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As chammas
.- 4 do amor de Jesus
ou provas do ardente amor que
Jesus nos tem testemunhado na
obra da nossa redempção ~ ~
TRADUZIDO PELO

REV. PADRE SILVA


Profeosor do Collegio de Cucujlles

.4 pprmdG e recommendado pelo Euiseopado Portlle:noz

s.n ·edição popula


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EDITORA
VIUVA DE jOS!l FRUCTUOSO DA ~
72, Rua da Picaria, 74
PORTO

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Sumário
Aviso ao leitor
Introdução
Capítulo I. Jesus Cristo fez-se homem para nos fazer compreender o amor que nos tem, e nos
excitar a amá-lo
Capítulo II. Do amor que Deus nos testemunhou em nos dar o seu único Filho
Capítulo III. Jesus Cristo mereceu-nos o perdão dos nossos pecados pela efusão de todo o seu
sangue
Capítulo IV. A misericórdia e amor de Jesus para conosco fulgem com deslumbrante brilho em
sua encarnação
Capítulo V. Deus Pai enviou à terra seu Filho para nos restituir a vida que pelo pecado
perderíamos
Capítulo VI. Jesus Cristo desceu do céu à terra, não por necessidade ou próprio interesse, mas
por nosso amor
Capítulo VII. Ardentes desejos dos santos do Antigo Testamento pela vinda do Messias
Capítulo VIII. Encarnação do Verbo
Capítulo IX. Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo no presépio de Belém
Capítulo X. Jesus Cristo quis nascer menino para assim mais facilmente se insinuar em nosso
amor e confiança
Capítulo XI. Da vida privada de Jesus Cristo e de sua humilde submissão a Maria e José
Capítulo XII. Quanto nos devem excitar ao amor de Jesus Cristo a bondade e misericórdia que
em sua vida ativa patenteou
Capítulo XIII. A amante de Jesus ou história de Maria Madalena
Capítulo XIV. A parábola do Filho Pródigo
Capítulo XV. Toda a vida do nosso Divino Salvador foi um martírio contínuo
Capítulo XVI. Do ardente desejo que teve Jesus de sofrer por nós
Capítulo XVII. Amor que nos testemunhou Jesus Cristo instituindo a Santa Eucaristia para nutrir
e consolar nossa alma
Capítulo XVIII. Tristezas de Nosso Senhor no Jardim das Oliveiras, seu suor de sangue, sua
resignação à vontade de Deus
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Capítulo XIX. Jesus traído pelo pérfido Judas e preso como um ladrão
Capítulo XX. Jesus recebe uma bofetada de um dos oficiais do Sumo Sacerdote
Capítulo XXI. São Pedro nega três vezes a seu Divino Mestre – Seu arrependimento
Capítulo XXII. Jesus é conduzido diante de Herodes, que o despreza e trata como um insensato
Capítulo XXIII. Sobre a flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo
Capítulo XXIV. Da Coroação de Espinhos
Capítulo XXV. É por amor nosso e por causa do pecado que Jesus foi coberto de chagas
Capítulo XXVI. Jesus, condenado à morte, leva a sua cruz ao Calvário
Capítulo XXVII. Jesus é pregado na cruz
Capítulo XXVIII. Do silêncio de Jesus no meio dos desprezos, das afrontas e dos sofrimentos
Capítulo XXIX. Lamentações que do alto da cruz dirige Jesus a todos os homens
Capítulo XXX. Jesus ora por seus inimigos
Capítulo XXXI. O bom ladrão
Capítulo XXXII. Jesus, antes de morrer, dá-nos Maria por Mãe
Capítulo XXXIII. Jesus é desamparado de Deus seu Pai
Capítulo XXXIV. Da sede de Jesus sobre a Cruz
Capítulo XXXV. Da sexta palavra que Jesus pronunciou na cruz
Capítulo XXXVI. Nosso Senhor recomenda sua alma a seu Pai
Capítulo XXXVII. Jesus expira
Capítulo XXXVIII. O nosso bom Salvador lastima-se da ingratidão dos pecadores e os convida
a virem lançar-se em seus braços
Capítulo XXXIX. Da sua plena vontade é que Jesus Cristo se ofereceu à morte por nosso amor
Capítulo XL. Jesus Cristo por amor nosso fez-se maldição afim de subtrair-nos à eterna
maldição que mereceríamos
Capítulo XLI. Quanto o amor que Jesus Cristo nos tem nos impõem a obrigação de O amarmos
Capítulo XLII. Elevação do coração a Jesus Cristo para o conjurar a nos atrair a si pelos
encantos do seu amor
Capítulo XLIII. Jesus o bom pastor
Capítulo XLIV. Do amor de Deus e dos principais meios de o adquirir
Capítulo XLV. Que doce e amável é o jugo do Senhor! Só levando-o podemos ser felizes
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Capítulo XLVI. O Paraíso
Apêndice. Prática para a Santa Comunhão

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Aviso ao leitor
Meu caro leitor, é dever meu prevenir-te que a primeira ideia da obra que hoje te apresentou foi
inspirada pela leitura de um opusculo de Santo Afonso de Ligório, de cujas piedosas produções
deves ter já noticia.

Como tinha de falar do amor de nosso bom Mestre, pareceu-me bom ir beber nos escritos de quem na
terra mais a amou: compulsei, pois, as obras dos Santos Padres, em particular as de Santo Agostinho
e de S. Bernardo. Porém, mais que tudo, hauri nas Santas Escrituras, fonte de todas a mais pura.

Esta obra. Dividida como está em quarenta e seis capítulos, poderá servir de livro de preparação
para a Santa Pascoa. Cada capítulo virá então a ser uma meditação ou matéria de leitura para todos
os dias da quaresma, e as Resoluções práticas que juntei serão uma regra de proceder durante o
curso do dia.

Espero, meu caro leitor, dir-te-ei com o piedoso e sábio religioso Afonso Rodrigues, da Companhia
de Jesus, espero da misericórdia do Senhor que o meu trabalho não há de ser inútil, e que este grão
de semente da palavra de Deus, lançado numa alma tão bem-disposta como a tua, produzirá não só
trinta e sessenta por um, mas há de chegar ainda ao centuplo.

Não te deixarei sem te pedir socorro das tuas orações de que tenho tão urgente necessidade. Tem a
caridade de me recomendar ao soberano Juiz, para que me faça misericórdia; da minha parte, também
me não esquecerei de ti todas as vezes que oferecer o Santo Sacrifício do altar. Oremos uns pelos
outros, por um princípio de caridade cristã, e cumpriremos assim o preceito de Jesus Cristo, que
disse na véspera de sua paixão: "Meus filhos, o mandamento que vos dou é que vos ameis uns aos
outros, como eu vos amei" (João XIII, 34).

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Introdução
Quando sinceramente alguém se aplica a considerar o imenso amor que nos testemunhou Jesus Cristo
em sua vida e especialmente na sua morte, submetendo-se por nossa salvação a tantos trabalhos,
tantos sofrimentos, tantos tormentos, impossível é não se sentir tocado e como que abrasado do
desejo de amar um Deus que, com um ardor tão vivo, nos amou. As chagas do nosso Redentor tão
grande virtude encerram, que ferem de amor os corações mais duros, inflamam os espíritos mais
enregelados. Confirma esta verdade a experiência de todos os dias; mostra-nos que nunca uma alma
faz progresso no amor de Deus que quando medita sem cessar os mistérios da vida e paixão de Jesus
Cristo. Seria possível com efeito não amar a Jesus, quando para cativar o nosso amor o vemos nascer
no curral, viver por trinta anos na obscuridade e privações, morrer no meio de dores e opróbrios?
Não, não é possível. Todos os Santos compreenderam esta verdade e sempre fizeram todas as suas
delícias da meditação destes mistérios: por este meio é que se elevaram a um alto grau de perfeição
e santidade.

Quereis, diz o devoto Thomaz de Kempis, aprender a amar a Jesus de todo o vosso coração? Quereis
purificar inteiramente a vossa alma das suas manchas, enriquecê-la do toda a sorte de virtudes?
Quereis alcançar gloriosas vitórias dos inimigos da nossa salvação, receber abundantes consolações
em vossas penas e mágoas? Quereis fazer grandes progressos na oração, obter a perseverança final,
morrer santamente e reinar no céu por toda a eternidade? Exercei-vos na meditação continua da vida
e morte do nosso Divino Salvador.
A paixão de Jesus Cristo é o tesouro oculto onde Deus deposita as suas mais preciosas graças; é a
plenitude de todas as virtudes, a perfeição da santidade; quanto mais nela se medita, mais
consolações e doçuras ali se descobrem, é a fonte da compunção, e o foco mais ardente do amor
divino.

Mil vezes feliz aquele que ali sabe beber!

Deus, segundo refere Pedro de Blois, revelou um dia a Santa Gertrudes que todas as vezes que
alguém olhasse com devoção para a imagem de Jesus crucificado, atraía sobre si os olhos da Divina
Misericórdia. Aproveitemo-nos deste aviso e pensemos frequentemente em tudo quanto por nosso
amor o Senhor quis sofrer.

A fim de ajudarmos a isto, segundo nossas posses, as almas que sinceramente desejam fazer
progressos no amor de Jesus, imos, nesta pequena obra, tentar fazer conhecer, conforme nos atestam
as divinas escrituras, a ternura que este tão amantíssimo Salvador por nós teve, a tudo o que fez para
nos obrigar a amá-lo. Tiraremos daqui ocasião de nos excitarmos ao reconhecimento e à dor das
nossas faltas e ingratidões passadas.

Ó Jesus! Diremos então com Santo Agostinho, ó doce Jesus! Dignai-vos gravar em meu pobre
coração todas as vossas chagas, afim que sempre nelas leia a vossa dor e o vosso amor: nossa dor, ó
meu Jesus, me ensinará a sofrer em paz e resignação todas as penas que vos aprouver enviar-me: dir-
me-á incessantemente o vosso amor que vos ame e despreze outro qualquer amor que não o Vosso.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
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É NECESSÁRIO VENCER-NOS A NÓS MESMOS

Não são os que se contentam com dizer: Senhor! Senhor! que entrarão no reino dos céus, mas os que
fizerem a vontade de meu Pai, diz Jesus Cristo.

Não basta repetir a Deus que o amamos, é preciso prová-lo com obras. Não nos iludamos: o amor de
Deus não consiste em protestos da fidelidade ao seu serviço, nas expressões de ternura, etc.; consiste
no cumprimento de Sua Vontade. Ora, se a Sua Vontade é que nos tomemos santos e perfeitos,
devemos trabalhar por isso. Para o que se faz necessário é que sejamos fiéis em cumprir todos os
Seus mandamentos e todos os da Sua Igreja. Digo todos porque São Tiago nos ensina que quem viola
a lei num só ponto é culpável como se a violasse toda. É para facilitar as almas piedosas os meios de
verdadeira e solidamente amarem a Deus que pus no fim de todos os capítulos desta obra alguma
breve instrução sob o título de Resoluções Práticas. Nelas achar-se-á o segredo de toda a santidade,
que consiste simplesmente em nos vencermos a nós mesmos em todas as coisas, não por agradar à
criatura, mas unicamente por amor de Deus. Vince et ipsum, vence-te a ti mesmo. Estas duas palavras
andavam continuamente na boca de Santo Inácio de Loyola e de S. Francisco Xavier. É coisa sabida
o uso que delas fizeram para sua própria santificação. Ama et fac quod vis: são palavras de Santo
Agostinho; ama e faze depois tudo o que quiseres: porque se verdadeiramente amas, as tuas ações
não desmentirão os sentimentos do teu coração. Pede incessantemente a Deus, meu querido Teótimo,
este amor verdadeiro que se prova por obras. Nunca percas de vista que a santidade consiste
propriamente na destruição dos vícios, e de nenhum modo nas consolações espirituais, diz Bloisius,
Speculum religios, cap. II, n.° 2. Sofre por Deus, obra por Deus, faze em todas as coisas a Vontade de
Deus: eis o Verdadeiro Amor.

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Capítulo I
Jesus Cristo fez-se homem para nos fazer compreender o amor que nos tem, e
nos excitar a amá-lo
Dilexit non et tradidit semetipsum pro nobis.
Jesus Cristo nos amou e a si mesmo se entregou por nós
(Ef 5, 2).

Para atrair a si os corações dos homens e captar seu amor, havia-os Deus enchido de toda a sorte de
benefícios; longe porém de corresponderem às suas solicitações e dar-lhe amor por amor, os homens
ingratos nem sequer por seu Deus e Senhor o quiseram reconhecer; ante ídolos de pedra e madeira
curvaram vergonhosamente a fronte, e às mais vis criaturas prostituíram suas homenagens e
adorações. E se apenas num pequeno canto da terra, se na Judeia, era este Deus do universo como tal
reconhecido por um povo que escolhera, ainda ali mesmo mais era temido do que amado.

Porém mais amado que temido quer ser Ele, e por isso fez-se homem como nós, e veio habitar na
terra, passou entre nós uma vida pobre, laboriosa e desconhecida; entregou-se a uma morte cruel e
ignominiosa: e isto para quê? Tudo para nos mostrar o imenso amor que nos tem e ganhar os nossos
corações. Sim, não quis nosso divino Salvador nascer num curral e expirar numa cruz, senão para
patentear o quanto nos ama e quanto de nós deseja ser amado. Dilexit non et tradidit semetipsum pro
nobis

O que seria de nós depois do pecado do nosso primeiro pai, se Jesus Cristo não se dignasse resgatar-
nos? Ai! Abandonados à nossa fraqueza, escravos de nossas concupiscências, ter-nos-íamos
precipitado em todo o crime, e passaríamos uma vida desgraçada. Esmagados sob o peso de um Deus
irado, jamais sentiríamos o nosso coração palpitar de gozo com a doce esperança do céu, nunca
haveríamos experimentado os encantos do amor divino, em tempo algum gozaríamos as doçuras da
paz, fruto de uma consciência pura. Que pobres e miseráveis! Sujeitos sempre às nossas paixões,
sempre em contínua guerra conosco e nossos semelhantes, só conheceríamos esta terra para a
amaldiçoarmos, só deixaríamos esta testemunha de nossos males e lágrimas para cair nos abismos do
inferno.

Que horrível sorte!

Por bem nosso, Jesus, bondade e misericórdia infinita, teve dó da nossa desgraça. Apesar da nossa
revolta, amou-nos e consentiu em resgatar-nos. Se isto não fizera e nos deixasse vítimas do inferno
que tínhamos merecido, não ficaria mais pequeno ou menos perfeito, sua felicidade em nada sofreria
decrescimento. Excitado porém por seu amor, resolveu abrir-nos as portas do céu pelos mais
penosos trabalhos, pelos tormentos mais horríveis, como se da nós dependera a sua felicidade. Sem
sofrer nos poderia bem remir; não o fez porém assim; e dentre tantos meios que tinha para nos salvar
preferiu Ele o mais humilhante e molesto, quis por sua própria morte livrar-nos da morte eterna, para
por esta via mais direitos adquirir ao nosso reconhecimento e ao nosso amor.

Uma simples súplica de Jesus, uma só lágrima sua, uma gota do seu sangue precioso seria bastante
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para nossa salvação. Sim, diz São João Crisóstomo, para nos salvar fora bastante uma só lágrima de
Jesus; porém, não era ela suficiente ao nosso Divino Salvador para nos mostrar o seu amor.

Para mais provado nos deixar o seu amor, e nos impor assim uma maior obrigação de o amarmos, é
que Ele preferiu às honras e a uma vida de repouso e glória, os desprezos, vida pobre e morte cheia
de dores e opróbrios.

Aqui está o quanto nosso Deus fez por nós! Eis como nos amou! E por Ele que havemos feito?
Sempre somos muito ingratos! Jesus a coroar-nos de misericórdias e amor, Jesus a dar-se todo a nós,
a sacrificar-se por nós, a fazer-se homem por nós, isso tudo para ganhar o nosso coração, e nós não o
amamos! Pois que! Se nós amamos a um homem que nos dá algumas mostras de afeição; que digo? Se
amamos até um cão que nos afaga, e só para o nosso Deus que nos enche de benefícios é que não
teremos amor! Para excitar o nosso reconhecimento para com nossos semelhantes, uma só palavra
amável, um sinal de bondade, um sorriso já é bastante; e Deus esgota todos os tesouros do seu poder
e da sua sabedoria por nosso amor e nós não queremos corresponder à sua ternura! Ó céus! Quanto
nos envergonharemos de una tão monstruosa ingratidão? Ainda virá o dia em que deixemos de opor
friezas e desprezos ao infinito amor de Pai tão bom?

Ó meu doce Jesus! Permiti-me o dizer-vo-lo: não, não quero para o futuro ser ingrato como até
aqui; d’ora em diante só quero amar-Vos de todo o meu coração. Possa, ó Salvador meu, possa
esse amor que Vos levou a morrer por mim sobre a cruz, faze-me morrer a mim para todos os
afetos terrenos, abrasa-me desse fogo que viestes trazer à terra!

Mil e mil vezes detesto esses indignos prazeres, que tantos tormentos Vos causaram, e de toda a
minha alma me arrependo, ó meu muito amado Redentor, de tanto Vos ter ofendido. De hoje em
diante quero morrer antes que causar-Vos a mínima ofensa; para Vos ser agradável, disposto
estou a fazer tudo o que em mim deseja. Para nos amar, Vós a nada Vos poupastes, a nada me
quero eu também poupara para amar-Vos.

Sem reserva me amastes Vós; pois sem reserva Vos quero amar também eu.

Eu Vos amo, ó meu único bem, meu único amor, meu tudo: sim, eu Vos amo. Fazei, ó Jesus meu,
fazei, eu Vos suplico, que Vos ame tanto quanto a uma pobre criatura é possível amar-Vos: fazei
que Vos ame até o último suspiro, e por toda a eternidade, Fiat, fiat! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
A Salvação é a Única coisa Necessária
Cristão, quem quer que sejas que esta obra lês, pensa hoje seriamente no grande negócio da tua
salvação. A tua salvação!… Ah! Eis o que todos os instantes te deve ocupar, pois que, segundo o
mesmo Jesus Cristo, é a única coisa necessária. Afana-te quanto queiras por te enriquecer, amontoa
tesouros e mais tesouras; eu bem não queria contrariar-te; mas, por quem és, tudo isto de que te vale
se te condenas? Corre após os terrenos prazeres; prossegue todas as honras e todas as dignidades;
aos teus sentidos e caprichos nada recusas; goza de todas as comodidades; eu ir contra não vou, mas,
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dize-me, afinal tudo isto de que te servirá se te perdes? Alguns dias mais, o mundo, riquezas, honras,
prazeres, tudo, tudo para ti se esvairá; e então que apreço darás a todas estas coisas uma vez caído na
desgraça eterna? Entra, meu irmão, em ti mesmo, eu te suplico, e examina em que alturas vai o
negócio da tua salvação. Talvez que até agora nada ou quase nada hajas feito para o céu; pois ainda é
tempo de lançar mãos à obra: vamos. Põe em ordem a tua consciência, e se pela misericórdia de
Deus te não acusa de falta grave, trabalha a enriquecer-te de boas obras e de sólidas virtudes. Hoje é
o começar. Para isso repassa incessantemente pela memória esta palavra do nosso Mestre:

“De que serve ao homem ganhar o mundo todo se perde a sua alma? E porque penhor poderá
resgatar essa pobre alma, depois de a haver perdido?”

Ao teu espírito seja sempre esta sentença, e pede a Deus a graça de bem a entenderes. Se a
compreenderes bem, ela infalivelmente te há de tocar o coração; pôr-te-á diante dos olhos a vaidade,
o nada das coisas do mundo; e acabarás brevemente por te fazer um Santo. E se fores um Santo ou ao
menos trabalhares por isso, que gosto não darás ao nosso bom Mestre! Que paz não atrairás sobre a
tua alma! E lá no fundo do teu coração que doce esperança não sentirás de reinar um dia no céu! À
obra pois, meu irmão, mãos à obra; Jesus é contigo. Nunca Ele desampara algum dos seus filhos:
alenta nossos esforços e sustenta nossa fraqueza: confiança nEle e serás salvo.

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Capítulo II
Do amor que Deus nos testemunhou em nos dar o seu único Filho
Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret
“Deus por modo tal amou o mundo, que lhe deu o seu unigênito Filho”
(Jo 3, 16)

Oh! Quão profundo é o sentido da partícula sic, de tal modo! Significa esta pequena palavra o que
nunca poderemos compreender; significa a grandeza do amor que levou Deus a dar-nos, não um
servo, não um anjo, mas o seu próprio Filho, e a condenar à morte esse Filho inocente pelo homem
culpável. Ah! Quem assim nos podia fazer um dom de valor infinito, senão um Deus, cujo amor não
conhece limites? Oh! Quanto não devemos bendizer tal ternura do nosso Deus! Estávamos pelo
pecado mortos à vida da graça, e Jesus por sua morte ressuscitou-nos; estávamos miseráveis,
hediondos e abomináveis, e Deus por meio de Jesus Cristo, nos “tornou belos e caros a seus olhos“.
Mas não foi só libertar-nos do pecado, “também nos encheu em Jesus Cristo de toda a sorte de
bens espirituais para o céu. Ó maravilhosa condescendência da ternura do nosso Deus!” exclamas
nos transportes de sua admiração a Igreja; “ó caridade incompreensível! Por libertar o escravo,
entregar o seu único Filho!”

Procuremos compenetrar-nos bem do sentido destas palavras:

“Deus, o seu único Filho”

E não é aos anjos que Jesus Cristo é dado, não é por eles que se fez homem e nasceu de uma Virgem
sem mácula: não é; mas sim a nós, a nós, filhos de Adão, é que foi concedida dádiva tão preciosa.
Nobis datus, nobis natus ex intacta Virgine: a nós foi dado, para nós foi nascido de uma Virgem
imaculada, canta a Santa Igreja. A nós é que Jesus Cristo foi dado, a nós pertence pois; nele e com
ele infinitos bens e tesouros possuímos. Mas ai! Que nós nem sequer conhecemos o dom que nos fez
Deus, em nos dar seu Filho! Tão pouco pensamos nos bens que tiramos da Incarnação do Verbo. É tal
grandeza de seus benefícios, que devemos em certo modo regozijar-nos da falta de Adão. Em
verdade muito mais nos deu Jesus Cristo do que nos tirou Adão: ganhamos pela redenção mais do
que perdemos pelo pecado, “e a graça“, diz São Paulo, “não foi medida segundo o crime“. Assim
toda enlevada do rapto do seu zelo e reconhecimento, a Igreja brada:

“Ó culpa feliz, que merecestes ter um tal Reparador! Ó feliz e necessário pecado de Adão que
fostes apagado pela morte de Jesus Cristo!”

“Ah! Se souberas”, dizia o nosso Salvador à Samaritana, “se souberas do dom de Deus! Se
soubesses quem é que te diz: Dá-me de beber!…”. Ó alma minha! A ti é que se dirigem estas
palavras. Se tu souberas quem é Jesus, se conheceras quem é o bom Jesus, compreenderias a
extensão do amor que impeliu Deus a dar-t’o, saberias quanto por sua incarnação te mereceu, cairias
na conta de quanto amor, quanto reconhecimento deves a quem te fez dom tão excelente!

“Senhor, dizia Santo Agostinho, quem é ingrato no tocante ao benefício da criação, merece o
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inferno, porém para o ingrato ao da redenção novo inferno seria preciso”

Do Padre Avila se conta que quando alguém, reconhecido de algum benefício especial que Deus
recebera, se admirava da bondade divina, dizia:

“Não é por isso que a devemos admirar; mas sim por ter Deus amado o mundo até lhe dar o seu
único Filho”

Ó Pai Eterno! Agradeço-vos o terdes-me dado o vosso Filho como Redentor. Divino Filho,
agradeço-vos o haverdes-me resgatado com tanto amor e à custa de tantas dores. O que seria de mim,
Jesus meu, o que seria de mim, depois de tantos pecados de que me hei manchado, se não tivesses
morrido por mim?

“Ai o número dos pecados excede já muito o dos cabelos da minha cabeça”

Tanto tempo vai já que só para ultrajar-vos vivo! Ah!

“Para que se prolongou tanto o meu exílio sobre a terra?”

Porque não exalei eu o meu último suspiro ao sair das águas do batismo? Porque não morri antes de
ofender-vos? Gemidos inúteis! O mal está feito. Dai-me, Salvador meu, eu vos suplico, dai-me uma
parte dessa aversão que ao pecado tivestes durante vossa vida morta, e perdoai-me. Mas perdão só
não me basta; eu também quero o vosso amor, pois mereceis ser infinitamente amado; dignai-vos por
tanto conceder-m’o igualmente.

Até a morte me amastes vós, Senhor; até morrer também quero eu amar-vos. De toda a minha
alma vos amo, ó infinita bondade; amo-vos mais do que a mim mesmo, e todos os afetos do meu
coração só em vós quero por. Ah! Ajudai-me, e não permitais que eu torne a ser ingrato como
até aqui. Fazei-me conhecer o que de mim quereis, porque resolvido estou, mediante a vossa
graça, a fazer tudo absolutamente tudo o que quiserdes. Sim, querido Jesus meu, eu vos amo e
quero amar-vos, sempre, meu tesouro, minha vida, meu amor, meu tudo. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Devemos Temer as Faltas Leves
Há na vida espiritual uma verdade de importância tal, que por todas as almas piedosas deve ser
seriamente meditada. E ei-la aqui, tal como a inspirou o Espírito Santo:

Qui spernit modica, paulatim decidet, quem despreza e não tem em conta as coisas pequenas,
cairá pouco a pouco. Compreende bem esta palavra: “cairá pouco a pouco“. Cairá insensivelmente,
sem mesmo dar por isso, mas cairá. Hoje, sob pretexto de ser falta leve, consente numa mentira muito
pequena; amanhã já deixa sair uma maior, e acabará por cair nas maiores desordens. Teme, teme
muito o desprezo das coisas pequenas; receia as faltas leves; olha que são de alguma sorte mais
perigosas do que as grandes.
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“Ouso, diz São João Crisóstomo, avançar uma proposição, que parecerá surpreendente e
inaudita; e é que me parece se dever por algumas vezes menos cuidado em fugir dos pecados
grandes, do que em evitar as faltas pequenas. Daqueles só a sua enormidade nos inspira horror;
com estas, por pouco consideráveis, facilmente nos familiarizamos; este desprezo em que as
temos nos impede de fazermos o devido esforço para as expelir, e assim por negligência nossa
vão crescendo até chegarmos ao estado de não podermos desfazer-nos delas. Ainda outra vez o
repito: teme as faltas pequenas, teme-as e evita-as pois, por pequenas que sejam, nem por isso
deixam de ofender menos o nosso bom Mestre; teme e evita as faltas leves, porque à tibieza nos
conduzem: teme as faltas leves porque disse Jesus Cristo, ‘quem nas coisas pequenas é fiel, sê-
lo-á também nas grandes, e quem nas pequenas é injusto, injusto será nas grandes'”

Vela hoje muito sobre ti mesmo, e esforça-te a viver hoje de modo que à noite possas dizer a Jesus:

“Meu bom Mestre, hoje não me acusa a consciência de falta alguma inteiramente voluntária;
bendito sejais, pois foi vossa onipotente mão quem me amparou. Suplico-vos me queirais
perdoar toda e qualquer falta que por fragilidade me haja podido escapar; amanhã hei de fazer
todos os esforços para viver melhor ainda”

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Capítulo III
Jesus Cristo mereceu-nos o perdão dos nossos pecados pela efusão de todo o seu
sangue
Neque per sanguinem hircorum aut vitulorum, sed per proprium sanguinem introivit semel in
sancta, aeterna redemptione inventa.
“Nem por sangue de bodes, ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue entrou Jesus Cristo
uma só vez no Santuário, havendo achado uma redenção eterna”
(Hb 9, 12)

Ai! De que valia para nos obter a graça divina o sangue de todas as vitimas? Da mínima importância
eram todos esses sacrifícios; eram na expressão do Apóstolo, cerimônias defeituosas e destituídas de
toda a virtude; jamais lograriam elas destruir o muro de separação que entre Deus e o homem o
pecado levantara. Quem é pois que teria assaz po​der para nos restituir a graça com o céu? O homem?

Ai! Esse é um filho da cólera; nasce na inimi​zade de Deus, e de suas próprias forças obra alguma
pode fazer grata a esse Deus Santo, que não se com​praz com serviços de quem é seu inimigo! Então
será um anjo? Mas um anjo não passa de uma sim​ples criatura; seus méritos são conseguintemente fi​-
nitos e limitados, e a injuria a Deus feita pelo pecado do homem e um mal infinito.

Como não se dignou de por si mesmo nos criar, também não achou indigno ele mesmo vir resgatar​-
nos. O excessivo amor que nos consagrava não o deixou confiar de outrem a satisfação e glória de
salvar-nos. “Eu sou o Senhor“, nos diz pela boca de Isaías, “e não darei a minha glória a outrem“;
e realmente houvera sacrificado esta glória se a um anjo confiasse o cuidado de remir-nos. Porque se
tão somente se contentara com tirar-nos do nada e nos dar a vida que neste mundo vivemos, vida
infinitamente melhor, a um anjo seriamos devedores do que é mais excelente e a Deus do que o é
menos. Ora, repito, Deus era nimiamente cioso da sua glória e do nosso amor para entregar a uma
criatura a obra da nossa redenção. Não só quis dar-nos a primeira vida, criando-nos, mas ainda a
segunda resgatando-nos, a fim de que só a ele o nosso amor pertencesse e nem à mínima parte alguém
se julgasse credor. É isto o que perfeitamente exprimiu Santo Agostinho nestas palavras:

“Assim como Deus era já nosso Criador, assim quis ao mesmo tempo ser nosso Redentor para
que nosso amor não ficasse repartido entre criador e redentor”

“Reconhece, ó homem, exclama São Bernardo, a dignidade e a nobreza de tua alma. Essa alma
que tu arrastas pela lama, essa alma que sacrificas ao teu corpo, sabes em quanto foi estimado
por Deus? Sabes que mais vale que o mundo todo? Se o ignoras, sabe que o teu Deus por amor
dela sacrificou a sua e não a sacrificaria pelo universo, nem ainda por mil universos”

Compreende agora o quão culpável és quando com o pecado a manchas.

Como acabamos há pouco de ver, ainda quando um anjo nos poderá resgatar e satisfazer à justiça
divina, não o permitiria Deus; queria ele mesmo encarregar-se, como de fato fez, do cuidado de nos
merecer o céu e arrancar ao inferno, para melhor nos provar a grandeza do seu amor. Oh! Quem
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poderá dizer quanto nos ama Deus, a nós pobres e mesquinhas criaturas! Por amor de nós, lá desceu
do alto do seu trono esse Deus do céu e da terra, e revestiu-se da nossa humildade, por nosso amor
quis nascer num presépio onde para repousar seus delicados membros só palha tinha; por nosso amor
quis passar trinta anos na oficina de um pobre carpinteiro, ganhar com o trabalho de suas mãos um
pedaço de pão negro, comê-lo com o suor do seu rosto; por nosso amor finalmente quis derramar até
à última gota do seu sangue e expirar cravado numa cruz repleto de atrocíssimas dores. Ah! Que bem
razão temos nós de como Jó exclamar:

“O que é o homem, Senhor, para que o honreis com vossa vista e façais dele o objeto do vosso
amor?”

Pois que! Esse poderoso Monarca do céu e da terra, esse Deus a quem nada falta, que só de si é
suficientíssimo a si mesmo, andar em procura do teu amor, e esforçar-se até dar a vida para t’o
merecer! Como poderemos nós jamais reconhecer ternura tão excessiva? Amemo-lo; amemo-lo; amor
só com amor é pago, demos-lhe o nosso coração de que ele tão cioso é, com fidelidade lhe
consagremos todos os seus movimentos, todos os seus afetos, não façamos a mínima reserva. Não
percamos de vista que se pelo benefício da criação já de tudo lhe somos devedores, pelo da
redenção muito mais ainda lhe devemos. O nos criar uma só palavra nos custou:

“Ele disse e tudo foi feito”

Mas para remir-nos o que não sofreu?

Ó meu Jesus! Aqui estou aos vossos pés! Dignai-vos aceitar a homenagem que deste pobre
coração vos faço. Ah! Para amar-vos um coração só é nada: tivesse eu os de todos os homens
para vo-los consagrar, era ainda muito pouco. E que ingratidão seria pois a minha se fosse ainda
dividir o meu entre vós e as criaturas? Não, amor meu; não, não há de assim ser. Quereis todo o
meu coração e verdadeiramente todo o mereceis possuir; todo, pois, sem reserva vo-lo quero
dar. Dar-vo-lo todo, como devo, não sou capaz, Senhor; tomai-o, pois, por vós mesmo; fazei que
em verdade eu posso dizer-vos: “Sois o Deus do meu coração”. Ah! Meu Redentor, pelos
merecimentos da vida abjeta e cheia de tribulações, que neste mundo tivestes, dai-me a
verdadeira humildade, que eu não viva senão no desprezo e na vida oculta. Fazei que com amor
eu abrace enfermidades, dores, afrontas, perseguições, penas interiores e todas as cruzes que de
vossa mão me venham; ame-vos eu e depois disponde de mim como mais vos agradar. Ó
coração de Jesus! Por mim de amor abrasado, abrasai o meu coração de ardente amor por vós, e
dai-me a graça de ser todo vosso antes de morrer. Amo-vos, ó meu Jesus, que tanto mereceis ser
amado e tão vivamente o desejais: amo-vos de todo o meu coração, amo-vos de toda a minha
alma. Aumentai mais e mais ainda o meu amor por vós; fazei que, para agradar-vos, eu
mortifique incessantemente as minhas viciosas inclinações, os meus gostos, os meus caprichos,
que renuncie de uma vez aos meus cômodos, aos meus prazeres, e mais que tudo à minha
vontade. Ó meu Jesus! Com as lágrimas nos olhos vos conjuro, dai-me tudo, que tudo me falta.
Pobre sou, mas serei rico, só com lançardes sobre mim um olhar de misericórdia. Ah! Meu
Jesus! Dulcíssimo meu Jesus! Havei piedade de mim! Maria, minha terna Mãe, protegei-me!
Assim seja.

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RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Pureza de Intenção
Como acabas de ver, Jesus por teu amor não podia fazer mais, e tu em reconhecimento à sua ternura
não hás de fazer nada? Não é nada custoso nem extraordinário o que te pede; ele não quer senão que
todos os dias faças com a mais possível perfeição todas as tuas ações. Compõe-se o dia do cristão
de uma série de atos, uns santos, indiferentes outros. O levantar, o deitar, a oração, a Santa
Comunhão, a Santa Missa, as visitas, o trabalho, os passeios, a comida, o sono, aqui tens tu no que
pouco mais ou menos se passa a vida do homem. Pois muito bem; queres ser santo e agradar
infalivelmente ao Coração de Jesus? Não tens mais do que fazer tudo isto com a maior pureza de
intenção e só com vistas de agradar a Deus. Põe em prática aquele conselho de São Paulo:

“Ou vós comais ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus”

Se à perfeição tão somente se chegasse, diz Affonso Rodrigues, por ocupações sublimes, grandes
elevações do espírito, profundas meditações, alguma escusa podíeis ter, podíeis desculpar-vos de
incapacidade, e dizer que voar tão alto não era para vós. Se de vós se exigisse que todos os dias
tomásseis disciplinas até verter sangue, que jejuásseis a pão e água, que sempre andásseis descalços,
que nunca largásseis os cilicios, podíeis responder que para tanto não vos víeis com forças. Mas
nada disto exige de vós Jesus; quer simplesmente que façais bem as cosias que fazeis de ordinário.
Talvez hajas até aqui desprezado oferecer a Deus todas as tuas ações, particularmente o despertar, a
comida, as recreações; pois começa de hoje a lhe os oferecer; se até agora oravas com pouco fervor,
atenção e respeito, toma hoje a resolução de orar melhor de ora avante. Um comerciante a tratar dos
seus negócios, uma mãe de família a vela pelo governo da casa, um estudante no meio dos seus
estudos, podem assim a pouco custo chegar à perfeição. Bem culpado serias tu, pois, se de um tão
fácil meio não lançasses mão para agradar ao teu Deus mais e mais, quando por teu amor, e para
fazer-te feliz, ele não poupa nem a sua glória, nem o seu repouso, nem a sua própria vida.

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Capítulo IV
A misericórdia e amor de Jesus para conosco fulgem com deslumbrante brilho
em sua encarnação
Apparuit benignitas et humanitas Salvatoris nostri Dei
“Apareceu a bondade do Salvador nosso Deus, e o seu amor para com os homens”
(Tt 3, 4)

De toda a eternidade nos amou Deus; esta ver​dade é Ele mesmo que por Jeremias profeta no-lo
assegura. Mas o seu amor para conosco esteve em certo modo oculto, até ao momento em que a Jesus
Cristo aprouve manifesta-lo, fazendo-se homem.

“Antes da incarnação do Verbo, diz São Bernar​do, manifestára-se-nos o poder e sabedoria de


Deus na criação e governo do mundo; quando porém Je​sus Cristo consentiu em revestir-se de
nossa carne, apareceu o amor que este divino Salvador tem aos homens”

Com efeito, depois de haver Jesus Cristo passado uma vida tão laboriosa e molesta, depois de o
vermos expirar numa cruz no meio de tantos tormentos, máxima injuria seria o duvidarmos um ins​-
tante do seu amor.

Sim, Jesus Cristo ama-nos com excesso, e por isso mesmo que nos ama, de nós quer ser amado. E
será possível ficarmo-nos insensíveis a este amor de Jesus? Pensemos seriamente a que medonho
estado de miséria e abatimento estávamos pelo pecado reduzidos, quando veio a libertar-nos Jesus
Cristo.

Estávamos manchados de crimes e condenados a morte e ao inferno, e se, consultando a sua justiça,
nos houvera Deus abandonado a nossa sorte, nada teríamos a dizer-lhe:

“Pois quem ousara le​vantar-se contra os juízos do Senhor? Quem seria as​saz audacioso para o
acusar, ainda quando des​truísse as nações que criou?”

Nada, absolutamente nada tínhamos que pudesse merecer-nos um dos seus olhares de benevolência
ou compaixão: que digo? Hediondos e execráveis a seus olhos nos tornara o pecado; e não obstante
Jesus Cristo desce do céu a terra para manifestar-nos o seu amor, morrendo numa cruz! Estávamos
pobres, e ele vem-nos enriquecer de todos os bens espirituais; estávamos abismados em espessas
trevas, e ele vem com o facho da sua divina doutrina iluminar-nos; estáva​mos condenados a uma
eternidade de suplícios no inferno e ele vem abrir-nos as portas do céu e merecer-nos uma eternidade
bem-aventurada; estávamos seus inimigos, e ele vem reconciliar-se conosco e admitir-nos a
intimidade do seu amor.

Cristão! Visto como o nosso Deus nos testemunhou tanto amor ainda quando éramos tão maus; “visto
como foi o primeiro a amar-nos, amemo-lo também da nossa parte com toda a extensão do nosso
coração“. Que coisa mais justa e mais racional?

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“Nosso Senhor Jesus Cristo”, diz São Paulo, “morreu por nós afim de que nós vivamos para
ele”

E podemos nós acaso dar-nos este consolador testemunho de havermos sempre vivido para Jesus?
Po​deremos nós dizer que nossas ações todas foram inspiradas pelo amor de Jesus? Ai! Que talvez
nem um dia, nem uma só hora hajamos vivido para ele! Oh! Que motivos estes de confusão!

Um Deus por nosso amor a fazer tudo e nós pelo seu amor a nada fazermos! Hoje é o começar
calorosamente a amar a Jesus, e a só para Jesus viver. Viver para Jesus e cumprir toda a sua santa
vontade, renunciar-nos continuamente a nós mesmos, fazer-nos violência a todo o instante, levar com
submissão e amor a nossa cruz. Viver para Jesus, é orar incessantemente, desempenhar todos os
deveres do nosso estado, mortificar-nos de continuo, exercer-nos na pratica da humildade, castidade,
ca​ridade para com o nosso próximo, da paz e reco​lhimento interior. Viver para Jesus, é chorar as
des​ordens da vida passada, desprender-nos de tudo o criado, suspirar pela bem-aventurança. E de
tudo isto que fizemos até agora? Nada, ou quase nada talvez.

Ao menos saibamos sequer humilhar-nos a vista de tal covardia, e tomemos generosas resoluções
para o futuro.

Ó meu Salvador! Virá ainda dia em que eu comece a reconhecer o amor que me testemunhastes?
Até o presente, em lugar de amar-vos, só com ingratidões e desprezos tenho pago a vossa graça.
Com tudo, por que sois a bondade infinita, perder a confiança não perco. Vós prometestes per​-
doar a todo o que se arrependesse; ah! Havei pie​dade de mim, e sinta eu os efeitos da vossa
pro​messa. Desonrei-vos, preferindo os meus regalos e prazeres a vós; mas hoje de toda a minha
alma me arrependo, e nada me dói tanto como a lem​brança de vos ter ofendido a vós, meu
soberano bem. Perdoai-me, e por um laço de eterno amor pren​dei-me fortemente a vos, afim de
que não mais torne a abandonar-vos, e de ora avante só viva para amar​-vos e fazer-vos a
vontade. Sim, Jesus meu, só para vós quero viver, só a vós quero amar. Tempo houve em que
pela criatura vos abandonei; mas agora todo me dou a vós. Amo-vos, ó Deus da minha alma !
Amo-vos mais do que a mim mesmo. Ó Ma​ria, Mãe do meu Deus, obtende-me a graça de lhe ser
fiel até a morte. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Fugir em nossas Ações de Vanglória

Entra hoje seriamente em ti mesmo e vê com que intenção fazes as tuas obras. Se as fazes
mecanicamente e sem intenção alguma nem boa nem má, ser-te-ão inúteis para o céu. Se as fazes com
intenção de agradar aos homens e por vanglória, por boas que em si sejam, tais obras tornam-se más
e dignas de castigo: se pelo contrário em todas as tuas obras só em Deus pões a mira, se tão somente
pro​curas a sua glória e o cumprimento da sua vontade, és feliz: porque então tu adquires méritos e
tesouros para a eternidade. Foje da vanglória; “guardai-vos, não façais as vossas obras diante dos
homens, com o fim de serdes visto por ele: de outra sorte não teríeis a recompensa da mão de
vosso Pai que está nos céus”.
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Ó meu Deus! Pois que é essa glória do mundo senão um fumo vão! Contenta-te: em tuas boas obras,
do testemunho da tua consciência; contenta-te com saber que todas as tuas ações tens a Deus por tes​-
temunha e nunca vás mendigar dos homens uma glória que te faça perder a verdadeira. Lá no fundo
do teu coração diz e repete continuamente:

“A Deus só seja honra e glória pelos séculos dos séculos. Senhor, dai glória não a nós mas ao
vosso nome”

Oculta quanto ser possa tuas ações e tem cuidado de, antes de as começares, certificar a intenção, di​-
zendo com Santo Inácio de Loyola:

“Meu Deus, isto vou eu fazer por amor de vós e para vossa maior gloria”

Se no meio da tua ação vier o demônio tentar de vanglória, não a interrompas por isso; dize-lhe com
São Bernardo:

“Nem por ti começou, nem por ti hei de acabar”

Tudo seja para Deus, seja tudo para sua glória. De todos os dias esta seja a tua divisa.

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Capítulo V
Deus Pai enviou à terra seu Filho para nos restituir a vida que pelo pecado
perderíamos
In hoc apparuit caritas Dei in nobis quoniam Filium suum unigenitum misit Deus in mundum,
ut vivamos per eum
“Nisto é que se manifestou a caridade de Deus para conosco, em que Deus enviou a seu Filho
unigênito ao mundo, para que nós vivamos por ele”
(1 Jo 4, 9)

Mortos estavam pelo pecado todos os homens, e neste estado de morte permaneceriam, se não
houvera o Pai Eterno enviado a seu Filho único, que pelo derramamento de seu sangue os chamasse à
vida.

Ó prodígio! Um Deus morrer pelo homem! Um Deus!!! E que é o homem?

O seráfico São Boaventura, ao meditar neste mistério de amor bradava:

“Ó bom Jesus! Que fizeste? Para que me amastes tanto? Para que, Senhor, para que, Jesus meu?
Que achastes vós em mim que tanto amor vos inspirou? Porque quisestes morrer por mim?
Quem sou eu para comprardes a minha alma por preço tão elevado?”

Mas é precisamente nisto que com mais resplendor brilha o infinito amor de Deus para conosco.
Nossa baixeza, nossas misérias não esfriam sua caridade; são antes incentivos para mais a incendiar.
Quanto mais dele nossos crimes nos alongaram quanto de seu amor mais indignos nos tornaram, tanto
foi maior o ardor com que nos procurou e acumulou as finezas da sua ternura; e tão longe o impeliu
essa ternura, que pregou numa cruz ao seu inocente Filho, por arrancar-nos ao inferno e gerar-nos em
seu amor. Ó prodígio incompreensível do amor de Deus para conosco!… E ser-lhe-emos ainda
ingratos? E recusaremos ainda amar a um Deus que com tal veemência nos ama?

O amor que Deus nos testemunhou é um verdadeiro mistério, diz São Fulgêncio. Esse Deus de
bondade nós o desprezamos e ultrajamos; em sua aversão incorremos apartando-nos dele; e ele nunca
deixou de amar-nos; amou-nos a ponto de enviar à terra o seu Filho a fazer-nos nosso amigo, nosso
irmão, nosso Salvador; amou-nos quando doentes para nos curar; amou-nos quando maus e perversos
para fazer-nos bons; amou-nos quando mortos para nos chamar à vida. Lá do alto do seu trono
contemplava a nossa miséria, via quão transviados corríamos pelas veredas do crime, e
compadeceu-se e deu-nos o seu Filho para que nos levasse pelo caminho do céu. Este filho adorado
baixou à terra, e durante trinta e três anos que entre nós morou, trabalhou de todos os modos
imagináveis para arrancar-nos ao demônio e às nossas paixões. Como se sem nós não poderia ser
feliz acaba por morrer numa cruz para ganhar o domínio do nosso coração, e merecer o nosso amor.
Que admirável bondade da parte de Deus, exclama São Bernardo, o haver assim procurado o homem!
Mas também que sublime honra para o homem o assim ser procurado por Deus! Sim, com bem justa
razão pode o homem gloriar-se de tal honra, não pelo que de si mesmo é, que não passa de um nada,
mas pela grande estima em que o teve o seu Criador. Todas as riquezas, toda a mundana glória, à
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vista deste apreço com que o nosso Deus nos honrou, não passam de um miserável nada.

Depois de Jesus Cristo tanto me haver amado, tanto me haver estimado, apesar do meu nada; depois
de haver-me elevado a uma tão alta nobreza e dignidade, chegando a fazer-se meu irmão, ir-me-ia
ainda eu aviltar pelo apego às coisas do mundo, e o que mais é, pelo pecado? Não, não, isso nunca!
E mediante a graça do céu, sem a qual nada sou, antes a morte mil vezes! O meu Deus amou-me;
também eu da minha parte o amarei, o meu Deus prezou-me, também eu saberei reconhecer a minha
dignidade fugindo ainda da mesma sombra do pecado; o meu Deus morreu por meu amor, também eu
saberei, se preciso for, morrer por ele; potentíssimo será para sustentar a minha fraqueza. Senhor!
Vós destes o vosso Filho Jesus, para que pudéssemos recobrar a vida que pelo pecado perdemos;
tende piedade de mim e dai-me a graça de só viver, de ora avante para quem por mim deu o seu
sangue e vida.

Ó meu extremoso Redentor! Ó suavíssimo meu Jesus! Ante essas chagas e essa cruz em que
moribundo vos contemplo, consagro-vos a minha vida e toda a minha vontade. Ah! Para o futuro
seja eu todo vosso, a vós só procure, por vós só suspire. Amo-vos, ó bondade infinita, amo-vos
infinito amor. Concedei-me a graça de todos os dias vos dizer: “Meu Deus, eu vos amor! Amo-
vos, meu Deus!” Esta graça de uma boa e santa morte, em nome dos vossos sofrimentos vo-la
peço, peço-vo-la em nome de Maria, vossa e minha mãe. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Felizes os que Choram!
Alma cristã, que isto lês, medita alguns instantes nestas palavras do nosso bom Mestre:

“Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados”

Oh! E que motivos não temos nós para chorar!

1) Deves chorar os teus pecados. Ai! Esses pecados tão numerosos, tão enormes, de que te
carregaste, já os chorastes? E não obstante, foram eles a causa da morte de Jesus, e certeza não tens
tu de que não te precipitarão no inferno? Sabes se já te foram perdoados? És digno de amor ou de
ódio? São Paulo, o apóstolo das nações, ignorava-o e remia. São Bernardo, oráculo do seu século,
ignorava-o e tremia, tu também o ignoras e não tremes! Treme, pois, e chora!…

2) Deves chorar os pecados dos outros. Pais e mães, deveis chorar os pecados de vossos filhos;
talvez que por negligência vossa, por vossos maus exemplos, sejais a causa deles; pastores de almas,
chorai também os pecados das vossas ovelhas; cristãos, choremos os pecados dos nossos irmãos
porque ofendem o nosso Deus.

3) Deves chorar o teu longo exílio sobre a terra. Ah! Trazes em tão frágeis vasos a graça divina,
que a cada instante corres risco de perdê-la. Quantos antes de ti a perderam e não a tornaram achar!
Exposto sempre às tentações da carne, do mundo e do demônio, em grande perigo te achas de para
sempre perderes o céu e caíres no inferno. Chora, pois, o teu exílio. Durante todo o percurso desta
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peregrinação, vive num grande recolhimento; excita-te à compunção, para o que nunca deixes de
pensar nos pecados passados e misérias presentes; recita em português ou em latim o salmo
Miserere, procura compenetrar-te bem dos sentimentos de penitência que encerra. Chora, alma
cristão, chora. Jesus deu-te o exemplo chorando pelos teus pecados; chora, que breve saberás quão
doces são as lágrimas da penitência.

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Capítulo VI
Jesus Cristo desceu do céu à terra, não por necessidade ou próprio interesse,
mas por nosso amor
Per viscera misericordiae Dei nostri in quibus visitavit nos oriens ex alto
“Pelas entranhas de misericórdia do nosso Deus: com que lá do alto nos visitou este sol no
Oriente”
(Lc 1, 78)

Se o filho de Deus desceu do céu à terra para remir-nos, nem a necessidade, nem o próprio interesse
o impeliu, que sua glória e felicidade são de todo independentes, não do homem somente, mas ainda
de todas as criaturas. “Ele é o Senhor“, diz o Salmista, “e não precisa dos nossos bens“.

Quem o forçou a vir foram as entranhas da sua misericórdia, foi a compaixão das nossas misérias, foi
o desejo de nos querer provar seu amor, trazendo um remédio eficaz para todos os males. E é isto o
que canta a Santa Igreja, ao oferecer o Santo Sacrifício, dizendo:

“Jesus Cristo desceu do céu por nós outros e por nossa salvação”

Não diz que desceu que se incarnou, que sofreu, que foi sepultado, por seu próprio interesse; não, por
nossa salvação. Que bondade e misericórdia, a do nosso Deus! Que! Senhor meu, pois por terdes
compaixão do homem perdido, era necessário que viésseis à terra vós mesmo? Então para resgatar-
nos já não bastava enviardes um anjo? Não, não, responde o Verbo Eterno; quero ir eu mesmo para
que o homem fique sabendo até onde vai o meu amor para com ele.

Santo Agostinho nos ensina que uma das principais razões que levaram Jesus Cristo a descer á terra,
para vos fazerdes amar, que homens são os que verdadeiramente vos amam? Ai! Pobre e infeliz de
mim! Que motivos não tenho eu, eu particularmente, para corar de vergonha e confusão! Porquanto
vós, meu deus, bem sabeis quão pouco vos hei amado, bem conheceis o desprezo que fiz do vosso
amor! Ah! Que eu não possa morrer de dor! Querido Redentor meu, arrependo-me de tanto vos ter
desprezado, e por minha penitência quero tudo reparar. Que pesar é o meu, ó luz tão doce e
majestosa, que pesar sinto de tão tarde vos conhecer! As minhas paixões me haviam posto diante dos
olhos uma como espessa nuvem que me impedia o ver a luz da vossa justiça e verdade. Estava cego e
amava a minha cegueira, porque me dava licença de seguir as minhas paixões.

E quem é que me curou da minha cegueira? Quem dissipou esta nuvem? Quem me estendeu a mão
para me tirar do atoleiro, em que estava profundado? Eu não chamava por este libertador, e ele veio
procurar-me, não o implorava, e ele veio socorrer-me. Quem pois é esse libertador tão bom e
misericordioso? Ah! Meu Jesus! Doce Jesus meu! Sois vós! Descestes do céu à terra para arrancar-
me das minhas desordens, e acolher-me em o número dos vossos filhos. E por um tal benefício que
hei de eu retribuir-vos?

Do caminho dos vossos mandamentos me desgarrara, fugira para longe de vós, e vós tivestes a
bondade de ir atrás de mim, de me embargar a fugida, e arrancar-me do meu desvario. Ó meu Jesus!
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Que retribuirei eu, repito, por um amor tão terno? Ah! Amar-vos-ei de todo o meu coração, de todas
as minhas forças, mais do que todas as criaturas, mais do que a mim mesmo. Ajudai a minha
fraqueza.

Se Jesus Cristo nos amou tanto, que veio à terra resgatar-nos e arrancar-nos do lodo das nossas
iniquidades, como não nos consagramos inteiramente ao seu serviço? Porque em face de um tão
ardente amor nosso coração não se derrete, como uma cera? Será possível não queiramos sofrer mil
martírios por quem tanto quis sofrer por nós? Não, não, assim não será; também havemos de saber
amar a um Deus que por sua morte nos deu a vida, que das trevas nos fez passar à luz, do exílio à
pátria, das lágrimas à alegria, e de misérias sem fim a uma glória eterna.

Ó Jesus meu! Vós que por meu amor não vos poupastes a vós mesmo, feri, eu vos suplico, feri
do vosso amor a este coração, por modo que ao vosso ele possa amar. Toda a minha consolação
seja convosco estar crucificado, seja toda a minha ventura em vós pensar noite e dia. Ó Jesus, a
quem de presente de todo o coração quero amar, mas a quem caí na desgraça de tanto ofender; ó
Jesus, perdoai-me, e concedei-me a graça de verdadeiramente vos amar. Não permitais que por
mais tempo desconheça o tão extremoso amor que me testemunhastes. Na doce confiança de que
vos amo estou eu, mas ainda é tão pouco, e vós mereceis um amor infinito: fazei que eu ao
menos vos ame de todas as minhas forças.

Ó Salvador meu, ó minha alegria, minha vida, meu tudo, se a vós, que sois infinito amor, eu não
amo, a que amarei? Submeto a minha vontade à vossa vontade, e em reconhecimento dos
tormentos que por mim sofrestes ofereço-me a sofrer por vós tudo quanto vos aprouver. Afastai
de mim todas as ocasiões de ofender-vos, não me deixeis cair em tentação, mas livrai-me do
mal. Livrai-me do pecado e depois disponde de mim como for vosso agrado. Amo-vos, ó
bondade infinita! E antes venham sobre mim todos os males, antes volte ao mesmo nada, do que
viver sem vos amar! Oh! Quem me dera poder apagar com a minha vida os dias infelizes que
passei a ofender-vos tão indignamente! Ó meu Jesus, dai-me a graça de por uma sincera
penitência expiar tantos pecados que contra vós cometi. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
O Recolhimento
Faze todos os esforços por este dia o passares todo em recolhimento, nada poupes para adquirir
hábito tão santo. Sem recolhimento impossível é progredir na virtude, orar com fervor, velar sobre si
mesmo, descobrir as suas faltas. O recolhimento adquire-se e conserva-se pela oração e mortificação
de que adiante falaremos. Meios eficazes são também para o alcançar o silêncio e repetidos impulsos
do coração para Deus.

1º Pelo Silêncio

Põe um freio à tua língua e fala pouco e com descrição: “Se algum pois cuida que tem religião, não
refreando a sua língua, mas seduzindo o seu coração, a sua religião é vã“, diz São Tiago. Fala
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pouco, porque, segundo a Escritura, o muito falar é distintivo do insensato! Stultos verbo multiplicat.
Fala pouco porque a intemperança da língua nem só ao recolhimento é obstáculo; ela é ainda a
origem de muitos pecados; sem medo pode asseverar-se muito bem que um grande palrador comete
um grande número de faltas que um homem prudente evitará. Fala pouco porque por um pecado que
se cometa calando quando deveríamos falar, cem se cometem falando em todas ocasiões. Fala pouco,
porque se em uma alma o silêncio conserva o precioso tesouro do espírito de Deus, a abundância de
palavras o dissipa, o extingue. “Um homem que não reprime a sua língua“, diz o Espírito Santo,
“assemelha-se a uma cidade por todos os lados patente; está exposta aos insultos dos seus
inimigos e é impotente para se defender“. Fala então pouco se queres estar recolhido.

2º Pelas elevações do coração a Deus

Toma o santo hábito de a todo instante do dia e da noite, quando acordares, recitar o que se chama
orações jaculatórias, que para te conservar no recolhimento não há coisa melhor. Eis aqui algumas:

Meu Deus, amo-vos de todo o meu coração

Meu Deus, por vosso amor recebo esta afronta, esta humilhação, esta doença

Senhor, quando vos amarei como mereceis?

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Capítulo VII
Ardentes desejos dos santos do Antigo Testamento pela vinda do Messias
Rorate, coeli, desuper, et nubes pluant Justum; aperlatur terra et germinet Salvatorem.
Emitte Agnum Dominatorem terrae. Salutare tuum da nobis
“Derramai, ó céus, o vosso orvalho; nuvens, chovei o Justo; abrase a terra e germine o
Salvador” (Is 45, 8). “Eviai-nos, Senhor, o Cordeiro dominador da terra” (Is 36, 1). Dai-nos o
Salvador que nos prometestes” (Sl 84, 8)

Depois de haver Deus em sua misericórdia prometido um Salvador ao homem caído no pecado e
condenado no inferno, não cessavam de subir ao céu, para apressar a sua vinda, os votos e preces
dos santos e profetas do Antigo Testamento.

“Lá do alto desses céus, Senhor, exclamavam, reparai e lançai os vossos olhos sobre vossas
miseráveis criaturas; onde está a ternura de vossas entranhas e da vossa misericórdia? Lembrai-
vos do que nos aconteceu e das desgraças que vieram sobre a nossa cabeça. Vede o nosso
opróbrio, e misérrimo estado a que estamos reduzidos. Escravos nos dominaram e carregaram
de cadeias; tornamo-nos o ludíbrio das nossas paixões e os nossos inimigos tomam em
divertimento o insultar-nos a nossa fraqueza. Esquecestes-vos para sempre de nós, Senhor, e
nunca chegaremos a ver esse libertador tão solenemente prometido! Ah! Nós vos deprecamos,
enviai aquele que tendes de enviar. Inclinai os vossos ouvidos e escutai; abri os vossos olhos e
reparai em nossa desolação. Ouvi-nos, Senhor; não tardeis a enviar o nosso legislador, em nome
da vossa mesma glória vo-lo suplicamos”

Estes eram os votos dos patriarcas. Oh! E que ardentes que eram os seus suspiros! Oh! Com que
abrasamento ansiavam a vinda do Messias! Com quanta impaciência o esperavam! Que se eles
tinham a dita de ver este Salvador, o que não fariam por agradar-lhe! Com que carinhos não
procurariam expressar-lhe o seu amor! Com que fervor não agradeceriam tantas graças que lhes
trazia!

E nós, cristãos, que temos a ventura de vermos a Jesus Cristo, de em nossos tabernáculos o
possuirmos, nós que de todas as partes estamos enredados em laços do seu amor, nós, a quem ele
acumulou de benefícios, inebriou de sangue, que proceder é o nosso? “Pasmai, ó céus!” se já ao
menos pensássemos no que por nosso amor Jesus fez? Se a um tão terno amigo prestássemos sequer
algum amor! Mas que digo eu? Se nós, em recompensa de tantos benefícios seus, já temos haver-lhe
feito condigna satisfação, quando não o façamos a receber de nós desprezos e ultrajes!… Ah!
Deixemos finalmente de ser ingratos, amemos a Jesus, quanto possível nos for o ama-lo. Se muito não
o podemos amar, desejemos pelo menos amá-lo quanto caiba em nossas forças; que os bons desejos,
quando sinceros, agradam ao Senhor, e não deixará de os encher. Sim, desejamos amar muito a Jesus;
mas que não vão nossos desejos ser semelhantes aos do preguiçoso. O preguiçoso também nutre em
seu coração o desejo de amar Jesus; mas, desgraçadamente, contenta-se só com este desejo estéril,
que o mata; obrar porém, não obra. Não o imitemos nós; amemos ao nosso bom Mestre não de boca e
palavras, mas de coração e afetos; sejamos fiéis a todos os deveres do estado em que nos colocou a
divina Providência; e quando por amor de Jesus exatamente houvermos cumprido todos os nossos
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deveres, desejemos poder fazer ainda mais, afim de mais lhe agradarmos. São estes os verdadeiros
desejos que aos olhos de Deus equivalem muitas vezes ao valor da própria ação.

“Abri os céus, Senhor, exclamava o profeta Isaías, descei; ao vosso aspecto abater-se-ão as
montanhas, ficarão consumidas como tudo o que é devorado pelo fogo, e as águas ferverão”

Sim, Senhor, ao verem-vos os homens baixar do céu à terra por seu amor, aplanar-se-ão as
montanhas, isto é, para vos servir derrubarão os homens todos os obstáculos, expedirão todas as
dificuldades, que antes miravam como inacessíveis montanhas; as águas ferverão em cachão, isto é,
as mais frias almas sentir-se-ão abrasadas do fogo do vosso amor. E nas bem-aventuradas almas de
muitos santos bem se realizou esta profecia, em particular na de Santa Maria Madalena, Santo Inácio
Mártir, Santo Agostinho, Santa Tereza, São Filipe Neri, São Francisco Xavier, São Luiz Gonzaga, e
de um grande número de outras que na terra foram consumidas deste fogo sagrado. Mas ai! Quão
raras são estas almas em comparação do número quase infinito das que ficam insensíveis à ternura do
nosso Deus! Que raras que são!

Meu Jesus, quero eu também ser do número dessas almas tão raras que do amor vosso se
consomem. Ai! Há muito que já no inferno devia arder, de vós para todo o sempre separado; e
na dura necessidade de aborrecer-vos e amaldiçoar-vos por toda a eternidade! Mas sobre mim
velou sempre a vossa misericórdia, no meio das minhas desordens me sofrestes com admirável
paciência, para ainda um dia me verdes consumido não desse fogo abrasador de que são
abrasados os condenados, mas do doce, das chamas santas do vosso amor. Neste intento é que
tantos raios de luz me enviastes, tantas inspirações, tantos desejos de voltar a vós me
prodigalizastes, ainda longe de vós vivia; e neste intento que lançastes mão de todas as finezas
da vossa ternura, que me traístes por vossas bondades e afabilidades, que pusestes tudo em ação
para roubar este mísero coração. Ah! Deus meu; este mísero coração está todo ulcerado, todo
coberto ainda da lepra de pecado!

Mas se me o pedis, ó meu Deus, ei-lo, todo vo-lo dou; tomai-o vós mesmo e curai-o; será para
sempre vosso; para sempre, para sempre. Mas ai; é tanta a minha inconstância e fraqueza, que só
vós, ó meu Jesus, só vós o podeis conservar junto a vós e dar-me a força de constantemente vos
permanecer fiel; de vossa infinita bondade firmemente espero esta graça. E que! Meu Deus; terei
eu ainda a covardia de abandonar-vos e sem o vosso amor viver um instante, um só instante?
Amo-vos, ó meu Jesus! Mais que todas as coisas do mundo, mas bem pouco é isto. Amo-vos
mais do que a mim mesmo; mas é ainda muito pouco. Amo-vos então de todo o meu coração de
toda a minha alma, de todas as minhas forças, de todo o meu ser; mas ai! É sempre muito pouco,
muito pouco! Meu Jesus, ouvi-me; mais amor, sim, mais amor, mais amor. Ó Maria, orai a Deus
por mim, obtende-me a graça de começar finalmente a amá-lo verdadeiramente; e de o amar
sempre mais e mais, até que chegue à felicidade de convosco o amar no céu. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Desejo de Perfeição
Hoje excita em teu coração o amor e desejo da perfeição e santidade; de nosso adiantamento
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espiritual esta é a base, pois o Espírito Santo nos ensina “que o princípio da sabedoria é desejarmo-
la verdadeiramente em nosso coração“. No decurso deste dia repete frequentemente:

“Meu Jesus, fazei que eu tenha fome e sede de justiça”

Oh! Que feliz não serás tu quando todos os teus pensamentos tenderem como que naturalmente a
buscar os meios de santificares! Sim, afortunado serás porque em teu coração já possuis seguro
penhor da presença de Deus.

Este é o sentir de São Bernardo, e ele o comprova por estas palavras:

“Os que me comem terão mais fome, os que me bebem terão mais sede”

Se em ti sentes esta fome e sede do teu espiritual adiantamento, regozija-se; sinal evidente é que
Deus habita em tua alma; quem te causa essa sede é Ele. Sejam todos os teus afins excitá-la cada dia
mais, “porque Deus sacia a quem dEle está sequioso“. Mas, senão sentes o desejo da perfeição, o
desejo de uma santidade sempre crescente, trevas é o teu caminho, inesperados precipícios talvez te
aguardem. Como quer que seja, hoje faze as tuas ações tão perfeitamente como se esta noite houvesse
de morrer; sejam pequenas ou grandes. deleitosas ou enfadonhas, fáceis ou custosas, humildes ou
elevadas, o amor de deus e sua maior glória seja de todas o alvo. Por este modo obterás a sede da
perfeição, e se já a tens, muitíssimo a aumentarás.

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Capítulo VIII
Encarnação do Verbo
Et verbum caro factum est
“E o Verbo se fez carne”
(Jo 1, 14)

Preenchidos eram os tempos, e Deus ia manifestar aos homens toda a plenitude de seu amor, para
com eles. O Redentor tanto tempo desejado, tão ardentemente pedido, tão impacientemente esperado;
esse Redentor, objeto de tantos votos e suspiros ia aparecer.

Tudo era disposto para a encarnação do Verbo. O Anjo Gabriel é enviado à terra pelo Rei dos reis.

Com a rapidez do relâmpago corta os ares, dirige-se a uma pequena cidade da Judéia, chamada
Nazaré, e com profundo acatamento se apresenta diante de uma donzela pobre e do mundo ignorada;
era porém modesta e humilde, era casta e sem mácula; Maria se chamava. Saúda-a, dá-lhe parte da
sua embaixada, e pergunta-lhe se consente em ser mãe de Deus.

A humilde Virgem perturba-se e hesita; assegurada porém pelo anjo de que com tornar-se mãe de
Jesus não perderia o inapreciável tesouro da virgindade, dá o seu consentimento; e no mesmo instante
o Verbo divino se fez homem; é em seu seio formado por operação do Espírito Santo: Et Verbum
caro factum est.

Ó prodígio que céus e terra transportou de admiração! Fazer carne o Verbo! Fazer-se homem um
Deus! Que diríamos se víssemos um rei tomar a forma de um verme, para por sua morte dar a vida a
este misérrimo bichinho? De assombrados não acharíamos termos. Pois é isto o que por nós fez
Jesus, soberano monarca do céu e da terra, nosso Criador e nosso Deus. Mas que digo? Muito mais
longe ainda ele foi, porque enfim entre um verme e um rei, bem que haja grande diferença, sempre
não é infinita; sendo que entre Deus e o homem, Deus e um rei, Deus e todo o universo, não há
distância imaginável. E não obstante, ó maravilha! Deus fez-se homem, Deus é homem, Deus será
homem para sempre!

Oh! Que se nós soubéramos quem é Deus, se bem compreendermos o que é a sua alta majestade, ao
falar da Encarnação do Verbo, ou ao pronunciar o nome de Jesus que a exprime, ao dizermos com a
Igreja: “O Verbo se fez carne” – Verbum caro factum est, prostrar-nos-íamos, desejaríamos abater-
nos até ao fundo da terra, abismar-nos no centro do nada, para a tão altíssimo mistério tributarmos
uma honra devida.

O Verbo se fez carne. Ó incompreensibilíssimo amor de Deus para conosco! Ó Jesus, que excessiva é
vossa ternura! Como Deus não podíeis morrer, mas fizestes-vos homem sujeito à morte a fim de por
nosso amor poderdes dar a vida. Éreis filho de Deus, exclama Santo Agostinho, e fizestes-vos filho
do homem, para nos elevardes a nós, pobres nadas, à dignidade de filhos de Deus; quisestes partilhar
nossos males para dos vossos bens nos fazerdes participantes. Ó Jesus! Bom Jesus! Sejais para
sempre bendito e louvado por essa infinita caridade que para conosco houvestes.
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Mas, diz o apóstolo São Paulo, o que mais faz brilhar o amor de Deus para conosco o que mais
irresistivelmente deve estimular o nosso reconhecimento, é que Jesus Cristo morreu por nós ainda
quando éramos pecadores. Éramos seus inimigos, e ele fez para conosco o que jamais ousaremos
pedir-lhe, fossemos nós os seus maiores amigos. Que não admirará, exclama São Gregório, esta
sublime misericórdia do nosso Deus? Nem da honra de escravos seus éramos dignos, e ele trata-nos
como amigos. Vem, acrescenta São Máximo, bispo, vem lá do alto dos céus a esta terra de exílio e
lágrimas, a fim de consigo nos elevar à habitação da eterna bem-aventurança. A um amor tal quem
poderá resistir? A um Deus que tão ternamente nos ama quem poderá recusar-lhe o coração?

Que coisa mais pode abrasar nossas almas do que a vista de um Deus por nosso amor feito homem
ainda quando éramos os seus mais cruéis inimigos?

Ah! Exclama aqui o piedoso Thomaz de Kempis, que se para com seus inimigos é Jesus Cristo
tão bom, o que não há de ele ser para com os que de coração o servem e amam? Ó meu Jesus,
meu Deus, meu amor! Se assim com tão extremosa bondade todo vos destes a mim, fazei, eu vo-
la suplico, fazei que eu seja enfim todo vosso. Dilatai-me em vosso amor, para que em meu
coração experimente as suavíssimas delícias e doçuras que tendes guardadas para quem vos
ama e em vosso amor todo se abisma. Arrebata-me o amor, acima de mim mesmo me eleve pela
vivacidade de seus transportes. Oh! Que eu cante o cântico do amor! Que a louvar-vos todas as
forças da minha alma se extingam, e de alegria e amor desfaleça a mesma alma. Ó meu Jesus,
amo-vos de todo coração neste vale de lágrimas, para que um dia vos ame perfeitamente lá
nesse belo céu para onde me chamais; que eu vos ame! Este é brado do meu coração, que eu vos
ame, ó Jesus meu!

Mas o mistério da Encarnação não é só um prodígio de amor, portentos de humilhação encerra


também em si. Aquele a quem no céu milhões de anjos adoram incessantemente repetindo:

“Santo, Santo, Santo, o Senhor todo poderoso, o Deus dos exércitos, o céu e a terra estão cheios
da sua glória”

Aquele a quem terra, mares, astros, acatam e adoram. Aquele a quem tudo obedece, e que todas as
coisas governa encerrado no ventre de uma Virgem, e não se envergonhar nem se horrorizar de tal! Ó
abatimento tanto mais estupendo quanto da natureza divina à humana vai uma distância infinita!
Exclamemos pois:

“Ó Jesus! Verdadeiramente sois um Deus escondido!”

Mui pouco é dizer:

“Sois um Deus humilhado, um Deus eclipsado, um Deus aniquilado!”

Novos termos são precisos para poder exprimir um prodígio tão estranho de humildade.

Homens, quem quer que sejamos, cinza e pó, nada e pecado; exaltemo-nos agora; mostremo-nos,
tenhamo-nos em grande conta, disputemos os primeiros postos, ambicionemos os lugares distintos,
murmuremos de não ter nascido com mais nobreza, mais poder, mais talentos naturais. Tenhamos
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ainda repugnância em sofrer que nos olhem como uns miseráveis, ignorantes, imprudentes, viciosos,
enquanto por nosso amor Jesus Cristo quer aparecer na terra, pobre, humilde e aniquilado. Durante
nove meses habitou Jesus Cristo no seio de Maria; e nesta prisão é que Deus, a mesma grandeza e
sabedoria, ficou oculto e incógnito a todo o mundo. Que lição! Assim obrou este divino Salvador
para nos ensinar a moderarmos o natural desejo que temos de aparecer, e para de bom grado
passarmos nossa vida neste pequeno canto de terra, nesta função baixa e abjeta, em que parecem
menosprezados nossos talentos, e em que de nós ninguém faz caso. Assim quis ele humilhar-se e
aniquilar-se até este ponto, com ser Deus, a fim de que nosso orgulho não houvesse por indigno
imitar os vestígios de um Deus! Ó meu Jesus, meu amor! Não permitais se apodere de mim o espírito
de orgulho. Que! Não seria insofrível desaforo, depois de assim vos ver humilhado, eu, um verme
como sou, procurar exaltar-me e aparecer! Tal não permitais, Senhor Jesus, eu vo-lo suplico.

Escuta, filho meu, a voz do teu Deus aniquilado por teu amor. Se o orgulho se levanta em teu coração
e te grita: Faze-te conhecer ao mundo, muito mais bem poderias fazer em tal estado, em tal lugar, em
tal função, naquele posto elevado; talentos para isso não te faltam; não escutes, ó filho, as suas
palavras; são sibilos da infernal serpente. Aprende a servir-me como eu quero ser servido. Se quero
que tu caminhes sobre minhas pegadas, pelo desprezo, pelo esquecimento dos homens, passando uma
vida oculta, exercendo baixos e vis ministérios, se quero que me honres com a perda e esterilidade
do teus talentos, antes que pelo uso orgulhoso que deles farias, ousarás dizer-me: Porque assim me
fizeste? Não tinha o oleiro poder de fazer da mesma massa de orgulho um vaso destinado a usos vis e
desprezíveis? Ó filho meu! Ama o viver incógnito, e não ser contado por nada. Por melhor que os
outros nunca te hajas, com receio de que te não vá julgar pior Deus que conhece o que há no homem:
Em te pores abaixo dos outros nada arriscas; ser-te-ia funestíssimo preferires-te a um só. O homem
humilde goza de uma paz inalterável; a cólera e inveja perturbam o coração do soberbo. Deus
protege o humilde, e o consola; inclina-se ao humilde e lhe prodigaliza suas graças; e depois da
humilhação, à glória o eleva. Não te capacites, filho, que hás feito progressos na virtude, quando
abaixo de todos te não julgues. Senhor Jesus, arrancai do meu coração, eu vos peço, este orgulho que
como tirano nele reina, pela santa humildade substitui seu lugar, substitui-o por essa virtude tão bela
de que na vossa encarnação destes tão tocante exemplo.

Que apesar de todas as razões que tem o homem de se humilhar, seja ainda orgulhoso, miséria é
bem deplorável; mas que um Deus por nós se humilhe até se fazer homem é uma misericórdia
que nunca assaz poderemos admirar. Ó Jesus, possa eu aproveitar-me dessa grande
misericórdia! Possa utilizar-me da lição que me dais! Ah! Por vossa santa graça vos peço fazei-
me humilde, que sem vós não o posso ser; dai-me a humildade, mas sobre tudo o vosso amor.
Ah! Meu doce Redentor, à vista de todas as graças de que me enriquecestes, à vista do amor
imenso que me testemunhastes, como é possível não expire de dor e arrependimento de tão
ingrato vos ter sido? Vós a descer do céu para me buscar, e eu, pobre ovelha desgarrada, a
repelir-vos para longe de mim! A preferir-vos tantas e tantas vezes prazeres tão indignos! Ó
Jesus meu! Quereis-me possuir, não é assim? Pois bem, tudo abandono, e só quero ser vosso,
todo vosso. Para único objeto de minhas afeições vos elegi: Dilectus meus mihi et ego illi. Vós
em vós pensar.

Uma vez que vos ame, de boa vontade consinto em ser privado de toda a consolação sensível, e
até em ser atribulado com toda a sorte de miséria. Bem vejo, Senhor, quereis que seja todo
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vosso; sim, todo e sem reserva vos quero pertencer. Mentira, decepção, fumo, lodo, e vaidade
são todas as coisas do mundo; vós só sois o único, o verdadeiro bem, vós só podeis saciar-me.
Meu Deus, nada mais quero que ser vosso. Dignai-vos, Senhor, escutar a minha voz: Só a vós
quero e a nada mais. Vinde, vinde ao meu pobre coração; conosco nada eu temo, convosco sou
rico, convosco sou forte, convosco sou o que quereis que seja. Vinde pois, Senhor Jesus, vinde.
Amem, assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Humildade

O “Verbo se fez carne!”, é este exemplo de humildade bem capaz, com o auxílio da divina graça, de
curar o nosso orgulho; saibamos aproveitar-nos dele. Virtude sólida, cristã, digna do céu, não há sem
a humildade, impossível nos é sem ela caminhar muito tempo no caminho reto. Quereis saber, diz
Santo Agostinho, qual é a primeira virtude de um cristão que caminha à perfeição? Pois bem, a
primeira virtude é a humildade, e sempre direi que é a humildade. De todas as mais virtudes esta é a
base sólida e a guarda. Assim como o orgulho é princípio de toda a sorte de pecados, assim é a
humildade fonte de toda a virtude; ela é quem as nutre, quem as protege e sustém. Quem sem esta
virtude pretende amontoar méritos, diz São Gregório, nada mais faz do que atirar poeira ao vento. Se
esta virtude vacila, todas as outras estão prestes a cair em ruína. Com a humildade nos fazemos uns
como anjos, a soberba fez dos anjos demônios.

Vê agora, meu caro Teótimo, que ideia deves ter da humildade, sua importância, sua necessidade vê
com que ardor te deves deitar a adquiri-la. Os meios de a alcançar são:

1º Pedi-la incessantemente a Deus, pois só ele pode dar-nos dom tão precioso.

2º Pensar muitas vezes em tuas faltas passadas e misérias presentes; que aqui de certo hás de
encontrar coisas que te humilhem.

3º Sofrer com paciência, que te desprezem, te humilhem e de ti façam pouco caso. Sem humilhações,
diz São Boaventura, não se pode chegar à humildade. Se pois desejas ser humilde, entra na via da
humilhação, porque se não queres ser humilhado, nunca terás a humildade. Com resignação senão
com alegria aceita todas as humilhações que no comércio da vida se encontram, de todas tira lucro.

4º Não procures aparecer; o homem verdadeiramente humilde preza muito o ser ignorado. De ti
mesmo, de teus talentos e luzes tem sentimentos baixos; pelo último dos homens te reputa.

Sem dúvida que bem difícil é obter tudo isto; mas não descoroçoes, que contigo está Jesus. Faze hoje
todas as ações na tensão de adquirir a humildade. Ora pelos que te humilharam, e talvez procurem
ocasião de o tornar a fazer: sim, ora por eles; que grande é o serviço que te fazem. Não vás
desafogar-te em queixumes contra eles; ir-se-ia assim o fruto de tuas humilhações; sofre, perdoa,
esquece. Seja sincera a tua humildade; humildade fingida e contrafeita é orgulho diabólico. Sê
humilde, não para o pareceres, mas somente por saberes que a humildade agrada ao coração do
nosso bom Mestre. Sê humilde, mas não procures figurar-te humilde. Muita cautela! Olha, o amor
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próprio em tudo penetra, e acabará por te arrebatar também a humildade. Sê humilde, mais uma vez
te repito, ou faze tudo quanto importa para adquirir a humildade; e depois todo te abandona ao
Coração de Jesus. Quem na sua alma quer conservar o precioso tesouro da humildade, deve com todo
o cuidado oculta-lo aos olhos dos homens e até aos seus.

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Capítulo IX
Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo no presépio de Belém
Semetipsum exinanivit formam servi acciplens in similitudinem hominum factus
“A si mesmo se aniquilou tomando a forma e a natureza de escravo, fazendo-se semelhante aos
homens”
(Fl 11, 7)

Extraordinário acontecimento é o que se está preparando. Todo o mundo vai ser testemunha de um
prodígio grande e novo, de um mistério que jamais compreenderá, de um portento de humildade e
amor que por toda a eternidade penetrará de pasmo os Anjos e Santos no céu. Vai nascer nesta nossa
terra – um Deus feito homem. Santos anjos do paraíso, e vós, habitantes da terra, já, já sem demora,
apressai-vos a dispor para este divino infante um palácio e um berço dignos de sua alta majestade.
Eia! Que não haja demoras… mas o que?… Ó meu Deus! Ó meu Deus! Que admiráveis são os
vossos desígnios! Oh! Que alheios são os vossos juízos do pensar do pensar humano! O nosso
Redentor veio para o que era seu e os homens não o quiseram receber. Bem longe de ter palácios à
sua disposição nem um lugar sequer puderam arranjar-lhe quando chegou.

As hospedarias os ricos as tinham enchido, um curral abandonado e deserto é o que há para Jesus, é
neste palácio que ele vai nascer, de berço servir-lhe-á uma manjedoura. É isto realidade! Quê! O
Filho único de Deus onipotente, ele mesmo verdadeiro Deus como seu Pai, tornar-se menino, e
reclinar-se sobre uma pouco de palha num presépio! Oh! Que bem verdade é o dizer-se que ele se
aniquilou a si mesmo! Semetipsum eximanivit! Um Deus num presépio!!!

Salomão, o mais sábio dos reis de Israel, empregou sete anos a levantar um templo à glória do nome
de Deus; prata, ouro, pedrarias nele refulgiam de todas as partes; nunca em lugar algum se viu
magnificências tão extraordinárias, nem tão espantosas prodigalidades: e bem, ao acaba-lo, exclamou
este grande rei: É crível que Deus queira habitar neste templo, e ficar conosco sobre a terra? Se o
céu e os céus dos céus não o podem conter, quanto menos esta casa que edifiquei! Esta foi a
linguagem de Salomão. Ó cristãos! Ora dizei-me, quando nós vemos o nosso Deus nascer num
presépio, não é de nosso dever exclamar: Que é isto! O grande Rei do céu e da terra quer nascer num
curral! Repitamos estas palavras e meditemo-las atentamente: Um Deus num curral!!! E por amor
nosso!!!

Ó meu Jesus, meu terno amigo! Seria possível que me procurasse ainda exaltar, eu cinza e pó,
depois de a tal ponto vos ver humilhado! Certamente que não. De todo o meu coração vou
sinceramente trabalhar em fazer-me humilde, porque sei que amais a humildade; desde já vou
por mãos à obra. Vós, ó meu bom Mestre! Ajudai-me, sustentai a minha fraqueza e derramai
superabundantemente em meu coração o balsamo do vosso amor; só ele poderá curar as
profundas chagas que aí abriram o orgulho e tantas outras paixões; oh! Por quem sois não m’o
recuseis! Ame-vos eu e a minha alma será curada.

Suponhamos agora que não sabemos quem é este pobre menino que no presépio de Belém divisamos,
e interroguemos a fé; responder-nos-á: Este é o filho de Deus, e ele mesmo verdadeiro Deus também.
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Sim, este recém-nascido tão fraco e tão pobre, na aparência tão desprezível, aquele mesmo é que
lançou os fundamentos da terra; aquele a quem esta terra serve de escabelo e em presença de quem
todos os mortais não passam de vis insetos, aquele que estendeu os céus como uma cortina, e os
desenrolou como um pavilhão para o homem; aquele cujo poder é infinito e que é terrível sobre tudo
o que rodeia, aquele cujas maravilhas os céus publicam, e cuja glória brilha na assembleia dos
santos; aquele que domina o orgulho do mar e que de um só olhar seu apazigua as suas indignadas
ondas; aquele enfim que no mais alto dos céus elevou seu trono, e que manda a todos os reis da terra.
Num presépio acaba de nascer, mas céus e terra lhe pertencem; estreita manjedoura que apenas o
pode conter é seu leito; mas de sua imensidade enche os céus e a terra; é pobre menino de um dia,
mas de todas as eternidades ele é Deus; em vis e rotos farrapos está envolto, mas é ele quem às
flores dá seus enfeites, quem dá à natureza seus encantos. Sabeis, ó homens, quem o reduziu a um
estado tão miserável e tão humilhante? O imenso amor que nos tem. Ó amor! Ó amor de um Deus
pelos homens; que mal conhecido que tu és! Ó Deus tão amoroso, que poucos cristãos correspondem
à vossa ternura!

Que o exemplo de um Deus nascido num presépio, de tudo desprovido, te ensine, alma minha, a amar
a pobreza, que aquele frio tão pacientemente sofrido te ensine a amar a mortificação que aquelas
lágrimas por teus pecados derramadas te ensinem a chorar sobre ti mesma. Ah! Para te extrair do
nada uma só palavra lhe basta; mas olha, para te remir, o quanto chora, o quanto geme; e em breve o
verás derramar até à última gota do seu sangue. Pudesses tu pela grandeza do remédio compreender
quão profundas e difíceis de curar foram as chagas que o pecado te abriu! Pudesses tu conceber quão
ardente foi o amor do teu Salvador! Pudesses, pudesses tu amá-lo de todas as tuas forças, e quanto
possível te fosse!

É pois verdade, ó meu rico Jesus! É verdade haverdes vós nascido num presépio, no seio da mais
completa pobreza? É verdade haverdes vós passado toda a vossa vida em sofrimentos para me
fazerdes compreender que amor me tendes? É ainda certo também que eu, criatura ingrata, toda a
vida levar a encher-vos de amarguras com os meus pecados?

Ah! Eu vos peço me façais compreender o grande mal que cometi e o grande amor que me
conquistastes. E se até ao presente com tanta bondade me suportastes, fazei-me, Senhor, a
misericórdia de para vós voltar sem a mínima demora, e não permitais que eu caia outra vez
para o futuro na desgraça de tornar a ofender-vos. Todo, todo me abrasai dos incêndios do
vosso santo amor, e concedei-me a graça de sempre haver presente quanto por mim sofrestes,
assim que doravante de todas as criaturas me esqueça e só em amar-vos e agradar-vos me
preocupe. Do céu à terra vós baixastes para sobre o nosso coração fundardes um reinado de
amor; eia, pois, quem vos estorva! Arrancai-m’o, purificai-o de tudo quanto impedir-vos pode a
sua total posse.

A vossa vontade fazei que seja a minha, que de todas as minhas ações e desejos seja a regra.
Oh! Sim, Deus meu, concedei-me a graça de em tudo e por tudo sempre cumprir vossa
santíssima vontade, e de generosamente vos sacrificar a minha, custe o que custar. Não
permitais mereça eu a exprobração que aos Judeus outrora dirigíeis pela boca do vosso profeta:
Que necessidade tenho eu de vossos jejuns e sacrifícios? Já deles estou saciado; já não posso
suportar o vosso incenso; está manchado a meus olhos. Todas as vossas pretendidas boas obras
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as reprovo, porque são fruto da vosso própria vontade. Do fundo d’alma vos exoro, Deus meu
ensinai-me a fazer a vossa santa vontade e dai-me a graça de até ao meu último suspiro sempre
a guardar! Amem; amem; assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Estima e Amor da Pobreza
Felizes os que possuem riquezas! Ditosos os que se podem escapar às humilhações e provações da
pobreza! Assim fala o mundo. Meu Deus! A linguagem de Jesus Cristo é tão diferente desta! Ai de
vós, ricos, exclama ele. Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus!
Agora a verdade de que lado há de estar? A felicidade de que lado se encontrará? Ah! Que dúvida a
por, se Jesus falou!

Meu caro Teótimo, tu dos bens deste mundo ou és rico ou és pobre. Se possuis riquezas, é desprender
delas o coração; aliás, bem vês, é a ti que Jesus Cristo diz: ai de vós, ricos! Da tua fortuna usa como
se a não fruísses, possui-a como quem a não possuíra. No seio da pobreza derrama abundantes
esmolas: ao órfão e viúva dá conforto. Este dia não o passes sem fazeres obra alguma de caridade;
há tantos pobres e infelizes! Ó Deus! Que se os ricos bem soubessem usar dos seus tesouros que bens
não poderiam fazer!

Se és pobre, longe de ti o murmurar contra a Providência; jamais esqueças que sobre a pobreza
lançou Jesus Cristo um brilho divino. Ele, tu bem o sabes, também era pobre, pobre nasceu, pobre
viveu, e pobre morreu. Aos ricos não invejes suas imensas possessões; ai! Bem longe estão elas de
os fazer felizes. Do pouco que possuis te dá por satisfeito, e eleva teus olhos mais acima, ao céu; lá,
lá é que, querendo tu, serão os teus domínios, lá os teus palácios, lá os teus tesouros. Para isso é
sofrer com paciência as privações do teu estado; hoje, e não somente hoje, mas sempre, dize: Meu
Deus, quereis que eu seja pobre e sofra, seja bendito o vosso Nome! Seja feita a vossa vontade! Dai-
me o vosso amor, e já terei todas as riquezas.

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Capítulo X
Jesus Cristo quis nascer menino para assim mais facilmente se insinuar em nosso
amor e confiança
Parvulus natus est nobis, et filius datus est nobis
“Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado”
(Is 9, 6)

A razão de haver querido o Filho de Deus nascer menino foi para se fazer acessível aos corações de
todas as idades, e para mais facilmente roubar o nosso amor.

E por que razão, pergunta São Francisco de Sales, tomou Jesus esta tão doce e amável condição de
menino, se não foi para nos obrigar a amá-lo e nele depositar toda a confiança? Já antes dissera São
Pedro Crisólogo: Deus quis nascer menino, porque quis ser amado.

Nosso Senhor Jesus Cristo, escreveu o piedoso padre Guéric, ardentemente deseja que o amemos
com esse abandono com que um menino bem formado ama o melhor dos pais; que nós o temamos
como escravos temem um senhor severo e cruel, isso é que ele não pode sofrer. E assim é que
manifestando-se aos homens não ostenta já um aparato de poder e majestade capaz de fazer tremer;
na forma de um menino prefere antes aparecer, pois a salvar e a fazer-se amar é ao que ele vinha, não
a julgar e fazer-se temido. Afoitamente corramos pois agora a lançar-nos ante o trono da sua
misericórdia, nós que outrora no trono de sua majestade nem pensar ao menos podíamos sem nos
sentirmos possuídos de um certo pavor religioso. No presépio de Belém nada há que inspire temor;
misericórdia e amor é o que ali tudo respira. Lá está Jesus cheio de doçura; nem o que é irritar-se,
ele sabe quando é ofendido, ou se alguma coisa se irrita, é fácil em apaziguar-se. Vamos, pois, ao
presépio, tomemos a Jesus nos braços, abracemo-lo ao coração, e peçamos-lhe que nos abrase das
chamas do seu amor.

Senhor Jesus, doce Salvador da minha alma, qual é a minha confiança nesta vida? Ou qual a minha
mais doce consolação de tudo que aos meus olhos se apresenta debaixo do céu? Não sois vós,
Senhor meu Deus, cujas misericórdias não têm número? Onde me foi bem sem vós? E convosco onde
me foi mal? Mais quero ser pobre por vós, que rico sem vós. Por melhor hei o peregrinar convosco
na terra, que sem vós possuir o céu; onde estais vós, aí está o céu, onde faltais está a morte e o
inferno. Todos os meus desejos sois vós, e por isso, longe de vós devo plenamente confiar, e nas
minhas necessidades só de vós, ó meu Deus, posso esperar socorro. Vós sois a minha esperança, a
minha confiança, o meu sempre fiel consolador… Meus olhos a vós se elevam; em vós ponho toda a
minha confiança, o meu Deus. Santificai a minha alma e abençoai-a com a nossa bênção celeste, para
que seja vossa santa morada, trono da vossa eterna glória, e para que neste templo que vos dignais
habitar nada haja, nada haja que ofenda os vossos olhos. Olhai para mim, Senhor, em vossa imensa
bondade; e segundo a multidão de vossas misericórdias ouvi a oração deste pobre servo vosso, longe
de vós desterrado na região as trevas e da morte. Conservai, protegei a alma do vosso pobre filho no
meio dos perigos desta vida corruptível: a vossa graça o acompanhe e conduza pelo caminho da paz
à pátria da eterna luz. Ó Jesus! Jesus Menino, de vossa misericórdia espero esta graça.
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São Francisco de Assis, ao falar do mistério do nascimento do Filho de Deus, transportes de
admiração e amor o enleavam. Sentimentos iguais partilhava São Bernardo; ouçamo-lo: Eis soou
nesta nossa terra de exílio, em nossas tendas de pecadores, um brado de alegria, de regozijo e
salvação. Uma palavra cheia de doçura e consolação acaba de ferir nossos ouvidos. Jubilai, ó
montes, e fazei retumbar os louvores do Senhor. Regozijam-se os céus e exulte a terra, inundem-se de
alegria os campos e tudo o que neles habita, saltem de contentamento as árvores das florestas, ante a
face do nosso Deus, que acaba de chegar ao meio de nós. Escutai, ó céus, presta ouvidos, ó terra; tu
sobretudo, tu ó homem, fica tomado de pasmo; Jesus Cristo, Filho de Deus, acaba de nascer em
Belém de Judá! Que coração há tão de pedra, tão insensível, que não se derreta a uma tão doce
palavra? Que mais agradável nova se nos podia dar? Quando se ouviu tal? Quando ouviu jamais o
mundo tão consoladoras palavras: Jesus Cristo, Filho de Deus, acaba de nascer em Belém de Judá!
De que doce suavidade não são repassadas! Pudesse eu fazer sentir sua doçura e energia; mas
expressões me faltam, e temo tirar-lhes a força, fazendo a mínima mudança. Jesus Cristo, Filho de
Deus, acaba de nascer em Belém de Judá. Ó nascimento adorável!… Ó vós todos, todos que estais no
pó, levantai-vos e adorai a Jesus menino; vem salvar-nos, curar-nos e cobrir-nos de glória.

Ó vós, pecadores, pobres ovelhas desgarradas, já podeis respirar; para vos procurar e salvar o que
estava perdido é que Jesus vem à terra. Ó vós, que estais doentes, havei ânimo; Jesus vem curar os
corações com a unção da sua misericórdia. Ó vós todos que nutris em vossa alma desejos de chegar
às grandes dignidades, regozijais-vos, o Filho de Deus desce à terra para vos fazer participantes do
seu reino. Ide ao presépio, ide sem temor visita-lo; quando está sobre o trono de sua majestade
impõe respeito e temor; mas aqui, na forma de um menino, só instila amor e confiança. Poderiam os
olhos de Jesus inundados em lágrimas não vos tocar o coração? Chora este divino Salvador, mas não
como os outros meninos nem pela mesma razão; os demais meninos por temor e fraqueza é que
choram, Jesus chora de compaixão e amor por nós.

Nasceu-nos um menino; foi-nos dado um filho. Vamos ao presépio e com respeito escutemos as
instruções que nos queira dirigir. Sua língua não pode ainda articular palavra, mas todos os membros
do seu corpinho são outras tantas bocas que clamando-nos estão: Amai a Deus de todas as vossas
forças; bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados; tomai o último lugar; o que se
humilha será exaltado, o que se exalta será humilhado; não queirais entesourar para vós tesouros na
terra, onde a ferrugem e a traça os consome, e onde os ladrões os desenterram e roubam; mas
entesourai para vós tesouros no céu onde não os consome a ferrugem nem a traça e os ladrões não os
desenterram nem roubam; só uma coisa é necessária, e esta coisa necessária é a vossa salvação; de
que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma?…

Meu melífluo Jesus, quão belas acho eu vossas lições! Quão admiráveis! Oh! Quanto eu desejaria
pô-las todas em prática por amor vosso! Mas aí! Sou tão fraco, tão fraco, que para o bem é não poder
nada de todo.

Ó meu Jesus, ó Jesus menino, Jesus tão bom, tão terno, tão compassivo! Tende piedade de mim.
Amar-vos quero eu, bem o sabeis, pois vedes o fundo dos corações: eia pois, concedei-me o
vosso santo amor. Oh! Que se eu pudesse amar-vos como a santa Virgem e todos os santos!
Quão doce me fora! Oh! Quem me dera poder fazer-vos amar de todos os homens! Mas sequer
ao menos, ó Jesus meu! Graças a vós, esse vivo e ardente desejo já o tenho; dignai-vos, eu vo-lo
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suplico, aceitar estes votos do meu coração.

Nasceu-nos um menino, foi-nos dado um filho. O Eterno tornou-se menino, o Onipotente fez-se fraco,
o Infinito e Independente submeteu-se às suas próprias criaturas; humilhou-se até ao ponto de se fazer
homem e nascer num curral, e o amor que nos tem é que o levou a operar todos estes prodígios. Ó
caridade, exclama Santo Tomás de Vilanova, ó mais potente triunfo do amor! O invencível tu o fizeste
vencer o Onipotente deixou-se cativar. Ó verdadeiro excesso de caridade! Um Deus menino! E por
amor de nós! E para nos inspirar confiança! E para melhor cativar o nosso coração! Amemos, pois,
esse Deus tão bom e tão amável, e para de mais em mais nos excitarmos a amá-lo, não nos cansemos
de repetir, e cada vez com uma nova efusão de alegria e amor estas tão tocantes palavras: Nasceu-
nos um menino, foi-nos dado um filho.

Ó meu rico menino Jesus, doce Salvador meu! A vós amo e em vós confio; sim, toda a minha
esperança, e amor sois vós. Ah! Que seria de mim agora pobre miserável, se não descêsseis do
céu para salvar-me? Muito tempo há já que as ofensas de que me tornei culpado me haveriam
arremessado às chamas do inferno. Para sempre seja bendita a vossa misericórdia por ainda
estardes pronto a receber-me se me arrepender dos meus pecados. Ó Jesus meu, vós estais
lendo no fundo do meu coração e vedes quão arrependido estou. Recebei-me em vossa graça, e
fazei que eu morra para mim mesmo, a fim de só para vós, ó meu único bem, viver.

Consumi, em mim, ó fogo abrasador, tudo o que desagrada aos vossos olhos, e tomai posse de
todos os meus afetos. Amo-vos, ó doce e amável menino Jesus! Amo-vos, ó Deus de minha
alma! Amo-vos, ó meu tesouro, minha vida, meu tudo! Amo-vos, e meu último suspiro quero
exalar a dizer: Amo-vos, meu Deus, a fim de então começar amar-vos com um amor mais
perfeito, e que jamais terá fim.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Amor do Próximo

Se alguém disser: Amo a Deus, e aborrecer o seu irmão, é um mentiroso. Porque aquele que não ama
a seu irmão a quem vê, como pode amar a Deus a quem não vê? Apesar destas palavras de São João,
muitos há que andam grosseiramente iludidos. Para com os pobres são duros, dos outros gostam de
dizer mal, injúria por mui leve isso dificilmente a perdoam; desprezam os mais; mas lá porque
repetem a miúde: “Meu Deus, amo-vos! Amo-vos, meu Deus?” julgam-se estar mui sobre o seguro.
Não imites tal proceder, meu caro Teótimo; a todos os homens ama como a teus irmãos, como a
criaturas em que está gravada a imagem de Deus. De todos deseja ardentemente a salvação. Doce e
meigo rosto mostra sempre a todos os teus inimigos e aos que te perseguem muito principalmente. De
tua boca somente saiam palavras de paz e a suave unção da caridade tempere sempre o agro do teu
coração. Para socorrer e consolar os teus irmãos está sempre pronto, sê todo compaixão para com os
aflitos e pecadores. Das virtudes dos outros te alegra como se tuas foram, doi-te das suas misérias,
como das tuas; transforma-te, por assim dizer, em cada um de teus irmãos. A ninguém desprezes.
Repele cuidadosamente os juízos temerários e suspeitas desfavoráveis ao próximo. De todos te
habitua a julgar bem. As palavras e ações de outrem sempre com singelo coração as toma à boa
parte, dizia Luiz de Blois. Oh! Quão bela é a virtude da caridade para com o próximo! Mas ai! Meu
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caro Teótimo, é tão rara! Entra no fundo do teu coração, e vê até que ponto a possuis.

Estás verdadeiramente disposto a perdoar a todos os teus inimigos e até mesmo a fazer-lhes bem?
Não gostas de quando em quando de criticar a vida do próximo? Sonda bem o teu coração, repito;
ama os teus irmãos como a ti mesmo, é o que de ti exige Jesus Cristo, e hás de ser tu que não queiras
obedecer a um tão justo pedido? Nem um dia deixes passar sem tomar as medidas necessárias, para a
noite em verdade puderes dizer: Meu Deus, amo-vos de todo o meu coração, e amo também ao meu
próximo como a mim mesmo por amor de vós.

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Capítulo XI
Da vida privada de Jesus Cristo e de sua humilde submissão a Maria e José
Erat subditus illis
“E Jesus estava à obediência deles”
(Lc 2, 51)

Transportemo-nos, cristãos, à pequena casa de Nazaré, à humilde habitação de Maria e José. Ali
serão feridos nossos olhos de um espetáculo digno de toda a nossa admiração; ali veremos o nosso
Jesus submeter-se, por amor nosso, à sua criatura, e nada mais fazer, até à idade de trinta anos, do
que obedecer. Erat subditus illis. A estas palavras, exclama Bossuet, fico transportado de
admiração; pois este era o único emprego de Jesus Cristo, do Filho de Deus? Todo o seu emprego,
todo o seu exercício, era obedecer a duas de suas criaturas. E obedecer-lhes em quê? Nos mais
baixos ofícios, na prática de uma arte mecânica. Onde estão os que se lastimam que murmuram de
seus cargos não corresponderem ao seu gênio, melhor digamos a seu orgulho? Que venham a casa de
José e Maria e que vejam a Jesus Cristo… Ó Deus, já não estou em mim! Vem, orgulho, vem
arrebentar à vista deste espetáculo! Jesus filho de um carpinteiro, ele mesmo carpinteiro, conhecido
só por este ofício, e não se falar de outro emprego ou ação sua! Diz Bossuet nas “Elevações sobre os
mistérios“.

Eis, ó Jesus meu! Como por amor desta pobre alma e por destruir o meu orgulho colhestes prazer em
ocultar-vos tanto tempo, e encobrir aos olhos dos homens todos os tesouros da vossa divindade! Ah!
Dai-me a graça de vos amar de todo o meu coração, em reconhecimento de tão bela e tão útil lição!

Quero, com meu exemplo, ensinar-te, filho meu, que toda a verdadeira e solida grandeza está em ser
virtuoso sem rumor, sem ostentação, e passar uma vida dependente e oculta. Enquanto que em Nazaré
assim eu vivia incógnito, em Roma e em toda a extensão do império Romano floresciam famosos
oradores, egrégios capitães, ilustres poetas, hábeis políticos; a fama do seu nome retumbava em todo
o mundo; de boca em boca voavam os seus louvores, e quase ninguém haveria que não invejasse tal
sorte. Pensas tu, meu filho, que lá do alto dos céus de uma vã fama: Vede que reputação adquiriram,
de quanta glória se cobrem? Não, meu filho, não, para a pequena casa de Nazaré é que ele lhes
apontava dizia: Vede o meu filho, vede como obedece, até onde se humilha, quanto ama os homens,
quanto me ama a mim mesmo. Não é, pois, o fausto e glória, não são as riquezas e grandezas da terra
que atraem as vistas e admiração de Deus meu Pai! Grande pode ser um homem aos olhos do mundo,
pequeno aos d’Aquele que julga das coisas por seu justo valor. A Deus, tão agradável se pode ser
nos mais baixos e abjetos serviços, como nas mais honradas elevadas funções. Por aqui aprende tu a
te contentares com o estado humilde em que te coloquei, e não desejes um outro em que serias menos
incógnito, menos esquecido, menos desprezado. Lembra-te frequentemente que mil vezes mais vale
estar oculto e desconhecido como eu, que mostrar-se.

Jesus estava à obediência deles. Ó céu, é possível que quem com tanta deferência obedece a Maria
e José, seja esse grande Deus que como Senhor impera em toda a natureza! Sim, e a fé me ordena que
acredite.
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“É a ele, diz São Bernardo, que todos os anjos estão sujeitos, que os principados e potestades
obedecem: e contudo submete-se a Maria e humildemente executa todas as suas ordens. E não é
só a Maria, mas por amor de Maria também a José se submete. Duas coisas admiremos nisto, e
em ambas escolhamos qual mais nos deva assombrar: se o profundo abatimento do Filho, se a
alta dignidade da Mãe, mas tanto uma como outro igualmente são dignas de admiração. Que um
Deus obedeça a uma mulher, humildade é esta sem exemplo: mandar uma mulher a um Deus, é
autoridade e prerrogativa sublime e sem exemplo. Aprende, pois, a obedecer tu, ó homem
mortal; cinca e pó, aprende a submeter-te, aprende a fazer o que te mandam… Cora de
vergonha, cinza orgulhosa! O teu Deus a abater-se, e tu a elevares-te! O teu Deus a submeter-se
aos homens, e tu em teu coração nutrires insensatos desejos de dominar! Tu quereres estar à
testa dos mais! Tu preferistes ao teu Criador! Sim, repara bem, sempre que desejas dominar aos
teus irmãos, acima de Deus te elevas e procuras usurpar os seus direitos… Ó cristão! Se,
homem mortal como és, hás por indigno de ti o imitar a um teu semelhante, que te não seja
indecoroso seguir as pisadas do teu Criador. Se o não podes seguir até onde se elevou, vai ao
menos até onde desceu.”

“E Jesus estava à obediência deles“. Que sublime lição esta para nós que de tão má vontade nos
submetemos aos nossos superiores! Feliz quem dela se quiser aproveitar! Feliz quem com fidelidade
caminhar na via da obediência a outrem! O caminho da obediência, diz Thomaz de Kempis, é o que
conduz ao céu; assim muito mais seguro é obedecer que mandar. O homem que se submete e obedece
sempre está em profunda paz; e ninguém vive em mais serenidade, ninguém com mais doce calma e
segurança morre que o que sempre obedeceu. Só a obediência é a que em nossas almas faz brotar
todas as virtudes; quem as cultiva, quem as pode conservar, ela é. A obediência, diz Salomão, é mui
bem melhor que os sacrifícios: porque ela sacrifica a Deus a nossa própria vontade
incomparavelmente mais preciosa a seus olhos que a carne dos animais que lhe é imolada. É a
obediência uma vitória que o homem sobre si mesmo alcança, e mais glorioso triunfo não há para ele
do que submeter a sua vontade à do outro homem seu semelhante. Deixemo-nos, pois, conduzir, se
sinceramente desejamos chegar ao porto; jamais nos escapem murmúrios ou palavras picantes contra
as pessoas em cuja dependência nos achamos colocados, e acabemos de persuadir-nos que com bem
justa razão merecemos o último lugar, porque todos os outros tem mais virtudes do que nós.

“E Jesus estava à obediência deles“. Obedece a Maria e José até à idade de trinta anos em que seu
Pai o envia a evangelizar os povos da Judeia. Que motivo de vergonha para tantos filhos ingratos e
desnaturados que com uma culpável ânsia sacodem o salutar jugo da obediência que devem aos
autores dos seus dias!

“E Jesus estava à obediência deles“. Sim, em tudo lhes obedecia. Os mais baixo ofícios de uma
pobre casa não o enfastiavam, tanto a peito tomara testemunhar-nos por todos os meios possíveis a
grandeza do seu amor. A quantos abatimentos, doce Jesus meu, vos não condenastes para minha
instrução! Trinta anos vos aprouve ocultar sob o mais ordinário exterior a vossa divindade, para me
ensinar a amar uma vida retirada, para me ensinar a encobrir sob os véus da humildade e do silêncio
as graças que queirais fazer-me. Trinta anos vivestes incógnito a todo o mundo, para me ensinar a
amar a humildade. Trinta anos obedecestes a vossas criaturas, para derrubar este meu orgulho que se
não quer submeter, e aprender a obedecer com simplicidade a todos os que revestistes de vossa
autoridade.
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Perdão! Meu deus, perdão! Até aqui bem pouco me aproveitei dos vossos exemplos, mas para o
futuro hei de ver se me aproveito; ajudai-me, ajudai-me. Ó Jesus meu! Dai-me a graça de
renunciar à própria vontade, para não seguir senão a vossa. Dai-me a graça de caminhar sobre
os vossos vestígios e procurar a santa humildade, com mais afã ainda do que põem os
ambiciosos do mundo em anelar as honras. Sois o grande Deus, o soberano Senhor do céu e da
terra, o Deus dos deuses, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, e abatei-vos! E eu, verme da
terra, miserável nada, exalto-me! Ó meu Deus! Perdoai-me a minha loucura. Faço-vos confissão
de minhas misérias: confesso que sou um filho de cólera, que fui concebido na iniquidade, e que
minha mãe me gerou no pecado. Neste mundo entrei com a nodoa do criem, e a morte, em seu
justo castigo, dele me tirará brevemente, Ó bom e misericordioso Jesus! Tende piedade de mim.
Continuamente agitada está minha alma, como um mar, pelo vento das paixões e desejos
desregrados. Os meus pecados, ó Deus meu, excedem o número dos cabelos da minha cabeça, e
não mereço levantar os olhos ao céu, por causa da multidão dos meus pecados. Ah! Livrai-me
por vossa bondade. Senhor, meu Deus, apressai-vos a me socorrer. Lembrai-vos da vossa
bondade, recordai-vos das vossas misericórdias, que são eternas, e curai a minha alma pois que
só vós a podeis curar. Sou pobre, de tudo necessitado, e miséria tal é esta minha que a não me
socorrerdes, nem sequer querer o bem posso, menos executar os meus bons desejos. E com toda
esta fraqueza, e com toda esta miséria, ouso ainda ser orgulhoso! Ó Deus meu! Piedade; toquem-
vos o coração os meus suspiros, obrigue-vos a escutar-me essa caridade que por mim vos fez
morrer na cruz. O vosso amor, o perdão dos meus pecados, a humildade, o espírito de
obediência, é tudo o que vos peço. Vinde, ó Jesus meu, a este coração, nele fixai a vossa
morada, nele imperai como soberano, sempre, sempre. Vinde, e sereis a minha consolação, a
minha força, o meu sustentáculo, o meu amigo, o meu irmão, o meu tesouro, a minha vida, o meu
tudo.

Vinde, e ensinar-me-eis a vos amar sempre e mais de cada vez, e a me desprender das criaturas.
Vinde, e operareis um milagre digno do meu Jesus; de um pecador orgulhoso e sensual fareis um
penitente humilde e mortificado. Ah! Vinde, ó meu Jesus, ó Deus da minha alma! Vinde, vinde.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Vida Oculta e da Obediência

Hoje, meu caro Teótimo, hás de trabalhar em imitar a Jesus Cristo na vida oculta e obediência.

1º A Vida Oculta. Evita quanto o decoro do teu estado permitir o aparecer nas assembleias
mundanas; nunca um servo de Deus está bem seguro senão quando se acha no retiro. Oculta quanto
ser possa tudo o que puderes ter de bom. Por sábio ou rico não busques passar; pois, ai! O que são
todas as riquezas e ciências do mundo? Preza o viver incógnito e não ser tido em conta alguma. Oh! E
quão ditoso serás, quando sem mágoa vires todos os mais honrados, elevados a cargos, a dignidades;
e a ti, todos a desprezarem-te, a nem em ti pensarem, e até mesmo a darem mostra de te aborrecerem!
Dá-te toda a pressa a arrancar do teu coração a ambição; que ela afasta de Jesus a alma que a nutre;
atormenta-a de cruciantes dores e nunca a deixa em paz. Ah! Que se os homens bem soubessem não
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serem as honras mais que pesadas cargas, após elas não iriam com tanto afã. Nunca em tuas boas
obras procures os aplausos dos homens; contenta-te com ter por testemunha a Deus e tua consciência.

Um dia no leito da morte, estarás absorvido de celestes consolações por sempre haveres vivido
humilde, pequeno a teus próprios olhos, de todos esquecido e ignorado; dia virá em que conhecerás
todo o fruto da vida oculta de Deus.

2º A Obediência. Com singeleza e sem murmúrio obedece a todo o que sobre ti tenha alguma
autoridade; em suas ordens acostuma-te a ver as do mesmo Jesus Cristo. Consiste a verdadeira
obediência em fazer, não o que nos agrada, mas sim o mais oposto ao nosso caráter. Sobre este ponto
escuta São Bernardo; um homem verdadeiramente obediente não sabe o que é diferir e deixar para
amanhã; é inimigo de demoras; ainda bem o não tem mandado e já a obediência está cumprida;
previne os mandados que se lhe querem fazer; sempre está pronto a ver, dizer, fazer tudo o que os
outros querem e a ir onde o enviam. Reconheces-te neste quadro? Hoje, pois, toma a boa e generosa
resolução de praticar a santa obediência em sua perfeição, segundo o estado em que te colocou a
Providência. se vives em comunidade, dir-te-ei: obedece a teus superiores em tudo o que não for
pecado, mas obedece singelamente e sem resmungar, sem te pores a examinar porque te mandam, sem
investigar outra razão de obedecer mais que a de agradar a Nosso Senhor. Se vives no meio do
mundo dir-te-ei: obedece ao diretor da tua consciência como ao próprio Deus. Servos, obedecei aos
vossos senhores temporais, com temor e tremor e na sinceridade do vosso coração, como
obedeceríeis a Jesus Cristo; obedecei não só aos senhores bons e moderados, mas também aos de
dura condição.

Bem sei eu, meu caro Teótimo, sim bem sei que custa tanto quebrar a própria vontade, que é tão
difícil domá-la, encadeá-la e submete-la à de outrem, que às vezes, à vista das dificuldades, tentado
te verás abandonar a carreira começada e ir viver na independência. Mas, ó caro irmão, nada de
desanimar! Levanta os olhos ao céu, a esse tão belo céu, palácio da eterna glória: lá é que Deus te
está esperando para dignamente te recompensar dos teus esforços, de lá é que te está animando no
meio dos teus combates e te diz: Meu filho, não te esqueças que por teu amor e para te deixar um
belo exemplo a seguir, Jesus Cristo, meu Filho e teu Salvador, obedeceu trinta anos a duas criaturas
suas; não olvides que levou a perfeição da obediência até morrer sobre a cruz; não percas de vista
que o discípulo não deve ser mais do que o mestre; se o teu Salvador toda sua vida submeteu a sua
vontade, bem justo é que também submetas a tua! Coragem pois! A tua recompensa será o céu.

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Capítulo XII
Quanto nos devem excitar ao amor de Jesus Cristo a bondade e misericórdia
que em sua vida ativa patenteou
Pertransiit benefaciendo
“Passou fazendo bem”
(At 10, 38)

De modo algum pretendo eu apresentar à edificação das almas piedosas todos os lances de bondade
que em sua vida ativa Jesus Cristo multiplicou; necessário para isso me fora copiar todo o
Evangelho. Entreter-me em alguns, e fazer deles o assunto do presente capitulo, é só o meu intento.

I. O Leproso
Acabava Nosso Senhor de descer do monte em que ao povo dera admiráveis lições, e seguia-o uma
grande multidão. Se não quando diante dele se apresenta um leproso, lança-se a seus pés e lhe diz:

“Se tu queres, Senhor, bem me podes a limpar”

Doeu-se Jesus deste pobre enfermo, e estendendo a mão tocou-o dizendo:

“Pois eu quero. Fica limpo”

Um outro leproso há como o do Evangelho, Senhor Jesus, que neste momento implorar vem vosso
socorro; e esse leproso, eu sou. A minha lepra é toda espiritual, mas por isso mesmo tanto mais
hedionda é, e até tenho vergonha de vo-la mostrar. São imperfeições, são as contínuas faltas veniais,
são as tibiezas em vosso serviço, a lepra da minha alma. Dignai-vos, Jesus meu! Curar-me, para que
minha pobre alma se torne pura e bella a vossos olhos, afim que vos sirva com um fervor sempre
novo. Quando ao meu coração vierdes pela santa comunhão fazei-me ouvir estas palavras de tanta
consolação:

“Meu filho, eu quero, fica limpo”

II. O Centurião
Um centurião tinha doente um servo a quem muito queria. Como tivesse ouvido falar de Jesus e da
bondade com que curava os doentes, chegou-se a ele no momento em que entrava em Cafarnaum e lhe
dirige esta suplica:

“Senhor, o meu criado jaz em casa doente de uma paralisia e padece muito com ela”

Nada mais lhe disse, mas muito era já isto para mover a compaixão do nosso bom Mestre, que logo,
logo lhe responde:
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“Consola-te, eu irei, e o curarei”

“Não, Senhor”, responde o humilde centurião, “não te fatigues; porque eu não sou digno de que
entres em minha casa; mas dize tu só uma palavra e o meu criado será salvo”

Jesus louvou em presença de todos estas palavras cheias de fé, que a Igreja recolheu como a mais
profunda expressão de humildade e disse ao centurião:

“Vai, e faça-se segundo tu creste”

E naquela mesma hora ficou são o criado.

Ó bom Jesus! como bem sabeis, a minha alma está tão doente, tão doente: uma ardente febre a
consome e vai minando pouco a pouco; é queimada por um fogo secreto que nada o pode extinguir, é
comprimida de uma imperiosa necessidade de amar e no amor das criaturas só acha misérias e dores.
Bom Jesus, havei piedade dela! Vossas amabilidades infinitas a absorveram, e por vós suspira noite
e dia; é muito indigna, sim, é muito indigna, mas ainda tem a doce esperança de que digais:

“Irei a tua casa, e curar-te-ei”

Oh! vinde, Senhor Jesus; ainda para eu gozar da vossa doce presença; vinde para eu vos amar quanto
possível me for; vinde para eu vos abraçar de modo que não mais me torne a separar de vós; vinde,
meu Deus, vinde porque sem vós não posso viver.

III. A Cananéia
“Passou um dia Jesus para as partes de Tiro e Sidonia; e eis que uma mulher Cananéia, que tinha
saído daqueles confins, gritou, dizendo-lhe: ‘Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim,
que está minha filha miseravelmente atormentada do demônio'”

Tocante suplica esta, e que nós mesmos frequentemente devemos repetir:

“Tende piedade de mim, Senhor, que a minha alma está cruelmente atormentada do demônio”

Mas Jesus não lhe respondeu palavra, e chegando-se seus discípulos, lhe pediam, dizendo:

“Concede-lhe o que ela pede, porque vem gritando atrás de nós”

A tão tocante suplica Jesus parece ficar insensível, nem resposta dá, nem mesmo os olhos volta para
aquela que a tão grandes brados o invoca; a seu fervor opõe uma indiferença aparente bem mais
capaz de fazer descoroçoar, do que uma recusa que fosse. Contudo esta aflita mãe não perde o animo;
continua bradando e repetindo sem cessar:

“Senhor, Filho de David, tem piedade de mim”

Fatigados os apóstolos dos gritos desta mulher, ou tocados tal¬vez de sua constância e desdita,
fazem-se seus intercessores,http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
e aproximando-se de Jesus lhe pedem se renda ás suas instâncias e ouça
seus votos, ou ceda ao menos ás suas importunidades, “porque, diziam, ela não cessa de gritar atrás
de nós“. Mas ele respondendo lhes disse:

“Eu não fui enviado senão ás ovelhas que pereceram da casa de Israel”

Quando a Cananéia viu os apóstolos fazerem-se os seus intercessores para com Jesus, que tão doce
esperança não concebeu! Com que atenção escutava a resposta do Salvador! Mas qual não foi a sua
surpresa e dor ao ouvir pronunciar estas fulminantes palavras:

“Eu não fui enviado senão ás ovelhas perdidas da casa de Israel”

Mãe infeliz! Ouviste bem o que disse Jesus Cristo? Já não é pelo silencio que se explica, suas
palavras são claras e precisas; que esperança te pode ainda ficar? Retira-te, vai chorar a tua sorte e a
de tua filha; agora a tua única consolação são as lágrimas e o desespero… Ah! Para nós nem tanto
fora preciso para que tomássemos tal determinação!… Mas não assim o julga a Cananéia; ante os
obstáculos, a vivacidade dos seus desejos e da sua fé reanima-se; aparta o que a impede de chegar a
Jesus e lança-se a seus pés; sem alcançar o que pede não o há de deixar.

Com mais instância que nunca renova a sua suplica e diz:

“Senhor, bem conheceis a minha angus¬tia, vedes a minha confiança, valei-me”

Ah! Que se nós soubéramos orar com uma fé destas, como um tal fervor e perseverança, não
poderíamos obter tudo? E Jesus respondendo-lhe disse:

“Não é bom tomar o pão dos filhos e lança-lo aos cães”

Que resposta na boca do melhor dos mestres, do mais terno dos pais! Todavia Jesus, ao proferir estas
palavras, consentia ainda a Cananéia a seus pés; para ela isto era o favor mais inestimável, e ela o
tinha já pelo mais seguro penhor do milagre que solicitava. Os termos de Jesus Cristo em nada a
ofenderam; não os achou desabridos, que a verdadeira humildade de nada se enfada. Reconheceu que
lhe quadravam e neles descobriu mesmo um motivo que podia pro- pôr-lhe para ser ouvida.

Nos caminhos de Deus nada há mais cego que o orgulho, nada mais penetrante do que a humilda¬de.
Talvez ela até compreendesse desde logo, que sob expressões em aparência tão duras lhe franqueava
entrada e lhe fornecia meio seguro de o desarmar. Com efeito a graça deste Deus Salvador
derramando a unção no coração que parecia querer ferir, lhe fornece uma favorável ocasião, lança
mão dela a humilde Cananéia:

“Assim é, Senhor, lhe diz, não é justo dar aos cães o pão dos filhos, mas também os
cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos; as migalhas que escapam
aos filhos ninguém lhas proíbe. Ora este é o meu estado, esta’ a minha situação, este todo o
objeto das minhas suplicas. Sobre os filhos de Abraão derramai profusamente as vossas
enchentes de graças, eu para mim não aspiro mais que a algum desperdício ou sobra desses
favores”

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Como uma tal resposta não deveu agradar ao Coração de Jesus! Ah! Que se nós bem conhecêramos
este divino Coração, como o não amaríamos! Como nele não depositaríamos toda a nossa confiança!
Só a humildade é quem no-lo pode fazer conhecer. Ir-me-ei pois lançar aos pés do meu Salvador em
sua casa, e lá lhe pedirei a salvação da minha alma.

E que ele não me escute, elevarei a minha voz; que me repila, perseverarei; que me exprobre os meus
crimes e perfídias, direi com ele ; que me diga que o paraíso não é para os pecadores como eu,
responder-lhe-ei: Assim é, Senhor, mas vós viestes chamar os pecadores, curar os doentes, livrar os
possessos, santificar e salvar os que em vós creem, quem em vós só confiam, que vosso socorro
imploram e esperam. Este é o meu estado, esta a minha situação, este o objeto das minhas suplicas.
Lá os vossos favores prodigalizai-os ás almas fiéis que os merecem, eu por mim não aspiro a
benefícios tão grandes. Contudo depois de saciar os filhos da casa, não vos ficarão algumas migalhas
que queirais repartir comigo?…

Então Jesus Cristo Senhor Nosso lhe disse deste modo:

“Ó mulher, grande é a tua fé”

O divino Salvador, que consolação não foi para esse Coração poder assim louvar a fé desta mulher,
que vós mesmo puséreis a tão rudes provas! E tu, ó mulher! Que dita a tua em te veres assim louvar
por Aquele que conhece o fundo dos corações! Bem julgavas tu dele, quando de nada te deixaste
amedrontar, nem temeste ser importuna ou indiscreta… Ah! Não se dá outro tanto comigo, a mim tudo
me mete medo, cedo à mínima dificuldade; à mínima secura que experimente logo perco o animo.

“Faça-se contigo como queres”

E desde aquela hora ficou sã a sua filha… Desejava o livramento de sua filha, e sua filha é no mesmo
instante livre… A nossa vontade é ordinariamente a medida das graças que o Senhor nos faz… A
primeira condição de uma oração santa, a que as mais das vezes nos falta, é o querermos
sinceramente o que pedimos.

Meu doce Salvador, meu amigo, meu terno irmão, vinde, eu vo-lo suplico, em socorro da minha
profunda miséria. Estou devorado do desejo de vos amar e sinto não poder amar-vos sem a
ajuda da vossa graça. Ah ! Jesus, dai-me o vosso amor ; desprendei o meu coração das riquezas,
dos prazeres, das honras, de tudo o que não sois vós. Ai ! tudo neste mundo passa ; só vós não
passais, ó meu Deus ! amo-vos pois sempre, sempre!

IV. A mulher adultera


“Os escribas e os fariseus trouxeram a Jesus, que ensinava no templo, uma mulher que fora
apanhada em adultério, e a puseram no meio, e lhe disseram: ‘Mestre, esta mulher foi agora
mesmo apanhada em adultério. E Moisés na lei mandou-nos apedrejar a estas tais. Que dizes tu
logo?'”

Diziam pois isto os Judeus tentando-o para o puderem acusar. Com isto, diz Santo Agostinho, como
que armavam um duplo laço à sabedoria do Salva¬dor; se a condenava à morte, perdia a reputação
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de bondade e doçura que gozava; se a deixava ir livre, dava lugar à calunia e passava por inimigo da
lei. Nestes apuros que havia de fazer o nosso bom Mestre? Não diz: “Deem-lhe a morte”; tão pouco
diz: “Deixem-na ir”; mas como conhecia os desígnios dos seus inimigos e não queria corresponder-
lhes, fez primeiro o que é costume fazer-se quando se quer iludir uma questão importuna ou
especiosa, parece fazermo-nos desentendidos, e ter o espírito ocupado com outras coisas. Neste
intuito é que Jesus, “abaixando-se pôs-se a escrever com o dedo na terra”. Não o compreenderam
seus inimigos ou então quiseram forçar a resposta, que, julgavam eles, daria pasto ás suas calunias,
cuja confusão procurava sua bondade fugir.

Persistindo eles em interroga-lo, levantou-se e lhes disse:

“O que de vós outros está sem pecado seja o primeiro que a apedreje. E tornando a abaixar-se,
escrevia na terra””

Para os escribas e fariseus estas palavras foram como um raio; pareceu- lhes que elas acabavam de
pôr à mostra todos os crimes de suas consciências impuras; “logo deram pressa em se retirar um a
um, sendo os mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio em pé”.
Ficou só esta pobre mulher com Jesus, ou como Santo Agostinho explica, restou só o doente com o
medico, a profunda miséria com a soberana misericórdia. Oh! Que vergonha e temor seria o desta
mulher! pois se ela ainda não sabia quão compassivo e misericordioso era aquele em cuja presença
se achava! Mas vai já sabê-lo; porque “erguendo-se Jesus, e olhando para ela com bondade, disse-
lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém,
Senhor. Então disse Jesus; Nem eu tão pouco te condenarei; vai, e não queiras pecar mais.”

Ah! Bom Jesus! Tão compassivo para com as nossas misérias; Jesus que com tanta misericórdia
perdoais; qual é o coração que recusará amar-vos? Eu por mim, ó meu Salvador, só a vós quero
prender-me, a vós só quero servir e amar de todas as minhas forças. Recebei-me em o numero
dessas almas queridas a quem de preferência prodigalizais as vossas graças, e fazei que vos
seja fiel até ao meu ultimo suspiro.

V. Os meninos abençoados por Jesus


Um dia estava Jesus ocupado a dar a seus discípulos lições da mais alta importância, quando lhe
foram apresentados vários meninos, para lhes impor as mãos, e fazer oração por eles. Estes meninos,
divisando no rosto do divino Mestre um não sei que de doce e afetuoso que roubava os corações,
chegavam-se a ele sem temor e com esse abandono que caracteriza aquela idade.

“E os discípulos os repeliam com palavras ásperas”, como temendo não viessem importunar a
Jesus. Bem mal conheciam ainda este bom Mestre! “Porém Jesus, chamando a si os meninos, disse:
Deixai vir a mim os meninos e não lho embaraceis; porque dos tais é o reino de Deus”, e dos que a
eles se assemelham, pela simplicidade, pela inocência e pela obediência.

“Em verdade vos digo, todo o que não receber o reino de Deus, como um menino, não entrará
nele”

Depois de ter dado de passagem esta lição a seus apóstolos e a todos os cristãos na pessoa deles, fez
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aproximar os meninos que ali estavam, “e abraçando-os, e pondo sobre eles as mãos, os
abençoava”. Bem-aventurados meninos! Esta bênção de Jesus devia ser para vós a fonte de muitas
graças.

VI. O cego de Jericó


“Sucedeu porém, que quando Jesus ia chegando a Jericó, estava sentado à borda da estrada um
cego pedindo esmola. E ouvindo o tropel da gente que passava, perguntou que era aquilo. E
responderam-lhe que era Jesus Nazareno que passava”

Jesus era conhecido de todo o país: os pobres e aflitos sabiam já qual era a sua compaixão para com
eles; do seu poder ninguém duvidava, e este mesmo cego por sem duvida havia de saber que Jesus
curara em particular muitos cegos.

Quando pois ouviu dizer que era Jesus Nazareno que passava, que alegria não sentiu logo !
Compreendeu que esta era para ele uma ocasião única que cumpria não deixar passar, e assim, cheio
de confiança, “se pôs a bradar, dizendo: Jesus, Filho de David, tem de mim piedade”. Como não
soubesse o momento em que precisamente pasmava Jesus Cristo, não havia cessar de exclamar, e
repetir a sua humilde prece, e implorar a misericórdia daquele que sabia era tão bom e compassivo.

“E os que iam adiante repreendiam-no para que se calasse. Porém ela cada vez gritava mais:
Filho de David, tem de mim piedade”

Se eles não tinham a necessidade nem a confiança do desditoso que solicita um milagre! mas o pobre
cego fez-se surdo a todas as advertências, e então é que ainda mais gritava.

“Então Jesus parando, mandou que lho trouxessem. E quando ele chegou, fez-lhe esta pergunta:
Que queres que te faça?”

Muito bem sabia Jesus o que desejava o pobre cego; mas tinha suas razões para lhe fazer tal
pergunta. Uma mãe, diz o Padre de Ligury, na Vida de Jesus Cristo, perfeitamente conhece as
necessidades de seu filho, quer não obstante que lhas declare. E isto não é somente para que ele
reconheça a sua autoridade; é também por gostar de o ver a balbuciar o seus desejos, e a
testemunhar-lhe sua confiança; é para também excitar e nutrir o seu reconhecimento pela facilidade
com que mostra condescender ás suas vontades. Ama e quer ser amada; estes são os seus motivos,
que bem assim são os de Deus, quando exige lhe exponhamos nossas necessidades que melhor que
nós ele conhece. E ele respondeu:

“Senhor, fazei que eu veja”

E Jesus então lhe diz, com essa poderosa autoridade que maravilhosamente obedecia á bondade do
seu coração:

“Vê, a tua fé te salvou”

E logo imediatamente viu, e o foi seguindo engrandecendo a Deus.


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VII. Jesus chora sobre Jerusalém

“Avizinhava-se Nosso Senhor um dia de Jerusalém, e ao ver a cidade chorou sobre ela”

Jesus a chorar! Oh! Que imponente e solene é ver um Deus a derramar lágrimas!

A causa destas lágrimas era bem digna de um coração como o seu. Jerusalém devia ser exterminada,.
e exterminada por causa dos seus crimes, aos quais ia dar remate pelo maior de todos. Uma vez
manchada no sangue do seu Messias, a rainha das cidades não devia ser mais que um montão de
cinzas ensopada no sangue de seus cidadãos. Dentro em breves dias ia ser perpetrado este atentado, e
o castigo só alguns anos seria deferido; e ambas estas coisas não estavam menos presentes ao
Salvador do que se atualmente as estivesse vendo. E para um Deus salvador que espetáculo este! e
com que profunda amargura lhe fez dirigir a esta infeliz cidade estas tristes e patéticas palavras:

“Ah! se ao menos neste dia, que agora te foi dado, conhecesses ainda tu o que te pode trazer a
paz, mas por ora tudo isto está encoberto aos teus olhos. Porque virá um tempo funesto para ti,
no qual os teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te porão em aperto de todas as
partes; e te derrubarão por terra a ti e a teus filhos que estão dentro de ti, e não deixarão em ti
pedra sobre pedra; porquanto não conheceste o tempo da tua visitação”

Ainda um outro motivo bem forte tinha Jesus para derramar lágrimas; ele pensava em todos nós
pessoalmente, e nas calamidades de Jerusalém via a desdita das afinas que perecem. Virá, exclama,
um tempo funesto para ti, em que teus inimigos te cercarão de trincheiras; de todas as partes te
cercarão e apertarão. A Jerusalém assim aconteceu ponto por ponto; de todos é sabido os espantosos
trabalhos que os romanos fizeram, e essa muralha que em volta da cidade elevaram e cada vez mais
os comprimia; o que causou essa horrorosa fome em que as mães chegavam a comer os seus filhos. E
assim há de também acontecer à alma pecadora, apertada de todos os lados por seus maus hábitos,
nem graça nem pão da vida nela poderão já penetrar; morrerá à fome, sucumbirá ao peso dos
pecados e não ficará mais pedra sobre pedra. Triste estado desta alma: universal destruição de todo
o edifício interior! Nem razão, nem parte superior, nada, nada de espírito, é tudo embrutecido, é tudo
corpo, é tudo sentidos; tudo completamente é lançado por terra.

Que é dessa bela arquitetura que patenteava a mão do Onipotente? Já nada existe; já nada está pedra
sobre pedra; não há ordem nem conexão nesta alma, nenhuma peça está unida à outra, é tudo uma
desordem universal. Porque? foi tirado o principio; Deus, sem temor, a consciência, essas primeiras
impressões que fazem sentir à criatura racional que há um soberano; e destruído este fundamento que
podia ficar em pé?… A este tão triste espetáculo Jesus não pode conter as lágrimas: “Se tu
soubesses, ó alma, se tu soubesses!…“. Não pode acabar, sufocam-lhe a fala os soluços, sua língua
não pode exprimir a cegueira desta alma. Se tu soubesses! ao menos neste dia que ainda te é dado e
em que Deus te visita por sua graça. Deus sabe o dia depois do qual já não haverá recursos para a
alma, “porquanto, diz Jesus, não conheceste o tempo da tua visitação”. Quando uma luz interior te
mostra os teus crimes, quando és incitado a dar gloria a Deus, quando tudo em ti brada que toda te
deves dar a ele, como nesse dia da visitação de Jerusalém os mesmos meninos aclamavam o Filho de
David; se tu não escutas, o momento vai-se, e esta graça tão viva e tão forte não voltará…

“Tudo está encoberto a teus olhos”


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O teu coração fica entorpecido; fechados e obscurecidos os olhos; cegam-te as paixões; negro véu
pesa sobre as tuas pálpebras, mortal letargio as agrava. Ó alma; Jesus chora e tu não choras! Chora,
chora, espiritual Jerusalém; chora a tua perda, ao menos hoje, Tioje que o Senhor te visita de um
modo tão admirável. Se até aqui foste insensível à tua própria ruína, chora hoje e vi¬verás. Não
percas este momento de graça, porque não sabes se será o ultimo que Deus te concede (Bossuet).

VIII. Jesus ressuscita Lázaro


“Estava pois enfermo um homem chamado Lázaro que era da aldeia de Betânia, onde assistiam
Maria e Martha suas irmãs. Mandaram pois suas irmãs dizer a Jesus: Senhor, eis ai está enfermo
aquele que tu amas”

Excelente maneira de orar! diz Bossuet com os santos Padres; sem nada pedir expõem-se ao amante a
necessidade do amigo. Oremos nós também assim; acabemos de persuadir-nos de que Jesus nos ama;
apresentemo-nos a ele como doentes, sem nada pedir, sem nada dizer. Oremos assim por nós
mesmos, oremos assim pelos outros. É esta uma maneira de orar das mais excelentes… Muitas vezes
disseram a Jesus no seu Evangelho:

“Vem, Senhor, e cura, impõe as tuas mãos e toca o enfermo”

Aqui diz-se simplesmente:

“Aquele que tu amas está enfermo”

Jesus compreende a voz da necessidade, e tanto mais, quanto neste modo de orar há um não sei que
de mais submisso, mais respeitoso e mais terno até. Como esta oração é tão amável! Pratiquemo-la
principalmente para as doenças da nossa alma.

“E ouvindo isto Jesus, disse-lhes: Esta enfermidade não se encaminha a morrer, mas a dar gloria
a Deus, para o Filho de Deus ser glorificado por ela”

Lázaro sempre morreu desta doença, mas o que o Salvados queria dizer era que a morte seria
vencida e o Filho de Deus glorificado por esta virtude.

“Ora Jesus amava Martha, sua irmã Maria e Lázaro”

Um coração tão terno e sensível como o de Jesus necessariamente devia ter amigos, tinha poucos,
mas esses que tinha eram bons, virtuosos e caritativos. Tomemos a Jesus por modelo das nossas
amizades — Jesus partiu com os seus apóstolos; “chegou enfim e achou que Lázaro estava na
sepultura havia já quatro dias“. Estava pois Betânia em distancia de Jerusalém, perto de quinze
estádios. E muitos dos Judeus tinham vindo a Marta e a Maria, para as consolarem na morte de seu
irmão. Martha pois tanto que ouviu que vinha Jesus, saiu a recebe-lo: e Maria ficou em casa. Disse
então Martha a Jesus:

“Senhor, se tu houveras estado aqui, não morrera meu irmão”

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É a suplica de uma amiga ao seu amigo cujo poder e bondade conhece. Não, Senhor, “se tu houveras
estado aqui, não morrera meu irmão”; com uma só palavra vossa tê-lo-íeis curado. É tal vossa
bondade que não tivéreis coração de o deixar morrer à vossa vista, tal é o vosso poder que have-lo-
ieis preservado da morte. Mas vós quisestes estar ausente. Bem que ausente podíeis cura-lo; se não
quisestes, vós sois o Senhor; submetemo-nos ás vossas ordens, e por mais rigorosas que sejam, não
diminuirão jamais nem o nosso amor para convosco nem a confiança que em vós temos.

“Mas também sei agora que tudo o que pedires a Deus, Deus t’o concederá”

Tendes todo o poder, não só para prevenir a morte, mas ainda para lhe arrebatar a presa que já tem
entre mãos.

“Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir. Disse-lhe Martha: Eu sei que ele há de
ressurgir na ressurreição que haverá no ultimo dia”

Duvidar que Jesus o possa ainda agora ressuscitar não duvida, há se por indigna de tal graça. Disse-
lhe Jesus:

“Eu sou a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá: e todo o que
vive e crê em mim não morrerá eterna¬mente”

Ó palavra cheia de consolação! eu que atualmente gozo da vida, porque temo a morte? Pois que creio
em Jesus Cristo (e nele creio de todo o meu coração) não morrerei. Este corpo fraco e enfermo
deixá-lo-ei sim, mas é para um dia o tornar impassível e glorioso; e apenas sair do corpo, enquanto
esse dia não chega, continuarei a viver, não farei mais que mudar de habitação, e em lugar de viver
na terra nó meio de crimes que a inundam, irei mas é viver com Jesus no céu no seio da sua gloria.
Importa bem meditar esta verdade para nos confortamos contra o temor da morte que tão violento é
nalguns homens que quase perdem o espírito ao anunciar-lhe a vizinhança da morte; é a experiência
que o confirma. Grande necessidade temos pois de nos munirmos contra este temor, o que se alcança
meditando principalmente nas promessas do Evangelho contra a morte e dando com viva fé o nosso
coração à vida que esperamos. E depois de ter ouvido de Jesus estas palavras, “retirou-se Mar- tha e
foi chamar em segredo a sua irmã Maria, a quem disse:

“É chegado o Mestre e ele te chama”

Que nova para Maria!

“Ela como ouviu isto, levantou-se logo e foi busca-lo”

Em nossas aflições, em nossas penas Jesus nos falia no intimo do coração, chama-nos, convida-nos a
ir a ele e a procurar só nele a nossa consolação. Imitemos a presteza e diligencia de Maria; deixemos
os homens para ir derramar o nosso coração e as nossas lágrimas aos pés de Jesus. – Maria porém
depois de chegar aonde Jesus estava, tanto que o viu, lançou-se a seus pés e disse-lhe como sua irmã,
com tanta confiança e resignação e com mais ternura ainda:

“Senhor, se tu houveras estado aqui não morrera meu irmão”


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Apenas pronunciara estas palavras, derreteu-se logo em lágrimas, de sorte que seus soluços e
gemidos não a deixaram dizer mais. Chora, terna Maria, chora aos pés do teu Salvador e ante seus
olhos.

Ah! Não são consoladores essas lágrimas! Ah! Não são tão diferentes das que derramastes a sós
contigo ou em presença dos que te vieram visitar! Pois se tu agora choras aos pés do teu
Mestres!… Deles é que outrora escutavas a sua voz, é de lá que ele ouve os teus gemidos. Ah!
Quem me dera a mim também chorar aos pés do meu Salvador, chorar os meus pecados,
deplorar a minha miséria! Oh! E porque não hei de eu levar aos pés do meu divino Salvador
todas as minhas dores e aflições? Se em mim mesmo as rotenho e me ponho a pensar nelas não
faço mais que agrava-las; se as levo aos homens, não me podem consolar; o mais que podem
fazer com os seus discursos aduladores é sobrecarregarem a minha mágoa em vez de m’a
aliviar. Vós só, ó meu Jesus! Vós só sois o consolador que minha pobre alma deseja. Vós me
chamais e mandais ir; vou pois a vós. Não me impedis que chore, e minhas lágrimas assim
derramadas em vossa presença ao pé da vossa cruz correm com mais doçura, e bem depressa o
vosso amor, à vista dos vossos sofrimentos curam a chaga da minha alma, acalmam a minha dor,
adoçam meus tormentos e fazem-me que os ame. Em todos os apertos da minha vida sereis pois
o meu recurso, a minha esperança, a minha consolação.

— “Jesus porém tanto que viu chorar os Judeus que tinham vindo com ela, bramiu em seu
espírito e turbou-se a si mesmo, e perguntou: Onde o pusestes vós? Responderam-lhe eles:
Senhor, vem e vê. Então chorou Jesus”

Onde estão esses falsos sábios que querem sejamos insensíveis? Tal não é a sabedoria de Jesus que
assim derrama lágrimas pela morte do seu amigo. Chorais, ó divino Jesus ! ó coração terno e
compassivo! chorais um amigo morto para me ensinar que se numa semelhante ocasião nos é imposta
a submissão, as lágrimas também nos não são proibidas. Chorais para adoçar as nossas lágrimas,
para as santificar, para fazer secar a sua fonte. Chorais por todos nós, que em tão grande numero nos
precipitamos na morte eterna. Ah! Bom Jesus, vós a chorardes os meus pecados, e eu ficar
insensível! Tal dureza não permitais, meu Senhor; aplicai-me o mérito das vossas lágrimas, e excitem
elas as minhas.

— “O que foi causa de dizerem os Judeus: Vejam como ele o amava”

Sejais louvado, ó Senhor Jesus, por tão patentemente vos haverdes dignado mostrar a ternura que
tendes para com vossos amigos.

Seja-nos permitido imita-la e amar a vosso exemplo; os corações duros e insensíveis não são os que
vos agradam. Regulai porém as nossas amizades, santificai-as, sede o seu modelo. Fazei que nunca
adulemos os nossos amigos, fazei que, como vós, corrijamos com doçura e prudência os seus
fervores inconsiderados, e todas as mais faltas; fazei que em nossos amigos, amemos como vós o
bom e o sólido.

“Jesus pois tornando a bramir em si mesmo, veio ao sepulcro, e era este uma gruta; e em cima
dela se havia posto uma tampa. Disse Jesus: irai a tampa. Respondeu-lhe Martha, irmã, do
defunto : Senhor, ele já cheira mal, porque é já de quatro dias”
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A morte apareceu então no que tem de mais horrendo. Lázaro, morto, amortalhado, enterrado, pútrido
e cheirando mal, teme-se levantar a tampa com receio de que infecte o lugar e a pessoa de Jesus. E’
um espetáculo horrível; Jesus estremece, Jesus chora. Na morte de Lázaro, seu amigo, deplora o
comum suplício dos homens, vê a natureza humana criada da imortalidade e condenada à morte por
seu pecado. É amigo de todo o gênero humano e vem restabelece-lo; começa por deplorar a sua
queda, por estremecer e abalar-se veementemente à vista do seu suplício. O que mais horrível acha
na morte é o ela ter sido causada pelo pecado; e é mais o pecado que a mesma morte o que lhe causa
este tremor, esta perturbação, estas lágrimas. À medida que do túmulo se aproxima, novo tremor se
apodera dele. Ao ver esta medonha caverna, onde jaz a morte, dir-se-ia não haver já remédio a um
tão grande mal; seriamos tentados a acreditar que Jesus não tem que dar a um mal tão grande, mais
que lágrimas e um horror que o faz tremer ; mas sua bondade e poder vão brilhar e breve dentre os
braços da morte sairá Lázaro.

— “Tiraram pois a tampa ; e Jesus levantando os olhos ao céu disse: Pai, eu te dou graças,
porque me tens ouvido ; eu pois bem sabia que tu sempre me ouves, mas falei assim por atender
a este povo que está à roda de mim, para que eles creiam que tu me enviaste. Tendo dito estas
palavras, bradou, em alta voz: Lázaro, sai para fora. E no mesmo instante saiu o que estivera
morto”.

Em a narração da ressurreição de Lázaro, estendi-me um pouco porque nesta circunstância o


Evangelho nos apresenta o nosso bom Mestre a conversar com amigos que ele honrava de sua
intimidade, a partilhar suas penas, a empregar todo o seu poder para os aliviar.

Bem doce e consolador é ver assim o nosso Deus sensível ás nossas misérias e sempre pronto a
curar nossos males. Impossível me parece que se possa meditar este passo da vida de Nosso Senhor,
bem como a historia de santa Maria Madalena de que no seguinte capitulo tratarei, sem se sentir todo
abrasado de amor por um Deus que tão terno, tão misericordioso, tão compassivo é. Ah! Se
conhecêramos a Jesus! Se meditássemos as mais pequenas circunstanciais da sua vida mortal,
esforçar-nos-íamos a ama-lo de todo o nosso coração, e bradaríamos com São Paulo:

“Se algum não ama a Nosso Senhor Jesus Cristo seja anátema”

(1)

Senhor meu Deus, por vosso nome e por vossa gloria incendiai-me, eu vos conjuro, abrasai-me
o coração nas chamas do vosso amor. Oh ! não viva eu senão para amar-vos! Não viva senão
para chorar o mal que fiz em ofender-vos e tão tarde vos amar. Nada são as riquezas, nada os
prazeres, nada as honras, nada os louvores; vosso amor, ó meu Jesus, vosso amor! Eis o que o
meu coração busca, eis porque ele almeja, o que ele pede! Vosso amor e cruzes, vosso amor e
trabalhos, vosso amor e cumprimento da vossa santa vontade, este é o meu único contentamento,
a minha única satisfação nesta vida.

Tende de mim piedade, Senhor, e dai-me o que me falta. Conheceis as minhas necessidades, a
vós me abandono sempre. Assim seja.

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RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Não se pode Servir a Dois Senhores
Até quando claudicareis vós para duas partes? Ninguém pode servir a dois senhores.

Todos sabem que para salvar-se é preciso servir e amar a Deus, mas do seu serviço e amor queriam
tirar o que neles há de oneroso e só deixar o que há de agradável. Queriam servi-lo com a condição
(de somente lhe dar palavras e cerimônias, e ainda estas a muito custa e enfado. Queriam ama-lo,
mas sob condição de juntamente com ele ou ainda mais amarem todas essas vaidades mundanas que
ele não ama, antes condena. Queriam ama-lo, mas com a condição de que em nada diminuíram esse
seu amor próprio que vai até à idolatria, que em lugar de nos referir a Deus, como a nosso Criador,
faz refiramos Deus a nós e só o procuremos como um refugio que nos console quando as criaturas nos
deixem. Que¬riam servi-lo e ama-lo, mas com a condição de ser permitido ter vergonha do seu amor,
encobri-lo com uma fraqueza, envergonhar-se dele como de um senhor cujo serviço nos desonra, não
lhe dar enfim senão um certo exterior de religião para evitar o escândalo e viver à mercê do mundo
para nada dar a Deus sem permissão do mesmo mundo! Ó céu! Então é este o amor que Jesus nos
teve! Meu caro Teótimo, aprende a amar a Deus verdadeiramente e como ele quer ser amado. Amar a
Deus, é ter horror ao pecado, é observar fielmente a sua santa lei é não ter outra vontade que não seja
a sua. Amar a Deus é amar o que Jesus Cristo amou, a castidade, as humilhações, os sofrimentos; é
aborrecer o que Jesus Cristo aborreceu, o mundo, a vaidade, as nossas paixões. Poder-se-á crer que
amamos a um Deus com quem não nos queremos parecer? Amar a Deus é entreter-se gostosamente
com ele, é desejar ir a ele, é suspirar e consumir-se após ele. Oh! Falso amor que se lhe não dá de
ver quem ama! Hoje e sempre pede a Deus a graça deste santo amor, dizendo:

“Senhor, que eu vos ame, e por obras vos prove o meu amor!”

Observações:
1. Uma grande parte dos pensamentos e sentimentos desta oitava narração tomei-os de Bossuet e do
Evangelho meditado.

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Capítulo XIII
A amante de Jesus ou história de Maria Madalena
Remittuntur et peccata multa, guoniam dilexit multum
“Perdoados lhe são seus muitos pecados porque amou muito”
(Lc 7, 47)

Poucas historias há no Evangelho que mais consolador exemplo nos deem da misericórdia de Jesus,
nosso bom Mestre, como a de Santa Maria Madalena. Tenho para mim que ninguém pode ser esta
historia sem ser penetrado de ardente desejo de amar um Deus tão compassivo e sempre tão disposto
a perdoar a um pobre pecador que lhe vem testemunhar o seu arrependimento. Contemo-la pois em
toda a sua simplicidade.

“Um Fariseu rogava a Jesus que fosse a comer com ele. E havendo entrado em casa do Fariseu
se assentou à mesa. E no mesmo tempo uma mulher pecadora que havia na cidade, quando soube
que estava à mesa em casa do Fariseu, levou uma redoma de alabastro cheia de balsamo e
pondo-se a seus pés (1) por de traz dele começou a regar-lhe com lágrimas os pés, e os
enxugava com os cabelos da cabeça, e lhe beijava os pés e os ungia com balsamo”

Pobre pecadora! Ela sentia-se acabrunhada sob o peso de tantos pecados; seus remorsos a
remordiam cruelmente; mil paixões que há tanto tempo nutrira em seu coração, nele levantavam
medonha tempestade; não sabia o que fazer de si, senão quando ouve que Jesus está em casa de um
Fariseu. Jesus! Ele que me dizem que é tão bom, ele que cura os doentes, ele que consola os aflitos,
ele que a todos faz bem! Jesus! Ah! Pois vou lançar-me a seus pés, diz a infeliz pecadora. E lá foi, e
chorou … Ó meu Deus! Como é doce e consolador para um pecador chorar assim aos pés de Jesus!
Nada diz, nada pede, contenta-se com chorar e fazer conhecer por suas lágrimas seu arrependimento
e seu amor. Jesus, meu bom Mestre, dai-me a graça de assim chorar enquanto viver.

“E quando isto viu o Fariseu que o tinha convidado, disse lá consigo fazendo este discurso: Se
este homem fora profeta, bem saberia quem, e qual é a mulher, que o toca, porque é pecadora.”

Nada conhecia este Fariseu da bondade e compaixão de nosso divino Salvador que lhe diz:

“Um credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos dinheiros, e outro cinquenta. Porém
não tendo os tais com que pagarem, restituíram-lhe ambos a divida. Qual pois o ama mais?
Respondendo Simão disse: Creio que aquele a quem o credor perdoou maior quantia. E Jesus
lhe disse: Julgastes bem. E voltando para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em
tua casa, não me deste agua para os pés; mas esta com as suas lágrimas regou os meus pés, e os
enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo: mas esta desde que entrou, não cessou de
me beijar os pés. Não ungiste a minha cabeça com balsamo : e esta com balsamo ungiu os meus
pés. Pelo que te digo: Que perdoados lhe são seus muitos pecados, porque amou muito. Mas ao
que menos se perdoa menos ama”

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Ó meu Jesus, quanto não devo pois amar-vos eu, pobre pecador, a quem tantas faltas remistes, a
quem perdoastes tantas ingratidões! Quanto não devo amar-vos!… Mas ai! Amo-vos tão pouco
que até coro de vergonha. Bom Jesus, eu vo-lo suplico, tende de mim piedade e dai-me o vosso
amor. Porque de há tanto tempo sois insensível às minhas penas? Quero amar-vos, sinto que vos
amo, mas ai! não é bastante. Ó Deus da minha alma! ou sede menos amável, ou dai-me mais
amor.

“E disse-lhe Jesus a ela: Perdoados te são teus pecados”

Feliz Maria Madalena!


Tinha compreendido o coração de Jesus, adivinhara toda a sua misericórdia para com os pecadores,
e sem duvida ela já esperava esta resposta da sua boca:

“Perdoados te são teus pecados”

Oh! Que doce não é ouvir sair estas palavras da boca de Jesus! Meu bom Mestre, terno amigo da
minha alma, eis-me também como a Madalena a vossos pés; dignai-vos lançar sobre mim olhos de
bondade e dizer-me como a ela:

“Meu filho, perdoados te são teus pecados”

“E Jesus disse ainda a esta mulher: A tua fé te salvou, vai-te em paz”

A santa penitente, cheia de reconhecimento para com tanta clemencia e misericórdia, uniu-se a Jesus,
resolveu-se a segui-lo por toda a parte com outras santas mulheres, partilhar quanto pudesse as suas
penas, as suas fadigas e acudir à sua subsistência.

Nunca mais o deixou: e quando soube que fora preso pelos judeus, seguiu-o no sangrento curso da
sua paixão. Que coragem aquela! Quase todos os Apóstolos covardemente haviam abandonado o seu
Mestre; Pedro três vezes o negara; mas esta mulher afronta as injurias e ameaças dos soldados, as
chufas da multidão, para se não separar do seu Salva¬dor; ela sobe ao monte Calvário, ela põe-se ao
pé da Cruz e ali derrama em abundância lágrimas de compaixão e amor… Ó meu Deus! quem me
dera a graça de como ela chorar! Quem me dera a graça de constantemente permanecer aos pés da
Cruz de Jesus, afim de lhe provar o meu amor! … Meu doce Salvador, ouvi a minha oração e dai-me
o vosso amor. Nem riquezas, nem honras, nem prazeres vos peço; o que eu quero é o vosso amor, é a
graça de sempre convosco ficar sobre a cruz, é a graça de morrer à força de amar-vos.

“No primeiro dia da semana veio Maria Madalena ao sepulcro de manhã, fazendo ainda escuro,
e viu que a tampa estava tirada do sepulcro”

Depois de haver Jesus exalado o último suspiro, depuseram o seu corpo num sepulcro aberto numa
rocha ; para aqui é que, guiada do seu amor, se dirige Maria Madalena no dia seguinte ao sábado mui
cedo ainda afim de o embalsamar. Adianta-se, senão quando conhece que já ali se não achava o seu
Mestre … Que golpe este para o seu coração ! Em sua angustia “correu pois, e foi ter com Simão
Pedro e com outro discípulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro e
não sabemos onde o puseram”. Nisto foram os dois Apóstolos com ela ao sepulcro, não acharam
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Jesus e voltaram-se para casa.

Maria Madalena não se pôde resolver a segui-los :

“Conserva-se em pé da parte de fora chorando junto do sepulcro”

Ai! Se ela viera na esperança de encontrar o seu Mestre e não o acha! Agora a quem recorrer? Se
tudo a abandonou! E nada mais lhe resta que dores e lágrimas. Ah! E quantas não derramou ela!
Quantas e quantas vezes não repetiu ela o seu adorável nome! Ó meu Deus! E que bela
lição para nós! Se como a Madalena procurássemos a Jesus; se depois de havermos pelo pecado
perdido a sua graça ou pela tibieza as consolações do seu amor; se como ela nós sentíramos a
grandeza da nossa perda; se como ela persistíssemos em buscar Jesus; se com brados e lágrimas o
chamássemos, como ela o acharíamos e com uma abundância de alegria que sobrepujaria todas as
nossas esperanças.

“E ao tempo que ela chorava, abaixou-se e olhou para ver o sepulcro. E viu dois anjos vestidos
de branco assentados no lugar onde fora posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.
Os quais lhe disseram: Mulher, porque choras? Respondeu-lhes ela: Porque levaram o meu
Senhor e não sei onde o puseram. Ditas estas palavras olhou para traz e viu Jesus, em pé, sem
saber contudo que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, porque choras? Ela, julgando que era o
hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o pusestes e eu o levarei”

Veja-se que amor o desta mulher para com seu divino Mestre: Não o perdeu e eis que o pede ao céu e
à terra:

“Não vistes aquele que meu coração ama?”

Se ela não vê o seu Jesus, se ela não pode provar-lhe o seu amor por seus cuidados e atenções cheias
de respeito, como há de ter repouso? Não pode passar sem o achar.

Ó meu querido Redentor! Terno amigo, dai-me, eu vos suplico, um coração capaz de vos amar
tanto como mereceis. E a quem amarei eu na terra e nos céus se a vós não amo? Sim, eu o sinto,
o vosso amor vai-me consumindo lentamente, e eu morro de pesar por não poder amar-vos mais.
Meu Deus, meu Deus, amo-vos e quero amar-vos sempre.

“Disse-lhe Jesus: Maria. Ela, voltando-se, disse: Rabboni, que quer dizer — Mestre.”

Quem poderá dizer a alegria que transportou Maria Madalena quando reconheceu a Jesus? Dá um
grito e lança-se a seus pés; é o que se pode fazer; seu silencio e suas lágrimas faliam mais ao coração
de Jesus que todas as palavras do mundo.

— Ó bom Jesus! Permiti que vos abra o coração e vos diga quanto me comove e consola o modo
como tratastes a Maria Madalena. Vejo em vosso Evangelho que a ela é a quem primeiro aparecestes
depois da vossa ressurreição; então esquecestes-vos já de que ela foi outrora pecadora e com seu
procedimento escandalizou toda uma cidade?

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— Bem verdade é, filho meu, que Maria Madalena me ofendeu, mas soube reparar os seus desvarios
pela constância e ardor do seu amor. Ó meu filho! Quantos primeiro foram grandes pecadores e
depois pelo seu arrependimento, pelo acrisolado do seu amor mereceram os meus mais assinalados
favores! De uma alma que me ama, eu facilmente esqueço a maior multidão de seus pecados.

Ó meu doce Jesus! Quantas vezes, desde que nesta terra estou, vos ofendi eu? Quem contar
pode¬ria a multidão dos meus pecados? Mas, ó terno amigo, ó meu bom mestre! tende piedade
de mim, esquecei minhas ofensas, que arrependido eu estou, e vos amo. Sim, amo-vos, ó Deus
do meu coração, e vos peço a graça de vos amar até ao ultimo suspiro e por toda a eternidade.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Excitar-nos à Confissão pelo uso frequente do Sacramento da Penitência

Sempre que do sacramento da penitencia te aproximas, excita em tua alma um grande pesar de todas
as tuas faltas, sobretudo das faltas mortais da vida passada ; que a teus olhos, meu caro Teótimo,
sempre estejam presentes estas faltas:

1. Para por elas continuamente te humilhares e extirpares os orgulhosos pensamentos que em teu
coração se possam suscitar;
2. Para deles pedires perdão a Deus; ao coração de Nosso Senhor nada lhe agrada tanto como o
arrependimento saído de uma alma de há muito purificada;
3. Mas mais que tudo, para nos excitar ao amor do nosso bom Mestre; é impossível não o amarmos,
quando pensamos que tantos pecados nos perdoou. Quando receberes a absolvição procura
diligentemente que tua alma ponha uma confiança extrema na misericórdia do Senhor, e não digas
como tantas outras almas tímidas:

“Quem sabe se os meus pecados estão perdoados?”

Mais vale um ato de confiança na bondade e misericórdia de Jesus, quando para bem nos
confessarmos nada omitimos, do que todos esses temores que 0 mais que podem fazer é impedir-nos
de avançar no amor de Deus. Toma, pois, o habito de fazer, depois de cada confissão, um ato de
confiança e repelir todos os temores que te possa sugerir o demônio.

Observações:
1. A postura que então à mesa se guardava tornava- lhe isso fácil; estava-se a ela deixado em leitos
feitos de propósito com a cabeça para a mesa e pés para fora.

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Capítulo XIV
A parábola do Filho Pródigo
Filius meus mortuus erat, et revixit, perierat, et inventus est
“Meu filho era morto, e reviveu; tinha- se perdido e achou-se”
(Lc 15, 24)

Nesta parábola nos pôs Jesus diante dos olhos, de um lado o quadro dos nossos desvarios, do outro a
viva imagem da ternura com que recebe o pecador arrependido, que vem lançar-se em seus braços.
Meditemo-la, pois, atentamente; dela tiraremos nós numerosos motivos para mais e mais amarmos o
nosso divino Mestre.

“Um homem teve dois filhos; e disse o mais moço deles a seu pai: Pai, dá-me a parte da fazenda
que me toca. E ele repartiu entre ambos a fazenda”

Estranho modo de proceder este! E no entanto assim é que eu fiz, há já tantos anos. Apenas a razão
me começava a distinguir o bem do mal, já eu dizia ao meu Deus: Senhor, dai-me sem demora a
saúde, a ciência, as riquezas e a beleza, que eu tudo isto quero, não para vossa gloria, mas para
ofender-vos, não para minha salvação, mas para minha ruína. Ó meu Deus, envergonhado o confesso,
esta é a linguagem que usei, pelas minhas palavras talvez não, mas por minhas ações. Dignai-vos
perdoar a minha loucura.

“E passados são muitos dias, entrouxando tudo o que era seu, partiu o filho mais moço para uma
terra muito distante num país estranho, e lá dissipou toda a sua fazenda, vivendo dissolutamente”

Aonde não vai uma desgraçada alma, que uma vez abandonou o seu Deus? Ai! Por minha desgraça já
eu o experimentei. Julguei que, longe dele, achava felicidade e deixei-o. Corri pelos caminhos da
iniquidade e fui caindo de abismo em abismo. Para onde ia eu? Ah! Uma voz interior me bradava que
em vão procurava eu separar-me do meu Deus, que, a meu pesar, para ele corria sempre, mas que
depois de haver deixado um Deus cheio de bondade e misericórdia, acharia um Deus justo e irritado.

Eu ouvia esta voz, e ela aterrava-me… mas sempre seguia fugindo, fugindo para longe de vós, Deus
meu! Oh! Que graças não dissipei eu, quando longe de vós andava? Graças do meu batismo, graças
das vossas inspirações, graças dos bons exemplos que recebia, graças de toda a espécie, tudo, tudo
perdi, dissipei tudo, tudo calquei aos pés! Ó meu Deus, meu Deus, chegará dia em que chore assas
tão grande desgraça?

“E depois de ter consumido tudo, sucedeu haver naquele país uma grande fome e ele começou a
necessitar”

Oh! Quem poderá dizer em que indigência se acha um pecador que já não ama o seu Deus, e que dele
se retirou? Uma cruel fome o devora, e nada acha que o console. Ele lá vai por toda a parte a
mendigar prazeres, honras humanas, consolações, mas tudo isto o mais que faz é exacerbar o seu mal.
Sempre está devorado do inquieto desejo de se satisfazer, e nada, nada absolutamente, pode dar-lhe o
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que procura. Ei-lo que caiu na mais desastrosa indigência! Que irá agora o infeliz fazer? Escutemos.

“Retirou-se pois dali, e acomodou-se com um dos cidadãos da tal terra: este porém o mandou
para um casal seu guardar porcos”

Pobre pecador! Que ganhaste tu em abandonar o teu Deus e o teu pai? A felicidade? Mas eu vejo-te
sempre nas lágrimas e dissabores. A paz e serenidade? Mas tu sempre vives em perturbação e sustos;
o pensamento da morte e da eternidade te lança na consternação, e os teus remorsos de dia para dia
são mais pungentes e insuportáveis. Que ganhaste pois? A vergonha; sim, a vergonha. Eras filho de
Deus, e renunciaste a um tão glorioso titulo para te pôr ao serviço do demônio; eras herdeiro dum
belo reino e te reduziste à mais completa desnudes. E deste novo senhor que preferiste ao teu Deus,
que é que recebeste? Ah!

“Deu-te porcos a guardar”

Cobriu-te de ignomínia engolfando-te nos mais sujos prazeres; arrastou a tua alma pelo lamaçal das
voluptuosidades; e, o que é ainda mais de horrorizar, capacitou-te de que este era o teu fim, fez-te
esquecer da tua origem celeste e te prendeu ao lodo. Ó pecador! Pecador! Que fizeste da tua
inocência? Que fizeste dessa alma, dessa alma tão bela quando pura, tão ditosa quando amava o seu
Deus?

“Aqui desejava ele encher a sua barriga de landes das que comiam os porcos, mas ninguém lhas
dava”

Pode ir a degradação mais longe?! Imagem horrorosa, mas verdadeira do pecador que se obs¬tina de
viver no meio dos seus pecados. Concede às suas paixões tudo quanto exigem, rola de precipício em
precipício, esgota todos os prazeres e reduz-se à deplorável necessidade de, como vil escravo,
obedecer às mais vergonhosas sugestões do demônio.

“Desejava encher a sua barriga de landes, das que os porcos comiam”

Meu Deus! Meu Deus! Fazei-me bem compreender toda a vergonha a que se condena um infeliz
pecador que vive longe de vós. Fazei-o compreender também àqueles desgraçados que vos não
amam.

“Até que entrando disse: Quantos jornaleiros há em casa de meu pai, que têm pão em
abundância, e eu aqui pereço à fome!”

No meio de suas desordens, o pecador lá lhe vem à memória de vez em quando aquela felicidade que
outrora gozava quando a sua alma era inocente, e das graças abundantes que então recebia, e esta
recordação começa a lhe fazer vir saudades, e é o principio de uma conversão, de um volver ao seu
Deus. Ai! Diz ele consigo mesmo, eu sempre sou um desgraçado muito grande! De qualquer lado que
me volte, só vejo motivos de pesar, dor e temor. Eu bem faço por tapar os ouvidos: é em vão, é
sempre a mesma coisa. O pensamento daquela minha felicidade de outrora não me deixa e atormenta
o meu pensamento; a multidão da iniquidade que de há muitos anos acumulo sobre minha cabeça me
horroriza e espanta; noite e dia me roem os remorsos; minhas insaciáveis paixões me pedem pasto a
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grandes brados ; mandam com império, é preciso que obedeça, e nem um momento tenho de repouso.
Oh! Que infeliz que sou! E no entanto, em torno de mim vejo tantas pessoas que vivem na paz e
doçura de uma boa consciência! São meus parentes, meus amigos e conhecidos. Ah! Estão contentes;
eles, nada lhes falta, amam ao seu Deus; que mais posso eu dizer? Estas mesmas paixões que agora
me tiranizam, eles as tem já encadeadas; essas graças de que há tanto tempo estou privado, eles as
recebem em abundância; esse belo céu que eu perdi e de que me tornei indigno, eles o esperam com
doce confiança, e essa confiança os enche da mais santa alegria.

“Levantar-me-ei, e irei buscar a meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti já
não sou digno de ser chamado teu filho; faz de mim, como de um dos teus jornaleiros…”

Eis a linguagem do pecador que, tocado da graça celeste, pensa em volver-se para Deus. Não, não,
exclama o infeliz! Não posso por mais tempo permanecer num estado tão desesperador. Levantar-me-
ei, irei buscar meu Pai celeste, e pedir-lhe-ei perdão. Ó meu Salvador Jesus que boca assas
eloquente será para exprimir os diversos sentimentos que agitam o pecador que de seus desvarios se
começa a arrepender e a querer entrar em graça convosco! Suas paixões, ainda todas chefes de vida,
lhe dizem de mansinho:

“Então tu deixas-nos? Entre ti e nós nada mais haverá de comum? Desde este momento ser-te-á
interdita tal e tal coisa para nunca mais? Julgas poder passar sem tal e tal prazer? Ah ! olha bem
o que vais fazer…”

E o pobre pecador, acostumado como está a obedecer a todas as suas sugestões, quase não sabe o
que faça, hesita, balanceia. Mas a vossa graça, ó Jesus, não o desampara, firme se conserva ao seu
lado, excita-o, estimula-o, e com inefável doçura lhe diz:

“Volve, volve ao teu Deus e não te deixes amedrontar dos embaraços, que eu serei contigo. Não
poderás fazer tu o que outros mais fracos hão feito? Não escutes a voz da carne de pecado.
Doçuras te promete ela, mas serão comparáveis às que acharás na lei do teu Senhor e teu Deus!”

Oh! que terrível é este combate interior de uma alma que está para se converter? Mas também quão
consolada é essa alma infeliz quando alfim rompeu magnanimamente suas cadeias e toda se deu a seu
divino Mestre!

“Levantou-se, pois, e foi buscar a seu pai. E quando ele ainda vinha longe, viu-o seu pai, que
ficou movido de compaixão, e correndo lhe lançou os braços ao pescoço para o abraçar, e o
beijou”…

Aqui é que brilham em todo o seu fulgor a bondade e misericórdia do nosso Deus. Mal ele vê um
pobre pecador a fazer por sair dos enleios dos seus maus hábitos, vem em seu socorro, anima-o. Não
o repele quando a ele se apresenta, mas com toda a bondade o recebe e lhe dá o ósculo de paz e
reconciliação. Essa veste cândida da sua inocência ele lha restitui, e convida o céu a tomar parte no
gozo que recebe ao achar seu filho:

“Ele era morto e reviveu”

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Senhor Jesus, nunca mais esquecerei o feliz momento em que vossa graça, desvendando-me os olhos,
me fez ver a profunda miséria em que eu vivia sem vos amar. Onde estava eu, ó meu Deus, onde
estava quando me viestes procurar? Ai! Tão longe estava que nunca poderia chegar-me a vós! Mas a
vossa misericórdia veio tomar-me pela mão, e me conduziu a vossos pés. Ó céus! Tomai-vos de
espanto! Em vez de exprobações tão justamente devidas, recebi de vós, ó Deus meu, um acolhimento
do qual só o lembrar-me me faz derramar lágrimas com ternura. Prosternado estava a vossos pés,
nem mesmo ousava a vós levantar meus olhos de envergonhado que estava de tantas misérias, senão
quando me levantastes, me apertastes entre os vossos braços e contra o vosso coração e me
dissestes:

“Meu filho, meu caro filho, já lá vai tudo, tudo fica esquecido, está tudo perdoado”…

Ó meu Deus! Como pode ser que eu caísse na desgraça de vos deixar e vos contristar com tantos
pecados? Perdão, perdão, ó meu Pai! perdão, mil e mil vezes perdão! Detesto as minhas
in¬gratidões, maldigo as minhas numerosas ofensas, e proponho repara-las quanto possível me
for. Ó meu Deus! Eu vos amo, e por amor vosso decidido estou a suportar todos os trabalhos
que de vossa mão me vierem; por vosso amor consinto em ser humilhado, desprezado, olhado
como um ser vicioso, ignorante, inútil; por vosso amor submeto-me a ser acabrunhado de cruzes
exteriores e interiores! Por vosso amor quero fazer tudo que for da vossa vontade. Dai-me
somente, ó meu Deus, a vossa força; porque bem sabeis, de mim mesmo nada posso; dai-me a
vossa força e tudo o mais irá bem. Dai-me a graça de chorar os meus pecados e viver como
penitente até ao fim da minha vida, para que um dia vá lá no céu cantar as vossas misericórdias
infinitas. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Espírito de Penitência
Um só pecado, como Tertuliano diz, merece eternamente ser chorado. Quanto, pois, meu caro
Teótimo, não deves chorar todos esses pecados que desde quando estás no mundo cometeste! Ao
menos este dia passa-o em santos exercícios de penitencia, recusa a teus sentidos as pequenas
satisfações que sem pecado lhe poderás conceder; redobra de fervor em teus exercícios de piedade,
esforça-te por viver num grande recolhimento interior. Traze muitas vezes à memória, de um lado a
multidão de tuas faltas, para as detestar e delas pedir perdão a Deus, do outro os quase infinitos
benefícios que de Deus tens recebido para lh’os agradecer e te excitares ao reconhecimento e amor.
Se és rico, dá alguma esmola aos pobres, sobre tudo aos enfermos: se és pobre faze um bom ato de
resignação com a vontade de Deus. Por espírito de mortificação e penitencia falia pouco, e um tanto
mais baixo que de ordinário; mostra-te mais doce, mais afável, mais obsequioso ainda do que o
costume; vive mais retirado, e evita qualquer visita que pela caridade não seja ordenada. Suporta em
paz e sem te queixar as fadigas de tua profissão, as doenças, as injurias, as durezas, os maus tratos de
que possas ser alvo, e para te animar dize frequentemente a ti mesmo:

“Que são estes sofrimentos em comparação das penas eternas do inferno tantas vezes por mim
merecidas ? Ah! que feliz eu sou em poder ainda ganhar o céu a tão pouco custo!”
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Se alguém te ultraja e despreza, e presentes o orgulho querer sublevar-se, sem demora lembra-te da
presença de Deus e dize-lhe:

“Esta afronta, aceito, ó meu Deus, em espírito de penitencia e por amor vosso”

Põe-te em seguida na maior quietação ; nisto farás a Deus um sacrifício por ele nunca desprezado, o
sacrifício de um coração contrito e humilhado.

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Capítulo XV
Toda a vida do nosso Divino Salvador foi um martírio contínuo
Viram dolorum
“Jesus foi um homem de dores”
(Is 53, 3)

Sim, verdadeiramente Jesus foi um homem de dores; sua vida foi toda de sofrimentos interiores e
exteriores; foi um martírio continuo, um martírio mil vezes mais cruel do que podemos imaginar. Que
não teve ele de sofrer durante os nove meses que passou no casto seio de sua mãe? É certo que
gozava de toda a sua razão e tinha o mais fino sentimento de todos os seus sofrimentos. Que
horrorosa posição esta! Oh! sempre muito amor era preciso haver no coração deste bom Mestre, pois
para no-lo testemunhar quis encerrar-se numa tão incomoda prisão! E em seu nascimento o que não
sofreu? Ele a nascer num curral, ele exposto às injurias do tempo, ele a tremer de frio, ele a chorar.
Por toda a parte o acompanham os sofrimentos, nem um instante o deixam. Se sai do presépio de
Belém, é para derramar as primícias do seu sangue; mais tarde um pouco essa sua mesma pátria
forçado se viu a deixar e fugir para terra estrangeira, afim de escapar ao furor de um rei ímpio e
sanguinário. Por toda a sua vida terá que sofrer os incômodos da pobreza, e terminá-lo-á sim,
terminará essa vida de angustias por uma cruel morte! Eis aqui pois, ó meu Jesus! o que por mim
tendes sofrido; Ah! Bem justo é que por vosso amor também eu sofra alguma coisa. Fazei-me a graça,
eu vos suplico, de sequer ao menos suportar com paciência e resignação as penas desta vida
corruptível.

“Toda a vida de Jesus foi um martírio”: sim, e o que mais cruciante tornou este martírio, foi o
perfeito conhecimento que tinha dos tormentos que em sua paixão havia de sofrer. Os açoites, os
espinhos, a cruz; os ultrajes da sua paixão, ele os teve presentes desde o primeiro instante da sua
vida. Se no campo via um cordeiro, ou no templo vitimas, lembrava-se que ele era o cordeiro de
Deus, e que sobre a cruz devia ser imolado em sacrifício. Ao lançar os olhos sobre a cidade de
Jerusalém, pensava nos ultrajes de que esta cidade ingrata o havia de saturar. A vista d’uma montanha
lhe trazia à memória o monte Calvário, no qual devia derramar o seu sangue. Quando levantava os
olhos a sua terna mãe, quais não eram os sentimentos de dor que de seu coração se apoderavam! Ai,
ele a via já ao pé da cruz, triste, abatida, agonizante de dor; via já chegado o momento de se ver
forçado a recomenda-la ao discípulo amado, e sem duvida desviava-se para ocultar a sua com-
moção e as suas lágrimas. Assim tudo lhe recordava a sua paixão e os tormentos que nela devia
sofrer, e esta cruel lembrança lhe envenenou todos os momentos da sua existência.

Um dia Jesus crucificado apareceu à irmã Madalena Orsini, que de há muito estava em tribulação e
exortou-a a que sofresse resignada, “Isso bem eu queria, Senhor, respondeu esta santa jovem, mas
sempre permiti que vo-lo diga, vós sobre a cruz só estivestes três horas, e eu já há muitos anos que
sofro esta pena. — Pobre ignorante, lhe diz Jesus repreendendo-a, que é que dizes tu? Sabe que
desde o primeiro instante de minha existência no ventre de minha mãe, sofri em meu coração o que
mais tarde sofri na cruz”.

Mas o que mais afligiu o nosso divino Salvador foi a vista de nossos pecados e das ingratidões com
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que devíamos pagar os tormentos que por nós com tanto amor ia sofrer. E esta vista lhe causou penas
interiores tão acerbas e tão vivas, como neste mundo homem algum pode jamais sofrer. Por
consequência eu, também eu, por meus pecados contribui a afligir tão bom Senhor! Porque certo é
que se eu menos pecara, menos ele sofrera. Bem justo é pois que chore minhas passadas faltas, e
empregue a mesma linguagem que Santa Margarida de Cortona. Exortava-a o seu confessor a que se
tranquilizasse sobre o negocio da sua salvação, e a que acabasse com suas lágrimas, pois os seus
pecados lh’os havia já Deus perdoado.

“Ah! Meu padre, replicou desfeita em pranto mais abundante, como quereis que acabe de
chorar, quando sei que os meus pecados foram a causa do meu Jesus gemer e estar em aflição
toda a vida!”

Ó céu, que longe não está dos sentimentos desta grande santa o nosso procedimento! Toda a nossa
vida a levamos no meio da alegria, diz S. Efrem; todos os dias procuramos novos prazeres, alimentos
novos à nossa vaidade, e contudo ouvimos narrar os sofrimentos e ignomínias que por nosso amor
Deus sofreu. Enchemo-nos de orgulho, gostamos de todas as nossas comodidades, covardemente
rejeitamos o salutar jugo da penitencia, bem que nos sintamos vergadas ao peso de iniquidades, bem
que saibamos que por nosso amor, o Salvador se submeteu às injurias, aos escarros, aos açoites, aos
opróbrios e à morte mais cruel! O pecador em delicias, e o justo pregado numa cruz! que transtorno!
Oh! e que terrível conta teremos de dar de um tal procedimento!

Apressemo-nos, apressemo-nos pois a prevenir por uma penitencia sincera as suas temíveis
consequências! Vamo-nos lançar nos braços de Jesus, homens de dores, e peçamos, e peçamos-lhe a
graça de reparar o passado e corresponder para o futuro a toda a ternura que para conosco há tido;
vamos a seus pés fazer-lhe um solene protesto, e digamos-lhe com todo o fervor que doravante só
queremos ser todos d’ele para sempre, sim, para sempre, para sempre. À vista das nossos
iniquidades exclamemos sem cessar com o profeta Jeremias:

“Quem dará agua a minha cabeça e uma fonte de lágrimas a meus olhos? E eu chorarei de dia e
de noite”

Exclamemos com o santo rei David, ou antes com a Igreja:

“Senhor, não nos trates como mereciam os nossos pecados, nem nos castigues segundo a
grandeza das nossas antigas iniquidades. Não te lembres das nossas iniquidades, mas previnam-
nos sem demora as tuas misericórdias, por que estamos reduzidos à ultima miséria. Ajuda-nos, ó
Deus, que és o nosso Salvador, e livra-nos, Senhor, pela gloria do teu nome; e perdoa-nos os
nossos pecados, em atenção ao nome que te é próprio”.

Ó meu Jesus! Não poder eu expiar de dor à triste recordação das amarguras de que saciei vosso
coração por minha tibieza, e sobretudo pelos pecadas da minha vida passada! Ai! Quantas e
quantas vezes me dei ao sono sem pensar que trazia em meu coração o pecado mortal que como
horrível serpente com suas medonhas roscas me cerrava! Quantas vezes tive eu a ingratidão de,
tendo-me vós perdoado e reintegrado no vosso amor, abandonar-vos com indigna vilania! De
todo o coração me arrependo de tão mau proceder, sim, me arrependo de assim vos haver
ultrajado. Dignai-vos perdoar-me!… Ó meu Deus! ainda depois de tanta covardia, depois de
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tantas misérias, depois de tantas fraquezas, sinto-me animado a dizer-vos: amo-vos de todas as
minhas forças, amo-vos de toda a minha alma. Oh! eu vos suplico, não permitais que eu caia
ainda na desgraça de ver-me separado pelo pecado! Iesu delicissime, ne permitas im separari
a te – “Jesus dulcíssimo, ouvi-me; não permitais que de vós me separe nunca”… ne permittas
me separari a te. Morrer antes do que trair-vos de novo! Ó Maria, mãe da perseverança,
obtende-me a santa perseverança. Vós já a obtivestes para tantos outros, agora só para mim não
a querereis obter? Oh! Não, minha boa mãe, não há de ser assim; vós me ofereceis a graça de
amar Jesus e de vos amar também a vós por toda a eternidade. Esta preciosa graça eu a espero
da vossa bondade, espero-a dessa ternura que para comigo sempre tendes tido. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Mortificação do Corpo

Seria justo, meu caro Teótimo, viveres tu no meio dos prazeres e alegrias do mundo, e Jesus Cristo a
passar toda a sua vida no meio dos sofrimentos? De certo que não, e não hás de ser tu que tão pouco
te queiras assimilar àquele que por modelo tomaste. Hoje pois por amor do nosso Salvador aplicaste
a fazer progressos na virtude da mortificação. Que esta palavra mortificação te não espante; para uma
alma generosa que ama a Deus, é doce, dulcíssimo o mortificar-se. Sim, meu caro Teótimo, uma
privação, um sacrifício que a gente se imponha por agradar a Jesus, causa à alma felicidade mais
verdadeira que todos os gozos do mundo. Experimenta e acharás a verdade do que acabo de dizer.

Duas sortes há de mortificação: 1º mortificação interior, a mais difícil e mais necessária; 2º


mortificação exterior, a qual muito ajuda a adquirir a interior. Por hoje limita-te à prática especial
da mortificação exterior, para o que eis os principais exercícios:

1. Mortificação do Corpo em Geral

Recusa a teu corpo estas posturas muito cômodas e efeminadas que despertam moleza; se o permite a
saúde, ora de joelhos e sem te apoiar; não fiques no leito além da hora marcada para te levantar, etc.

2. Mortificação da Vista

Desvia teus olhos não somente dos objetos proibidos, mas ainda dos que sem tal ou qual perigo não
podes ver. Sabe até mesmo privar-te da vista de coisas licitas e indiferentes, quando a vê-las só a
curiosidade te impele. Oh! Que agradável coisa a Deus, e para ti tão fácil, o sacrificar-lhe quanto em
ti esteja as ocasiões de ver belas casas, aprazíveis jardins, magnificas pinturas! Como te
enriquecerias para o céu, e a tão pouca custo! As ocasiões de semelhantes sacrifícios são tão
frequentes!

Mortificação da Língua

Nunca digas palavra que direta ou indiretamente possa ferir o respeito a Deus devido ou à reputação
do próximo. Ai! tantas vezes se olvida, mesmo entre pessoas de piedade, que o mais precioso
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tesouro do próximo é a sua reputação! Quando se ofereça ocasião de fazer brilhar o teu espirito,
d’ostentar os teus conhecimentos, de deixar ver os teus talentos, aprende a calar por amor de Jesus, a
não ser que a caridade ou decoro te obriguem a falar. Retém sobre os lábios uma palavra inútil,
quase, quase a sair, ou antes uma palavra que te poderia atrair louvor.

4. Mortificação do Ouvido
Não escutes as murmurações, as maledicências, as injurias, as palavras muito leves ou de dois
sentidos e geralmente todo o discurso em que posse comprometer-se a consciência. Priva-te algumas
vezes do prazer de ouvir novas, belas vozes, uma doce harmonia, e com paciência e resignação
sofrer tudo o que pode ferir os teus ouvidos de modo desagradável.

5. Mortificação do Olfato
De bom grado renuncia ao prazer que poderás tomar, ainda que inocentemente, nos bons cheiros e
perfumes; se passeias por um jardim sacrifica uma vez ou outra a Nosso Senhor o prazer de cheirar
uma rosa, um cravo, etc.

6. Mortificação do Gosto
Ou tu comas ou bebas, nunca o faças pelo prazer que dai te possa provir. Manjares esquisitos,
apetitosos bocados, viandas delicadas, não os busques, que tais acepipes são alimento do luxo,
estimulo de voluptuosidade. Se te servem alguma vianda mal arranjada, aproveita-te de tão boa
ocasião de te mortificar, e não te queixes, exceto se a isso o dever te obriga. Priva-te alguma vez das
comidas de que mais gostas, para tomar outras de que não gostas.

7. Mortificação do Tato
Sofre com alegria, ou ao menos com paciência, o frio, o calor, outros incômodos do ar e das
estações; por mais molestos que sejam não murmures. Não te inquietes pelas doenças que te podem
vir nem por tudo o que teu corpo pode sofrer; bem sabes tu que tudo isto são meios de tornar-te mais
puro, de amortecer as paixões, de fazer penitencia, e de dar a Deus sólidos testemunhos do teu amor
(1).

Aqui tens, meu caro Teótimo, algumas práticas muito simples de mortificação exterior; se
verdadeiramente amas a Deus, muitas outras acharás sem contudo passar nunca os limites da
prudência e obediência que deves a teu diretor.

Observações:
(1) Muitas destas práticas são extraídas dos exames de Tronson; o mesmo será de quase todas do
seguinte capitulo.

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Capítulo XVI
Do ardente desejo que teve Jesus de sofrer por nós
Baptismo habeo baptisari, et quomodo coarctor un perficiatur?
“Eu tenho de ser batizado num batismo de sangue, e quão grande não é a minha angustia até que
ele se conclua?” (Lc 22, 50)

Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum


“Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes da minha paixão.” (Lc 22,
15)

Que enérgicas expressões! Oh! Como eles pintam ao vivo o incompreensível desejo que Jesus tinha
de sofrer e imolar-se por nós!
Bem se deixa ver que saem da abundância do coração daquele que disse:

“Eu vim trazer fogo à terra e que quero eu, senão que ele se acenda?”

Ó filhos de Adão, compreendestes esta palavra do vosso Deus:

“Eu vim trazer à terra o fogo do meu amor e o meu mais ardente desejo é ve-lo atear-se no
coração de todos os homens?”…

Ó meu Jesus, que tão grandes bens pois cuidáveis vós poder ganhar do amor das criaturas que para o
obter assim quisestes morrer e tanto ansiastes esse desejo da vossa morte?

“Eu devo ser batizado num batismo de sangue, dizíeis, oh! e quão grande não é a minha angustia
até que ele se conclua?”

Ainda uma vez mais, que grandes bens esperáveis do nosso amor? Quê! Quando todos os homens vos
amassem, seríeis vós por isso maior, mais potente, mais feliz?…

— Não, filho meu, me responde Jesus; não seria nem maior nem mais potente, nem mais feliz; minha
felicidade, minha potência e minha grandeza não dependem do amor de minhas criaturas; por mim
também não é que me aniquilei encarnando-me; por mim não é que nasci num curral; por mim não é
que passei trinta anos numa pobre oficina; por mim não é enfim que com tão vivo ardor desejei sofrer
e morrer sobre a cruz. Por ti, meu filho, sim, é por ti; quero fazer-te feliz dando-te o meu amor. E
terás tu por ignominioso amar a um Deus que só pode fazer a tua felicidade, a um Deus que te cumula
de benefícios, a um Deus que com tal ternura te ama?…

— Não, doce Jesus meu, não; pelo contrario, quero dar-vos amor por amor, quero amar-vos de toda
extensão do meu coração; dignai-vos ajudar a minha fraqueza. Oh! Quando por vós farei tudo o que
hei feito pelo mundo? quando trabalharei para o céu, o que trabalhei para a terra? quando concederei
à virtude o que ao vicio tenho dado? Ouvi, meu Deus, o ardente desejo do meu coração e dai-me o
vosso amor.
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“Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa”

Estava já o nosso bom Mestre na véspera da sua dolorosa paixão; era aquela ultima ceia que fazia
com os seus discípulos, quando lhe dirigiu estas palavras. É como se lhes dissera: Meus queridos
filhos e vós todos os homens que sobre esta terra viverdes até o fim dos séculos, eis que a hora do
meu sacrifício se aproxima; neste mesmo momento os meus inimigos estão tramando conselho contra
mim; uma cruz é o que me aparelham. Mas em antes de morrer, vou esta noite mesma deixar-vos
novas lembranças do meu amor, e deixar-vo-las-ei submetendo-me aos mais atrozes sofrimentos, às
ignomínias mais revoltantes, ao suplício mais infamante. Ah! E se soubéreis com que angustias eu
aguardava esta noite! Se soubéreis que vezes a chamei eu de todos os meus votos! Vós
compreenderíeis a violência do meu amor para convosco e o imenso desejo que tenho de possuir o
vosso coração para o fazer feliz.

Bem vejo, ó doce Jesus meu, ó meu adorável Salvador! Quereis possuir o meu coração a todo o
preço que seja. Oh! E que razão tenho eu para vo-lo recusar? Pois não é já para mim uma grande
honra o terdes vós a bondade de pedir-m’o? Sim, meu Deus, dou-vos o meu coração, tomai-o
todo, afim de que a vós, e só a vós ame. Ó meu bom Mestre, meu irmão, meu amigo, minha
esperança, meu tudo, quando em boa verdade poderei dizer que vos amo de toda a minha alma,
de todas as minhas forças? Quando todo me sentirei abrasado das chamas do vosso amor?
Consumido estou do desejo de amar- vos, e não há quem possa socorrer-me. Tende, Senhor,
piedade de mim, tende piedade desta vossa pobre criatura, e dai-me o vosso amor; nem
riquezas, nem honras, nem prazer, nem coisa alguma criada vos peço, que sem vós tudo isto não
é mais que pura vaidade, não pode saciar meu coração. Porque tanto tardais em conceder-me
este favor? Que é isto, Jesus meu? Vedes-me há tanto tempo a penar noite e dia e não me
socorreis? Até quando, Senhor, vos esquecereis de mim? Até quando desvia¬reis de mim os
vossos olhos?” Deus meu, Deus meu, tomo a repetir e de repetir não cessarei até ao meu ultimo
suspiro: “Dai-me o vosso amor, dai-me o vosso amor”. O’ Maria, mãe do santo amor! obtende-
me a graça de amar a Jesus, se for possível, tanto como vós mesma o amais. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Mortificação Interior

Pelo muito que Jesus Cristo desejou sofrer para testemunhar o seu amor, procura hoje ocasião de
também sofrer por ele alguma coisa. Ontem falei-te, meu caro Teótimo, da mortificação exterior. Não
percas de vista que sem ela impossível é fazer progresso algum real na perfeição; poder-se-á quando
muito adquirir uma santidade fictícia e exterior, se assim se pode dizer; santidade verdadeira, não.
Em nos vencermos a nós mesmos consiste esta interior mortificação, mas para chegarmos a tão
suspirado resultado, que combates não é preciso travar! Para isso, eis as práticas mais importantes,
observa-as fielmente e não tardarás a fazer grandes progressos na santidade e no amor do nosso bom
Mestre.

1. Mortificação do Gênio e Inclinações Naturais

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Nunca faças ação alguma só porque ela te apraz e é do teu gênio; jamais faltes a um dever, a uma boa
obra porque nisso sentes repugnância. Dobra-te sempre ao humor e gostos de outrem, sempre que o
que te pedem não é pecado. Algumas vezes priva-te de fazer uma coisa ainda que permitida e isto tão
somente porque a vontade te incita. Pede muitas e muitas vezes a nosso Senhor te ajude a mortificar
os teus gostos porque este gênero de mortificação é muito difícil.

2. Mortificação da Própria Vontade


Procura fazer não a tua, mas a vontade dos teus superiores; não escolhas empregos, ocupações; deixa
a escolha às pessoas que te conduzem. Quando te sentires levado por uma certa tendência interior a
fazer uma coisa, e a que tua vontade ali está toda, toda, mortifica-te, ou não a fazendo ou diferindo-a
por algum tempo. Para longe de ti todo o pensamento de independência; persuade-te bem, que melhor,
mil vezes melhor é obedecer que mandar.

3. Mortificação do Amor Próprio


Quem não mortifica o seu amor próprio não se ocupa senão de si, não obra senão para si. Está todo
repleto de uma alta opinião de si mesmo, lá para si tudo nele são qualidades ótimas, tudo dele falia,
tudo nele pensa. Estima-se tanto e mais que os outros, só o que ele faz é que está bem feito. Em tudo
se mete, em tudo quer ter parte, de tudo quer ser autor. Sente as maiores dificuldades em submeter-se
a outrem, de obediência só gosta dela nos mais, ninguém o pode contradizer, tudo o que quer, há de se
fazer, imagina ter grandes talentos para mandar, porque tem disso vontade. Se lhe dão louvores todo
se ufana, nada esquece para os granjear, tendo todavia um grande cuidado em ocultar este desejo.
Não pode ver louvar os mais; não obstante, uma vez por outra também os louva, mas é por lisonja ou
interesse particular que ele o faz. Como o mais que teme é o ser desprezado, oculta quanto pode as
suas imperfeições. Em tudo procura as suas maiores comodidades, do incomodo dos outros não se
lhe dá. Em suas penas tem de si mesmo grande ternura e compaixão, é duro e cruel para com as dos
seus irmãos. Examina, meu caro Teótimo, por estes sinais, se hás feito algum progresso na
mortificação do teu amor próprio, e toma a resolução de lhe fazer guerra de morte.

4. Mortificação das paixões


A primeira a atacar é a tua paixão dominante; esta submetida, todas as outras ir-se-ão amainando
como de si mesmas. Tem cuidado que não concedas a alguma de tuas paixões coisa alguma de que te
peçam, por mínimas, por mais submissas que te pareçam; está sempre de sobre aviso a seu respeito,
nunca te capacites que as tens já extinto, porque durante toda esta vida estão sempre a renascer e
reaparecem de pé para a mão quando por mortas as tínhamos há muito tempo.

Quanta coisa que é preciso fazer! Me dizes tu agora, que combates! Que angustias! Que cruz! É
verdade, é, meu caro Teótimo, mas olha, esta vida é tão curta, o dia da recompensa já se avizinha, e é
preciso muito cuidado e constantes esforços para se adquirir a virtude. — Mas é muito mais fadiga
resistir aos vícios e paixões do que suportar as fadigas do corpo. — Isso também é verdade. Lembra-
te todavia que se perseverares no fervor em combate tão difícil à natureza, hás de experimentar uma
grande paz, e pela graça de Deus e amor à virtude já todo o trabalho te há de ser leve. E afinal, Deus
e o céu sempre merecem que por ele soframos alguma coisa.
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Capítulo XVII
Amor que nos testemunhou Jesus Cristo instituindo a Santa Eucaristia para
nutrir e consolar nossa alma
Sciens Jesus quia venit hora ejus et transeat ex hoc mundo ad Patrem cum dilexisset suos qui
erant in mundo, in finem dilexit eos
“Sabendo Jesus que era cliogada a sua hora de passar d’este mundo ao Pai, como tinha amado
os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13, 1)

Accipite et comedite: hoc est corpus meumn


“Tomai e comei, este é o meu Corpo” (Mt 26, 26)

É no momento da morte quando urge separar-se das pessoas amadas, que cresce e redobra o afeto
dos verdadeiros amigos; é então que mais que nunca procuram dar-lhe as ultimas lembranças do seu
amor. Em todo o curso da sua vida mortal nunca Jesus cessara de nos dar testemunhos da sua ternura;
por mil e mil maneiras nos mostrara quanto sabe amar-nos; mas chegada que foi a hora de voltar para
o seu eterno Pai, não contente com o que por amor nosso já operara, não contente com derramar até à
ultima gota de sangue, quis fazer mais ainda, quis deixar-nos mais extremosa prova do seu ardente
amor para conosco. Prova mais extremosa!… Pois que! É possível dar mais que a vida para provar
que se ama?… Ah! O que a nós é impossível, não o é à ternura de um Deus. Escutemos.

Era numa quinta-feira à tarde. Jesus depois de haver comido a ultima páscoa com os seus apóstolos,
acaba de lhes lavar os pés; eles estavam ainda todos fora de si a um tão inaudito exemplo de
humildade do seu bom Mestre. Sem duvida guardavam um religioso silencio; sem duvida anteviam
que algum grande mistério ia realizar-se; sem duvida, se eles estavam atentos, divisavam no rosto do
Salva¬dor o que quer que é de maior, mais majestoso, mais divino ainda que de ordinário…

“Jesus tomou o pão, elevou ao céu os olhos banhados em lágrimas e dando graças a Deus, seu
Pai, benzeu este pão, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: ‘Tomai e comei, este é o meu
corpo'”

Ó prodígio! Pronunciadas que foram estas palavras, para logo o pão foi realmente mudado; já não foi
mais pão, mas Jesus Cristo mesmo; Jesus Cristo, delicia dos bem-aventurados, terror dos demônios,
Salvador do mundo; Jesus Cristo “constituído juiz dos vivos e dos mortos”; Jesus Cristo “a cujo
nome se dobra todo o joelho dos que estão nos céus, na terra e nos infernos”.

Meu doce Salvador, consenti à vossa pobre criatura que vos pergunte qual é o fim que vos propuseste
ocultando assim a vossa divindade e humanidade sob as vis aparências de um bocado de pão. Assas
vos não rebaixastes vós já na encarnação, descendo do alto dos céus para vos revestirdes da nossa
natureza humana, e, à exceção do pecado, de todas as misérias que são seu triste apanágio?

— É tão grande o amor que tenho a todos os homens, tão grande o que a ti mesmo, meu filho,
consagro, que não pude resolver-me a vos deixar órfãos sobre a terra. Como era de interesse vosso
que eu voltasse para o céu afim de ai vos aparelhar um lugar, em antes de deixar-vos chamei em
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socorro da minha ternura todo o meu poder, e descobri este meio de sempre estar aqui convosco,
conservando-me ao mesmo tempo sentado à mão direita de Deus Pai. Sim, até à consumação dos
séculos continuamente estarei convosco para ser este o vosso arrimo, a vossa consolação, o sustento
de vossas almas. Em quanto sobre a terra correr uma só gota de sangue de Adão, sempre nele me terá
preso o amor, sempre direi a quem me quiser ouvir:

“Vinde, vinde, e comei o pão que vos preparei; bebei o vinho que para vós derramei”

Vinde a mim, ó vós que tendes fome e sede de justiça; ó vós que buscais a paz e felicidade; ó vós que
tendes necessidade de amar, vinde e eu vos saciarei: “tomai, comei, este é o meu corpo”, o corpo do
vosso Deus, o corpo do vosso melhor amigo.

Ó bom Jesus! Não era assas para nos provar o vosso amor, haverdes-nos vós tirado do nada
haverdes-nos criado à vossa imagem, haverdes-nos resgatado a preço do vosso sangue? Era preciso
ainda que, pródigo de vós mesmo, vos désseis a nós em nutrição? Que! Exclama São Boaventura, o
meu Deus tornou-se o meu sustento! O Verbo eterno, a sabedoria do Pai quis fazer-se refeição da
minha alma! Aquele a quem os anjos só tremendo olham, aquele cujo fulgor e majestade não podem
suster, ei-lo que desce ao meu coração para a mim se unir pelos mais íntimos laços! Coisa
admirável! a pobre e misera criatura nutre-se do corpo do seu Criador! Ó dulcíssimo Jesus! sempre
permiti que vo-lo diga, o vosso amor para convosco levou-nos fora de todas as medidas; pois “quem
é o homem para que assim vos queirais ocupar dele com tanta solicitude?” Todo o homem vivente
é outra coisa mais que vaidade, cinza e pó? E apesar de tudo isto, vós, ó meu Deus! ainda vos dignais
lançar sobre ele olhos de bondade, ainda chegais mesmo a convida-lo para a vossa mesa e nutri-lo
de vosso adorabilíssimo corpo! Ah! Deixai-me que vos repita com muitos de vossos fieis servos:
vós levastes o amor para conosco até à loucura? Em verdade, em verdade, Senhor, um excesso destes
não era para a vossa Majestade…

Assim é, filho meu; mas o amor quando quer fazer bem e comunicar-se ao amado não olha ao que
convém. Vai não aonde o chama a razão, mas aonde o ardor o arrasta. Por isso é que olvidando o
cuidado da minha própria gloria me encerrei na humilde aparência de um bocado de pão afim de ser
a nutrição da tua alma. Ai! que seria dessa tua pobre alma, tão fraca, tão frágil, tão propensa ao mal;
que havia de ser dela se a eu tivera amado menos e se a ela me não dera todo no sacramento do meu
amor?

Ó meu Jesus! A vossa ternura para comigo cobre-me de vergonha e confusão à vista da minha
in¬gratidão. Ah! Fazei-me a graça de vos não ser mais ingrato; abrasai o meu coração das
vossas santas chamas, mas com tanta violência que eu esqueça o mundo, esqueça a mim mesmo
e só pense em amar-vos e agradar-vos. A vós consagro corpo, alma, vontade, liberdade, a mim
todo. Se no passado procurei a minha satisfação e isto com mil desgostos vossos, hoje me
arrependo soberanamente, ó meu amor! Para o futuro nenhuma outra coisa quero procurar senão
a vós. Ó meu Deus! Vós sois o meu tudo, Deus meus et omnia; só a vós quero e a nada mais.
Oh! não poder eu consumir-me de amor por vós como vós vos consumistes todo por mim! Amo-
vos, ó meu único bem, meu único amor; amo-vos e todo me abandono à vossa santa vontade;
fazei que sempre vos ame e de cada vez mais até o meu ultimo suspiro.

“O que come, diz o nosso divino Salvador, o que come a minha carne e bebe o meu sangue está
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em mim e eu nele”

Que felicidade possuir em nosso coração um tal hospede! Que dita para uma alma que na santa
comunhão o recebeu expor-lhe as suas necessidades, as suas misérias, repartir com ele das suas
esperanças e temores, e dizer-lhe o seu amor! que ventura poder mostrar-lhe as suas chagas e pedir-
lhe o remédio para elas! Esta felicidade a hei eu tido muitas vezes; e como me tenho aproveitado?
Com que fé, com que humildade me aproximo do meu Deus no sacramento do seu amor? que
disposições levo à santa comunhão? Uma só comunhão bem feita basta para do maior pecador fazer o
maior santo!…

E eu sou melhor, eu? Estou mais perfeito depois de tantas comunhões? Que faltas corrigi? Que
virtudes adquiri ou aumentei? A comungar todos os meses, todos os oito dias, todos os dias talvez, e
passar uma vida sempre tão imperfeita, sempre tão imortificada, sempre tão dissipada, que horror! A
receber tantas e tantas vezes um Deus humilhado, aniquilado por meu amor e estar sempre cheio de
orgulho, cheio de vaidade, cheio de amor próprio, que vergonha!

Ó Senhor Jesus! Instantemente vos peço não me trateis como mereço. Ai! se fordes a examinar uma
por uma as minhas iniquidades, as minhas in¬gratidões, as minhas irreverências para com o
sacramento da vossa ternura, poderei eu com um tal exame? Não, meu Deus, não; confesso que “me
seria impossível responder uma só palavra por mil”. Tão pouco tentarei justificar a tibieza com que
na santa comunhão vos hei recebido, pois eu sei que se “pretendesse mostrar que sou inocente, vós
me convenceríeis no mesmo instante da minha mentira e loucura”. Antes quero confessar-vos, ó
doce Salvador da minha alma, antes quero confessar-vos a minha falta e chora-la diante de vós! Sim,
sou inescusável. Oh! tantas vezes me hei nutrido do meu Deus, e ainda sou tépido no seu serviço, tão
pouco sensível ao seu amor! tantas vezes recebi o Deus de toda a pureza e santidade, e sempre me
acho ascorosamente coberto das ulceras de mil pecados, mil imperfeições! Ó céu! Devia, segundo
São João Crisóstomo, devia ser ao sair da santa mesa semelhante a um leão, respirando fogo do
divino amor; devia ser um objeto de terror e assombro às potências infernais, e por uma espécie de
milagre diabólico fico depois da comunhão tão frio, tão imortificado como de antes… Ó meu Deus!
Que conta vos hei de eu dar no grande dia do vosso juízo? Que escusa poderei alegar quando diante
dos olhos me puserdes de um lado as graças que de uma só comunhão podia tirar, de outro as
inúmeras faltas de que, apesar disso, me tornei culpável? Vós estareis lá, vós, meu Jesus; ante vós é
que me verei apresentado. Mas ai! Não sereis já o esposo da minha alma, mas o seu juiz; não mais
um cordeiro cheio de doçura, mas um leão justamente irritado… Oh! Que exprobrações tão severas
me dirigireis vós então?…

Agora que fazer? Desesperar? Abandonar a santa comunhão? Não seguramente. Mas preparar-me-ei
para ela com mais cuidado; levarei mais recolhimento, mais humildade, mais amor; farei ao meu
Deus to¬dos os sacrifícios que me pede; abandonar-me-ei em tudo mais à sua misericórdia.

Sim, doce Jesus meu! É nos braços da vossa misericórdia que quero lançar-me; é no vosso
coração que quero refugiar-me. Muito vos hei ofendido desde que estou sobre a terra; muitas
amarguras vos causei; como novo filho pródigo, muitas e muitas lágrimas vos hei feito derramar
pela minha fuga e desvarios; ingrato e desnaturado, como ao meu mais cruel inimigo vos hei
tratado, e eis que vós consentis ainda em receber-me em o numero dos vossos filhos, ainda me
ordenais que me sente à vossa mesa. Ai! Talvez eu tenha abusado de tão assinalado favor, talvez
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de vossos próprios benefícios me haja servido para ofender-vos!

Ó bom Jesus! Se cai na desgraça de a tal ponto vos ultrajar, perdoai a este coração contrito,
per¬doai-lhe tudo; e pois que por um excesso de amor para comigo, me permitis que
frequentemente vos receba na miserável casa do meu coração, fazei-me a graça de vos receber
doravante com um ardente amor, e um pesar sincero de tão mal vos ter servido. Possa eu, ó meu
bom Mestre, meu terno irmão, meu melhor amigo, minha esperança! Possa eu para o futuro
reparar por meu fervor todas as angustias que por minhas tíbias comunhões vos causei! O’ meu
doce Jesus, ouvi o meu desejo e tende de mim piedade. Amo-vos e quero amar-vos sempre,
sempre, sempre! Amo-vos porque sois bom, amo-vos porque mereceis todo o meu amor. Amo-
vos por causa de vossas infinitas perfeições, amo-vos por vós mesmo.

“E eis aqui que eu estarei convosco todos os dias até à consumação dos séculos”

Esta foi a promessa de nosso Senhor aos seus apóstolos quando voltava ao céu, e não foi feita em
vão. Dezoito séculos há já que este bom pastor não deixa as suas ovelhas, por elas se impor a
obrigação de descer do céu à voz dos seus padres, por elas se submeteu aos desprezos, às
irreverências, aos ultrajes dos ímpios, ao esquecimento e abandono dos maus cristãos. Durante sua
vida mortal, Jesus Cristo só na Judeia habitava, a poucos era dado vê-lo e ouvi-lo: já assim não é
hoje; nada mais tenho que entrar numa Igreja católica que lá acharei o meu Deus. Está encerrado em
nossos tabernáculos, ai! Às vezes bem podres, bem pouco dignos de quem contém. Está para ali só,
abandonado, ninguém pensa em o ir visitar; ninguém se dá ao cuidado de lhe ir agradecer o seu amor.
Ali está, ali me espera para sobre mim derramar as mais abundantes graças, para me dar o seu amor!
… Oh! Feliz da alma que tem a fidelidade de amiúde o visitar no sacramento do altar! feliz da alma
que lhe vai expor as suas misérias! Oh! Que tão doces lágrimas as de um pecador ao pés de Jesus ao
recordar-se das suas faltas passadas! Repito-o e incessantemente o repetirei; Feliz, mil vezes feliz, a
alma que não deixa passar dia, tendo para isso comodidade, em que não visite este Deus de amor!
Por um quarto de hora de oração diante do Santíssimo Sacramento obterá muitas vezes mais do que
alcançou em todo o dia com todos os exercícios espirituais.

Ó Jesus, ao considerar na ternura que vós me mostrais ficando no sacramento da Eucaristia para
nos consolar nesta terra de dor e exílio, eu fico fora de mim mesmo; faltam-me expressões para
dizer o que sinto e córo de vergonha por tão pouco vos ter amado, por me não haver ainda
consumido do vosso amor. A qualquer hora do dia ou da noite que me apresente numa Igreja, lá
vos encontro disposto sempre a escutar e atender as minhas orações. No meio de nós habitais
como um nosso igual; de tão boa vontade morais na mais pequena aldeia coma na mais populosa
cidade.

Está alguma de vossas ovelha na aflição, lá ides vós a toda a pressa oferecer-lhe consolações.
Está estendida no leito de dor, ides vós mesmo pro¬cura-la e partilhar os seus sofrimentos. Está
a dar o ultimo suspiro, correis instantaneamente para o pé dela, a anima-la a fazer o sacrifício
da sua vida e com a vossa presença lhe suavizais os horrores da morte. Ó Jesus, quão inefável é
o vosso amor para com os homens! quando, pois, de nossa parte vos pagaremos? Quando vos
amaremos como é justo que vos amemos? Concedei-nos a todos esta graça, ó doce Salvador!
mas particularmente a mira que de todos sou mais necessitado. Fiat, fiat! Assim seja.
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RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Hoje, meu caro Teótimo, deves tomar três resoluções da mais alta importância e ser-lhe para o diante
muitíssimo fiel.

1. Todas as vezes que tiveres a dita de comungar prepara-te para esta tão grande ação como farias se
imediatamente depois houveras de morrer. Lê de tempos a tempos a curta instrução que precede os
atos para antes e depois da comunhão, e que acharás no fim deste livro.

2. Contrai o santo habito de fazer o que se chama comunhão espiritual; consiste ei-la em desejar
receber a Jesus Cristo em nosso coração e entreter-nos familiarmente com ele como se realmente o
recebemos. Abundantíssimas são as graças que uma tão simples como fácil pratica consigo traz.
Pode-se repetir no dia quantas vezes se deseje.

3. Sempre que possas vai visitar todos os dias nosso Senhor no Sacramento do seu amor. No fim
deste livro acharás a pratica de visita ao Santíssimo Sacramento. Faze dela bom e frequente uso que
incalculáveis são as vantagens que podes auferir. Se és rico, sugerir-te-ei eu ainda uma prática que
mui agradável será ao coração de Nosso Senhor. Raro não é, e sobretudo no campo, encontrar Igrejas
pobres que quase não possuem uma única peça de linho que esteja boa para o serviço dos altares;
daqui vem que muitas vezes o corpo do nosso bom Senhor repousa em corporais de grossa tela, às
vezes rotos e já usados. Meu caro Teótimo, pelo amor deste terno amigo das nossas almas impõe-te
algum sacrifício e faze com que ao menos repouse sobre corporais decentes e menos indignos dele.
Porque não hás de fazer, tu que és rico, o que fazem tantas mulheres pobres que se dão a toda a sorte
de fadigas por muitos anos afim de poderem comprar uma toalha do altar, castiçais limpos,
purificatórios, corporais, etc.? Que admiráveis exemplos destes poderia eu citar-te agora! Perdão,
meu caro Teótimo, se desço a estas miudezas; quando se trata do serviço e honra de nosso Deus nada
é pequeno.

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Capítulo XVIII
Tristezas de Nosso Senhor no Jardim das Oliveiras, seu suor de sangue, sua
resignação à vontade de Deus
Tristis est anima mea usque ad mortem.
“A minha alma está numa tristeza mortal.”
(Mt 26, 38)

Começa aqui o cruento curso da paixão do nosso divino Salvador; agora é que nós vamos ver este
bom Mestre vitima de anil e mil tormentos por nosso amor.

Depois de haver instituído o sacramento da Eucaristia, depois de haver dado aos seus apóstolos as
ultimas instruções, Jesus, a quem agora neste mundo só restava sofrer e morrer, “foi, como
costumava, para a outra banda do Ribeiro de Cedron, ao monte das Oliveiras, a um lugar
chamado Getsemani, onde havia um horto no qual entrou ele e seus discípulos”. Como chegava o
momento do combate, quis para nossa instrução preparar-se para ele com a oração.

“Disse, pois, a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou acolá e oro ; orai também
vós para que não entreis em tentação. E levou consigo Pedro, Thiago e João”

Mas mal chegou ao lugar mais retirado do horto, “começou a ter pavor, e a angustiar-se em
extremo”, e esta angustia foi tanto além, que ele, que nunca se queixou de nada, ele que tanto ansiava
sofrer, julgou dever dizer a seus discípulos:

“A minha alma acha-se numa tristeza mortal”…

Depois de lhes haver feito esta confidencia, deixou-os, adiantou-se um pouco, e se põe pela segunda
vez a orar. Mas ai! Sua tristeza, seus temores, suas agonias iam sempre em aumento, e tão violentos
foram esses combates que teve de sustentar, que “um suor de sangue correu de todo o seu corpo”.
Dir-se-ia que a divindade o abandonara: assim é que a violência de sua tristeza e de seus temores o
fez cair em uma agonia mortal.

Mas não fostes vós, Senhor, que aos vossos mártires destes essa tão grande alegria nos sofrimentos
que os fazia encarar com desprezo os tormentos e a mesma morte? Santa Agueda caminhava para o
cárcere e para a morte como se fosse para um festim de casamento. São Tiburcio caminhava sobre os
carvões como sobre flores. Santo André bem não avistara ainda a cruz que devia ser o instrumento
do seu suplício, num excesso de consolação e alegria prorrompe nestas palavras:

“Ó Cruz! Cruz honrada e consagrada pelo corpo adorável do meu salvador! ó boa e preciosa
cruz! Tu há tanto tempo por mim desejada, tu a quem tão ardentemente amei, tão
continuadamente procurei, finalmente sempre te achei! satisfeitos estão meus votos! A ti eu
venho inundado de alegria e viva confiança; oh! Tira-me deste desgraçado mundo e restitui-me a
meu querido mestre Jesus Cristo e de braços abertos me receba, pois por ti foi que me remiu”

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Como ao cabo de dois dias em que ainda estava vivo o quisessem tirar da cruz, exclamou:

“Não permitais, Senhor, que daqui me despreguem, nem que eu receba a humilhação de morrer
fora da cruz”

Em martírio era São Vicente atormentado no cavalete, dilacerado com unhas de ferro, queimado com
laminas de fogo; e no meio de
tantos tormentos tal era a firmeza com que ao tirano falava, que, como refere Santo Agostinho, um
parecia ser Vicente que sofria, outro o que falava. Enquanto São Lourenço ardia estendido em
grelhas, mais potente era para consolar sua alma, diz São Leão, o fogo divino, que o exterior para
consumir seu corpo. E assim dizia ao tirano:

“Se quiseres, podes comer a minha carne, já está assada, pega e come”

Eis, ó Jesus meu, como com a doçura do vosso amor vós sabeis fortificar os mártires no meio dos
seus combates, e para vós, para vós só fraqueza e temores! aos vossos servos dais uma alegria assim
no meio dos seus tormentos, e vós nos vossos só tendes por quinhão uma tal tristeza?

— Ah! Filho meu, se eu chorei, se tremi, se me vi comprimido, de tão violenta tristeza no jardim das
Oliveiras, foi por amor de ti e para tua consolação. Se tão vivo terror me causou a vista da morte
ignominiosa que me esperava, é porque quis mostrar-te que havia tomado sobre mim todas as
fraquezas dos homens, e que para mim como por eles tinha a morte seus horrores. Mas ai! Muitos
outros motivos de tristeza tive eu para estar triste até à morte. Em primeiro lugar vi-me
sobrecarregado com os pecados de todos os homens. Oh! Quem poderá dizer o numero destes
pecados! E eu via-os todos, todos distintamente; nem um só me escapava. Conhecia claramente toda a
sua malignidade, sabia que injuria fazem a Deus e que horror lhe inspiram. E com este enorme peso
de todos os pecados que se cometeram e hão de cmmetter é que eu apareci diante de meu Pai! A
confusão que experimentei foi tão grande e a dor que de tantos pecados concebi tão excessiva, que
para eu não morrer foi necessário um milagre, da minha onipotência. Se tu, meu filho, compreenderas
a santidade de Deus e a fealdade do pecado, já não te espantarias das minhas tristezas e conhecerias
como foi possível que do meu corpo emanasse uma abundante fonte de sangue.

— Então, Senhor, também eu contribui por minhas iniquidades a aumentar vossa tristeza? Carregastes
também com o peso dos meus pecados?

— Sim, meu filho, esse prazer que tu tanto desejavas, tanto procuravas, e por infelicidade achaste
nos pecados da vida passada, é o que penetrou minha alma duma dor mortal, é o que me causou este
suor de sangue, é o que me reduziu a esta cruel agonia. E que, meu filho, quem agora te suplica sou
eu, eu, o teu Deus e teu irmão; poderás amar ainda o prazer? E procurarás renovar mais ainda as
minhas dores?

— Ai! Senhor, eu me lanço aos vossos pés, confuso, humilhado e aniquilado; confesso-vos a minha
ingratidão e perfídia; concedei-me o perdão. Ah! foram os meus malditos pecados os que, cada um
em particular, oprimiram o vosso coração de angustia e tristeza. Esta é a recompensa que dei ao amor
que me testemunhastes morrendo por mim?

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Ó meu Deus, fazei-me participar dessa dor que no jardim das Oliveiras sentistes por meus
pecados, afim de que toda a minha vida esta dor me conserve na compunção. Meu doce
Redentor! possa eu por meu pesar e minha dor consolar-vos para o futuro tanto quanto até ao
presente vos afligi! De todo o meu coração me arrependo de vos haver preferido miseráveis
satisfações; arrependo-me e vos amo mais que toda qualquer outra coisa. Sim, amo-vos de todo
o meu coração, de toda a minha alma: mas ainda não é assas. Dai-me, pois, o amor que de mim
desejais; todos os dias de mais em mais me atrai ao vosso amor pelo odor dos vossos perfumes,
que são as doces inspirações da vossa graça e fazei que persevere no vosso serviço até ao meu
ultimo suspiro.

“A minha alma está de uma tristeza mortal”

O que sobre tudo causava a Jesus esta tristeza era o ver a inutilidade dos seus trabalhos, dos seus
sofrimentos e da sua morte para a maior parte dos homens. Já no inferno ardia uma infinita multidão
deles, bem que de antemão lhe fossem aplicados os frutos da sua morte; previa que outros muitos, no
cristianismo mesmo, com tantas graças não deixa¬riam de lá cair. Via que o numero dos eleitos havia
de ser extremamente pequeno, que o serviriam como escravos, que depois de tantos e tantos sinais de
amor, ainda o ofenderiam; que para o servir não fariam senão o que precisamente é de preceito e isto
pelo simples temor de se condenarem; todo isto ele via e, como a seu pesar, caia no abatimento. No
meio de tantas penas interiores, onde foi Jesus Cristo procurar alivio? Em seu Pai e só em seu Pai,
em nenhuma outra coisa mais. Oh! e que belo exemplo nos não deixou ele!

“O nosso divino Salvador, diz o padre Judde, deixa à entrada do Jardim a multidão dos seus
discípulos…”

Para que tantas testemunhas e tantos confidentes de nossas penas? É fatiga-los, incomoda-los; eles
também têm como nós as suas cruzes, se não é hoje, é outro dia; neles não é pois o procurar a
consolação. Depois de alguns momentos de suspensão e efusão com eles, tornamo-nos a nós mesmos
aflitos como de antes e carregados dos remorsos de muitas faltas novas.

“Jesus Cristo leva consigo três discípulos”

Nas nossas interiores aflições podemos ir ter com algum amigo melhor e dizer-lhe: Dá-me um
conselho e ora por mim, eu te peço isto; assim é procurar a Deus no homem, recorrer a amigos
imperfeitos é procurar o mundo.

“Ao cabo de um momento Jesus Cristo deixa estes mesmos três amigos…”

A consolação a principio tomada só com a vista em Deus poder-se-ia tomar natural se por muito
tempo a prolongássemos. Tomemos pois depressa a Deus.

“Mas qual era a sua oração?”

Prostrado por terra ou para melhor notar seu respeito, ou por não ter força para suster-se. “Pai meu”,
dizia, “se é possível, passe de mim este cálice; todavia não se faça nisto a minha vontade, mas sim
a tua”. Que belo sentimento! Quão digno do Filho de Deus e dos imitadores do Filho de Deus! Não,
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não há nada mais divino do que o sofrer com tal resignação tantas repugnâncias. Se Jesus Cristo
menos custo tivera em submeter-se, diríamos: Não o posso imitar. Agora quando nos achamos na dor,
gememos, derramamos nosso coração diante de Deus; é-nos isto permitido, mas sempre estejamos
resignados.

“A oração de Jesus foi curta: “Pai meu, passe de mim este cálice, se é possível; faça-se,
todavia, a vossa vontade e não a minha”

Por mais aflitos que estejamos, estivéssemos nós mesmos a morrer, podemos dizer outro tanto.

“Jesus repetiu três vezes esta mesma súplica enquanto sua aflição durou, e até que chegou o anjo
para o confortar”

Imitemo-lo. Nada se obtém senão pela perseverança.

“Sua oração foi terna: “Meu Pai”!…”

Ah! Ele é o nosso Pai, embora nos aflija. Que faça, pois, como lhe aprouver, eu só temo os golpes de
um juiz irritado.

“Sua oração foi condicional: “Livrai-me, se é possível, se julgais conveniente”

Se falasse a um outro que não a seu Pai, diria absolutamente:

“Livrai-me da morte”

Mas fala de outro modo: Meu Pai conhece melhor que eu o que me convém, ele pode tudo, ama-me,
que me trate pois com rigor, se
esta é a sua vontade: Savit quantum vult: Pater est.
Todos nós, quem quer que sejamos, quantas vezes no decurso da nossa vida, ai! Não teremos a
necessidade de praticar estas importantes lições?

“Vamo-nos a Deus: nele tudo se acha; mas ainda uma vez, não vamos senão a Deus, ou aos
amigos de Deus”

Esta mesma resolução tomo eu aos vossos pés, ó meu Salvador. Quando vos aprouver enviar-me
alguma cruz, alguma aflição, é a vós que eu quero recorrer, é junto de vós que me quero ir
consolar. Sois o meu mestre e o meu melhor amigo: possa, pois, em tudo abandonar-me a vós.
Feri, ó Jesus meu, feri esta vida culpável que por tantas vezes mereceu o inferno, e “fazei de
mim tudo o que parecer bom aos vossos olhos”; pronto está o meu coração, disposto está a
receber da vossa mão a adversidade como a prosperidade. Eis-me diante de vós, à vossa
misericórdia me abandono, entre vossas mãos me lanço, porque sei que tudo quanto de mim
fizerdes só pode ser bom. Se quereis que eu esteja em trevas, sejais bendito; se vos apraz que
esteja em luz, sejais bendito; se vos dignais consolar-me, sejais bendito; se consentis que
experimente tribulações, bendito sejais também. Por vós sofrerei de bom grado tudo quanto
quiserdes que sobre mim venha.
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De vossa mão quero indiferentemente receber a bem e o mal, as doçuras e amarguras, a alegria
e a tristeza, e de tudo isto que me acontecer dar-vos graças.- Preservai-me para sempre do
pecado, e eu já não temerei a morte nem o inferno. Com tanto que me não rejeiteis nem me
risqueis do livro da vida, nenhuma tribulação me pode fazer mal. Uma vez que vos ame, tudo o
mais me é indiferente. Ó doce Jesus! dai-me o vosso amor e a graça de morrer dizendo: Amo-
vos, meu Jesus, amo-vos e submeto-me à vossa santa vontade.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Submissão à Vontade de Deus

Fazer a vontade de Deus, esta é a santidade, esta a perfeição; tudo o mais não é senão ilusão.
Aprende, pois, a submeter-te a esta vontade santa.

1. Na saúde ou na doença; estás enfermo, deitado em teu leito, dize: “Ó meu Deus, assim o quero
também eu”

2. Nas consolações interiores ou nas desolações: “Melhor sabe Deus o que à minha alma convém”

3. Na pobreza ou riqueza; és rico, deves saber que as riquezas andam muitas vezes acompanhadas de
angustias, que muitas vezes são um peso insuportável, e que te expõem a numerosos perigos;
submete-te, pois, à vontade de Deus que julgou bem fazer-te, não senhor e possuidor, mas
simplesmente depositário dos tesouros que recebeste para os pobres e para ti mesmo. Se és pobre
submete-te de toda a boa vontade às privações do teu estado; Deus é que assim o quer. Frio, calor,
sede, trabalho, fadiga, suores, desprezos e desdéns da parte dos ricos é o quinhão dos pobres; aos
olhos do mundo, partilha mui infeliz, não assim aos da fé. Ó meu Deus! Que méritos não se podem
ganhar, quando, no seio da pobreza e de suas inumeráveis privações, se diz do fundo do coração:
“Senhor, seja feita a vossa vontade!”

4. Submete-te ainda à vontade de Deus no tocante às estações: nunca murmures porque chove muitas
vezes, porque a seca faz perecer tuas searas, etc. Todos estes murmúrios nada mudam a ordem das
coisas; o muito que podem fazer é ofender a Deus. Resigna-te enfim com a vontade de Deus no que te
diz respeito; contenta-te da saúde, talentos, vantagens do corpo e espírito, virtudes, santidade que
mais aprouve a Deus conceder-te, e nisto como em tudo o mais, dize sempre: “Senhor, não quero
mais nada senão o que vós quiserdes”.

Oração à Jesus Agonizante no Jardim das Oliveiras


Para lhe pedir a Graça de uma Boa Morte
Ó Jesus, meu Salvador! Peço-vos pela amarga dor que no jardim das Oliveiras penetrou vossa
alma, que venhais em meu socorro, quando a minha alma, no momento de deixar este corpo,
estiver cheia de terror à vista dos formidáveis juízos. Dignai-vos então fortificar-me pela
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esperança em vossa misericórdia, enviai-me vosso santo anjo para que me de¬fenda contra os
ataques e tentações do demônio. Que a virtude dos vossos sofrimentos me dê força para suportar
a diuturnidade da doença e a violência das dores, sem murmuração, sem impaciência. Fazei que
minha alma sempre esteja perfeitamente submissa à vossa vontade, e que por vosso amor aceite
igualmente a saúde e a doença, a adversidade e a prosperidade, a morte e a vida, e
incessantemente repita em todas as coisas: “Meu Deus, seja feita a vossa vontade e não a
minha”. Não vos peço, Senhor, que me envieis uma morte plácida, dores suportáveis, doenças
leves; tudo isto deixo à vossa sabedoria, de tudo disponha ela, não segundo os meus desejos
mas segundo as minhas necessidade e segundo me for mais útil. O que vos suplico, o que vos
conjuro é que me concedais a graça de, em minha ultima enfermidade, receber todos os socorros
da religião, e expirar dizendo do intimo do meu coração: Jesus e Maria, em vossas mãos me
lanço; Jesus e Maria, amo-vos de todo o meu coração. Assim seja.

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Capítulo XIX
Jesus traído pelo pérfido Judas e preso como um ladrão
Comprehenderunt Jesum, et ligaverunt eum.
“Prenderam a Jesus e o manietaram.”
(Jo 18, 12)

O pérfido Judas decidira-se a trair Jesus.


Acompanhado de uma multidão de soldados romanos e de criados armados de lanternas e varapaus
dirigiu-se para o jardim das Oliveiras, onde sabia que seu divino Mestre ia orar à noite. De caminho
disse à sua tropa:

“Como não conheceis de vista a Jesus de Nazareth, notai aquele em quem eu der um beijo: esse
é que deveis prender; mas conduzi-o com precaução e olhai não vos escape”

O sinal e os conselhos eram dignos de Judas.


Depois de medidas tão bem tomadas, entra no jardim; deixa a sua tropa a alguma distancia e
reconhecendo Jesus, seu Salvador, corre a ele dizendo: “Eu te saúdo, Mestre”, e lançando-se ao
pescoço o beija. O Cordeiro de Deus não recusou este beijo, por ventura o mais cruel de todos os
tormentos da sua paixão; mas como conhecia o desígnio deste desgraçado, a ver se ainda o ganhava e
fazia cair em si mesmo, diz-lhe com uma doçura capaz de abrandar um tigre e converter um celarado
ordinário:

“Judas, pois é com um beijo que entregas o teu Mestre?”

Depois destas palavras deu alguns passos para a tropa inimiga que o esperava e lhe diz:

“A quem procurais? A Jesus de Nazaré, responderam. Eu sou, replicou Jesus. Podeis lançar mão
de mim, pois eu sou a quem procurais; eu vo-lo permito, mas deixai estes, acrescentou,
mostrando seus discípulos, e não os inquieteis”

Ó amabilíssimo Jesus! Assim é que em toda a ocasião vós tomais a peito o mostrar-nos quanto nos
amais. Vêm os vossos inimigos prender-vos e arrastar-vos à morte, e vós sem pensar nem em fugir
nem em defender-vos, só dos vossos caros discípulos vos ocupais; contra vós permitis tudo aos
inimigos, porém contra os que vos amam não lhes consentis a mínima coisa. Ó Jesus! Servir assim
um Senhor como vós, que felicidade não é! Poder-se assim repousar sobre o vosso amor, de todos os
cuidados que nos toquem, quão suave é! Não, doravante, meu Jesus, hei de ter em vós uma confiança
sem limites; quero, quero abandonar-me a vós sem reserva. Vós sois o meu protetor e velais sem
cessar sobre mim: quem poderá, pois, fazer-me tremer, ou de que poderei eu ter medo? Pois que! Um
príncipe está cercado dos seu guardas c nada teme; um mortal guardado por outros mortais como ele,
crê-se em seguro! E eu, eu que estou sob o cuidado do meu Deus, hei de tremer? Não, não. Ó Jesus,
hei de ter sempre confiança em vós. Desencadeie-se contra mim todo o inferno, que eu sempre
confiarei em vós. Convosco nada tenho a temer dos seus furores; pode ele tirar-me o que vós me
destes? Em paz repousarei sempre no vosso seio e nele tomarei um repouso que nada me poderá
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perturbar. Entre¬tanto os soldados arremessam-se sobre Jesus, amarram-no estreitamente com cordas
e o arrastam com furor.

Ó céus! Um Deus encadeado!!! Santos anjos do paraíso, que sentimentos foram os vossos ao ver o
vosso Rei, de mãos ligadas atrás das costas, marchar no meio de soldados e atravessar assim neste
estado as ruas de Jerusalém! E vós, ó Jesus! Como é que consentistes em ser preso pelos homens, a
quem vós mesmo criaste, a quem acumulastes de tantos e tantos bens? “Quid tibi et vinculis?”
exclama dolorosamente São Bernardo. Que querem dizer esses laços dos malvados em vós que sois
uma bondade e majestade infinita? A nós, a nós, ingratos pecadores e condenados ao inferno, a nós é
que são justamente devidos esses laços, e não a vós, Santo dos santos, e a inocência mesma… Mas, ó
bom Jesus! Bem vos compreendo, sim; vós quisestes deixar-vos ligar como um escravo, para nos dar
uma nova prova do vosso amor; quisestes sofrer esses tratos indignos para nos dar um admirável
exemplo de doçura e para preencher esta profecia de Isaías: Foi sacrificado porque quis!

Ó alma minha! Olha o teu Deus carregado de cadeias e arrastado por uma vil populaça a casa de
Annaz e Caifaz. Lançam mão da sua sagrada pessoa, e ele não opõe a mínima resistência; algemam-
lhe as mãos, e ele não diz palavra; os soldados em sua bruta impaciência empurram-no com dureza,
arrastam-no cruelmente para o fazer andar mais depressa, e ele não deixa ouvir um queixume, não
profere uma ameaça. Sempre a mesma calma, sempre a mesma doçura; é um cordeiro inocente levado
para o matadouro; cala, sofre com humildade. Que belo modelo para mim! Ser-me há agora difícil
ainda encadear a minha vontade própria para a submeter à dos meus superiores? Ser-me-á muito
penoso ainda obedecer-lhes pontualmente; fazer, não o que me agrada, mas o que eles julgam
conveniente que eu faça; ir, não onde eu quiser, mas aonde suas ordens me enviarem? suceder-me-á
ainda mostrar-me difícil, talvez mesmo pouco submisso, amigo de dar as minhas razões, rebelde?
Não, meu Deus, não; doravante obedecerei com mais perfeição, afim de vos ser mais agradável.
Dignai-vos vir em socorro da minha fraqueza.

Beijo, ó meu bom Jesus! Beijo essas cordas que vos atam; são elas que me libertaram das
cadeias eternas por mim merecidas. Miserável de mim! quantas vezes renunciei à vossa amizade
desonrando-vos com os meus pecados! Ah! Arrependo-me de todo o meu coração de vos ter
feito esta injuria. Ó meu Deus! se assim vos ultrajei é porque preferi a minha à vossa vontade;
maldita vontade própria! Ó Jesus, tomai essa vontade rebelde, toda vo-la dou. A vossos pés a
prendei pelos doces laços do vosso amor, afim de que nenhuma outra coisa queira, senão o que
vós quiserdes. Fazei que eu empregue tanto ardor em vos ser agradável quanto vós pondes em
procurar a minha felicidade! Amo-vos, ó meu soberano bem! amo-vos, ó único objeto das
minhas afeições! reconheço que só vós me heis amado verdadeiramente, e também a vós só é
que eu quero amar. A tudo renuncio, só vós me bastais. Ah! Porque vos conheci eu tão tarde?
Fazei-me a graça de reparar pelo fervor do meu amor todo o tempo que perdi amando as
criaturas; fazei-me a graça de vos amar tanto como Santa Maria Madalena, como São Luiz
Gonzaga; tanto, se possível fora como a Santíssima Virgem; fazei-me a graça de em vosso amor
perseverar até ao meu ultimo suspiro.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
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Da Doçura

A todos encanta esta virtude da doçura; tê-la é de mui poucos. Muitos dos que pretendem ter esta bela
virtude, estão grosseiramente enganados; são cheios de doçura e mansidão, enquanto ninguém os
ofende; mas se por desgraça alguém lhes vai tocar, pouco que seja, logo esta pretendida se esvai para
dar lugar à cólera e ao ressentimento. Meu caro Teótimo, trabalha com coragem para não seres deste
numero; tua doçura sempre seja a mesma em todas as circunstanciais. Que te desprezem, te insultem,
te injuriem, nunca te deixes ir à cólera, mas segue sempre o conselho do Apóstolo: “dá bem por
mal“. Evita cuidadosamente toda a sorte de contestações e disputas; para o que condescende
voluntariamente com os sentimentos dos outros e não os contradigas. Se às vezes o teu dever ou a tua
caridade te obrigarem a contradizer a outrem, sempre seja com o maior comedimento. Sê sempre
pronto em perdoar aos que te causam aflições e mostra-lhes sempre rosto alegre, aberto e risonho.
Nunca repreendas rudemente a alguém, seja quem for, e não confundas uma sabia firmeza com o
desabrimento e dureza. Não sejas desses espíritos singulares que à mínima bagatela, à mais ligeira
graça que lhes é dirigida por um nada, logo se enfadam e irritam; mas acostuma-te a tomar por amor
de Jesus Cristo, tudo à boa parte, a sorrir com bondade, até mesmo quando sentires elevar-se em teu
coração a cólera. Numa palavra, é sempre bom, afável, complacente, cortês pronto a te incomodares
para não incomodar os outros e lhes ser serviçal.

Oh! Que feliz serias se possuirás esta bela virtude da doçura! Foi a virtude mais predileta do nosso
Salvador. Provou quanto lhe era cara a doçura fazendo bem aos ingratos, respondendo com
benevolência aos que o contradiziam, suportando, sem se queixar, as injurias e os maus tratos. Imita o
seu exemplo, meu caro Teótimo, e não esqueças que mais mal nos causa o irritar-nos com estas in-
juras, do que elas mesmas nos fariam. Usa da doçura para com os outros; digo mais, usa-a para
contigo mesmo. Muitos há que diz São Francisco de Sales, depois de haverem caído em alguma falta,
indignam-se contra si mesmos, atormentam-se, e com isto tornam-se culpáveis de mil outras faltas. O
demônio, diz São Luiz Gonzaga, em aguas turvas acha sempre que pescar. À vista de tuas quedas, de
tuas misérias, de tuas imperfeições, olha não te perturbes, que esta perturbação o mais que pode vir é
do orgulho e alta opinião que da tua virtude havias formado; humilha-te, pois; detesta sem paixão a
tua falta e logo, logo recorre a Deus, só de sua bondade esperando socorro para não tornares a cair.

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Capítulo XX
Jesus recebe uma bofetada de um dos oficiais do Sumo Sacerdote
Unus assistens minisirorum dedit alapam Jesu.
“Um dos quadrilheiros, que ali estava, deu uma bofetada em Jesus.”
(Jo 18, 22)

Acabava o nosso divino Salvador de ser apresentado a Caifás, que, como pontífice naquele ano, “lhe
fez perguntas sobre seus discipulos e qual era a sua doutrina. Eu falei publicamente ao mundo, eu
sempre ensinei na sinagoga e no templo, aonde concorreram todos os judeus, e em oculto nada
disse. Para que me perguntas? Pergunta àqueles que ouviram o que lhes falei: ei-los ai estão,
sabem o que eu lhes ensinei”. Digna era esta resposta da sabedoria mesma que a proferira. Mas não
obstante, um dos quadrilheiros que ali se achava, vira-se para Jesus e com insolência lhe diz: “Assim
respondes ao pontífice?”. Dizendo isto lhe descarrega uma bofetada. Uma bofetada! Espíritos
celestes, onde estais? Que fazeis, anjos Bem-aventurados! como podeis sofrer uma afronta destas ao
vosso rei? Uma bofetada!!!

Severamente devia ser punido o oficial que tal trato dera a Jesus; mas o pontífice aprovou, ao menos
por seu silencio, ação tão bruta. A um tal desacato parece que a terra devia entreabrir-se para
abismar este malvado; parece que Jesus devia fazer sentir a este.insolente que ele era o seu Deus;
mas não. Jesus, abrasá-lo sempre do desejo de nos provar o seu amor e nos deixar salutares
exemplos, sofre com toda a paciência esta afronta e se responde é só para evitar o escândalo,
mostrando que não faltara ao respeito ao pontífice.

Continuando Caifás no seu interrogatório perguntou a Jesus se verdadeiramente ele era o Filho de
Deus.

“Eu sou, respondeu Jesus. Então o príncipe dos sacerdotes rasgou as seus vestidos, dizendo:
Blasfemou; e todos os assistentes exclamaram: Sim, blasfemou, é réu de morte”

“Quando os juízes pronunciaram esta iníqua sentença de morte, foi o nosso divino Salvador
deixado à guarda da criadagem e quadrilheiros“, diz De Linig na Vida de Jesus Cristo. Estas almas
venais teriam crido não servir bem aos seus senhores se se contentassem com o guardar, e julgaram
que era para si um dever ultraja-lo. Começaram, pois, a cuspir-lhe no rosto, a fazer escárnio dele,
ferindo-o. Vendaram-lhe os olhos e lhe davam na face e lhe perguntavam, dizendo:

“Profetiza-nos, Cristo, quem é que te feriu?”

“Nesta cena se passou o resto da noite, durante a qual Aquele a quem adoram os anjos, serviu
de ludibrio a esta vil canalha. Na historia da paixão do Salvador não lemos que ele opusesse a
tantos ultrajes uma só palavra, porque efetivamente ele não pronunciou nenhuma. Se nem sempre
os Evangelistas no-lo dizem formalmente, asseguram-no-lo os profetas, e este milagre de
paciência por ninguém é contradito. Mas o que mais ainda o faz sobressair, e que já aqui
notaremos por tudo o que no curso de sua paixão o Salvador padeceu, é que não houve
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sofrimento que por ele não fosse sentido quanto podia sê-lo. Não falamos somente das suas
dores corporais a que tão sensível o fazia a perfeita compleição do seu corpo; tudo o que o
desprezo tem de humilhante, o que as decisões têm de insultante, o que as injurias têm de
ultrajante, o que as afrontas que recebeu têm de revoltante, tudo ele sentiu até ao âmago da alma;
esgotou-lhe toda a amargura, de tudo isto foi sobre todo o modo saturado, segundo o que dele
estava escrito, que seria saciado de opróbrios. Por aqui se pode julgar o quanto teve que sofrer
nesta noite, da qual a só recordação produz nas almas piedosas uma compaixão tão viva e
lágrimas tão abundantes

Também São Jerônimo pensa que todas as penas e todos os insultos que Jesus sofreu nesta noite só no
dia do juízo poderão ser conhecidos.
Ó meu Jesus! Quando por amor de mim vos vejo sofrer os mais indignos tratos, não tenho bem
motivo de corar de vergonha, sentindo-me tão fraco ainda, tão covarde, tão pusilânime, quando se
trata de sofrer por vós as mais pequenas afrontas, os mais leves insultos? Diante de vós tudo são
resoluções, tudo propósitos de emenda; mas à primeira palavra, por pouco injuriosa, perturbo-me e
reconheço que sou muito mais fraco do que pensava.

Ah! bom Jesus! a vós recorro; dignai-vos ensinar-me a receber com calma e até mesmo com
alegria todas as injurias, contradições e mau trato de que eu possa ser alvo. Ensinai-me a nunca
me defender com palavras duras e que respirem azedume, mas a vencer polo silencio os maus
procederes dos outros para comigo; ou se a caridade me ordenar que fale, fazei-me a graça de
eu responder aos meus adversários com uma doçura c mansidão capazes de os apaziguar e de
lhes ganhar o coração. Ó meu Salvador! dai-me a paciência, a humildade, mas acima de tudo o
vosso santo amor. Com vosso amor, ó Jesus! eu tudo o mais possuirei; não m’o recuseis pois,
para que eu possa chegar a dizer-vos em toda a verdade: Meu Deus, eu vos amo.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Doçura

Falemos ainda hoje da doçura. Constitui-a essencialmente a paciência em suportar os desprezos e


humilhações. A maior parte, diz São Francisco de Assis, faz consistir a sua santidade em recitar
numerosas orações, em mortificar os sentidos, mas coisa de sofrer palavras ultrajantes, nem uma; não
compreendem que de suportar uma afronta sem cólera vem mais mérito, do que se poderia tirar de
dez dias de jejum a pão e água.

Três são as coisas, diz São Bernardo, que deve fazer por adquirir quem tende à santidade:

1. Não procurar dominar;


2. A sujeitar-se a todos da melhor vontade;
3. Suportar pacientemente as injurias.

Que te recusem por exemplo, meu caro Teótimo, o que aos outros concedem; que se escutem seus
discursos, ao passo que os teus sejam acolhidos com escárnio; que tudo para os mais sejam elogios,
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honoríficos empregos, funções importantes, e para ti não haja mais que indiferença, olvido, injustiça
e mofa; então sim, então é que verdadeiramente serás humilde de coração, se com serenidade e
resignação receberes todas estas coisas, e deres por isso muitas graças a Nosso Senhor. O que tu
deves fazer neste momento de luta interior é não te agastares nada e aceitares todos estes desprezos
como a justa punição dos teus crimes. Muito mais merecia quem ofendeu a Deus; merecia até mesmo
ser calcado aos pés dos demônios. Sobretudo, meu caro Teótimo, nunca te irrites quando te
repreenderem de alguma falta ou defeito. Os soberbos, diz o B. Rodrigues, quando alguém os
repreende, fazem como os ouriços cacheiros, que apenas alguém os toca, logo eriçam seus agudos
dardos, isto é, enfurecem- se, todos se desfazem em queixumes, em exprobrações, em imprecações.
Ao contrario, os humildes humilham-se mais, confessam suas fraquezas, bendizem quem os repreende
e não se irritam. Ah! quem não pode sem se perturbar receber uma injuria mostra bem que está sob o
império do orgulho. Meu caro Teótimo, afim de obteres estas duas virtudes da doçura e humildade,
dize muitas vezes a Nosso Senhor:

“Ó Jesus, doce e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso!”

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Capítulo XXI
São Pedro nega três vezes a seu Divino Mestre – Seu arrependimento
Petrus coepit anathematizare et jurare: Quia non novi hominem istum.
“Pedro começou a fazer imprecações e a jurar: Não conheço este homem…” (Mc 14, 71)

Et egressus foras, flevit amare


“E tendo saído, chorou amargamente” (Mt 26, 75)

Oh! Como esta renuncia de São Pedro deveu trespassar o coração de Jesus! Pedro, o príncipe dos
apóstolos; Pedro, honrado da confiança particular do seu Mestre, nega covardemente Aquele que há
pouco prometera acompanhar até à morte!

Oh! Jesus destinado ao suplício e declarado infame, reus est mortis. Jesus coberto de escarros por
uma populaça vil. Jesus tratado com indigna derivação por uma turba ímpia e furiosa de criados.
Jesus saciado de ignomínias, de penas, de insultos. Jesus abandonado já por vossos próprios
discípulos, para que permitistes que a negação de São Pedro viesse ainda aumentar as vossas dores?
… Ah! É que vosso amor queria-nos dar uma grande lição: queria-nos ensinar, pela queda do vosso
apóstolo, a evitar a presunção, desconfiar das nossas próprias forças, e não confiar senão em vós;
queríeis ensinar-nos a temer a nossa fraqueza, a não olhar longos anos passados em serviço vosso
como um motivo de segurança.

“Quando o espírito se eleva”, diz o Sábio, “a queda não se faz esperar muito”. E em São Pedro
acabamos de ver a prova desta verdade, porque, quando nosso Senhor disse a seus apóstolos, na
véspera de sua paixão, que ia ser ocasião de escândalo a todos eles, respondeu-lhe:

“Quando todos em ti se escandalizem, eu nunca me escandalizarei”

Sem duvida que estas palavras eram inspiradas pelo amor que tinha a seu Mestre; mais ai! havia
nelas um pouco de presunção; punha demasiada confiança em suas forças. Que sucederá? Deus, que
não pode suportar o orgulho, seja ainda nos seus amigos, e sob qualquer forma, abandonou-o à sua
fraqueza, e o desgraçado apóstolo caiu.

Ah! Meu Deus! Que terrível me parece esta queda! Um apóstolo! O príncipe dos apóstolos negar o
seu Mestre! Ó bom Jesus! Tende piedade de mim. Se as estrelas caíram do céu, eu porque devo
esperar? Homens cujas obras pareciam louváveis caíram o mais baixo que se pode cair, e vi os que
se nutriam do pão dos anjos fazer as suas delicias do pasto dos porcos! Nenhuma é pois a santidade,
Senhor, se retirais a vossa mão: nenhuma castidade está segura se a não tendes debaixo da vossa
defesa; nenhuma vigilância nos guardará, se não velais por nós. Deixados a nós mesmos somos
submergidos das ondas e parecemos; visitados por vós, nos elevamos e vivemos. Porque nós somos
instáveis, mas vós nos confirmais; somos tépidos e vós nos inflamais. Oh! Que humildes e baixos
devem ser os pensamentos de mim mesmo! quão pouco devo estimar esse bem que em mim parece
haver! Oh! como me devo abaixar profundamente, Senhor, perante os vossos impenetráveis juízos,
onde me perco como num abismo, e vejo que nada mais sou que um nada e um puro nada! Ó peso
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imenso! ó mar sem praias! onde não acho nada de mim, onde desapareço como no meio do todos!
Aonde se esconderá o orgulho? onde a confiança na própria virtude? Ó meu Deus, toda a vaidade se
extingue na profundeza dos vossos juízos. E quando vejo no fundo do meu coração toda a força que
tenho para o mal, eu tremo, sou tomado de temor e horror, reconheço que só em vossa misericórdia
está toda a minha esperança.

Ó Jesus! Bom Jesus! Eu vos suplico, tende piedade de mim, e não me abandoneis à minha corrupção,
Ai! Trair-vos-ei ainda?!!

— Tens razão, filho meu, de temer a tua fraqueza e não presumir de tuas próprias forças, mas não
quero que este temor leve à tua alma o desalento e a perturbação. Espera em mim e não serás
confundido. Não sabes que abençoo o justo e o cubro do meu amor como de um escudo? Repousa
pois em paz no meu coração. Ah! se conheceras este coração! se souberas como ele te ama! se
compreenderas como ele vela por ti! Com que confiança não te abandonarias à minha direção! com
que calma, com que doce tranquilidade não dirias incessantemente:

“Meu Deus, em vossas mãos me lanço, afim que de mim façais o que vos aprouver!”

Ó meu Jesus, meu terno amigo, meu bom Mestre! As vossas palavras descem ao meu coração como
um balsamo salutar, e nele derramam uma consolação inefável. Ó meu Deus! Estou persuadido que
velais sobre todos os que em vós esperam, e que nada nos pode faltar quando de vós esperamos
todas as coisas; tomo a resolução de para o futuro viver sem algum cuidado, e de em vós descansar
de todas as minhas inquietações.

Podem os homens me despojar dos bens e riquezas, podem as doenças tirar-me as forças, e os meios
de vos servir; posso até pelo pecado perder a vossa graça, ai! Desgraça de que eu vos suplico me
livreis, mas perder a esperança em vós, isso nunca. Conserva-la-ei até ao ultimo suspiro da minha
vida, e serão vãos todos os esforços do inferno para m’a arrancar. Podem os mais esperar a sua
felicidade das riquezas ou talentos; apoiarem-se outros na inocência de sua vida, ou no rigor da sua
penitencia; eu porém, Senhor, toda a minha confiança é só em vós; e esta confiança a ninguém ilude.
Estou pois de algum modo seguro que serei eternamente feliz, porque espero firmemente sê-lo e é em
vós, ó meu Deus, que o espero. Conheço, ai! Conheço quão fragílimo e inconstante sou; sei o que
podem as tentações contra as virtudes mais arraigadas; mas nem tudo isto é capaz de me aterrar; uma
vez que eu espere, sempre estarei a salvo de todos os males. Ora à face do céu e da terra o digo,
espero em vós, ó meu Deus! Sei que a minha esperança em vós nunca será demasiada; sei que tudo o
que de vós espero, um dia o possuirei: espero, pois de vós, ó meu doce Jesus! que me perdoareis os
meus pecados, que me amareis sempre, e que eu mesmo vos amarei sem afrouxar durante o tempo e
por toda a eternidade. Diz o P. de la Colombière no Sermão sobre a confiança em Deus.

Entretanto um olhar que Jesus amorosamente lançara sobre Pedro, tinha feito entrar em si o discípulo
infiel. Penetrado de uma viva dor deixa repentinamente a companhia diante da qual havia negado o
seu Mestre, e saindo para fora, soltou largamente as suas lágrimas que vinham de um coração
compungido. Não pôs limites à sua dor, e conta São Clemente de Alexandria que as suas faces se
cavaram pelas torrentes de lágrima que não cessou de derramar até ao ultimo momento da sua vida.
Igualmente narra que a recordação do céu crime o fazia levantar todas as noites ao primeiro canto do
galo para se pôr em oração, que não dormia o resto da noite, e que foi sempre fiel a esta pratica até à
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sua morte. Imitemos pois esse grande apóstolo na penitencia, nós que na queda infelizmente o
imitamos.

Oh! Quem me dera a graça de chorar dignamente os meus pecados como São Pedro! Quem me
dera a graça de os chorar até que enfim obtenha o perdão! Mas que distancia não vai da minha
dor e da minha penitencia à sua! Pedro cai e levanta-se imediatamente; eu caio e cada instante, e
levanto-me lenta e frouxamente. Chora amargamente o seu pecado; instruído por sua triste
experiência, foge da ocasião do seu crime, retira-se a uma parte, e lava em suas lágrimas a falta
que acaba de cometer; eu choro raramente as minhas inumeráveis iniquidades; velo mal sobre
mim mesmo e não evito assas as ocasiões perigosas. Ó bem-aventurado penitente, lembrai-vos
de mim, e obtende-me a graça de me livrar das cadeias do pecado; alcançai-me a graça de
conhecer e temer a minha fraqueza, a graça de uma verdadeira compunção de coração, impetrai-
me a graça de me compadecer das fraquezas dos outros e de os levantar com doçura quando
caídos; obtende-me enfim o dom das lágrimas. E vós, ó meu Jesus! vós a quem eu neguei não
uma, mas cem, talvez mil vezes, tende piedade de mim. Quero reparar por muitas lágrimas e
penitencia os ultrajes que vos fizeram tantos pecados que cometi, e de que agora me arrependo
de todo o meu coração. Ó meu Deus! Curai as chagas da minha alma, banhando-a no óleo do
vosso santo amor. Dai-me o vosso amor, é o que eu só quero; dai-me o vosso amor, ó doce
Salvador! Afim de que vos ame até ao ultimo suspiro e por toda a eternidade. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Desconfiança de Si Mesmo

Desconfia de ti mesmo, meu caro Teótimo, como do teu mais cruel inimigo, e, “se estás em pé,
guarda-te que não caias”. Por terem confiado muito das suas forças, e não velarem sobre si, têm
muitos acabado por cair nas maiores faltas. Acautela-te, não vás cair numa tal desgraça, e para a
evitar desconfia de ti mesmo. Evita as ocasiões e não te apoies muito sobre tuas virtudes adquiridas.
Não esqueças que quem ao perigo se expõe sem necessidade, nele vem a achar a sua ruína. Não te
exaltes pelas tuas boas obras; expor-te-ás ao perigo de tudo perderes. Ai! para que havemos de ter
orgulho de um bem que não é nosso! De Deus só vem todas as nossas virtudes, diz São Bernardo; a
nós pertencem como propriedade nossa os vícios e pecados. Dele nos vem a nossa caridade e
castidade; nasce de nós o orgulho e a concupiscência. Sem a graça de Deus, somos pesados e inábeis
para toda a sorte de bens; com a graça sentimo-nos cheios de força e ardor para praticar a virtude.
De nós mesmos caímos onde nos arremessa o pecado; e sem a graça de Deus poder-nos-íamos
levantar? Se somos poderosos, ricos, sábios, de tudo somos devedores à graça de Deus e unicamente
à sua graça. Só a Deus pertencem a santidade, a justiça, a bondade; e tudo o que os homens podem
ter, só da sua liberalidade o recebem. De tuas forças não presumes nunca, meu caro Teótimo; nada
atribuas a teus méritos, nenhuma confiança ponhas em tua habilidade, coragem, ou seja no que for. No
meio das tentações, azares, perigos sem numero de que és assaltado, põe a tua esperança no coração
de Jesus, como num asilo seguro; porque quem de si mesmo desconfia, e só em Deus põe a sua
confiança, não tem a temer a sua queda, pois é protegido e coberto por sua misericórdia, sustentado
pela sua mão.

No decurso do dia dirige amiúde ao Senhor estas palavras:


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“Meu Jesus, entre vossos braços me lanço, e vos confio o meu corpo, a minha alma, e a minha
salvação; dignai-vos sustentar a minha fraqueza e comunicar-me um pouco da vossa força, afim
de que jamais caia na desgraça de abandonar o vosso serviço”

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Capítulo XXII
Jesus é conduzido diante de Herodes, que o despreza e trata como um insensato
Sprevit illum Herodes cum exercitu suo, et illusit indutum veste olha, et remisit ad Pilatum
“Herodes e sua corte desprezou-o, e, tratando-o com irrisão, o revestiu de uma veste branca e o
reenviou a Pilatos”
(Lc 23, 2)

Tinha o nosso bom Mestre passado a noite no meio dos criados do sumo sacerdote: todos os insultos,
todas as afrontas que é possível imaginar, sofrera em silêncio, sem se queixar, tudo oferecendo ao
Pai para nos obter o perdão dos nossos pecados.

“Tendo chegado o dia, diz Santo Afonso de Ligório no Amor de Jesus, os judeus levam Jesus a
Pilatos para que este o condene à morte; mas Pilatos declara-o inocente, e para se livrar das
impertinências dos judeus, que continuam a pedir a morte do Salvador, envia-o a Herodes.
Sumo prazer sentiu Herodes ao ver em sua presença Jesus Cristo; esperava que ele para se
livrar da morte faria diante de si alguns daqueles prodígios de que tanto ouvia falar e assim
começa a fazer-lhe muitas perguntas. Mas, porque Nosso Senhor não se queria livrar da morte,
nem Herodes era digno de suas respostas, Jesus guardou silencio e nada respondeu. Então este
rei soberbo, “com toda a sua corte o encheu de desprezos, e vestindo-lhe uma veste branca”
para assim ser olhado como um ignorante e um insensato, o tomou a mandar a Pilatos.

São Boaventura comenta assim estas palavras:

“Desprezou-o como impotente, porque não fizera milagres; como ignorante, porque não
respondera uma só palavra; como covarde, por não se haver defendido”

— Ó meu Salvador! Como permitistes que este ímpio vos tratasse com tanto desprezo? Porque não
confundistes o seu orgulho? Para que não ordenastes a uma legião de anjos que o castigassem a ele e
a toda a sua corte como mereciam?

Filho meu, quem suspendeu os golpes da minha justiça foi o meu amor para contigo. Quando me vi
coberto de uma veste branca e exposto às chufas da multidão, pensei em ti e disse comigo mesmo:
Este caro filho terá de sofrer um dia desprezos, insultos, maus tratos; então estará a sua alma
absorvida de penas e angustias. Pois bem, para lhe deixar um belo exemplo de resignação e para lhe
merecer a graça de sofrer tudo pacientemente, vou suportar estas ignomínias de que me
sobrecarregam, e isto sem dizer uma só palavra, sem proferir um só ai.

— Ó bom Jesus! Quanto mais vos conheço, mais aprendo a amar-vos! Visto como o vosso amor para
conosco vos fez sofrer tão duros tratos, fazei-me a graça de ter mais resignação e conformidade com
vossa santa vontade quando me virdes alvo dos desprezos dos outros. Vinde em socorro de minha
impotência: porque, ai! sou tão fraco quando se trata de sofrer!

— Coragem, meu filho, não te deixes prostrar pelas dificuldades. Sei quanto custa à natureza o
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vermo-nos tratados como culpáveis, hoje de orgulho e vaidade, de preguiça ou gula amanhã, uma
outra vez de ambição, enquanto que de nada de tudo isto nos acusa a consciência; sei o que custa ao
orgulho do homem passar por vicioso e ignorante; sim, bem o sei. Todavia acostuma-te a desprezar
os juízos dos homens, que não passam de vento e fumo; procura o agradar a mim e só a mim, e em
seguida calca aos pés generosamente a opinião dos mais, pois não te pode tornar melhor nem pior a
meus olhos. Quando em casa de Herodes fui revestido de uma veste branca, e tratado por insensato,
era eu por isso menos o Rei imortal da Gloria e o Criador do céu e da terra? era menos o objeto das
complacências do meu Pai celeste? Não, certamente. Assim também, filho meu, embora te desprezem
e te tratem os homens como um nada, tu não serás por isso me¬nos digno de todo o meu amor, uma
vez que tenhas tido o cuidado de conservar a tua alma pura e limpa de toda a nódoa do pecado. Feliz
daquele que me ama, e que, por sua resignação no meio dos desprezos, marcha após o seu Deus
desprezado e escarnecido como insensato!

Ó Sabedoria eterna! Ó Verbo divino! Só esta vos faltava de serdes tratado por doido, e privado
do senso comum! Tão forte apertava convosco o desejo da nossa salvação, que por nosso amor
quisestes não só estar exposto aos opróbrios, mas ainda saciado de opróbrios, como o anunciara
Jeremias: “Apresentará suas faces aos que as ferirem, será saturado de opróbrios”. Como
pudestes ter um tal amor aos homens, de quem só recebestes ingratidões e desprezos? Ai! Sou
eu um desses homens que vos fiz mais ultrajes que Herodes! Mas ah! Jesus meu, não me
castigueis como a Herodes, privando-me da vossa voz. Herodes não vos amava por quem éreis,
eu reconheço-vos por meu Deus; Herodes não vos amava, eu vos amo mais do que a mim
mesmo. Ah! não me recuseis a voz das vossas inspirações, como por minhas ofensas mereço.
Dizei o que quereis de mim; com a vossa graça pronto estou a fazer tudo. Tende piedade de
minha miséria, ó meu Deus! Lançai sobre mim um olhar da vossa misericórdia. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Do Amor das Humilhações e Desprezo
Hoje, meu caro Teótimo, toma resolução de imitar a nosso Senhor humilhado e ultrajado na corte de
Herodes. Não leves a mal que te cubram da desprezos. Ora serás desprezado por tua pobreza, ora
por qualquer defeito exterior; já por tua pouca ciência, já por teu demérito; mas não te perturbes.
Dize então a nosso Senhor de todo o teu coração:

“Meu Jesus, aceitai a homenagem do desprezo de que neste momento sou objeto”

Não caias na falta dos que dizem quando se veem desprezados: Se soubessem quem eu sou, não me
tratavam assim: faz melhor, guarda silencio. Custa, verdade é, ao nosso orgulho vermo-nos
ultrajados, injuriados sem nada opor, nada responder; mas é precisamente em fazer-se violência a si
mesmo que está o mérito.

Não te aflijas por te descobrirem imperfeições ou menos santidade do que parecia, antes aproveita
habilmente tão oportuna ocasião de dar um grande passo na virtude da humilde. Tem frequentes vezes
na boca ainda mais no coração, esta suplica de São João da Cruz:
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“Senhor, dai-me a graça de sofrer e ser desprezado por vosso amor”

Domine, pati et contemni pro te!

Humilhações, injurias, desprezos: eis o que todo o mundo teme e de que todos fogem o mais que
podem. O ser humilhado, ultrajado, desprezado para um mundano é o cumulo de todo o mal. E, meu
caro Teótimo, acredita-me, nada é mais doce do que uma humilhação e um desprezo. Pergunta-o a
todas as almas que verdadeiramente amam a Jesus e elas te responderão que não me engano. Não
pretendo com isto dizer que uma alma que ama a Jesus Cristo seja insensível aos maus tratos; não,
sem du¬vida: mas o natural ressentimento que tem de se ver desprezada se muda numa alegria tão
doce que só se conhece, experimentando-a. Repete, pois, muitas vezes e sem medo:

“Senhor, quero sofrer e ser desprezado por vós”

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Capítulo XXIII
Sobre a flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo
Tunc ergo apprehendit Pilatus Jesum, et flagellavit
“Então Pilatos mandou prender Jesus e flagela-lo.”
(Jo 19, 1)

Pilatos para se eximir de condenar o inocente como pediam os judeus, havia-o enviado a Herodes, e
em seguida apresentara-o ao povo com Barrabás; mas vendo que estes meios não tinham sortido
efeito, determinou-se a infligir-lhe qualquer castigo e pô-lo em liberdade. Nesta intenção, chama os
Judeus e lhe diz:

“Apresentastes-me este homem como um sedicioso que arrasta o povo à revolta; em vossa
presença o interroguei, e não o descobri culpado de algum dos crimes de que o acusais;
Herodes tão pouco o achou criminoso. Todavia para vos contentar, vou-o fazer castigar, e em
seguida deixá-lo-ei ir”

Grande Deus! Que injustiça! Declara-o totalmente inocente, e contudo oferece-se para o castigar! Ó
meu doce Jesus! Estais inocente, e eis que por meu amor vos submeteis ao suplício dos escravos!
Como, pois, pudestes amar até este ponto um ser tão vil e tão desprezível como eu?
Assim Pilatos entregou Jesus aos seus soldados e lhes deu ordem para o flagelar. Contempla, ó minha
alma! Como estes carnífices, a fim de executarem esta injusta ordem, arremetem furiosos sobre este
cordeiro com gritos de alegria, o conduzem ao pretório e o amarram à coluna. Mas que faz Jesus?
Sempre humilde e submisso, aceita por nossos pecados um tormento tão doloroso e tão humilhante.
Vede os verdugos, de azorrague em punho: a um sinal dado, levantam os braços e todos juntamente
começam a descarregar sobre esta carne sagrada açoites inúmeros. Parai, bárbaros, ides errados;
sobre quem caem os vossos golpes? Esse que estais ferindo não é culpável, eu, eu é que o sou.

Num instante aparece todo lívido este corpo virginal; logo começa o sangue a correr. Os algozes já o
tem todo dilacerado, mas continuam sempre a ferir sem piedade sobre estas chagas, e a ajuntar dores
sobre dores. Ó alma minha! Serás também desses bárbaros que com ar de indiferença veem um Deus
açoitado? Considera a dor do teu Redentor e mais ainda o amor com que ele por ti suporta este
infame tormento. Ah! Jesus em sua flagelação estava a pensar em ti! Se por teu amor sofresse um só
golpe, já deverias ser abrasada de amor por ele, dizendo:

“Um Deus consentir em ser ferido por mim!”

Mas não é um só que ele sofreu; quis por teus pecados que todas as suas carnes fossem
despedaçadas, como o predissera o profeta Isaías.
Ai! diz o profeta, o mais belo dos homens perdeu a sua beleza; os açoites de tal sorte o desfiguraram
que nós não o reconhecemos; está reduzido a a um tão miserável estado que se oferece a nossos olhos
como um leproso coberto de chagas da cabeça até aos pés… É assim que Jesus é maltratado; é assim
que é humilhado; e por que tudo isto? Porque quis sofrer as penas que nós merecêramos. Bendita seja
para sempre a vossa bondade, ó meu doce Jesus! Que assim quisestes ser atormentado para me
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libertar dos tormentos eternos! Ó Deus de amor! Desgraçado o coração insensível que vos não ama!

Que faz o nosso amável Salvador enquanto seus algozes tão cruelmente o tratam? Nada diz, não deixa
ouvir uma só palavra, nem um só grito, nem um suspiro solta; mas cheio de paciência, oferece tudo a
Deus, para derramar sua justiça e no-la tornar favoràvel.

“Semelhante a um cordeiro que está sem voz diante do tosqueador, não abre a sua boca”

Os que tosqueiam um cordeiro limitam-se a lhe tirar uma lã supérflua; mas a vós, ó Jesus meu! os
bárbaros vos tiram até a carne, e o vosso corpo não é mais que uma chaga. E este é o batismo do
sangue que tanto desejáveis, quando dizeis:

“Devo ser batizado, num batismo de sangue, e como me sinto comprimido até que se cumpra!”

Vai, alma minha, e lava-te no sangue precioso de que toda está banhada esta terra bendita. Poderia eu
ainda, meu doce Salvador, duvidar do vosso amor, quando vos vejo todo coberto de chagas, banhado
todo em sangue? Não, sem duvida, porque cada uma dessas chagas é uma mui certa garantia do amor
que nós tendes.

De cada uma dessas feridas sai uma voz que me pede amor por amor. Uma só gota do vosso sangue
bastava para me salvar; mas vós quisestes dá-lo todo sem reserva, afim de que sem reserva me dê
todo a vós. Acabe-se, pois, isto de uma vez, dou-me todo a vós; aceitai-me e ajudai-me a vos ser fiel.

Ó Jesus, coberto de chagas! Eis a que estado vos reduziram as nossas iniquidades! Ó bom Jesus!
Exclama São Bernardo, nós é que pecamos, e vós sois o punido! Seja para sempre bendita a vossa
imensa caridade, e sejais bendito vós também como e mereceis; de todos os pecadores, e em
particular de mim que, mais que os outros, vos desprezei.

Jesus açoitado apareceu um dia à soror Victoria Angelini, e mostrando-lhe o seu corpo todo
rasga¬do:

“Todas estas chagas, Victoria, lhe diz, pedem o teu amor”

Amemos o esposo, diz amorosamente Santo Agostinho; que quanto mais desfigurado parece, mais
digno é da afeição e ternura da esposa. Sim, meu doce Salvador, eu vos vejo todo coberto de chagas.
Vejo vosso belo rosto; mas ai! parece-me horrível, lívido e todo manchado de sangue e escarros.
Mas quanto desfigurado mais vos vejo, ó meu Senhor! Mais belo e amável me pareceis. E que são na
verdade todas essas coisas que vos desfiguram, senão sinais de ternura e amor que nos tendes?

Amo-vos, Jesus, coberto de chagas e dilacerado por amor meu; queria também ver-me
despedaçado por vós, como tantos mártires que tiveram esta dita. Mas, se agora não vos posso
oferecer chagas e sangue, ofereço-vos ao menos todas a contradições que me aconteçam;
ofereço-vos o meu coração, e quero amar-vos o mais ternamente que possa. E a quem doravante
deve a minha alma amar com mais ternura, senão um Deus flagelado e esgotado de sangue por
mim? Amo-vos, ó Deus de amor! Amo-vos bondade infinita! Amo-vos, e não quero cessar de
dizer nesta e na outra vida: Amo-vos, amo-vos! Amem.
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RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Paciência nos Sofrimentos e especialmente nas Doenças
A mais cara, a única ocupação dos santos na terra é desejar de todo o coração sofrer todas as
fadigas, todos os desprezos e todas as dores para agradar a Deus e a nosso Senhor. Imita-os, meu
caro Teótimo.

Hoje, e todos os dias da tua vida, procura ocasião de fazer alguma coisa agradável a este bom
Mestre, custe ela um pouco de fadiga, penas, ou nos cause alguma ligeira humilhação. Sofre com
paciências as mil dores a que está sujeito o corpo, por mais robusto que seja; oferece tudo a Jesus
açoitado e não te queixes. Se for do agrado do nosso Senhor que te venha alguma doença grave,
recebe-a de sua mão com resignação, e em tudo está submisso à sua vontade. Mais te digo, dá até
graças ao nosso bom Mestre pela doença que te envia como uma graça mui excelente. Sim, meu caro
Teótimo, dir-te-ei com um piedoso autor, deves agradecer a Deus, por¬que a doença oferece grandes
motivos de consolação, pelas vantagens que consigo traz.

1. É útil para os que te assistem; ganham méritos imensos por sua caridade. Oh! Como estou
consolado, dizia São Francisco de Sales em suas doenças, de ver as penas que por mim tomam estes
pobres! Por seus serviços e sua caridade ganham o céu.

2. É útil para a expiação dos teus pecados. Bem mais doce e curto é o expiar os teus pecados sobre
um leito, do que no fogo. Quantos anos de purgatório não se podem expiar por algumas horas de
doença! Ah! Meu caro Teótimo, quão satisfeito não estarás um dia de te ver livre desses fogos
horríveis, uma hora dos quais é mais insuportável que a mais aguda doença.

3. É útil para a tua predestinação. Poucos meios mais eficazes há para purificar e salvar uma alma
como uma longa doença. Em habituais enfermidades passaram sua vida uma grande parte dos maiores
santos. Não podiam dar-se à oração nem a muitos outros atos de religião; estavam submissos à
vontade de Deus; sofriam por seu amor: eis tudo o que exigia Deus para os santificar. Santo Alipio,
solitário, permaneceu deitado sobre um lado todo descarnado durante quatorze anos. Nesta cruel
situação, era sua súplica:

“Adoro a vossa santa vontade, ó meu Deus! Vós sois justo e vós me punis com justiça”

Santa Ludovina pediu ao Senhor para lhe tirar a sua beleza; foi ouvida. Trinta anos a afligiu Deus
com uma extraordinária doença; a sua paciência elevou-a a uma alta santidade. Ó Teótimo! quantos
não estão agora no inferno, que estariam no céu, se por muito tempo estivessem doentes e aflitos!
Beija, pois, com amor a mão de Jesus quando te ferir; seus golpes são penhores da sua ternura. Nas
doenças, tem cuidado, por amor de nosso Senhor, não vás cair na impaciência, no enfado, ou tristeza;
esforça-te, ao contado,- por conservar em tua alma uma grande paz e uma calma profunda, e dize
muitas vezes: Meu Deus, seja feita a vossa vontade! Meu Deus, eu vos amo e quero sofrer por
vosso amor! Senhor Jesus, dai-me um pouco de paciência. Toma corajosamente todos os remédios
que te forem ordenados, e doma essa repugnância que causar te pode a sua amargura, pondo os olhos
no fel e vinagre que a Jesus foi dado, e com o desejo de tomar parte em seu cálice. Depois espera
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tranquilamente da bênção de Deus o sucesso dos remédios, e não te inquietes se não operam a tua
saúde tão prontamente como desejavas. Quem te enviou a doença quer-te muito e muito; não temas
que te não dê a saúde, se é boa para a sua gloria e tua salvação. Deixa-o, pois, obrar a ele. Faze um
ato de amor de Deus muito meritório, abandona-te em suas mãos todo o tempo da doença; este é,
aliás, o único meio de conservar a paz.

Observação:
(1) É extraído este capitulo de um opúsculo de Santo Afonso de Ligório intitulado: Aspirações
piedosas sobre a paixão de Jesus Cristo, etc. Servi-me da tradução de M. André Idt. A suplica que
termina o capitulo é tirada do Relógio da Paixão.

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Capítulo XXIV
Da Coroação de Espinhos
Et placlentes coronam de spinis, posuerunt supet caput ejus.
“Depois tecendo uma coroa de espinhos lh’a puseram na cabeça.”
(Mt 27, 29)

Foi seguido o suplício da flagelação de um outro, ou sugerido pela raiva dos judeus, ou inventado
pela brutalidade dos soldados. Os soldados do governador levam Jesus ao pretório, e ai, estando
reunida toda a corte em volta dele, despem-lhe Os vestidos, lançam-lhe sobre os ombros um manto
de escarlate, a imitar a púrpura real, por cetro põem- lhe na mão uma cana, por coroa cobrem-lhe a
cabeça de entrelaçados espinhos; e como se estes espinhos não entrassem bem por uma carne já toda
aberta pelos açoites, agarram da cana que tinha “e ferindo-o no rosto, enterram com todas as suas
forças esta cruel coroa”.

Ó espinhos, ó criaturas! Que fazeis? Porque atormentais assim o vosso Criador? Mas não é aos
espinhos que devo dirigir estas exprobrações. Iniquidades dos homens, sois vós quem penetrastes a
cabeça do Redentor; sim, meu doce Jesus, sou eu que por pensamentos e desejos culpáveis formei
vossa coroa de espinhos; agora detesto-os, aborreço-os mais que todo outro mal, mais que a mesma
morte. Ó espinhos consagrados pelo sangue do filho de Deus! A vós me volvo contrito e humilhado;
penetrai a minha alma, e fazei que ela seja sempre penetrada de dor de haver ofendido um Deus tão
bom. Meu amável Redentor, pois que tanto sofreis por mim, desprendei-me das criaturas e de mim
mesmo, afim de com verdade poder* dizer que não pertença mais a mim, mas que só a vós, só
inteiramente a vós pertenço.

Ó Rei do mundo! A que estado vos vejo reduzido! Consentistes aparecer como um rei de teatro, ser o
ludibrio de toda a cidade de Jerusalém! Ai! O sangue cai em abundância de vossa fronte sobre o
rosto e peito e nem assim se contentando de vos terem feito uma chaga da cabeça aos pés, oprimem-
vos ainda com novos tormentos e novos ultrajes. Ó céu, até onde pode chegar a crueldade humana!
Mas o que em tudo isto mais digno é de nossa admiração, é o vosso amor; é a doçura, é a paciência
com que aceitastes e sofrestes tantas indignidades para a salvação dos homens. Ó Jesus! Dai-me um
coração capaz de vos amar como o mereceis.

Não obstante tudo o isto os soldados, tendo assim atormentado o nosso Salvador, revestiram-no
como um rei de teatro, “puseram-se de joelhos diante dele, e escarneciam-no dizendo: Salve, rei
dos Judeus”. Levantando-se, como acrescenta São João, “insultavam-no e lhe davam bofetadas”. Ó
Deus! Essa sagrada cabeça, transpassada de espinhos, ao mínimo movimento ressentia dores mortais,
de sorte que a cada bofetada, a cada pancada, renovavam-se todas as dores. Ó minha alma!
Contempla o teu Deus neste estado! Reconhece-o ao menos pelo soberano Senhor de todas as coisas,
como com efeito é; rende-lhe graças como a um rei de dor e amor, e ama-o, pois ele não sofre senão
para ganhar o teu amor. E tu, ó cristão, que lês esta obra, dize-me, eu t’o peço, é possível recusar o
amor a um Deus que nos ama a ponto de sofrer tão indignos tratos? É possível consentir ainda em
ofende-lo? Ai! Os mais cruéis espinhos que penetram a sua sagrada cabeça são os nossos pecados;
todas as vezes que um cristão consente num pecado mortal renova dalguma sorte todos os sofrimentos
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e todas as ignomínias da flagelação e coroação de espinhos; esta é uma pura verdade. Fujamos, pois,
não só do pecado mortal, mas ainda do pecado venial, pois que ofende a nosso bom Mestre. Digo
ainda mais, fujamos da mesma sombra do pecado, e esforcemo-nos a ser todos de Jesus Cristo. Ah!
Diz São Bernardo, quem recusa viver para Jesus é indigno de viver, e até já está morto; quem não
tem todos os sentimentos conformes aos seus, é um insensato; quem não está no mundo unicamente
para ele, não merece ai estar. É por ele só que Deus criou tudo o que existe; a quem só quer estar no
mundo para si e não para Deus, começa a não ser nada, a já não ter lugar entre os seres.

Amemos, pois, a Jesus; amemo-lo tanto quanto é possível a pobres criaturas ama-lo; amemo-lo até ao
derradeiro suspiro da vida, e por toda a eternidade.

Ó chagas do meu Salvador Jesus Cristo, exclama Santo Agostinho, vós sois chagas de
misericórdia e de bondade, de doçura e caridade. Os judeus vos abriram com incrível furor;
mas vós vos tornastes o meu refugio; por vós é-me permitido sentir quão doce é o Senhor; por
vós posso saborear as suavidades da misericórdia de que Deus usa para com os que o invocam,
que o procuram na sinceridade do seu coração, sobre tudo com os que o amam. Ai! Que seria de
mim se em vós não achara uma abundante redenção, uma fonte de doçura nas tribulações deste
exílio, uma doce confiança na graça do meu Jesus, e um contínuo alento para progredir na via da
perfeição e do amor de Deus? Que seria de mim? Sejais bendito, ó Jesus! Por essa ternura que
vos levou a vos deixar cobrir de chagas e a deixar-me refugiar nelas, para escapar ás furiosas
perseguições dos inimigos da minha salvação: sejais bendito para todo o sempre. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Evitar os Pecados Veniais
Acabas de o ver, meu caro Teótimo; o mais cruel de todos os espinhos que penetrar possam a cabeça
do nosso Salvador, é o pecado. Se com efeito amas a este terno amigo de nossas almas, evita com
cuidado não digo somente o pecado mortal; ai! É um monstro tão horrendo, que só o seu pensamento
te deve inspirar horror: um pecado mortal! Ó meu caro Teótimo, Deus no persevere de jamais
cometermos um só! mas evita também os pecados veniais, por mais leves que te pareçam. Vela
atentamente sobre ti mesmo, afim de não cometeres algum de propósito deliberado, o que é possível
com a graça de Deus.

1. Vela sobre a tua língua: assim, nada de mentiras leves, de ligeiras murmurações tão comuns no
trato da vida; nada de discurso inconsiderados, de palavras de vaidade, de zombarias do próximo, e
até de palavras inúteis, pois delas terás um dia de dar conta.

2. Vela sobre os olhos: assim nada de inúteis olhares sobre os objetos que te cercam, e muito mais te
podem ser perigosos.

3. Vela sobre o espírito: assim a ninguém julgues, exceto se a isso o dever te obrigar; não suspeites
facilmente mal, não nutras uma secreta estima de ti mesmo e de tudo o que fazes, etc.

4. Vela sobre o teu coração: assim não te deixes prender de laços muito vivos ou naturais ás
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criaturas, quaisquer que sejam; não cultives ciumezinhos, etc. Em uma palavra, vela sem cessar, vela
sobre tudo; não te permitas leves distrações, pequenas impaciências, perda de tempo, rir imoderado,
visitas inúteis, gosto de aparecer, pequenos excessos no comer, beber, dormir, jogar, etc. Sobre tudo
não digas em teu coração: “São faltas pequenas, de que não se me dá corrigir-me”; isso era causar
ao nosso bom Mestre um grande desgosto, era reconhecer muito mal o seu amor por nós. Vamos, meu
caro Teótimo, resolve-te desde já a nunca mais cometeres pecado venial voluntário. Pede a nosso
Senhor que te ajude, e ele o fará.

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Capítulo XXV
É por amor nosso e por causa do pecado que Jesus foi coberto de chagas
Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras, attritus est propter scelera nostra
“Foi coberto de chagas por causa de nossas iniquidades; foi dilacerado para expiar os nossos
crimes”
(Is 53, 5)

O mínimo tormento sofrido por nosso Salvador era seguramente mais que suficiente para satisfazer à
justiça de Deus, e apagar os pecados do mundo: mas o amor que nos tinha não se pôde contentar com
isso. Afim de expiar os nossos crimes e até para nos provar a grandeza da sua ternura para conosco,
o nosso Redentor quis ser, na frase de Isaías, vulneratus e attribus, isto é, coberto de chagas desde
os pés até à cabeça, de tal sorte que o seu adorável corpo não oferecia parte alguma sã. Assim Isaías
o compara a um leproso: Et dos putavimus eum quasi leprosum, et percussum a Deo et humilhatum
(Is 53, 4).

Quando com os olhos da fé se considera Jesus todo coberto de chagas, quando se contempla o seu
corpo horrivelmente rasgado e a cair em pedaços ensanguentados, é fácil compreender quão grande é
o amor deste divino Salvador por nós.

Ó homem, exclama Santo Agostinho, reconhece quanto vales, aprende que reconhecimento não deves
ao teu Deus; aprende qual é a tua dignidade pelo que lhe custou a resgatar-te: vê agora quão infame
seria ultraja-lo ainda com teus pecados; sabe pôr um freio às tuas paixões e um termo ás tuas
desordens.

Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes. Jesus, o inocente Jesus, do pecado não tinha mais
do que a aparência; e ainda assim a justiça do seu divino Pai pesou sobre ele, e ei-lo despedaçado
pelos golpes, coroado de espinhos, pregado num infame patíbulo.

“Ó céu! Se assim se trata o pau verde, que será do seco?”

Que será de mim, pobre pecador; de mim cujas inumeráveis iniquidades se amontoaram todas sobre a
minha cabeça; de mim, que até ao presente só vivi para vos ofender, meu Deus?… Ó Jesus,
misericordioso Jesus, tende piedade de mim!

“Jesus foi despedaçado para expiar os meus crimes”

Deu-me este bom Mestre uma excelente lição: ensinou-me por tão horrendos tormentos que o pecado
não podia ficar impune; é necessário que seja punido ou pelo pecador, ou pelo próprio Deus! Se
choro os pecados que cometi, se deles faço penitencia, se exerço contra mim mesmo uma santa
cólera, dou-lhes a punição que merecem; se, porém, eu mesmo não quero punir por este modo, Deus,
que será o meu juiz, os punirá. Mas, desgraçado de mim! porque “é terrível cair nas mãos de Deus
vivo”. Para evitar a desgraça de ser apresentado com uma alma manchada de crimes a esse juiz
formidando, desde hoje devo trabalhar e os apagar por uma séria penitencia e marchar sobre os
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vestígios do meu Salvador. Mas, ó vergonha! A vida de Jesus Cristo foi um sofrimento contínuo, a
minha passa-se nos cômodos e doçuras do repouso! Acaso ignorava eu até agora a necessidade em
que estou de fazer penitencia neste mundo, ou faze-la no outro, no meio das chamas do inferno? Não
sabia, porventura, que um pecador não pode ir ao céu senão pelas tribulações e sofrimento? Que é
isto! Jesus chorou as minhas iniquidades, e eu não as chorarei! Ah! Tal não será, gemerei sobre tantos
pecados que desde minha tenra infância cometi; castigarei o meu corpo; mortificar-me-ei sem cessar,
e nas minhas penitencias irei cobrar alento na penitencia de Jesus e de todos os santos. Imitarei
David que, já assegurado do perdão das suas faltas gemia continuamente; como ele, a lembrança de
haver perdido a graça do meu Deus, dia e noite me fará derramar torrentes de lágrimas; como ele,
sempre terei presente a meu espírito os pecados da minha vida; como ele, enfim, direi a todo
instante:

“Senhor, esquecei os pecados da minha mocidade”

Meu Deus! que diferença acho entre o meu modo de obrar e o proceder dos santos? Pedro não peca
mais que uma vez, e chora sempre; eu peco frequentemente, e não choro nunca. Um santo solitário
dizia:

“Em qualquer lugar que esteja, não vejo senão os meus pecados; olho-me como uma vitima do
inferno onde vejo uma infinidade de almas menos culpáveis do que eu; atiro-me então por terra,
suspiro, choro diante do meu Juiz”

E eu penso apenas neste inferno, que tenho merecido, e nada faço para lá não cair. Todos os santos
procuram pelos rigores da penitencia expiar os seus pecados: “uns submetiam-se ás chufas, aos
açoites, ás prisões; eram outros serrados, lapidados; passaram por ferro e fogo e foram entregues
à morte; aqueles outros internaram-se em medonhos desertos”: e eu de tudo isto não faço nada,
nada sofro. Pobre e desafortunado de mim! Qual é a meta que me proponho tocar? É para o céu, para
esse belo céu, que eles tão caro compraram, que eu dirijo a minha carreira? Sim… Pois bem! Devo
tomar como eles o verdadeiro caminho; é estreito, o meu Mestre já m’o advertiu: Arcta est via quae
ducit ad vitam. Devo, como eles, chorar as minhas iniquidades passadas; devo implorar o perdão
delas, não algumas semanas somente, não alguns meses, mas toda a minha viva. Ai! Quem sabe se o
meu Deus me perdoou? Quem sabe se o meu Pai do céu me restituiu o vestido da minha inocência?
Espero-o da sua misericórdia, porém certeza não tenho. Devo, pois, sempre fazer penitencia, chorar
sempre: e ainda mesmo que um anjo do céu viesse anunciar-me da parte de Deus que os meus
pecados me estão perdoados, deveria ainda assim chorar à vista das chagas de que cobriam o meu
divino Salvador. Mas estas chagas do meu Jesus não me conduzirão somente à penitencia e ao
arrependimento dos meus pecados, excitar-me-ão ainda à confiança e ao amor. Nestas chagas ir-me-
ei refugiar, para ai achar um doce repouso. Ai estarei tanto mais ao abrigo de todo o perigo quanto
Jesus é mais potente para me salvar. Brama o mundo em volta de mim, faz-me o corpo uma guerra de
morte, cerca-me o demônio de seus laços? não cairei, porque estou apoiado sobre Jesus. Cai na
desgraça de cometer algum grande pecado, e acha-se perturbada a minha consciência? não me
abandonarei ao desespero, porque me recordarei das chagas do meu Senhor. Que mal será tão
incurável que não possa ser curado pela morte de um Deus? No meio de minhas misérias espirituais
lançarei um olhar sobre as chagas de Jesus, e a vista de um tão poderoso remédio me restituirá a paz
e a confiança.
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Ó alma minha! Tu que és tão fraca, tão pobre, tão lânguida, vai lançar-te nos braços do teu bom
Mestre; porque ele é tudo para ti; nele possuis todas as coisas. Queres curar as profundas chagas que
te abriu o pecado, ele é o teu medico; estás vergada ao peso de tuas iniquidades, ele é a justiça e a
santidade; tens necessidade de socorros entre os teus inimigos, ele é a força e o poder; queres ir para
o céu, ele é o caminho; foges das trevas, é a luz; procuras alimento, ele mesmo é o sustento que te
pode conservar a vida. Sim, minha alma, em Jesus Cristo acharás tudo; será a tua ancora e a tua
força, e se quando te vires atacada do lobo infernal, fores fiel em te ocultares nas suas chagas,
infalivelmente te protegerá contra ele, e sairás vitoriosa da luta.

Ó meu bom amado Jesus! Porque estais vós tão coberto de chagas lívidas e ensanguentadas?
Quem vos pôs num tão miserável estado? Ah! Compreendo-vos: são meus pecados que
dilacerara o vosso adorável corpo; são eles que cravaram essa coroa de espinhos sobre vossa
cabeça. Ó bom Jesus! A que excessos vos levou o amor por nós? Era a mim que a pena era
devida por minhas iniquidades, e vós sois que a levais! Fazei-me a graça de sofrer alguma coisa
neste mundo por vós para reconhecer uma ternura tão excessiva: dai-me a graça de me
mortificar, de me desprezar, de me humilhar em todos os recontros, e de nada omitir para vos
provar que não sou um ingrato. À vista do que tanto sofrestes por mim, não posso viver sem
sofrimentos. Feri, Senhor, feri neste mundo, mas perdoai-me na eternidade. Vulnerai o meu
pobre coração, vulnerai-a com as setas do vosso amor! Sofra, sim, mas amei-vos. Sim, amei-
vos, Deus meu, faça-vos amar sempre, sempre, sempre! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Amor da Solidão
Hoje, meu caro Teótimo, toma e conserva toda a tua vida o santo habito de te retirar frequente¬mente
em espírito ás chagas de nosso Senhor, e principalmente ao seu sagrado Coração. Nele faze uma
solidão para onde possas fugir no tempo da tentação. Para o que, começa por te arrancar ao tumulto
do mundo, tanto quanto t’o permitirem os teus deveres: ama o viver no retiro e no silencio. Ó meu
Deus! Quantas almas não fazem progresso algum no amor de Jesus porque não sabem o que é a calma
do retiro! Dizem estas almas que queriam viver no recolhimento, na união com nosso Senhor, fazem,
e fazem precisamente o que as deve apartar deste fim; procuram companhias numerosas,
divertimentos mundanos, efusões de coração que tem muito de humano, e fogem da solidão. Dir-se-ia
que teem medo de se acharem a sós com Deus. Meu caro Teótimo, não os imites; se queres achar
Deus, procura-o na solidão. Nunca estou menos só, dizia São Bernardo, do que quando estou só. Oh!
E como isto é verdade! Na solidão achamos a Deus; na solidão pensamos em nossos deveres, em
nossos pecados, choramo-los, detestamo-los; na solidão compreendemos a brevidade de tempo, a
duração da eternidade, a vaidade das coisas do mundo, das honras, dos prazeres, das riquezas; na
solidão falíamos com Deus e Deus conosco: entretemo-nos com ele coração a coração, exaltamos as
suas grandezas, bem- dizemos as suas misericórdias, saboreamos as doçuras do seu amor; na solidão
pensamos no céu, e desprendemo-nos de todas as criaturas. Ó doce solidão! Feliz quem te conhece e
ama! mas mais feliz ainda aquele que descobriu o segredo de estar a sós com Deus no meio das mais
numerosas companhias! Pede ao Senhor, meu caro Teótimo, que te dê esta solidão de coração, a qual
faz que até mesmo no meio do tumulto dos homens e das ocupações, estejamos recolhidos, unidos a
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Deus, e atentos à sua presença: pede-a ao Senhor, mas não te esqueças que para a obter deves o mais
que puderes viver retirado também na solidão exterior, sem nunca faltar por isto ao que os deveres
de teu estado pedem. É possível gostar muito de sair fora sem necessidade ou utilidade do próximo, e
ao mesmo tempo estar recolhido e unido a Deus.

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Capítulo XXVI
Jesus, condenado à morte, leva a sua cruz ao Calvário
Et bajulans sibi crucem, exivi in eum qui dicitur Calvariae locum
“E tomando a sua cruz, caminhou para o lugar chamado Calvário”
(Jo 19, 17)

Depois da flagelação de nosso Senhor, vendo-o Pilatos reduzido a um estado tão digno de
compaixão, julgou apaziguaria os seus inimigos com lh’o mostrar somente. Conduziu-o pois a uma
espécie de balcão, e mostrando-os aos judeus, lhes disse:

“Eis o homem!”

O povo emudeceu, e começava talvez a ganhar a compaixão, mas os príncipes dos sacerdotes e seus
ministros bradaram, ao vê-lo:

“Crucifica-o, crucifica-o!”

Pilatos caído da sua esperança diz-lhe agrément:

“Pois bem! Tomai-o vós mesmos e crucificai-o; eu não acho nele causa para o condenar”

Os judeus lhe responderam:

“Nós temos uma lei e segundo esta lei deve morrer porque se fez Filho de Deus. .. Demais, se o
não condenas à morte, não és amigo de Cesar”

Estas ultimas palavras foram as que atemorizaram Pilatos; teve a indigna fraqueza de ceder “e lhes
abandonou Jesus, para que o crucificassem”.

Que injustiça! Como assim, ó meu divino Salvador! Puderam julgar-vos dignos de uma morte tão
vergonhosa e cruel? Qual poderia ser a causa de uma tal condenação? Ah! Foram os meus pecados, ó
doce Jesus! Que assim vos fizeram sofrer; foram as minhas próprias faltas que vos deram a morte.
Sou eu o único instrumento das vossas penas, dos vossos mais cruéis suplícios. Que prodígio
inaudito! O justo sofre a morte que o pecador mereceu, um Deus morre para dar a vida à sua criatura,
a um vil escravo? Que posso pois dar-vos, ó Jesus, por um tão grande amor! Haverá alguma coisa no
coração do homem que vos possa ser oferecida por uma tão excessiva ternura! Ai! No meu não acho
nada senão o desejo ardente de vos amar; aceitai este desejo, ó meu Deus! e dignai-vos satisfaze-lo.
Fazei que só em vós ache delicias e doçuras; que sem vós nada me possa deleitar, nada parecer bem;
que ao contrario tudo me pareça vil e desprezível; que o objeto da vossa aversão seja também o da
minha, e que só me agrade o que vos apraz; que longe de achar alegria em tudo o que não sois vós, só
ache enojo; que faça todo o meu prazer em sofrer por vós, que a única gloria do vosso nome me
sustenha e anime; que a vossa recordação seja a minha consolação; que me nutra de um pão ensopado
de minhas lágrimas; que toda a minha alegria seja meditar incessantemente a vossa tão santa e tão
justa lei. Fazei enfim que voshttp://alexandriacatolica.blogspot.com.br
ame sempre cada vez mais, ó Jesus! Sou mui indigno do vosso amor,
bem o sei, mas vós sois digno do meu. Eu vos suplico, tornai-me doravante tão digno de vós como
até aqui tenho sido indigno. Ó Jesus! Fazei que vos ame.

Apenas os judeus por seus gritos e ameaças arrancaram a sentença de morte da boca do seu fraco
governador, em nada mais pensaram que em a fazer executar prontamente, para não dar a Pilatos
tempo de refletir nela e a revogar. Tinham de antemão preparado a cruz; fazem-na logo trazer ao
pretório, afim do nosso Senhor passar ainda pela pena e confusão de a levar aos ombros até o lugar
do suplício.

Mas para que ninguém o tome por outro e de todos seja reconhecido, tiram-lhe esse velho trapo de
púrpura com que o haviam coberto, e lhe tornam a vestir a sua túnica. Como era sem costura e não
era aberto por diante, foi preciso vestir-lhe-á pela cabeça; só a muito custo pôde passar, porque se
embaraçou nos espinhos; a coroa ficou rudemente abalada; renova-se as dores das picadas, e de novo
começa a escorrer o sangue. Então Jesus toma o instrumento do seu suplício e pondo-o sobre os
ombros já moídos dos golpes, dirige-se para o Calvário, precedido de dois ladrões que deviam ser
crucifica¬dos ao mesmo tempo que ele.

Contudo o nosso bom Salvador, já acabrunhado pelos sofrimentos da noite precedente, necessitava
de puxar pelas poucas forças que ainda lhe restavam, afim de levar o pesado madeiro de que estava
carregado. Suava, perdia a respiração, renovavam-se todas as chagas aos esforços que era obrigado
a fazer para suster a sua cruz e caminhar. Enfim ao sair da cidade não podendo mais, sucumbe ao
peso e cai de rosto em terra!… Os soldados que o conduziam o oprimiram então com golpes e
vomitaram contra ele mil injurias para o obrigar a levantar-se; mas vendo os judeus que não tinha
força, e temendo que viesse a morrer antes de ser crucificado, constrangeram um homem de Cirene,
chamado Simão, que voltava do campo, a levar a cruz e segui-lo.

De crer é que só à força e com grandes repugnâncias é que Simão se sujeitou. Mas quando à luz da fé
com que em seguida foi esclarecido descobriu que lhe tinha cabido a honra de ajudar o seu Salvador,
de cooperar para a Salvação do mundo e ser a figura dos que devem levar a cruz após Jesus Cristo e
segui-lo, isto é, dos predestinados de todos os séculos, concebe-se que a sua sorte lhe pareceu digna
de inveja como o pareceu sempre ás almas piedosas, que bem desejavam ter podido associar-se a um
tão piedoso ministério. Ó ditoso do homem que leva a cruz que o Céu lhe envia! Tal homem é
verdadeiramente o discípulo de Jesus Cristo. Mas que digo eu? Só com esta condição o pode ser.
Sim, é preciso que cada um de nós leve a sua cruz por pesada que seja; é preciso que eu também leve
a minha, e que caminhe em seguimento do meu Mestre.

Ó meu Jesus! Dignai-vos ensinar-me a leva-la por amor de vós, com alegria, ou ao menos com calma
e resignação.

— Meu filho, é preciso que tu saibas primeiro que um cristão que quer merecer um tão belo nome
deve neste mundo fazer conta com uma vida de privações e sacrifícios. É necessário que todos os
dias leve a sua cruz, e que por sua experiência conheça que não há outro caminho que conduza à vida
e à verdadeira paz do coração, como o caminho da cruz e de uma contínua mortificação. Assim, meu
filho, a tua cruz está sempre preparada: por toda a parte te espera; não lhe podes fugir, para onde
quer que vás.
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— Senhor, parece-me que estou prestes a levar todas as cruzes que vos aprouver enviar-me; nenhuma
recuso, antes vos agradeço desde já todas as que me vierem da vossa mão.

— São excelentes estas disposições da tua alma, são generosos esses sentimentos; mas teme sempre,
ó meu filho, a tua própria fraqueza! Hoje não tens de levar senão uma cruz, leve e ordinária, e tudo te
parece possível; mas ai! Quantos como tu, me louvavam enquanto recebiam as minhas consolações,
quantos que me bendiziam e me faziam mil protestos de fidelidade em meu serviço, me abandonaram
ou ao menos não me seguiram senão de longe, murmuraram contra a minha providencia para com
eles, porque julguei conveniente enviar-lhes algumas adversidades, algumas humilhações, desprezo
ou doenças! O que eles fizeram também tu o podes fazer: teme-te muito da tua fraqueza, e nunca
confies senão no meu socorro.

— Sejais bendito, ó meu Deus! Pela condescendência com que tendes a bondade de me fazer lembrar
a minha fraqueza que tão inclinado sou a esquecer! Mas ensinai-me, eu vo-lo suplico, o que devo
fazer para levar bem a minha cruz.

— Do céu vem todas as cruzes, todas as aflições; são um dom de minha mão, são um penhor de
predestinação. Sim, meu filho, quantas mais aflições envio a uma alma, mais provas lhe dou da minha
ternura. Os meus maiores santos são precisamente os que mais sofrem no mundo. Procura convencer-
te bem desta verdade, e então terás o segredo de bem sofrer.

“Sofro. Deus assim o quer; seja bendito o seu santo nome!”

Eis a perfeição. Ó meu filho! Se compreenderas o preço das aflições, dir-me-ías sem cessar:

“Senhor, ou sofrer ou morrer!”

Noite e dia me repetiras com São João da Cruz:

“Meu Deus, sofrer e ser desprezado por amor vosso”

Exclamarias com Santo Agostinho:

“Ah! Que cruz o não ter nenhuma cruz! Nulla crux! Quanta crux!”

A todo o instante me bradarias:

“Meu Jesus, comunicai-me uma pouca de força e dai-me depois cruzes”

— Ensinai-me ainda, ó meu bom Mestre! O que devo fazer no tempo das tentações. Inúmeras vezes
os malignos espíritos dão à minha alma violentos abalos, travam com ela terríveis assaltos; então me
creio a todo o momento no ponto de naufragar. Algumas vezes sou assaltado de pensamentos tão
medonhos, que me parece não poderem entrar senão no coração de um réprobo. Eu bem faço mil
esforços para os expelir; não vale nada, ficam colados à minha alma. Como me devo pois portar
neste momento de guerra interior?

— Deves fazer por ficar calmo e inabalável, e levar esta cruz sem perturbação ou murmúrio. Nunca
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te deixes abater por alguma tentação, por mais horrenda, por mais violenta que seja, e abandona-te
sempre a mim com toda a confiança. Pensa que nos desígnios da minha misericórdia todas as estas
penas são provas para fazer aparecer em todo o seu brilho o teu amor para comigo; lições para te
ensinar a ter compaixão dos que, como tu, são alvo dos dardos do tentador; meios de expiar os teus
pecados e prevenir faltas novas; disposições para graças mais abundantes; enfim preservativos
contra o orgulho, que te fazem sentir que sem a minha graça nada podes. É, pois, por um efeito do
meu amor para contigo que eu permito que sejas tentado: é por bondade que eu pareço de alguma
sorte apartar-me de ti por algum tempo, se bem que nunca me acho tão perto como então. Não temas,
estou contigo; combate corajosamente contra todas as sugestões do demônio: e nada de te
desconcertares. Ele faz muito ruído, mas não pode prejudicar a quem põe em mim a sua confiança.
Quem mais te atormenta, mais contra ti braveja, mais ocasiões te dá de aumentar os teus méritos e a
tua gloria no céu. Assim, firmeza! E recomenda-te a mim sem cessar. Já o derribei por minha
potência, e tu também o vencerás com a minha graça, que nunca te recusarei.

— Meu Deus, há ainda uma outra cruz que me custa muito a levar, e me parece mui bem mais pesada.

— Qual é essa cruz, meu filho?

— Quando me lembra das doçuras e consolações espirituais que outrora gozava, e as comparo com
as securas de hoje, sinto uma grande dor, porque me parece que em lugar de avançar no vosso amor,
recuo. Outrora tudo me parecia doce no vosso amor, parece-me hoje tudo árduo. Ó meu Jesus! Não
tenho motivos para crer que, fatigado das minhas ingratidões, e minha tibieza, me abandonastes e me
deixastes?

— Meu caro filho, abstém-te de assim julgar, pois isso seria fazer uma injuria ao meu amor. Então
ainda não conheces o meu procedimento ordinário para com uma alma que amo? Ao principio,
quando esta alma nada mais faz que dar-se a mim por uma sincera conversão, visito-a, fortifico-a,
esclareço-a, ganho-lhe o coração, deixando-a só achar alegria no meu serviço; prendo-a pela doçura
dos meus encantos; continuamente me mostro a ela, para a reter pelas graças da minha presença; em
uma palavra, tudo para ela são delicias, por via de suster a sua fraqueza. Mas ao diante tiro-lhe o
leite, e dou- lhe a sólida comida das aflições. Eu falo, e eis o céu, a terra e o inferno conjurados
contra ela; fora inimigos, tentações dentro. Fora tribulações e trevas; no intimo de alma securas e
desolações. Ora a deixo nas sombras e horrores da morte, ora a chamo à luz e à vida. Porém obro
assim para a provar, para a purificar, para a instruir, para a tornar dócil à minha vontade, para lhe
exprobrar as suas leves faltas, suas pequenas mortificações. Já tu vês, meu filho, quão longe estou de
te abandonar, tratando-te de tal sorte.

— E das minhas distrações contínuas! não me dizeis nada? Ó meu Deus! Que penosa cruz, querer eu
ter mão na minha alma para que não se difunda, c nunca a poder conseguir! Esta filha vagabunda anda
sempre de viagem, e sinto todas as penas do mundo para a fazer entrar em si mesma, e fixá-la alguns
instantes a vossos pés.

— Meu filho, não quero que as distrações te causem uma inquietação escrupulosa, que poderia
lançar-te na perturbação e desalento. Se o coração te escapa a teu pesar, não te assustes, procura
traze-lo por um doce esforço, e faz, sem turbação e embaraço, o que de ti depender; o resto
abandona-o à minha vontade. Ama-me de todo o teu coração, que as faltas de que ainda te não
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pudeste desfazer converter-se-ão para ti num objeto de humilhação, num motivo de virtude, numa
ocasião de mérito, numa fonte de consolações. Uma terra bem disposta acha até no estrume um
acréscimo de fertilidade; o homem cheio de boa vontade, até no seio de sua mi¬séria retira a seu
tempo o fruto de suas imperfeições e de suas misérias. Estás tu na oração com respeito, e um
verdadeiro desejo de te conservares atento? não é preciso mais. Estou contente de ti, apesar das
distrações que te impedem de estares tão atento quanto desejavas. Jamais te lançarei a crime as
digressões de uma natureza fraca e volúvel, contanto que não te detenhas nelas quando chegam; que
antes lhe não tenhas dado ocasião, à falta de velar sobre os teus sentidos. Finalmente, sepulta
confiadamente todas as tuas misérias nos abismos da minha misericórdia; lá desvanecer-se-ão, como
se vê desaparecer uma centelha que cai no meio do mar.

— Senhor Jesus, agradeço-vos as lições que vossa ternura me quis dar; possa eu pô-las em pratica!
O que agora vos peço é que eu leve sem me lastimar e com resignação todas as cruzes que me
enviardes; o que vos peço é o cumprimento da vossa santa vontade, sempre, em todo o lugar e em
todas as coisas; o que vos peço é o vosso amor; que mais posso pedir? Se vos amar, serei humilde,
paciente, doce, caritativo, resignado; se vos amar, serei o que vós quereis que eu seja, um santo.

Ah! Por quem sois, meu Deus, dai-me o vosso amor, fazei-me uma chaga de amor, uma chaga
que me cause dor a fim de que sofra por vós e convosco. Ó meu amor! Não me abandoneis
porque sem vós não posso viver nem um momento. Ah! Não poder eu morrer de amor por vós, ó
meu Deus! Sabeis que queria sofrer todos os trabalhos e todas as penas do mundo, e até mesmo
os tormentos do inferno por amor de vós, diz o B. Affonso Rodrigues, da Companhia de Jesus.
Como não morri de amor em reconhecimento dos vossos benefícios? Aonde acharei um amor
infinito como o mereceis? Ó meu Deus! Vinde em meu socorro, quero viver e morrer repetindo
sem cessar: “Amo- vos, amo-vos, amo-vos!”
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
É preciso todos os dias tomar a sua Cruz

“Se alguém, diz Jesus Cristo, quer vir após de mim, deve renunciar a si mesmo, tomar todos os
dias a sua cruz, e seguir-me”

Meu caro Teótimo, atende nestas palavras do nosso divino Mestre:

“É preciso tomar a sua cruz”

Parecem duras e a natureza revolta-se; contudo, Teótimo, custe o que custar, é preciso que leves a tua
cruz com paciência como Jesus Cristo levou a sua, pois à cruz estão ligadas a nossa salvação, a
nossa força contra as tentações, e o verdadeiro amor de Deus! Sim, é preciso que a leves, não por
força como a levam os pecadores, sem que tirem mérito algum: mas é preciso que a leves com
submissão e por amor do Nosso
Senhor. Alguns, quando recebera consolações espirituais, oferecem-se a sofrer tudo o que os mártires
sofreram, os cavaletes, as unhas de ferro e as laminas ardentes; mas depois de haverem feito a Deus
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estas belas e generosas promessas, não podem sofrer sem queixa, e ás vezes sem murmuração um
pesadelo de cabeça, uma ligeira indisposição, a frialdade de um amigo, uma palavra um pouco dura.
Meu caro Teótimo: Deus não quer que sofras as dores de um martírio coberto de sangue; tão somente
pede que sofreras com paciência este mal, esta frialdade, esta palavra um pouco áspera. Leva a tua
cruz todos os dias, e não te assemelhes aqueles que de bom grado consentem em a levar por algum
tempo, mas que bem cedo a deixam, se continua a pesar sobre eles. Insensatos! Não sabem que
rejeitando a cruz que Jesus lhes impõe, tomam uma outra mais pesada e mais difícil de levar! Tu,
quando o peso desta cruz te parecer opressivo de mais, e te sentires desfalecer, recorre logo a Jesus
pela oração, e pede-lhe força para a levar com resignação e com mérito. Lembra-te então do que diz
São Paulo, “que todas as tribulações da terra”, por mais penosas que sejam, “não têm proporção
com a gloria que Deus nos prepara no céu” e sentir-te-ás cheio de coragem.

Muitas almas, diz Santo Afonso de Ligório, amam a Jesus Cristo enquanto o vento das doçuras
espirituais continua a bafejar; mas, se cessa, se sobrevém alguma adversidade ou desolação, na qual
o Senhor se esconde a seus olhos para as provar, se em- fim Jesus priva estas almas de suas
consolações ordinárias, abandonam a oração, as comunhões, as mortificações e se dão à tristeza e à
tibieza procurando os prazeres da terra. Mas estas almas amam-se mais a si mesmas do que a Jesus
Cristo; ao contrario, as que amam a Deus, não por um amor interesseiro e por consolações que ele
dá, mas com amor puro e somente porque é digno de ser amado, nunca deixam os seus ordinários
exercícios de piedade por aridez, por mais enojo que neles experimentem; basta-lhes saber que Deus
acha a sua gloria em as experimentar desta sorte; assim oferecem-se a sofrer esta desilusão, este
desgosto, este enfado, até à morte, se assim for a vontade do soberano Mestre. Sabem que Jesus é tão
amável quando lhe apraz deixa-las na desilusão, como quando se digna conceder-lhes algumas
consolações, e encontram a sua dita e prazer nos sofrimentos quando pensam que é por amor de Jesus
que os suportam; então exclamam:

“Como é doce, meu caro Senhor, a quem vos ama, sofrer por vós! Jesus, que por mim morrestes,
não poderei eu morrer por vós!”

Que é aliás sofrer algumas dores do corpo ou do espírito, algumas angustias interiores? Não estamos
obrigados a sofrer por Jesus alguma coisa, por Jesus que por nosso amor escolheu a vida mais
laboriosa e a morte mais afrontosa, por Jesus que não se permitiu o menor alivio, para nos mostrar
que, se tendemos ao seu amor, devemos ama-lo como ele nos amou? Ó Teótimo! Que coragem não é a
de Jesus, a alma que sofre e a que ama! Ó dom divino! Dom sobre todos os dons, amar sofrendo, e
sofrer amando! Pede ao nosso bom Mestre t’o conceda.

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Capítulo XXVII
Jesus é pregado na cruz
Crucifixerunt eum, et eum eo alios duos, hinc, et hinc, modium autem Jesum
“Crucificaram-no, e a outros dois com ele, um a um lado, outro do outro, e Jesus no meio”
(Jo 19, 18)

Quando o Salvador chegou ao Calvário onde devia consumar o seu sacrifício e dar-nos o mais solene
testemunho do seu amor, nem tempo de suspirar lhe deixaram. Arrancaram-lhe rudemente a sua veste,
que estava colada ás chagas, e mais uma vez renovaram todas as suas dores. Mandam-no em seguida
deitar-se sobre a cruz, afim de nela o poderem pregar. Sem demora nem resistência obedece o bom
Jesus, estende-se sobre este leito de dor, não tendo por travesseiro senão os espinhos de que estava
coroado. Então com uma sorte de furor arremessam-se sobre ele os algozes, pedem-lhe primeiro a
mão esquerda, segundo é crença comum, e trespassam-na com um grosso cravo pelo meio dos
nervos. Tendo-se estes comprimido pela violência da dor e não podendo a mão direita estender-se
até ao buraco que no outro braço da cruz tinham aberto, foi necessário estender esta mão com cordas;
outro tanto foi necessário fazer aos pés, de sorte que todo o corpo de Nosso Senhor ficou deslocado.
Que amargas dores!!! Calava-se porém o inocente Cordeiro e não deixava escapar de sua boca uma
lastima; consertava fixos no céu os olhos; e oferecia a Deus por nossa salvação, os seus sofrimentos
e a sua vida…

Cravado que foi na cruz, arrastaram-na até o fosso onde devia ser plantada. Ai elevaram-na com
cordas, e deixam-na cair bruscamente nesse fosso. Ó Deus! Quem poderia compreender, quem
poderia dizer quantas dores vos causou esta queda da cruz! Oh! De que dilacerações não foi seguida!

E é por mim que Jesus quer assim sofrer! por mim, que o amo tão pouco, tão mal o sirvo! por mim
que em minha vida passada tanto o ofendi! por mim que ainda hoje o contristo todos os dias, por
minha tibieza! Ó meu Deus, meu Deus, meu Jesus, aos pés da vossa cruz me lanço, exclamando:

“Misericórdia, misericórdia para um pobre pecador, para um ingrato! misericórdia!”

Minha alma, olha o teu Senhor, olha a tua vida suspensa deste madeiro; vê como neste infame
patíbulo não acha posição nem repouso. Ora se finca nas mãos, ora nos pés; mas onde quer que se
apoia torna-se insuportável a dor. Volta a cabeça já para um, já para outro lado; se a deixa cair sobre
o peito, as mãos fatigadas do peso rasgam-se mais; se a inclina sobre os ombros, são penetrados
pelos espinhos; se a encosta á cruz, os espinhos entram mais na cabeça.

Ah! Jesus meu, quanto é cruel a morte que sofreis! Dignai-vos dizer-me o que vos pôde levar a
submeterdes-vos a tão horrorosos tormentos.

— Meu amor por ti, filho meu; esse é quem me cravou na cruz. Sofro, ah! Sofro incompreensíveis
dores; mas se preciso fora para a tua salvação suporta-las até ao fim do mundo, de toda a minha
vontade o faria, tanto amo a tua alma! tão preciosa a meus olhos é!

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— Ó meu Deus! as vossas palavras cobrem-me de vergonha e contusão. O vosso coração é todo
amor por mim; e o meu!!!… Ensinai-me, Jesus meu; que devo fazer para reconhecer uma tal ternura
da vossa parte?

— Ama-me, e ficarei contente; ama-me e ter-me-ei por pago de todos os meus sofrimentos.
Desprende o teu coração de todo o afeto criado, e excita em tua alma o desejo de gozar da minha
presença no céu.

— Senhor, vós bem vedes o interior do meu coração: vede quanto desejo amar-vos. Sim, este
desejo me abrasa e me consome; continuamente me persegue, não me deixa repouso noite e dia.
Tenho necessidade do vosso amor, o meu coração tem dele uma ardente sede, e parece-me que
ninguém vem em meu socorro. Desfaleço, e parece que ninguém vem suster-me. Quero amar-
vos, parece-me como que impossível; tão pouca é a minha coragem! Meu Deus! Meu Deus! Não
sei se bem vos exprimo os sentimentos de minha alma; mas, visto como os conheceis, ah! Por
favor, tende piedade de mim! Dai-me o vosso amor; sem ele não posso viver; sem ele terno
morrer; segunda vez insto, dai-me, dai-me o vosso amor. Bom Jesus, terno Pastor, meu doce
Mestre, quando parecerei sem macula e verdadeiramente humilde aos vossos olhos? Quando
vos amarei perfeitamente? Quando me enlevarei todo em vós por ternos e ardentes desejos?
Quando serão absorvidas na imensidade do vosso amor a minha tibieza e imperfeição? Ó meu
Deus! Ó doçura da minha alma! ó minha consolação, minha vida, meu amor, meu desejo! ó meu
tesouro! Ó todo o meu bem! a minha alma suspira por vossos doces abraços; consome-se,
desfalece, no ardor de a vós se unir, de a vós estar inteiramente unida pelos doces laços de um
indissolúvel amor. Oh! Quando de todo cessará para mim o estrépito do mundo? Quando me
verei inteiramente livre dos cuidados e vicissitudes do século? Quando acabará a minha
peregrinação e o triste cativeiro deste exílio? Quando verei declinar a sombra da mortalidade e
luzir a aurora da eterna luz? Quando gozarei da vossa vista, e vos louvarei eternamente e sem
obstáculo com os vossos santos? Ó meu Deus! Ó meu amor! Ó todo o meu desejo! (diz Blosius,
cap. iv, n.° 2) satisfazei, eu vo-lo suplico, todos os meus desejos e dai-me o vosso amor; dai-me
o vosso céu, afim que vos possa amar mais. Maria, obtende-me a graça de amar enfim o meu
Deus, como mereço e como desejo. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Amor de Deus Só

Meu caro Teótimo, Jesus hoje pede-te que em reconhecimento do amor que te testemunhou deixando-
se pregar na cruz, o ames com toda a extensão do teu amor, e não sofras algum outro amor. Sonda o
teu coração, e vê se verdadeiramente é todo de Deus; ai! Ainda ama as criaturas, está-lhes como que
pregado, e talvez não consente em delas se desprender. E no entanto é certo que nada põe mais
obstáculo à nossa união com Deus como estes apegos ás coisas da terra. Ah! Meu caro Teótimo, ama
a Deus e só a Deus, ou se amas alguma criatura, não a ames senão em Deus; não te prendas muito a
ela, e está pronto a deixa-la, sempre que for do agrado de nosso Senhor. O amor da criatura que no
de Deus não é de alguma sorte fundado, é perigoso. Pede, pede ao Senhor te dê um coração puro, um
coração vazio de tudo 0 que não é ele ou por ele. Trabalha seriamente por arrancar do teu coração
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toda a afeição desordenada, por mais pequena que seja.

— Então não posso amar os meus amigos? Dizes-me tu agora.

— Eu te respondo: tens amigos, ama-os tanto como te aprouver, mas sempre seja em Deus e por
Deus: ama-os, mas seja para os levar a servir a Jesus Cristo, e ganhar o céu, e não pelo prazer que
possas achar em os amar; ama-os, mas pede incessantemente ao nosso bom Mestre a graça de os
amar cristãmente. Não te acostumes a os olhar como seres necessários à vida neste mundo, porque,
meu caro Teótimo, só Deus, Deus só, te deve bastar; fora dele só há miséria, fraqueza, e vaidade.
Dize, pois, muitas vezes do fundo do coração: Meu doce Jesus, dai-me a graça de sempre vos amar
acima de todas as criaturas, e amar os meus amigos como vós quereis que os ame. Desprendei o meu
coração de tudo o que não sois vos.

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Capítulo XXVIII
Do silêncio de Jesus no meio dos desprezos, das afrontas e dos sofrimentos
Et quasi agnus coram tondente se obmutescet, et non aperiet os sum
“Semelhantemente a um cordeiro que se conserva mudo diante do tosqueador, não abrirá a sua
boca.”
(Is 53, 7)

Já falíamos do silencio de Jesus no meio dos seus sofrimentos; mas é tão tocante ver este inocente
Cordeiro opondo ao furor dos seus inimigos uma doçura e uma paciência tão incomparáveis, que
mais uma vez imos deter-nos alguns instantes em considerar este espetáculo.
Comecemos pelo ver em casa de Caifás: na presença deste pontífice é acusado de inúmeros crimes;
mas ele guarda silencio: Jesus autem tacebat. Em casa de Herodes enchem-no de desprezos; ele
sofre tudo sem dizer uma só palavra. Fazem-no sofrer uma cruel flagelação: não reclama contra a
injustiça deste castigo. Os algozes em seu furor excedem muito o numero dos golpes prescritos pela
lei: ele não se queixa.

Os soldados, provavelmente sem ordem de Pilatos, e tão somente para satisfazer a sua brutalidade
insolente, entrançam uma coroa de espinhos longos e agudos, sobrecarregam-no de golpes, cobrem-
no de escarros: sempre o mesmo silencio. Ordenam-lhe que tome sobre os seus ombros uma cruz
pesada, desigual, e cujo cumprimento era, segundo referem São Boaventura e São Anselmo, de
quinze pés: obedece imediatamente e sem abrir a boca. Não se queixa nem da sua fraqueza, nem do
peso do madeiro, nem da longitude do caminho; não, a si mesmo impõe a cruz, e se dirige para o
Calvário. Muitas vezes durante o trajeto sucumbe ao peso: não importa; levanta-se o melhor que
pode, carrega a sua cruz, e contínua a caminhar… Que admiráveis lições para mim! Ai! Se acontece
ter de sofrer alguma doença, um simples mal estar, queixo-me a todo o mundo. Uma desgraça que
sinta, um insulto que receba, devo ir desabafar, lastimando-me e murmurando talvez contra o céu!…
Ai! Que longe está o meu proceder do de meu Mestre!… Ó Cordeiro de Deus! Dai-me a graça de
imitar os vossos exemplos, força para guardar silencio, por amor de vós, no meio dos desprezos, das
calunias, das injurias e maus tratos; fazei-me a graça de tudo suportar com uma paciência igual à
vossa.

— Meu filho, o melhor que tens a fazer quando te sobrevém alguma das mil contradições de que está
cheia esta vida mortal, “é possuir tua alma na paciência”. Quando se impacienta, a alma sai fora de
si mesma; ao passo que quando sem murmúrio se submete a tudo o que permito, possui-se em paz e
possui a mim mesmo. Impacientar-se é querer o que não se tem ou não querer o que se tem. Uma alma
impaciente é uma alma entregue à sua paixão, que nem a razão nem a fé contém. Que fraqueza! Que
cegueira! Tanto que se quer o mal que se sofre, deixa ele de ser mal; para que converte-lo em
verdadeiro mal, cessando de o querer? Diz Fénelon. Nunca esqueças estas palavras que outrora
dirigi aos meus apóstolos, e que a ti agora dirijo:

“Em verdade, em verdade vos digo: vós chorareis e gemereis… mas a vossa tristeza se verterá
em alegria”
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Sim, meu filho, as aflições são na terra quinhão dos meus eleitos, mas é bela a sua recompensa.

— Senhor, eu já vos disse, e parece-me estar disposto a tudo sofrer por vosso amor; mas como é que
experimento ainda assim uma repugnância tamanha?

— Meu filho, se com resignação e sem te lastimar aceitas todas as aflições qual te envio, não te
tornam culpável nem menos resignado essas repugnâncias; são um efeito da fraqueza da tua natureza,
e deves humilhar-te, mas de modo algum perturbar-te ou penalizar-te. Sofre com paciência e com
calma os desprezos, as humilhações, as doenças e a própria morte; deste modo me provarás o teu
reconhecimento e o teu amor.

— Ó Jesus! Misericordioso Jesus! Bem pouco vos amei até ao presente; sim, meu Deus, bem
pouco e mal vos amei! mas agora quero amar-vos de todo o meu coração, quero amar-vos
sempre. Ai! Outrora estava cego por minhas paixões; hoje a vossa misericórdia abriu-me os
olhos e me esclareceu. Fizestes-me conhecer a grandeza do mal que fiz abandonando-vos
covardemente; fizestes-me compreender que sois digno de um amor infinito, por causa da vossa
bondade e do amor que nos testemunhastes. Arrependo-me, pois, agora de todo o meu coração
de vos haver ofendido, e vos amo mais que a todo o mundo. Ó chagas! Ó sangue do meu
Redentor! Vós, que tendes abrasado de amor tantas almas santas, abrasai também desse fogo
sagrado a minha pobre alma. Ah! Meu Jesus! Concedei-me a graça de pensar sempre na vossa
paixão, nas penas e ignomínias que por mim sofrestes, afim que desprenda as minhas afeições
dos bens da terra, e que todas ponha em vós, que sois o meu único e infinito bem. Amo-vos, ó
Cordeiro de Deus sobre a cruz imolado por nosso amor. Não recusastes sofrer por mim; da
minha parte também não recuso sofrer por vós tudo o que me enviardes. Não quero queixar-me
das cruzes que me enviardes; ai! Como posso eu lastimar-me de sofrer, eu que há tantos anos
devera estar no inferno? Concedei-me a graça de vos amar, e fazei em seguida de mim o que vos
aprouver. Ah! Quem poderá separar-me da caridade de Jesus Cristo? Ó meu Jesus, só o pecado
de vosso amor me separará; não permitais, eu vos rogo instantemente, que me aconteça uma tal
desgraça. Antes morrer, antes mil vezes morrer que ver-me de vós separado pelo pecado
mortal! Esta graça vos peço em nome de vossa paixão; e vós, ó Maria! Em nome de vossas
dores vos suplico, livrai-me da morte do pecado. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Hoje, meu caro Teótimo, aprende no exemplo de Jesus Cristo a guardar uma profunda paz, uma
inalterável serenidade no meio dos desprezos, das contradições e maus tratos, porque onde se acha a
paz, ai vem Deus estabelecer sua morada. Se queres que fique contigo, não deixes entrar em tua alma
a tribulação. Quando te sentires assaltado dalguma violenta tentação, quando dentro de ti sentires a
guerra das paixões, quando vires as tuas faltas, as tuas imperfeições, recaídas, infidelidades,
misérias, não te deixes cair no descoroçoamento ou inquietação, mas lança com toda a simplicidade
um olhar cheio de amor sobre Jesus crucificado e pede-lhe que estabeleça em ti essa paz que só ele
pode dar. Não te abandones ao mau humor quando te fazem esperar por muito tempo, te contradizem,
te obrigam a repetir muitas vezes uma mesma coisa, ou executam mal as tuas ordens; mas guarda
sempre a mesma doçura e a mesma paz da alma. Nas doenças, humilhações, perda de bens, desgraça
imprevista, nunca te abandone esta calma profunda; para isto pensa que Deus, que sem cessar vela
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por ti, não permitiu todas estas coisas senão para teu maior proveito. Sobre tudo, Teótimo, conserva
cuidadosamente essa doce paz que é o apanágio dos filhos de Deus, no meio das desolações e penas
interiores, dos desgostos, das securas, das tentações da tristeza, da melancolia, da desconfiança, da
misericórdia de Deus; conserva-a no meio das cruzes mais penáveis, das aflições mais angustiáveis.
Oh! Que belo espetáculo não é o de um servo de Deus que em todas as ocorrências da vida parece
sempre o mesmo, doce, sereno, pacifico, perfeitamente submisso à vontade daquele que dirige tudo!
Se o louvam, seu coração não se incha; se lhe ralham, promete fazer melhor; se o desprezam,
humilha-se; e se o insultam sofre em silencio e perdoa. Sempre a paz no coração; brilha em sua fronte
e em toda a sua pessoa, e muitas vezes a sua só presença, uma simples palavra da sua boca bastam
para consolar uma alma aflita e restituir-lhe a paz que há muito tempo perdera. Trabalha, pois, meu
caro Teótimo, por adquirir esta paz tão desejável. Pede-a a Nosso Senhor e toma o santo habito de te
submeteres a tudo o que suceder, dizendo: Deus u quer ou permite, ele tem em seus desígnios; seja
bendito o seu santo nome.

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Capítulo XXIX
Lamentações que do alto da cruz dirige Jesus a todos os homens
O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut dolor mens
“Ó vós todos que passais pelo caminho, atendei, e vede se há dor como a minha”
(Lm 1, 12)

São estas as palavras que nos dirige Jesus a nós, pobres exilados nesta terra de pecado. Ó vós todos,
exclama ele do alto da cruz, ó vós todos, que passais pelo caminho da vida, dignai-vos parar por
alguns instantes; lançai sobre esta cruz, onde estou cravado, a vossa vista, e vede se há uma dor que à
minha se possa comparar; a minha cabeça está coroada de espinhos que me não deixam repouso
algum, os meus pés e as minhas mãos estão varados de enormes cravos, o meu corpo não é mais que
uma chaga, e o meu sangue corre de todas as minhas chagas. “De todas as partes me cercam as
agonias da morte”, e a minha alma está abismada na mais excessiva desolação.

Infelizes filhos de Adão, que arrastastes a punição do pecado de vosso primeiro pai, que gemeis sob
o peso dos sofrimentos que vossos crimes mereceram, vede as minhas dores, e comparai-as com as
vossas. Vós lastimai-vos de sofrer! Mas esquecestes já que sois culpados, e que merecestes o
inferno? Esquecestes-vos de que eu, vosso Deus, primeiro sofri por vosso amor, e para vos ensinar a
resignação?

Vós murmurais de serdes obrigados a suportar os incômodos da fome, sede, pobreza, fadiga, frio e
calor; mas em antes de vós e mais que vós os senti eu. Não nasci eu num curral, no coração do
inverno? Não vivi sempre na indigência? Não ganhei eu o meu pão com o suor do meu rosto?

Vós sois tentados a abandonar o meu serviço, porque neles encontrais alguns espinhos, por nele
experimentardes alguns desgostos, por serdes atormentados de algumas penas interiores, por ser
preciso fazer alguns sacrifícios custosos à natureza. Mas acaso vivi eu no seio dos prazeres? A vossa
salvação, não a minha, acaso não me custou nada a assegurar? Experimentais desgostos! Mas são
compráveis aos que por vosso amor recebi no jardim das Oliveiras? Estivestes já, como eu, tristes
até à morte? E vossas penas interiores já vos fizeram suar uma grande abundância de sangue? Quando
estivestes numa agonia mortal?

Vós ficais atônito de serdes traídos por vossos amigos, contristais-vos quando vos pagam com a
ingratidão os benefícios! Mas não fui eu abandonado dos meus pobres discipulos no momento mesmo
em que acabava de lhes dar a maior prova de amor, nutrindo-os do meu próprio corpo? não fui eu
indignamente tratado por esses judeus a quem eu havia curado os enfermos, ressuscitado os mortos, e
acumulado os benefícios?

Vós irritais-vos por terem para convosco pouca atenção, por vos humilharem, vos desprezarem,
desconhecerem o vosso pretendido mérito, e vos preferirem aos que tem menos talentos, menos
virtudes do que vós! Mas não fui desprezado eu, Deus como sou? Não fui apupado nas ruas de
Jerusalém pela mais vil populaça? Não me tratou Herodes como um insensato? Não fui posto em
paralelo com um homicida? Não me puseram abaixo de Barrabás?
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Vós abandonais-vos à cólera apenas alguém vos mancha a reputação, vos insulta e maltrata! Mas de
mim não disseram que eu era um possesso do demônio, um feiticeiro, um blasfemo, um sedicioso?
não me escarraram no rosto? não me carregaram de golpes e bofetadas? Não me abandonaram toda
uma noite aos insultos e brutalidades dos soldados desenfreados?

Vós murmurais à mais pequena doença que vos sobrevém; se se agrava, se se prolonga, já perdeis a
paciência! E eu não fui cruelmente flagelado? E não me vedes agora pregado nesta cruz? Em vossos
sofrimentos, nas doenças recebeis algum conforto da presença dos amigos, dos remédios que vos dão
e dos cuidados que para convosco se tem. E para comigo, que sou vosso Deus, acontece o mesmo?
onde estão os que me consolam? onde os amigos que me aliviem e participem dos meus sofrimentos?
Onde os remédios para adoçar meus males?

Estou só e desamparado; por palavras de consolação ouço blasfêmias; oprimem-me de insultos e


ultrajes, botam-me à derrisão, apresentam-me fel e vinagre… Tendes razão de vos queixar e
murmurar por terdes de beber algumas gotas do cálice de amargura que eu esgotei todo? não era mais
justo antes levardes por meu amor uma leve porção da cruz que por vosso amor não recusei levar eu
só? Respondei… Ó cristãos, se soubéreis quantas dores, quantos sofrimentos, quantas penas
interiores me custou o arrancar-vos ao inferno, compreenderíeis o ardente desejo que me devora de
possuir o vosso coração; compreenderíeis quão horrendo não é cair no inferno, por toda a
eternidade; compreenderíeis. enfim, que só a causa que sobre a terra vos cumpria fazer, é servir-me e
amar-me! Ah! Meus filhos, pela vossa própria felicidade, dai-me o vosso coração e amai-me.

Amo-vos, ó meu Jesus! Sim, amo-vos e quero amar-vos sempre cada vez mais. Ó meu divino
Mestre! Dai-me para convosco toda a ternura que anelo, e se meus desejos não tem ainda toda a
força e ex¬tensão que deviam ter, dai a esta pobre criatura, que acumulastes de vossos favores,
que com tanto excesso amastes, que por tantos tormentos salvastes, dai-lhe todo o amor com que
vós quereis que vos ame.
Ó amor, que sempre estás em chamas e ardes sempre! Fogo divino que nunca te extingues! Ó
meu doce Jesus! Ó caridade! Ó meu Deus! Abrasai todas as potencias da minha alma no fogo
sagrado do vosso amor. Fazei que ela sinta todas as suas chamas, toda a sua doçura, todos os
seus êxtases, e todas as suas ternuras; fazei que vos ame, que vos ame de toda a força e com
todo o ardor da vontade; que vos abrace com todas as luzes da sua inteligência, que vos ame de
um amor acompanhado de uma viva dor das suas infidelidades passadas, que vos ame, e a nada
mais ame senão a vós, nada senão em vós, nada senão por vó; Ó meu Deus! Possa eu amar-vos
até o meu ultimo suspiro, e por toda a eternidade! é o que espero da vossa misericórdia. Assim
seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Precipitação

Falei-te no capitulo passado da paz do coração; vou hoje falar-te de uma falta muito comum, até entre
as pessoas que fazem profissão de piedade; sim muito comum, e só por si capaz de pôr um obstáculo
insuperável ao reino dessa paz interior: é a precipitação. Se portanto queres alcançar e conservar a
paz interior evita a precipitação.
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1. Em tuas ocupações. Não procures fazer empreender tudo ao mesmo tempo; dá a cada coisa o
tempo que ela pede, e não desejes ver termina¬da, quando ainda mal está começada; porque nada
lança tanta perturbação e distração numa alma como esses desejos veementes e impetuosos. Não te
sobrecarregues de ocupações muito multiplicadas e ás quais não possas bastar.

2. Em tuas boas obras. Faz o bem, mas com peso e medida; assim mais sólido será. Quando
resolveres empreender uma coisa que julgas útil à gloria de Deus e à salvação do próximo, não
ponhas logo em movimento céu e terra, deixa-me as¬sim dizer, para chegar subitamente ao fim a que
te propões, mas obra com tranquilidade. Nisto toma o exemplo do mesmo Jesus Cristo, que trinta
anos esperou antes de anunciar ao mundo o seu Evangelho, e trabalhar diretamente na salvação das
almas. Quando a alguém dás sábios conselhos e vês que não aproveita, não percas por isso a paz:
mas continua com caridade rendendo-lhe o mesmo serviço; o resto Deus o fará. O zelo por nosso
adiantamento na piedade, pela conversão do próximo, é uma virtude, enquanto sereno, e resignado à
vontade de Deus, mas se é um zelo desatinado, sem comedimentos, sem paciência, um zelo que
pretende num dia fazer de um pecador um santo consumado, um zelo que não quer esperar os
momentos marcados pela sabedoria do Altíssimo, ai! É um zelo falso, deves-te desfazer dele, porque
semeia a perturbação em tua alma. Não ponhas também demasiada solicitude nos exercícios de
piedade cedendo ao desejo de os multiplicar muito: nisto, como em tudo o mais, segue os conselhos
do teu diretor, e grava bem na memória estas palavras de São Francisco de Sales:

“Não é de modo algum pela multiplicidade das coisas que fazemos, que nos adiantamos na
perfeição, mas pelo fervor e pureza da intenção com que as fazemos”

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Capítulo XXX
Jesus ora por seus inimigos
Pater dimitte illis: nom enim sciunt quidi faciunt
“Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”
(Lc 23, 34)

Jesus acabava de ser pregado na cruz, via circular em volta de si os autores do seu suplício e os seus
algozes. Lança sobre eles um olhar, eleva em seguida os olhos ao céu, e exclama:

“Meu Pai!”

Tinha guardado silencio enquanto o crucificavam; eis que o rompe e invoca a seu Pai; escutemos o
que lhe vai pedir. Dir-lhe-á ele:

“Meu Pai: vós sois testemunha dos meus sofrimentos, sois testemunha dos ultrajes indignos de
que me cobrem e sabeis a minha inocência; fazei, pois cair sobre este povo ímpio todo o peso
da vossa vingança?”

Não, não, tal não será a súplica do nosso bom Jesus. Alma cristã, que isto meditas, atenção, e
aprende a conhecer a misericórdia infinita do nosso Salvador.

“Meu Pai, brada, meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!”

Oh! Quão grande era a chama de amor que abrasava o coração deste doce Redentor, pois que no mais
forte das suas dores, e no tempo em que a veemência dos seus tormentos lhe tirava o poder de orar
por si mesmo, a força do seu amor para com os homens faz que ore por seus inimigos e exclame com
uma voz forte: Pater dimitte illis: “Meu Pai, perdoai-lhes!”. Assim, para nos mostrar que o amor que
nos tinha era tão ardente que não podia ser diminuído por sorte alguma de penas ou tormentos, e para
nos ensinar também quão dispostos havemos de estar a perdoar ao nosso próximo. (São Francisco de
Sales, sermão de Sexta-feira Santa)

Ó meu Jesus! Como sois rico de misericordiosas! E qual é o pecador que depois de um tão belo
exemplo de clemência, desespere do perdão dos seus pecados? Ó minha alma! Confiança, e não te
deixes abater pela multidão de tuas iniquidades. És agitada por mil e mil diferentes paixões, és
atormentada por mil e mil tentações; não importa: confiança! Ainda tens um refugio segui o nas
chagas de Jesus; corre a refugiar-te nelas porque são penhores do seu amor para contigo. Que
direitos não tens a esperar do teu Salvador, tu que agora choras os teus pecados, quando sabes que
ele perdoa aos que o crucificaram e que orou por eles com tanta bondade?

Mas se por ele mais prontamente queres ser ouvida, se mais seguramente queres obter o favor de
Jesus; se queres gozar o seu amor, perdoa como ele, e tão sinceramente como ele, ao teu irmão,
quando te ofender. Perdoa-lhe faltas pequenas, para que Deus te perdoe as grandes. Pede pela sua
salvação, como pedes pela tua, e tornar-te-ás digno de Jesus que te ordenou que amasses os teus
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inimigos, e orasses por eles. Ah! qual não será a tua confiança ao sair desta vida, se poderes ter a
consoladora consciência de que sempre suportaste pacientemente as injurias, as afrontas e os
desprezos, e que sempre os perdoaste?

Senhor Jesus, vós que dissestes: “Perdoai e ser-vos-á perdoado”, dignai-vos perdoar-me todas
as ofensas de que me tornei culpável para convosco, porque perdoo de todo o meu coração a
quem me causou penas. Sim, perdoo-lhe, como vos peço que me perdoeis, e estou pronto a
fazer-lhes todo o bem possível, se achar ocasião. Em compensação, ó meu Salvador! Dai-me o
vosso amor. Oh! Com vosso amor, nada mais me faltará que a vista da vossa gloria no céu, com
vosso amor não temerei as injurias nem as afrontas, nem os desprezos, nem as contradições
deste mundo: com vosso amor os trabalhos, as cruzes, as humilhações, tudo se me tornará doce e
agradável; com vosso amor, ó meu Jesus! A pobreza se converterá em riquezas, as lágrimas em
alegria, as tribulações em paz, as privações em gozos; com vosso amor, a vida mais crucificada
para mim só terá delicias, a mesma morte perderá todos os seus horrores. Ó divino Jesus! Feliz,
mil vezes feliz o homem que vos ama! Possa eu mesmo amar-vos sempre, sempre, sempre! Ó
Maria! Obtende-me esta graça. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
O Perdão das Injúrias

“Não se ponha o sol sobre a vossa cólera”, diz o Apóstolo, mas perdoa sem demora a quem te
ofendeu, se queres que Deus te perdoe. Não conserves aversão contra o teu próximo, meu caro
Teótimo, qualquer que seja o mal que te haja feito; pelo contrario, a exemplo de Jesus Cristo, perdoa-
lhe de todo o teu coração e ora por ele. Abafa ao nascer todo o desejo de vingança, se não estás
exposto à cometer muitas faltas.

— Mas vais tu talvez dizer-me, não perdoo com tanta pressa ao meu inimigo; traiu-me; insultou- me;
desonrou-me; fez-me todo o mal possível; devo vingar-me.

— Queres vingar-te? pois bem! anda comigo aos pés da cruz, levanta os olhos a Jesus crucificado,
escuta as palavras que pronuncia: “Meu Pai, perdoai-lhes”, e ousas depois disto dizer:

“Eu não perdoarei, quero regalar-me em me vingar! — Se fosse um outro, de boa vontade lhe
perdoaria; mas é um miserável que não merece a minha amizade”

— E tudo, meu caro Teótimo, permite-me que t’o pergunte, mereces a de Jesus Cristo, depois de
tantos pecados que cometeste? — Então estou obrigado a amar uma pessoa que me não ama e me
persegue?

— Sim, estás obrigado:

“Amai os vossos inimigos, diz o nosso bom Mestre, fazei bem aos que vos aborrecem, e orai
pelos que vos perseguem e caluniam: porque, se amais só aos que vos amam, que recompensa
tereis? Não fazem outro tanto os publicanos?”
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— Pois sim, desta vez perdoo ao meu inimigo, mas que não volte segunda.

— Meu caro Teótimo, não é uma vez que deves perdoar, mas “setenta vezes sete vezes, diz Jesus
Cristo, isto é, sempre”. Continuamente estás a carecer da misericórdia de Deus; deves portanto
exercê-la tu também, e exerce-la para com todos.

— Perdoar perdoo eu, mas tenho boa memória; nunca poderei esquecer o mal que me fez.

— Queres com isso dizer que também tu não queres que Deus se esqueça dos teus pecados, porque
ele tratar-te-á como houveres tratado o teu próximo.

— Perdoo-lhe, mas não o quero ver.

— Ah! que dizes, Teótimo? não queres ver o teu inimigo, afastas os olhos quando o encontras!
Depois disto, ousas ainda pedir ao Senhor que lance sobre ti olhos de misericórdia! Responde.

— Não lhe quero mal.

— Isto não basta: é preciso querer-lhe bem, ama-lo como a ti mesmo, afligires-te quando o vires em
pena; impedi-lo de cair, etc. (Vid. os pensamentos do P. Humbert). Arranca desapiedadamente do teu
coração o menor azedume contra o próximo, e ora com mais fervor pelos que poderiam ser-te objeto
de penas; perdoa-lhes, a exemplo de Jesus Cristo, e escusa-os, porque as mais das vezes obram sem
a intenção de te molestar. Se perdoares sempre, poderás dizer então a Deus com segurança, e sem
temer uma repulsa:

“Meu Pai, perdoai-me as minhas ofensas, como perdoei aos que me ofenderam”

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Capítulo XXXI
O bom ladrão
Domine, memento mei, com veneris in regnum tuum
“Senhor, lembrai-vos de mim quando entrardes no vosso reino”
(Lc 23, 42)

Esta foi a oração do bom ladrão, que por sua fé e confiança mereceu de Jesus esta resposta:

“Hoje estarás comigo no paraíso”

Pedira apenas uma simples recordação, e Jesus promete-lhe o seu reino: tão liberal é o nosso bom
Mestre! Tão disposto está sempre a dar muito mais do que se lhe pede!

Mas quem não se assombrará sobre a profundeza dos conselhos de Deus? No momento em que o bom
ladrão dizia a Jesus: “Senhor, lembrai-vos de mim quando estiverdes no vosso reino”, estava este
divino Salvador num estado de aflição e humilhação sem exemplo. Seus discipulos haviam-no
abandonado, um deles o trairá e vendera, renegara-o outro três vezes, os judeus vomitavam contra ele
blasfêmias, expunham-no à irrisão os gentios, quase ninguém acreditava nele. E é neste momento em
que Jesus perdia todo o credito para com a maior parte dos que o conheceram, que este bom ladrão,
interiormente iluminado da divina graça, o reconhece por seu Rei e seu Deus… Os discípulos de
Jesus tinham tanto tempo conversado com ele; ouvido a sua admirável doutrina, tinham um perfeito
conhecimento de sua vida, dos seus milagres; e sua fé foi, todavia, terrivelmente abalada, quando o
viram pregado na cruz.

Ao contrario, o bom ladrão não ouvia a voz de Jesus, senão quando orou por seus algozes; não
conhecia a sua doutrina nem os seus milagres, e eis que sobrepuja em constância aos apóstolos e faz
uma publica profissão de fé… Que objeto para sérias meditações! Oh! como este exemplo nos deve
ensinar que o menor dos homens é potente com a graça, e sem ela é mais fraco o maior dentre eles!
O’ meu Jesus! Permiti-me que vos diga como o bom ladrão:

“Lembrai-vos de mim quando estiverdes no vosso reino”

Recordai-vos que sou uma dessas pobres ovelhas desgarradas pelas quais jejuastes, orastes, suastes,
passastes toda a vossa vida nos trabalhos, pelas quais neste momento morreis. Lembrai-vos que “sou
obra das vossas mãos e que gravastes sobre a minha fronte a luz do vosso rosto”. Lembrai-vos de
mim, ó bom Jesus! não desprezeis a minha oração, e concedei-me a vosso amor com o perdão dos
meus pecados.

— Meu filho, ouvirei a tua oração, como ouvi a do bom ladrão, se, como ele, te puseres sobre a cruz.
Só pela cruz se pode ir ao céu; a esta grande recompensa dos eleitos só chega quem antes tiver
suportado grandes trabalhos. Sim, repito-o, não se pode ir ao céu, senão pela cruz. Toma, pois, essa
cruz, e leva-a com coragem, humildade e amor.

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“Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso”

Oh! Doce palavra que acaba de sair da boca de Jesus! Feliz ladrão! O teu coração deveu
experimentar uma consolação inefável; devestes ver chegar a morte com grande tranquilidade!
Morre-se em paz quando Jesus faz uma tal promessa.

Meu Deus, que confiança em vossa misericórdia me inspira o pensamento da bem-aventurada


morte do bom ladrão! Não que eu por isso pretenda pecar com mais segurança, ou retardar o
momento da minha inteira conversão; certamente, que não: longe de mim tal presunção. Mas este
pensamento faz com que me diga a mim mesmo: Pois que Deus perdoou com tanta bondade a
este ladrão sobre a cruz, e lhe prometeu o paraíso, para que temer eu, pobre pecador? Ó meu
Jesus! A vista dos meus pecados me aflige, e confesso-vos que sua multidão me lançaria no
desespero, se não conhecera a grandeza das vossas misericórdias, e não tivera diante dos olhos
tantos exemplos de pecadores arrependidos que vós recebestes com bondade. Maria Madalena
vai lançar-se a vossos pés, que ela com suas lágrimas banha, e imediatamente lhe perdoais
todos os pecados. Três vezes vos nega Pedro; mas Pedro chora a sua falta, e num instante lhe
restituis a vossa graça. Apresentam-vos uma mulher adultera, e vós não quereis condena lá; mas
a despedis com doçura recomendando-lhe que não peque mais. O1 meu dulcíssimo Jesus! minha
misericórdia, meu refugio, meu protetor, meu amor, minha vida, meu tudo, tende piedade de
mim, porque sou um grande pecador. Lembrai-vos de mim agora que estais no vosso reino, e
não me abandoneis na hora da morte. Quando me começarem a desfalecer as força, a voz a
extinguir-se, quando os olhos se obscurecerem e os ouvidos já não poderem ouvir, nesse
momento terrível, de onde depende a minha eternidade, ó misericordioso Jesus! Vinde em meu
socorro. Ó Jesus! Ó doce Jesus! Abandono-vos o cuidado dos meus últimos momentos. Assim
seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Confiança sem limites na Misericórdia de Deus

Feliz, mil vezes feliz a alma que sem cessar medita no amor de Deus por nós, e sobre a grandeza das
suas misericórdias! Ó! Meu caro Teótimo, que alta ideia te quisera eu dar da ternura, da bondade,, da
clemencia do nosso Deus! que confiança na misericórdia de Jesus, nosso doce Salvador, desejava
inspirar-te! ai! não padece duvida que o que impede muitas almas de fazer grandes progressos no
amor de Jesus, é um temor servil que nutrem dentro de si mesmas, e que lhes faz ver no melhor amigo
um senhor rigoroso prestes sempre a se irar. Não, não, Jesus não é um senhor rígido: é um pai terno e
compassivo; é “cheio de clemencia e compaixão; é tardio em castigar, é pródigo de misericórdias;
é bom para todos, e a sua comiseração repousa sobre todas as suas obras”. Dá-te, meu caro
Teótimo, a fazer nascer e nutrir em tua alma uma confiança sem limites na misericórdia de nosso
Senhor, e persuade-te bem que darás uma alegria sensível a este bom e terno amigo, abandonando-te
sem reserva ao seu amor.

— Temo, dirás tu, por causa dos meus pecados passados. Deves chora-los incessantemente, verdade
é; mas, uma vez que os confessaste e detestaste, para que fazer a Jesus a injuria de crer que ele não te
os perdoou? Faze melhor; lança-te em seus braços, como um filho se lança nos braços de sua mãe, e
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dize-lhe:

“Meu bom Mestre, amo-vos, e tenho confiança em vossa misericórdia…”

Meu Deus! Quantas almas fieis que se atormentam com vãos escrúpulos por suas confissões,
comunhões, exercícios de piedade, que vulneram o coração de nosso Senhor, por contínuas
desconfianças, não avançariam muito mais e mais seguramente por um só ato de confiança em Deus?
Ó meu Jesus! Quero ter sempre confiança em vós, até no meio das maiores desolações interiores,
porque sei quanto me amais, e que desejais a minha salvação mais do que eu mesmo, Sim, ó bom
Jesus! Em vós quero ter confiança, aconteça o que acontecer; em vosso coração me lanço, nele quero
exalar o meu ultimo suspiro; nele nada temerei. Esta deve ser a tua oração em todas as
circunstâncias, particularmente no tempo dos desgostos, das securas e tentações.

ORAÇÃO A MARIA
Para lhe pedir nos obtenha a Graça de uma Boa Morte

Ó dulcíssima Maria! qual será a minha morte, miserável pecador! Quando penso neste terrível
momento em que deverei apresentar-me no tribunal de Deus, e me lembro de tantas vezes por
minhas iniquidades ter escrito a sentença da minha condenação, tremo, abismo-me, desespero da
minha eterna salvação. Ó Maria! É no sangue de Jesus Cristo e na vossa intercessão que ponho a
minha esperança. Sois a Rainha do céu, a Soberana do universo, e, para dizer tudo, a Mãe de
Deus! sois mui grande, mas em vez de vos apartar de nossas misérias, essa grandeza vos faz
aproximar e compadecer-vos delas. Os amigos mundanos, quando se veem elevados a alguma
dignidade, fogem e desprezam os seus antigos amigos deixados no infortúnio; não é assim o
vosso nobre e terno coração; quanto maiores são as misérias, mais se aplica a alivia-las.
Apenas vos invocam, correis; prevenis as nossas orações por vossos favores; consolais-nos nas
aflições, dissipais as tempestades, desbaratais os nossos inimigos; em uma palavra, não
desprezais ocasião alguma de procurar a nossa felicidade. Bendita seja para sempre a mão de
Deus que em vós reuniu tanta majestade e ternura, tanta grandeza e amor! Eternamente renderei
graças ao Senhor; em mim me regozijo, porque na vossa felicidade acho a minha, e associo
minha sorte à vossa. Ó consoladora dos aflitos! Consolai o aflito que vos implora. Sinto-me
comprimido dos remorsos da minha consciência carregada de tantos pecados; não sei se os
choro como devo; todas as minhas obras me parecem imundas e imperfeitas; o inferno espera a
minha morte para se constituir meu acusador; a divina justiça ofendida quer ser satisfeita. Ó
minha Mãe! Que seria de mim? Dizei-me, dignar-vos-eis socorrer-me? Ó Virgem compassiva!
Consolai-me; obtende-me a força de me corrigir e ser fiei a Deus durante o resto da minha vida.
E quando me achar nas agonias da morte, ó Maria, minha esperança! Não me abandoneis;
assisti-me, fortificai-me para não cair no desespero á vista das minhas faltas que o demônio não
deixa de me opor. Ó minha soberana! perdoai a minha ousadia: vinde vós mesma consolar-me
com a vossa presença. Esta graça que a tantos outros fizestes, a peço também para mim. Se é
grande a minha temeridade, maior é a vossa bondade que vai procurar os mais miseráveis para
os consolar; é o motivo da minha confiança. Constituirá a vossa gloria eterna em haver salvado
um desgraçado condenado, e tê-lo conduzido para o vosso reino, onde espero achar-me um dia a
vossos pés, para vos agradecer, bendizer e amar eternamente. Ó Maria, espero por vós; não me
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deixeis sem consolação. Fiat, fiat. Assim seja. (1)

Observações:
(1) Santo Afonso de Ligório, Glorias de Maria. Tomo I.

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Capítulo XXXII
Jesus, antes de morrer, dá-nos Maria por Mãe
Cum vidisset Jesus matrem et discipullum statem quem diligebat: dicimatri sua: Mulier, ecce
filius tuus; deinde dicit discipulo: Ecce mater tua
“Tendo Jesus visto a sua Mãe, e ao pé dela o discípulo que amava, disse a sua Mãe: ‘Mulher,
eis ai o teu filho’; disse depois ao discípulo: ‘Eis ai a tua Mãe'”
(Lc 19, 26. 27)

Chegava o momento em que Jesus resolvera dar o ultimo suspiro: este divino Salvador ia dar por nós
as sua vida. Já nos havia legado as suas instruções, os seus exemplos, os seus méritos; já se
entregava a nós para ser o alimento das nossas almas; nada mais faltava, ao que parece, e Jesus podia
expirar com a convicção de que por nós esgotara todos os tesouros da sua ternura. Mas o amante
coração deste bom Mestre compreende que nos não deixará ainda sem mãe. Ó doce Jesus! Vós
sabíeis, vós, tão doce e tão terno, sabíeis o que é uma mãe; sabíeis o quanto é doce repousar sobre
ela o cuidado de quanto nos diz respeito; sabíeis que precioso tesouro é uma terna mãe, e quisestes
deixar-nos uma. Eis como se passou: a santa Virgem e São João estavam ao pé da cruz: nosso Senhor
lançou os olhos sobre eles e diz a sua santa Mãe: “Mulher, eis ai o teu filho”; diz depois a São João:
“Eis ai a tua Mãe”. Ora não é somente a São João que dirigiu estas palavras: é a todos os cristãos, é
a vós que ledes estas linhas, a mim que as escrevo, que são dirigidas estas palavras, e que nos diz
apresentando- nos Maria:

“Eis ai a vossa Mãe”

Que dita para nós termos tal mãe!

“Maria é Mãe de Deus; Maria é ao mesmo tempo minha Mãe”, de mim, pobre pecador. Oh! Que
confiança! Não devo ter nela! ela é onipotente junto a seu Filho; uma só de suas orações é, de alguma
sorte, Uma ordem para Jesus, que não lhe recusa nada. Ela é minha Mãe! Ama-me, quer a minha
salvação! Oh! Torno a repetir, que confiança não devo depositar nela.

“Maria é a nossa Mãe! Maria é a nossa Mãe!”

Repitamos incessantemente estas tão doces, tão consoladoras palavras:

“Maria é nossa Mãe!”

Que felicidade para os que vivem sob a proteção de uma mãe tão terna e tão poderosa! Quem ousará
vir arrancar do seio de Maria os filhos que nele procuram um asilo contra o furor dos seus inimigos?
Que paixão, que tentação tão furiosa os poderá vencer, se na proteção de uma tal mãe põe a sua
confiança?

Ó mãe amabilíssima! Mãe compassiva, sejais sempre bendita; igualmente seja bendito Deus que a
vós nos deu por mãe! A santa Virgem revelou a Santa Brigida que, assim como uma mãe, se visse o
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seu filho prestes a ser vitima de um ferro inimigo, exporia a sua vida para o salvar; assim, disse ela,
obro e sempre obrarei para com os meus filhos, bem que pecadores, todas as vezes que recorrem à
minha misericórdia. Assim, não duvidemos, em todos os combates com o inferno, sempre sairemos
vencedores, se recorrermos a Maria, nossa Mãe, dizendo-lhe do fundo do coração com a Igreja: Sub
tuim præsidium confugimus, sancta Dei Genitrix. Oh! Quantas vitórias não têm sido ganhas sobre o
inferno, por meio desta curta mas eficaz suplica! Uma grande serva de Deus, sóror Maria do
Crucifixo, beneditina, não recitava outra para por em fugida o demônio.

Regozijai-vos, pois, ó vós que sois filhos de Maria: sabeis que ela aceita por seus filhos todos os
que querem sê-lo. Regozijai-vos, e enchei-vos de confiança; quem ama a doce Maria, e confia em sua
proteção, deve reanimar-se e dizer:

“Que temes, ó minha alma? O processo de tua eterna salvação não pode deixar de ter um feliz
resultado, a sentença está nas mãos de Jesus teu irmão, e de Maria tua mãe”

Este pensamento oferecendo-se ao espírito de Santo Anselmo, o fazia exultar de alegria:

“Ó feliz confiança”, exclamava, “ó refúgio seguro! A mãe de Deus é minha mãe! Com que
certeza não devemos esperar, pois que a salvação depende do melhor dos irmãos e da mais
terna das mães!”

Os pequeninos têm sempre a boca na mãe; ao menor perigo que o£ ameaça, ao mais leve susto,
levantam logo a voz; e gritam:

“Minha mãe! Minha mãe!”

Ai! Doce e terna Maria! É o que vós quereis também de nós; quereis que como meninos, vos
chamemos sempre nos perigos, sempre recorramos a vós. É isso, pois, ó! Que doravante proponho
fazer; vinde em meu socorro.

Maria é a nossa luz, o nosso facho, a nossa estrela, a nossa guia no tempestuoso mar deste mundo.

“Ó homem, exclama São Bernardo, queres escapar a um triste naufrágio? Volta os olhos a
Maria, fixa a vista nesta estrela benéfica, invoca a Maria em todos os perigos, em todos os
revezes; nas mais criticas circunstâncias da vida, pensa em Maria, invoca a Maria. Em tua boca
esteja sempre o seu nome, nunca saia do teu coração. Seguindo-a não te perderás; suplicando-a,
não cairás no desespero. Se te sustem, não cairás; se te protege, nada tens a temer; se te é
favorável, chegarás ao porto da salvação”

Ó doce Maria! Minha terna mãe, quero sempre recorrer a vós, sempre amar-vos, sempre invocar o
vosso santo nome. Ah! Minha boa mãe! Minha amável senhora! para gloria do vosso nome, vinde ao
encontro da minha alma quando sair deste mundo, e dignai-vos recebe-la em vossos braços. Vinde
consola-la então com a vossa doce presença; sede para ela a escada e o caminho do paraíso.
Obtende-me a graça do perdão e da felicidade eterna.

“Maria é nossa mãe!”


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Meu Deus! Que encantos tem este nome de Mãe! Como é doce! Quanto tocante! Basta prenunciá-lo
para o coração se dilatar. Oh! Sim, Maria é nossa mãe, gerou-nos a todos sobre o Calvário ao pé da
cruz, quando, na amargura do seu coração, ofereceu ao Padre eterno a vida do seu bem amado Filho,
para a nossa Salvação; sim, ela é nossa mãe, não pela carne, mas pelo amor que nos tem. E que mãe
ama os seus olhos como Maria nos ama? Quem poderia explicar a veemência da sua ternura para
conosco, pobres miseráveis? O amor que aos seus filhos todas as mães tem não passa de uma sombra
à vista do que tem Maria a um só de nós. Ela só ama-nos mais do que todos os anjos e santos juntos,
e isto apesar dos nossos pecados e frouxidões em seu serviço. Nem os maiores pecadores são
excluídos do seu amor; está sempre pronta a socorrê-los. Visto como Maria nos ama com uma tão
viva ternura, ficaremos insensíveis ao seu amor? Não, certamente; longe, longe de nós a ingratidão!

“Amor pois a Maria, amor à nossa mãe, mas amor imortal!”

“Amor para sempre! porque sempre somos miseráveis e Maria sempre compassiva”

“Amor para sempre! porque sempre somos fracos, sempre expostos aos assaltos do inferno e do
mundo, e Maria sempre forte por Aquele que venceu o inferno e o mundo, sempre o nosso
sustentáculo”

“Amor para sempre! porque Maria será sempre amável, e apesar da nossa indignidade, nunca
ces¬sará de nos cingir da sua maternal solicitude”

“Façamos melhor ainda; afim que Maria nos abrase de um verdadeiro e ardente amor de Jesus,
todos à porfia confiemos à sua ternura a guarda dos nossos corações; e, confiando que esta mãe
incomparável os adornará como convém para o amor do celeste Esposo, cada um de nós se
tenha por feliz de poder dizer na vida e na morte:

‘O meu coração não é meu, o meu coração é de Maria’


— (Mês de Maria, pelo snr. Abbade Guillou)”

Ó Jesus! Ó melhor de todos os meus amigos! Que poderei fazer para dignamente vos agradecer
a bondade com que quisestes dar-nos Maria por Mãe? E vós, ó Maria! como reconhecerei tantos
distintivos da ternura que me heis prodigalizado? Ah! amar-vos-ei a um e outro de todo o meu
coração. Mas ai! Que é o amor de uma pobre e misera criatura tal como eu? É digno de se vos
apresentar? Não, Sem duvida; todavia, ó Jesus e Maria! cheio de confiança em vossa
compassiva misericórdia, que a ninguém rejeita, amar-vos-ei de todo o meu coração. Sim, sim,
amar-vos-ei, ó Jesus! fazei descer o vosso amor à minha alma, inebriai-a desse amor puro;
concedei-me a graça de não sair desta vida senão quando houver feito de vós o meu único
desejo e for-me impossível amar outra coisa fora de vós. Fazei até, ó Deus meu! que esta
palavra “amar”, não a pronuncie a minha boca senão para vós só, pois que exceto vós, tudo
fenece, perece tudo, é tudo um nada. Ah! Puríssima Maria, doce Maria! fazei que doravante o
vosso nome seja a alma da minha vida. Apressai-vos a me socorrer todas as vezes que vos
invocar. Ó Jesus! Ó Maria! Meus amores! Vivam sempre os vossos doces nomes em mim e em
todos os corações. Ah! Eu vos suplico, quando me achar no artigo de morte, no momento em que
minha alma tiver de sair desta vida, concedei-me por vossos méritos a graça de consagrar os
meus últimos acentos a repetir:
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“Eu vos amo, Jesus e Maria! Jesus e Maria, dou-vos o meu coração e a minha alma”
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Devoções a Maria

A devoção a Maria, meu caro Teótimo, é a devoção dos santos. Como todos os livros dela faliam,
contentar-me-ei com te indicar as práticas de devoção para esta boa Mãe, que são as mais simples e
úteis.

1. O Rosário

Sê-lhe fiel, não se passe um só dia sem dizeres, pelo menos, duas dezenas. Quando te deitares, passa
as contas em volta do pescoço e pede a Maria que te tome sobe sua proteção.

2. A Ave-Maria

Todos os dias, de manhã e à noite dize de joelhos três Ave-Marias; juntando a cada uma: Por vossa
pura e Imaculada Conceição, ó Maria, purificai o meu corpo e santificai a minha alma. Pede em
seguida a Maria a sua bênção maternal, e coloca-te debaixo de sua especial proteção no dia ou na
noite que segue. Quando ouvires soar horas, ao sair ou entrar em casa, antes ou depois de cada uma
de tuas ações, recita a Ave-Maria. Ao despertar de manhã, ao fechar os olhos para dormir, a cada
tentação, em cada perigo, em qualquer movimento de impaciência, etc., dize a Ave-Maria. Meu caro
Teótimo, pratica esta devoção e verás que utilidade tirarás.

3. O Angelus

Faze por nunca te escapar o recita-lo de manhã, ao meio dia e à noite, ao toque do sino; não permitas
que o respeito humano te o impeça. Mas, basta recita-lo uma só vez no dia para ganhar a indulgência
plenária no fim do mês.

4. As Novenas

A mais agradável devoção à Santa Virgem é a imitação das suas virtudes. Propõe-te pois em cada
novena imitar uma de suas virtudes, a mais adaptada ao mistério. Assim na festa da Conceição, a
pureza de intenção; na da, Natividade, o renovamento do espírito, expelindo a tibieza; na
Apresentação, o desprendimento da coisa a que estás mais apegado; na Anunciação, a humildade e
amor do desprezo; na Visitação, a caridade para com o próximo, dando esmolas ou ao menos orando
pelos pecadores; na Purificação, a obediência aos superiores; na Assunção, o desapego e a
preparação para a morte, procurando viver como se cada dia fora o ultimo da tua vida. Deste modo
produzirão em ti as novenas grandes resultados e felizes frutos de santidade.
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5. O Jejum

Todos os sábados jejua em honra de Maria, se te o permite o confessor; senão faze algum ato de
mortificação.

6. O Escapulário

Traze com respeito o escapulário ou a medalha da Imaculada Conceição.

7. Recorra à Maria

Toma o habito de recorrer a miúdo à Santa Virgem, e pronunciar com amor o seu santo nome.

“Jesus e Maria! Jesus e Maria!”

Tanto poder têm estas palavras que põem em fugida o inferno logo que se pronunciam com fé e
confiança (1).

Convém notar, meu caro Teótimo, que as praticas que te propus não são preceitos que te obriguem
debaixo de pecado; são simples conselhos que te dou para que mais facilmente possas honrar a
Maria e merecer por este meio a sua santa proteção. Tão pouco te digo que te sobrecarregues de
todas estas práticas de devoção; contento-me com t’as pôr diante dos olhos; a ti compete com
prudência escolher as que mais úteis te forem. Mas uma coisa te recomendo e é que te faças
inscrever em alguma congregação ou confraria de Santa Virgem, e cumprir exatamente todos os seus
exercícios. Por isso obterás muitas graças preciosas, muitos pecados evitarás; pois, no sentir de
Santo Afonso de Ligório, há, regularmente falando, mais pecados numa pessoa que não segue os
exercícios duma congregação, do que em vinte que a frequentam. Recomendo-te também a devoção
do Rosário Vivo, porque produz abundantes frutos de salvação por toda a parte onde se estabelece.

Meu caro Teótimo, ama a Maria, ama-a sempre como um menino ama a sua mãe; não te poupes a
nada para lhe ser agradável; tem sempre confiança em sua bondade e misericórdia, que ela te obterá
o perdão dos teus pecados. Ama a Maria, que ela te porá ao abrigo de todos os perigos que nesta
terra de exílio corres. Ama a Maria, e ela pedirá para ti a seu Filho todas as graças de que tens
necessidade. Ama a Maria, e no momento da tua morte ela te virá consolar nas tuas penas e sustentar-
te contra os perigosos assaltos dos inimigos da tua salvação. Ama a Maria, e ela um dia te abrirá as
portas do céu.

ORAÇÃO A MARIA, NOSSA MÃE


Ó Maria! Mãe Santíssima! Como é possível que tendo uma mãe tão santa, seja tão perverso?
Tendo uma mãe sempre abrasada do amor de Deus, ame só as criaturas? Tendo uma mãe tão rica
de virtudes seja tão pobre? Ó minha amabilíssima Mãe! É verdade que não mereço ser vosso
filho; indigno me tornou de tal prerrogativa o meu mau procedimento. Só vos peço a graça de
me aceitardes por servo vosso; e para ser admitido no numero dos mais vis que vós tendes,
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pronto estou a renunciar a todos os reinos da terra. Com ser servo vosso me contento; mas não
me proibais o poder chamar-vos minha Mãe. Este nome me consola, me enternece, me lembra a
obrigação que tenho de vos amar; este nome me anima a pôr confiança em vós. Quando mais me
espantam os meus pecados e justiça divina, fortifica-me o pensamento de que sois a minha Mãe.
Permiti-me que vos diga: ó minha Mãe! ó minha dulcíssima Mãe! É assim que vos chamo, assim
é que sempre vos chamarei. Depois de Deus, sois vós a minha esperança, o meu refugio, o meu
amor neste vale de lágrimas. Espero, pois, morrer entregando, nesse supremo momento, minha
alma nas vossas mãos, dizendo-vos: Minha Mãe, ó Maria! minha boa Mãe! vinde em meu
socorro; tende compaixão de mim. Amo-vos, ó minha Mãe! e quisera possuir um coração que
vos amasse por todos os desgraçados que não vos amam. Se riquezas tivera, todas,
empregaria em vos honrar; se vassalos, todos faria servos de Maria; por vós, por vossa gloria,
sacrificaria enfim minha vida, se necessário fora. Amo-vos pois, ó minha Mãe! mas temo ao
mesmo tempo não vos amar, pois ouço dizer que o amor faz o amante semelhante à pessoa
amada. Ver-me pois tão pouco semelhante a vós, é sinal bem evidente de que vos não amo; vós
tão pura, eu tão manchado! Vós tão humilde, eu tão soberbo! Vós tão santa, eu tão pecador! Mas
a vós toca, ó Maria, dar remédio a isto! Se é que me amais, tornai-me semelhante a vós. Tendes
o poder de mudar os corações, tomai o meu, e guardai-o. Fazei ver ao mundo o quanto podeis a
favor dos que vos amam, tornai-me santo; tornai-me digno do vosso Filho. Assim seja. (2)

Observações:
(1) Vede a obra de Santo Afonso de Ligório intitulada As Glorias de Maria; nela depararás um
grande numero de outras práticas de devoção em honra da Santa Virgem.
(2) Santo Afonso de Ligório, Glorias de Maria.

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Capítulo XXXIII
Jesus é desamparado de Deus seu Pai
Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me?
“Deus meu, Deus meu, porque me abandonastes?”
(Mc 15, 34)

Profundas trevas cobriam milagrosamente a face da terra; toda a natureza, à vista do seu Deus
moribundo, estava na consternação e pasmo… E Jesus há três horas guardava um profundo silencio.
De súbito exclama com uma voz forte:

“Deus meu! Deus meu! Porque me desamparastes?…”

Ó meu Jesus! Que cruéis não deviam ser as vossas dores, que de alguma sorte vos forçaram a vós,
tão doce, tão resignado, tão paciente, vos lastimardes ao vosso Pai!

— Meu filho, nestas palavras não é uma queixa que proferi, é uma lição que te dei. Quis deixar-te
entender quanto padeci, para adquirir o teu amor, e para te merecer a graça de vires um dia reinar
comigo no céu. Excessivas eram as dores que em meu coração sofria, nem um movimento na cruz
podia fazer que elas se não me aumentassem desmesuradamente; mas todas essas dores que eram em
comparação das de que minha alma estava repleta? Ai! Via-me abandonado dos meus discípulos,
coberto injurias por minhas próprias criaturas, saciado de opróbrios por esses mesmos que
acumulara de bens; divisava através dos séculos tantos cristãos que calcariam aos pés os méritos da
minha paixão; tu mesmo, filho meu, tu também estavas presente ao meu espírito. Ah! Se tu souberas
quantas lágrimas me fizestes então derramar destes olhos! Se souberas quantos suspiros me
arrancaste de coração! Eu estava-te a ver cometer tal e tal pecado; via-te resistindo ás aspirações da
minha ternura, prostituindo ao amor das criaturas esse coração que eu te dera para mim, esse coração
cuja posse tão caro comprara, via-te viver longe de mim, sem pensar em mim, e precipitares-te nos
eternos abismos do inferno; via-te, e chorei! via-te, e os meus sofrimentos se dobraram!

— Ó meu Jesus, não poder eu apagar do numero dos dias da minha vida os que passei a ofender-vos
de um modo tão indigno! Ai! Meu Deus! Isto é impossível; será sempre verdade o dizer-se que me
revoltei audaciosamente contra vós; sempre será verdade dizer-se que contribui em grande parte para
os sofrimentos da vossa paixão, e que mereci o inferno! Ainda assim, ó meu Salvador! Tenho
confiança em vossa misericórdia, à qual de há muito me abandonei. Espero que me perdoastes esses
pecados que de todo o meu coração detesto; espero que tantos tormentos por mim sofridos não serão
perdidos por mim.

— Meu filho, ainda não contei até ao fim tudo o que por teu amor sofri. Como tinha resolvido esgotar
até à fez o cálice da amargura, consenti num tormento que pôs o cumulo a todos os outros. Meu Pai
celeste abandonou-me… Ah! Meu caro filho! Sofrer as mais cruciantes dores, é nada em certo modo,
quando o céu sustem a fraqueza por consolações interiores, mas sofrer, e sofrer sem consolação, no
mais completo abandono é um martírio que não tem nome. Foi para te fazer conhecer este martírio, a
que me submeti, que exclamei:
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“Meu Deus! Meu Deus! porque me abandonastes?…”

Algumas vezes acontecerá que por sabias razões, eu te dê a experimentar uma ligeiríssima porção
das penas do meu abandono; nestes momentos, somente sentirás no meu serviço desgostos e securas,
imaginar-te-ás que tens tudo perdido, que estás condenado, que Deus te abandonou, e retirou a sua
mão. Então, meu filho, então é que te é preciso imitar o meu exemplo, e dizer ao Senhor com calma e
amor:

“Meu Deus! Meu Deus! Porque me abandonastes?”

Então é que te é necessário resignares-te humildemente a tudo o que aprouver a Deus dispor de ti.
Sabe que nunca avanças mais seguramente nem mais depressa no caminho da perfeição, que quando
crês tudo perdido; sabe que nunca estou tão perto de ti como quando tu me julgas muito longe; sabe
ainda que nunca me farás sacrifício mais agradável do que abandonando-te sem reserva, em tais
circunstâncias, à minha Providencia, renunciando a toda consolação sensível no meu serviço e não
querendo absolutamente senão o que eu quiser. Deixa ao meu amor o cuidado de te distribuir as
consolações e as cruzes, e conserva sempre em teu coração a lembrança da interior desolação em
que quis morrer por teu amor. Dela tirarás uma grande força para suportar as tuas penas, e poderás
dizer-me com uma resignação mais perfeita:

“Meu Deus, faça-se a vossa vontade e não a minha”

— Um tormento há, ó meu Jesus! Ao qual muitas vezes me custa muito a submeter-me; tormento cruel,
medonho, espantoso e capaz de me fazer morrer. Bem que nada ignorais de tudo quanto em meu
coração se passa, dir-vos-ei sempre qual a causa deste tormento: é o não saber se estou na vossa
graça, e não ter a certeza de estarem meus pecados perdoados, e se sou agradável aos vossos olhos.
O pensamento de poder um dia ser réprobo, de me ser necessário por toda uma eternidade detestar-
vos e aborrecer-vos a vós, meu Deus e meu tudo! o pensamento da minha condenação tem para mim
um não sei que de tão medonho que me sinto desfalecer quando se apresenta ao meu espírito e medito
seriamente. Ó meu bom Mestre! Meu terno pai! Perdoai o meu arrojo se vos dirijo uma tal súplica;
mas não poderíeis vós livrar-me desta ansiedade tão punível? Ser-me-ia tão doce estar certo que vos
amo e que me amais!

— O teu pedido é bem pouco sábio; não tardarás a convencer-te disso. Escuta. Uma dama romana
escreveu um dia a um dos meus ministros (1) a pedir-lhe que obtivesse para ela por meio de
revelação o mesmo favor que acabas de me pedir; como tu, queria ela estar segura do perdão dos
seus pecados. Mas vê a resposta que lhe deu o pontífice a quem ela se dirigiu:

“Pedis-me uma coisa difícil e inútil ao mesmo tempo; difícil porque sou indigno de ter
revelações; inútil porque nunca deveis estar sem inquietação de vossos pecados até ao fim da
vida, isto é, até ao tempo em que já não possais chorar. Sempre deveis tremer por sua causa,
deveis sem cessar expia-los por vossas lágrimas. Paulo tinha sido elevado até ao terceiro céu;
aprendera segredos que a boca do homem não pode revelar e contudo dizia tremendo: Castigo o
meu corpo e o reduzo à escravidão, com temor de que depois de ter pregado aos outros, não vá
eu mesmo ser réprobo. Paulo treme, e vós não quereis tremer! Não esqueça a minha dulcíssima
filha, que a segurança é a mãe da negligencia. Ser-vos-ia portanto prejudicial ter nesta vida uma
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segurança que vos fizesse negligenciar o cuidado de velar sobre vós; porque está escrito: Bem-
aventurado o homem que está sempre em temor; e noutra parte: Servi a Deus com um santo
temor. Assim é necessário que durante os poucos dias que nesta terra tendes de passar, nunca
vossa alma esteja isenta de temor”

Por essa resposta, vês tu, meu caro filho, quão útil te é o ficares nesta duvida e incerteza a respeito
do perdão de teu pecados. Se tivesses inteira segurança que eu estava contigo por minha graça, serias
muito menos solicito em me buscar, terias menos desejo de me agradar, evitarias, menos as ocasiões
de me ofender, e até acabarias talvez por abandonar o meu serviço. Sê pois daqui para diante
paciente e submisso à minha vontade, faze o bem, sê fiel a todos os teus de¬veres, e esperas; em
minhas mãos está a tua recompensa; eu não te a roubarei.

— Senhor, é preciso pois sofrer e viver convosco na cruz e nas tribulações? Pois bem! Consinto
por vosso amor. Justo é que eu sofra alguma coisa por vós que tanto sofrestes por mim. Não
mereço de modo algum que me consoleis e me visiteis; e com toda a justiça obrais comigo
quando me deixais pobre e desolado. A mim nada mais me é devido que a vara e o castigo,
porque tantas vezes então gravemente vos ofendi. (De Imit., lib. m, cap. LII, n. I). Feri, feri, ó
Deus meu! Em vossas mãos estou, e me inclino à vara que me corrige; porque mais vale ser
castigada neste mundo que no outro. Vós bem sabeis o que é útil ao meu adiantamento, e o
quanto serve a tribulação para consumir a ferrugem dos vícios. (De Imit., lib. m, cap. 4. n. 6).
Feri pois, Deus meu, se é vossa vontade, privai-me de toda a consolação neste mundo, mas não
permitais que tenha a desgraça de ser separado de vós. Não mais quero procurar viver no meio
dos meus gostos; abraço pelo contrario todas as penas e desolações que vos aprouver enviar-
me. Nenhuma consolação mereço eu, que tantas vezes, ofendendo-vos, mereci o inferno; basta-
me araar-vos-e viver na vossa graça. Abandonem-me muito embora todos os homens! consinto;
mas vós, ó meu Deus! eu vos suplico, não me abandoneis. Ai! Como poderia eu viver longe de
vós e sem vos amar? Amo-vos, ó Jesus meu! Morto por mim no abandono! Amo-vos, ó meu
único bem, minha única esperança, meu único amor! Amo-vos, e quero amar-vos tanto quanto é
possível a uma criatura amar-vos. Aceitai, ó meu Jesus! Este desejo do meu coração, e deferi-o.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Coragem na Desolação Interior

Examina, meu caro Teótimo, como te conduzes nas tuas penas interiores, e confronta o teu modo de
proceder com as lições que Jesus acaba de te dar, já por seu exemplo, já por suas palavras. Ora faze
justiça a ti mesmo: não é certo que quando te acontece seres privado das consolações divinas, tu para
logo abandonas os exercícios de piedade, ou antes cumpre-los sim, mas com negligencia e como por
demais? Quantas vezes te não tem acontecido seguires a Jesus Cristo só muito de longe e como a
custo, só porque não recebeste as consolações sensíveis que ele concede sobretudo aos que começam
a servi-lo afim de os ajudar e lhes dar animo? Humilha-te da tua frouxidão e toma a resolução de
servir doravante a Jesus de um modo invariável. No meio de tuas interiores desolações pensa neste
bom Salvador morrendo sobre a cruz no mais horrendo abandono, e este pensamento te alentará: sim,
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consolar-te-á, e tu até hás de experimentar alegria em poder unir os teus sofrimentos aos de Jesus.
Coragem, meu caro Teótimo! Serve a Deus nas securas, nos desgostos, nos abandonos, nos
desprezos, nos sofrimentos, nas humilhações; coragem! E levanta os olhos ao céu; lá te aguarda uma
coroa toda resplandecente de gloria! Coragem! todas essas penas passam já, as delicias do céu são
eternas! Coragem! Jesus conta todos os teus suspiros e nem um há de ficar sem recompensa.
Coragem! coragem! Ó meu Deus! Que feliz serás tu um dia quando vires que o tempo vai para ti a
terminar e que vais deixar esta terra de exílio! que feliz serás ao pensar que durante dez, vinte, trinta
anos, te acostumaste a ser fiel no serviço de Jesus, apesar das penas, das tribulações, das securas,
dos desgostos que experimentaste! Que feliz serás ao sentir que os teus trabalhos e combates vão
cessar, e que a hora da recompensa está enfim a bater! oh! que feliz serás! A morte para o mundano e
pecador tão aterradora, para ti será toda cheia de encantos, vê-la-ás aproximar-se sem pavor, sem
turbação, com resignação, paz e alegria, virá ferir-te com um certo respeito, e apresentar-te-á a Jesus
Cristo. Então este bom Mestre te receberá com bondade e te dirá:

“Meu filho, tu na terra trabalhaste muito por meu amor, e contudo sempre foste resignado,
sempre fiel ao meu serviço; vem, que eu quero abraçar-te e pôr sobre a tua cabeça uma coroa de
gloria; vem, o meu paraíso e todas as suas delicias são teus por toda a eternidade”!!!

Ó meu caro Teótimo! Que doce acolhimento será um dia o teu, será um dia o meu! sim, sim,
esperemo-lo da doce e infinita misericórdia do nosso Deus. Coragem pois, e sempre coragem!

Observações:
(1) Era São Gregório, o Grande, papa. A pessoa que lhe escrevia era Gregoria, dama d’honor da
imperatriz.

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Capítulo XXXIV
Da sede de Jesus sobre a Cruz
Sitio
“Tenho sede”
(Jo 19, 29)

Avizinhava-se o nosso divino Salvador do seu ultimo momento; breve estava a cumprir a obra da
nossa redenção, morrendo por nós na cruz, quando sentindo-se interiormente abrasado dos ardores de
uma sede violenta causados pelas dores extremas que sofria há vinte horas, exclamou:

“Tenho sede”

Pois como! Senhor, então a sede causa-vos mais dores que a cruz? Uma arranca-vos suspiros, da
outra nem sequer falais. Que sede pois é essa que tanto vos atormenta! Ah! Bem vos entendo; é o
ardente desejo que tendes da minha salvação, do meu adiantamento espiritual. Dizeis-me com todo o
afeto:

“Meu filho, tenho sede do teu amor; vem, vem aliviar-me”

Ó Jesus meu! E que resposta tenho eu dado até agora a este terno convite, a esta doce solicitação?
Ai! Imito os judeus que para vos apagar a sede tiveram a crueldade de vos apresentar fel e vinagre.
Em vez de amar-vos de todo o meu coração, sacio-vos talvez indignos prazeres. Pelo menos, ó meu
Deus! divido entre vós e a criatura um coração que vós quereis possuir todo, todo; recuso-vos os
leves sacrifícios que me pedis, passo uma vida cômoda e imortificada. Ó meu Deus! Perdão vos
peço do passado e vos conjuro a que me ajudeis para o futuro. Assim como o veado suspira pelas
fontes das aguas, assim a minha alma suspira por vós, ó meu Deus! A minha alma está ardendo de
sede de Deus, de Deus vivo: ah! quando irá ela aparecer diante dele! Ó meu Jesus! Ó fonte de vida!
Quando virá o momento em que ela possa extinguir a sede que a devora, e refrescar-se nas deliciosas
aguas da vossa sabedoria? Ó Deus, ó meu Deus, em vós estou vigilante desde o raiar da aurora; de
vós tem sede a minha alma, de quantas maneiras a minha carne se consome de vós, nesta terra inculta,
árida e deserta: ah! Quando lá no céu verei eu o vosso poder e a vossa gloria! Vossa misericórdia é
mais doce que a mesma vida; e assim meus lábios não cessarão de fazer ouvir os vossos louvores.
Em toda a minha vida vos bendirei: e invocando o vosso nome, elevarei as minhas mãos.

Como de banha e gordura seja de vossas bênçãos a minha alma repleta, e romperão meus lábios em
cânticos de jubilo. Ó meu Deus! De vós me lembrarei em meu leito, e em vossas maravilhas
meditarei à meia noite. Ah! É que a minha alma vai unida após de vós, e sem vós não pode viver.
Senhor Jesus, tenho sede; vós sois a fonte da vida, dignai-vos apagar-m’a. Tenho sede, tenho sede do
vosso amor; tenho uma paixão violenta de ver-vos e possuir-vos; quando me fareis a graça de saciar
os meus desejos? Ah! Quando virá esse belo dia em que vós me direis com uma voz cheia de ternura
e bondade: “Meu filho, entra na alegria do teu Senhor”, e toma posse do seu reino eterno; goza
agora duma felicidade incorruptível. Aqui não mais tristeza, não mais penas, não mais trabalhos; aqui
são enxugadas as lágrimas e satisfeitos plenamente os desejos…
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Ai! De vós, meu doce Jesus, quereis que eu ainda fique nesta terra de exílio, quereis que eu
mereça o eterno repouso por mortificações, cruzes, trabalhos contínuos. De muito boa vontade;
mas dignai-vos, ó Deus meu! Atender à minha súplica. Minha alma por vós suspira, de vós será
sequiosa, de vós enlanguesce: tende piedade dela. Só vós a podeis saciar; sim, meu Deus! Só
vós, só vós. Riquezas, honras, prazeres, mundanas satisfações, nada de tudo isto é capaz de
extinguir esta sede que a devora, só vós. Ah! Dai-me o vosso amor, que eu então ficarei
plenamente satisfeito. Ame-vos eu de todo o meu coração, de todas as minhas forças, mais que a
mim mesmo, que nada mais terei que desejar. Dai- me o vosso amor, ó meu Jesus! Eu vo-lo
suplico; mas dai-me um amor tão puro, tão vivo, tão ardente, que a minha maior felicidade, a
minha mais doce consolação neste mundo seja por vós trabalhar, por vós todo me consumir.
Sim, Deus meu, este é o mais sincero desejo do meu coração: “Por vós viver, por vós sofrer,
por vós morrer”. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Exame de Consciência
Tu bem acabas de vê-lo, meu caro Teótimo, Jesus por tua salvação, por teu adiantamento espiritual
teve um ardentíssimo desejo. Bem justo é, me parece, que te esforces por em ti excitares um desejo
semelhante, e faças tudo para o conseguir. Ora, diz um sábio religioso, o Padre Rodrigues da
companhia de Jesus, um dos principais e mais eficazes meios que temos para o nosso
adiantamento espiritual, é o exame de consciência.

“Passei, diz o Sábio, pelo campo do preguiçoso e pela vinha do homem insensato: tudo ali
estava cheio de urtigas, tudo coberto de espinhos, e o muro de pedra estava caído”

Tal é a consciência dos que não examinam; é uma vinha deixada ao abandono e por falta de cultura
está toda coberta de silvas e espinhos. Ai! A nossa natureza corrompida é uma terra má; de si mesma
só dá erva; é preciso andar sempre de foice na mão para cortar ou arrancar, e isto mesmo é o que
fazemos pelo exame. O exame é que corta o vicio pelo pé, é que arranca as más inclinações,
apenas elas começam a rebentar, é que impede os maus hábitos de lançarem raiz. Duas sortes há
de exames: exame geral e exame particular. De ambos passo a dar-te a prática.

1. Exame Particular

Consiste em nos examinarmos todos os dias sobre uma virtude que nos propusemos adquirir; ou antes
sobre um vicio de que nos queremos emendar, afim de saber se sim ou não havemos progredido.
Suponho, por exemplo, que assentei com o confessor trabalhar por adquirir a humildade: eis o regime
que devo seguir. De manhã farei o firme propósito de nada dizer, nada fazer, que possa, ainda muito
de longe, nutrir o meu orgulho, e pedirei ao Senhor que abençoe esta minha resolução. Ao meio dia
examinarei a consciência para saber quantas vezes faltei à minha resolução, escreverei então o
numero de minhas faltas, humilhar-me-ei, tomarei novas resoluções de obrar melhor o resto do dia, e
recomendar-me-ei a nosso Senhor. À noite farei o mesmo exame, e escreverei o numero das faltas
desde o ultimo exame. Escrevendo assim o numero das quedas de cada dia, poderei ao cabo de certo
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tempo comparar dia por dia, semana por semana, mês por mês, e saber de modo positivo se sim ou
não avanço na aquisição da humildade. No exame desta virtude me deterei enquanto sentir que me é
ainda difícil sofrer uma humilhação, uma repreensão, um desprezo, ou qualquer outra coisa
semelhante, e não arriarei bandeira, embora devesse trabalhar muitos anos enquanto não tiver
alcançado o meu fim. Vais talvez objetar que enquanto empregastes todos os esforços na aquisição da
humildade, desprezas a das outras virtudes. Não, meu caro Teótimo. não será assim; pois entre as
virtudes há tão estreito laço, que o aplicar-se resolutamente e de uma maneira especial ao
conseguimento de uma só, é trabalhar por adquiri-las todas. Não desprezes pois a prática deste
exame particular que em breve reconhecerás suas preciosas vantagens.

2. Exame Geral
Consiste em nos examinarmos todas as noites das faltas que pelo dia adiante hajamos cometido, e
excitarmo-nos ante tudo à contrição e bom propósito. Nunca deixes este exame geral não menos que o
particular; o que eu muito te recomendo é que não vás cair na falta daqueles que creem haver feito
tudo, quando investigaram com toda a miudeza os seus pecados, sem se darem ao trabalho de pedir
deles perdão a Deus, e trabalhar por não mais recaírem. E no entanto esta é que é a parte essencial
do exame, aquela a que mais te deves aplicar. Permite-me, meu caro Teótimo, que te dê um modelo
de exame de consciência. Advertirás sem custo que não pretendi entrar nele em todas as
particularidades de faltas por pensamentos, palavras, ações, omissões, a que todos os dias estamos
expostos; meu fim é indicar-te simplesmente o caminho que tens a seguir; o resto tu o farás.

MODELO DE EXAME DE CONSCIÊNCIA


Pai Nosso… Ave Maria…

— Qual foi hoje o meu primeiro pensamento?…


Ai! Não foi para Deus; ocupei-me do prazer que teria em fazer aquela coisa, em ver aquela pessoa…
Daí, oração cheia de distrações e fastio; dai, oração remissa e muito mal feita… dissipação todo o
dia e muitas outras faltas de todo o gênero… Ó meu Deus! Assim é como eu vos sirvo! Sempre ponho
o mundo, as criaturas, a mim mesmo antes de vós. Perdão, perdão, Senhor! Amanhã, eu vo-lo
prometo, não há de ser assim; com o socorro da vossa graça, apenas eu desperte, hei de velar mais
sobre mim, e meu primeiro pensamento há de ser para vós…

— Fiz hoje a minha oração?…


Sim… Meu Deus, agradeço- vos esta graça.. . Não… Ah! é como eu sou! sempre a prometer-vos, e
nunca cumpro a minha palavra: meu Deus, tende piedade da minha fraqueza, e esquecei as minhas
infidelidades continuas. Arre¬pendo-me sinceramente desta em particular, e para a reparar prometo-
vos amanhã antes de sair do quarto fazer a minha meditação…

— Que resoluções tomei esta manhã?…


Pensei eu nelas durante o dia? Fui-lhes fiel?… Sim… (atos de agradecimento)… Não… (humildade,
contrição e bons propósitos)… (Do mesmo modo te examina sobre a assistência à santa missa, sobre
a santa comunhão, sobre as confissões)
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— Nos comeres não procurei eu contentar a sensualidade? Pratiquei da mortificação? etc… Meu
Deus, meu Deus, quanto eu me envergonho por vos ofender, então mesmo quando vós me estais a
acumular de benefícios!… Quantos pobres que vos servem com muito mais fervor do que eu, a quem
vós não dais mais que um negro pedaço de pão para matar a sua fome devorante? E não obstante eles
vos bendizem, e comem com reconhecimento este pão… A minha mesa todos os dias se cobre de
numerosos e saborosos manjares; talvez nada falte ao meu apetite, e eu só muito contra vontade me
resolvo a dar-vos graças por tantos dons!.. . e faço-o com tanta frieza!.. . Ó meu Deus! Ó meu Pai!
Ainda esta vez tende piedade da miséria de vosso filho… Amanhã privar-me-ei por vosso amor e
para me punir, se sem os¬tentação o poder fazer, de tal ou tal comida, de que eu gosto muito…

— Em minhas conversas nada tenho a exprobrar-me?


Aqui uma leve mentira, uma pequena maledicência, uma chufa, uma critica, um pouco talvez por
ciúme… Ali uma palavra de vaidade, uma palavra cheia de azedume, de impaciência, de amor
próprio… Falei de mim mesmo em tal circunstância sem necessidade… Em tal obra abri demasiado
a minha alma, Deus me o exprobrou… Falei um pouco áspero àquele criado; e que ganhei eu com
isso?… Se eu me tivera calado em tal circunstância, ou se tivesse falado com calma e doçura, Deus
não teria sido ofendido… etc., etc.

(Atos de contrição e bom propósito)

Quantas impaciências, pequenos agastamentos com meus criados, meus filhos e pessoas da minha
convivência! Ó meu Deus! Ó meu Deus!… E a comungar tantas vezes! Ah! Com a vossa graça hei de
emendar-me deveras!… E os deveres do meu estado?… E a fidelidade ao meu regulamento?… E os
meus exercícios de piedade?… (Passa uma rápida vista a tudo isto, julga-te com a mais rigorosa
severidade, toma a resolução de melhor fazer tal ou tal ação em particular)… etc., etc.

Termina por fazer um ato geral de contrição, e adormece na paz do Senhor.


— Este exame não deve durar mais de cinco ou de seis minutos.

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Capítulo XXXV
Da sexta palavra que Jesus pronunciou na cruz
Cum accepisset Jesus acetum dixit: Consummatum est
“Jesus havendo tomado vinagre, disse: Tudo está consumado”
(Jo 19, 30)

O nosso Jesus, chegado que foi o momento de exalar o ultimo suspiro, disse em voz moribunda:

“Tudo está consumado”

Ao pronunciar esta palavra, Jesus repassou em seu pensamento todo o curso da sua vida, viu todas as
fadigas que padecera, a pobreza, as dores, as ignomínias que sofrera, e as oferecera todas de novo a
seu Pai pela salvação do mundo. Depois, tornando a nós disse: Consumatum est, como se dissera:
Homens, tudo está consumado, tudo está cumprido: está acabada a obra da vossa redenção, satisfeita
a justiça divina, aberto o paraíso; e eis o vosso tempo, o tempo dos que amam.

É tempo enfim, ó homens! Que penseis em amar-me. Amai-me, pois, amai-me, porque nada mais
posso fazer para ser amado de vós. Vede o que eu fiz para adquirir o vosso amor; por vós passei uma
vida cheia de toda a sorte de tribulações; no fim dos meus dias, antes de morrer, consenti que me
esgotassem de sangue, me escarrassem no rosto, me despedaçassem o corpo, me coroassem de
espinhos, me fizessem sofrer as dores da agonia neste madeiro em que me vedes. Que resta a fazer?
Uma só coisa: morrer por vosso amor; muito bem, quero morrer: vem, ó morte, dou-te licença; tira-
me a vida para a salvação das minhas ovelhas. E vós, ovelhas minhas, amai-me, amai-me, porque
não está em meu poder fazer mais para me fazer amar. Tudo está consumado, diz o piedoso Taulero,
tudo o que exigia a justiça, tudo o que pedia caridade, tudo o que podia recender amor!

Meu querido Jesus, ah! Se também eu pudesse dizer morrendo: “Senhor, tudo está consumado;
fiz tudo o que me tínheis mandado, levei a minha cruz com paciência, esforcei-me por vos
agradar em tudo”!… Ah! Meu Deus! Se eu devesse morrer agora, mui descontente de mim
mesmo morreria, pois nada de tudo isto poderia dizer com verdade. Mas hei de eu então viver
sempre assim ingrato para convosco? Oh! Não! De todo o meu coração vos peço, concedei-me a
graça de vos agradar durante os anos que me restam de vida, afim que, quando vier a morte,
possa dizer-vos que ao menos desde hoje cumpri vossa santa vontade. Se no passado vos
ofendi, a vossa morte é toda a minha segurança: para o futuro não mais quero trair-vos. Mas de
vós é que eu espero minha perseverança; por vossos méritos, ó Jesus meu! Vo-la peço e a
espero. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Pedir constantemente a Perseverança Final

A perseverança é, meu caro Teótimo, a graça das graças, e só a ela é que é concedida a coroa da
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imortalidade. É uma graça que tu não podes merecer, mas que Deus está pronto a dar-te, se tu lha
pedires. Toma pois o habito, a partir de hoje, de muitas vezes a pedir ao nosso bom Salvador, pela
intercessão de Maria; certo de que, se não cessares de a pedir, ela te há de ser concedida; a promessa
de Jesus Cristo é formal. Petite, et accipietis. Mas não te contentes com simples orações, junta-lhes
santas obras e uma boa vida, de outro modo seria tentar a Deus. Um cristão frouxo que vive na
tibieza, que nenhum escrúpulo faz das faltas leves, merece ser ouvido quando pede a perseverança?
Torno a repetir, vive, meu coro Teótimo, urna vida santa e fervorosa, e depois espera com humilde
confiança esta graça da perseverança final; Jesus, com toda a certeza, não t’a há de recusar. Evita as
ocasiões do pecado, aproxima-te frequentemente dos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia,
visita ao nosso Senhor oculto em nosso tabernáculos, sê fiel em cumprir exatamente todos os deveres
do teu estado, leva a tua cruz com paciência: e o resto Deus o fará. Não te detenhas nesses
pensamentos desoladores de que talvez um dia serás condenado, de que talvez bem cedo poderás
abandonar o serviço do Senhor, etc., tais pensamentos o mais que podem fazer é comprimir-te o
coração; de bem não têm nada. Confiança em Deus, não cesso de te repetir, pois isto é o que de nós
quer este bom Pai. Ama-nos mais do que nós nos podemos amar a nós mesmos; em paz repousemos
pois no seu amor. Em Maria deposita também grande confiança, e pede-lhe muitas vezes este dom de
perseverança, que ela por sua poderosa intercessão não deixará de t’o alcançar.

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Capítulo XXXVI
Nosso Senhor recomenda sua alma a seu Pai
Pater, in manus tuas commendo spiritum meum
“Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito”
(Jo 23, 16)

Tudo quanto nosso Senhor disse ou fez em sua vida mortal, tudo disse e fez não só para nos
testemunhar o seu amor, mas ainda para instruir-nos. Assim nem uma só palavra pronunciou, que,
bem meditada, não sirva para conduzir-nos a uma maior perfeição. Detenhamo-nos pois a considerar
as que acaba de dirigir ao seu Pai celeste:

“Meu Pai, lhe diz, em vossas mãos encomendo o meu espírito”

É como se dissera: Meu Pai, a vós me abandono sem reserva. Cumpri sobre a terra tudo o que de
mim exigíeis, e só morrer é o que me resta; mas se todavia quereis ainda que a minha alma
permaneça no corpo para mais sofrer, à vossa vontade me abandono; se quereis que passe desta à
outra vida para entrar na gloria e receber a recompensa dos meus trabalhos, à vossa santa vontade
igualmente me abandono; eis-me aqui pronto a fazer tudo o que vos aprouver dispor de mim. Oh! Que
belo exemplo de abandono a Deus e de completa resignação à sua vontade! Oh! Que admirável
preparação para a morte!

“Meu Deus! quero viver se esta é a vossa vontade, disposto estou a morrer se assim o preferis!”

Senhor Jesus, fazei-me a graça de pronunciar do fundo do meu coração estas belas palavras antes de
dar o meu ultimo suspiro:

“Meu Pai, em vossas mãos encomendo o meu espírito”

Fazei-me a graça de expirar dizendo com o mais vivo ardor:

“Jesus e Maria, eu vos amo! Jesus e Maria, eu vos amo!”

Que felizes seriamos, exclama São Francisco de Sales, se, quando nos consagramos ao serviço de
Deus, começássemos por depositar o nosso espírito de uma maneira absoluta e sem reserva nas mãos
de sua divina bondade! pois todo o atraso do nosso adiantamento só provém da falta de abandono. E
no entanto é bem verdade que, se queremos progredir na perfeição, devemos começar, continuar e
acabar a vida espiritual pela prática desta virtude, à imitação de nosso Senhor, que sempre a praticou
de um modo tão admirável e tão perfeito.

Alguns cristãos se acham que, ao entrarem no serviço de Deus, bem lhe dizem:

“Senhor, em vossas mãos encomendo o meu espírito; mas com a condição de que vós sempre me
haveis de dar consolações e não sofrimentos, e do que me dareis também superiores segundo a
minha inclinação, e de que nada contrariará a minha vontade!…”
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Ai! Que fazeis! não vedes que isso não é pôr o espírito nas mãos de Deus, como fez nosso Senhor?
Não sabeis que dessas reservas que nós fazemos é que de ordinário nascem todas as nossas
perturbações, todas as nossas inquietações e outras semelhantes imperfeições? Pois de não
acontecerem as coisas como nós esperávamos e como nós prometíamos, é que proveem as mais das
vezes as desolações que tanto atormentam nossa pobre alma. E tudo isto donde nasce senão de nos
lançarmos com indiferença nas mãos de Deus? Oh! Que felizes que nós seriamos se fielmente
praticássemos esta virtude! Sem duvida que por ela chegaríamos à altíssima perfeição de uma Santa
Catarina de Sena, deu ma Santa Angela de Foligno e de muitas outras santas almas que por esta
indiferença e total abandono de si mesmo eram como umas bolas de cera nas mãos de nosso Senhor e
de seus superiores, recebendo todas as impressões que lhes quisesses dar!

Sejamos, pois, assim, e digamos com nosso bom Mestre em todas as coisas e em todas as
ocorrências:

“Meu Deus, em vossas mãos encomendo absolutamente e sem reserva o meu espírito”: In manus
tuas commundo spiritum meum

Quereis que eu esteja nas securas ou consolações? Que eu seja contrariado ou sinta repugnâncias e
dificuldades? Que eu seja amado ou não? Que eu obedeça em coisas grandes ou pequenas, fáceis ou
difíceis?

“Em vossas mãos encomendo o meu espírito”

Quereis que eu me empregue em obras da vida ativa ou contemplativa?

“Em vossas mãos encomendo o meu espírito”

Aqueles, pois, que estão empregados em ações da vida ativa e não desejem deixa-las para se darem
à vida contemplativa, e os que contemplam não abandonem a contemplação, até que Deus o ordene.
Se é tempo de falar, falemos, se de silencio, não falemos.

Se assim obrarmos, à hora da nossa morte, poderemos muito bem, a exemplo de nosso Senhor, dizer:

“Meu Deus, tudo está consumado”

Consumatum est. Tudo o que era da vossa divina vontade eu cumpri nos acontecimentos que me
sucederam vindos da vossa providencia. Que me resta, pois, agora fazer, senão depositar em vossas
mãos o meu espírito, no fim e declinar da vida, como vo-lo encomendei desde o começo?
(São Francisco de Sales, sermão sobre a Paixão)

Sim, Deus meu, em vossas mãos encomendo o meu espírito, o meu coração, a minha alma, tudo
o que sou e tudo o que possuo, para que de tudo disponhais a vosso bel prazer. Que me
humilhem ou me exaltem, que me desprezem ou me estimem, que me esqueçam ou pensem em
mim, que eu esteja na tristeza ou na agonia, tudo isto me é indiferente, Senhor, uma vez que eu
faça a vossa vontade, e vos ame. Ó Jesus! Eu vos amo, e à vossa misericórdia me abandono
pelo tempo e pela eternidade. Sim, sim, abandono-me, pobre pecador que eu sou, abandono-me
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à vossa misericórdia por todo o tempo e por toda a eternidade. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Abandono total de nós mesmos ao Amor do nosso Deus

Muitas vezes hás de ter visto, meu caro Teótimo, um menino ao colo da mãe; admiraste por certo o
abandono com que ele ali desfruta tão doce repouso. Qualquer perigo que corra está sempre
tranquilo, e o seu dormir não é perturbado; se alguém o desperta e o ameaça, passa os bracinhos em
volta do pescoço da mãe, mete-lhe a cabeça no seio e ei-lo ai muito seguro. Ah! Pois se ele sabe que
está com sua mãe e que ela o ama tanto, tanto, que sempre o defenderá de todos os perigos! Pois bem!
Meu caro Teótimo, eis a imagem do que tu deves ser para com Jesus. Nunca mãe alguma teve tanto
amor ao seu filho único, quanto este doce Salvador te consagra. Em seus braços vai, pois, lançar-te
com toda a confiança, em seu compassivo coração deposita teus pecados, tuas misérias, e tuas
imperfeições, estreita-te ainda mais e mais com ele quando o demônio faz todos os esforços para te
arrancar; no meio das tentações, dize-lhe:

“Meu bom mestre, tende piedade de mim, porque eu sofro violência”

Acostuma-te a ver em lodos os acontecimentos da vida a mão de Deus poderoso que os dirige, e dize
sempre a ti mesmo:

“Se nem um só cabelo cai da minha cabeça sem a permissão do meu Deus, com quanta mais
forte razão tal e tal coisa não me acontece sem que ele assim o queira! Sou seu filho; ele ama-
me, ele é sábio; faça, pois, como melhor lhe agradar. A ele me abandono de novo e sem reserva,
porque estou persuadido de que nada tenho a temer enquanto estiver à sombra de suas asas”

Oh! Quantos cristãos se poupariam muitas penas e muitos tormentos, e não se tornariam culpáveis de
tantos pecados se quizessem, em todos os sucessos, usar esta linguagem! Tu, meu caro Teótimo, dize
com Jesus durante a vida e na hora da morte:

“Meu Deus, em vossas mãos encomendo o meu espírito”

No tempo da tentação e penas interiores, não digas como outrora: “O Senhor abandonou-me, o meu
Deus desapareceu-me“; mas põe diante dos olhos estas palavras que nosso bom e misericordioso
Salvador te dirige:

“Acaso pode uma mãe esquecer-se do seu menino de peito? pode não ter compaixão do filho
das suas entranhas? E quando ela se esquece, eu de ti nunca me esqueceria. Trago-te gravado em
minhas mãos, meus olhos velam incessantemente por tua alma”

Aconteça, pois, o que acontecer, meu caro Teótimo, confia sempre em Jesus. Estás nas securas e nas
trevas interiores: confia em Jesus, chega-te a ele, que ele te dará a unção e as luzes da sua graça.
Estás oprimido de mil tentações? Confia em Jesus, que ele não há de permitir que tu sejas tentado
além das tuas forças: ele te sustentará, e tu gozarás os frutos da vitória. Os demônios, o mundo e a
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came assaltam-te por todos os lados? Confia em Jesus e para logo “mil inimigos cairão à tua
esquerda, e dez mil à tua direita. Já t’o hei dito e não cessarei de t’o dizer, confia em Jesus. Lança
em seu divino coração todas as tuas inquietações; porque ele tem cuidado de ti e te ama”. Nunca,
nunca ninguém, depois de haver esperado nele, foi confundido. Ah! Meu caro Teótimo, repete
incessantemente da boca e do coração estas e semelhantes palavras: Viva Jesus! Ele é o meu pai e o
meu melhor amigo; bem que conheça todas as minhas misérias, ama-me e quer a minha felicidade
eterna. Viva, viva pois o meu Jesus! Quero também ama-lo sempre e confiar em sua misericórdia.

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Capítulo XXXVII
Jesus expira
Et inclinato capite, tradidit spiritum
“E baixando a cabeça, entregou o espírito”
(Jo 19, 30)

Nosso Senhor já tinha perdido quase todo o sangue: estava todo abatido pelos tormentos que sofrera.
O peito ía-se-lhe comprimindo, e a respiração tornando-se difícil; e como não estava deitado no
leito, mas suspenso no ar pelos cravos que rasgavam os pés e as mãos, não tinha momento de
repouso, e suas dores eram imensamente superiores ás que ordinariamente os homens sofrem em sua
agonia: porque em nós a ponta da dor embotando-se ás aproximações da morte, cessamos de sentir, à
medida que vamos perdendo o conhecimento; mas o nosso doce Salvador teve sempre o juízo
perfeito até ao ultimo suspiro, e não cessou de sofrer senão quando deixou de viver (1). Alguns
momentos antes de entregar a alma, sua cabeça se inclinou, os olhos começaram a eclipsar-se, e os
lábios a ficarem frios e lívidos. Pouco depois, tornou a levantar a cabeça e os olhos ao céu, soltou
um grande brado, e deixando segunda vez cair a cabeça sobre o peito, expirou!!!…

Alma minha, aproxima-te da cruz; olha o teu Jesus e teu Deus; acaba de expirar por amor de ti!
Recolhe-te, pois, e medita, recolhe-te e chora… Senhor Jesus, depois de vos ver expirar na cruz por
meu amor, parece-me poder esperar de vós todas as graças necessárias à minha salvação, parece-me
poder calcar aos pés esses temores da eterna condenação que ás vezes o demônio me lança no
espírito. Ó Jesus! Como ó terrível só o pensar que um dia poderei ser separado de vós para todo o
sempre! Como é tão triste sorte do pobre pecador que vos ofendeu, e não sabe se vós houvestes dele
misericórdia! Ver o inferno entreaberto diante de si, e não saber se devo esperar a vossa bondade ou
temer a vossa justiça!

— Meu filho, querido filho, porque é que me falas assim? Em que mereci eu ser olhado por ti como
um senhor duro e severo? Vês-me morrer por teu amor, não ousas confiar na minha ternura!
Ofendeste-me, sim, eu bem sei; mas tu não conheces ainda o meu coração? Ignoras ainda com que
facilidade ele perdoa ao pecador arrependido? Ah! Filho, eu te conjuro, lança-te com mais abandono
nos braços da minha misericórdia.

— Sim, Senhor, compreendo que nunca estarei em paz senão confiando da vossa misericórdia o
cuidado da minha eterna salvação; fazei-me, pois, a graça de sempre repelir para longe de mim esse
temor servil que vos represente a meus olhos como um Deus pronto a punir as menores ofensas;
quando vós tão somente sois um Pai cheio de toda a ternura para com vossos filhos e de compaixão
para com as suas misericórdias… Mas, ó meu Deus! ó bom Jesus! Seja-me permitido derramar todo
o meu coração no vosso. Muitas vezes experimento no vosso serviço momentos de trevas interiores
muito penosas; então a minha alma perturba-se; parece-me que já vos não amo, que vos tenho sido
infiel, que cometi alguma falta mortal, e sou tentado a abandonar-me à melancolia, a crer-me
condenado, a deixar o vosso serviço. Nestas circunstâncias, pois, que devo fazer?

— Meu filho, lança os olhos sobre a minha cruz e começa por fazer um bom ato de resignação à
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minha vontade; depois esforça-te por te excitar à confiança no meu amor. Pois que! Filho, acreditavas
então tu que, a querer-te eu condenar, ia assim morrer sobre uma cruz, no meio de tantos tormentos?
Não temas nada, meu caro filho, não temos nada: eu te amo, eu te amo tanto quanto a um Deus é
possível amar-te. O permitir eu essas perturbações, essas trevas da tua alma, tudo é para teu bem:
não temas nada, porque eu velo por ti como pela menina dos meus olhos. Oh! Se tu souberas quanto
eu amo a uma alma fiel que, apesar das suas misérias e imperfeições, não se deixa levar à turbação, e
me diz incessantemente:

“Meu bom Mestre, em vós confio e não serei confundido”!

Se souberas de que graças preciosas a enriqueço, que esforços não farias para também tu te fundares
solidamente nesta amorosa confiança na minha bondade!

— Ó bom Jesus! vós bem conheceis o fundo do meu coração, sabeis o quanto eu vos amo e quão
ardentemente desejo ir ver-vos no céu; como é, pois, que eu temo tanto a morte e receio vosso juízo?

— O meu juízo é muito para temer, por certo, mas é para os pecadores endurecidos e impenitentes;
mas é doce e cheio de misericórdia para os que me amam. Quero portanto que, todas as vezes que o
pensamento do juízo se apresente a teu espírito, faças logo um ato de abandono da tua sorte eterna à
minha bondade paternal: este sinal de confiança da tua parte ser-me-á a mim muito agradável, e a ti
de muitíssima utilidade, porque nunca ninguém esperou em mim e foi confundido. Quanto ao temor da
morte, esse é um temor natural; eu também o senti porque era homem, e porque de mais a mais queria
merecer-te a graça da resignação. Em ti é também produzido por esse apego que conservas ainda ás
criaturas; trabalha por te desprender de tudo, que a morte te parecerá uma coisa muito de apetecer.
Desprende-te das tuas riquezas, dos teus pequenos gozos dos teus amigos, da tua família, dos teus
próprios filhos; confia do meu coração o cuidado de teus interesses, de todas as pessoas que te são
caras, e poderás dizer então:

“Senhor, vosso servo morrerá agora em paz, se é vossa vontade chama-lo a vós”

— Senhor Jesus, vede o vosso pobre filho ao pé da cruz; laçai sobre mim um olhar de bondade e
abençoai-me. Faço-vos o sacrifício da minha vida e pronto estou a morrer apenas apraza à vossa
santa vontade. Se quereis deixar-me a vida ainda por algum tempo, sejais bendito; somente a graça
me dai de a empregar em amar-vos e agradecer-vos. Se quereis que eu morra em breve, sejais
igualmente bendito. Submeto-me à morte, por ser vontade vossa que eu morra.

Quero morrer, afim que pelas agonias e dores da morte satisfaça à vossa divina justiça por todos os
pecados, pelos quais mereci o inferno.

Quero morrer, afim de deixar de ofender-vos e desagradar-vos nesta vida.

Quero morrer, afim de vos provar o meu reconhecimento por todos os benefícios e por todas as
bondades de que me acumulastes, apesar da minha indignidade.

Quero morrer, para vos provar que mais amo a vossa vontade que a minha.

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Quero sobre tudo morrer para ir para o céu amar-vos de todas as minhas forças e por toda a
eternidade, porque eu espero ir para essa mansão de bem-aventurança, onde estarei certo de amar-
vos por toda a eternidade.

Eu vos suplico, ó meu Salvador! Meu amor, meu único bem: suplico-vos pelas vossas chagas
sacrossantas, pelas dores da vossa morte, fazei-me morrer na vossa graça e no vosso amor.
Comprastes-me à custa do vosso sangue, não permitais que me perca, dulcíssimo Jesus; não permitais
que de vós me separe. Quando a minha alma sair deste corpo, dignai-vos vós mesmo recebe-la das
mãos de Maria, vossa e minha Mãe, e dignai-vos fazer-lhe um acolhimento cheio de bondade,
dizendo-lhe:

“Meu filho, todos os teus pecados te são perdoados e esqueci¬dos; vem comigo para o meu
paraíso, onde eu te amarei, e onde tu me amarás por toda a eternidade”

Meu querido Redentor; ó vós que quisestes morrer por mim, e que, apesar dos meus pecados,
me recebeis ainda na vossa graça! eu me estreito com a vossa cruz, e abraço vossos pés
trespassados com cravos. Ai! Por quem sois, em nome do amor que me testemunhastes, uni-me
por tal modo a vós que nada me possa apartar jamais de vós. Fazei que doravante me entretenha
continuamente convosco; fazei que todos os meus pensamentos sejam para vós; fazei, numa
palavra, que só a vós eleve todos os afetos do meu coração, que só a vós eu procure em todas as
coisas. Oh! Concedei-me a graça de sempre viver na dor de vos ter ofendido; concedei-me a
graça de sempre estar abrasado de amor por vós, que por meu amor destes a vida. Ó Jesus! Eu
vos amo; eu vos amo, ó vós que me amais infinitamente! Eu vos amo, eu vos amo! Maria, pedi a
Jesus por mim, e obtende-me que eu morra em sua santa graça. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Preparação para Morte
E1 preciso morrer, meu caro Teótimo: Jesus morreu e a santa Virgem morreu, todos os santos
morreram e tu também tens de morrer. Isto não digo eu na intenção de te aterrar, pois sei que o justo
vive com paciência e morre deleitosamente; o eu falar-te assim é para poder dizer-te com Jesus
Cristo: Estai preparados, porque não sabeis nem o dia nem a hora da vossa morte. Para o comum dos
fieis, estar preparado é não ter a consciência maculada do pecado mortal. Mas para uma alma fiel
que faz profissão de amor generosamente a Jesus, estar preparado é não ter a mínima afeição ao
pecado venial, é não ter o menor apego a coisa alguma deste mundo de humano e desordenado, ou ao
menos trabalhar por chegar a este ponto; é estar numa submissão perfeita à vontade de Deus para
saúde, doença, vida ou morte. Responde agora, meu caro Teótimo, parece-te que estás preparado? Se
a tua consciência responde: “Sim”, bendiz ao Senhor, que te fez uma grande e preciosa graça; se ao
contrario responde: “Não”, já, já mãos à obra, porque ai! O Senhor pode vir “e virá” com efeito “no
momento em que menos o pensares”. Eis algumas práticas que muito te ajudarão a chegar a este fim:

1. Sonda bem a consciência até os seus últimos esconderijos, e vê se ela não te faz alguma censura
fundada; se te causa algumas pena?, confere-as singelamente com o teu confessor, nada lhe encubras,
faze uma boa confissão, e depois deixa-te estar em paz, abandonando tudo o mais à misericórdia de
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Deus.

2. Faze o teu testamento, se algum tens a fazer, renovando-o cada ano, caso te seja preciso. A teus
negócios temporais põe tão boa ordem, que sempre estejas pronto a prestar contas exatas a quem
tiver o direito de te as pedir. Deste modo, poupar-te-ás a muitas ansiedades, se a morte viesse ferir-
te de repente, como feriu a tantos outros, que estavam mui longe de a esperar.

3. Satisfaz a todas as dividas, se algumas tens, e repara o mal que tenhas podido fazer ao teu próximo
em seus bens, etc.

4. Vê a que coisas estás ainda preso, desapega delas generosamente o coração; a final sempre te há
de ser precioso deixar essas riquezas, essas belas terras, essas belas casas, esses filhos, esses
amigos; faze desde já o sacrifício, e grandes méritos alcançarás.

5. Examina que coisas à hora dá morte desejaras ter feito, e fá-las sem mais demora; examina ao
mesmo tempo quais as que querias não ter feito, e abstém-te.

6. Pensa muitas vezes na morte: este pensamento a principio parece pavoroso; não tarda a tornar-se
doce e consolador, além de servir singularmente para desprender-nos da terra.

7. Faz amiúde atos de resignação com a morte, como o que acabas de ler no capitulo precedente;
agradam a Deus, atraem-nos grandes graças, e familiarizar-nos com o pensamento de nossos últimos
momentos.

Observações:
(1) Os sofrimentos de Jesus, tom. iv.

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Capítulo XXXVIII
O nosso bom Salvador lastima-se da ingratidão dos pecadores e os convida a
virem lançar-se em seus braços
Nunc ergo, habitatores et viri Juda, judicate inter me et vineam meam. Quid est quod debni
ultra facere vineae meae et non feci ei?
“Agora, habitadores de Jerusalém e varões de Judá, sede vós os juízes entre mim e a minha
vinha. Que mais podia eu fazer por ela, que lhe não tenha feito?”
(Is 5, 3-4)

A quem fala assim Jesus? A quem dirige estas palavras? É a mim, pobre pecador, a mim é que ele
fala; a mim é que ele diz com assento da mais viva ternura:

“Meu filho, que mais posso eu fazer por ti?”

Amar-me-ás tu agora de todo o teu coração? Acabarás de sacrificar-me de novo com teus pecados?
Ah! Filho, meu caro filho! Depois de tantos sinais do meu amor, porque viveste tanto tempo longe de
mim? Que mal te fiz? Em que te contristei? Responde-me.

Meu Deus! Meu Deus! Nada tenho que responder. Sou culpável, e gemo sob o peso de meu pecados;
cobrem de rubor a minha face; ó Jesus meu! perdoai a um pecador suplicante. Seu culpável; nenhuma
desculpa tenho a alegar, mas choro…

Filho, “que achaste tu em mim para me abandonar, e correres após a vaidade?”. De que sorte de
benefícios não te hei acumulado? Por teu amor me entreguei a uma morte dolorosa! por teu amor
“suportei o opróbrio, e cobriu a ignomínia o meu rosto”. Para te arrancar ás eternas chamas do
inferno, “tornei-me pobre e necessitado de tudo; quis ser olhado como o ultimo dos homens;
reduzi-me de alguma sorte ao nada“. Fui coberto de chagas desde os pés até à cabeça; fui oprimido
de dores, de humilhações, de ultrajes: e tudo isto, tudo isto sofri por ti, filho, porque tua alma é
preciosa a meus olhos; por ti, porque queria salvar-te; por ti, porque te amo. Ó meu filho! E como
correspondeste tu até ao presente a tanto amor? Fala?

— Senhor, repito, nenhuma desculpa tenho que alegar; o que mais posso fazer é gemer, é lançar-me
confiadamente nos braços da vossa misericórdia.

— Depois de te eu haver tirado do nada para te dar a existência, tu não cessaste de ofender-me;
muitas vezes por teus pecados me hás vergonhosamente desonrado. Eu gravara em tua alma o caráter
da minha divindade, e tu te deste pressa em apagá-lo; nela depusera o selo da minha santidade, e tu o
manchaste; enchera-te de graças, e tu as desprezaste!

“É assim, pois, que tu testemunhas o teu reconhecimento ao Senhor? por ventura não sou eu o teu
Pai, e teu Criador, o teu Salvador? Não tive eu sempre cuidado de ti como das meninas dos
meus olhos?”

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E tu me abandonas, e tu me esqueces! Abandonas- me por um miserável prazer, para correr após
honras vãs!… Ó meu filho, ora dize-me, possuías a felicidade, enquanto andavas infiel ao meu amor?
Saboreavas aquela paz tão doce que inunda o coração dos que me servem com fervor? Ah!
“Compreende, pois, de uma vez quão funesto e amargo te foi o teres abandonado o Senhor teu
Deus”, e volta a mim. Olha, eu estou a estender-te os braços; corre: eu serei o teu pai, e tu serás
ainda o meu filho estremecido.

— Meu Jesus, venceste, sim venceste; entre-vos as armas. Eu vo-lo prometo, não mais serei
in¬grato; mas por misericórdia, ó meu Deus, cessai de exprobrar-me as faltas da vida passada,
e dignai-vos perdoar-nos. Quero delas fazer penitencia todos os dias da minha vida; quero
amar-vos de todo o meu coração, mais que todas as criaturas, mais que a minha vida, mais que a
mim mesmo. Não ter eu mil corações para todos os empregar em vos amar! Mas que digo!
Provera ao céu que eu vos amasse com toda a extensão do que vós me destes! Ai! Mas ele é tão
frio, tão duro, tão insensível! Contudo, ó meu Jesus! Assim mau como sou, parece-me que vos
amo. Sim, ó Deus meu, eu vos amo; eu vos amo, não para que no céu me salveis, não para que
me arranqueis ao inferno; não por esperança de alguma recompensa; mas ama-vos, só porque
vós me amais; amo-vos só porque vós sois o meu Rei e meu Deus; amo-vos e amar-vos-ei
sempre, só porque sois infinitamente digno do meu amor. Assim seja

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Pensar nas Misericórdias do Senhor para Conosco

“Das misericórdias do Senhor eu me recordarei, cantarei cânticos de louvor por tudo o que ele
faz por mim, por todos os bens de que encheu a minha alma, segundo a sua clemencia e segundo
a multidão das suas misericórdias. Bendizei ao Senhor, ó minha alma! Bendiga ao seu santo
nome tudo o que há dentro de ti; bendizei ao Senhor, ó minha alma! E não te esqueças dos seus
benefícios”

Estes de¬vem ser, meu caro Teótimo, os sentimentos de todo o cristão para quem o reconhecimento
não e um fardo. Mas ai! Onde estão essas almas verdadeiramente reconhecidas que sabem agradecer
a Deus todas as graças de que as encheu? Onde estão? Ó céus! Nós coraríamos de nos mostrar
ingratos para com os homens, e para com Deus nada se nos dá disso! O pedir-lhe graças todos os
dias lhas pedimos a grandes brados, todos os dias as recebemos em abundância, mas agradecer-lhe,
nem sequer nos passa pela imaginação dizer-lhe um:

“Meu Deus, agradecido!”

Que conduta! Ó meu caro Teótimo, nunca caias neste vicio da ingratidão para com nosso bom Mestre,
pois este vicio só basta para estancar todas as fontes da graça, como nos adverte São Bernardo em
vinte lugares das suas obras. Recorda-te ao contrario muitas vezes de todos os benefícios gerais e
particulares que de Deus recebeste. Além das graças da criação, da redenção, da conservação, que
graças assinaladas não te há ele feito! Tu o ofendeste, e este bom Pai não te tratou segundo tuas
iniquidades; viu a tua desgraça, ficou enternecido e teve de ti piedade. Todas as tuas faltas ele te
perdoou, curou-te de todas as chagas, arrancou-te do inferno, e, porque é cheio de ternura e
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clemencia, restituiu-te a veste da inocência. (Ps. cu. passim.). Tu arrastarás a tua pobre alma pelo
lobo, tu a desonrarás e cobriras de indignas manchas; o demônio a calcava aos pés, e de dia para dia
a enterrava mais e mais no mais imundo lamaçal; e eis que o teu Deus não teve por desprezo o ele
mesmo vir tira-la; em seu sangue a purificou, encheu-a de mil graças preciosas, e a acumulou de
penhores do seu amor. Ah! Que bem razão tens de exclamar com o Salmista: “Quem há como o
Senhor nosso Deus? Ele levanta da terra ao desvalido, e tira da imundície ao pobre, para o fazer
assentar com os príncipes, com os princípios do seu povo”, isto é, com os anjos e santos. Compara
o teu estado de outrora, quando vivias no pecado, com o em que Deus por sua misericórdia hoje te
pôs; e, nos sentimentos do reconhecimento, dize a cada instante:

“Que darei eu em retribuição ao Senhor, por tantos benefícios de que me encheu? Ah! Eu o
bendirei a todo o momento, e seus louvores sempre estarão em minha boca, e toda a eternidade
não será longa para eu exaltar as suas misericórdias. Ó doce Jesus! Não permitais que eu seja
ingrato; não permitais que eu mereça a exprobração que outrora fizestes ao povo judeu: Vós
esqueceste-vos dos meus benefícios, e não vos recordastes da multidão de minhas
misericórdias”

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Capítulo XXXIX
Da sua plena vontade é que Jesus Cristo se ofereceu à morte por nosso amor
Oblatus est qui ipse voluit
“Foi imolado porque quis”
(Is 53, 7)

O verbo eterno, desde o primeiro instante de sua conceição, viu apresentar-lhe ante si todas as almas
dos filhos de Adão; viu ao mesmo tempo apresentar-lhe o quadro terrível dos sofrimentos, à custa
dos quais devia remi-los. Assim do primeiro instante de sua existência no tempo viu e conheceu
perfeitamente Jesus Cristo as almas de todos os homens que lá desde o começo do mundo tinham
povoado a terra, bem como as de todos os que deviam povoa-la até à consumação dos séculos. Viu e
conheceu portanto também a minha, ele a viu coberta de pecados, envolta em densas trevas, falta de
tudo. E esta vista, longe de o levar a repelir-me como um objeto de horror, comoveu as entranhas da
sua misericórdia, e aceitou para logo todos os sofrimentos que mais tarde padeceu no curso da sua
vida, e particularmente em sua morte. Nenhum interesse próprio tinha para assim obrar, nem para
aceitar tantos sofrimentos; o amor, o amor por minha pobre alma, eis o seu mover; o amor fê-lo
nascer num presépio, o amor fê-lo morrer numa cruz. Condenado estava eu ao inferno, e ele ofereceu-
se por meu resgate; nascera no ódio de Deus, e ele ofereceu-se para destruir este ódio; nem sequer
pensava em ama-lo; em minha funesta cegueira, só para ofendê-lo vivia, e ele foi o primeiro a amar-
me, e se ofereceu para dar-me uma prova esplêndida do seu amor, e para me atrair a amá-lo. E seria
eu insensível a tão excessiva ternura do meu Deus? Se o meu Jesus me ama tão ardentemente, poderei
eu recusar-lhe uma justa compensação? Por certo que não.

Que retribuirei eu, pois, a Jesus! Que lhe hei de eu oferecer em paga do que recebi dele? Ele por
mim ofereceu a hóstia mais preciosa que possuía, ofereceu-se a si mesmo; convém também que por
minha parte lhe ofereça o que de melhor tenho, todo o meu ser. Pois que! Um Deus dá-se todo a,mim,
e eu ainda hei de hesitar em me dar todo a ele? Ah! Senhor! Dignai-vos aceitar a oferenda de mim
mesmo. Dois óbulos só vos posso apresentar, o corpo e alma: concedei-me a graça de generosamente
vo-los sacrificar; o sacrifício do corpo, pelas mortificações, sofrimentos, trabalhos e privações; o
sacrifício da minha alma, pondo a vossos pés a minha vontade própria, os meus desejos de aparecer,
o meu orgulho e tudo o que vos desagrada. Bem o sei, ó meu Deus! É difícil, é penoso, é duro à
natureza tal sacrifício; mas ajudai-me vós que eu vo-lo farei todo, todo pleno e sem reserva alguma, e
por toda a minha vida.

Ó meu Jesus! Que por meu amor vos oferecestes aos sofrimentos e à morte, a vossos pés venho
lançar-me e pedir-vos que me recebais todo como holocausto a vós imolado. Recebei a minha
liberdade, memória, inteligência, vontade, tudo o que sou. Se alguma coisa possuo, de vós a tenho, a
vós pois tudo entrego para que de tudo disponhais segundo vossa vontade. Somente concedei-me o
vosso amor e a vossa graça e assas rico serei. Ó Deus meu! Que poderosos motivos não tenho eu
para amar-vos de todo o meu coração? “Vós livrastes a minha alma para ela não perecer, vós
lançastes para traz das costas todos os meus pecados”, e os esquecestes. Assim, em lugar de me
castigar pelas injurias que contra vós multipliquei, vós multiplicastes os favores e misericórdias,
afim de poder ganhar-me um dia para o vosso amor.
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Ah! Esse dia, que tão ardentemente desejáveis, chegou ao fim; sim, chegou, porque parece-me que
vos amo de toda a minha alma. Ah! Se eu vos não amasse a vós, a quem deveria amar?

Ó Jesus meu! O primeiro pecado que devo chorar é o de tantos anos não vos ter servido nem
amado; mas para o futuro quero fazer tudo o que poder para vos ser agradável. A vossa graça
me inspira, eu sinto um grande desejo de só para vós viver e de me desprender de todas as
coisas criadas; experimento ao mesmo tempo grande magoa por todas as penas que vos dei;
estes são, ó meu Deus, favores que de vossa bondade me vem, e de que vos dou graças. Vossa
obra acabai, e conservai-me fiel ao vosso amor. Ai! Conheceis bem a minha franqueza; fazei
pois que doravante eu seja todo vosso, como vós tendes sido todo meu. Amo-vos, ó meu único
bem! Amo-vos, ó meu único amor! Amo-vos, ó meu tesouro e meu tudo! Meu doce Jesus,
compreendei-me bem: eu vos amo, eu vos amo! Ó doce, ó terna Maria! Vinde em socorro de
vosso filho, e ensinai-me a amar ainda mais a Jesus. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Do Espírito de Imolação de nós mesmos por Amor de Deus

Ontem falava-te eu da ingratidão, e empenhava-te, meu caro Teótimo, a fugires deste vicio, a Deus e
aos homens hediondo e horroroso. Podes hoje provar a nosso Senhor que sabes apreciar e
reconhecer os seus benefícios, consentindo em fazer por sua gloria o que ele fez por teu amor. Afim
de arrancar-te ao inferno e merecer-te o céu, este bom Mestre ofereceu-se como vitima a Deus seu
Pai; faze tu outro tanto. Considera-te doravante vitima destinada a ser imolada segundo seu bel
prazer. Persuade-te bem que não és mais teu, mas que todo pertences a Deus. Assim quando lhe
aprouver enviar-te alguma cruz, alguma humilhação, alguma doença, deves submeter-te dizendo:

“Vitima me constitui, pode imolar-me”

Quando teus superiores te derem alguma ordem à qual sintas repugnância de submeter-te, quando
sentires a revolta da própria vontade contra vontade dos que te governam, apressa-te a chamar em teu
socorro este pensamento:

“Não pertenço a mim, sou vitima do meu Deus, devo pois deixar-me imolar”

Se murmúrios se elevam em tua alma, se sentes repugnância em assim sacrificar-te, se teu orgulho se
rói e opõe alguma resistência, recorda-te então de Jesus, que a si mesmo se imolou por teu amor, que
como inocente cordeiro se deixou sacrificar sem proferir uma só queixa. Quando enfim vires a morte
próxima a ferir-te, levanta os olhos ao céu e dize: Deus meu, vitima vossa sou, vitima de amor;
descarregai, descarregai o ultimo golpe, acabai meu sacrifício. Vosso quero ser por toda a eternidade
afim de amar-vos, bendizer-vos, agradecer-vos todas as vossas bondades por mim, e gozar da vossa
presença.

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Capítulo XL
Jesus Cristo por amor nosso fez-se maldição afim de subtrair-nos à eterna
maldição que mereceríamos
Deus Filium suum mittens in similitudinem carnis peccat, et de peccato damnavit pecca, tum
in carne
“Deus enviou o seu próprio Filho revestido de carne semelhante à carne do pecado, e por causa
do pecado condenou o pecado na carne”
(Rm 8, 3)

Deus detesta soberanamente o pecado; onde quer que o divise, pune-o sem misericórdia; exigem-no
sua justiça e santidade. Jesus Cristo, encarregado como estava por seu Pai celeste de remir-nos,
revestiu-se de carne semelhante à carne do pecado que nós trazemos; e, bem que do pecado ele só
tivesse a aparência, Deus não obstante votou-o à maldição: Factus pro nobis maledictum. Sim,
nosso divino Salvador querendo subtrair-nos à maldição eterna que mereceríamos, consentia em ser
ele mesmo votado à maldição, permitindo ser suspenso na cruz, como um culpado e malfeitor de
todos execrado. Que amor! Ó meu Jesus! Meu doce Jesus! Vós que por vossa morte me livrastes da
servidão do pecado original e dos pecados que depois do batismo cometi; mudai, eu vos suplico,
mudai essas desgraçadas cadeias, que por tanto tempo me retiveram sob o império e escravidão de
Lúcifer, em cadeias de ouro que a vós estreitamente unido me tenham pelos laços do vosso santo
amor. Fazei, eu vos conjuro, fazei brilhar em mim o poder de vossa graça, tornando-me de miserável
pecador que sou, um santo.

Por causa dos meus pecados é que Jesus se fez maldição; é artigo de fé. Que ideia devo portanto
fazer eu de um mal que só por este preço um Deus pode destruir? É que este é o maior e mais
horrendo de todos os males. Oh! Quanto eu devo temê-lo! Com que cuidado evita-lo! que vigilância
para ele não estabelecer seu reino em minha alma! Ai! Tempo houve em que este maldito pecado me
tinha sob as suas leis; mas pela graça do batismo libertei-me de sua vergonhosa escravidão; minha
alma foi lavada no sangue de Jesus, e este bom Mestre tornou-a pura e bela a seus olhos. Ó Deus
meu! Não permitais que eu tenha ainda a desgraça de a manchar com novos pecados; por quem sois,
tal não permitais. A vossa graça me restituíste, não permitais que eu seja tão desgraçado que segunda
vez a perca. Que seria de mim sem ela! Ai! Não posso consentir em passar toda a eternidade no
inferno sem poder amar-vos, não, Deus meu, em tal não posso consentir; é preciso que eu vos ame e
no inferno não se vos ama!

No inferno!… Longe do meu Deus!… Longe dos amigos do meu Deus!… Longe de Jesus Cristo e da
santa Virgem!… Longe dessas belas almas que eu conheci e amei cá na terra!… Oh! Que desgraça!
Senhor, Senhor, afastai para longe de mim. No inferno! Ó Jesus! E no entanto é bem verdade que de
há muito eu deveria lá estar a arder! E no entanto é bem verdade que de há muito eu merecera lá ser
esmagado debaixo do peso de vossa maldição eterna! Mas pela vossa misericórdia e pelo gloria de
vossa tão dolorosa morte espero arder eternamente nas chamas do vosso amor e ser para sempre
vosso.

Desde já não quero que meu coração outra coisa ame senão só a vós, a vós, ó Deus meu! A vós
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eu amarei por vós mesmo; aos meus amigos, amá-lo-eis em vós: aos meus inimigos, amá-lo-eis
por causa de vós. Ah! Reinai em toda a minha alma; fazei que ela só a vós obedeça, só a vós
busque, só por vós suspire. Sai do meu coração, afeições terrenas que não lordes em Deus e por
Deus; a vós, chama do divino amor, vinde a mim; vinde e tomai posse do meu coração; vinde e
abrasai-me. Eu vos amo, ó meu Jesus! Amo-vos, ó digno de infinito amor! Ó vós que sois o
único que me amais verdadeiramente! Ninguém conheço que me ame mais que vós; em
reconhecimento me dou e me consagro todo, todo, a vós, meu tesouro e meu tudo. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Castidade
Seja-me permitido, meu caro Teótimo, entre¬ter-te hoje com a mais bela e mais mimosa de todas as
virtudes, com essa virtude que torna o homem semelhante ao mesmo Deus; com essa virtude em
comparação da qual nada são todas as riquezas, nada todos os tesouros e dignidades; quero dizer a
castidade. É virtude tão bela, que até seus mesmos inimigos não podem conter-se que a não admirem.
Nosso Senhor sempre a prezou muitíssimo, e quanto mais pura e casta é uma alma, tanto ele mais se
compraz em cumula-la de seus mais assinalados favores. Mas quanto mais preciosa é esta virtude,
tanto mais difícil é de conservar. A carne e o demônio reúnem seus esforços para vo-la fazerem
perder, e desta luta terrível não é fácil o sair-se vencedor. Não obstante, meu caro Teótimo, confiança
em Deus; ele bem conhece a nossa fraqueza e o lodo de que somos formados, e não deixa seus filhos
ao abandono no meio do perigo. A Jesus e Maria pede incessantemente a virtude da castidade, pois
só do céu pode descer dom de tão grande valor, e demais sê fiel ao que vou dizer-te, afim de não
caíres no poder de teus inimigos.

1. Foge das Ocasiões

Porque nos combates da carne a vitória é dos mais medrosos, isto é, dos que fogem das ocasiões. Se
te expões a elas, cairás. Quantos desgraçados, dizia São Jerônimo já moribundo, caíram no lodo da
impureza por causa da presunção com que se julgavam seguros da vitória! Por mais experiência que
tu tenhas dá tua fidelidade passada, está sempre de pé atrás e nunca te julgues em segurança para o
futuro.

2. Vela sobre todos os Sentidos


Nunca deixes aos teus olhos deterem-se sobre objetos perigosos; nunca pronuncies uma só palavra
que ferir possa um ouvido casto, etc., etc.

3. Foge da Ociosidade

O Espírito Santo ensina- nos que ela conduz a grande numero dos pecados; e ela é que foi a causa de
todos os crimes dos habitantes de Sodoma e Gomorra, ela faz ainda todos os dias uma aluvião de
vitimas. Foge pois da ociosidade e faz que o demônio te ache sempre ocupado. Não esqueças que
muitos, depois de no trabalho haverem sido santos, na ociosidade perderam-se miseravelmente; e
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que, por um demônio que tenta uma pessoa que trabalha, há cem que assaltam a quem está ocioso.
Torno-te a repetir, foge da ociosidade.

4. Mortifica-te
A mortificação é o sal que conserva todas as virtudes, mas a castidade sobre tudo, a qual sem ela não
pode viver por muito tempo. Evita todos os excessos no beber e comer: porque boa mesa,
abundância de iguarias, delicadeza de vinhos, são os maiores inimigos da castidade. Vinho puro ou
nunca o temes, ou que seja em diminutíssima quantidade e muito raras vezes: porque quem com
excesso toma vinho será certamente entregue ás tumultuosas paixões dos sentidos e só a muito custo
poderá conservar a castidade.

5. Sê humilde
A humildade é a guarda da castidade, o orgulho é indicio de queda próxima. Sim, meu caro Teótimo,
Deus muitas vezes pune os orgulhosos permitindo que eles caiam na torpeza de alguma impureza.
Nunca por nunca tenhas muito boa opinião de ti mesmo, de teus talentos, de teus méritos com temor
de atrair sobre ti a cólera de Deus; tem sempre presente a teu espírito esta lição de São Bernardo:

“Só pela humildade se pode obter e conservar a castidade”

6. Ora muito
No meio dos combates da carne contra o espírito, só Deus é que pode sustentar a nossa fraqueza e
dar-nos a vitória. Assim pois, mal comeces a sentir os primeiros ataques do inimigo, apressa-te a
recorrer a Jesus e dize-lhe:

“Meu bom Mestre, vinde depressa em meu socorro, ou eu pereço”

Fazei o sinal da cruz sobre o coração dizendo:

“Meu Deus, morrer antes que consentir neste mau pensamento, neste mau desejo!”

Dirige-te particularmente a Maria: pronuncia com respeito o seu santo nome; reza a Ave-Maria,
aperta contra o coração alguma de suas imagens, ou escapulário se o tens, e repete incessantemente
enquanto durar a tentação:

“Minha doce e terna Mãe, eu vos suplico, não abandoneis vosso pobre filho. Ó Maria! Ó Maria!
Vinde em meu socorro!”

Depois da tentação, dize:

“Ó Jesus e Maria! Doces objetos do meu amor, benditos sejais para sempre por me haverdes
livrado desta tentação, e não me terdes abandonado à minha fraqueza. Não permitais jamais que
eu caia na desgraça de ver-me separado de vós pelo pecado. Ó Jesus e Maria, amo-vos e amar-
vos-ei sempre”
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Capítulo XLI
Quanto o amor que Jesus Cristo nos tem nos impõem a obrigação de O
amarmos
Charitas Christi urget nos
“A caridade de Cristo nos constrange”
(2 Cor 5, 14)

Nada, diz São Francisco de Sales no “Tratado do amor de Deus”, liv. VIII, c. 8, nada força tanto o
coração do homem como o amor. Se um homem sabe que é amado de outro homem qualquer que seja,
sente-se compelido a retribui-lhe amor por amor; se é um simples paisano que é amado de um grande
senhor, muito mais é incitado; mas se é de um grande monarca que ele se vê amado, com quanto
maior, força ainda se sente impelido? Saber pois que Jesus Cristo nos amou até morrer na cruz por
nós não é ter os nossos corações sob uma prensa que lhes espreme fortemente o amor, com violência
tanto mais veemente quanto é mais amável?

Jesus ama-nos: Ah! E quem o poderia duvidar depois de tantos sinais que nos deu da sua ternura?
Sim, ama-nos, e quer que nós o amemos. Para isso é que ele se fez homem, morreu na cruz, instituiu o
Sacramento da Eucaristia.

A nós se deu todo e sem a menor reserva. Se ele se encarna, diz um piedoso autor, e vem ao mundo, é
por nós; se nasce num curral, se é deitado na palha de uma manjedoura, é por nós; se treme e chora, é
por nós; se tem um corpo é afim de poder sofrer, de poder imolar-se por nós; se tem um coração, é
para amar-nos; enfim, todos os movimentos de sua alma, todos os desejos do seu coração, todos os
pensamentos do seu espírito são nossos e por nós. Sua vida é nossa; sua humanidade santa com todas
as suas virtudes e todos os seus merecimentos, é nossa. Que digo? A sua mesma divindade com todas
as suas perfeições, é nossa. Tudo nos deu no sacramento do seu amor, de modo tal que é impossível
dar-nos mais; pois que pode ele dar maior e mais precioso do que ele mesmo? Sim, Jesus, incitado
pelo amor imenso que nos tem, todo se deu a nós; por nós se consumiu: despendeu-se todo em nosso
lucro, e é verdade o dizer-se que não há nada no mundo que seja tão perfeitamente, tão
universalmente, tão unicamente nosso como Jesus Cristo.

Ó Deus! E seria possível que o meu coração ficasse insensível a tanto amor? Seria possível que eu
não amasse a quem tanto me tem amado? Não, não, não quero ser ingrato. Jesus me amou; pois bem!
Amá-lo-ei também eu. Que há ai mais doce, mais justo, mais glorioso que amar a Jesus? Se este bom
Mestre me proibisse o amá-lo, tal proibição parecer-me-ia insuportável, ser-me-ia impossível
submeter-me. Não amar a Jesus! Ó Céu! Só o pensa-lo me aterra mais que todos os tormentos do
inferno. Ó Deus meu! Antes morrer que deixar jamais de amar-vos! Ah! Consuma o fogo do vosso
amor o meu coração todo; nada de mim mesmo fique em mim, mas tudo o que eu sou, tudo o que eu
tenho, seja vosso para sempre. Ai! eu amei-vos tão tarde! bem justo é que eu repare, quanto possível
for, o tempo que perdi longe de vós; bem justo é que eu vos ame hoje de todo o meu coração, a vós
que sois o meu Deus e que tão ardente desejo tendes de ser de mim amado.

Doce Jesus! Salvador da minha alma! único objeto dos meus desejos e do meu amor, socorrei ao
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vosso servo. A vós brado, a vós invoco do mais profundo do meu coração. Vinde a este pobre
coração que vos quero dar todo, vinde estabelecer nele vossa morada, vinde derramar nele vosso
santo amor. Fonte inexausta de amor, de doçura e bondade, amável e puro objeto de todos os meus
desejos, haverá alguma coisa comparável á vossa divina beleza? O mel mais doce, o néctar mais
delicioso chegam à vossa doçura? A neve e o leite mais puro aproximam-se da vossa pureza? Todos
os tesouros do mundo, ouro prata, pedras preciosas, as mesmas honras e os mesmos prazeres, poder-
me-iam tocar, depois que saboreei vossos encantos? Não, Deus meu, não, só vosso quero ser, só a
vós quero pertencer para sempre; vosso filho quero ser por toda a eternidade! Ó Jesus! Sede-me
sempre Jesus!

Pois que Jesus Cristo se deu todo a nós, é de justiça que nós a ele nos dêmos todos sem reserva.
Devesse isto custar-nos grandes trabalhos, penosos sacrifícios, não importa; sejamos todos de Deus,
é justiça. Devesse custar-nos a perda dos nossos bens, do nosso repouso, da nossa honra, não
importa: sejamos todos de Deus, é justiça. Devesse, enfim, custar-nos a perda de tudo o que no
mundo temos de mais caro, da nossa própria vida; não importa, não importa: sejamos todos de Deus,
é justiça. Mas que! É preciso estar a deliberar tanto para me resolver a dar a Deus amor por amor?
Tão mau seria ser todo, todo, de Jesus! Ai! Que o maior, o mais medonho de todos os males, é o não
ser dele.
E esta foi, ó bom Jesus! No entanto a minha desgraça por muito tempo. Ah! Quantos anos passei eu
longe de vós! Ai! Eu então andava cego, ignorava o que vós fizestes por meu amor. Meu Redentor,
trazei-me sempre à memória os sofrimentos que padecestes para testemunhar-me a vossa ternura;
fazei que sua recordação nunca se aparte do meu espírito, afim de poder compreender quanto me
amastes. Se pelo passado levei a vida tão desregrada e tão culpável, é que eu, ó Jesus! Não
considerei o amor que por mim tivestes. Eu bem sabia, contudo, o grande pesar que vos dava com
meus pecados; mas ai! este conhecimento que tinha não me impedia de cometer muitas faltas. Pudesse
eu hoje morrer de dor de as ter cometido! Ah! Eu de certo não tinha coragem de implorar o perdão,
se não soubesse que vós morrestes para perdoar-me. Sim, vós morrestes na cruz, porque desejáveis o
meu amor. E eu, ó Jesus! Eu desejo tão pouco o vosso! Fazei-me a graça de o desejar mais que a
todos os bens deste mundo… Ó meu soberano e único tesouro! Amo-vos mais que a todas as coisas,
amo-vos mais que a mim mesmo, amo-vos de toda a minha alma, e outro desejo não quero ter que
amar-vos e ser de vós amado. Esquecei, ó Jesus meu! Esquecei as ofensas de que me tornei culpável
para convosco, e amai-me ainda, apesar das minhas in¬gratidões; amai-me muito, para que eu possa
também amar-vos muito. Vós sois o meu amor, sois a minha esperança; sabeis quão fraco sou;
socorrei-me, pois, ó Jesus! Meu amor, socorrei-me. Fazei que eu na vida e na morte, e por toda a
eternidade brade incessantemente:

“Meu Deus! Meu Deus! Sois o meu amor e meu tudo! Sois o meu amor e meu tudo!”

Devemos dar-nos todos a Deus sem reservar nada, sem exceptuar nada; pois, por mais que nós
demos, sempre damos muito pouco, e tão pouco que nem se devia contar por nada. Trabalho,
mortifico-me, levo a minha cruz, dou até a minha vida pelo amor de Deus; mas o que vem a ser a
final tudo isto se comparo a grandeza de Deus com a minha baixeza? Que tão grande serviço pode
prestar o nada ao Ser por excelência? Nada sou, e de mim mesmo nada posso; o que possuo, de Deus
o tenho. Com que direito pois pretendo eu arrebatar-lhe o que lhe pertence? Pedindo-me todo o meu
coração, não me pede mais que o que é seu; que grande mérito da minha parte se lh’o dou! Demais,
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tudo o que eu posso fazer por amor de Deus é tão miserável, tão imperfeito, que seria urra vergonha
cortar-lhe ainda alguma parte, por mínima que fosse, sobre tudo se penso em tudo o que ele mesmo
fez e ainda agora faz por mim. O quê! Jesus ama-me quanto possível lhe é amar-me, e eu não amarei
da rainha parte, de todas as minhas forças, o Grande Deus! Afastai de mim tal ingratidão! Ah! Se eu
muito não posso dar-vos em reconhecimento de todos os vossos benefícios, fazei que vos dê ao
menos, sem reserva, o pouco que possuo.

Senhor Jesus, que tão perfeitamente conheceis tudo o que há de mais oculto na terra e no Céu,
vós bem sabeis que me sois infinitamente mais caro, infinitamente mais amável que o Céu, que a
terra, e que tudo o que eles encerram. Sabeis que quero ser vosso, que me dei todo a vós e que
nada para mim reservei. Meu coração não é já meu; fiz-vos sacrifício dele, a vós pertence;
tornai-o digno de vós. Curai todas as suas misérias, e não permitais que nelas torne a cair. Ó
Jesus! Fazei-me a graça de renovar o meu sacrifício todos os dias da minha vida, e de poder
dizer por toda a eternidade: “Sou de Jesus! A Jesus pertenço! Sou escravo do seu amor“. Sim,
tomo por testemunha o Céu, a terra e os infernos, sou de Jesus, e mediante a sua graça, que eu
espero e que me não há de faltar, serei sempre de Jesus, sempre servo de Jesus, sempre amigo
de Jesus, sempre filho de Jesus! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da perfeita emenda de nós mesmos

Hoje, meu caro Teótimo, entra seriamente em ti mesmo, e consulta a tua consciência a ver se ela te
diz que verdadeiramente és todo de Deus. Examina o que fazes para agradar-lhe e como o fazes.
Passa uma revista a todas as tuas ações, e vê se tens motivos para crer que Jesus está contente com
elas. As tuas orações, com que respeito, com que atenção as fazes? És bem fiel em fazer a tua oração
mental todos os dias? tuas intenções são sempre retas, puras e santas? És de uma grande exatidão
para os deveres do teu estado? E a respeito da humildade e obediência que deves ao superior ou
diretor como vais? Que guerra fazes ás tuas paixões, sobretudo à tua paixão dominante? Perseveras
na prática do exame de consciência? Tens grande cuidado de fugir do mundo e seus prazeres? Não és
negligente na preparação para os sacramentos da Penitencia e Eucaristia? Não levas mesmo a
infidelidade até abandonar a comunhão frequente, com receio de estares por ela obrigado a
vigilância mais estreita sobre ti mesmo? Ó meu caro Teótimo! Eis aqui em que meditar, e talvez
tenhas bem motivo de te humilhar. Que faria se eu falasse de tantas mentiras leves, escárnios,
palavras ociosas, e sobretudo murmurações de que a cada instante talvez te estás tornando culpável?
Ah! Toma hoje a generosa resolução de te emendares, começa por corrigir tal e tal defeito, por
exemplo, o de sempre estares a criticar os mais, de murmurar, etc. Pede a Nosso Senhor te ajude, e
roga-lhe instantemente a graça de ser enfim todo dele, custe o que custar.

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Capítulo XLII
Elevação do coração a Jesus Cristo para o conjurar a nos atrair a si pelos
encantos do seu amor
Ego si exaltatus fuero a terra omnia traham ad meipsum
“Eu quando for levantado da terra atrairei tudo a mim”
(Jo 12, 32)

São estas vossas palavras, ó meu divino Salvador! Vós as pronunciastes quando estáveis sobre a
terra em vossa carne mortal. Dissestes-nos que quando estivésseis elevado sobre a cruz, atrairíeis a
vós os corações de todos os homens; sois a verdade infalível, e eu não poderia duvidar do
cumprimento das vossas palavras; permiti-me então que vos pergunte como é que o meu coração
esteve por tantos anos longe de vós?… Ah! De vós não é que eu me devo queixar. Quantas vezes me
não chamastes vós ao vosso amor, e eu recusei ouvir a vossa voz! Quantas vezes me não perdoastes
as minhas ofensas! Quantas vezes me não advertiste pelos remorsos da consciência que vos não
ofendesse! Eu, apesar de tantas graças, quantas vezes não voltei aos pecados! Ó Jesus meu! Não me
precipiteis no inferno, como eu mereceria; porque ali ver-me-ei constrangido a amaldiçoar para
sempre todas essas graças, que me haveis prodigalizado. Sim, todas essas graças, todas essas luzes
interiores que me concedestes, todos esses ternos convites que me fizestes para dar-me a vós, essa
paciência que tivestes em suportar-me, esse sangue derramado por salvar-me, tudo isso se¬ria para
mim tormento muito mais atroz e mais cruel que todos os demais tormentos do inferno.

Bem o sinto, ó Deus meu! Vós me chamais ainda hoje com terno e ansioso amor como se eu nunca
vos ofendera, e me dizeis:

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração”

Pois que assim o man¬dais, ó meu Senhor! Amo-vos de todo o meu coração: sim amo-vos, porque
sois digno de amor infinito, amo-vos e o meu mais ardente desejo é amar-vos, assim como o meu
maior temor é ser separado de vós e viver sem vosso amor. Por misericórdia, ó meu crucificado
Jesus! não permitais que um só instante eu cesse de amar-vos. Recordai-me sempre a morte que por
mim sofrestes, recordai-me todos os testemunhos do vosso amor, e fazei que sua recordação me
inflame de mais em mais do desejo de amar- vos e consumir-me por vós, por vós que por mim vos
fizestes vitima de amor!

“Quando eu for elevado da terra atrairei tudo a mim”

Senhor Jesus! Cumpri hoje, eu vos suplico, a vossa promessa e atraí-me todo a vós. Terno esposo de
minha alma, puríssimo amor meu, ó meu Jesus! Rei de todas as criaturas, quem me livrará dos meus
laços? “Quem me dará asas” para voar a vós e em vós repousar?
Oh! quando estarei bem desprendido da terra para ver-vos, Senhor Deus meu, e saborear quanto sois
doce? Quando estarei de tal modo absorvido em vós, tão inebriado do vosso amor, que nem me sinta
a mim mesmo, e só de vós viva, nessa união inefável e acima dos sentidos que nem todos conhecem?
Agora só gemer e levar com dor minha miséria; porque neste vale de lágrimas ocorrem muitos males
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que me perturbam, me afligem, e anuviam minha alma.

Muitas vezes me fatigam e me impedem; apoderam-se de mim, envolvem-me, e, impedindo-me um


acesso para junto a vós, privam-me desses deliciosos abraços de que sempre e sem obstáculo gozam
os espíritos celestes. Toquem-vos os meus suspiros, e minha desolação nesta terra.

“Ó Jesus, esplendor da eterna gloria!”

Consolação da alma exilada! Minha boca está muda ante vós, e meu silencio vos fala. Até quando
tardará em vir o meu Senhor? Venha a este pobre que é seu, e restitua-lhe a alegria; estenda a mão
para levantar um miserável sepultado na angustia. Vinde, vinde! Porque todos os dias, todas as horas
se passam na tristeza, porque só vós sois a minha alegria, e só vós podeis encher o vácuo do meu
coração. Oprimido estou de misérias, e qual prisioneiro carregado de ferros, até que me reanimeis
com a luz da vossa face, e me restituais a minha liberdade, e lanceis sobre mim um olhar de amor.

Que outros busquem, em lugar de vós, tudo quanto eles quiserem; a mim nada me agrada, nada
me agradará nunca senão vós só, ó Deus meu! Minha esperança! Minha eterna salvação! Oh!
Atraí-me todo a vós cada vez mais. Minha alma suspira por vós. Ai! Pobre alma; ela saboreou
os prazeres do mundo, e neles só amargura encontrou, a gloria e as honras fatigam-na sem a
contentar; as riquezas deixam-na vazia e sempre inquieta; o mundo todo não pode satisfazê-la;
ele deseja sempre alguma coisa maior e melhor. Vós só, Senhor Deus meu, podeis saciar todos
os seus desejos: atraia-a pois a vós para sempre. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Das Orações Jaculatórias

Duas práticas há, mui conhecidas de todas as almas piedosas, e eu te convido, meu caro Teótimo, a
que te familiarizes com elas; são: primeiro a comunhão espiritual de que te falarei no capitulo
seguinte, e depois o habito de elevar amiúde o coração a Deus por aquilo que se chamam “orações
jaculatórias”. É coisa certa que poucas práticas contribuem tanto como estas duas para tornar uma
alma unida a Deus e habitualmente recolhida. Começa por te acostumares a ver sempre a Deus
presente diante de ti, e a entreteres-te familiarmente com ele como com o melhor amigo. Abre-lhe o
coração, fala-lhe de todos os teus dissabores, de tuas alegrias, de teus temores. Para isto não tens
necessidade de o ir procurar longe: ao pé de ti o tens sempre: se trabalhas, se andas, se estás
sentado, ele nem um instante te deixa; se dormes, ele coloca-se a teu lado, assenta-se de alguma sorte
em teu travesseiro, para melhor velar sobre ti. Dize-lhe muitas vezes:

“Ó meu Deus! Amo-vos de todo o meu coração”

Sabe aproveitar-te de tudo para elevar tua alma a esse bom Pai e te excitarás ao seu amor. Quando,
por exemplo, se te oferece uma bela campina, um sitio agradável, dize:

“Meu Deus, como vossas obras são belas!”

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Ou antes:

“Senhor, as vossas obras têm tanta beleza; que deveis ser vós mesmo?!”

À vista de um castelo, de um magnifico palácio, dize:

“Ai! nestes palácios não é que ordinariamente se acha a verdadeira felicidade; essa só habita no
coração dos que vos amam, ó meu Deus!”

Ou então:

“O que são estes palácios brilhantes de ouro e pedrarias em comparação do Céu? Ó meu Deus,
dai-me o vosso paraíso”

Quando diante de ti se falia de riquezas, glorias, honras, dize:

“Ó Deus meu! Vós só me bastais; sois todo o meu bem e toda a minha gloria”

Se vês um pobre pecador que ofende a Deus, dize:

“Ó Jesus, tende piedade deste homem”

Em seguida tornando a ti mesmo, dize:

“Ai! Eu ainda faria pior, se me abandonásseis à minha fraqueza. Bendita seja a vossa
misericórdia!”

Quando acontece alguma desgraça, ou alguma coisa que te aflige, dize:

“Meu doce Jesus, vinde tomar parte na minha dor e aliviar-me, vós bem vedes o quanto sofro”

Assim também quando estás na alegria convida Nosso Senhor a vir partilhar contigo o teu
contentamento. Exemplos destes poderia eu multiplica-los até ao infinito, mas se tu amas a Jesus não
é preciso estar a sugerir-te o que lhe deves dizer: teu coração saberá inspirar-te. Mas é
particularmente quando cometeste alguma falta que é preciso elevar o coração a Deus afim de evitar
a perturbação e desassossego que só do inferno é que vem. Lança-te com toda a simplicidade aos pés
de Jesus, confessa-lhe a tua falta com a mesma candura que um menino confessa à mãe a sua, e dize-
lhe:

“Eis, ó terno Mestre! Ó meu melhor amigo! Eis do que eu sou capaz: prometo-vos ser-vos fiel, e
a cada instante vos ofendo. Ah! Perdoai-me ainda esta falta, porque eu me arrependo dela e vos
amo, e vinde em meu socorro afim que doravante não vos cause outro desgosto”

Depois desta curta oração conserva-te em paz corno se não houveras pecado. Se cem vezes deves
repetir a mesma súplica, humilha-te, conforma-te e dize sempre:

“Meu Jesus, apesar de minhas quedas continuas não quero cessar de amar-vos e de ter confiança
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em vós; sim, sim, meu Deus, eu vos amo”

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Capítulo XLIII
Jesus o bom pastor
Ego sum pastor bonus: bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis
“Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas”
(Jo 10, 11)

Sim, sim, exclama Santo Agostinho, verdadeiramente Jesus é bom pastor: porque ama as suas
ovelhas mais que a si mesmo, mais que seu repouso, mais que sua vida. Por elas desceu dos
esplendores da sua gloria; por elas revestiu-se dos andrajos da nossa humanidade, e condenou-se a
uma vida dura, laboriosa e cheia de sofrimentos; por elas esgotou todos os tesouros da sua ternura;
por elas final¬mente morreu sobre a cruz.

Jesus é o bom pastor; todos os seus instantes, todos os seus suspiros, todos os seus trabalhos, toda a
sua vida, todo ele mesmo, tudo isto foi consagrado ao bem das suas ovelhas. Era Deus; e, apesar do
seu poder infinito, não pôde fazer mais para lhes testemunhar o seu amor.

Jesus é o bom pastor: vede como suas entranhas se comovem de compaixão por todas essas pobres
ovelhas da casa de Israel, errantes e desgarradas.

Por amor delas ele não se dá descanso nem de dia nem de noite; percorre lugares, aldeias, cidades,
desertos, à procura de algumas de suas ovelhas; ora, geme, pede a grandes brados tua salvação, e
afinal dá a vida para lh’a obter. Vede-o sobre a cruz: está no momento de expirar no meio das mais
atrocíssimas dores, e ainda então o seu amor arrebata ao demônio uma ovelha que este lobo infernal
ia devorar: era o bom ladrão. Vede-o, descer uma outra vez do Céu para conduzir ao aprisco outra
ovelha desgarrada: Era São Paulo. Que digo? Vede-o, vede este bom pastor ao lado de cada um de
nós dizendo-nos incessantemente:

“Filho, não fujas: vem, eu te estendo os braços; vem, eu te reconduzirei a pastos muito
abundantes; vem, que eu te encherei de minha graça e amor”

Jesus é o bom pastor:

“Ele conhece as suas ovelhas, e suas ovelhas conhecem-no a ele”

Oh! Que bom é viver ao pé deste bom pastor tão cheio de ternura por suas ovelhas! Oh! feliz da alma
que o não deixa nem um instante: ela recebe da sua própria mão as mais doces carícias e as graças
mais preciosas. Ora uma alma permanece constantemente junto a Jesus, pastor divino, quando se
esforça por viver no mais profundo recolhimento, humildade e compunção. O recolhimento obtém-se
pela oração e pela mais exata e escrupulosa fidelidade a todos os deveres; a humildade adquire-se
pela recordação das nossas misérias e impotência para o bem, e sobretudo por humilhações
voluntárias; enfim mantém-se em nossa alma a compunção pelo pensamento do amor de Deus para
conosco e dos pecados cometidos contra ele.

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Jesus é o bom pastor: tem sempre os olhos sobre as ovelhas. Se alguma se desgarra, busca-a por
todos os lugares, corre atrás dela com a mais viva solicitude, e não descansa enquanto a não acha e a
torna a reconduzir ao aprisco. Ó bom Jesus! Posso eu clamar a todas as criaturas que vós sois o bom
pastor, eu que de maneira tão inefável experimentei vossa misericordiosa ternura! Ai! “errei como
uma pobre ovelha que corre à sua perdição”; caí de desvario em desvario, deixei-me ir após todos
os desregrados desejos do meu coração; deixei o caminho da inocência pelo vicio; “cansei-me nas
veredas da perdição”. E no entanto vós, ó Jesus meu! Vós não me abandonáveis; eu me afastava de
vós mais e mais, e vós nunca me perdíeis de vista; todos os meus passos e todos os meus movimentos
eram novos princípios; eu entregava-me sem medida ás minhas paixões, e vós guardáveis profundo
silencio. “Ó tortuosas vias”! Infeliz de mim que pude capacitar-me que, apartando-me do meu Deus,
encontraria outra coisa melhor que ele! Ai! por infelicidade já tenho demasiada experiência das
penas e angustias que atormentam o coração ingrato que busca repouso fora de vós, ó doce Jesus! Ah!
Que anos passei sem vos amar! Que anos perdi no serviço do demônio, do mundo e dais paixões!
Que anos tomei a peito calcar aos pés os sinais do vosso amor e ser rebelde ás vossas inspirações! E
vós, ó Deus meu! Vós usáveis de paciência para comigo; as minhas misérias aumentavam e vós vos
aproxima- veis insensivelmente de mim; a vossa doce mão se ia chegando, chegando, sem eu dar por
ela, para tirar-me do lodo e purificar-me. Ó Jesus! bom pastor! Que ações de graças vos darei por
tanto amor?

Jesus é o bom pastor, ele ama as suas ovelhas a ponto de as nutrir do seu próprio corpo e do seu
próprio sangue. Ah! Que pastor se sacrificou jamais assim por seu rebanho? Só Jesus era capaz de tal
excesso de amor. Muitas mães recusam nutrir seus filhos e os dão a amamentar a estranhos; não assim
o nosso bom Salvador; não contente com dar-nos sua vida e merecimentos, quer ser ainda nosso
sustento.

Senhor Jesus, como é possível que eu pudesse abandonar um Senhor tão terno e tão cheio de amor?
Ah! Que felicidade a minha se, ovelha fiel, sempre me conservara junto a vós!… Mas, ai! O mal está
feito, fui ingrato e me apartei do meu melhor amigo. Bom Jesus, tende de mim piedade; eis que eu
volto a vós todo coberto ainda das chagas que recebi e todo confuso da minha fugida; eu vos suplico,
não me rejeiteis. Recordai-vos, ó meu querido Salvador! Que sou uma dessas pobres ovelhas pelas
quais destes a vida. Lançai ainda sobre mim um desses olharas de misericórdia que outrora lá do alto
da Cruz deixastes cair sobre os pecadores, quando por minha salvação exalastes o ultimo suspiro.
Sim, Jesus meu, concedei-me ainda um desses doces olhares; mudai-me, fazendo-me melhor e salvai-
me. Pois que! Não sois vós aquele pastor cheio de amor, “que, tendo perdido uma de suas ovelhas,
deixa as outras noventa e nove no deserto, para se ir após a que se perdeu, até que a ache; não
sois vós que, depois de a achar, a pondes sobre os vossos ombros cheio de alegria, e chamais
depois vossos amigos e vizinhos”, isto é, os anjos santos, e lhes dizeis:

“Regozijai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido?”

Sim, meu Jesus, sois vós mesmo, e eu sou essa pobre ovelha desgarrada. Eis-me a vossos pés, e
espero que me tomeis em vossos braços, para me reconduzir ao aprisco. Oh! Jesus! Bom Jesus!
Não priveis o Céu da alegria que ele sentirá vendo-vos voltar com um pobre pecador de que
tereis feito um santo! Recebei-me ainda no numero de vossas ovelhas queridas.

Ah! Se por minha falta ainda me não pudestes encontrar desde que com tanto amor andais em
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minha procura, recolhei-me agora que me venho lançar a vossos pés, e prendei-me estreitamente
a vós, para que não mais volte à minha perda. É preciso que o vosso amor seja o laço que a vós
me tenha vinculado; porque se vós me não retendes por esta doce cadeia, escapar-vos-ei de
novo. Ah! Senhor, vós não é que tivestes a culpa de eu não ter estado sempre unido a vós pelo
laço do vosso amor; eu, eu ingrato como era, é que me conservei sempre afastada de vós por
minha fugida. Mas agora eu vos conjuro por esta infinita misericórdia que vos fez descer sobre
a terra afim de me procurar, prender-me a vós, mas prender-me com um laço dúplice de amor,
afim de que nem vós me percais mais a mim, nem eu a vós. Meu querido Redentor! Não quero
mais separar-me de vós; renuncio a todos os bens e prazeres do mundo, e ofereço-me a sofrer
toda a sorte de penas e todo o gênero de morte, contanto que viva e morra unido sempre a vós.
Eu vos amo, amabilíssimo Jesus; amo-vos, ó meu bom pastor, que morrestes por vossa ovelha
transviada! Oh! Ficai-o sabendo bem, esta ovelha agora ama-vos mais do que a si mesma e
outra coisa não quer mais que amar-vos e consumir-se por vosso amor. Tende piedade dela, ó
Jesus! Amai-a, e não permitais que doravante se afaste jamais de vós. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Da Comunhão Espiritual

No capitulo precedente prometi falar-te da comunhão espiritual; cumpro a minha palavra. Bom é que
saibas, meu caro Teótimo, que segundo a doutrina do concilio de Trento, pode-se comungar de três
modos: o primeiro, comunhão só sacramental; o segundo, só espiritual, e o terceiro, sacramental e
espiritual. Não trato aqui da primeira, que é a que só fazem os que comungam em estado de pecado
mortal, nem da terceira que é comum a todos os que recebem Jesus Cristo em estado de graça; mas
unicamente da segunda que, segundo as formais palavras do mesmo concilio, “consiste num desejo
ardente de se nutrir deste pão celeste, com uma fé viva que opera pela caridade e que nos torna
participantes dos frutos e graças deste sacramento“. Portanto, segundo esta doutrina, os que não
receberem realmente a Eucaristia, recebem-na espiritualmente, formando ato de fé viva, caridade
ardente, e desejo vivo de se unirem ao sumo bem: é assim que se põem no estado de participar dos
frutos deste divino sacramento.

Para te facilitares nesta prática tão vantajosa, pensa bem, meu caro Teótimo, no que vou dizer-te.
Quando assistires à santa missa e o padre estiver para comungar, (estando tu mesmo na mais modesta
postura e no mais recolhimento), faze de todo o coração um ato de verdadeira contrição, e ferindo
humildemente o peito, para mostrares que te confessas indigno de graça tão grande, faze todos os atos
de amor, oferecimento, humildade e outros que costumas fazer quando te aproximas da sagrada mesa.
Junta-lhes o mais vivo desejo de receber a Jesus Cristo que por nós quis velar-se sob as espécies
sacramentais; e, para reanimar a devoção, imagina que a Santa Virgem ou qualquer de teus santos
patronos, vem trazer-te a santa hóstia; afigura-te que a recebes realmente; e tendo Jesus estreitamente
unido ao coração, repete por muitas vezes e por diferentes intervalos, em termos ditados pelo amor:

“Vinde, Jesus meu, amor e vida da minha alma; vinde a este pobre coração, vinde e saciai os
meus desejos; vinde e santificai a minha alma; vinde, ó dulcíssimo Jesus, vinde”

Conserva-te depois em silêncio, e contempla o teu Deus dentro de ti mesmo; e, como se realmente
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comungarás, adora-o, agradece-lhe e faze todos os atos ordinários depois da comunhão.

Ora, meu caro Teótimo, persuade-te bem que esta comunhão, tão negligenciada pelos cristãos dos
nossos dias, é, não obstante, um verdadeiro tesouro, que enche a alma de uma infinidade de bens; e,
segundo muitos autores, entre outros o Padre Rodrigues na “Prática da perfeição Cristã” (Tratado
VII, Cap. XV) ela é tão útil, que pode produzir as mesmas graças que a comunhão sacramental, e
mesmo maiores ainda; porque, bem que a comunhão sacramental seja de sua natureza de um grande
fruto, pois sendo um sacramento, opera por virtude própria, pode contudo muito bem uma alma
desejosa da sua perfeição fazer uma comunhão espiritual com tanta humildade, amor e devoção, que
mereça graça maior do que a alcançada por uma alma que comunga sacramentalmente, mas com
menos fervor e preparação… Seria possível que tão grandes bens não fizessem impressão alguma
sobre ti? Que escusa daqui por diante podes tu dar se também desprezas uma prática tão santa e tão
útil? Toma a resolução de a fazer frequentemente, e nota que a comunhão espiritual tem a vantagem
sobre a sacramental em que esta se pode fazer só uma vez ao dia, ao passo que aquela pode-se fazer
não só a todas as missas que ouças, mas em todo o tempo do dia; de manhã, à tarde, de dia, de noite,
na Igreja, em teu quarto, sem mesmo teres necessidade da licença do confessor. Numa palavra,
quantas vezes fizeres o que acabo de indicar-te, tantas farás a comunhão espiritual, e enriquecerás a
tua alma de graças, de méritos e de toda a sorte de bens. Quantas almas por esta prática voluntária,
reiterada muitas vezes durante o dia, chegaram a uma grande santidade! (Extraído do “Manual de
piedade para uso dos seminários”)

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Capítulo XLIV
Do amor de Deus e dos principais meios de o adquirir
Nos ergo diligamus Deum, quoniam Deus prior dilexit nos
“Amemos pois a Deus, porque Deus nos amou primeiro”
(1Jo 4, 19)

Deus ama-nos: não o podemos duvidar depois de tudo o que ele fez por nós. Ama-nos com a mais
viva ternura e como se fôramos necessários à sua felicidade: ama-nos, apesar das nossas ingratidões,
apesar das nossas misérias; ama-nos e quer de nós ser amado.

“Meu filho, diz ele a cada homem em particular, meu filho, tu a quem eu criei, a quem eu remi, a
quem eu acumulei de benefícios, dá-me o teu coração; uma só coisa te peço: que me ames”

Mas não contente com nos incitar a ama-lo pela multidão de seus benefícios, não contente com atrair-
nos ao seu amor pelas mais doces expressões, Ele nos ordena expressamente:

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças”

Ó meu Deus! o que sou eu para vós, e em que sou digno para que me man¬deis amar-vos? E não
obstante vós mandais-mo: se não cumpro, vossa cólera inflama-se contra mim, e ameaçais-me com
terríveis misérias, como se, ai! não fora uma já bem grande o não amar-vos!

Feliz, mil vezes feliz a alma que pode com verdade dizer: Amo ao meu Deus, ele é meu e eu sou
dele! Feliz, mil vezes feliz a alma que possui o tesouro do amor de Deus! Oh! Precioso tesouro, em
comparação do qual são nada todos os tesouros de mil milhões de mundos! Quem o não possui faça
todos os esforços por conquista-lo: e quem o possui ponha todos os seus cuidados em o conservar e
aumentai. Eis aqui os meios mais úteis e mais próprios para chegar a estes dois fins tão desejáveis.

I. Consiste o primeiro meio em nos desprendermos das afeições terrestres, porque em coração cheio
da terra não pode encontrar lugar o amor de Deus. Se pois desejamos ter o coração cheio do amor
divino, devemo-nos esforçai1 por desapega-lo de todos os objetos terrenos, porque quanto mais
amamos as criaturas, tanto menos amamos o Criador. Imitemos o belo exemplo do apóstolo São
Paulo que “por ganhar o amor de Jesus Cristo, desprezava como esterco todos os bens deste
mundo”. Peçamos ao Espírito Santo nos inflame do seu puro amor, porque então também nós
desprezaremos como vaidade, esterco e lodo, as riquezas, as honras e as dignidades deste mundo,
pelas quais a maior parte dos homens se perdem miseravelmente.

Depois que um cristão recebeu em seu coração o precioso deposito do amor de Deus, nenhum caso
faz mais do que o mundo estima. Para ele, o amor de Deus é tudo; e, segundo a linguagem da
Escritura, “quando mesmo ele desse todas as riquezas de sua casa para adquiri-lo, despreza-las-ia
como se nada houvera dado”; o preço do amor de Deus lhe parece infinitamente acima de todo o
objeto criado! Ó Jesus, meu Salvador! ponde, eu vos suplico, em meu pobre coração um amor por
vós tão puro, tão vivo, tão terno, que nada no mundo me possa agradar senão vós só. Fazei-me
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compreender que só estou na terra para amar-vos, e que nenhuma criatura deve possuir a mínima
parte deste coração que só para vós criastes. Fazei-me compreender quanto sois amável, ó doce
Jesus! que então amar-vos-ei de toda a minha alma; mais do que a mim mesmo, mais que a todo o
mundo; amar-vos-ei a vós só e sem partilha; amar-vos-ei e trabalharei com ardor em vos fazer amar;
amar-vos-ei desde agora e para todo o sempre.

Um cristão que verdadeiramente ama a Deus faz todos os esforços para amar só a ele. Sabe que,
segundo a expressão da Escritura, ele é um Deus cioso; que não pode sofrer, no coração que o ama,
rival algum; que quer possuir esse coração todo; e aplica-se a arrancar de sua alma até as mínimas
raízes de uma afeição que não seja de Deus e por Deus. — Mas, objetará talvez alguém, não pede
Deus demasiado exigindo que uma alma nada mais ame que a ele, e só a ele? Não, responde São
Boaventura; porque uma bondade, uma amabilidade in¬finitas, um Deus digno de amor infinito, pode
com toda a justiça exigir que ele seja só e o único objeto de amor de um coração que somente foi
criado para o amar; pode exigir ser ele unicamente amado deste coração, pois para obter este amor
fez tudo por ele, e que, segundo a expressão de São Bernardo, sacrificou-se inteiramente por ele.

Não, Deus meu, não, vós não exigis nada de mais pedindo-me o coração. Eu vo-lo dou sem reserva e
para sempre; dignai-vos aceitar esta homenagem.

Ai! Que eu não possa oferecer-vos senão um coração tão duro, tão insensível, tão carecido de tudo e
tão miserável! Tornai-o digno de vós, pois que ele agora vos pertence; derramai nele algumas de
vossas graças especiais, ou antes, vinde vós mesmo estabelecer nele vossa morada. Sim, meu doce
Jesus! vinde, vinde: este pobre coração por vós espera; arde do desejo de vos ansiar e de vos amar
só a vós; suspira por vossa doce presença: só quer o vosso amor, porque o amor das criaturas nunca
o pode satisfazer. Ah! Por quem sois, vinde, vinde!

Feliz a alma que chegou a tal grau de amor de Deus, que nenhum repouso pode achar em tudo o que
não é Deus! Se ai queremos chegar, é preciso abstermo-nos de pôr nossa afeição nas criaturas, com
receio de que elas não vão tirar a Deus parte do amor que ele quer todo para si. Ora bem que estas
afeições sejam honestas, como o são as que temos a nossos parentes e amigos, é preciso pôr atenção
no que diz São Filipe Neri:

“Quanto amor concedemos à criatura, tanto tiramos a Deus”

Quando pois alguma criatura quer entrar em nosso coração para dele tomar posse, devemos recusar-
lhe absolutamente a entrada; para o que voltemo-nos para Jesus Cristo e digamos-lhe:

“Meu Jesus, vós só me bastais; quero amar só a vós, ó meu Deus! Só vós sereis o único Senhor
do meu coração, o meu único amor”

Oh! Que felicidade, quando chegarmos a desprender-nos de toda a criatura! Peçamos ao Senhor que
nos faça o dom do seu puro amor, porque, segundo a expressão de São Francisco de Sales, o puro
amor de Deus consome em nós tudo o que não é Deus, e muda todas as coisas nele. Peçamos-lhe que
purifique o nosso coração de todo o afeto desregrado ás criaturas, afim que possamos voar ao seu
seio e ali repousar. Oh! Quantas almas ricas em virtudes e graças, que por não terem força e coragem
para renunciar a tal ou tal afeiçãozinha desregrada, não podem chegar à união divina; quando bastar-
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lhe-ia um generoso rasgo, para romper o fio que as retém e prende à terra! Adquiririam por este
modo tesouros infinitos de graça preciosas, porque então Deus se comunicaria interiormente a elas.
Ai! Eu mesmo talvez serei do numero dessas almas infelizes. Ó meu Deus! “Quem me dará asas
como à pomba”. Quem me dará um coração puro e inteira¬mente desimpedido de toda a afeição
terrena, “e eu voarei ao vosso sejo, e nele tomarei doce e pacifico repouso?”. Meu Jesus, ajudai-me
a me desembaraçar de tudo; eu o quero, eu o desejo. Ah! Vinde em meu socorro. Sim, eu prefiro-vos
a tudo, à saúde, ás riquezas, ás dignidades, ás honras, aos louvores, ás ciências, ás consolações e até
ás graças e benefícios que de vós possa receber, prefiro-vos a tudo o que não sois vós, ó meu Deus!
Tudo o que me possais dar não me basta, se vos não dais a vós mesmo, ó Deus do meu coração! a
vós só quero, e a nada mais. Esclarecei-me, para que eu saiba o que quereis que eu arranque do
coração, e dai-me a força de executar o vosso desejo, porque quero obedecer-vos em tudo. Vinde, ó
Jesus meu! vinde à minha pobre alma; vinde tomar dela inteira posse para o tempo e para a
eternidade.

II. O segundo meio para chegar ao perfeito amor de Deus, é o conformar-se em tudo com a sua divina
vontade. O perfeito amor de Deus não pode querer senão o que Deus quer. Muitos dizem de boca que
estão totalmente resignados com a vontade do Senhor; mas, quando lhe sobrevém alguma
contrariedade, alguma enfermidade penosa, não podem conservar-se em paz. Assim não obram as
almas verdadeiramente submissas; estas dizem: “Isto apraz, ou isto aprouve ao objeto do meu
amor”, e logo ficam em paz. É que estas almas bem sabem que tudo quanto no mundo sucede, tudo é
mandado ou permitido por Deus. Assim, qualquer coisa que aconteça, abaixam humildemente a
cabeça e vivem contentes com tudo o que apraz ao Senhor enviar-lhes.

“Se Deus me colocasse no fundo do inferno, dizia Santa Catarina de Gênova, eu não deixaria de
dizer: Aqui estou bem; basta achar-me aqui por vontade de Deus, o qual me ama mais que todos
os homens, e sabe tudo o que é melhor para mim”

Mui em seguro está, quem repousa nos braços da sua divina bondade. Santa Catarina ensina-nos que

“Tudo o que deve fazer quem se exercita na oração, é conformar-se com a vontade de Deus, na
qual consiste toda a perfeição. Para isso devemos repetir sempre a prece de David: Pois que
quereis que eu me salve, Senhor, ensinai-me a fazer sempre a vossa santa vontade”

O mais perfeito ato de amor que possa fazer uma alma, é o que São Paulo fez no momento da sua
conversão, quando disse:

“Senhor, que quereis de mim? Eu estou pronto a fazê-lo”

Este ato tem mais valor do que mil jejuns e mil austeridades. Fazer a vontade de Deus, este deve ser
o alvo de todas as nossas obras, de todos os nossos desejos, de todas as as nossas orações.
Supliquemos pois à nossa divina Mãe, aos nossos santos patronos, aos nossos santos anjos da
guarda, que nos obtenham a graça de cumprirmos sempre a vontade de Deus, e quando nos
acontecerem coisas contrarias ás nossas inclinações e ao nosso amor próprio, aproveitemos ocasião
tão bela de amontoar tesouros de méritos por um ato de resignação, e tomemos o santo habito de
repetir estas palavras que Jesus mesmo nos ensinou com o seu exemplo:
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“Senhor, pois que esta é a vossa vontade, esta será também a minha”

Digamos também com o santo homem Jó:

“Deus o quis; seja bendito o seu santo nome”

Assegura o venerável mestre Ávila que um só — Deus seja bendito — na adversidade, vale mais
que mil ações de graças na prosperidade. É aqui lugar de repetir o que acima disse, que bem seguro
está quem repousa nas mãos da bondade de Deus, porque então se verifica esta palavra do Espírito
Santo:

“Nada pode perturbar ou conquistar o homem justo; qualquer coisa que lhe sobrevenha, acha-o
sempre em paz”

III. O terceiro meio para obter o amor de Deus é a oração mental (1). As verdades eternas não se
percebem com os olhos da carne, como as coisas visíveis deste mundo; só pelo pensamento e
reflexão se alcançam: de modo que se nos não demo¬ramos por algum tempo em considera-las todas
e especialmente as que dizem respeito à obrigação que temos de amar a Deus, pois ele o merece por
todos os benefícios de que nos acumulou e pelo amor que nos há tido, bem difícil é que nossa alma se
desligue de toda a afeição ás criaturas, e ponha o seu amor só em Deus. Na oração, o Senhor faz
conhecer a vaidade das coisas deste mundo e o preço dos bens celestes; na oração, inflama os
corações que não resistem ás suas inspirações, e lhes comunica abundantes e preciosas graças.
Muitas almas queixam-se de que quando fazem oração não acham nela a Deus; é que elas a fazem
com um coração cheio de coisas da terra.

“Desprendei o coração das criaturas, diz Santa Thereza, procurai a Deus e encontrá-lo-eis”

Sim, encontrá-lo-eis:

“Porque Deus é cheio de bondade para os que o buscam”

Para achar a Deus na oração é preciso pois que a alma se despoje da afeição ás coisas terrenas, e
então Deus falar-lhe-á ao coração.

“Eu a conduzirei à solidão, diz o Senhor, e ali falarei ao seu coração”

Não é da solidão exterior que aqui se trata; utilíssima é, mas não basta: é preciso ainda a solidão do
coração, que consiste no desprendimento das criaturas e na calma das paixões. O Senhor disse um
dia a Santa Thereza:

“Eu falaria de boa vontade a muitas almas; mas tal ruído faz o mundo em seu coração, que minha
voz não se pode lá fazer ouvir”

Ah! Quando uma alma desimpedida se põe em oração, como Deus lhe falia claramente e lhe faz
conhecer o amor que tem por ela! E então a alma, diz um autor, a alma, ardendo de um santo amor, já
não falia; mas seu silencio é tão expressivo! O silêncio do amor diz mais a Deus que toda a
eloquência humana: os suspiros fazem conhecer tudo o que se passa no interior desta alma; então ela
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não se satisfaz de repetir:

“O meu amado é meu, e eu sou dele”

Verdade é que muitas vezes almas ainda as mais santas e desimpedidas só experimentam tédio na
oração, mas é Deus que as quer provar; a estas almas pois digo eu: Não desalenteis por causa das
se¬curas que na oração sentis, e não imagineis que por ser cheia de distrações foi inútil. Quando
sobrevém estas distrações repeli-as com toda a paz; ponde- vos depois docemente e sem turbação na
presença de Deus e dizei-lhe incessantemente:

“Meu Deus, tende piedade de mim! meu Deus, tende piedade de mim! Senhor, não mereço
vossas consolações. Ai! Eu mereci tantas vezes o inferno e vossa maldição eterna!… Meu
Jesus, dai-me o vosso amor”!…

O sagrado dom da oração, diz São Francisco de Sales nas suas cartas, está sempre disposto na mão
direita do Salvador; apenas tu estejas vazio de ti mesmo, isto é, do amor do teu corpo e da tua
própria vontade, quando fores bem humilde, ele derramá-lo-á em teu coração. Tem a paciência de ir
devagarinho, até que tenhas pernas para correr, ou antes asas para voar. Deus encherá teu vazo de seu
balsamo, quando o vir vazio dos perfumes do mundo. Não fazes nada na oração, me dizes tu. Mas que
mais querias tu fazer que o que fazes, que é apresentar e representar a Deus tua miséria? O mais belo
discurso que os mendicantes nos possam fazer é expor a nossos olhos suas ulceras, e necessidades.
Mas ás vezes nem isso mesmo fazes, como tu me dizes; mas estás para ali como um fantasma, uma
estátua. Pois muito bem! Isso já não é pouco. Nos palácios dos príncipes e reis põem-se lá estátuas
que somente servem de recrear a vista do principie. Contenta-te com servir também de estátua na
presença de Deus; ele animá-lo-á quando lhe aprouver. Às vezes está-se realmente na oração como
uma verdadeira estátua; parece que não se pode nem pensar, nem falar, nem refletir, nem orar.

Que fazer pois? Abandonar este piedoso exercício? Certamente que não. Crer que, nossa oração não
é agradável a Deus? Ainda menos. É preciso permanecermos simplesmente onde Deus nos pôs; quer
que sejamos estátuas diante dele, acha nisto a sua gloria, porque havemos de querer o contrário? Se
uma estátua que se tivesse colocado em um nicho, no meio de uma sala, tive-se fala, e se lhe
perguntasse:

— Por que estás tu ai?


— Porque, diria ela, o estatuário, meu Senhor, me pôs aqui.
— Por que te não moves?
— Porque ele quer que eu permaneça imóvel.
– De que serves tu ai? Que proveito tiras de estares assim?
— Não é por meu serviço que eu aqui estou; é para servir ao meu senhor e obedecer à sua vontade.
— Mas tu não o vês?
— Não, dizia ela, mas vê-me ele, a mim, e gosta que eu esteja onde me pôs.
— Mas não querias ter movimento para ir mais para perto dele?
— Não, só se ele me mandasse.
— Não desejas então nada?
— Não, porque estou onde me colocou o meu senhor, e o seu gosto é o único contentamento do meu
coração. Meu Deus, que boa oração e que boa maneira de nos conservarmos na vossa presença, o
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termo-nos unido à vossa vontade e bel prazer! Tenho para mim que Santa Maria Madalena era uma
estátua em seu nicho, quando, sem dizer palavra, sem se mover, sem talvez para ele olhar, escutava o
que nosso Senhor lhe dizia, assentada a seus pés; quando ele cessava de falar, cessava ela de escutar;
mas sempre estava lá. Um menino que está sobre o seio de sua mãe adormecido está verdadeiramente
em seu bom e apetecido lugar, bem que ela não lhe diga palavra, nem ele a ela.

Nunca abandoneis pois o santo exercício da oração mental e vocal. Ai! Nós estamos desprovidos de
tudo: mas, se oramos, tornamo-nos ricos, porque Deus prometeu ouvir a quem lhe pede. Ele disse-
nos:

“Pedi e recebereis”

Que maior prova de amizade pode dar um amigo ao outro que dizer-lhe:

“Pede o que quiseres e eu dar-te-ei?”

Pois bem, esta é a linguagem que o Senhor usa para com cada um de nós. Deus é o Senhor de tudo
quanto existe, e promete dar quanto se lhe pede. Se pois estamos pobres, a culpa é nossa; é que nós
não lhe pedimos as graças de que precisamos. Assim é verdade dizer-se que a oração mental é
moralmente necessária a todos, porque sem a oração, embaraçados como estamos com os cuidados
do mundo, pouco pensamos em nossa alma; ao passo que quando nos pomos em oração, apercebemos
nossas necessidades, pedimos graças e as alcançamos.

A vida dos santos foi uma vida de oração; todas as graças que contribuíram para fazê-los santos,
alcançaram pela oração. Se pois queremos salvar-nos, e fazer-nos santos, devemos conservar-nos
sempre ás portas da divina misericórdia, para pedir e implorar tudo quanto necessitamos. Temos
falta de humildade, peçamos-lh’a e seremos humildes; ternos falta de paciência nas tribulações,
peçamo-la, e seremos pacientes; desejamos o amor de Deus, peçamo-lo, e obtê-lo-emos. Petite, et
dabitur vobis: pedi e dar-se-vos-á: é promessa do nosso Salvador, e ele será fiel. Este bom Mestre
para dar-nos maior confiança na oração assegura-nos que, quaisquer graças que peçamos em seu
nome, seja por seu amor, seja por seus merecimentos, seu Pai no-las concederá todas. Diz ainda
noutro lugar:

“Tudo o que me pedirdes a mim mesmo, em meu nome e por meus merecimentos, fá-lo-ei

Que mais queremos que uma tal promessa? Acostumemo-nos pois a orar incessante¬mente,
acostumemo-nos, mesmo no meio das nossas ocupações, a elevar a todo instante nossos corações
para Deus, por ardentes orações jaculatórias;, peçamos-lhe muitas vezes o perdão dos nossos
pecados, a graça da perseverança final, e acima de tudo o seu santo amor. Digamos-lhe pois a cada
hora do dia e da noite:
Deus meus et omnia! Meu Deus! Só a vós quero e a nada mais. Senhor, a vós me dou todo; e, se me
não sei dar a vós como devo, tomai-me vós mesmo. Oh! A quem amarei eu, pois, se não vos amo, a
vós, que morrestes por mim?

Thahe me post te. Meu Salvador! Tirai-me do lodaçal dos meus pecados e atrair-me a vós. Prendei-
me, Senhor, estreitíssimamente com as cadeias do vosso amor, para que nunca vos abandone.
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Quero ser todo vosso, Senhor; ouvistes? quero ser todo vosso, concedei-me esta graça, eu vô-lo
conjuro. Que outra coisa quero eu senão a vós? Pois que me chamastes ao vosso amor, dai-me a força
de vos ser agradável como desejais.

E a quem quero eu amar senão a vós, ó meu Deus! que sois a bondade infinita, digno de amor
in¬finito! Vós me inspirastes o desejo de ser vosso, completai vossa obra. Que outra coisa posso eu
desejar neste mundo senão a vós mesmo que sois o meu soberano bem.

IV. O quarto meio para adquirir o amor divino, é meditar na paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. É
certo que se Jesus Cristo é tão pouco amado no mundo, é isto efeito da negligência e ingratidão dos
homens, que não querem, ao menos de tempos a tempos, refletir sobre tudo o que ele por nós sofreu,
e no amor com que sofreu. Parece-me uma loucura, exclama São Gregório, que um Deus tenha
querido morrer para nos salvar a nós, a nós pobres escravos; e no entanto é de fé que Deus o fez, e
que quis derramar todo o seu sangue para nos purificar dos nossos pecados.

Ó meu Deus! Exclama São Boaventura, e vós amais-me tanto, que parece terdes-vos odiado a vós
mesmo! Não só quisestes morrer na cruz, no meio das mais atrocíssimas dores, mas levastes vosso
amor até serdes vós mesmo minha nutrição na santa comunhão; não contente com esta prova de amor,
quereis ainda ficar conosco sob as espécies eucarísticas até à consumação dos séculos, para serdes
nosso refúgio e consolação nas misérias destas vida. Ó Jesus! Sim, repito, vós amais-nos tanto que
parece terdes-vos aborrecido a vós mesmo. Digo ainda mais com Santo Tomás, “vós abaixastes-vos
conosco, como se fôreis nosso escravo e cada um de nós fora vosso Deus”. Ó Jesus! Que grande
que é vosso amor!

Meditemos; meditemos o mistério da paixão do nosso bom Mestre, e para logo sentiremos a nossa
alma inflamar-se de amor por ele. Ó céu! O que não fazem os homens por amor de uma miserável
criatura quando a tomem em sua afeição? E a um Deus de bondade e beleza infinitas, a um Deus que
por nossa felicidade fez tudo, não o amaremos? Lancemos os olhos sobre o nosso crucifixo,
contemplemos o nosso Jesus que nos estende os braços, e ousemos recusar-lhe ainda a nosso amor! Ó
meu Jesus crucificado! Tende piedade de mim! tende piedade de mim! abrandai a dureza do meu
coração, e convertei meus olhos em duas fontes de lágrimas, afim que chore incessantemente vossas
excessivas dores e os meus pecados que foram sua causa. Jesus! Jesus! Tende piedade de mim e
inebriai-me do vosso puro amor.

Diz São Boaventura que nada há mais próprio para santificar uma alma que a meditação da paixão de
Jesus Cristo; e assim dá-nos ele o conselho de a meditarmos todos os dias, se queremos fazer
progresso no amor de Deus. Santo Agostinho assegura-nos também que uma só lágrima que se
derrame pela lembrança da paixão é mais agradável a Deus e mais meritória para uma alma, que
jejuns e macerações continuas. Por esta razão é que os santos se ocuparam sempre da meditação nos
sofrimentos de Jesus Cristo. Pela meditação contínua da paixão é que São Francisco de Assis se
converteu em serafim. Um dia em que ele derramava lágrimas em abundância, perguntou-lhe alguém
porque chorava daquele modo!

“Ai! Meu irmão, respondeu, choro os sofrimentos e ignomínias do meu Salvador, e o que mais
que tudo me aflige, é o ver que os homens por quem ‘ele tanto padeceu, nem sequer nisto
pensam”
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Ao pronunciar estas palavras, suas lágrimas aumentavam de sorte que o que havia interrogado não se
pôde conter que não chorasse também. O balido de um cordeirinho ou qualquer outro objeto que lhe
lembrasse a paixão bastava a este santo para lhe fazer derramar lágrimas. Um dia que estava doente,
um dos que lhe assistiam lhe aconselhou que fizesse ler algum livro de piedade.

“O meu livro, respondeu ele, é Jesus crucificado”

Que este seja também o nosso, e em breve teremos aprendido nele a amar a Deus de todas as nossas
forças. O1 alma minha! ama ao teu Deus amarrado, encadeado como vil escravo, ao teu Deus
escarnecido, esbofeteado, flagelado e crucificado para tua salvação. Sim, meu doce Salvador! Amo-
vos, quero amar-vos para todo o sempre. Recordai-me a todo o instante o que sofrestes por mim,
afim que jamais me esqueça de amar-vos. Laços sagrados que encadeastes o meu Divino Mestre,
espinhos que coroastes sua adorável cabeça, feri-me de amor por Jesus; cravos venerandos que
trespassastes os pés e mãos do meu Salvador, cravai-me afim que eu viva e morra unido a Jesus;
sangue precioso, inebriai-me do amor de Jesus; Jesus morto por meu amor, fazei que eu morra a todas
as afeições terrenas afim de não mais viver senão para vós. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Portar-se em tudo com o nosso Deus como um menino se dá com o melhor dos
pais, com toda a Simplicidade e Confiança
Meu caro Teótimo, dá-te a consciência o consolador testemunho de que amas a Deus de toda a tua
alma e mais que a todo o mundo?

Ah! Meu Padre, ama-lo tanto como Ele merece, sinto que não o amo; mas parece-me que o meu
ardente desejo é ama-lo sempre mais e mais. Quanto mais o amo, mais ama-lo quero; quanto mais
aprendo a conhece-lo, mais vejo quanto ele merece todo o meu amor.

— És feliz, meu caro Teótimo, e tua sorte é verdadeiramente digna de inveja; pois agrada a Deus
aquele a quem Deus agrada, e é sinal de o amarmos e desejarmos ama-lo.

— Meu padre, não podeis imaginar quanto fiquei consolado com a vossa resposta; se é tão doce o
pensar que somos agradáveis a Deus! Mas peço me queirais dizer o que devo fazer para testemunhar
a este bom Pai todo o amor de que o meu coração está abrasado para com ele. Por sua misericórdia,
sou já fiel a todos os seus mandamentos e aos de sua Igreja; aproximo-me frequentemente dos
sacramentos da Penitencia e da Eucaristia; sou exato no cumprimento de todos os deveres do meu
estado; por nada do mundo quereria cometer, com pleno consentimento, um só pecado venial, e
trabalho por desprender o coração de todas as coisas criadas. Que pensais, meu Padre, deva eu fazer
para lhe agradar mais?

— Só uma coisa, meu caro Teótimo: teres confiança filial e sem limites em sua bondade e
misericórdia, abandonares-te sem reserva á sua divina vontade. Jesus, nosso Mestre, quer que nos
hajamos com ele como o nosso melhor amigo, nas doenças, nas desolações interiores, nas
consolações e sucessos, nos escrúpulos; quer que lhe recomendemos tudo o que nos diz respeito e
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tudo o tocante ás pessoas que amamos; quer que lhe façamos parte dos nossos temores e esperanças,
e tudo isto com a mais perfeita simplicidade.

Sê pois fiel daqui em diante em abandonar-te com confiança ao amor e misericórdia do nosso bom
mestre.

1. Nas Doenças
Quando estás doente, quando sofres alguma enfermidade, aproxima-te de Jesus e dize-lhe:

“Terno amigo do meu coração, vede quanto eu sofro, e apressai-vos a me socorrer. Submeto-me
à vossa boa vontade; quereis que esta doença me dure muito tempo, também eu quero; quereis
que me passe, quero também o mesmo. Fazei a vossa vontade, ó meu Deus; pronto estou para
tudo. Ofereço-vos os meus sofrimentos, e peço-vos paciência e resignação”

Imagina que nosso Senhor em pessoa vem visitar-te, que se assenta junto ao teu leito, e que assim te
falia:

“Meu filho, eis-me aqui para te fazer companhia e trazer-te graças: tu sofres muito, pois não
sofres?

— Oh! sim, muito, meu Deus.


— Serás contente de te veres livre deste mal?
— Sim, por certo, Senhor; mas eu só quero o que vós quiserdes.
— Por esta doença que te enviei, honras- me e me dás gloria; expias tais e tais pecados da vida
passada; adquires tais e tais méritos; todavia, se desejas ser curado, é só falares, e eu te curarei.
— Não, não, meu doce Jesus! Cumpra-se a vossa vontade e não a minha. A vós me abandono:
sabeis muito melhor do que eu o que me convém”

2. Nas Desolações Interiores


Certos dias há em que as almas, ainda as mais santas, caem num estado tal de secura, desgostos;
trevas, desolações, que quase são tentadas a crer que Deus as abandonou; muitas vezes mesmo este
estado dura por muito tempo, segundo Deus julga útil à alma que quer purificar. Então sente-se uma
alma atormentada por mil tentações de orgulho, cólera, impureza, desesperação; parece-lhe que está
sem amor de Deus, sem esperança, sem fé; tudo parece perdido. Que hás de tu fazer, meu caro
Teótimo, quando te achares exposto a semelhante desolação? Apressa-te a recorrer a Jesus:

“Meu Deus, meu Deus, dirás, então onde estais? porque me abandonastes? Porque vos
ocultastes a mim? Vós bem sabeis que vos amo, que todo o meu desejo é amar-vos mais e mais;
Ah! Por piedade, tende misericórdia de mim. Em vossos braços me lancei com confiança, não
me abandoneis, vos suplico, ó meu Deus”

Depois de assim teres derramado o coração no Coração de Jesus, conserva-te em paz, e dize sempre,
apesar de teus desgostos e securas:
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“Meu bom Mestre e meu melhor amigo, seja feita a vossa vontade”

Quanto ao mais, deves esperar com paciência o momento em que Deus haja por bem dar-te a unção
da sua graça. Se este momento tarda muito a vir, não te perturbes com isso, espera sempre, “Deus
não abandona o justo a eternas desolações”. Se alguma vez se oculta, é para nosso bem. Passeava
uma boa mãe com seu filhinho de terna idade ainda; levava-o pela mão com medo que ele caísse, e
tomava-o nos braços quando encontrava passagem difícil. Senão quando o menino lá divisou uma
flor, deixa logo a mão que regia seus passos, corre à flor, apanha-a e volta para junto da mãe. Mas ai!
Ele não vê ninguém; bem olha de todas as partes, ninguém aparece; chama a grandes brados, ninguém
responde. Pobre menino! Pôs-se a chorar e a soluçar. Nisto aparece-lhe a mãe; ela havia-se ocultado
para ver o que faria seu filhinho quando se visse só. Toma-o entre seus braços, aperta-o contra o
coração, cobre-o de ternos beijos e consola-o dizendo:

“Agora, meu filho, vejo quanto me amas”

Assim é que Deus obra, meu caro Teótimo, com as almas que mais ama. Oculta-se-lhes por algum
tempo, afim de provar seu amor e ter ocasião de as acumular de graças preciosas. Não te inquietes
com estes abandonos interiores, é grande sinal que Deus te ama, pois deste modo é que ele tratou
Jesus Cristo e todos os seus eleitos. Para tomarem animo põe amiúde diante dos olhos a conduta de
Santa Catarina de Gênova no meio de suas penas interiores. Tão grandes eram estas ás vezes, que lhe
parecia nada mais ter que esperar, e que estava inteiramente abandonado de Deus.

Pois bem, apesar de tudo isto, era fiel como nunca a todos os exercidos de piedade; por mais enfado
que neles experimentava, não omitia nenhum, e não encurtava a mínima parte. No mais forte de suas
desolações, exclamava:

“Quanto eu sou feliz em estar num estado tão deplorável! que meu coração esteja no meio de
angustias, estou contente, uma vez que Jesus seja glorificado! Ó Jesus, meu amor! Se os meus
sofrimentos interiores podem ganhar-vos o mínimo grau de gloria, dignai-vos deixar-mos por
toda a eternidade”

E falando assim, tinha tão vivo sentimento de suas penas, que se punha a chorar amargamente.
Sofrendo com esta resignação e amor é que ela chegou a um eminentíssimo grau de santidade e
perfeição. Uma coisa mais, meu caro Teótimo, não deves omitir, quando estás na desolação interior, é
repetir muitas vezes estas palavras que são um perfeito ato de amor:

“Meu doce Jesus! Por mais desgostos que eu agora experimente em vosso serviço, por mais
penas que sinta, nem por isso vos amo menos de todo o meu coração; regozijo-me de saber que
vós lá no céu gozais de pura e inalterável felicidade: a vós toda a alegria, a mim a dor”

3. Nas Consolações e Sucessos


Quando teus negócios te correm bem, e disso te sentes contente; quando recebes consolações
espirituais, e toda a tua alma está inundada de gozo, não deixes de partilhar tua alegria com Jesus.
Pois se tu lhe pedes que tome parte em tuas aflições, quando as tens, se tu
o conjuras a que te venha consolar, não é bem justo que também o convides a tomar parte em tudo 0
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que te dá alegria? Dize-lhe pois:

“Ó Jesus, a vós é que eu devo esta boa nova, 0 bom êxito deste negocio; bendita seja para
sempre a vossa misericórdia. A vossos pés venho depositar a alegria que sinto, para dela vos
fazer homenagem. Aceitai a minha oferta e abençoai-me. Sou vosso filho, e amo-vos de toda a
minha alma”

4. Nos Escrúpulos
Se te acontece ter escrúpulos sobre tuas confissões, sobre tuas comunhões; se estás em perplexidade
por saberes se sim ou não consentistes em tal ou tal tentação; se temes ter perdido a graça de Deus
por alguma falta secreta que hajas cometido sem disso te aperceberes, ou por alguma omissão grave
dos deveres do teu estado, não te abandones ao desespero. Nosso Senhor pede-te em testemunho do
teu amor por ele, que exponhas com toda a simplicidade as tuas duvidas, te¬mores, escrúpulos ao
diretor da tua consciência, e lhe obedeças em tudo como a ele mesmo; porque não confiar no diretor,
é não confiar em Deus, e recusar obedecer-lhe, é recusar obedecer a Deus.

— Mas, meu padre, vais-me talvez tu dizer, temo não me haver explicado bem com ele e não ter sido
compreendido.

— Meu caro Teótimo, tem confiança em Jesus e obedece ao teu confessor.

“Nunca, diz São Francisco de Sales, homem verdadeiramente obediente se perdeu”

Medita com atenção estas palavras de São Filipe Neri:

“Se queres fazer progressos na virtude e no amor de Jesus, abandona-te à conduta de um


confessor piedoso e esclarecido, e obedece-lhe como ao próprio Deus. Obrando deste modo,
podes estar seguro que não hás de dar contas a Deus de tuas ações”

— Mas, se meu confessor se enganasse?

— Não te enganavas tu obedecendo-lhe, responde o Padre Olivares; e São Filipe Neri ajunta:

“Tem confiança em teu confessor, porque o Senhor não permitirá que ele se engane”

Uma pessoa atormentada de escrúpulos foi ter um dia com São Bernardo, e confessou-lhe que não
ousava aproximar-se da santa mesa.

— “Vai, filho, vai comungar, lhe diz o santo, eu respondo por tudo”

Foi ingenuamente e sem replicar nada; e sua obediência foi bem recompensada, porquanto os
escrúpulos desapareceram.

— Ó meu padre! Me dizes tu, se eu tivesse São Bernardo por diretor, parece-me que também
obedeceria facilmente; porque ele ao menos era o homem mais hábil e mais santo do seu século.
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— “Enganas-te tu que assim falias, responde o piedoso Gerson; tu estás em erro; pois não destes
a confiança ao confessor por ser ele um sábio, mas sim por fazer as vezes de Deus. Por
consequência, obedece-lhe não como a um homem, mas como ao mesmo Deus”

— Então devo obedecer-lhe sempre?

— Sim, sempre que te não mande uma coisa evidentemente má: é doutrina de São Bernardo, Santo
Inácio, São Boaventura e dos doutores.

— Mas, meu padre, tenho meus receios sobre as confissões e comunhões passadas; tenho-os
manifestado muitas vezes ao confessor, e ele nem quer que eu lhe fale nisso.

— Obedece-lhe simplesmente, e abandona-te à misericórdia de Jesus.

— Ainda por estes dois pontos consinto; mas ele nem sequer deixa que me confesse de todos os
pensamentos que me passam pela mente, a menos que eu lhe não possa jurar logo e com certeza que
consenti; devo também obedecer-lhe?

— Sim, com toda a certeza; e diz São João da Cruz, no “Tratado dos espinhos”, que haveria muito
orgulho em o hão fazer.

— Pois que assim é, obedecerei, por mais repugnâncias interiores que sinta. Mas acreditais, meu
padre, que Jesus não será ofendido?

— Ofendido! Será mas é honrado por tua simplicidade e obediência, e ficará muito contente contigo
por esse sinal de amor para com ele e de confiança no seu ministro.

— Permiti-me ainda, meu padre, que vos abra inteiramente o coração. Muitas vezes me acontece
estar em transes mortais, por me parecer que consenti em algum pecado grave, posto que eu não saiba
dizer bem quando e como. Então torno-me triste, porque me parece que mereci ser abandonado de
Deus, e me tornei objeto da sua ira.

— Que estás tu a dizer, meu caro Teótimo? Tu, objeto da ira de Deus! Ora responde-me: consentirias
tu em fazer neste momento um pecado mortal e a perder assim a graça de Deus?

— Oh! Nunca, meu padre! Morrer antes! Nem mesmo me quereria tornar culpável de um pecado
venial voluntária e refletido.

— Amas então muito ao nosso divino Salvador?

— Sim, muito, a minha maior felicidade neste ‘mundo é trabalhar para lhe provar o meu amor.

— Muito bem, Teótimo, tranquiliza-te, porque o mesmo Deus disse:

“Eu amo os que me amam”

Quanto ao temor qua algumas vezes sentes de ter consentido em algum pecado grave, atende ao que
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vou dizer-te: O pecado mortal é mostro tão horrível, que lhe não é possível entrar e estabelecer-se
numa alma, sem que esta alma o perceba. Por isso é que todos os Teólogos ensinam que, quando uma
alma temente a Deus está na duvida de ter perdido a graça divina, é certo que a não perdeu, porque
ninguém perde a graça sem ter disso pleno conhecimento. – (Vide Teologia Moral de Santo Afonso
de Ligório). Assim, meu caro Teótimo, enquanto tu não te puderes dar um testemunho certo de que
cometeste pecado mortal, enquanto não fizeres mais que estar num termo vago e sem fundamento de
ter perdido a Deus, podes estar seguro que o possuis ainda, e que a sua graça está em teu coração.

— Porque é pois que nestes momentos de escrúpulos e temor, estou sem confiança em Deus e sem
amor? Porque se acha o coração seco e frio?

— A confiança e o amor não consistem no sentimento, mas sim residem na vontade. Desde que tu
queres ter confiança em Deus e ama-lo, é certo que o amas e que tens nele confiança. Repete pois
incessantemente:

“Meu Deus, eu vos amo! Meu Deus, quero ter sempre confiança em vossa misericórdia. Ó Jesus,
eu espero em vós, mesmo contra toda a esperança. Quando mesmo eu me visse metade no
inferno, esperava ainda em vós, ó Jesus! Meu bom Mestre, dai-me uma perfeita resignação com
a vossa santa vontade, e uma confiança sem limites em vossa misericórdia”

5. Jesus quer que lhe falemos com amoroso abandono de tudo o que nos
concerne, bem como de tudo o que diz respeito aos que amamos
Tens sem duvida, meu caro Teótimo, um amigo que tu amas em Deus e por Deus, um amigo
verdadeiramente digno deste nome; por mais raros que tais amigos sejam, tu tens um, não é assim?
Pois muito bem, vê qual é a conduta que tens para com ele, e saberás como deverás haver-te com
Jesus, que, afinal de tudo, sempre te ama mais que ninguém.

— Mas, meu padre, parece-me que eu faltada ao; respeito soberano que lhe é devido, se em minhas
relações com ele pusesse a mesma simplicidade e o mesmo abandono que uso para com o meu
amigo. Para este, eu nada tenho oculto, falo-lhe com o coração nas mãos; entro com ele nas miudezas
ás vezes as mais minuciosas das minhas alegrias, dos meu temores, das minhas esperanças. Há mil
nadazitos de que com os mais eu não ousaria falar, e com ele comunico-lhe tudo alegremente; pois
parece-me não lhe poder provar melhor minha amizade que falando- lhe com esta confiança. Muitas
vezes mesmo, não tendo nada que dizer-lhe, gosto de estar ao pé dele, porque sinto que sua presença
me faz bem, me consola, e que sempre tiro algum proveito para meu adiantamento na virtude.
Acreditais, pois, meu padre, que eu devo proceder assim com o meu divino Mestre?

— Sim, seguramente, meu caro Teótimo. Não temas nada; fala-lhe de tudo o que te diz respeito
quantas vezes precisares, que nunca 0 fatigarás. Ali! se tu amas, terás sempre alguma coisa que dizer-
lhe; Ele é tão bom, que se compraz em que nós tratemos com ele como de igual para igual, e fica
contente quando vê que lhe comunicamos os negócios ainda os mais minuciosos e comuns. Persuade-
te bem, meu caro Teótimo, Jesus ama-te, e tem de ti tanto cuidado como se verdadeiramente não
tivesse que pensar senão em ti. Tão atento está aos teus interesses, que dir-se-ia que a sua
providencia só se ocupa em socorrer-te, sua onipotência em proteger-te; sua misericórdia e bondade
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em ter com¬paixão de ti, em te fazer bem, e em ganhar, por to¬dos os meios, tua confiança e teu
amor. Descobre-lhe pois com liberdade todo o teu interior, e pede-lhe te sirva de guia para
executares perfeitamente sua santa vontade. Recomenda-lhe o cuidado da tua salvação e dize-lhe:

“Meu Jesus, tende piedade de mim: a vós me abandono pelo tempo e pela eternidade”

Pede-lhe pela perseverança dos justos.

“Senhor Jesus, não abandoneis vossos servos no meio dos perigos que eles correm: derramai
sobre eles as mais abundantes graças, e concedei-lhes a vida eterna”

Pede-lhe pela conversão dos pecadores. — Meu Deus! Quantos desgraçados que todos os dias se
condenam! Quantos que resistem às inspirações da graça, às lágrimas, aos conselhos, às suplicas dos
confessores, e que vivem no estado do pecado! Quantos que, neste momento, jazendo no leito da
morte, não tendo mais que uma hora talvez para comparecerem perante o soberano Juiz, não a querem
aproveitar! Pede, pede por eles, Teótimo, e tu obterás a sua conversão, pede por eles: porque uma
prece humilde, confiada, perseverante, faz muitas vezes mais para a conversão de uma alma, que um
grande numero de instruções. Pede pois.

Pede-lhe pela Igreja. Conjura-o que lhe conceda sempre padres santos, padres segundo o seu
coração, padres cheios de zelo pela sua gloria. Meu caro Teótimo, tem a caridade de orar algumas
vezes por mim: eu não serei ingrato.

Pede-lhe pela conversão dos infiéis e dos hereges. Que objeto de dor e amargas lágrimas para uma
alma que ama a Jesus, a vista de tantos milhões de homens que não o conhecem, ou o conhecem mal!
Meu Deus! nunca mais tereis piedade de vossas pobres criaturas! Ó meu caro Teótimo! Supliquemos
a Jesus, nosso Salvador, que lance um olhar de misericórdia sobre tantas almas que comprou tão
caro. Peçamos por esses padres zelosos que expõem a própria vida, afim de levarem ás extremidades
da terra as luzes da fé; peçamos, e seus trabalhos, vivificados por nossas orações, produzirão frutos
abundantes de salvação; peçamos e arrancaremos ao inferno uma multidão de almas que estão em
perigo de nele se precipitarem. Peçamos em particular por aqueles de nossos irmãos que tiveram a
desgraça de se separarem da Igreja católica, ah! Peçamos por eles muitas vezes e com fervor, e
nossas preces lhes obterão a graça de não mais resistirem à voz de Deus, que lhes clama que voltem
ao seio da verdadeira Igreja; peçamos por eles, e nossas preces apressarão o dia de sua perfeita
volta à unidade; peçamos por eles, e consolaremos o coração do bom Jesus, que quer que todos os
homens se salvem. Pede a Jesus por todas as almas que te são caras; melhor prova da tua afeição não
lhes podes dar. Pede-lhe enfim pelas almas do Purgatório. São suas esposas queridas; ele verá com
grande satisfação que tu trabalhas para alivia-las em suas penas. Peçamos sempre, e tomemos por
divisa: Oração, confiança e amor.

Observações:
(1) Veja a Prática da oração mental numa pequena obra intitulada: “Piedosos sentimentos de uma
alma que quer ser toda de Jesus Cristo”, pelo Padre D. Pinard, in-8.° p. 37, segunda edição.

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Capítulo XLV
Que doce e amável é o jugo do Senhor! Só levando-o podemos ser felizes
Venite ad me, omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos. Tollite jugum meum
super vos, et invenietis requiem animabus vestris, jugum enim meum suave est, et onus meum
leve
“Vinde a mim todos que andais em trabalho e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai
sobre vós o meu jugo e achareis descanso para as vossas almas, porque o meu jugo é suave, e o
meu peso leve”
(Mt 11, 28-30)

Os homens buscam naturalmente a felicidade; para a conquistarem sacrificam muitas vezes o repouso
e a saúde, expõem até a vida aos maiores perigos; mas quantos a acham? Ai! Ainda se com todos os
seus esforços alguns chegassem a consegui-la! Donde procede isto? É que eles a procuram onde ela
não existe; querem ser felizes, mas procurar a felicidade onde ela reside não querem. Querem achá-la
nas riquezas, nos prazeres dos sentidos, nas honras, na ciência; mas cedo ou tarde se convencem que
tudo isto não lhes pode de modo algum contentar o coração.

Vede este homem: toda a vida trabalhou por adquirir riquezas; no meio de tantos trabalhos, tantas
fadigas, tantas vigílias um só pensamento o sustentava, o pensamento da felicidade. Agora que ele
nada no seio da abundância, que vive no meio dos seus tesouros, que tudo parece sorrir-lhe, agora
por certo é feliz. Ai! Reconhece que suas riquezas estão abaixo de si, e que não é para elas que foi
feito; sente que, longe de lhe darem a felicidade, só lhe dão inquietações e cuidados; não lhe falta
nada, e está devorado de desejos sempre renascentes; queria repouso, e ei-lo em incessante
movimento por causa destas mesmas riquezas. Pobre infeliz! Tantas fadigas para adquirir seus
tesouros, para agora só os possuir com temor, e os perder com dor!

O voluptuoso engolfa-se em suas hediondas paixões; nada recusa a seus imundos apetites; busca nos
prazeres dos sentidos a felicidade por que suspira. Decepção cruel! Onde esperava colher rosas, só
acha duros espinhos. Sua paixão pede-lhe sem descanso pasto; e ele, infeliz! Dá-lh’o e bem sente que
nada a pode fartar! Sente que sempre lhe brada: Mais, mais. A felicidade não se acha, pois, nos
prazeres dos sentidos?… Ouço a voz do voluptuoso que responde: Não, não: neles pretendi eu
encontrá-la, neles a procurei eu, e vi que esses falsos prazeres duram um só instante, ao passo que os
remorsos que o seguem são eternos.

O ambicioso moveu céu e terra para chegar às honras: encontrou-as; está satisfeito. Todo o mundo
exalta a sua felicidade, inveja a sua sorte. Só ele é desgraçado; quisera uma coisa que lhe lisonjeasse
o orgulho e saciasse ao mesmo tempo o coração, e reconhece, mas, ai! Tarde de mais, que se iludiu e
que só agarrou vão fumo.

O sábio todos os dias ajunta conhecimentos novos aos que já possuía; todos os dias aprende, todos
os dias descobre verdades novas. E com tudo isto é feliz? Ai! Seu coração fica muitas vezes vazio, e
ele acaba por compreender que toda a ciência é nada, e que é impotente para o tornar
verdadeiramente feliz.
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Ó meu Deus! Onde está, pois, a felicidade? Onde irei eu procurá-la neste mundo? Nos palácios dos
reis e dos grandes? Mas eles são a morada de inquietadores cuidados e de angustias tanto mais
amargas quanto se encobrem sob a capa da alegria. Nas casas dos ricos? Mas lá eu só vejo lágrimas.
Na tenta do pecador? Só lá descubro o cruel remorso. Onde encontrarei, pois, ó meu Deus! Essa
felicidade sem a qual não posso passar? Onde poderei depor este peso de misérias que me oprime?
Ah! Ouço a vossa resposta, ó doce Jesus!

“Vinde a mim, dizeis-me, e eu vos aliviarei”

Sim, Jesus meu, só vós podeis dar-me a calma, a paz, a felicidade que eu desejo e sem a qual me não
é possível viver. Debalde a pedirei às riquezas, às honras, aos prazeres, a qualquer criatura que seja,
nunca chegarei a consegui-la. Sempre meu coração estará doente, sempre estará inquieto, sempre
estará descontente. Sois vós que assim o permitis, ó meu Deus! Porquanto este coração, havendo só
para vós sido criado, sempre está inquieto, enquanto não é todo vosso; todo outro objeto que não vós
pode ocupá-lo, mas sacia-lo e faze-lo feliz, não pode.

Tomai sobre vós o meu jugo. Ó míseros filhos de Adão! Este é o único meio que tendes de chegar à
verdadeira felicidade. Deixai de uma vez vossas paixões, calcai aos pés o vil respeito humano, vício
de almas covardes e sem energia, desprezai o jugo de um mundo desprezível, e tomai sobre vós o
jugo de Jesus Cristo… Que esta palavra jugo não aterre; o jugo que o Senhor impõe não se assemelha
em nada ao jugo do demônio e do mundo; é um jugo cheio de doçura, é um jugo extremamente leve. Ó
feliz! Mil e mil vezes feliz quem leva este santo jugo! Feliz quem ama a Jesus! Compreendo o que há
de suave em seu serviço, e de inefável em seu amor.

O grande São Paulo assim que sentira a doçura do jugo do Senhor, logo brada:

“Estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes,
nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a violência, nem a altura, nem a profundidade, nem
outra criatura alguma poderá apartar-me do amor de Deus em Jesus Cristo nosso Senhor”

No meio das fadigas, dos trabalhos, das privações contínuas e dos perigos do seu apostolado, gozava
de felicidade tão grande, que escrevia aos fiéis de Corinto estas notáveis palavras:

“Estou cheio de consolação, exubero de gozo no meio de todas as minhas tribulações”

Quando é que um homem embebido nos prazeres do mundo pôde dizer outro tanto? Quando é que ele
disse do seio mesmo dos seus maiores prazeres:

“Sou feliz?”

Nunca, nunca. Ao contrário, a triste experiência de todos os dias lhe há por muitas vezes arrancado
um testemunho que, em sua boca, é de grande peso, e com o rei Salomão ele diz:

“Em tudo eu só descubro o vácuo e a dor; tudo neste mundo é só vaidade e ilusão”

Exortavam São Policarpo a abandonar o serviço de Jesus Cristo, e ameaçavam-no com a morte, se
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não obedecia.

“Que! Respondeu ele cheio de indignação, há oitenta e seis anos que o sirvo, ele me torna feliz
acumulando-me de toda a sorte da graça, e vós quereis que eu o abandone? Não, não, antes
morrer!”

Santo Agostinho, antes de sua conversão, passara uma vida toda sensual, passara grande número de
anos no esquecimento de Deus e desregramento das paixões. Chamado enfim à virtude, e
transportado de jubilo santo por haver sido libertado de suas cadeias, assim prorrompia em
reconhecimentos: Rompestes, ó meu Deus! Rompestes os meus laços! Que o meu coração e a minha
língua vos louvem eternamente por me haverdes feito receber o jugo tão amável e tão leve peso da
vossa lei! Quão suave se me fez subitamente o privar-me desses gozos vãos, dessas ninharias vis!
Mas que minha alma antes tanto receava perder, já inundada de gozo as deixava. Era que vós mesmo
a expelíeis do meu coração, doçura verdadeira e soberana, vós as expelíeis, e entraveis em seu lugar,
suavidade superior a todos os prazeres, incógnita, porém, à carne e ao sangue!… Então estava o meu
espírito livre desses mordazes cuidados que dilaceram aos que correm após as honras, os bens, e
prazeres dos sentidos, e todas as minhas delicias eram dirigir-me a vós, minha glória, minha riqueza,
meu Salvador, meu Senhor e meu Deus… Quão tarde comecei a amar-vos, dizia muitas vezes, ó
beleza tão antiga e tão nova! Quão tarde comecei! Mas finalmente fizestes chegar até mim vosso odor
celeste; e desde esse momento suspiro por vós. Fizestes-me gostar vossas inefáveis doçuras, e elas
me deram por vós uma fome e sede que me devoram. Ó meu Jesus! Não é amar-vos bem, amar
convosco alguma coisa que se não ame por vós. Ó amor cujo fogo arde sempre e nunca se extingue!
Ó caridade! Que sois o meu Deus, abrasai-me.

São Francisco Xavier achava tanta felicidade no serviço de Jesus, que muitas vezes, não podendo
mais conter a alegria interior que o inundava, clamava:

“Senhor, Senhor, basta, não posso suportar mais!”

Podia multiplicar estes exemplos até ao infinito; limito-me porém a estes quatro que tomei, como ao
acaso, nos anais dos santos. Quem ama a Deus bem me compreende e sabe quanto é doce servi-lo.
Oh! Sim, digo-o, repito-o, e possam todos os homens ouvir a minha voz: feliz, mil e mil vezes feliz
quem ama e serve a Jesus, nosso bom Mestre! Uma profunda paz será seu quinhão: Pax multa
diligentibus legem tuam. Gozará neste mundo de uma felicidade que Jesus só pode dar; gozará da
serenidade tão doce de uma consciência pura; seu coração será inundado de prazeres, de consolações
inefáveis; sofrerá com santa resignação os males desta vida e verá aproximar-se a morte sem
perturbação e sem temor, pois sua alma estará sem manchas e sem remorsos. Pax multa diligentibus
legem tuam! Sim, meu Jesus, Pax multa diligentibus legem tuam! A paz é quinhão de quem vos ama;
fora de vós não se pode achar esta paz. Que outros busquem por sua herança os prazeres, as honras,
as riquezas; eu, ó Jesus, eu escolho-vos a vós pelo Deus do meu coração. Vós sois a minha herança, a
minha felicidade, o meu tesouro, a minha vida, o meu tudo; vós só me bastais.

Bem o sinto; não posso viver sem a calma e a paz que uma boa consciência dá; não posso viver sem
Jesus. É preciso, pois, custe ele o que custar, que eu seja deste bom Mestre. Que felicidade, quando
eu já não tiver nada que exprobar-me! que felicidade, quando, levantando os olhos ao céu, poder
dizer comigo mesmo: Aquele belo céu em que brilham com tanto fulgor cem milhões de estrelas, é o
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palácio da meu pai, do meu melhor amigo, do meu Deus. Ele me ama, e eu o amo também. Que
felicidade! almas mundanas e eternas, vós não a compreendeis, mas purificai o coração, e para logo
compreendereis o quanto é grande.

Meu doce Salvador! Dignai-vos admitir-me em o número de vossos fiéis servos e de vossos
filhos queridos! Longe estou eu, bem o sei, de merecer tal favor; os inumeráveis pecados da
minha vida passada me torna indigno, e sei demasiado quão justa é a vossa indignação. Ai!
Filho ingrato e desnaturado, abandonei-vos vergonhosamente para me pôr ao serviço do vosso
mais cruel inimigo! “Ó meu pai! Já não sou digno de ser chamado vosso filho”, mas não
obstante quero sempre esperar em vossa bondade. Eis-me aqui a vossos pés todo enternecido à
vista da vossa misericórdia, e confuso de vos haver faltado ao respeito abandonando-vos;
dignai-vos restabelecer-me em vossa boa graça, e inflamai-me do vosso santo amor para que
não mais vos deixe. Ó meu Jesus! Não poder eu amar-vos tanto como vós mereceis! Ah! Ao
menos, amo-vos de todo o coração, mais que a todas as coisas, mais que a mim mesmo, e desejo
o vosso paraíso para nele poder amar-vos eternamente, sem temor de vos perder. “O que há
para mim no céu, e que desejo eu sobre a terra, senão a vós, ó Deus do meu coração, e minha
partilha por toda eternidade”? Ó Jesus! Vós sois o meu único tesouro, o meu único amor; vós
só me bastais. Ó Maria! Minha esperança depois de Jesus, por vossas preces atrair-me todo a
Deus, e obtende-me a perseverança final. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Não tardar em nos darmos todos a Deus
Eis-nos chegados brevemente, meu caro Teótimo, ao termo da nossa carreira; empenhei-me em te
fazer compreender o melhor que pude, toda a extensão do amor de Jesus por ti; esforcei-me por te
levar ao reconhecimento para com ele, e trabalhei por excitar em teu coração todos os sentimentos de
confiança filial que este bom Senhor deseja ver no coração dos que o servem. Atingi eu o meu fim?
Podes agora responder-me:

“Amo ao meu Deus de todo o meu coração, e tenho em sua misericórdia uma confiança que nada
m’a pode arrebatar?”

Ah! Espero que assim seja! Espero que Jesus terá abençoado os meus fracos esforços, e que a tua
alma se terá deixado enlear dos encantos do seu divino amor. Vive, pois, feliz e em paz, e estreita-te
mais e mais ao nosso bom e eterno Mestre, até que a morte venha buscar-te e conduzir-te a seus pés,
para receberes a coroa imortal de gloria e recompensa que prometeu aos seus fieis servos.
Mas de onde me vem esta tristeza súbita que se apodera da minha alma? Ai! Meu caro Teótimo,
descobrir-te-ei com simplicidade o que se passa dentro do meu coração. Parece-me ver entre os que
se deram ao trabalho de 1er esta obra, parece-me ver um pobre cristão que não quererá aproveitar, e
que embora esteja convencido da necessidade em que está de trabalhar na sua salvação e de pagar a
Jesus amor por amor, dirá todavia do fundo do seu coração:

“Amanhã, amanhã; amanhã hei de converter-me; amanhã deixarei de ser ingrato e começarei a
amar a Jesus”
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Quem quer que sejas que assim falias, eu te suplico, não endureças o coração, e volta a Deus que te
chama; vai nisso a tua felicidade neste mundo e no outro. Ora confessa a verdade: não é certo que
vivendo assim longe do teu Deus, arrastas uma vida miserável? Não é certo que tua alma se
assemelha a um mar cujas ondas estão continuamente agitadas? Não é certo que o remorso vem
incessantemente perturbar teus falsos prazeres? Responde, responde. Em vão procuras iludir-te; em
vão trabalhas por persuadir-te que és feliz: em ti mesmo trazes dois testemunhos que tu não logras
enganar, dois testemunhos, a cujos olhares e exprobrações contínuas não podes fugir — Deus e a
consciência. Vai para onde quiseres; para o céu, para o inferno, para o centro da terra, oculta-te nas
mais espessas trevas: sempre estarás em presença destes dois testemunhos, sempre eles te repetirão:
“A vida é curta, a morte está perto, e os baratros do inferno abrir-se-ão debaixo de teus pés”;
sempre no meio de tuas faltas, de teus prazeres, eles te bradarão:

“Desgraçado, para isto é que viestes ao mundo? Assim é que trabalhas na tua salvação?”

— Verdade é, me respondes, que estes dois testemunhos seguem-me por toda a parte; mas acostumei-
me ás suas exprobrações, que quase me não fazem já impressão alguma na alma; vivo em paz.

— Tu vives em paz! E nutres não obstante o pecado em teu coração! E não amas a Deus! Ah! mal,
mal haja a tua paz! É mil vezes mais horrenda que a tempestade.

— Mas afinal, eu não vejo que me tenha acontecido lá muito grande mal por haver pecado e não ter
servido ao Senhor; meus negócios correm bem, as riquezas aumentam-se-me, as honras chovem sobre
a minha cabeça; que melhor me iria se eu servisse a Deus?

Ó insensato, pois tu não sabes que toda essa felicidade de que te vanglorias é como um fosso
pro¬fundo no qual bem depressa vais cair? Não sabes que Deus alarga de algum modo as rédeas ao
pecador para em seguida as apertar? Ah! A sua alegria é como a do peixe que devora com gosto o
anzol que o vai agarrar; tua felicidade durará pouco, e cedo deixarás a outros tuas riquezas e honras.
Não sabes que nunca Deus está mais irritado contra o pecador do que quando permite que prospere
no meio das suas iniquidades? Ah! Meu irmão, eu te conjuro, compreende melhor os teus verdadeiros
interesses, e procura primeiro que tudo o reino de Deus e a sua justiça. Ai! Se tu semeais na
iniquidade não tardarás a colher males.

“À hora da morte esvaecer-se-ão todas as tuas esperanças; serão como a lanugem que pelo
vento é levada, e como a espuma tênue que desaparece no meio das ondas agitadas, e como o
fumo que se dissipa nos ares, e enfim como as impressões que deixam na memória do viajante
os objetos que ele só vê de passagem. No momento em que menos o pensares, perecerás a um
assopro de Deus, e serás consumido pelo turbilhão da sua cólera”

— Mas tudo isso não passa talvez de vãs ameaças!

— Vãs ameaças! Escuta a resposta que te dá o Espírito Santo, no livro de Job:

“Desde que o homem está posto sobre a terra sempre se notou que o triunfo do mau dura pouco,
e que sua alegria é de um momento. Eu vão eleva a cabeça orgulhosa até ao céu, perecerá e será
rejeitado como vil esterco. Todos os que o viam em sua gloria perguntarão: Onde está? Como
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sonho que voa não será achado, desaparecerá como visão noturna. Seus filhos morrerão na
miséria, e suas próprias mãos lhe retribuirão o mal que fez”

— Eu de boa vontade me converteria; mas temo a critica do mundo.


— Deixa lá falar mundo e faze tu o teu dever. Pois que! Quando toca a ganhar alguma miserável soma
de dinheiro, a chegar a algum posto mais elevado, a obter algum emprego mais lucrativo, trabalhas
abertamente e com ousadia, importando-te pouco o que os mais possam pensar ou dizer de ti, e
quando é preciso ganhar o céu, então nada ousas fazer com receio de desagradar a tal ou tal pessoa, a
tal ou tal amigo! Quando é preciso mostrares-te cristão, tornas-te escravo dos outros! Ó baixeza! Ó
covardia! Cora de vergonha, indigno cristão, cora de vergonha! Tens coragem e energia para tudo,
exceto para servir ao teu Deus! Falia! Quando estiveres condenado por agradar aos homens, irão eles
arrancar-te dos abismos do inferno? Rir-se-ão da tua fraqueza, e te desprezarão.

— Que ei de eu então fazer?

— Que hás de fazer? Calcar aos pés o respeito humano; mostrar-te à face do céu e da terra quem és,
isto é, cristão, verdadeiramente digno de tão glorioso titulo; cumprir exatamente todos os deveres que
ele te impõe.

— Mas falarão de mim!

— Sim, e dirão de ti que tens coragem, dirão que tens uma grande alma, e, por um que censure a tua
conduta, haverá cem que a proporão por modelo. E a final, que o mundo diga o que quiser, não é
menos verdade que tu pertences a Jesus Cristo; e que te deves dar todo a ele. Acaso será Jesus um
Senhor do qual será vergonhoso ser servo? é desonroso o confessar-se seu discípulo?

— Mas a confissão horroriza-me.


— Ah! É que tu não a conheces. Não sabes que inefáveis consolações ela derrama numa alma
cruciada do remorso; não sabes que doce paz ela der¬rama num coração que nunca experimentara
seus encantos; não sabes que feliz mudança opera em todos os pobres pecadores que a ela recorrem.
Meu caro irmão, acredita no que te digo. Sou ministro do Deus da verdade, e nenhum interesse tenho
em estar a enganar-te; desejo pelo contrario a tua felicidade tanto como a minha. Pois olha, posso
asseverar-te que nada no mundo há comparável à felicidade que experimenta uma alma sinceramente
convertida para Deus, quando depois de ter descoberto todas as chagas, ouve de sua boca estas
palavras:

“Vem em paz, da parte de Deus te declaro que todas as tuas faltas te estão perdoadas, tudo está
esquecido. Vai e não peques mais”

Sei que custa algumas vezes descobrir todas as misérias a um outro homem. Mas deve uma vergonha
passageira ser posta em comparação com os felizes frutos que ela produz? Não vale mais humilhar-
nos alguns instantes aos pés de um nosso semelhante, e obter deste modo o perdão das nossas faltas,
do que esperar que Deus se encarregue de humilhar-nos? Ah! Se não queres abater-te pela humilde
confissão das tuas culpas, o mesmo Deus saberá abater-te pelo peso do seu braço. E poderás tu
sustentar o peso dessa mão onipotente que te esmagará? Poderás evitar seus terríveis golpes? Sabe-o
bem: quanto esta mão é doce e suave para levantar o homem que se humilha a si mesmo, tanto é forte
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e pesada para abater o soberbo. Vai, meu caro irmão, vai lançar-te aos pés de um padre de Jesus
Cristo, mostra-lhe todas as chagas da tua alma; e Deus as limpará; descobre- lhe todas as tuas
iniquidades, e Deus as curará. Coragem! Faze algum esforço, o resto Deus o fará. Vai ter com Jesus e
Maria; conjura-os a que venham em teu socorro, e aprende a gostar por ti mesmo quão doce é servir
ao Senhor. Coragem! A vida é curta, foge como um sonho, e depressa a morte te virá ferir. Oh! Como
estarás consolado em teus últimos momentos de haveres feito uma boa confissão enquanto andavas
ainda de saúde! como serás feliz de ter posto em ordem a consciência! Dá-te pois, ao Senhor, não
amanhã, mas hoje, mas já; custe o que custar, entrega-te a ele como filho, para depois lhe não
pertenceres como escravo. Entrega-te a ele, serve-o facilmente, e ama-o até o teu suspiro: o céu será
a tua recompensa.

Ah! Meu Deus! Quantos infelizes pecadores a quem se disse cem vezes, enquanto viviam:
“Convertei-vos, e fazei uma boa confissão”, e que à força de sempre diferirem para amanhã, foram
surpreendidos pela morte! Onde estão agora? Ai! No inferno a deplorar sua desgraçada sorte, a
maldizer sua covardia, e estão lá para sempre! Ó meu irmão! Aprende do seu exemplo a ser sábio e a
não diferir a tua conversão. Se hoje te custa a romper por este laço perigoso, a destruir este hábito
criminoso, a vencer o respeito humano, a fazer uma boa confissão, amanhã muito mais te custará.
Volta, pois, a Deus sem mais tardar. Lança-te nos braços de Jesus: ele é a bondade e a misericórdia
mesma, ele nunca repeliu o pecador arrependido. Feliz quem o busca mais feliz quem o achou! Mil
vezes mais feliz quem o ama! Goza de uma felicidade que nenhuma língua humana pode exprimir.

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Capítulo XLVI
O Paraíso
Oculus non vidit, nec auris audivit, nec in cor hominis ascendit quae praeparavit Deus iis qui
diligunt illum
“O olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais veio ao coração do homem o que Deus tem
preparado para aqueles que o amam”
(1Cor 2, 9)

O paraíso! O paraíso!… Ah! Deus meu! Ao só pensar nesta bela mansão, minha alma se inunda de
consolações, meu coração desfalece de alegria e de amor, e meus olhos se convertem em duas fontes
de lágrimas. Ao pensar no paraíso compreendo que não há proporção entre as penas desta vida e a
recompensa que na outra nos está preparada.

Ao pensar no paraíso, os sofrimentos tornam-se-me delicias, as humilhações e desprezos revestem-


se-me de encantos, e as mais pesadas cruzes me parecem fazer-se leves.

Ó paraíso! Qual é o homem que nos ensinará o que tu és?… David exclama: Coisas gloriosas se nos
tem dito de ti, cidade de Deus! Oh! Quão amáveis são teus tabernáculos! E nada mais diz. São Paulo
é arrebatado até ao terceiro Céu, este vai sem dúvida fazer-nos um quadro magnífico do que viu. Mas
não. O que eu vi, diz numa de suas epistolas, não pode pintar-se, língua nenhuma do mundo pode
explicar a beleza do paraíso, nem as delicias que nele se gozam. Tudo o que eu posso dizer é que
“nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais o coração do homem concebeu o que
Deus preparou para os que o amam”.

Assim falia o grande apostolo. E depois disto não sou eu bem temerário em ousar pôr-me a pintar as
belezas e delicias do Céu? Não é isto parecer-se com um menino criado nas florestas selvagens, que
querendo dar uma ideia da magnificência dos palácios dos nossos reis, os comparasse com a
miserável cabana onde nasceu?… Sim, meu Deus, reconheço minha temeridade e toda a minha
impotência; contudo sempre falarei. Um infeliz exilado acha sempre prazer em falar da sua pátria,
embora ele saiba que tudo quanto d’ela diz está longe de chegar à realidade. Falarei pois.

Oh! Que doce mansão é a celeste Jerusalém! Seus muros são construídos das pedras mais preciosas,
suas portas refulgem com o brilho das pérolas mais finas, suas ruas e praças são calçadas de ouro
mais puro, seus jardins, esmaltados de flores, oferecem o mais risonho espetáculo. Ali continuamente
retumbam palavras de alegria, ali incessantemente se entoam cânticos de jubilo, ali se renovam sem
interrupção brados de regozijo, ali se fazem sempre ouvir os concertos dos espíritos Bem-
aventurados. Ali o balsamo e os perfumes derramam os mais doces odores, ali reina uma paz, um
repousou que excede a todo o sentimento, uma calma acima de toda a imaginação, uma claridade
eterna, uma união formada por um só e mesmo espirito que anima tudo, uma firme segurança, uma
eternidade segura, uma tranquilidade perpetua, uma agradável felicidade, doçura inefável, um
delicioso encanto; ali os justos brilharão como o sol no reino do seu pai. Oh! Que dita assistir aos
coros dos anjos e estar para sempre em sociedade com os apóstolos e mártires, com os confessores e
as virgens e sobre tudo com a gloriosa Virgem Maria, Mãe de Deus! Que felicidade ver-se para
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sempre exemplo de tenor, de tristeza, de aflições, de penas, de dissabores, de trabalho, de embaraço,
de desgostos; numa palavra, de toda a indigência! Mas que abundancia de consolações! Que multidão
de delicias, que excessos de alegria! Que vasta extensão, e que abismo de prazer ver a gloria
inefável da Trindade, desse ser imenso que não se pode compreender, dessa luz doce e arrebatadora
que nunca se poderá amar assaz; ver na Sião o Deus dos deuses, o Senhor dos senhores, vê-lo não
num espelho nem em enigma, mas face a face, ver enfim a humanidade santa de Jesus Cristo em seu
estado de gloria!

Se cá na terra sentimos tanto enlevo ao considerar a grandeza, a diversidade, as resoluções, a


brilhante claridade dos astros, a deslumbrante alvorada da lua, o resplendor e raios do sol, a luz
derramada nos ares, ao ver a variedade das aves, das flores, das paisagens, das cores; ao escutar o
som harmonioso de belas vozes e a doce consonância dos instrumentos; ao aspirar o odor das flores
e dos perfumes; ao nutrirmo-nos de delicioso? Manjares, se tudo isto deleita a nossa alma e a penetra
de alegria, qual não será a torrente de deleites de que será inebriada esta alma, quando poder ver,
escutar, sentir, gostar, possuir plenamente Aquele que é a beleza e a bondade mesma, o principio
d’onde emana tudo o que há de belo e bom no universo, o manancial fecundo de todas as perfeições,
do qual tudo o mais não passa de um fraco arroio? Ah! Compreendo o que é o estado de um homem
ressuscitado, quando entra na sua bem-aventurada eternidade. É como a primavera, quando,
sucedendo aos rigores do inverno, vem renovar a natureza, adornar o céu e a terra, encher de regozijo
todos os corações. Mas que digo? É maior a diferença entre estas duas coisas do que entre as
espessas trevas da mais cerrada noite e resplendor do sol do meio dia. Quão deliciosa é pois essa
morada da celeste Jerusalém, em que tudo o que pode deleitar se encontra, e d’onde tudo o que
poderia molestar está banido! Quanto é deliciosa, pois nela tem-se a felicidade de louvar o Todo
Poderoso por todos os séculos dos séculos.

Ó bem-aventurada mansão toda resplandecente de gloria! Quanto amo a tua beleza! Como te amo,
querida morada da gloria do meu Senhor e meu Deus! Meu coração te deseja com ardor, e por ti
suspira sem cessar. Santa Jerusalém, estancia toda deslumbrante de luz, minha maior felicidade é
pensar em ti; por ti desfaleço de amor, porque só tu podes deixar-me ver o meu Deus face a face e tal
qual é. Não poder eu hoje mesmo entrar no recinto de teus muros, para ai amar o meu doce Salvador
quanto eu possa! Quando verei acabar-se esta peregrinação tão triste que já tem durado de mais?
Quando me verei livre deste exilio que me retém num tal afastamento do meu Senhor e meu Deus? Ó
Jesus! Tanto tempo errei longe de vós qual ovelha desgarrada; mas vós tivestes de mim compaixão, e
me reconduzistes ao vosso aprisco. Eu vos suplico, em nome da vossa misericórdia, tende piedade
da minha miséria e minhas lágrimas, e dai-me o vosso paraíso afim que vos ame como vós mereceis.
Ai! Eu quero amar-vos muito, muito, e morro de dor por vos ter amado tão pouco e tão mal.

Tem paciência, alma minha. A voz do nosso Jesus se faz ouvir; disse que o nosso exilio não durará
sempre, e que nossa peregrinação terá um termo. Soframos pois com coragem todas as misérias na
vida; sejamos sempre fieis a todos os nossos deveres; exercitemo-nos a todo o instante na pratica das
virtudes, e levemos corajosamente a nossa cruz até ao termo da nossa carreira: lá está a nossa
recompensa. E que recompensa! Lá está o nosso bom Jesus com uma coroa de gloria: que doce
acolhimento nos não fará ele?

Portas do céu, abri-vos! Deixai-me ver por alguns instantes o que se passa no recinto de Sião. Quero
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ser testemunha da entrada triunfante de uma alma fiel, quero assistir á sua coroação. Abri-vos, portas
do céu!

Eis chega uma alma pura e revestida da veste da inocência; ela traz algumas gloriosas cicatrizes,
testemunhos de sua coragem nos combates: ela vem ornada de pedras preciosas, merecimentos que
adquiriu na terra pelos sofrimentos, pela resignação com a vontade de Deus, e pela felicidade a todos
os seus deveres. Os pecados que cometeu e que tão generosamente reparou pela penitencia, esses
mesmos contribuem ainda para realçar a sua beleza. Adianta-se conduzido por seu anjo da guarda.

“Entra, lhe diz este, alma querida do soberano Senhor: este é o lugar do teu repouso eterno”

Ó Deus! Qual não é a comoção desta alma ao ver-se na bem-aventurada pátria pela qual ela tanto
suspirava! E que olhares ela lança sobre todos os objetos que a extasiam! que riquezas! Que
resplendores! que magnificência!

Os anjos e santos vêm ao seu encontro e lhe dizem:

“Bem-vinda sejais”

Para logo ela se vê cercada de seus pais, de seus amigos, de seus conhecidos, que a felicitam da sua
felicidade; ela reconhece um pai, uma irmã, um marido, que a precederam nesta feliz cidade; ela
reconhece os santos patronos que lhe prodigalizaram os seus socorros enquanto estava ainda na terra;
reconhece os santos e santas por quem teve especial devoção; reconheço-os, e experimenta tal
alegria que língua nenhuma humana o poderia exprimir.

E ela lá vai atravessando esta inumerável multidão de Bem-aventurados, acompanhada sempre do


seu anjo da guarda, que a conduz á Santíssima Virgem. Ah! Quem poderia dizer a surpresa, a alegria,
a ternura que esta pobre alma experimenta ao ver pela primeira vez a augusta Mãe de Deus, a doce
Maria, a quem ela tanto amava na terra, a quem ela tantas vezes chamava a sua Mãe, a sua patrona, a
sua amável Senhora? Quem poderia dizer os transportes do seu reconhecimento, quando ouve Maria
fazer-lhe a enumeração de todas as graças que lhe obteve? Ela lança-se aos seus pés e com transporte
os beija. Mas a Santa Virgem levanta-a, estreita-a ternamente contra o coração e a apresenta a Jesus..
Jesus está assentado sobre um trono brilhante de glória. Apenas apercebe a recém-chegada, lhe diz
com o acento da mais arrebatadora bondade:

“Levanta-te, apressa-te, amada minha, cuja beleza me encanta; vem depressa. O inverno passou,
as molestas chuvas deram lugar a agradáveis rocios, as flores começam a aparecer; a estação de
podar chegou, já nos campos se ouve a rola, já as figueiras brotam seus botões e suas tolhas, já
a vida está florida e começa a espalhar seu agradável aroma; apressa-te pois, ó minha querida, a
tua beleza me fascina!! Ó minha cara pomba! Tu saíste ao fim desses velhos pardieiros onde
fazias tua morada. Mostra-te a meus olhos, e que eu ouça a tua voz; a tua voz me é doce, a tua
face me encanta. Vem pois mais uma vez, pomba minha sem macula, tu que eu escolhi por minha
esposa querida; vem, no teu coração estabeleça eu o meu trono: vem gozar da felicidade
suprema que te prometi; vem depois de tantos perigos, tantas penas, tantos trabalhos, vem
partilhar com meus anjos as delicias do Senhor teu Deus; vem vê-lo enfim sem véu, e ama-lo
por toda a eternidade”
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Então Jesus a abraça, abençoa-a, põe-lhe na cabeça uma coroa brilhante, e a assenta sobre o trono
que lhe preparou. Os anjos e santos aplaudem ao seu triunfo, e clamam:

“Assim será coroado todo o homem que até á morte for fiel a Jesus! Benção, e gloria, e
sabedoria, e ações de graça, e honra, e virtude e fortaleza a nosso Deus pelos séculos dos
séculos”

Amem. Vãos triunfos da terra, falsas honras, fementida gloria deste lugar d’exilio, desaparecei,
desaparecei. Nunca, nunca vós sereis objeto de meus desejos, assim o espero da misericórdia do
meu Jesus: nunca vós ocupareis o menor lugar no meu coração. Desaparecei: vós para mim vos
convertestes em fardo depois que eu entrevi a gloria solida, verdadeira, eterna, que no céu me está
reservada. Desaparecei: vossos encantos são falazes, são misturados de amargura vossos prazeres.
Eu só quero o céu, porém lá estarei com o meu Jesus, lá amarei ao meu Jesus, lá serei coroado pelo
meu Jesus.

Oh! Que bom não será estar no paraíso ao pé de Jesus e Maria! Ali o coração está plenamente
satisfeito; todos os meus desejos estão repletos. Ali, não mais uma lágrima, não mais uma dor, não
mais tristeza, não mais aflições; ali não mais doenças, não mais receios da morte. Deus mesmo
enxugará as lágrimas dos seus eleitos. Ali viverei na sociedade dos anjos e santos.

Ó céu! Se cá na terra é tão doce conversar de Deus com alguns verdadeiros amigos, se é tão doce
falar da esperança de um dia o amar eternamente no paraíso, se é doce comunicar-se mutuamente as
alegrias que no serviço de Jesus se experimentam e animar-se a ama-lo sempre mais, que será vê-lo
no meio dessa gloriosa sociedade de santos, conversar familiarmente com cada um deles, falar de
Deus em presença do mesmo Deus, recordar-se dos perigos passados, das graças que recebemos, e
dizer uns aos outros: Somos felizes para sempre! Se é tão doce tornar a ver uma mãe depois de um
ano da ausência, que será torná-la a ver sem temor de jamais nos separarmos dela!

Se é tão doce na terra partilhar as penas de um amigo, o que será partilhar seus prazeres no paraíso?
Ah! Brilhante sociedade dos santos, quando serei eu admitido em teu seio!!!

Ali verei o meu Deus tal qual é. Há nada que possa comparar-se a esta felicidade! Ó meu Deus!
Fazei-me compreender o que vós sois, e eu compreenderei que felicidade se experimenta
contemplando a vossa bondade.

Vi as mais mimosas flores, contemplei-as em toda a gala de seus atavios; admirei a delicadeza de seu
tecido e a variedade das suas cores; cheio de admiração me disse a mim mesmo: Belas são as folhas
da primavera!… mas, ó meu Deus! É isto a vossa beleza?

Bela é a terra que por morada nos foi dada. Seus prados estão esmaltados de flores, suas montanhas
estão cobertas de verdes pâmpanos caindo em festões, seus outeiros estão carregados de vinhas e
seus caminhos estão orlados de odoríferas plantas. Árvores de todas as espécies a ornam e com seus
frutos a enriquecem; rios saídos de seu seio levam a toda a parte a fertilidade e a abundancia. Sim,
bela é a terra que habitamos!… mas, ó meu Deus! É isto a vossa beleza?

Bela é uma floresta com suas copadas arvores e com suas frescas sombras. Tudo ali é calma, tudo ali
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é paz: somente ali se ouvem, ou os gorjeios das aves ou o murmúrio do regato que cai em cascata da
montanha, ou o leve sussurro das folhas pelos zéfiros agitadas. Bela é uma floresta com sua doce
solidão!… mas, ó meu Deus! É isto a vossa beleza?

Bela é uma fértil campina, ou a mão da primavera ali estenda um verde tapete de mil flores nascentes
esmaltadas, ou o estio lhe doure as espigas, ou o inverno a envolva num véu de deslumbrante alvura,
e a geada prendendo-se ás arvores as mude noutros tantos penachos que majestosamente se elevam
até ao céu!… mas, ó meu Deus! É isto a vossa beleza?

Belo é o vasto mar, sob qualquer aspecto que se nos ofereça. Ora suas ondas estão calmas, e rolam
suaves umas sobre outras: então é um espelho que reflete o doce azul do firmamento. Ora elas se
irritam e com furor se arremessam até ás nuvens; os raios do sol penetram e divertem-se nestas vagas
amontoadas, e dir-se-iam montanhas de fogo que vem quebrar-se contra os rochedos da praia. Oh!
Belo é o vasto mar!… mas, ó meu Deus! É isto a vossa beleza?

Bela é a aurora, quando ela aparece a anunciar-nos a chegada do astro do dia, quando ela orna o
oriente das mais vivas e mais riscas cores, e quando ela no-lo mostra todo em fogo. Bela é a aurora
surgindo!… mas, ó meu Deus, é isto a vossa beleza?

Bela é a luz do sol, que cada dia se lança qual gigante em sua carreira, e vai publicar em todo o
universo a gloria do seu Senhor!… mas, ó meu Deus! É isto a vossa beleza?

Bela é a tarde de estio; de um lado o sol ocultando seus últimos raios sob nuvens de franjas de ouro e
de azul; do outro a lua elevar-se majestosa no horizonte: e em toda a extensão da abobada celeste
miríades de estrelas resplandecentes! Que espetáculo! Quantas vezes enterneceu a minha alma até a
fazer derramar abundantes lágrimas! Quantas vezes arrancou do meu coração esta exclamação do
Profeta: Senhor, quanto as vossas obras são belas!… mas ainda uma vez, ó meu Deus! É isto a vossa
beleza?

Não, não: vossa beleza é toda espiritual, e nada neste mundo pode dar dela justa ideia. Ah! Meu
Deus! Se vossas obras são tão belas, tão admiráveis, tão arrebatadoras, o que não deveis ser vós
mesmo? Se há tanta alegria pura em contemplar as maravilhas da natureza, em que somente pusestes a
sombra da vossa magnificência e perfeições, que será ver-vos face a face?… Detenho-me: minha
pena não pode descrever a felicidade de vos ver e de vos amar.

Ó bem-aventurada mansão da celeste cidade! dia luminoso da eternidade, que nunca a noite
obscurece e que a verdade soberana perpetuamente ilumina com seus raios: dia imutável de
alegria e repouso que nenhuma vicissitude perturba, quando luzirás tu para mim? quando virá o
fim de meus males? Quando serei livre de minhas misérias? Ó bom Jesus! Quando me será dado
ver-vos, contemplar a gloria do vosso reino? quando estarei eu convosco no “reino que vós
preparastes de toda a eternidade para os vossos eleitos?” — (De Imitação de Cristo. liv. III,
cap. XLVIII). Estou ao desamparo, pobre, exilado em terra inimiga, onde há contínua guerra e
grandes infortúnios. Consolai o meu exilio; adoçai a angustia do meu coração, porque ele por
vós suspira com todo o ardor de seus desejos. Tudo o que o mundo aqui me oferece para me
consolar, me é pesado. Ó Jesus! Eu só a vós quero; dai-me o vosso paraíso, afim que nele possa
amar-vos perfeitamente e por toda a eternidade; dai-o a meus parentes e amigos; dai-o a tantas
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pobres almas que o inferno está a ponto de devorar; e todos vos louvaremos, todos nós vos
bem-diremos, todos nós vos amaremos por todos os séculos dos séculos. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS
Animar-nos ao Serviço de Deus pelo Pensamento do Céu

Que te direi eu agora, meu caro Teótimo, senão que deves trabalhar com coragem por merecer o céu?
Nosso Senhor nos advertiu que o céu não é para os frouxos, e que é preciso fazermos violência a nós
mesmos para o obter. Aproveita-te deste aviso. Desce até ao fundo do teu coração e vê se nele
encontras algum pecado mortal. — Não, pela misericórdia de Deus. Muito bem! Estás no caminho do
paraíso: continua a marchar por ele e não te esqueças que só será coroado aquele que legitimamente
tiver combatido até ao fim. Sofre com paciência e resignação as penas, as privações, os desgostos,
os revezes desta vida corruptível; resiste às sugestões do inimigo da tua salvação; trabalha por te
fazer humilde, paciente, mortificado: todos os teus sofrimentos passarão depressa, mas a gloria que
há de ser a tua recompensa, essa será eterna. Ah! Meu caro Teótimo, em qualquer circunstancia
difícil que te encontres, olha para o céu e ficarás fortificado. Se o demônio te atormenta, te arma
ciladas, olha para o céu, e ele será vencido. Se o mundo procura ganhar-te ostentando diante de ti
seus encantos e prazeres enganosos, olha para o céu, e ele não poderá fazer-te mal. Coragem! Tu não
hás de estar muito tempo aqui em baixo no trabalho nem sempre carregado de dores. Espera um
pouco, e veras em breve o fim dos teus males: porque tudo o que passa com o tempo é pouca coisa e
não dura nada. Escreve, lê, conta os louvores de Deus; guarda silencio, ora, sofre corajosamente: a
vida eterna é digna de todos estes combates e de mais ainda. (De Imitação de Cristo. Liv. III, cap.
XLVII, n° 1, 2). Desprende-te de todas as coisas deste mundo, desprende-te de ti mesmo e repete
incessantemente:

“Meu Jesus venha a nós o vosso reino”

Adeus, meu caro Teótimo, adeus: mas não para sempre. Ainda que eu gema de há muito tempo
sob o peso das minhas numerosas misérias, tenho confiança na misericórdia do meu Jesus,
espero da sua bondade o céu que ele nos mereceu. Lá é que há de ser o nosso encontro, lá é que
nos havemos de ver. Entretanto ora por mim, recomenda-me alguma vez por caridade ao nosso
divino Senhor, afim que ele me abençoe e me dê a eterna recompensa de que sou tão pouco
digno. Adeus até que estejamos no paraíso aos pés de Jesus e Maria, ocupados em cantar sua
misericórdia e seu amor; adeus.

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Apêndice
Prática para a Santa Comunhão
Para fazer uma fervorosa comunhão três coisas se requerem, a saber: preparação remota,
preparação próxima e ação de graças.

I. A Preparação Remota
Consiste:
1.° Na isenção de pecado mortal, sem o que seria a comunhão um horrível sacrilégio. Prove-se
cada um a si mesmo em antes de se aproximar da santa mesa, mas isto sem turbação e escrúpulos.
Não esqueças que, se por um impossível, se achasse em tua consciência um pecado mortal sem que o
soubesses, não cometerias sacrilégio algum recebendo a Santa Eucaristia (1), mas que o sacramento
produziria na tua alma a graça santificante.

— Mas, meu padre, tremo todas as vezes que comungo, porque temo não estar em estado de graça, e
não ter recebido o perdão dos meus pecados.

— Meu caro Teótimo, escuta esta resposta do sábio e piedoso Gerson, e segue os sábios conselhos
que te vai dar:

“Quando um cristão, diz, resolveu receber a santa Eucaristia, e cai na perturbação e temor por
imaginar que não fez uma confissão bem feita, deve olhar este temor como uma tentação do
demônio que desejara privá-lo do grande bem da comunhão, e seguiu este meio. Deve, pois,
pensar que quando mesmo se aplicasse cem anos a tornar-se digno de receber Jesus Cristo não
poderia aproximar-se devidamente, sem um especial socorro de Deus; mas lembre-se que Deus
pode conceder-lhe esta graça agora tão bem como depois de cem anos. De mais, considere que
ninguém na presente vida, pode, sem uma particular revelação, conhecer com perfeita certeza se
está em estado de graça; mas que há uma certeza humana e moral que é necessária, e que basta
na matéria que tratamos. Para a ter, deves-te recolher, examinar a consciência e fazer o que a
descrição e os que nos conduzem nos ordenam. Quando depois deste exame, nenhum pecado
mortal reconhecemos, podemos comungar sem temor de cometer algum novo pecado. Se ainda
depois nos sobrevieram ás vezes duvidas ligeiras, como por vezes acontece, desprezemo-las e
passemos por cima”

2.° A preparação remota consiste na isenção, não de todas as faltas veniais, visto a nossa extrema
fragilidade, mas da afeição ás faltas veniais; o que não é possível alcançar-se sem a prática
habitual da oração e sem a fugida do mundo, tanto quanto o decoro do nosso estado o permite. Os
pecados veniais, não apagam em nós, verdade é, o fogo da caridade, nem da graça e amizade de Deus
nos privam; mas afrouxam o fervor da devoção, e privam-nos dessa abundância de graças que fruem
os que com grande pureza da alma se aproximam da sagrada mesa.

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3.° Consiste também esta preparação remota num ardente desejo de receber a Jesus Cristo, visto
como este alimento só aos que têm fome é proveitoso. Deus quer ser desejado, mas principalmente
dos que comungam.

4.° Está também na pureza de intenção. Cautela, meu caro Teótimo, nunca vás comungar por amor
próprio, por vaidade ou respeito humano: Ai! O orgulho em tudo se insinua. Deus não permita que
tu sejas dessas pessoas que querem comungar mui frequentemente, não tanto para se tornarem
melhores, mais recolhidas, mais mortificadas, mas para parecer que têm mais piedade do que a que
realmente tem! Seja sempre pura, sempre reta a tua intenção; tenha sempre por fim a gloria de Deus, a
tua própria salvação, a extirpação de algum vício, o fortalecimento na prática de tal ou tal virtude, o
livramento de tal ou tal tentação, se é do bom grado de nosso Senhor, ou enfim a petição de alguma
outra graça para ti, tua família, teus filhos, teus conhecidos, etc., o livramento das almas do
purgatório.

Há ainda uma outra sorte de preparação remota; consiste ela nas seguintes práticas: Alguns dias antes
de comungar, e o mais tardar na véspera, faze as tuas orações e preces com vistas de obter as graças
necessárias para bem comungar; junta a isto mais algumas boas obras, alguma esmola, alguma
mortificação, etc. Empenha-te por te conservares no maior recolhimento, pensando amiúde na
felicidade que terás de receber o teu Deus. Neste santo pensamento adormece, e seja o primeiro
quando despertares. Dize então: Que belo dia! brevemente vem Jesus tomar posse do meu coração! Ó
meu bom Mestre! vinde, vinde tomar posse do coração desta vossa pobre criatura… etc.

II. A Preparação Próxima


Consiste esta em recitar do fundo do coração os diferentes atos antes da comunhão. Encontrarás os
modelos depois desta instrução; mas como é de temer que à força de os repetir não acabes de cair na
rotina, vou, segundo Luiz de Granada e o Padre Afonso Rodrigues, indicar-te a maneira de os tirares
de ti mesmo. Dizem os santos e mestres da vida espiritual que para da santa comunhão se recolherem
abundantes frutos é preciso aproximarmo-nos dela: 1.° Com muita humildade e respeito; 2.° Com
muito amor e confiança; 3.° Com muito ardor e desejo de comer deste pão celeste.

l.° É precioso aproximarmo-nos deste adorável Sacramento com um extremo


Respeito e Humildade
Para em teu coração excitares este sentimento, podes primeiro representar-te a suprema grandeza e
majestade infinita do Deus que está realmente na Eucaristia: considerar que é Aquele que criou o céu
e a terra por um só ato da sua vontade, e que por um só ato da sua mesma vontade os pode aniquilar;
e pensa enfim que os anjos tremem de respeito diante dEle, e que ao menor sinal que dá, abalam-se e
tremem de terror as colunas do céu. Depois do que deves voltar os olhos sobre si mesmo, para
considerar a tua miséria e baixeza. Ora entrarás nos sentimentos do publicano do Evangelho, que não
ousava aproximar-se do altar nem levantar os olhos ao céu, mas que, conservando-se a um canto do
templo, feria seu peito, dizendo:

“Senhor, tende piedade de mim que sou um pecador”


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Ora servir-te-ás das palavras do filho pródigo:

“Senhor, pequei contra o céu e contra vós; não mereço ser chamado vosso filho; recebei-me
somente como um dos servos da vossa casa”

Outras vezes repete amiúde as palavras de Santa Izabel à Virgem: E de onde me vem esta graça, de
onde me vem este excesso de felicidade, que o Senhor dos anjos e toda a glória do céu venha a mim?
… Ó meu Pai! Ó meu Pastor! Meu Senhor, meu Deus, e meu tudo! Não! Não Vos contentastes com me
haver criado à Vossa imagem e remido com o Vosso sangue; mas ainda quereis por um incomparável
prodígio de amor vir fazer em mim morada, transformar-me em Vós, e fazer-Vos uma e mesma coisa
comigo, como se de mim dependêsseis e não eu de Vós!… De onde me vem esta felicidade, ó meu
Deus? É de meus méritos, ou antes tirais algum proveito de estar comigo? Não, certamente: é um
efeito só da Vossa bondade e misericórdia, que faz com que Vós estejais mais contente de estar
comigo do que eu de estar conVosco. Eu não Vos desejo, senão porque sou um miserável e tenho
necessidade do Vosso socorro; e Vós, Vós quereis-me por misericórdia, etc., etc. Ser-te-ia
utilíssimo, caro Teótimo, fazer uma grande reflexão sobre as palavras de que se serve a Igreja para o
tempo da comunhão e que são tiradas do Evangelho: “Senhor, não sou digno que entreis em minha
morada; mas dizei uma só palavra e a minha alma ficará sã”. Senhor, não sou digno de Vos
receber; mas aproximo-me de Vós afim que me torneis digno. Senhor, sou fraco e doente e aproximo-
me de Vós afim de ser curado e fortificado por Vós, etc.

2.° Devemos aproximar-nos deste Sacramento com muito Amor e Confiança


Ah! Meu Deus! A quem amaremos nós, se não amamos a Jesus no momento em que se dá todo a nós?
Para em ti excitares tão apetecíveis desejos de amor e confiança pensa em tudo o que este bom
Pastor de nossas almas fez desde o presépio de Belém até ao Calvário; segue-O passo a passo em
todos os mistérios da sua vida, e imagina que a cada ação que faz lança sobre ti um olhar cheio de
bondade e misericórdia e te diz:

“Meu filho, por teu amor é que Eu faço isto; para ganhar teu coração é que eu sofro tantos
opróbrios, que estou encerrado no Sacramento dos altares… Podias com razão recusar-me o
coração?…”

Que lhe responderás?

3.° A terceira coisa que Deus pede de ti neste augusto Sacramento, é que te
aproximes dEle com um Grande Desejo
Este pai, diz Santo Agostinho, quer ser comido com uma grande fome do homem interior; e assim
como as coisas que se comem com o apetite de ordinário fazem bem ao corpo, assim este pão celeste
fará um maravilhoso bem a tua alma, se ela o comer com uma grande fome, com uma impaciência
extrema de a Deus se unir, e com ardente desejo de obter dele graças particulares. Diligência, pois,
Teótimo, fazer com que em ti nasça esta fome tão necessária para tirar proveito do sacramento e para
isto considera de uma parte a tua extrema miséria e pobreza e a última necessidade em que te achas
de que Jesus te venha enriquecer de suas graças; por outra, os admiráveis efeitos que produz este
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sacramento na alma bem disposta e que certamente também há de produzir em ti, se lhe não opuseres
obstáculo. És fraco? Tornar-te-á forte e cheio de coragem. Serves a Deus com uma certa tibieza?
Dar-te-á um ardente fervor. A tua alma está acabrunhada sob o peso da cruz? Tornar-te-á leve e fácil
de suportar. .. etc., etc. Que razões para excitar em ti este vivo desejo da Santa Comunhão! Pede a
nosso Senhor que te dê este desejo, e não permita que nunca neste ato se intrometa nada de humano e
indigno dele.

O desejo que tiveres de comungar será a medida das graças que receberás comungando. Abre o teu
coração, diz Jesus Cristo, e eu o encherei; dilata-o, porque receberás à proporção que o abrires.
Assim, Teótimo, se queres receber a Jesus Cristo e a abundância de suas graças, têm-lhe um ardente
desejo. A medida das graças que pela santa Eucaristia tens de receber, de ti depende. Quando se não
sente desejo algum de comungar, é um sinal de morte, ao menos de uma profunda letargia. Com que
ardor, com que perseverança não deves pois, pedir a Deus para a santa comunhão essa sede
espiritual que tantas almas fiéis hão tido! Ah! Não sejas do número desses frouxos e indignos
cristãos que olham como uma bagatela o serem privados da felicidade de receber a Jesus Cristo no
Sacramento do seu Amor, ou que o recebem com uma sorte de desgosto e repugnância. Ai! Não
sentem fome alguma da santa comunhão; aproximam-se dela com indiferença e como que por
costume: e deste modo não tiram dela lucro algum. Meu caro Teótimo, seja ardente o teu desejo
de receber a Jesus Cristo, seja a tua mais predileta satisfação o preenchê-lo aproximando-te
frequentemente do sagrado banquete, e seja a tua maior dor o ver-te privado da dita de receber
a Jesus Cristo pela santa comunhão. Quando em ti não sentires esta devoção fervente, esses
desejos ardentes que era mister, e bem racionável tivesses para receber tão grande Senhor, não creias
tudo perdido. Eis uma prática que te poderá ser utilíssima. Exercita-te a desejar esta devoção e estes
desejos, e por isto suprirás ao que te falta: porque Deus, que vê o coração, receberá a tua boa
vontade, segundo estas palavras do profeta: O Senhor ouviu os desejos dos pobres; o teu ouvido,
Senhor, ouviu a preparação do coração. Refere Luiz do Blois que nosso Senhor ensinou, ele mesmo,
esta devoção e preparação a Santa Mectilde, e que lhe disse:

“Quando tens de receber o meu corpo e o meu sangue, deseja, para glória do meu nome, ter todo
o fervor e todo o zelo que o mais inflamado coração jamais teve, e então poderás aproximar-te
de mim confiadamente e com preparação; porque eu atenderei ao fervor que desejavas ter e tê-
lo-ei no mesmo preço que se realmente o tiveras”

De Santa Gertrudes conta coisa semelhante. Um dia que ela ia receber o Santíssimo Sacramento, c
que estava numa ansiedade extrema por não estar para isso preparada, pediu à santa Virgem e a todos
os santos que oferecessem por ela a Deus tudo o que jamais fizeram de mais meritório para se
prepararem a recebê-lo, e então o Senhor, aparecendo-lhe, lhe diz:

“Agora é que tu pareces aos olhos dos cidadãos do céu preparada como desejavas. De sorte que
é uma mui excelente maneira de nos dispormos para a santa comunhão, o desejarmos aproximar-
nos dela com o fervor com que o desejavam os grandes santos, e pedir a Deus que haja por bem
suprir pelos méritos do seu Filho as disposições que nos faltam”

III. Ação de graças


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Nada há mais importante que a ação de graças depois da comunhão. É o melhor momento para de
nosso Senhor obtermos tudo o que temos necessidade. Empenha-te pois, caro Teótimo, em bem a
fazer, para o que, depois de haveres recebido a Santa Hóstia, retira-te ao teu lugar, toma uma postura
que indique o teu respeito profundo, fecha os olhos e esquece todas as criaturas para não pensar
senão nAquele que em teu coração possuis. Multiplica então os atos de amor, de contrição, de
ação de graças e de firme propósito de ser todo de Deus; dá-lhe cem e cem vezes o teu coração,
conjura-o que to aceite, que te faça melhor, que te tire tudo o que Lhe desagradar. Imagina que
como Maria Madalena estás de joelhos aos pés de Jesus, que Ele te fala e te pede tal ou tal
sacrifício; por tua parte fala-Lhe também com toda a confiança, expõe-Lhe as tuas necessidades e
misérias; mostra-Lhe as chagas da tua alma; dize-Lhe com uma simplicidade de menino tudo o que
dentro em ti se passa de bem ou mal e pede-Lhe o Seu socorro, graça, amor, fervor, a perseverança
final, e o perdão dos pecados, etc., etc. Pede-Lhe também a conversão dos pecadores, o livramento
das pobres almas do purgatório, pede pelo teu marido, teus filhos, etc., etc.

Uma outra maneira excelente de fazer a ação de graças é oferecer a Deus depois da comunhão, o
sacrifício de um defeito ou imperfeição. Aqui to vou brevemente expor o modo de o fazeres. Depois
de haveres feito todos os atos de amor, petição, etc., de que acabo de te falar, volta sobre ti mesmo e
vê que faltas são as que mais vezes cometes, as imperfeições a que estás mais sujeito; procura
sacrificar alguma a Deus em cada comunhão, e oferece-lha em ação de graças. Não estou a deter-te
com mais minudências sobre esta matéria; porque facílimo te será suprir a tudo o que aqui não digo
para não ser muito longo. Aliás, por ti mesmo vês quão útil seja esta sorte de ação de graças, e que
lucro poderás tirar em pouco tempo de tuas comunhões, se, todas as vezes que tiveres a dita de a
fazer, tiveres o cuidado de te mortificar em alguma coisa e de te corrigir já de uma falta, já de outra.

Da Comunhão Frequente
Aqui naturalmente se apresenta uma questão. De onde vem, dir-me-ás, que tendo a ventura de tantas
vezes receber a Santa Eucaristia, não reconheço tornar-me melhor? De onde nasce o eu não fazer, ao
que me parece, progresso algum na virtude e fico sempre a mesmo? Temo fazer comunhões tíbias;
temo comungar vezes de mais, etc.

1.° De primeiro respondo que, quando comungues com permissão do confessor e por obediência,
deves estar tranquilo sobre o numero das tuas comunhões; se preciso fora diminuir este numero a ele
competiria fazê-lo, como juiz que é do teu progresso na virtude. Digo em seguida com o Padre
Rodrigues que se o frequente uso da comunhão nem sempre opera em nós o fruto quo era de esperar
operasse, provém isto de falta nossa. É que algumas vezes não nos preparamos como é mister, e nos
aproximamos do altar quase só por costume e como que por demais. Comunga-se porque os mais
também comungam e se está no costume de comungar; não se pensa em antes no que se vai fazer, ou
não se põe nisso assas atenção, e é isto o que faz com que tiremos tão pouco fruto.

2.° Também nasce muitas vezes o mal de nos deixarmos ir voluntariamente aos pecados veniais,
porque duas sortes há de pecados veniais; uns, em que inadvertidamente e por negligencia caímos,
outros que cometemos voluntariamente e de propósito deliberado. Os pecados de advertência nenhum
impedimento trazem à graça do sacramento; mas os veniais voluntários são-lhe um grandíssimo
obstáculo.
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3.° Digo que muitas vezes pode acontecer não sentirmos em nós os efeitos admiráveis da santa
comunhão sem que nisso haja falta da nossa parte e sem que deixemos de colher o seu fruto em nossa
alma. Aqui é 0 mesmo que na oração, sobre a qual muitos fazem semelhante questão; porquanto,
posto que não sintamos as doçuras e consolações que desejáramos e que muitas vezes podem ser
sentidas, isso não impede que sempre venhamos a tirar dela um grande fruto. Um doente nenhum
gosto acha ao alimento que toma; contudo este não deixa de 0 sustentar e fazer-lhe bem. Estas
doçuras e consolações sensíveis são graças que Deus dá como lhe apraz; e quando dela priva os seus
servos, é para os provar, para os humilhar e por este modo tirar outras vantagens e outros bens, cujo
conhecimento só lhe toca.

4.° Respondo enfim que também deve ser por lucro contado não somente o fazer progresso, mas
ainda o não cair nem recuar. Não são menos de estimar os remédios que impedem as doenças que os
que fortificam a saúde; e note-se bem isto porque é um grande motivo de consolação para os que não
experimentam tão sensivelmente o fruto que deste divino sacramento auferem. Ordinariamente se vê
que os que dele com frequência se aproximam vivem no temor de Deus, e passam anos inteiros,
alguns toda a sua vida sem caírem em pecado mortal.

É este dos efeitos do Santíssimo Sacramento, impedir que caiamos em pecado mortal… De sorte que,
embora recebendo-o não sintamos esse fervor de devoção nem essas inefáveis doçuras que talvez
outrora experimentamos, e em seguida em vez desse ardor e prontidão que alguns têm para o bem,
nós só encontremos securas e tibieza, nem por isso deixamos de tirar o nosso fruto. Se, com
comungar frequentemente, caímos em algumas faltas, em muito maiores cairemos se da comunhão nos
apartamos, etc., etc.

Dir-me-ás tu agora: Então as almas imperfeitas podem comungar frequentemente?

Eis, Teótimo, a resposta que te dá um autor tão piedoso como o sábio, o Padre Vaubert, da
Companhia de Jesus. Duas sortes de cristãos imperfeitos cumpre distinguir; querem os primeiros
deixar-se estar em suas imperfeições, anseiam os segundos sair delas. Ouso dizer que aqueles se
expõem a ser punidos da sua frouxidão; porque, segundo Taulero, o desejo de agradar a Deus, e no
sentir de São Francisco de Sales, o desejo de o amar, de virem a ser melhores, de tender eficazmente
à perfeição deve ser o principal motivo de todas as nossas comunhões. E para que é recorrer ao
medico quando se não quer ser curado? Mas os que sinceramente querem sair das suas imperfeições
e que por isso fazem tudo o que está em seu poder, nunca poderiam comungar vezes demais, com
tanto que todas as vezes vão com as disposições atuais de que são capazes, e que requer estes
sacramentos. A razão é evidente, porque, segundo os Padres da Igreja, tantas vezes se pode
comungar, quantas a comunhão nos pode ser útil. Toma todos os dias, nos dizem, o que todos os dias
te pode ser útil. Ora um cristão que está em estado de graça e se prepara segundo as suas posses, sem
que este frequente uso da Eucaristia em nada diminua o respeito e a devoção com que dele se deve
aproximar; um cristão, digo, deste caráter tira proveito da comunhão e é de todos o mais infalível
meio para chegar à perfeição a que supomos aspirar. Deve pois comungar amiúde, e ainda todos os
dias se seu confessor o permite.

Escuta sobre este ponto São Francisco de Sales:

“Se te perguntarem os mundanos porque tantas vezes andas a comungar dize-lhe que duas sortes
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de pessoas devem comungar frequentemente: os perfeitos porque estando bem dispostos grande
mal fariam em não se aproximarem do manancial e fonte da perfeição: e os imperfeitos afim de
justamente aspirarem à perfeição; os fortes para que não venham a enfraquecer, os fracos para
se tornarem fortes; os doentes para que sejam curados, os sãos para não caírem doentes; e tu
como imperfeito, fraco e doente, tu tens necessidade de comungar muitas vezes, com a tua
perfeição, a tua força e o teu médico. Dize-lhes que os que não têm muitos negócios mundanos a
tratar devem comungar muitos vezes, pois têm comodidade para o fazer: que os que estão cheios
de trabalhos mundanos também devem, porque disso têm necessidade, que para quem mais
trabalha mais sólidas e frequentes devem ser as comidas. Dize-lhes que recebes o Santíssimo
Sacramento para aprender a bem o receberes, porque nunca se chega a fazer uma coisa sem a
exercitar muitas vezes. Comunga muitas vezes, Filotéia, e as mais vezes que poderes, com
consentimento do teu pai espiritual; e acredita-me, de inverno as lebres tornam-se brancas em
nossas montanhas, à força de só verem e comerem neve, e à força de adorar e comer a beleza, a
bondade e a pureza mesma neste divino sacramento, tornar-te-ás toda bela, toda boa, e toda
pura”

Poder-se-á dizer nada mais consolador para as almas ainda imperfeitas, mas que têm um grande
desejo da sua perfeição? Poder-se-á dizer nada mais estimulante para as excitar a comungar muitas
vezes com uma humilde confiança? Mas, afinal, neste ponto devem sempre seguir o conselho de um
sábio diretor, como este grande santo expressamente o diz e como o ordenou o Papa Inocêncio XI.