Você está na página 1de 49

Barroco

Portugal Brasil
1580-1756 1601-1768
By Charles Casemiro
Discurso Barroco:
Contradições Metropolitanas
• Morte de Dom Sebastião (1578)

• Morte de Luís Vaz de Camões (1580)

• Domínio Espanhol (1580-1640): Filipe II

• Filipismo e Maneirismo (1580-1640)

• Restauração Portuguesa (1640-1750)


Dom Filipe II, de Espanha e Portugal, 1580-1640

Dom Filipe II, 1527-98, filho de


Carlos V e Dona Isabel de
Portugal, neto de Dom Manuel,
o Venturoso
Palácio Monastério de Escorial, 1557, Serra de
Guadarrama, São Lourenço, Espanha
Discurso Barroco:
Contradições Coloniais

• Núcleos Colonizadores: Engenho e Pecuária

• Invasão Holandesa: Bahia (1624-25)

• Invasão Holandesa: Pernambuco (1630-54)

• Dupla Articulação Colonial

• Contradições Coloniais
Discurso Barroco:
Contradições Coloniais

• Insurreição Pernambucana (1644-54)

• Batalha dos Guararapes (1648-49)

• Capitulação e Retirada Holandesa (1654)

• Falência do Açúcar (Litoral)

• Ascensão do Ouro (Minas Gerais)


Victor Meirelles, Batalha dos Guararapes, 1875-79,
Óleo sobre Tela, 494 cm x 923 cm
Michelangelo de
Caravaggio,
Crucificação de São
Pedro, 1600-01, Óleo
sobre Tela,
230 cm x 175 cm
Caravaggio,
Madona de Loreto,
1604-1606,
Óleo sobre Tela,
260 cm x 150 cm
Caravaggio,
Baco, 1595,
Óleo sobre Tela,
95 cm x 85 cm
Juan Vermeer, A Leiteira,
1658-1660, Óleo sobre
Tela, 46 cm x 41 cm

Óleo sobre tela,


46 cm x 41 cm,
Riiksmuseum ,
Amsterdan, Holanda
Conceptismo e Contradição Barroca
• Conceptismo ou Conceitismo:

• Jogo de Ideias ou Conceitos

• Jogo Lógico

• Jogo de Oposições

• Simetria entre Opostos ou Assimetria


Conceptismo e Contradição Barroca

- Parenese: Aproximar Opostos (Antítese)

- Fusionismo: Fundir Opostos (Paradoxo)

- Silogismos

- Adequação entre Parte e Todo

- Estruturas Argumentativas
Caravaggio,
Madona de
Loreto, 1604-1606,
Óleo sobre Tela,
260 cm x 150 cm
Cultismo e Ostentação Barroca
• Cultismo ou Gongorismo:

• Exacerbação do Perfeccionismo Clássico

• Afetação da Linguagem: Ostentação Formal

• Jogo de Palavras

• Jogo de Imagens

• Exagero de Recursos
Cultismo ou Gongorismo Barroco
- Rebuscamento e Adequação Vocabular

- Sintaxe Culta, Rebuscada, Retorcida


(Hipérbatos)

- Detalhismo

- Excesso de Figurações

- Fórmulas Fixas
Gongorismo – Igreja de São Francisco
1686/1797, Salvador, Bahia
Diego Velázquez,
A Família de
Filipe IV ou As
meninas, 1656,
Óleo sobre Tela,
310 cm x 276 cm
Discurso Cinematográfico: Barroco?

- A Última Tentação de Cristo, Martin Scorcese (1988)

- Asas do Desejo, Wim Wenders (1987)

- Em Nome de Deus, Clive Donner (1988)

- Moça com Brinco de Pérola, Peter Webber (2003)

- Blade Runner, Ridley Scott (1982)


Discurso Musical: Barroco?

As Quatro Estações, Antônio Vivaldi (1723)

Jesus Alegria dos Homens, J. S. Bach (1716)

Quereres, Caetano Veloso (1986)

Amor e Sexo, Rita Lee, R. de Carvalho e A. Jabor (2003)

Traduzir-se, Raimundo Fagner e Ferreira Gullar (1981)


Convento de Mafra, 1717-1737
Reinado de Dom João V
Convento de Mafra, 1717-1737
Reinado de Dom João V
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra 1623-1696

• Lírica: Angústia da Dúvida Religiosa


- Eterno x Finito

- Deus x Homem

- Salvador x Pecador

- Perdão x Pecado

- Perdição x Salvação
Santuário Nossa Senhora dos Remédios
Lamego, 1705-1905, Portugal
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra,1623-1696
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados


De tanto sangue e lágrimas, cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não castigar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,


A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, para chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,


A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,


A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada


Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,


Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Francisco Vieira Portuense, Leda e o Cisne, 1798,
120 cm x 127 cm (Rococó – Pombalino)
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696

• Lírica: Angústia da Dúvida Filosófica


- Finitude

- Vaidade

- Desengaño

- Morte

- Carpe Diem
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra,1623-1696
Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz, se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas, a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?


Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte firmeza,


Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,


E tem qualquer dos bens por natureza.
A firmeza somente na inconstância.
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,


O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza a flor da mocidade


Que o tempo trata a toda ligeireza
e imprime em toda a flor sua pisada.

Ó não aguardes que a madura idade


Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696

• Lírica: Angústia da Dúvida Amorosa


- Alma x Corpo

- Ideal x Real

- Dor x Prazer

- Emoção x Sexo

- Platonismo x Aristotelismo
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696
Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,


De verde pé, da rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,


Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,


Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra,1623-1696
Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que em um peito abrasas escondido,


Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando em fogo em cristais aprisionado
Quando em cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?


Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania,


Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra,1623-1696

• Lírica: Angústia da Dúvida e o Elogio

- Poesia Encomiástica

- Homenagem

- Elogio

- Interesse
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra,1623-1696
Alma gentil, espírito generoso,
Que do corpo as prisões desamparaste,
E qual cândida flor em flor cortaste
De teus anos o pâmpano viçoso.

Hoje, que o sólio habitas luminoso,


Hoje, que ao trono eterno te exaltaste,
Lembra-te daquele amigo a quem deixaste
Triste, absorto, confuso, e saudoso.

Tanto tua virtude ao céu subiste,


Que teve o céu cobiça de gozar-te,
Que teve a morte inveja de vencer-te.

Venceste o foro humano em que caíste,


Goza-te o céu não só por premiar-te,
Senão por dar-me a mágoa de perder-te.
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696

• Sátira: Pitoresco da Linguagem, da Paisagem


e Humor Local

• Crítica Social:

- Degradação e Falência: Moral, Ética, Política


e Econômica (Bahia, Salvador: Açúcar)
- Preconceito Social
- Racismo
- Machismo
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra,1623-1696
A cada canto um grande Conselheiro,
que nos quer governar cabana e vinha:
não sabem governar sua cozinha
e podem governar o Mundo inteiro!

Em cada porta um bem frequente Olheiro


da vida do Vizinho e da Vizinha,
pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
para o levar à Praça e ao Terreiro.

Muitos Mulatos desavergonhados,


trazendo sob os pés os Homens nobres;
posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados


todos os que não furtam, muito pobres:
e eis aqui a Cidade da Bahia.
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,


Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente


Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus, que de repente


Um dia amanheceras tão sisuda
Que fôra de algodão o teu capote!
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696

• Sátira: Pitoresco da Linguagem, da Paisagem e


Humor Local

• Erotismo-Irônico:

- Sexo e Humor
- Degradação Moral e Ética
- Escatologia
- Linguagem Fescenina
Poesia Barroca: Gregório de Matos Guerra, 1623-1696
Descarto-me da tronga, que me chupa;
Corro por um conchego todo o mapa;
O ar da feia me arrebata a capa;
E o gadanho dá limpa até a garupa.

Busco uma freira, que me desentupa


as vias, que o desuso, às vezes, tapa.
Topo-a e topando-a, todo bolo rapa?
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa?

Que hei de fazer se sou de boa cepa?


E na hora de ver repleta a tripa
Darei por quem mo vase toda Europa?

Amigo, quem se alimpa da carepa,


Ou sofre uma muchacha, que o dissipa
Ou faz de sua mão uma cachopa.
Igreja de São Francisco – Congonhas, Minas Gerais
Os Doze Profetas – Congonhas, Minas Gerais
Igreja de São Francisco, São João del Rei, Minas Gerais
Sermão Barroco: Padre Antônio Vieira
Conceitismo: Catequese e Crítica Histórica
Sermão Barroco: Padre Antônio Vieira
Conceitismo: Catequese e Crítica Histórica
• Conceptismo:
- Parenese
- Silogismo
- Estruturas Lógico-Argumentativas
- Oratória Católica

• Estrutura do Sermão:
- Introito
- Invocação
- Argumentação
- Peroração
Sermão Barroco: Padre Antônio Vieira
Conceitismo: Catequese e Crítica Histórica
• Temática Dupla:
- Catequese x Crítica Social
• Argumentos Ambíguos:
- Católicos: Bíblia, Encíclicas, Retórica Religiosa,
Mística Religiosa, Dogmas Católicos
- Pagãos: História, Mitologia, Filosofia, Política,
Economia, Cotidiano Colonial
• Estilo Ambíguo:
- Cultismo Barroco x Oralidade Popular
Sermão Barroco: Padre Antônio Vieira
Conceitismo: Catequese e Crítica Histórica

• Alguns Sermões:

- Sermão da Sexagésima

- Sermão do Bom Ladrão

- Sermão do Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as


de Holanda

- Sermão Vigésimo Sétimo do Rosário

- Sermão da Primeira Dominga da Quaresma


Padre Antônio Vieira,1608-1697
(…)
As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o
curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do Céu, com o estilo que o Cristo
ensinou na Terra. Um e outro é semear; a Terra semeada de trigo, o Céu semeado de
estrelas. O pregar há de ser como quem semeia e não como quem ladrilha ou azuleja.
Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo (Jud. V –20). Todas
as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que
faça lavor. Não fez Deus os Céus em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem
o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar
negro; se de uma parte está dia, da outra há de estar noite; se de uma parte dizem
luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de
dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz?
Todas hão de estar sempre na fronteira do seu contrário? (...)
Padre Antônio Vieira, 1608-1697

Aprendamos do Céu o estilo da disposição, e também o das palavras. Como hão de


ser as palavras? – Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras.
Assim há de ser o estilo da pregação – muito distinto e muito claro. E nem por isso
temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras e
altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que
não sabem, tão alto que tenham muito que entender os que sabem. O rústico acha
documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o
matemático para as suas observações e para os seus juízos. De maneira que o
rústico e o mareante, que não sabem ler nem escrever, entendem as estrelas; e o
matemático, que tem lido quanto escreveram, não alcança a entender quanto nelas
há. Tal pode ser o sermão – estrelas, que todos vêem e muito poucos as medem. (…)

(Sermão da Sexagésima, ou A Palavra de Deus in: Vieira, Pe. Antônio. Sermões. 2ª edição. Rio de Janeiro:
Agir, 1960, p. 107)
Padre Antônio Vieira, 1608-1697
Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos
despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os
senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores
tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os
senhores em pé apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os
escravos prostrados com as mãos atadas atrás, como imagens valíssimas da
servidão e espetáculos de extrema miséria. Oh Deus! Quantas graças devemos à Fé
que nos destes, porque só ela cativa o entendimento para que, à vista destas
desigualdades, reconheçamos vossa justiça e providência! Estes homens não são
filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o
sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem como os nossos?
Não respiram o mesmo ar? Não os aquenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela
que os domina tão triste, tão inimiga, tão cruel? (…) (Sermão Vigésimo Sétimo do Rosário in:
Vieira, Pe. Antônio. Sermões. 2ª edição. Rio de Janeiro: Agir, 1960)
Outros Autores Barrocos:

• Bento Teixeira (Prosopopeia – 1601)

• Sóror Mariana Alcoforado (Cartas de Amor)

• Dom Francisco Manuel de Melo (Poesia)

• Padre Manuel Bernardes (Sermões)

Você também pode gostar