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Análise Formal sobre o 1º movimento do concerto em Dó Maior para Oboé e

Coras, KV 314, de W. A. Mozart


Análise Musical II
2019
João Pedro Schwingel Carada, 42295

1 INTRODUÇÃO

¹O concerto para oboé e cordas de Mozart foi composto em 1777 e


acredita-se que sua versão para flauta, em ré maior, tenha sido uma adaptação
feita pelo compositor em 1778. É uma peça do período clássico que, embora
esteja na forma sonata concerto, tem diversos detalhes que fogem do que era
comumente escrito por outros compositores da mesma época – inclusive de
outros concertos do próprio Mozart.

2 ANÁLISE

No primeiro movimento do concerto, Allegro aperto, a exposição começa


com um tema – em dó maior – que, na sua primeira parte (²Ia), é marcante, sendo
sustentado por um pedal (em vermelho) de dó tocado pelas cordas graves e
trompas, como pode ser observado na ³figura 1.

Figura 1 – Início do movimento

¹Informação retirada do artigo “The History of the Mozart Concerto K. 314 Based on the Letters of the Mozart Family, a
Review of Literature and Some Observations on the Work”, de George T. Riordan.
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A segunda parte deste tema (Ib) começa um pouco mais lírica, na
anacruse do compasso 5 para 6. A figura tocada pelos primeiros violinos e oboé,
no compasso 8 (f. 2) antecipa o início do segundo tema (f. 3), como demonstrado
no trecho abaixo.
6 8

Figura 2 – figura que iniciará o tema II

11 12

Figura 3 – início do tema II

No compasso 11, indicado acima, há um acorde de sol maior (dominante),


que prepara a entrada para a primeira parte do segundo tema (IIa), também em
dó maior – começando com a figura já vista anteriormente no compasso 8.

¹Informação retirada do artigo “The History of the Mozart Concerto K. 314 Based on the Letters of the Mozart Family, a
Review of Literature and Some Observations on the Work”, de George T. Riordan.
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Este novo material temático, iniciado também com um pedal de tônica,
difere do primeiro, pois é mais lírico nas suas duas primeiras partes (IIa e IIb).
Quando chega ao seu fim, ele volta a ser marcante, com um jogo de pergunta
(em vermelho) e resposta (em azul) entre os violinos 1/oboé e a orquestra, que
antecede a entrada do solista.

Figura 4 – tema IIc, pergunta e resposta

Diferente do que acontece comumente nas formas sonatas concerto


clássicas, após um compasso da entrada do oboé, o tema Ia é citado pelos violinos
1 e 2, sob o dó agudo do solista (f. 5). Após isto, prolifera-se um novo trecho iii, de
mesma tonalidade – não tão marcante quando os temas I e II – de 10 compassos,
sobre um pedal de tônica da orquestra (f. 6). Ao final, os músicos fazem uma
pequena citação de IIc e, então, no compasso 50 (f. 7), começam o
desenvolvimento em cima deste.
33

Figura 5 – Ia sob dó agudo do solista

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Figura 6 – trecho de iii

5
0

Figura 7 – início do desenvolvimento

A primeira parte do desenvolvimento inicia-se em sol maior, com a repetição do


motivo do compasso 50 (figura 7), entre a orquestra e o solista. Em 59 (f. 8), pode ser
observado uma linha, tocada pelo oboé, que parece ser baseado no trecho iii (f. 9).
59 43

Figura 8 – baseado em iii Figura 9 – iii

Mais afrente, em 61, há alguns compassos baseados em IIa, agora no


relativo menor (lá menor) e, então, no seguimento de uma linha de semicolcheias
tocadas pelo oboé, como havia ocorrido em iii, chega-se ao compasso 68, que é
baseado, possivelmente, em um trecho de IIb (f. 10 e 11).

Figura 10 – material de IIb utilizado no desenvolvimento

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Review of Literature and Some Observations on the Work”, de George T. Riordan.
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68

Figura 11 – trecho possivelmente baseado em IIb

No compasso 77, há um acorde de ré maior (dominante da dominante)


que dá seguimento a um desenvolvimento baseado em IIa, agora na dominante
sol e tocado pelo solista. Logo em seguida, no compasso 83, há o
desenvolvimento de IIb, agora em ré maior (antes em sol maior).

83

Figura 12 – desenvolvimento sobre IIb (em ré maior)

Figura 13 – IIb (em sol maior)

No compasso 90, há a primeira ocorrência de tercinas (em colcheia),


formando arpejos de sol maior e dó maior, que três compassos depois são
desenvolvidos na forma de semicolcheias (f. 14 e 15).
90

93 Figura 14 – tercinas

Figura 15 – desenvolvimento das tercinas

Após, segue-se uma citação de IIc, ainda em sol maior.


Em 111 (f. 16), o desenvolvimento começa a ficar mais profundo,
mesclando diversos temas ao mesmo tempo.

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111

Figura 16 – início da segunda parte do desenvolvimento


Figura 8

Em 116, surgem novamente as tercinas, procedido de um breve


desenvolvimento em semicolcheias (f. 17), agora com altura de notas mais
restrita.
116

Figura 17 – tercinas

Essa sequência de semicolcheias segue até a entrada do tema Ia, dado pela
orquestra, em dó maior, no compasso 120, sob um dó agudo do oboé (f.18). Assim
como em 33, procede um trecho dado pelo solista, baseado em iii e IIa (f. 19).

120

Figura 18 – retomada de Ia
124

Figura 19 – trecho baseado em iii e IIa

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Em 137, há um desenvolvimento baseado em iii. Segue-se linhas
melódicas que já haviam ocorrido antes em 68, caminhando a uma citação do
tema IIa, no compasso 154 (f. 20).
154

Figura 20 – citação de IIa

Começa aí a reexposição. Entretanto, após esta citação de IIa, o oboé


desenvolve mais material, citando linhas melódicas que já haviam aparecido no
desenvolvimento (exemplo em f. 21).

167
170

Figura 21 – trechos que já haviam


aparecido nos compassos 90 e 93

Em 174, há uma citação do tema Ia, pela orquestra, como preparação


para a cadência do solista (f. 22). Após a cadência, é encaminhado o coda
final, baseado em IIc, finalizando o movimento (f. 23).

Figura 22 – cadência do solista Figura 23 – fim do movimento

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3 GRELHA COM PANORAMA GERAL DA ANÁLISE

W. A. Mozart: Concerto em Dó Maior para Oboé e Orquestra, KV 314


Compassos Temas Tonalidades
Exposição 1 O Ia pedal C Dó Maior T

5 fim Ia início Ib
6 O Ib mais lírico Dó maior T
8 antecipação tema II
11 acorde dom.
12 O IIa animado Dó Maior T
pedal de C
17 O IIb leggato Dó Maior T
23 O IIc prep. Solista Dó Maior T
pergunta/resposta
32 S intro. Solista
33 O Ia citação Dó Maior
S base sup. C do solista

37 S iii novo material Dó Maior


47 O IIc citação Dó Maior
Desenvolvimento 50 S [IIc] Sol Maior D
59 S [iii]
61 S [Ib] Lá Menor rT
68 S/O [IIb] Sol Maior D
78 S [IIa] Sol Maior D
83 S [IIb] Ré Maior sD
90 S tercinas Sol Maior, Dó Maior
111 O [IIc, tercinas] desenv. mais profundo Dó Maior, Lá Menor, Sol Maior D
120 O Ic Falsa reexposição Dó Maior T
124 S [iii, IIa, IIb] desenv. mais profundo Ré Menor, Dó Maior, Fá Maior
153 acorde dom.
Reexposição 154 S IIa pequena citação Dó Maior T
167 S tercinas Dó Maior, Ré Menor
174 O Ia citação Dó Maior T
178 S Cadência
179 S/O Coda Final Dó Maior T

Exposição 49 compassos
Desenvolvimento 104 compassos
Reexposição 24 compassos

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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O primeiro movimento do concerto em Dó Maior de Mozart traz diversos


pontos interessantes (exceções) dentro da forma sonata concerto. Na exposição,
podem-se notar que o solista não repete nenhum dos temas trazidos pela
orquestra. Pelo contrário, ele desenvolve um novo material que será utilizado
diversas vezes mais tarde. Portanto, a exposição é muito curta. No início do
desenvolvimento, os temas estão mais evidentes, como se acontecesse ali uma
espécie de segunda exposição. Contudo, a partir do compasso 111, os temas
começam a se misturar, passando por mais tonalidades, criando materiais mais
complexos. A reexposição começa no compasso 153, com uma pequena citação
do tema II (pode-se dizer que houve uma falsa reexposição com o tema I no
compasso 120). Entretanto, após 161, o solista desenvolve um pouco mais sobre
o trecho iii e outros materiais que haviam se proliferado no desenvolvimento. A
reexposição vira, em parte, também uma espécie de pequeno desenvolvimento.

¹Informação retirada do artigo “The History of the Mozart Concerto K. 314 Based on the Letters of the Mozart Family, a
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5 REFERÊNCIAS
Mozart, W. A. Neue Mozart-Ausgabe, Serie V, Werkgruppe 14, Band 3: Konzerte
für Flöte, für Oboe und für Fagott [NMA V/14/3] (pp.97-132). Kassel: Bärenreiter-
Verlag, 1981.
Riordan, G. T. The History of the Mozart Concerto K. 314 Based on the Letters
of the Mozart Family, a Review of Literature and Some Observations on the Work.
IDRS JOURNAL: Florida, ????.

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