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Acordo de acionistas: panorama atual do

instituto no direito brasileiro e propostas


para a reforma de sua disciplina legal

Celso Barbi Filho

Sumário
1. Introdução. 2. Noções gerais. 3. Situação
no direito estrangeiro. 4. Evolução no direito bra-
sileiro. 5. Natureza jurídica do acordo de acionis-
tas. 6. Alternativa às holdings. 7. Acordo de quo-
tistas. 8. Partes no acordo de acionistas. 9. Obje-
to do acordo de acionistas. 10. Forma do acordo
de acionistas. 11. Execução específica do acordo
de acionistas. 12. Vigência e rescisão do acordo
de acionistas. 13. Sugestão para nova redação
do art. 118 da Lei das S/A.

1. Introdução
O momento econômico atualmente vivi-
do no Brasil e no mundo, com o fenômeno
da tão discutida globalização, vem impul-
sionando uma série de processos societários
que atuam diretamente na realidade empre-
sarial, como as privatizações, fusões, aqui-
sições e incorporações. Isso tem pressiona-
do o Legislativo brasileiro a promover ajus-
tes na disciplina legal das sociedades anô-
nimas, modelo jurídico teoricamente desti-
nado à grande empresa privada nacional,
de modo a adequá-la a essa nova realidade.
Assim, a vigente Lei da S/A, de nº 6.404,
de 15 de dezembro de 1976, já sofreu uma
primeira reforma, promovida pela Lei nº
9.457, de 15 de dezembro de 1997, na qual
relevantes alterações foram efetivadas no
Celso Barbi Filho é Professor Adjunto, Mes- regime jurídico das companhias.
tre e Doutor em Direito Comercial na Faculda- Mas o propósito e a necessidade de se
de de Direito da Universidade Federal de Minas adequar a legislação societária ao contexto
Gerais. empresarial presente não se limitam às mo-
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dificações efetuadas pela Lei nº 9.457/97, nista, que, se não comuns a todo o corpo
chamada de “pequena reforma” (BULGA- acionário, podem sê-lo em relação a deter-
RELLI, 1998, p. 107). Desse modo, para a minado grupo de sócios.
próxima e iminente mudança na Lei das Para a regulamentação e disciplina jurí-
S/A, um relevante instituto talvez mereces- dica desses interesses comuns a determina-
se ser lembrado: o acordo de acionistas. do grupo de acionistas, desenvolveram-se
A eventual conclusão sobre a conveniên- na prática societária ajustes parassociais
cia de alterações na vigente disciplina legal entre os integrantes de grupos com interes-
do acordo de acionistas exige que se faça ses comuns. Na medida em que sua inci-
um panorama geral do instituto em nosso dência aumentou, doutrina, jurisprudência
direito, a fim de se identificarem quais seriam e, posteriormente, a legislação tiveram de
essas alterações e por que deveriam ser feitas. reconhecer sua existência e os reflexos jurí-
É a que me proponho neste breve estudo. dicos desta.
Assim surgiram os chamados acordos
2. Noções gerais de acionistas, que hoje têm previsão e disci-
plina próprias no direito positivo brasilei-
A idéia que bem explica a concepção das ro, pelo art. 118 da Lei nº 6.404/76.
sociedades anônimas é a de uma estrutura Não obstante a origem do atual modelo
societária capaz de, simultaneamente, con- das sociedades anônimas remonte ao perío-
centrar o capital e pulverizar sua titularida- do colonial, os acordos de acionistas, em face
de. Aqueles que querem desenvolver a ati- do refinamento teórico de sua concepção,
vidade empresarial (empreendedores) veri- constituem instituto em certa medida recen-
ficam que não podem prescindir dos que se te. A doutrina italiana registra menções à
propõem a investir nessa atividade (inves- existência dessa figura no final do século
tidores), fornecendo recursos necessários à XX e início do século XXI.
sua viabilização. Ao mesmo tempo, não con- O acordo de acionistas é essencialmente
vém aos empreendedores partilhar a admi- um contrato, cuja origem e disciplina fun-
nistração com os investidores, sob pena de damental está no direito das obrigações.
subtrair-se da gestão negocial a unidade e a Suas particularidades decorrem de que ele
sintonia a ela indispensáveis. disciplina direitos e relações dos acionistas
A sociedade anônima é, pois, o modelo de uma mesma companhia entre si, mas, ao
jurídico para a grande empresa privada, que mesmo tempo, não se confunde com os atos
pode viabilizar-se economicamente con- constitutivos da sociedade, sendo, por isso,
ciliando, em um instituto jurídico próprio, considerado “parassocial”.
interesses convergentes, mas distintos, dos Daí por que o acordo de acionistas pode
acionistas que querem realizar o empreen- ser conceituado como o contrato entre de-
dimento, gerindo-o, e daqueles que apenas terminados acionistas de uma mesma com-
desejam investir no negócio, dele auferindo panhia, distinto de seus atos constitutivos,
rendimentos, sem envolver-se em sua admi- e que tem por objeto o exercício dos direitos
nistração. decorrentes da titularidade de suas ações,
Com isso, o direcionamento dos múlti- especialmente no que tange ao voto e à com-
plos e diversificados interesses presentes pra e venda dessas ações.
dentro da sociedade anônima possui dois
vértices. O primeiro é aquele para o qual to- 3. Situação no direito estrangeiro
dos convergem, qual seja a affectio societatis,
própria justificativa existencial da corpora- Conforme dito, uma das primeiras notí-
ção societária. Já o segundo são as preten- cias doutrinárias que se tem dos acordos de
sões e interesses individuais de cada acio- acionistas vem do direito italiano. Em arti-

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go de 1904, famoso jurista daquele País ano- voto ou a sujeição das minorias. A Lei das
tava a existência de pacto entre membros de Sociedades Comerciais de 1966 foi omissa a
uma sociedade comercial de Milão, desti- respeito, sendo que, mais recentemente, uma
nado a disciplinar seu procedimento para a Lei de 1985 reconheceu expressamente a
hipótese de deliberação sobre pedido de validade das convenções de voto nos gru-
concordata1. pos de sociedades. Não obstante, há notícias
A tendência inicial no direito europeu de alguns precedentes que denunciam va-
continental era pela invalidade desses ajus- cilações de doutrina e jurisprudência so-
tes, mas tal conclusão referia-se basicamen- bre a admissibilidade de determinados con-
te aos acordos sobre o voto, não se encon- teúdos para o acordo de voto.
trando notícia de restrições à existência ou No direito alemão, nem a Lei das Socie-
ilicitude dos contratos sobre compra e ven- dades de 1937, e nem a atual de 1965, prevê-
da de ações e preferência para adquiri-las, em expressamente os acordos de acionistas.
também chamados de bloqueio. Todavia, este último diploma reputa inváli-
Além disso, a figura que posteriormente das algumas modalidades de pactos, o que
desenvolveu-se na Europa não era propria- faz presumirem-se como admissíveis os de-
mente contratual, mas de autêntica corpo- mais. A tendência jurisprudencial sempre
ração ou entidade, denominada sindica- foi pela aceitação do instituto, dentro do
to acionário, coordenada por um síndico princípio civilista de que se tem por permiti-
que representava o grupo nas assembléias do tudo aquilo que a lei não proíbe, ressalva-
gerais. da a aferição de legalidade em cada caso con-
Na Itália, o entendimento era pela ilega- creto, nas hipóteses de venda de voto ou su-
lidade do acordo de voto, à luz do Código jeição deste à vontade dos administradores.
de Comércio de 1882. Após isso, houve re- Na Espanha, a tendência doutrinária e
versão dessa tendência, com destaque para jurisprudencial sempre foi pela aceitação
o papel que tiveram nesse processo os estu- das convenções, tanto de voto, quanto de
dos de Tullio Ascarelli (1931). O Código Ci- bloqueio. Vem de lá uma das principais e
vil de 1942 propositadamente omitiu-se so- pioneirasobrassobreoinstituto,La Sindica-
bre o instituto, mesmo na reforma de 1974 cion de Acciones, de Antonio Pedrol (1951),
sobre as sociedades anônimas. Assim, ficou que inclusive defende a importante utilida-
a critério dos juízes a aferição de validade de dos acordos. A Lei das Sociedades Anô-
dos pactos pelo direito obrigacional, tendo nimas de 1971 foi omissa a respeito, sendo
em vista o objeto ajustado. E a jurisprudên- que uma Circular da Direção do Contencio-
cia vem admitindo as convenções de acio- so Espanhol de 1968 fixou expressamente a
nistas, elaborando os critérios para se acei- admissibilidade dos acordos de voto e blo-
tar sua legitimidade. queio.
No direito francês, encontra-se referên- Na América Latina, países como Argen-
cia sobre os acordos exclusivamente relati- tina, Bolívia, Chile e Uruguai utilizam co-
vos à compra e venda de ações, chamados mumente o instituto, cuja validade é aceita
sindicat de blocage, em relação aos quais não à luz do direito obrigacional, sem previsão
se opunha restrição. Já os acordos de voto legal específica. Na Colômbia, Paraguai, Peru
eram inicialmente repudiados pela própria e Venezuela, não são previstos na lei e nem
legislação, conforme disposto em um Decre- largamente utilizados na prática societária.
to-lei de 1937. Com o passar do tempo, a Na Inglaterra, país da common law, o ins-
jurisprudência amainou o rigor dessa rejei- tituto não só sempre foi aceito como muito
ção, sendo as convenções de acionistas hoje utilizado e desenvolvido na vida empresa-
admitidas, desde que seu objeto não fira prin- rial. Há naquele país o voting agreement, fi-
cípios básicos, como a inalienabilidade do gura contratual cuja força vinculante a ju-

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risprudência tem reconhecido como su- vam-se duas correntes doutrinárias a respei-
perior aos próprios estatutos sociais2. to. Uma admitindo a validade do acordo
Nos EUA, as sociedades anônimas são como negócio jurídico fundado no direito
objeto de leis específicas nos diversos Esta- das obrigações e válido dentro do princípio
dos. Essas leis, em regra, limitam-se a disci- privatista de que está permitido tudo o que
plinar a constituição da sociedade e seus a lei não proíbe. A eventual ilicitude ficava
aspectos funcionais, nada dispondo sobre reservada ao exame de casos concretos pe-
os acordos de acionistas. Todavia, lá as con- los Tribunais nas hipóteses de venda do voto
venções de voto e bloqueio são amplamente ou das convenções permanentes. Outra cor-
utilizadas e aceitas, a menos que tenham rente repudiava o acordo de acionistas, por
fins ilícitos ou visem a alijar minorias. Assu- constituir pacto que retirava das assembléi-
mem tais convenções as formas do pooling as sua função institucional de fórum de de-
agreement, de caráter contratual e destinado bates, fazendo prévias todas as resoluções
a organizar grupos de controle. Já os dos signatários. Não se negava a validade
shareholders´agreements objetivam regular a inter partes, do negócio, mas apenas sua opo-
eleição de administradores. E há ainda a fi- nibilidade à companhia. Assim, os votos
gura do voting trust, modelo corporativo de contrários aos acordos eram válidos peran-
representação de minorias nas grandes te a sociedade, vigorando o princípio da “im-
companhias, caracterizando uma forma penetrabilidade das convenções de voto nas
mais aberta do sindicato de voto europeu. sociedades”, como expressava Pontes de
Prestigia-se, no direito norte-americano, a Miranda.
plena eficácia dos acordos de acionistas, por Apesar disso, os empresários utiliza-
meio da mandatory injunction, ordem do juiz vam-se intensamente dos acordos de acio-
dada diretamente à parte para que cumpra nistas na prática societária, inclusive no
o pactuado. setor público, notadamente com as partici-
Como síntese desse panorama do acor- pações do então BNDE em companhias pri-
do de acionistas no direito estrangeiro, ob- vadas na década de 60, além da formação
serva-se que a maioria dos países utiliza o das joint ventures com empresas estrangeiras.
instituto, o qual assume também formas cor- Diante de tal realidade e considerando o
porativas, como os sindicatos acionários ou interesse econômico envolvido, o legislador
os voting trusts, entidades despersonaliza- brasileiro resolveu pôr fim à controvérsia,
das que congregam determinados acionis- prevendo expressamente os acordos de acio-
tas e representam seus interesses junto à nistas no art. 118 da Lei nº 6.404/76, em que
companhia. se fez questão de estabelecer o discutido
Mas esses países, em sua maioria, não dever de observância da companhia aos
cuidam de uma disciplina legal dos acor- acordos nela registrados.
dos de acionistas, admitindo sua celebra- Essa regulamentação legal do instituto
ção à luz do direito obrigacional comum e merece aplausos quanto à “previsão” da
deixando a aferição de sua licitude para os legalidade dos acordos de acionistas, pon-
casos concretos, em que se repele o uso do do fim à polêmica até então existente a
instituto para venda de voto ou alijamento respeito. Na doutrina, o texto brasileiro é
de minorias. ainda hoje elogiado como sendo “uma das
primeiras leis que de maneira direta trata
4. Evolução no direito brasileiro da matéria, antecipando-se, inclusive, ao
projeto de sociedade anônima européia”
No direito brasileiro anterior à Lei das (CARVALHOSA, 1998, p. 455), no qual se
S/A de 1976, não havia previsão legal so- inspirou. Mas talvez não se possa dizer o
bre os acordos de acionistas. Assim, destaca- mesmo quanto à disciplina regulamentar

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para os acordos, veiculada na Lei de 1976. O acordo de acionistas depende da com-
Isso porque, cuidando-se de instituto ainda panhia para existir. Entretanto, isso não cria
não completamente sedimentado na doutri- vinculação necessária entre ele e os atos
na e na jurisprudência pátrias, essa regu- constitutivos da sociedade. Com efeito, o
lamentação vertical não trouxe perfeita so- acordo de acionistas contém declarações de
lução para diversas questões decorrentes da vontade dos sócios sobre direitos e obriga-
utilização dos acordos, como se verá, ense- ções de sua esfera privada que, além de po-
jando as sugestões de mudanças que se fa- derem não ser comuns à totalidade dos de-
rão ao final deste breve estudo. mais acionistas, têm conteúdo distinto das
declarações presentes no estatuto social.
5. Natureza jurídica do Acresça-se a isso que a companhia não é
acordo de acionistas parte nesse pacto acionário. Por tais razões,
o acordo de acionistas é um contrato paras-
Não há mais dúvidas no direito brasilei- social, ou seja, celebrado sem a interveniên-
ro de que o acordo de acionistas tenha a cia da sociedade e alheio a seus atos consti-
natureza jurídica de um contrato, cuja fonte tutivos e alterações posteriores.
imediata é a Lei das S/A e a mediata o direi- Esse contrato nominado, civil e parasso-
to das obrigações. cial é também preliminar. Sabe-se que os
Em nosso sistema legal, o instituto pre- contratos preliminares caracterizam-se por
visto não é uma figura corporativa, como o não conterem uma operação jurídica efeti-
sindicato acionário europeu ou o voting trust va, mas apenas a promessa de fazê-la, como
norte-americano, em que se forma autêntica no instrumento particular de promessa de
subsociedade dentro da companhia, lidera- compra e venda de imóvel, cuja alienação
da por um síndico ou trustee, que representa fica ainda pendente da escritura pública. O
os acionistas nas assembléias e cuida de que o acordo de acionistas contém é, em re-
seus interesses perante a companhia3. gra, uma promessa de contratar futura com-
Aqui o que há é um contrato, cuja fonte pra e venda de ações na forma preestabele-
formal, conforme dito, é o direito societário cida, ou de emitir declaração de vontade
e a material o das obrigações. Como negócio correspondente ao voto nas assembléias
jurídico, orienta-se pelo preceito do art. gerais da companhia. O caráter de contrato
82 do Código Civil, devendo possuir preliminar do acordo de acionistas tem fun-
agentes capazes, que sejam acionistas damental importância no que pertine à sua
de uma mesma companhia; objeto lícito, execução específica.
referente a um pacto sobre legítimo exercí- Além de contrato nominado, civil, paras-
cio do direito de voto, compra e venda de social e preliminar, o acordo de acionistas é
ações ou outra estipulação lícita relativa à também plurilateral, pois nele as partes não
titularidade das ações; e adotar ainda for- se enfrentam com interesses concorrentes,
ma escrita, para que possa ser registrado na como numa compra e venda. Ao contrário,
companhia, pelos procedimentos de arqui- tal qual ocorre com o contrato de sociedade,
vamento e averbação. no acordo de acionistas as partes têm inte-
Desse modo, o acordo de acionistas é resses comuns quanto ao exercício conjun-
contrato, típico ou nominado, porquanto to e pré-ajustado de seus direitos junto à
previsto pela legislação societária. E é con- sociedade. Diz-se que essa classe dos con-
trato civil, posto que suas partes não são tratos plurilaterais é gênero que tem como
comerciantes no exercício da profissão de espécies os contratos de associação ou or-
mercancia, mas apenas acionistas de uma ganização, os quais, a seu turno, têm como
mesma companhia regulando o exercício subespécies distintas os contratos de socie-
dos direitos decorrentes de suas ações. dade e os acordos de acionistas.

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Tullio Ascarelli (1969, p. 271-283) sinte- das ações é comum a vários acionistas e
tiza os principais elementos da plurilatera- pode ser violado por apenas um deles, sem
lidade contratual como sendo: a) interven- prejuízo de permanência e exigibilidade
ção de duas ou mais partes; b) reciprocida- quanto aos demais.
de simultânea de direitos e obrigações entre Em síntese do exposto, o acordo de acio-
todos os contratantes e não apenas entre nistas possui a natureza jurídica de negó-
dois deles; c) declaração sucessiva de von- cio jurídico de direito privado, sendo um
tades dos aderentes para formação do con- contrato civil, nominado, parassocial em
trato; d) impossibilidade de que vícios indi- relação à companhia, preliminar, plurilate-
viduais de vontade comprometam a valida- ral quanto aos interesses que congrega, po-
de de todo o negócio jurídico; e) objetivos dendo ainda ser plurilateral, bilateral ou
contratuais comuns e não concorrentes (co- unilateral quanto às obrigações que impõe
munhão de fim); f) instrumentalidade, que faz às partes.
das obrigações das partes premissa para
uma atividade ulterior (a empresa); e g) o 6. Alternativa às holdings
caráter aberto do contrato, traduzido na “per-
manente oferta de adesão a novas partes e Quando se fala em acordo de acionistas,
possibilidade de desistência de quantos dele é necessário que se faça especial menção à
participem, sem necessidade de reforma do chamada sociedade holding. Ela não consti-
contrato”. tui propriamente instituto afim do acordo
A plurilateralidade é também, ao lado da de acionistas, nem com ele se confunde, mas
bilateralidade e da unilateralidade, uma clas- por vezes é utilizada para as mesmas finali-
sificação dos contratos quanto aos efeitos que dades. A holding é a sociedade de participa-
deles decorrem para as partes. Assim, se o ção, uma pessoa jurídica cujo capital é inte-
acordo de acionistas possui várias partes, e gralizado com as ações ou quotas de socie-
todas têm obrigações, ele é plurilateral nes- dade operativa. Com isso, os acionistas ou
se sentido. Se só envolve duas partes, que quotistas deixam de ser sócios desta última,
têm obrigações sinalagmáticas, é bilateral. para sê-lo apenas da holding, que passa à
E se só uma parte assume obrigações frente condição da efetiva controladora da socie-
às demais, o acordo é unilateral. Nessa últi- dade operativa.
ma hipótese, enquadram-se os casos em que O mecanismo de controle da holding é
a outra parte só tem encargos (v.g. indicar os diferente daquele exercido por meio do acor-
administradores a serem eleitos). Mas é de se do de acionistas, pois o centro de decisões
repelir a cláusula potestativa, que submeta transfere-se para a pessoa jurídica contro-
uma das partes ao arbítrio da outra (v.g. di- ladora, perdendo os acionistas os direitos
reito do minoritário de exercer a retirada a individuais que tinham na sociedade origi-
qualquer tempo e sem motivo). nal. Além disso, com a holding, um minori-
Para Modesto Carvalhosa (1998, p. 466, tário da sociedade operativa, v. g. com 31%
475), só o acordo de voto tem a natureza do capital, pode tornar-se controlador des-
parassocial e plurilateral. O acordo de blo- ta se fizer uma holding com outro que dete-
queio seria contrato tipicamente bilateral, de nha 20%, pois será o majoritário na holding.
caráter patrimonial, com prestações sinalag- Outro aspecto relevante é o de que, na hol-
máticas, que admitem exceção de não cum- ding, as ações da sociedade controlada pas-
primento. Embora repute correta a observa- sam à titularidade da pessoa jurídica con-
ção de nosso maior mestre no assunto, pen- troladora, sendo, com isso, definitiva a trans-
so que pode estar presente a plurilaterali- ferência feita pelos acionistas originais.
dade no acordo de bloqueio, na medida em Por tais razões, a doutrina estrangeira
que o objetivo da restrição de transferência repudia a utilização desse instituto para o

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exercício do controle pré-constituído. E, nes- sociedade limitada, observando-se os requi-
sa linha, o Legislador brasileiro de 1976, na sitos do art. 118 da Lei societária (1993, p.
exposição de motivos da Lei das S/A, apre- 250).
sentou o acordo de acionistas exatamente Quando abordei o assunto em estudo
como alternativa à holding, evitando o in- anterior, posicionei-me nessa linha, desta-
conveniente da transferência definitiva das cando, com base na doutrina italiana, que,
ações para a sociedade controladora, com a no acordo de quotistas, o sócio faz declara-
perda pelo acionista da sua condição de ções de vontade como titular de seu patri-
sócio da companhia principal e operativa. mônio particular e não apenas como mem-
Mas, por outro lado, a Lei acionária não bro da sociedade. Assim, nada impede que
fixou prazo máximo de vigência para os ele disponha segundo lhe aprouver sobre
acordos de acionistas. Diante disso, são co- seus direitos pessoais de votar e transferir
muns no Brasil os acordos por 30, 40 e 50 quotas, desde que dentro dos limites do con-
anos, ou mesmo por prazo indeterminado trato social.
que, na prática, acabam tendo o mesmo efei- Desse modo, aplicando-se subsidiaria-
to da indigitada holding. Trata-se, pois, de mente o art. 118 da Lei das S/A à sociedade
típica questão que mereceria ser contempla- limitada, é válido o acordo de quotistas que,
da em futura reforma da Lei 6.404/76. para escapar de eventual caráter oculto re-
pudiado pelo art. 302, 7, do C.Com., deve
7. Acordo de quotistas ser arquivado na sede da sociedade e no
Registro do Comércio, já havendo casos des-
Um instituto que vem sendo crescente- se tipo de arquivamento na JUCEMG (BAR-
mente utilizado na prática e sobre cuja lega- BI, 1993, p. 57).
lidade há algumas discussões é o acordo de Examinando posteriormente o tema,
quotistas de sociedade limitada. Afinal, se- Waldírio Bulgarelli compilou essas posições
ria esse tipo de ajuste admissível no sistema doutrinárias para constatar a validade dos
positivo brasileiro? acordos de quotistas, ressalvando apenas
José Alexandre Tavares Guerreiro já sus- que sua conclusão não decorre dos mesmos
tentou que não, pois, embora o problema fundamentos. No seu entender, o acordo de
pudesse, em princípio, ser resolvido pela quotistas é válido apenas entre seus signa-
aplicação analógica do art. 118 da Lei das tários, sendo inoponível à sociedade e a ter-
S/A à disciplina das sociedades por quo- ceiros, porque seu objetivo não é infletir so-
tas, a existência da norma do art. 302, 7, do bre o contrato social para modificá-lo, pou-
Código Comercial impediria a existência de co importando, assim, que seja ou não ocul-
acordos de quotistas em nosso direito. Isso to. É, portanto, apenas um negócio de efei-
porque dita norma estabelece que o contra- tos inter-partes, as quais respondem por even-
to social deve conter todas as cláusulas e tuais danos que causarem a terceiros, pois,
condições necessárias a se determinar com de acordo com o art. 16 do Decreto nº 3.708/
precisão os direitos e obrigações dos sócios 19, as “deliberações dos sócios, quando in-
entre si e para com terceiros, sendo nula toda fringentes do contrato social ou da lei, dão
cláusula ou condição oculta, contrária ao responsabilidade ilimitada àqueles que ex-
contido no instrumento ostensivo do con- pressamente hajam ajustado tais delibera-
trato ([s.d.], p. 102). ções”. Mas, se obedecer o regime do art. 118
Modesto Carvalhosa, instado a manifes- da Lei das S/A e for arquivado na sede da
tar-se sobre o tema em conferência proferi- sociedade, aí será oponível à sociedade e a
da no Rio de Janeiro, noticiou a intensa utili- terceiros (1995, p. 49).
zação prática do instituto e sua viabilidade Deve-se atentar ainda para que a utili-
por aplicação subsidiária da Lei das S/A à zação do acordo de quotistas tenha em vis-

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ta sua finalidade prática. Parece-me inócuo, sarial, constituindo cada “grupo” uma par-
por exemplo, um acordo de que participem te, com seu respectivo núcleo de interesses,
todos os quotistas da sociedade, se suas es- contando com vários sujeitos, pessoas na-
tipulações, sendo lícitas e compatíveis com turais ou jurídicas, que o integram.
o contrato social, poderiam constar dele pró- Para uma análise teórica, poder-se-ia
prio. cogitar, quanto às partes do negócio, de acor-
Não obstante, é possível que haja utili- dos entre acionistas, entre acionistas e ter-
dade jurídica para os acordos realizados ceiros, entre acionistas e a sociedade ou seus
pela unanimidade ou mesmo maioria dos administradores, e entre acionistas e fun-
quotistas, quando o objetivo do pacto pa- dadores.
rassocial seja regular interesses particula- Os acordos entre acionistas, dentro do
res dos acordantes, perfeitamente lícitos, preceito geral do art. 82 do Código Civil,
mas cuja menção no contrato social revela- exigem que seus sujeitos, se pessoas natu-
se incompatível com a natureza deste ou rais, sejam legalmente capazes ou estejam
com o sigilo comercial. Seriam os casos de devidamente representados ou assistidos
estipulações sobre escolha dos administra- para manifestar sua vontade, devendo as
dores, fornecimento de tecnologia, política pessoas jurídicas possuírem regular repre-
de distribuição de lucros etc. sentatividade na forma dos seus contratos
Em suma, o acordo de quotistas é válido ou estatutos sociais.
no direito brasileiro, devendo, para sua re- A doutrina admite que sejam partes nos
gularidade e segurança, ser arquivado na acordos de acionistas pessoas que assumem
sede da sociedade e no Registro do Comér- a titularidade transitória das ações por gra-
cio. vames como o usufruto e o fideicomisso. Ini-
Entretanto, a ausência de previsão legal cialmente, posicionei-me contra isso, consi-
específica sobre o instituto, como visto, en- derando que essas pessoas seriam terceiros,
seja dúvidas sobre sua efetiva validade. e não acionistas, violando a dicção literal
Assim, na reforma da Lei das S/A, poder- do art. 118 da Lei (BARBI, 1993 p. 83-84).
se-ia fazer menção à admissibilidade dos Entretanto, hoje vejo que tal objeção não tem
acordos de acionistas em outros tipos socie- sentido, pois, se o usufrutuário e o fiduciá-
tários. rio não são acionistas, estão na titularidade
dos direitos destes, e nada obsta que firmem o
8. Partes no acordo de acionistas contrato previsto no art. 118 da Lei das S/A.
Mas a literalidade da Lei, que fala em “acio-
Em matéria de acordo de acionistas, é nistas”, dá margem a essa dúvida, sendo
importante não se confundirem partes com válido esclarecer-se esse aspecto em uma
sujeitos. O contrato pode ter duas partes, isto reforma do texto do art. 118.
é, dois centros de interesses, mas cada cen- Nada impede, da mesma forma, que acio-
tro ser constituído por vários sujeitos. De nistas subscritores, cujas ações ainda não
outro lado, o acordo que tem apenas duas foram integralizadas, possam firmar acor-
partes é também plurilateral, na medida em dos, pois já adquiriram a condição de acio-
que encerra um objetivo comum perseguido nistas no ato da subscrição, podendo exer-
por ambas (v.g. a manutenção do controle), cer seus respectivos direitos enquanto não
admitindo-se sempre o ingresso de outras suspensos por assembléia (art. 120).
partes com os respectivos sujeitos, para ade- Os acordos entre acionistas e terceiros
rir ao mesmo objetivo. são admitidos no direito europeu. No caso
Nesse sentido, é comum que os acordos brasileiro, há vários exemplos desses ajus-
sejam firmados por diferentes “grupos” de tes como cláusulas acessórias a contratos
acionistas, de natureza familiar ou empre- de compra e venda de ações ou de mútuo.

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Em princípio, são negócios jurídicos váli- (v.g. aprovação de contas da administração).
dos, cuja eventual ilicitude só poderá ser São ilegais quaisquer estipulações para con-
aferida em cada caso concreto, mas não cons- cessão de benefícios especiais pelos admi-
tituem “acordo de acionistas”, contrato ti- nistradores a determinados acionistas, em
pificado no art. 118 da Lei societária, com troca da eleição daqueles, pois isso configu-
regime próprio ali previsto. Assim, contra- ra venda de voto. Lamentavelmente, exis-
tos entre acionistas e terceiros são válidos tem muito na prática tais contratos, sempre
entre seus signatários, mas inoponíveis à mascarados sob outras formas.
companhia e a outros acionistas, não po- Sobre os acordos entre acionistas e fun-
dendo ser arquivados na sociedade para os dadores que não sejam também acionistas
fins do art. 118. A alternativa apontada na ou tenham apenas a possibilidade de vir a
doutrina é, no caso de contratos celebrados, sê-lo mediante, por exemplo, a conversão em
por exemplo, entre acionistas e credores, que ações de suas partes beneficiárias, parece-
aqueles firmem acordo entre si para assegu- me que se aplica o preceito geral de que são
rar, no âmbito da companhia, os direitos que negócios jurídicos estranhos ao art. 118 da
pretendem conferir aos credores. Mas tais Lei das S/A, cuja legalidade tem de ser afe-
ajustes não podem configurar mecanismo de rida em cada caso concreto pelo direito obri-
controle externo da sociedade, sob pena de gacional comum.
nulidade (CARVALHOSA, 1998, p. 468-469).
Não se admitem acordos entre acionis- 9. Objeto do acordo de acionistas
tas e a companhia, a qual não é parte legíti-
ma nesses pactos, como pacificado nos di- O art. 118 da Lei das S/A especifica uma
reitos europeu e brasileiro. Só se teve notícia tipicidade de objeto para os acordos de acio-
desse tipo de pacto na Alemanha do perío- nistas, estabelecendo que “os acordos de
do entre guerras, quando os acordos eram acionistas, sobre a compra e venda de suas
utilizados para se estabilizar a gestão das ações, preferência para adquiri-las, ou exer-
companhias. Atualmente, não se concebe cício do direito de voto, deverão ser obser-
mais que a sociedade possa ser parte na con- vados pela companhia quando arquivados
venção, embora ela assuma pela Lei uma na sua sede”.
série de funções na sua implementação, pre- A conclusão uniforme da doutrina bra-
vistas, no caso brasileiro, no próprio art. 118 sileira sobre tal disposição da Lei é de que o
da Lei das S/A. É até comum, na prática atendimento a essa tipicidade de objeto, pre-
societária, que a companhia figure como sente na maioria dos acordos de acionistas,
interveniente no acordo, para dela se exigir gera para a companhia a obrigatoriedade
observância ao pacto já prevista em Lei. Tal de observância do ajuste. Isso, todavia, não
providência, contudo, não faz da sociedade exclui a possibilidade da existência de acor-
parte do negócio, nem supre o ato de seu dos com outros objetos, como, v.g., a obriga-
arquivamento, destinado a dar publicidade ção de não comparecimento de preferencia-
presumida ao acordo, como se verá adiante. listas sem direito a voto às assembléias, a
São ilícitos ajustes entre acionistas e ad- implementação de programas tecnológicos
ministradores que não sejam acionistas, nos ou gerenciais, os critérios para a escolha de
quais se pactuem regras sobre questões de administradores etc. Apenas, esses acordos,
interesse da administração. Quando os ad- com objetos extravagantes aos tipificados no
ministradores forem também acionistas, art. 118, como seriam os casos de pactos so-
poderão obviamente firmar acordos, desde bre critérios de decisões no âmbito do Con-
que neles só se ajuste voto sobre declara- selho de Administração, reorganização em-
ções de vontade (v.g. eleição de administra- presarial e limitação de responsabilidade
dores) e não sobre declarações de verdade pessoal por dívidas sociais (CARVALHO-

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SA, 1998, p. 463), não são oponíveis à com- sições contratadas. A recíproca já não é ver-
panhia que pode, em tese, até recusar seu dadeira, ou seja, há muitos acordos de blo-
arquivamento. queio sem pacto sobre o voto. A tal propósi-
Por isso, seria oportuno que, em uma to, vale referência à observação de Modesto
nova reforma da Lei, seu texto fosse mais Carvalhosa no sentido de que a affectio socie-
amplo, referindo-se a acordos sobre o exer- tatis é elemento essencial ao acordo de voto,
cício regular de todos os direitos decorren- mas não ao de bloqueio (1998, p. 464).
tes da titularidade das ações vinculadas ao
pacto, acabando-se com a restrição hoje exis- 9.1. Acordos de voto
tente. A possibilidade de prévio ajuste do voto
Noutro giro, cumpre destacar que há acionário, retirando da assembléia geral seu
objetos vedados para os acordos de acionis- caráter de fórum de debates supremo da
tas, como são os casos de (BARRETO, 1982, companhia, foi a princípio muito combati-
p. 64): da na doutrina e nos Tribunais. Hoje, con-
a) indeterminação de escopo, ou “acor- tudo, essa resistência já não existe e os acor-
dos em aberto”, caracterizados pela inespe- dos de acionistas sobre o direito de voto das
cificidade do ajuste quanto às matérias ou suas ações são admitidos em todos os paí-
diretrizes do voto. ses. Os ajustes de voto são inerentes à pró-
b) cessão do direito de voto sem transfe- pria autonomia privada existente na esfera
rência da titularidade das ações; das relações patrimoniais dos acionistas.
c) negociação do voto (crime, art. 177, § A despeito disso, um pacto sobre voto
2º, Código Penal); pode ser válido mas não ter eficácia se, na
d) violação de direitos essenciais do assembléia geral, alguma circunstância opu-
acionista; ser o voto contratado ao interesse social. É o
e) violação da legislação antitruste, de que ocorre, por exemplo, em relação à distri-
proteção à economia popular e aos consu- buição de dividendos quando a companhia
midores; estiver em dificuldades financeiras. E essa
f) acordo danoso aos interesses da socie- ineficácia incidental justifica-se porque “os
dade (art. 115 da Lei das S/A); efeitos do acordo de voto se produzem na
g) acordos que tenham por objeto as de- esfera da companhia, afetando-a diretamen-
clarações de verdade (aprovação de con- te, em termos de consecução do interesse
tas etc.). social” (CARVALHOSA, 1998, p. 463).
Embora haja, em tese, a possibilidade de O mesmo acontece quando os acionistas
acordos de acionistas com objetos lícitos mas entram em conflito na assembléia sobre a
diversos dos previstos pela Lei, a prática interpretação do acordo e o presidente, não
revela que os escopos de maior interesse são tendo poder jurisdicional, fica impossibili-
mesmo aqueles referidos no art. 118, quais tado de resolver a controvérsia. Daí por que
sejam o voto e a compra e venda de ações. questiono, isolado na doutrina, mas com
Assim, dentro da tipicidade legal, o acordo vivência prática a respeito, o que seja “de-
poderá ser de voto, quando versar sobre o ver de observância” da companhia aos acor-
prévio ajuste para o exercício do voto nas dos de voto nela arquivados. Se há contro-
assembléias, ou de bloqueio, quando tiver vérsia entre os signatários, o presidente da
por finalidade estabelecer regras sobre a assembléia não pode decidir qual é o voto
compra e venda de ações ou a preferência contrário ao acordo para deixar de compu-
para adquiri-las. tá-lo. Afinal, ele não é juiz de direito e, por-
Normalmente, ao acordo de voto está tanto, não tem jurisdição para resolver o
sempre associado um pacto de bloqueio, problema, cabendo-lhe apenas suspender a
para que se assegure a manutenção das po- deliberação, ou devolver o conflito à assem-

252 Revista de Informação Legislativa


bléia, que decidirá por maioria, frustrando te do acordo. Nessas reuniões, as delibera-
o acordo (BARBI, 1993, p. 102-103). ções podem ser pactuadas por quorum qua-
Diante disso, seria importante inserir-se lificado ou unanimidade. Na segunda hi-
na reforma da Lei a determinação para que pótese, a ausência de consenso implica a
a mesa da assembléia limite-se a suspender obrigação de votar pela reprovação da ma-
a deliberação nos casos de controvérsia en- téria, mantendo-se o status quo, ou então, a
tre os contratantes do acordo de acionistas. obrigação de não votar, o que dá uma espé-
Mas, pelo Projeto em votação no Congresso cie de “efeito suicida”, pois os acionistas
Nacional, o novo § 9º proposto para o art. não signatários poderão preponderar na
118 da LSA estabelece que “o presidente da deliberação respectiva da assembléia. É pos-
assembléia geral ou de órgão de delibera- sível prever-se ainda que, na ausência de
ção colegiada da companhia não computa- consenso, cada signatário seja liberado para
rá o voto proferido com a infração a acordo votar como quiser, o que acaba frustrando o
de acionistas devidamente arquivado”. Com objetivo do pacto e permitindo coligações
o devido respeito, é de se insistir na seguin- de última hora.
te pergunta: como pode presidente da as- Outro modo de contratação do voto é o
sembléia decidir o que seja juridicamente de veto, ou seja, as partes só podem votar
“voto proferido com infração ao acordo”, se uniformemente em determinadas matérias
ele não tem poder jurisdicional? ou então reprová-las. A conseqüência disso
O acordo de voto será de comando ou é que, estabelecido o status quo quando da
controle, quando se destina à obtenção ou celebração do acordo, uma das partes sem-
manutenção do mando na companhia. Tal pre poderá vetar qualquer mudança na so-
acordo pode dar-se entre grupos que isola- ciedade, criando autêntica ditadura da mi-
damente não detêm o controle e se reúnem noria dentro do acordo. Esse modelo era
para tanto por acordo de voto (art. 116), ou muito utilizado para dar segurança às par-
entre o acionista controlador e um minori- ticipações estrangeiras em companhias na-
tário que àquele se une para assegurar de- cionais nos anos 60 e 70, fomentadas pelo
terminadas posições. São os casos, por exem- então BNDE, antes mesmo da regulamenta-
plo, de quem aliena o controle e quer manter ção do acordo de acionistas no Brasil (CAR-
prerrogativas junto ao novo controlador, ou VALHOSA, 1998, p. 454).
do majoritário que deseja vender um bloco Nessa linha, os acordos que exijam una-
de ações sem perder o controle, mas assegu- nimidade em reuniões prévias de acionis-
rando ao adquirente determinadas vanta- tas, ou atribuam direito de veto a alguns
gens políticas, de modo a que este se inte- deles, não podem versar sobre questões de
resse pela aquisição4. gestão ordinária da sociedade, assim enten-
O exercício do voto contratado e a pre- didas aquelas objeto das AGO´s (art. 132),
ponderância nas deliberações da assembléia como destinação do lucro líquido do exercí-
geral se fazem por meio da especificação no cio, distribuição de dividendos, eleição de
acordo das matérias que deverão ser objeto administradores ou fiscais e correção mo-
de voto uniforme. Dita especificação é fun- netária do capital, se vigente, sob pena de
damental, pois não se admitem acordos “em que a minoria venha a inviabilizar, pelo
aberto”. acordo, o próprio funcionamento da socie-
Os mecanismos para a definição do voto dade.
variam. É comum a previsão de reuniões Na eleição de administradores por acor-
prévias entre os signatários para decidirem do de acionistas, as partes em geral assegu-
o sentido do voto conjunto, quase uma “as- ram-se o direito de indicar determinado
sembléia antecipada”, com lavratura da ata número de conselheiros e/ou diretores,
respectiva, que passa a fazer parte integran- apresentando seus nomes aos demais sig-

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natários, que não poderão recusá-los, a não sentantes dos signatários nos órgãos da ad-
ser por desatendimento às exigências legais ministração.
de exercício do cargo. Logo, é possível, pelo O chamado acordo de defesa é um pacto
menos em tese, entre outros casos, a recusa de voto que se destina ao exercício coeso da
do nome de administrador comprovadamen- participação minoritária, congregando per-
te inapto, do ponto de vista moral ou técni- centuais acionários mínimos para o exercí-
co, pois sua eleição caracterizaria abuso do cio de direitos assegurados na Lei, como o
poder de controle pelos signatários do acor- pedido de exibição judicial de livros; o voto
do de comando (art. 117, § 1º, alínea d), da múltiplo; a eleição de representantes de pre-
Lei das S/A). ferencialistas ou minoritários no conselho
A indicação de administradores pode ser fiscal etc. Vale lembrar a propósito que os
tanto para o conselho de administração, conceitos de minoria e maioria na S/A são
quanto para a diretoria. Nessa última hipó- relativos. Assim, um acordo de preferencia-
tese, havendo conselho na companhia, os listas pode reunir a maioria do capital social
signatários indicam nomes de diretores a total e ser pacto de defesa, por não congregar
serem eleitos por aquele órgão e não pela o capital majoritário votante, mas apenas
assembléia. A questão enseja controvérsias. viabilizar o exercício de direitos assegura-
Na doutrina, Fábio Comparato entende dos em Lei aos minoritários.
que não se pode regular diretamente a atua- Se o acordo de defesa funcionar como
ção dos administradores como obrigação instrumento de oposição inoperante, siste-
resultante de acordo de acionistas (1990, p. mática e emulatória, sua validade pode ser
180). Já Luiz Gastão Paes de Barros Leães discutida à luz do art. 115 da Lei das S/A,
acha admissível a estipulação, desde que o por regular votos contrários aos interesses
administrador seja também signatário do sociais. Questionável também é a validade
acordo (1980, p. 263). dos acordos de defesa que não tenham obje-
Em verdade, o voto que pode ser objeto to definido, destinando-se apenas a formar
do acordo é para ser exercido em assembléia uma minoria coesa que possa barganhar
e não no âmbito do conselho de administra- benefícios com os controladores.
ção. O que se pactua, normalmente, é uma Quanto aos acordos sobre política de
cláusula acessória, pela qual os signatários, reinvestimento de lucros e distribuição de
quando não integrantes dos órgãos de ad- dividendos, além de suas disposições deve-
ministração, comprometem-se a fazer com rem ser anualmente informadas ao público
que os conselheiros por eles eleitos cum- (art. 118, § 5º), vale destacar que não podem
pram o acordo, sob pena de destituição. Ou tais pactos estabelecer um “regime” de rein-
então que as deliberações não unânimes do vestimento ou repartição de lucros, confli-
conselho sejam submetidas à assembléia tante com o estatutário, mas apenas fixar
geral, na qual prevalece o acordo de acio- uma “política”. E, se essa política prejudi-
nistas. A despeito dessas alternativas con- car minoritários, pelo excesso ou escassez na
tratuais, a jurisprudência vem entendendo distribuição dos resultados, a eficácia do acor-
que, em companhias fechadas, é válida e do poderá ser argüida por qualquer acionis-
exigível a cláusula do acordo de acionistas ta, posto que danosa ao interesse social (art.
que prevê o direito dos signatários à indica- 115) (CARVALHOSA, 1998, p. 484).
ção de diretores, cuja eleição deve ser efeti-
vada pelo conselho de administração5. 9.2. Acordos de bloqueio
Em vista dessa polêmica, parece-me Acordo de bloqueio é aquele que tem por
importante que, na reforma da Lei, fique objeto a criação de restrições à livre negocia-
claro que as estipulações do acordo de aci- bilidade das ações dos signatários, ou seja,
onistas devam ser cumpridas pelos repre- estabelece regras sobre a compra e venda e a

254 Revista de Informação Legislativa


preferência para adquirir tais ações. O ter- para se impedir o risco da alienação a ter-
mo bloqueio vem justamente das limitações ceiros.
impostas às transferências, muitas vezes Não se confundem o acordo sobre a pre-
imprescindíveis ao funcionamento do pró- ferência na compra de ações e o acordo so-
prio acordo de voto. bre o direito de preferência na subscrição
Historicamente, o bloqueio constituiu destas. Questiona-se na doutrina se seria
uma modalidade de acordo cuja licitude não possível o acordo de acionistas sobre esse
foi questionada, tanto que o estatuto da com- direito de preferência na subscrição, que, a
panhia fechada pode conter restrições à cir- teor do art. 109, IV, da Lei das S/A, não pode
culação das ações, conforme admitido no ser excluído pela assembléia nem pelo esta-
art. 36 da Lei brasileira das S/A. A tal pro- tuto (MARTINS, 1984, p. 122). A meu ver,
pósito, vale registrar que, no conflito entre como a própria Lei admite a exclusão (art.
as regras do acordo e as estatutárias sobre 172) e a cessão (art. 171, § 6º) desse direito,
circulação de ações, estas deverão prevale- nada impede seja ele objeto de acordo de
cer, por ser o estatuto a fonte normativa prin- acionistas. Na jurisprudência, tende-se a
cipal da companhia. aceitar acordos com tal objeto6. O que se re-
A finalidade do pacto de bloqueio é a pudia é a ampliação – e não a restrição – do
manutenção ou o aumento das proporcio- direito de preferência para subscrição por
nalidades acionárias dos signatários, evi- força de acordo de acionistas. A propósito,
tando que a negociação irrestrita de ações o STJ julgou que “a preferência para o au-
modifique a participação dos contratantes mento de capital não pode ser levada além
ou permita o livre ingresso de terceiros na do seu raio de ação, para assim ampliar o
sociedade. privilégio legal e isso por força de simples
Um princípio básico, contudo, é o de que acordo ou negócio feito entre acionistas” 7.
ninguém pode ser obrigado a comprar ou a Os acordos de bloqueio aplicam-se tam-
vender ações pelo simples arbítrio de outro bém às companhias abertas, ao contrário do
signatário, o que constituiria cláusula pu- que se poderia inferir do texto do art. 36 da
ramente potestativa, vedada pelo art. 115 do Lei das S/A. Entretanto, as ações a ele vin-
Código Civil. O que se pactuam são as con- culadas não poderão ser negociadas em
dições em que eventual compra e venda bolsa ou no mercado de balcão (art. 118, §
deva processar-se no que tange à preferên- 4º). A sociedade não pode proceder à inscri-
cia, prévio consentimento, opção, forma de ção de gravames ou à transferência de ações
pagamento etc. O acordo de bloqueio não com desobediência a acordo de bloqueio
pode vedar a negociabilidade das ações, nem averbado em seus livros de registro de ações.
submetê-la ao arbítrio dos controladores ou Esse me parece o melhor exemplo do “dever
administradores (art. 36 LSA), mas apenas de observância” do acordo pela companhia,
regulá-la entre os signatários. previsto no caput do art. 118.
O acordo de bloqueio aplica-se à compra Os acordos de bloqueio podem estabele-
e venda de ações, bem como à eventual one- cer basicamente:
ração dos títulos pelos acionistas, por gra- – preferência na compra e venda de
vames co mo o usufruto, o penhor ou até a ações, obedecendo-se a um rito de oferta
penhora. Nessa linha, podem ser previa- pactuado, sendo possível também, como vis-
mente contratadas as condições para cons- to, o acordo sobre a cessão do direito de pre-
tituição de usufruto das ações vinculadas ferência na subscrição de novas ações;
ao acordo, ou mesmo assegurar-se aos ou- – opção de compra de ações outorgada
tros signatários o direito de substituírem a algum signatário;
ações oneradas ou constritas por depósito – prévio consentimento para alienação,
em dinheiro, assumindo sua propriedade, condicionado a requisitos objetivos e rigo-

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rosos para a recusa de eventual adquirente, minar dessas convenções, que se sujeitam
que não pode ser baseada exclusivamente até a execução específica (art. 118, § 3º LSA),
no intuitu personae; seu instrumento deve conter os requisitos
– promessa de compra ou de venda de mínimos do pré-contrato de declaração de
ações, por preço preestabelecido, na ocor- vontade sobre o voto ou compra e venda,
rência de determinadas hipóteses contrata- para que, com base nele, possa-se obter em
das, como a perda do controle, a não parti- juízo sentença que substitua a vontade não
cipação nos órgãos de administração etc. manifestada (arts. 639 e 641 do CPC).
A efetivação prática e a observância do De outro lado, como dito, só o acordo de
acordo de bloqueio é mais simples, pois, es- acionistas formalizado por instrumento es-
tando o instrumento averbado nos livros de crito pode submeter-se ao registro que lhe é
registro de ações da companhia, o signatá- próprio, realizado junto à companhia, em
rio não conseguirá junto a esta proceder a seus respectivos livros, gerando dever de
transferências ou onerações em desobediên- observância pela sociedade e oponibilida-
cia ao pactuado. de a terceiros.
Por tais razões, a Lei deveria exigir a cor-
10. Forma do acordo de acionistas reta formalização e instrumentalização do
acordo para se evitar esse tipo de discussão.
A Lei societária não exige expressamen- Quanto ao registro do contrato, a pró-
te qualquer forma para o acordo de acionis- pria Lei prevê seus mecanismos de efetiva-
tas. Entretanto, suas características e a dis- ção, que são o arquivamento na sede da com-
ciplina que lhe impõe o art. 118 recomen- panhia e a averbação nos livros de registro
dam-lhe a forma escrita. e certificados de ações. Por isso, revela-se
Com efeito, sendo uma avença de consi- ineficaz, para fins de produção de efeitos
derável complexidade e que deverá ser ar- junto à sociedade, o registro do acordo de aci-
quivada na sede da companhia, para lhe onistas em cartório de títulos e documentos.
ser oponível, e averbada em seus livros de É a companhia, por delegação legal de fun-
registro de ações, para valer contra tercei- ção pública, o local de registro de contrato.
ros, só um instrumento escrito constitui pro- As sociedades anônimas possuem, no
va adequada da existência do acordo de âmbito de sua competência, função delega-
acionistas. Se o acordo existir sem instru- da de registro público para os atos que a Lei
mento escrito e puder ser provado, terá, em lhe manda registrar, tendo que deles emitir
tese, até validade inter-partes, mas não po- certidões e assumir as responsabilidades
derá ser oponível à companhia, nem a ter- respectivas, sendo que a negativa enseja re-
ceiros. curso administrativo para a CVM nas com-
Uma vez adotada a forma escrita, o acor- panhias abertas e até mandado de seguran-
do deverá atender, como os negócios jurídi- ça. Entretanto, conforme o vigente art. 100, §
cos em geral, aos requisitos do art. 135 do 1º, da Lei das S/A, a obrigação da compa-
Código Civil, no que se refere ao reconheci- nhia de fornecer certidões de seus assenta-
mento de firma das partes e ao testemunho mentos circunscreve-se àqueles constantes
de duas pessoas. de seus livros de registro e transferência de
Nomes de peso na doutrina (CARVA- ações e partes beneficiárias, “desde que se
LHOSA, 1984, p. 80. No mesmo sentido, destinem a defesa de direitos e esclarecimen-
COMPARATO, 1981, p. 54) sustentam que tos de situações de interesse pessoal, dos
qualquer documento suscetível de arquiva- administradores ou do mercado de valores
mento, como cartas, declarações etc. podem mobiliários”.
constituir acordo de acionistas. Contudo, Assim, a sociedade é obrigada a emitir
considerando a natureza de contrato preli- certidões relativas à existência de acordos

256 Revista de Informação Legislativa


de acionistas averbados em seus livros de um representante para comunicar-se com a
registro de ações, quanto às eventuais res- companhia, para prestar ou receber infor-
trições para circulação destas, mas não fica mações, quando solicitadas”.
sujeita a fornecer a terceiros certidões de in- Essas alterações visam a que a compa-
teiro teor desses acordos, sob pena de se in- nhia obtenha dos próprios acionistas a exe-
vadir a esfera privada dos signatários. gese sobre questões duvidosas do acordo,
Ao mesmo tempo, como bem anota Mo- para então prestar-lhe observância. Embo-
desto Carvalhosa, prevendo a Lei, no art. ra a idéia seja válida, a questão pode não se
118, § 5º, a obrigação da companhia de in- solucionar tão simplesmente. Isso porque,
formar, no relatório anual, sobre as disposi- havendo conflito entre os signatários do
ções constantes dos acordos de acionistas acordo durante a assembléia, se a matéria
quanto a política de reinvestimento de lu- ensejar qualquer indagação não prévia e
cros e distribuição de dividendos, conclui- expressamente esclarecida pelos próprios
se, a contrario sensu, que quaisquer outras acionistas, a sociedade não terá poder juris-
disposições constantes do acordo não pre- dicional para decidir a controvérsia e dei-
cisam ser reveladas a terceiros (1998, p. 484), xar de computar votos que entenda “con-
exceto, como dito, as de circulação das ações. trários” ao pactuado. Esse discutido dever
Todavia, essa distinção não está clara de “observância” do acordo pela compa-
no vigente texto da Lei e mereceria ser escla- nhia carece ainda de maior maturação dou-
recida em sua eventual reforma. trinária e jurisprudencial, sendo talvez pre-
coce uma mudança legislativa vertical ten-
10.1. O arquivamento
dente a defini-lo. Assim, como já dito, penso
O arquivamento destina-se a criar para que, diante de eventual impasse, o presiden-
a sociedade o dever de observar o acordo. te da mesa deve suspender a deliberação,
Ele é o depósito, para guarda pela compa- remetendo os interessados às vias conflitu-
nhia, de uma via do acordo de acionistas, ais próprias (Judiciário ou arbitragem), ou,
de modo a que ela submeta-se à obrigação no máximo, devolver o problema à assem-
de observância do pacto, prevista em Lei. bléia, para que esta decida por maioria.
Na doutrina, em face da disposição lite- A efetiva atribuição implementadora que
ral do art. 118 da LSA, sustenta-se que o ar- a companhia tem no acordo de acionistas é
quivamento destina-se apenas ao acordo de funcionar como órgão de registro do contra-
voto, cujo cumprimento deverá ser resguar- to. Dessa forma, o arquivamento está indis-
dado pela companhia, não se computando sociavelmente ligado à averbação. Ele é uma
nas assembléias votos contrários à conven- providência básica para vinculação da so-
ção. Seguindo tal diretriz de entendimento, ciedade aos termos do acordo; é o ato pelo
o Projeto de reforma da Lei, em trâmite no qual a companhia toma ciência formal da
Congresso Nacional, prevê um § 12 para o convenção e promove então sua averbação
art. 118, estabelecendo que “à companhia nos livros de registros de ações. Não me pare-
será assegurado um prazo de 15 (quinze) ce que esse ato seja validamente substituído
dias, da data do arquivamento do acordo pela interveniência da sociedade no acordo,
de acionistas em sua sede, para solicitar es- figura sem previsão no art. 118 da LSA.
clarecimentos sobre cláusulas e condições Na jurisprudência há o entendimento de
que não estejam suficientemente claras para que, se a companhia vem respeitando e fa-
efeito de observância do seu cumprimento”. zendo cumprir o acordo, considera-se que
Na mesma linha, o Projeto propõe também ele está nela arquivado, à falta de disciplina
um § 11, dispondo que “os acionistas vin- legal a respeito do arquivamento, que se tem
culados a acordo de acionistas deverão in- então por presumido8. De outro lado, há tam-
dicar, no ato de arquivamento do acordo, bém julgados concluindo que o acordo não

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arquivado pode ser válido entre as partes, mas dicial dos prejudicados, caso haja transferên-
não é oponível à companhia nem a terceiros9. cia de ações em desrespeito ao contratado.
A forma de se efetivar o arquivamento Pela averbação, a companhia declara, à
não é prevista na Lei. Por isso, deve-se utili- margem dos assentamentos de seu livro de
zar como parâmetro a legislação de regis- registro de ações nominativas e certificados
tros públicos. Logo, são órgãos competentes respectivos, a existência do acordo de blo-
para arquivamento do acordo de acionistas o queio, representando tal declaração que um
que cuida do registro das ações ou a direto- contrato entre os acionistas restringe a livre
ria. Se houver instituição financeira encarre- disponibilidade dos seus títulos. Podem ser
gada do registro de ações, o arquivamento tem solicitadas certidões da averbação por quais-
de ser no órgão que se relaciona com essa ins- quer terceiros interessados, “desde que se
tituição, ou na diretoria, pois a Lei fala que o destinem à defesa de direitos e esclarecimen-
arquivamento é na sede da sociedade. tos de situações de interesse pessoal, dos
Uma via do documento deve ser entre- acionistas ou do mercado de valores mobi-
gue à companhia, contra recibo, e esta limi- liários.” (art. 100, § 1º, da Lei das S/A).
tar-se-á ao exame dos aspectos formais do A companhia é que tem obrigação de efe-
acordo, determinando sua eventual adequa- tivar a averbação do acordo. Daí a conclu-
ção. Em doutrina, Fábio Comparato susten- são de que o arquivamento do pacto consti-
ta que o arquivamento pode dar-se por sim- tui-lhe premissa, pois, só a partir daquele ato,
ples notificação à sociedade, diante da au- nasce o dever de observância do acordo pela
sência de outra forma legal (COMPARATO, companhia, entre cujas conseqüências está a
1981, p. 62. Ver CARVALHOSA, 1998, p. obrigação de averbar o pacto de bloqueio.
482). Mas vale lembrar que, nos Tribunais, Assim, existe até arquivamento sem averba-
já se decidiu que o mero recebimento do acor- ção, quando o pacto for só sobre voto, mas
do de acionistas para custódia pela compa- não pode haver averbação sem prévio arqui-
nhia não significa arquivamento do contra- vamento11. A Lei deveria prever isso expres-
to no sentido legal10. samente, para se evitar polêmica a respeito.
De modo a se evitarem essas discussões, Diferentemente do arquivamento, a aver-
a Lei deveria prever a forma do arquivamen- bação pode ser feita pela instituição finan-
to do acordo, mediante entrega de uma via ceira encarregada da escrituração das ações,
do respectivo instrumento, contra recibo, à pois a Lei não exige sua efetivação na sede
diretoria da companhia, que procederá ape- da sociedade. Mas a responsabilidade pe-
nas à conferência dos seus requisitos formais. rante os acionistas pelas transferências efe-
tuadas é sempre da companhia.
10.2. A averbação
A averbação será dupla no caso das
A averbação do acordo de acionistas, que ações nominativas não escriturais, deven-
a meu ver pressupõe seu prévio arquivamen- do realizar-se simultaneamente no livro de
to na companhia, dá-se no livro de registro registro de ações nominativas e certificados
de ações nominativas (art. 100, I, f, da Lei eventualmente emitidos, sob pena de não
das S/A) e certificados de ações, quando serem as restrições de circulação oponíveis
emitidos, como forma de se evitar a negocia- a terceiros. Dado o pouco espaço existente
bilidade dos títulos vinculados ao acordo nos livros de registro, as averbações se fa-
em desobediência ao nele previsto. Isso gera zem “por simples referência ao contrato, à
responsabilidade para a sociedade sobre as sua data e à espécie de restrição, se patrimo-
transferências realizadas e presunção de nial ou de voto, ou ambas” (CARVALHO-
publicidade contra terceiros das restrições SA, 1998, p. 482).
de circulação pactuadas, sujeitando ambos, A averbação gera presunção de publici-
sociedade e adquirente, a eventual ação ju- dade perante terceiros, o que tem significa-

258 Revista de Informação Legislativa


tivo efeito prático, pois ninguém adquire A execução específica da obrigação de dar
ações vinculadas a acordo de bloqueio, não é em regra possível, desde que a coisa exista.
podendo a companhia transferi-las, em face A de não fazer viabiliza-se quando o ato ain-
do seu dever de observância do pacto. E, no da não tenha sido praticado. Já a de fazer de-
caso do bloqueio, esse dever de observância pende de a prestação ser fungível (ex. cons-
limita-se à verificação de cumprimento das truir um muro), naturalmente infungível (ex.
exigências contratuais para a transferência fazer um show), ou juridicamente infungível
dos títulos. Não há maiores indagações ju- (prestar uma declaração de vontade).
rídicas, como pode ocorrer quanto ao voto. As obrigações fungíveis podem ser exe-
Eventuais controvérsias exclusivamente so- cutadas especificamente por terceiros, em
bre o que seja ou não contrário ao acordo de procedimento regulado no CPC, correndo
bloqueio devem ser suscitadas ao juiz da os custos a cargo do inadimplente. As natu-
vara de registros públicos, onde houver, a ralmente infungíveis só podem ser presta-
menos que envolvam também questões ati- das pelo próprio devedor, eventualmente
nentes ao voto, caso em que a competência persuadido mediante mecanismos de pres-
fica atraída para juízo comum, onde tudo são da vontade, como multas etc., aprimo-
deve ser decidido. rados na reforma do CPC de 1994. Se, mes-
Alienadas ações em desrespeito a acordo mo assim, o devedor permanecer inadim-
de acionistas averbado na companhia, o ne- plente, só restam as perdas e danos.
gócio é anulável, devendo os prejudicados Já as obrigações juridicamente infungí-
postularem a execução específica do pacto veis têm mecanismo próprio para a execu-
para fazerem valer sua preempção sobre as ção específica, que é o suprimento judicial
ações indevidamente alienadas, e até respon- da vontade não manifestada voluntariamen-
sabilizar a companhia por eventual omissão. te. E são as obrigações de fazer juridicamen-
te infungíveis, ou seja, prestar declaração
11. Execução específica do de vontade (voto) e concluir contrato (com-
acordo de acionistas pra e venda de ações), que interessam aos
acordos de acionistas, cuja sede para exe-
No processo civil brasileiro, a execução cução específica está nos arts. 641 e 639 do
compulsória das obrigações descumpridas CPC, respectivamente.
pode ser por reparação ou específica. Na Nos acordos de acionistas, antes da Lei
primeira, o direito do credor é restaurado n. 6.404/76, era comum, em operações fo-
pela recomposição patrimonial, enquanto na mentadas pelo então BNDE, a prefixação de
segunda obtém-se especificamente a pres- multas no montante igual ao investimento
tação que o devedor recusou-se a cumprir. minoritário do acionista estrangeiro, para o
A criação de meios para viabilizar a exe- caso de descumprimento da convenção com
cução específica ou in natura das obrigações ele firmada, além da obrigação de ressarci-
assumidas, dando mais efetividade ao pro- mento por outras perdas e danos.
cesso, é preocupação crescente dos proces- Com a edição da Lei, o mecanismo prin-
sualistas e do próprio legislador pátrio, haja cipal de eficácia dos acordos passou a ser a
vista a reforma do Código de Processo Civil execução específica das obrigações des-
de 1994. cumpridas, cuja reparação pecuniária não se
A execução por quantia certa é sempre revelava totalmente satisfatória. Assim, quan-
específica, pois nela busca-se o cumprimen- to aos acordos de voto, art. 641 do CPC, per-
to da obrigação de pagar um débito. Fora mite que a declaração de vontade (voto) não
essa hipótese, a execução específica está emitida seja substituída por sentença tran-
basicamente ligada às obrigações de dar, sitada em julgado. Já nos acordos de blo-
fazer e não fazer. queio, a obrigação relativa à compra e ven-

Brasília a. 38 n. 152 out./dez. 2001 259


da de ações pode ser executada mediante A companhia deve ser, pelo menos, cita-
anulação judicial da transferência indevida- da na ação relativa ao exercício do direito
mente efetuada, com prolação de sentença de voto do acordo de acionistas nela ar-
que supra a manifestação de vontade no quivado, pois terá de suportar as conse-
contrato de compra e venda que se prometeu qüências da sentença. Ademais, há presta-
celebrar e se descumpriu, na forma do art. ções negativas e até positivas que compe-
639 do CPC. tem à sociedade na observância desse acor-
A ação para se obter compulsoriamente do, cujo cumprimento pode ser obtido por
esses atos de vontade é cognitiva, embora meio das medidas judiciais coativas de tu-
seja denominada de execução específica. tela específica ou antecipada introduzidas
Isso porquanto o que se busca é uma sen- com a reforma processual de 1994 (BARBI,
tença que supra a vontade não manifesta- 1997, p. 54). Na ação sobre a compra e venda
da. Daí por que se dizer que a ação tecnica- violadora do acordo de bloqueio, junto ao aci-
mente não é de execução específica mas para onista inadimplente, será também parte o ter-
execução específica do acordo de acionistas. ceiro que adquiriu indevidamente as ações.
O art. 118, § 3º, da Lei das S/A fala que Considerando que o resultado dessas
as obrigações constantes dos acordos de ações judiciais pode demorar e a dinâmica
acionistas têm execução específica, mas isso societária é rápida, indaga-se sobre o cabi-
é uma redundância, de vez que elas já o teri- mento de medidas cautelares para se asse-
am por força da lei processual. Assim, im- gurar resultado útil às ações. Em tese, a tu-
procede o entendimento de que acordos com tela cautelar é sempre possível, mas a ques-
objetos extravagantes aos previstos no art. tão tem de ser analisada caso a caso, por-
118 não sejam passíveis de execução espe- quanto uma providência acautelatória pode
cífica. inverter os ônus do tempo no processo, que
Outra redundância seria a alteração pro- normalmente beneficiariam o réu e passam
posta pelo Projeto em votação no Congresso a beneficiar o autor.
Nacional, quando acresce ao citado § 3º do De qualquer modo, por via cautelar não
art. 118 que a decisão “que condenar o acio- se pode obrigar ninguém a votar em deter-
nista a proferir voto nos termos de acordo minado sentido. Mas, seriam admissíveis
de acionistas produzirá todos os efeitos do providências liminares para liberação do
voto não proferido”. De fato, esse acréscimo voto compulsório; impedir-se a participação
apenas reproduz a regra do art. 641 do CPC, em assembléia (obrigação de não fazer); sus-
cuja aplicação aos acordos de acionistas, ao tar-se o arquivamento da ata de assembléia
que se saiba, nunca foi recusada em doutri- na qual o pacto de voto foi desobedecido etc.
na e jurisprudência. A meu ver, como já dito, a mesa da as-
Caso um convenente descumpra sua sembléia não pode deixar de computar vo-
obrigação de votar em determinado senti- tos contrários ao acordo pois, para isso, em
do, cabe ao prejudicado, com base no art. caso de controvérsia entre as partes, o presi-
641 do CPC, ingressar com uma ação judicial dente estaria interpretando o negócio, para
para obter sentença que supra o voto não o que não tem poder jurisdicional. Cabe-lhe,
manifestado. Se houver compra12 ou venda no máximo, suspender a deliberação que
de ações em desrespeito ao acordo, bem entenda contrária ao acordo, de modo a que
como recusa de sua alienação na forma con- as partes submetam a questão ao Judiciário.
tratada, o prejudicado deve propor ação para Quando a obrigação de não fazer refere-
anular a venda feita e, depositando o preço, se a ato já praticado, converte-se em obriga-
obter, com base no art. 639 do CPC, senten- ção de fazer, no sentido de desfazer tal ato,
ça que produza o efeito do contrato de com- na forma dos arts. 642 a 645 do CPC e 883
pra e venda não firmado. do CC. O prejudicado pode requerer ao juiz

260 Revista de Informação Legislativa


que desfaça o ato em determinado prazo, com a reforma do Código, pois, como dito
sob pena de pagamento de perdas e danos. há pouco, é a sociedade quem pode subme-
Analisei detidamente os efeitos da refor- ter-se às medidas que visem a efetivar ou
ma de 1994 no CPC quanto à execução es- antecipar os efeitos da tutela específica, em
pecífica do acordo de acionistas13. Minhas hipóteses como a proibição da transferên-
conclusões não foram pessimistas, mas rea- cia de ações, o cômputo de votos por ordem
listas. A reforma não atingiu o texto dos arts. judicial, a proibição da presença ou a impo-
639 e 641 do CPC, evidenciando que o me- sição da participação de acionistas signa-
canismo de execução específica das obriga- tários em assembléias, o cancelamento de
ções de fazer, consistentes em declaração de certificados indevidamente emitidos, a sus-
vontade, que mais interessam ao acordo de tação do registro de transferências realiza-
acionistas, continua a ser o suprimento ju- das etc.
dicial da declaração por sentença. Assim, Para se evitarem os percalços e as difi-
os novos institutos de coerção da vontade culdades de uma execução específica judi-
previstos no art. 461 do CPC não se aplicam cial do acordo de acionistas, a prática socie-
à execução específica do acordo de acionis- tária tem consagrado a previsão contratual
tas. Já no que tange à antecipação de tutela, de meios de saída do pacto, para os casos
seu provimento tem natureza de decisão de inadimplemento, sistema que muitos
interlocutória, pelo que não se pode aplicá- advogados consideram o melhor instru-
la a um provimento substitutivo de vontade mento de preservação da avença.
que exija expressamente sentença (arts. 639 O Projeto de reforma da Lei em votação
e 641). A execução específica dos acordos no Congresso prevê um § 10º para o art. 118,
societários continua, pois, sendo um proce- estabelecendo que “o não comparecimento
dimento cognitivo fundado naqueles dispo- à assembléia ou às reuniões dos órgãos de
sitivos processuais, em que se busca o su- administração da companhia, bem como as
primento judicial de vontade por sentença. abstenções de voto de qualquer parte de acor-
Para Modesto Carvalhosa, o mecanismo do de acionistas ou de membros do conse-
da execução específica evoluiu com a refor- lho de administração eleitos nos termos de
ma do CPC, admitindo-se o cumprimento acordo de acionistas, assegura à parte pre-
compulsório das obrigações com base no art. judicada o direito de votar com as ações per-
632 do CPC, pelo uso de meios coercitivos, tencentes ao acionista ausente ou omisso e,
ou seu cumprimento por mandatário co- no caso de membro do conselho de admi-
mum dos signatários (síndico), na forma do nistração, pelo conselheiro eleito com votos
art. 634. O mestre paulista, contudo, não da parte prejudicada”.
detalha os motivos que o levaram a tais con- Parece-me que esse mecanismo, de au-
clusões (1998, p. 483). Na doutrina mais re- têntica execução específica privada, subver-
cente, Edson Antônio Miranda, em mono- te perigosamente a tutela jurisdicional ne-
grafia sobre a execução específica dos acor- cessária a se aferir o efetivo direito das par-
dos de acionistas, conclui na mesma linha tes do acordo, devendo-se avaliar com cau-
que, após a Lei n. 8.953/94, reformadora do tela sua adoção irrestrita, tal como proposta
CPC, o acordo de acionistas adequadamen- no Projeto.
te instrumentalizado pode ser título execu- Em suma, penso que, para a execução
tivo extrajudicial e as obrigações nele conti- específica do acordo de acionistas, o que se
das são, em princípio, passíveis de execu- deveria incluir utilmente no texto do art. 118
ção específica sem fase jurisdicional cogni- da Lei das S/A seria a previsão de obrigató-
tiva preliminar (2000, p. 71). ria participação da companhia no pólo pas-
Sem embargo dessas opiniões, penso que sivo da ação para execução específica do
só em relação à companhia houve avanços acordo nela arquivado. Com isso, todo o ar-

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senal de medidas coercitivas hoje previstas de acionistas por trinta (30), quarenta (40)
no CPC teria efetiva influência no cumpri- ou cinqüenta (50) anos, que acabam produ-
mento forçado do acordo de acionistas, sob zindo os mesmos efeitos da holding, ou seja,
controle jurisdicional. vinculam contratualmente as ações e o voto
por toda a existência de seu titular, atingindo
12. Vigência e rescisão ainda os sucessores. Diante disso, a questão
do acordo de acionistas continua em aberto, merecendo ser contem-
plada em eventual reforma da Lei das S/A.
Como todo negócio jurídico, o acordo de O Projeto em votação no Congresso Na-
acionistas cumpre um ciclo vital, nasce do cional prevê a possibilidade de que o acor-
consentimento de vontades, sofre as vicissi- do de acionistas seja firmado em função de
tudes de sua existência e termina com a des- termo ou tenha seus efeitos subordinados a
vinculação obrigacional das partes. condição, hipóteses em que só poderá ser
Mas, pelas suas peculiaridades, a vigên- denunciado segundo as estipulações nele
cia do acordo de acionistas é extremamente estabelecidas. Esse acréscimo proposto não
discutida. De um lado, pode haver a inten- me parece útil, porquanto apenas reproduz
ção das partes de estender, inclusive para regras básicas do Código Civil sobre as mo-
os sucessores, pactos sobre voto e bloqueio. dalidades dos atos jurídicos, cuja aplicação
E de outro, há o princípio da teoria geral aos acordos de acionistas sempre me pare-
dos contratos, de que ninguém obriga-se per- ceu clara.
petuamente, nem por gerações sucessivas. Os acordos com prazo indeterminado
Considerando isso, deve-se examinar a são aqueles que se omitem quanto ao tempo
matéria cogitando-se, separadamente, dos de vigência, ou que prevêem expressamente
acordos de prazo determinado e indetermi- a indeterminação de prazo, como nos casos
nado. em que a duração é a mesma da sociedade.
Nos acordos com prazo determinado, Devem-se incluir também nessa categoria
cabe anotar que a longevidade do prazo aqueles acordos que se submetem a condi-
pode caracterizar sua indeterminação. A ção resolutiva, que tenham prazo excessi-
tendência na doutrina sempre foi de se re- vo, ou que alcancem mais de uma geração.
pelirem as longas vigências para as con- No que se refere especificamente ao al-
venções de acionistas. Modesto Carvalhosa cance de mais de uma geração, analisei o
e Waldírio Bulgarelli pesquisaram o tema problema em outro trabalho, com base no
no direito estrangeiro e acabaram concluin- fideicomisso e nas cláusulas de inalienabi-
do pela fixação máxima dos prazos em dez lidade e incomunicabilidade, para concluir
(10) anos para os acordos das companhias ser inadmissível a oneração de direitos
fechadas e cinco (5) para as abertas (1993, (voto) e bens (ações) além da geração seguin-
p. 200). Mas inexiste previsão na Lei a res- te à do estipulante, o que se aplica, a meu
peito, e o próprio Carvalhosa admitiu, anos ver, tanto ao acordo de voto quanto ao de
mais tarde, que sua proposta não vingou bloqueio (BARBI, 1993, p. 197).
por falta de amparo legal. A rescisão do acordo, quando não con-
Meu pensamento é de que, inexistindo sensual, é denominada resolução, se moti-
norma legal a respeito, vige o princípio ge- vada, ou resilição unilateral, se imotivada.
ral de direito privado, segundo o qual tem- Modesto Carvalhosa (1998, p. 465-467)
se por permitido tudo aquilo que a lei não observa que, por terem os acordos de voto
proíbe. E, assim sendo, há liberdade para natureza plurilateral e parassocial, tal como
fixação de prazo. Mas admito que tal cons- o contrato de sociedade, não possuem cláu-
tatação tem efeitos práticos danosos, pois sula resolutiva tácita, na medida em que a
se tornou comum a celebração de acordos prestação de um convenente não está con-

262 Revista de Informação Legislativa


dicionada à do outro. Assim, esses pactos que os acordos de acionistas por prazo in-
não se sujeitam a rescisão, mas sim a disso- determinado só podem ser unilateralmente
lução, mesmo que parcial, só realizável em denunciados por justa causa17. Nesse senti-
juízo, na ausência de cláusula que a preve- do, Alfredo Lamy Filho argumenta que as
ja. Daí por que a prática tem induzido à in- regras do Código Civil (arts. 1.399, V, e
tensa utilização das cláusulas de retirada 1.404) e do Código Comercial (art. 335, 5),
nos acordos de acionistas. que admitem a denúncia vazia dos contra-
Sendo o acordo de prazo determinado, tos societários por prazo indeterminado,
durante sua vigência só cabe, em princípio, foram previstas em repúdio à vinculação
a resolução, que é motivada por justa causa eterna das pessoas naturais à sociedade.
superveniente. Em trabalho anterior, susten- Assim, considerando que hoje grande parte
tei que, no curso desse prazo determinado, dos acordos de acionistas são subscritos por
poder-se-ia admitir a resilição unilateral, pessoas jurídicas, justifica-se que “doutri-
considerando-a como forma de inadimple- na e jurisprudência comecem a dar-se conta
mento do ajuste e sujeitando a parte denun- do imperativo de uma interpretação na li-
ciante à penalidade contratualmente previs- nha dessa evolução” (1995, p. 315).
ta para tanto, ou, se inexistente, àquela esta- E, com efeito, alguns autores mudaram
belecida em ação judicial própria (BARBI, suas opiniões originais. Modesto Carvalho-
1993, p. 205). sa, por exemplo, retificou seu ponto de vis-
Mas, como já visto, na própria concep- ta, sustentando mais recentemente não ha-
ção dogmática do acordo de acionistas, o ver “nesse contrato tipicamente parassocial e
inadimplemento não pode resolver-se ape- plurilateral a possibilidade de extinguir-se
nas em perdas e danos, devendo haver exe- por resilição unilateral. A denúncia depen-
cução específica das obrigações desrespei- derá de justa causa, ou seja, a quebra da affec-
tadas, como prevê o § 3º do art. 118 da Lei. tio, por conduta incompatível ou dissídio
Assim, refletindo melhor sobre a questão, de vontades das partes, ou ainda de inter-
sou levado a concluir que, durante o prazo pretação das cláusulas do pacto, e qualquer
determinado de vigência do acordo, em que outra que configure materialmente a desa-
não haja cláusula de rescisão, só será ad- vença, ou ainda a deslealdade em face dos
missível a resolução, ou seja, a rescisão mo- pactuantes e do interesse social” (1997, p.
tivada em justa causa superveniente. 21 e 1998, p. 481).
Já o acordo de prazo indeterminado tem Esse mesmo autor sustenta que a affec-
por pressuposto a livre denunciabilidade da tio societatis é elemento essencial aos acor-
avença por qualquer signatário, conforme dos de voto, embora não o seja para os de
admitia grande parte da doutrina14, ampa- bloqueio, que se fundam apenas no ani-
rada pelo princípio da teoria geral dos con- mus tenendi de manutenção ou aumento
tratos que repele os vínculos eternos (GO- da participação acionária dos signatári-
MES, 1959, p. 141). Na jurisprudência, tam- os. Assim, a r elação entre os pactuantes do
bém se encontravam julgados na mesma li- voto funda-se em fidelidade e confiança,
nha, como aqueles proferidos pelos Tribu- cujo desaparecimento inviabiliza o cumpri-
nais de Justiça, de São Paulo em 198015 e do mento da finalidade da avença, justifican-
Rio de Janeiro em 198516. E para se evitar do o pleito de sua rescisão em juízo, ainda
essa livre denunciabilidade unilateral, tor- que parcial, com saída do acionista des-
naram-se comuns os acordos por longos contente, ou exclusão do desleal. E esse
prazos, como trinta (30), quarenta (40) ou quadro caracteriza-se por fatos concretos,
até cinqüenta (50) anos. como a conduta dos signatários, a divergên-
Contudo, dita tendência modificou-se. A cia sobre o objeto do voto ou a interpretação
doutrina vem aderindo ao pensamento de das cláusulas do acordo (CARVALHOSA,

Brasília a. 38 n. 152 out./dez. 2001 263


1998, p. 464-465, 480), e ainda a responsa- longo caminho até que sua licitude fosse
bilização (art. 159) de administrador elei- aceita, e dentre os principais argumentos
to com base no acordo. Em suma, para o contrários à sua validade estavam, justa-
mestre paulista, a quebra da affectio socie- mente, a manutenção da unidade entre a
tatis justificaria a r escisão do acordo, mes- propriedade da ação e o direito de voto dela
mo que consubstanciada em uma dissolu- decorrente, a proteção à liberdade de voto e
ção parcial. Nesse passo, a própria exis- a prevalência do método da assembléia ge-
tência de cláusulas penais nos pactos con- ral nas deliberações sociais. [...] Admitir-se
figuraria a admissibilidade intrínseca da que o acordo por prazo indeterminado não
rescisão. seja passível de resilição unilateral seria dar
Luiz Gastão Paes de Barros Leães tam- caráter de perpetuidade à vinculação con-
bém atenuou sua visão inicial, argumentan- tratual do voto, e devolver, por conseqüên-
do em parecer posterior que, “embora revis- cia, a razão àqueles que, em tempos idos,
ta também o caráter de contrato plurilateral, propugnavam pela ilicitude das convenções
o acordo de acionistas não desfruta da na- de acionistas” (BARBI, 1993, p. 207-208). Se
tureza da sociedade. Por outro lado, é claro as partes desejam assegurar o cumprimen-
que a resilição unilateral dos contratos por to das obrigações pactuadas, devem estipu-
prazo indeterminado é regra, mas que, como lar prazo de vigência do acordo ou fixar as
regra, comporta exceções e temperamentos” sanções pela denúncia.
([s.d.], p. 168). O fato é que a questão, pela polêmica que
Na jurisprudência, o Tribunal de Justiça causa, reclama solução legislativa na pró-
de São Paulo, em acórdão de dezembro de xima reforma do vigente diploma societário.
1994, concluiu pela impossibilidade de Para se encerrar a controvérsia a respei-
resilição unilateral do acordo de acionis- to, penso que a Lei deveria prever um prazo
tas celebrado por prazo indeterminado. máximo de vigência do acordo, sua denun-
A decisão mereceu comentários de Maria ciabilidade a qualquer momento, quando de
Isabel de Almeida Alvarenga, que se alinhou duração indeterminada, bem como a prer-
com os defensores desse entendimento, o rogativa de se pactuar a resilição unilateral,
qual, conforme noticia, “vem sendo ultima- com as sanções respectivas.
mente adotado pela maior parte da doutri-
na” (1997, p. 190). 13. Sugestão para nova redação
A meu ver, sem embargo dos consisten- do art. 118 da Lei das S/A
tes argumentos em contrário, não se pode
condicionar a denúncia dos acordos de aci- Diante de todo o exposto sobre esse pa-
onistas por prazo indeterminado à existên- norama atual do acordo de acionistas no
cia de motivo justificador. Acordo de acio- direito brasileiro, sugeriria, como proposta
nistas, antes de mais nada, é contrato. E é para futura alteração da Lei 6.404/76, o se-
princípio basilar do direito contratual o re- guinte texto para o seu art. 118, que trata
púdio aos pactos perpétuos. Lembrando a dos acordos de acionistas:
lição de Pontes de Miranda, “nas relações “Art. 118– Os acordos de acionistas, sobre o
jurídicas duradouras é preciso que possa exercício regular de quaisquer direitos decorren-
ter ponto final o que se concebeu em reticên- tes da titularidade de suas ações, legitimamente
cia. Porque relação jurídica duradoura a que firmados por quem detenha esses direitos, deve-
não se pusesse termo seria contrária às ne- rão ser observados pela companhia e por seus
cessidades da livre atividade dos homens” administradores, quando arquivados na sede da
([1970?], p. 294). sociedade.
Conforme já havia sustentado anterior- § 1º – Os acordos de acionistas devem adotar
mente, “o acordo de acionistas percorreu um forma escrita, com os requisitos da lei civil, po-

264 Revista de Informação Legislativa


dendo ser celebrados por prazo indeterminado, § 9º – No relatório anual, os órgãos da admi-
desde que admitida sua denúncia a qualquer tem- nistração da companhia aberta informarão à as-
po, ou pelo prazo determinado máximo de 10 sembléia geral as disposições sobre política de
(dez) anos. reinvestimento de lucros e distribuição de divi-
§ 2º – O arquivamento dos acordos de acio- dendos, constantes de acordos de acionistas ar-
nistas efetiva-se mediante entrega, contra recibo, quivados na companhia.
de uma via do respectivo instrumento à direto- §10º – As disposições deste artigo aplicam-
ria da companhia, a quem compete, após verifi- se, no que couberem e forem compatíveis, aos de-
cação dos requisitos formais desse instrumento, mais tipos societários do direito positivo brasi-
promover sua averbação nos livros de registro e leiro”.
transferência de ações, quando versarem sobre a
compra, venda e oneração destas, ou preferência
para adquiri-las. Notas
§ 3º – As obrigações ou ônus decorrentes dos
acordos de acionistas somente serão oponíveis a
1
Cottino (1958, p. 3), citando artigo doutriná-
rio de Saffra, de 1904, intitulado Nuove forme con-
terceiros depois de averbados nos livros de re- tratttuali.
gistro e transferência de ações da companhia que, 2
GRIFFIN (1993, p. 589), citando julgamento
na forma do art. 100, § 1º, desta Lei, só estará da House of Lords no caso Russel v. Northern Bank
obrigada a fornecer certidões da existência des- Development Corporation Ltd. (1992).
sas obrigações ou ônus, e da política de dividen-
3
O atual Projeto de reforma da LSA, em trâmi-
te no Congresso Nacional, propõe a institucionali-
dos da companhia aberta, excluída a divulgação zação do uso de um mandatário comum para os
do conteúdo integral dos acordos nela arquivados. acionistas, que dê cumprimento ao acordo, o que
§ 4º – As ações averbadas nos termos deste nos aproxima do trust norte-americano e do sindi-
artigo não poderão ser negociadas em bolsa ou cato acionário europeu. Com efeito, o Projeto adicio-
no mercado de balcão. na um § 8º ao art. 118, prevendo que “o mandato
outorgado nos termos de acordo de acionistas para
§ 5º – Os acordos de acionistas não arquivados proferir, em assembléia geral ou especial, voto con-
ou averbados, embora inoponíveis à companhia, a tra ou a favor de deliberação determinada poderá
seus administradores e a terceiros, obrigam os sig- prever prazo superior ao constante do § 1º do art.
natários, por si e por seus representantes nos ór- 126 desta Lei” (que é de 1 ano). Veja-se a respeito
gãos de administração da companhia. Carvalhosa (1985, p. 9). A meu sentir, o mandatá-
rio só pode dar cumprimento em assembléia a de-
§ 6º – Os acordos de acionistas não poderão liberações específicas, previamente ajustadas e de-
ser invocados para eximir o acionista de respon- finidas pelos signatários do acordo, não se admi-
sabilidade no exercício do direito de voto (art. tindo que ele atue como um síndico ou trustee, que
115) ou do poder de controle (arts. 116 e 117). interpreta e dá cumprimento ao acordo por conta
§ 7º – Durante as assembléias gerais, o presi- própria. (BARBI, 1993, p. 45). Por isso, não me
parece adequada a ampliação do prazo legal do
dente da mesa deverá suspender as deliberações mandato para o acordo de acionistas.
em que haja controvérsia entre os signatários de 4
Esse tipo de acordo está sendo objeto de acir-
acordo de acionistas arquivado na companhia, rada polêmica judicial ainda não resolvida, no caso
ficando seu ato e o próprio cumprimento do acor- envolvendo o Estado de Minas Gerais e um sócio
do sujeitos a controle jurisdicional, a ser promo- privado, relativamente ao controle da estatal ener-
gética CEMIG.
vido pelos interessados. 5
TJSP, AC. 219.618-1/6, 6ª C. Civ., rel. Des.
§ 8º – Nas condições previstas nos acordos, Melo Colombi. Acórdão comentado por Haroldo
os acionistas podem promover a execução espe- Malheiros Duclerc Verçosa. 1994, p. 97, concluindo
cífica das obrigações assumidas, a ser judici- sobre a impossibilidade de recusa, pelo conselho de
almente postulada contra o(s) signatário(s) administração, dos nomes indicados por signatá-
rios de acordo de acionistas para a diretoria de
inadimplente(s) e, se o instrumento estiver ar- companhia fechada. Nas companhias abertas, Mo-
quivado e/ou averbado, também contra a compa- desto Carvalhosa pondera que “o acordo de acio-
nhia e, eventualmente, terceiros. nistas não pode alcançar a eleição de membros da

Brasília a. 38 n. 152 out./dez. 2001 265


diretoria (art. 143), mas apenas os do conselho de ÁSCARELLI, Tullio. La liceita dei sindicuti azio-
administração. O fundamento de tal impossibili- nari. Rivista di Diritto Commerciale, 1931.
dade é a invasão de competência do conselho de
______. O contrato plurilateral. ______. Problemas
administração” (1998, p. 463).
das sociedades anônimas e direito comparado. 2. ed.
6
Há notícia de acórdão nesse sentido do Tribu-
São Paulo: Saraiva, 1969.
nal de Justiça do Rio Grande do Sul, conforme se vê
em Modesto Carvalhosa (1993, p. 241). BARBI FILHO, Celso. Acordo de acionistas. Belo
7
STJ. REsp. 1/SP, rel. Min. Gueiros Leite, Diário do Horizonte: Del Rey, 1993.
Judiciário da União, 16. out. 89, p. 15.856. Revista do
Superior Tribunal de Justiça, Brasília, v. 4, p. 1453, 1989. ______. Efeitos da reforma do CPC na execução
8
TJRS. Apelação Cível n. 587.015.116, rel. Des. específica do acordo de acionistas. Revista dos Tri-
João Aymoré Barros Costa. Revista de Direito Mer- bunais, São Paulo, v. 737, p. 54, 1997.
cantil, São Paulo, v. 70, abr./jun. 1988, p. 82. BARRETO, Celso A. Acordo de acionistas. Rio de Ja-
9
STJ. Resp. n. 1/SP (8900077341), rel. Min. neiro: Forense, 1982.
Gueiros Leite, Diário do Judiciário da União, 16. out.
89, p. 15.856. Revista do Superior Tribunal de Justiça, BULGARELLI, Waldírio. Aspectos relevantes da
Brasília, v. 4, 1989, p. 1453. reforma da lei 6.404/76, pela recente lei 9.457/97.
10
STJ. REsp. n. 23.668-3/MG, rel. Min. Eduar- Revista da Escola Paulista da Magistratura, v. 4, p.
do Ribeiro, Diário do Judiciário da União, 22. mar. 107, nov./jun. 1998.
1993. No mesmo sentido, parecer de Fran Martins
CARVALHOSA, Modesto. Acordo de acionistas.
nesse processo. Revista de Direito Mercantil, São Paulo, v. 106, p.
11
Em sentido contrário, Fábio Konder Compa- 21, abr./jun. 1997.
rato (1981, p. 61), entendendo que, se o acordo é
apenas de bloqueio, não se faz necessário seu ar- ______. Acordo de acionistas. São Paulo: Saraiva, 1984.
quivamento na sede da companhia, bastando a
______. ______: sociedade anônoma. In: I Ciclo de
averbação no livro de registro e certificados.
Conferências para Magistrados. São Paulo: Instituto
12
O STJ não admitiu execução específica da
Brasileiro de Ciência Bancária.
obrigação de repasse, a signatários de um acordo
de acionistas, das ações adquiridas por outros con- ______. Comentários à lei das sociedades anônimas.
venentes em desobediência ao pactuado e à manu- São Paulo: Saraiva, 1998. v. 2.
tenção das posições acionárias. REsp. 27.517-2/
MG, rel. Min. Eduardo Ribeiro. Revista de Direito ______. Da irrevogabilidade do mandato em acor-
Mercantil, São Paulo, v. 107, 1997, p. 212, com co- do de acionistas. Revista dos Tribunais, v. 601, p. 9,
mentários de Raphael Nehin Corrêa. 1985.
13
Celso Filho Barbi (1997, p. 34). Admitindo a COMPARATO, Fábio. Direito empresarial. São Paulo:
antecipação de tutela em ação declaratória da nu- Saraiva, 1990. (Coletânea, v. 3).
lidade de acordo de acionistas, Humberto Theodo-
ro Júnior (1998, p. 1317 e 2000, p. 71). ______. Novos ensaios e pareceres de direito empresa-
14
Theóphilo Azeredo Santos (1987, p. 189). rial. Rio de Janeiro: Forense, 1981.
Modesto Carvalhosa (1993, p. 82). Celso Barbi Fi- COTTINO, Gastone. Le convenzioni di voto nelle so-
lho (1993, p. 207). Luiz Gastão Paes de Barros Leães cietà commercialli. Milão: Giuffre, 1985.
(1980, p. 265).
15
TJSP, AC. 7.795-1, 6ª C.C., citado por Mo- GOMES, Orlando. Contratos. Rio de Janeiro: Foren-
desto Carvalhosa (1993, p. 204). se, 1959.
16
TJRJ, AC. 34.167, rel. Des. Emerson Parente,
GRIFFIN, Stephen. A restriction on statutory po-
EJTJRJ 7/247.
wers. New Law Journal, Londres, v. 143, p. 589, 1993.
17
Carlos Celso Orcesi Costa (1985, p. 39). Dar-
cy Bessone (p. 129). (1991, p. 13-21). Arnoldo Wald LAMY FILHO, Alfredo. Denúncia unilateral de acor-
(1991, p. 13-21). do por prazo indeterminado. ______. A lei das S.A.
Rio de Janeiro: Renovar, 1995. v. 3.
LEÃES, Luiz Gastão P. de Barros. Comentários à lei
Bibliografia das sociedades anônimas. São Paulo: Saraiva, 1980. V. 2.
MARTINS, Fran. Comentários à lei de sociedades Anô-
ALVARENGA, Maria Isabel de A. Jurisprudência nimas. Rio de Janeiro: Forense, 1984. v. 2. t. 1.
comentada. Revista de Direito Mercantil, São Paulo,
MIRANDA, Pontes de. Tratado de direito privado.
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Rio de Janeiro: Borsoi, [1970?]. v. 25.

266 Revista de Informação Legislativa


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47, p. 189, 1987. vista LTr, v. 62, p. 1317, out. 1998.

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