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MARCELEMA I
·SERIE
DISCURSO
PSICANALrnCO
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UOTECA
'r d 'volvido
('nrinlhada
VI J31),
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DISCURSO
psíCANAúTlCO

IEÇÃO: ALDUíSIO MOREIRA DE SOUZA


-
'\.CAN - A Trajetória do seu Ensi-
t, de Marcelle Marini, é um livro

LACAN
ro por sua utilidade eminente. A
itora, mesmo não sendo lacaniana,
l inscrita como discípula do mestre
ie aborda, nos dá uma visão pano- a trajetória do seu ensino
mica de sua obra. Não somente
ta visão global, mas sobretudo des-
cando em ordem cronológica a
oduçâo de Lacan, evidenciando,
esmo que às vezes equivocada, as
lhas mestras de seu ensino. E mes-
J estes equívocos são instrutivos,
tis nos desvelam em ato certos por-
.ês da dificuldade que a obra laca-
ana nos traz. Crítica, ela às vezes
-s mostra a ironia com que trata
rtos conceitos, fatos da vida e da
V
Itura de Jacques Lacan. Mas uma
ítica que se revela porosa, sem no
7
tanto ser uma aporia, pois não I
mpromete sua enunciação com
ígarídades, mas ao contrário pro-
-/
-:1
ra situar no contexto deste ensino
us obstáculos circunstanciais e
esmo estruturais. O livro é uma
-,
ordagem ampla e instigante, so-
etudo para os jovens que queiram
7
,l
aventurar ao estudo desta obra •..
te cobre meio século da atualidade
cujos efeitos se fazem sentir em
terentes áreas da cultura. Mas que AI NI> Ml '1, •••
ntinua em grande parte desconhe-
:Ia. E este é o principal mérito de
arini: nos trazer uma panorárni o
t conjunto da obra.
MARCELE MARINI
Prezado Leitor
Este livro traz algumas páginas impressas em fundo vermelho.
Tal artifício visa a evitar a xerografia criminosa que, além de atentar
contra os direitos do autor, inibe toda iniciativa editorial, trazendo
como conseqüência o prejuízo do próprio leitor, cujo acesso a novas
obras ficará, assim, cada vez mais restrito.
Nosso procedimento conta com a aprovação da ABEAS (Asso-
ciação Brasileira dos Editores na Área da Saúde), que, desde a
sua fundação, tem chamado a atenção para a situação alarmante

LACAN
a que nos conduziu esse tipo de atividade, cada vez mais sistemática.
Esperamos contar com a sua compreensão diante desse incon-
veniente, que contrarianossos padrões editoriais; porém enfatizamos
que foi a única solução encontrada para podermos continuar servindo
à ciência e à cultura deste País. a trajetória do seu ensino
EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTOA.

Tradução:
LEDA MARIZA FISCHER BERNARDTNO
Psicóloga. Formada em Psicologia
Clínica pela Université Pul Valéry
Montpellier, França

Supervisão e Revisão Técnica desta Edição:


ALDUISIO MOREIRA DE SOUZA
Psicanalista

M3391 Marini, MarcelIe


Lacan: a tra jet6ria do seu ensino/
Marcelle Marini; tradução LedaMariza
Porto Alegre: Artes Médicas,
1990.
317p.
Fischer Bernardino. - J 1
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I

L- ...;...'I_l~J:..;I~(),()1!iI.2

Índices para o catáicgo AIRI 11l~11 'O:


Psicanálise 15 . )4.2

Ficha catalográfica clllhol'lldu por '111'111111" IIPPlh 1111111 I I' 11 'I /I 11111 \

1'01 TO I I' ( II~I I 11)\)1


Traduzido do original francês
JACQUES LACAN
publicado pela Pierre Belfond, Paris.

Capyright © Belfond 1986

'" . ~ ",

Capa:
Mário Rõhnelt

À Doutora
Eliet - Bronislawskl,
minha analista
e minha amiga,
morta em 1983

Supervisão editorial:

Ir~
Rua Veríssimo Rosa, 247 - Partenon
906 I O - Porto Alegre - RS

Reservados todos os direitos de publicação à


EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA.
A v. Jerônirno de Ornelas, 670 - Fones: 30.3444 e 30.2378
90.040 - Porto Alegre - RS, Brasil

LOJA - CENTRO
Rua General Vitorino, 277 - Fone: 25.8143
90.020 - Porto Alegre - RS, Brasil

IMPRE S N I3RI\SI
PRIN'rED IN IJRA%fI.
Sumário

LISTA DAS ABREVIAÇÕES

Prefácio •..•••.•••.••.•....•.......•••••.........•••.•.
IPA . - International Psycho-Analytical Association (1910), chamada
também de API (Associação Psicanalítica Internacional).
I1P - International Joumal of Psychoanalysis, revista da IP A Primeira parte
EP - Evolução Psiquiátrica (1925), ao mesmo tempo nome do grupo e LACAN E A PSICANÁLISE
da revista. /-
SPP -Sociedade Psicanalítica de Paris (1926), afiliada à IPA I. Lacan, veio e desapareceu •.••........................•• I
RFP - Revista Francesa de Psicanálise, revista da SPP. n. O itinerário te6rico de Lacan • . . . . • . • . . . . . • • . . . . . . . . . . . • .• '
SFP - Sociedade Francesa de Psicanálise (1953-1964). m. Paisagens lacanianas •........••.••..••.•....•.•.•....• (•
APF - Associação Psicanalítica da França (1964), afiliada à IPA.
EFP - Escola Freudiana de Paris (1964-1980).
AE - Analistas da Escola (na Escola Freudiana de Paris). 'j Segunda parte
AME - Analistas membros da Escola (na EFP). DOSSIÉ
AP - Analistas praticantes (na EFP). 1. Cronologia ..••...••••..••.....•....••...•......•.• I I(
ECF - Escola da Causa Freudiana (1981) n. A obra de Lacan .••...•.•.•.••..•.•....•....•.•.•••• I (,
EPHE - Escola Prática dos Altos Estudos, um elevado lugar de pesquisa
na França. BIBI RA A • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •• t)I
ENS - Escola Normal uperior: aqui a rua d' lm, 10
AN •••••••• li •••••••••••••••••••••••••• " ••••••••
)
Prefácio

( Jacques Lacan: 1901-1981. Mais de cinqüenta anos de trabalhos d'


combates; mais de cinqüenta anos de história movimentada da psiquiatria, li
psicanálise e da vida intelectual na França (do surrealismo à fenomenol
, e depois ao estruturalismo).

'. Jacques La~ªn--,J)s!9ui~tra; psicanalista; praticante e te6rico; prof !J o


(quase trinta-ªno~_-º~~~s~rW-nários_~ a um público diverso que, d I
1966, a eles_aflºi~m_multidão);_encarrega~de conferências na Esc 1 PI'-
tica dosAitos Estudos; fundador, em 1964,_de seu pr6prio grupo, a ss ta
!!:r:ey,dialJÇ.jk~earis.,
__
sl~ qual permanecerá sendo o único diretor até d Idír,
em seu único nome, dissolvê-Io em 19~0J.mas para, em seguida, convldur
"aqueles que querem prosseguir com Lacan" a constituírem em tom dele o
que se tornará a Escola da Causa Freudiana, Último gesto de um h !TI m
idoso e doente que lega ao seu genro, Jacques-Alain Miller, uma institui )
capaz de velar pela ortodoxia lacaniana, de difundi-Ia no mundo e de d 11 n·
der um ensino sobretudo oral e, por isso, frágil. É também seu nom \J
permite a criação do Departamento de Psicanálise na Universidad d Vln-
cennes em 1969, incluindo aí, um pouco mais tarde, a abertura de uma ••
ção Clínica", decisão muito contestada nos meios psicanalíticos.
Desde o fim da Intima guerra, Lacan parti ípa d lní íadvas dit I
Com o ucess dos Escritos, m 1 ,J diri um 1 na u l(
uíl, •• amp udínn ", nd u li 1\I 01 un d u t
mo prln Ipnlm nt lívr 1 II \I n I tu 11111 r t I1 cI J
Enfim, célebre por sua Apresentação de doentes, em Sainte-Anne, requisita- . Como esquecer "I' adresse au Congrês de Rome", por Jacques-Alain
do conferencista, assiduamente convidado a ir para o exterior, personalidade MIller, em 1974? Ele pronuncia "o louvor a Lacan " "La ".
da intelligentsia e mesmo do Tout-Paris", ele responde mal à figura romântica "La • . " _ . can o mestre ,
can I e~elgneur (e nao o comum enseignant*); "Lacan o histérico",
do "excluído", do "maldito" e do "gênio desconhecido", que, com freqüên- mas à maneira de Sõcrates, que dispõe da "palavra autêntica" "La
cia, faz parte de sua lenda. edu d " "La ' can O
ca .or; can o analista" e ao mesmo tempo "sempre o analísante?t. J
Na realidade, Lacan é o mais conhecido teórico francês da psicanálise. é preCISOler também o artigo de Gérard Haddad na revista L'Ane d
. ,pouco •
Deveríamos dizer o primeiro, na medida em que falamos do "Iacanismo" pOIS da morte do Mestre: "Eu testemunho por Lacan" "um f . d '
. "." . ' pr ncipe o esp ••
como do "junguismo", do "k1einismo" ... ou do "freudismo". No estrangei- nto , um novo S6crates que mterpelava os jovens para que eles dissess n
ro, "psicanálise lacaniana" é geralmente sinônimo do "psicanálise à france- a palavra plena que estava neles"; "um servo da psicanálise ou um sant ".
sa" - o que, como veremos, causa problemas. Às vezes, até o chamam de "o ~penas a el~ v:~ham os "estropiados" no fim do caminho e não aos "TriSNO~
Freud francês". Esta confusão crescente entre um nome, uma teoria e o vasto uns da clfnica ; e, no ~nal: "Lacan, um perverso, um inentiroso, um s ro
campo aberto, que é a psicanálise como disciplina, impulsionou-me a dedicar que, um empurra-ao-SUlcídio? Ah! os bravos!" Levado por seu élan Haddud
este livro à minha analista, morta em 1983, sem ter deixado o mínimo escri- declara até que "não conhece obra mais límpida que o Seminário"2, quando
to: tomem-no como uma homenagem ao psicanalista desconhecido. A todos ~can r~c.us~va a clareza de expressão, unfvoca demais a seus olhos, e d sd \
aqueles que, de longe os mais numerosos, passam sua vida a amenizar o so- 956 relvmdlcava espontaneamente e não sem ironia seu título de "Gôn oru
frimento intolerável e inominável, graças à sua escuta e à sua palavra; que da psicanálisee ",
ajudam cada um em particular a percorrer um caminho em direção a urna 'ou-
A crftica, por sua vez, começou em 1953 e ampliou-se com o ant N.
tra maneira de ser consigo mesmo, com os outros e no mundo - sem esperar
Atualmente, ela pode resumir-se nestes três julgamentos: "A prática purrl-
(impor) o milagre nem nele fazer crer; que devem eles mesmos participar
cular de L~can é uma perversão da psicanálise pela sedução, manipula
A
ti i
com os sucessos e os fracassos de um pesado trabalho cotidiano. Aos gran- transferencla pela mentira"4. . d .
'. ' sua teona, ca a vez mais abstrata, rej i/li li _
des esquecidos da história da psicanálise. pectos f~ndamentals da psicanálise, necessários, contudo, para a efi á 'j I d
Lacan é também o psicanalista mais controvertido, ainda mais que, po-
sua prática,. em pr~veito de uma concepção puramente de linguagem 16 I.
lemista temido, ele acaba com qualquer outro teórico, inclusive seus próprios
co-matem!tIca do mconsciente e do ~ujeito; quanto aos suicídios e fra lIS (l
alunos - graças, em parte, a este maravilhoso pãra-raios que inventou em
(estragos) em alguns de seus anahsantes, não são "rumor de Orléans "
1953: "o retomo a Freud". O próprio personagem seduz, fascina, repulsa, ~rata-se de fatos reais, simplesmente difíceis de estimar em relação ao 11~
raramente deixa indiferente. As anedotas a seu respeito abundam, como em
Junto dos tratamentos empreendidos na França. Em todo caso, pode-s dlJ', r
tomo de um Salvador Dali, por exemplo, o que, aliás, o deslumbra, por seu que Lacan calou-se obstinadamente sobre estes pontos. À exceção d aflrm 11'
gosto pela provocação e sua arte do espetáculo e do escândalo. Mas os pon- " o quanto, para ele, o projeto de "cura" não tinha qualquer sentido.
tos em jogo aqui são mais graves, pois Lacan pratica, faz leis e teoriza num * Enseignant é a denominação comum pa f '"
domínio que concerne ao inconsciente e onde se trata do futuro, até mesmo E' - . ra pro essor uruversitãrio na França, literalmento ()lh~lflllfl'
te. nsetgneur nao é usado; literalmente seria ensinador, (N.T.)
da vida de um indivíduo. A excentricidade do comportamentoe do discurso
l'rAÉ' Miller, "Adresse au Congrês de l'École Freudienne", Roma, 2 de novembro de 1974 ttr \'
pode ser o signo de um pensamento fora das normas ("muito avançado"), 1Idem
1
e cole Freudienne, n~ 16, novo 1975. '
1111,.
.
dizia o Mestre); contudo, ela não poderia garantir o valor, a verdade ou
3Lacan "S'tu ti d I
, I a on e a psychanalyse et formation du psychanalyste em 1956" in É rtts P 4)7
mesmo a originalidade real de uma teoria. Compreende-se que a batalha seja Gongora é um poeta espanh I d .níci d éc I ' . ,. •
o o I CIO os U o XVII, conhecido por seu preciosism I 10dlrt.
acirrada entre lacanianos, antilacanianos, não-lacanianos e, agora, entre la- ~uld~de de seus textos. Ele deu nascimento ao gongorismo.
canianos de obediência diferente! "J'accu. no Le Monde (16.09.81), citado p r G. Haddad, art. citado. Eric Laur nt 08 v
accuse" (o "O A t I R ".
d 1981 Ai r. nooo uge ,.stoé,A. reen?)eml.aLellremell.'Jlle/Jedof!. r,o ,lIluln
e • 1 ás, já se pode nsultur d 8IJ11l nlrodlt6rl pubJl od peln uintain LlII ralr m ()
* Termo que designa o conjunto dos personalidades que figuram nos manifestações mundanas de d !1IJl j d 19 7,01' o publi u o d ltJ' ri, .v. A ovo d fi n, h rI M 1ifU\lli Olillll, I •
Paris. (N.T.) ~~~I u, A lm, v mOH qu Ut1lqll 8 n 11 m /11 m (11 (/0 11 fi (1111 1I ti l~ /10.
r r l· d I
11111 ()tI P I/lVI I ul 101 N/til • (111I1' I I /I.f ( ""ti
11
venções nas diversas associações psiquiátricas, psicanalíticas ou filosõfi li
E então? Lacan ... um visionário? Um xamã? Um guru? Um analista fi- que ele freqüentou com extrema assiduidade, nem as conferências ainda n (
nalmente científico, inventor dos "grafos" e dos "maternas" chamados a se publicadas, nem os resumos de seminários aprovados por ele! Meno
tornarem os fundamentos da experiência analítica - ao ponto de, para alguns, 3.000 páginas figuram em volumes vendidos em livrarias, cerca de 1.000 I -
substituir Freud e tomar inútil a leitura de qualquer outro analista, salvo para ginas estão dispersas em revistas ou obras coletivas: é preciso ser ini ín 10
fins clínicos? Um aprendiz-feiticeiro ou um prático exemplar? A psicanálise pata descobri-Ias. A metade pois, pudicamente chamada "inédita" nas brú
na França parece repetir as guerras de religião, guerras de doutrina onde po- críticas (quando falam dela), concerne a seminários onde são elaboradas n
demos nos interrogar sobre o lugar atribuído ao paciente (ou ao analisante). ções fundamentais, uma concepção nova da psicanálise e uma "ética" lU
Penso nestes propósitos surpreendentes de Wladimir Granoff, no início de revela uma visão do ser humano, para não dizer uma ideologia (no s !lt I
Filiaüons', que afirma calmamente não dispor de nenhum meio para decidir geral do termo), que ajudam a compreender tanto o itinerário de a '\I
quem é bom ou mau analista, mas, em compensação, pode dar "referências quanto seu sistema de valores. O problema é tão complexo que a ele con •
seguras para se saber quem é freudiano ou não": propósitos inquietantes, grei uma parte de meu primeiro capítulo. Duas questões importantes se J.
pois são freqüentemente verdadeiros. Ou 'então funcionam o boca-a-boca ~u cam: a das relações entre o oral e o escrito em Lacan, e a outra, mais s k -
as redes de relações pessoais ou institucionais. Como não terminar esta séne lógica, que de bom grado denominarei de uma "situação de renda": assíst -
de questões com este grito lancinante de Althusser, dirigido a Lacan, quando se a um seminário "inédito" ou encontra-se uma cópia dele; remanejam-s
para os dois tudo ia logo se acabar: "Magnífico e lastimável Arlequim-"? conceitos por conta própria, segundo algumas "citações" isoladas d I:l li
E se julgássemos os trabalhos, isto é, o conjunto da obra lacaniana? contexto e não verificáveis pelo auditório (ou pelo leitor); e isto se rep t d
Eis-nos bem embaraçados, pois poucos textos são realmente acessíveis ao lugar em lugar, onde o discurso de cada um torna-se por sua vez o dis ur )
grande público. Naturalmente, há os Escritos (40.000 exemplares vendid~s do Mestre. A renda é, ao mesmo tempo, simbólica e financeirament 'ou-
em pouco tempo); entretanto, trata-se apenas de uma escolha de textos.redI- ereta, pois o ensino psicanalftico, geralmente privado, custa muito car . I \.
gidos antes de 1966, dos quais alguns são de leitura difícil pela própria es- can tinha para estas práticas uma fórmula mais severa: ela falava da "pul I •
crita de Lacan, claro, mas ,também porque estão isolados de outras obras xação"* de sua obra. É por isso que presto homenagem àqueles que tl
mais antigas ou do ensinamento feito em seminário desde 1953. A publica- o risco de publicar - mais ou menos bem, claro, pois é difícil - a pal vr I
ção em volume ocorreu tardiamente e em ordem dispersa: Télévision fo~ edi- Lacan.
tada no próprio momento de sua difusão em 1973; somente em 1975 fOI ree- O leitor compreenderá minha escolha fundamental: dar a prim iru im-
ditada a tese de 1932 sobre a paranóia, ao mesmo tempo em que saíam o portância à segunda parte do dossiê: "A obra de Jacques Lacan". T nt fi.
Seminário I e o Seminário XX; em 1978, o Seminário 11; em 1981 o Seminá- guir, em sua ordem cronológica e suas condições históricas, a elab ra
rio 111; finalmente o artigo sobre a família (1938) reapareceu em 1984 ... Não uma teoria, sem levar em conta datas de publicação amiúde bem di tant fi I,
são senão icebergs de uma imensa produção cuja massa permanece desco- escrita ou da fala; captar o surgimento de um conceito e seguir uas trnn •
nhecida (disseminada em diversas revistas esgotadas ou pouco difundidas), formações no decorrer dos textos; marcar as mudanças de posiçã ; id nt f -
até mesmo imersa. Atualmente, enquanto a pornografia recebeu direito de car as repetições, por vezes fatigantes, por vezes reveladoras de uma mud in-
cidadania, a maioria dos seminários de Lacan circula debaixo do pano: em ça devida a um novo contexto e que são, com muita freqüência, O j t I
"versão anônima" (é minha fórmula) ou em "edições-piratas" (é a fórmula um amálgama nas obras gerais sobre os tema lacanianos, onde s t nta
de um processo recente). tar o hiato e as contradições. Sujeitei-me a esta releitura cron 16 i a, f
Imaginem que a obra em circulação oficial ou clandestina de Lacan uma bra d saúd p sal: sp r qu p ssa s r uma bra d aüd pu I 'li
comporta mais de 8.000 páginas: e não estou contando nem as publicações n i ata part d livr m urna viu !TI d d s b rta, nd f sI' til

científicas de assinatura coletiva anteriores a 1932, nem as inúmeras inter- ln rm tiv nri fi parriv 1 d um \ 111 li. 1'1" SI: 1\ mos r In (lI 111 -

/I lmf111\ ,lUr·
5Idem
6Catherine Clément, Vies et Iégendes de Jacques Lacan, Grasset, 1981, p, 33 e 240. Ela declnrn t r re-
cebido a mensagem escrita por Atuiusser e ter fornecido 61 uns extra s a f.,eMaltll.

12
queles que viveram esta experiência, em análise com textos literários ou te -
nhas interrogações nem meus embaraços, nem minhas dúvidas ou minhas es- ricos e, como professora, sem cessar confrontada às relações de transf r n-
colhas. Como fazer uma viagem em liberdade para os diversos públicos a eia: nem mais, nem menos.
que este livro se dirige: estudantes de psicologia, psiquiatria, letras ou filo- Em todo caso, há uma fórmula de Lacan que não aceito, fórmula pn •
sofia, enfermeiros ou pedagogos em formação analítica; público mais amplo ~. nunciada a propósito de seus Escritos, mas válida a seus olhos para c n·
que deseja referências pessoais em face de discursos com freqüência perem- junto de sua pesquisa: "Ao que eles formulam, não há senão que se d lx \
ptórios ou difíceis; intelectuais para quem Lacan faz parte de sua paisagem tomar ou então deixá-los?". A maior recompensa que espero deste trab 111
sem estar aí exatamente situado? Referências internas (de um texto a outros), que fiz é o diálogo: crítica e confrontação.
anexos, estão aí para que cada um encontre seus próprios caminhos, siga
suas curiosidades ou seus interesses do momento, sem por isso ignorar o
contexto sociocultural onde a teoria lacaniana se situa: o que faz ligação
com a primeira parte do dossiê: "cronologia", onde a inserção na história
está mais marcada.
Foi contra a retenção - ou o confisco - do saber que concebi este dos-
siê, com a modéstia de meus meios. Quem, com efeito, não teve que empre-
ender verdadeiras enquetes para saber onde, quando, como Lacan elaborou
tal conceito, analisou este ou aquele texto literário, filosófico ou psicanalíti-
co, ou falou deste ou daquele relato de caso? Quem, ousando uma reserva ou
uma crítica em direção a uma fórmula lacaniana, não ouviu como resposta
um texto desconhecido cujo conteúdo atuava evidentemente contra si? Pode-
se viver também a situação inversa: cita-se um texto não-canônico (o que me
aconteceu com "O Mito do Neurótico" ignorado soberbamente em 1970 e
reabilitado em 1978); somos remetidos a seus caros estudos: ou o texto não
existe, ou não tem valor doutrinal oficial. Vocês seguramente conhecem ou-
tros casos dignos de nota!
Eis-me, pois, livre para a primeira parte de meu estudo, já que expor,
com precisão e nuanças, o conjunto da teoria lacaniana, era uma aposta que
eu não podia fazer. Encontrar-se-ão aí informações sobre o movimento psi-
canalítico francês, sobre as questões ardentes da formação dos analistas e do
funcionamento interno das diversas sociedades; um estudo dos pontos mais
importantes da teoria; uma reflexão sobre os valores subjacentes e por vezes
explícitos que animam os passos e as descobertas lacanianas. Em suma, qual
é o credo lacaniano que tão bem encontrou o de um público e de uma época?
Para terminar com algum humor, lembro esta frase de Victor Hugo em
o Homem que Ri: "Há sinas sob segredo, eu tenho a chave da minha e abro
meu enigma. Sou predestinado, tenho uma missão." Lacan renegaria esta
frase?
A que título - perguntar-me-ão alguns - posso eu tomar assim a pala-
vra sobre Lacan? A nenhum, se se trata de um privilégio. Escrevo nquant
analisante-analisada dos anos 1959-1963, jamais m tomei analista, ma m llvr I A. I ri I \. J. 11\11r ,JII 'I/li ,v I I 'IIIJ, I 11.I
encontro sempre mais ou meno em análi • m nt m 11U t da-

14
Primeira parte
LACAN E A PSICANÁLISE

"1', mem o mpt não me imlt m." (I ''M)


"Cab v s r mia anianos, 71~t f', m,
I~II ti Ir udtan ." (/ »)
I

Lacan veio e desapareceu

A situação atual da psicanálise na França

Uma situação excepcional: em julho de 1985 não existem - no rn 'li 'o-


nhecimento - menos de quinze grupos de denominações diversas qu r lvln-
dicam para si a psicanálise mais ortodoxa: a freudiana. Nada garante 111 ,
desde então, um dentre eles não se tenha dividido ou desfeito, n m qu lI.11
belo dia alguns amigos se tenham subitamente declarado, criando umu nov I
associação de 1901*, com um preâmbulo teórico complicado à m didn I
seus desejos, para se distinguir dos outros, e estatutos meticulosam nt 11-
borados, tamanho o medo da "tomada do poder". Para evitar qualqu r '011-
fusão, lembro inicialmente que existem psicanalistas junguiano : La /tI
Française de Psychologie Analytique. Le Grupe d'Étu.de C.G. Jung do I ti-
ris", que depende dela, organiza seminários, conferências e debat 5, put I '1\
o Cahiers de Psychologie Jungienne, difunde cassetes e abre a t dos li'
biblioteca e sua coleção de fitas-casset , Lá, como em outr s lu ur R, h
bons analistas, analisantcs e analisad s mentes. Assim, nc ntr i, no ti 'I (
de uma soirée, uma jovem rnulh r qu ti ab u m diz nd , c mo lU li
d sculpar: s m dúvida v li m t rnar uma psl analí ta jun uiann r i ,n t
ruI' , f'inalm nt pud r spir Ir fnl Ir - 11\t tnh I, iom munes, pu su 10 I or

~ I r r 11 III tllltll LI! 1I~1l1 I() \llIl I qu I 111\111 1111\ 1\ 111 I 111 \ 11111I 11.

11d 11\
todas as Jornadas ou Week-Ends de múltiplas pequenas associações nascidas !lU , II 111 1111I tllI 101111I1'
da dissolução da Escola Freudiana de Paris.
1111 t 111111 m, 1 Jl .1
Tomemos o ponto de vista de quem quer fazer uma psicoterapia ou uma
psicanálise: não nos engajamos sem angústia numa experiência destas, o de-
sejo de um mínimo de garantia é, portanto, muito forte. Nem todo mundo
ende-sc qu
conhece na ponta da língua o Gotha* dos psicanalistas, os anuários das dife-
rentes escolas, as reputações que, certo ou errado, circulam no meio. Os
pr6prios analistas têm necessidade de publicar para eles a lista (geneaI6gica)
de suas associações, suas declarações de princípios e seus funcionamentos
diversos", Sem contar que um bom número de analistas - experientes ou ini-
ciantes - não pertence a nenhum grupo e exerce, às vezes, uma segunda pro-
fissão. Então, seja o que Deus quiser? Um nome sobre um livro, alguém que
se ouviu em conferência, a opinião de um amigo que contradiz freqüente-
mente a opinião de um outro, um programa de rádio ou de televisão, o con-
selho de um médico ou de um professor, o acaso de um encontro, uma publi-
cidade em um jornal, até mesmo uma borboleta colada num poste de ilumi-
nação (vi isto por muito tempo em Denfert-Rochereau), Tudo é bom no de-
sespero. E ainda se espantam com a ronda dos demandadores de análise, as
interrupções bruscas ou as mudanças freqüentes de analista?
Há os que não têm escolha: os que são encaminhados a determinado
serviço hospitalar, a tal instituição para crianças ou outros lugares de trata-
mento. Ora, cada vez mais, confunde-se aí o papel profissional num orga-
nismo público - e as competências requeridas - com a pertença a esta ou
àquela tendência ou escola que, contudo, os analistas reivindicam como livre
de qualquer controle oficial. Um artigo apaixonante publicado em Psycha-
nalystesê , "A psicanálise em seu lugar", acompanhado de uma portaria da
Corte de Apelo de Paris em 1983, coloca bem a questão deste desejo de ~o-
.mogeneidade que pode conduzir a demissões por "desvio de conduta analfti-
.ca". Pensou-se nos pacientes? Para eles, ou isto funciona - tanto melhor -
ou então é ainda a ronda de uma instituição a outra.

* Referência ao Abnanaque de Gotha, anuário geneaI6gico e diplomático publicado em Gotha, em


francês e em alemão, de 1763 a 1944. (N.T.)

2Yer:
- Pamela Tytell, La plume sur te divan, Aubier-Montaigne, 1982., p. 223-266 (ap6s um esboço em Le
Magazine Littéraire de abril de 1980).
- Psychanalystes, 12, rue de Chanti1Jy, 75009 Paris: inúmeros números apresentam os novos grupos
em formação.
- Tribune I, "L'institution em question", 1985, publicação dos Cartels Constituants de r Analyse
freudienne, 36, rue Vaneau, 75007 Paris. Dois outros nümeros estão previstos.
3Psychanalystes, revista citada, n~ IO,janeiro de 1984.

20
pergunta - sobretudo contestante ou inibidora - é imediatamente devol vida dução.
ao questionador: é ele que deve se questionar. Atrás do professor, surge 10fo ca" e "a
o analista. Compreende-se por que inúmeros estudantes vêm perguntar numa
aula de "literatura e psicanálise" por exemplo - pois o professor não está aí
dotado deste poder imaginário e realmente exercido - onde Freud e sobretu-
do Lacan falaram de determinado texto literário ou filos6fico, de determina-
do caso, de certo sonho, expuseram tal noção; quais outros psicanalistas
eles podem ler sobre esta ou aquela questão ... Felizmente, existem em de-
terminadas universidades cursos de psicologia onde a psicanálise tem seu
lugar - não esqueçamos que Daniel Lagache a promoveu desde antes da
guerra em Estrasburgo, depois, em seguida, em Paris. Atualmente, em Paris
VII, as Ciências Hwnanas Cltnicas formam psicólogos clínicos e o leque das
posições te6ricas é relativamente amplo. Em Vincennes-Saint-Denis, no De-
partamento de Psicanálise (ou do Campo Freudiano), reina unicamente
a Escola da Causa Freudiana, e parece realmente que se quer formar ana-
listas, por meio de curas e participação nas atividades da Escola. Certos jo-
vens (ou futuros) psicólogos declaram aproveitar isto para ouvir vozes e teo-
rias diferentes antes de se engajarem numa psicanálise, ou fora da pertença
institucional de seu pr6prio analista. É ainda nesta perspectiva que eles as-
sistem a sessões de diversos grupos, a cursos ministrados em diversos hos-
pitais. Eles lucrariam, assim, com a disseminação institucional, mesmo quan-
do já são postulantes numa sociedade precisa. Uma sorte de circulação se
estabelece, quase clandestina, ao lado das oposições violentas ou dos fecha-
mentos, representados pela quantidade de organizações.
Entretanto, a questão de fundo é saber por que pessoas pr6ximas a seus
pacientes por sua cultura (pois existem culturas, linguagens populares, f6r-
mulas e metáforas, leituras e modos de vida comuns) devem se separar radi-
calmente deles para entrar numa formação analítica onde reina a cultura das
classes dominantes - e, se pensamos nas associações lacanianas, a mais so-
fisticada que seja. Por que alguém - digamos um enfermeiro de hospital psi-
quiátrico a quem chega mais facilmente o desejo de fazer uma análise, mas
também qualquer outro - cuja análise é reconhecida como bem-sucedida,
que, para os pacientes, tem a escuta e as palavras justas que freqüentemente
a intelligentsia analítica ignora, por que este alguém não pode tornar-se ana-
lista, pela simples razão de ter "insuficiência" sociocultural? Lançam-se eles lnhr I %78U 1 p 'I 11111101'1I 1'1
à conquista desta função? Faz-se deles seres dolorosamente divididos, mal- li liF\ onununlmtlon, 111'1 111 IIlu 11
situados e sem atingir seus objetivos com toda uma parte da população
11 I' ( '1111
doente que, contudo, eles estariam em melhores condições de ajudar. Para
quem a psicanálise? E para quê? Para reproduzir analistas? Ora, foi exata- 11I1(lIIII'lu 1'111 I VII 11 , INIIIIUIII, 1 11\1"1 11I "

mente Lacan e sua Escola que I varam mais longe este d svío ela auto-r pr -
- -----~-~~~-- ........"...=-- .•.•

verdadeiro estilhaçamento da comunidade psicanalítica francesa. Entretanto,


não foi um trovão em céu sereno: imaginem por exemplo a estupefação (in-
gênua?) do "Júri de Aprovação" ao declarar ter descoberto subitamente, por
ocasião do "passe", que muitos AMEs (Analistas Membros da Escola, por-
tanto garantidos por ela) eram tudo menos analistas! Mas quais eram os crité-
rios? Na verdade, nada foi dito quanto a isto: devemos nos espantar diante
deste fato, num grupo que com bastante freqüência confundiu a exigência
te6rica e prática legítimas com a intolerância da mínima diferença, inclusive
na interpretação da palavra de seu Mestre e Diretor? Que privilegiou o papel
da psicanálise nas ciências humanas em nome da l6gica do inconsciente - e
em detrimento da clínica assegurada pelos mais corajosos e mais honestos,
mas desprezada como subalterna, incapaz de produzir algo novo e infalivel-
mente retomada como ilustração de um conceito lacaniano "prêt-à-porter":
A separação é de tal forma nítida entre os dois tipos de trabalho na leitura
das Lettres de l'École Freudienne ...
Façamos um levantamento dos locais analfticos atuais: encabeçando a
lista vem sempre a SPP (Sociedade Psicanalítica de Paris"), criada em 1926,
que sobreviveu com muita facilidade à cisão de 1953. André Green e Conrad
Stein não a abandonaram, a despeito das solicitações de Lacan nos anos 60
(eles chegaram até a fazer conferências ou intervenções no Seminário do
Mestre), Julia Kristeva aderiu a ela, ao lado de IIse e Robert Barande, de
Christian David, René Diatkine, Serge Lebovici, Pierre Mâle e Dominique
Geahchan, Jacqueline Chasseguet-Smirgel, René Major, Joyce Mac DougalI,
Serge Viderman, Michel de M'Uzan, Anne Clancier, Georges Devereux ou
Gérard Mendel, Jean-Claude Sempé, Maria Torok, Jean Cournut, etc ... A
força da SPP (300 membros, cerca de 300 analistas em formação) não se de-
ve apenas à sua afiliação à potente IP A (International Psychoanalytical As-
sociation), mas à diversidade de seus membros, o que prova um funciona-
mento digamos "liberal", mesmo se a palavra está fora de moda. Ela superou
suas crises mudando regularmente seus estatutos, separou a formação feita
no Instituto da Sociedade propriamente dita, onde os conflitos se manifestam
entre tendências, e não mascarou o caráter hierárquico de seu funcionamen-
to. Além de sua revista canônia (datada de 1927), a Revue Française de
Psychanalyse, ela publica um boletim interno onde são publicados também
artigos te6ricos. Suas atividades são inúmeras. Seus contatos com a provín-
cia e os países francofones são constantes, bem como sua participação nos
congressos da IP A. Enfim, ao Instituto de Formação se juntou um Centro de

24
Até 1980, as pessoas se identificavam como podiam entre as quatro condições próprias para desafiar a tradição psicanalftica institucional da
ciedades, dentre as quais a EFP, criada por Lacan, mas a dissolução desta transferência perpétua". Esta foi a declaração de seu primeiro president ,
última provocou um aflorescimento de grupúsculos, não somente por cisão, Dominique Geahchan, no primeiro número da revista Psychanalystes'", Com
mas por cissiparidade, se ouso dizer: como está tudo isto atualmente? De iní- efeito, analistas se reúnem, vindos de horizontes diversos e às vezes conti-
cio, a Escola da Causa Freudiana'ê , mesmo que a maioria dos membros da nuando a pertencer a um outro grupo. É que se trata realmente de uma "as-
ex-EFP não tenham entrado nela, apresenta-se como fundada por Lacan: em sociação" que eu diria profissional, mas no sentido nobre do termo. Sua r -
sua carta de 26.2.1981, ele declara: "Esta é a escola de meus alunos" e no- vista é a que dá mais informações sobre o nascimento e os estatutos das no-
meia um pequeno comitê em tomo de seu genro Jacques-Alain Miller. Esta vas sociedades, sobre sua posição em matéria de formação, de pesquisa, so-
empresa que se pode dizer familiar (com Judith Miller, a filha de Lacan, bre as relações com o Estado e, mais geralmente, com a sociedade civil: ()
Laurence Bataille, sua enteada, o irmão de Jacques-Alain Miller e até mesmo problemas da TV A *, de um estatuto oficial dos analistas, de seu lugar li I
Gloria Gonzalês, a fiel secretária, aos quais se juntam alguns incondicio- instituição escolar, científica ou hospitalar, num, regime totalitário, em r I'
nais), tem um s6lido apoio logfstico: o Departamento de Psicanálise da Uni- da guerra nuclear, etc., convivem com reflexões clínicas e teóricas c r lut
versidade de Paris VIII e sua Seção Clínica. Ela dispõe de fundos considerá- muito abertos de livros publicados. Um número especial sobre "o mito d
veis, de uma revista, Ornicarr'", da qual se adjugou, de um periõdico, L' Â- Um no fantasma e na realidade política"?", consagrado a um col6qui ani-
ne15e de urna editora: Navarin'", Dispõe de todos os direitos editoriais ou de mado por Claude Lefort e François Roustang, ilustra bem a novidade do
reedição das obras de Lacan. Enfim, desenvolve grupos (e boletins) no es- projeto. À leitura desta revista, tem-se o sentimento de escapar da reclus O
trangeiro, principalmente na Bélgica, Itália, América Latina, sem que seja psicanalítica. Evidentemente, a análise sempre se dirigiu à literatura, às ar-
fácil aferir sua importância. tes, à etnologia ou à lógica matemática, mas como se fosse para melhor Fi
A ambição confessa de Jacques-Alain Miller é de fato constituir, em isolar ou isolá-Ias fora do tempo social concreto. Encontro no último nürn ro
tomo do pensamento lacaniano e de sua continuação, uma Associação Inter- de Psychanalystes esta mesma preocupação de não "eludir a questão clu In-
nacional rival da IPA17. Um tipo de afiliação de Freud a Lacan, depois a serção" da psicanálise "no espaço polftico e no campo sociocultural": d '.
Jacques-Alain Miller, asseguraria a ortodoxia analítica traída pelas outras frar as incidências que a evolução social na França pode ter sobre a prátl ti
sociedades. Todos os outros grupos saídos da EFP - e do ensinamento laca- a teoria analíticas, na medida em que analistas e analisantes vivem, como to-
niano - só podem se situar, de saída conflitualmente com a ECF, em nome dos, as diversas crises atuais; delimitar o campo das atividades analíti tiS fi III
mesmo da fidelidade a Lacan - o que não é uma situação cômoda. cair na "ilusão solipsista e apolítica" que faria do processo analítico um lu-
Mas vamos primeiramente fazer uma exceção para o Colégio de Psica- gar extratemporal destinado a "conjurar o social", nem na submissão uo
nalistas'" fundado em 3 de novembro de 1980: "Uma associação que não imediatismo político e aos valores dominantes do tempo; evitar a "transf -
deve sua origem à cisão de uma sociedade, mas a uma reunião de praticantes rência perpétua" que sustenta as organizações analíticas, mas alimenta tum-
que não inscreve em seu projeto regras de formação e de habilitação de seus bém suas cisões repetidas, fazendo ruptura entre os locais de aprendiza m
membros, mas fixa as modalidades de sua cooptação; que não se preocupa as associações de analistas em exercício. Terminarei com esta bela fras cl
com efeitos da ordem social sobre a prática e a teoria analíticas, mas dirige Jacques Sédat: "Aqui somos obrigados a sustentar que na análise qu fi.l:t,
seu estudo para o ativo da pesquisa; uma associação destas parece possuir as finalmente com que o analista se mantenha é um querer viver para si para 1
outro, para além de todas as razões d viver que vêm como um ar duiol
131. rue Huysmans, 75006 Paris (com uma biblioteca aberta a todos). sust ntar seu edíftci o ciJante21".
140rnicar?, revista do Champ freudien desde 1975.
15L' Ane, peri6dico fundado em 1981 (ECF).
>11 Silo d Ta (J d Ia Yalcur Ajowd , uixn 1'0 o P 111M mpr ROR undo B li r 8011'1'1 nt 8111d1 iI
16Ed. Navarin (difusão Seuil), ligadas ao Champ freudien (ECF), 25, rue de Navarin, 75009 Paris.
protluQ • (N.T.)
17J.A. Miller, F. Ansermet, "Entretien à propos de l'établissement du Séminaire de Lacan", Le
Bloc-Notes de Ia psychanalyse, n2 4, Genêve, 1984. No outono de 1985, J.A. Miller publicou nas 1 /I,V ('1If111t11 .1'1(1.1',r VIH(1\ lIudu,n I, II(1V lJ\hIO 1I HI,
edições Navarin L' Entretien sur te sêminaire. 0l/lld., n I, outubro IIH •
18Idem ~11 d 11I, nU 17, I. 'IJ,V)i/·IIf11lllv.1 I rAvtlll/lwl/ll/ ,VII 11//, 111111111111. IIIH ,

26 7
o projeto de Octave Mannoni, de Maud Mannoni e de Patrick Guyo- mesma forma, elas fazem um grande esforço de imaginação em suas aI 1 •.
mard é bem diferente: trata-se de romper com "uma psicanálise dogmâtica e ções, a fim de se demarcarem umas das outras: é preciso, ao menos, um I •.
esterilizante há dez anos". Contra o passe, contra os maternas, eles propõem cionário anal6gico! O mais surpreendente aos nossos dias é que esta dís
uma formação diversificada para psicanalistas, psicólogos, assistentes so- minação - esta diâspora, dizem alguns - não é própria da comunidade anal (.
ciais, etc., onde não há "professores", mas "mais velhos que acompanham tica: é um fenômeno que se observa na França mesmo antes de 1968 at 10
os mais novos", e a quem se reserva na realidade, na França, os casos mais lado político, e que se acentuou nos anos 70-80. Vivemos numa ideolo i I
pesados e mais arriscados - mas também os mais apaixonantes para a desco- único e da centralização: para n6s, todo conflito é fonte de separação; i "O-
berta. Contra o sonho da pura reprodução de analistas - o que Octave ramos seja o federalismo, seja a dependência de um grupo que atua d f 11111
Mannoni chama de "simonie"* - o CFRP pretende ser um lugar de passa- diferente a cada problema concreto que se apresenta. Mas, mesmo asslm, I
gem, de formação, de trabalho, de trocas e não de pertença. Não se é psica- lado dos analistas, as trocas aumentam: ao ler o sumário de uma revista 011 O
nalista enquanto ser - enquanto título -, mas num ato cada vez recomeçado. programa de um col6quio, é impossível acreditar na homogeneidad in tttu ••
O Dr. Gentis, a Dra. Ginette Michaud, inúmeros ex-membros da EFP, que cional dos participantes (que, aliás, emigram de um grupo a outro). T 10 I
permaneceram de fora das cisões, reuniram-se a eles: o trabalho é feito es- associações - exceto a ECF -, inclusive a SPP, a APF e o Quarto l'ul
sencialmente com pessoas "em campo", onde a cada vez é preciso inventar têm locais de encontro, mesmo que haja divergência ou oposição. M smo
as palavras com o paciente, que não deve mais ser um "inibidor" para a teo- entre os jovens, o problema quase não se coloca: o que eles querem sab r
ria analítica. Toda liberdade de afiliação a um outro grupo é aceita; apenas o quem é quem, o que é o quê. Ora, entre os estatutos e as práticas, O qu h
analista deve se interrogar sobre o desejo que o leva a ocupar este ou aquele freqüenternente são apenas hiatos. A sorte para a psicanálise atual na Fran 'li
lugar, isto é, colocar-se em questão. O projeto é realmente reduzir a defasa- é exatamente este início de circulação, onde os títulos de sociedad 08 n •.
gem - e suprimir o esquecimento desta defasagem - entre prática e teoria. A mes pr6prios não atuam mais como emblemas (únicos). Uma mudan fi alnd
experiência de Bonneuil'", feita por Maud Mannoni, continua presente em frágil de nossas mentalidades, mas que vai prosseguir ... Os paci nt ( ti
todos os espíritos, mas também serve de abertura para outros tipos de expe- analisantes vão cada vez mais procurar alguém e não uma escola qualqu ,••••
riência que de hábito se rejeitam logo em nome da "pureza" da psicanálise. A Os pr6prios psicanalistas fazem cada vez mais a experiência de uma 11 iutr I
atividade social do grupo é, portanto, amplamente considerada. Quanto à análise" num outro grupo, cujas perspectivas são, por um lado, dif fi
formação propriamente dita, o acento é colocado novamente sobre a elabora- Assim, cria-se toda uma rede subterrânea de ligações entre organiza
ção, com um "supervisor" ou um "controlador" (qualquer que seja sua es- renternente incompatíveis.
cola), de sua pr6pria experiência com o paciente. Para Lacan, "o real é o
impossível"; ora, o real é a clínica-": parece-me que, em face do cinismo da
instituição lacaniana durante os últimos anos - e atualmente ainda na ECF -
Pequena história extraordinária das publicações lacanianas
este grupo, com outros, pensa que a psicanálise é a confrontação cotidiana
com este "real": o sofrimento do outro.
Todas estas organizações têm uma intensa atividade editorial: revistas e
coleções. Não podemos senão apresentar em anexo um quadro suscinto'". Da
* Simonia, tráfico de coisas santas, venda de bens espirituais. (N.T.)
25Idem
26Lacan, principalmente na "Abertura da Seção Clínica em Vincennes", Ornicar?, n2 9, 1977.
27Le Bulletin du Livre de 15 de fevereiro de 1978 (n? 338), consagrado à psicanálise e à psiquiatria,
arrola 22 coleções de psicanálise! Outras nasceram desde então, por exemplo, na Ed, Denoêl, "L'Es-
pace analytique". Algumas dão um amplo espaço para a publicação de textos estrangeiros. É a oca-
sião de relativizar a psicanálise lacaniana, inscrita num campo muito mais vasto, mesmo na França.
Em compensação, neste estudo, as revistas não aparecem. Pode-se contar aproximadamente meís de
uma quinzena delas atualmente.

o H
• Basta ler a "entrevista a propósito do estabelecimento do Serninári d
Lacan"33 entre J.A. Miller e François Ansermet e, de outro lado, o núm r
da revista Littoral sobre "a transcrição de Lacan'P", para compreender a an-
tinornia das escolhas. Já em 1973, J.A. Miller escrevia: "Aqui se qui I
ser levado em conta, e procurar, da obra falada de Jacques Lacan, a trans ri-
ção que terá fé, e valerá, no futuro, como o original, que não existe", p I
não se pode "tomar como tal a versão que fornece a estenografia'P". M I
tarde, ter-se-ão as gravações que darão os silêncios e as entonações. T I<
mundo está de acordo sobre o termo "transcrição" e sobre as dificuldad J(
trabalho: "inventar uma pontuação", obter "um texto legível" e c ntu 10
fiel. A posição do próprio Lacan é ambígua, pois, ao mesmo tempo, Prol
que Miller co-assine o livro (o que este recusá), confia-lhe o conjunt (I<
trabalho, interpreta à sua maneira o termo transcrição: "O que se diz pu/! li
através da escritura, aí ficando indemne'", e fala de "stécriture'íê», shu-
plificarmos as coisas, podemos dizer que a redação de Miller é peda .•6 1'/\
("corte em lições" com relação das matérias contidas e exergo, organiza (
das sessões em três partes com introdução e conclusão, frases curtas, t .),
Racional igualmente, pois, para ele, trata-se de um ensinamento a apres ntur
num "espfrito de lógica": Lacan não procurava ele mesmo o "materna", Isto
é, o que é integralmente transmissível? Embora ele faça distinção entr "1;1.
tematização" (seu próprio objetivo) e "universitarízação ", ele pensa umpr
"a mais alta função da Universidade", "a conservação e a manuten ti)
que é dito pelo que ela apreende como o autor". Longe de imitar La an 'lu ,
nos artigos, "resumia seu ensinamento ao que pareceu o mais difi ílm nt
assimilável por seu auditório", isto é, "pontos de tropeço", ele vai em dlr -
ção da maior legibilidade: o que Lacan teria apreciado - (e é, crei , muit
possível) - ele para quem "a originalidade, a contorção própria de u n-
samento, foi, contudo, por muito tempo uma maldição". Em todo caso, Mil-
ler declara: "O trabalho que faço sobre o Seminário, faço-o no elem I to 111
certeza, não o faço na dúvida." Suas inúmeras entrevistas com La an ItI-
rante a redação não lhe foram preciosas? Agora lhe é mais díff il inv \I'

"um trabalho de colaboração" para justificar sua "redação".


A equipe de Stécriture propõe, bem ao contrário, "uma trans ri 'd-
ti a do s minários falados de Ia ques Lacan"37: "P ra s ss ritos un

(er. 110lllR17 I).

tll~ ti MIII I qu 1I .41111111 ct ve-


II I1 111, I 'UIIIIII IItI tlu,

"
outros textos, a letra de Lacan falta. O fato de ser necessário estabelecê-Ia freqüência escritos e distribuídos antecipadamente, mas, muitas vezes, • \11
convida, assim, a uma leitura que, não podendo se satisfazer em seguir pa- os substitui na última hora por uma alocução improvisada: é ocas, 11\

cientemente os meandros do sentido, assentará sobre os equívocos signifi- 1953, para "Função e Campo" e "O Discurso de Roma", e também p
cantes uma literalidade que permanecerá conjectural." Na opinião deles, o Col6quio de Royaumont, etc ... Manifestamente, para ele, oral e escrit
\.
"monopõlío" por sucessão "não procura mais instalar sua autoridade sobre a dois registros diferentes, ligados a duas relações diferentes com o utroa,
qualidade do trabalho." Vê-se bem, pois, a oposição radical à "certeza" de ouvintes ou leitores.
J.A. Miller e a preocupação de convidar "a uma leitura efetiva, isto é, aberta Será que vamos concluir que Lacan é um homem somente d po.IIVI I
às eventualidades. Muitos artigos deste número de Littoral apresentam pro- imediata e atuante? Indiferente aos escritos que, por sua vez, perman •• 111"
blemas técnicos apaixonantes; enquanto um texto de J. Allouch - "Lacan Também não. Mas é certo que ele deu o essencial de sua energia ao '11/11/'-
censurado" - destaca as múltiplas transformações (travestismos, para ele) rio, porque crê na inscrição profunda da palavra naquele que a os utu. 1,,-
dos seminários publicados por J.A. Miller. Quanto aos seminários publicados fluência mais sutil, mas repetida, que transforma o outro: neste sentido, 11111
no decorrer de sua produção em Ornicar? , é verdade que o próprio J.A. mestre à moda antiga, um professor (enseignant) ou um "enseigneur'í" O
Miller reconhece sua insuficiência. Então talvez, na urgência de um primeiro mo ele se nomeia. Entretanto, não estou de acordo com aqueles qu aflrnuun
tempo, tivesse sido preferível fazer relatos como fizeram antigamente Ponta- que os Escritos são paradoxalmente pura palavra (fala). Para elo, fi I)
lis, Nassif e mesmo Safouan (resumo não publicado). Na situação presente, domínios estão separados e o engajam de modo diferente. Leiam, p r XIII-
pode-se dizer que não podemos nos fiar verdadeiramente em nenhum dos pIo, sua Introdução e seu Comentário à exposição de Hyppolite n mil! -
seminários, oficiais ou não, mas também não podemos ficar sem eles. Miller rio I e o que aparece sobre isto em La Psychanalyseê"; leiam sua anãlls ti
recusa-se a considerar "que os meandros deste ensinamento são o pr6prio Carta Roubada de Poe no Seminário 11, sua versão escrita em La Ps /UII/(1-
ensinamento ", enquanto outros assumiram o risco de respeitar o ritmo, as si- lyse em 1957 e a nova versão nos Escritos de 1966; seu seminário Il l fi br
nuosidades e às vezes a obscuridade da palavra lacaniana. É permitido de- As Psicoses e "a questão preliminar a todo tratamento possível da ps] ·os "
sejar a existência de edições críticas ao mesmo tempo que a multiplicidade (1958); o que ele diz de Lituraterre no seminário VIII e o artigo d Lttt I /-
mesma das versões que autorizam diversas leituras. De minha parte, escolhi, ture, etc ...
para o estabelecimento do dossiê, o termo mais neutro: "versão anônima". Muitos outros exemplos dos Escritos, por suas transforma - S u
Num país que não dispõe ainda de uma edição integral das obras de acréscimos, em 1966, confirmam minha tese. Além disto, Lacan r v li
Freud - e Lacan, apesar de sua palavra de ordem "retomo a Freud", contri- desejo de escrever, com um tempo de reflexão, ap6s a semi-impr visa'
buiu menos que qualquer outro para isso -, deveríamos nos espantar com a vaz de um momento: citemos A Coisa Freudiana (1955-56 e 19 ,A "1.1-
anarquia e a falta de entusiasmo reinantes a propósito dos seminários laca- tância da Letra (1957-1966), A Significação do Falo (1958-196 ).
nianos, que contudo são - em certos grupos - a lei e os profetas? Mas eis mo modo, ele aceita espontaneamente redigir num a posteriori suas lnt
que se coloca a questão da relação do próprio Lacan com o escrito e com o ções pontuais sobre os trabalhos dos outros: assim, de ua Observa'
oral. bre o Relatório de Daniel Lagache (La Psychanalyse, 1961), d suas 111 •
Pode-se dizer que Lacan é um homem de escrita? Não. E, com a maior tões feita a Pérelman, na ociedade rance a de Filos fia, que 111 P fi 11 -
razão, se o compararmos a Freud. À parte sua tese de psiquiatria, devida à litam desenvolver ua própria t oria da m tãf ra, d r a ruparn nt 111UIII

exigência universitária, não temos nenhum livro dele: mesmo os Escritos são text de uas múltiplas t madas do palavra quand d Iõqui d onn v I1
apenas a retomada, estruturada por páginas reescritas, de artigos antigos e ("A P si ti d Jn os i nt ", 1 0-1 ), t .•. P rtant , ru o s PC)I 11·
relativamente curtos. O texto mais longo talvez seja l' Etourdit, publicado em ar s u ap - quase iv - à I tra d s us t xt S talv 4': \ 111 l1 1 I
1973 (48 páginas). Sobretudo, é verdade que Lacan escreve sob encomenda nt d qu udn p Invru 'li iII ntr I II \ Iv r I li.
- à demanda do outro - ou segundo as circunstâncias, muito mais do que em
resposta a uma necessidade interior. Basta consultar nossa bibliografia para
ver aparecer a variedade das revistas, enciclopédias, prefácios a div rsas ••• V r Nnlll tln 'I'w lu n lu" • O~.

obras. Restam os relatõrios oficiais dos c n s o, m sua rnaturidad , om 111 rn

34
Assim. quando da transcrição de seu discurso de encerramento para as Jor- Quando os caminhos divergem •..
nadas sobre as psicoses na criança (1968) ele acrescenta uma atualização
escrita de suas posições em 1972. A história de Lacan é a história de uma sucessão de rupturas. Tud p ,-
Esta separação do escrito e do oral não me choca, pois, enquanto pro- rece estar em jogo para ele em tomo destes poucos termos: deixar, ser d lx I-
fessora, pesquisadora chamada a falar em col6quios e a publicar, vivo um do ou abandonado, ser "excomungado", jogar por sua vez o anátema.
problema análogo: para mim, falar e escrever também não são equivalentes, De início, pensamos nas rupturas institucionais. Ora, se queremos t 11-
porque a relação ao outro ou aos outros é diferente. Alguns escrevem um tar compreender a situação atual da psicanálise na França, precisamos 1/1-

texto que lêem com monotonia ou, ao contrário, com um brio extraordinário cionã-la aos seus primõrdios e às suas crises repetidas. Por isto, pedim s to
que dá o sentimento perfeito de uma improvisação ou, pelo menos, de um nossos leitores que ignoram suas inúmeras peripécias para lerem desd J
endereçamento direto. Mas outros separam - o que duplica a tarefa - a im- parte de nosso dossiê, intitulada "Cronologia", sobre a qual se baseia t1
provisação oral (evidentemente com notas, referências, articulações e pontos reflexão: pois seria impossível fornecer ali uma simples enumera <J(
muito bem - preparados, em suma um esboço) e a redação definitiva, feita a acontecimentos sem fazer um relato e, por vezes, um breve estudo d s mo-
posteriori, que integra obrigatoriamente as reações da platéia, mas marca mentos essenciais.
também um outro funcionamento da linguagem em relação ao público e em A cisão de 1953 foi certamente decisiva. Alain de Mijolla Iam nt I )
relação ao seu pr6prio texto. Portanto, muitas vezes me perguntei sobre o corte radical que se fez então - e acabou em 1963 - entre "a preocupa ti
trabalho de Lacan para Radiophonie e para Télévision, ao mesmo tempo gra- curar de Nacht", "a preocupação de compreender de Lagache", e "a pr
vados e publicados: ele escreveu antes, ou tratou-se de uma simples transcri- cupação de inventar de Lacan"39. Ora, o próprio Lacan que, no fim d uu
ção do oral? Do mesmo modo, para algumas de suas conferências no estran- vida, faz um balanço de fracasso, declara em 1967: "Embarquei ne te navlo
geiro; há um momento em que vacilamos, perguntando-nos quem escreveu o porque, no fundo, me provocaram - é o que resulta do que foi publi ti
que é citado sob o nome de Lacan. Há um toque de incerteza do qual todos numa série especial de Ornicar? sobre a cisão de 1953. Teria seguram nt
participam. sido mais discreto se ela não tivesse acontecido'"." Com efeito, tudo pa
indicar que ele não fc- seu instigador, que ele contemporizou, fazend Uni
Chegamos aos textos institucionais onde, como diz Lacan, a palavra
tipo de autocrftica sobre sua prática não conforme à análise didãti a, anun-
faz ato e pacto. Aqueles que ele seguramente redigiu têm um impacto indis-
ciando que tinha regularizado a duração de suas sessões, afirmand S li d .•
cutível, mas talvez não aquele que ele esperava. Sua assinatura toma-se cada
sejo de que "o Instituto vivesse, onde ele pudesse trabalhar". Ele foi f r I,
vez mais uma autoridade: ela tem valor de ato, no sentido simb6lico que ele
pela posição rígida do grupo de Nacht, levado pela revolta dos e tud nt
lhe atribui no seminário sobre a Lâgica do Fantasma, onde, justamente, ele
dos quais muitos eram seus, e pelo grupo de Lagache, J. Favez-B ut ni r
se recusa a falar de "ato sexual", na medida em que não há palavra de en-
Françoise Dolto, que decidiram ao mesmo tempo demitir-se e criar a
gajamento. Em seus últimos textos, há como que uma saída trágica, pois,
Carregado numa aventura de início exaltante - ele continua uas S
mesmo que sua assinatura fizesse ato, alguns colocavam em dúvida a auten-
curtas, encontra um auditório que lhe permite dar toda sua apr
ticidade da redação; assim ocorreu com a Lettre aux Mille, da criação da
domínio teórico - depois, dolorosa, pois o não-reconheciment
Causa Freudiana e da Escola da Causa Freudiana, e talvez mesmo para a
priva de uma audiência internacional. eu onho seria permane r numn
carta de Dissolution. Tudo se passa como se seu estilo se voltasse contra ele:
ciedade reconhecida e bem-estruturada, aí sendo tanto l' enfant t rribl
tomava-se cada vez mais fácil "falar Lacan". Era realmente necessária a
suas didáticas não ortod xa ) quant t 6ric s utad ? Jul arla I
possibilidade da paráfrase - que Scilicet manifesta mais, aliás, do que a nho r alizãv I?
transcrição dos Seminários por Miller -, para que tais dúvidas pudessem sur-
gir. Estas questões acompanham este período difícil da dissolução da EFP e
de suas conseqüências: pode-se, pois, questionar o funcionamento desta in - m 1'(111 ", 11 ttt: 17/1' ti I, [I' ch(//w/ ,I', nh 1111
tituição singular e o que Lacan entendia por tran missão de sua palavra.

'7
Num artigo intitulado "Onde os Caminhos Divergem ... 41, Jenny Aubry, do Lacan na IP A, do que deixá-lo fundar uma sociedade independente ond
aquela que desencadeou a contestação dos estudantes em 1953, testemunha nada mais o frearia em suas inovações perigosas.
em 1976 sobre estes vinte e três anos passados ao lado de Lacan. Seu título é Até o fim, Lacan aspira ao retorno à IPA: a ferida é terrível quando,
interessante na medida em que ela se recusa a separar o aspecto ocasional e em 1963, o preço do reconhecimento da SFP é sua exclusão de toda anãlis
passional dos conflitos e impasses teóricos da formação dos futuros analis- didática e de todo ensinamento validado. Ele se vê renegado, abandonad I
tas. Seu itinerário Q é também, na medida em que ela se questiona, em 1976, traído por seus pares e, pior, por alguns de seus analisados que ele tinha o.
sobre "o futuro da EFP, os perigos que a rondam, suas falhas, suas insufi- mo filhos-discípulos. A interrupção do Seminário dos Nomes-do-Pai, O futo
ciências", chegando a declarar: "Os membros da EFP têm uma consciência de ele repetir sem cessar que "alguém" o impediu de continuá-lo - qUWlQ)
boa demais e acreditam de bom grado serem os únicos a preservar a doutrina ele podia muito bem retomá-lo na rua d'Ulm em 1964 ou mais tarde -, NlIlI
freudiana." Entretanto, o tabu sobre a prática das didáticas e das análises de criação do termo "hainamoration"* mostram que ele viveu uma crise trá t '11
controle por Lacan continua, prática que se propagou, contudo, na Escola. acerca das relações entre Pai e Filho ou entre Irmãos: o obstáculo é mais In-
Ora, em contrapartida, a Ora. Anne Clancier pôs fim à sua análise de con- terno do que externo, como veremos no capítulo Ill.
trole com Lacan, que julgava perigosa para seu próprio paciente: ela presta Quando Lacan funda a EFP em 1964, toma um lugar jamais ocupado
testemunho diante de Winnicott, quando da vinda da Comissão de Inquérito por Freud: mestre dá doutrina, da formação e da instituição, em todas as su
\
da IPA em 1953-195442• Segundo ela, três quartos daqueles que se queixa- engrenagens, onde ele permanece o Diretor enquanto viver. É uma das I ltu-
vam de Lacan não foram prestar testemunho; o mesmo anunciam as constata- ras possíveis do "Eu fundo, tão-só como sempre estive em minha relu
ções de Laplanche quando da cisão de 1963: "Que linguagem escutamos no com a causa psicanalítica - a Escola Francesa de Psicanálise". S6, l~l1j O (I
particular? Lacan é indefensável, mas não se pode fazer isto com ele! E de- dialogar com Freud, como Moisés com Deus? Único a transmitir a verda I
pois, ficaríamos com que cara+"?" Quer se trate do acordo sobre a prática a lei? Único a decidir. Assim foi com o golpe de força da Proposição d (ti
das didáticas e dos controles, quer se trate da "personalidade" de Lacan, as outubro de 1967 sobre "o Passe" e eleição onde não se conservou scqu I' 11
duas sociedades francesas não puderam resolver a questão em seu interior, "Proposição" de Abdouchéli, em janeiro de 1969, contudo razoável, qu NU-
pois Lacan jamais cedeu, a não ser às vezes, com palavras tranqüilizadoras. geria testar a experiência durante alguns anos, antes de qualquer decis I-
Ele retomou a posição de Freud: "Os caminhos divergem cada vez que o finitiva, a fim de manter a coesão e o intercâmbio no interior do Grupo. A
progresso da ciência analítica toca em certas ideologias, emfatos de crença partir de então, o que quer que acontecesse, era preciso submeter-se OU d -
ou no narcisismo dos próprios analistas?"." Sem nunca, ao que parece, ter-se mitir-se: assim nasceu o Quarto Grupo - e também, cada vez mais, o fm i)
incluído no rol destes semicegos. Devemos culpar sua análise? Ela não foi, namento da Escola em múltiplas tendências. No Congresso de 1970, fi llx
sem dúvida, nem pior nem melhor do que a dos outros: basta ler os dois pri- Guattari declara: "Que as bocas se abram: este apelo, ouvido em nOSSON1'11-
meiros volumes do diário de AnaIS Nin para se convencer disto. Entretanto, timos encontros ecoa com o que M. Thorez lançava em 36 a um Partíd f-
ele não fez novas "etapas de análise" com pessoas diferentes, como fizeram chado, amordaçado, fascinado, pervertido, não vivendo senão por dcl fi .,
Nacht, Schlumberger e muitos outros. A posição de Lowenstein, seu antigo 'a partir elos feitos e gestos de seus chefes. Algumas ênfases, certa má f ,
analista, que apóia em 1953 o reconhecimento da SFP, é talvez devida à to- certas manobras no interior da Escola me fazem pensar no stalíníamo" ."
lerância, ou à longa carta, tão hábil, que lhe endereçou Lacan, mas talvez se Congresso de 1974 em Roma consagra, com a intervenção de J.A. MUI r,
deva também à prudência: é preferível conter a prática lacaniana, conservan- culto ao herói. Sibony ouve "a louvação de Lacan com ruídos d tábuas lU
são pregadas" e, no desejo de d míni abs luto graças aos maternas, "ruf I
41Idem de anátema e de morte". Havaron, p r sua v z, p r unta p r qu a I'un-
42A. Clancier, já cansada de falar ao lado de alguém que tomava o chá lendo, tomou sua decisão cíona c m uma institui tio r 11 tosa, t •.• N \ r Hlidod , t mo-s da v :t.
quando Lacan a reconduziu com estas palavras lenificantes: "Boa pequena analista!" Ela deu provas
de um belo caráter até o fim •••
43In L' Excommunication, suplemento do n2 8 de Ornicar?, 1977. formodo fl 11\ Jun o 1111 11I1IIVIII 111/"" ((\(/10 ~1I(lIIllIrtlll(1II (111111101'11 o), uu (I
44Freud, "Contribution à l'histoire du mouvernent psychannlytlquc", in Essals de psychanalyse, Pa- f \fI! 11111. (N,'I'.)
yot, 1936, retomados por Lacan em "Função e urnpo" principalmente. r 1'11 Fr 1/11111I1,I 1111(\, o do ou 1 N 1111 I 70,11 1,111111 '( , 1170.

8
mais o reino da hierarquia e do arbitrário: nomeações, destituições, exclu-
sões ou ameaças de exclusão, rejeições para a não-existência, dependem de
Lacan, que escolhe para postos-chaves analistas, não-analistas, até mesmo
não-analisados, mas "fiéis". Sabe-se, além disto, que uma análise com La-
can dispensa na realidade a necessidade de qualquer análise de controle.
Pessoas acorrem, pessoas cultuam, pessoas se afastam. O Congresso de
Deauville, em janeiro de 197846, consagrado ao "passe" é consternador: as-
sinala a deliqüescência da Escola. Aliás, Lacan constata af o fracasso do
passe, de seu ensinamento, da Escola, dos "cartéis", de Scilicet, etc.: é
realmente, com efeito, "o momento de concluir", título de seu seminário de
1977-1978. Alguns tentam reorganizar a Escola, mas a Dissolution acaba
com ela em 1980: decisão de Lacan? Talvez, com o desejo de que tudo de-
saparecesse com ele. Mas, de qualquer maneira, Lacan já desapareceu: um
brain-trust* tomou seu lugar. A criação da ECF, sua retomada do que Lacan
e a EFP produziram, seu dogmatismo, o desejo confesso de I.A. Miller de
criar uma organização "translingüísticá e internacional" que fizesse "con-
trapeso" à IPA47, eis o que ficou, oficialmente, da passagem de Lacan pelo
campo psicanalítico: a gestão do lacanismo.
Finalmente, o Dr. Turquet (o "pavão") não tinha razão, em 1963,
quando declarou que Lacan se via "como a fonte de recompensas e puni-
ções"? Ora, ele ligava esta imagem alienante com a prática das sessões ul-
tracurtas escolhidas "para evitar a transferência negativa". Ele colocava o
problema no nível da análise (pessoal e didática), portanto. Esta questão da
transferência está no centro do drama: a título individual e coletivo, sob a
forma de uma transferência com o Mestre ou com a Teoria: o livro de Rous-
tang, Un destin si funestet", tenta analisar, neste sentido, o funcionamento
das sociedades analíticas. "Pretendemos mostrar como a impotência em sus-
tentar autenticamente uma práxis se transforma, como ocorre na história dos
homens comuns, no exercício de um poder'Y", acusava Lacan em 1956 e
mesmo em 1958. Ele próprio ilustrou isto por sua vez, antes que este poder
lhe fosse talvez confiscado, em seu pr6prio nome.
Enquanto isto, as outras sociedades evoluíam e deixavam os debates se
desenvolver sem cisão: assim, C. Stein abre seu seminário da SPP a mem-
bros de outras sociedades, desde 1961; R. Major e D. Geahchan criam as

* Em inglês no original. (N.T.)


46In Lettres de r École Freudienne, n2 23, abril de 1978.
47Cf. Entretien J.A. Miller/F, Anselmet, já citado.
48Idem
49Ibid.

40
etc., mas também em Merleau-Ponty, Jones ... Ou ele polemiza até o ponto de mesmo do homem'P", de fazer o paciente descobrir "o extremo desamp li "
ridicularizar, ou ele se queixa: mas a ruptura é sempre atribuída aos outros. (déréliction) que é nosso destino, acompanhando-o com uma "fraternkln I
Nem os mais próximos são poupados: eles são acusados de não compreendê- discreta", "vocação mesmo do psicanalista". O tom é freqüentement rn
10 ou de compreendê-lo bem demais. Lacan vive na rivalidade narcísica mais siânico: "No recurso que preservamos do sujeito ao sujeito, a p i an I
do que no diálogo: a leitura das Lettres freudiennes é uma prova patente pode acompanhar o paciente até o limite extático do "tu és isto", ond
disto. Pode-se acreditar verdadeiramente neste desejo: "Que me ultrapassem vela a ele a cifra de seu destino mortal". Então começa "a verdad ira v ,
em meu discurso até tornã-lo desusado, eu saberei finalmente que ele não foi gem". A missão é conduzir o paciente ao "ato de palavra" como "rUI) ,-
em vão"? Talvez ele sofra com a ruptura, mas ela serve de trampolim para mento do sujeito numa anunciação essencial". E para isto é preci s r 11111
sua vida e seu pensamento. Quanto ao sofrimento dos outros, ele o conside- "praticante do simbólico", ao mesmo tempo da linguagem e do pa t I 111-
ra? damental da cultura. O desejo de curar se atenua rapidamente por d t I
um modelo de vida onde se ausentam a béance*, a falta, graças a um •• n I-
tação da economia do desejo"55. Nesta perspectiva, os desenvolvim nt \
A imagem do psicanalista em Lacan partir de 1966-1967, sobre "a destituição subjetiva", a aceitação d I

objeto refugo, objeto de rejeição, o lugar da abjeção não são nada mais til!
Poder-se-ia colocar a fórmula no plural, mas um ponto comum exalta o inverso da imagem idealizada. Aliás, há glória ainda ao receber esta" hu-
esta função: o analista é aquele que chegou lá onde nenhum outro humano va de porcarias" que Lacan prevê cair sobre os traços de suas obras. Ima 111
foi, que enfrentou as angústias e os monstros de que os outros fogem, que suntuosa da vítima sempre mais pura que os carrascos que contra Ia s n·
sondou seus abismos e os dos outros, que avançou mais no caminho da ver- carniçam ... Veremos mais adiante as representações cristãs que sust m 1111I1
dade, "sem temor e sem tremor": um herói do nosso tempo. Ele alcançou as parte das obras lacanianas.
fronteiras da "procriação e da morte", estes dois enigmas que escapam, se- Mas, ao mesmo tempo, o psicanalista é um sábio: mais ainda, o p ,.
gundo Lacan, a toda simbolização. A análise que ele faz do sonho de Freud nálise, "ciência conjectural" (isto é, "ciência humana"), dev t II
- "a injeção de Inna51" - funciona como o mito fundador do psicanalista ciência rigorosa questionando todas as outras ciências em nome da v nl I I
que enfrenta, em seu horror, o "real último", "o impossível de mediatizar", do inconsciente. Começam os grafos e os maternas destinado a dU1I1l1
este "algo diante do qual as palavras param", a boca e o sexo feminino con- fórmula do sujeito submetido a um esquema - às vezes tetanizant ,
fundidos. Ou, como Sócrates, o psicanalista enfrenta tanto o desejo do outro do inconsciente funcionando sob o modelo da cibernética. Os d is ti
para se furtar a ele, quanto a morte por aceitá-lo. Trata-se, portanto, de uma imagem concorrem entre si e se aliam até o final da obra lacaniana,
verdadeira iniciação que o separa dos homens comuns. E sem dúvida é assim abjeto e o materna, que escolher?
que se deve compreender esta anedota contada por Lacan: Jung lhe teria Também se pode estremecer, às vezes, diante da idéia de qu 111

transmitido estas palavras de Freud vogando para os Estados Unidos: "Eles poderia ter realizado o projeto que formulou em La Psychiatrie an lalsc,
não sabem que nós Ihes trazemos a peste'"." Pamela Tytell declara que não psiquiatrizar-psicanalisar a população francesa - sempre estrem i dlant
encontrou nenhum traço desta frase em outro lugar, eu também não, mas o afirmação de que a EFP devia ser a "escola de um modo de vida". I
interesse é realmente sua retomada incessante. Como se o psicanalista, bem- nalista, "mestre do desejo", mestre das ciências, o único capaz d a
estabelecido e muito bem-inserido na sociedade, tivesse necessidade de se verdade: há com que se angustiar. Quando Sócrates torna-se I d 1 II
ver como a ameaça fundamental de todas as ideologias e instituições. Pen- analista: "Não estou aqui para seu Bem, mas para que ele m ar I rtu
semos nas Trombetas de Jericõ ••• d ep i nad ", há al d v rdad m fi c ndi ã d qu 00 111 1I1f(

Assim, muito rápido, o "desejo de curar" que fazia a honra de Freud


contra os psiquiatras= dá lugar ao desejo de chegar ao conhecimento do "ser * T rrn ti camp tio 01 8 O qu I ,ti um p lil I \. Muni
r mo li palnvra fr li 80 mI tlll Irlltll! ,(N.T.)

51lbid. ~Ihil.
521n "La chose freudienne ou sons du retour i\ Freud", Écrlts, p.401l143 .1\ frOR stá no p. 40 • th \1.
531dem

42
---=----------=======-- ....
A psiquiatria fundamental dos indivíduos e da sociedade. Lacan, por sua vez, pensa qu
sanção social é uma ajuda para seus doentes e, de qualquer modo, separa
Como a maioria de seus contemporâneos na França, Lacan teve que in- papel do psicanalista-psiquiatra e o papel da sociedade que pune em n m
ventar sua passagem da psiquiatria à psicanálise. Longe de descobrir, em sua dos valores do grupo", Suas reações durante e ap6s a guerra de 39-4 S
obra e em sua vida, uma ruptura manifesta - como, para São Paulo, a revela- reveladoras: em A Psiquiatria Inglesa e a Guerra", ele sublinha o papel fi ••
ção sobre o caminho de Damas -, assistimos muito mais a uma formação de cial dos psiquiatras-psicanalistas, interessa-se pelas terapêuticas de grupo,
compromisso entre estas disciplinas irmãs e inimigas. pela integração do indivíduo em sua sociedade, recusa qualquer ídeol /I

Sua tese de 1932, Da psicose paranôiea em suas relações com a per- dita revolucionária. O sonho de Lacan era então, de fato, a colaboraçã d
sonalidade, foi hist6rica. Ele rompeu com a preferência pela esquizofrenia psiquiatras-psicanalistas para uma melhor organização da sociedade.
que reinava no serviço do Prof. Claude, em Sainte-Anne, e escolheu a para- Encontraremos mais adiante esta questão: Lacan é fundamentalm nl
n6ia. Ali, ele encontra a Apresentação de Doentes mantida por Clérambault, um homem de ordem, ao menos para os outros.
na Enfermaria da Prisão Preventiva, que via sobretudo aparecer paranóicos Podem me retorquir seu ataque contra Henry Ey em "a causalldnd
assassinos, e descobre o artigo de Freud sobre "Alguns Mecanismos Neur6- psíquica", mas /0 fato de declarar que "a loucura está inteiramente no ainp
ticos no Ciúme, na Paran6ia e no Homossexualismo" que traduz em seguida, do sentido" não faz em si um psicanalista. Pode ser apenas uma disputa /I-
esperando para ler A análise do caso Shrebert . tre psiquiatras. Mais tarde, quando do Seminário lU sobre As Psicoses, L.•\-
É por uma mulhe~ que ele se interessa, multiplicando as entrevistas: o can estudará textos sobre textos a prop6sito do caso Schreber: as poucas alu-
caso Aimée tornou-se célebre, principalmente por se tratar da única análise sões a seus pr6prios doentes atendidos uma vez, não bastam para r tln
deste Seminário seu caráter de leitura de texto de texto ... E, como dirá moi
de caso em Lacan. Mas seu método responde muito mais a uma escolha fe-
tarde Maud Mannoni, a noção de "forclusão do Nome do Pai" pode s r L (J
nomenol6gica que psicanalítica: trata-se de compreender o que aparente-
definitivamente alienante quanto os discursos neuropsiquiãtricos, se nad
mente não é compreensível, muito mais do que criar uma psicoterapia libera-
proposto como solução",
dora. A redação que ele solicita à sua doente, em curso de "tratamento", é
Lacan operou uma vez mais a substituição de casos de homen p r I-
muito decepcionante: Les Mémoires de Bécassine, Este título teria alertado
sos de mulheres para reforçar sua teoria: o que há de comum entre "A ím "
um psicanalista. Encontrando um dia "Aimée", empregada doméstica na ca-
e "Schreber"? Sacrificando ao desejo imperioso de classificação, d d no-
sa de seu pai, que ele via raramente, Lacan não a reconhecerá.
Ele prossegue sua pr6pria estrada: ao lado de Freud, "nossa pesquisa minação de conceito válido para todos, Lacan perdeu aí a ocasião d inv 11-
sobre as psicoses - diz ele - retoma o problema no ponto em que a psicanáli- tar. Esperava-se mais de um apaixonado pela paran6ia do que esta n va V •••
se chegou"; ao lado dos surrealistas, ele não compartilha da exaltação da são de Schreber, Quanto ao artigo intitulado De uma questão preliminar tI
loucura ou da simples rejeição da doença sobre a sociedade: o fato de escre- todo tratamento da psicose, esperava-se outra coisa que uma con tata o.
ver Os motivos do crime paranâiccê, a prop6sito das irmãs Papin, não faz I to porque, durante est~ tempo, muitas pessoas, todos os dias, procuram 111-
dele um Lacan surrealista, mas revela a fascinação dos surre alistas por seus v ntar em sua prática. A força de "questões preliminares", nada s a, u
trabalhos. Lacan não é o Breton ou o Aragon do Val-de-Grâce dos anos 14, nos faz senão na desordem e na solidão. E pode-se reduzir a p i
nem o Breton que, em Saint-Dizier, tentava contra seu mestre Babinski que r til lu?
acossava os "falsos" doentes para reenviá-Ios ao front - escutar os sonhos, I
os relatos e as associações dos soldados traumatizados pela guerra. Ele tam-
bém não é, como seu futuro cunhado, o pintor André Masson, fechado em 11Il
meio aos loucos da Maison-Blanche, que, muito mais tarde, escreverá: "O eu
tinha sido saqueado para sempre". Todos optaram pela arte e pela mudança
IIltI.
rlh <I.
11111<I.

46 7
real", isto é, a prática cotidiana m
mente "o impossível", isto é, o insup rtãv 1'1

o estádio do espelho

Em 1966, nos Escritos, Lacan apresenta "o e tádi d sp lho" 011111


"o primeiro pivô de (sua) intervenção na psicanálise": cí faz qu t o, 1
sim, de lembrar sua comunicação de 1936 no Congress da 11A 111 11111
que tenha sido interrompida e jamais publicada -, antes daqu Ia I I () ) 111
conhecemosl". Mais tarde, ele não vai mais querer ver ar S não "1II1l1 P 11'
lada", em face das suas verdadeiras descobertas, qu '1111, cI 11
1953, com Função e campo da palavra e da linguagem, para f n \1111 111
construir, noção ap6s noção, um edifício te6rico nov. qu fi ) hllp I
que, sob o termo de imaginário, ele não cesse de reelab rar sua I r 111 I'
análises do narcisismo primário, mesmo se ele abandona s u stud) 11 t
co em prol de uma concepção puramente estrutural. Ora, paral lan nte, t\
f6rmula se difundiu cada vez mais nos meios psicanalíti os: ada Ul11 I 111 I
preta à sua maneira, mas reconhece aí um problema encontrud nu 'I(n ,
cuja teoria clássica das identificações não basta para dar ntn, '1'1 11 I
destas primeiras imagens de si que constituem o indivíduo ao fi SIIlO I 1111"1
em que o alienam por um lado, imagens cuja ausência, em t d aSi ,() I I
desestruturado ou não estruturado.
De que se trata? No início, da função "ortopédica", para ti ri 111 ' I
tre seis e dezoito meses, da visão de seu corpo no e pelho: "a im I O 10
po pr6prio" lhe permite, por identificação, antecipar sua unida t I lI,l( f
quanto psíquica. "O afã jubilat6rio" do bebê diante do csp lh ,"11 li, 11I1' 11
jubilat6ria de sua imagem especular", ligados a um "dinamisrn liI Ict 1\ ti"
ainda misterioso mas incontestável, dão testemunho d sta prirn ir I '( 1\ til I I
de uma identidade unificante. Vê-se, pois, que este trabalh d 1 I' \1\ '011
cerne em primeiro lugar à p icogênesc: stc "pivô" de sua t ri \ IllIlh 111 li
pivô da história do filhot humano. por isso qu ,s quis rmo« ti '11111 I
sua ontribuiçã pess ai, nvérn onhcc r suas f nt s.
D inr i , há "a prematura ão cspccffi a cI nas im ntc 110 luuu 111":
Ia foi d vidam nt stab J ida p I H n ur 10 istas mbri lo IsII
id rada p I s psi I p 'i eanalista«. As 'O n/; qü n 'i\ disto
pr ndiza !TI do 'o~wd na 't mou ,'U ti fislin 'I < ntr () mun I
I !TI SI11 , \ssim . 111 \ I<n • \ d r nú n 11 II du '1\ 'I ,

1°111 I('IM,,' 111,11)(1(I,p,C)\.I()(),AH 11\' 111" 1111111111111 110111 111/11111111111111 Mil 1I


til.
Sobre estes pontos, em 1936, existe já uma série de publicações em cossexual definidos por Freud e amplamente admitidos (estádios oral, anul,
psicologia experimental: elas comparam os comportamentos dos animais e fálico, genital), E, para tanto, recorre a teorias psicol6gicas rivais. Comp -
das crianças; estudam a relação ao espelho dentre um conjunto de condutas ende-se melhor a interrupção de Jones em 1936 e a ironia de certos ouvlnt
onde o indivíduo, ao mesmo tempo, experimenta objetos, partes de seu corpo da SPP em 1938. Ao mesmo tempo, as noções de "complexo' e de "fanta -
ou do corpo do outro, a vocalização, o controle dos esfíncteres e da marcha, ma" (na falta ainda de noção de "inconsciente" lhe permitem tratar c m \-
etc.; analisam, semana ap6s semana, sob todos os planos, a evolução do re- valheirisrno os métodos e os resultados da psicologia experimental. EI j(
cém-nascido. Ora, Lacan cita tanto Baldwin ou Charlotte Bühler; ele se refe- de um campo contra o outro, pondo os dois em curto-circuito. Isolando
re bastante - particularmente em sua conferência de Londres, em 195111 -a tritamente a experiência diante do espelho, Lacan revela sua curiosid I I
hist6rias de pombas e de grilo peregrino transformados pelo engano do espe- apaixonada pelo narcisismo, esta "terra incógnita" que o fascina. UnI 111
lho; ele nunca cita - nem mesmo em 1966 - as teorias de Wallon que deram também o campo de suas investigações.
impulso ao seu pensamento. Contudo, o artigo de 1931, "Consciência e in- Tudo se passa como se fosse necessário afastar a relação à mã 11 " -
dividualização do corpo pr6prio", retomado na obra de 1934, As origens do lação ao pai para dar lugar à relação ao semelhante, aquele que ele nom 'iu ti
caráter na criança'<, permitiu-lhe ampliar suas pr6prias pesquisas sobre o irmão neutro" em A Famüia. Lacan condensa, assim, duas expcri n -I I
narcisismo, começadas com estudo da paran6ia. A leitura de Wallon, retiran- constatadas pelos psicólogos: a relação ambivalente de identificaçã c <.l • I'i-
do implícitos, esclarece o texto lacaniano. validade - "transitivisrno" ou "participação" - em crianças que não t 111
Do que se trata, do lado da psicanálise? No lugar da intervenção de mais dois meses e meio de diferença, o que exclui bastante geralm ntc LI
1936, Lacan nos remete ao capítulo sobre "o complexo de intrusão", em seu fratria em proveito da socialidade; o despotismo do mais velho sobre o mul
artigo sobre A Famüia'ê, Ora, este complexo se situa entre o do "desmame" novo, para além desta distância de idade -, o que está mais conforrn ao "1\ -
(em relação à mãe) e o do "Édipo" (em relação ao pai e à entrada no campo sassinato hegeliano" chamado pela desigualdade de status entre i uais. No
cultural e social). Antes, portanto, não haveria senão "estados de horror" e decorrer dos seminários, Lacan não deixa de retomar esta imagem ti - SUIII 1
de "beatitude passiva", como ele diz numa comunicação de 1928' 4, na qual pa- Agostinho: dois irmãos ao seio (irmãos gêmeos ou irmãos de leite"), rlvul
rece querer acreditar num "estádio saturniano", anterior ao estádio do espelho e ciumentos, mas reconhecendo-se mutuamente por identificação rccf ro '11 no
correspondendo ao "fantasma do corpo despedaçado", que ele se vangloria, desejo comum por um mesmo objeto. Na origem, a relação dual Ias inunt
em 1949, de ter inventado. Notemos: esta formulação feliz não é nada mais alienante não é, pois, pensada com a mãe - definitivamente fora do j( (
do que um modo de rebatizar, à francesa, os trabalhos já avançados de Karl mas com o igual ao sujeito. A solução do conflito se esboça prim ire 1111
Abraham e sobretudo de Melanie Klein, cujos primeiros estudos, ao mesmo iguais, fazendo do pai aquele que só intervém aprés coâp", situad numn
tempo te6ricos e clínicos, sobre os tempos arcaicos da formação do eu apa- ordem bem outra, o domínio dos puros valores sócio-simbólicos. A mã
receram abundantemente desde 193215• Lacan s6 os reconhecerá em 1966 metida ao mais arcaico, ao caos do qual o sujeito s6 pode emergir p I " 'o-
nos Escritos:", Ap6s o estádio do espelho onde se condensa o complexo de nhecimento conflitual com seu igual; o pai acantonado na pura m tãforu 0\1
intrusão, há o Édipo, que ele julga então indispensável redefinir, insatisfeito ao Nome puro ligado à Lei: qual desejo se inscreve aqui de evitar m 'I \
com as teses freudianas - e psicanalíticas em geral. corpo a corpo? Mas o que resta do corpo do semelhante e do c q de 11 1./ •
Com esta trilogia de complexos, o jovem psiquiatra-psicanalista se co- to mesmo, quando ao seu enfrentamento mesclado de d s jo se sup rp
loca então como renovador da teoria dos estádios do desenvolvimento psi- para finalmente .ubstituf-Io -, o espelho anele o sujeito joga sua S rt m I \-
e ela "ima em ele si com outro" do "outro omo si rncsrn '1" A) I Ollt )
11"Some reflections on the Ego", IJP, 1953, vol. 34. Tradução: Le Coq Héron, n~ 78, 1980. "nã há semelham - um outro 'lu s 'ja u - s não porqu \ li
12H. Wallon, Les Origines du caractêre chez r enfant. Les préludes du sentiment de personnalitê, 12 um utro".
ed, Boivin, 1934. Reedições inúmeras na Ed, PUF.
Zuriqu " iul I I 1
13Idem
r rn \ '111' I •• I
14Ibid. v lU
15Ibid.
16Ibid. '" 1\ 11( t ri li 011 H<Ili 11) •

50
dio" ou "fase" - sua verdadeira busca, de "uma estrutura ontol6gica do
XlfI, etc .. O que apaixona é "a armadilha de olhares", onde nos pergunta.
mundo humano". Certamente, "a imagem antecipada do corpo como totali-
mos sempre quem faz armadilha para quem.
dade" põe fim à angústia do "corpo despedaçado"; há "assunção jubilat6-
Bem rápido, o Eu alienado ao outro como si mesmo ou a si mesmo
ria", porque se trata da "experiência de uma identificação fundamental e
mo outro, se integra ao conjunto complexo da t6pica do sujeito, onde O pa,
(de) a conquista de uma imagem, aquela do corpo que estrutura o Eu, ou essencial pertence à linguagem, à lei do Pai e ao significante fãlico, tod<
antes o "eu" (je), antes que o sujeito se engaje na dialética da identificação fundamentos da cultura que faz o humano em face da natureza. É p r (
a outrem pela mediação da linguagem". Mas esta forma é também "alienação motivo que, de maneira retroativa e às vezes simplista, não se fala do sló(J1
numa figura de ficção" que "corre o risco de se resolver em agressividade do espelho senão ao interior de um sistema onde a metáfora paterna, ••
assassina ou suicida". Como escapar disto, quando a teoria situa "a dialética consciente estruturado como uma linguagem" e o falo são bases seguras ou
temporal que decisivamente projeta em hist6ria a formação do indivíduo", tranqüilizadoras. Mas outros analistas trabalharam de outro modo 111 o
num corte radical em relação ao antes e depois, fazendo desta hist6ria uma textos lacanianos: os leram através de sua pr6pria experiência analítica.
hist6ria autárquica e atemporal? A metáfora do campo suprimido é, a este Assim, em 1949, Françoise Dolto faz uma apresentação na SPP s tI
título, reveladora; o sujeito, ainda embrionário, é tomado fatalmente entre "a boneca-flor" que ela utiliza em suas análises de crianças. Lacan p ntn-
"sua busca do altaneiro e longínquo castelo interior, cuja forma (, ..) simboli-
mente declara que "a boneca-flor da Sra. Dolto se integra em suas pesquisn
za o Isso de modo surpreendente" e o Eu que o capta como do exterior, fi-
pessoais sobre a imago do corpo pr6prio e o estádio de espelho e do rpo
xando-o, tal qual uma estátua, e "numa simetria que o inverte, em oposição à
despedaçado. Ele acha importante que a boneca-flor não tenha boca e, apé
turbulência de movimentos da qual ele se experimenta o animador". "Matriz
ter observado que ela é um símbolo sexual e mascara o rosto hurnan , I
simbólica" primordial, esta imagem hierática instaura no indivíduo a cliva-
termina dizendo que espera um dia trazer um. comentário teõrico à ontrt-
gem entre o "eu" (je) ainda frágil e o Eu, sua figura imaginária e "sua desti-
buição da Sra. Dolto" (sic)!", Esta responde com a exigência de v rdu
nação alienante", E isto, "desde antes de sua determinação social". Para
que é a sua, em relação à sua prática: para ela "é necessário entender a i I 111
confirmar sua tese, Lacan recorre a Anna Freud, que analisou "a função de
do espelho como objeto de reflexão - não somente do visível, mas d fi tu(.
desconhecimento do Ego", em termos que não são os seus, mas onde ele
vel, do sensível e do intencional. A boneca não tem rosto, nem mã s n m
pretende escutar um eco, valendo como caução, de sua recusa a ver no Eu
pés, não tem frente nem costas, não tem articulações, nem pescoço". 'Ia
a instância da percepção da realidade.
lugar o mais livre possível que seja, oferecido à invenção criativa da rlan
Por isto, ele explorou o mais longe possível os abismos do especular.
em face de seus fantasmas e na presença de seu analista.
Orna outra prova disto é que ele espera os Escritos'! para enfim falar do in-
Winnicott lê, ele também à sua maneira, este texto lacaniano: "N I.
tercâmbio de olhares entre a criança e o adulto amado e amante que garante
senvolvimento emocional do indivíduo, o precursor do espelho ~ a mâ 1 ",
o laço vivo entre a imagem e o corpo experimentado do interior: uma obser-
ele o estende à família inteira, substituindo o familiar-social lá onde an f
vação que faz, contudo, parte da literatura psicol6gica experimental há muito
afastara e fazendo atuar a labilidade das identificações lá onde La an lnstl-
tempo. Sem contar que a criança não vê s6 a sua pr6pria imagem no espelho,
tuía, ao mesmo tempo, rupturas impossíveis de reparar e uma fixa ã pa 11-
mas a do mundo e a dos outros: o efeito desrealizante - mortífero talvez - é sante ao duplo no espelho.
elaborado, dissolvido mesmo, pela cumplicidade dos olhares. Ainda é neces-
Em Roma, em 1953, Françoise Dolto se levanta com veern n ia
sário que haja amor do outro nestes olhares. Ora, por muito tempo, Lacan, o de prezo de Lacan pela hipótese da "rnaturação instintiva" qu nr ,., I u
decidindo aplicar aos dados experimentais (em psicanálise também) "o crivo Ia uma "mitologia", mas a xp riên ia d ua prãti a c tidiana2o, nquunt
diretor de redução simbólica", constr6i, ao contrário, toda uma maquinaria u ,mai tarde, Maud Mann ní d nun ia fi nfus ,na anáIJs 10 111111111,
cada vez mais sofisticada do ver, que invade desde 1954.0 Seminário Il, ntr lrna inãrí sp ula I: III luta ntra d ml\tism d
a Observação sobre o relatório de Daniel Lagache, os Seminários XI e

" 1.11 li" "I I (1111, I


111 I1 1.
17/bid., p, 70.

52
nos constitui, definindo-nos, mesmo que seja com um simples nome. Ent
lar, recorrendo justamente aos textos em que Winnicott trata o imaginário os dois, todo um espaço do imaginário reduzido à captação especular do li
como "espaço potencial" entre os seres, capacidade de criação indefinida pelo objeto que é seu duplo invertido: pode-se sempre se perder aí, corp
e infinita de representações e de palavras mutantes, com os outros e com o bens. Haveria verdadeiramente resolução teórica para estas questões dramá-
mundo, na experiência mais cotidiana de cada um, tanto na arte quanto na ticas? Eis o que pode servir de fio condutor à sucessão de títulos que pr
matemática. O imaginário engloba e ultrapassa o especular. Somente ele li- mos agora, títulos condenados à brevidade esquemática que todo projeto I
bera o "eu"(je) das figuras rígidas do especular, bem como das imagens vulgarização supõe. Esperamos que possa ser uma introdução ao nosso d ,.
alienadas que ele forja para si, mas que se lhe forjam também. Mas a teoria siê, mais complexo e disperso o bastante para quem não está já familiariza I<
também pode lhe forjar, quando se toma mecânica tetânica, sobretudo gelada
com as principais noções lacanianas - e de introdução à leitura de obras mal
e mortífera. Por isto, não podemos esquecer a nota de Freud, em Além do sábias consagradas a este ou àquele aspecto da teoria. Enfim, isto sem diz r
principio do prazer: ele descreve aí seu neto brincando de se fazer desapa- que somente o conhecimento de inúmeros textos de Lacan permite esclar .•
recer e reaparecer diante do espelho do quarto de dormir, após ter brincado
los uns pelos outros.
de fazer aparecer e desaparecer o carretel que simbolizava sua mãe, ao mes-
mo tempo em que acompanhava seu gesto de vocalizações contrastadas, on-
de a jubilação marcava os retornos sucessivos. A atividade do brincar (o o retorno a Freud
playing de Winnicott) elabora o especular: um poder de simbolização já, an-
tes que intervenha , no momento
\
do Édipo, a função paterna, suporte da lei, Esta fórmula, que se tomou uma verdadeira palavra de ordem e de ad -
da linguagem organizada e dos valores sociais. são, data da primeira conferência feita, um pouco depois da cisão de 1c
Demoramo-nos na leitura do Estádio do espelho como formador da na sociedade dissidente - SFP - e intitulada O Simbólico, o Imaginário a a
função do eu por duas razões: esta primeira elaboração de um conceito no Rea[23. Ela tem valor de polêmica contra os analistas que não lêem u
campo psicanalítico nos parece uma excelente ocasião de descobrir o proces- xaram de ler Freud: aqueles que o lêem mal, na "confusão", "no arhltr -
so, senão a estratégia, do pensamento lacaniano; o próprio título, em sua rio"24, ou na fidelidade estúpida que não ousa "considerar como cadu 'o (
obscuridade, já indica a que tende a pesquisa. Lacan quer definir uma nova que o é efetivamente na obra de um mestre sem iguaJ25"; aqueles, enfim, lU
instância, o "eu" (je) que não seja nem aquela do controle reflexivo, segun- o traem, quer se apeguem ao meio social ou ao eg026" (entendamo . 11\0
do a tradição cartesiana, nem o Eu dos psicanalistas, do qual faz o lugar pri- o Eu da ego psychology americana chegando até a França).
vilegiado do desconhecimento, muito mais que do encontro com a realidade.
Que ele recuse a tradução francesa habitual da célebre fórmula freudiana, Esta fórmula é também uma fórmula de engajamento, quer se trat ti 11
"Wo Es war sol! Ich werden"; por "o Eu deve desalojar o Isso" (isto é, o clínica, da teoria ou da ética da psicanálise, as três sendo, aliás, ins purd-
conjunto das pulsões arcaicas) é um sinal, mas mais ainda o fato de que ele veis. E se, no início, o projeto de Lacan era integrar "a aquisição r n 111 -
não deixa de retrabalhar esta tradução em tomo do "eu" ("Je"), como não nolõgica do freudismo" a uma "nova ciência psicológica mais vasta"27, P I-
cessa de transformar o Cogito ergo sum (penso, logo existo) de Descar- de-se dizer que ao se colocar na escola de Freud ele quer, a partir d nl I,
tes. Assim, ele se orienta cada vez mais no sentido de uma ciência do sujei-
fazer da psicanálise esta ciência com a qual sonha, capaz de e Ia r (
to. Talvez ele se esforce em captar qual é, nele mesmo, este "eu" inapreen- fundamentos das outras ciências ao mesmo tempo que o psiqui 1110 hum \11 ),
sível que lhe parece a única garantia de sua saúde? Como esquecer o jogo de Ele se apóia então no caráter racional da iniciativa freudiana - "a int duc o
palavras e de escrita ao qual ele se entregará mais tarde'"? Pela pronúncia, o
S (inicial do Sujeito) remete ao mesmo tempo ao Es alemão (o isso
julh cio 195 ,In Butlettn d r A~'S(Jc/lII/(J1l Fr udienn , nO 1. /9H2.
impessoal), força viva dos tempos embrionários do sujeito, e ao Es latino
(Tu és), onde se ouve a Palavra de reconhecimento dirigida pelo Outr que

22Entre outros, no Sérninaire XIV, IA loglque du jantasme (1966-1 ?67). Trata-s cI limo dU8lndrn -
ras Interprctaçõe« do" squ mil I~." do dlolótloll ItJl rRuhJ tlvo ( t.Ecrus, p, S e 548).

4
de uma ordem de determinações na existência humana, no domínio do senti-
do, chama-se razão. A descoberta de Freud é a redescoberta, num terreno in-
culto, da razão'v" - para defender, desde 1957, sua pr6pria pesquisa de uma
formalização que institui enfim a psicanálise como ciência" pesquisa cujo
término será a busca de um "materna da psicanálise", capaz de torná-Ia inte-
gralmente transmissível.
Nesta perspectiva, Lacan oscila entre uma crítica ou uma relativização
dos textos freudianos - que não impede a admiração - e uma fidelidade in-
condicional, sobretudo quando ele se sente ameaçado em suas inovações.
Assim, pode-se 'opor, por exemplo, estes dois julgamentos: em 1953, "algu-
mas destas noções foram, num determinado momento, indispensáveis a
Freud, porque traziam uma resposta a urna questão que ele havia formulado
antes, em outros termos. Não captamos, portanto, seu valor, senão ao ressi-
tuã-las em seu contexto"?" intermo e externo. E, em 1964, Freud "nos deu o
saber em termos indestrutíveis (... ). Nenhum progresso pôde se fazer, por
menor que seja, que não tenha se desviado cada vez que um dos termos em
torno dos quais Freud ordenou as vias que ele traçou e os caminhos do in-
consciente foi negligenciado"!", Entre a transmissão científica e a filiação
doutrinal, Lacan faz um estranho compromisso: em 1965-1966, ele declara
falar "em nome de Freud", mas "como outros têm a falar em nome daquele
que porta meu nome", porque "o nascimento da ciência não fica eternamente
suspenso em nome daquele que a institui"?". Lembremo-nos da frase pro-
nunciada no fim de sua vida: "Cabe a vocês serem lacanianos, se quiserem.
Eu sou freudiano=".
O retorno a' Freud está ligado, desde 1951, à análise crítica das Cinco
psicanálises: "O Caso Dora" permite um soberbo estudo das "reviravoltas
dialéticas" operadas na interpretação freudiana e que tocam a cada vez "um
momento de verdade do sujeito" - sem que seja mascarado o fracasso final
que Lacan atribui à enorme identificação de Freud com o Sr. K. e à sua ce-
gueira em face da homossexualidade femininaê", Os problemas do tratamento
- da transferência e da contratransferência -, abordados aqui de modo con-

28Les Écrits techniques de Freud (1953-1954), Seuil, 1975, p. 10. Este tema é defendido também na
conferência, "Freud no século" (16 de maio de 1956), onde Lacan explica-se novamente sobre "o
retomo a Freud", cf. Séminaire III,Les Psychoses, Seuil, 1981, p. 263-277.
29Idem '
30Ibid.
31Ibid.
32Ibid•
33Emjulho de 1980 em Caracas, L'Ane, lia J, 1981.
34Idem
diana seria devida à sua angústia diante do desejo, "angústia no princípio de mas a dependência do sujeito a uma ordem que o ultrapassa e que está na sua
seu apego ridículo a esta impossível mulher, que aliás o enterrou, Sra. origem - o Simb61ic046•
Freud42". O título que uso está de acordo com a história do pensamento lacan ia-
Lacan não desconhece sua ambivalência: "Eu, eu falo sobretudo de no. É aquele da conferência de 1953 "O Simbólico, O Imaginário
- com Freu d mo rt o43" . A
Deus morto talvez para me livrar de minhas relaçoes Real": ele marca o efeito de revelação que as primeiras teorizações de vi-
impossibilidade de retomar o seminário dos Noms du Pêre estaria ligada Strauss tiveram para ele. Através das estruturas elementares do parent
à "I' hainamoration" * entre filho e pai? Retomaremos estes problemas no consideradas como instituição fundamental de toda sociedade, a antrop 1
capítulo IH. Compreende-se melhor que Lacan assinale, como missão para a afirmava a primazia da Cultura, elemento terceiro entre Natureza e O i
psicanálise, não a cura, mas um acesso à verdade e à ~tica. Que ele queira, de, contra o pensamento marxista então dominante na França. E, apoiand -
nesta via, conduzir discípulos como ele se sente conduzido. na lingüística, ciência ainda ignorada entre nós à época, e da qual fazia uni \
ciência-piloto, ele tomava a estrutura da Língua como estrutura-mod 1
paz, por transposição metodológica, de explicar todos os fatos humano .
can tenta fazer o mesmo em seu próprio domínio, pois o encontro m fi
pesquisas de Lévi-Strauss lhe permite dar forma ao que ele busca desci
o imaginário, o simbólico e o real artigo de 1938 sobre A Famüia: uma reformulação do Édipo como entrada,
graças à figura paterna, no universo da lei, da participação dos val res s -
No início dos Escritos técnicos, Lacan assinala a particularidade ine- ciocuIturais e do reconhecimento como sujeito por inteiro, através do tri ut
lutável de cada tratamento: "Quando interpretamos um sonho, estamos sem- do respeito aos interditos fundamentais. Tal era desde então, para ele, a úni-
pre em cheio no sentido. O que está em questão aí é a subjetividade do su- ca salvação em face do abismo do Real dos tempos primordiais e do p I-
jeito, em seus desejos, sua relação ao seu mero, aos outros: à VI°d a mesm~,44" .
o

lar que protegia ao mesmo tempo em que alienava o sujeito em seu dupl In-
Mas, ao mesmo tempo, assinala a necessidade dos conceitos que, por sua vertido, compreendendo aí até mesmo um "Eu paranóico onde se faz fi vlru-
ordem de realidade original", permitem, em psicanálise, fundar a universali- da do eu (je) especular ao eu (je) social". Pode-se dizer que os textos mal
zação sobre o mais singular. Podemos acrescentar que, muito rapidame_nte: a conhecidos, a partir de Função e campo da palavra e da linguagem (1
tentação de fundar o mais singular sobre o universal é grande: Lacan nao e ~ - o essencial dos Escritos - vão neste sentido. Em suma, como viveríam
único a sucumbir a ela. Ora, mesmo se analisarmos, como ele, estes concei- bem sem o Imaginário e o Real, ou se, pelo menos, eles estivessem int li \-
tos apenas através da linguagem, eles variam historicamente. oLacan: em mente domesticados! Mas, infelizmente, o terreno está minado. Já na 811áli
1953 substitui definitivamente o sistema freudiano - que se apóia na biolo- do caso Schreber, a explicação suprema é certamente a "forclusão do N rn -
gia, ~a neurologia e mesmo na física, para seguir o desenvolvi~e~to do in- do-Pai" (uma carência do lado do Simbólico). Contudo, a psicose é atríbuf lu
divíduo desde o nascimento até a idade adulta - pelo seu propno, que se contraditoriamente à "intersecção do Real e do Simbólico", nd Ialt \
pretende estrutural e não genético: O Imaginário, O Simb6lic~ e o Re~l são função indispensável do Imaginário, enquanto que mediação'". i
"os três registros da realidade humana'P ", que servirão a partir de entao de 1974-1975, após uma longa maturação que começa com o eminãri
contexto ao conjunto de sua teoria. Sabemos que, embora ele se declare es- ética da psicanálise (1959-1960) e outro sobre A angústia (1 2-1 \-
truturalista em 1960, mais tarde precisará que entende por aí não a negação an decide intitular seu seminário: R I (R al, imbõlico, 11118 inãrl . I I
dá, a sim, a pri ridade ao Real, t nigma angu tíane ,d qual n nhurnn
sp ula ti p d dis[ r a u b 1- raz r, m sm 1 t nl f rm I
42Idem
43Idem
44Idem Ph lu I
45Conferência sobre "Le Symbolique,l'Imaginaire et le Réel", 1953, art. citado.
* L'hainamoration: neologismo criado por Lacan, com a agtutinuçâo das palavras hotn« (6dl ) 111 lu V 111 IIlIII (I p, 1111",
e ênamoration, que juntas mantêm o mesmo som desta último. (N.T.)

8
1
lutãvel supõe seja o apelo às estruturas universais do espírito humano de Lé- bases no Significante e na lógica formal, Não diz ele que o Simbólico •• \
vi-Strauss; seja o apelo a uma transcendência: o "Verbo" da teologia cristã tela fundamental do Real no fantasma inconsciente'"?"
ou o Símbolo de Lacan ("o homem fala, pois, mas é porque o símbolo o fez
Esta trilogia deve permanecer em nossa mem6ria quando da apre ntn-
homem'P"): seja a criação de um mito fundador, como por exemplo, o da ção dos conceitos que se seguem, pois ela é seu fundamento explícito li im-
horda primitiva de Freud, em Totem e Tabu, mito analisado por Lacan. plícito: pode-se falar de um axioma sem o qual tudo se dissolveria? O lfH-
Compreende-se que historiadores e filósofos materialistas, como Le- mos seminários se esforçam, a golpes de nós, borromeus, de círculos d ""
febvre, Fougeyrollas, ou ainda GOUX54, tenham criticado, cada um a seu mo- bante e de tranças, para ligar indissoluvelmente Real, Simb6lico e Jma 111 -
do, o caráter por um lado idealista e ideol6gico destas teorias. O fato de que rio. Uma tesourada num dos círculos provocaria a dissolução do conjunto:
o indivíduo se encontra preso nesta ordem simb6lica não significa que a hu- verdadeira catástrofe para o indivíduo (loucura? suicídio?), para a t da 1\1
manidade - como conjuntos coletivos organizados, divididos, conflituais - não seria mais do que membros esparsos de um corpo deslocado m til
esteja tomada aí ao ponto de nunca nada disto mudar. Compreende-se tam- para a humanidade, naufragando na barbárie ..•
bém que as feministas tenham tentado desconstruir este invariante cujo preço
as mulheres pagam particularmente, para ver aí uma racionalização de uma
situação elaborada durante um longo tempo, mas diferentemente segundo as o inconsciente e a linguagem
sociedades e as épocas, racionalização que visaria a legitimar um estado de
fato para manter sua permanência no futuro. Poderíamos, à maneira lacania- Em Função e campo da palavra e da linguagem, Lacan escrev : ••N )
na, jogar com o duplo sentido da palavra "ordem" para perguntarmo-nos é sensível que Lévi-Strauss, sugerindo a implicação das estrutura da lin li \-
donde vem a obrigatoriedade. gem e desta parte das leis sociais que regra a aliança e o parente n-
"A lei primordial é, pois, aquela que ao regrar a aliança sobrepõe o quista já o terreno mesmo onde Freud assenta o inconsciente'õ" ". O n , i
reino da cultura ao reino da natureza, entregue à lei do acoplamento'";", de- parte, como não constatar que foi necessário este encontro com os prin (ri<
clara Lacan, O verbo "sobrepor" não é indiferente, pois supõe uma ausência teóricos de Lévi-Strauss para que aparecesse finalmente em sua obra t rll\(
de elaborações recíprocas de um pelo outro, um corte radical e um recalca- inconsciente? A abordagem de um conceito tão fundamental em psi nn 11
mento - um enterro, talvez um assassinato - do que ele chama de Natureza. não era, pois, possível, para ele, senão relendo os textos freudian S b 11I~ d
Assim nasce a noção de Real como "fora do simb6lico", Real tanto mais novos conceitos, emprestados da antropologia estrutural, ao mcsm l n p
ameaçador quanto mais escapa a toda verbalização, toda ordenação, toda que da filosofia da Palavra em Heidegger. O texto de 1953 acumula, m .Ir-
formalização. O Real se opõe, pois, à realidade que, por sua vez, é o pro- bil , as definições do inconsciente que ficarão entre as mais c61 b s: I
duto da filtragem ou do condicionamento do Real pelo Imaginário e pelo h a até a falar de um "sujeito inconsciente" (mais tarde, hav rá Um "s I-
Simbólico. Em sua conferência de 1953, Lacan não pôde inscrever o Real J lt d inconsciente"), noção ausente em Freud. É que Lacan, a I' stitu I' )
senão numa série algébrica onde ele alterna com o Imaginário e o Simb6lico: 10 ns i nte à linguagem, considerada como fundadora do humano, rnee I
sob forma de urna inc6gnita no sentido matemático e de um desconhecido no \ I' f rmulã-lo em eu próprio nome.
sentido psicanalítico - ou seja, isto de que não se quer nada saber. De uma "Palavra, sujeito, linguagem", e te é o pr grama p p I 1,\
inc6gnita sim, pois a mãe ou a mulher estão encarregadas de, por projeção, d. Roma, ond Fun ão e campo seria a ar um nta ã nv Ivl I •
representar ou encarnar o Real, apesar de, ao mesmo tempo, Lacan anun- -J suscit u, rnesm n s anali ta pr s nt s m 1 ,a m sm t 1\1-
ciá-lo instalado no coração do ser de cada um no seminário sobre A Ética. rd d S8 rd, 6 m pr isar Suas arti ula s mals lmport IIlt
Ele não ousará enfrentá-Io - e dificilmente - senão ap6s ter consolidado suas , pr fundam nt an roda n r p bJ mas d I I 11 \
r t mar "piv I d\ rimb li? ", I t I 1\1

53"Fonction et Champ", art. citado, Écrits, p. 276


54Yer nossa bibliografia, Teremos ocasião de voltar a isto. 1011 I '1IIIIIIp" , 1111. 11\(11, ,.,',1/" ". ti
55"Fonction et Champ", art, citado, Écrlts, p, 227

2
-------l
de uma determinada sociedade, não deixa de se tratar de' uma entrada 111
uma "ordem simbólica", da qual mal se imagina que seja separável dOH di

I
cursos e das instituições válidas, no momento da análise, num grupo histÓI
co e geograficamente situado.
Um outro aspecto do texto lacaniano também foi bem-aceito: a id 11 111
"nome-do-pai" (ainda sem maiúsculas) como "suporte da função simbõl 'I
que, desde a aurora dos tempos históricos, identifica sua personagem ti n \I
1 ra da Iei"?", Esta figura tem "efeitos inconscientes sem medida comum (1111
o pai imaginário ou real. Não poderíamos dizer já que ela estrutura ) 11
consciente do lado da linguagem, enquanto nome e enquanto portado,' I I
uma palavra interditora, mas salvadora, pois assegura a autonomia do \I
, >

jeito, na plenitude de seus direitos, de acordo com a aceitação do pa to tuu


damental que regra o intercâmbio das mulheres entre os homens e p 11111,
desse modo, à sua rivalidade imaginária, em prol de seu reconhc im 'li\(
simbólico recíproco? Reconheceu-se o Édipo; regozijam-se ao ver SUU unl-
versalidade solidamente estabelecida; não tomam cuidado com relaç o 1\ )
fato de que, depois de Lévi-Strauss, Lacan faz deste pacto uma c nv IlÇ (
significante" e define "a Lei primordial" que regra a aliança "como id 1\11'/\
a uma ordem de linguagem": "O interdito do incesto não é senão o plv
subjetivo". Assim, no interior mesmo, do inconsciente, encontra-se futul-
mente a "superposição" da ordem da cultura à ordem da Natureza'" du qu 11
falamos a propósito do Simb6lico. O inconsciente tende a se confundir '0111
o campo do "Outrot''", lugar do Pacto, lugar do Pai, radicalmente hei ro
neo ao sujeito - que o rege, contudo, e ao qual ele deve advir, Aliás, (.llIUnd(1
Nome-do-Pai toma-se central, com o estudo das psicoses, é dito til! "u
Édipo é consubstancial ao inconsciente"?", O analista é chamado, m I( I.
ti se situar neste lugar do Outro: ele é o "mestre da verdade"!" m dir ç (1 10
qual progride a palavra do paciente. "A experiência psícanalfti a n xiutrou
n homem o imperativo do verbo como a lei que o formou à sua j ma '11l,~II.
NO parece difícil aceitar esta definição do Pai e do analista ru I 01, 111
I SITIO tempo recusando a definição do inconsciente como essencíalm li! d
Jin uagcm?

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'I'I'IIIU-H do UU'O I pl' H ntndo p 1[1 I un A no HlIlI mil I. IICl "S611llnulr sur lu I, 11 VIII I",
r. notu 11M)- qu r J1I'odu1,IJ1I(IH m "O Imll 11l~1'i(), () Slmh<lll O () I( 111", ti.
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1~(,III,v,JI. 5.
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p, 54H (

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11
Ora, é realmente o perigo de assemelhar o inconsciente à linguagem as respostas são divergentes demais. Primeiro, se é verdadeiro que a anãll
que inúmeros analistas presentes a Roma recusam. Mas o que entender pelo se desenrola no espaço simbólico da linguagem, pode-se deduzir daí qu
termo "linguagem", cuja ambigüidade é manifesta nestas primeiras teoriza- próprio inconsciente é unicamente um agenciamento de significantes lIJ \

ções lacanianas? Demos como exemplos: "O sintoma se resolve inteiramente singularidade se apaga diante das leis que os governam? Em seguida, a int
numa análise da linguagem, porque ele mesmo é organizado como uma lin- subjetividade se limitaria a esta "comunicação onde o emissor recebe d .•
guagem, porque é linguagem cuja palavra deve ser liberada": "O incons- ceptor sua própria mensagem sob forma invertida75"? Não haveria af al um
ciente é estruturado como uma linguagem"; o tratamento tem por único ob- efeito de espelho, mesmo se Lacan o nega? Enfim, o homem não se d 10Ir I
jetivo "as relações no sujeito da palavra e da linguagem"?", Tratar-se-ia da senão em relação à linguagem? Ele não seria senão um "fala-ser" (pari tr ),
língua tal como a define a lingüística? Do discurso, encadeamento de frases isto é, aquele que s6 é sujeito por ser fundado - e alienado - pela língua 11',
sempre único em sua atualização da língua e inseparãvel de uma situação cujo poder é absoluto? Ou ainda, dever-se-ia sua existência ao V r
intersubjetiva? Da palavra singular em face do discurso "transindividual", Palavra transcendente?
isto é, coletivo? Ou, ainda, de uma faculdade especificamente humana, do Sobre as relações entre o inconsciente e a linguagem, os texto d ,.
poder de falar ligado ao poder mais vasto de simbolizar, o que nos remete às can são tão numerosos, as noções tão complexas e por vezes tão contr dit
diversas definições que lhe dão as filosofias da linguagem e da comunica- rias, as formulações demandam tantos esclarecimentos que s6 podem s aqu
ção? Função e campo contêm já todos estes aspectos que se sistematizarão remeter aos estudos aprofundados de Amika Rifflet-Lemaire, de An J
nos anos seguintes, sempre sem se articular. Kremer-Marietti, de Philippe Lacoue-Labarthe e Jean-Luc Nancy, de Alaln
Atualmente, muitos psicanalistas estão impressionados com o vigor, a Juranville e Joêl Dor76• Contentar-nos-emos em observar alguns a p t
precisão e a justeza dos desenvolvimentos sobre a intersubjetividade como importantes.
fundadora, tanto na formação do ser humano quanto na experiência específi- Como se dá a referência à lingüística? Ela se faz segundo dua víaa:
ca do tratamento. Eles estão felizes com a importância, novamente reconhe- estudo do signo na língua concebida justamente como combinat6ria cc slu-
cida, da palavra do paciente, assim como do discurso familiar e social que se nos: o estudo da metáfora, da metonfrnia e, mais geralmente, da retõri a. M \
deve aprender a reconhecer para poder se situar como sujeito na comunida- como se opera esta transferência de conceitos de um domínio ao outr ,te 111 •
de. Eles apreciam uma exposição capaz de esclarecer sua prática cotidiana ferência que, em si, faz parte dos intercâmbios vivos entre as ciência 7 'I
que se, apóia, com efeito, na eficácia simbólica da palavra para multiplicar, tar-se-ia de um simples inflectimento dos conceitos, ou mesmo de sua tr n •
enlaçar e desenlaçar as significações e, por aí, encontrar o sentido da expe- formação, tomados necessários pelo novo campo em que eles fun i Dom,
riência de antigamente, mudá-lo e abrir ao paciente perspectivas novas. Isto como pensa Dor, por exemplo? Ou de sua destruição, como sustentam
é verdadeiro desde certas passagens de Além do principio de realidade, es- coue-Labarthe e Nancy? A lingüística, ciência conexa, senão "pil ta", I
crito em 1936, até os seminários que se sucedem de 1953 a 1958, data das início, desempenharia finalmente o papel de ciência-pretexto? Com O t IIlpO,
Formações do inconsciente. Sem contar a contribuição constituída pela re- Lacan responde claramente: se, em 1969, como até então, "a língua m \
leitura dos primeiros textos freudianos/". Em 1986, parece-me que temos condição do inconsciente"?", em 1970 "o inconsciente é a condi ã I I•
ainda que aprender com Lacan sobre estes diferentes pontos. Mas o mal-es- güística78". Ele falará a partir de então de sua "lingüisteria" para m lh
tar, já perceptível, irá se agravando: ele concerne à concepção do incons- demarcar sua teoria: escapa assim das acusações e dá a proeminência à
ciente e da intersubjetividade, as duas sustentadas por uma filosofia do ser e canálise, promovida, por sua vez, à ciência-piloto.
da linguagem que não faz a unanimidade. É verdade que ele revoluciona completamente a teoria d
Três questões essenciais são ainda confusamente colocadas nas discus- a ure: reverte areia ão entre o i nificante (imagem acú tica)
sões, que se precisarão com o tempo, engenbrando rupturas a cada vez que
75Id m
73Ibid. 701bld.
74princ.ipalmente as Cinq Psychanalyses, PUF, 1954; "Au-delà du príncipe de ptaislr", In Essalsd 77Pr r~ o no IIvf ti A.I Irfl 1.1. 111(\ 1 ,JII'(II/ , I / 11I, ti' til.
psychanalyse, Payot, 1951; e inúmeros escritos 10Pr ud sobr 1\ técnico pai analítlce, 70ld 11

66
cado (conceito ou representação); da barra que, ao mesmo tempo, os une e ou da demanda, Lacan sonha com um "discurso sem palavras". Com um
os distingue - Saussure emprega a metáfora da frente-verso da folha de pa- universo onde "um significante represente o sujeito para um outro signJ n-
pel --, ele faz, ao contrário, uma barreira íntransponfvel'". O inconsciente é cante", sujeito que desvanece quando aparece, sujeito puro da ordem si nl-
como a superposição de duas cadeias radicalmente separadas: a dos signifi- ficante pura. Compreende-se melhor que ele escarneça dos adeptos da "10-
cantes e a dos significados deslizando embaixo. Para que uma significação tersubjetividade psicologizante" e do "pré-verbal ", que ele não conceb 11-
surja, é preciso haver às vezes encontro: são "os pontos de estofo" (points- não como já tomado pelo verbal, se se pretende ter alguma chance de n
de-capiton) (termo emprestado dos tapeceiros), mas o único exemplo que deixar enganar.
Lacan nos dá disto é a metáfora paterna, da qual, aliás, diz que é pura subs- No Seminário sobre a carta roubada e em A instância da letra, a 'u-
tituição de um significante por outro significante ... E supondo que um signi- deía significante é ao mesmo tempo "instância" que comanda o ser "In-
ficado apareça, não pode ser senão um produto dos "efeitos de significante". sistência da repetição". Mortífera? Tetânica? Em todo caso, maquinal. A
Na realidade, o que Lacan quer destruir são os signos que" representam algo teoria dos jogos e a cibernética substituem a lingüística: "A linguag 111I 11-
para alguém"?", em prol do significante cuja pura combinatória constitui o mordial e primitiva é a da máquina: O e I": o inconsciente assemelha-s "1\
inconsciente. Confundindo o significado e o referente (isto a que o signo estas modernas máquinas de pensar" onde "habita esta cadeia que insiste 111
remete na realidade), ele pode afirmar: "O inconsciente não é o primordial, se reproduzir na transferência e que é aquela de um desejo morto'P"; "N O
nem o instintual e o elementar, ele s6 conhece os elementos do significan- existe mestre que não seja o significante"?", cujo único deslocamento, . ob O
te'", "A partir de então, se ele está de acordo com Lagache para dizer que modelo da carta do conto de Poe, determina os trajetos e os lugares d adn
o Isso é impessoal, ele vê aí "agregados de significantes" e não "agregados um(a). Lacan se pergunta às vezes quem está detrás da máquina, "cst
de relações de objeto"82. Do mesmo modo, na psicose, é somente, para ele, gente ele mesmo regido por ela89". Tentam tranqüilizar-se dizendo qu "o
"um corpo de significantes forcluídos" que é projetado ao exterior. Então, a psicótico é habitado, possuído pela linguagem", enquanto que "o neuróti 'O
experiência psicanalítica pode se tornar "uma experiência simbólica particu- habita a linguagem", mas há momentos em que os textos lacanianos raz 111
larmente pura"83, recortada finalmente das pulsões, do corpo, da matéria, do do mundo humano um teatro de marionetes agitadas pelos fios do si rnlfl-
real por demais real. A teoria lacaniana do inconsciente está fundada numa cante ...
filosofia onde "o símbolo" é "o assassinato da coisa"84. A letra que governa os fantoches do conto é também o fal : nt ,(
Estamos igualmente distantes da declaração de 1936: "A linguagem que entender por "significante" em Lacan? Juranville tem razão cm subll-
antes de significar algo significa para alguénr";". Agora, Lacan contesta o nhar que se trata tanto de representações de coisas quanto de palavr fi: li
signo porque ele é sempre dirigido a alguém. Ele chega até a identificá-Ia ao próprio Lacan, quando de suas conferências nos Estados Unidos, nf /011111
"pré-verbal" e a incluir aí a palavra: não diz ele que sua cadela tem a pala- ter chamado de "significante" a palavra, e, nos Propos sur l' hystéri o, íuln
vra, mas não a linguagem? Que ocorre o mesmo com sua zeladora, com .as de "um corpo de palavras" brincando com um corpo de male '" >Ic Talv 'I.
mulheres que encontra em sua cama ou nos salões, ou ainda com as "crian- seja conveniente ver no significante todo elemento de uma combinatôrkt,
ças de cueiro" - enquanto que o sujeito, o "fala-ser", dispõe, por sua vez, mais além da definição lingüística.
da linguagem, é que é bem diferente'", Contra a palavra do corpo, do afeto Uma outra referência é feita à lingüística, do lado da retórica d sta v 'I••
79Ibid. in n ciente torna-se um discurso, "o discurso do Outro". La ao mpr til
8o"Position de l'inconscient", 1960-1964, Écrits, principalmente p. 840.
d Jak b o lias definições da 111tãf ra e da met nfrnía, bem orno os 101
81"L'Instance de Ia lettre dans l'inconscient", 1957, Écrits, p. 493, 528. A fórmula está na p. 522.
82Idem , paradi mático (substitui ã de um tem nt p r utro) sinta mt'l.ti
83É que Lacan responde a H yppolite no Séminaire 11, Le Moi dans Ia théorie de Freud et dans Ia te-
chnfque de Ia psychanalyse, 1954-1955, Seuil, 1978. Cf. ainda o Séminaire VIII, Le Transferi dans
sa disparité subjective, 1960-1961 •.
84Idem li (10,
85"Au-delà du Principe de réalité", Écrits, principalmente nas p. 81-85. • 'f1\hrn I ICIH',
B6Séminaire IV, L'Identification, J 961-1962. Para "as crianças de maiô", fi opígruf d •• 'Instan o 1111 li 1\1\ ,1111111. 11\ I ün \ , IIU /I 11. (11I!tIVIIIN
de Ia lettre dans I'inconscient", art, citado, p, 493.

68
feita em 1958 em Munique, mas publicada somente em 1966 nos Escritos:
(encadeamento de um elemento ao outro na frase), da língua; ele os relaciona
então que se difunde no público esta noção elaborada na realidade de 19
aos processos de condensação e deslocamento que Freud analisou no sonho;
1958, durante o seminário. Ora, desde 1958-1959, com a análise de Haml t
transforma as duas teorias uma pela outra, para construir a sua. Por exemplo,
em Le Désir et son interprétation, Lacan modificou sua posição, enfatizan I
no lugar da condensação, que supõe uma multiplicidade de elementos diver-
muito mais a castração, inclusive a do Pai. É por isso que se deve tomar ui-
sos representados por uma figura ou uma palavra, contenta-se com a substi-
dado com a defasagem freqüente entre o que se escreve sobre o Falo em n -
tuição de um significante por outro significante que cai, assim, sob o golpe
me de Lacan e sua pr6pria teoria. No decorrer dos anos, aliás, ele nã pttr I
do recalcamento. Lacan não ignora que, na prática analítica, isto não funcio-
de remanejar suas definições para fazer do Falo um conceito fundamental II
ne assim, ele que brinca sem parar com conotações em torno de uma palavra,
psicanálise: não esqueçamos de que este termo é raramente empregad
uma sílaba, um som. Então, por que impor esta definição, senão para assen-
Freuds+,
tar o papel capital da metáfora paterna que deve substituir, segundo ele, o
Em Lacan, a problemática do falo e da castração s6 aparece ap Il \
desejo da mãe, a fim de que se faça o acesso do sujeito à cultura, por identi-
instauração da trilogia Simbólico/Imaginãrio/Real, da noção de "in 11-
ficação ao Pai, única forma concebível do Ideal-do-eu? Lacoue-Labarthe e
ciente estruturado como uma linguagem" e da metáfora paterna. A primaz!
Nancy fazem uma crítica muito fina e aguçada do emprego do termo meto-
do falo como emblema único do humano é necessária para sustentar a r
nímia em Lacan: aí ainda a noção nova parece servir muito mais para sus-
minência do pai enquanto Pai: com efeito, se deve existir aí preferência p I
tentar a teoria do desejo do que para seguir as diversas formas de desloca-
Pai, na vida individual e coletiva, se ele é a origem e o representant do
mento inconsciente no discurso do paciente.
Cultura e da Lei, se s6 ele dá acesso à linguagem, é porque ele detém o fi,
Erraríamos se nos ativéssemos à massa destes primeiros textos: quando
o qual pode dar ou recusar. Vê-se bem em La question préliminaireêê, n ,
do seminário sobre Os quatro conceitos, Lacan lembra de repente que, sem
a psicose, sob o conceito de "forclusão do Nome-do-Pai", é atribuída a um
levar em conta a pulsão e a sexualidade ligada aos objetos parciais, "a psi-
fracasso da metáfora paterna, que não permitiu ao sujeito "evocar a i 01 -
canálise não seria senão uma mântica". "A realidade do inconscien~e é -
verdade insustentável - a realidade sexual?" ", inseparável da morte. Afluem cação do falo". Diferentemente do pênis, o falo é um objeto paradoxal, \
todas as passagens apaixonadas onde o Mestre evoca o horror da Coisa, do mesmo tempo objeto er6tico e objeto que tem " vocaçao _. SImb61·ica "96 . I -

sim que, na conferência de 1958, o falo pode se tornar não apenas um si 11"
Real que suscita o pânico - e mesmo da prosopopéia: "Eu, a Verdade, eu
ficante, mas "o significante dos significantes": aquele que rege tod li-
falo", tal Diana levando Actéon à sua perda=", A palavra, descrita em outro
tros e se acha "destinado a designar em seu conjunto os efeitos de i ni I -
lugar, é Palavra anunciadora da Verdade - ou - se é a Palavra do Pai, ela
do, enquanto que o significante os condiciona por sua presença de si n
"humaniza o desejo"?". Entre enunciado e enunciação, o sujeito se busca,
cante" (o que não tem, evidentemente, nenhum sentido em lingüf tíca, nd
por sua vez, no "meio-dizer" (mi-dire) ...
existe somente um jogo diferencial); "o significante privilegiado de ta ma
onde a parte do logos se conjuga ao surgimento do desejo". "O fal m
significante dá a razão do desejo (na acepção onde o termo é empre ad
A primazia do falo
tre "média e extrema razão" da divisão harmônica"), "razão do d j
Outro" (aqui, da mãe). No final, Lacan, lembrando que para reud ns
Sem nenhuma dúvida, este tema é o mais popular da teoria lacaniana -
não uma libido e que ela é masculina, conclui que "a fun ã d fal
com o do Nome-do-Pai -, ao ponto em que a inflação de seu emprego, de
a mb a aqui em ua rela ão mai profunda: aqu Ia por onde s Anti n-
modo dogmático e portanto freqüentemente defensivo, acaba por sublinhar
ainda mais seu inverso inseparável , a obsessão da castração. O primeiro
texto de referência é em geral "a significação do falo", uma conferência

91Idem
92Idem
9S"Jeunesse de Gide ou sens du ret ur à Freud cn psy hunalys ", 1 5 ,éCrlIS, p. 401-4 .

71
70
camavam o Noíis e o Logos''?", Uma profunda celebração do falo desenca-
deou evidentemente ondas de entusiasmo ... e textos exaltados.
Se o narcisismo pode ter assim livre curso é porque a separação radical
entre o pênis, simples órgão, e o falo, "puro significante" é afirmada, sem
nenhuma relação com a anatomia ou o biológico. Aos perturbadores - e
perturbadoras, principalmente que afirmam sua ligação em nome de sua ex-
periência social, familiar e individual, opõe-se sempre este argumento,
acrescentando, inclusive, que as mulheres têm, elas também, acesso a este
conjunto do humano em geral. No berço, portanto, as chances seriam iguais? A
constatação material e oficial - um sexo associado à atribuição de um prenome
não teria nenhum efeito imaginário e simbólico sobre o destino social e psí-
quico de um recém-nascido? Perguntamo-nos então por que há tantos ho-
mens dispondo dos poderes reais ligados ao falo e tantas mulheres excluídas
destes poderes. Ora, Lacan jamais pretendeu que houvesse mesmo relação ao
Falo tanto para os homens quanto para as mulheres: ele sublinha sem cessar,
ao contrário, a dissimetria profunda que define os dois sexos. Para ele, um
sexo foi eleito para aceder ao nível de significanteda sexuação: não há
"significante do sexo feminino", nem mesmo "significante da diferença dos
sexos", "somente o falo é a unidade-sexo"?", "O homem não é sem tê-Io e
"a mulher é sem tê-lo"?", É bem por isto que os últimos seminários giram.
iridefinidamente sobre o aforisma "Não há relação sexual". Algumas mulhe-
res e alguns homens podem, certamente, escolher (ou se submeter a) a posi-
ção do outro sexo; as posições elas mesmas não ficam menos imutáveis se,
com o tempo, são apresentadas sob a forma de figurações algébricas de apa-
rência irrefutâvelt?''. Aliás, Lacan acaba sempre falando claro, quando pro-
cura o argumento irrefutável: assim, em A significação do falo: "Pode-se di-
zer que este significante é escolhido como o mais saliente do que se pode
captar no real da copulação sexual; como também o mais simbólico no senti-
do ljteral (topográfico) deste termo, pois equivale à cópula lógica. Pode-se
dizer também que ele é, por sua turgidez, a imagem do fluxo vital enquanto
que passa na geração!"!", Argumentação clássica à qual ele recorre fre-
qüentemente em última instância.
Como compreender, sem apelar para a natureza nem para a transcen-
dência, esta transmutação do pênis em "significante", "significante absolu-

97Ibid.
98Ibid.
99Ibid.
100Principalmente no Séminaire xx, Encare, 1972-1973, publicado na 12d.Seuil. Mas já pr sente
nos seminários anteriores.
101"La Signification du phallus", Écrits, p. 92. ri/'0 Ó rn 11.

72
gistro da Lei e perda do falo enquanto que objeto imaginário". Assim a proteção contra a sexualidade voraz, triunfal e assassina da mãe-mulh rt )
criança passaria do estádio "ser ou não ser o falo" (da mãe) ao "ter ou não o Real está aí, em seu horror. O seminário seguinte, A ética da psi antfll.w I
falo". A função paterna é, pois, bem sustentada, como dissemos, pela pro- desenvolve com acentos freqüenternente desesperados e proféti t 1111
blemática fálica. Quando do seminário sobre Les formations de l' incons- religioso do profundo desamparo (déréliction),
cient, Lacan faz intervir a metáfora paterna num primeiro tempo, quase ori- Mais tarde, Lacan interrogará a "nulibiqüidade"* do fal ,s(mbol< f 11
ginário, por causa da primazia do Falo instaurada na cultura. Não seria, por tante, ou fora do sistema, que significa que o gozo é real ma nã simh ,I '/,
uma parte, o que se deve entender por "traço unário" do seminário sobre vel: ele cria então a noção de "rnais-do-gozart''?" (plus-de-jouir). uuu,
L' ldentification? "O significante fundamental é um mito", é dito em As psi- passamos ao outro. Pois, em 1971-1972, numa reviravolta qu p d \111'1
coses, pois o Nome-do-Pai é ao mesmo tempo situado no momento do Édipo ender, ele denuncia "o erro" que seria "não ver que o signifi ant f o!',\
e recuado aos tempos mais arcaicos: ele se toma em seguida marca ou cifra e que o falo não é senão seu significado" ... Ao mesmo temp ," 1I1lI1h,

(um ou às vezes - 1 englobando O e 1). Numa espécie de fuga para a frente, não-toda" é "aquela que não está contida inteiramente na fun ão fál I, 11\
os textos lacanianos se engajam numa lógica simbólica cada vez mais abs- contudo ser sua negação"?".
trata, a da lógica matemática.
Ora, ao mesmo tempo surge a angústia. "Ter ou não ter o falo" torna- Necessidade/demanda/desejo
se "não ser sem tê-lo"; a única salvação é fazer do Falo não ponto oposto da
castração, mas seu símbolo mesmo. Contra Jones que falava "de afânise", : p uc I I

válida para os dois sexos, em vez de castração, Lacan sustenta que "a única lnb rucl \
noção que permite compreender o simbolismo do falo é a particularidade de ro
sua função como significante" e "como significante da falta". Eis aí o que
o autoriza a reafirmar a ausência de significante feminino e também revelar
os limites masculinos: Como Polichinelo, ele vê "o Falo alado (... ) fantasma
inconsciente das impossibilidades do desejo macho, tesouro onde se esgota a
impotência infinita da mulher'"?". A partir de então, ele criará dois súnbo-
los, ~ e - ~ ,dando cada vez mais importância ao - ~ . Assim, o
homem seria um sujeito dividido, ao mesmo tempo detentor do falo e marca-
do pela falta que o faz desejante. E é paradoxalmente "a falta da falta" (a
ausência de - ~ ) que seria fonte de angústia. No final da análise de Ham-
let, Lacan fala de "Falofanias", breves e fulgurantes aparições do Falo."Ora,
ele as associa a este instante em que Laerte e Hamlet se entrematam na tum-
ba de Ofélia (nome com o qual ele faz um composto de falo), em meio a um
massacre geral. Falofanias, ou falomanias com as fases depressivas que lhe
são inseparáveis?
A fonte mais profunda da angústia se descobre justamente em Le désir
et son interprétation, onde Lacan analisa Hamlet: trata-se da castração do 11111
Pai, este espectro errante, morto em estado de pecado, que surge subitamente 11\1
diante de seu filho. Para Lacan, a Verdade mais terrível a enfrentar é que" o
falo não está disponível no Outro" e "que não há Outro do Outro", nenhum ~ "NlIlIIlltlllll~'. n 11 ,utlnvl "fl/ll/II" (null<' (]) "/lI//IIII,{" "h
I ÓJ!d ),(N/r,)
Garante do Pai como Outro simb6lico e, contudo, faltante. Onde encontrar
'1011111d,
1071bid. 10 11111.

74 '7
~~~------------~~~------------------------------1~
-------------------------- ----------

Repartir entre mãe e pai a Demanda e o Desejo não é, portanto, tão "dar uma" não é um ato, mas casar-se é um ... Lacan, por sua vez, vai em di-
simples. Nem sempre tão apaziguador e tranqüilizante como o cremos: a voz reção a outras explicações: "Na psicanálise (porque também no incons i 11-
imperiosa do Outro pode ser aquela que persegue o paran6ico ou fabrica o te), o homem não sabe nada da mulher, nem a mulher do homem. Ao falo
perverso ... resume o ponto do mito onde o sexual se faz paixão do significantetê?", O
Resta a injunção da Ética: "não ceder sobre seu desejo", que fez es- sexual sofreria, pois, a falta inelutável do significante fundamental: mo, )
correr muita tinta. Autorizaria ela a tudo, ou exigiria a aceitação da morte e falo, enquanto "unidade-sexo", desempenha o papel de terceiro entre OS 10
mesmo o sacrifício, em nome dos valores escolhidos? Sócrates bebendo a ci- sexos, não há "rnedium" que permita o encontro ou a troca. Para a I' IV u
cuta, Moisés morrendo à beira da Terra Prometida, Antígona emurada viva: ainda mais a situação, entre o homem e a mulher há um outro tere ir, l»
para Lacan, "entre-duas-mortes", a do julgamento infamante e a morte real, jeto a, causa do desejo, suporte do fantasma, suporte também da "v r I, I
eles se tomam her6is. da alienação", o real não-simbolizãvel, Ora, cada parceiro, ao s U 111 ti ,
trata o outro como objeto a121• Conclusão: "Não há relação sexual", "
não há relação entre os dois, mesmo no ato sexual, cada um perman • 11-
"Não há relação sexual" do um"122.
Uma outra conseqüência aparece: se não há relação sexual, p r ali I
Esta asserção foi incansavelmente repetida durante oito anos do semi- da ausência de um significante da diferença dos sexos e pela presença ünl
nário, desde La logique du fantasme, em 1966-1967, até les Non-dupes er- do significante fãlico, "o sexual se faz paixão do significante" num s mldo
rent, em 1973-1974, mesmo se a conhecemos principalmente pelas publica- diferente: falar "supre a falta de relação sexual". Este tema, que surg cI /lU
ções, sobretudo a do seminário Mais, ainda (1972-1973). Entretanto, ele se 1966-1967, é longamente desenvolvido em Mais, ainda. Entretanto, a ao
enuncia segundo diferentes registros: o discurso da experiência e da teoriza- fica um pouco constrangido com esta afirmação que seria o mesmo qu di~ r
ção psicanalíticas, a l6gica e a matemática com as "fórmulas quânticas", que se fala em vez de fazer amor: sua frase poderia passar por uma d n
aliás expostas em Mais, ainda'í", Por si s6, a repetição já faz laço entre estes çâo toda pessoal. Ele se defende em Le savoir du psychanalyste: "Não li o
registros. Além disso, como na música, a retomada a cada vez dos diversos que a palavra existe porque não há relação sexual. Isto seria absurdo. 1 1111-
temas praticamente imutáveis os combina ao associá-los. Mas, um projeto bérn não digo que não há relação sexual porque a palavra está aí. Mas n o li
mais ambicioso se traça aos poucos: fazer desta asserção primeiramente a relação sexual porque a palavra funciona neste nível que se encontra, S li11-
verdade das constatações empíricas, depois o fecho da teoria analítica, fi- do o discurso analítico, ser descoberto como especificando o ser falI! t , I
nalmente, fundar a verdade da teoria sobre o rigor das categorias l6gicas, e, saber a importância, a proeminência de tudo que vai fazer, a s li nív I, 10
como último motor, da escrita matemática. sexo o semblante, semblante de homens e de mulheres". Complicad . 1st)
Como ponto de partida, uma constatação em suma bem banal, sobre a resume numa concepção corrente da castração em psicanálise:" !TI-J L (
qual Lacan faz floreios, segundo seu humor, misõgino ou misantropo: "a num amor sério entre um homem lima mulher é a castração" e "a astr I u
verdade verdadeira é que entre homens e mulheres não funciona'"?" ou ain- meio de adapta ão à obrevivência ... "
da: "no discurso analítico, fala-se de foder - to fuck - e se dIZ que não dá precis enc ntrar outra isa. Passar da letra à cifra. Nã mais f'.
certo!"?", Por quê? Resposta dada em La logique dufantasme: "O grande J , mas o I qu simboliza in 0/11 nsurãv I. "Não há r Ia 8 xunl" , ( ,,,, â

segredo da psicanálise é que não há ato sexual, há simplesmente sexualida- '1" Ia não p d s s r ver m t 1'11108 ai ébri os. "Nã sa d 1\ o
de. "O ato existe quando há redobramento no significante", palavra e enga- 'r v r". S rninári D' un tis ur qui ti S ralt du s mblaru 1 7 I 71
jamento, isto é, o que institui um sujeito: aqui, não é o caso. Quando de uma t 111' lnborar '8tu nova son I du s rua (nó nsa d ís si t ma
discussão na ausência do Mestre, um participante conclui a evidência disso:
I n'h ti.
117Ibid. I '1,11 ti,
118Conferências e entrevistas nas uni ver idades n rte-arnerlcanas, dllcet, nU617, 1975. I 1'11111 111111(IN" 111 UII I 'Y 111, /I' 1//1 tll,y II/I/,V t/1/ 11 ,y ITtllllo lu .1' !/I/I/mil, 111/0. 11 /I, I, 81/-
119ldem ,',1/, dllll, 1'I'!illlllll\wlll, 11) li-li) I ,

71J
jante e agressiva, desta mulher que Lacan quer definir a qualquer pre
que escapa a seu discurso.

Os quatro discursos

Em 1967, Lacan declarava: "Tenho outros pequenos truques na minh \


maleta de malícias". Com ..efeito, eis um novo, com estes quatro di ur O
fundamentais que comandariam, à nossa revelia, todas as nossas palavras: (\
Discurso do Mestre, o Discurso da Histérica, o discurso da Universidad , I
Discurso do Analista.
Esta nova proposição te6rica se constr6i essencialmente em 196 -I no,
quando do seminário sobre L'Envers de la psychanalyse. Pode-s 1 r li 1
apresentação ordenada em Radiophonie, entrevista gravada em 1970 puhll-
cada pela revista Scilicet em seu número 2/3: uma nota apresenta d 11\0 10
claro os esquemas definitivos. Mas os múltiplos comentários que os a '(1111)(1-
nham até o seminário Mais, ainda, e mesmo depois, são mais important
que as f6rmulas algébricas em si. Como lê-los? Pode-se decidir destacar umn
definição coerente destes Discursos, bem como de sua articulação, distin-
guindo-os com cuidado; depois, procurar sua necessidade, a fim de cst ib I -
ccr a continuidade e o rigor da própria teoria; enfim, discuti-los, pondo-o
prova no campo filos6fico ou epistemol6gico. É, por exemplo, a S '0111,
feita por Juranville'f", cuja exposição é muito esclarecedora. Pode-s' t \111-
bérn e colher eguir os meandros da palavra lacaniana, julgando fruttfcro (l
parad xos, a hesitações, as incertezas e as contradições. Esta atitud
ralmcnte a dos psicanalistas que procuram pôr à prova esta teoria dos qu uru
ur em sua prática e em sua própria reflexãov". Finalmente, '01110
qu cr em que condições hist6ricas Lacan elabora estas noções?
srn I 69-1970, há uma crise no interior da EFP, em tomo da qu t (l
ti "passe", d funcionamento institucional e do ensino da psícanãlis : I. I-
, in, aliâs, apóia n st quatro Discur os - negligenciados demais '111 su ,
'011, diz ele -, sua Ali ution pr noncée p ur ia clôture du ongrc» I
I'hl'P, 1 d abril d 1970, enquanto Dir tor129•
!TI
Num S ntid mais anu , 1968 abriu uma 'ris dis .urs li insl 111 •
. o unlvcrsitãríu StO .ont estados, assim .cmo li transmissão do sol ri d •

I '1IIItlIlvlll ,/,11 '(1/1 111/1I/I/d/flol'(J/IIiI11, (i/i, ('/I,I~ o oh.l 10111 HII1() du t H li onjunro, Sobr t, ,1'0/11I.

111.\'/1/11 I, li" / I, 11) m, 11(111h 11 'li { .1'1 111 ,\ ti fi

HI
nuncia-se a colisão do saber e do poder; num sentido mais profundo ainda, cujas diversas posições constituem cada discurso. Trata-se, pois, de Uma
questiona-se o próprio saber, recusando com violência todo sistema teórico pécie de álgebra:
totalizante e mesmo toda abordagem teórica da experiência, em nome de uma
palavra mais livre, mesmo se ela balbucia. Por outro lado, Lacan teve que
O Discurso do Mestre SI S2
abandonar a ENS. Em compensação, a Universidade de Vincennes abre-se à -- -'>

Escola Freudiana. Mas Lacan, que aí foi proferir uma série de conferências, S a
choca-se com a hostilidade de uma grande parte dos estudantes, desde a pri-
meira sessão em que, contudo, propõe uma análise crítica do discurso uni- O Discurso da Universidade S2 a
-- ~
versitário ... Le Magazine Littéraire publicará mais tarde, sob o título "L'!m- SI S
promptu de Vincennes'"?", o relat6rio deste acontecimento memorável que
decidiu Lacan a reservar seu ensinamento ao seu p6prio seminário, cujo su- S SI
O Discurso da Histérica ~ --
cesso, em contrapartida, era estrondoso ... a S2
Sua posição é clara: ele reafirma que ensina a psicanálise e que esta
é transmisstvel; entretanto, ele é analista e, "ao se oferecer ao ensinamento, a S
O Discurso do Analista ~
o discurso analítico leva o analista à posição de analisante, isto é, a não pro- S2 SI
duzir nada de controlável, senão a título de sintoma"; enfim "a verdade não
pode convencer, o saber, ele, passa em ato". É por isto que "o que salva
(Lacan) do ensinamento é o ato" (aqui, o ato psicanalítico que tem lugar no A permutação circular dos quatro elementos daria assim os quatr tip 8
tratamento), e "o que dá testemunho do ato" (aqui, a elaboração te6rica do de discurso que organizariam nossa enunciação (nosso modo de dizer). Ma,
discurso psicanalfticoj':". Vê-se, portanto, que não é simples: deve-se pri- passamos sem cessar - "por um quarto de volta" - de um tipo de di urs
meiro tomar cuidado com os termos empregados por Lacan, que não corres- utro. Com efeito, a f6rmula algébrica indica igualmente os lugar s I1x
pondem às definições da verdade e do saber em uso na época. Para ele, a também:
psicanálise não é "uma subversão do saber": "Bem ao contrário, o saber faz
a verdade de nosso discurso", diz ele: doravante para ele o saber (e não ou o agente o outro
não mais apenas a verdade) está situado do lado do inconsciente. a verdade a produção
As f6rmulas dos quatro discursos já têm a teoria lacaniana como ponto
de partida: quatro termos, quatro "letras" são sua base: SI, Significante-
Mestre que pertence ao campo do grande Outro; S2, "a bateria de signifi-
cantes que já está aí no ponto em que se quer fixar o que se refere a um dis-
curso como estatuto do enunciado", trata-se, na realidade, "da rede de um
saber" (inconsciente); S, o sujeito dividido pelo significante, barrado desde
a origem pelo "traço unário"; o objeto a, objeto-resíduo, objeto perdido
quando se operou a divisão primeira do sujeito, objeto que é a causa do de-
sejo, mas também do "mais-da-gozar" ... Encontramos aí um condensado do
que Lacan ensinou durante anos. Estes quatro termos são os elementos fixos

130Idem
131Allocution, art, citado (nota 129). Ver também o érninaire XV, L'Acte psychanalytlque,
1967-1968.

82 H
vertigem a n6s também. Para desorientar - desqualificar de saída? - toda in- Mas, então, o 'discurso te6rico da psicanálise - tal qual o concebe Laca." n o
terrogação sobre este discurso. Não nos espantemos por não compreender: estaria estabelecido, por uma boa parte, segundo esta mesma posição?
isto não foi feito para ser compreendido, diz o pr6prio Lacan, foi feito para Não podemos prosseguir a análise de cada modelo do discurso: assino-
nos servirmos dele ... lemos contudo que a passagem do "Discurso do Universitário" ao "Dis li ,
Encontramo-nos diante da mesma alternativa que Lacan impõe à leitura da Universidade" não é indiferente: o universitário seria aquele qu t m I ()
de seus Escritos. "Ao que eles formulam, não há senão se deixar tomar ou Significante-Mestre como modelo identificat6rio, não tendo referência I.
então deixã-los'ê?". Mas ele acrescenta aí um pedido de colocação à prova:
tra senão através dos Mestres cujas obras ele comenta. O que poderia s 'r lu
cabe aos outros, portanto, verificar seu valor operat6rio. Três questões logo
terpretado como reconhecimento da dívida e da filiação que inicia, por \I I
se colocam: quem está encarregado da verificação, os analistas, os .lõgicos,
vez, as novas gerações à castração simb6lica, é interpretado aqui p ,. Lu '1\11
os epistemologistas, os matemáticos, todos os que escutam ou lêem Lacan?
como uma referência/deferência a Mestres ausentes, dos quais n s faz IlH
Parece difícil que sejam todos ao mesmo tempo. De que tipo de verificação
os cães de guarda: para ele, "é a beância onde se engolfa o sujeito p r d v I
se trata, de uma verificação empírica, de uma "falsificação" científica, de
supor um autor para o saber135", o que impede toda transmissão ver lud I. I,
uma coerência com outras teorias? Aí também parece difícil que as três ca-
A fim de opor este tipo de saber àquele do Mestre ou da Ciência - di-
minhem lado a lado. Enfim, o que se deve verificar, as f6rmulas algébricas
pente promovida ao estatuto de "verdadeiro saber" situado do lado d J !ls( -
em si ou a massa de comentários, falados ou escritos, que obriga ao ecletis-
ria -, é-lhe necessário passar pela assimilação do Universitário pela nlv
mo, isto é, a escolha, segundo as circunstâncias e os humores, desta ou da-
sidade, sistema burocrático e clerical, dando livre curso ao 6dio. T das 1'1(11
quela frase captada? Lacan, sobre este ponto, não se engaja nunca. O risco
análises aparentemente objetivas conduzem na realidade a confun Iir "ti
de seu discurso e dos efeitos de seu discurso é, de fato, o qualquer um . Em- Ciência", assim definida, com a psicanálise lacaniana, face a uma p i lIollJl-
bora ele queira, no coração dos abismos, inscrever seu rigor - seu rigor do se que seria "Discurso da Universidade", aquela dos outros, agrupados I O"
momento -, no coração de seu rigor apregoado abrem-se abismos. sua vez em sociedades oficiais pertencentes à IPA. O que pensar testa (111 11_
Tomemos por exemplo o Discurso do Mestre: o agente, aceitando a ses feitas no momento em que Lacan ocupa cada vez mais o lugar do M tI'
verdade de sua castração como sujeito, apagar-se-ia para que em seu lugar numa Escola que se vira para a burocracia e para o clericalismo lã vlol 11-
venha o Significante-Mestre; então, quase automaticamente, no lugar do tamente denunciados? No momento em que há lugar uma cisão? ti 1 li li'
Outro se instala a bateria dos significantes inconscientes, e o objeto "a" é di o atualmente, ap6s a Dissolução, a criação da Escola da ausa -r \I 111-
fonte ignorada da produção. Ora, nos comentários, o Discurso do Mestre re- na, única instituição a ser a guardiã oficial do saber do Mestre aus nt , lU
mete confusamente a séries de situações heterogêneas: a parábola do Mestre finalmente se tornou "o Outro" como o desejava? Pode-se sust ntar 111
e do Escravo de Hegel; o par do Analista e da Histérica, mulher que, por seu 6dio nunca reine nestes lugares?
desejo de um desejo insatisfeito e seu desejo como desejo do Outro, "faz I 01' outro lado, Lacan propõe, nesta época, "uma histeriza
(fabrica) o homem" enquanto "homem animado pelo desejo de saber" e o urs " no tratamento'ê", ma também na elaboração da teoria rn
transforma em Mestre suposto saber; a busca filos6fica fundada na crença na nam nto, c talv z no funcionam nto da in titui pa se" nã ã :"

possível possessão da verdade; o discurso científico, no sentido de Science erma d "hi tcriza ã " cio dís urs d "pas ant ", uma s rt
et Vérité*: "A paran6ia bem-sucedida é o fechamento da ciêncía'ê+"; e, a m a status cI Anali ta da Ia? ra, qu r r hist riZQI' <li' li'
partir de 1969, o discurso político - discurso capitalista, imperialista, totali- int rior duma s Ia qu par s srruturar adn v
tário? - em sua essência. Ora, por trás das análises evocando o discurso da d I paranõi 0, 11 int ri r duma t oriu li t nd u
obsessão e da paran6ia, escuta-se o da perversão - da pêre-version" (versão I d ma, n I orrcr ris d pr v ar cf it s utustl' fi
do pai)? - que entrava o movimento do sujeito em direção da sublimação. )U lnnlist IIi 111f()n110 l "

133Prefácio ao livro de A. Rifflet-Lernaire, op. cito


134Idem
1 1111111 r VI, 1'111I 1/1/ ti tunn , 1\ IH·II/til/, "11111111111011 ", 1111 V !lI 11111111" ,117,
>I< Ciência e verdade. (N.T.) 11"1(1 111

84 H
Enfim, como Lacan concilia a escolha da matemática para fundar sua malização matemática é nosso objetivo, nosso ideal. Por quê? Porqu < •

teoria, e a escolha, para ensiná-Ia, de uma posição de analisante, não produ- mente ela é matema, isto é, capaz de se transmitir integralmentet+t", A I •
zindo "nada de maftr-isable* (controlável) senão a título de sintoma"? Lo- cussão se engaja em tomo de três questões principais: Lacan praticaria r ti
calizando no final do percurso o Discurso do Analista ele se abre - e apóia mente a formalização matemática e a topologia, ou ele se contentaria rn
sua autoridade - sobre o Discurso do Inconsciente, para o qual, justamen- vir-se delas como pura ilustração, até mesmo como garantia aparent d
tem, não existe fórmula algébrica: "O inconsciente (... ) não é senão termo rigor teórico? Não revolucionaria ele estas fórmulas ou figuras - a ponu d
metafórico para designar o saber que só se sustenta ao se apresentar como destruí-Ias -, como fez com a lingüística? Neste caso, faria bem outra '0
impossível, para que disso ele se conforme em ser real (entendam discurso do que matemática, lógica ou topologia. Enfim, ao formalizar o in ns' nt I
real)137". É o discurso último. Aquele que não seria do semblante'ê", Aquele não desfiguraria a psicanálise, o que teria efeitos devastadores na pr Jl' I
que estaria para além deste "semblante" que não se opõe à verdade, mas é prática?
seu correlato, e constitui assim "o ponto de ordenamento dos quatro Discur- Façamos de início confissão de ignorância: acredito que não po 1 11I I
SOS139".Para Lacan, o inconsciente não se define em termos de dizfvel ou nos contentar com vagos conhecimentos para criticar seriamente a prãtl • I III
não, mas de dito ou de não-dito; ele tem que lidar com a repetição e o gozo; si do algoritmo, das fórmulas quânticas, do toro, do crosscap, da iintn I
ele não fala, salvo no "meio-dizer" (mi-dire) da experiência analítica, "cen- Moebius, da garrafa de Klejn, dos círculos de Euler, dos nós borrem us, to
trando-se em seu efeito como impossfvel't'w; ele não constitui o "conheci- conjuntos abertos, etc., em Lacan.
mento", não tem nada a ver com ele. É por isso que Lacan pôde declarar: Em compensação, podemos sacar que papéis ele Ihes dá em sua lul ( •
"Minha prova não toca ao ser senão para fazê-I o nascer da falha que produz ração teórica e julgar sua validade em relação à experiência analftica.
o sendo* ao se dizer". Em termos heideggerianos, ele continua a fazer do A paixão pela lógica é muito cedo perceptível em La an: d 1
discurso analftico o único lugar onde se pode produzir finalmente a Anun- 1945-1946, quando escreve Le nombre treize et Ia forme logiqu d. li .\'1/,1'-
ciação do Ser, sua Assunção, a despeito das deficiências e insuficiências de picion e, principalmente, O tempo lágico e a asserção da certeza ant '(-'I t»
cada um. da, onde constrói uma lógica intersubjetiva ordenada em três etapas: "o n •
L' Envers de la psychanalyse não é mais então o Discurso do Mestre ou tante do olhar", "o tempo para compreender", "o momento d n lulr",
o Discurso da Universidade, suas cavilhas. É o inconsciente. Entre o discur- Ora, a estes três tempos ele retomará sempre para precisar O man jo 10 (I I_
so do Inconsciente - saber do gozo - e o Discurso do Analista há sem cessar tamento. Ele se apóia na teoria dos jogos até a formalizaçã do mil/til, ~
passagem, como na banda de Moebius, do avesso ao direito e do direito ao sur La lettre volée, onde passa à cibernética: Nathalie Charraud cxp 111\1 (o

avesso, sem borda a transpor. bem seu trajeto em dois artigos publicados em Ornicari+v' D ravant () I.
onsciente que é definido em termos de jogo de significantes, s undo 111111
Maternas e topologia combinatória que se pode colocar em fórmulas algébrica. stes si n i ri - 1111
t ruam-se letras, depois as "pequenas letras" da escrita matemãti a. A 16 I· I
Os debates em tomo do emprego, por Lacan, de maternas e de modelos 1\ rmal faz ua aparição e, a partir d La logique du fantasm , vai r in 11' I
emprestados da topologia para fundar com todo rigor a estrutura do sujeito, o mais a mai na teorizaçã Ia aniana. a reditam s n fil s C Jur IIIV Il
inconsciente, a diferença dos sexos e o conjunto dos conceitos psicanalíticos uant a isto, a an p ra um v rdad ira r v lu ã , nâ ap nus du t (lI 11
são passionais. São ainda mais violentos em torno de seu projeto de construir arl l téli a, mas Ias quatr pr p si - s d base da 16 i a f rrnal, ~'J n I

um materna único da psicanálise. No seminário XX, ele reafirma: "A for- ti S t r ma d õd I: n tadam nt sua r s ritura do "unlv s \I li u•
v" da "parti ular aflrmativn" manif staria i Iimit s d amp: J
137Ibid.
138Ibid.
139Ibid.
140"Radiophonie", entrevista citada.
* Étant: ente ou sendo dependendo de sua posição relativa 110 sentido intencional do autor, (N.T.) H\\lllIllIo. dHIIIX", hlllttllY,1I ,001101IOIIHI 11
* O hífen vem ar enfatízar o Mattre (Mestre, enh r) conde! em mattrisabt • (N.T.)

"'
obrigando-o a retomar o sujeito em consideração, e desembocaria numa nova
concepção da negaçãoiw. O seminário ... Ou pire é, com efeito, quase intei-
ramente consagrado a um trabalho que pretende ordenar o sujeito, o mundo e
a experiência humana, em função das categorias do possível, do necessário,
do contingente, do impossível, às quais Lacan logo vai acrescentar a da im-
potência. Assim se funda em lógica o esquema quaternário da estrutura sig-
nificante fundamental do inconsciente, organizando as relações do sujeito
com o Nome-do-Pai, o falo e o objeto. A impotência, por sua vez, remete à
ausência de relação sexual que será, por sua vez, colocada em f6rmulas
quânticas.
Juranville considera, portanto, que Lacan teve sucesso em seu projeto,
afirmado .ern 1966-1967: de "formular fórmulas decisivas sobre o incons-
ciente, fórmulas lógicas" de um lado, e de outro, de construir "uma lógica
que não é uma lógica. Uma lógica totalmente inédita à qual não dei ainda
denominação; pois é preciso primeiro instaurã-la!"!": uma lógica onde a ver-
dade se relacionaria ao desejo e mais tarde ao gozo. Mas Lacan, por sua vez,
parece menos certo de poder apresentar tudo em termos de "cálculo lógico".
Ele fala até de "16gica elástica", a fim de poder continuar; evoca a loucura
de Cantor; teme freqüentemente o fracasso, o caráter delirante ou, pior, a
inanidade de sua pesquisa.
Entretanto, outros pontos de vista devem ser considerados: assim, La-
coue-Labarthe e Nancy desmontam o algoritmo para mostrar que não se trata
de verdadeiras fórmulas 16gicas, pois não supõem nem autorizam nenhum
cálculo. Elas devem, a cada vez, ser traduzídas':". Do mesmo modo, vimos
que o matemático Guillerault, favorável a Lacan, demonstrava o bloqueio
das "fórmulas quânticas" dos dois sexos que querem definir a ausência de
relação sexual: não se pode fazê-Ias funcionar em nenhum sentido. Mas não
é necessário ser sábio para descobrir, à leitura dos Escritos, e depois dos
seminários fundados na fonnalização, que estas inscrições algébricas têm
simplesmente valor de sínteses escIarecedoras para alguns, úteis à memoriza-
ção, ou de ilustrações chamadas para servir de caução tranqüilizadora a um
discurso te6rico que conhece suas incertezas e suas contradições.
Qual o sonho de Lacan senão o de um significante sempre mais puro?
Para ele, a escrita é uma inscrição simbólica mais pura que os significantes
verbalizados: o corpo, sob a espécie da voz, apaga-se para deixar lugar à pu-
ra material idade da letra. A escrita matemática é ainda mais pura que a es-

143Juranville, Lacan et la philosophie, op; cit., capo VI, p. 310 e sego


144Idem
145Ibid.
"de conjunto aberto" opõe-se ao fechamento dos algoritmos como o do fan- o real como impossível
tasma, S a, por exemplo. Lacan, aliás, não pára de fazer aproximações -
que o surpreendem a si mesmo - com as figuras da embriologia: desde o se- Comecemos por esta frase, escrita em 1966, que condensa O css nc 11
minário L'Ldentification, em 1961-1962, mas cada vez mais com o passar da posição lacaniana: "Se todos admitem, com efeito, mesmo sendo bas: 1Il1
dos anos. Todo um imaginário aqui se mobiliza em tomo do corpo e do es- estúpidos para não reconhecê-Io, que o processo primário não encontra J1 \(11
paço: Lacan e seus discípulos passaram sessões e séries de sessões manipu- de real senão o imposstvel, o que, na perspectiva freudiana, continua I 10

lando formas mutantes no quadro-negro, pedaços de papel, tesouras, pedaços a melhor definição que se lhe possa dar, tratar-se-ia de saber mais s I li
de cordel, etc., com um prazer pr6ximo ao prazer da infância, onde se sabe que ele encontra de Outro para que possamos nos ocupar dele1s4". rim 0,
sem saber o que se simboliza assim e que é da ordem do gozo ou do conhe- como vimos, o real não é a realidade que, por sua vez, depende da int V"
cimento interdito. Inúmeras revistas atualst= propõem, ao lado de exposi- ção do simb61ico e do imaginário. Além disto, ainda, Lacan está d I II
ções sábias, "jogos topol6gicos" sempre mais concretos e mais materiais que com Lévi-Strauss que afirma que, "para atingir o real, é preci prim I I-
os jogos matemáticos. Evidentemente, não é "a boneca-flor" de Françoise mente afastar o vivido155". O processo primário, que caracteriza inc 11
Dolto, há regras do jogo, mas uma parte ainda é deixada para a invenção. ciente, encontra o real como o que é impossível, no sentido 16gic I t IItO,
Regressa-se à idade da escola primária... é bem isto! Pois o corpo não está isto é, impossível de simbolizar, mediatizar, dizer ou escrever. O r ai () 'lu
totalmente ausente. não fala e o que não tem nome. Mas, objetaremos, recebe rnesm assim ()
Entretanto, minhas reflexões não pretendem validar ou invalidar a teo- nome de real e até faz parte das três categorias fundamentais do imbõll eo,
ria topológica do sujeito ou do inconsciente de Lacan. Sou incapaz disto: do Imaginário e do Real. De fato, ele recebe um nome, porque o imb611
remeto então à multidão de artigos que encontramos nas revistas lacanianas, "a tela fundamental do reaI156", tela protetora. Assim "a 16gica aIva d I 11
e aos livros recentemente lançados. La topologie ordinaire de Jacques La- para permitir seu acesso sob o modo do impossível"?", É nece sári [u
can, por J. Granon-Lafont e Psychanalyse et topologie du sujet: Essaim, por processo primário encontre o Outro - lugar do simbólico, do N rn -d -I I I
J. M. Vappereau. A única coisa que me impressiona na leitura dos seminá- etc. - para que o humano apareça. O real é, pois, o limite d p nsam I ( ,
rios é que os comentários psicanalíticos das figuras topol6gicas são luxu- mas também do inconsciente concebido por Lacan muito mai c m um 111
riantes, digressivos, freqüentemente sem relação com elas, em todo caso as pensado: neste sentido, o real é realmente "o irredutível".
ultrapassam por todas as partes. E é aí que encontro coisas ridículas, revela- Nesta frase, Lacan nos indica igualmente seu trajeto: analisar prhu 10
doras, por vezes esclarecedoras. Por isto, não estou certa de que a topologia, o imaginário e o simbólico, antes de poder encarar o real, o qu 1'[' 'P( 11 I

em si mesma, seja um aporte decisivo para a psicanálise. Nem que a psica- ao movimento de conjunto de sua obra. Façamos, contudo, duas r li rv 1 •
nálise seja um aporte decisivo à topologia! Pensamos muito mais na necessi- Lacan, antes da guerra, engajou- e no e tudo dos tempos ar ai li, ) 111
dade intelectual de apoiar uma ciência sobre outra, de fazê-Ias se comunicar, "horror" e da "beatitude pa iva", onde ele acreditava en ntrar ?n I 11
de entrar num campo mais vasto do saber. A François Wahl que lhe pergun- primitiva em e tad puro156": ele renunciou rapidamente a i t para,' 11/1
ta, em 1964, se, para ele, a topologia é um método de descoberta ou de ex- re sar pelo estádio do espelh e d pois pela linguagem. T ri I J11r , I I
posição'<', Lacan não chega a responder. Ele hesitará sempre: às vezes fala- lá m que uma irnp ibilidad d p n ar? P r utr lado, I til \I I
rá de simples analogia, às vezes afirmará, ao contrário, que constr6i uma ob ad pcl real até qu p ssa I á-l n ntr d ua r Il
"montagem rigorosa" em torno do objeto a que é o objeto da psicanálise. n ntr u nt xto ond ins r v '-10. A am a a duma d
li transb rdam nt p I r ai par br S !TI

, ti nl8",lt tits, p. ()!{, ( rll') li' 11.

152Entre outras, Ornicar?, Littoral e Nodal.


153Idem

90 1,1.
do a dar ao objeto a "uma realidade puramente topolõgica'"?", O falo, por
sua vez, quando vem no lugar do objeto a, está contaminado por ele. Escre-
ver a-coisa em lugar de a coisa não o salva dela.
III
A mais bela alegoria lacaniana desta contradição insolúvel é a do caça-
dor lançado à perseguição de Diana e que de repente torna-se a presa de seus
cães devoradores. O psicanalista, "mestre da Verdade", "praticante do
simbólicov'P", aventureiro intrépido do real, é igualmente o homem habitado,
apesar de si, pela Coisa muda que diz paradoxalmente: "Eu, a Verdade, eu Paisagens lacanianas
falo17o."

168Ibid.
169"Fonction et Charnp de Ia parole CI du lungng ",11ft. citnd ,t rits, p. I ; p, 284.
'111 11\
170"La chose Ireudiennc'", art. iurdo,

94
este papel, único amparo, contudo, contra "o mal-estar da civilização". 1\
dissociação entre o pai real e a função paterna idealizada o conduz 111111-
mente a fazer o pai desaparecer sob um Nome colocado na origem: na I·
gem da hist6ria, o Pai morto, fonte do pacto fundamental; na origem d li-
jeito, o Pai corno Significante puro, marca dada desde antes do nascim nt ,
Palavra paterna que engaja ao mesmo tempo em que garantia do engajarn n.
to, o Outro como lugar da Lei. No limite, a presença ou a ausência d I I
real não tem importância: ao contrário, quanto mais ele estiver aus nt
corpo glorioso de puros significantes -, melhor, pois ele não está mais 111-
prometido nas baixas materialidades da criação, inclusive do terrfv I "f 111'
babish" , que se reserva portanto à mãe.
Um Pai destes não pode ser objeto senão de um "ato de fé": "o 11
Outro do Outro" para garanti-lo, Que Lacan evoque o Falo, únic si n {'-
cante que pode ser Símbolo primeiro para a humanidade, Deus, ou a 16 I' I
teria substituído, atualmente, a questão da existência de Deus -, o probl mil
continua o mesmo para ele. Até o final, ele manterá o Nome-do-Pai, ünle \
defesa, diz ele, contra um delfrio à maneira de Schreber. No fim de sua vi 11,
ele fará do Nome-do-Pai o quarto elemento que mantém juntos O R 01, o
imaginário e o Simb6lico, inspirando-se nos n6s borromeus. Senã , 6 o I •
sabamento. A busca de um Significante novo, nos últimos anos é a bus I I
um significante sempre mais puro ... Quais desejos e quais angü tia pr VI '\
uma fuga destas na dianteira te6rica? Não se trataria de uma imen a m I III ••
naria fantasmática que somente a ideologia patriarcal sustenta, p rqu
mumente compartilhada?
Um sonho persegue a obra Iacaniana: o da Trindade cri tã, onde lU-
pfrito Santo figuraria com "o requinte" do amor do Filho pel Pai d I' I
pelo Filho. Que ameaça pesa sobre este maravilhoso univer fe hado tlll
mesmos? Dir-rne-ão: a mãe. Com efeito, no anos 1958-1960, a ao I' 11-
volve este tema do perigo que o desejo ab oluto da mãe irnpli a para I 'li \11
ça - seu capricho - que somente o Pai poderia d ter. st l ma n " S' I
sobretudo nos discípulos, em psicanálise de rian a u d p i u ,01
um modo ideol6gico tranqüilizad r denun iad p r ath rin I ,Jlt tu, 111
1975, em eu arti d s T, mps Mod. rn :/3. 1\1Srn do {'fito de qu I III
colocada m p si ã d matéria ond po 1 li I" produzir o mos iulln >, 10' 11•
zado, p r sua v li, do lado d su] lto lns I'it no si fnifi nnt pur m 111 11·
t rn - qu Lu Irl ur y un lls< li ur v li d I t I 11' < f I só fi , I 1\ I I" 11
ín píra LI psi unáli, 4 -, '. Bulit III -lItl 'I I rUI!' I m inut 11' I1 f )I'"

Ihlçl.
41hll.

7
ça de trabalho (manual e intelectual) masculina e de pura transmissão da Pa- culina fundada na homossexualidade". Sublimada? A figura de Sõcrate ,oO

lavra-Lei paterna destinadas às mulheres-mães, em estranha conformidade capando ao desejo de Alcebfades é uma saída. Uma outra saída consi t 111
com um tipo de funcionamento social que é preciso preservar a qualquer intercambiar as mulheres segundo regras estabelecidas entre homens: mun.•
preço. Mas Lacan coloca fundamentalmente uma questão bem diferente: do vai assim tão bem, afinal de contas?
Quem nos protegerá do pai? Apelar ao Pai para proteger do pai põe a desco- Lacan, entretanto, busca a saúde, identificando-se a uma outra fi ur
do Cristo, Filho perfeito, vítima pura tanto do abandono quanto da cru Id
berto um dos impasses de uma cultura que, pondo as mulheres de lado, acre-
do Deus-Pai. O Filho-Deus, feito Homem pelo Pai, está votado à trai
ditava ter resolvido seus problemas mais importantes, ao menos para os su-
à ignomínia e à morte. Onde está a justiça de Deus? O Filho aceita suas v
jeitos masculinos.
insondáveis: "Que tua vontade seja feita" (que poderia muito bem S r a I \oO
Prevemos o tema do pai que falha: pai seduzido pela palavra mentirosa
lavra do perverso, em Sade relido por Lacan). O Filho reencontrará nt
de sua mulher, da mulher que não hesita em sacrificá-lo à sua sexualidade
seu lugar à direita de Deus e receberá o puro amor do Pai respond nd 1
voraz; pai morto por ela tanto quanto pelo amante-rival; pai traído no mo-
seu puro amor, o que simboliza o Espírito Santo que os liga. O Cri to t m -
mento mesmo em que se abandona à tentação; pai fraco que pereceu por ter
se o intercessor que religa os homens a Deus: segundo a Bíblia, "Há, d
"cedido sobre seu desejo" em proveito do desejo do outro (Outro)-mulher;
de sempre a todos aqueles que descendem dele, identidade de corp •• t .•
pai morto em estado de pecado mortal e que erra à procura de sua imortali-
nando-se "corpo místico" e puro significante do amor segundo a tradí
dade que somente a vingança cumprida por seu filho pode realizar. Esta é
cristã. No corpo glorioso e na palavra de Cristo, os homens se comuni (lI 1:
a leitura que Lacan faz de Hamlet, onde o filho deve pagar caro o erro do
ele é o Redentor.
pai que venera: pois, onde encontrar pontos de referência identificat6rios
Assim as zonas de sombra dos textos lacanianos abrigariam l' haln. 1-
sólidos, quando a Lei se compromete com a Coisa materna. Hamlet seria a
moration (odienamoração) entre o filho e o pai: a figura paterna s d st
tragédia do desejo impossível de existir como desejo, senão como desejo
mal do estádio do espelho, com sua jubilação e sobretudo sua agre sivid d
morto ou desejo de morte.
sem limites-e do "Eu paranóico" do qual Lacan faz o modelo estrutur I I
O pânico surge quando o imperativo categ6rico do pai se revela tenta- Eu humano. Ela é herdeira do duo e do dual atuando interminavelm nt
ção que conduz à perda. Lacan retoma a frase de São Paulo: "Para mim, o
tre duplos. A solução seria o parricídio ou o infanticídio, permitind faz
preceito (Não cobiçarás) que deve levar à vida, aconteceu de levar à morte,
vítima o conjunto do sacrifício e do laço sagrado? Um significantc nus 1 \
pois o pecado encontrando ocasião, seduziu-me, graças a este preceito, e por então, como terceiro pacificador entre iguais. Uma outra solução, qu Intro-
ar me deu a morte." A Lei se faz sedução. Então, o desejo do Pai se torna duziria a mediação do outro sexo ou da relação entre o pai e a mã , n
incompreenstvel, Ele persegue o paran6ico. Ele fabrica o perverso, "instru- pensável: Lacan lembra sem cessar que não há significante feminin n III
mento do gozo de um Deus" que lhe ordena: "Goze!" A crueldade paterna significante da diferença dos sexos. Que não pode existir.
pode ser sem limites: é o Deus de Lutero com "seu 6dio eterno contra os O fantasma de um mundo sem outro é minado pela urda feminilld
homens (•••) um 6dio que existia antes mesmo que o mundo tivesse nascido"; do Filho: a trilogia claudeliana serve de fio condutor à reflexã I anl ou.
o Pai de Totem e Tabu da horda primitiva, "todo gozo", o Pai de antes da Ora, o personagem de Sygne de Coúfontaine é, segundo ele, a fi ura pu I d
hist6ria, "a figura obscena e feroz do pai primordial, impotente para se re- risto crucificado que deve fazer pas ar a vontade do Pai ante m SI I
dimir na eterna cegueira do Édipo". É preciso matar este gozo, mas seria respeito pelos Valores que Ele deveria, contudo, garantir. A pr v mal, t -
cair, n6s mesmos no gozo mortal: "A morte do pai é a chave do gozo supre- rível é aquela da renegaçã . O filh ,c locad n lugar da filha-rnull r,
mo, identificada em seguida à mãe como alvo do incesto." Um face a face- p ra ua recornp n a: am r x lusiv d pai. ..
sem outro -, tal seria a primeira experiência fundamental. Que socorro pode- ti p n ar d sta ant Ismáti 11'1 I lIS f it n i
ria haver aí contra este pai pertencente ao real insustentável? Ap6s o assassi- nális m a an? I r um lad , I r 'lu flll d
nato que livra dele, ressuscitã-lo sob forma de pai morto que se pode amar? n p d s tive I !Ir ud III I t 1: I ,10 h
Jogar sobre ele o manto de Noé? E, principalmente, para pôr um freio ao
zo tanto do pai quanto do filho, con truir uma" iedad de pr t ã m - a I m ti "I. ,'11I11 .11I1ll1I! 1",1 1"1.'''11 "vII II P"Y 11I1II1I1y. " 111 "lI, , Il. tO i.1 11.

98
pultã-lo mantendo viva sua mem6ria. Por outro lado, o seminário dos Noms- destinado a tomá-Ia suportável, pois não se pode evitar por um tempo ua
du-Pêre, em 1963, revela a perturbação que intervém em sua vida: doravan- presença, é o de se contentar em trasmitir a Palavra e o Nome do Pai. '
te, ele não pode mais se acreditar o Filho; foi posto em posição de Pai-a- neste ponto os desenvolvimentos são bem numerosos, sobretudo nos an
matar. Na realidade, em qual posição ele mesmo se pôs senão em posição de 1958-1960, não variam muito e estão em perfeita conformidade com as xl-
quem pode ao seu grado ocupar todos os lugares? Seu lugar preferido, o do gências de uma sociedade patriarcal, cujos valores eternos Lacan lembra
Pai Simb6lico, foi-lhe negado ou roubado por seus discípulos ••• veramente, em todas as ocasiões: contra os psicanalistas ingleses, sobretud ,
ele se faz o campeão de Freud esquecendo-se de muitos textos freudian s,
Um outro rosto da mãe aparece, mais inquietante: a mulher nela, d
Do lado da mãe jante do pai, desejante de todo homem, fazendo de seu desejo uma lei, un,,-
mando-o sem vergonha. Assim, HamIet fica sem voz quando, às suas a U l-
Tanto quanto o tema paterno é de uma grande riqueza em Lacan, o te- ções, a rainha opõe uma recusa tranqüila: ela não reconhece em nada vo-
ma matemo é pobre. Talvez porque a mãe como origem é para ele uma figu- lores que ele lhe propõe para justificar o sacrifício de seu gozo. "Sem d s -
ra impensáveI. jo, diz Lacan, mas voracidade, até mesmo glutonaria" e devoração ••• Atrav
Já o estádio do espelho colocava em primeiro plano a relação ao igual, dela se justifica "o horror da feminilidade" que retomba em maldição s bl
na jubilação e na agressividade. O seminário de 1964 desenvolve uma estra- a virgem Ofélia,
nha concepção do nascimento, que ressurge, aqui e lá, quase sempre furti- Eu diria que, na obra lacaniana, a mãe é impossível, em todos o ntl-
vamente, ao fio da obra: o filho se separa não da mãe, mas da placenta, dos dos do termo. Trata-se de um "eu não quero saber nada disso" ligando a um
"envelopes do 6culo", duplo protetor do embrião, no interior de uma mãe "eu sei bem, mas, mesmo assim?", todos os dois constituindo o ponto
simplesmente "parasitada". O homem perde então em seguida "a homelete" da teorização?
(observa-se a feminização do termo) e esta perda o faz homem. Trata-se Lacan esquece uma coisa: é que uma mulher, certamente, está certa d
também da perda da "lamela", que se toma a libido - da qual se sabe que é ser mãe, quando no homem a paternidade depende de "um ato de fé". M !I I
uma s6 e masculina -, "este incorporal no ser sexuado", 6rgão ligado à pul- criança, por sua vez, deve fazer um duplo ato de fé: à parte a palavra rnnt I"
são. Uma teoria destas, bem pr6xima de uma teoria infantil, sustenta o afas- na, qual é a sua certeza de ser o filho desta mulher aí? O que prova O . uant
tamento da mãe. Mas tudo se passa como se o pai procriador englobasse a a maternidade é tão simbólica quanto a paternidade, sob uma forma vil 11-
mãe ao mesmo tempo em que a exclui: não poderíamos ver neste imaginário temente diferente.ê,
te6rico uma das fontes de ambigüidade das relações entre pai e filho?
Por outro lado, a prop6sito de Schreber, Lacan sublinha o quanto a
procriação e a morte estão fora de qualquer simbolização possível: elas mar-
cam suas fronteiras abertas sobre os abismos do real. E mesmo este territ6rio
ele tenta conquistar: não afirma "a conaturalidade da escrita e da procria-
çã06"? Somente o pai engendraria verdadeiramente e poderia dar a verdadei-
ra morte, a morte humana. É notável que, nos dois casos, Lacan empregue o
termo de "instinto" que recusa tão fortemente: o "instinto materno?" e o
"instinto de morte".
Portanto, não nos surpreendemos que o discurso sobre a mãe não se
sustente senão pela necessidade clínica, sobretudo em psicanálise de crian-
ças., Daí os imperativos categ6ricos que lhe são endereçados: o único papel

6Entre outros, Séminaires IX, L' tderuificatton, c XVIII, ... /I pire,


7Idem

100 101
Do lado da mulher em posição, senão de objeto, pelo menos de detentor do objeto cobi od • I
ele que é desejável. Como se sair de uma situação tão embaraçadora, s IJ •
Não retomaremos às análises do capítulo precedente que desenvolvem tudo quando, mais tarde, afirma-se a cobiça da Universidade (Penia) p Ir I (
a teoria lacaniana da diferença dos sexos. Lembramos somente suasconse- discurso analítico e propriamente a palavra lacaniana (Poros), faz nck I
qüências. Lacan mede bem "o impasse subjetivo" ao qual as mulheres estão Diotima uma voz do pr6prio S6crates, a da feminilidade nele? Reserv 111 I ) 1\
condenadas, num sistema falocêntrico e uma sociedade patriarcal e andro- análise do amor de transferência e do amor comum à homossexualidad m I •
cêntrica. Simplesmente, segundo ele, é o preço a pagar pela civilização. culina, porque entre homens e mulheres seria "complicado dernai "7 J t I I_
Desde 1951, a prop6sito de Dora, ele insiste na necessidade, para as mulhe- rece-se com uma evitação para manter o homem em dois lugares p u '0111
res, de "se aceitar como objeto do desejo do homem", o que as conduz a patíveis: sujeito do desejo como falta; detentor do objeto privilegiad
obrigação dolorosa de aceitar o abandono de toda posição de sujeito. No se- sejo, até mesmo de seu emblema. Como se espantar que, no serninãri
minário sobre As Psicoses, ele declara a posição feminina "problemática e Le Transfert, chega à renúncia da consumação do desejo e do pr6prJ
até um certo ponto inassimilável". Compreende-se melhor "o horror da fe- para conservar o Falo, o garante mais precioso do narcisismo? a trac (.) \I
minilidade" que as mulheres teriam finalmente que partilhar com os homens. afânise (extinção do desejo sexual) à maneira de Jones?
A mulher, escreve ele mais tarde, deve assumir o lugar do "Outro absolu- Deve-se pôr ao abrigo o falo, ao desejar um desejo insatisf ito? üuo
to(a)" que lhe dá "a dialética falocêntrica": "O homem serve de substituto do desejo da histérica - o de Dona ou da Bela Açougueira - Bell B u h I
para que a mulher se torne este Outro para si mesma, como ela o é para - (Bouche-erre: boca erra) - ser o modelo do desejo humano em La nn 11 o
ele!"." Enfim, Ofélia - ainda virgem - é a figura mais emocionante do é indiferente. As mulheres, tomadas no sistema patriarcal, seriam a m til •
"drama do objeto feminino tomado na armadilha do desejo masculino": ao res guardiãs do Falo? Lacan afirma freqüentemente isto!", E como nt nd (I
mesmo tempo objeto a, causa do desejo do homem e emblema do falo circu- f6rmula: "o desejo, é o desejo do Outro", quando nos lembramos a I 111110
lante entre homens. Em meio aos conflitos masculinos, onde pode ela en- tempo das relações obscuras que estão em jogo entre o pai e o t'ilh '? I
contrar seu lugar, senão na morte? A mulher como mulher deve ser morta? são? Paran6ia? Perversão?
Ou se matar como a Esfinge e Jocasta? Mas o melhor meio de colocar o falo ao abrigo ainda é lab rn uum
É preciso verdadeiramente esperar o seminário Mais, ainda para que a teoria que situa a feminilidade nas fronteiras do pr6prio camp psi onllln
mulher receba na teoria uma outra função, a de "não-toda" no gozo fálico, o Em 1960, a prop6sito da mãe e da mulher, Lacan afirma: "O fat d lU tu
que lhe permite existir e gozar em outro lugar. Ela aparece então como um do o que é analisável é sexual não comporta que tudo o que 6 s xu I ,/1
"suplemento" ao mundo fálico, englobando-o e alimentando-o com sua "in- acessível à análise": conclui daí que devemos nos contentar em an ,11 II /I
fmitude" que se torna figura do Infinito. Na realidade, este seminário siste- mulheres segundo referências fálicas: a mulher seria, poi ,inanalisáv I, po
matiza muitas análises anteriores. A solução se pretende elegante em face de estaria aquém da psicanálise. Se, em 1972, ela encarna o goz íntmlto, IIlll
um impasse do pensamento: a mulher escapa ao domínio conceitual de La- além do gozo fálico, as interessadas, elas mesmas, nada poderiam iz di.
can; por um novo esforço, ele consegue ainda definir-lhe seu lugar, o do to. O territ6rio da psicanálise ao masculino está, pois, stritarn n b diz 110
"em-corpo" místico. E não é uma novidade. Lacan sempre oscilou, aliás, Além disso, "a mulher" não se descobriria senão na pêre-v rsi n, 11 lU til! I
entre a versão licenciosa e desprezante da mulher e a versão cortesã ou mís- "versão do pai". A rigor, ela pode ter o statu d "psicanalista-n rt I" 'lU
tica. Derrisão, exaItação: duas defesas bem-conhecidas contra a angústia. ignora o que abe e faz,
Outros aspectos dos textos lacanianos são mais interessantes, embora el i ela h !TI ss xuat !TI ti üni a rnulh
pouco desenvolvidos. A fábula contada por Diotima, no Banquete, opõe Pe- r: itin rári eI suj ito -!TI sm Ira as o stá n
nia (A Penúria), do lado da mulher, e Poros (o Recurso), do lado do homem. i n rad p I s I il r s d fi nn, M nu nnl1l1s
Ora, eis que põe a mulher em posição de sujeito ativo do desejo e o hom m puv I, mas SUl' lu multe 'InrlUI1 01 n n

1o"Propos directi fs pour un on[ 1'(lS sur 111R Xuul it rÓl11inln", urt, elrudo, t rtts, p. 7 2.

10
minina. Quanto mais Lacan reafirma que nunca se saberá nada da mulher na
relação heterossexual ("o orgasmo vaginal guarda suas trevas invioladas"),
mais ele se sente livre - menos ameaçado - pela homossexual a quem reco-
nhece que dissocia feminilidade e passividade: segundo ele, é "o esforço de
um gozo envelopado em sua pr6pria contigüidade (da qual toda circuncisão,
talvez, indicaria a ruptura simbólica) para se realizar em desafio ao desejo
que a castração libera no macho, dando-lhe seu significante no falo". Ter-se-
á observado que ele dá ao trajeto da homossexual o modelo do homem. Ela
s6 se realiza "em desafio" à realização masculina, versão modernista da in-
veja do pênis. Entretanto, Lacan percebe, através de seu sistema defensivo,
que pode haver aí na homossexual urna simbolização de seu sexo, através da
figura de uma outra mulher. Lá pelo final de sua vida, ele retoma a este tema
(o movimento das mulheres em pleno vigor não é certamente alheio a isto):
para ele, a homossexual tem seu pr6prio acesso ao gozo e detém o acesso ao
discurso do amor - grande concessão - mas, em contrapartida, ela s6 pode
ter na psicanálise (sobre o divã ou na teoria) urna palavra balbuciante'", De-
negação ou renegação? Em todo caso, ponto de tropeço da teoria.
Com efeito, o essencial para Lacan é conservar o poder da palavra.
Desde 1958-1960 ele declara: "Parte-se do homem para apreciar a posição
recíproca dos sexos", somente depois é que se formulam questões que con-
cernem às mulheres, pois "é duvidoso que aprendamos o que quer que seja
tomando como ponto de partida a mulher", "a parte feminina, se este termo
tem um sentido, disto que entra em jogo na relação genital, onde o ato do
coito tem um lugar pelo menos local". O seminário Mais. ainda foi feito pa-
ra falar da mulher, sobre a mulher, no momento mesmo em que umas mulhe-
res reivindicavam ou tomavam a palavra na França, inclusive na Escola
Freudiana, a escola de Lacan. Insuportável que elas o contradigam, insupor-
tável que elas digam outra coisa, insuportável mesmo que elas falem ou es-
crevam na linha de seu pr6prio pensamento! É neste seminário que se en-
contram os ataques mais violentos contra as mulheres e as feministas: o que
é renegado é que elas possam ensinar alguma coisa aos homens, mudando,
portanto, os modos e os conteúdos dos discursos da comunidade, dialogar.
Decididamente não, "elas" não têm nada a dizer; quando a mulher, ela que é
"não toda", revela tantas coisas sobre o Infinito ao homem, que ele sempre
pede mais •••

104
zer, em suma, lugar limpo: fazer o vazio. Então, pode vir a Palavra "revela- compreensível de Deus, ele contribui para afirmar o Valor absoluto da I \1 \-
da-revelante" para sempre: um lugar está lá para acolhê-Ia. O ensinamento vra divina e salva a humanidade inteira. Lacan coloca-se, por sua v z, n 1 I
lacaniano reproduz a Cena da Anunciação, onde Lacan desempenha todos os linhagem: rejeita o primum vivere (primeiro viver) que seria, segund I,
papéis. Tanto ele é o lugar de acolhimento da Palavra; tanto a transmite, o ideal de muitos analistas, declarando ao mesmo tempo a inanidad d (11 •
Cristo nascido da Virgem; quanto como homem-Deus, ele a semeia nos ou- ceito médico primum non nocere (primeiro não prejudicar). Pois a prud 1\
tros. Fala-se freqüentemente da influência de Heidegger sobre Lacan: uma do "não agir" impediria "encontrar no próprio impasse de uma ituac (
coisa é certa, eles têm a mesma concepção do seminário, fundada na mesma força viva da intervenção salvadora.
etimologia! Se Lacan pode se permitir gracejar diante da idéia de Françoise Todo ato comporta riscos inevitáveis, para o outro e para si, P lu 1111
DoIto, colocada no seu lugar de teórico revelando a Verdade - em lugar de forte razão quando se trata de uma operação de verdade. Para La an, o 11111
permanecer a praticante que ignora as conseqüências de seu ato -, é justa- (nos dois sentidos do termo) da análise é o acesso ao desejo d sa
mente porque não pode imaginar uma mulher neste lugar. Senão, seria uma consciente): ora, "todo saber se institui num horror insuperável em
pftia, uma profetisa, até mesmo uma feiticera: que imagem contaminante para este lugar onde mora o segredo do sexot?" que está ligado à morte.
o Verbo lacaniano que sem cessar faz existir isto que ele nomeia! sante deve aceitar pagar o preço da análise, como o analista "pa a 111 \I

Uma verdadeira obsessão pela pureza habita esta obra: o significante que há de essencial em seu julgamento mais Último, por se meter numa ie (
puro, mesmo o mais puro; o súnbolo em sua pureza; a pureza da lógica ou da que vai ao fundado ser" e "paga com sua pessoa"14. Quando o al1a118/11 t
matemática como pura escritura; a experiência analítica como experiência chega até aí, ele torna-se analista por sua vez. No que respeita à pr VU 111 -
simbólica pura (depois a mais pura) e experiência pura do desejo puro; a ciática mais acabada, "a psicanálise tem um efeito separador do r banhe ".
análise didática como a psicanálise pura; a posição freudiana pura, etc. iniciado inicia por sua vez. Ao extremo, a lógica e os matemas nstltu 111
Mesmo "o amor ao próximo" é reprovado aos cristãos que não sabem ver igualmente exercícios espirituais, isto é, uma disciplina severa qu p rm t
nele o engodo narcísico: "Am~ teu próximo como a ti mesmo", e Lacan se purificar a análise de seu pecado original: o apelo à biologia, à n urc 10 1I
encarnece, mas ele esquece o fim do mandamento, "por amor a Mim", onde ou à física, a consideração do corpo e da maturação instintual... sntr tanto,
o Cristo é colocado como terceiro entre os humanos. Amar seu próximo, em o essencial é seguir Lacan pelos caminhos em que ele se engaja, a fim I I 11-
termos lacanianos, não pode ser senão reconhecer nele como em si a Coisa rificar a psicanálise de seu verdadeiro "pecado original", "o descj n O "lU
em todo o seu horror. A Carne. No final, somente a morte pode encamar a lisado de Freud".
pureza face à vida. Que mais pode ensinar o homem, senão seu "ser-para-a- O segundo modelo proposto por Lacan para o fim da anális 6
morte", expressão retomada de Heidegger, mas interpretada através de uma ção do "des-ser" e da "destituição subjetiva". Só se compreend 1st I) I,
longa tradição teológica? A obsessão pela morte é, pois, tão forte quanto a imensa visão do destino humano desdobrada por Lacan em fórn ul s h1HP 11\-
obsessão pela pureza. Seriam elas separáveis? das. Reconhece-se aí esta passagem feita pelos heróis pela ign mínin. p-
Em definitivo, que modelo Lacan nos propõe para o fim de uma análi- canalista, no fim de cada análise que conduz, e o analisante, no inst 1111
se? O primeiro é aquele do desejo metamorfoseado em puro desejo de saber, qu se toma analista, não e tão mai do lado do " uj ito up t sa r"
"mais além do temor e da piedade". Este ideal se atinge no "entre-duas aliá sabe que nada sabe, como ócrates). 1 'ã reduzid
mortes" que viveram heróis que souberam "não ceder sobre seu desejo". objeto a, cau a d de ejo d outro: ora, o obj t a t rna-
Assim, Sócrates, mestre do desejo, ao preço do sacrifício do amor e da se- pul a, bj to de n jo. anali ta d v a itar r - diz-n 5
xualidade, escolhe a verdade: ele a paga com a vida. Mas ele é como que o fi fórmula d ã Th as - si ut pai a, •• se r
Mestre da morte, pois, entre a ignomínia da condenação e a morte real, ele se da íta ã qu J faz d u :"V S t d s
colocou mais além das leis da Polis, aceitando-as apesar de sua injustiça. I ia
Dando-se a morte, ele salva na realidade o Príncipe da Lei, fundado, por sua
vez, em Verdade. Outros heróis figuram nesta galeria: Édipo, Antf ona,
Moisés, Freud, etc. Mas a figura principal - mbora mais subterrân a - nU
seria a do Cri to qu m rr na infâmia? Por sua ob di n In ti V nea I In~

106 lU7
r
atos contrários, surpreende-se o outro com um acúmulo de gestos, palavras, Ela explica também a não-redação dos seminários. Talvez explique a e 111\
letras. Ou apela-se a outros para recomeçar o jogo. Se há dúvida sobre a saí- da palavra no lugar da escrita; estamos diante do outro, cuja presen a t.
da, estuda-se a relação de forças: então, mantém-se firme em suas posições mula a intervenção. Neste sentido, Lacan é realmente um "ensinador" UIII
sem mover um dedo, o outro acabará se cansando, cedendo, calando-se. Mestre para quem s6 há discípulos eternamente ligados à sua pessoa, S lvo
Esta estratégia é muito sensível na arte do discurso: o desafio geral- se se tornar um Judas.
mente se condensa numa asserção que estupefaz o outro. Por exemplo: "não Entretanto, uma angústia o atazana: a resistência à análise, diz
há relação sexual"; "a linguagem é a condição do inconsciente"; "o incons- e talvez pense nele mesmo -, não é tanto a sexualidade quanto "este a 1 m \
ciente é estruturado como uma linguagem" (e s6 escolhi f6rmulas aparente- aberto ao pensamento que um pensamento se faça ouvir no abi m fi. 1I
mente claras). É pegar ou largar, como o pr6prio Lacan diz. E funciona: fi- voz se trata de cobrir? A eterna perseguição conduz à repetição contfnu I,
ca-se a favor, contra, analisa-se a frase para procurar seu sentido. Recita-se a passagens ao vazio, ao discurso que por vezes fala bem sozinho... p
frase para impressionar os outros, por nossa vez. Em todo caso, já se está máquina volta a funcionar: um novo "treco" foi encontrado no •• O
preso no territ6rio lacaniano, quer se queira ou não, territ6rio que se tomou, malícias" •
na França, um lugar de passagem obrigat6rio para os intelectuais ou profis-
sionais da saúde mental. A prova disto é que estou aqui, escrevendo este li-
vro, perguntando-me quais são as verdadeiras implicações disto. Lacan crítico literário e escritor
A discussão é impossível. Vêmo-lo quando do conflito com Laplanche
em tomo de duas f6rmulas opostas: "o inconsciente é a condição da lingua-
gem", diz Laplanche para corrigir "o inconsciente é estruturado como uma
Não penso que Lacan seja verdadeiramente um crítico literário n rn )11
linguagem". Não, "a linguagem é a condição do inconsciente", replica La-
tenha criado um outro modo de crítica psicanalítica. Acho que é um "I J I' I
can; depois, quando ele está em diftculdade do lado da lingüística, "o in-
apaixonado e atento que amiudemente nos oferece um ponto de vi UI 111\1 I ,
consciente é a condição da lingüística" - e aliás, eu, Lacan, crio a "lingüis-
novo sobre um texto. Um "Iedor" que escreve com freqüência de m d I :t.
teria" .
- mais livre que em seus textos te6ricos - sua pr6pria leitura. Lacan n
Inútil, portanto, procurar pegã-lo em falta: ele ganha sempre. É preferí-
preconceito metodol6gico; ele o prova fazendo o elogio do livro d J.l
vel mudar de territ6rio e examinar seu território de um outro lugar. Aliás, tu-
sobre Gide, que é uma psicobiografia. "A lição -, diz ele -, é surpr n 1
do já está previsto: como se achar na incessante transformação do cogito er-
pois aí vemos se ordenar em seu rigor a composição do sujeít ."; n
go sum, aquela do "tu és aquele que me seguirá(s)" ou das figuras topolõgi-
trata de "psicanálise aplicada", mas da busca de "um método p i an 1ft (
cas? Lacan nunca está onde se espera. E se declaramos nada compreender, a
de leitura". E ele mesmo escreve algumas páginas luminosas tant
resposta já está pronta: "não tem importância, porque não é feito para sei'
de quanto sobre sua própria concepção de sujeito.
compreendido, é feito para que nos sirvamos disto!"." Nos sirvamos disto?
É que a crítica literária, em si, não o interessa, mas a lit raun \ 111.
Ele ironiza ou lança imprecações diante do uso que é feito de seus conceitos.
Com ela, ele pode pensar, como pensa com textos filo 6fic 11 1 111
Escolhemos a abstenção? Ele se lamenta.
científico " Ele inventa com ela. Le séminaire sur la lettre volt, a r t 111 1\
Mas um redemoinho de argumentação destes repousa num desejo de
dele para introduzir a publicação dos Escritos em cole ã d b IR , I J u
saber apaixonado. "O essencial, diz ele um dia, é que eu não quebre a cara."
Com o prazer de pensar, de roçar o perigo: sempre diferentemente. Tudo de-
nesse de Gide, a Hommage à Marguerite Duras, Kant av ao ,
I' h Il
du prlni mps: tant s tcxt s qu 11 s dã praz r d 1 r I (TI I m 11
ve se conservar, tudo deve se apagar para deixar vir a última verdade: esta
fi nd d d amíõd u ssív I, s n J d
contradição explica as incoerências de suas afirmações ao longo dos anos.
m LIA ) !tUI'O ntndn Banou t ,

-111 I
1967; versão anônima, 1982. Af se encontra também
17Petit discours aux psychiatres, Iam 8 d •
senvolvimento sobre "o saco de malfeias". i I

110 lU
para os leitores de hoje em dia. Lacan tem a escrita de sua educação p 1
jesuítas, mas também de seus gostos pessoais. A argumentação é seguid ,-
mente cerrada, de acordo com a arte da casuística, e deve abraçar o conjunt
dos pontos de vista, ao mesmo tempo que o estilo deve persuadir para 11-
vencer. Mesmo as confusões paradoxais pertencem, em parte, a este mo I 10
cultural. Uma vez aberta esta perspectiva de conjunto, pode-se ler o sL I I
preciso, feito por Fagêsê'', das figuras ret6ricas em Lacan. Mas não se p< ti
esquecer a influência da frase alemã, que vem ao mesmo tempo sustent r
contrapor a tradição latino-francesa. Enfim, é verdade que Lacan qu r t 1111-
bém "torcer o pescoço da ret6rica". Ele empresta, então, de Mallarm \
rupturas sintáticas, mas sobretudo a prática da elipse; a supressão d pull-
vras ou membros de frases que suportariam a continuidade do sentid . H rln
ele, por isto, um poeta? É um outro assunto.
Primeiramente, nossa época tem seus poetas orat6rios: Claudel m -
mo Saint-John Perse. Mede-se logo a diferença de invenção poética. Por )li-
tro lado, há descobertas metafóricas em Lacan, é verdade, mas nun a m
continuidade; Lacan, ele, as situa numa grande trama argumentativa U r t6-
rica. Nele, o mais bem-sucedido é com certeza o emprego do aforism , 1\1
corresponde com perfeição ao ponto mais avançado de seu pensamento: lIf

que se produz realmente a condensação e a sobredeterminação do !l ntklo.


Ora, o aforismo pertence à grande tradição dos moralistas: asserção '011 I 11-
sada em poucas palavras que se deve desdobrar em todo sentido.
Resta a questão dos jogos de palavras que levaram a dizer qu I 1I'[til
era surrealista. Primeiro eles aparecem bastante tarde em sua obra, m 11I0-
mento em que a pr6pria publicidade. podia se vangloriar de ser surr )11 til.
Em seguida, eles correspondem mais à sua prática analítica do dis urso, I
acordo com sua teoria do significante, do que à busca do encontr d SIUIII·
brante pr6prio dos surrealistas. Existem uns bem felizes, pois faz m p n 11
ou sorrir: "a Bela Boca erra" (ta Belle Bouche erre) para a bela a ti U ,'I
(ia belle bouchêre) histérica de Freud, a "publicação" (poubelii aüon
ua bra, "o fala-ser" (te parlêtre) que condensa sua teoria do suj it luuun-
n , a "pêre-version" para a perversão, etc. Há LImaquanti lad I 1 R qu
nã pcrt nc m nem a pensamento nem m smo ao prazer d brin ar 111 1\
palavra. m suma m âni a s rn vos . Y A 'L' UN (!lÁ I UM
p r x mpl ,ni traz rand ísa. •• "8t ritura"? "L' Aumotnzun" li I
rn a -m n s-Um? Á m n '1\1, i\s v '/, S, np ru um sort d derr ( li
i li b' sua r)f(~1i I t ín, t(tulo I) li llIinl1l'i U I 7 ).1( 77,1/ I"

(ti I\l
--T-
su que sait de l' une b'évue s' ai/e à mourre, faz pensar inevitavelmente no laço social" novo. Conseguiu? A dissolução da Escola responde. Lacan fo
Trissotin de MoliêrevFrançois George intitula seu panfleto: L' Effet' Yau de "Freud francês"? Uns respondem sim, os que o colocaram no lugar d M
Poêle de Lacan et des lacaniens+, Ele prova que, por este viés, é possível tre. Outros, não, contentam-se em situar Lacan no imenso campo da I •\-
fazer uma crítica séria da ideologia lacaniana. nálise.
Lacan é um pensador e um te6rico: aí está a verdadeira fonte da origi- Fim de 1985, ficamos sabendo da criação da Fondation Fr u it 1111
nalidade de seu estilo. Por que negá-lo? Não é um defeito, que eu saiba. Ele lnternationale (130, rue de Clignancourt, 75018, Paris) ou Ini rnaü n 1I
gosta de pensar com os outros, mas principalmente contra os outros: a inspi- Freudian Foundation for New Perspectives in Psychoanalytic R S I -h,
ração, a sátira, a polêmica, a derrisão, a fórmula percuciente que destrói o Reagrupando praticantes de Nova Iorque, da Europa e da América I Sul,
outro, a arte do apelido ou da alcunha, a injúria, fazem com assiduidade suas "mais além das pertenças institucionais e preferências ideológica ", !\
páginas mais exitosas, o que quer que se pense do conteúdo. Enfim, Lacan é fundação propõe intercâmbios: o próximo simp6sio, que terá lugar 111 I
um homem que se sente profundamente investido de uma missão: o mais belo em junho de 1986, tem um título significativo: "Intercâmbios Iíní
estilo lacaniano, o mais perturbador, aquele cuja força é indiscutível, é a pontâneos". O coordenador na Europa é o Dr. Alain de Mijolla (
pregação. torno dele, praticantes de itinerários e pertenças os mais diversos. A
Ele declama, pinta quadros próprios para surpreender a imaginação, pa- o monolitismo, a psicanálise prova sua vitalidade tanto quanto suas
ra melhor converter; ele apostrofa, lança imprecações, depois, no momento dades de renovação. Ela continua ..•
certo, deixa aparecer, ao longe, o clarão fugitivo de uma esperança. Ele, que
esbraveja contra o afeto, joga em todos os registros próprios para suscitar as
mais violentas emoções, a fim de que sua mensagem passe. Ele mesmo não
estaria preso nesta imensa vaga de palavras? Seria Lacan, apesar de todos os
"maternas", ou até mesmo no próprio trabalho dos maternas, um visionário?
A aventura lacaniana se inscreve na hist6ria dos intelectuais franceses
sob o regime gaulleano da V República: os anos 1960-1980 foram dedicados
a uma prática terrorista do pensamento, quer pensemos no estruturalismo,
comunismo, maoísmo ou lacanismo. A abstração a não mais poder, sem
apoios verdadeiros na realidade, girava em círculos e escondia mal o irracio-
nal brilho de uma elite que desprezava as massas "emburguesadas" tanto
quanto o anarquismo vivo de 1968, em nome dos quais, todavia, falava. Era
preciso aderir, mortificando-se graças à prova de submissão, ou aceitar so-
frer a interpelação raivosa, o riso sardônico, a rejeição brutal na inexistência.
Portanto, pode-se dizer que Lacan, a partir de 1964, data em que co-
meça seu ensinamento na rua d'Ulm, encontra seu público dileto. Neste sen-
tido, ele que queria transformar os caminhos abertos por Freud num "jardim
à francesa", teve êxito: seu ensinamento foi realmente "sem rival", se pen-
sarmos em sua audiência nacional e internacional. Seria por que ele era o
"único a falar de psicanálise"? É um outro assunto. Extraordinário manipu-
lador de idéias e de multidões, propagador de tudo o que se pensava no seu
tempo, capaz de atrair para seu seminário as "cabeças pensantes da época",
ele sonhava fazer de sua Escola "uma escola de vida" e da psicanálise "um

21Ibid.

114 ••
segunda parte
DOSSIÊ

117
\
\

Cronologia

1\' 1111 I

11
o segundo volume de Elisabeth Roudinesco - A batalha de cem anos,
histâria da psicanálise na França' - ensinar-nos-ã seguramente muito. Espe-
remos que o tempo faça seu serviço, pois não podemos esquecer que s6 sou-
bemos muito recentemente, por exemplo, que Freud analisou sua pr6pria fi-
lha Anna e que quantidades de documentos desta época estão ainda ocultos.
Pode-se compreender silêncios numa época em que a psicanálise era violen-
tamente questionada, mas seria preciso ainda hoje em dia manter a qualquer
preço uma imagem idealizada que, por fim, lhe presta mau serviço? Ou,
então, para que serve ideologicamente esta imagem do analista, separado de
sua vida institucional - considerada, por sua vez, como parte integrante de
sua vida privada -, num jogo de duplo discurso e de dupla prática?
Contentar-nos-emos portanto, aqui, em dar informações verificáveis e
em situar o trajeto de Jacques Lacan numa hist6ria mais vasta, não somente a
da psiquiatria e da psicanálise, mas também a de sua sociedade e da época
em que ele viveu, professou, praticou. Com a série de acontecimentos, mas
também de gerações que informaram sucessivamente sobre seu itinerário. É,
pois, muito mais a hist6ria de uma função e de uma prática em relação com a
elaboração de um discurso te6rico, que tentamos balizar, sem mascarar nos-
sas ignorâncias e interrogações. Certamente, há um laço entre uma infância,
uma personalidade, uma hist6ria e uma teoria. Não estamos em condições de
definir. E é muito mais nos textos (segunda parte de nosso dossiê) que pro-
curamos compreender os valores, as crenças, as recusas, os 6dios, as pre-
ferências, os ideais, as mitologias ou os modos que fizeram de Lacan, Lacan.
Sem esquecer que toda uma parte da sociedade de então contribuiu para fa-
zer de Lacan, Lacan ... Procederemos por grandes períodos onde reagrupare-
mos as informações, tentando evitar os processos de beatificação ou de feiti-
çaria ...

1901-1932: OS ANOS DE FORMAÇÃO

Jacques-Marie-Émile Lacan nasceu em Paris, em 13 de abril de 1901


numa família burguesa de origem provinciana - a linhagem paterna é de vi-
nagreiros de Orléans - e de s6lida tradição cat6lica. Aliás, é ao Colégio Sta-
nislas, uma das mais célebres instituições dirigidas por jesuítas, que o en-
viam para fazer suas humanidades. Aí ele adquire, como seus condiscípul
dos liceus laicos, a formação nobre que abre então para toda as alta

1E. Roudinesco, La Bataille de Cent Ans, Histoire de Ia psy hanalyse CII F/,(J/I c, v I. I, 1885- J 39,
Ramsay, 1982. Segundo v lume no prelo.

120
massacre atingiu tanto as elites quanto o mundo camponês ... Estes jovens Durante este período, sua participação ativa na Société Neur I i lU •
poupados aparecem, pois, corno a esperança de uma sociedade onde tudo na Société de Psychiatrie, na Société Clinique de Médecine Mentale, no
deve ser reconstruído: como antes ou bem de outra maneira? Eis o que está ciété Médico-Psychologique prova o quanto ele está perfeitamente int
em jogo. nos meios oficiais da neurologia e da psiquiatria. De 1926 a 1932, I
Lacan escolheu os estudos de Medicina (ele fez notadamente estágios toridade de Alajouanine, de Trénel, Claude, Hauyer, Courtois, Lévy- V li 11
em Saint-Louis, Laennec, Trousseau e Salpêtriêre), depois se especializou si, Schiff, etc., ele co-assina não menos que treze artigos, seguidam nt I I
em doenças mentais: em 1927, é nomeado residente dos asilos. O trabalho blicados ao mesmo tempo nas diversas revistas científicas. Ora, s I

não falta nestes anos de p6s-guerra, nem as possibilidades de invenção. Ser vamos sobretudo atualmente "Abasie chez une traumatisée de guerr ••
alienista não é mais estar votado ao gueto nem à desconfiança: em psiquia- Trénel em 1928), ou "roman policier" (com Lévy-Valensi e Mei n01l1 .u
tria, bem como em cirurgia ou em neurologia, "a guerra revelou-se geradora 1928), "Folies simultanées" (com Claude e Migault em 1931) e í'E rus
de progresso", como ele mesmo o diz para a Segunda Guerra Mundial". pirés: schizographie" (com Lévy- Valensi e Migault em 1931), é P r [u
Desde então até os trinta e um anos, quando se torna doutor em Medicina, tes trabalhos referem-se à histeria, às alucinações, aos distúrbios da tio li ,.
Lacan faz uma carreira clássica e muito brilhante nos serviços parisienses gem, às relações familiares e à paran6ia, isto é, "aos problemas d psi 'oJ( •
mais prestigiosos, como provam seu curriculum vitae, a lista de suas dedi- gia patol6gica" que - como ele mesmo o diz em 19335 - estão no c ntro I
cat6rias (às vezes comentadas) aos grandes nomes da Medicina oficial, no sua tese e o conduzirão pouco a pouco à psicanálise. Aliás, ele assina o~l.
início de sua tese sobre a paran6ia, e sua participação nas sociedades e nas nho uma exposição sobre "ia structure des psychoses paranolaqu s", 111
revistas científicas de sua especialidade". 1931, em La Semaine des Hôpitaux. Contudo, estaríamos errad s S
Em 1927-1928, ele trabalha no Asilo Sainte-Anne, na segunda secção quecêssemos que a maioria destas intervenções concerne a distürbl fi n
das mulheres e na Clínica dos Doentes Mentais e do Encéfalo, dirigida, rol6gicos ou a seqüelas p6s-encefalfticas, assunto muito important l p
então, pelo Prof. Henri Claude, uma das personalidades mais influentes da terrível epidemia do fim da guerra de 14. A influência desta forrnuc )
psiquiatria entre as duas guerras. Em 1928-1929, ele está ligado ao Serviço percebe nas pesquisas lacanianas até 1953.
de Enfermaria Especial da Delegacia de Polícia, onde Clérambault trabalha e Lacan faz em Sainte-Anne "dois amigos que eu devo - diz I -
cuja Apresentação de Doentes faz então acorrer Paris inteira; onde trabalham ternidade de nossos pensamentos e de nossos estudos em psiquiatria,
Georges Heuyer, com quem Lacan aprende "a observação psicoclínica rápi- Henri Ey e Pierre Mãle?". Apesar das divergências te6ricas e d S 011 to
da" e o Dr. Logre, futuro expert no célebre processo das irmãs Papin. De à veze violentos que os oporão ap6s 1945, Lacan evoca em 194 •• lt
1929 a 1931, ele passa dois anos no Instituto de Psiquiatria e de Profilaxia n inf io da residência do mesmo lado da liça?" e, mai tarde, v lta v I I
Mental do Hospital Henri-Roussele, cujo médico-diretor é Toulouse e onde V Z S a i to, sobretudo em Le Savoir du PsychanaLyste ( u snir li ns I(
ele reencontra Georges Heuyer. Em agosto-setembro de 1930, faz um estágio airu .-Anne), em novembro de 1971 (quando tem setenta an s); v fi '( 11
de estudos no serviço do Prof. H. Maier, na clínica do Burghõlzli de Zurich, m ão estes anos comuns passados na ala de plantão e presta um I I )111
célebre pelos trabalhos de Eugen Bleuler - o rival de Freud - sobre a esqui- na 111 (na qual recusa toda tonalidade irônica) a Henri y, liIvíllz I I 1'''
zofrenia e "a língua fundamental", de Jung e de Binswanger, promotor da da i norância psiquiátrica I ntão. Que discuss - apaix nadas 11111"
"psicanálise existencial". Por esta clínica passaram inúmeros psiquiatras que d m st s jovens lan ados m 1926- 1927 na experiência d s asil ? 1.1 11
virão se instalar na França, ou que, ap6s uma análise com Freud ou no Insti- .oruram j v ns psiquiatras - freqü nt 111 nt ap nas um I' u mats v lho
tuto de Berlim, ajudarão a introdução da psicanálise na França. Enfim, em d lU I s - qu II abararn d formar um rUI ab rto [ ara ti nfron! I' )
1931, provido do diploma de médico-legista, o jovem psiquiatra retoma a ti \S íd ~if\s n vns, l' l1'v lut! n Ps hi uri lU I •P), n [uan; nos ,nu ilm
Sainte-Anne: é nomeado chefe de clínica e será o Prof. Claude que presidirá t , '111 I , 11 .' I I S ) 'j t < Psy hanal ti [u <.J I arls), uj ti t uuto I)
a defesa de sua tese em 1932.
Ihltl.
I Ih d.
til! d.

122 I ,
~- ----~=====E'~---.
psiquiatras, psicanalistas, surrealistas, psicólogos universitários e consagra-
dos. Lacan é, dir-nos-ão, durante este período, um psiquiatra convencido que
descobre pouco a pouco a psicanálise e se mistura de modo mais ativo à vida
intelectual de vanguarda: um início notável, na medida em que estas expe-
riências múltiplas marcarão por muito tempo sua busca de uma teoria que lhe
seja pr6pria.
Prosseguindo sua carreira hospitalar, participa de congressos interna-
cionais de psiquiatria e publica diversos artigos bern-especializados com H.
Claude e sobretudo com Georges Heuyer - chefe liberal que abriu seu servi-
ço a Sophie Morgenstern, judia polonesa não médica e analista de crianças.
Em 1934, nomeado médico dos Asilos, Lacan casa-se com Marie-Louise
Blondin, sua primeira mulher, filha de um destaque em Medicina. E, em
1936, obtém o título de Médico dos Hospitais Psiquiátricos.
Foi já diante do grupo de l' Évolution Psychiatrique (EP) que ele apre-
sentou suas primeiras hip6teses sobre a paranóia. Esta pequena sociedade, a
mais inovadora da época, fundada em 1925 por René Allendy, Adrien Borel,
Michel Cénac, Henri Codet, Sra. Codet, Angelo Hesnard, René Laforgue,
Eugêne Minkowski, Françoise Minkowska, Éduard Pichon, Gilbert Robin e
Paul Schiff, "fixou de início sua atividade aos confins da psiquiatria e da
psicanálise?". Laforgue foi o agente mais ativo desta criação e também da
criação da Société Psychanalytique de Paris (SPP), em 1926. Todo um nú-
cleo de participantes diversos torna este grupo extremamente flexível. A EP,
embora muito cedo reservada somente aos médicos, toma-se, como se disse a
justo título, "um viveiro de psicanalistas" para a nova geração, todos psi-
quiatras de formação: assim para Lagache, Mâle, Nacht, Blanche Rever-
chon-Jouve e Lacan, evidentemente, que são aí muito cedo nomeados titula-
res. Nada de surpreendente, pois sete dos membros fundadores da SPP per-
tencem à EP, e em 1934 ela realiza suas reuniões nas instalações do Institut
de Psychanalyse, antes de se instalar, em 1937, no boulevard du Montpar-
nasse. Lacan assiste com assiduidade às suas reuniões da terça-feira, in-
tervém freqüentemente nas discussões que seguem as exposições (por exem-
plo, a prop6sito de Passions et psychoses passionnelles, por Lagache, em
1935), publica na revista do mesmo nome, I' Évolution Psychiatrique, em
1935, a resenha do livro de seu amigo Ey, Alucinações e deltrios, A mesma
revista publica a exposição feita por Schiff em 2 de fevereiro de 1935 no an-
fiteatro da Clínica das Doenças Mentais durante a IX Conferência dos Psica-
nalistas de Língua Francesa sobre La Paranoia au Point de Vue Psychanaly-
tique: primeira exposição feita nesta perspectiva. Lacan - citado, aliás, na

9EP, primeiro numero depois da guerra, 1947-1.

126 I 7
1938, quando Lacan é nomeado titular, em troca da promessa de continuar
ainda sua análise - promessa que não teria sido cumprida -, seja em 1 (
por causa da partida de Loewenstein, pela guerra'", Análise truncada? Análi-
se difícil, diríamos. Segundo Roudinesco, a diferença mínima de idade fav -
receu o ciúme ou a rivalidade do analista, que já percebia a superioridad
te6rica de seu analisante. Esta versão, penso, é muito unilateral. Pod -
imaginar também - e não é exclusivo - que Lacan suportasse mal e ta i·
tuação e a ingerência em sua vida inconsciente. E por que não pensar na di.
ficuldade de se compreender, quando cada um tem uma hist6ria, uma cultu I,
uma concepção da vida mental, da profissão e talvez da existência muit dl-
ferentes?
Sob este ponto de vista, a única coisa que podemos dizer aqui s d v
à leitura dos textos lacanianos da época: algumas páginas de Au-d lã //1
"Principe de réalité' mostram que Lacan descobriu a originalidade da
periência analítica em relação à prática psiquiátrica. O espantoso é qu
fala disto ao mesmo tempo em posição de analisante, em posição de anallstn
e como que em posição de desvio: como te6rico. Ora, lembremos, foi publl-
cado na EP.
Lacan se manifesta muito durante as exposições ou congressos da Pl.
De modo seguidamente breve e às vezes risível, pois, em geral, qualqu r ti
seja o tema abordado ele retoma à paran6ia, ao narcisismo e ao estádi d
espelho, suas preocupações maiores. Eis o que nos conduz às dua c muni-
cações que podiam situar Lacan no mundo psicanalítico. A primeira, s br
"o estádio do espelho", estava prevista para o Congresso Psicanalúi In-
ternacional de Marienbad em 1936. Com humor, Lacan conta nos 'S riu; ,I'
que o presidente Jones o interrompeu desde os primeiros minuto. P r qu 11.
razões? O Iato permanece sendo um mistério completo, ainda mais gu , m-
bora o texto stcja indexado no International Journal 01 Psycn anal sts
(IJP) sob o utulo de The looking-glass-phase, ele também nã r i publi • I to
pela revista da PI, 'i Revue Française de Psychanalyse (I FP) r i "p rdl-
do" pelo próprio autor. Sem nos lançarmo aqui em interpr ta' ~ s, I <.I 111)
notar qu ' este I'n.ICUSS() 110 plano interna 'j nal crtamcnt foi m rdaz,
Por outro lado, IH) 1110111.nto U' sua Iitulariza ão, m 1 8, Lu' in r w.
sun primeira exposicãu nu SPP: I t l'lmpulst nau omple ': o I' St1l11( I 11I
ximuni 'U 'íio ubundunt • roi r' li id P '10 prõpri Ln an, 121' d r 11 I Ir "'1111
/lI Jio 'sll'lIll1l'tll prhuordiul" lho" I) • )11'0 d P d \. tio nu ' n to
lu": npnr • 'l'ill ar "1\ pul: 1 111 ,I Id( puro" m I' I "ti, lI( rror" 1\

l°lt. !tUII!! 11\ 'u, 11/ /11111///11' ,/ ,v ('/'/11 11., 01'. clt, 1 "140 1 li! WIII I 11" fi ( 111/'/11 r, li \ I, (!IV 11111
li IIIH I,

I IJ
paráveis de uma "beatitude passiva". Para tanto, ele expõe longarnente dois fende a posição do expert, o Or. Logre, que ele conhecera na Enfermaria I,
casos. A discussão subseqüente é apaixonante pela ambigüidade do tom. Bo- Prisão, recusa-se a atribuir apenas à sociedade e aos conflitos de elass l
reI pergunta por exemplo - com humor? - se Lacan não está querendo, de- tipo de crime e valoriza a responsabilidade - e mesmo o desejo de r SI n,
pois de seu "estádio do espelho", criar um outro estádio mais arcaico, "sa- bilidade - em tais criminosos, assim como o papel importante da san 0,)-
tumino": em suma, Lacan está refazendo - ou rebatizando? - estádios freu- cial em seu caso. Aliás, ele dedica este texto ao Or. Georges Duma ,pn f' •
dianos clássicos, ignorando (em aparência) os trabalhos de Karl Abraham e sor da Sorbonne, que fazia também apresentações de doentes m I nl •
Melanie Klein. Quanto a Heinz Hartmann, presente em Paris para fazer al- Anne, num espírito violentamente antipsicanalítico. Aí termina sua 1(1).
gumas "curtas análises didáticas" ou "controles" na SPP, ele duvida da ração com os surrealistas, embora ele mantenha amizade com alguns Ú t
"natureza primitiva das pulsões postas em causa". Uma discussão que deve Ele nunca respondeu a nenhum de seus questionários, nunca parti ip I ti
espantar os lacanianos atuais. Não esqueçamos que, ap6s a guerra, Hartmann nenhuma de suas ações.
será, como fundador da "ego-psychology", o alvo preferido de Lacan. Do mesmo modo, sua amizade com Bataille nunca o engajou nos nu J.
Em maio de 1939 a SPP comporta quarenta e seis membros, dos quais tiplos grupos que ele fundava. Ele não se interessou por Contra- ltt»
vinte e quatro são titulares: Lagache, aderente em 1936, é nomeado titular que (1935), onde se reagruparam por um tempo simpatizantes do omun •
antes de Lacan, em 1937. E vemos aparecer, na lista dos aderentes de 1938, mo, surrealistas e Bataille, para analisar a situação política mundial; n m I •
Françoise Marette (Dolto), uma das analisadas de Laforgue e uma das alunas 10 Collêge de Sociologie (1937), embora gostasse de discutir durant h rn
preferidas de Pichon. Lacan, talvez porque as pessoas se defendam dele, tal- com Bataille e Caillois, cujas idéias o influenciaram. Ainda men S p lu
vez porque não tenha passado ainda da mentalidade psiquiátrica à mentali- ciedade secreta de L'Acéphale. Mas ele permaneceu mesmo afa tad du,'·
dade psicanalítica, não é ainda senão um dentre todos os outros no grupo. ciéte de Psychologie collective fundada em 1936 pelo Or. Allendy, atallle,
Apenas Pichon conta com ele para realizar seu sonho de uma psicanálise Or. Borel, Leiris e Or. Schiff, inquietos com o fascismo e o nazi m . L I' II ,
bem francesa. Quando, em 1938, Freud, sua mulher e sua filha passam por à parte as sociedades profissionais obrigat6rias, gosta de ser um h I m
Paris na casa da Princesa antes de chegar a Londres, os dois homens não se A sim é para com Bataille, que muito cedo se interessou pela etn I i, til ,
encontrarão. Freud recusou qualquer contato direto com o conjunto da SPP. Lacan foi com ele, Monnerot e Leiris seguir as aulas de Marcel Maus, " Um,
Poucos psicanalistas franceses o interessavam e Lacan não fazia parte deste ünica coisa é certa: ele freqüentou, com Queneau, Bataille, Jean Wahl m 1 •
número. t s outros, as aulas de Kojêve na Escola Prática dos Altos E tud s, tntr •
Paradoxalmente, foi com os surrealistas que Lacan conheceu a celebri- duction à ta lecture de Hegel, que se manteve de 1933 a 1939. Mas n <.I\ I •
dade: ele tinha feito "seu caro amigo Crevel" ler umas páginas escritas por segura que ele tenha ido aí desde o início, nem que fosse muit assíduo, 111·
"Aimée" e este as difundira no grupo. A saída da tese foi um entusiasmo: v nos últimos anos.
enfim, um psiquiatra segundo nosso coração! Fato que Crevel relata logo em Em compensação, vemo-lo, sem dúvida, às vezes, na aulas d J n t ni
seguida no número 5/6 do Surréalisme au service de Ia révolution, sob o tí- légio de França - Janet que fez o elogio de ua te e, em 1 ,n S 1111 ,-
tulo Notes en vue d'une psychodialectique, número onde, aliás, figura muito L s Médico-Psychologiques, a prop6 ito dos trouble de ta p rs nnall: ,\'.
vivo o crime das irmãs Papin que, juntas mataram sua patroa e sua filha. La- iate -, Janet, o rival infeliz de Freud e p r quem acan tinha nt ruu 1 I
can, solicitado, publica em 1933 no número 1 da revista Minotaure (nome admira ã "O e tádio d e p lho" n pr va a imp rtân ia u tiv rum 1 \.

encontrado por Georges Bataille, mas que lhe foi tomado) um artigo sobre le ra Ic as aulas d Wall 11, psí 61 o e médi ,dir t r d Ia rat ri n \ I. •
problême du style et les formes paranoiaques de l' expérience, ao mesmo Ia Práti a d s Alt s ~stlld s m L 27 pr f ss r do Col i I Jlr me \ ))\
tempo em que Dali publica L' interprétation paranoiaque-critique de l' image J 7: a influ n ia d Suas lei ia n ien ln tlvl tualisatl ti 1/( , 1 s

obsédante: l'Angélus de Millet, onde faz referência à tese de Lacan, em sua I r I r' '/1'% I' nfan: 1 1 d li li fi rn I " 111\'
pr6pria perspectiva, claro. Mas, desde o número 3/4 de Minotaure, Lacan ti '(lrf1, 'r /1 I 1'/11I 'a put nt. ,<.I h n n 11m 1\( ,
pode se expressar sobre "os motivos do crime paran6ico", a prop6sit do r is < \ UI\) \ n )111 n [I 1 W 111011ru I V 1\1) 1\1) 01
processo das irmãs Papin, que apaixonava entã toda a r n a, parti ular- 1 \I'! I' 1.11 1\1\ n I \I') I \ \.1 \ : () 11[ I /. /lI/r
mente os intelectuais. Ele se piei na r s lutam nt m psiqui ur , /I t: I 11I1 I '\ I /flt I '1/1 '/ I I I/ /',\ '/ I j I / null ir, s /(111/

130 lU
fiares em patologia publicado na Encyclopédie Française de Monzie pela da república igualitária demais, seus discursos publicados em seguida na 11".
Larousse em 1938. Encontramos aí já todas as idéias fundamentais de Lacan prensa maurrassiana e violentamente racistas? Mas ele foi um ami l' \I I
sobre o desenvolvimento do indivíduo, a função da família e sobretudo do Minkowski, tinha auxiliado Eugénie Sokolnicka, judia polonesa e nã -n I.
pai sobre a decadência das sociedades. Embora Pichon lhe responda, por ve- ca, isolada e vivendo na miséria. Ap6s seu suicídio, foi ele que redi iu
zes ironicamente, em seu artigo da RFP: La famille devant M. Lacan 11, isto crol6gio de sua antiga analista. É aí que podemos retomar a fórmula I EII
não impede que eles compartilhem as idéias fundamentais. sabeth Roudinesco: Or. Jekyl e Mr. Hyde14• Para ele também, talv z, qu •
Pichon parece depositar em Lacan a esperança de que se constitua, en- mar os livros de Freud, denunciar a psicanálise como "ciência judia" n ,I
fim, uma "psicanálise francesa", livre em relação à ortodoxia freudiana da concebível senão na "Barbárie" do outro lado do Reno. Ou então l d
IPA. Quanto a Lacan, ele admira em Pichon o apaixonado pela linguagem e razões diferentes - judeus exilados da Europa central, judeus íran ,
pela nominação: genro de Janet (que ele às vezes convidava para as sessões franceses de origem, chauvinistas ou liberais profundamente anti-ru 'I li ,
da SPP), ele se consagrava também, com seu tio, à famosa Grammaire Da- ou, como Laforgue, alsaciano que fez a guerra de 14 do lado alem () uu
mourette et Pichon. Inútil dizer que ele militava pela criação de um voca- de voltar a ser francês -, se sentiam protegidos pela imagem de uma FI' in • I,
bulário psicanalttico, para renovã-lo afrancesando-o, "O Sr. Lacan - diz ele país das liberdades universais e da democracia? Sem dúvida a rnai ria '( 111-
- tem razão de dizer que o conceito nasce com a linguagem 12". Por um la- preendeu a gravidade da situação quando Marie Bonaparte teve qu , 101
do, Lacan foi realmente seu herdeiro: ele lhe prestará inclusive uma vibrante meio de intervenções e finanças, arrancar Freud, sua mulher e sua filha Ann ,
homenagem no Congresso de Roma em 1953, atribuindo sua "adivinhação" dos nazistas instalados em Viena: em março de 1938, a SPP prot sta ontru
da teoria e das pessoas "ao seu exercício da semântica". "as perseguições de que é vítima o Prof. Freud" que é prontamente norn n 10
Enquanto este grupo ainda heter6cIito vive seus conflitos, tolerando membro honorário, com Anna Freud e Jones. Ela acolhe emigrados 'li lu v 'I.
entre seus membros as diferenças nacionais, raciais, culturais e políticas, a mais numerosos e Paul Schiff tenta criar para eles um status de "m '!\lI ro 1\, -
hist6ria, ela, encarrega-se de seu destino. Ora, diferentemente de inúmeros sociado" que Ihes permita trabalhar na França. Enfim, no Con r ss: 1111 I-
escritores (Gide, Martin du Gard, os surrealistas, Bataille, Leiris, R. Rol- nacional, que ocorre em Paris em agosto de 1938, parece que se fala mni: ti I
land, Malraux ou Orieu de La Rochelle, etc.), nada parece alertã-los, pelo guerra que está por vir do que do conflito crucial entre arneri anos' li' I
menos como grupo: nem fevereiro de 1934, nem o Front popular, nem as peus, sobre a questão dos analistas não-médicos.
ideologias antagonistas que se desenvolvem na França. Nem mesmo o que se Mas, mesmo se se pensa na guerra, pensar-se-ia na "guerra sin ulur"
fica sabendo da URSS, do fascismo, do nazismo, da guerra de Espanha. Tal- que logo vai mandar os emigrados para mais longe ainda? is o qu no: 101
vez Munique? Lacan, em 1946, numa comunicação à Ep13, declara que de- na humildes, por nossa vez, diante dos acontecimento qu viv n Oll • ~ I-
pois do Congresso de Marienbad, em 1936, ele assistira às Olimpíadas de mente e que não julgamos, com freqüência, "previsíveis" senão apr S '0/11,
Berlim e anunciara, na sua volta, a ameaça que constituía, por seu modo de ra, a Segunda Guerra Mundial, no momento em que Frcud rnorr 111 1.011-
organização e seu espírito, o exército alemão. É pouco. A psicanálise apare- Ir s, vai revolucionar não somente a SPP ainda muito frá il, rnus uxlo ()
ceria, aos olhos deles, em sua marginalidade mesmo, como uma sorte de co- quilíbrio geográfico e cultural da psi análise, inclusive suas implic \ '
munidade internacional, segundo o voto de Freud concretizado pela IPA? t 6ri as e prática .
Reforçando esta idéia tão propagada de que toda pertença científica - aqui a
psiquiatria ou a psicanálise - não tem ligação com a política reservada à vida
privada de cada um? Ao ponto de esquecer o engajamento de Pichon na Li-
gue de l'Action Française, sua defesa do 6 de fevereiro de 1934, sua recusa

11E. Pichon, "La famille devant M. Lacan", RFP, 1939-1/2. É neste mesmo número que aparece a
primeira comunicação de Lacan na SPP: "De I'impulsion au complexe".
12Idem 14p uuru rul, qu n () 1\ 1111,11111 /\ II 1111\11/\ 11 li" ('1.11. I? I () II {,li 1//111111I ti • /lI 111',

13"La Psychiatrie Anglaise", art. citado. fll • 1'11.

132
1939-1944: OS ANOS DO SILÊNCIO muito mais o chinês). Uma outra anedota circula: Lacan t ria id ~\ITI\ll' li' \
declaração de judia da Sra. Maklês, mãe de Sylvia, na Delega ia d I (I .
Possuímos poucas informações certas sobre este período da vida de La- e, missão cumprida, teria dito: "Aqueles senhores me fizeram esp rur". li
can: o segundo volume anunciado por Roudinesco sobre a história da psi- to corajoso e individual, de acordo com o personagem - Lacan tulv '/. I 11111
canálise na França!" certamente nos trará documentos inéditos. ajudado também algumas outras pessoas - mas sem engajamento oJ tlvo,
Lacan é mobilizado ao hospital do Val-de-Grâce, onde, em 1940, é Devemos inserir tudo isto num conjunto: primeiramente a disp rs \I
nomeado para o serviço especial dos oficiais: ele evoca "este inesquecível o desaparecimento, pelo menos oficial, das duas sociedades às quuis I 111
desfile (... ) de sujeitos mal saídos de debaixo da saia da mãe ou da esposa", tencia. A SPP é obrigada a fechar seu Instituto de Psicanális, m I)) I (I I
ou ainda "o efeito de degradação do tipo viril", "em escala coletiva", ligado 1940, protegendo os arquivos e os livros; evidentemente, sua r vi, LI' 11
segundo ele à "degradação da Imago paterna"16 que ele denunciara desde de ser publicada. A EP, menos ameaçada - pois não é manif Llln 111
1938 em seu artigo sobre A Famüia. "ciência judia" -, suspende também sua publicação. Mas não d ixa ti or I
Durante a Ocupação, ele não participou de nenhuma atividade oficial, nizar reuniões e discussões cujo eco se faz ouvir nos primeir s m1111I) pu-
nem mesmo da reunião de psiquiatras organizada por Ey em Bonneval, em blicados apõs a Liberação. A dupla pertença de muitos obriga a nuan '11' \
1943. Ele se explica em 1946: "Afastei-me durante vários anos de qualquer análises e a seguir itinerários individuais, como o faz, para alguns, J udl-
propósito de me expressar. A humilhação de nosso tempo, sob os inimigos nesco!".
de gênero humano, revoltava-me, e eu me abandonei como Fontenelle a este
fantasma de ter a mão cheia de verdades para melhor fechá-Ia sobre elas.
Confesso o ridículo disso, porque marca os limites de um ser no momento
em que vai prestar testemunho'?", Continuou ele uma prática hospitalar?
Não encontrei nenhum traço disto, pelo menos oficial. Em compensação, pa-
rece realmente que ele prosseguiu sua atividade psicanalítica privada (análi-
ses terapêuticas e didáticas): A. de Mijolla recolheu, sobre este ponto, o tes-
temunho de J. Leuba'" e alguns outros testemunhos confirmaram-me isto.
Ele ia, também, juntar-se à família Maklês, no Midi, perto de Nice;
família judia que fugira de Paris para a zona livre e cujas três filhas eram
muito ligadas aos meios surrealistas e de vanguarda. Ele reencontrou aí
Sylvia Bataille - que se casou com Georges Bataille, em 1928, e continua
muito conhecida por seus papéis em filmes de Renoir - com sua filhinha; a
irmã de Sylvia casada com Jean Piel, amigo de Bataille que lhe legou, à sua
morte, a direção da revista Critique; enquanto a terceira irmã, Rose, mulher
do pintor André Masson, partia logo em seguida com ele para os Estados
Unidos - como Breton e outros ... Talvez seja isto o que fez com que alguns
dissessem que Lacan passou esses anos longe de Paris se cultivando e
aprendendo japonês (se assim fosse, segundo as declarações de Lacan, seria

15Idem
16"La Psychiatrie Anglaise", art. citado.
17Idem
18A. de Mijolla, "La Psychanalysc cn rrancc", in lIistoire de 10 psy hanalyse, sob [I dir 'çno d R.
Jaccard, t. li, Hachcuc, 1982. lU/li /1111 li" ri ,\ 111 IIV, tll",II" 11" \tll 1111\ IIprll\11 \",

r:
ter elos em torno de seu hospital de Bonneval, Daniel Lagache, recolhido em
Clermont-Ferrand com a universidade de Estrasburgo, cria aí uma consul-
tação médico-psicol6gica para crianças e adolescentes inadaptados e conti-
nua seu ensino de "Psicologia clínica". Psiquiatras como Lucien Bonnafé e
François Tosquelles - que reencontramos na EP e depois no meio lacaniano
- tentam novas experiências no hospital de Saint-Alban (eles dirão mais tar-
de o quanto a tese de Lacan lhes foi útil). E lembremo-nos do relato que
Maud Mannoni faz de suas aprendizagens na Bélgica durante a guerra'". To-
do um trabalho subterrâneo se cumpre, assim, cujos frutos veremos ap6s
1945.
Então Lacan foi, neste período, o grande lobo solitário? Erigido numa
recusa soberba tanto do engajamento numa luta comum quanto da partici-
pação em atividades profissionais que podiam passar como compromissos
com a realidade hist6rica? Sua atitude continua sendo um enigma para mim.
Lacan, um individualista ferrenho? Um homem que tem necessidade de uma
lei segura para aí encontrar apoio para sua marginalidade? Um homem pouco
à vontade nas situações social e ideologicamente incertas ou desesperadas?
Em todo caso, sua solução foi o silêncio: posição corajosa - pois sua vida
material era então diffcil - mas também posição de expectativa.

1945-1952: DA PSIQUIATRIA À PSICANÁLISE


O ENGAJAMENTO NA SPP

Em 1945, a França vive como que uma ressurreição, enquanto no plano


internacional ocorrem ao mesmo tempo a conferência de Yalta, Hiroxima e
Nagasaki ... e a fundação da ONU. Desde 1946 começa a guerra da Indochi-
na; desde 1947, os comunistas deixam o governo e o plano Marshall tem
como respondente o Kominform; em 1948, é o golpe de Praga e o bloco de
Berlim, o nascimento difícil do Estado de Israel; em 1949, a divisão oficial
da Alemanha e o nascimento da República Popular da China; em 1950, a
guerra da Coréia, etc. O que não impede a euforia: tudo parece de novo
possível. Milhões de revistas e jornais nascem e grupos se reconstituem, re-
velando uma nova geração: Les Temps Modernes em 1945 em torno de Sar-
tre, Critique fundada por Bataille em 1946 com artigos sobre Nietzsche,
Heidegger, Mallarmé e Sade (o que não era comum na época). Do lado dos
comunistas, é Aragon nas Lettres Françaises e Kanapa em La Nouvelle ri-
tique. Do lado dos cristãos de esquerda, Esprit, t .. Quando id btérn

20Maud Mannoni, principulrn nt em /.(' .'1.1'11I[11"11I(' (0/ /(. Savoir, S 1111, I' lU.
modo útil no país em guerra. Ele admira do mesmo modo os centros de re-
conv~rsão à vida civil e vê todo um futuro se abrir, onde os psiquiatras-psi-
canalistas desempenhariam um papel social fundamental em todas as idades
da vida. É necessário ler este texto - do qual falamos em nossa apresentação
onde são pintados admiráveis retratos de Bion, de Rickmann, do major
Doyle. Em suma, foi por um fio de cabelo - segundo a leitura desta comuni-
cação - que Lacan não se tornou o organizador, na França, de um atendi-
mento maciço da população. Na discussão que se segue, são Ey e Schiff que
fazem reservas diante desta extensão da psiquiatria-psicoterapia ao conjunto
do universo social. Quanto ao "meu caro amigo", o Dr. Major Turquet, pre-
sente na sala, tornar-se-á mais tarde o pavão atacado fortemente por Lacan,
quando dos conflitos com a IPA ...
Por outro lado - e não é contraditório -, Lacan, convidado a falar em
Bonneval por Ey, durante um colóquio sobre "a psicogênese das neuroses",
faz uma comunicação destrutiva, extremamente violenta, contra "o organo-
dinamismo" de Ey. Afirma sem nenhuma dúvida possível, que "a loucura é
vivida toda no registro do sentido". Para Jacques Alain-Miller, é a verdadei-
ra entrada de Lacan no universo psicanalítico: que ela se opere a propósito
da "loucura", termo genérico demais para ser cientificamente válido, não é
indiferente. Uma posição tão parcial assim é evidentemente provocadora: Ey
responde não menos violentamente, opondo "a psiquiatria das cidades" à
"psiquiatria dos campos" e, sobretudo, reprovando Lacan por continuar ao
mesmo tempo fascinado pelo "mecanismo estéril" de Clérambault e irresisti-
velmente atraído pela metafísica (Heidegger, Hegel e, "para além de Hegel,
pela Logique de ia folie")21. Embora as discussões sejam sempre acirradas
quando das sessões da Sociedade, onde Ey quer distinguir a psiquiatria tanto
da neurologia quanto da psicanálise, Lacan é bem assíduo, pois ele tem ain-
da mais desprezo pelo "serralho analítico"! Ele faz parte do Comitê de Re-
daçãooe~ 1947, bem como do Comitê redator de "La Bibliothêque Neuro-
Psychiatrique de langue française", criado nas edições Desclée de Brouwer.
Estaríamos errados se imaginássemos um Lacan purista, separado dos meios
psiquiátricos, ou de misturar sua presença na EP aos desvinculados da SPP.
Lacan continuará até o fim membro da EP e, detalhe revelador, por exemplo,
em 1964 uma página inteira da revista anuncia a criação da École Freu-
dienne em Paris.
A história da SPP é mais tumultuosa. Desde 1946 ela retoma suas ati-
vidades com John Leuba como presidente. Dos fundadores, só restam Marie

21 •• p I C lité I) "O
ropos sur a ausa I sychique", lnlervençiio c dlscussõ s in 'I. 1947-1, o em L Prob! m li
o

Ia psychogénêse des névroses et des psychos sI cscléo do Hrouw r, I 50 (r d. 19'77).

I 8
""
""""

É em novembro de 1952 que a crise aberta estoura: quando Nacht que descreve a "faculdade analftica" ideal onde, ao lado da psiquiatria n •
propõe ao mesmo tempo os estatutos do Instituto e o programa de ensino. cessária ao psicanalista, ensinar-se-ia tudo o que os médicos ignoram,
Dois pontos suscitam a oposição de um grande número: a exposição de mo- matérias ditas literárias ou culturais (mitologia, história, psicologia da 1•
tivos, que submete a psicanálise à neurobiologia e a decisão de obter o reco- giões, crítica literária, etc.). Lacan propõe evitar "a política pessoal da d •
nhecimento do diploma pelos organismos oficiais. Esta concepção puramente reção", assegurando a divisão de poderes. Enfim, recusando a "formaliz
médica da psicanálise inquieta os não-médicos e principalmente Marie Bo- dos estudos", ele organiza o curso em tomo de quatro tipos de sernin
naparte, que sempre apoiou "a análise profana", Bouvet e Lagache, contudo (comentários dos textos originais e notadamente freudianos; aulas de t n
médicos. E descobre-se subitamente o quanto os antigos analisados de La- controlada; crítica clínica e fenomenolõgica; psicanálise de crianças •• n I
forgue (Berge, Dolto, Favez-Boutonier, Reverchon-Jouve) tinham sido man- se oferece à ánalise o mais desconhecido a conquistar"), mas deixand UII)
tidos afastados ou se sentiam pouco à vontade na vida institucional da SPP. grande liberdade de escolha para os estudantes em formação, com a id \ ti
O pr6prio Lagache, trabalhando em Estrasburgo, essencialmente universitá- que a obrigação de assiduidade e de exame degrada mais do que a u
rio apesar de seu diploma de médico, sente-se isolado face ao clã sõlido de nível dos estudos'",
Nacht e à amizade entre Nacht e Lacan. Eles se unem, pois, formando "o clã Na realidade, perguntamo-nos se o texto importa verdadeiram nt ,t 11-
dos liberais", hostil à burocratização da Sociedade e ao sistema hierárquico to o meio restrito dos titulares está entregue à guerra dos clãs, às n o-
e rtgído que é proposto; hostil também a uma concepção puramente médica ciações de corredor, aos jogos de influência, aos entendimentos ocult s,
da psicanálise. Acrescentemos a falta de jeito (delirante, quase) de Nacht, interesses não confessados, num clima passional que reconhecemos b m, p
que se reserva o ensino do último ano, atribuindo a Lagache um seminário pouco que tenhamos freqüentado quaisquer grupos (políticos, sindicais, fi •
de Vocabulaire et Bibliographie en Psychanalyse, a Lacan um seminário de sociativos, profissionais, comitês de empresa, etc.). Todos conhecem d til
textos para os alunos do primeiro ano e alguns "cursos sobre os mecanismos fatídica: em 20 de janeiro de 1953, dever-se-á proceder à eleição da r l •
do Eu, as perversões sexuais, as neuroses de caráter e a paranóia" com "uma ria da Sociedade, ao voto dos estatutos do Instituto e à eleição de u ml
conferência extraordinária sobre o tema Psicanálise e folclore, o que, visto Diretor.
as circunstâncias, não deixa de ser apimentado'?". Quanto aos outros, eles Na expectativa, Marie Bonaparte faz circular emendas ao t tut ,
recebem as migalhas. Pode-se falar de autocracia. Com o apoio de Marie Nacht cede sobre alguns pontos para ganhar em outros, reman jand 11
Bonaparte, de Bouvet, de Cénac e de Odette Codet, o clã dos liberais toma- pr6prio texto. Mas conta-se também com a fraqueza real de La an: I ti
se majoritário. Se passamos por cima das peripécias, retemos que, em de- 1951, intimam-no a se dobrar às normas da formação didática que I v t I
zembro de 1952, Lacan é eleito diretor do Instituto. Ele se compromete, ele promete, mas não muda nada em sua prática das sessões curta ,tant n
então, a propor novos estatutos e a não ocupar esta função senão pelo tempo didáticas quanto nas análises de controle (do que ele nunca fala, quand
de conciliar as posições antagônicas: ei-lo mediador. Mas de modo precário: discute esta questão). Muito habilmente, a Comissão de En in ,a 1
é eleito no segundo turno por nove votos contra oito e um voto em branco ... n iro de 1953, requestiona o problema do ritmo e da duraçã das s s
análise didática. O voto é conquistado por unanimidade: portant, fi n V -
t contra sua pr6pria prática - e todo mundo o ab ,p i 6 1 t m um t
da didáticas. Acre cent m s ntr les, seu eminãrío, as r uni
o ANO 1953: A PRIMEIRA CISÃO
PP da P, uas muni a r sto ... as p s as ab m nt r
E O FAMOSO DISCURSO DE ROMA
s dia. As im, 1 par fiáv 1: 1 v ta a n rma m 1
di. N faria m sm s tiv n p d r? 1\ r vírav lt
Em janeiro, Lacan dirige a todos os titulares seu projeto de estatutos
rín ,qu n und nn I mdld turn d I..• il \lI pr d n II dn ,
para o Instituto, precisando que ele visa "o acordo e não o compromisso".
No lugar da referência à neurobiologia, ele põe no exergo o texto de Freud

22 A. de Mijolla, art, citado, p. 53.

142
Lacan do mandato presidencial. Nacht retoma o processo das ses õe urtns;
Lacan responde que "todas as suas análises didáticas (exceto uma) st \0 r •
gularizadas desde janeiro no que concerne à duração das sessõe . N '1\1
concerne ao ritmo, nenhum compromisso tinha sido assumido por ele". 1\. I
Mijolla lembra os processos verbais oficiais da Sociedade redigidos por I i "
re Marty. "Lacan reconhece que foi imprudente. Ele tomou liberdad li 111\
do que perigosas". Ele reconhece suas faltas mas s6 tem um desej : •• [u
Instituto viva", onde ele almeja trabalhar. Ele solicita uma comissâ de \1'1 •
tragem: o que leva A. de Mijolla a pensar que Lacan não provocou a '1/11\)
até não a desejava". Mas em 16 de junho esta moção é rejeitada p r 1.11 ,-
che, Dolto e Favez-Boutonier: eles estão preparando uma outra so i I \ I
mais "livre", onde o modelo seria tanto universitário quanto médi
aventuroso e mais inventivo.
Em 16 de junho, é a sessão dramática: Odette Codet propõe qu ) v •
ce-presidente assegure as funções de presidente, antes de nova I
Lacan pede sua demissão depois do voto de desconfiança, Lagach vi -f'r '-
idente toma seu lugar e declara: "Os abaixo-assinados, membros da " )' •
dade Francesa de Psicanálise, grupo de Estudos e de Pesquisas FI' udianu ,
pedem sua demissão da SPP" (J. Favez-Boutonier, F. DoIto, D. La a h ,1\
Sra. Favez distribui à assembléia uma nota explicativa de três páginas. L 1\
che convida Mâle a assumir a presidência da assembléia e deixa a sal I '0111
as Sras. Favez, Dolto e Reverchon-Jouve (que assinou o texto d d mh \I
no meio-tempo). "Lacan, de pé na sala, declara neste momento p dlr 1I \
demissão da SPP. Mâle propõe, então, que o decano em idade, Parch 'mlu
seja nomeado para a presídência"?". Segundo as versões, Lacan tinha 10
prevenido na véspera ou então, ao contrário, teria subitamente ad fiel - 1I
me mo se imposto - a este novo grupo, no desespero dramático d st I J1 11 •
que quer que seja, ele dirá nos anos 70 que tinha julgado prud nt S
C rmar sobre as conseqüências desta demissão, ma que a carta já ( IV I
pr nta, É verdade ou história reconstruída a posteriori? enigma m h 1110
d pap 1 de Lacan na criação da SFP ainda permanece.
em todo ca o, por au a de ua excelentes rela õcs c m rn mbro 111\-
P rtant da lPA, t do e tã certo de serem irn diatarn nt a
rup autôn 1110. ra, de de 6 cI julh , sã inf rrnad s d sua
cI 11 r ss d ndr s nde, m 2 d julh , sua s rt li'
dida. ~l s 1111 p usaram qu SUH cI n tssão sa 'P 1 ria du SI'P, I II
S!TI nuuo prév] ( rn 1141' «tu lu, ocl IIU Int ma 'i n I, v l)ll '\)IIUI

24A.lI MIJ(lItI,III\, IIIdn,


2O',,,Sd,\wlllltl IV'I 01\111011 A,Ii M 1011111dll\llo,
demissão - ou cancelamento - da IP A. E não é a Princesa quem vai facilitar Em julho de 1953, o bureau provisório da SFP compreende· D. H, \-
as coisas. Lagache redige um memorandum para solicitar a afiliação à IP A: é che (presidente), 1. Favez-Boutonier (vice-presidente), F. Dolto ( e r tãrtn ,
interessante observar que ele consagra um longo parágrafo ao problema es- 1. Lacan (tesoureiro), enquanto o grupo de estudos (39 membros) ele 1\1 •

pinhoso da "técnica" e da "personalidade de Lacan" para assegurar sua per- zieu, Durandin, Liebschutz (Serge Leclaire), Perrier e Schweich. A I rim 11'I
feita ortodoxia atual e, por outro lado, que ele evoca freqüentemente, de mo- reunião científica ocorre no anfiteatro de Sainte-Anne em 8 de julho I
do desajeitado, as posições e a ação da Princesa, cujo poder real na IP A se 1953: Lacan pronuncia aí sua conferência sobre Le Symbolique, l' Imag 111I •
conhece/", Lacan multiplica as cartas a Balint, a Loewenstein, seu antigo re et le Rée[29. É realmente uma nova teoria que se esboça: a cornuni '(I' 1\
analista, a Heinz Hartmann, ao Dr. Perrotti, organizador da XV Conferência do Congresso de Roma o confirma. .
dos Analistas de Línguas Romanas em Roma. A carta-abundante endereçada A correspondência de Lacan com o Prof. Perrotti permite finulm 'o!
a Loewenstein merece não s6 a leitura mas a análise, de tanto que é revela- presença da SFP em Roma, em torno da intervenção de Lacan, m sm, 111'
dora da invenção lacaniana nas situações desesperadas-". A IPA decide em Pasche tenha sido encarregado do relatório da SPP em seu lugar. 1\ 'r '(lItu-
Londres criar uma comissão de enquete antes de qualquer reconhecimento: ver aí o sinal de um reconhecimento internacional e a exaltação está no 111 -
esta é composta pelos Drs. K. R. Eissler, Greenacre, Lampl-de-Groot, ximo. Lacan distribuiu seu relato "Função e campo da palavra e da lin '\I \-
Winnicott e pela Sra. H. Hoffer. E isto apesar dos apelos de pacificação de gem:"
m., mas , em 26 de setembro de 1953 ' ele mesmo levado pelo cruusluam ,
Loewenstein, que pleiteia a afiliação. Desde então, dez anos vão se passar a lança-se numa improvisação que galvaniza a sala. Este famoso "I is 'UI'SO
tentar obter o reconhecimento da IPA, num clima envenenado, pois os ana- onde, por uma vez, ele não é nada mallarméano", como diz La 'a '\1' '0111
listas em formação embarcados na aventura ignoravam, mais ainda que seus humor, ficará por muito tempo na memória dos participantes, mas 11 di -
mestres, que seriam votados ao isolamento ao nível internacional. A crise de
1963-1964 está estreitamente ligada à de 1953: a segunda cisão se fará em
condições ainda mais lamentáveis.
cussão se centra principalmente nas teses essenciais do relato, 1\ .artu I'
Favez-Boutonier, lida na sala, dá bem o tom geral: ela o consrncra '01110 " \
primeira manifestação internacional, eu deveria dizer, o manifesto du So 'I '-
'.
No momento, os analistas em formação vivem dificilmente esta ruptura: dade Francesa de Psicanálise", ao mesmo tempo o ponto de partida de 1011-
nem todos estão tão certos de sua escolha como 1enny Roudinesco-Aubry. gas discussões a vir. Todos que intervieram falam de seu acordo su I, I' -
Alguns se engajam na SFP por causa do liberalismo dos estatutos, que servas ou desacordos; até mesmo Françoise Dolto, que se apr s
prevêem que os analistas em formação se constituem em Grupo de Estudos "pequeno Dragão", ao lado do "grande Dragão" Lacan e d
de Psicanálise independente, e confiam no liberalismo de Lagache. Outros Dragão" Lagache, levanta-se com vigor contra o desprezo d a .an I
vão por causa de Françoise Dolto, ou para seguir seus analistas. Não há dú- "mitologia da maturação instintiva". "Não posso, diz ela, ac itar tu
vida de que Lacan traz muitos, visto o número de suas didáticas e o sucesso hip6tese seja desacreditada". Lagache é o mais minucioso em suas unáll
de seu seminário de textos. Mas pode-se gostar de seguir o seminário de La- Anzieu o mais claramente contrário à concepção da linguag 111 em Lu iun
can e não desejar uma análise ou um controle com ele. Não se quer deixar idéia de "que a linguagem seja tudo em psicanális ", arantia ti lit I I'" \
Lagache, mas não se tem confiança em Lacan. Pode-se querer ficar na SPP e d pen amento, e portanto de invenção e de int r ârnbios ric 5, na nov I •'( •
sofrer pela partida de uma analista, um controlador ou um professor. Pode-se iedade? Ou primfcias de posições teóricas ins lüv is d li I a Iun 1\' )
almejar um estatuto mais livre (o da SFP) sem querer perder a aprendizagem 111 smo de te grupo mais hetero n o do que pare 'e?
clínica com Nacht ou a fineza analítica de Bouvet e de Schlumberger, etc.
Que escolha dolorosa! Em sua carta a Loewenstein, Lacan mente sobre o
número de alunos: na realidade, apenas um pouco mais da metade parte para
a SFP, se acreditarmos nos documentos da pr6pria SFP28.

26Idem
27Ibid.
28Ibid. 'UI1II n Ipulll '1111111 lu/lltl',/"d r ,1.\1I/l1/01i/'1 1/11/ 1II1,IIlH I.

I 7
146
OUTONO 1953 - AGOSTO 1963 ziam parte da Sociedade): é um fato pouco conhecido que A. de Mij IIn no
OS FUNDAMENTOS DA TEORIA LACANIANA. faz descobrirê",
A LUTA PELO RECONHECIMENTO INTERNACIONAL O seminário convida ou atrai à platéia personalidades eminent : I
conhecem a interpretação feita por Hyppolite do artigo de Freud s
Durante este período, assistimos a uma verdadeira expansão do pensa- Denegação, durante o primeiro seminário, por exemplo. Até o fim d
mento lacaniano: a acolhida dada à sua f6rmula do "retorno a Freud" - que os intervenientes são muito ativos e crfticos: O. Mannoni, Hypp Iitc, 'I-
se tornou sinal de reunião -, ao seu Relato e ao seu Discurso de Roma, pa- mence Ramnoux (fil6sofo helenista), Colette Audry, Pontalis, .rulre, I)
rece liberar finalmente seu desejo de reelaborar o conjunto dos conceitos R.P. Beirnaert, o matemático Riguet, ou ainda um desconhecid , ap Ir 1\1
analíticos. Sua crítica da literatura e da prática analíticas não poupa pratica- mente mais ao corrente da tradição rabínica que Lacan. Quando nã sl) I
mente ninguém. Quanto a ele, ele retoma a Freud, mas trata-se de uma relei- acordo com "o parteiro do pensamento moderno", eles o dizem. A pUI'! iJ' do
tura feita em relação com a filosofia, a lingüística e a etnologia contemporâ- Seminário 1I1 sobre As Psicoses, parece que o público renunciou a r U i : "
neas, com a cibernética e depois a topologia. exposições de alunos, que a partir de então se tornaram psicanali tas '( nh -
Pela primeira vez seu seminário é aberto ao público, o que vai aumen- cidos, mas são essencialmente as conferências da terça-feira que alirn nt 1111
tar sua audiência em meios diversos. Nisto, ele é auxiliado pela flexibilidade na quarta-feira os comentários de Lacan. Dentre os convidados, cit 11l )1'1 I ()-
de uma Sociedade que escolheu um funcionamento liberal e que, composta yré (sobre Platão), Lévy-Strauss (no Colégio de França em 1959), M rl lU-
por psiquiatras, universitários e psicólogos, acha normal abrir aulas e se- Ponty (no Colégio de França desde 1953), o Prof. Delay, Griaulc, lmSI )-
minários. A SFP está solidamente implantada em dois locais privilegiados: a go, Benveniste, o lingüista e, do lado da psicanálise, Balint vindo d Lon-
Universidade, com Lagache e J. Favez-Boutonier, e a clínica da faculdade dres, Moreno de Nova lorque e Spitz várias vezes, entre outro . Mas S '011-
Sainte-Anne, dirigida pelo Prof. Delay, antigo aluno de Janet, interessado tatos com os psicanalistas permanecem pessoais, sem efeito real s brc I I-
pela psicanálise e por literatura (conhecemos seu livro sobre La jeunesse tuação da SFP, ainda excluída da IPA.
d' A. Gide, do qual Lacan faz uma brilhante análise em Critique). Durante É também durante este período que Lacan redige, a partir d
dez anos, é lá que regularmente Lacan mantém seu seminário todas as quar- minários, conferências ou intervenções nos col6quios, os textos mais 111\1 li
tas-feiras e faz sua apresentação de doentes todas as sextas. tantes que encontramos nos Escritos em 1966: eles são publicad S III I' V
Estes dez primeiros seminários elaboram noções fundamentais sobre tas bem diversas: l' Évolution Psychiatrique (que se recusa a onsld r \I I1
a técnica da psicanálise, seus conceitos essenciais e até sua ética. Vai haver querela SPPtSFP), o Bulletin de la Société Française de Phil s oht«, I)
uma circulação dos estudantes, livres para escolher suas aulas. Assim, mistu- Études Philosophiques, t' Encyclopédie Médico-Chirurgicale ( ra UIl ti J I.
ram-se ao núcleo daqueles que tinham seguido os primeiros seminários os y, mas o artigo será retirado em seguida, sob a pressão d inimi ( 11
fechados na SPP (desde 1951, sobre Dora, O homem dos Lobos e O Ho- PP), Critique, Les Temps Modernes . J. B. Pontalis, s u alun , publlc I,
mem dos Ratos), aqueles que seguem o ensino de Lagache na Sorbonne, on- rn seu consentimento, os relatos dos Seminários I Y, Y c Y I no 81-,,/I('(lll 11'
de ele logo ocupa a cadeira de psicopatologia (J. Favez-Boutonier, sua su- Ps hologie. Mas muitos seminários terão que esp rar 19 1- pnra r 1\1
cessora em Estrasburgo, irá sucedê-lo aí), organiza para a licença de psico- pu li ados à margem da edi ã ficial. rtas nf r n ia sp rur I () hs-
logia um curso de introdução à psicanálise, cria um laborat6rio de psicologia 'rir para ser m conh cidos, bs rva-sc, pois, o I tism iulturul 10. 10-
social e participa por vários anos do Instituto de Criminologia. No centro 'IiN d publicação e prin .ipulm rue a uus n ia I I ais d \ I' Ihid \ J I' I
médico e social Claude Bernard, G. Mauco (não-médico) é por longo tempo unlút 'os: .0111 nt a fundu:ii d sua própria I' vistu, L(I Ps 1 ./t 1/1 11 I.\'l' , 1 I-
diretor, enquanto' J. Favez-Boutonier e depois Berge são seus diretores mé- mlt 'FP xistir n st t imfnío: lu . m cn III nus '111 1'. n o '( nt I
dicos: lá F. Dolto tem consult6rio. Serviços hospitalares p;:tra crianças são 11\'. 'lu il num 'I'OS. Esl s nuim ruo I lsotum nl( , n I for 111~ I !l( rllll()
obtidos pela SFP graças a F. Dolto e J. Roudinesco-Aubry, sobretudo. En- li! n ici n li - Iundu 10 sobre um \ (' 1ii I \ 1\ '011 -r I I ,s I' 1II111 I \ 1\1

fim, muitos membros do Centre d' Études des Sciences de l'Homme, dirigid
por Maryse Choisy, com a revista Psyché criad m 1 4 , v m s juntar à
.tI M 1I1I,lIrl. 111I!Io,l. 11·11.
SFP (ainda mais .que La a hc, . Mano ni, .P. imH rt utr S já f -

148 1 I'
sas, inclusive nos mais. jovens da terceira geração psicanalítica, de um mal- formação. Começa a se criar um "grupo Lacan", reconhecível por sua) 11-
estar e de um desejo de reconhecimento pela IPA. guagem e seus modos de intervenção nas discussões. '
Se olharmos a divisão do ensino ou a repartição dos poderes no interior A SFP tenta sair de seu gueto: Ey organiza em 1954 jornadas sol 1
da Sociedade, o equilíbrio parece mais ou menos mantido. Lagache e J. Fa- "Les états dépressifs", onde Lagache (SFP) preside uma sessão, bem (111)
vez-Boutonier dão cursos, Lacan tem seu seminário e a apresentação de Mâle (SPP) uma outra: o próprio Lacan participa da discussão - do omb I
doentes, G. Favez assegura regularmente o ensino de técnica psicanalític~ - entre os dois grupos. Ey reincide com o famoso VI Colóquio de B nn V I
reservado aos candidatos já responsáveis por análises sob controle. Mas La- sobre L'Inconsciente em 1960: ele reúne filósofos (Hyppolite, Merl 6u-IOl\-
gache faz, às vezes, apresentações de casos, Lacan se encarrega por um ano ty, Lefebvre, Ricoeur, Waelhens), psiquiatras, e os irmãos inimigo Ias rJ 11
do certificado de estudos especiais de neuropsiquiatria e, pouco a pouco, sociedades de psicanálise. Do lado da SPP, André Green e Conrad t 111 I
François Perrier, Serge Leclaire, Jean-Paul Valabrega, Didier Anzieu, Piera quem Lacan vai tentar se juntar; do outro, Laplanche, Leclaire e P rri r, 'OUl
Aulagnier ou Wladimir Granoff começam a organizar grupos, a publicar, a quem Lacan nem sempre está contente. Em todo caso, por sua presen a
dar consultas clínicas. Quanto à Françoise Dolto, colocamo-Ia à parte, na modo de atacar sem escutar, ele transforma esta reunião em "circo",
medida em que é ela quem assume a psicanálise de crianças, com a longa sé- do o termo de H. Ey que, todavia, não hesita em pedir-lhe em seguid
rie de conferências de estudo comparado do desenho e da clínica com a redigir o conjunto de suas observações para o livro a publicar. .. Em 1
criança. Ela não é uma aluna de Lacan, mas uma companheira de trajeto. En- SFP organiza em Royaumont, em seu nome, um colóquio interna i n 1 11
fim, no bureau da Sociedade, as funções e os nomes se intercambiam com qual a participação estrangeira é rara e pouco representativa. O ess n i 1
uma perfeita regularidade (Lagache, Lacan, J. Favez-Boutonier, F. Dolto e um confronto entre as teses de Lagache e as de Lacan. Adi vinha-s b 111 )
às vezes Hesnard) até que Serge Leclaire chega ao secretariado e depois à mal-estar da assistência através do relatório feito por Pontalis para O Buli tlll
presidência. de Psycologie" , Ele fala de sua tristeza diante da "ausência de dís uss
O primeiro número de La Psychanalyse (dirigida por Lacan, Lagache, acirradas em torno das reflexões rigorosas de Lagache" e a ausência d t In-
Perrier e Valabrega) é um número Lacan: não somente se encontram aí o po para "responder às teses que o Sr. Lacan defendeu com o vi or I
"relato e o discurso de Roma" com as discussões e a resposta de Lacan, co- paixão que lhe conhecemos", mas também com "uma preci ão qu 1\ \11
mo os comentários do Seminário I sobre a intervenção de Hyppolite sobre A sempre vimos nele". Sem dúvida ele sente também que "a paixã p 10 V
Denegação, uma tradução de Lacan do Logos de Heidegger, e até o Prélimi- dadeiro encontre sempre, nele, um excitante na polêmica". O )ó lU l ti
naire é manifestamente de sua autoria e o artigo de Benveniste previsto por Amsterdã em 1960 é iniciativa da Universidade municipal e, lá tam )
ele ... Entretanto, os outros números serão mais equilibrados. Novos nomes franceses têm a impressão de que as contribuições vêm principalm nt
aparecem: Pujol, O. Mannoni, Anzieu, Leclaire, Clavreul, Laplanche, Au- Não falemos de um congresso sobre a anorexia, onde os membr s Ia
douard, L Perrier Roubleff, o R.P. Beirnaert, Safouan - e mesmo o indes- ncontram unicamente entre si.
trutível Hesnard, que comenta o famoso Wo es war, soll Ich Werden ("lá A ameaça, aos olhos de muitos, é de asfixia. O prõpri a un, 1 111
onde estava 'o Isso', 'Eu' devo advir", segundo Lacan, contra a tradução da m os outros fundadores, almeja o reconhecimento da IPA. Pura 1m m 10
SPP: "o Eu deve desalojar o Isso") ... Os relatórios das sessões científicas j v ns analistas, que recu arn o autoritarismo de Na ht ou a ri id z c.JI 1\ ''-
provam, aliás, uma grande atividade de todos. Todavia, o número consagra- ma ã da SPP, mas não querem ser absorvid pela engr na m 10 Iíseu )
do ao Colóquio de Royaumont publica (entre outros) o Relato de Lagache, o lu anian ,que faria deles discfpul s para a vida inteira, ti aio lu, 11
Relato de Lacan, mas, além disto, a "Observação" de Lacan "sobre o relato nh m 11 discurs dei sua xp ri ncía u sua 11 p da psi 011 li
de Lagache"; que constitui um novo artigo. Quanto ao número sobre a se- ntrada na n A p rmítlria nrae s n v s mais nmpl s, 11 sm qu x
xualidade feminina, começa com a intervenção de Lacan de título significa- ílf r 11 a . Assim, v I s 'f~
Ir, ntr li .p 1\ I A, 11 11 t, J' lJl
tivo: "Propos directifs pour un Congrês sur Ia sexualité féminine". De um d \ •Pl , n Ia s qu 1 o t ) ar I, J luc I r)
modo ambíguo, ele aparece - senão como o ünico pensad r do rup - pel
menos como aquele que tem mais audiên ia mais audé ia. Ainda mais qu ) I, '011 q\lll lul 11I11I IIlIulll I (I IIn,lIout 11\11/1111111ti l'« "111HI, t•• li,
sua prática das ses - s urtas Ih ase um m I r mim J' d 00 lU t' \ 111

1.4) I I
É em julho de 1959 que o Dr. Hesnard, presidente da SFP, volta a soli-
citar a afiliação à IP A, sob a assinatura de Lagache e com um relatório por-
menorizado amplamente redigido por Leclaire sobre as atividades da Socie-
dade. Uma nova comissão de enquete é criada, em torno de Turquet, analista
inglês ("o.amigo" de 1947, que se tornou para Lacan o "pavão"). Tudo vai
se passar, a partir de então, ao ritmo dos congressos internacionais. No im-
broglio, retemos o Congresso de Edimburgo (1961), onde 19 Recomen-
dações são dirigidas à SFP, mais uma vigésima, comunicada fora do con-
gresso, segundo o relato de F. Perrier: a interdição de Lacan, Dolto e Berge
à formação dos analistas. Berge teria sido incluído aí seja a pedido dos fran-
ceses, seja para mascarar o essencial. O caso de F. Dolto é diferente: nin-
guém duvida que sua prática da análise de crianças desgosta A. Freud tanto
quanto a anterior de M. Klein, pois, do ponto de vista das didáticas, ela está
realmente de conformidade com as normas internacionais e mesmo com a
deontologià que reina entre analistas, como ela escreve numa carta patética,
de boa-fé, a S. Leclaire'", Agora Lacan, o único a ser excluído? Bode ex-
piatõrio? Em 1974, no Congresso de Roma, ele declara: "Tomei minhas po-
sições na psicanálise em 1953". O que é verdadeiro no nível teórico, o é
também no nível da técnica analítica. O problema das sessões curtas, já em
jogo quando da primeira cisão, retoma à baila. Ora, ele continua esta prática
sem realmente se explicar sobre ela: em Variantes de Ia cure type (1955), ele
se vale de Ferenczi e de sua "elasticidade psicanalítica", afirmando-se o
único freudiano ortodoxo, e acaba declarando que sua técnica é "a única
apropriada à sua personalidade" (e à de seus pacientes ou futuros analistas
em didática?), mas que os outros podem se comportar de outro modo. Não
comentaremos aqui esta posição, mas é bom notar que esta tolerância lhe
permite fazer o que quer fora da comunidade à qual pertence. Ele "não ce-
derá sobre seu desejo", segundo sua fórmula célebre e a IPA não cederá
também sobre seus princípios. Não lhe proíbem a prática psicanalítica, nem
mesmo o direito ao ensino, mas recusam-se a que ele forme analistas (análise
didática e ensino válido no curso oficial). Vai ser preciso escolher entre La-
can e a afiliação à IP A? Novas negociações, enquetes, novos relatórios. Em
maio de 1962, a SFP escolhe uma política de "morcego" que Leclaire crê
eficaz e aprovada por Lacan e Dolto, eleitos por solidariedade e por razões
simbólicas presidente e vice da Sociedade.
Mas o Congresso de Estocolmo (julho de 1963) - onde Lacan urge
com um grande chapéu preto e precedido por Solange Faladé - vota um ul-

32Carta de F. Dolto a S. Leclaire, em 27 de março do 19 2, ln AI/(llyti a, n


car? n2 12, janeiro de 1978.

152
Comissão dos Didatas renuncia à sua posição generosa de 1962 - moção dita alguns? Ou renúncia de Lacan, no estado de choque em que está? Mu , til
dos "mocionários" - onde tentavam respeitar as normas gerais, deixando pa- como Fênix, ele vai renascer das cinzas.
ra Lacan a liberdade de continuar e aprofundar seu ensino. Em 19 de no- Em 27 de novembro, Leclaire dirige uma carta ao Dr. Nacht, nl ( V•.
vembro de 1963, uma Assembléia Geral deve se pronunciar definitivamente ce-presidente da IPA, acompanhada de um relat6rio sobre a situa ií . I~t I
sobre as proposições da Comissão de 11 de novembro. Lacan escreve a Le- sua última ação na SFP, pois a 19 de novembro ele mesmo, F. H, Y •
claire uma carta para anunciar sua ausência às duas reuniões, pois prevê uma presidente, e F. Perrier, secretário científico, tinham se demitido d \I ,
retratação. Carta desesperada! Em 19 de novembro, a maioria dos membros funções. Durante seis meses, luta-se para conservar a sigla da H. 1'111 11
se pronuncia a favor da moção de ordem de 14 de outubro; a maioria de seus mente, alguns membros titulares são reconhecidos a título pes ai p 11 IPA,
"amigos" e principalmente de "seus alunos" o abandonam. Não se pode es- com a criação de um "French Study Group", que se tornará, 111 j llhO I
quecer a parte do relato de Turquet: "Questão Lacan: Lacan não percebe que 1964, a Association Française de Psychanalyse (AFP); enquant qu O II
sua posição põe a SFP em perigo. O artigo 13 não se aplica. Os argumentos canianos se reagrupam em torno de um "grupo de estudo da psi un I ",
dados não têm peso. Ninguém pode predizer a duração das sessões. Lacan cuja organização é assumida por Clavreul, esperando que Lacan, s 1 1\ 11\
procura evitar a transferência negativa. Ele se vê como a fonte de recom- te, anuncie em 21 de junho de 1964 o nascimento da École Fran lis('
pensas e de puniçôesêê", Desde julho 1963, Serge Leclaire tinha previsto: Psychanalyse, que logo se tornou, sob a mesma sigla, a École F,. Li li '1/1/ '
"Ou ruptura com a IPA, ou ruptura em nosso pr6prio grupo". A intervenção Paris. "Eu fundo, tão s6 como sempre estive em minha relação m a 'lU I
de Laplanche, sustentada por Lang, Pontalis, Smirnoff e Widlõcher (Piera psicanalítica - a École Française de Psychanalyse.' ' Declara ã qu
Aulagnier finalmente se retirou deste grupo), questiona não somente a IPA, espantar, visto o número de participantes nesta cisão, mas que cxpll
mas o funcionamento da SFP. Ele fala claramente da inibição de todos, já fa- que se fala freqüentemente de École lacaniana. Finalmente, a A I

lada no particular: o problema de Lacan é capital, ele é "indefensável, mas nhecida pela IPA, a EFP começa sua longa estrada e a SFP é definitivam I I
não podemos lhe fazer isso! Com que cara ficaríamos?". Ele insiste em dois dissolvida em janeiro de 1963, durante uma assembléia extra rdinãrl lU
pontos: "a qualidade necessária do recrutamento e a necessidade de uma partilha os bens igualmente entre as duas novas associações.
comunicação científica extramuros, isto é, para além de uma relação iniciáti- Neste meio tempo, com o apoio de Lévi-Strauss e de Althuss r, L • 111
ca" mantida "entre mestre e discípulo". Enfim, ele sublinha "a incompatibi- é nomeado encarregado de conferências na École Pratique des H uu 'S l~llI.
lidade que existe entre o funcionamento de uma sociedade de analistas e a des. Ele começa seu novo seminário na Sala Dussane da EN O) j " J 11

manutenção da posição de Lacan tal qual em nossa sociedade", até o "des- 1964, sobre Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, \ 111 1\1,
velamento do que uma função de mestre apaixonadamente assumida significa segundo suas palavras, entrou finalmente na psicanálise aos inqü ntu 10
na realidade do desejo, além, em todo caso, do que é possível numa assem- anos, muda de lugar e de público aos sessenta e três anos, csp run 10 ClIJ
bléia como esta"?", Ele propõe por enquanto uma lista de didatas sem o no- quando deverá deixar a rua d'Ulm pela Universidade do Panthé n, fi
me de Lacan, até qualquer decisão ser tomada sobre suas atividades. Por ou- enta e oito anos.
tro lado, Jenny Aubry propõe uma solução de compromisso: que uns mem-
bros da SFP sejam aceitos a título individual pela IPA, sem envolver o con-
junto ?a Sociedade. Esta solução, em si razoável, vem tarde demais. 1964 - VERÃO DE 1969:
A noite, Lacan fica sabendo da decisão da Assembléia: ele não faz A N VA DIRE ÕE DA TEORIA LÁ ANIANA.
mais parte dos didatas. No dia seguinte, começa seu seminário em Sainte- A TER EIRA I Ã E A EVI Ã DA RUA D'(JLM
Anne sobre Les Noms-du-Pêre: ele anuncia seu fim. Definitivo ou provisõ-
rio? Decisão de Delay de não mais acolhê-lo em Sainte-Anne, como dizem I I' 111 'r '111 ti lHO I

331 L'E "


n xcommumcauon, suplemento do nQ 8 de Ornicar? 1977 I> 4
34Idem ' •..

154
riza postulante como analista da Escola. É ele quem nomeia os membros exercer uma função para a qual talvez eles não estejam de todo preparad
do primeiro Diret6rio: P. Aulagnier, S. Leclaire, F. Perrier, G. Rosolato, J.P. Num período em que a demanda de análise cresce consideravelm nt n I
Valabrega e J. Clavreul que continuará sendo o secretário. Além disso, foi França, foi uma grande tentação que contribuiu para o descrédito da s 1I
ele que dividiu a Escola em três secções nitidamente diferenciadas: A psi- e, no pr6prio interior da EFP, para as inquietações legítimas do anali ti
canálise pura, isto é, a didática e a elaboração contínua da teoria (onde po- mais exigentes e mais preocupados com uma ética da profissão. P d -
dem participar analisados não-analistas); a psicanálise aplicada, isto é, a te- compreender por que analistas como A. Green ou C. Stein, embora int I'V n-
rapêutica e a clínica (onde são recebidos grupos de médicos nem analisados do no seminário, não queiram deixar a SPP; porque de janeiro de 1967 11 011-
nem em análise); o recenseamento do campo freudiano, onde as pessoas se tubro de 1968 Piera Aulagnier e Clavreul criam, com membros do instituto
consagram à crítica da literatura psicanalítica e às relações te6ricas com as C. Stein e Covello, a revista l' Inconscient: eles são os primeiros a r usar (
ciências "conexas" ou "afins" (ciências humanas, 16gica, matemática, etc.). guetos.
E cada uma destas secções depende estreitamente do diretor. O ano de 1967 é capital para muitos tftulos: Les Lettres de I' r ' 'I'
Freudienne, boletim interno, começam a aparecer, tendo como r dator
Como "a Escola, são aqueles que escolheram o ensinamento de Lacan
Clavreul, Conté, Leclaire, J.A. Miller e Jacques Nassif: uma mistura d no 1-
- único ensinamento que fala de psicanálise - alhures s6 se preocupam com
listas e de fil6sofos não-analisados. Mas as notícias circulam; têrn-s il r -
que ela seja conformeê?" (uma repetição da f6rmulado pr6prio Lacan: "meu
lat6rios dos Congressos; Nassif publica mesmo resumos do Seminãri I t -
ensinamento é sem rival, pois é o único a falar de psicanãlise"?"); como, com
gique du fantasme; vemos aparecer os cartéis mais diversos (do stud da
as sessões curtas, Lacan declara que seus analisantes encontram no seminá-
psicose aos estudos bíblicos) e, finalmente, ao lado dos discursos ultrat ÓI'i-
rio a resposta ao que dizem sobre o divã; como o seminário faz afluir os
cos, amiúde repetitivos do mestre ou de pura erudição, trabalhos clfni S lI-
clientes para Lacan, pode-se falar de monocratismo. Trata-se realmente de
de surgem os problemas da prática cotidiana concreta. Esta divisã , ti - ltn
uma Escola no sentido antigo do termo e que tenderá a se tomar uma Igreja:
então, ao que parece, por todos, deve estar relacionada com a prãti ti do ,- •
iniciação, doutrina comum, consenso (salvo se se excluir) e logo em seguida
clericatura ... A presença de Lacan em cada Assembléia, Congresso, Jornada
minário desde 1965-1966, onde se criam "sessões fechada ": para puni -I,11
delas, é preciso solicitar a autorização de Lacan, único juiz, u nt I.
de Estudos, onde faz os discursos de abertura e de encerramento e intervém
viar-lhe questões que ele julgará a pertinência ou não - isto é, jul ' \I'
sem cessar, dá um sentimento de universo fechado em tomo de um pensa-
você é capaz ou não de fazer parte da elite teórica. Um cartão csp ial di.
mento único - e o que é mais, jamais verdadeiramente compreendido e sem-
reito à entrada. Todavia, ao percorrer os 27 números, se não me n an I li ,
pre em avanço sobre os trabalhos dos discípulos. Ora, isto vai ao lado de um
Lettres de l'École (de 1967 a 1979), chocamo-nos com O ontrast ntr 11
estranho laxismo: tomar-se "membro da Escola" pode ocorrer com um mé-
seriedade modesta de certas comunicações Irequcntcmentc apaixonant li O
dico, um fil6sofo, um etnõlogo, um matemático, etc., analisado ou não - o
falso brilho de certos tenores, sem contar, cada vez mais, "qualqu 'r 'l i.
que, em si, é fonte de enriquecimento - mas porque se pode figurar, sob este
sa", Isto vai se acentuar ap6s 1969-1970.
título, como Analista praticante, não garantido pela Escola, mas inscrito no
anuário? Em nome do aforismo, "O analista s6 se autoriza por si mesmo"?",
ional 0111 a: durant um I 1\••
muitas pessoas entraram na Escola para se aproveitar desta facilidade que
lhes concede, aos olhos de um público inadvertido, uma capacidade para

38Irene Roubleff, "Une mise au point", in Lettres de r École Freudienne, n~ 7, março de 1970. Na
realidade, trata-se do relat6rio de um grupo de trabalho no Congresso de Estrasburgo em janeiro de
1969. Naquele momento, Pierre Benoít ousou pedir para Lacan "a anulação de sua função de dire-
tor" e a nomeação de um novo diretor.
39Idem
4oCf., entre outros, "Príncipes concernant l'accession nu titre de psychanalyste à .1' FP" I n s dlf -
rentes anuários.
1"

158
gens"; Enfim, aos Responsáveis (Assises), três proposições são colocada
em votação: a de Lacan vence amplamente, apesar das reservas de muit ,
como Oury e Maud Mannoni, que endereça uma carta fundamentand SlI
recusa em objeções sérias ... mas dá seu voto a Lacan. Quanto a P. Aula -
nier, F. Perrier e J.P. Valabrega, pedem demissão da EFP antes me m di
votação.
Este conflito se difunde pelo correio interno, por Les lettres de l' / l
(sempre com um certo atraso), mas Lacan acaba de criar uma nova r vi t ,
que se dirige também ao exterior, Scilicet, publicada na Editora Seuil. Il\O
que por acaso, os números 1 e 2/3 são consagrados a esta reorganiza UI
Escola. Sabe-se que "a originalidade" desta revista é que ninguém a sín ,
artigos, pois a teoria se elabora sem o nome de ninguém - salvo o de a un,
pois, ao que parece, reconheceriam seu estilo. Revista sem assinatura, p ''-
tanto, mas não anônima, pois no fim do ano uma lista dos participantes pu-
blicada.
Desde 1969, os redatores de L' lnconscient (interrompido fim d 1
criam Les Études Freudiennes, revista bem aberta, cuja publicação pr S -
gue ainda atualmente na Editora Evel. O Quatriême Groupe se constitui 111
1969 em tomo dos demissionários da EFP, com Cornélius Castoriadi , M -
cheline Enriquez e Nathalie Zaltzman: ele cria Topique, cujos prim ires nu-
meros publicam artigos diversos e apaixonantes sobre os problemas lu 111I11 -
tuição Psicanalítica.
Mas a questão do "passe" não vai cessar de invadir - senã
nenar - a vida da EFP nos anos que se seguem. Durante este perf d, P I( (
um artigo sobre Marguerite Duras, publicado nos Cahiers Renaud/Barr tult
em 1965, e os textos de suas conferências feitas na Itália, fim de 1 7, 1\1
locais culturais (Universidade de Roma, Instituto Francês de Náp I s
Milão), Lacan está inteiramente absorvido com a Escola e eu eminãri •
Ora, os acontecimentos de Maio vão revolucionar as in titui \.11 I-

versitárias. Aliás, há alguns anos, algumas sessões do eminãri d I III 1


d'Ulm eram sede de incidentes e tumultos diver os, pois n m t d s s lun
eram discípulos de Lacan. Muito de seu aluno u d d Althu r, 1 v -
dos pelos acontecimento p Iúícoa, vão se en aja!' alguns n P, 11I i{ I
em grupo diver os, br tud ma Istas, a an p fal r Mur
principalm nt ,apr nta dís ur anaUti m su v rsív d t d
utr dir t r da N ,q\l ntlnu \ nd 'IA' li r ,l\l'rumu pr
1111 1
par nun lar J1 1 ntc \ ti III [u I n ), I m 18 , (lh -I

d I, I ubl f'r, 111t, IIIHI l,

I I
suas instalações na volta às aulas de 1969. Esta carta, enviada em março, é os assistentes falam do quanto ficaram tocados, durante La Topologie (I"
lida publicamente por Lacan em junho de 1969: "A discussão sobre o saber Temps (1978-1979), com suaS ausências, seus silêncios, sua dificuldad I
é excluída na ENS", declara ele, e aos estudantes a quem faz distribuir tre- traçar de tempos em tempos um esquema ou de articular uma frase. lIUOU
zentos exemplares da carta: "Vocês são trezentos evacuados". "A Flaceliê- ao seminário que chamam de Dissolution (1980), é feito de mensag os. I
re, eu, eu ponho isto no feminino (... ), isto soa muito mais feminino, Ia cor- quem ousaria realmente chamar de "Seminário de Caracas" as poucas p 1\-
deliêre ou ia flatulenceliêre";", "Será que tu me tomas por uma flaceliê- vras dificilmente lidas diante de um audit6rio que não pedia mais d I I
re?", etc .. As mensagens afluem, ocupa-se o escrit6rio do diretor, Philippe uma presença e um nome? Lacan tomou-se refém do que ele criou?
Sollers e Jean-Jacques Lebel encabeçando. Em vão. Contudo, não se deve Todavia, sua atividade é intensa até 1976 aproximadamente: ai rn I
acreditar que Lacan foi suave com maio de 1968: "Uma revolta - diz ele- seu~ seminários, onde é a balbúrdia, ele tem o prazer de poder n vam nt
não uma revolução". Os Cahiers pour l'Analyse vão parar, mas Vincennes tomar a palavra nas instalações de Sainte-Anne, onde fala do Savoir du J S /-
já aponta .ao horizonte. Fim de 1968, Michel Foucault ofereceu a Lacan a chanalyste em 1971-1972. Ele dá por várias vezes conferências na Univ r -
possibilidade de criar e dirigir o Departamento de Psicanálise. Lacan propõe dade de Louvain, na Itália, e sobretudo no outono de 1975, interv m 11\
S. Leclaire no seu lugar. Neste lugar que não fornece, então, nem diploma grandes universidades americanas, Yale, Columbia, Massachusetts Instl ul
nem unidades de valor, o ensino começa em janeiro de 1969, tendo em tomo of Technology. Suas emissões Radiophonie nas rádios belga e franc sa u-
de Leclaire, François Baudry, Jean Clavreul, Claude Conté, Claude Dumé- nho de 1970) são publicadas em Scilicet, enquanto que Télévision apar
zil, Luce Irigaray, Jacques-Alain Miller, Michêle Montrelay, Claude Rabant, pela Editora Seuil em 1973. Um artigo, Lituraterre sai na jovem revi t
François Roustang e René Tostain. E graças à intervenção de Lévi-Strauss, Vincennes, Littérature, em 1971; ele redige alguns prefácios, as ist à tr \-
uma sala já está prometida para Lacan na Universidade de Direito do Pan- dução de seus Escritos em japonês, alemão e inglês (de 1972 a 197 ). M \
théon. um desejo o habita e não o deixa jamais, que não realizará: a reda ã p r I
mesmo do Seminário sobre a ética (1959-1960), do qual continua t \1\ I I
muito. Ele s6 verá a reedição de seus Escritos sobre a paranôia til'! lr 111 •
crições por J .A. Miller de cinco seminários publicados nas Ediçõe ' u 1.
OUTONO DE 1969 - SETEMBRO DE 1981 Dois problemas tomam-se urgentes e difíceis de resolver:
mento da Escola e o Departamento de Vincennes. Os efetivos da
Aos sessenta e oito anos, Lacan inaugura seu ensinamento diante de mentam muito rapidamente, bem como as dissensões, verdadeiros rup
um público novo -e ainda maior: é o seminário sobre L' Envers de Ia psycha- temos se constituem, ignorando ou rivalizando-se. Lacan está mpr p -
nalyse, onde começa seu estudo dos Quatro Discursos: do Mestre, da Uni- sente em cada congresso: o de 1974 em Roma é ao mesmo temp a t
versidade, da Histérica e do Analista. Neste contexto, quatro conferências (conferência de imprensa, abertura e encerramento do congr sso, mun •.
estavam previstas em Vincennes sob o título geral de "Analyticon", mas a cação sobre" A Terceira") e embalsamamento: o elogio que J.A. Mill r 111
primeira foi tão violenta e movimentada - ela foi publicada em Le Magazine faz em presença em l' Adresse au Congrês beira a indecência. uant (
Littéraire sob o título de Premier Impromptu de Vincennes: le discours de mação do analista - e particularmente "o pas e" - ela está n nl
l' Universitaire - que Lacan as abandonou. Felizmente, para consolá-Io, os conflitos mais violentos: o ongres o de Deauville (1978) ultrapas fi 11\ \-
Escritos aparecem, fim de 1969, numa coleção de bolso, "Points", na Edito- ginação. Entre anali tas e não-anali tas, d fens re da clínica d ~n
ra Seuil, e a primeira tese sobre sua obra aparecia na Bélgica; ele fez um d pur s mat mas, ntr par ntr ra , as t n s s t
prefácio para a autora, Anika Rifflet-Lemaire. qu talv z ap nas a r I fi a LI an - ou a o m d a an
Durante este período, Lacan assume em princípio dez seminários, mas, mant nha uma apar n ia d unida I. m I 77, ntam-s r
desde Le moment de conclure (1977-1978) seu cansaço se manifesta: todos t s analistas dos Ir S sp -I 11111s tnm
dlv rtl S OU •• 'O r ('lI nu nl \1\ 11 o n
"Ia cordeliêre: cordão de muitos n6s que os frades e as freiras atam na cintura. La flatul li tllI r : J ti \ I tss lu' I ( I{O, III li 1\1 10 11\
de palavras pejorativo, ligando o nome do diretor ao termo "flatul nela". (N.T.)

162
tenha sido decisão do pr6prio Lacan. Em todo caso, "a carta aos mil" que a sar o luto de uma imagem demasiadamente idealizada, de uma parte d
segue, o anúncio da criação de La Cause Freudienne, e depois da École de mesmo e de sua pr6priahist6ria? A questão é evidentemente fácil para qu m
ia Cause raramente são atribuídos a um Lacan doente e esgotado. O livro não viveu intimamente esta longa aventura. Contudo, continua send um'
de Claude Dorgeuille, A segunda morte de Jacques Lacan, histôria de uma verdadeira questão.
crise (outubro de 1980 - junho de 1981)46, conta suas peripécias incontá veis Enquanto algumas associações, inclusive após o rompimento do m JI
e publica inúmeros documentos. É o rompimento da Escola: este período nos (Centre d' Études et de Recherches Freudiennes), inscrevem-se num am] )
parece exemplar das conseqüências de um certo modo de instituição. psicanalítico mais vasto, outros grupos se constituem mantendo refer n 'I,
Voltemos a Vincennes: desde 1970, S. Leclaire demissiona, cansado mais estritamente lacanianas: l'Association freudienne (Claude Dor ulllc,
das tomadas de posição contradit6rias, da contestação estudantil e da frase Charles Melman), Convention Psychanalytique (Jean Clavreuil, Juan- nv I
que, parece, Miller teria pronunciado durante seu curto período militante: "A Nasio, Ginette Raimbault, Moustapha Safouan, René Tostain) ou t!;. /"
psicanálise é incompatível com a revolução". Até 1974 uma direção colegial Freudienne (Solange Faladé) reivindicam separada ou inteiramente a h run-
está à frente do Departamento: Clavreul, Conté, Dumézil, Montrelay e Tos- ça, O tempo de uma geração? Reencontramos, pois, nosso estudo d prlrn •
tain. Mas, se algumas experiências tiveram êxito aí, um sentimento de desor- ro capítulo sobre a situação atual da psicanálise na França.
dem estéril acaba predominando - o que corresponde, digamos, ao conjunto
da crise universitária na França. Em outubro de 1974, Lacan intervém: sus-
pende provisoriamente os ensinamentos, solicita para todo futuro professor a
redação de um projeto que um Conselho Científico, presidido por ele mes-
mo, aceitará ou recusará. Os estatutos mudam: não se formam analistas, mas
distribuem-se unidades de valor e organiza-se o ensino de outras disciplinas.
Ocorreu então l' affaire Luce Irigaray, excluída por não-conformidade com a
teoria lacaniana. O remanejamento necessário autoriza a retomada em mãos.
No mesmo momento, a revista Ornicar?, boletim peri6dico do Champ Freu-
dien começa a aparecer, enquanto que logo (em 1976) Scilicet desaparece.
Doravante, Ornicar? é reservada para a publicação, por J.A. Miller, de al-
guns seminários de Lacan, quase à medida de sua produção. Miller dirige o
Departamento de Vincennes, Judith Miller cria com Lacan, seu pai, em feve-
reiro de 1979, l'Association de ia fondation du Champ Freudien: à qual será
ligada a Formação permanente. Quanto à Secção Cltnica criada por Lacan
em 1977, J.A. Miller assume sua direção.
Quando Lacan morre em setembro de 1981, um pequeno grupo familiar
rodeado por alguns fiéis dispõe da École de Ia Cause Freudienne, do Depar-
tamento de Psicanálise de Vincennes, da Association du Champ Freudien,
da formação clínica e permanente, das publicações e dos direitos de edição.
"Roubaram do velho", como se disse para Sartre e para tantos outros? O fim
de um mestre é sempre doloroso de se ver. Mas quem pode esquecer que o
entendimento particular entre Lacan e J.A. Miller data de 1964-1965? Atacar
somente Miller, em nome de um verdadeiro Lacan - o seu .: não seria recu-

46Cl. Dorgeuille, La seconde mort de Jacques Lacan, Hlstotre (f une rlsa (octobre J 980-juln 1981) 10
Actualité freudienne (o autor é também o edit r).
-----------,-----------------------------------~

Quanto à liberdade de julgamento, pensamos garanti-Ia melhor através d

11 uma certa liberdade de tom do ,que por uma máscara de neutralidade.


Lembremos a obra indispensável de Joêl Dor, publicada no fim d
1983 (Inter-Éditions), Bibliographie des travaux de Jacques Lacan, qu ~.
rece, além disto, uma preciosa "cronologia do Seminário". O único esqu •
cimento é o das intervenções de Lacan nas reuniões de l' Évolution Psy hla-
trique.
A obra de Jacques Lacan Para as abreviaturas empregadas, reportar-se ao quadro no infci d sI
estudo.

1926-1939

Dos vinte e cinco aos trinta e oito anos, Lacan descobre a neur
a psiquiatria e depois a psicanálise. Duas obras-chaves: a tese sobr t\ p
n6ia (1932) e o artigo sobre a família (1938). A Segunda Guerra c a up ,.
Como se construiu a teoria lacaniana? Qualquer resposta a esta per- ção sobrevêm: um silêncio de seis anos.
gunta exige que se siga muito perto a ordem cronol6gica de sua produção,
em vez do curso lacunar e ca6tico da publicação. É este itinerário que pro-
pomos aos leitores. Entretanto, a grande quantidade da obra, sua diversidade 1
e a posição maldefinida de alguns textos forçam umas escolhas. Excluímos
algumas intervenções de que falamos em outro lugar (entrevistas, tomadas de
palavra pontuais, inclusive ritualmente nos congressos da École Freudienne, 1926-1933 - Primeiras contribuições científicas
cartas publicadas, etc.); reunimos, às vezes, textos muito pr6ximos; em com-
pensação, é dado um amplo lugar aos seminários e conferências cujas trans- Ao ler estes vinte artigos, vemos o que podia ser, na épo
crições circulam sempre sem ter o r6tulo oficial. Restam mais de cem títulos.
Por isto, nos pareceu necessário facilitar a colocação em perspectiva destes
trabalhos que se estendem por cinqüenta anos: eles são reagrupados em cin-
co períodos, comportando cada um uma breve apresentação de conjunto. Pa-
ra cada título, encontrar-se-á à esquerda a data de produção (no estado atual
dos conhecimentos) e o número (muito variável) de páginas; à direita, a
primeira data de publicação. O resumo comporta uma parte informativa, in-
dispensável para situar a obra em seu contexto. Esforçamo-nos para precisar
o mais claramente possível as particularidades de cada intervenção, seus te-
mas principais e as novas noções que nele aparecem. Enfim, um sistema in-
terno de referências (número de outras obras indicado a cada v z em ne rit )
deve permitir aos leitores circular a seu grad ncst njunt mpl x .

]66 Itl7
meira pesquisa sobre a psicopatologia da linguagem merece a leitura, pois as
cartas de Marcelle C. formulam o problema das fronteiras entre patologia e
criatividade. Em torno do termo ambíguo de "automatismo" na escrita, a
psiquiatria encontra o surrealismo.
Enfim, primeira assinatura na RFP (1932): uma tradução de Freud,
"Alguns mecanismos neur6ticos no ciúme, na paran6ia e no homossexualis-
mo". É em função de suas pesquisas psiquiátricas pr6ximas e pela "doutri-
na" que Lacan aborda a descoberta freudiana.

1932 (383 p.) - Da psicose paranóica em suas relações com a


personalidade - 1932

No ceme desta tese de doutorado, uma monografia: O caso Aimée, do


nome dado pela paciente à heroína de seu primeiro romance. Os surrealistas
se entusiasmam; Janet a elogia, em 1935, nos Annales Médico-Psychologi-
ques, a prop6sito dos "distúrbios da personalidade social". Apaixonamo-
nos, por nossa vez, por este relato de caso, único em Lacan.
O início da obra é uma mina de informações sobre as teorias psiquiátri-
cas e psicol6gicas na França e na Alemanha: conhecimentos, curiosidade
eclética, domínio. O fim, por sua vez, abre as vastas perspectivas de uma
"ciência da personalidade" a construir: um esboço desta ciência do Sujeito
cujo projeto habitará cada vez mais o Seminário?
Lacan faz do caso Aimée o caso princeps de uma forma particular de
paran6ia, a da autopunição ou psicose do Supereu. Ele defende seu método
- o estudo fenomenol6gico concreto ou exaustivo - ligado à sua concepção
da doença mental como "doença da personalidade" em seu "vir a ser e sua
estrutura". Precisemos que as noções de "meio vital" ou de "conflito vital"
- ainda presentes em Le mythe du névrosé 22 - designam na realidade o
meio social, portanto a família.
"Nossa pesquisa nas psicoses retoma o problema no ponto em qu a
psicanálise conseguiu chegar." O narci ismo c m "terra inc6 nita" 6 já
aqui a terra a ser explorada.
7
bretudo sobre o narcisismo - o que anuncia o estádio do espelho 8. Mas uma
outra interpretação freudiana surge ao final, votada também a um grande
futuro lacaniano: evoca as loucuras construídas sobre "o enigma do falo e da
1935 (5 e 8 p.) - Comptes-rendus d' ouvrage (Ey e Minkowski)
castração feminina". Eluard e Péret vêem as duas irmãs "saídas bem arma-
(Relatórios de obra)
das de Um canto de Maldoror", Lacan as vê como Bacantes castradoras: é a
esta imagem grandiosa e terrificante que ele aproxima finalmente esta estri-
Através destes relatórios, Lacan precisa sua teoria: os distürbi S m
pação de mulheres por mulheres, perpetrada para descobrir - diz, contudo,
tais se reduzem à "mentalidade delirante", que só podemos abordar arr V
Christine - "o mistério da vida".
de uma "fenomenologia", capaz de ligar clínica e rigor doutrinal, P 1/1pu-
De acordo com seus mestres, ele rejeita a explicação puramente social
meira vez, a fórmula de "conhecimento paranóico" aparece, com" ( 11i-
do crime para formular em termos nuançados as questões de expertise, de
plexo típico de conflito objetal (um objeto entre tu e eu)". Narcislamo
responsabilidade e de castigo 19.
agressividade: o estádio do espelho está próximo.
Minkowski é um dos fundadores da EP, da qual Ey e Lacan sã 11'\ lU-
bros titulares: "a psiquiatria viva", oposta à "penúria de inspiraçâ dos lI-
tras" ... Com Ey, seu companheiro de estudos, a hora é de fraternidud •
5 elogio a Hallucinations et Délires é quase total, mais um passo e li amí ()
pensará como ele: este passo não foi dado 14. Com Minkowski, mais v 111 )
do que ele, as relações são mais conflituais, visto que os dois se int r fiS IIlI
1933 (7 p.) - Exposição geral de nossos trabalhos científicos - 1975 pelo freudismo, pela filosofia e notadamente pela fenomenologia. La an n·
sura o Temps vécu por recusar a genética psicanalítica e ignorar Heid I',
Um gênero tradicional, como mais tarde os Resumos do Seminário re- o filósofo cuja obra desempenhará um grande papel em sua própria lot () I-
digidos para o Annuaire de l'École Pratique des Hautes Études. Mas um ção teórica após a guerra.
texto muito interessante, principalmente por seu Elogio à paranóia, através
de um relatório remarcável da tese 2. Avalia-se assim a importância decisiva,
para Lacan, do encontro entre seu desejo de teoria e "este modo reacional da 8
personalidade", "altamente organizado", em situações onde "o valor huma-
no e moral" é fortemente acentuado. Contra "o automatismo mental" de seu
mestre Clérambault, um interesse compartilhado com Freud, como testemu- 1936 - O estádio do espelho - Inédito
nhará o seminário sobre As Psicoses. 30.

1933 - Hiatus irrationnalis

Mencionemos este soneto cometido por Lacan, pois Le Magazine Litté-


raire o exumou. Publicado em Le Phare de Neuilly (Georges Ribemont-De -
saignes), manifesta o gosto dos médicos pelo pas aternp literãri d s s-
critores pelos científico e clarecidos,

170
r.
1945-1953 13

Na intensa atividade da nova geração no poder, tanto na Évolution Psy-


chiatrique quanto na Société Psychanalytique de Paris, as clivagens te6ri- 1946 (31 p.) - Le nombre treize et Ia forme logique de Ia suspicion
cas se delineiam. Dos quarenta e quatro aos cinqüenta e dois anos, Lacan (O número treze e a forma lógica da suspeita)

aprofunda seus trabalhos anteriores (principalmente sobre o imaginário), di-


versifica suas pesquisas (da lógica ao papel social do psiquiatra-psicanalis- Problema aritmético proposto por Queneau. Em três pesada, s m J
ta), mas já se prepara para a escolha decisiva de 1953, que dará prioridade padrão, achar em doze peças a peça "errada" - para menos ou paro m I ,
não se sabe, então simplesmente a diferente das outras idênti as. I I \11
ao mesmo tempo ao "retomo a Freud" e à categoria do Simbólico.
transforma o problema, pois quer dar a fórmula da "lógica coJetiv " 011 I
não há "nem norma especificada nem norma especificante", onde a r f' I 11
cia se faz, pois, "não à espécie, mas ao uniforme": "a posição p r tr .-
12
um" (há do que fazer pensar os familiarizados com a teoria dos art I I I
École). A lõgica do tri conduz "inexoravelmente" à "noção absoluta I ti -
ferença, raiz e forma da suspeita". Não sem humor negro, o autor 11 n-
1945 (17 p.) - O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Um
sina que o julgamento final se fará rápido e bem em vinte e. seis tcntutl '(\
novo sofisma
nos convida para as aplicações políticas ...
Este "apólogo", contrariamente ao texto precedente, não f í mais 1 •
Um jogo serve de suporte a uma 16gica subjetiva e intersubjetiva. Um
tomado. Enigmático, ele angustia. Onde está o "desumano", do Iad d \I-
jogo que não deixa indiferente. Três detentos. Cinco discos, três brancos e
tro ou do lado dos Mesmos? Lacan estará sempre às voltas com a qu st ) II
dois pretos. Um diretor fixa um disco nas costas de cada um (mas, na reali-
diferença: a mesma vertigem pode nos envolver quando tentam S dnr 11111
dade, os três discos são brancos). Um prêmio para os três: a liberdade. Para
sentido unívoco ao famoso conceito de Outro (lugar puro de uma mbln ,(
o primeiro que chegar à porta, disser a palavra certa e puder justificar sua
ria, Mãe, mulher, Pai-Morto, etc.). E amiúde, para responder, 1 pr 1 1 ,
escolha (branco-preto) "em motivos de lógica e não de probabilidade" ...
como aqui, "o retorno à lógica", à "sua base s6lida como a r ha 11 ( 111 -
A teoria dos jogos - que propõe formalizar a ação humana em termos
nos implacável", retomando assim os termos de Freud a pr p6sit d
de pura estratégia - chega a Paris. Ela faz parte da paisagem lacaniana desde
ção e da inveja do pênis.
este artigo nos Cahiers d' Art até o apelo à cibernética, em 1954, durante o
primeiro seminário em Sainte-Anne 25. Resta a questão do tempo subjetivo
ordenado em três etapas: "o instante de olhar", "o tempo para compreen-
der", "o momento de concluir". Este modelo atravessará toda a obra, para
definir a experiência e a técnica analíticas (duração das sessões, momentos e 14
modos de intervenção, fim da análise, etc.). Encontramo-lo com muita fre-
qüência nos discípulos como um esquema de referência, sem que nem sem-
pre sejam considerados os outros aspectos de um caso nem os outros motivos 1946 (43 p.) - Propos surta ausaüte ps, hlqu - '947
- reais e variados - da técnica adotada. Então, lógica ou sofística? O artigo (Propõsuo sobr a ollsnlldnd psítJulcH)
termina com uma aplicação esclarecedora da fórmula à afirmação: "Eu sou
um homem", para fazer surgir aí a oposição fundamental, homem (não-ho-
mem). Deve-se refletir neste "sofisma" que o próprio Lacan diz ter inventa-
do - e ler, à sua luz, outros textos, principalmente o con agrado à a tra-
ção.

174
Este texto pouco conhecido refere-se a uma conferência feita nu ri,
em 1946: ao mesmo tempo uma narração precisa, entusiasta e .apaíxonant J
uma viagem de estudos à Inglaterra, fim de 1945, e introdução na Fran I
nomes, trabalhos e experiências então ignorados. Em uma palavra, "il1( V \.
ção metódica", "um novo olhar que se abre para o mundo", bem mais: "I •
encontro aí a impressão de milagre das primeiras descobertas freudían IA: I·
contrar no impasse mesmo de uma situação a força viva da interv n '
Conhecemos muito bem a condenação sem apelo que se seguirá, dos !TI 1110
nomes e das mesmas experiências: "a relação verídica ao real" ret rn li'
vilã palavra "adaptação". Erro corrigido, então? As idéias que sust 111 t I
11 exposição estão demasiadamente enraizadas no pensamento lacanian I I I
que não olhemos duas vezes. É importante ler este texto, se se quer r n ( "
sobre o funcionamento da École Freudienne criada em 1964 (sobre OR 11I't I
e o passe) - ou então sobre a presença dos lacanianos nas instituições S '111
"psi" .

16

1948 (25 p.) - L' agressivité en psychanalyse


(A agressividade em psicanálise)

177
O conceito de agressividade é construído em torno do Estádio do es- fim, mas é sua última intervenção num congresso da Associação Interno 10·
pelho 8, 18 - a despeito das contribuições kleinianas sobre a imago materna nal. O texto integral aparece na RFP e seu resumo no I1P desde 194 . 1st
- e da "estrutura paranóica do Eu (Moi)". Somente a identificação edípica texto difícil condensa o itinerário percorrido desde 1936 até a que t' aLuII:
ao pai é pacificante e abre à criatividade social e cultural. Um quadro final "a função do Eu (Je)"* na experiência analítica, que se opôe a "qunlqu ,-
deplora o crepúsculo de uma sociedade "paternalista" idealizada, enquanto filosofia proveniente do Cogito" (Descartes), mas também à primazia d ) 1.,\1
surge, pela primeira vez, o termo "déréliction" (desamparo extremo). O (Moi) na doutrina oficial da psicanálise. A criança constrói sua unidud 111

destino do homem seria "a assunção de seu despedaçarnento original"? A torno da imagem de seu próprio c.orp.o no espelho e, paradoxalmente, 1< \
necessidade de "constituiu) a cada instante seu mundo pelo suicídio"? Bem dividida entre esta figura objetiva de si mesma (origem do Eu-Moi) lU
exata como bálsamo, "a fraternidade discreta", vocação do psicanalista. ela pode perceber já de "sua pr6pria realidade", do lado deste eu (J) 0\
o qual a pesquisa doravante vai tratar.
Entre psicanálise e filosofia, o pensamento surge de metáf ras fui u-
17 rantes: toda a condição humana, com seus momentos de "assunção jublluu
ria", bem c.om.o c.om o insuportãvel de sua "alienação numa figura d f '.
ção" que "corre o risco de se resolver em agressividade mortífera li sul' •
1948 (7 p.) - Essai sur les réactions psychiques de l' hipertendu da", ocorreria "desde antes de sua determinação social", A metaffsl \ li I
(Ensaio sobre as reações psíquicas do hipertenso). "déréliction" (desamparo) .ou das "paixões da alma" coteja hístõrías li
pomba e de grilo peregrino, emprestadas da psicologia genética: m
Reunimos aqui a comunicação que Lacan fez em 1948 no Congresso de. achar aí sem o conhecimento dos textos anteriores e de seus exempl s? m
Cirurgia sobre a Hipertensão Arterial e um documento coletivo publicado em todo cas.o, o tom messiânico acentua-se n.o final: "No recurso que pr S rv I.
1953 (13 p.), avaliação de vários anos de trabalho em Beaujon e Villejuif. mos do sujeito ao sujeito, a psicanálise pode acompanhar o pacicnt ot O
Descobrimos, assim, um aspecto amiúde ignorado de Lacan: sua atividade no limite estático do "Tu és isto", onde se revela a ele a cifra de seu d stln )
domínio psicossomãtico. Ora, embora ele assinale as ligações da hipertensão mortal, "Começa" a verdadeira viagem." E por que não um texto d visi 1\ -
com a agressividade 16, nâo separa psicogênese e fatores fisiológicos: "as rio? Mas corno manter, então, a psicanálise "corno ciência", oposta b "Inl-
metamorfoses instintuais d.o desenvolvimento, ou seja - para o macho - ciaçâo "? Este é o problema que Lacan terá que enfrentar cada vez mais.
desmame, Édip.o, puberdade, maturidade viril, pré-menopausa", O artigo de
1953 marca a decepção com os tratamentos puramente somáticos, mas tam-
bém os limites da psicogênese. A pesquisa psicossomãtica não deve ser atri- 19
buída somente à degeneração dos "outros" grupos analíticos: uma leitura sé-
ria das Lettres de l' École Freudienne prova que o problema é realmente en-
contrado, 1950 (30 p.) - Introduction théorique aux fonction de la (.s hanal S{f 11
criminologie (M. Cénac e J. Lacan)
18 (Introdução teórica à funçõe da psicanálise m l'h n I.·
nologia)

.1949 (8 p.) - O estádio do espelho como formador da função do eu


(Je), tal como nos foi revelado na experiência analítica
A lU 'slíío da r sp ('( .
Ioca n varn 'nl dunuuc

Treze anos ap6s Marienbad 8, Lacan propõe o mesmo tema de comuni-


cação ao XVI Congresso Internacional de Zurique. Desta v z I fala até

178
cessos de Nuremberg, com a noção de "crime contra a humanidade" . É neste contudo, subitamente, é o fracasso. Quando Freud se perde e por qu ?
conjunto que se situa deliberadamente esta comunicação para a XIII Confe- não percebe a homossexualidade feminina porque se identificou dem i.
rência dos Psicanalistas de Língua Francesa. o Sr. K. Lacan, por sua vez, propõe compreendê-Ia ao mesmo temp
"Se a psicanálise irrealiza o crime, não desumaniza o criminoso", esta identificação à única imagem valorosa do pai e como dificuldade d Oli
é a tese central. Lembrando casos famosos (Sra. Lefêbvre, Aimée 2, as irmãs a feminilidade contudo desejada (através da Sra. K.), porque íst
Papin 4, Sr. Verdoux), recusa-se a irresponsabilidade tanto para a loucura "normalmente" o abandono da posição de sujeito. Há, para as mulh I lInl

orgânica ou "instintos criminosos", quanto para a simples resposta a um "impasse subjetivo" específico, devido à necessidade de "se aceitar ')IH
contexto social. O lugar importante dado às experiências inglesas nas prisões objeto do desejo do homem".
- lembramo-nos de La Psychiatrie Anglaise 15 - ajuda a precisar a missão O que é, então, a transferência? "Uma entidade toda relativa UIlI! I-
do psicanalista: restituir pelo "não-agir" o sujeito a si mesmo e à sua verda- transferência, definida como a soma dos preconceitos, paixões, mb Ir, '0
de; devolver-lhe seus laços com a comunidade sem substituir a Justiça; mar- até mesmo da insuficiência de informação do analista em deterrninad JIlO-
car que o resto pertence aos valores, crenças e instituições de uma socieda-
mento do processo dialético" que é o tratamento. Há em que meditar, in 'Iu-
de.
sive a prop6sito das obras lacanianas. Desde esta intervenção, e crita III I
Ideal do Eu oposto ao Supereu, estádio do espelho, avatares do edipis-
gem do Seminário sobre os textos freudianos, mantido no Instituto d P I ·tI-
mo se inscrevem numa concepção mais vasta da hominização. O texto come-
nãlise, delineia-se a concepção da análise como "ortodrarnatização da sul J •
ça com uma citação de São Paulo, "É a lei que faz o pecado", da qual subli-
tividade no paciente", através "da projeção de seu passado num dis urs 110
nhamos a verdade absoluta para os fundamentos da Sociedade - contra a tese
futuro". Le mythe du névrosé vai continuar 22.
de Freud sobre a horda primitiva, onde é o horror do crime que engendra a
lei. S6crates vem lembrar a obediência às leis mesmo injustas da Cidade.
Quanto à frase de Dostoievski: "Deus está morto, então tudo é permitido".
O sistema lacaniano de valores está muito presente neste texto, inclusive nas
ênfases da resposta aos intervenientes.

20

21

1951 (12 p.) - Intervention sur Le transfert - 1952


(Intervenção sobre a transferência)
1951 (7 p.) - Some reflections on the ego - 1953

Na XIV Conferência dos Psicanalistas de Língua Francesa sobre a


transferência, a exposição te6rica é confiada a Lagache e a exposição clínica
a Schlumberger. Lacan transforma sua intervenção durante os debates num
texto redigido para uma revista. Nos Escritos, suprime o nome de Bénassy
contra quem argumenta, assim como uma passagem sem dúvida favorável
demais a Lagache, ap6s a cisão de 1963.
O essencial é uma análise, notável por seu rigor, do caso Dora, onde
Freud descobre que o analista tem sua parte na transferência. O autor retraça
as etapas deste caso, em torno de uma érie de transp si ões dialéticas qu
conduzem, cada uma, à desc berta de um m m nt da v rdad d uj it . ~

IR()
IHI
22 1953-1963

"Tomei minhas posições na psicanálise em 1953." É verdad . N


1953 (19 p.) - Le mythe individuel du névrosé ou poésie et vérité dans Ia trata apenas da cisão no interior da Société Française de Psychanalys " n I
névrose de um momento capital na edificação da teoria, com a trilogia Simbdtl . /I.
(O mito individual do neurótico ou poesia e verdade na maginârio/Real, Dos cinqüenta e dois aos sessenta e dois anos, UI1'\O produ-
neurose) ção intensa: dez seminários, perto de vinte publicações dentre as mnl: • I-
nhecidas. O leque de referências é amplo: filosofia (Platão, Descartes, II I
Após Dora e O homem dos ratos. Lacan, convidado por J. Wahl, diri- e Heidegger), lingüística (Saussure e Jak:obson), etnologia (Lévi-. Ir lU
ge-se aos estudantes do Collêge de Philosophie: para apresentar-lhes - em formalização lógico-matemática (notações algébricas, "grafo" at 111111
plena crise da SPP - sua "tentativa de renovar e aprofundar a realidade fun- primeira elaboração da "topologia"). Enfim, é em 1960 que Lacan s
damental da análise", escolhe este texto difícil de Freud e o articula a Poesia resolutamente "estruturalista".
e verdade de Goethe. A aproximação destes dois relatos de vida (os dois
presentes na obra freudiana) coloca, com efeito, a questão da ficção e da
Verdade. Mas, além disso, o estudo, ao se ligar ao mais particular das duas
histórias, graças às suas semelhanças, consegue "formalizar, isto é, uni ver-
salizar 'o mito individual do neurótico' ". Curiosamente, esta conferência,
tão apaixonante e esclarecedora para Função e Campo 24, permaneceu igno-
23
rada a inúmeros lacanianos até que J.A. Miller lhe desse uma transcrição fi-
nalmente legível em 1979.
O estudo, extremamente sutil, passa-se entre Freud, Heidegger (sobre a
1953 (10 p.) - Le symbolique, timaginaire et te réel - (1982 )
Palavra Falada) e Lévi-Strauss, aqui passado em silêncio, mas em relação a
(O simbólico, o imaginário e o real)
quem, a dívida será reconhecida em 1956: a análise estrutural do mito é, com
efeito, capital para este texto. "A constelação original" de todo obsessivo
não é o triânguloedípico, mas um quarteto, por redobramento do pai ou da
mãe, onde Lacan vê um redobramento narcísico. Ou bem o sujeito macho se
faz reconhecer no mundo social, então o objeto sexual se redobra: é o amor-
paixão mortífero. Ou bem sua "sensibilidade" se unifica em tomo de um
objeto único, então surge na vida social um homem com quem ele vive uma
relação mortal. Apesar do retrato ideal do homem normal, que gozaria em
paz dos frutos de sua atividade social e de sua única mulher, esta estrutura
parece pintar a condição masculina, face à condição feminina ilustrada por
Dora. E, através dela, o trágico da condição humana, pois o quarto do
quarteto, é a morte finalmente. A saída? A reunião na pessoa do pai da
"função da palavra" e da "função do amor": mensagem à qual Goethe teria
aspirado e que Freud poderia ter anunciado.

182 I"
24

1953 (86 e 24 p.) Função e campo da palavra e da linguagem em psi-


canálise. Discurso do congresso de Roma e resposta
às intervenções - 1956

Ap6s a cisão de 1953, Lacan é desobrigado da exposição te6rica para o


Congresso de Roma, mas os organizadores italianos lhe oferecem um lugar
para falar: ele se apresenta como "ensinador", como mestre cujo retomo a
Freud renova a psicanálise e como chefe de fila teórico do novo grupo. É
preciso distinguir os dois textos, embora eles se esclareçam mutuamente. O
relato, Função e Campo, é simplesmente distribuído aos assistentes: é o mais
elaborado e será ainda revisado entre as duas publicações (1956-1966). Sau-
dado como "o manifesto da SFP", continua sendo o texto mais importante
do pensamento psicanalítico na França. O discurso de Roma, por sua vez, di-
rige aos "meus amigos", e sobretudo à juventude, um apelo apaixonado ao
salvamento da psicanálise, o que dá aos participantes uma imagem exaltante
deles mesmos e de suas tarefas.
"Palavra, sujeito, linguagem", este "ABC" define um programa. Desta
vez, as descrições concretas 9, 16 da experiência analítica (palavra va-
zia/palavra plena, silêncio e interpretação, reconstrução pelo sujeito de sua
hist6ria, etc.) tem consolidada a afirmação do "poder absoluto da lingua-
gem" em todas as atividades humanas. "No começo era o Verbo" e, com
ele, a ordem simbólica, onde brilha o nome-do-pai (ainda sem maiúsculas).
Lévi-Strauss é um modelo, ele que soube fundar "a autonomia de um sistema
significante" numa "teoria generalizada do intercâmbio, onde mulheres,
bens e palavras aparecem homogêneos": o princípio mesmo da Cultura, que
se torna um termo maior entre Natureza e Sociedade. Outra novidade capi-
tal: o conceito de inconsciente faz aqui sua entrada triunfal, com uma multi-
dão de definições que, à força de citações, mudaram a paisagem psicanalíti-
ca. Não é um acaso: ele pode agora ser restituído ao campo da língua e do
símbolo, "fundadores do humano". Pois não se passa do inconsciente ao
consciente, mas da linguagem à palavra, pela assunção do sujeito. Surge
mesmo pela primeira vez a noção de "sujeito inconsciente". Enfim, a discus-
são: acalorada sobre a técnica é resolvida em favor do manejo do Tempo 16-
gico 12, em nome de uma verdadeira missão: conduzir o paciente (a fortiori
o futuro analista) ao "ato de palavra", como "fundamento dos sujeitos numa
anunciação essencial". Como, desde então, não relacionar as múltipla fór-
mulas que celebram aqui o analista, à fra e tão repetida desde 1 7:" p i-
canalista só se autoriza por i me mo"?

184
analisa um modo complexo, onde o reca\cado é admitido intelectualmente parteiro do pensamento moderno", ora, freqüentemente ele recusa- a LI' •
pelo sujeito, pois é nomeado - e denegado, pois o sujeito se recusa a admi- tar as opiniões do auditório: Hyppolite, O. Mannoni, Pontalis, Le lair , 1111
ti-Io como seu, recusa-se a se reconhecer nele. A denegação compreende, X versado em tradição rabínica ... mesmo o R.P. Beimaert e o rnat má! (
pois, uma afirmaç~o sobre a qual o psicanalista pode se apoiar, mas cujo es- Riguet, sobrecarregados, confessam seu embaraço. Eis o que nos vai m <1 •
tatuto é difícil de definir. Ora, o em-jogo é de importância, pois aí se esta- cussões acirradas, que às vezes o Mestre corta nitidamente; por x 1111 10:
belece a fronteira entre neurose e psicose: entre o recai que (Verdriingung) e "Neste ensinamento, como numa análise, temos que lidar com resist n 'I I "
a recusa (Verwerfung), termo que Lacan substitui aqui por "retranchement" No ano seguinte, ele acalmará o jogo propondo o estudo da paranõ I,
(supressão), antes de nomeá-Ia definitivamente "forclusão" em 1956 30. A domínio por excelência.
versão publicada em La Psychanalyse é uma reescritura importante da sessão É aqui que se elabora o Esquema L. mais conhecido por ua si t 1lI II -
do Seminário I 25: a Introdução condensa todo o início do ensinamento; zação em La lettre volée 31. Esta estrutura de quatro termos qu urt 'ul,
a Resposta, por sua vez, retém duas idéias de Hyppolite: a criação do sún- Real, Imaginário e Simbólico substitui a segunda tópica freudiana 'u/l-
bolo remete a um tempo mítico e não genético; a criação simbólica de "a ne- so/Supereu). Duas diagonais se recortam: enquanto a relação imaginãrlu I
gativa" se situa num outro nível do sujeito que "a afirmação". a (o Eu) a a' (o outro), a linha que vai de S (inicial do Sujeito e s, I,
Contra os "doutrinários" da análise das resistências, Lacan institui dois freudiano) a A (o Outro) é interrompida pela primeira. O Outro é situa I 111
pólos da experiência analítica: o ego (imaginário) e a palavra (simbólica). esquema, mais difícil de definir (lugar da linguagem onde se c nsütu I

Ora, para ele, "o sujeito verdadeiro", aquele que deve "advir", é "o sujeito subjetividade? Lugar da palavra fundadora ligada ao Pai? Lugar d utn
do inconsciente" e "o inconsciente, é o discurso do Outro". Ele dá, então, absoluto que é a mãe na demanda?) Em todo caso, é ele que "maquina" o
esta síntese do tratamento: "O sujeito primeiro fala dele sem falar a você, sujeito, sem que este saiba.
depois se fala a você sem falar dele. Quando ele puder lhe falar dele, a aná- O Sonho da injeção feita a Irma (Freud) permite um afresc h r6i <l(
lise estará terminada." A este rernanejamento possível do Imaginário pelo destino humano através da figura do psicanalista: ele atua com mil Iun-
Simb6lico, ele opõe a intersecção do Simbólico e do Real sem mediação dador da psicanálise. O instante mais trágico é o confronto com Real, I 111 I
imaginária, o que seria próprio da psicose. que ganhará em amplidão com os anos. Aqui, em seu "horror"," r ai I 1I-
mo", "impossível de rnediatizar", nem mesmo um objeto mas st •• 11 o"
diante do que as palavras se interrompem", é a boca e o sexo feminino 'OIlM
27 fundidos. Felizmente, o estudo de Sosie, através de Platão e M li , dd UIII
v r ão menos angustiante deste destino entre Eu e Sujeito: é que LI mulh I
stá inserida num sistema "androcêntrico", Quanto ao Incons j nt , - IlIO
1954-1955 (374 p.) - Seminário 11: O eu na teoria de Freud e na técni- mp ndê-lo agora? Ele é definido pela ontologia (Heidegg r), p 1 trutu-
ca da psicanálise - 1978 r rlism (Lévi- trauss), por uma combinat6ria intersubjeüva (P ) r I \ -1-
rn li a ("A linguagem primordial e primitiva, é a da máquina: J" , 1"
Retorno sempre a este seminário. Dizem-no denso; disparate, até mes- asíã d uma conferência excepcional m 22 d junh dI. "- P " I
mo delirante: é justamente por isto que o prefiro aos escritos sistemáticos III rv imbõlico? pergunta Hypp lite. - in b61i , Imo inál'i ,I 11,
publicados em suas margens, Lacure type 28 ou La Lettre volée 31. Três 1st li rv para dar seu scntid a uma p ri n ia slmbõll LI p lrti uhu m 1\1
obras de Freud estão no programa: Além do princtpio do prazer sobre o ins- I til' I, Ú da anãll "
tinto de morte, Psicologia das massas e análise do ego, O Ego e o Id. Mas,
na realidade, o O que penso de Lacan remete a uma quantidade bastante he-
teróclita de referências (Platão, Lévi-Strauss, a cibernética, Poe, M liõr ,
Heidegger, Kierkgaard, Proudhon, a exegese bíblica, etc.): desc brimo en-
tão um O que acredito apaixonado, onde I s r v 11:1 om nun a, [u
esclarece muitas escolha ult rior S. auditório onvidado a li lIir"

186 I"'
Trata-se, aqui, de "murder-party'": Com efeito, as metáforas da morte senvolvimentos brilhantes sobre a frase: Tu és aquele que me seguirdi ), l' \-
florescem por toda parte. É, pois, lógico que a função do analista seja de ra definir a Palavra fundadora: a da Fé jurada situada no Outro. Ora, \I-

"cadaverízar sua posição" através de seu silêncio. Quer encarne o Outro ou tro, claramente oposto ao outro imaginário, parece ser "o próprio dis ur o":
o outro, "ele presentifica a morte". Visão de um analisante? de um analista? um lugar benéfico "onde se constitui o Eu (Je) que fala com aquel qu 1\-

Emblema do Pai morto fundador? Jung teria legado a Lacan estas palavras tende"; um lugar maléfico: "O neurótico habita a linguagem; o pst t li
de Freud, vogando em direção aos Estados Unidos: "Eles não sabem que habitado, possuído pela linguagem" que o persegue. Tudo do human I
estamos levando-lhes a peste." cide durante o Édipo, cujas leis são as leis da linguagem - e contud ,t «ío ,
está decidido nos tempos arcaicos ("o significante fundamental, um 111
to"). Explicar a psicose pela ausência de uma simbolização prim rd \1 11
30
responde a duas perguntas, nem mesmo com o auxílio do Esquema , I I \I
minado quadrado mágico: por que esta ausência? Como remediá-Ia'? N I I
falha vão se engolfar inúmeros discursos clínicos dos discípulos br \ III t
1955-1956 (362 p.) - Seminário lU: As psicoses - 1981
(e mais raramente, o pai) de psicótico. "Não se toma louco qu fi lU r",
certamente, mas como alguém se toma louco, sem talvez "querê-lo"
Como compreender a psicose, diferenciando-a da neurose? pelaforclu-
A análise de Schreber revela outra coisa: a questão da procria , •• 11\
são de um significante fundamental, do Nome-do-Pai: este termo, buscado
sua raiz essencial", escapa da trama simbólica. Esta não engloba n m fi r 1-
desde 195427, para traduzir a Verwerfung (a recusa) de Freud - e repetido
ção ("um ser nasce de um outro ser") nem a morte ... A ausência d slmb 1-
para além dos círculos lacanianos - aparece pela primeira vez bem ao final
zação do sexo da mulher enquanto tal (por "falta de material") e a p v tl n•.
deste seminário que retoma questões formuladas em 19322. Psicose? Enten-
cia absoluta do falo introduzem uma dissimetria quase irreparãvel: t I ml-
damos paranóia. Paranóia? Entendamos o caso Schreber, bastante exemplar
para oferecer a chave do futuro humano, As Memórias de Schreber, a inter- nário, que retoma o caso Dora 20 e anuncia a intervenção sobre IA
pretação de Freud, de Ida Macalpine: é paradoxalmente sobre textos que se féminine 45, declara a posição feminina "problemática e até um rt
constrói aqui a teoria, mesmo que uns exemplos emprestados da Apresenta- inassimilável". É preciso ler estas páginas, onde as mulheres n 1 S O
7

ção de Doentes em Sainte-Anne lembrem a realidade clínica. O significante cas concemidas, pois é questão do Real, com tanta freqüência dit imi .\w(·
forcluído reapareceria no real sob forma de Vozes alucinadas. A articulação v l em Lacan.
com o caso do Homem dos Lobos (Freud), onde a alucinação é visual - do te volume inclui ainda a Conferência feita por Lacan na pr
dedo cortado remetendo ao pênis - não é feita, salvo pela idéia de que o pai r f. elay, para o Centenário do nascimento de Freud: Freud n
é o anel mantendo juntos a mãe, o filho e o falo. nd I expõe o que entende por Retorno a Freud.
Retomar à "posição freudiana pura", é "aprofundar a metafísica desta
descoberta inteiramente inscrita na relação do homem ao simbólico". Na psi-
cose, não se trata da projeção para fora de um "dentro primitivo" corporal, 31
mas de "um corpo de significantes forcluídos". A lingüística está, portanto,
muito presente aqui: deste ponto de vista, muitas sessões deste seminário es-
clarecem escritos difíceis como La Lettre volée 31 ,ou A instância da letra 1 6( p.) - Le séminair sur ta lettr
>li vo[é, - 19 7
35. A posição saussuriana do significante e do significado conduz à separa- ( seminário obr o ortu roubada)
ção radical das duas cadeias, antes de atá-Ias pelos pontos de estofo (termo
tomado emprestado dos tapeceiros): somente um é explicitado, o Pai. Com IIt lld
Jakobson e seu artigo sobre As Afasias, metonúnia e metáfora reorganizam a !tu! ld ,"
patologia mental: a célebre análise de Booz endormi (Hugo) permite a Lacan
criar a noção de metáfora paterna, cuja ausência significaria a p ie n-
I 1/
fim, a classificação dos pronomes m B nv ni t ( u/Tu/ I ) dá lu d .. ~~ 8(11/1/ IIIIf ,,11 111 11101,

190 I I
T
,
32

1956 (33 p.) Situation de Ia psychanalyse et formation du


psychanalyste em 1956
(Situação da psicanálise e formação do psicanalista
em 1956).

Quando do centenário do nascimento de Freud, Lacan faz uma


rência em Sainte-Anne 30 e redige este artigo para o número sp 11
Études Philosophiques. Desde o início, sua posição é clara: "Faz r u,
mos em que Freud definiu (a experiência psicanalítica) o uso nã d ri .
tos, mas de conceitos que lhe convêm." De modo bastante maniqu (/lI I,
polêmica racha os infiéis e sua nulidade - "Nenhuma noção n V til
enquanto o sério ou o lirismo estão do lado de Lacan, o único i 1 111 I
audácia: "A operação do despertar, conduzida com as palavras ret l'\'Iados li
Mestre num retorno à vida de sua Palavra, pode vir a se confundir »n o
cuidados de uma sepultura decente."
Lacan nunca se livrou "dos outros": isto nos vale, quand I r
ve seu texto em 1966, uma alegoria satírica das comunidade analff (I
ciais. As Suficiências", Pés-de-chinelo, Bem Necessárias e Beatitu I s !Iv.
dern entre si os papéis, quando surge \'0 Um a Mais" que "dev s r 111m! 11\
Um Sem Mais," pois "Um-Ainda seria um Demais" ... "O O d UI11(I \I
I " e conjuga com "o U de um veredito" numa "organiza ã qu Ir I 1 1
Palavra a caminhar entre estes dois. muros de silêncio, para ar n 'lu I 1
nüp ias da confusão com o arbitrário". Como-se lê e ta "inspiraç 111

I 4, p6 a segunda cisão de 1963 e os avatares da ltcole Fr ud! 11I1 • lun-


da p r Lacan? Quanto ao restante, reencontramos as te d sta p 41
nd nada com brilhantismo por um Lacan qu assurn i I l un 111
li títul d " ôngora da P icanãli "

+ • I I I 1\" \11 I \1 ",1111\ 11111111111 "li' NIII li, Y 11m!" (N, ( , ,


33 34

1956-1957 - Séminaire IV: La relation d'objet et les structures freudiennes 1957 (22 p.) - La psychanalyse et son enseignement
- Resumos: 1956-1958 - Versão anônima 1981 (A psicanálise e seu ensino)
(Seminário IV: a relação de objeto e as estruturas
freudianas) Ap6s a guerra, sob a iniciativa de Jean Wahl, a Socittt Françals
Philosophie ouve os grandes nomes da vanguarda. Em fevereiro d 1 7,
De entrada no jogo, Lacan ataca pela base a teoria das relações de ob- vez de Lacan, que aí resume suas posições. O argumento distribuíd ant I,
jeto sustentada pela SPP em sua obra coletiva La psychanalyse aujourd' hui sessão fornece o essencial da proposta. Na primeira parte, "A p i análl ,o
(sob a direção de Nacht, 1956): na realidade, Freud não se preocupava com que ela nos ensina", reúne três afirmações: "No inconsciente, is 01 "j (
o objeto, mas com a "falta do objeto". Ora, esta falta não tem nada a ver sintoma e "simb6Iico"; os psicanalistas hoje traem Freud, quer e ap
com a frustração inventada pelos sucessores infiéis, trata-se de uma renün- ao meio social ou ao ego. Em seguida: "E contudo ..• Como ensinã-l 7"
ciaque implica, desde a origem, a lei do Pai, pois "entre a mãe e o filho, tra a literatura analítica demasiado confinada ao imaginário da rela du 1,
Freud introduziu um terceiro termo, imaginário, cujo papel significante é Lacan busca uma formalização que institua finalmente a psicanãlis 11

muito importante, o falo". O estudo se funda na função do objeto na fobia e ciência. Este é o papel do "retorno a Freud". É preciso reencontrar I
no fetichismo (o Pequeno Hans, Bate-se numa Criança, o Vinci de Freud e simbõlíca em suas três dimensões: hist6ria de uma vida vivida como hi t j

a observação de uma menina por uma aluna de A. Freud). Deve-se ver aí sujeição às leis da linguagem, às únicas capazes de produzir a sobred t rmi-
"soluções imaginárias" à béance produzida pelo aparecimento do falo "co- nação e "o jogo intersubjetivo onde a verdade entra no real"; enfim, lu
mo o que falta à mãe, à mãe e ao filho, entre a mãe e o filho", pois somente do grande Outro, lugar da verdade e do pacto. É neste lugar de utr q I
o pai é seu "portador" ou seu "detentor". Assim, Lacan pode estabelecer situa o analista no tratamento. O final, mais prudente, marca distân I I \
três modos de relação com este objeto paradoxal, pois ele tem "vocação relação ao projeto científico: "O grande-Outro está apenas a m i nrn nh
simb6lica": a frustração, prejuízo (dano) imaginário de um objeto real, o de uma busca da qual nada sabe: um mais além da análise." Quant
pênis como 6rgão"; a privação, "falta real (buraco) pela perda de um objeto ção que se pode transmitir, a única, é um estilo.
simbólico, o falo como significante"; a castração, "dívida simbólica, no re-
Um aspecto é novo nesta Conferência: Lacan se ju tifica r UIIII
gistro da lei e perda do falo enquanto objeto imaginário".
"de c berta reacionária": nada aí que contradiga "a ampla dialéti
A queda da mãe que "de simbólica torna-se real", enquanto que os
faz s rvos da história". "O segundo nascimento na ordem da lin li
objetos, por intermédio do falo, "de reais tornam-se simbólicos", leva à pre-
dls urs universal (... ) duplica a alienação dos homen n avatarot
ferência estruturante pelo pai. Lacan se interroga, portanto, sobre o modo
lu' I acreditaria realmente ni to? 24
como "o objeto feminino imagina a relação de objeto"; ele fala da materni-
•• u nt às palavras espirituosas? rv1. Klein é "uma mulh r
dade, do amor e de um caso de homossexualismo (Freud, 1920), onde vê um
"um I tripeira", Ou ainda: abaixo os analistas qu p ÍI
tipo de relação à falta e ao pai. Este seminário aborda, pois, as teses mais
tmagtnatr " à "filiatio stmbõlica" ...
importantes da obra sobre a diferença dos sexos - e isto em termos às vezes
tão parciais que nos perguntamos o que está realmente em jogo para o autor.
A doutrina vai se sistematizar a partir das Formations de l'inconscient 36.
Tal intransigência desconhece algumas contribuições de M. Klein, Bouvet e
Winnicott (sobre "o objeto transicional"): a questão do objeto parcial conti-
nua aberta •.. Assim, nos anos 60, a noção de objeto a, causa do desejo, jun-
ta-se à do Falo.

194
35 Contra les faufil'és du fofreudisme* (primeiro jogo de escrita em Lu ui
se profere este discurso que desce aos Infernos do Significante para r tom
à Palavra soberana de Heidegger. Em conclusão, T, t, y, m, p, t: Tu t' "
1957 (36 p.) - A instância da letra no inconsciente ou a razão desde mis un peu tard (te meteste aí um pouco tarde), segundo J.A. Miller. >I<
Freud

Este escrito difícil - redigido ap6s uma Conferência na Sorbonne para 36


estudantes de filosofia - sistematiza tudo o que foi explorado nos Seminários
n 27, Ill 30 e IV 33. O termo lettre (letra, carta) vem de La lettre vol'ée 31:
ele tenta localizar o significante e fazer uma sorte de inscrição dele no in- 1957-1958 - Séminaire V: Les formations de l'inconscient - R na lU I
consciente, aqui da ordem do "selo", aguardando "o traço unário" de L'I- 1957-1959.
dentification 50. A Instância, por sua vez, remete à lei (da diferença sexual), (Seminário V: As formações do inconsciente)
mas joga com a palavra "insistência", para lembrar a "repetição", fenômeno
pr6prio da cadeia significante no inconsciente. As descobertas anteriores es- produ ••
clarecem portanto este texto, pois são mais hesitantes, mas é ele que permite d s.
captar o quanto Lacan transformou as noções lingüísticas, etnol6gicas ou fi-
los6ficas, transportando-as para seu campo de experiência. Três partes indi-
cam bem o caminho a percorrer: "O sentido da letra", "A letra do incons-
ciente" e "A letra, o ser e o outro" (La lettre, l'être et l'autre). E análises
mais concretas suportam a teorização: exemplos tomados de Saussure, Ja-
kobson ou Hugo - e a hist6ria das crianças na estação de trem diante dos
W.c. identificados com as letras H/O (Homens/Damas).
Uma afirmação definitiva: "O inconsciente não é o primordial, nem
o instintual, e de elementar ele não conhece senão os elementos do signifi-
cante." Que visa, então, Lacan? Mais além da palavra (nos sentidos freudia-
no e heideggeriano), "toda a experiência da linguagem que a experiência
psicanalítica descobre no inconsciente". Numa sorte de corrida infinita, ele
quer captar o mecanismo "da máquina" que "rege o pr6prio regente" (o
Deux ex machina freqüentemente evocado). Ele corre o forte risco de, ele o
sabe, não encontrar senão "a figura obscena e feroz do pai primordial, ines-
gotável, a se redirnir na eterna cegueira do Édipo". Para ele, a resistência à
análise não se situa tanto do lado da sexualidade quanto do lado "deste
abismo aberto ao pensamento de que um pensamento se faça ouvir no abis- 111

mo". É este abismo que tenta explorar a série vertiginosa das transformações
do Cogito ergo sum de Descartes. Que drama Último sustém este texto, ao
ponto do autor preferir a tudo (para quê?) dar esta definição do inconsciente:
uma mem6ria comparável à "das modernas máquinas-de-pensar", onde "jaz
esta cadeia que insiste em se reproduzir na transferência e que é a de um de- ( 11I11 hu-
sejo morto" ?
JlIII~lvCl N.I' ••

196
Édipo - faz intervir o pai "permissi vo e doador" que, preferido em relação à cia ou a recusa dos adversários, "isto não impede que exista" o utr
mãe, dá nascimento ao Ideal do Eu. Neste contexto são abordados os pro- seu lugar de Outro, diz Lacan, retomando assim, ap6s Freud, o dit rI•
blemas do tornar-se menino ou menina e do Édipo invertido. Pode-se dizer tuoso de Charcot. Finalmente, ele resume sua teoria do humano s b uutn
que encontramos aqui o essencial da doutrina que vai se desenvolver na lite- forma elíptica que vai suscitar inúmeros comentários:
ratura lacaniana (principalmente em psicanálise de crianças), nos meios in-
telectuais e na mídia. O "retorno a Freud" é um retorno a uma definição es- Nome-do-Pai Desejo da Mãe Nome- (A)
trita dos papéis dos pais numa sociedade "androcêntrica", do-
Desejo da Mãe significado ao sujeito Pai Fal
37
Entretanto, pode-se também questionar o valor de um mod I qu I I
- partir de Schreber e de alguns casos de paran6ia, pretende definir a DIiIC(I/lf,l
em geral. Repetir-se-ia o mal-entendido entre Freud (paran6ia) e a ~
1957-1958 (53 p.) - De uma questão preliminar a todo tratamento pos-
Zurique (esquizofrenia).
sível da psicose - 1958

Não se trata apenas, como diz o autor, de um condensado dos dois pri-
38
meiros semestres de seu seminário sobre As Psicoses 30, trata-se de uma
síntese centrada no termo forclusão que o concluía, uma síntese mais vasta
mesmo, pois aí reencontramos o traço das Formations de l'inconscient 36,
sem contar o Esquema L da dialética intersubjetiva 27,31, doravante simpli- 1958 (26 p.) - Jeunesse de Gide ou la lettre et le désir
ficado. Um novo Esquema R tenta articular o ternário simb6lico, os dois re- (Juventude de Gide ou a letra e o desejo)
cortando o "quadrângulo da realidade". A realidade? O termo ainda é am-
bíguo, pois pode designar o que faz nossa relação ao mundo (do cotidiano à
ciência) tanto quanto o Real como inacessível. Este esquema R toma uma
forma particular na psicose (Schreber), aguardando que Kant avec Sade 51
dê sua versão perversa. Portanto, vemos que Lacan está cada vez mais preo-
cupado em criar as bases formais de sua teoria, antes de abordar os proble-
mas do tratamento da psicose, remetidos aliás a um mais além deste texto. É
preciso mudar a maneira de "compreender": eis o que explica o caráter de-
monstrativo da composição em cinco pontos: Ati! Freud (avaliação hist6rica),
Após Freud (avaliação catastr6fica da sucessão), Com Freud e Com Schre- P i
ber (o essencial de seu ensino) e o Pós-Escrito. P
Mas qual é "a questão preliminar"? A do Outro, parece, cuja presen-
ça comanda todo o resto. Ele é aqui o lugar de onde se coloca, para o sujei-
to, a questão de sua existência (sexuação e morte). Ora, se a metáfora pater-
na não permite ao sujeito evocar a significação do falo 39, se ao apelo ao
Nome-do-Pai responde uma carência do pr6prio significante, então é a psi-
cose. O Outro? O inconsciente onde "isso fala"? O lugar da mem6ria que
condiciona a indestrutibilidade de certos desejos? O lugar onde o ignifi-
cante dos significantes é o falo? O lugar simb lizad pel N fi -d - ai,
pois "o Édipo é c n ub tan ial a in n i nt "7 fi t da, a i n I' n·

198
o labirinto das identificações, "os componentes do discurso da mãe",
o desaparecimento na morte da "palavra" do pai que "hurnaniza o desejo", a
criança Gide entre "o erotismo masturbatório" e "a voz pura da morte", o
casamento não consumado com a prima-mulher, o drama das cartas queima-
das por ela, etc.: em pequenos toques se recompõe uma outra história do su-
jeito Gide. Tudo conduz a esta afirmação: "Nada do desejo, que é falta, po-
de ser pesado em balanças, a não ser as da lógica." Do inconsciente e do
significante, evidentemente. O romance familiar gideano convém exatamente
à teoria lacaniana da família.

39

1958 (11 p.) - A significação do falo -1966

Originalmente uma conferência feita no Instituto Max-Planck de Muni-


que, sob o convite do Prof. Matussek, ele mesmo tendo vindo a Paris falar
da "psicoterapia das esquizofrenias". Segundo Lacan, ela teve "efeitos
inauditos", por causa de "certos termos" que "fomos os primeiros a extrair
de Freud". Toda a pesquisa quando dos seminários sobre La Relation
d'Objet 33 e Les Formations de l'Lnconscient 36 encontra aí sua conclusão.
É por isto que, se quisermos saber tudo sobre o Falo (lacani~no) em poucas
páginas, temos que ler este texto, verdadeira máquina de guerra contra as
outras teorias analíticas da época. Tudo se passa como se estivéssemos
diante de uma alternativa inelutável: ou a Mãe ou o Pai. A Mãe, é a conde-
nação à dependência da demanda; o Pai é o acesso ao desejo e, portanto, a
saúde. Se o Pai deve ser preferido em relação à Mãe, se o Pai é origem e re-
presentante da Cultura e da Lei, é porque ele detém o Falo, que pode dar ou
recusar. Este primado absoluto do Falo - único emblema do Humano - foi a
verdadeira base doutrinal dos lacanianos, que freqüentemente dele fizeram
um dogma. Lembremos algumas fórmulas célebres: "O falo é o significante
dos significantes", "o significante privilegiado desta marca onde a parte do
logos se conjuga ao surgimento do desejo", sua função "desemboca na rela-
ção mais profunda: aquela pela qual os Antigos aí encarnavam o Noüs (o
Espírito) e o Logos (a palavra, o discurso, a razão)", etc. Por que tal privilé-
gio? A resposta é dada aqui: "este significante é escolhido como o mai a-
liente do que se pode captar no real da copulação exual"; Hei é mai
simbólico no sentido literal", poi "equi vai a uma pula J
por sua turgidez, a ima m d Ilux V itaI fi unnt PAR li

(tO
"pagar com palavras", "pagar com sua pessoa" e "com o que há de essen- gar da Verdade, não contém o significante que seria o garante desta V rd \-
cial em seu julgamento mais íntimo, para se ocupar de uma ação que vai ao de. O Falo está "indisponível" no Outro (o que se traduz pelo sign : - ([l •
coração do ser". Assistimos aí a uma reviravolta importante do pensamento lacaniano: 11
preendem-se melhor os tons desesperados do seminário seguinte s br A Itl •
ca 43. O sujeito masculino se voltaria para sua mãe por amar sua "di. ntd I
de" de mulher? Ele se choca com o que ela manifesta de seu de j : 11 111
41 desejo, mas glutoneria, até mesmo devoração". O horror da femlnllltlll Ir
reina sobre a peça e vem açoitar Ofélia, a virgem-noiva. Esta p rs n III

para Lacan, uma figura "fascinante", porque encarna, diz ele," di' 11\1 til
1958-1959 - S'tminaire VI: le désir et son interprétation - Resumos objeto feminino, preso na armadilha do desejo masculino", mas prln '11111
1959-1960 - Sobre Hamlet 1981-1983 - Versão anônima mente porque ela é ao mesmo tempo o objeto e a pedra-de-toqu d <J
1981 objeto a (objeto parcial) do desejo e Falo (presente no O-Félia).
(Seminário VI: o desejo e sua interpretação) termos não são claramente distinguidos e, se Ofélia não pode ser d s b I( I
senão no luto - ''J'aimais" Ofélia" -, este luto é concomitante a d (1.1 II
O desejo deve ser posto no centro da teoria e da prática analítica: o tí- e do Falo. Aliás, como a afânise de Jones, que procura no temor d S I' fl •
tulo não indica uma simples justaposição dos dois termos, mas quer enlaçá- vado de seu desejo um denominador comum para os dois sexos, LEI.ao 11111/1-
los em torno da função maior da linguagem. O desejo, embora tenha como tém a assimetria radical em relação ao único significante fãlico, h 01 l1l
energia psíquica a libido, marca a dependência do homem dos significantes "não é sem sabê-lo" e a mulher "é sem sabê-lo ". O único objeto d d s .1< -
que. constituem. É que a análise, fundada na palavra, deve fazer aparecer um ao mesmo tempo que seu único significante - parece ser realrn nt O IlaJ I
mais além da demanda do paciente. Lacan diz mesmo que "o desejo, é sua que, ai de n6s! só surge "por faíscas", quando das decisiva " ai Iunl ",
interpretação" . onde a morte comparece ao encontro.
Talvez a melhor forma de abordar este Seminário seja ler as sete lições
sobre Hamlet publicadas por I.A. MilIer em Ornicar?: uma nova interpreta-
ção, depois daquelas de Freud, Jones e ElIa Sharpe. Hamlet seria "a tragédia 42
do desejo": é por isso, nos diz Lacan, que "estamos em cheio na clínica".
Qual é esta rede de passarinheiro, onde está articulado o desejo do homem
nas coordenadas de Freud, Édipo e castração"? A análise estrutural da peça, 1959 (21 p.) - A Ia mémoire d' Ernest Jones: sur sa théorie du s ml lism»,
que ordena não somente os lugares dos personagens, mas a sucessão dos -1960
acontecimentos, deveria nos levar a "situar o sentido do desejo". O enigma (À memória de Ernest Jones: sobre sua teoria do Imhu
é o da impossibilidade de agir de Hamlet: ele não pode matar Claudius (o as- lismo)
sassino de seu pai, amante de sua mãe e o usurpador), ele não pode amar
Ofélia, "ele não pode querer". E quando, ao final, ele descobre seu desejo -
combatendo com Laerte no buraco cavado para sepultar Ofélia -, esta reve-
lação está inelutavelmente ligada à morte, onde todos desaparecem. Lacan,
fascinado por esta tragédia, consagra-lhe suas melhores páginas: elas escla-
recem o que é para ele o drama masculino do desejo - e, mais profunda-
mente, a angústia do To be or not to be. Qual é, pois, esta "verdade sem es-
perança do homem moderno"?
Do lado do Pai, a decepção é irremediável: Não há Outro do Outro. O
Rei morto é um ser errante em busca d um impo {v 1 [ S at . utr ,lu- •••"'fO (1(lIlho (1I1PO to I' !tI 1\lItHtlIOII!! 111ft !,,/tl/I/IY 111 HIII!!VII)I ~/IIIItl.V 11111]11\. N,I'.),

202 li
"Para mim, o preceito [Não cobiçarás] que deve levar à vida, acabou levan- berano Bem, do prazer assegurado em sua temperança ou da cone p
do à morte, pois o pecado encontrando ocasião, seduziu-me graças a este litarista dos bens); o homem do sentimento aprenderá aí a "limitar
preceito e por aí me deu a morte." Lacan precisa: "Coloquei a Coisa no manda de felicidade"; "o homem de dever a retroceder nas ilu
lugar do pecado", denunciando por sua. vez a cumplicidade da Lei com a truísmo (inclusive os cristãos que fazem do preceito "Amará a
Coisa, "o que se chama propriamente de Mal". Mas o que é a Coisa, contra como a ti mesmo" o lugar de sua exaltação narcísica); "o libertin "
o que o Pai não pode ou não sabe se defender? Ela não tem nada a ver com "reconhecer a voz do Pai nas ordens que Sua morte deixa intacta "
"o objeto", criado, por sua vez, pelas palavras; ela é o "fora significante" e localizam análises de Sade que reencontraremos em Kant avec ad.
também o "fora significado" estranho e hostil, uma "realidade muda" ante- fim, "o espiritual" saberá ressituar a Coisa em torno da qual gira a n
rior ao recalcamento original ele mesmo que, já, coloca no seu lugar "a tra- do desejo ... Entretanto, um problema se coloca: como se articulam
ma significante pura" sem poder mascará-Ia; o centro do inconsciente mas a, a Coisa e logo o agalma do seminário sobre a transferência 47, S m
excluído, o Real mas sempre representado por um vazio, a não-coisa, a a- que o falo continua sem ser nitidamente distinguido?
coisa, o Nada, um buraco no Real a partir do que o Verbo - o Significante- Demoramo-nos neste seminário porque ele nos parece es lar • r /lI
cria o mundo; o lugar do gozo mortífero que sanciona o interdito do incesto; profundidade a descoberta lacaniana: ele é como um estribilho qu • /llp \-
etc .. Evidentemente, ela é associada à mãe, que a representa por sua "carna- nha, durante anos, as variações melódicas. Se prestarmos atençâ , e UIIO\)-
lidade manifesta", à mulher que, idealizada no amor cortês, diz o verdadeiro: 10 até nos comentários dos maternas mais abstratos ou nos textos r ulnm li-
"Não sou nada mais que o vazio que há em minha cloaca" - e já aparece tares que organizam a École Freudienne.
aqui a idéia de que a sexualidade humana é irremediavelmente torta, anun-
ciando os múltiplos desenvolvimentos dos anos 70 em torno da f6rmula qua-
se ritual: "Não há relação sexual." Evidentemente, é ao Outro que é a mu-
lher que cabe suportar a carga de maldição - e contudo a Coisa está instala- 44
da no coração de todo sujeito, que deve reconhecê-Ia. Quem sou eu? "Você
é o dejeto que tomba no mundo pelo ânus do diabo", clama Lutero. Poder- 1958-1960 (38 p.) Observação sobre a exposição de Danlel
se-ia resumir a tese de Lacan pelo lugar comum: "o verme está no fruto"; "Psychanalyse et structure de ia personaliz
naturalmente, faltaria brilho. Digamos muito mais que a saúde está por um
fio: "a delicadeza (o caráter delicado) do amor do filho pelo pai", um Pai
enfim simb6lico, isto é, tanto mais presente quanto mais ausente, um Pai sem
corpo ou corpo glorioso de significantes, um Pai que pode apenas ser o ob-
jeto de um ato de Fé, pois "não há Outro do Outro" para garanti-Io: este te-
ma será ampliado em 1969 com a leitura do Pari de Pascal 71. Nesta pers-
pectiva, a sublimação, sobretudo artística, é busca do encontro com a Coisa:
o verdadeiro amor ao próximo consiste em reconhecer nele, como em si
mesmo, o lugar (a ferida) da Coisa; quanto à descrença, ao rejeitar a Coisa,
ela a faz reaparecer no real - o que é exatamente a definição lacaniana da
psicose.

Compreende-se, pois, porque Lacan não tem senão sarcasmos para "o
amor médico" que propõe ao paciente "o ideal do amor humano", "a auten-
ticidade" (o fim da mentira) e "o ideal da não-dependência". O que ele, por
sua vez, diz, é ensinamento para todos: "O filósofo talvez encontre af d qu
retificar a posição tradicional do hedoni mo" (qu r trat da bu a d

206 07
analisa, não somente porque a constr6i, mas porque ela a produz, mai aio I,
porque é idêntica às leis universais do espírito humano que são sua ori
Eis aí o que não deixa de ter conseqüência no domínio analíti
sim que o Isso, embora seja realmente impessoal como o diz Laga h ,11
agregado de relações de objeto onde o sujeito se espalha, ele é a r ~lcl
significantes: ele existe porque "o discurso estava lá, desde o com ,nu·
mo que em sua presença impessoal". Também a intersubjetividad d 111\ 11
por Lagache não pode ser senão da ordem do Imaginário: intercâmblo '011\
o mundo humano ao redor, um jogo de interações, um simple •• ur I- li
trem". É preciso lhe restituir a-dimensão simb6lica, inscrevend
Outro como "lugar transcendental" que rege o sujeito e suas rela
14
outros. Uma frase brilhante se pretende conclusiva: sobre "as ábu I
Lei", "nada está escrito para quem sabe ler, fora as leis da Palavra
ma".
Mas a Coisa não seria um avatar - um novo nome - do Isso?
fie ante , o que é ao certo em Lacan? Segundo ele, o fading (o d svan
mento) do sujeito não está ligado, como acredita Lagache, ao sur irn ne
pensamento, ele está originalmente ligado à "suspensão do des ~ ",
clipse" do sujeito no significante da demanda e à fascinação d fant 11111,
onde "o sujeito mesmo torna-se o corte que faz brilhar o objet pa I I I
sua indizível oscilação". Perdemo-nos aí. Lacan também: no semlnãrlo (Ir
L' Identification 50, ele tenta definir este significante ou esta p ra o
ficante primeira enigmática, ora, é aí que, pela primeira vez, 1 r Jr
teorias matemáticas da topologia. A frase que acabamos de citar nt tlI 111
rme todos os desenvolvimentos dos vinte últimos anos: apr Iun IUlI ntu
teõri O ou fuga para frente desesperada?

45

l 60 (15 p.) - Propos dire tifs pour un on rês sur ta ' ualn filll/II
fi - 1964

(Propósitos dírettvos paru um 011 J" S o sobr n l unll-


dnd ~ mlnlna)

(I
como artigos de Laurin, Dolto, Granoff e Perrier, entre outros. Lacan por perto de fazer pesar sobre nós a ameaça do destino de Tirésias" (o adlvh h(
sua vez, abre o volume com este texto de título significativo, onde faz a que por um tempo foi transformado em mulher). É preferível, poi, ntlr LI li'
apresentação histórica e teórica da questão. Ele declara tê-lo redigido em a afirmar que a única possibilidade oferecida aos psicanalistas é e tudu "I
1958: com efeito, encontramos, resumidas de modo didático, teses defendi- incidências do falo na estrutura subjetiva" das mulheres, segund fi t,
das em La relation d'objet 33, Les Formations de l'inconscient 36, La Sig- categorias do Imaginário, do Real e do Simbólico.
nification du phallus 39, Le Désir et son interprétation 41, e no artigo sobre Lacan termina com questões muito abertas a propósito da sexuulld \ I
Jones 42. Se ele não teve necessidade de revisã-lo, é bem porque, no essen- feminina e da sociedade (ou da Cultura): questões que nunca terã r atrn nl
cial, sua posição estava dada. Contra M. Klein, Jones, K. Horneye outros, seqüência. Em compensação, o gozo feminino frequentará o serninãr 11\

ele prega o retomo mais estrito à doutrina freudiana: primazia do Pai, privi- relação com a famosa fórmula: "Não há relação sexual." O text !TI I
légio absoluto do falo para os dois sexos, libido única e masculina. Sem o nhecido é certamente o do seminário de 1972-1973, Mais, ainda 84, ?(
que não se poderia considerar-se freudiano, deixar-se-iam os "preconceitos" toma em parte "o parecer que Freud repete freqüentemente de não r duz " o
falarem, esquecendo o que ensina a escuta do inconsciente. suplemento do feminino ao masculino ao complemento do passiv a tlvo":
Todos os temas clássicos da sexualidade feminina (frigidez, maternida- é em torno deste termo de suplemento que Lacan tentará encontrar SU t (I I-
de, masoquismo ou homossexualismo) são, pois, situados num contexto im- ção para um problema cujos dados ele tenta antes de tudo dominar.
perativo. "Parte-se do homem para apreciar a posição recíproca dos sexos",
"após o que se abre" este ou aquele problema do lado das mulheres, pois é
duvidoso que se aprenda o que quer que seja tomando como ponto de partida 46
a mulher, isto é, "a parte feminina, se este termo tem um sentido, do que se
passa na relação genital, onde o ato do coito tem um papel pelo menos lo-
cal". A mulher tem que assumir o lugar da "Outra absoluta" que é na "dia- 1960 (35 p.) - Subversão do sujeito e dtaiética do desejo no íncons I 11·
lética falocêntrica". "O homem serve de contraponto para que a mulher se te freudiano - 1966
tome este Outro para ela mesma, como o é para ele." Lembramo-nos então
do "impasse subjetivo" específico das mulheres, a propósito de Dora 20, ou
da posição feminina "problemática e até certo ponto inassimilável" 30. Aqui
ainda, Lacan se refere ao homossexualismo para tentar dissociar feminilidade
e passividade: este é analisado como "o esforço de um gozo envolvido em
sua própria contigüidade (do qual talvez toda circuncisão indique a ruptura
simbólica) para se realizar à porfia do desejo que a castração libera no ma-
cho, dando-lhe seu significante no falo." Esta é a visão modernista da inveja
do pênis.
Uma vez traçadas estas linhas gerais, a avaliação das contribuições da
psicanálise ao conhecimento da sexualidade feminina é negativa: é uma ava-
liação de ignorância. "O orgasmo vaginal conserva suas trevas invioladas";
perguntam até se "a mediação fálica drena tudo o que pode se manifestar de
pulsional nas mulheres, principalmente toda a corrente do instinto materno".
E Lacan acrescenta: "Por que não formular aqui que o fato de que o que é
analisãvel seja sexual não comporta que tudo o que é sexual seja acessível à
análise?" O feminino seria a parte inanalisável da sexualidade? Além disso,
será que o autor deseja realmente que a ignorância se dissipe? Uma piada
nos faz duvidar disto: "Um congresso sobre a sexualidade feminina não e tá

210 11
"que responder a nenhuma verdade última", pois não há Outro do Outro pa- 47
ra garanti-l o 41; enfim, o modo analítico, se todavia mantivermos o equívoco
1960-1961 (148 p.) - Séminaire VIII: le transfert dans sa disparité sub] ••
entre o discurso em análise e o discurso sobre a análise, cuja elevada abstra-
tive - Versão anônima, 1981.
ção exige recorrer aos conceitos de outras disciplinas... Então, um texto
"meio-científico, meio-metafórico", como ele mesmo o diz? Não se deve en- (Seminário VIU: a transferência em sua di p I I-
tender por aí duas metades que se justaporiam ou se completariam: são sem- dade subjetiva)
pre as duas ao mesmo tempo e nem completamente uma nem completamente
outra. Deste ponto de vista, este artigo é exemplar da escrita lacaniana.
O sujeito da psicanálise não é nem o sujeito absoluto de Hegel, nem o
sujeito abolido da ciência: é um sujeito irremediavelmente dividido pelo apa-
recimento do significante. Quando se trata do sujeito do inconsciente, não se
sabe quem fala, este sujeito é simplesmente "o lugar do inter-dito que é o
intra-dito de um intra-dois-sujeitos", ele sofre sem cessar os efeitos de fa-
ding (de desvanecimento) que "sua ocultação por um significante sempre
mais puro" provoca. Ele é "o puro sujeito da enunciação" que o pronome
"je" (eu) no enunciado indica mas não significa. Eis aí o que nos valem be-
las inspirações: "Enunciação que se denuncia, enunciado que se renuncia,
ignorância que se dissipa, ocasião que se perde, o que é que resta aqui senão
o traço do que é preciso bem que esteja para cair do ser?"
Mas, aqui, o conceito chave é o de desejo, cuja dialética segundo La-
can é bem diferente da defendida por HegeI. Além disso, o grafo do desejo,
elaborado durante o seminário sobre Les formations de I' inconscient 36,
constitui o cerne deste texto: corrigido, enriquecido e comentado de outro
modo. É que Lacan quer transformar este grafo numa verdadeira topologia
das etapas constituintes do sujeito. Sob sua forma completa, ele deve ser a
síntese e a ordenação de todas as teorizações anteriores desde o Estádio do
espelho. No limite, ele deve responder a todas as questões formuladas em
análise. Compreende-se, pois, que este texto esteja no centro dos ensina-
mentos lacanianos - com este brinde de prazer (ou de consolação): "Que o
desejo seja articulado, é justamente por aí que ele não é articulável" ...
Pode-se tentar seguir o percurso em chicana deste pobre combatente
que é o sujeito. Tentar se referenciar nas múltiplas definições do Outro. Inte-
ressar-se pelas novas aventuras do Falo. Meditar esta resposta ao' "Que sou
eu?": "Eu estou no lugar donde se vocifera que 'o universo é um defeito na
pureza do Não-Ser'." Regozijar-se ou não com o fato do ser humano ser
condenado a falar no lugar de fazer amor, ou preferir esta afirmação segundo
a qual não é "a lei que barra o acesso do sujeito ao gozo, mas o prazer", isto
é, a vida. E como esquecer a frase final encontrada em 1966: "A ca tra ão
quer dizer que é preciso que o gozo seja recu ado, para qu p a r atin i-
do na e cala invertida da i d d s j "7

212
zia da contratransferência a implicação inevitável e necessária do analista na sos cálculos como alguém que combina como n6s". Sócrates, furtand -
experiência em curso e formulava então o problema do des~jo do psicana- declaração de Alcebíades, recusando-se a mascarar com um fetiche sua r 11(11,
lista. A "disparidade subjetiva" toma-se aqui uma regra rigorosa, estabele- designando-lhe Agatão como o verdadeiro objeto de seu amor, m Slfl\ I
cendo a dissimetria radical dos dois protagonistas face ao desejo: assim, o psicanalista a conduta a manter: este é o outro aspecto da "disparidad uh
analisado poderá descobri-lo, através da decepção do amor de transferência. jetiva" que deve- entrar em jogo na análise ideal (entre dois mach s'? . "
Em análise, aprende-se a falar no lugar de fazer amor: no fim, o. desejo - pu- diferença sexual é aqui apagada, "dar o que não se tem" não é res evado
rificado - nada mais é do que lugar vazio onde o sujeito (barrado) tem aces- mulheres, ela atua entre homens: a discordância vem do fato de qu fI h
so ao desejo do "discurso revelado-revelante para sempre". Reencontramos nenhuma relação entre o que possui um e o que falta ao outro. Entã r, di
estes temas da repetição e da transferência em Os quatro conceitos funda- o objeto parcial (Objeto a), de objeto imaginário aparece finalm nt (lHO)
mentais 55. significante dos significantes, pois "o único significante que m r , 11\
Podemos nos surpreender que um problema-chave da técnica psicanalí- nosso registro, sob forma de significante absoluto, o papel de sünl. I '"
tica seja abordado unicamente através de uma obra filosófica, contrariamente "Ele designa, para além de toda significação possível, esta pre 11 1 f I1
aos Escritos técnicos 25, onde um amplo lugar foi dado aos relatos de casos. que, do lado do Outro, espelho-plano que não tem mais nada a v r m ()
O banquete parece ser o lugar privilegiado onde se elabora o encontro entre estádio do espelho, permite a identificação, origem do Ideal-da-Eu." Lnlr
prática e teoria. O. Mannoni, desde 1955 27 tinha-se levantado contra a iguais, portanto.
comparação do diálogo analítico ao diálogo socrático. Lacan persevera e as- Há contudo, no Banquete, uma fala de mulher,a de Díotima, qu
sina, pois trata-se realmente, aqui, de um modelo e não de uma simples ilus- expressa sob forma de mito: para Lacan, ela é a voz feminina de õcrat : I
tração. A posição do analista é minuciosamente comparada à de S6crates - o diz ele, "como se eu desse a palavra à F. Dolto para nos descr V r a t o íu
que reforça ainda a afirmação de que Freud, como S6crates, escolheu servir psicanalítica". Ora, na fábula da Penúria fêmea face ao Recurs ma h ,
a Eros para dele se servir, inventando uma teoria que faz dele "o Mestre do feminino tem primeiramente um papel ativo em face do masculin mln nl •
Eros". Alceb fades , por sua vez, ocupa o lugar do analisado que, graças a mente desejável. A transposição nasce do fato de que em am r s6 li <J I)
Sócrates, vai se descobrir desejante. Mesmo a tática é semelhante: "Isolar-se que não se tem: o masculino, furtando-se à demanda, revela-se uj teo <J) 1 •
com um outro para lhe ensinar o que lhe falta e, através da natureza da trans- sejo. Mais tarde, Lacan fará de S6crates o verdadeiro modelo d di 'UI \
ferência, o que lhe falta ele vai aprender enquanto amante: estou lá não histérico, mas também do discurso analítico, pois atinge o saber (ti pl t n
para seu Bem, mas para que ele me ame" e eu o decepcione. A aventura co- do amor.
meça ... É analista qualquer um que pôde operar "uma mutação na
Notemos primeiramente que Lacan escolhe um modelo homossexual: seu desejo": ele dispõe tanto de seu inconsciente quanto da Xl
para evitar, diz ele, "o que há de muito complicado no amor com as mulhe- inconsciente, pois enfrentou o desejo da morte para aceder a fat
res". Assim, a diferença sexual é de saída apagada. Os dois parceiros mas- se etemiza no "entre-duas-mortes". Tudo cama õcrates. 1
culinos são "dois parceiros ao neutro", graças a "este algo pelo qual se ex- significante em posição de absoluto, então aboliu em i" t rn r ) li •
pressa naturalmente um gênero masculino ao nível deste casal que são o mar". ua divisa não é "Amarás teu próximo c mo a ti m srnc", mas "{\III i-
amante e o amado". Alcebíades toma-se desejante, pois crê que Sócrates rá antes de tudo em tua alma o que te é mais s n ia!". li aín I : "/
possui o agalma (o objeto brilhante, o fetiche, o objeto parcial do' desejo, o d seja n b ls para ons rvar mais pr i so: ~al, sil b 1
falo como desejável). Mas S6crates rejeita o lugar de objeto amado para se j ." desej nada mais é d u lu ar vazí • ~ assír
afirmar faltante, isto é, desejante, sujeito do desejo. Isto porque, para Lacan, minãri r 11 • ti a 4, a ao fi da fi trll J
não há jamais desejo entre dois sujeitos, mas entre um sujeito e um ser su- rt d I m 'lu ri d
pervalorizado e, na realidade, decaído ao estado de objeto. A única desco- f111 11\'1 111 I
berta possível do outro como sujeito, é "o reconhecimento de um outro p - I rmur, {\ I' lU i do I ,
suindo a linguagem articulada, a combinatõria, e resp nd ndo à n sa atra- (1) \ 111 11 ) 111 I to j I lido
vés de suas próprias combina ões, ist 6, ín I SS(V 1 I faz r ntrar m n fi- • ud 110: II 111'/.011 \ II (lI 11 111111 11 \

214
sencial da análise é consagrado às relações Pai-Filho (às vezes filha) em três
gerações. A angústia vem da crueldade enigmática do Pai e de sua degrada-
ção já constatadá em Ham1et 41, Lacan parece atribuí-Ia à separação da fun-
ção da palavra e da função do amor no Pai 22. Contentamo-nos aqui com
estas poucas referências.

48

1961 (4 p.) - A metáfora do sujeito - 1961

Pérelman faz, em 1960, na Société Française de Philosophie, uma ex-


posição sobre "L' Idée de Relationalité et la Rêgle de Justice". Lacan, por
sua vez, o interroga sobre a metáfora, mostrando, assim, que conhece bem
seu Traité sur l'Argumentation e sua tentativa de formalizar a ret6rica. Ele
confessa, então, sua dívida, no momento mesmo em que modifica radical-
mente a equação de Pérelman. Sua questão é muito mais: "Está você de
acordo com minha pr6pria teoria e minhas novas fórmulas algébricas?" Este
texto curto - que deve a um aluno o fato de figurar na segunda edição dos
Escritos - esclarece outros textos e é esclarecido por eles: é uma peça im-
portante do quebra-cabeças lacaniano da metáfora.
De Pérelman, Lacan conserva o funcionamento em quatro termos e a
distinção entre metáfora e imagem, mas recusa-se, diz ele, a relacionar a
metáfora à função da analogia. Para isto, em vez de opor os termos dois a
dois, entre "tema" e "fora"* (elemento significante portador), ele opõe três
significantes a um s6 significado. Este é o golpe de força lacaniano: a metá-
fora é substituição de um significante por outro sem que "nada de natural o
predestine" e sem a intervenção de nenhum significado. Assim, um exemplo
de Pérelman: "Um oceano de falsa ciência" torna-se:

c:n ocean of false


an ocean ( ~ ), onde o ponto de interrogação figurari-
learning X

* PHORE - Elemento do grego phereln "portador" que aparece n toem froncês MErAPIf RI!
(Metáfora) (N.T.).
o leva". Aqui, "o laço propriamente universitário cobre e retém sua inten- religiosa semítica segundo a qual "há do Pai de sempre a todos aqu I lU
ção, mesmo experimentada impacientemente, mesmo estendida até a luta pú- descendem dele, identidade de corpo" para se tornar na cristandad )IJ (

blica". Desde o ano seguinte 50 e, em 1964, na rua d'Ulm, 55, os ataques místico. A segunda é a identificação regressiva na relação de am r 11 I (
recomeçam, para alegria dos aprendizes filósofos da época. Em todo caso, objeto se recusa, então identificamo-nos ao próprio objeto: poder- -1 I ,,-
este texto - principalmente a propósito do "corpo como ser sexuado" e "do sar na mãe, mas o seminário sobre Le Transfert 47 está aí para n 1 ml , I'
que é ainda assunto de homens (Mestre/aluno; Pai/filho) em tom d I I
corpo como expressão da palavra" - classifica Merleau-Ponty entre os atra-
sados da metafísica do sujeito e do corpo, face aos inovadores da primazia a e do falo freqüentemente ainda confundidos. Aí também é a um tra
do objeto amado que nos identificamos. A terceira é a identificaçã hi l' I
do Significante e da Estrutura. Então, leitura crítica? Violência malcontrola-
onde, o sujeito reconhece no outro a situação global onde ele viv. o' 111 11.
da sob a máscara da argumentação? Ou irremediável mal-entendido?
clara prender-se à segunda identificação, mas suas análises, instau 111110 I
É, de preferência, uma exposição da doutrina lacaniana que se deve identificação do significante e a identificação ao significante, criam um i 11
procurar aqui. Contra o "sensível" do filósofo, abusivamente reduzido ao va categoria que engloba as duas primeiras, em torno da relação a P li I I
perceptum tradicional, a afirmação de que o corpo não tem seu lugar na psi-
Falo.
canálise. Contra sua leitura de Sade, a de Lacan, esboçada em A Ética 43, O essencial é estabelecer o sujeito em sua relação ao ignifi unt
que vai se construir em Kant avec Sade 51. Mesmo sobre as relações entre a unicamente. Tudo começa com uma história encarregada de marcar a dlf •
arte e o desejo (na pintura) há desacordo: "O olho é feito para não ver"; o rença entre o pré-verbal e o verbal. Lacan fala de sua cachorra, Justin 1\\
artista "nos permite o acesso ao lugar do que não poderia se ver: ainda seria honra a Sade), que tem a fala mas não a linguagem: enquant Calo - I'/,
preciso nomeá-Io" - o que anuncia Os quatro conceitos 55.
ele - ela não me toma jamais por um outro, ela não tem a capa id I
Psicanálise/filosofia? Seria simplista. Busca da "pureza" do signifi-
transferência e vive na demanda. Ocorre o mesmo com uma z lad ru 011
cante/pesquisa fundada no corpo e na relação concreta ao mundo? Mais ain-
mulheres-do-mundo" na cama ou na conversação: glória de estar lá I 11I0"
da: Lacan recusa-se a apostar a vida contra a morte, ele aposta na grandeza
do gesto que refuga ou da palavra de recusa. O horror de Lacan I 1 ""1111'
do "entre-duas-mortes" contra a vida radicalmente desvalorizada 43,47. As
babysh" (a confusão das lfnguas de Ferenczi) vai muito 1011 : I 1111 I( 11\ •
posições fundamentais são irreconciliáveis.
nos da epígrafe da Instância da letra 35, onde toda a língua m d Ir 10
do corpo é remetida ao "não-humano" daqueles que "não t rn u I 1\
Estes seres vivem no signo que os representa para alguém e n I
50
cante. Única salvação: "a identificação significante", onde I r -y ,I
articula no interior da relação do sujeito ao Verbo.
A identificação coloca a questão do idêntico: A = A? Ni ,po
1960-1961 (550 p.) - Seminário IX - A identificação - Versão anônima
diferença se instala pelo próprio fato da repeti ão: log ,A A.
de 1981
Um da totalidade, Lacan põe o 1 como traço únic ,qu le harn \
então de tra o unârio, c n titufd pela irnpl r p ti ti : a linh
Lacan declara que, ap6s ter feito até então em seu ensinamento a alter-
na e ola primária (nd nã há n nhurn sem lhant a utro), I' I Cl
nância da temática do sujeito e do significante, com A identificação ele estu- mar ad s p r n S S I n Inqu S an strais (n mus li d 01111- m I n , 01' I

da, finalmente, a própria relação do sujeito ao significante. Ele ;econhece S Ip s ins rit s p r ad na mad ira 10 ama. A dif J' n a ru om 111
também o caráter "árido" deste seminário, que todavia considera necessário. quulltaüva, na r ali Iad si nifl tini s t m unldad n r [u ti) (
No final do seminário sobre Le transfert, ele definia os três tipos de utr S n: ao, ti R r ur di r 11' I: m 1\ lU 1111 ) llll lIl!! • N (I 11
identificação isolados por Freud: a primeira é identificação primitiva ao Pai i, taut 1 rlu m r~rmllll 'mo "1/lI/'1 I li r I" "Lnplruu-h
enquanto tal, "especialidade viril" antes mesmo da rivalidade no desejo pela
mãe, identificação feita de um traço único, matriz do Ideal-d - eu, intr j ã
simbólica da marca do Pai; no limite, uma inc rp ra ti qu r ün t rnéti ~ Mulh 11 N ti I IlI1l1"lu) tI\I VIII llte IIU 1)11 I dI plll'lI 111I 1111 11te 11111111 I d'l V 11I. N./'. ,

218
tanto. é pela referência ética que se constitui a "referência selvagem" de Sa- desejo. parte-se da f6rmula algébrica do fantasma: $ a (Sujeito barrad p 1
de. que levaria assim ao extremo a primeira Declaração dos Direitos do Ho- significante/relação a/objeto a), já encontrado no grafo do desejo 36 u
mem ..• tará no centro de La Logique du fantasme 65. Portanto, o problema aqu
O texto sadiano permite a Lacan construir a estrutura e o fantasma do definir este objeto a onde se trama a relação da angústia ao des j : "A
perverso. como o caso de Schreber o fez para a psicose. Além disso. pode-se angústia é o sinal de seu aparecimento". Este conceito se elabora aqui I 1I
acompanhar suas análises de Kant e de Sade desde A Ética 43. o texto sobre primeira vez, a partir do objeto parcial 33 ou do agalma com seu brilh I
Merleau-Ponty 49, Le transfert 47 e L'Ldentification 50, até L'angoisse 52. objeto parcial ou de fetiche 43. Ele vai se precisar no decorrer d s
sem contar muitas referências ulteriores. Doravante, ele recorrerá a elas para rios.
colocar a questão da diferença entre o princípio do prazer e o instinto de
morte e para enriquecer sua reflexão sobre "o entre-duas-mortes" (neste ca-
so. a busca da beleza inalterável e da imortalidade para além da morte real
do outro e de sua dor inseparável de sua degradação ou ignomínia). "É en-
quanto objeto que o sujeito sadiano se anula" 50. enquanto que. para Ma-
soch, o sujeito se anula para se fazer objeto. Nada de complementar. E, ape-
sar de tudo, diz Lacan, Sade era masoquista na vida e sádico (sadiano) em
suas obras. Até mesmo para Piera Aulagnier 50, o perverso se faz objeto pa-
ra o gozo de um falo de cuja dependência não suspeita, ele se faz o instru-
mento do gozo de um Deus: ao que Lacan responde que há urgência em de-
finir o Falo. É em torno do gozo do Outro - gozo de um Deus. "Ser supremo
em maldade". lugar onde "a Lei e o gozo enquanto interdito são a mesma
coisa" - que Lacan tenta decifrar "este monumento de desafio" que é para
ele a obra sadiana. O fantasma perverso estaria completamente do lado do
Outro. Decididamente, a psicanálise tem mais a aprender de Sade do que de
Kant: pensemos na trilogia claudeliana 43. Pensemos também numa cultura
mal recuperada do que Hannah Arrendt chama de "totalitarismo", quer se
trate do nazismo ou do stalinismo, cuja fascinação sobre os intelectuais dos
anos 60 ainda não foi analisada.

52

1962-1963 (400 p.) Séminaire X: l' angoisse - Versão anônima 1982


(Seminário X: a angústia)

Em Inibição, sintoma e angústia (1926), Freud teria falado de tudo


menos da angústia. como que para melhor "deixar o vazio onde há angús-
tia". Este afeto em relação com a estrutura do sujeito não é recalcado, mas
fica à deriva: apenas são recalcados os significantes que o amarram. Para
Lacan, a angústia não é sem objeto, simplesmente, este objeto, ignoramo-l .
Ora, já que a angústia está ligada ao d ej qu fanta m é up rt d

222
1973 para reencontrar este título sob uma forma que pode surpreender: L '05'
Non-dupes errent* 85.
A perturbação de Lacan é profunda: é como se subitamente o pai n ,
fosse mais seu pai ou Freud ou o Pai, mas ele mesmo se descobrindo n t
lugar e neste lugar traído. Tem-se então vontade de reler sua análise da tríl •
gia claudeliana e, principalmente, do Pai humilhado 47. Enfim, ele tem qu
se defender contra o julgamento de um de seus alunos, segundo o qual "i
sentido de meu ensinamento seria que a verdade, seu verdadeiro trunf [u
não se a agarra nunca". As respostas do mestre culminam na teoria da v -
dade que ele não cessará de aprofundar: citemos o seminário sobre L' l~('1
de Ia psychanalyse 59, cuja primeira sessão aparece nos Escritos, sob t(tu-
10 de La science et Ia vérité 60.

1964-1969

É o período de sucesso. Após a Segunda Cisão, Lacan, que se t rn li


encarregado de conferências na École Pratique des Hautes Études, mant 111
seis seminários na ENS da rua d'Ulm, ao mesmo tempo em que continua IIU ,
Apresentação de Doentes em Sainte-Anne. Seu auditório cresce, p rt ntt :
também diferente, composto por normalistas filósofos, intelectuais dlv i,
e sobretudo por novas gerações, que amiúde ignoram seus trabalh s uni I )-
res. Seu ensinamento é influenciado por isto: ele mesmo o descrev m I •
tomada de seus seminários precedentes, mas com exigências mais ri
de conceitualização.
m junho de 1964 ele funda seu próprio grupo, a École Fr udt nn '
Paris, que vai conhecer uma rápida extensão, apesar da crís d 1 7
t rn d questão do "passe". Único diretor até o fim, ele pr mul a, 111 ,
f' 'hn n assembléias, congressos, etc. de sua Escola, int rvém n I.
P ra as cgurar a coesão de uma prática e de uma teoria mim I
11I til n li m.
Inüm, 1:\ publica ão do Escritos m 1966 - c I tân a d S 1.1$ ut o
ti - nl an a um su (in prado) num pübl! ba tunl 1I1l1110
111' 1\ v til 1 r S n as ao s minãri ,
11 indo, mIm ntra
I i 6H, I 11 'II/l nvJdnd 11,d lxnr ti llllllnll' d
, lu) )\ Iv r,lclld cl I uuh li. I I lllh

., ,\ N/III-I/llfl ,I' " 11I I) 11 U 111I10 IJIIIII) lIu 111\11 11 1111' , No", -1111 " I • (N,!',)
das da intelligentsia parisiense, enquanto que a abertura de um Departamen- 55
to de Psicanálise em Vincennes instala sua influência nas instituições ofi-
ciais. 1964 (256 p.) - Seminário XI: Os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise - 1973

54

1964 (4 p.) - Du "trieb' de FREUD et du désir du


psychanalyste - Itália, 1964 - França, 1966
(Do' 'trieb" de FREUD e do desejo do psicanalista)

Como traduzir Trieb? Conhece-se a controvérsia: "instinto" ou


"pulsão"? Já em 1938, Lacan rejeitava o termo "instinto" em prol do termo
"complexo"10 e pensava também, na época, poder isolar "uma pulsão pri-
mitiva em estado puro" 11. Depois, em seus grafos do desejo 36, ele liga a
pulsão a esta fórmula: a <>D(a pulsão está em relação com a Demanda e não
com a Necessidade). Mas é no seminário sobre L'Angoisse 52 que ele come-
ça a chegar mais perto deste conceito.
Problema de tradução: sobretudo problema de definição. Este resumo
de sua exposição e de suas intervenções no Colóquio organizado em Roma
pelo Prof. Castelli, sobre "Técnica e casuística", anuncia o seminário que
vai se seguir, sobre Os Quatro Conceitos fundamentais 55, dos quais um é a
pulsão. Lacan diz mesmo, numa nota nos Escritos, que "evitou entregar
muito cedo a uma difusão incontrolável" suas próprias teorizações ...
Aqui ele reafirma a diferença entre libido e instinto sexual: "sua re-
dução, no 'limite, ao desejo masculino, nos adverte contra isto", diz ele. À
parte, temos antes a confirmação de suas convicções (alguns diriam de sua
ideologia): o Nome-do-Pai permite ao homem não permanecer a serviço se-
xual da mãe; Vênus é proscrita de nosso mundo: prescrição teológica face ao
monoteísmo, que ocupou todo o lugar; a castração protegeria tanto do inces-
to com a mãe quanto da homossexualidade, assim como a lei protege do go-
zo que está do lado da Coisa; o desejo se institui pela assunção da castração
e da falta; quanto à mulher, "é-lhe necessário perder o que ela' não tem",
etc .. Temática conhecida! E o desejo do analista? É ele que, em última
instância, opera (para o bem ou para o mal) na análise.
Pergunta indiscreta: por que Lacan falaria de "instinto materno" em
Les propos directifs 45 e sobretudo, de modo obsessivo, de "instinto de mor-
te"?

22. 7
nome de Freud, mais ele se expõe. O problema central continua sendo o da ele deve decair de sua idealização para ser suporte do objeto a, objet s p ,-
transferência com o fundador: o Nome-do-Pai é um fundamento, nos diz ele, rador. Assim, o analisado descobrirá "a qual significante - não-sentid Ir -
mas a herança do Pai é o pecado, e o pecado original da psicanálise é o de- dutível, traumático - ele está, como sujeito, assujeitado" . Primeiro pa S 11
sejo de Freud que não foi analisado. Reencontramos o tema da Ética 43. La- sentido do "descer" que Lacan colocará no centro de seus textos d 1 7',
can se apresenta como o filho do lavrador na fábula de La Fontaine: o No- 66
me-do-Pai é um tesouro que deve ser encontrado, com a condição de que, Quando da edição de 1973 assumida por I.A. Miller, a quarta pd 'I
como Acteão, alguém se ofereça como vítima expiat6ria à Verdade 29 ... de capa retoma o resumo redigido por Lacan para o anuário da EPH . m I
Dos quatro conceitos evocados, três já tinham sido amplamente desen- nota de 1.A. Miller (p. 249) explica seu trabalho de transcrição, nqu 11 t
volvidos nos anos de 53-63. Sobre o inconsciente, a transferência ou a repe- que um posfácio do Mestre relê este texto em função de suas nova P I I •
tição, este seminário é a ocasião de difundir os princípios mais importantes sas (principalmente sobre o "Mais-de-gozar 71" - e sobretudo, ironl um n-
do ensinamento lacaniano, às vezes ao risco de retificã-los. Resta a pu/são, te, de sua exclusão neste meio tempo da ENS .... Destacaremos daí s t rmo
cuja importância aumenta desde o estudo do objeto a em L' Angoisse 52. Sem "publixação" e "estecritura" (esta escritura),* usados com grande li
levar em conta a sexualidade - sempre ligada aos objetos parciais - "a psi- assim como sua insistência no Real como imposslvel.
canálise não é mais que uma mântica". Ora, "a realidade do inconsciente é -
verdade insustentável - a realidade sexual" inseparável da morte. Sob a
forma do "objeto pequeno a" cuja "única realidade é topolõgica", Lacan
reagrupa todas as pulsões parciais ligadas a objetos parciais: seio, fezes, pê-
56
nis, ao que acrescenta olhar e voz. É o olhar que o mobiliza aqui: ele se con-
fronta com Merleau-Ponty, Sartre, Caillois, etc., para afirmar a esquizo (se-
paração radical) entre o olho e o olhar. A prop6sito dos Ambassadeurs de
1960-1964 (21 p.) =Position de l'inconscient-1966
Holbein, ele faz do quadro uma "armadilha a olhares", mas também, "um
(Posição do inconsciente)
dompte regard" e um trompe-l' oeil. * No centro, um objeto voando, um ob-
. jeto-espectro fálico, presentifica o -<I> da castração, ceme de toda organi-
zação do desejo através da rede das pulsões fundamentais. Ao Cogito (Eu
penso) cartesiano, Freud substituiu o Desidero (eu desejo).
Mas como conciliar o desejo ligado ao significante e ao Outro e a libi-
do tornada órgão sob a forma da lamela ou homelete, placenta, parte de seu
pr6prio corpo, da qual o sujeito deve se separar para existir? Aí intervém
uma nova concepção da repetição, cujo motor seria duplo: o automatismo
(automaton) do lado do significante; o encontro sempre perdido e buscado
(Ia tiquê) do lado da pulsão, o objeto a remetendo ao Real "impossível" e,
"como tal, inassimilável". Se a transferência é "a colocação em ato da reali-
dade do inconsciente" - o que a desmontagem da pulsão por Lacan quer
iluminar -, se o desejo é o ponto nodal onde atua igualmente a pulsão do in-
consciente, insustentável realidade sexual, que n6 g6rdio! Vai-se desatã-lo
ou vencê-lo? Pela primeira vez, o papel do analista é claramente o de permi-
t!r que a pulsão "se presentifique na realidade do inconsciente": para isto,

I 1111 mil li, rI ./ /1111/ 1111111pllhlVII\ \·,/. 1111 I 1\ 111111

*"Doma-olhar" e "tapeação-do-olho". respectivamente. (NT)

228
lação à psicanálise servem para seus ataques contra o papel dos" I-

gem, é a condição da linguagem" (p. 96) - recordando-se da ruptura de tros" psicanalistas na sociedade.
1963.
Lacan reafirma sua tese de base: "O inconsciente é um conceito forja-
do sobre o traço do que opera para constituir o sujeito"; "o sujeito não é 57
causa de si mesmo, ele carrega em si o germe da causa que o refende", esta
causa é a linguagem, ou melhor, o significante primordial que o divide e "o 1964 (4 p.) - Ato defundação da EFP - 1977
representa para um outro significante': "sem este significante, não haveria
sujeito no real". Estes são os efeitos de linguagem que dão nascimento ao Conhecemos os tons solenes do início: "Eu fundo - tão s6 011'\)
sujeito numa alienação primeira. Reconhece-se de modo mais denso e mais pre estive em minha relação à causa psicanalítica - a École Fran
pedag6gico os temas de A instância da letra 35, de L' ldentification 50 ou da Psychanalyse" que se tornará rapidamente, sob as mesmas iniciais,
Metáfora do sujeito 48, todos eles textos para serem lidos juntos. Em 1969, Freudienne de Paris. Afirmação altiva de solidão, concepção da psi UJ1 I
interrogado por A. Rifflet-Lemaire, ele responderá claramente a Laplanche: como uma "causa" a ser defendida, fidelidade a um nome - Freu I -
"É a linguagem que é a condição do inconsciente" 74. corpo de textos, apelo a disciplinas agrupadas numa "Escola" nd m I t li'
Se há efeitos de linguagem, há também efeitos de palavra, onde o su- pela Verdade de uma doutrina ensinada no seminário, cruzada c ntru fi
jeito se aliena à Demanda ao Outro e do Outro. Lacan retoma todos os temas fiéis, "movimento de reconquista" para o qual Lacan tem necessid íd
conhecidos deste Função e campo 24 sobre o Outro: palavra do pacto; in- "trabalhadores decididos": muito cedo se dirá "a Escola lacaniana" ...
tercâmbio de significantes; metáfora do Pai; ideais que comandam o que se A organização da Escola em três seções revela as escolha te6ri u • A
deve fazer como homem ou como mulher; o sujeito a ser buscado ao nível da primeira seção, a mais nobre, chama-se "seção de psicanálise pura, li I,

enunciação de todo discurso, etc .. práxis e doutrina da psicanálise, a qual é - e nada mais - a psicanãlis li 11-
Mas, como no Seminário XI 55, contemporâneo desta redação, o pro- tica". É o lugar vivo da elaboração teórica, que não é reservada SOm nt I I-
blema de articular a teoria do significante com as pesquisas atuais sobre a ra médicos. A terapêutica e a clínica médica dela estão separadas: 111 f'< -
sexualidade do lado da pulsão e do objeto a se coloca. Lacan repete que a mam a seção de Psicanálise aplicada, esta aberta aos médic S, m rn
libido como "lamela" é um "6rgão" - "o 6rgão do incorporal no ser sexua- não analisados. Quanto à terceira seção, ela se liga ao seminári , fl P
do" (?), pois "o sujeito falante tem este privilégio de revelar o sentido mortí- sas da EPHE e à ENS: seção de recenseamento do campo freudlan
fero deste 6rgão e, por aí, sua relação à sexualidade" ... O homem nasce de do movimento analítico e de suas publicações, articulação 1'11 as

uma divisão "das 'membranas, filhas do ovo": "Ao se quebrar o ovo, faz-se conexas e, curiosamente, ética da psicanálise). Ela parece er a rt I
o homem, mas também o homelete" que ele deve perder. Neste lugar viriam quer que queira aderir aos princípios lacanianos. Vê-se a novidad 'lt I-
os diversos objetos a, suportes do Desejo de ao Outro. Assim se passaria da tura do empreendimento, mas a noção de "psicanálise pura", as 11'11 11\ t w-
pulsão ao desejo pelo viés do fantasma? Difícil de dizer. Em todo caso, so- i nalizada e isolada, logo vai criar problemas.
mente o objeto -<I>, "causa" do complexo de castração e portanto da as-
sunção do sujeito, permitiria ao sujeito se construir como vivente, mais além
do "Real impossível" que o ameaça. 58
"A psicanálise é responsável pela presença do inconsciente no cam-
po da ciência": é para lembrar esta exigência que o ensinamento do Mes-
tre sofre "o anátema". Este anátema, ele o envia alegremente aos ou- 1964-196 (237 p.) - I' tu
tros: no lugar de "ideais psicológicos", até mesmo de ideologia, à la ps, han il SI
psicanálise "faria melhor em aprofundar sua ética e se instruir na teo- , I lllltrlo 11: Probl •• I
logia, segundo uma via que Freud indicou como não podendo r vira-
da". Mesmo o livro de Betty Friedan obre anda d "místi ti f rnini- lJlII I' I(} Iulmln \I tt 010 \(11 JI 10 fi 11I 'I
na" nos Estados Unidos, u a d nfian a d s p af d 1'11 r - pl 1111 no u • O 111 \I 11 11111110: "HIlI foi! 1

2 O
lavras a este que devo realmente chamar de meu público, alertei que a psi-
canálise é um remédio contra a ignorância; ele é sem efeito sobre a idiotice".
Para bom entendedor, salve! E contra o sofrimento?, temos vontade de per-
guntar.
Este Seminário, sucedendo aos "fundamentos da psicanálise" 55, teria
sido primeiramente anunciado sob um título mais filos6fico: "As posições
subjetivas da existência e do ser". Pois o psicanalista te6rico se acharia
diante desta alternativa que ele não pode admitir: em sua experiência, o su-
jeito é o pivô da práxis (prática ligada à teoria), mas, em toda formalização,
busca-se comumente excluir o sujeito.
O problema fundamental para Lacan é o da relação do sujeito à lingua-
gem, entretanto, este sofreu uma transformação através da consideração do
Real na trilogia: Simb6lico/Imaginário/Real. Os problemas cruciais seriam,
então, as relações entre Identificação, Transferência e Demanda: n6s já as
conhecemos pelos seminários anteriores.
Então, o problema dos problemas? "Propor uma forma, uma topologia
essencial à práxis analítica". Retoma o significante estruturado sobre a su-
perfície de Moebius com as três formas fundamentais, o buraco, o toro ou
anel, o cross-cap; retomam os círculos de Euler, aqui redes do toro como
"espiras" (espirais) da Demanda na superfície da Garrafa de Klein: é a nova
vedete. Parece que se constroem estas figuras de modo simples e combinat6-
rio; o comentário, por sua vez, é complicado. Aparentemente, sem nenhuma
dúvida, esta garrafa detém o segredo do desejo "como corte pelo qual se re-
vela uma superfície como a-cósmica", o que explicaria o "recrudescimento
do horror" diante da luva virada de Merleau-Ponty ou da meia de nylon vi-
rada, onde se leria a diferença sexual. Eu continuo ainda assim perplexa
diante destas afirmações: não haveria senão uma relação de analogia entre a
existência desta superfície (projeção num espaço de três dimensões) e a
imersão num espaço, espaço do Outro enquanto lugar da palavra; a torsão da
famosa garrafa seria devida ao intérprete do Nome-do-Pai, do desejo deste
Outro desejado como Desejante 47; este desejo do Outro estaria escondido
no ceme do objeto a, que é preciso saber abrir com tesouras e do modo cer-
to, para poder ser o mestre dos desejos; o 8 interior seria a relação 'do objeto
a ao A, o grande Outro, etc .. Mas quando leio que a certeza do sujeito "tem
·suá-morada-na pura falta do sexo", na "relação impossível entre sexo e sa-
ber", que "todo saber se institui num horror insuperável em relação a e te
lugar onde mora o segredo do sexo", que "o real impossível está do lado d
sexo", começo a me sentir concemida e a querer pedir conta d tais af ris-
mos sustentados sob a cobertura da ciência top 16 íca.

2 2
-------------------------------------- ~ ..,.=-= -~---

do seminário precedente 58, onde ainda era questão de "analogia". Agora, à fuga, o centro escondido do quadro, é a fenda da menina, ora, "nesta b ali ••
alternativa: modelo matemático ou metáfora? Lacan responde: "A topologia onde não há nada a ver, pode-se reconhecer a estrutura do objeto a: S b (j
não é uma metáfora, mas uma montagem rigorosa com o objeto a, objeto es- vestidos da infante, "Isso me olha", enquanto o olho, por sua vez, ~ 10
pecífico da ciência analítica". Compreende-se, pois, que o termo "maternas" para não ver ... Até mesmo Bataille, por uma vez, é citado, com Hlst trt I
domine nos últimos anos. Quatro formas lhe são necessárias, já conhecidas e l' oeil, onde se faria a conexão de todos os objetos a em sua rela ti 11)
que vão ocupar um lugar cada vez maior em suas reflexões: o cilindro ou 6rgão sexual (feminino?). Sim, mas que signo pode vir, finalmente, no 11 \I
disco furado, o toro, a cinta de Moebius e a garrafa de Klein, o todo acom- desta béance, real impossível ou insustentável. O Falo, naturalmente, )j1\0

panhado de f6rmulas algébricas "compostas por pequenas letras". Quer ele no caso do Pequeno Hans evocado no início. O que é preciso é r man J \I I
superar o grafo do fantasma, que seria como que um "praticável"* no teatro, inconsciente em tomo da linguagem e do olhar (excluído por Freud), A V ~,
o trompe-l' oeil de um jogo, o objeto a seria sua "armação"? O pr6ximo se- finalmente, aqui é esquecida. Lacan reencontra a dimensão freudiana di.
minário será justamente consagrado à La logique du fantasme 65. sejo e do sujeito cujo fundamento é a castração: ele faz do sexo f minh )
"O buraco da falta do objeto a estaria na intersecção do campo verda- da mulher como costela de Adão) o objeto a que fascina e que leva p I 1\
de/saber": esta é a contribuição da psicanálise, o que a autoriza a questionar se não se coloca aí o anteparo do Falo, mesmo que sob a forma d .(1).
a ciência, a 16gica de Russell ou de Frege, sobre a verdade cujo encontro Aproximemos este estudo ao de Holbein 55. Contudo, no fim, O pênis -
eles ignoram ou esquecem - e também a desmistificar a religião ... Esta disci- quanto manifestação dada a ver, "Fânero" - esconde mal a presen fi d um
plina seria, pois, fundadora e piloto de todas as "ciências humanas", que objeto a que seria um -a enigmático.
Lacan chama de "conjecturais". Apostando no estruturalismo então domi-
nante, Lacan ao mesmo tempo reparte e reúne seu audit6rio em duas catego-
rias: "aqueles que de minha palavra têm a fazer um uso analítico" e "aque-
les que demonstram que se pode segui-Ia em toda sua coerência e rigor, que 60
ela se insere numa estrutura que vale mesmo fora de sua prática atual". Ao
mesmo tempo, ele distingue o psicanalista que, no momento de saber, é - e
sabe-se - dividido, enquanto que o status do sujeito suposto saber (sujeito da 1965 (23 p.) - La science et Ia vérité - 1966
ciência) restitui os prestígios do desconhecimento, acreditando reunir saber e (A ciência e a verdade)
sujeito. GI6ria resta ao exercício verdadeiro (Iacaniano) desta "experiência
única", a análise, que tem "um efeito separativo da tropa". *
Lacan retoma seus grafos do desejo 36 e 46, tentando colocá-Ios em re-
lação com sua topologia. O objeto a se situa em quatro vertentes: a Demanda
do Outro (objeto a: as fezes); a Demanda ao Outro (objeto a: o seio); o De-
sejo ao Outro (objeto a: o olhar); o Desejo do Outro (objeto a: a voz).
É nesta perspectiva que o Mestre começa a analisar Le Pari de Pascal,
dá a palavra a A. Green e C. Stein (os dois da SPP e encontrados no Co16-
quio de Bonneval 56), relata suas conferências nos Estados Unidos organi-
zadas por Jakobson, estruturalista e, sobretudo, convida M. Foucault para fa-
lar sobre As meninas, de Velasquez. Esta intervenção permite, na realidade,
que Lacan retome sua teoria do quadro como "armadilha ao olhar" 55, olhar
onde o que queda, é o objeto a. A colocação em perspectiva e o ponto de

*Objeto que existe realmente, não aparece na decoração COmO figurad • mas m S U rol. (N.T.)
"Séparatíf du troupeau: equivalente em nossa Irn ua de s paratlvo d jete d lrl o. (N.T.)

2 4
o paciente nem sempre pede para sair de sua condição de doente e que não Trinta anos de trabalhos: todo um percurso que Lacan nos c nvJ \ \
se deve esquecer o gozo do corpo, mas este é reservado à doença? Pode-se fazer fora da ordem cronológica: ele coloca Le Séminaire sur Ia Lettr I,
generalizar? E a própria psicanálise escaparia dos problemas atribuídos aos 31 encabeçando a obra ou reúne os textos sobre Gide e sobre Kant a SI
médicos? Se é verdade que a psicanálise não é um simples ramo da medici- de, entre outros. Não se trata, pois, de uma simples coletânea, ma d um I
na, pode ela pretender, ao contrário, ser o saber último de todos os domínios vro recomposto em sete partes, freqüentemente pontuadas por apres nt
médicos? novamente redigidas: Ouverture, De nos antécédents, Du sujet nftn
O inconsciente, o desejo sexual, a topologia do sujeito - e a assistência question, Dí un dessein, Dí un syllabaire aprês coup. Além disto, al un
ao seminário de Lacan - são resposta para tudo? Acreditamos perceber a de- tigos (como o primeiro, justamente) são profundamente modificados,
negação de que a doença, o sofrimento e a morte se passam concretamente Variedade de temas, variedade de tons, variedade de direçõ s tnmt 11\:
também do lado de um corpo que nos escapa e que as pesquisas e práticas desde a Ouverture, o autor nos diz: "O estilo é o homem, juntar-nos- 111
médicas trazem, elas também, algumas respostas. Les Lettres de l'École fórmula, somente para aumentá-Ia: o homem a quem nos dirigim s'?" A
Freudienne publicam esta intervenção e as discussões em seu primeiro nú- crita das apresentações - destinada ao público - difere daquela d S III t (
mero: é bom ler o texto, mais nuançado, que vem em seguida: Psychanalyse que, cada um, deixa aparecer os diversos destinatários presente IUS nt ,
et Médecine. Notes pour une discussion, de Émile Raimbault. aqui e lá visados. Este livro maior, que se tornou a Bíblia dos univ rsit I 1
não psicanalistas, não deve nos fazer esquecer a importância da tes se br I
paranóia 2, das inúmeras contribuições que não aparecem aí - e s br tu<J
dos seminários -, no movimento do pensamento psicanalítico na Fran H.
63

1966 (925 p.) - Escritos - 1966 64

Sob este título aparecem 28 artigos escritos e publicados por Lacan de


1936 a 1966. Muitos dentre eles tinham se tornado inacessíveis, salvo em al- 1966 (4 p.) - Présentation de ia traduction de P. Duqu nne
gumas bibliotecas, e eram ignorados até mesmo por aqueles que freqüenta- des rnémoires d'un névropathe (Schreber) - 1966
vam seu seminário. Um sucesso inacreditável supera amplamente os especia- (Apresentação da tradução de P. Duquenne das
listas e seu audit6rio para atingir o que se chama de público cultivado. A se- memórias de um neuropata (Scbreber)
gunda edição foi acrescida, no apêndice, com o Comentário de J. Hyppolite
sobre a Verneinung de Freud e de Metáfora do sujeito, de um índice lógico
dos conceitos mais importantes e de uma Tabela comentada das represen-
tações gráficas por J.A. Miller. Em 1969, uma seleção destes artigos sai nu-
ma coleção mais popular 74 ... Em 1973, em seu Posfácio ao Seminário XI
55, Lacan escreve: "Assim se lerá - este livro, eu aposto. Não será como
com meus Escritos, cujo livro se compra, diz-se, mas não para lê-Io", visan-
do tanto àqueles que não abrem o volume quanto aos que não se lembram
senão de algumas frases dele, incansavelmente citadas fora de seu contexto.
O paradoxo, aliás, é que muitos não lêem os textos mais acessíveis - jul-
gam-nos sem dúvida negligenciáveis ou não conformes ao "verdadeiro" La-
can!

238
1,

• "M/lI/1I1I ''':11111111 II,HII 11111111111\1 li 1111111 1111 1111111111,11 11111111 11,1111111 lIilIl1h,(N,I,)
gica. Uma lógica totalmente inédita, para a qual ainda não dei denominação,
pois é preciso primeiro instaurá-Ia". Não fala ele de "lógica elástica", para
salvaguardar até sua morte um sonho que faz seu drama? Retomando (em
par6dia?) a figura de Diotima em O Banquete, ele fala da Pénia (Penúria
fêmea) universitária face ao Poros (o recurso macho) psicanalítico para se
perguntar "até onde, entre os dois, ele pode deixar ir a obscuridade".
Sem falar das digressões constantes (que somem nos relat6rios de Nas-
sif), retomadas perpétuas de aforismos ou exemplos anteriores, o seminário
deriva em direção da busca de uma 16gica do sujeito em torno do sempiterno
Cogito cartesiano, depois em direção às questões do "ato sexual", da "im-
possível subjetivação do sexo" e do "gozo" que dominarão os seminários
ulteriores.
As múltiplas transformações do cogito ergo sum de Descartes ("ou eu
penso ou eu sou"; "ou eu não penso" ou "eu não sou"; "eu sou onde não
penso", "eu penso onde não sou", etc.) culminam numa f6rmula que é um
jogo de palavras: Cogito ergo es. Es latino (tu és) marca a dependência sem-
pre fundamental ao Outro e coloca o problema de saber como se passa do
objeto a ao Outro, ou do Outro ao objeto a 71. No desejo, isto dá: "eu te de-
sejo" significa "eu te implico em meu fantasma fundamental" como objeto
a; no amor, isto dá: "Tu não és, logo, eu não sou"; "Tu não és nada mais do
que eu sou"; "Tu és o nada que eu sou", etc. Mas Es em alemão é o Isso,
definido como tudo o que é o "não-eu", isso impessoal (nem primeira, nem
segunda, nem terceira pessoa): reservatório das pulsões? Caldeirão (furado?)
das feiticeiras de Freud? Ou "agregado de significantes", como foi respon-
dido a Lagache 44? É bom ler a intervenção de A. Green, no seminário, que
tenta marcar as diferenças entre o ensino freudiano e o ensino lacaniano,
principalmente em torno das questões das representações e dos afetos que
constituem o inconsciente em Freud. Para Lacan, os afetos são significantes
cuja cadeia exclui o sujeito: mas quem duvidou que o sujeito estivesse au-
sente do fantasma enquanto tal, e presente, espalhado em todos os seus ele-
mentos, a ser reconstruído como sujeito da enunciação? Os comentários de
Green das traduções do Wo Es War, solllch Werden por Lacan são muito
instrutivos.

Ora, estas novas interpretações de Lacan vão conduzir à primeira ela-


boração do "des-ser" que tornar-se-á logo a marca do fim da análise 66, a
partir de jogos de palavras: o desejo inconsciente é "desejo puro", o "de -
ser" como a des-esperança, um irpas que é um inpassé (impas ado) ligad II J luh fi 111111 111" 1\1/ I 1\ IHllllh I/ no nllllll IU/1I1 VIII
ao desejo do Outro, mas um "impa se" ra as à r p ti ã . A int rpr ta ti

24
--------------------------------.------------~

que representa o Falo ... Por sua identificação ao valor de uso que é o Falo, a nhar dos problemas cruciais nos pontos vivos em que estão pela anãlls ,
mulher se transformou em "objeto-mercadoria". Mas, para fazer "o ho- pecialmente enquanto eles mesmos estão na tarefa ou pelo meno na I h
mem-ela", parece que nunca lhe faltam recursos (mascarada, etc.), entretan- de resolvê-Ios". Estamos, pois, "neste ponto-limite - delicado- nd fi t
to, "lá onde ela é inexpugnável como mulher é fora do sistema do ato se- ria se conjuga à instituição da Escola, pelo viés da formação do analístn".
xual": "ela dispõe de outro modo de seu próprio gozo, fora desta ideolo- Que quer Lacan? "Dissipar esta sombra espessa", estas "tr vas" II
gia". Assim está consagrada "a heterogeneidade radical" do gozo dos dois recobrem a passagem da situação de psicanalisante (primeira aparlç () 1 I
sexos, cuja relação s6 pode ser problemática. Lacan começa af uma reflexão termo) à de psicanalista. Este momento e esta experiência imp r puv
que culminará no seminário Mais, ainda 84. Pois, se há enigma para os ana- que ele chama de o passe, todo psicanalista viveu. Lacan, por ua v z, tl\ I
listas (dos dois sexos?), é justamente o do gozo feminino, diz-nos ele. captã-los e teorizá-Ios. Para isto, tem necessidade de que aquele qu t)
Demoramo-nos neste seminário, que nos parece uma encruzilhada im- vivendo isto testemunhem. Quem pode falar melhor "do passe" s n 1\1 1
portante do pensamento lacaniano. Negligenciamos muitos aspectos que sur- que o está cruzando? Quem pode entender melhor o que ele fala d su 111·
giram no decorrer da fala, mas, para terminar, propomos ler atentamente a lise senão um outro analisante, ele mesmo em passe de se tornar an I t I'
sessão em que R. Jakobson responde, sem subterfúgios, às pertinentes Eles serão dois, testemunhas e não juizes, estes "passadores" que vir pr .•
questões da Ora. Jenny Aubry, de Luce Irigaray e do Dr. Oury e se esquiva tar testemunho do que entenderam diante de um júri (composto por LI 111
das questões-armadilhas do Dr. Lacan. O que ele diz dos laços possíveis en- alguns AEs), júri que ao mesmo tempo desempenhará o papel de "s 1 10111-
tre psicanálise e lingüfstica em torno do desenvolvimento da linguagem na dor" e deverá fazer "um trabalho de doutrina" para o maior prov it d t -
criança e do problema da verbalização é apaixonante, ainda mais que assume dos. Um procedimento, pois, para fazer avançar coletivamente a teoria?
sua divergência com Lacan: para ele, lingüista, não há elemento cortado da É o fim da análise que interessa Lacan - e em sua ligação c m d 11 .I J
significação, até no nível mais Infimo, e a semântica não deve ser separada de se tornar analista. Sabe-se que, para ele, "a psicanálise pura" é "a dld L-
da sintaxe de modo tão rígido. ca" 57. Mas ele quer ir mais longe: articular o que permaneceu "lnurtlc II •
vel após meio século de experiência continuada". Para além me m d ti
jo de se tornar analista, "o término, o objetivo e o objeto da psi nu 1
66 Em seu Discurso de 6 de dezembro de 1967 na EFP, ele mantém li ) 110
passe, e portanto ao título de AE, a analisados não analistas de pr I
Entretanto, a teoria já não foi dada por Lacan, antes mesmo I
1967 (17 p,) =Proposition du 9 octobre 1967 sur le tados da experiência proposta? Tratar-se-ia de uma sorte de v r fi
psychanalyste à l' icole - 1968 e 1978 vivo do que ele está ensinando em seu seminário, na esperança d nn li) \ •
(Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre de-saber? Não podemos esquecer que La logique du fantasma t rm Jl
o psicanalista na escola) uma análise do des-ser, termo capital aqui - e que o ano I tiv 1 7-1 ( H
consagrado a L'Acte Psychanalytique 69.
Lacan propõe modificar a organização de sua Escola, criando um novo "No começo da psicanálise é a tran ferência", sem n nhumu tnt " uh-
"grau" que sancionaria o reconhecimento da formação do analista. Na pri- jetividade pois, entre os dois parceiro, atua como tere ir suJ it SII/J \'t)
meira parte de nosso dossiê ("Cronologia"), falamos das discussões, dis- saber, "pivô donde se articula tudo o qu se r 1) r à trans1i r n i ".I I' 11\
sensões e acordos em torno desta Proposição e sua aplicação. Lembremos precisa o que ele entende por isto: o si nifi ante lntr I lzid 11 d ur \ 111
aqui que "o psicanalista s6 se autoriza por si mesmo" para decidir conduzir se instaura, formaçã m qu d ata ada d psí analí ane qu n (j \ 1 1I1 I
análises: é o caso do AP (analista praticante). Mas "isto .não exclui que a ver com a p s fi I anallsta. "Uma d J I d 1 tr S I. I f Z om q I ) li )
Escola garanta que um analista depende de sua formação": assim o é desde o sabíd d nt xt 11 91\1 fi i [o, l
início para o AME (Analista Membro da Escola) sobre o qual o júri de ide rulnu 1 nr Mil 1 I t <J I I lU ti 11I11 ln
que "fez suas provas". Agora Lacan acresc nta uma t r ira et ria - tI- 1 11m 'l~ i ri~nll11 t )11 ev Ii n\ \11 ) Ii / I to... I\)
perior -, os AE (Analistas da . a Ia) u, p r lia v z, p d m "I' sr mu- Ô ) J 111 111111 ti 1III o 7 qu I 1111 I I I 'l \11" v tI )
244
lação livre ao significante, aquele do qual se isola o desejo do saber como o 67
desejo do Outro".
Chegamos ao "fim da partida": nosso prop6sito, diz Lacan, é formular
da passagem do psicanalisante ao psicanalista "uma equação cuja constante 1967 (14 p.) - Discours de clôture des journées sur les psychos s 'li,
é o agalma" (termo que vimos quão difícil era abarcar, uma sorte de com- l' enfant - 1967-1968 e 1972
promisso entre objeto a e Falo). Ora, "o desejo que sustentou em sua ope- (Discurso de encerramento das jornadas sobre as psl ()
da criança)
ração o psicanalisante tendo-se resolvido, ele não tem mais vontade, no fim,
senão de retirar sua opção, isto é, o resto que, como determinando sua di-
visão, fá-Io decair de seu fantasma e o destitui como sujeito". A posição Maud Mannoni é a organizadora destas jornadas de outubro d II ()l ,
"depressiva" seguidamente notada em fim de análise é interpretada por La- onde se confrontam as concepções "estruturais" do grupo francês (a r...H
can em termos de "des-ser" e de "destituição subjetiva". "O sujeito vê so- as concepções "existenciais" do grupo inglês animado por R. Lain I I
çobrar a segurança que ele tinha com este fantasma, onde se constitui para Cooper (seu interesse pelas teorias sartreanas é conhecido - e da Phll II li
cada um sua janela sobre o real", ele se apercebe de que a apreensão do de- phia Association. Dois pontos comuns: a atenção ao doente como suj it ,11
sejo nada mais é do que a de um des-ser. "Neste des-ser se desvenda o ines- preferência ao estudo da doença; a questão da liberdade formulada m tou (
sencial do sujeito suposto saber, donde o psicanalista a surgir se consagra ao da criança, da psicose e da instituição. Pode-se lamentar que a publle " \I
agalma da essência do desejo, ao risco de pagá-lo reduzindo-se, ele e seu em volume (Enfance aliénée, coleção 10118) s6 tenha conservad as lnt r-
nome, ao significante qualquer", pois "o sujeito é o significado da pura re- venções francesas, com exceção da tradução por O. Mannoni de um l X ( I
lação significante". Winnicott (ausente do encontro) que fala tão bem da "angú tia ( u di.
"Que ele saiba - diz Lacan - do que eu não sabia do ser do desejo, do samparo) impensável". Mas as posições francesas, por pertencer m I 111111
que acontece com ele, que chegou ao ser do saber, e que ele se apague: sicut única Escola, seriam assim tão homogêneas? Por exemplo, esta frus li M.
palea, como dizia (São) Tomás de sua obra no fim de sua vida, como ester- Mannoni: "Sabemos por Freud que a única formação válida para um p . I-
co". Então, atravessar o fantasma é ir até a pulsão ou até um vertiginoso nalista repousa sobre sua pr6pria capacidade de identificaçã a pu' 1 IJ! ",
confronto com o significante? Resposta? "Assim, o ser do desejo junta-se ao seria lacanianamente ortodoxa?
ser do saber para renascer e se enlaçar numa cinta feita do único lado onde Lacan faz o discurso de encerramento em posiçao de tcõrlc r I•
se inscreve uma única falta, aquela que sustenta o agalma". A topologia está analistas de campo: "uma alocução improvisada", digam s un LI .onv "
de volta: o agalma torna-se aqui o significante da barra colocada no Outro onde ele recorda sua posição sobre a psicose desde La causatur I \' ,/,
(6\),no Outro se abre a béance do (-<I» e do Outro cai o (a). É por isso que que 14. "Longe de ser para a liberdade um insulto, ela é sua mais n I '0111-
aquele que pode articulá-lo, este S(6\)não tem nenhum estágio a fazer: ele é panheira"; sua ética contra "a segregação" e suas aventuras ínstituc 11\
digno de ser AE (Analista da Escola Freudiana). Com polidez ele manifesta sua desconfiança em relação a qu
"Nossa pobre Escola pode ser o ponto de partida de uma renovação da demasiado "humanista", "utópico" ou "pragmático" n in I s
experiência": ao se reagrupar em torno do ensinamento de Lacan - "ensina- bra que "toda formação humana exige refrear o m "I t I
mento sem rival", pois é o único a falar de psicanálise (ou o único a falar chapéu para Winnicott por sua descoberta d "obj t transi i nal", I 11\11
dela deste modo, dizem as más línguas). Escola seria sinônimo de épreuve ca.a distância entre esta bservação cHni a e seu prõpri tra nlh t ~I o: I
(prova, experiência, provação): esta seria a palavra do fim. psicanálise deve "operar obre fantasma" qu faz nt xt r 0111\ 1
É interessante ler as duas versões deste texto que se pretende mais uma o objeto a deve apar cer m "causa m r 10 fi qu I
vez fundador: aquela efetivamente pronunciada a 9 de outubro e tomada pú- fanta ma é a rn nta
blica somente em 1978 em Analytica (suplemento da revista Ornicar?); e a Na n ta r di ido m
segunda, mais condensada e mais prudente, publicada no prim ir nümer d san muit : ••
Scilicet, revista fundada em 1968 por La an, qu r di s u t xt d apro- tur fi nd I
sentação.

7
a mulher seja psicanalista-nata (como o percebem aqueles que empreendem a
análise da menos analisada das mulheres)": uma homenagem que é uma con-
tra-homenagem. Quanto às relações entre linguagem e fala, ele retoma suas
teses sobre o pré-verbal (a cachorra Justine e as mulheres em L' ldentification
50) e a linguagem: "Uma vez mais percebi com satisfação que uma lingua-
gem é evidente lá onde se obstina a figurar o pré-verbal", Assim, "a in-
completude" é da ordem da lógica e não do sentimento. "Quando se verá
que o que prefiro é um discurso sem palavras?"

68

1967 (32 p.) - Petit discoursaux psychiatres - Edição anônima, 1982


(Pequeno discurso aos psiquiatras)

Em 1966, sob a autoridade do Dr. H. Ey, foi criado um Cercle d'Étu-


des Psychiatriques, com ciclo de ensino e seção de psicanálise. Lacan faz aí
uma conferência em 10 de novembro de 1967 sobre La psychanalyse et la
formation du psychiatre, que ele transforma em Formation du psychanalyste
et psychanalyse. Para compreender melhor seu pr6posito, é preciso conside-
rar o crescente número de psiquiatras que pedem uma análise didática (o que
Lacan chama de "o efeito de massa" da psicanálise - e não somente na
EFP!) e as dissensões no interior da EFP em torno da Proposição de 1967
66. Enfim, o título de seu seminário do ano: L' Acte Psychanalytique 69. Esta
alocução ajuda a captar o clima da época e as reações de Lacan: em suma,
"eu persevero" e eu falo em pêre sévêre - pai severo - (jogo de palavras
que ele preza).
O que os Srs. vão fazer de sua formação "entre mix6rdias e síntese"?
pergunta ele aos psiquiatras, a quem acusa de negligenciar seus pacientes,
adiar a pesquisa de resultados terapêuticos para "os dias que se anunciam" )
de sua pr6pria formação analítica, da qual esperam a chave da loucura. Ora,
o mal-entendido é radical: a psicanálise não atua no registro da compre-
ensão, ela dissipa a falsa compreensão para identificar a não-compreensão. É
por isso que não diminui a angústia do encontro com o louco: é preciso, pelo
contrário, mantê-Ia, mesmo que seja difícil, pois o louco é o verdadeiro ho-
mem livre: ele não precisa, ele, do lugar do Outro pelo objeto a 65, pois este
objeto a, ele o tem à sua disposição, "ele tem sua causa no bolso". Ora, o
psiquiatra, através de sua função, deve responder a e ta exi tência d 1 u
por outra coisa que não a angústia. Após un a análís , didáti fi, I v lta ti
ser, então, o psiquiatra d fi sti and •• h 111 m IIvr" mo I dr n j r-

48
relação à afirmação lacaniana do "caráter irredutível do ato sexual para toda Uma sessão deste seminário - que terminará com os acontecimentos I
relação verídica". Como o amor é ele mesmo puramente narcísico, o que é Maio - é apaixonante: na ausência de Lacan analistas discutem entre i
que resta da relação possível entre os sexos, senão um pacto social? não compreenderam de seu ensino e alguns expressam seus temores Ia
Falar do ato psicanalítico não é fácil e espera-se muito deste seminário. incidências destes novos desenvolvimentos sobre "o objeto a" e "o d R-, r"
Ficamos decepcionados. É um conjunto caótico de coisas já ditas - e a trans- nas próprias análises.
crição não é a única responsável. Lacan parece pouco à vontade e, como
freqüentemente nestes casos, lança-se na polêmica, queixa-se da ausência de
tantos analistas de sua Escola, fulmina, lança fórmulas mordazes, repisa as 70
que foram aprovadas, empilha banalidades, exaspera-se com a mínima reser-
va ... É preferível, portanto, ler a Proposition sur le psychanalyste à I'éco-
le 66 e as Conferências redigidas para a viagem à Itália 70, se se quer com- 1967 (11 p.) - La méprise du sujet supposé savoir
preender o que ele está elaborando sobre o sujeito suposto saber e o fim da (O equívoco* do sujeito suposto saber)
análise.
O que salvar deste seminário? Talvez um agrupamento de diversos ti- (9 p.) - De Rome 53 a Rome 67: Ia psychanalyse. Raison d' un éch
pos de ato em psicanálise. O ato de fundação da psicanálise: antes, os efeitos (De Roma 53 a Roma 67: a psicanálise. Razão de um fracasso)
do inconsciente existiam, mas ninguém sabia. A entrada em análise e a insta-
lação como psicanalista, que são decisões e engajamentos, Do lado do anali- ?(9 p.) -De Ia psychanalyse dans ses rapports avec Ia réalité -1968
sante, os lapsos e atos falhos, etc., que nos valem um Elogio à estupidez: em (Da psicanálise em suas relações com a realidade)
análise, aprende-se que não se pode responder simplesmente à injunção: "à
verdade o que é da verdade e à estupidez o que é da estupidez", pois as duas
se recobrem e encontra-se "a estupidez da verdade ainda mais do que a ver- Estes textos redigidos para conferências no Instituto Francês d Nlll •
dade da estupidez". Ou ainda "a passagem ao ato" e o acting out, atividades les, na Universidade de Roma e no Instituto Francês de Milão, m d z mbi
que, para tapar um buraco angustiante, reproduzem o passado no lugar de de 1967, não foram lidos "por causa do número e da diver idad d, ,
rememorã-lo com palavras. Do lado do psicanalista, o lembrete: "fora da sistência". Em compensação, foram publicados no número 1 d lU 'ti I
manipulação da transferência, não há ato analítico". Lacan o repete desde mesmo tempo que sua Présentation da revista e sua Proposition du -t« 11 (
1948 16, mas aqui, a perspectiva é bem diferente: para que 'a passagem de 68: Scilicet é o local escrito - e mais aberto para o exterior - d nsln uu 1111
um analisante à função de analista se faça, é preciso que seu analista - ao lacaniano.
mesmo tempo se esquive de ser o suporte do sujeito suposto saber - aceite Estas três conferências constituem um conjunto: mi turand
ser "reduzido à sua função de causa de um processo onde se desfaz o sujeito pedagogia, para persuadir com a originalidade e o valor da t ri. 1
suposto saber" e, portanto, suporte no final "não ser nada mais que este de- ganizam em torno de noções essenciais elaboradas há cat rz 111 1:1. A p••
jeto da operação que é o objeto a", o que fará efeito de verdade. A posição meira recoloca a questão: "O que é o inconsciente?", para xpli r"o I
do analista é, pois, insustentável, como dizia Freud; é por isso que ele opõe prezo do sujeito suposto saber". O inconscient é da rdern do 'N/I/!."MI./
"o mais furioso desconhecimento em relação ao próprio ato psicanalítico". CH (A inquietante estranh za), pois "sua fun ão é aparar su] lto", "'1'\1 10
Aliás, o analisante que viveu "o des-ser" descobre, quando "retoma o facho o que do inconsciente não atua senão s brc foit s d lin uu m, 11 ,1 'o 111
do analista", que é obrigado a restaurar para um outro o sujeito suposto sa- se diz, em que suj it aí s r pr ntc, n m qu J ar s di \ - II III tu
ber. Assim se faria a transmissão, bem diferente portanto do próprio passe; 01 aiba qu diz". A s unda 1 mbra l/un . 4, n I I. \ •\11
O ato psicanalítico - "colocação em ato do sujeito" e "colocação" em ato do
inconsciente" - é como uma tragédia onde o herói decai no final a objeto de
repulsa.

250
Principalmente porque chega Le Pari de Pascal para tudo embrulhar. se estabiliza como quociente estabelecido do desejo que o engendrou a
"Eu - diz Lacan - eu falo sobretudo do Deus morto, talvez para me livrar de (moi) que ele acreditava ser", com "um resto onde o sujeito se realiza p 1
minhas relações com Freud morto." Mas Pascal, em Le Pari, formula por sua que é de sua estrutura: uma perda". "Da análise, o sujeito sai, não tend ~ ..
vez, a questão da existência de Deus. Na realidade, a ünica questão verda- to nada mais do que alienar este resto, ao saber devolvê-lo ao Outro d fi I
deira é a do sujeito: será que o eu existe? Será que eu existo? "O nada que é ele provém. Então, livre de sua dívida, ele pode anular o pr6prio credor. N 10
a vida" que Pascal põe em jogo, é "o mais-de-gozar". A assunção da perda há mais necessidade da demanda deste Outro para sustentar seu prõpri I ..
cria a béance entre o corpo e seu gozo: este é o efeito bem-conhecido do ob- sejo. Ele sabe que seu desejo se formou da zona que faz barreira a O~. to

jeto a (objeto perdido) no campo do Outro: para Pascal o ponto central é "o Ele se satisfaz com este vazio onde pode amar seu pr6ximo, porque st V I
nada infinito". A única salvação é a Graça, pois a Miseric6rdia de Deus é zio, é aí que ele o encontra como em si mesmo, e que não é de outr nu I
maior que sua justiça. A Graça permite estar pr6ximo do desejo do Outro que ele pode amã-lo." Percebe-se vivamente o quanto, apesar das rnudunc I
sob estas formas: "eu me pergunto o que tu queres"; "eu te demando o que te6ricas, Lacan permanece fiel às suas preocupações do seminário sobr
eu quero", para chegar a: "Que tua vontade seja feita!" Mas esta frase é dita Ética, em 1959-1969 43. A cura não é um termo lacaniano: se o at p.
a um Outro sem rosto. E a Vontade de Deus, por não ser a nossa, vem a fa- nalftico é "o mais puro do ato essencial", é porque dá um acesso p ssrv 1
zer falta: então, na falta de Deus, resta-nos o Pai como morto, como nome verdade e à ética.
(pivô do discurso) e como relação do gozo à castração. "O Nome-do-Pai é Pode-se imaginar, assim mesmo, as reações de um público pou ('UIl1 ••

uma falha que permanece béante em meu discurso, ele s6 é conhecido por liarizado com o discurso lacaniano. Mas uma pitada de crítica em r lu 10
um ato de fé: não há Encarnação no lugar do Outro." Este é o patético laca- Freud, "que deu status de Igreja aos legatários de seu pensament "; m l' ••
niano. "Ap6s setenta anos de análise, ele confessa, ainda não se formulou lação à Igreja consagrada ao regime da "dupla verdade"; um lernbr t I
nada sobre o homem macho." Talvez aí se possa compreender o efeito que Kierkegaard para quem, "no real, o padre não é senão um imb 11
teve sobre ele a conferência de M. Foucault sobre "o nome de autor". cristão, ausente"; alusões à "bela alma" dos "Intelectuais de Esqu rdn"; r ..
Em junho, Lacan lê a carta que Flaceliêre, diretor da ENS, enviou-lhe, laxam o ambiente. Um jogo de palavras: hoje em dia estarnos entr ". n I
em março, para avisá-lo da suspensão de seu ensino nas instalações da Esco- mento" e "pensasura", E ponto final: "Verdade aquém do pensam nto,
la: ele deixa a rua d'Ulm na efervescência dos protestadores. ber mais além" ... Que savoir-faire!

72 1969-1981
1969 (4 p.) - La psichanalyse en ce temps - 1983
(A psicanálise neste tempo)

O Bulletin de l'Association Freudienne nos oferece, em 1983, uma


transcrição desta conferência feita ao Grand Orient de France. Um exemplo
agradável dentre outros, ainda desconhecido, destas conversações sernimun-
danas às quais o Mestre se presta de bom grado. Exemplo agradável porque
prazer (compartilhado?) do paradoxo que toma o público a contragosto sem
negligenciar a arte de seduzi-lo,
Trata-se de recolocar em causa um princípio que guia há séculos a ação
do médico, o do Primum non nocere (em primeiro lugar, não prejudicar):
uma idéia recebida por um analista, que deve se perguntar: não prejudicar o
quê? O que oferece, pois, o analista ao "psicanalisante" (novo termo, "que
prova que se restaura o agente no paciente")? "Uma p r ã nd S\.lj te

.254
solida a lei". Lacan o diz: não sou nem "libertador", nem "anar", n 11\
"contestador", nem "progressista".
Entretanto, a novidade é o retorno em força (em glória") da hisl I' • I,
com Oora 20 e "a Bela Boca erra" (alusão ao sonho da bela açougu Ir \
lisado por Freud e retomado em A Direção da Cura 40). Três qu st
colocam: a relação entre o gozo e o desejo do desejo insatisfeito; a hisl I •I
que "faz o homem" (ou o Mestre), no sentido em que ela o "fabri a" '( 1\\
"homem animado pelo desejo de saber"; e uma nova concepção da an I
como histerização do discurso, o que o analista deve introduzir atrav
"condições de artifícios" ao nível estrutural: e estamos longe da "par uu II
1I dirigida" de 1948 16. Todavia, isto deixa o problema da histeria int ir HII 11
te atribuído à mulher (único discurso que faz atuar abertamente a dif
sexual) e na realidade valorizado em Sõcrates e aqui em Hegel... nã iKllI
çamos que a "castração" é a "privação da mulher" (com a ambigüi IaI I
"da"), enquanto "ela se realizaria num significante conveniente". sm 8 UlIII,
a mulher está ausente do domínio do significante, nada podemos quaru
to, e mesmo, todos estão infelizes!
Voltemos aos esquemas algébricos: segue-se aqui sua constitui
so a passo: para acompanhar a descoberta, acho útil ler ao mesmo t mp Rn-
diophonie 77, gravada durante este seminário: todo o final do tcxt puhli I
do em Scilicet (n? 2/3) e a nota (p. 99) que recapitula os esquemas fhl I
vos são bem esclarecedores. Em seguida, no rastro, é bom ler
XVIII, Dí un Discours que ne serait pas du semblant 78. Retoma
to; agora, fixemos as etapas. Primeiro, "uma relação fundamental
serve de postulado: Si· --> S2. SI se refere "ao círculo marcado d '1I1\pO do

grande Outro, é o significante Mestre. S2 é "a bateria de ignil'i IIIl


"já está lá" no ponto em que "se quer fixar o que se refer ti um ti 11/ 11

como estatuto do enunciado" - isto é, o saber. SI intervém p ís, num I I II


ria significante, formando já a "rede de um aber". $ é suj it 111 Ir I I I
desde a origem pelo "traço unário" (cf. L' ldentification 50) qu r)')I 111I

e é, portanto, muito diferente do indivíduo viv ,qu nã é s n \I lu


gar. Acrescentemos aí o objeto a, est bjet -dej t u ta p rdn 11
quando se operou a dívisã prim ira d uj it ,qu 6 a ausn d A .J ,
mas, d sd pouc 71, s u "rnais-d - se s quatr t 1'11 ( S I
m nt sfix s".
, vitand
v lta" li I' "o

I 1\0

7
Discurso do Mestre: Discurso da Universidade: nha-a-beber"?", disto que "ela não morre e não se morre". "Esta ver nhu
SI S2 S2 a justifica por não morrer de vergonha, isto é, por manter um discurso ti
mundo pervertido": "Quanto mais vocês forem ign6beis, melhor".
$ a SI $

Discurso da Histérica: Discurso do Analista:


$ SI a $ 74
--->-
a S2 S2 SI

Preocupamo-nos então com os lugares, fixos também:


1969 (6 p.) - Apresentação da publicação dos Escritos I -1969
o agente o outro
a verdade produção A coleção Points (Seuil) edita cinco textos dos Escritos 63: n stu \-
sião, Lacan redige um prefácio de uma elegância preciosa, com este to lU
Então, cabe a vocês jogar e interpretar! Mas, para isto é necessário que
polêmica em relação a alguns e de desenvoltura final em relaçã a 1
isto se mova: inscrevem-se flechas para permitir a permutação circular dos que fazem seu charme: ele se esquiva assim no momento mesmo em lU
quatro elementos. E como se passa de um discurso ao outro? "O discurso do expõe ao espírito de sério que o anima como te6rico.
analista tapa o anelamento dos outros três, mas não o resolve." Mais ainda: O essencial é uma releitura de La lettre volée de Poe 31: "Não há 11\ -
Lacan acrescenta no fim a oposição entre "a impossibilidade" e "a impotên- tre senão o significante". Portanto, apoderar-se de "um signíficant qu
cia": "o impossível, é o real onde a palavra como objeto tem função de res-
expõe a Rainha" não é "passar as rédeas na Feminilidade enquanto lu to-
to" e "a impotência, por sua vez, protege a verdade". Paremos por aqui: tal-
do-poderosa, mas apenas estar à mercê do que chamamos aqui, não 1 01' h ,-
vez o Seminário XVIII 78 nos esclareça.
gate1as, de Rei", Rei aliás, "cuja potência é a da Morte", como o brld8 ou
Terminaremos com um paradoxo? Ao analista o trabalho, "o mais-de- no jogo simbólico do Pai Morto? O ministro, por ter roubado a carta, v 11 I'
gozar, é para vocês". Com esta nova tradução do Wo Es war, soll Ich wer- "feminizado" por ela - e "castrado justamente disto que ele acredita 11 11i11
den: "Lá onde estava o mais-de-gozar do outro, é lá onde isso estava, que ter". Dupin, por sua vez, seria o modelo do psicanalista, cuj ato n o li v
Eu (moi), enquanto profiro o ato psicanalítico, devo vir". .
seu sucesso senão "ao desajeito inesperado do outro " . "O 'I'run r - M I1 "
Mas por que não terminar de preferência com esta hist6ria dos três o Falo, na medida em que ninguém é seu proprietário. Do lad da mull
congoleses analisados após a última guerra: "Seu inconsciente funcionava preciso citar esta passagem célebre: "Seria a carta que faz da Mulher I
segundo as regras do Édipo, era o inconsciente que lhes tinham vendido, ao jeito ao mesmo tempo todo-poderoso e servo, para que toda rn \0 U
mesmo tempo que as leis da colonização, forma exótica do discurso do Mes- mulher deixa a carta retome junto isto de que ao recebê-Ia, Ia m 11I1 t
tre, regressão em face do capitalismo imperialista." Então, por que somente [ais? "Lais" quer dizer o que a Mulher lega por não ter jamais tido: li )11 I
quatro discursos - e permutando por um quarto de volta? "Os discursos ca- verdade sai do poço, mas nunca senão a meio-corpo". " ignifl unt " '111 ,
pitalista" ou "imperialista" aqui invocados seriam somente avatares do dis- "letra" lá: somente no Seminário XVIII 78 Lacan tentará dístín ul-l , 111
curso do Mestre, termo cuja ambigüidade (ou pluralidade de sentido) nunca é renovar sua teoria a partir deste mesmo conto. À parte ist , u r p li' (I ti
levantada? Não seríamos um pouco congoleses, nós também? duas afirmações antigas: "O significante é qu r pres nta um suj ito I \I
Então, "o avesso da psicanálise"? Às vezes, é o discurso do Mestre outro significante" e "O inconsciente é um discurs "
como cavilha. Às vezes, é o discurso inconsciente como saber lá onde aves-
so e direito (o discurso analítico) não se separam segundo a figura da cinta
de Moebius. "O avesso rima com verdade", "passa-se ao avesso", sim,
"mas o avesso não explica nenhum direito". O fim do texto reencontra a
veia pessimista de Lacan: "Morrer de vergonha não é fácil", P ís "a m rt
merece pelo menos morrer d v r nha", S n ste "a vida rn v r 0- */1 11I ·(/·/mlr/l: t I/'.tl./m/r

IJ
258
75
Lacan expõe os princípios de sua prática analítica e de seu ensinam 11-
to: "Não há saber sem discurso", mas "o inconsciente que se imagina < I' I ,-
tado do inconsciente tal qual ele é, um saber posto em posição de verdade, (I
1969 (12 p.) - Prefácio ao livro de A. Ritflet-Lemaire: Jacques Lacan -
que só se compreende com uma estrutura de discurso." Discurso "Irnp 'li.
1970
vel", pois não é mantido a não ser que o sujeito dele seja "ejetado" lis '111'·
so "ensinável", mas a partir de um "meio-dizer" (mi-dire). À "inanidud do
"Eis-me aqui sujeito de tese por meus Escritos": que revanche sobre os
discurso do saber", quando, ao se afirmar seu fechamento, faz mentir ON ou-
adversários de antigamente! Apenas, eis que "meus Escritos são impróprios
tros, Lacan opõe um "discurso assintomático", onde "o-impossível (ti di:!, ,
à tese, especialmente universitária: antitéticos de natureza, pois ao que for-
a verdade) é "o fundamento de seu real. De um real donde se jul a U '0111
mulam não há senão que se deixar tomar ou então deixá-los" ...
petência dos discursos onde a verdade claudica e justamente, ela .luu I • I
Este prefácio está recheado de alusões aos conflitos analíticos desde
abertamente". Assim ele contesta firmemente o discurso universitário.
pelo menos 1963; ao seu "ensinarnento colocado à margem pelos psiquiatras
e psicanalistas", contudo seus verdadeiros destinatários; à estrutura univer-
sitária; à instituição psicanalítica, etc .. Acertos de contas que deixam perce-
76
ber a ferida, da qual protegem os jogos de palavras. E ele lembra seu grafo
do desejo 36 e 46, tão negligenciado por seus dois "L" de então (Laplanche
e Leclaire) que não compreenderam a fórmula da metáfora. Discussão jamais
1970 (9 p.) - Allocution prononcée pour Ia clôture du congrês de l' f:.,'FI , li'
terminada com Laplanche desde o Colóquio de Bonneval 48 e 56, discurso
19 avril1970, par son directeur -1970
de defesa atrasado: aqui, trata-se de defender que inscrevendo a variável x
(Alocução pronunciada para o encerramento do ongr (I
ele fez surgir a função do significante Falo, como sinal da "paixão do signi-
da EFP em 19 de abril de 1970, por seu diretor)
ficante". Contra "o inconsciente é a condição da linguagem" de Laplanche,
Lacan reafirma que "a linguagem é a condição do inconsciente": toda "a en-
trevista" (7 p.) resumida por A. Rifflet-Lernaire trata deste antagonismo teó-
rico que esconde um outro: "Aile"* (Laplanche) teria insistido em dizer que
o inconsciente é a implicação lógica da linguagem: nada de inconsciente em
efeito sem linguagem. Isto poderia ser um trilho para a raiz da implicação e
da própria lógica. "Aile" teria remontado até o sujeito que supõe meu saber.
Disto, quem sabe? "Aile" ter-me-ia precedido nisto a que cheguei". Em su-
ma, "~ile" tria sido Lacan ou o filho tão desejado e tão odiado por superá-
10... E que ninguém compreendeu que o grafo do desejo era na realidade
"um aparelho rigoroso", aquele "onde se representa l' apparole" * que devi-
do ao Outro (dito grande Outro), cesta furada, para engatar os quatro cantos
do basquete do desejo, que o a - bola-objeto, vai se esticar em fantasma."

*Aile: Asa, L = fonicamente a letra L e asa, e as iniciais dos nomes de Laplanche LecIaire e Lacan
(N.T.) , .
**Substituição de Ia parole (a palavra) por r apparole, de mesmo som mas que remete a I' appareil (o
aparelho). (N.T.)

260
gemo Entretanto, "a verdade pode não convencer, o saber, ele, passa ao cet (n? 2/3) temos o conjunto e precisamente as passagens que 1IU" 111 I
ato". Ele também declara: "O que me salva do ensino, é o ato e o que teste- quatro Discursos 73, 76 e sobretudo a nota (p, 99) que dá os esqu m I 111
munha do ato". O ato psicanalítico pode "ser celebrado pela Universidade bricos completos. Entretanto, a ambição é mais vasta: apre ntar i 01111
como conjectura de sua falta": "que eu atualize esta conjectura paga-a por buições freudianas e lacanianas, a noção de estrutura, o lugar da psl "11 I
me tolerar". nas ciências humanas, suas conseqüências "no plano da ciência, do f' 10 01 H
Portanto, não é absolutamente questão que "a psicanálise (seja) uma e mais particularmente do marxismo, até mesmo do comunismo", 11/'1111, I II I
subversão do saber": "Bem pelo contrário, o saber faz a verdade de nosso concluir: "Em que saber e verdade são incompatíveis?" E, ", V 111 11 I
discurso". Pois o saber está do lado do inconsciente. Então, é "da relação do educar, psicanalisar são três tarefas impossíveis a exercer", c m ••
saber à verdade" (formalizada em lógica) que "toma verdade o que se pro- solve a contradição" entre "a perpétua contestação de tod dis 'li
duz significantes-mestres no discurso analítico". Por que esconder "o emba- mesmo do "saber analítico" e a necessidade de "se agarrar" a lst( ,
raço que meu ensino causa na Escola"? diz ele - e, pela primeira vez, afirma "status de impossível?" "O impossível, é o real?" Uma entrevista I
claramente que "ao se oferecer ao ensino, o discurso analítico leva o analista mídia - onde abundam os problemas gerais e abstratos - caractcrfstl '
à posição de analisante, isto é, a não produzir nada de maitr-isable"?", senão anos 60 e 70.
"a título de sintoma". Na oposição do discurso do Mestre, o discurso do O interesse é dar a conhecer a um público mais amplo a te
Analista permite ao saber vir ao lugar que designamos da verdade. nas desde 1953. Vejamos simplesmente o que há de novo.
Quanto ao passe, o diretor tenta desdramatizar o conflito em torno do Primeiramente, esta afirmação: se a linguagem é a condição d Ince I -
"des-ser": "a disponibilidade" que ele cria é "perigo indispensável para que ciente" (tese reafirmada 75), "o inconsciente é a condição da lingü(stl . t",
haja um verdadeiro passante", mas não é "um estado em que qualquer um Freud se antecipou às pesquisas de Saussure e do círculo de Praga, pr IId ll-
possa se instalar em alguma atividade". Brincando (em Les Lettres de l'Éco- do-se à letra da palavra do paciente, ao dito espirituoso, aos "trop N" 1\

le Freudienne), ele se estende longamente sobre o fato de que "(ele) não linguagem e enfocando o lugar fundamental da condensação e d d
passa seu tempo no des-ser, que (ele) trabalha enormemente", etc .. Ele re- mento na produção do sonho. O inconsciente é simplesmente "qu (
cua, mesmo diante deste termo, "que lhe veio sem mais", após o de "desti- não seja aquele que sabe o que diz". "Alguém que o articule, m
tuição subjetiva" - empregado, este, "muito apropriadamente, a prop6sito do Lacan, diz que é isso ou nada". "E por que Saussure ter- e-ia d d
que ocorre ao analista", pois, "o texto, é o psicanalisante que é seu supor- (...), melhor do que o próprio Freud, do que este antecipava, prin -Ir 111' I I
te". a metáfora e a metonímia lacanianas, lugares onde Saussure cn ndru J li 011
"Professores portanto, os srs. pouco me importam. Não sem que eu me son?" Aliás, metáfora e metonímia não têm as mesmas fun S n I lu \ ti
aponte por isso algum des-ser: isto deve se ver a um momento. Seria eu por ciplinas.
vocês mais ensinado?" Não! A noção de "estrutura" não permite criar um •• arnp '( 11 11111"
reunindo lingüística, etnologia e psicanálise. A lingüística é"s m I'

77
o inconsciente", pois "deixa em branco o que aí faz efeit , J t t"
jogo do ato psicanalítico - e de todo ato. Esta é "a carência d I n 11 t i"
lusão a Benveniste). Os dois discursos diferem também p Ia p si' I
jeito: "Somente o discurso que se define pela volta qu lh dá I \nl'lll
1970 (45 p.) -Radiophonie -1970
nifesta o sujeito como outro, ou seja, dá-lhe a hav d sua dlvl /I_
(Radiofonia)
quanto que a ciência, ao fazer o ujeit rn tr, S ao t ia- ,n i 111 11 1\ 11\
que o desejo que lhe dá lugar, c m a 6 rat ,p a rr -I 11\ I
Uma entrevista de Lacan por Georgin: sete perguntas e respostas. As
dio". Ao contrário da etn 1 ia, a psí anãtts t m qu r
quatro primeiras foram difundidas na Bélgica, e depois na França. Em Scili-
to que c ndi i nararn um su] it ". J lá um \I (lI
fr udian . AI m lis ,I 1'0 vl-Stl'll,," m I r li \ tul( I 1" pllllllll
"Maitre = mestre; maúrisable '"' c ntr lãvcl, domlnãv I,J d polnvros lntrnduzlv I. (N.T.)
vi d 'tnst tn (' I 1 I /('UN' 1/11.\'" 11/ • 1/.\"1 '1/1 l . IJ 11 I op I I I 11 111 t 11
mo metáfora nem como meto nímia. Ele não condensa, ele explica. Ele não
desloca, ele aloja, ao risco de mudar a ordem das tendas". "Ele só joga
combinando suas unidades pesadas, onde o complemento, por assegurar a
presença do casal, faz surgir apenas um plano de fundo que, justamente, sua
estrutura rejeita". Ora, "na psicanálise (porque também no inconsciente), o
homem não sabe nada da mulher, nem a mulher do homem. Ao falo se resu-
me o ponto do mito onde o sexual se faz paixão do significante".
Para Lacan, a estrutura é corpo do simbólico: os est6icos "souberam
deste termo: o incorporal, assinalar em quê o simb6lico está ligado ao cor-
po". "Incorporal é a função que faz a realidade da matemática, a aplicação
de mesmo efeito da topologia, ou a análise num sentido amplo para a 16gi-
ca". O que Lacan acrescenta? "É incorporada que a estrutura faz o afeto
(... ), pelo que se revela que do corpo, ele é segundo, quer esteja morto ou
vivo". Além disso, a estrutura em análise comporta "uma falha - e de estru-
tura"!, o que já anunciava La logique dufantasme 65 e que vai se desenvol-
ver nos seminários seguintes. Não há "significante próprio para dar corpo a
uma f6rmula que seja da relação sexual". Assim, Lacan faz atuar "o inde-
cidível", da ordem de um real que faz buraco na estrutura. Marx enfim, com
a "mais-valia", fez uma descoberta que "o mais-de-gozar" de Lacan supera,
pois fornece seu motor: "Quando se reconhecer o tipo de "mais-de-gozar"
que faz dizer "isso, é alguém", estaremos na via de uma matéria dialética
talvez mais ativa que a carne para o Partido, empregada como baby-sitter da
História. Esta via, a psicanálise poderia esclarecer com seu passe" 66, 76.
Afinal de contas, pode-se dizer sem hesitação que este texto meditado esta-
belece a psicanálise ao mesmo tempo como fundamental e hegemônica.
É justamente isto que tentam estabelecer os Quatro Discursos (Mestre,
Histérica, Universidade, Analista) nas relações que os unem e nas passagens
que se fazem de um ao outro. Observar-se-á que não há fórmula algébrica do
discurso inconsciente: "O inconsciente (... ) não é senão termo metafórico
para designar o saber que s6 se sustenta ao se apresentar como impossível,
para que com isso ele se conforme por ser real (entendam discurso real)".
Ele também não contesta "o conhecimento", não tem nada a ver com ele.
"Minha prova - diz Lacan - não toca ao ser senão ao fazê-I o nascer da falha
que produz o sendo ou o ente ao se dizer".

6
princípio do prazer (do lado da vida), antes de ser interdito secundariamente 79
como gozo do corpo da mãe? É a este título que "a escrita é o osso do qual a
linguagem seria a carne"? Ou ao título do Nome-do-Pai equivalente do Falo
(nada a ver com o pênis que, como ele assinala complacentemente, não tem 1971 (8 p.) - Lituraterre - 1971
osso). A Lei? Perdemo-nos completamente af, pois a escrita lógica seria, ela (Lituraterra)
também, o avesso e o direito deste discurso "primeiro": é por isso que Lacan
fala cada vez mais do discurso lógico-matemático como da ordem do Real? Texto de abertura para o número 3 da recém-lançada revi ta
Se o público aflui, se o leitor, à primeira leitura, sucumbe ao charme, cennes, Littérature, consagrada à "Literatura e psicanálise". Text
não seria muito mais porque se fala sobretudo aqui do gozo e da relação se- tico tanto quanto elíptico: sucessão de curtos parágrafos sem ligaçã
xual? E onde está o prazer inconfessado? Porque a seriedade do discurso te, de aforismos, de jogos de palavras, sintaxe contornada. Lacan
permite abordar e esquivar as implicações entre homens 'e mulheres? Ou ainda, como em 1956, em ser "o Gôngora da psicanálise" 32, mesm lU I
então por que estas situações tão cotidianas e dolorosas (inconfessáveis?) em 1970, a concorrência seja acirrada. Este é realmente o efeito dest t t< I
encontram de repente uma nobre fachada? Ou ainda por que é tranqüilizador portanto, se o lermos isoladamente: mas os temas do Seminário XVllJ 76 I)
dizer-se que não há relação sexual que se possa escrever ou dizer? E portan- esclarecem bem facilmente. Remeto a ele, principalmente à sessã d 1 cl
to, viver? Lacan estaria em condições de dizer isto (e escrever algebricamen- maio de 1971, igualmente intitulada "Lituraterre.": uma ocasião para v o-
te), quando declara a inexistência de um significante da diferença dos sexos, mo, em Lacan, "a palavra falada" torna-se "escrito" ...
o lugar do Falo como terceiro entre homens e mulheres, mas não "rnedium": O título - jogando com "Iitura" e "littera" - jutifica-se em J y ,d -
"se o ligarmos a um dos termos" (homem ou mulher), "ele não se comuni- lizando de a letter a a litter (de uma letra a uma sujeira): ora, isto já ap lr -
cará com o outro". Este trágico fascina e desarma, ao se apoiar em tantos na análise, em 1956, de La Lettre volée 31. Este conto é novarnent stu I I-
textos, culturas, disciplinas diversas, sem contar o peso da posição analítica: do durante o seminário de 1970-1971: não sobram aqui senão par lu, _ I -
Lacan se coloca como "analisante" face a seu público, certo, mas é de lhe conheçamos, todavia, a elegância de suprimir este ataque contra Mal" 1)0
dizer que a posição de analista ele não pode ocupar, "por falta do saber". naparte: "Uma psicanalista que limpou os outros textos de Poe, aqui d -I
O que não impede que a releitura de La lettre volée 31 mereça ampla- - renunciar ao seu avental". Quanto ao jogo de palavras entre "Iit rul"
mente o desvio, que a análise de Totem e Tabu, face à do mito do Édipo em "litoral" (donde litura-terra, lituraterir, etc.), leiamos ainda o erninãrl : liA
Freud, forneça da figura do Pai original e do Supereu uma visão nova que letra não é o literal a se fundar no litoral (... ). O litoral, é o qu 1 111\

lança uma sombra inquietante no Nome-do-Pai, este significante-mestre da domínio inteiro como fazendo, se quiserem, fronteira a um outro, mas ju I I-
psicanálise, confundido com o Falo (salvo pelo fato de que, "se o chamar- mente pelo fato de que eles não têm absolutamente nada em mum, I 1\1
mos, alguém se levanta para responder"). Tudo o que é dito da conjunção, mesmo uma relação recíproca. (... ) Entre o gozo e o saber, a I tra farJII ll-
no homem, do gozo e do semblante (donde seu medo de enfrentar a mulher toral",
na experiência) e de sua disjunção na mulher; sobre o desejo na histérica do
"ao-menos-um" homem ("L' hommoinzun")* , quando o patriarcado se funda
no "Não-mais-de-um", abre múltiplas reflexões. Reencontrá-Ias-emos no 80
seminário Mais, ainda 84.

1971-1972 (149 p.) - éminaire 1X... u plr - Rumo publ t'uel".


Ver ão anônima 1981.
(... li 1)IOl')

*L' hommoinzun: aglutinação de r homme (o homem) em/' aumoinzun (o ao-rnen -urn, ~ netica-
1.11 I 1117 I 11 I I I' 111 1\ 1\ 1 111 I) \I 1\ 1 11 I 11
mente) de mesmo som. (N.T.)
1111 til" (... J/I I' li ) e, Hl nu 1110 IllllpU, I 11 11 1 I' 1111

266 7
---- - ~-- ~- -----------------
em primeiro lugar seus próprios inícios como residente dos Asilos, seus agora ele quer fazer o do gozo sexual e de sua articulação com a castra
companheiros de então, como Henri Ey, ou o estado da psiquiatria nos anos A partir de um ritornelo: "Entre o homem e o amor, há a mulher; ntr
30. É, portanto, aos residentes em psiquiatria que ele deseja se endereçar, homem e a mulher, há um mundo; entre o homem e o mundo, há um mu ",
mesmo que, na platéia, eles não sejam senão "uma minoria esmagadora", , ele pode concluir que "o que está em jogo num amor sério entre um h ru 111
'.
diante do auditório que veio do seminário mantido ao mesmo tempo no Pan- e uma mulher é a castração" e que "a castração é o meio de adaptaçã (I

théon 80. Este direcionamento dá às suas conferências um tom mais direto: brevivência" (de quem?). A carta de amor (lettre d' amour) é "lettrc ",
assim, ele evoca com emoção ou humor "estes 55 anos passados dentro des- mur" (letra/carta de a-muro*: é por isso que ele declara dirigir-s aos !lUI
tas paredes", e especialmente sua Apresentação de doentes; diverte-se falan- ros de Ia Chapelle (nos dois sentidos do termo** onde realiza e t s n x n.
do como se estivesse na sala de plantão, ou comparando "a incompreensão tros? Mas quais são estas quatro paredes que nos encerram? Os quatrc ter-
de Lacan" com a "incompreensão da matemática": tratar-se-ia de "um sin- mos fundamentais que constituem seus quatro Discursos desde L' "nV('IW /t.
toma"? Sente-se em todo caso a preocupação com a fórmula simples e uma la psychanalyse 73: aqui neste texto, ele os nomeia de outro modo: s mblrtn-
progressão pedagógica, sem que sejam sacrificadas as nuanças e as dificul- te, gozo, verdade, mais-de-gozar, cujo retângulo não está fechado. 1 (1).
dades da reflexão. segue até nos persuadir de que "apenas o materna aborda o saber s t I I
Tudo começa com uma apresentação sobre "a ignorância ligada ao sa- verdade", mostrando o quanto, a propósito da relação sexual, suas fórmula
ber": ignorância, "verdadeira paixão", que consiste em fazer dela um "saber lógico-matemáticas não são traduzíveis na lógica das proposições: ele anulls I
estabelecido", ou "ignorância douta", que é o saber mais elevado. Sarcas- com fineza a impossibilidade de definir a relação entre os dois sexos m t I'·
mos contra a antipsiquiatria 67 - que seria "psiquiatreria" - onde se pensa mos de negação, conjunção, disjunção e implicação.
mais "na liberação do psiquiatra" do que "em resolver o problema das psi- Em psicanálise, a função fálica domina igualmente os dois sex s, mn
coses". Sarcasmos contra a onda do "não-saber" emprestada de um G. Ba- não os faz diferentes: é alhures que se deve procurar a diferença. D um lu-
taille malcompreendido. E a psicanálise? Ela se mantém "nesta fronteira do, o Um; de outro, a não-existência: que relação estabelecer ntr m
sensível entre a verdade e o saber", pelo menos para ele e aqueles que o se- Zero (cf. Pierce, para quem isto dá dois). Entretanto, o Um onde 6 r ' O (
guem ... Lacan empreende então uma recapitulação dos problemas colocados atua como "um utensílio" em torno do qual "a experiência anallti I n< n.
pelos textos de Freud e seus próprios textos, desde sua tese sobre a paranóia cita a fazer girar tudo o que se enuncia da relação sexual", é ant li,

2. Ele os retoma como faz com suas noções essenciais: numa outra ordem, a menos-um", "a exceção que confirma a regra" da ca tração de tis: p
de seu questionamento atual, com redefinições, respostas às críticas ou mal- Ia-se a figura do Pai ancestral, o Um não castrado, tanto quant "'/ u sr:
entendidos, retificações. Pouco a pouco, conduz seu discurso no sentido da o pater familias que "esmaga" (épate) os outros, seus escravo ... A mull "
importância da lógica para construir a verdadeira teoria analítica e particu- por sua vez, se "ela é não-toda" e não universal, "esconde um )
larmente a ausência da relação sexual, sobre o que ele se explica de modo depende do Um, um gozo propriamente feminino". O fato d s u
mais preciso e às vezes outro que nos textos precedentes. É por isso que dual é um "ponto de referência no conjunto". Lacan de lara qu qu III I,
convido a ler estas entrevistas atentamente. "Palavra de ensinamento", diz fala do sexo ou do amor, fala-se sempre do outro sexo: nã é ist [u I f.:l.
ele, "ao nível do elementar", mas, seria desonroso? De minha parte, encon- aqui, interrogando-se tão longamente brc a Mulh r: p r trás, fi O h IV I I
trei aí inúmeras análises esclarecedoras para seminários mais "lógicos" e uma outra pergunta: o que é um homem, qu nâ é Um d Pai ou Z 10
também para o seminário Mais, ainda 84. da mulher? Isto é, qu C rr e m a "castra fio"? N nhuma r Ar>< st I. "11
Um exemplo: "Não digo que a palavra existe porque não há relação O Um" com si nifi ant -M str ? "Ao p ruo m qu h li i st in l, n
sexual. Seria absurdo. Também não digo que não há relação sexual porque a tend utra S lha qu ntr iss .,. u pi r." •i-I t mad p I ln I 1<1
palavra está lá. Mas não há relação sexual porque a palavra se encontra a es- ntr d " -uma"! li uu 1\ s d i "hc rízont I 11 I
te nível que se acha, segundo o discurso analítico, descoberto como especifi- ant " qu m l rno m t 111 o 1I1ll 111 I
cando o ser falante, a saber, a importância, a proeminência de tudo que vai
fazer, a seu nível, do sexo o semblante, emblante de h men d mulhe- ~ NOVOII) nl 1I1111r< 1IIIIIh I, 111I IV lIlIHlo/II"{) 1'1111111 /111111111 11
•••~ Illl1 rllU\ ,/11/1/,\' 11111111'111111\11111I111/1,1'1jIIlII\hl(llllI.tI ,v. (N,"'.)
res". Lacan pen a ter feito c m bj t a, mat ma da i anãlí ; ma

70 71
o inconsciente. Um imenso esforço de síntese parece, pois, procurar "
( trar tudo, graças à lôgica e à topologia, em torno de uma proposi ã l1,
"não há relação sexual". Esta proposição escapa sem cessar à defini
cisiva: donde a complicação do estilo.
Aqui as f6rmulas são mais surpreendentes, elas esclarecem os s n Jl
rios da mesma época, cuja leitura é cansativa, mas o movimento mal IIt
rioso dos seminários esclarece este texto tão obscuro, devido às suas 111
de pensamento. Remetemos a eles, pois não faríamos senão rep tir
mos anteriores.
Destacaremos o que anuncia o seminário Mais, ainda 84. ntru M.
Klein e Jones, Karen Homey e até mesmo Hélêne Deutsch, que "ap t li' 111\
do inconsciente à voz do corpo, como se justamente não fosse do in n-
ciente que o corpo consegue voz", ele resume sua pr6pria teoria da f rnlnll •
dade, fundada em suas "f6rmulas quânticas" dos dois sexos, Desta v z, I
precisa: "Dizer que uma mulher é não toda, é o que o mito nos indi a, [u
ela seja a única para quem o gozo supera aquele do coito". Eis aqui lU
chega a tese do feminino como "suplemento" do masculino e não eu" 111-

plemento". Mas uma mulher deve passar pelo homem que, ao mesm l mp ,
está a seu serviço: "Para que o homem confessaria servir melhor para a n li-
lher de quem quer gozar, senão para dar-lhe este gozo dela que não a I'u:t. to-
da dele: de nela are-suscitar" .
Enfim, Lacan lembra seu lugar no discurso psicanalítico: há "d z 'lil
tomei o cuidado de fazer um jardim à francesa destas vias que r ud,
meiro, soube colar em seu desenho". Quanto ao Édipo, ele "é qu U
não o que se acredita",

83

1972 (19 p.) - Conferência na Unfver idade de Louvam -1981

'OI\V, \ I I 1111111111 \: uA MOIl do I c I\\(n I d,


I' ". ltuul I 111I111 11 \I ,do o: "() I. t 111 I 11111 1\1

7
razão em acreditar que vão morrer, naturalmente, isto os sustenta. Se os srs. xual", aparecem desde L' Envers de ia psychanalys 7 : já s o • 111 • du
não acreditassem nisto, será que poderiam suportar a vida que têm?" O pro- pela publicação de Radiophonie 77. As "fórmula quânti as" p ri
blema é sobretudo definir a vida: em biologia, é "o que se reproduz"; para ausência de relação entre os sexos - o que não quer diz r aue nc ,
Lacan, "isto quer dizer que isso goza ou que isso sofre, é da mesma ordem: lação ao sexo simbolizado pelo falo - datam do Seminári I
isso tem um corpo"; entretanto, para lhe dar um sentido, é preciso primeiro re 80. L' amur (O amuro) e a carta de amor (amou r) ocupam vãrlu
"não acreditar que é ela mesmo que é o sentido. Acontece-lhe de ser a cul- em Sainte-Anne no ano anterior 81, etc .. Aliás, Lacan se aut it \ 'li 1\ V
minação de um sentido". No ser falante, o ato é primeiro, ora, o ato consiste mais: aqui ele comenta L' Étourdit 82, mas o texto está rech nd I
em "expor sua vida, jogá-Ia, como bem viu Pascal", "Fora do risco da vida, ferências explícitas ou implícitas ... O fenômeno é inevitáv I:. r I( !lU 1111
não há nada que à dita vida dê um sentido". tempo teórico e ensinador, com um público que muda, I va I II
O discurso analftico - fio condutor desta improvisação - não chega a tições. Entretanto, de mais a mais trata-se de variar mai a f rm I li \\1 "
dar um sentido à vida nem o sentido da vida. Ele concerne ao desejo e ao fundo. Desde L' Étourdit, os jogos de escrita ou os trocadilh , S rv 11I I 11 I
gozo (joui-sens)* . Muitas noções lacanianas são retomadas sob outras for- isso. Aqui, o último "treco" é escrever If.. mulher para amrc r 'lu 1I II I
mas: o inconsciente, os discursos da Histérica, do Mestre e do Analista; a está inscrita no universal.
neurose e a perversão. Quanto ao falo, torna-se um "ponto ideal", "um pon- Todavia, a doutrina estrita é bastante simples: a rnulh r n ntr li' I I I
to insituável", "um ponto fora do mapa", "um ponto de béance". Eis aí o relação sexual senão "quoad matrem" (entanto que mãe) o 110111 111
que ensina a psicanálise, "novo discurso", "novo modo de laço social", ca- "quoad castrationem" (em função da castração"). Portanto, não há v ItI \-
paz talvez de "compensar" e "de estancar" o mal-estar da civilização. deira "relação sexual" e o amor, tanto quanto a palavra suprem si I iu 11-
cia, "Não há mulher senão excluída pela natureza das coisa , qu -. 11 n tUI' -
za das palavras". Por que ela se queixaria, pois graças a ist Ia atln 11111

gozo suplementar? Esta infinitude a põe numa relação parti ular '( tn 1111
84 deus" (le dieu), "Ie dieur" - "Ie dire" (o dizer) ... e com us, 'lu I do
lado do Nome-do-Pai. Para o homem, em todo caso, ela está do 111 10 "ti I
verdade", com a qual ele não sabe o que fazer ... E Lacan em prlm "O, ti '/,
1972-1973 (137 p.) - Seminário XX: Mais, ainda - 1975 ele.
(Encore) A topologia (joga-se com pedaços de barbante pela prirn slru v '/" I li
fim deste seminário), São Paulo, Freud, a lógica, os jogo d pal vr I : 1111"
Este seminário é um dos mais conhecidos, por várias razões: é o único serve para provar a validade da teoria lacaniana. Se o text publlc IUO li I1 •
publicado, dos que ocorreram após 1964-1965; suavizado e colocado em or- A. Miller a torna mais dogmática e mais pedagógica, apagand as lnc 1I zu ,
dem p.or J. A. Miller, torna relativamente acessíveis os últimos desenvolvi- ele revela bem as grandes certezas fundadoras.
mentos do pensamento lacaniano; enfim, toca num ponto sensível, a femini-
lidade, no momento em que o Movimento de Libertação das Mulheres (MLF) 85
contesta a teoria psicanalftica. Lacan entrega aqui a doutrina da feminilida-
de, desafiando as mulheres a dizer - articular - o que quer que seja de sua
sexualidade, de seu gozo, delas mesmas. Não sem violência (p. 69-70). 1973-1974 (203 p.) - Séminaire XXI: Les non-dupes err ru - V r (l
O essencial das noções já foi elaborado nos anos anteriores. Os quatro nima, 1981.
Discursos, as grandes categorias lógicas, a distância colocada entre a (Seminário XXI: Os não-pato rram)
lingüística e a "lingüisteria" lacaniana, o aforismo: "Não há relação se-

1
* Dejouir (gozar) e sens (sentido), com o mesmo som dojoulsso/l e ( zo). (N.T.)
rr n li, I 'lll \ I I \I

274 7
tros, conservado ciumentamente em seu poder para privar os outros, ou im-
possível de abordar - é sob uma forma par6dica ou muito abstrata (a topolo- exemplo: "Quid da energia psíquica?", que exala sua linguagem de cléri
gia). Sobre a questão dos Nomes-do-Pai, a leitura de L' Eveil du printemps Na realidade, a organização da entrevista prova isto: o gracejo se diri /I

88 é muito instrutiva. todos aqueles que não são do clã - o público e os psicanalistas não ou aml-
Nada de realmente novo aqui, à parte a importância dada doravante aos lacanianos. Trata-se de responder a objeções diversas, já desqualificadas J
n6s borromeus, que permitirão ligar o Imaginário, o Simb6lico e o Real com 10 tom, a forma ou a simplificação caricatural de seu contéudo.
um quarto círculo (o que faz o n6), o Nome-do-Pai justamente. Pode-se Lacan começa com esta declaração que se tomou célebre: "Eu di )
abordá-los também pela figura da trança. E eles seriam da ordem da estrutura sempre a verdade: não toda, porque dizê-Ia toda não se consegue. Diz -11
no esquema: toda, é impossível, materialmente: as palavras faltam. É mesmo por est !tu-
possível que a verdade toca o real". Ou se adere, subitamente tomad J lu
potência do Verbo, ou se conhece já o essencial da teoria por ter ac mJ i-
nascimento estrutura morte nhado o Seminário. Em seguida, mais ou menos todos os problemas s O
abordados: a doutrina, a instituição psicanalítica, os trabalhadores da St\l~I
E Lacan joga rodas de barbante na platéia. Para o resto, s6 podemos remeter mental, que "carregam toda a miséria do mundo" e têm aversão ao anall tu,
aos nossos resumos anteriores. Todavia, a transcrição que nos é proposta é a família e a sociedade, o estilo, etc.
muito útil: pela primeira vez, notas bibliográficas ajudam a leitura. Assim, Lembraremos criações engraçadas: a SAMCDA "Sociedade de As-
põe-se a mão na massa, na multiplicidade e na variedade das referências la- sistência Mútua Contra o Discurso Analítico", que é o apelido da AS8 _
canianas. A redação, mais trabalhada, pode ser o lugar de acesso ao Dis- ciação Internacional de Psicanálise. Uma concepção da santidade qu n (
cours qui ne serait pas du semblant 78, por exemplo. tem nada a ver com a caridade. Os temas de A Ética da psicanálise 43, já I' _
tomados em La Logique du fantasme 65 e na Proposition de 1967 s I rc
passe 66, sob a forma do "des-ser", reaparecem com força: o santo? "Ant
se mete a fazer o dejeto: ele desesmola (décharite)", Enfim, citemos ti xin-
86 clusão: "Do que perdura de perda pura ao que não aposta senão d pu I(
pior", ,corresponderia a equação escrita na margem _~ .
E um verdadeiro condensado do discurso lacaniano.
1973 (75 p.) - Télévision - 1973
(Televisão)

Lacan faz sua entrada na televisão para dois programas realizados por
87
Benoít Jacquot, sob o título Psychanalyse. Ele é interrogado por J.A. Miller,
que redige em seguida a transcrição das entrevistas para Éditions du Seuil.
Como advertência, este último declara: "Pedi a este que lhes respodia para
assinalar o que eu entendia do que ele me dizia". Resposta de Lacan: "A- 1973 (4 p.) - Nota italiana - 1981 e 1982
quele que me interroga sabe também me ler". Mas há um mal-entendido: La-
can não nos responde - não formulamos nossas perguntas -, ele se dirige
a n6s ou responde às perguntas de J.A. Miller. Uma cumplicidade destas, "a
dois", é característica dos debates televisionados na França, onde o entrevis-
tador serve para promover o entrevistado, ele mesmo obtendo daí um a ré -
cimo de prestígio. A falsa desenvoltura da qu t ma ra m I ta r -
lação, ainda mais que ela sã E rmulade I t rm já difi ad s, r

27,
77
--------------------------------~-------

nhecidos, face aos Analistas Praticantes (APs) sem r6tulo: desaparece, então, fendido em todos os seminários, desde Radiophonie 77. Enfeita-se: a "m -
a categoria dos Analistas Membros da Escola (AMEs), nomeados por um júri ça" (função encarnada aqui por um rapaz) "é somente uma e quer continuar
em nome de sua prática, de suas análises de controle e de seu trabalho num assim"; ao contrário, o "rapaz se faz homem ao se situar como um-entre- u-
cartel.Serão recrutados somente "aqueles que postularem sua entrada sob o tros, e ao entrar entre seus semelhantes". O rapaz-moça, ao se exceptuar,
princípio do passe, assumindo o risco de não o obter" ... Lê-se nos vazios o conta-se entre os mortos: uma piscada aqui para os Non-dupes-errent 85.
que Lacan pensa de sua Escola, quando almeja que, no novo grupo, "só fun- Justamente o Pai aparece: dentre seus nomes, haveria o de "Bom m
cionem analistas". E ele lança uma advertência: "O analista s6 se autoriza mascarado" da peça? "Mas o Pai tem tantos e tantos nomes que não há um
por si mesmo", certo, mas "se autorizar não é se auto-ri(tuali)zar"; "o im- que lhe convenha, senão o Nome de Nome de Nome". Ele poderia muit
portante é que ao se autorizar por si mesmo não haja analista"; "Nem todo bem ser o "Nome entre outros da Deusa branca", símbolo de "a Diferent ,
ser falante poderia se autorizar a fazer um analista". da Outra para sempre em sua potência", forma de infinito. Aliás, "a mulh r
Quais são, então, os critérios? O analista deve "ter abarcado a causa de como versão do Pai não se figuraria senão pela pére-version, etc .. Este p -
seu horror, do seu pr6prio, dele, destacada daquela de todos, horror de sa- queno texto ap6s Mais, ainda 84 revela, em poucas páginas, as vacila s
ber". "Desde então ele sabe ser um refugo. É o que a análise teve que lhe de Lacan diante da existência (real, mítica, simb6lica?) do outro sexo. Com
fazer pelo menos sentir. Se ele não for levado ao entusiasmo, pode ter tido todas as suas outras análises literárias, esta permite uma síntese esclareced -
análise, mas nenhuma chance de ter analista". Eis o que "o passe" faz des- ra de suas últimas teorias.
cobrir. Por outro lado, "tudo deve girar em torno dos escritos a serem publi-
cados": o verdadeiro analista deve publicar, para dizer "que não há relação
sexual que possa ser posta em escritura" 78, em vez de ornar com "alguns 89
vasos suplementares" "o patrimônio conhecido por fazer o bom humor de
Deus". Em suma, ele deve escrever no bom sentido, o do Mestre.
"As pessoas concernidas, dizem-nos, não deram seqüência às sugestões 1974 (26 p.) - A Terceira - 1975
expressadas aqui". Podemos dizer que as compreendemos?
Apoteose de Lacan em Roma, onde tem lugar, vinte e um anos d p
do Discours de Rome 24, o VII Congresso da EFP. Conferência de imp n.
88 sa, discurso de abertura e de encerramento do congresso, intervenção qu I

atração principal do espetáculo: Lacan está constantemente presente, ín lu •


ve no conjunto das comunicações que tratam sobre uma das célebres fÓI'mu-
1974 (4 p.) - L' Éveil du printemps - 1974 Ias. A Escola comunga sem medidas do triunfo do Mestre e de sua doutrín :
(O despertar da primavera) o ápice é L'Adresse au Congrês de I'École, por J.A. Miller que, colo ando-
se como intercessor, entoa as louvações - o que provoca apesar de tud al-
guns protestos violentos. Foi-se lá para converter: "O que almejo é qu n
Gallimard publica, numa tradução de F. Regnault, L' Éveil du printem-
futuro algo se forme, onde os italianos possam entender o modo com I-
ps, tragédia infantil de Wedeking (1890). O prefácio é de Lacan, mas, no
cebemos a análise, isto é, eu acho, o certo", conclui Lacan.
fim, J.A. Miller traduz a análise que Freud fez desta peça em 1907. A rivali-
dade com Freud é, aliás, manifesta: "pela experiência que instaura o regime A Conferência toma emprestado de Nerval seu título: "a ter ira r 1-
(do inconsciente), ele não a terá posto ainda sob seus pés, mesmo à sua mor- na, é sempre a primeira". A terceira é também o Real. A prim ira qu r r-
te", este Freud ultrapassado de longe pelo dramaturgo ... esperando que ve- na sem nunca deixar de se escrever, é a 1 tra 35, fi t rc ira é R ai, li ltl
retoma sempre ao m m lu ar", d em a arand assim" lu ar d s m 1 \11-
nha, finalmente, Lacan.
Do que se trata? Do que sonham os rapaz s que e tão no ponto d t r a
t " 78. qu traz d 11 v st 1n1 rv n 't
idéia de fazer amor com as mo as. e u -s t d um stud mparatívo d
Ia prim Ir v stntom \ 'I Ir U11 ne
d R 01": lu n • nt ttu li 1\1 II(
rapaz e da mo a, d fi rdo 001 't : "11' hll r Ia xual" -, cI -

7t1 7V
-~--------------------------~--------------- -

corpo que aí fala não está anolado senão pelo real do qual ele goza". O sa-
ber inconsciente é, pois, impossível de ser encontrado pelo sujeito, salvo se
ele é um "eu penso, logo, isso goza", isto é, um "je souis"* __. O sujeito se-
ria, pois, sintoma. Colocando no plano os n6s borromeus com os quais se
ocupa desde Mais, ainda 84, Lacan posiciona na junção do Simb6lico, do
Imaginário e do Real o objeto a, ou melhor, o "Mais-de-gozar" 71, para fa-
zer n6 entre os círculos e as tranças: neste ponto, o inconsciente não pode
ser interpretado. A angústia surge do medo de ser reduzido a seu corpo e "o
real se põe em cruz para impedir que as coisas funcionem". O ser humano,
por sua vez, é "parassexuado": entre "o fora-do-corpo do gozo fálico" e "o
gozo do Outro que está fora-da-linguagem, fora-do-simb6lico", nada pode se
passar: "cada um fica no seu lado, fica ao lado do outro". A psicanálise, por
sua vez, é "sintoma" do Real (fonte do mal-estar da civilização): se tem êxi-
to' para apagar o sintoma e o real, ela enfraquecerá; se o Real resistir, ela
continuará. Na realidade, somente a religião, "a verdadeira", "a Romana",
"a cristã", apaga o sintoma. As Três Virtudes teologais (que não por acaso
são três mulheres), a Fé, a Esperança e a Caridade, são o 6pio do povo que a
verdadeira psicanálise deve denunciar. No limite, não resta senão o suicídio,
o único ato propriamente dito, como sabiam os est6icos.
Improvisação brilhante (a partir de 66 páginas escritas, declara Lacan).
Jogos de palavras, trivialidades, paradoxos, ataques: "Não há nada que se
pareça mais com um cocô de mosca do que Anna Freud! Isso deve lhe ser-
vir" ...

90

1974-1975 (112 p, aproximadamente) - Séminaire XXII: RSI - 1975


(Seminário XXII: RSI)

A prioridade é dada ao Real pelo título (Real, Simb6lico, Imaginário). ,


O seminário, inteiramente construído sobre o estudo, a aplicação ou a inter-
pretação dos n6s borromeus; desenvolve as teses de Les non-dupes errent
85, de L' Éveil du printemps 88 e da Conferência de Roma 89.
O essencial é justificar o apelo à topologia: a consistência do Real faz
a consistência do Simb6lico e do Imaginário, à condição de admitir qu "to-

* Trocadilho formado pela agíutlna li d sul' (6 li) J()I/I,~( ze), (N.T.)

140
Trata-se de um ponto donde sai o fio que liga não tanto ao ventre da 111
91
quanto à sua pr6pria placenta, mas esta marca continua sendo o esti rn ti
ter nascido de um ser que nos desejou ou não. Somente a palavra faz i 11 v:
a "um lugar do corpo que faz n6". O impossível de reconhecer está d 1 li li
1975 - Talvez em Vineennes - 1975
do Real (o que não pode se dizer nem se escrever) e do lado simb6li , I 1

Na Universidade de Vincennes, o Departamento de Psicanálise está em


"isto não cessa de se escrever. Encontramos análises anteriores 89. r tu-
crise: para pôr um fim nisto, Lacan expõe as condições necessárias para um
do, esta resposta anuncia L' Insu de 197695. Lembremos que "o d J ti
verdadeiro ensinamento da psicanálise. É preciso que o analista descubra ali homem, é o inferno" e que "não desejar o inferno" é a resistência.
de que sua pr6pria análise se serviu. Para isso, será auxiliado por ensinamen-
tos pertencentes a outras disciplinas. Mas não somente que "as ciências pro-
pagadas sob o modo universitário" tragam sua contribuição, 'é preciso ainda
"que estas ciências encontrem na experiência (da psicanálise) a ocasião de
se renovar". Trata-se, pois, de intervir no conjunto do campo do conheci-
mento e de sua transmissão: o modelo é o seminário de Lacan. 93
No programa, ele inscreve a lingütstica - com as reservas que faz a seu
respeito há alguns anos -, a lõgica, "ciência do real para conseguir seu
acesso sobre o modo do impossível", e a topologia. Esta última ciência não 1975 (58 p.) - Conferências nos Estados Unidos -1975
pode ainda se curvar à psicanálise: "O n6, o toro, a fibra, as conexões, a
compacidade: todas as formas cujo espaço faz falha ou acumulação, estão aí, As exposições de Lacan, tanto quanto as intervenções de um pübll '0
feitas para fornecer ao analista isto de que ele tem falta: ou seja, um apoio de espírito aguçado, constituem uma panorâmica do pensament Ia anluu I
outro que não o metaf6rico, com fms de sustentar sua metonímia" ... Enfim, sob seus diferentes aspectos. Yale University, Columbia University, Mm',\'(/-
anuncia-se a antifilosofia. chusetts Institute of Technology: esta volta pelas grandes univ rsida I li
nordeste americano revela um Lacan convencido de sua verdade, !TI S IIll
sutil, mais prudente em suas afirmações: uma excelente estratégia. arn I lI-
92 mos não ter a transcrição de seu confronto com Chomsky: ainda mais I
o ataca violentamente quando do seminário sobre Le Sinthome 94.
a versão de Scilicet dá uma noção do conjunto de ua teoria.
1975 (5 p.) - Resposta de Laean a uma pergunta formulada por Mareei Destacaremos algumas f6rmulas que retomarão nas últimas I"
Ritter -1976 ma mulher, é um sintoma para o homem"; "a psic s é um nsaío d r
neste sentido, eu diria que sou psic6ti o";" at falh p r x 1 n I
ci amente o ato sexual. Um d d i empre fi a in ali ,~ it "; "fi t r (.
Em janeiro de 1975, quando das jornadas em Estrasburgo, Lacan res-
ponde de improviso a uma questão formulada por Ritter sobre o "não reco- vel é que a p icanãli e nela me ma é atualm nt uma ha a: III r d J': I
ela é em i me ma um sintoma s tal, fi ülüma f rrna d d m fi l 11 1\1
nhecido" como "inquietante estranheza", situado do lado do Real. Trata-se
do real pulsional, onde a rede de significantes vacila e quais são as relações
f i nc bida";" prirn ir qu t v fi id ia I Hint I r I Mil li; 11 I 11 I
deste real com o desejo? di s tud mat matiza , m l r n 1 1 d l psl' 10 1s
Para Lacan, não há o real pulsional, pois o real não tem na pulsão mat matízãv 1".
senão a função do furo. Ora, o inconsciente, ele, é da ordem do recalcado ufh I 11. I li 'ar i aru: I I /11 '(. ns 'I nu 111

primordial, isto é, disto que está votado a ser não-dito e, p r i SO, e tá na 8 ~ l ; ir I ir« I ol« .\' tu 1/1 I 11\ P 11 \ III \ ('

raiz da pr6pria linguagem. "O umbig d nh" é limit d analí áv 1. 111\ 11' I I) •

282 "
Resta o desejo de descobrir um significante novo a partir das pesquisas Em meio a confidências freqüentemente amargas, Lacan afírm I lU \l \
sobre o sintoma 94: "Um significante que não teria, como o real, nenhuma geometria sabe articular o que as mulheres não puderam arti ula - p01l11l
espécie de sentido". O seminário encerra-se neste ponto. "elas são não-todas" - de sua prática da tecelagem. Como o psi mnl I I III~
teoria do que a histérica sabe sem o saber.

96
98

1977 - Abertura da seção clínica em Vincennes - 1977 C' est à ta lecture de Freud ... (17 p.) - 1977
(É a leitura de Freud •••)
Lacan retoma seus temas familiares. Destacamos. o que ele diz de
Freud: "Pois bem, eu diria que, até um certo ponto, restabeleci o que Freud À guisa de introdução ao número 3 dos Cadernos Cistre, I
dizia. Se falei em "retomo a Freud", é para que as pessoas se convençam de por Robert Georgin a Jacques Lacan, temos este inédito cuja data d
até que ponto é defeituoso. E me parece que a idéia de significante expressa é incerta.
apesar de tudo como isso funciona". "O inconsciente, portanto, não é de Lacan centra sua exposição no inconsciente: lembra as grand
Freud, é preciso realmente que eu o diga, ele é de Lacan. O que não impede de seu ensinamento contra "a grande depravação te6rica que mar
que o campo, ele, seja freudiano". junto do movimento psicanalítico". A linguagem estrutura o in n 111,
Por outro lado, ele escreve que a clínica é "o real enquanto que é o mas o inconsciente é o real "entanto que impossível a dizer". fim. '011 1 M

impossível a suportar", mas que se furta a qualquer aplicação. Sob quais grado à literatura, recusa ver nela a arte de imitar o inconscient - lU (I~
auspícios começa este ensino em Vincennes? Muitos psicanalistas, h - tada- ria dela uma arte de falsário - para ver aí o sintoma "como um palimp tu",
mente do Quatriême Groupe, denunciam este tipo de formação, psiquià rica
e não psicanalítica, a até mesmo esta deformação da psicanálise, que se ns-
tala em Vincennes. 99

97 1977-1978 - Séminaire XXV: Le moment de conclure - 1979


(Seminário XXV: O momento de concluir)

1977 (6 p.) - Propos sur l' hystérie - 1981 publi ' 111 I III 1/1
(Propósito sobre a histeria)

A conferência começa com uma inspiração lírica em honra das grandes


histéricas, sob o modelo da balada às damas dos tempos de outrora. "A doi- /
deira psicanalítica" não teria substituído a histeria? É por isto que Lacan de-
clara: "Nossa prática é uma trapaça"? Em 26 de janeiro de 1977, em Bruxe-
las, ele retoma por diversas vezes seus prop6sitos favoritos. Do inconsciente,
Freud não compreendia estritamente nada; "Coloquei um tijolo no campo de
Freud, não sinto muito orgulho disso, não sinto orgulho de ter ido abs rvi-
do por esta prática que continuei, que per egui a im, c m pud, ap r
de tudo não é certo que eu a d fenda até final".

H7
não teria feito melhor atuando sobre o que se chama o psicolõgico, A I,
que me eximiu disto foi a estrutura." Erro de orientação?

102

1980- Séminaire Dissolution - 1980


(Seminário Dissolução)
)

A 5 de janeiro de 1980, Lacan redige uma carta onde pronuncia ,.


solução da EFP: ele a envia aos membros de sua Escola, mas também fi I,
Monde, para que se torne pública. Ao mesmo tempo, chama a "se as U I
de novo" aqueles que querem "prosseguir com Lacan", Para a nova 1311 01 \
que virá, Lacan fará a seleção das demandas. Na ambigüidade, elo pur
querer partir - "a fim de ser Outro finalmente" - e a fim de que o" III o
falte" - e já prevê uma nova organização. O critério é claro:' "Não prec ,
de muita gente. E há muita gente da qual não preciso". É realmente a um \1,
"o único que sabe me ler", que Lacan quer legar a instituição, como um \
propriedade de que dispõe. Mas logo o pequeno grupo torna-se •• S 1111 ti
Cause Freudienne". "Minha causa freudiana", como diz o M str . 1.111
1980-1981, compreende-se por que o clima é tenso e a situa ão xl U VI
nos meios lacanianos votados à demanda, ao 6dio, à ri validade.
Ao mesmo tempo, Lacan comenta em seu seminário suas prõprlu o·
sições: Delenda est (Cartago) (é preciso destruir Cartago que amca a R( mu,
é todo um programa que se esboça). Ele dita duas consignas, chama a n
sidade do luto a fazer, apresenta-se como "Senhor Aa anttftlosõft o" ) 01'
uma associação de idéias com um título de Tzara, do tempo de Dada), 11' r •.
tiza: "Luz!", ataca e finaliza com "O Mal-Entendido" - "O h m m n I •
mal-entendido". Durante este tempo, desencadeiam-se os conflitos.

103

1980- O emínãrlo de aro 'as -1981

III
tl 1I1t1

H
a criação de "minha causa freudiana". A importância se deve à sua presen-
ça, que garante a legitimidade do Encontro, no momento das dissensões.
L'Âne, revista de ECF, consagra seu primeiro número a Lacan, suas Escolas,
e aos acontecimentos de 1980. Encontramos af até mesmo o resumo de uma
entrevista sobre a morte com Catherine Millot.
"Cabe a vocês serem lacanianos, se quiserem. Eu, eu sou freudiano".
O que não impede que Lacan marque nitidamente as diferenças entre as duas I~
teorias.
Bibliografia
104

1980-1981- Últimas cartas públicas -1980-1981

Publicadas em Le Courrier de la Cause Freudienne e depois em les I. BIBLIOGRAFIA DAS OBRAS DE LACAN
Actes du Forum de I'École de la Cause Freudienne ou em Le Courrier de
I'École de la Cause Freudienne, elas saúdam a cada vez - e legitimamente
- a nova escola criada em seu nome. Deixemos de lado as dissensões de que Por ordem alfabética
falamos em outro lugar. Escutemos de preferência a imensa prostração: "Eis
aí um mês que rompi com tudo, exceto minha prática ... " - ou a indiferença
quanto ao que se agita em torno dele: "Meu forte é saber o que esperar sig- Para uma parte das comunicações neuropsiquiátricas de 1926 a 1
nifica". Lacan morre em 9 de setembro de 1981. para as imímeras (e freqüentemente muito breves) intervenções du I t'
sessões de diferentes -sociedades psicanalíticas, reportar-se à Biblio rat IJI
des travaux de Jacques Lacan, estabelecida por Joêl Dor; nossa e c lh
explicada na apresentação da segunda parte do dossiê "A obra d J u
Lacan" (p. 120).
Encontrar-se-á entre parênteses a data em que o texto foi pronun i d
ou escrito pela primeira vez; em seguida, as referências da prim ira pu I.
cação e (eventualmente) da edição atualmente acessível; finalm nt ,
meros em negrito remetem, por sua vez, ao estudo particular pr p
nosso dossiê. Para maior clareza, uma lista cronol6gica do Seminãrí
esta bibliografia.

290
L' Agressivité en psychanalyse (1948) nnaLU
De ia psychos paranoi"aque dans ses rapports avec ia perso I( \
Revue Française de Psychanalyse, 1948-3 e
32 d l t\l dll
Ecrits, Seuil, 1966 16 Le François, 19 d dicat6rias acréscimo
'I 1975 (supressão de inúmeras e '
A ia mémoire d'Ernest Jones: sur sa théorie du symbolisme (1959) S em, 6' )2
La Psychanalyse, n2 5, 1959 época sobre a paran ia
mesma (1938)
Écrits, Seuil, 1966 42 De l'impulsion au complexe , de Psychana1yse, 193 -1 l t
e
Allocution prononcée pour ia clôture du Congrês de L'EFP, le 19 avril 1970 Resumo pelo autor na Rev~e Françazs
par son directeur De nos antécédents, ver Écnts I Raison d' un échec (l 7
i Rome 67: La psychana yse,
Reescritura Scilicet 213, 1970 DeRome 53 a
Transcrição do oral: Lettres de I'ÉcoLe Freudienne, n2 8, 1971 76 Scilicet, n2 1',196870, Séminaire VI, (1958-1959)
L'Angoisse, Séminaire X (1962-1963) Le Désir et son mterprétatzon, , Lacan) Bulletin de PSY 11 , I.
, J B Pontalis (acelto por '
Versão anônima, 1981 52 Relat6no por . .
Au-delà du "Principe de réalité" (1936) xm , n2 5 et 6., d or J A Miiller m ' Ornicar? (sur Hamlei),
.
I

ÉvoLution Psychiatrique, 1936-3/4, "Études freudiennes" Uma parte publica a P .. 83 41


Écrits, Seuil, 19669
,
2
1981; n2 25, 1982; n 26-2:,
' de ia cure et les pnnczpe
I?
s de son pouvoir (1958)
C' est à ia lecture de Freud ... (1977) La Dzrectzon
Cahiers Cistre, n2 3, novo 1977, L'Áge d'Homme, Lausanne 98 La Psychana1yse, n2 6, 1961
La Chose freudienne ou sens du retour à Freud en Psychanalyse (1955) Écrits, Seuil, 1966 40
ÉvoLution Psychiatrique, 1956-1 Discours à l'EFP (déc. 1967)
Écrits, Seuil, 1966 (inúmeras modificações) 29 Scilicet, n2 2/3, 197066 r
I s psyc110ses c11ez enfant (1 7
, d clôture des Journées sur e
Les Complexes familiaux dans la formation de l'individu: voir La Famille Discours e
Compte rendu de Hallucinations et Délires de H. Ey (1935) Recherches, déc. 1968 UGE 1972 67
ÉvoLution Psychiatrique, 1935-1 7 Enfance aliénée, coll. 10/18, d' C ngrês de Rome en 1 74, V 111(11
, d' ouverture et de clôture u o
Compte rendu de Le Temps vécu. Études phénoménoLogiques et pschologi- Dzscours 1974
ques d'E. Minkowski (1935) ventions au Congres de Rome , Champ de ia parole et du ll-/rl/(I
er F onctzon et
Recherches Philosophiques, 1935-1936-57 Le Discours de R~""!'e "xXVII (1980)
Conférence.à l'université de Louvain (1972) I ).
Dissolution, SémlUalr 80' n2 22/23, 1981 102
Quarto, n2 3, 1981 (suplemento belga de Lettre mensuelle de I'ÉcoLe de Ornicar?, n2 20/21, 19 ,', XVI (1968-1969)
aue
LaCause Freudienne) 83 D' un Autre à L'autre, SémlU 69 ( bre Foucault); Littoral, n)
Conférence à Sairue-Anne dans le service du Pr Déniker (1978) Extraído da sessão de 26/02/ so
Bulletin de L'Association Freudienne, n2 7, juin 1984 101 Versão anônima, 1981 71
Conférences et entretiens dans les Universités nord-américaines (Yale, Co- D 'un dessein, voir Écrits bl t Séminaire XVIII I 70·1 /I
't as du sem an,
lumbia, Massachusetts Institute of Technology, 1975) D' un Discours qui ne serai P
Scilicet, n2 6-7, 197593 Versão anônima, 1981 78 'É .
;\ p voir <cnts 1I ~
Considérations psychosomatiques sur L'hypertension artérielle (1953) D' un syllabaire apreS cou , . t
, éli 'naire à tout tratt men P
Évolution Psychiatrique; 1953-3 17 D' une questzon pre zmz
De ia psychanalyse dans ses rapports avec ia réalité (1967) TA psychartO.ly e, n= 4, 1
Scilicet, n21, 196870 É rus, uil, 1 7
u uJ t 1'1 que -ti ti, V I • rlt

9
Du Trieb de Freud et du désir du psychanalyste (1964) Écrits, Seuil, 1966 (avec quelques corrections, sans le Di ur: I I, I •
Archivio di Filosofia, Padova Cedam, 1964 ponse) 24
Écrits, Seuil, 196654 Les Formations de l'inconscient, Séminaire V (1957-1958)
Écrits (1966) Relat6rio feito por 1.B. Pontalis (aceito por Lacan), Bulletin de [1.\' ,1/(1/
Seuil, 1966 gie t. XI n2 4 et 5; t. XII, n2 2, 3 et 4
Coll. Points, Seuil, 1970, com uma apresentação original do 12 volume Versão anônima em curso 36
74. Uma seleção de textos 63 Hommage fait à Marguerite Duras, du Ravissement de Lol V. t iln 1)(1)
Écrits inspirés: schizographie (com Lévy- Valensi et Migault, 1931) Cahiers RenaudlBarrauit, n2 52, Gallimard, déc. 1965,
Annales Médico-Psychologiques, 1931-1I reeditado em Marguerite Duras, Éd. Albatros, 197561
Em De la Psychose paranoiaque, rééd, Seuil, 1975 1 L'ldentification, Séminaire IX (1961-1962)
Les Écrits techniques de Freud, Séminaire I (1953-1954) Versão anônima, 1981 50
Seuil, 197525 L' lmpromptu de Vincennes (1969)
Encore, Séminaire XX (1972-1973) Magazine Littéraire, n2 121, 1977 73
Seuil, 197584 '.' L' lnstance de ia lettre dans l' inconscient ou ia raison depuis Fr ud I
L' Envers de Ia psychanalyse, Séminaire *,VII (1969-1970) La Psychanalyse, n2 3, 1957
Versão anônima, 1981 73 Écrits, Seuil, 1966 (com modificações) 35
Essai sur les réactions de l' hypertendu (1948) L'Insu que sait de Iune bévue s'oile à mourre, éminair IV
Actes du Congrês Français de Chirurgie, oct. 194817 (1976-1977)
L' Éthique de Ia psychanalyse, Séminaire VII (1959-1960) Ornicar?, n2 12-13, 1977; n2 14, 15 et 16, 1978; 0217-18, 1 7
Versão anônima, 1981 lnterventions au Congrês de Rome de 1974 (Conférence de pr S I I xuu
Publicação de alguns folhetos anotados por Lacan em Omicar?, n228, d'ouverture, "La Troisiême", Discours de clôture)
1984 I Lettres de l'ÉcoieFreudienne, 02 16, 197589
Duas lições' públicas na Faculdade Universitária de Saint-Louis de Bruxe- lntervention na exposição de 1. Favez-Boutonier: "Psychanal s
las sobre o mesmo tema (março de 1960) são publicadaspor Quarto, n26, phie" (1955) - Bulletin de Ia Société Française de Philosophl , I
1982 Çsuplemento belga da Lettre mensuelle de l'École de la Cause Freu- lntervention durante a exposição de Lévi-Strauss: "Les rapp I'lS ',W !tI
dienne)43 mythologie et le rituel" (1956)
L'Étoúrdit (197~) Bulletin de ia Société Française de Philosophie, 1956-
Scilicet, n24, 1973 82 lntervention na exposição de M. Foucault: "Qu' est- 7U! LI" 11I11'111'"
L' Éveil du printefJ1{Js-(1974) (1969)
Prefácio a: F. Wedeking, L'Éveil duprintemps, Gallimard, 197488 Bulletin de Ia Société Française de Philosophie, 1969-3
Exposé général de nos travaux scientifiques (1933) Littoral, n2 9, 198371
Publicado em: De la Psychose paranoiaque, Rééd, Seuil, 19755 Interveruion sur ie transfert (1951)
La Famille: le complexe, facteurjconcret de la psychologie familiale. Les , Revue Française de Psychanalyse, 1952-1 et 2
complexes familiaux en pathologie. (1938) ... Écrits, Seuil, 196620
Encyclopédie Française, Larousse, 1938, t. 8-40 (3-16) et 42 (1-8) Introduction au Commentair d J. fi 'PP lit ur ia I 'V srn -lnun " 11
Publicado por 1.A. Miller com o título de Lacan: Les Complexesfamiliaux Freud (1956)
dans la formation de l'individu, Navarin Éd., 198410 La Psychanalys
Fonction et champ de la parole et du langage en psychanaly e (1 53) É rlts, ull, I
La Psychanalyse, n2 1, 1956 (m is urs d R ma a R sp ta à I rur lu ti ti I 'U 'I tu t trc 11 /(1 rr /I I • 1'/1'1' I 11) IH
int rv n s) S uu;«, ll!' I I ')( H fI{,
lntroduction théorique aux fonctions de Ia psychanalyse en criminologie
(com M. Cénac, 1950)
Revue Française de Psychanalyse, 1951-1
Ecrits, Seuil, 1966 (sem a resposta às intervenções) 19
Jeunesse de Gide ou Ia lettre et le désir (1958)
Critique, nÇ?131, avril1958
Écrits, Seuil, 196638
Joyce le symptôme (1975)
L'Âne, nÇ?6, outono 198294
Kant avec Sade (1962)
Critique, nÇ?191, avríl 1963
Écrits, Seuil, 1966
Postface aLa Philosophie dans le boudoir, OEuvres completes du mar-
quis de Sade, Cercle du Livre Précieux, 196651
Lettre adressée à trois psychanalystes italiens, voir: Note italienne Litura-
terre (1971)
Littérature, nÇ?3 "Littérature et psychanalyse", oct. 1971 79
La Logique du fantasme, Séminaire XIV (1966-1967)
Relatório por J. Nassif (aceito por Lacan), Lettres de I'École Freudienne,
nÇ?1,2,3,4, 1967; nÇ?5, 1968
Versão anônima, 1981 65
L'Une bévue, voir L'Lnsu que sait ...
Maurice Merleau-Ponty (1961)
Les Temps Modernes, nÇ?spécial, 184-185, verão 1961 49
La Méprise du sujet supposé savoir (1967)
Scilicet, nÇ?1, 196870
La Métaphore du sujet (1960)
Bulletin de ia Société Française de Philosophie, jan/mar 1961
Écrits, Seuil, 1966 (Apêndice 11) 48
Le Moi dans ia théorie de Freud et dans ia technique de Ia psychanalyse
Séminaire 11 (1954-1955)
Seuil, 1978
Le Momentde conclure, Séminaire XXV (1977-1978)
Ornicar?, nÇ?19, 1979 (só a sessão "Une pratique de bavardage") 99
La Mort est du domaine de la foi, cf. Conférence à Euniversité de Louvain
Présentation da tradução por P. Duquenne das Mémoires d'un névropathe Les Psychoses, Sérninaire m, (1955-1956)
(D.P. Schreber) (1966) Seuil, 1981
Cahiers pour l' analyse, n2 5, 196664 Versão anônima, 1981 30
Préseruation des Écrits 1(1969) Les Quatre Concepts fondamentaux de la psychanal s , .' 1111\' ,
Écrits I, coll. Points-Seuil, 197074 (1964)
Le Problême du style et Ia conception psychiatrique des formes paranoia- Seuil, 1973 55
ques de l' expérience (1933) Radiophonie (1970)
Le Minotaure, n2 1, 1933 Scilicet, n2 2/3, 197077
Retomado em De Ia psychose paranoiaque, Rééd. Seuil, 19753 La Relation d' object et les structures freudiennes, Séminair rv 11 fi I'I /
Problêmes cruciaux pour Ia psychanalyse, Sérninaire XII (1964-1965) Relat6rio par J.B. Pontalis (aceito por Lacan), Bulletin d
Versão anônima, sem data 58 X, n2 7, 10, 12, 14; t. XI, n2 1
Propos directifs pour un congrês sur Ia sexualité féminine (1960) Versão anônima, 1981 33
La Psychanalyse, n27, 1964 Remarque sur le rapport de Daniel Lagache: "Psichanalyse I .'11m -tut
Ecrits, Seuil, 196645 la personnalité" (1958-1960)
Propos sur Ia causalité psychique (1946) La Psychanalyse, n26, 1961
L' Évolution Psychiatrique, 1947-1 Ecrits, Seuil, 196644
Em Le Problême de Ia psychogénêse des névroses et des psychoses (L. Réponse à des étudiarus en philosophie (1966)
Bonnafé, H. Ey, S. Follin, J. Lacan, J. Rouart), Desclée de Brouwer, Cahiers pour l'Analyse, n2 3, 196660
1950 (Rééd, 1977): com o conjunto das discussões e a alocução de encer- Réponse de Lacan à une question posée par M. R itter (1975)
ramento de J. Lacan Lettres de l'École Freudienne, n2 18, 197692
Écrits, Seuil, 1966 (somente o texto) 14 Réponse au Commentaire de J. Hyppolite sur Ia "Verneinung" ti, li', '111
Propos sur l' hystérie (1977) (1956)
Quarto, n2 2, sept. 1981 (suplemento belga de Ia Lettre mensuelle de l' É- La Psychanalyse, n2 1, 1956
cole de Ia Cause Freudienne) 97 Écrits, Seuil, 196626
Proposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste à l'École (1967) R.S.I. (Réel, Symbolique, Imaginaire), Sérninaire XXII (J 74.117
Scilicet, n2 1, 1968 Ornicar? , n2 2,3 et 4, 1975; n2 5, Hiver 1975-197690
Primeira 'versão Analytica, suplemento de Ornicar?, n2 8, 197866 Les Résumés du Séminaire, du Livre XI au Livre XV (d 1 II

La Psychanalyse en ce temps (1969) Livre XIX (1971-1972)


Bulletin de l'Association Freudienne, n2 4/5, oct. 198372 Annuaire de I'École Pratique des Hautes Étud>s d I1 () 11)(.

Psychanalyse et médecine, voir: La place de Ia psychanalyse dans Ia méde- 1968-1969)


cine Résumé des Quatre Concepts fondamentaux d. Ia p h 'JtL l , c: II 1111
La Psychanalyse et son enseignement (1957) página de capa do volume publi ad em 1 7 , cuil
Bulletin de Ia Société Française de Philosophie, 19572 Résumé de " ... Ou pire' : ill ei, n!:! • J 7
Écrits, Seuil, 1966 (sem as discussões) 34 Outro resum s: Orni ar?, 022 , t6 1 84
Psychanalyse et structure de Ia personnalité, voir: Remarques sur le rapport L avoir du Psy hanal SI ('ntr ti ns d fi nt -Ann ), I 71.1( 7

de Daniel Lagache V rs an nima, 1 8181


La Psychanalyse. Raison d'un échec, voir: De Rome 53 à Rome 67 i n ' uI rltt It
La Psychiatrie anglaise et Ia guerre (1947) 1111 'r", I ur I' fi I1 ,\' " 11 I I, It)( I
Évolution Psychiatrique, 1947-1 I~ irtts, \' I I. 11>< • f,1)
Retomado em J. Lacan, Travaux t int TV rui ns, AR 'P TId, 1 771

2 8

Sém. XIX ... Ou pire 1971-1972 80 1982 - A. de Mijolla, "La psychanalyse en France", in Histoire d ll/J.'i·
Sém. XX Encore 1972-1973 84 chanalyse, sous Ia direction de R. Jaccard,t. 11,Hachette.
Sém. XXI Les Non-dupes errent 1973-197485 1982 - S. Turkle, La France freudienne, Grasset (E.V. en 1978).
Sém. XXII R.S.1. 1974-197590
Sém. xxm Le Sinthome 1975-197694 Números de revista
Sém. XXIV L'Insu que sait de l'une bévue s'aile à mourre 1976-1977 95
Sém. XXV Le Moment de conclure 1977-197899 1976 - "La scission de 1953. La Communauté psychanalytique en • mil ",
Sém. XXVI La Topologie et le temps 1978-1979100 t. I, supplément au n2 7 d'Ornicar? (nota preliminar de Lacan. UII\ 11

Sém. XXVII Dissolution 1980 102 tos reunidos e apresentados por J.A. Miller).
1977 - "L'Excorrununication. La Communauté psychanalytique ti ,,', 11I

ce'", t. ll, supplément au n2 8 d'Ornicar? (apresentação e d um vtt ,\


reunidos por J.A. M iller)
1978 - Nouveaux documents sur les deux scissions, in Analytica, upl rn 1\-
11- BIBLIOGRAFIA GERAL SOBRE LACAN to ao n2 12/13 d'Ornicar?, janv.
1979 - "Regards sur Ia psychanalyse en France". Nouvelle Revu dl.\'·
Nossa bibliografia é necessariamente suscinta. Para qualquer infor- chanalyse, Gallimard, n2 20, outono.
mação sobre as publicações de Lacan e sobre Lacan, os grupos e o conjunto 1980 - Dossier: "Les Français et Ia psychanalyse", Le Nouvel Obs rvat ur,
da produção psicanalítica, dirigir-se às três livrarias especializadas em Paris: n2 807, 28 avril-4 mai.
Librairie Andrée Bonnier Lespiaut, 41, rue de Vaugirard, 75006 Paris; Li- 1980 - HLa Psychanalyse au présent", dossiê preparado por R. n i ,I I
brairie Lipsy, 25, rue des Écoles, 75005 Paris; Lib'S , 5, rue Malebranche, Quinzaine Littéraire, n2 326, junho.
75005 Paris. Elas têm um acervo importante, enviam catálogos, livros e re- 1984 - Le Débat, números de maio e de novembro.
vistas.
Artigos

1956 - D. Lagache "La psychanalyse, évolution, tendance t pr I m I·


1 - História do movimento psicanalítico na França tuels", in Cahiers d' actualité et de synthêse de l'Encyclopédi [ran 'at» •
1971 - R. Jaccard "Les tendances actuelles de Ia psychanaJys ", in ,., lI/I
Obras Encyclopédie de la psychologie, Nathan.
1972 - P. Denis, "Psychanalyse hier, repêres et anecdotes", 111 P«
1971 - A. Hesnard, De Freud à Lacan, E.S.F.
1972 - D. Saada, S. Naçht, Payot d' aujourd' hui, n2 6, 22 trimestre.
1975 - I. et R. Barande, Histoire de la psychanalyse en France, Privat, Tou- 1977 - P. Castoriadis-Aulagnier, I.P. Valabrega, N. Zaltzrnan, "
formation du lacanisme", in Topique, n2 1 ,janv.
louse.
1979 - B. tora, "Le ciété psy hanalytiqu s à l'épreuv du t rnp ", ti
1980 - D. Sibony, Le Groupe inconscient, Christian Bourgois.
1981 - J.P. Mordier, Les Débuts de ia psychanalyse en France, Mas iero.
Pouvoirs, n!.. 11.
1981 - P. Denis, Les Écoles psychanalytiques (les sociétés française s affilié- 19 O - Y. Br s, "Psychanalys t Phílosophi n Fran d puls J ( ()", 11
P hanal s à l'Univ rsuõ, ,I .
es à l'IP A), Tchou.
- P. yt 11," n 1 sy I nntysc n , r VlI , III
1981 - CI. Dorgeuille, La seconde mort de Jacques Lacan: Histoire d'une
li os", in I. Ml1l!o ••lne l../ut1rllr(',
crise. oct 80-juin 81, Actualité freudienne.
1982 - E. Roudinesco, La Bataille de Cent Ans, Histoire de ia psychanalyse
8 - M. jflli, "I nt 1 11 V' 11 ", 0/,' nt, 'N f(',1 ti 11
en France, vol. 1, 1885-1939, Ramsay. O se und v lum stá no pr 1 . /1,1 ihana! .I'l' I N'

02
••
Artigos (entre tantos outros ... )

1933 - R. CreveI, "Notes en vue d'une psycho-diaIectique", in ~'II'" I


lisme au Service de Ia Révolution, n2 5.
1964-1965 - L. Althusser, "Freud et Lacan", in La Nouvell rttlnu«,
n2161-162 (déc, 1964-janv. 1965);,
1967 - Y. Bertherat, "Freud avec Lacan", in Esprit, déc,
1970 - M. Tort, "La PsychanaIyse dans Ie matérialisme historique", N //11 I
le Revue de Psychanalyse, n? 1.
1975 .: C. BaIiteau, "La Fin d'une parade misogyne: Ia psychanalys 1I 'li
nienne", in Les Temps Modernes, juil.
1975 - J. Derrida, "Le facteur de Ia vérité", in Poétique n? 21 (sobr L I I 'I-
tre volée).
1977 - L. Irigaray, "Misêré de Ia psychanalyse ", in Critique, n2365, 't,
1977 - "Les Mathêmes de Ia psychanaIyse", Lettres de I'École Freudtcnn "
n2 21, agosto.
1981 '- Quarto, V: Bibliografia sobre a questão da topologia' com urna uulu
de Soury.

3 - Romances e ensaios

1951 - O. Mannoni, La Machine, Rééd, Tchou; 1977.


1973'- F. Weyergans, Le Pitre, Gallimard.
1978 - C. Clérnent, Les Fils de Freud sont fatigués, Grasset.
1979 - François George, L'Effet 'Yau de Poêle de Lacan et d s Ia '1/I1!t'II\,
Hachette-Essais.
1981 - C. Clément, Vies et Légendes de J. Lacan, Grasset, coll. "Fi III ".
( 1983 - Ph. Sollers, Femmes, Gallimard.
1984 - J.P. Aron, Les Modernes, Gallimard.
1985 - F. Perrier, Voyages extraordinaires en Translacanie, Licu omm Hl
coll. "Mémoires",

4 - Sobre algumas questões particulares

• Sobre a formação e as institui õ s

- L' Inconscient, n\!


is m1. r s d "tu I 's FI -u I 1/1/ .\', 1/
-r 'Plqu , n I
1970 - Documentos e debates, Bulletin intérieur de l' AFP, out. 1979 - Monique Schneider, De l'exorcisme à la. psychanalyse . L /c tnlnln
1971 - "Statuts actuels des Sociétés de Psychanalyse en France"', in Psy- expurgé, Éd. Retz.
ehiatrie d' aujourd' hui, n2 6. 1980 - Ch. Olivier, Les Enfants de Jocaste, Denoél-Gonthier,
1971 - Topique n!?6 1984 - L. lrigaray, Éthique de la. différence sexuelle, Minuit.
1973 - Interprétation, n2 1.
1975 e 1976 - Dois números de Critique sobre "La psychanalyse vue du de- Números de revista
hors", n!?333, fev. 1975, e 346, março 1976.
1981 - "Le lien social", Confrontations n2 2 (principalmente de J. Petitot 1964 - La Psyehanalyse, "Sur Ia sexualité férninine", n2 7.
1983 - Études Freudiennes, "Figurations du féminin", n!?21122, Ev 1, m I •
"Psychanalyse et logique: plaidoyer pour l'impossible"). Sem esquecer os
vários números das Lettres de l' Éeole Freudienne (pelo menos os n2 7,
marçol70; 8, janeiro/1971; 25, abril e junho/1979) e as revistas das Asso- Artigos:
ciações de que falamos em nosso capo I: Psyehanalystes e Tribune I. 1961 - C. Stein, "La castration cornrne négation de Ia féminité", R 'VII

Française de psyehanalyse, XXV, 2.


• Sobre o passe 1975 - C. Baliteau, "La fin d'une parade rnisogyne: Ia psychanalys íu 'u-
1967 - Jeanne Favret-Saada, "Excusez-moi, je ne faisais que passer", Les nienne", Temps Modernes, julho.
1977 - Articles de Marie-Christine Hamon et de Christiane Rabant duns r-
Temps Modernes, juin.
1968 - Seilieet, 1. La Proposition du 9 oetobre 1967. niear?, n2 11.
1977 - I. Diamantis, "Recherches sur Ia féminité", in Analytica, n!.! ,
1970 - Scilieet, 2/3
1970 - Lettres de l' École Freudienne, n2 7, mars. 1978 - M. Marini, "Scandaleusement autre ... ", in Critique, n2 7 / 7 ,JlI-
1971 - Ibid., n2 8, janv. nho-julho.
1975- Ibid., n2 15, juin.
1977 - Orniear? n2 12-13, déc. • Sobre a psicanãlise e a literatura
1978 - Lettres de l' Éeole Freudienne, n2 23, avril.
1978 - Orniear?, n!? 14. Indicamos aqui apenas obras que contêm importantes bibliografias.
1982 _. Quarto, n2 VII.
1973 - A. Clancier, Psyehanalyse et critique littéraire, Privar, ulou ,
• Sobre a mulher e a feminilidade 1977 - J. Le Galliot (com outros colaboradores). Psychanal s II lrtn I, ,\

littéraires, Nathan.
Obras: 1978 - J. Bellemin-Noêl, Littérature et psyehanalyse, P.U. -,;
sais-je?" .
1980 - Y. Gohin, "Progrês et problêmes de Ia psychanalyse litt rui ",
1964 - Reeherehes psyehanalytiques nouvelles sur Ia sexualité féminine, sob especial de La Pensée, n2215.
a direção de J. Chasseguet-Smirgel, Payot. 1982 - B. Beugnot et J.M. Moureaux, Manuel bibliographlqu ti s tu I .\'
1975 - J. Mitchell, Psychanalyse et féminisme, Éd. des Fernrnes. littéraires, Nathan, p. 311-342.
1976 - ·M. Safouan, La Sexualité féminine dans Ia doetrine freudienne, 1982 - P. Tytell, La Plume sur le divan. Psyehanalyse et litt ratur
Seuil. France, Aubier.
1976 - E. Lemoine-Luccioni, Partage des femmes, Seuil.
1977 - L. lrigaray, Ce Sexe qui n' en est pas un, Minuit.
1977 - M. Montrelay, L'Ombre et le nom, sur la féminité, Minuit.

06
111 - OUTRAS OBRAS F. Flahault, La Parole intermédiaire, Seuil, 1978.
J.J. Goux, Freud. Marx. Économie et symbolique, Seuil, 1973.
Alguns livros ou artigos são citados nas notas e não são retomados P. Legendre, Jouir du pouvoir, Minuit, 1976.
aqui. H. Lefebvre, L'Idéologie structuraliste, Points-Seuil, 1971.
M. Plon, La Théorie des jeux: Une politique imaginaire, Maspero, 197
I. Histâria e memôrias O. Reboul, Langage et idéologie, P.U.F., 1980.
E. Roudinesco, Pour une politique de Ia psychanalyse, Maspero, 1977.
F. Dupré, La Solution du passage à l'acte: le double crime des soeurs
Papin, Éd. Eres, Toulouse.
D. Hollier, Le College de sociologie, Gallimard, coll. "Idées", 1979.
J. Piel, La Rencontre et Ia dijférence, Fayard, 1982.

2. Lingüística

C. Kerbrat-Orrecchioni, La Connotation; P.U.L., 1977, L'Ênonciation,


de Ia subjectivité dans le langage, Colin, 1980.
A.M. Houdebine, "Sur les traces de l'imaginaire linguistique", in Parlers
masculins, Parlers féminins?, editado por V. Aebischer et C. Forel,
Delachaux et Niestlé, 1983.

3. Psicanálise

J. Kristeva, Pouvoirs de l' horreur. Essai sur l' abjection, Seuil, 1980.
O. Mannoni, Un commencement qui n' en finit pas. Transfert, interpréta-
tion, théorie, Seuil, 1980.
F. Roustang, Un destin sifuneste, Minuit, 1976.
Michel Schneider, Blessures de mémoire, Gallimard, 1980.
Monique Schneider, Pêre, ne vois-tu pas que je brúle?Le pêre, le maitre,
le spectre dans l'Interprétation eles rêves, Denoêl, "l'espace analyti-
que", 1985.
S. Viderman, La construction de l' espace analytique, Denoél, 1970.
D.H. Winnicott, Jeu et réalité, L'espace potentiel (com um prefácio de
Pontalis), Gallimard, 1975 (Angleterre 1971).

4. Filosofia e reflexão crúica

Hannah Arendt, Le Systême totalitaire, Seuil 1972 (E.U. 1951, 1958,


1966).
R. Castel, L'Ordre psychiatrique, Minuit, 1977.
La Gestion des risques. De l' anti-psychiatrie à l' aprês-psychanalyse,
Minuit, 1981.

OR
11. Casos relidos por Lacan

O crime das irmãs Papin;


"Motifs du crime paranoiaque"
"Introduction théorique aux fonctions de Ia psychanalyse en crirninolo-
gíe"

FREUD

Anexos o caso Dora


"Intervention sur le transfert"
"Fonction et Champ ...'
Sém. XVII L' Envers de ia psychanalyse
o caso do Homem dos lobos:
"Fonction et Champ ... "
Sém. I Les Écrits techniques ...
"Réponse au commentaire de J. Hyppolite"
"Remarque sur le rapport de D. Lagache"
Sém. X L' Angoisse
o caso do Homem dos ratos:
ANEXO I "Le mythe individuel du névrosé"
"Fonction et Champ .. ."
"La direction de Ia cure"
Destacamos aqui apenas as referências principais: reportar-se aos índi-
o caso do pequeno Hans:
ces dos Écrits. Indicamos somente o início dos títulos: reportar-se à biblio-
"Fonction et Champ ... "
grafia. "L'Instance de Ia lettre .. .'
Sém. IV La Relation d' objet
Sém. XIII L'Objet de ia psychanalyse
o caso Schreber:
Sém. 111 Les Psychoses
"D'une question préliminaire ... "
"Présentation de Ia traduction des Mémoires d'un névropathe"
I. Casos apresentados por Lacan
um caso de homossexualismo feminino:
o caso Marcelle C: Sém. IV La Relation d' objet
"Écrits inspirés" Sém. X L'Angoisse
O caso Aimée:
De ia psychose paranoiaque ... M.BAUNT
"Présentation de Ia traduction des Mémoires d'un névropathe" Sérn. I Les Ecrits techniques
Le Savoir du psychanalyste Sém. X L' Angoisse
dois casos de mulher:
"De l'impulsion au complexe"
apresentação de casos em Sainte-Anne:
Sém. III Les Psychoses

\11
10
fi
M.l(LEIN ~ ANEXO 11

o pequeno Dick:
Os grandes textos literários, filosôficos e psicanalàicos relidos por La ali
Sém. I Les Écrits techniques
Aqui também nos contentaremos em assinalar, por um lado, os t
R.LEFORT mais importantes que não aparecem nos títulos e, por outro, as obras I ,-
caso relatado em seminário: nianas onde eles são longamente comentados. Reportar-se aos fndic s ti
Sém. I Les Écrits techniques Écrits ou à bibliografia de Les Non-dupes Errent para ter uma idéia da qu \11-
tidade das referências.
E. KRIS

o homem dos miolos frescos: I. Textos literários


Sém. I Les Écrits techniques
Sém. X L'Angoisse G. Bataille, Histoire de l' oeil
Sém. XIII L'Objet de Ia psychanalyse (unique référence)
P. Claudel, L'Otage, Le Pain dur et le Pêre humilié
111. Análises de sonhos ou de sintomas Sém. VIII Le Transfert
Goethe, Poésie et vérité
FREUD "Le mythe individuel du névrosé"
V. Hugo, "Booz endormi"
o sonho da injeção feita a Irma:
Sém. 11Le moi dans Ia théorie de Freud Sém. 111Les Psychoses
o sonho da bela açougueira: "L'lnstance de Ia lettre"
"La direction de Ia cure" J.Joyce
Sém. XVII L' Envers de Ia psychanalyse Sém. XXIII Le Sinthome
o sonho: Pai, não vês que estou queimando? Moliêre, Le M isanthrope
Sém. XI Les Quatre Concepts fondamentaux "Propos sur Ia causalité psychique"
Sém. XVIII Dí un Discours qui ne serait pas du semblant Pascal, "Le Pari"
l' oubli du mot "Signorelli'": Sém. XII Problêmes cruciaux
Introduction au commentaire de J. Hyppolite" Sém. XIII L' Objet de Ia psychanalyse
le mot "famiglionnaire'": Sém. XVI D' un Autre à l' autre
Sém. V Les F ormations de l' inconscient Plaute (et Moliêre), Sosie
"Wo Es war, soll Ich werden" Sém. 11Le Moi dans Ia théorie de Freud
"La chose freudienne" Shakespeare, Hamlet
"Subversion du sujet" Sém. VI Le Désir et son interprétation
Sém. XVI D' un Autre à I'autre

11. Textos filosóficos

Para Hegel e Heidegger, reportar-se aos índices dos Écrits

Arist6teles:
"La Science et Ia V6rité"
Sém. XIV La H/7U du fantasme

312
------------------------~====--------~

Sém. XVII L' Envers de Ia psychanalyse Sobre textos de outros psicanalistas:


Sém. XIX ... Ou pire
Sém, XXI Les Non-dupes errent Contra a "ego-psychology":
Descartes: "Cogito ergo sum" Dês Fonction et Champ ...
"L'lnstance de Ia lettre" Situation de Ia psychanalyse
Sém, XIV La Logique du fantasme "Variantes de Ia cure type"
Sém, XVII L' Envers de Ia psychanalyse ... e até sua morte
Sém, XIX ... Ou pire sobre a "afânise" de Jones
"La Troisiême" Sém, III Les Psychoses
Marx Sérn, VI Le Désir et son interprétation
Sém, XIV La Logique du fantasme "La Psichanalyse aujourd' hui" ouvrage collectif sous Ia direction
Sém, XVI D' un Autre à l' autre (sur Ia "plus-value") Nacht:
Platão, Le Banquet Sém. IV La Relation d' objet
Sém, VIII Le Transfert Sobre M. Klein e Winnicott, as observações estão dispersas.
Ménon Alguns artigos ingleses comentados no
Sém, II Le Moi dans Ia théorie de Freud Sém, IV La Relation d' objet
Parménide Contra Karen Homey, Jones, H. Deutsch
Sém, XIX ... Ou pire L'Étourdit

111 Textos psicanalíticos: alguns pontos de referência


IV. Diversos
Freud, Les Écrits techniques
Sém, I Les Écrits techniques de Freud A lingidstica
Au-delà du principe de plaisir Saussure et Jakobson
Sém, II Le Moi dans Ia théorie de Freud Sém, III Les Psychoses
Psychologie collective et anaiyse du moi "L'instance de Ia lettre"
Sém, II Le Moi dans Ia théorie de Freud Jakobson "Radiophonie"
Le Moi et le Ça Sém, XIV La Logique du fantasme
Sém, II Le Moi dans Ia théorie de Freud Conférences aux États-Units
Le mot d' esprit Chomsky
Sém, V Les F ormations de l' inconscient Sém, XXIII Le Sinthome
Inhibition, Symptôme, Angoisse A pintura
Sém, XL' Angoisse Holbein Les Ambassadeurs
Totem et Tabou (sobre o pai da horda primitiva) Sém. XI Les Quatre Concepts
Sém. VII L' Éthique de Ia psychanalyse Velasquez Les M énines
Sém, XVII L' Envers de Ia psychanalyse Sém. XIII L' Objet de Ia psychanalyse
SéI;Il.XVIII D' un Discours qui ne serait pas du semblant
Sém. XXI Les Non-dupes errent
L' Éveil du printemps
sobre a frase: "Wo Es war, soll Ich werden": "La ch e freudienne"
(cf. l'index des Écrits)
Sém. XVI D' un Autre à l' autre

314
ANEXO 111 Générale d'Éditions (10/18), nas edições Privat de Limoges, etc., d l-
vros publicados nas Éditions de Minuit, assinalamos o aparecimento, Jlh

outras, das Éditions Erês em Toulouse, das Éditions Navarin em I II


Lista das principais revistas atuais de psicanálise (ECF); de coleções novas como "L'Analyse au singulier", dirigida p r J.
Sédat na Inter-Éditions, "L'Espace analytique", dirigida por Pr. Guyomar I
L'ANE, periódico da ECF, vendido nas bancas. M. Mannoni na Denoêl, os "Jeux de l'Inconscient", dirigida por C. Balo I
LE BLOC-NOTES DE LA PSYCHANALYSE, editado em Genebra. e M. Oavid-Ménard, nas Éditions Universitaires ... Assistimos a uma
CAHlERS CONFRONTATlON, Aubier, Oir.: R. Major. pansão da psicanálise no campo editorial, relacionada com a multipli idu
LE COQ-HÉRON, publicação do Centre Étienne Marcel em Paris. dos grupos.
01RES, revista do centro freudiano de Montpellier.
LE DISCOURS PSYCHANAL YTlQUE, ligado à Association Freudienne.
L'ÉCRIT OU TEMPS, Minuit, Oir.: M. Moscovici e J.M. Rey.
ÉTUOES FREUDIENNES, Evel, Oir.: C. Stein e L. Covello.
LITIORAL, Eres (Toulouse), Oir.: J. Allouch.
MI-Oit, revista de escritura publicada em Montpellier.
NOOAL, ligada à Association Freudienne, Ed.J. Clins.
NOUVELLE REVUE DE PSYCHANAL YSE, Gallimard, Oir.: J.B. Ponta-
liso
ORNICAR?, antiga revista da EFP, retomada pela ECF, Navarin, Oir.: J.A.
Miller.
PATIO, revista do Cercle Freudien, Evel.
PSYCHANAL YSE A L'UNIVERSITÉ, revista do Laboratório de Psicanáli-
se e de psicopatologia do U.E.R des Sciences Humaines Cliniques da
Université de Paris VII, Erês, (Toulouse). Oir.: J. Laplanche.
PSYCHANAL YSTES, revista do Collêge de Psychanalystes, mas sem obe-
diência.
REVUE FRANÇAISE DE PSYCHANALYSE, P.U.F., revista da S.P.P.
SPlRALES, periódico dirigido por A. Verdiglione, nas bancas.
TOPIQUE, revista do Quatriême Groupe, P.U.F.
TRIBUNE, publicação anunciada como irregular pelos Cartels Constituants
de I'Analyse Freudienne.

Existem inúmeros boletins como o da Association Freudienne (na


França e na Bélgica), a Lettre mensuelle de l' ECF. e Quarto, seu suplemen-
to publicado em Bruxelas; Poiçon, boletim de ligação fora de grupos e pu-
blicado em Estrasburgo, etc .. Sem contar a movimentação artesanal de bole-
tins e de revistas na província e em Paris. É nas livrarias especializadas que
se tem as melhores chances de fazer descobertas.
Para a edição em volume, além das coleções antigas e muito conheci-
das das Editoras Gallimard, Payot, Aubier, Den êl, P.U.F. e euil, na Union

316 \17
~RIE
DISCURSO
PSICANAltncO
TÍTULOS EM PRODUÇÃO
~MTES.
IVEDlCAS DIREÇÃO: ALDUlslO MOR IRA P U li
FU
t1a l' i n i I t1a TÍTULOS EDITA
• Ajuriaguerra,j.: A Reeducação dd Escrita • le Boulch: face ao Esporte
.•. Beveridge Ramsder:n: Crianças com DistúrlJios
ê, de Lingua.- • Lebovici &.. Halpern: Psicopata/agia do Bebê 1"/11
gem • lebovici Mazet: Aucismo e Psicose na Criança.
ê,

• Boscolo. L: Terapia Fa.miliar Sisrêmica - A Escole de Milão • Lebovici, Weil Helpem. Pstcopetotogie do Bebê
ê,

• Busse. Psiquiatria Geriátrica le Camus: As Origens da. Motricída.de


Lerner, H.: Mulheres em Terapia
Lacan a t1'
• Calkins, Lucy: Lições de umil Criélnça
• Chasseguet-Smirgel. O Ideal do Ego • luborsky, L.: Princípios de PSicorera.pia Psícsnetitíce no' '/11/ I /I
• Chasseguet-Smirgel: Ética e Esiética dei Perversão • Luria ê, Tsetkova. Atividade Mental &.. Lesão Cerebra.J
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