Você está na página 1de 14

CAJAZEIRAS: HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DOS 30 ANOS DO

BAIRRO CONSIDERADO CIDADE

Rafael Conceição Cerqueira


Orientador: Professor Dr. Charles Santana - UNEB

Introdução

Bairros planejados, bem estruturados, que possibilitem o desenvolvimento da


população e a resolução dos problemas habitacionais é tudo que uma cidade
precisa para se desenvolver de forma tranquila. O projeto do Conjunto Habitacional
Cajazeiras visava tudo isso, a construção de um bairro bem planejado um pouco
afastado do centro da cidade foi tido por muitos como a esperança e solução do
problema habitacional. Todavia, infelizmente, Salvador não teve a maioria dos seus
bairros planejados, e quando houve planejamento - o caso de Cajazeiras - acabou
sendo mal executado, o que causou um problema habitacional enorme causando o
surgimento de muitas zonas periféricas. A Cidade de Salvador ao longo dos séculos
construiu-se de forma desordenada em quase todas as regiões sejam elas centrais
ou periféricas. Nesta conjectura da formação dos bairros, algumas exceções como
os bairros dos Barris, Jardim Brasil e Pituba foram criados através de projetistas,
porém grande parte da cidade não teve o mesmo rumo e o crescimento
desordenado fez com que o problema habitacional surgisse, formando novas zonas
periféricas na cidade de Salvador. Ao longo dos anos houveram algumas tentativas
para resolver esta problemática porém, não foram eficazes. Percebendo o
crescimento populacional de Salvador de maneira desenfreada, os governantes
passaram a ir em busca de ações que pudessem solucionar o problema da
expansão. A partir dos anos 70 Salvador passou a receber vários conjuntos
habitacionais padronizados, dentre eles: Cajazeiras, considerado como uma forma
desafogar a problemática habitacional de Salvador. Este artigo visa apresentar o
desenvolvimento do Bairro e a forma como a sua população conduziu a

1
transformação da Região até se tornar um dos maiores aglomerados urbanos da
América Latina.

História da Região

A região onde hoje situa-se o bairro de Cajazeiras, no passado era um antigo


Quilombo de grandes dimensões chamado Buraco do Tatu.1 Este Quilombo possuía
enorme força na Bahia no que se diz respeito a luta do povo negro e tinha
dimensões exorbitantes se estendendo da região onde hoje se encontra o bairro de
Valéria até a região do bairro de Itapuã. Este quilombo se organizava com o intuito
de se defender e preservar sua cultura, colocando diversas armadilhas para que a
entrada de pessoas não desejadas não ocorresse, porém ao mesmo tempo
proferiram ataques a quase todas as pessoas que passavam próximo a região com
destino a salvador, além de protagonizarem muitos assaltos a pequenas
propriedades da região em busca de pólvora, chumbo e alguns outros objetos para
que conseguissem sobreviver. Na década de 60 do século XVIII, foi ordenado pelo
então Governador, Coronel Gonçalo Xavier de Brito, a destruição do Quilombo e a
imposição de uma multa aos quilombolas que visava cobrir as despesas da ação de
destruição. ​Após a destruição do Quilombo, agora já no século XIX, 3 grandes
fazendeiros herdaram as terras daquela região quilombola e passaram a fazer o
cultivo de mandioca, café, cana de açúcar e laranja. Esta região foi dividida em
grandes áreas e a foram mantidas até os anos 70 do século 20. Na gestão do então
governador Antônio Carlos Magalhães, foi iniciado um processo de desapropriação
por meio de decreto estadual das três fazendas da região que tinham o nome de
Jaguaripe de Cima, Fazenda Cajazeiras e Fazenda Boa União. Ao todo foram
desapropriados um total de 18 milhões de m² de área verde. Algumas extensões
foram compradas pelo então governador, como a Chácara Nogueira no bairro de
Águas Claras. Com estas desapropriações percebeu-se que havia muita área verde
oriunda da Mata Atlântica que, até os dias atuais, ainda fazem parte da região. O

1
Dicionário da Escravidão Negra no Brasil - Clóvis Moura, 2004​.
2
objetivo dessas desapropriações era que fosse construído um conjunto habitacional
naquela localidade visando abrigar os servidores públicos estaduais e também
estimular a habitação na região de fronteira com o município de Lauro de Freitas,
distante alguns quilômetros do centro de Salvador, transformando Cajazeiras em
uma espécie de limitador regional.

O Projeto Cajazeiras
 
Inicialmente planejado para possuir uma capacidade de atender quase 150 mil
habitantes, o projeto Habitacional Cajazeiras foi iniciado em 1977 pela
HIDROSERVICE, porém no ano de 1979 foi revisto pela URBIS que percebeu a
possibilidade de ampliação do projeto para atender novas áreas, fazendo surgir o
Plano Urbanístico Integrado Cajazeiras/Fazenda Grande ainda no período de
atuação do Governador Antônio Carlos Magalhães. Porém a ideia só saiu das folhas
de projeto e se concretizou de forma real na década de 80 durante a gestão do
então Governador João Durval. O próprio plano inicial já demonstrava que pela
extensão da área e a forma como estava sendo planejado, o Bairro de Cajazeiras
seria uma cidade de médio porte, mais de 22 mil habitações populares seriam
entregues com a promessa de que mesmo possuindo características de uma cidade
não possuiria os mesmos problemas que afligem estas. Infraestrutura de qualidade
e casas planejada, ruas asfaltadas, saneamento básico, energia para todos e
abastecimento de água eram as promessas que cercavam a construção do novo
Bairro. As habitações do Plano Urbanístico Integrado Cajazeiras/Fazenda Grande
atenderam a população de baixa renda salarial mensal que recebia entre um e cinco
salários mínimos. Grande parte das pessoas que chegou em Cajazeiras em seus
período inicial não possuíam casa própria, tendo que pagar aluguel ou até mesmo
morar de favor, a maioria das pessoas que chegaram eram moradores de antigas
favelas de Salvador.
Durante a criação e desenvolvimento do Projeto, houve a preocupação com a
manutenção da área verde da região visando manter um clima agradável e com
belas paisagens, foi percebido na época a necessidade de criação de creches,

3
escolas, pólos policiais, postos de gasolina e um clube na região. O Plano
Urbanístico Integrado Cajazeiras/Fazenda Grande compôs, num primeiro momento,
os bairros: ​Cajazeiras 4, 5, 6, 7, 8, 10 e 11 além das Fazenda Grande 1, 2, 3.
Cajazeiras foi inaugurada em 1985, porém não atendeu a promessa inicial feita
pelo então Governador João Durval de que haveria 22 mil habitações prontas até o
final de seu mandato e o bairro foi entregue com 18.523 casas e prédios prontos.

A primeira década: 1985 - 1995.

Nos primeiros anos, após a fundação e início de uso do ​Plano Urbanístico


Integrado Cajazeiras/Fazenda Grande​, já se percebia que as promessas feitas antes
da entrega da obra, não haviam sido concretizadas. A garantia de água, linhas de
ônibus, áreas de lazer e a falta de um comércio eram fatores que assolam a nova
população da região recém inaugurada. Muito do que se via nos primeiros anos de
Cajazeiras era a completa falta de infraestrutura e o descaso do poder público com a
região, muitas das casas que tinham sido entregues já apresentavam rachaduras e
problemas de infiltração. Outro problema muito relatado pelas pessoas que viveram
na Cajazeiras da década de 80 era o transporte público de pouca qualidade a
exemplo de Maria Célia, 64 anos, moradora do bairro de Cajazeiras 10. Dona Célia,
como prefere ser chamada, chegou no Bairro no ano de 1988 e ainda ressalta que:

“Naquele tempo era bem difícil sair ou chegar aqui, pra tudo
que era canto tinha que pegar dois buzu ou mais. Trabalhei
muito tempo em uma casa lá no do Corredor da Vitória, era
muito complicado, eu madrugava no ponto e sempre chegava
tarde”2

A região de Cajazeiras carecia de transporte público em seus primeiros anos,


existiam poucas linhas de ônibus para a população da região como lembra Dona
Célia:

2
Depoimento de Maria Célia Silva
4
“Lembro que tinha lapa, e algumas outras que não lembro
direito[...] pra tudo que era canto a gente pegava o lapa”3

Muito dos problemas apresentados nos primeiros anos de Cajazeiras também se


referiam a falta de água. Desde o início do projeto habitacional foi apresentado que
Cajazeiras não sofreria com problemas que comumente eram vistos em outros
bairros da cidade de Salvador como a falta de rede de esgoto ou problemas com o
abastecimento de água, porém este quadro não modificou-se no novo Bairro
soteropolitano. Muitas pessoas relataram que Cajazeiras era um bom lugar de se
viver com uma boa vizinhança, mas a insatisfação real era devido a infraestrutura do
bairro. A falta de água era um problema corriqueiro obrigando os moradores a
encherem inúmeros baldes de água quando a mesma surgia pois sabiam que a
qualquer momento faltaria água mais um vez.

“A água, por exemplo, é um problema sério. Vem um dia e falta


no outro. Dia de domingo não tem. Às vezes nós estamos com
visitas, queremos uma comida diferente e simplesmente não
podemos fazer por causa desse problema”4

Outro problema tido no Bairro em seus anos iniciais era a falta de comércio, ou
melhor, a falta de um comércio forte com grandes redes de mercados o que
obrigava a locomoção da população para outros bairros mais distantes como Pirajá
somente para que fosse possível fazer as compras do mês. Todavia, para pequenas
compras era possível não sair de ​Cajazeiras, o bairro por ser novo e com poucos
moradores,não tinha quase nada só alguns pequenos botecos, e algumas
mercearias que vendiam feijão, pão, açúcar e alguns outros itens. O bairro só
possuía alguns serviços básicos como ruas asfaltadas nas áreas principais, e esgoto
por boa parte da região. Cajazeiras estava quase que totalmente isolado de outras

3
Depoimento de Maria Célia Silva
4
​ iralda Silva Brandão - ​CAJAZEIRAS, UM BAIRRO QUE VIROU CIDADE TRIBUNA DA BAHIA, 20.03.1988, Cidade, p.2
M

5
regiões de salvador, por ser 22 quilômetros distante do centro e não possuir a
devida qualidade nas linhas de ônibus o Bairro ainda enfrentava o problema da
comunicação uma vez que a Região não possuía linhas telefonicas pois a telebahia
não possuía “tecnologia” para atender a região. Mas não só de problemas vivia
cajazeiras, por ser longe do tumulto do centro urbano e ainda pouco povoada a
região se assemelhava a um interior baiano. Possuindo poucas opções de lazer
além do famigerado baba nos terrenos baldios era muito comum ver as famílias
sentadas nas portas de casa até bem tarde da noite em uma roda de conversa
falando dos mais variados assuntos e contando histórias. A boa vizinhança era uma
característica forte da região em seus anos iniciais, todos se conheciam e
conversavam.

“A gente não tinha muito o que fazer aqui por perto, então eu
lembro que a gente ficava sentado conversando na porta de
casa até umas horas da madrugada. Era bom, dávamos muita
risada” 5

No projeto inicial havia sido colocado a construção de um parque-clube na região


de Cajazeiras, visando utilizar a vasta área de mata atlântica que a região possuía
para fazer uma espécie de parque da cidade no novo Conjunto Habitacional para
que a população tivesse uma área de lazer diferenciada e de qualidade, porém tal
medida nunca saiu do papel e pouco se sabe sobre isso nos dias de hoje.
Na questão dos serviços disponíveis tudo era muito defasado, e quase tudo que
era preciso ser feito pela população havia necessidade de locomoção para outros
bairros, o que se tornava uma tarefa bastante custosa devido ao problema de
transporte. No quesito Educação, em Cajazeiras X, a Escola Básica e Profissional
Fundação Bradesco, que foi fundada em 1985 juntamente com a concretização do
Plano Urbanístico, permanece atuante até os dias de hoje como um espelho para a
educação do bairro, se destacando pelo método de aprendizado considerado

5
Depoimento de José Silva.
6
bastante avançado. Em relação a saúde, foram construídos dois postos inicialmente
um em Cajazeiras II e outro em Cajazeira VIII.

A segunda década: 1995 - 2005.

O ​Plano Urbanístico Integrado Cajazeiras/Fazenda Grande só foi efetivamente


finalizado na década de 90, o que fez com que a população da região aumentasse
gradativamente no decorrer dos primeiros anos. Agora já mais povoado e com uma
visibilidade maior de outros soteropolitanos, o Bairro de Cajazeiras, ou melhor, as
várias Cajazeiras passaram a ser vistas com novos olhos para quem buscava um
novo lugar para recomeçar a vida. Por ser sempre lembrada durante aquele período
como uma região urbana com clima de interior, muitas pessoas passaram a buscar
moradia em Cajazeiras visando uma maior tranquilidade na forma de viver, o que fez
ir por água abaixo todo o planejamento - em relação a distribuição das casas -
inicial. Cajazeiras agora já havia se transformado em uma Cidade de médio porte, o
Jornal Correio da Bahia no ano de 1997 já afirmava que a população de Cajazeiras
era de quase 500 mil habitantes. E é claro que com a demanda cada vez maior por
uma casa na região, não demorou muito para que as primeiras invasões
começassem a surgir. O “boom” habitacional que compreendeu a região durante a
década de 90 pode ser explicado devido a localização, por estar em uma região
enorme, no sentido de extensão, havia muito espaçamento entre as Cajazeiras o
que tornou muito propício para a construção de casas irregulares por todo o
complexo urbano.
Mas mesmo com o crescimento populacional absurdo em tão pouco tempo na
região, o que se percebeu foi que o bairro não estava pronto para uma demanda
populacional que chegou de maneira rápida. O desenvolvimento da infraestrutura
local não conseguiu acompanhar este ritmo de chegada dos novos habitantes do
bairro, e as necessidades foram ficando cada vez mais aparentes e agravadas na
região como disse ​Dona Célia:

7
“A meu filho, depois que começou a chegar bastante gente
que eu vi que o Bairro não ia aguentar, a falta de água
piorou,[...] começou a ter assalto também”6

No que se refere a segurança, a região de Cajazeiras ainda enfrentava um


problema muito grande pois não possuía sequer uma Delegacia de Polícia, o que
obrigava que os moradores tivessem que se deslocar até o bairro vizinho de Pau da
Lima para prestar uma queixa e fazer um boletim de ocorrência. Com a demanda
populacional cada vez maior no Bairro, o governador percebeu que não era mais
viável a não existência de uma delegacia que atendesse de forma eficiente as
demandas da região de Cajazeiras, pois a própria delegacia de Pau da Lima não
conseguia mais atender tantas demandas de maneira adequada. E foi durante o
final da década de noventa que surgiu a 13ª Delegacia de Polícia com um quadro
policial de 60 agentes e 4 plantonistas na região de Cajazeiras X. Porém, a
população que já havia alcançado o número de 530 mil habitantes no ano de 2001
ainda sentia-se insegura e era muito comum, segundo relatos dos moradores mais
antigos, as ruas ficarem bastante vazias a partir de 21 horas, principalmente em
regiões onde a iluminação era muito precária.

“Só saiamos de oito e meia, pra frente se fosse de galera... sair


sozinho, ou só com uma ‘nega’ era Barril” 7

Como era de se imaginar, com crescimento populacional desenfreado na região


de Cajazeiras e os inúmeros terrenos vazios sem que houvesse dono, começaram a
surgir vários novos conjuntos habitacionais irregulares, as chamadas invasões. A
luta por uma casa própria, a elevação do preço dos aluguéis e, muitas vezes, a
retirada a força dos seus antigos lares foram fatores determinantes para que as
invasões tomassem conta da região, como discorre SOUZA:

Nessas cidades, no primeiro momento de intensa demanda por novas


habitações, ocorreu, evidentemente, uma elevação abrupta de preços de

6
Depoimento de Maria Célia Silva.
7
Depoimento de Rogério Souza.
8
aluguéis, ao tempo em que se registravam grandes “cirurgias” urbanísticas
nos velhos centros, o que contribuía para expulsar as populações das
habitações proletárias antigas para as periferias imediatas. (SOUZA, 1999,
p. 66)8

A região de Cajazeiras era repleta de Chácaras e Sítios que aos poucos foram
sendo vendidos ou invadidos. Muitos dos donos dessas terras não possuíam
nenhum tipo de documento que provasse que eles realmente fossem os donos,
porém as tinham como tal e viram na demanda crescente por terrenos na região
uma maneiras de ganhar dinheiro e passaram a vender suas terras a “preço de
banana”. Os moradores antigos que cresceram junto com Cajazeiras, como Antônia,
58 anos, costumam dizer que quem soube vender naquele tempo ficou rico e que
também existiram muitos estelionatários.

Apareceu muita gente que eu nunca vi [...] morei a vida toda


por aqui, e via gente dizendo que era dona de lotes que nunca
teve dono só pra vender e ganhar um bom dinheiro.9

Aqui, leitor, faço uma pequena pausa para dizer o quão diferente é trabalhar com
fontes orais. As diferentes visões das ações ocorridas nos fazem refletir sobre o que
realmente aconteceu ou não. Comparar o que o entrevistado diz com as fontes
oficiais - sempre que possível - é uma boa maneira de discernir o que é válido ou
não incluir em um estudo, porém não é o caso. Pouco do que foi dito havia como se
comprovar oficialmente. Como afirmou Verena Alberti:

Pode ser muito interessante comparar o que dizem as entrevistas com


outros documentos de arquivo, pois às vezes há um deslocamento temporal
ou de sentido que permite ao pesquisador verificar como a memória sobre o
passado vai se constituindo no grupo. Um exemplo já clássico desse tipo de
deslocamento é dado por Alessandro Portelli, em sua análise da história da
memória do massacre de Civitella Vai di Chiana, mencionado acima. Portelli

8
​Favelas, invasões e ocupações coletivas nas grandes cidades brasileiras –
(Re)Qualificando a questão para Salvador- BA. SOUZA, Ângela Gordilho.
9
Depoimento de Antonia Sacramento.
9
mostra como o massacre foi interpretado de diferentes maneiras, conforme
a situação política na Itália e na região da Toscana. (ALBERTI, Fontes
Orais, p, 187) 10

A terceira Década: 2005 - 2015.

Cajazeiras já não era mais aquele bairro do final da década de 80 onde o


bucolismo se fazia presente e a vida era quase que pacata como em uma cidade
interiorana, nesta terceira década desde sua fundação, a região de Cajazeiras
tornou-se uma verdadeira Cidade, não mais de médio porte, de grande porte.
Cajazeiras passou a possuir mais hospitais, escolas e outros serviços públicos,
fortaleceu seu comércio, formou suas várias culturas e resgatou o seu passado.
A região fortaleceu-se e ficou conhecida pelo seu comércio forte e pela sua
grande população. O Comércio gira em torno da Rótula da Feirinha que agrupa
várias lojas dos mais variados segmentos como: calçados, roupas, eletrônicos e
materiais de construção. Por possuir uma localização privilegiada ligando todos os
bairros centrais de Cajazeiras, a rótula tornou-se o pulmão capitalista cajazeirense.
Tal força econômica fez surgir o Cajazeiras Card. Visando uma maior circulação de
dinheiro dentro do próprio bairro a criação do cartão veio com a união dos
comerciantes da região que possibilitaram que a população tivesse um cartão com
um limite de até mil reais e que só era aceito dentro do próprio bairro em algumas
lojas.

“É um cartão de crédito com as mesmas funções dos demais,


contudo, possui algumas adaptações para o público alvo: não
exige comprovação de renda prévia, e é voltado para
moradores e, sobretudo, é aceito exclusivamente no comércio
do bairro”11

10
Histórias dentro da História, Fontes Orais - Verena Alberti.

11
Jeremias Almeida, 39 anos, em entrevista ao Jornal G1 no ano de 2011
10
Porém o que deveria ser um sucesso pouco tempo durou. No início foi muito
interessante porém com o passar do tempo o cartão foi sendo deixado de lado.
Talvez o principal motivador para tal tenha sido o fato do mesmo só ser aceito
dentro da região, fato este que ao mesmo tempo que fomentava o comércio local
também restringia os clientes de fazerem compras em outros pontos da cidade
utilizando o cartão. Muitos dos populares de Cajazeiras fizeram o cartão pois não
precisavam sequer de comprovação de renda e era uma forma de conseguirem
comprar as suas coisas, porém ao mesmo tempo que isso era visto como uma
forma de abrir o comércio para todos muitas pessoas fizeram o Cajazeiras Card e
não pagavam as suas contas. O Cajazeiras Card pode ter perdido força mas o
comércio de cajazeiras manteve-se forte e continuou a crescer.
A terceira década cajazeirense consolidou o crescimento populacional em
regiões de invasão por todo o bairro. Foi neste período que estas zonas
conseguiram legitimar-se enquanto novos bairros independentes e adquirirem
direitos de vida digna para sua população, a exemplo dos bairros de Jardim
Mangabeira, conhecido como Cajazeiras IX, e Parque São José. Tais bairros
tiveram sua formação sem nenhum tipo de planejamento e cresceram de maneira
desordenada fazendo com que seu povo sofresse por muitos anos pela falta de
saneamento básico e formas de assistência por parte dos entes públicos.

“Antigamente era barro a entrada [...] todo lugar era barro, com
o decorrer do tempo [...] colocaram asfalto na entrada do bairro
até o final de linha, energia, praças pras criança” 12

A urbanização demorou mas chegou nesses bairros. Entre os anos de 2012 e


2013 após muita luta e mobilização dos moradores do Bairro, Jardim Mangabeira
recebeu asfalto e rede de esgoto além da resolução parcial do problema da
iluminação precária, que fora amenizado com a instalação de novos postes que
também serviram para distribuir a rede elétrica.

12
Depoimento de Thiago Aldama, morador do Bairro de Cajazeiras IX.
11
Do lado Oeste de Cajazeiras se encontra o bairro de Boca da Mata, que como
o próprio nome sugere é cercado de Mata Atlântica e um dos últimos bairros do
Plano Urbanístico Integrado Cajazeiras/Fazenda Grande, possuidor de uma maior
área verde e mais distante do centro de Cajazeiras. Morador do bairro de Boca da
Mata a 12 anos, o jovem Ítalo Sampaio, 21, destaca que ao chegar no bairro
recorda-se do atraso sofrido por ser um dos últimos bairros construídos, pois mesmo
estando nos planos iniciais da obra, não possuía ruas asfaltadas e era pouco
assistido pelos setores públicos.

“Aqui [...] eu vi poucas evoluções, nós tivemos alguns recursos


como as pavimentações. Nós tínhamos antigamente estradas
de barro e pouco auxílio. Hoje nós temos o auxilio do Hospital
Municipal de Salvador e alguns Postos de Saúde” 13
 

13
Depoimento de Ítalo Sampaio.
12
Conclusão

Este artigo buscou demonstrar como se deu a formação e desenvolvimento


da região de Cajazeiras desde a sua fundação, analisando aspectos
socioeconômicos que influenciaram em sua transformação de pequeno bairro
delimitador regional para um Bairro-Cidade de grande porte.

A região de Cajazeiras que já foi Quilombo, terra abandonada, fazenda, área


desapropriada e projeto de bairro, hoje mostra-se como um bairro forte e quase
independente de Salvador. Cajazeiras hoje possui mais de 30 creches e escolas
públicas, mais de 10 dispositivos de saúde entre Postos de Saúde da Família,
Maternidade e Hospitais. Alguns problemas ainda persistem na região, como a
insegurança e pouca mobilidade urbana no que diz respeito ao transporte público.
Porém diferente da década de 80 onde tudo havia de ser feito fora do bairro, hoje
nenhum morador necessita fazer um deslocamento por longas distâncias para que
possa usufruir dos mais diferentes tipos de serviços. Cajazeiras, hoje, conta com 4
grandes Instituições Bancárias, Shopping Center, Serviço de Atendimento ao
Cidadão (SAC), Prefeitura Bairro além de um comércio ainda mais forte e
consolidado.

13
REFERÊNCIAS

PINSKY, Bassanezi Carla. ​Fontes Históricas​. São Paulo: Contexto, 2005.

MOURA, Clóvis. ​Dicionário da Escravidão Negra no Brasil​, 2004.

SOUZA, Ângela Gordilho. ​Favelas, invasões e ocupações coletivas nas grandes


cidades brasileiras – (Re)Qualificando a questão para Salvador- BA​. Disponivel
em: < https://revistas.pucsp.br/index.php/metropole/article/viewFile/9297/6901>
acesso em: 28/05/2018.

LIMA, Naina. DA EXPANSÃO DA CIDADE AO SURGIMENTO DE CAJAZEIRAS,


2013.

FREIRE, Rejane; JUNIOR, Edson; GOMES, Gabriel.​ Cajazeiras:​ O Crescimento


desordenado de um bairro planejado. Salvador: UCSAL, 2002.

TOURINHO, Cleber; ANTONINO, Vivian. Bairro Cajazeiras. Disponivel em:


<http://www.vertentes.ufba.br/bairro-cajazeiras> acesso em: 08/06/2018

BUCOLISMO É O QUE ALEGRA EM CAJAZEIRAS


A TARDE, 02.06.2001, Local, p.4, Nikas Rocha

PROJETO CAJAZEIRAS VAI TER 22 MIL HABITAÇÕES


A TARDE, 06.10.1983, Caderno 1, p.2

‘CIDADE’ DE MÉDIO PORTE


CORREIO DA BAHIA, 06.09.1997, p.14, Roberto Nunes

MORADORES DE CAJAZEIRAS FAZEM CAMINHADA


CORREIO DA BAHIA, 23.05.2006, Aqui Salvador, p.3, Carmen Az

CAJAZEIRAS, UM BAIRRO QUE VIROU CIDADE


TRIBUNA DA BAHIA, 20.03.1988, Cidade, p.2

CAJAZEIRAS, CAPITAL COM JEITO DE INTERIOR


TRIBUNA DA BAHIA, 30.10.2001, Cidade, p.11, Emanuela Souza

COSTA, Lorena. ​Cajazeiras: Uma cidade dentro da cidade​. disponivel em:


<https://leiamais.ba/2010/09/24/cajazeiras--uma-cidade-dentro-da-cidade> acesso em:
28/04/2018

14