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FÉ E POLÍTICA:
O DESAFIO DA IGREJA PARA PROPOR UM MUNDO DE
PAZ
V Mostra de
Pesquisa da Pós-
Graduação

Leandro Luiz Lied, Prof. Dr. Érico João Hammes (orientador)

Faculdade de Teologia, PUCRS, Instituto YY, Outra Instituição

Resumo

O processo de condução democrática que se desenvolveu em praticamente todas as


sociedades do mundo contemporâneo coloca um grande desafio para os cristãos, podendo ter
a Igreja Católica grande influencia na motivação e na participação política que resulte numa
transformação social, econômica e política da sociedade. Cabe ressaltar que as motivações
para aprofundar a pesquisa da participação cristã no processo de decisão da sociedade levam
em consideração a participação num processo amplo que supera da política partidária. A
ação política do cristão deve ser uma ação ética e escatológica. O cristão precisa responder
questões como: a relação da fé com a realidade social, econômica e política da sociedade? Ou,
a fé tem a ver com a realidade que se vive? É necessário desenvolver uma ideia menos
ingênua e desvincular o uso da fé por políticos, mas também, não deixar cair no outro extremo
em que a política se desliga do transcendente e dos valores éticos. Assim o agir político não é
para o cristão de hoje algo que se pode evitar.
O que se busca é uma correta articulação entre fé e política que permita a tomada de
decisões no campo político a partir de uma orientação teológica e de uma mediação das
ciências humanas e sociais. Neste sentido não é ao Evangelho que cabe dizer se existes ou não
mecanismos de opressão e exploração em uma determinada sociedade e, caso existam, quais
são estes. Do mesmo modo o Evangelho não fornece paradigmas econômicos, sociais ou
políticos que possam servir de modelos para uma sociedade. A resposta a esta questão deve
ser buscada na sociologia, na economia e nas outras ciências sociais e humanas. É à luz do
Evangelho que a opressão vem condenada e que surge o imperativo de transformar as
estruturas sociais na linha dos valores evangélicos e com a Boa Nova de Jesus, daí poder se

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afirmar igualmente a importância da mediação teológica. Diante do perigo de um desinteresse


pela participação política, cabe a Igreja chamar os cristãos a não se omitirem.

Introdução

Os temas relacionados com a religião, espiritualidade, política e paz estão enfrentando


uma crise sem precedentes na atualidade. As crises sempre proporcionam que se estude, se
reflita e que se busque alternativas viáveis para construir uma proposta nova que satisfaça os
interesses das pessoas. Embora estes temas sejam independentes entre si, queremos a partir
deste projeto de pesquisa encontrar pontos que estabeleçam relações entre eles. Pontos
comuns para construir uma proposta de uma nova estrutura de organização de sociedade, de
atuação política, de postura atuante na construção da paz e da solidariedade. E,
fundamentalmente, identificar que todas estas ações estejam interligadas com o “fio de ouro”
da religião cristã.
Historicamente desde que o homem assumiu sua atitude de ser racional, a religião se
fez presente em sua vida e em sua história. O pensamento religioso sempre serviu para
orientar a sua vida em sociedade. Orientação que não se limitava ao culto do mistério, mas
que atuava de forma decisiva na realização dos afazeres cotidianos, na administração da
política e na feitura da guerra. Esta característica vem se mantendo de forma invariável
durante todo o processo histórico. Política, religião, solidariedade e paz estão sempre na pauta
da vida da humanidade.

Com o cristianismo e o desenvolvimento da proposta de Cristo a tendência de uma


sociedade mais humana e solidaria se construir passou a empolgar um número cada vez maior
de pessoas e povos. Mas as guerras se sucederam, as políticas de destruição e de injustiças se
multiplicaram. Embora a quantidade de lideres cristão aumentasse. A pregação, a crença e a fé
em Jesus não surtiram o efeito desejado. A construção desta nova civilização é necessária e
urgente. O mundo precisa de paz e de solidariedade.

É importante mostrar que a política para ser compreendida pelas pessoas tem que ter
um horizonte de transcendência. A fé esta sempre presente nas ações da política. Sem a crença
o homem não consegue organizar uma ordem justa e duradoura. Esta é uma antiga convicção
dos cristãos. A igreja sempre esteve próxima do Estado. Da mesma forma o Estado se utiliza
da religião para fazer valer seus interesses como podemos observar no preâmbulo da
Constituição Brasileira: “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia

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Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício


dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a
igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem
preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional,
com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”
Igreja e Estado têm diferentes finalidades, o espiritual e o temporal. Existe sempre o
perigo de uma instituição sobrepor a outra ou de construírem paralelismos entre as duas
instituições. Dessa forma, respeitando a distinção entre as duas ordens e a autonomia da
ordem temporal, e por isso a diferença fundamental entre Igreja e Estado, afirma-se que ao
mesmo tempo a existência de uma relação entre as duas ordens, na qual a Igreja atua no
mundo não só como oferta de salvação às pessoas, mas também à história humana.
A política é uma atividade complexa e difícil de ser entendida pelas pessoas que não a
acompanha mais de perto. Os padrões de moralidade do homem público diferem dos que
regem a ordem privada e daqueles que se dedicam a religião. No Brasil a falta de participação
da população na vida pública torna a política incompreensível. Habilmente exploradas por
certos meios de divulgação, geram a imagem de que todo político é um homem interesseiro,
falso, “vira-casaca”, vaidoso aproveitador; uma pessoa que trabalha pouco e ganha muito; um
parasita, quando não, desde logo, um ladrão. Essa imagem precisa ser trabalhada. Qualquer
forma de generalização compromete as instituições a que as pessoas pertencem.
Portanto a proposta de pesquisa vem na direção de demonstrar o papel da religião e
especialmente da Igreja na orientação da sociedade, das suas organizações na construção de
um Estado solidário e defensor da paz. A questão que se coloca é: Em que esta atividade
política ajuda (ou dificulta) a sintonia entre a vida prática e a mensagem do Cristo? A igreja
tem o dever de formar e orientar seu povo para participar e influir nas decisões políticas. Ou
ainda, a Igreja deve cobrar dos lideres cristãos que atuam no Estado a defesa das teses
Cristãs?

Metodologia

Na perspectiva geral, a pesquisa parte da análise da Fé e da Política como um espaço


de estudo. Os dados referentes ao tema serão buscados nos textos produzidos pela Igreja
Católica no decorrer de sua história. Para analisar estes textos, a fundamentação de teólogos,
filósofos e cientistas políticos se fará necessária. O conhecimento elaborado nas experiências

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vividas pelo povo de Deus na sua longa e secular caminhada será analisado na perspectiva de
uma proposta de construção de um novo mundo possível. Para tanto, algumas ações devem
ser executadas como:
- Estudo do debate clássico sobre o tema;
- Revisão bibliográfica teológica;
- Análise de documentos da Igreja;
- Acompanhamento dos debates interdisciplinares da academia;
- Discussões com teólogos, políticos e pessoas da comunidade;
- Entrevistas;
- Tentativa de elaboração de elementos de teoria sobre o tema;
- Elaboração de artigos sobre o tema proposto.

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