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Presença e campo transcendental

A liberdade é um problema na reflexão filosófica, porque a experiência da


liberdade da-se somente em um campo estruturado pelo discurso com leitura
indireta e apartada da vivência. Há, nesse discurso filosófico, o uso da linguagem
comum que apresenta-se como problema prévio.
É devido a linguagem que a liberdade se apresenta indiretamente. Há uma
descontinuidade (fratura ontológica) entre a consciência e o real, entre o discurso
e o ser. Essa fratura instaura um dualismo metodológico: de um lado a finalidade
do discurso projetando-se no ser e discernindo suas próprias estruturas e, de
outro, a infinidade do próprio ser. Quando a descontinuidade da linguagem é
projetada no real, ela não pode ocultar a continuidade do ser em si mesmo. A
continuidade mostra-se na possibilidade de mais de um caminho para um
mesmo evento. É no domínio do estético e do mitológico, onde há a intuição da
duração, que a consciência de se e consciência do objeto se reidentificam,
transformando o dualismo em um monismo.
A ênfase em um dos lados do dualismo leva a duas afirmações: 1- toda
experiência é governada pela linguagem e 2- há a possibilidade de uma
experiência pura e sem mediação da linguagem. Esse é o propósito do Ensaio,
tirar o problema da liberdade do âmbito discursivo e testá-lo na presença. Isso
mostra como a liberdade está impregnada com a estrutura da linguagem, e que
deve ser experiência direta, sujeito e objeto ao mesmo tempo. Daí, o dualismo
apresenta dois níveis de profundidade: o primeiro em um nível mais superficial
da experiência, onde as significações são a relação com outras e com a
totalidade do sistema; na segunda, a significação e diferença interna, sem
referência à linguagem. A intuição é a experiência do objeto em si mesmo, não
na sua relação com os demais.
A filosofia da diferença interna só pode surgir dessa presença interna que é a
liberdade. A presença e o testemunho da presença se equivalem. Na liberdade
devolvida à presença é a própria consciência que se apresenta a si mesma. A
liberdade não transcende o sujeito, é a figura presente que esgota a totalidade
de seu ser.
Para solucionar o problema é preciso encontrar outro meio, que não seja o
conceitual com as limitações da linguagem. Pela análise do conceito há somente
a tradução da experiência, ou seja, não alcança a experiência em si. Se realizar
uma síntese da necessidade da liberdade, toma-se somente o evidente,
deixando a precisão de lado. É preciso traçar uma via do pensamento preciso.
O acesso à realidade, à experiência em si, ao dado imediato, não se dá de forma
imediata, mas através das mediações do pensamento positivo. Daí, o
bergsonismo é uma metafísica espiritualista apoiada na argumentação
cientificista.
O problema da linguagem antecede o problema da liberdade. Acontece que há
um dualismo onde o discurso se projeta no ser, enquanto, de outro lado, há o
próprio ser em sua infinidade. É daí que diz-se que a linguagem é descontínua
e o ser é contínuo, porque a linguagem está impregnada de vícios, que geram
confusões entre os termos, que surgem por misturarmos diferenças de grau com
diferenças de natureza.
Perceber que as coisas diferem por diferenças de grau e natureza mostra que
toda experiência é sempre mediada pela linguagem mas, por outro lado, é
possível alcançar a experiência pura, que não sofre mediação da linguagem.
Assim, para resolver o problema da liberdade é necessário retirá-lo do âmbito
discursivo e analisa-lo na presença. Nessa, a liberdade é experiência direta,
sujeito e objeto ao mesmo tempo.
Esse dualismo apresenta dois níveis de profundidades, onde o significado
emerge de relações com as outras experiências e com o sistema todo, enquanto
o segundo equivale o significado à diferença interna, onde não há referência à
linguagem. Essa última se dá pela intuição, que é experiência do objeto sem
relação com os demais.
A filosofia da diferença surge da presença interna, que é a liberdade, e não há
distinção entre a presença e o testemunho da presença, porque ela se dá na
intuição onde a consciência se apresenta a sai mesma.
É preciso, então, encontrar outro caminho para trabalhar o problema da
liberdade, que não seja através da análise de conceitos, que não alcança a
experiência em si, nem através de uma síntese, que ignora a precisão
necessária. O conhecimento imediato não é, ele próprio, imediato, mas é feito
através de mediações do pensamento positivo. O ponto em questão não é opor
conceitos mediatos à experiência imediata, mas é conquistar o entendimento
imediato através de seus métodos, buscando distinguir a coisa em si da coisa
percebida.
O caminho sugerido por filósofos e cientistas é o da categoria de grandeza
intensiva. Essa categoria visa tornar da psicologia uma ciência sugerindo que
todos os estados internos são mensuráveis pelos estados externos sendo,
portanto, conhecidos objetivamente. Mas Bergson mostra que aí se confunde
diferenças de grau com diferenças de natureza, sendo que a primeira está no
espaço, sendo mensurável e quantitativa enquanto a segunda está no tempo
(duração), sendo incomensurável e qualitativa.
Assim, o problema da liberdade deve dar-se na crítica como interiorização, sendo
essa crítica um processo de subjetivação, de interiorização que leva o ser a ele
mesmo através da contemplação. A subjetividade é a presença integral, a
intuição. Quando a consciência interpreta, quando se afasta de si mesma para
conhecer o que é externo ela retorna a si mesma.
O Qualitativo é uma ressignificação, é uma percepção que se aprofunda na
experiência, um progresso qualitativo. Não é causal, como supõe os teóricos da
grandeza intensiva e, por isso, é o que caracteriza a liberdade. Fosse causal,
seria dado, previsível e determinado, em relação a todo nosso ser, mas sendo
um progresso qualitativo, dependente da ressignificação, é o que torna possível
nossa liberdade. Isso é pensar em duração.