismo e subjetivismo dos investigadores
que confundem o que percebem e a fala que ouvem com a verdade científica” (p. 24).
 A abordagem Dialética seria um meio termo entre as posições apresentadas até agora. Ela
considera que o fenômeno ou processo social deve ser compreendido nas suas “determinações e
transformações dadas pelo sujeito” (p. 25). Ela entende a complexidade dos objetos sociais e
relaciona o mundo social com o mundo natural, considerando-os complementares (p. 25).

4. O ciclo da pesquisa
 A pesquisa é um “labor artesanal” (p. 25), que não vem da criatividade e se realiza através de uma
linguagem baseada em conceitos, proposições, métodos e técnicas, construindo um ritmo
particular (p. 25). Esse ritmo chama-se ciclo da pesquisa – um “processo de trabalho em espiral”,
que inicia com um problema e acaba em soluções provisórias, que, provavelmente, vão gerar mais
indagações (p. 26).
 Esse processo inicia por uma fase exploratória da pesquisa, onde se constrói o projeto de
investigação, que delimita os pressupostos, as teorias pertinentes, a metodologia adequada, para
que o trabalho de campo possa ocorrer (p. 26).
 Em seguida, estabelece-se o trabalho de campo, que é “o recorte empírico da construção teórica
elaborada no momento” (p. 26). Por fim, é necessário elaborar o tratamento do material coletado
em campo – que se subdivide em ordenação, classificação e análise propriamente dita. O
tratamento do material leva o pesquisador à teorização sobre os dados, que confronta os dados
observados com a teoria escolhida (p. 26).