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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

Programa de pós-graduação em História

HIPG0041 - Seminário de Cultura e Representações – Estudo monográfico 2:

Leituras clássicas do pensamento negro brasileiro

Prof. Dr. José Rivair Macedo

2018/2

Na ciência da escrevivência:

Conceição Evaristo e a poética da afro-brasilidade na academia

Guilherme da Silva Cardoso

Resumo: Este trabalho busca refletir sobre a produção intelectual negra no meio acadêmico a
partir de trabalhos da escritora mineira Conceição Evaristo, em especial, os postulados
teóricos de sua dissertação de mestrado em Literatura Brasileira (PUC-RJ) e sua tese de
doutorado em Literatura Comparada (UFF). Ciente das particularidades que envolvem a
produção intelectual de mulheres negras, e entendendo a escrita como uma parte
indissociável, busco um entendimento dessas subjetividades e experiências nesse meio, e que
estabelecem outras concepções dos nortes de uma pesquisa. Tendo Conceição Evaristo
proposto uma chave de leitura embasada na teoria que desenvolve, a qual possibilita repensar
a história da literatura brasileira como um todo, busco uma reflexão que, privilegiando a
construção histórica dos atributos que condicionam a escrevivência, pense a circulação dos
saberes produzidos na universidade, em específico as “escritas de si”, considerando em
expansão as possibilidades desse campo.
I. Uma intelectual negra produzindo entre as academias

Na tarde de 30 de agosto de 2018, foi escolhido como ocupante da sétima cadeira da


Academia Brasileira de Letras (ABL) o cineasta Cacá Diegues, agora um “imortal”, com vinte
e dois votos. A nem tão incomum vitória de alguém reconhecido pelo extenso trabalho
audiovisual, sucedendo outro cineasta, dividiu com outro fato os olhares voltados para o
imponente prédio da região central do Rio de Janeiro. Para a cadeira número 7, já ocupada por
Castro Alves e Euclides da Cunha, estavam no páreo outros dez escritores, entre eles, a
mineira Conceição Evaristo, premiada autora de seis livros, vencedora de um prêmio Jabuti
com seu livro de contos Olhos d’água (2014), traduzida para diversas línguas e presente nas
leituras de vestibular de grandes universidades. A vitória de Diegues já era aguardada1,
porém, o único voto que recebeu Conceição Evaristo detecta não somente o desprestígio a um
consolidado conjunto literário, mas também evidencia críticas há tempos direcionadas ao
comportamento dos letrados imortais, apontando seu distanciamento, ou mesmo um desdém
às pontes e conexões que a literatura pode construir com seus públicos.

Nascida em 1946, na extinta favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte, a professora e


escritora concluiu a formação em uma escola normal, conciliando com seu trabalho como
empregada doméstica. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, na década de 1970, como lembra a
historiadora Bárbara Machado em sua dissertação (2014, p.13), Conceição Evaristo encontrou
uma intensa mobilização do movimento negro, energizada pelas lutas norte-americanas, e
também pelos processos de descolonização. Iniciando sua graduação em Letras na UFRJ em
1976, somente treze anos depois consegue concluí-la, interrompida devido ao nascimento de
sua filha. Entre essa década e a seguinte, muitas organizações negras existiram, levando a
mais de 340 grupos pelo país, citando Wlamyra Albuquerque (2006, p.292). O expressivo
número dessa mobilização também se traduz num contexto de novas interpretações sobre as
arenas das lutas antirracistas, produzindo outras ferramentas de pensamento, relendo as
inúmeras narrativas do passado – em especial, a literatura.

Quinhentos metros separam as escadarias do Theatro Municipal, local onde fundou-se


o MNU, da Academia dos imortais. A pequena distância contrasta com a grande mobilização
que envolvia o nome de Conceição Evaristo para ocupar a cadeira, inédita em termos de
pleitos da ABL. Uma petição na internet colheu mais de 25 mil assinaturas, órgãos
institucionais declararam simpatia à sua vitória, e uma hashtag, esse novo termômetro de

1
Ver:ABL frustra expectativas de campanha por Conceição Evaristo e elege Cacá Diegues como novo imortal:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/30/cultura/1535658767_015684.html Acesso em 05 fev. 2019.
interesses e movimentações, foi criada, e assim #ConceiçãoEvaristoNaABL tomou espaço.
Com o resultado, a entidade criada por Machado de Assis em 1897 refletiu um distanciamento
não somente de um arcabouço teórico-literário, mas sobretudo, de leitores e leitoras ansiosos
pelo reconhecimento formal de sua literatura, de suas experiências. Se escolhida como
“imortal” da ABL, Conceição seria a primeira mulher negra da instituição, cujo discurso de
fundação2 evocava o desejo de “conservar, por meio da federação política, a unidade
literária”. Possuindo a entidade tais “feições de estabilidade e progresso”, conceito esse tão
caro à história e ao sujeito que se desenvolveu na modernidade, podemos pensar que a ficção
desenvolvida pela escritora mineira talvez de fato não corresponda aos inabaláveis ideais de
tanto republicanismo: deslocando o eixo desses valores, em narrativas sobre experiências que
seguiram caminhos diferentes daquilo que embasou esse conceito, bem como, com outras
relações e vivências com a memória e a religiosidade, sua obra literária é um profundo
mergulho nas existências “do outro lado do progresso”.

Por que, então, tamanho significado na eleição da criadora de Ponciá Vicêncio? Para
além de questionar o quê, de fato, a academia faz3, são notórias as escolhas, no mínimo
inusitadas, que colocam Darcy Ribeiro e Lygia Fagundes Telles em um status ao lado de
“escritores” como Ivo Pitanguy, Roberto Marinho e o sempre lembrado José Sarney.
Garantindo honrarias a intelectuais que serviram de base teórico-jurídicas em episódios
dramáticos da história brasileira - como o movimento integralista, a ditadura civil-militar e o
farsesco processo jurídico do impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016 - trata-se
da Academia que acolheu discursos racistas como do médico Afrânio Peixoto, sucessor de
Euclides da Cunha, em seu ímpeto de jogar fora a “borra negra” em prol do surgimento, em
questão de “duzentos anos”, de um país branco e civilizado, na mesma linha de tantos outros
colegas, como apontou Clóvis Moura (1994, p.185).

Ora, como bem respondido por Conceição ao jornalista Juremir Machado (2018), de
acordo com o estatuto da ABL, todo cidadão e cidadã brasileira que tiver um livro publicado
pode concorrer – e apesar de aparência tão democrática, permitiu o ingresso de escritoras
somente em 1977, contando com oito mulheres entre seus 295 imortais. Além do
historicamente embranquecido Machado de Assis, o único escritor negro até a eleição do
poeta e professor Domício Proença Filho, em 2006. Porém, frente à fechada conclusão de que

2
Cf. Discurso de Machado de Assis: http://www.academia.org.br/academia/discurso-de-machado-de-assis
Acesso em 05 fev. 2019.
3
A pergunta tal e qual foi disparada pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu à escritora Rachel de Queiroz em
julho de 1991 no programa “Roda Viva”, da TV Cultura. A sarcástica porém oportuna pergunta foi o ponto alto
de uma discussão entre ambos, pois Rachel defendia a ditadura civil-militar.
a ABL, logo, seria racista, ela apressa-se: “Os negros, não só na Academia, não estão
presentes nos espaços representativos desta nação” (idem). Para além da assimilação
eurocentrada na Academia Francesa de Letras, os jovens escritores, interlocutores da corrente
europeia e incentivados desde Pedro II em seu “afã civilizatório”, acabaram provocando uma
distância de grande parte da população, não introduzindo-se no pensamento de seu povo,
conforme o extenso estudo de Costa Lima (2007). O romance no Brasil, encabeçado por essa
intelectualidade, em sua constituição apagou seu gérmen de fabulação, do imaginário, de uma
subjetividade passível de um questionamento ou mesmo de reflexão (idem, p.122). Um
caminho semelhante fez também a História enquanto disciplina.

Mas não somente a literatura de Conceição Evaristo foi esnobada: a escritora carrega
uma sólida produção acadêmica, construída em meio a sua obra literária, propondo outros
modos de ver a literatura desenvolvida por escritores/as negros/as, através de experiências em
comum que atravessam não somente os continentes e oceanos, mas também o tempo como em
geral é concebido. Defendendo em 1996 sua dissertação de mestrado em Literatura Brasileira
na PUC-RJ, e sua tese de doutorado em Literatura Comparada na UFF em 2011, sua produção
teórica é amplamente referenciada em eventos, universidades, programas de pós-graduação,
entidades oficiais de governo, entre outros espaços. Porém, como diz na entrevista à filósofa
Djamila Ribeiro, sua requisitada agenda é também envolta pelo isolamento que condiciona
produções que deslocam o eixo da narrativa, e consequentemente, da produção de
conhecimento (EVARISTO, 2017). Se uma escritora negra oficializando sua candidatura a
“imortal” causa desconfortos justamente pela atenção que mobiliza, a acadêmica propositora
de chaves de leitura que repensam a subjetividade, a literatura e a história, tem uma recepção
na universidade também questionada, perturbando os emblemas intelectuais de
departamentos. Minha intenção, a partir de sua produção acadêmica, é refletir sobre a
circulação do conhecimento produzido na universidade, em especial no campo das “literaturas
de si”, uma área profundamente influenciada também pelo mercado editorial. Sabemos que
uma obra literária pode ser “esquecida” pela “frágil memória” do mercado, mas poderia uma
teoria também ser “esquecida” pelos corredores universitários?

Sua produção difere por lançar mão de um conjunto epistemológico em diálogo com
sua prosa e poesia – uma literatura negra consoante a um saber que, mesmo feito sob os
moldes da ciência que se questiona, busca refletir o sujeito que se auto-representa na pesquisa,
condensando atributos tão caros, como a oralidade, a memória e o corpo, em um texto. Um
texto, contudo, que não foi construído “adaptando” bibliografias andro-eurocêntricas,
tampouco reproduzindo um presente simplesmente resultado da sucessão de feitos passados.
Ao contrário, lhes responde. Essa escrita tende à produção de uma dicção poética que parte de
instrumentos de análise específicos, muitas vezes emergindo do próprio texto em estudo, pela
sua capacidade de agência, segundo Souza (2018, p.34).

Tais movimentos não ocorrem sem entraves: a entrada dos “diferentes” e “ex-objetos”
como pesquisadores traz um campo de tensão epistemológica, e também política, seguindo
Nilma Gomes (2009, p.434), pois refletir sobre as vivências de mulheres negras, das mais
diferentes regiões brasileiras, também desloca as próprias certezas de um movimento como o
feminismo. Na linha da historiadora Idalina Freitas (2017), nessa escrita insurgente e
descolonizada de mulheres negras, percebem-se outros saberes, com grandes mudanças que se
dão pelo conflito, negociação, mas que, por fim, concebem algo novo. Como no meio
acadêmico, é somente no tempo que chamamos de pós-modernidade, seguindo muitas lutas e
conquistas, que são possibilitadas as condições de fato para uma busca efetiva desses sujeitos
na procura de uma estética própria, para além das representações do modernismo (PAULA,
2014, p.97). Essa busca, assim, produz novas ideias daquilo que significa um “cânone”, outras
maneiras de como contar-se a partir do próprio passado e, consequentemente, outras leituras e
recepções dessas escritas. Se narrar o próprio passado numa escrita de si é um movimento de
subjetivação, valorizando-se segundo parâmetros próprios, como lembra Rago (2018, p.213),
também a escrita acadêmica não está tão distante. Apesar da comum exigência da
neutralidade, objetividade e cientificidade como postulantes, como se fossem noções a-
históricas, a escrita é condicionada a partir do que possibilita sua produção, bem como a
subjetividade daquele/a que escreve. É possível abandonar as linhas da subjetividade nessa
empreitada, quando o “objeto/sujeito” de uma pesquisa está no próprio pesquisador, em seu
passado? Se possível for, é desejável?

Quando refletimos sobre tais temas, devemos lembrar do quê consiste essa produções
textuais. Em geral, requisito para obtenção de um título de mestre ou doutor, um trabalho
original, entre 100 e 400 páginas a ser julgado para obtenção do título capaz de progredir a
disciplina a que se dedica, e significando, por fim, construindo um objeto que também sendo
útil para os outros, resumindo o referenciado entendimento de Umberto Eco (2007, p.32,
p127). A objetividade é parte da pesquisa, pois o que há de ser defendido não baseia-se em
uma “opinião”, mas em uma hipótese, fundamentada e passível de verificação. Porém, a
escrita, enquanto também parte indissociável do percurso, sofre a interferência incontornável
da subjetividade – o que aparenta o dilema de oposição a uma objetividade clássica, fixa nos
moldes da racionalidade cartesiana, “exterior ao processo”. Para Freitas (op.cit., p.737), torna-
se justo e mesmo ético a intersubjetividade se expor, ficando assim o desafio ao pesquisador
de entremeá-la com o caráter formal e objetivista exigido pela academia. Dessa forma, Luiza
Bairros (1995, p.462) estabelece que o pessoal constitui um início para a conexão entre
politização e transformação da consciência, e assim a mulher negra terá sua experiência
diferenciada do discurso clássico, considerando os efeitos das opressões em suas identidades,
como escreve também Sueli Carneiro (2003, p.50). A cientificidade ganha força com o que
advém do subjetivo, um elemento também posto ao trabalho intelectual, ao rigor, à discussão
e à reflexão. Assim, a pluralidade da ciência, segundo as palavras de Gomes (op.cit., p.408) é
marcada pelas contribuições de diversas perspectivas feministas, pós-coloniais e
multiculturais, podendo ser entendida como epistemologias, que buscam uma terceira via
entre o científico, e outros sistemas de saberes que funcionam alternativos à ciência,
questionando sua neutralidade, e por consequência, a experiência que torna o científico como
único parâmetro. Dessa forma, pensando as conquistas do movimento negro, escreve:
A inserção de negros e negras no campo da pesquisa científica e da produção do
conhecimento não mais como objetos de estudo, mas como sujeitos que possuem e
produzem conhecimento faz parte da história das lutas sociais em prol do direito à
educação e ao conhecimento assim como da luta pela superação do racismo. (idem)

Seguindo a pedagoga, a partir dos anos 90 se assume a especificidade do campo,


momento-chave de uma nova geração de negros e negras que concluem a pós-graduação e
inserem-se como pesquisadores, estabelecendo o olhar crítico e analítico como pesquisador
negro, em temáticas raciais ou não. Essa amálgama do cientista com o indivíduo, produzindo
em novos parâmetros, é resposta ao que Clóvis Moura (1978) observou como um
“refinamento metodológico” que torna a intelectualidade brasileira virada para si mesma, em
concorrência, ao invés de colaboração. O sociólogo diz que se trata de uma técnica refinada
que racionaliza as próprias contradições: ideologicamente desarmado para refletir sobre o
sistema, beneficiado financeiramente por fundos e auxílios, o cientista social é “alienado pelo
próprio reflexo das ideias dominantes e passa a aceitar como ciência (...) apenas aquelas
técnicas altamente refinadas que são elaboradas nos círculos universitários (p.12, p.27)”.

É esse modelo baseado na experiência da observação e do empírico, que a geração


intelectual de Conceição Evaristo tenta questionar. Situado entre o ethos político da temática
racial e o ethos acadêmico-científico moderno, está o local onde a/o intelectual negra/o
constrói sua trajetória de produção, indagando a ciência por dentro, problematizando teorias
clássicas que acabam por esvaziar a problemática racial, lhe utilizando como mera categoria
analítica (GOMES, p.415). São esses intelectuais que dão início em 2000 à Associação
Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), organizando publicações e congressos. Também
lhe integram diversos intelectuais que fundaram ao longo dos anos os Núcleos de Estudos
Afro-brasileiros (NEAB), responsáveis por inúmeros grupos de pesquisa, ensino e extensão.
Como bem lembra Gomes, tal movimento não é somente como um outro “tema de pesquisa”,
mas, sim, o conjunto que demanda da universidade a produção de novos conhecimentos, e do
Estado, novas formas de intervenção (idem, p.416).

Esse caráter de coletividade congrega perfis e modelos que se tensionam apenas no


âmbito da necessária discussão de ideias e propostas, sendo um o propulsor da discussão
erguida pelo outro: o conceito de literatura negra/afro-brasileira, como veremos, é um
exemplo. Essa mesma coletividade contrasta com o isolamento das etapas que condicionam a
produção intelectual, dado o sujeito pesquisador e seu local na sociedade. Referindo-se à
mulher negra, Beatriz Nascimento (2006, p.129) escreve que, quanto mais ela se especializa
profissionalmente (no meio intelectual ou não), mais ela é levada a individualizar-se,
especializando também a sua própria rede de sociabilidade, com consequências que
atravessam os sujeitos, como pensa bell hooks (1995, p.465), na auto-imposta marginalidade
resultante da opção de ingressar na vida intelectual. Em contrapartida, esse isolamento
também transforma-se num refúgio onde ocorrem as experimentações que moldam a
identidade subjetiva, sendo assim a mente crítica, usada a serviço da pura sobrevivência. Tal
instinto, como uma urgência, necessidade e esperança, matizam a função da escrita,
transformando esse ato num local de fuga, mas também de solidão. Como pergunta-se
Conceição Evaristo: compromete-se a vida com a escrita ou é o inverso? (2007, p.18).

Tais matizes, aparentemente tão individuais, parecem situações particulares, mas são
componentes dos processos de escrita e produção intelectual da mulher negra. Lembra bel
hooks que, dentro do patriarcado hegemonicamente branco, toda a cultura se move no sentido
de negar à intelectual negra a chance de uma “vida da mente”, tornando esse domínio um
interdito, baseado em uma socialização sexista que reserva a essa parte da sociedade o
trabalho intelectual como secundário a outros locais a que supostamente pertence (idem,
p.468). Logo, todas as etapas dessa trajetória de produção são marcadas pelos movimentos
nebulosos de muitas exclusões, bem como acompanhado de uma grande carga de cobrança –
interior e exterior. Desde a escrita da tese, esse “mergulhar no pensamento e escrita solitários”
(idem, p.471), o sentimento de solidão e isolamento será constante até os momentos de
reconhecimento oficial do trabalho, mesmo em sua circulação. Perguntada por Djamila
Ribeiro sobre como havia sido receber o prêmio Jabuti, Conceição responde que mesmo
sendo um momento muito feliz, era ao mesmo tempo, um “prêmio da solidão”:
Eu desejei muito reconhecer ali os meus pares. E você vê que a literatura ainda é um
espaço de interdição. A literatura como sistema, porque o texto é uma coisa, mas o
sistema literário é formado por editoras, por críticos, pela mídia, pelas bibliotecas,
livrarias, prêmios. Nós podemos contar nos dedos os números de escritores negros
que receberam o prêmio Jabuti. Um crítico literário pode dar visibilidade ao seu
texto ao mesmo tempo que pode acabar com você como fizeram muitas vezes com a
Carolina Maria de Jesus e continua se repetindo. O sistema literário está nas mãos
das pessoas brancas. Por isso a importância das editoras que dão espaço para a
autoria negra. (EVARISTO, 2017)

Produzindo uma literatura negro-feminina contemporânea que funciona como


“catalisadora”, em caminhos paralelos à história oficial, esse campo lança luz às narrativas
não hegemônicas, vozes em sintonia com uma linguagem constituída de novas possibilidades
de existência dessas mulheres, como pensa Freitas (op.cit., p.216). A produção que não atende
aos interesses hegemônicos é marginalizada, nos incitando a problematizar conceitos como
“retorno” e “invisibilidade” em temas e sujeitos que historicamente sempre estiveram
presentes, mas foram subjugados e postos à margem, ilustrando o processo de “escolhas” que
se baseou a modernidade ocidental na sua definição de método científico: assim, sob o recorte
da diferença, busca-se uma nova disposição política para ensinar e pesquisar (idem, p.12).

Os critérios da modernidade, mesmo já mais “flexíveis” também se irradiaram para as


primeiras teorias feministas, no conceito de “experiência”, situando todas as mulheres. Como
estabelece Bairros (op.cit., p.459), mesmo reforçando a relevância do subjetivo, abre-se para a
generalização, contribuindo para que experiências localizadas – ou seja, inclusive as
subjetividades do pesquisador/a – também fossem tomadas como parâmetro para as mulheres
em geral. Contra tal movimento, quando pensamos na obra acadêmica de Conceição Evaristo,
bem como sua obra literária desenvolvida na esteira das vidas de escritoras negras que lhe
precederam, também estamos pensando em redes intelectuais que conectam as áreas na
ressignificação dos parâmetros. Como bem lembram Flávia Rios e Alex Ratts (2006, p.390), o
fator de união entre intelectuais negros como Eduardo Oliveira, Lélia Gonzáles, Beatriz
Nascimento, Abdias do Nascimento, Clóvis Moura, Joel Rufino, e tantos outros, foi a
desconstrução do mito da democracia racial, esse pathos da intelectualidade brasileira4. Em
rede, por meio da denúncia das formas de discriminação e pelo desenvolvimento de uma

4
Cf. SANTOS, Joel Rufino dos. (1985)
identidade coletiva negra, e escrita por um pesquisador negro, a intelectualidade brasileira
produziu um movimento de dissertações e teses questionadoras dos métodos “tradicionais”,
repensando o eixo da história devido à dimensão da experiência da escravidão, a partir da
reelaboração do sofrimento e expropriação, mas também, pelo novo olhar à resistência e suas
inúmeras manifestações. Nesse sentido, além da figura de Zumbi, que ganha status central
nessa reelaboração, também ocorre um novo entendimento das possibilidades da própria
linguagem e do cotidiano5.

A literatura brasileira, hegemonicamente concebida na inspiração europeia, é uma das


principais arenas dessas disputas, e se hoje não tem, logicamente, a ambição da unificação
nacional, certos parâmetros e conceitos, porém, ainda refletem modelos de entendimento
voltados para si. Velhas chaves, para as mesmas portas – e que, despontadas como pioneiras e
exclusivas, recebem toda a atenção, desde seus primeiros rascunhos teóricos, passando pela
composição de grupos de trabalho, até às agências de fomento. De acordo com o escritor Cuti
(2010, p.7) o surgimento desses temas trouxe para a literatura brasileira questões de sua
própria formação, como a incorporação da cultura africana no que diz respeito a temas e
formas, “traços de uma subjetividade coletiva fundamentados no sujeito étnico do discurso,
(e) mudanças de paradigma crítico-literário”. Questionar a literatura e a teoria, por uma
perspectiva de gênero e racial é, portanto, refletir sobre tais arenas, espaços difusores de
conhecimento legítimo, porém nem sempre democrático. Considerando sua gênese, logo, é
também questionar as cátedras das universidades. Pensando novas leituras para outras
experiências, a produção acadêmica de Conceição Evaristo propõe, na verdade, que aquelas
mesmas portas sejam abertas com o maior número de chaves possíveis.

II. Uma teoria “exusíaca”: Escrevendo o corpo, conservando a lembrança

Em uma das entrevistas concedidas à historiadora Bárbara Machado6, Conceição


assim respondeu quando questionada sobre o que a havia levado a cursar o mestrado: “o meu
grande sonho era um dia parar pra uma pesquisa. (...) porque desde a graduação eu já ficava
observando a maneira da representação do negro na literatura brasileira”, já ciente, no
momento de ingresso no mestrado, da literatura produzida por escritores negros, em sua maior
parte advindos do grupo Quilombhoje7, espaço que funciona como um “ritual de passagem”

5
Cf. NASCIMENTO, Beatriz. In: RATTS, op.cit., p.117-125.
6
Textos gentilmente cedidos pela pesquisadora, a qual registro meu sincero agradecimento.
7
Como bem resume Machado (2014, p.53), o Quilombhoje foi criado em 1980, uma das muitas organizações
negras voltadas voltadas para arte e literatura, nas quais inicia-se “a delimitação de um projeto estético e
ideológico para a Literatura Negra”, que “deixa de ser uma estética pura e/ou epidérmica para se tornar, sob a
ótica de seus produtores, uma estética engajada, enunciadora de uma visão social de mundo, de uma fração de
(EVARISTO, 2013, s.p.). Assim, vemos na sua investigação, não somente o caráter original
da concepção de Umberto Eco, mas uma profunda relação com as experiências e urgências
desse sujeito-coletivo: um esforço não somente para se manter na vida intelectual mas pela
própria continuidade histórica, nas palavras de Beatriz Nascimento (op.cit.,p.109). Nesse
sentido, escreve Conceição Evaristo em sua dissertação:
“Tendo sido o corpo, durante séculos, violado em sua integridade física, interditado
o seu espaço individual e social pelo sistema escravocrata do passado e hoje ainda
por políticas segregacionistas existentes em todos (...) os países em que a diáspora
africana se acha presente, coube aos descendentes dos povos africanos espalhados
pelo mundo, inventar formas de resistências. Vemos, pois, a literatura negra buscar
modos de enunciação positivos na descrição desse corpo negro” (1996, p.110).

Alforriando-se através da poética que desenvolve, e dando outras lembranças às


cicatrizes, essa escrita do corpo realiza uma alta rotatividade dos signos negros, que provocam
o exílio na pele, mas também são os signos que escrevem sua plenitude, construindo para essa
pele uma apologia étnica: escrever esse corpo é conservar a lembrança de um ancestral
cultural, ampliando seu mundo, em corpos que se dão, assim, em novos espaços (idem, p.87,
grifo meu). Aproximando-se da escritura do corpo feminino, a partir de reflexões da jornalista
e escritora Rosiska Oliveira, o corpo negro do escritor/a se apresenta como marca da própria
cultura quando inscreve-se no seu texto: ao escrever inscre-vi-vendo-se pela memória da pele,
conta-se o corpo-sujeito na “afirmação de uma identidade étnica”, em seu próprio
pertencimento e observando-se como dono de si próprio (idem, p.89). Tal condição que se
desenvolve em um sujeito coletivo é a experiência em comum com outras escrevivências,
como de Carolina Maria de Jesus, o emparedamento psicológico de Cruz e Sousa e o ímpeto
de “reescrever a história” de Lima Barreto.

Nesse sentido, mais do que simplesmente ornar sua dissertação, as dezenas de poemas
são de fato a sua “fonte” à qual se lançam perguntas, mas que não esgotam-se como uma
fonte regular, mas sim, fazem parte da literatura enquanto um “movimento” que não cessa.
Pensa-se também em outro modo de organizar a linguagem, disposta na oralidade como
transmissão de informação pela memória, e também por práticas diferentes daquela que é a
experiência descrita com as ferramentas da linguagem que conhecemos em geral - um esforço

grupo social, ao menos para alguns coletivos de escritores negros” (DA SILVA apud MACHADO, idem). Os
Cadernos Negros, publicação anual editada pelo grupo, onde Conceição publicou pela primeira vez, surgem em
1978 como primeira tentativa de reunião de escritores negros, em torno de uma publicação coletiva,
permanecendo em atividade até a atualidade, com a missão de “incentivar a leitura e dar visibilidade a textos e
autores afrodescendentes” Ver: http://www.quilombhoje.com.br/site/cadernos-negros/. Acesso em 05 fev. 2018.
de narração que se dá na língua que é do outro, estando desterritorializado e apartado. Uma
linguagem envolta pela religiosidade, por Exu, “o mais humano dos orixás”, pois, como
relembra Conceição, a “organização religiosa negra de matriz africana, como o candomblé,
desde a escravidão se torna um espaço de vivência do corpo negro” (idem, p.97),
experimentando uma forma de pertencimento a uma coletividade, religiosa e social, uma
vivência mítica que é, antes de tudo, uma vivência do corpo. Por isso, recebe destaque a
figura de Exu, com suas contradições e ambivalências, guardião do corpo, e que com a dança,
transmite conhecimento de geração a geração, integrando indivíduo e grupo através do
batuque. Esse “desamarrar-se” através de uma auto-reflexão é um movimento de uma “função
exusíaca” da linguagem, como coloca Cuti (2012, s.p.).

Trata-se da escrita de uma subjetividade e linguagem que “escapam” das linhas do


controle do imaginário, como apresentado pelo prof. Luiz Costa Lima em sua ampla pesquisa
(2007). Um controle que compõe o próprio “método científico”, e se as subjetividades até
fossem bem-vindas na ficção, “entre doutores” a relação era outra, sendo desqualificadas, ou
nem mesmo consideradas nos ambientes de pesquisa. Como estabelecer esses atributos numa
pesquisa em busca de sua própria poética da afro-brasilidade? Haveria como ignorar as
experiências-limite que conectam sua trajetória familiar, ou como mulher negra, com a de
Carolina Maria de Jesus, por exemplo? Da mesma maneira, a perturbação que a autora de
Quarto de Despejo causou no mercado literário, não se reflete, um pouco que seja, na omissão
do reconhecimento da obra de Conceição pela ABL? Ciente das “intra-influências” entre seu
texto acadêmico e literário, a escritora firma que é evidente que não são a mesma coisa: A
tese “é um texto mais objetivo que o texto literário, mas é cheio de subjetividade. (...) se você
faz uma afirmativa, ou você levanta uma hipótese ou faz uma provocação, tem que ser aquilo”
(2013, s.p.). Assim, a intelectual ressalta que todos os seus textos são marcados pela condição
de mulher negra na sociedade brasileira, em consonância com a condição de uma cidadã
negra. A passagem seguinte é ilustrativa:
Inclusive no dia da defesa, uma das coisas que os professores apontaram e eu fiquei
muito feliz (...) é que eles perceberam uma profunda confusão entre o pesquisador e
a matéria pesquisada. E você sabe que a academia não quer isso, né? E eu já começo
dizendo, na minha apresentação do texto, na hora, diante da banca, eu já começo
dizendo que eu me confundo com o objeto pesquisado. E eu sabia que isso era uma
afirmação perigosa, principalmente se você está num momento em que a academia
está avaliando. (idem, grifos meus).
Como “o prêmio da solidão” simbolizado no Jabuti, defender uma tese, uma
dissertação, concluir a graduação, para o/a intelectual negro/a, são vitórias envoltas também
das ausências daqueles/as que não puderam concluir devido a fatores que vão além de uma
mera enumeração. Como a academia dos imortais, a universitária pretende-se um ambiente
democrático de circulação de ideias e inclusivo, o que nem sempre é verificado. Escrever,
colocando-se como alguém que não somente fala pelo grupo, mas é também pertencente,
marcou a escolha estilística de diversos autores (EVARISTO, 2011, p.123). É fundamental,
assim, perceber que escrever a partir dessas subjetividades, “de dentro”, ou mesmo ler essa
produção literária/acadêmica sob essa chave de leitura, resulta em um novo olhar sobre a
história, vivida e rememorada, desconstruindo a linearidade e fixidez da formação da
identidade, conforme aponta Araújo (apud Machado, 2010, p.33). Uma escrita na qual o ego é
somente o ponto de partida, mas “seu sujeito poético é a consciência coletiva, que constrói o
caminho da libertação”, como aponta Conceição Evaristo em sua tese (2011, p. 126).

Produz-se, portanto, uma poética fraterna, “irmanada” não só pela consciência de um


passado compartilhado, mas principalmente, pela vivência de um presente também
confundível, sendo o próprio tempo, nessa escrita, coletivizado. Como apontam Boubou
Hama e Ki-Zerbo (apud EVARISTO, op.cit., p.108), para o africano o tempo não é a duração
de um destino individual, mas o ritmo respiratório da comunidade, um tempo tradicional
africano, que incorporando a eternidade em ambas as direções, com as gerações passadas
continuando contemporâneas e influentes. Uma eternidade que se colide e ao mesmo tempo,
responde a divida histórica da escravidão. Nesse sentido, Conceição não opera um “resgate”
de um passado ancestral africano idílico, mas sim, no limite, a representação da complexidade
histórica dessa experiência, como oportunamente vê Machado (2014, p.116). Da mesma
forma que o racismo conserva um passado idealizado e um amanhã de garantias, bem disse
Cuti (2012, s.p.), a literatura age no sentido de aprofundar, contribuir e superar os problemas
sociais – e assim, a escrita negra feminina constrói pontes “entre o passado e o presente”,
traduzindo, atualizando e transmutando em produção cultural o saber e a experiência das
mulheres através das gerações (GOMES apud MACHADO, 2010, p.31).

Uma produção impulsionada pelas redes de intelectualidade formadas na mencionado


movimento de acadêmicos/as negros/as nas (pós) graduações, e como lembra Machado,
escritores/as negros/a como Cuti e Conceição Evaristo produziram também reflexões teóricas
sobre a literatura negra brasileira, como os membros da ABL, também “teóricos” por vezes
(2014, p.77). Porém, por mais que a rede e o talento dividido entre acadêmica e a escritora a
coloquem em uma posição de prestígio intelectual, a condição periférica imposta à literatura
negra, não transforma o prestígio em privilégio. Tal dificultoso caminho da produção editorial
foram expostas pela historiadora Bárbara Machado em sua dissertação, mas será que não
podemos também pensar em um processo de “escanteamento” do próprio conhecimento
acadêmico, com as proposições de Conceição Evaristo, considerando tão inclusivo esse
conhecimento? Embora sua produção, hipóteses, possam ser afastadas do centro epistêmico
de produção, uma pesquisadora negra jamais é imperceptível num campus, como bem lembra
Ratts quando rememora Beatriz Nascimento (2006, p.30).

A intelectualidade brasileira, em sua gênese, é sujeito de uma colonização interna,


segundo Amauri Mendes Pereira (2011, p.7-12), erguida de modo a provocar um lapso
epistemológico que naturaliza as formulações sobre a questão racial, submetendo a “classe”
acadêmica aos limites flagrantes do racialismo que dialoga somente com outras produções
intelectuais, fechados em suas lucubrações. Muito dessas condições já se repensou, como
vimos, porém, parafraseando Carolina Maria de Jesus, o negro continuava a não ter “o direito
de pronunciar o clássico” (1961, p.63).

Defendida em 08 de fevereiro de 1996, é esse “clássico” que Conceição Evaristo, em


sua dissertação de mestrado em Literatura Brasileira, vem questionar. Dedicada à sua filha
Ainá, aos amigos, e aos “griots que contam nossa afro-brasilidade”, e orientada por Pina
Arnoldi Coco (PUC-RJ), Literatura Negra: uma poética da nossa afro-brasilidade marcou
um momento crucial na intelectualidade como um todo, desenvolvendo uma possibilidade
interpretativa, em amplo espectro, das leituras de si feitas por um sujeito escritor negro.
Dividida em quatro capítulos, a pesquisa objetiva perceber a especificidade da literatura
negra/afro-brasileira, em seu discurso próprio, um “discurso-outro”. Para a acadêmica, essa
literatura pode ser lida como um espaço onde se constrói, se guarda e se difunde uma
memória negra onde se revela uma poética de nossa afro-brasilidade” (1996, s.p.). A
empreitada de Conceição, de encontrar nos moldes eurocêntricos que formaram o conceito da
literatura, é na verdade, uma busca intencional de uma linguagem o mais próximo possível de
uma expressividade negra, atravessada pela memória, corpo, trajetórias passadas e uma outra
concepção de experiência, resultando em outras ideias de coletivo e de estética (idem, p.4).

Como mencionado, refletir sobre tais questões é também por vezes discordar, dentro
do campo de discussão de ideias e hipóteses. Como bem lembra a escritora, “conceituar uma
produção literária, adjetivando-a através de um vocábulo que traz uma referência étnica e uma
história semântica carregada de sentidos pejorativos é incorrer em alguns riscos” (idem, p.22).
O “risco” era tal em 1996, e em prol do conhecimento, seguem existindo, e assim, a pesquisa
de Conceição Evaristo abriu portas para discutir de quê estamos falando quando nos referimos
à literatura negra e/ou afro-brasileira. Citando Eduardo de Assis Duarte (2010, p.115), ao
olhar em retrospecto a história desses conceitos, a publicação dos Cadernos Negros contribui
em muito para a configuração discursiva de um conceito de literatura negra, porém, vários
intelectuais envolveram-se nesse debate, em uma frutífera discussão.

Relativizando o “critério temático”, para Zilá Bernd, a literatura negra caracteriza-se a


partir de “leis fundamentais”: uma “nova ordem simbólica”, emergindo um “eu enunciador”,
numa reconquista da posição do sujeito de enunciação (apud Duarte, idem, p.117). Não
atendo-se à cor da pele, mas às enunciações do pertencimento, essa visão foi comentada pela
professora e escritora Luiza Lobo (2007): ela parece implicar que qualquer pessoa poderia se
identificar existencialmente com a condição de afrodescendente, “o que de modo algum é
verdadeiro no atual estágio sociocultural em que nos encontramos, pelo menos no Brasil”
(2007, p.328, grifo meu), ou seja, defendendo a não inclusão de autores brancos. Pensando
justamente no peso político de declarar-se negro (em contrapartida ao prefixo afro), Cuti
(2010) pensa a literatura negra, na oposição ao que ele põe como um “afastamento silencioso
do âmbito da literatura brasileira para se fazer de sua vertente negra um mero apêndice da
literatura africana” (p.16). Ele observa esse corpus literário a partir de releituras de autores
como Machado de Assis, Cruz e Sousa e, especialmente, Lima Barreto, analisando essas
subjetividades, como as escreveram, pois assim, pronunciar-se negro é uma escolha (idem,
p.25). É esse “sujeito étnico do discurso” que muda os paradigmas crítico-literários, no
surgimento da personagem/autor/leitor negros, com questões de sua própria formação, como a
incorporação dos elementos culturais do continente africano (idem, p.10). Dessa forma, estou
de acordo com Bárbara Machado, quando assinala que embora “literatura afro-brasileira”
possa ser um conceito mais eficaz para a crítica, por abarcar diferentes posições dos sujeitos
étnicos e trajetórias diferentes dos escritores, “falar em literatura negra (...) é remeter-se à luta
de escritores/as negros/as pela construção de uma identidade negra positivada e combativa,
principalmente a partir dos anos 1970” (op.cit. p.48).

Por outro lado, as reflexões de Lobo definem a literatura afro-brasileira como uma
produção de afrodescententes que se assumem ideologicamente como tal, por um sujeito de
enunciação próprio, distinguindo-se de imediato, da literatura de autores brancos a respeito do
negro, enquanto objeto, tema ou personagem (2007, p. 315, grifo meu). Nesse sentido,
ressalto aquilo que Duarte vai estabelecer como aquilo diferencia a literaturas
(negra/afrobrasileira): em temática, autoria (enquanto uma constante discursiva), ponto de
vista, linguagem, e, eu destaco, o público – seus leitores e leitoras. É esse público, marcado
pelas diferenças culturais e anseio de afirmação da identidade, que compõe o lado “utópico”
da empreitada, especialmente após nomes como Solano Trindade e Oliveira Silveira:
Este impulso à ação e ao gesto político leva à criação de outros espaços (...): os
saraus literários na periferia, os lançamentos festivos, a encenação teatral, as rodas
de poesia e rap, as manifestações políticas alusivas ao 13 de maio ou ao 20 de
novembro, entre outros. No caso, o sujeito que escreve o faz não apenas com vistas a
atingir um determinado segmento da população, mas o faz também a partir de uma
compreensão do papel do escritor (DUARTE, op.cit., p.133)

Esse “horizonte recepcional afrodescendente”, na expressão de Duarte, é envolvido


por uma Literatura Negra Brasileira que não apenas reivindica um lugar no panorama. Sua
realização implica e projeta uma nova subjetividade, como pontua Cuti (2012, s.p.),
ressaltando que esse modo traz também o desafio da primeira pessoa do negro, uma
experiência nova para o leitor/a, que se inicia através da identidade coletiva do escritor/a.
Conforme escreve Conceição Evaristo (op.cit., p.120): quando se volta para o passado,
retomando o tempo pela memória, a literatura negra pode ser lida como uma necessidade de
reconstrução ou construção de um passado para relacioná-lo ao presente.

É no terceiro capítulo de sua pesquisa que ela começará a desenvolver a inscre-vi-


vência, posterior escrevivência, conceito pelo qual recebeu ainda mais atenção, não somente
pela sua poética de existência coletiva no tempo e espaço, além dos limites da própria
corporeidade, mas pela densidade teórica. Um conceito, muitas vezes confundido como
sinônimo de sua produção, o que não deixa de ser correto, porém, não devendo ser visto como
algo de sua literatura, somente. A concebendo como uma prática de escrita, como Machado
(op.cit., p.110), ou no sentido de um conceito-movimento, afirmando uma “escrevivência
evaristiana”, referenciando Melo e Godoy (2016, p.23), outros pesquisadores a enxergam para
além do punho da autora, pensando como um modelo, ou mesmo uma prática, com o qual
podemos ler essas narrativas, e assim atribuir à história outros significados. Por isso, não
entrando nas questões que definem um gênero literário, seguindo esses pesquisadores e o
texto de Conceição Evaristo, faço uso do conceito como uma chave de leitura às escritas de si
que contemplem tais experiências subjetivas-coletivas – o ser negro em uma sociedade
racializada, os efeitos da diáspora aficana e a permanente emanação de fragmentação, os
efeitos do racismo e da exclusão em suas inúmeras manifestações. Um conceito com base na
memória, no corpo, no território: trata-se do sujeito negro/a que se narra, se subjetiva, a partir
de seu ato de falar de seu passado e presente em sua “individualidade-coletiva”, em sua
ancestralidade. É também um modo de se compreender.

A tese em Literatura Comparada que a Drª Maria de Conceição Evaristo de Brito


defende em abril de 2011, mesmo não utilizando diretamente de seu conceito, vai ao encontro
da poética iniciada em seu mestrado. Orientada por Laura Cavalcanti Padilha (UFF), e
também dedicada à Ainá, Poemas malungos – Cânticos irmãos pretende uma análise
comparativa entre os textos dos poetas brasileiros Nei Lopes e Edimilson Pereira, e o
angolano Agostinho Neto, considerando filiações históricas, subjetividades e os diferentes
continentes em relação à diáspora africana, propondo uma reinvenção da poesia, num diálogo
com outros campos para além do literário. Também com quatro capítulos, Conceição
estabelece o poema como um lugar de transgressão para povos que foram colonizados, numa
criação poética com novas autorias e interpretações onde havia apenas o selo do conquistador:
“Uma poética se torna transgressora, também, por eleger, muitas vezes, um padrão estético
destoante daquele apresentado pelos dominadores” (2011, p.8, grifos meus). Objetivando,
assim, analisar os processos criativos, temáticos e ideológicos comuns no discursos angolano
e brasileiro, recontando as narrativas sobre a diáspora, os poemas atravessam o desejo de uma
África-mãe que se confunde com a construção de uma identidade afro-brasileira:
Portanto, temos o sujeito poético que amalgama África e Brasil. O espaço-tempo vai
ser costurado, transversalizado. Eventos históricos (...) são vividos como se
acontecessem simultaneamente ou como se fossem ações do mesmo território.
Espaços distintos e tempos históricos diferentes se fundem como se tudo fosse uma
realidade única, um continuum. A poesia é uma viagem regressiva que o poeta
exercita no tempo, mas também a conjugação do presente, a fala do cotidiano, a
marcação do aqui e do agora, lugar de sonhar, de planejar o futuro. É a sua
ferramenta para soldar o elo da corrente rompida. (idem, p.15)

De acordo com o Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, malungo significa


“companheiro, camarada”, o nome com que os escravos africanos tratavam os companheiros
no negreiro (LOPES apud EVARISTO, idem). Se a irmandade dessas poéticas, assim, pode
ser compreendida principalmente pelas ligações étnicas e históricas entre os africanos e os
afro-brasileiros, como ficar no plano objetivo da linguagem? Trata-se da hipótese de uma
escritora negra, na concepção poética desse trabalho a partir de uma referência estética
própria, bem como sua linguagem. Estética que, em resposta a todo um conjunto histórico de
associações racistas na literatura, tenta desconstruir os estereótipos que ressaltam o sujeito
negro como destituído do dom da linguagem, como estabelece Conceição (2009)8. Na
expressão de Clóvis Moura (1978, p.179), é curioso ver como a complexidade de uma
mundivivência ideológica, imersa na comunicação linguística de interação, bem como seus
códigos e estratégias de defesa, é reduzida a tais estereótipos por mentes tão inventivas. Ao
invés de considerar os vocábulos afro-brasileiros um enriquecimento vernacular, como lembra
Moura, ganhou-se uma designação: chulo (idem, p.182). A ideologia do branqueamento
compôs uma literatura canônica/clássica abusivamente branca, aplicado a um negro nunca
herói, um engraçado personagem, quando não um “boçal” com o inferior ressaltado para
contrastar com o herói. Se por um lado, lembrando Carolina de Jesus, “o negro não podia
pronunciar o clássico”, por outro, Moura aponta que esse sistema revela o pensamento de que
o negro é incapaz de criar uma cultura dentro dos cânones oficiais da época (idem, p.184), e
bem sabemos o viés racista e misógino com que um dos principais conceitos de cânone se
baseou9. O que se ambiciona é o estabelecimento de uma outra ideia de cânone, outra noção
política e estilística de estética, como já dito, ou, nas palavras de bell hooks (1995, p.13), um
contra-sistema hegemônico que pode legitimar essas obras e pesquisas.

Assim, sendo um “estrangeiro” na língua do outro, terreno por vezes tão sem
identificação, Conceição Evaristo (2011, p.23) vê que o poeta, com sua pena – um duplo da
espada de Ogum – trata do sentimento de exílio ou orfandade, de um sujeito poético em
continuum. A memória diaspórica é um presente a resolver, sendo o/a escritor/a negro/a um
representante, corpo de um tempo dilacerado (idem, p.156) pela história oficial. Como
pontuam Melo e Godoy (op.cit., p.24), a escrita literária de Conceição contribui para um
movimento emancipatório, ligado a um devir-negro, um conceito-movimento que reflete um
tornar-se, cujo foco se dá no próprio processo, e não em um resultado final. Tal concepção
também pode ser estendida como um modo de compreensão de sua teoria; um conceito que
não ambiciona a reescrita da história, mas uma releitura. Ciente das complicações teóricas,

8
Além de mencionar o discurso eugênico da literatura, Conceição relembra trechos e personagens de José de
Alencar e Graciliano Ramos a Rubem Fonseca, hoje “patrimonializados” e justamente por isso, mais difíceis de
atravessar a blindagem de discussão: “Nesse sentido, parece que a literatura, ao compor o negro ora como um
sujeito afásico, possuidor de uma “meia- língua”, ora como detentor de uma linguagem estranha e ainda incapaz
de “apreender” o idioma do branco, ou ainda como alguém anteriormente mudo e que, ao falar, simplesmente
“imita”, “copia” o branco, revela o espaço não-negociável da língua e da linguagem que a cultura dominante
pretende exercer sobre a cultura negra” (EVARISTO, 2009, p.22-23, grifo meu).
9
Cf. o (in)famoso livro do crítico literário Harold Bloom, uma das mais conhecidas definições desse atributo: O
cânone ocidental: os livros e a escola do tempo. Tradução Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995,
552p. Da mesma forma, é um exercício interessante ler as resenhas da obra, publicadas durante o restante
daquela década, que, ao contrário de resenhar, mais advogam o crítico e suas interpretações preconceituosas em
floreios e manobras retóricas, do que se lançar numa argumentação, numa discussão, evidenciando a pobreza
teórica que advém do esvaziamento político dos conceitos. Aqui, em especial estou me referindo ao texto de
Sandra Erickson na revista da pós-graduação em Filosofia da UFRN, “Princípios” (1999).
podemos ver sua literatura através de um pacto de leitura semelhante as “escrita de si”,
considerando as limitações desse termo. Tratam-se das enunciações de um sujeito com outras
experiências, a escrevivência de uma enunciação coletiva. No “mercado” brasileiro, estamos,
por um lado, reconhecendo o valor das contranarrativas, de seu caráter ficcional (e não
fictício) para refletir sobre o passado, bem como a importância de seu uso na sala de aula,
recontando o que aconteceu, junto de um mercado editorial com as boas recepções das
narrativas sobre si; e por outro, como demonstrei, há um movimento exitoso de produção
literária e acadêmica com o impulso das universidades e pesquisas - a época permitiu. Mesmo
sendo um percurso teórico relativamente recente, ao demonstrar de outro modo o sistema
literário, a escrevivência enquanto ferramenta para rever essa literatura não deveria estar
compartilhando algumas atenções, como de praxe nas trocas de conhecimento?

III. Uma teoria esquecida?


A literatura negra e a escrevivência na circulação de saberes

Toda literatura feita por mulheres passou por movimentos de descrédito, uma
desvalorização que não vê os predicados de escritor pertencentes a ninguém que não assinasse
o texto como um homem. No que concerne especificamente às autobiografias, Rago (2013,
p.206), a concebe como um gênero “masculino”, celebrando o teleológico da vida única de
um sujeito exemplar, coerente do início ao final, e auto-valorativa em seus atos, restringindo o
acesso a essa escrita. Assim, ao refletirmos sobre as “narrativas de si” de mulheres negras,
trata-se de um grande vazio, decorrente por um lado desse modelo não corresponder a suas
complexidades e fragmentações - um indivíduo não compatível com a imagem completa em si
mesmo da autobiografia clássica - mas também, evidentemente, pelos movimentos de
exclusão direcionadas à escrita negra feminina como um todo. Em realidade, a participação
desse grupo no desenvolvimento de um conceito como “Literatura Feminina”, supostamente
tão abrangente, mesmo por vezes mencionado, nem sempre é apontado em específico.
Desconhecimento, falta de referenciais adequados, economia de palavras e recursos, o famoso
“recorte”... as respostas podem ser muitas e se estendem ad nauseam. De fato, publicações,
eventos e mesmo a seleção de quem participará de mesa tal, entre outras “rotinas”
acadêmicas, passam por resoluções que sim, nem sempre dependem somente do compromisso
com o pesquisador com as questões sociais, ou com seu tema, condicionadas às agendas,
horários, burocracias, mas também dependem a boa e velha iniciativa pessoal.

Assim, organizado por Ana Maria Colling e Losandro Todeschi, o Dicionário Crítico
de gênero (2015) é uma ampla publicação com centenas de verbetes, sendo uma referência em
estudos de gênero, e em diálogo com um fluxo de publicações que almeja, oportunamente,
depurar a linguagem teórica por vezes abstrata, abrindo outras portas e públicos de leitura.
Mesmo assim, o verbete de “Literatura feminina” (SANTOS;JUNIOR,idem, p.407-411), que
objetiva destacar a experiência brasileira, destaca somente a atuação de Nísia Floresta e Júlia
Lopes de Almeida, além de Virginia Woolf, britânica. Além de Nísia ser conhecida, em geral,
pelos seus escritos políticos, é flagrante a ausência da maranhense Maria Firmina dos Reis, a
primeira romancista do país, uma mulher negra que fez de sua literatura um instrumento
crítico à escravidão. Úrsula (1859) é um romance posicionado, do ponto de vista do
escravizado, antes do poema Navio Negreiro (1869) e Escrava Isaura (1875), esse, com as
problemáticas amplamente conhecidas. Com olhos à categoria de gênero, entendemos que
uma discussão racial talvez não pudesse ser contemplada na ideia geral da obra, porém, é um
momento fundante da literatura brasileira, feito por uma mulher negra. Ao excluir o primeiro
romance brasileiro, feito por quem foi, uma grande peça fica faltando.

Partindo de Luiza Lobo, menciona-se os problemas das definições advindas do


“primeiro mundo” e sua concepção de experiência quando se olha para a América Latina, e
especialmente, o “fascínio” pelas definições externas ao campo pode levar a fugir do texto
literário em si (idem, p.410). No entanto, mesmo considerando essa problemática, traz como
recomendações bibliográficas obras de grandes escritoras e intelectuais, como Virgínia
Woolf, Márcia Hoppe Navarro e Judith Butler (2003) para pensar a literatura feminina por
uma perspectiva de identidade. Intelectuais, porém, qie tratam de uma experiência que parte
do “centro”, diferente do que vimos até agora em Conceição Evaristo.

O fascínio por definições externas é um problema da ciência como um todo, na


verdade, e na literatura, em seus mergulhos teóricos em gêneros e escolas, a sedução é ainda
maior. Vejamos mais um exemplo: frente a um verbete atraente como escrevivência,
instigante, nosso paladar intelectual é aguçado, e o mesmo acontece com a autoficção, desde
sua gênese em 1977. Cunhado pelo crítico francês Serge Doubrovsky, ao mirar um adjetivo
para o romance que criava, a definiu como uma “ficção que eu, como escritor, decidi
apresentar de mim mesmo e por mim mesmo, incorporando, no sentido estrito do termo, a
experiência da análise, não somente no tema, mas também na produção do texto”, ciente de
ser o inventor do conceito, mas não da prática (DOUBROVSKY, 2014, p.120). Criado para
ocupar uma das lacunas deixadas no Pacto autobiográfico (1975), o “manual” de
instrumentalização desse gênero, escrito pelo teórico Phillipe Lejeune, o fato é que,
especialmente a partir da década de 1990, a autoficção e suas teorizações, bem como a “qual
si” essa narrativa abarca, ganhou espaço. Não somente no mercado literário (embora ainda
patine enquanto um “selo”), na academia, em especial, o termo lhe deixou rendida, o que se
traduz em grandes teóricos dessa prática/gênero, advindas das teses da academia10,
aperfeiçoando suas delimitações. Diferente da autobiografia, a autoficção não busca narrar
uma trajetória exemplar, completa, que sirva de lição, ao contrário, seu mote principal é o
questionamento e a autoreflexão permanentes: criticar-se, ficcionalizando a experiência. Não
“mentir”, mas ficcionalizar no sentido de criar possibilidades, transmitir uma experiência pelo
imaginário não pela seu valor literal, mas em sua complexidade, impossível de ser matizada
em palavras, pois o literal, no limite, nem sempre é possível frente a uma experiência-limite.
Mesmo não lançando mão do termo autoficção, as matizações do imaginário aplicadas em
traumáticas experiências em obras menos literais são bem-vindas no sentido de comunicar a
complexidade de um trauma na sua subjetividade pensando nas narrativas do holocausto e das
ditaduras da América Latina.

A autobiografia é possível? Evidentemente, pois trata-se da intenção do autor, da


imagem que busca convencer o leitor. Na autoficção, esse leitor abraça a ficção como parte do
autor que está lendo, não procurando o que é verdade ou mentira, mas no limite, buscando o
sujeito que está ali narrado, e ao mesmo tempo, desconstruindo sua unidade. Não tratam-se de
opostos, por serem modelos diferentes de exposição. Na narrativa autoficcional, a confusão
não é somente intencional, é necessária, nesse gesto que não busca uma imagem refletida, mas
justamente, as partes do espelho que não podem ser vistas em primeira observação. Repito, a
autobiografia é possível, caso o/a autor/autora, assim desejar, mantendo um pacto de
veracidade, e bons exemplos não faltam. A autoficção busca, como coloca Klinger (2012,
p.42), novas noções de verdade e de sujeito, entre o fictum e o factum.

A “rendição acadêmica” se traduz na circulação do mercado autoficcional, que, sendo


um gênero híbrido em suas condicionantes, transita entre o que o mercado literário dá, junto
do que a academia permite. Justamente por possibilitar esse jogo de subjetividades narradas,
seduziu também diversos locais com suas experiências pós-coloniais e ditatoriais, sendo um
terreno frutífero e que se estende na assimilação das experiências militares latino-americanas.
O que fazer com esse passado? Como superá-lo? Tais questões excedem o autobiográfico,
entendido como uma escrita de uma experiência linear. Correspondem a um processo em
andamento, não necessariamente o produto final, num horizonte de expectativas diferente da

10
Vide a produção acadêmica de dois teóricos do gênero, a partir de suas teses de doutorado. Cf. COLONNA,
Vincent. Autofiction & autres mythomanies littéraires, Auch, Tristram, 2004; GASPARINI, Philippe.
Autofiction, une aventure du langage (2008).
sacralização biográfica, e nessa dramatização do autor, ocorre um permanente diálogo com
diversas áreas do conhecimento. De qualquer forma, as autoficções são um sopro de
reanimação da literatura enquanto um sistema, repensando seus limites, formando escritores e
pesquisadores que impulsionam novas maneiras de produzir arte e saber, apontando os limites
e desejos das nossas subjetividades. O prestígio que recebe é percebido na presença em feiras
literárias, na mídia especializada, e em veículos que hoje movimentam e muito o mercado,
como blogs, canais do YouTube e podcasts, despertando o impulso de escrever a partir da
irresistível arte de se inventar. A produção acadêmica sobre o tema, em tantos cursos e
pesquisas além da Letras e da Teoria Literária já é consolidada, justamente por suas
possibilidades. Jovita Noronha (UFJF) e Diana Klinger (UFF) são autoras de obras que tratam
do assunto, colocando o Brasil no mapa dessa produção intelectual.

Evidentemente, não são muitas aproximações entre a autoficção e a escrevivência,


começando de seus lugares de origem, posições distintas sobre o “si” e aquilo que o constitui.
Nascida no seio do pensamento colonial, eurocêntrico e narcísico, mas de inquietude rebelde,
a autoficção dá conta dos jogos de verdade possíveis, um reflexo critico em torno de um
sujeito questionador, o/a escritor/a. Também questionador o sujeito da escrevivência – porém,
com sua experiência se dando de maneira diferente na história. Uma identidade coletiva –
fundada na memória que guarda uma vivência ancestral, cujo corpo pode não ter sido
presente, mas sim, fazendo parte de um corpo com outra noção de materialidade e de
linguagem. Um corpo que não pretende-se unitário, pois tal atributo nunca lhe foi concedido,
em uma escrita estrangeira que comunica sua subjetividade burlando as estratégias da
branquitude, dissimulando sua escrita. É verdade? Se não for, passa-se a ser, num gesto de
releitura. Por isso, torna-se menos possível? A literariedade pode dar conta? Se isso significa
ser “objetivo”, não devemos esquecer que é uma noção que de a-histórica, não tem nada.

A discordância do proposto por Conceição Evaristo em sua teoria é, logicamente,


permitida. Tal questionamento não é só interessante, é necessário. Sua conceituação sobre
esse modo de narrar-se, pode, caso algum pesquisador/a desejar, ser revisado à luz de
bibliografia que se julgue adequada. Porém, a literatura negra/afro-brasileira, como vimos,
não é somente de um debate teórico, mas científico e político. Conceição Evaristo é uma de
muitos intelectuais negros/as produzindo teoria ao responder arcabouços antigos, mas as
respostas desses intelectuais, seus conceitos – a escrevivência, aqui observada – permanecem
renegadas nas inúmeras maneiras de reunião coletiva das ciências humanas, em publicações,
colóquios, mesas, convites, etc., o que levam a menos pesquisas financiadas, menos editais, e
também menos investimentos em departamentos e universidades, com menos circulação. Por
que investir naquilo que não circula? Ou, que não lucra? Se no mercado algumas ainda
editoras dialogam com essa produção, na universidade se recorre a quem? Como tentei
demonstrar, há um exitoso campo de inserção da autoficção na “cena” literária,
impulsionando a pesquisa, um campo que esse ramo desfruta sozinho, em paralelo a uma
chave de leitura brasileira. Nesse sentido, é essencial dar também seguimento às teorias e
epistemologias negras, não somente por isso repensar nosso tema, mas por repensar toda a
literatura e a intelectualidade brasileira. Um escritor ou uma escritora negra pode escrever
autoficção? É claro, se for de sua intenção. A subjetividade se constrói historicamente, e por
isso, o que carregamos dessa historicidade é variável e, com o perdão da redundância, é
subjetivo. Mesmo que ambas práticas/gêneros pensem nesse sujeito do nosso presente em
expansão11, não são a mesma experiência. Mas devemos atentar às metodologias, que irão
refletir, por vezes, os mesmos gestos de colonialidade intelectual de outrora.

Um autor como Lima Barreto, figura tão cara no pensar da escrevivência afro-
brasileira, pode ser lido pela lente autoficcional?12 Bom, talvez. Mas o escritor que mais
insinuava uma voz negra na literatura, mergulhado em uma vivência crítica traz outras
experiências em seu “Diário Intimo”, como aponta Conceição Evaristo em sua dissertação
(1996, p.24). Experiências que a autoficção pode até dar conta, mas dignifica aquele
indivíduo, aquela experiência diferenciada? Questiono, entendendo esse dignificar como parte
metodológica e política de uma pesquisa em ciências humanas. Antes de “pioneiro da
autoficção brasileira”, ou de associações ao flaneur da literatura belle-epoquista, não seria
mais enriquecedor pensá-lo a partir do lugar social de sua escrevivência? Pois, enquanto
Machado de Assis foi o escritor dos salões, mesmo os criticando, Lima Barreto foi o escritor
interditado e que também se interditou, negando-se a esse espaço, e construindo um novo
lugar, um outro espaço social. Devemos lembrar que Lima Barreto na verdade fugia da
literatura contemplativa, bem como da maneira excepcional de escrever, e assim, em seu
Diário Intimo, escreve: “eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto (...) No futuro escreverei a
História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência na nossa Nacionalidade” (idem, p.27-

11
Cf. GUMBRECHT, Hans. Nosso amplo presente: o tempo e a cultura contemporânea. São Paulo:Editora
Unesp, 2015.
12
Penso aqui, especificamente, a análise de Luciana Hidalgo (2007), em sua tese de doutorado (UERJ), Lima
Barreto e a literatura da urgência: a escrita do extremo no domínio da loucura, bem como diversas
comunicações da pesquisadora. Publicada em 2008, a tese foi vencedora do prêmio Jabuti de Teoria Literária no
ano seguinte. Segundo a autora, “no Brasil, um dos pioneiros dessa audácia (a autoficção) foi, sem dúvida, Lima
Barreto”, não sendo muito considerado o fato de ser um escritor negro, e, ainda menos discutido, em uma
sociedade como a brasileira, extremamente racializada, marcando a trajetória do escritor. Cf. HIDALGO, L. A
imposição do eu. Disponível em: http://rascunho.com.br/a-imposicao-do-eu/ Acesso em 08 fev 2019.
28). Os referenciais que são baseados nas epistemologias negras não se tornam mais apurados,
por estarem em consonância com outros fatores? Em nome da própria razão cientifica, tais
outras visões não deveriam ao menos serem cotejadas? Os sujeitos e seus testemunhos são
infinitos, cabendo ao pesquisador o quão deixará seu sujeito falar, e o que irá escutar, devendo
ter em mente do papel da pesquisa na circulação do conhecimento – se o papel da autoficção é
descolonizar a escrita do individual, o meio de sua circulação é livre para o colonial.

A discussão obviamente não se esgota aqui. A marca da transgressão é uma das


condições essenciais da literatura negra, seguindo a lembrança de Cândido (apud EVARISTO,
p.36), e por isso, o debate se desenvolve e se completa, não se excluindo. É evidente, porém, a
falta do espaço compartilhado desses modos diferentes de narração de experiência, bem como
o leitor que elas concebem. Não se trata do leitor na visão de Roland Barthes, esse “alguém
sem história”13, mas pelo contrário, um leitor/leitora que carrega a história em seu corpo, sob
outras matizes, e que não encontra os modelos de referência nas narrativas exemplares,
causando o estranhamento. Mas, lembra Cuti (2012, s.p) que é esse o sentimento que faz a
literatura. É a persistência dessas questões que a tomam como não datadas (EVARISTO,
idem). Uma persistência evidentemente muito frustrante, que pode ser diminuído pelo
reconhecimento oficial, voltando à ABL. Até lá, a academia e seus intelectuais, em seu
impulso teórico, devem cumprir seu papel na circulação e divulgação desses saberes. Porém,
como apontou bell hooks (1995, p.476) a situação não precisa ser sombria: em resposta ao
difundido racismo e anti-intelectualismo, a atividade insurgente da intelectualidade negra
pode se expandir, dando-se mais atenção às forças históricas. No mais, das prosas e poesias
que Conceição retira sua reflexão (1996, p.36) de todas as atualidades dessas escrevivências,
torna-se oportuna uma de Luis Gama, já que ainda se precisa viver o tempo de uma
“reconstrução do orgulho racial” e os “maus políticos, a discriminação racial, a exploração do
trabalho” ainda existem e pedem para ser satirizados. A literatura traduziu esses sentimentos
em comum no tempo de Gama, e também no presente – e verdade seja dita, talvez sua
capacidade de transgressão nunca tenha sido tão necessária.

13
Cf. BARTHES, R. A morte do autor [Texto publicado em: O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes,
2004] Original de 1968.
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