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Terezinha de Castro

1. Preliminares europeias

Os mais antigos habitantes da Península Ibérica, dos quais se tem notícia, foram
os lígures e os iberos. Os iberos conheceram a escrita, deixando numerosas inscrições
que ainda não foram decifradas. Com os iberos devem ter-se misturado os celtas,
resultando daí os celtiberos. Muitas palavras de origem celta, como chaminé, clã,
caminho, passaram à língua portuguesa através do latim.

Os fenícios devem ter-se estabelecido na Península por volta do século XII a.C.;
supõe-se que Cádis e Málaga sejam de origem fenícia.

No século VII a.C., os gregos, rivais dos fenícios no Mediterrâneo, chegaram à


Península, fundando Sagunto.

Os cartagineses, também comerciantes no Mediterrâneo, fundaram aí Portimão


(Portus Hanibalis); os cartagineses procuraram conquistar a confiança de alguns povos
locais que, como os lusitanos, fizeram parte do exército de Aníbal, que invadiu a Itália
para combater os romanos.

Vencidos, os cartagineses tiveram que abandonar a Península, que foi


transformada numa província romana. A romanização da região não foi fácil, pois os
lusitanos, sob o comando de Viriato, por Várias vezes derrotaram legiões romanas.
Quando Viriato foi vencido (139), a romanização se estendeu por toda a Península
Ibérica. O latim converteu-se na língua oficial; vulgarizou-se o culto aos deuses greco-
romanos, como provam as ruínas do templo erigido em louvor a Diana, encontrado em
Évora. Com o Édito de Milão (313), publicado por Constantino, os peninsulares
também se tornaram cristãos.

No ano de 409, começou a Península a ser invadida pelos bárbaros; alguns


estiveram lá apenas de passagem, mas os suevos e visigodos aí se estabeleceram. Nessa
época, o latim foi-se modificando para dar origem ao primitivo português e espanhol;
entre os vocábulos de origem visigótica que figuram na língua portuguesa, destacam-se
hoje: bandera (bandwô), guarda (wardja), espora (spaura).

Em 711, os árabes invadiram a Península, mas não conseguiram dominá-la toda:


ficava a regiãos das Astúrias como centro de repressão aos invasores. O domínio
muçulmano em Portugal durou mais de 7 séculos (711-1249), daí ter sido grande a
influência cultural dos árabes nesse território. Introduziram plantas novas – arroz,
algodão, cana de açúcar, laranja, limão; novos processos de irrigação para a agricultura,
através do açude e azenhas (moinhos de água); fundaram em Xátiva a primeira fábrica
de papel da Europa; introduziram no gosto português o uso dos azulejos; fazendo,
finalmente, passar para a língua portuguesa mais de 700 palavras, entre as quais alferes,
alcaide, almirante, alfândega, Alcântara (ponte0, Alfama (asilo, refúgio), Algarve
(Ocidente) etc. No entanto, em território hoje português, ao sul do Douro, a ocupação
árabe foi mais demorada, já que do norte os muçulmanos foram expulsos ainda no
tempo de D. Afonso, o Católico, Rei das Astúrias (739-757). Este fato explica ser maior
a influência árabe ao sul do Douro e podermos distinguir o Portugal mourisco do
Portugal românico.

Durante a dominação árabe, começou a se organizar aquele que mais tarde seria
o Reino de Portugal. Em fins do século XI, estavam unidos os territórios de Leão e
Castela, sob o cetro de Afonso VI. Para combater os árabes, este rei recorreu a outros
nobres cristãos, inclusive franceses. Foi nessa época que muito se distinguiram
Raimundo e Henrique de Borgonha, condes franceses. Tão valorosamente lutaram que
Afonso VI lhes deu como recompensa, além da mão de suas filhas, pequeno condado
para governarem. A D. Raimundo coube a mão de D. Urraca, filha legítima do rei, e
ainda o Condado da Galícia; a D. Henrique coube a mão de D. Teresa, filha ilegítima
do rei, e ainda o Condado Portucalense, situado entre o Minho e o Douro, tendo
Guimarães como capital.

D. Henrique de Borgonha foi, assim, Conde de Portugal, que, na realidade, era


um simples feudo. Seu filho, Afonso I (Henrique), lutou contra o primo, Afonso VII,
colocado pelo avô no trono de Castela a fim de consolidar a independência de seu
território; em 1179, o Reino de Portugal era reconhecido pelo Papa Alexandre III.
Iniciava-se assim, a Dinastia de Borgonha, cujos reis foram aos poucos ampliando o
território para o sul, conquistando terras aos árabes.

Mas Portugal era um país pobre no setor agrícola, já que possuía regiões de
muita pedra e sujeitas às secas; tinha terras de vindima, mas que não eram suficientes
para a vida inteira. O território português transformara-se num retângulo paralelo ao
Oceano Atlântico, onde os estuários dos rios ofereciam bons abrigos. A pobreza do solo
e a posição geográfica do país levariam os portugueses a recorrerem à pesca para sua
alimentação; e é nessa pesca que vamos encontrar as origens das navegações
portuguesas.

Quando subiu ao trono D. João I (1357), iniciando a Dinastia de Avis, já os


portugueses começavam a se passar para a África, a fim de combater os árabes que lá
estavam. Para a conquista de Ceuta, D. João I levou seus três filhos mais velhos, aos
quais armou cavaleiros. Um deles era o Infante D. Henrique, que levaria a cabo a
expansão marítima portuguesa, fundando no promontório de Sagres um grêmio, que
passou a atrair grande número de navegadores experimentados da época.

Os navegadores mais experimentados eram então os genoveses e venezianos, já


que durante toda a Idade Média o Mediterrâneo foi o centro do comércio. Em 1453,
quando os turcos muçulmanos tomaram Constantinopla, ponto de contato entre a
Europa e o Oriente, as rotas comerciais ficaram prejudicadas. Tornavam-se urgente
descobrir um novo caminho para as Índias (nome atribuído na época a todo o Oriente),
pois os europeus não podiam passar sem as especiarias. Iniciaram-se então as grandes
navegações portuguesas, obra da Dinastia de Avis.
No reinado de D. João II (o 4ª Rei da Dinastia de Avis), deram-se grandes
descobertas; Bartolomeu Dias (1488) chegou ao ponto extremo sul da África – Cabo das
Tormentas – ao qual o rei pôs o nome de Cabo da Boa Esperança; continuando a rota,
Vasco da Gama (1498) descobria o caminho marítimo para as Índias, quando já estava
no trono D. Manuel.

2 – Achamento do Brasil

Vasco da gama havia voltado das Índias em setembro de 1499, quando D.


Manuel ordenou que se organizasse uma nova esquadra, ainda mais poderosa, para que
fosse à Índia em missão diplomática, a fim de resolver sobre questões políticas e
comerciais. Era a mais poderosa esquadra que Portugal até então havia organizado;
compunha-se de 13 navios. Pedro Álvares Cabral seria o capitão-mor da esquadra; ao
contrário do que se diz, ele jamais foi almirante, já que o próprio Caminha, escrivão da
frota, em sua minuciosa carta tratava-o por capitão-mor. Essa frota, no entanto, antes de
chegar à Índia, tocaria no Brasil a 22 de abril de 1500.

Até a primeira metade do século XIX, acreditava-se que o Brasil havia sido
descoberto casualmente por Cabral; este, afastando-se demais da costa africana a fim de
evitar as calmarias, veio ao Brasil trazido pela corrente sul equatorial. Em 1850,
Joaquim Norberto de Souza e Silva levantou no Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro a tese da intencionalidade.

Afirmavam os adeptos da casualidade que Cabral trazia instruções escritas de


Vasco da Gama para que evitasse as calmarias. Afastando-se demais, veio ter ao Brasil.
Ora, dizem que os defensores da intencionalidade que, de fato, Cabral podia ser
inexperiente (não se tem notícia de qualquer viagem sua, anterior ou posterior ao nosso
descobrimento), mas ele trazia em sua frota navegadores experimentados, entre os quais
o próprio Bartolomeu Dias (descobridor do Cabo da boa Esperança), que não o deixaria
incorrer em tal erro, pois já viajara pela região.

Com que intuito, pergunta a tese da intencionalidade, teria sido Cabral, tão
inexperiente, nomeado para dirigir semelhante empresa? Por que não foi ela entregue ao
próprio Bartolomeu Dias ou a Vasco da Gama, que já conheciam a rota do caminho
marítimo para as Índias? O Rei D. Manuel tinha interesse em que todos soubessem,
principalmente o papa, que o Brasil fora descoberto por acaso; um erro de tal monta não
ficaria bem para um grande navegador. Por que esse interesse do rei português? É que,
pelas diversas bulas expedidas por vários Papas, doando terras que os portugueses
descobrissem ou viessem a descobrir, o Governo português prontificava-se, em troca, a
cristianizar os pagãos. Se Portugal confessasse, na época, que já tinha conhecimento do
Brasil anteriormente a 1500, incorreria no crime de não haver iniciado logo os índios na
prática do cristianismo, desrespeitando, portanto, o compromisso que assumira com os
Papas. Daí o sigilo sobre o Brasil naquela época e a atitude de casualidade no seu
descobrimento.
O Brasil não oferecia interesses imediatos a Portugal naquela época. Aqui se
encontrava o pau-brasil, mas eram as especiarias do Oriente que davam maiores lucros
ao comércio português. A prova do desinteresse de Portugal por nosso território é que,
descoberto em 1500, só trinta anos depois (1530) começaria a colonização propriamente
dita, com o envio para cá da frota de Martim Afonso de Souza. Que motivos levariam
Portugal a iniciar a colonização em 1530? Porque o próprio Critóvão Jacques, que aqui
estivera por duas vezes em expedições policiadoras (1516 e 1526), viu a
impossibilidade de impedir a visita de contrabandistas em costa tão extensa como a
nossa, e que só a povoando poderia Portugal manter sua soberania sobre o território
brasileiro.

Descobrindo a América em 1492, Cristóvão Colombo punha por terra o plano


português de ocultar essas terras, até ver-se fortemente estabelecido no Oriente.
Desejava reserva-las para mais tarde, pois não tinha número suficiente de habitantes
para povoar e manter o Brasil, já que lutava contra a mesma deficiência para conservar
o Oriente. Tanto é que, falhando a possibilidade colonizadora de Martim Afonso, que
trouxera pouca gente para povoar tão grande área, resolveu o Governo português tentar
a colonização particular do território, dividindo-o em capitanias hereditárias. A
Espanha, nas mesmas condições que Portugal, pouco habitada, tentou tomar a si o
encargo de administrar o vasto território americano que descobrira; lutou muito e
acabou perdendo grandes áreas para os franceses, ingleses etc.

A questão da bula inter Coetera (1493) é outro fato interessante a ser


mencionado. Que razões teria levado o Governo português a rejeitar a delimitação
estipulada por essa bula? Por que não aceitou logo as terras a 100 léguas a oeste de
Cabo Verde? Sabe-se que, com tal partilha, território algum na América seria português;
a África, sim, seria portuguesa, e a América, espanhola. Por que exigiu o governo
português mais 260 léguas? Esta é a origem do Tratado de Tordesilhas (1494), que,
dando 370 léguas a oeste de Cabo Verde para Portugal, atingia um trecho da costa
brasileira mais ou menos delimitado entre Belém (Pará) e Laguna (S. Catarina). Com
isso, Portugal, antes mesmo da descoberta oficial, já ficava de posse de uma área de
2.800.000 km² no Brasil. Mesmo assim demorou-se sete anos a vir tomar posse do seu
território americano, que neste período era visitado pelos espanhóis Vicente Yanez
Pinzon e Alonso Hojeda, precursores de Cabral.

Mestre João, físico e cirurgião do Rei de Portugal, alemão de nascimento, era


dos mais categorizados astrônomos da época. Muito entendido na arte de determinar a
longitude de leste e oeste, não haveria ele, sendo um dos componentes da esquadra
cabralina, de corrigir com presteza a rota do Cabo da Boa Esperança e Calicut? O Brasil
foi descoberto oficialmente em 1500, com a ciência do único matemático a serviço de
Portugal, que se orientava pelos seus cálculos de longitude, ignorados por muitos dos
seus contemporâneos. Daí o apelo que fizera o piloto Pêro Anes a El-Rei, em 1509, para
que lhe permitisse aprender a arte com Mestre João (Fragmentos da Torre do Tombo,
maço 17) – “e eu me meti com ele por todos os modos que pude, para que me ensinasse,
e o Mestre João não quer e me diz que sem mandado expresso de Vossa Alteza não há
de fazê-lo”. página 6.