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TEORIA_C2_3A_Conv_DANIEL 25/10/10 16:04 Página 41

FRENTE 2 Literatura

MÓDULO 21 Prosa Romântica II – José de Alencar II

1. O ROMANCE URBANO Antologia


q Senhora
Publicado em 1875, é o terceiro TEXTO I
da série “perfis de mulher”. A per-
sonagem principal é Aurélia Camar- (...)
Na sala, cercada de adoradores, no meio
go, rainha dos salões cariocas na das esplêndidas reverberações de sua
época do Segundo Reinado. Herdei- beleza, Aurélia, bem longe de inebriar-se da
ra repentina de um avô que desco- adoração produzida por sua formosura e do
culto que lhe rendiam, ao contrário parecia
nhecia, passa da pobreza a uma
unicamente possuída de indignação por essa
existência de fausto social. Toda a turba vil e abjeta. Um funcionário a passeio com sua famí-
intriga gira em torno do tema do Não era um triunfo que ela julgasse digno
de si, a torpe humilhação dessa gente ante sua
lia, em tela de Debret.
casamento por interesse, por meio
riqueza. Era um desafio, que lançava ao
do contrato e dote, fato comum na mundo, orgulhosa de esmagá-lo sob a planta, TEXTO II
época. Aurélia enquanto pobre so- como a um réptil venenoso.
frera amarga decepção ao ver E o mundo é assim feito; que foi o fulgor
satânico da beleza dessa mulher a sua maior Aurélia passava agora as noites solitária.
Fernando Seixas, por quem se ena- Raras vezes aparecia Fernando, que ar-
sedução. Na acerba veemência da alma revol-
morara, afastar-se diante do aceno ta, pressentiam-se abismos de paixão, e entre- ranjava uma desculpa qualquer para justificar
de um dote de trinta contos de réis, via-se que procelas de volúpia havia de ter o sua ausência. A menina, que não pensava em
quando ela de nada dispunha. Jurou amor da virgem bacante. interrogá-lo, também não contestava esses
Se o sinistro vislumbre se apagasse de fúteis inventos. Ao contrário, buscava afastar
vingar-se e ao receber a herança da conversa o tema desagradável.
súbito, deixando a formosa estátua na penum-
manda sigilosamente oferecer ao ex- bra suave da candura e inocência, o anjo Conhecia a moça que Seixas retirava-lhe
noivo a quantia de cem contos de casto e puro que havia naquela, como há em seu amor; mas a altivez de coração não lhe
réis para um casamento com moça todas as moças, talvez passasse desperce- consentia queixar-se. Além de que, ela tinha
bido pelo turbilhão. sobre o amor ideias singulares, talvez inspira-
desconhecida. Fernando repeliu As revoltas mais impetuosas de Aurélia das pela posição especial em que se achara
inicialmente a oferta, mas, neces- eram justamente contra a riqueza que lhe servia ao fazer-se moça.
sitando de dinheiro, aceitou-a, com a de trono e sem a qual nunca, por certo, apesar (Senhora, cap. VI)
condição de receber vinte contos de de suas prendas, receberia como rainha
desdenhosa a vassalagem que lhe rendiam.
réis em adiantamento. Na noite de q Lucíola
Por isso mesmo considerava ela o ouro
núpcias, é recebido com desprezo, um vil metal que rebaixava os homens; e no Neste romance, Alencar desen-
sofrendo a humilhação de encarar o íntimo sentia-se profundamente humilhada volve um tema romântico que moti-
pensando que, para toda essa gente que a vou, e ainda motiva, muita paixão. É
recibo da sua compra em posse de
cercava, ela, a sua pessoa, não merecia uma o tema da “boa prostituta”, que se
Aurélia. Um ano depois, consegue, só das bajulações que tributavam a cada um
graças a um negócio antigo, receber de seus mil contos de réis. redime de seu “pecado” por meio do
a quantia de vinte contos que Nunca da pena de algum Chatterton amor sincero de um belo jovem, que
desconhecido saíram mais cruciantes apóstro- a ama, mas que a sociedade tentará
entrega à mulher para compra de fes contra o dinheiro, do que vibrava muitas afastar dela. Ela é Lúcia, meretriz de
sua liberdade. Aurélia pede-lhe que vezes o lábio perfumado dessa feiticeira meni-
singular nobreza de caráter, inspi-
fique, pois o seu procedimento fizera na, no seio de sua opulência.
Um traço basta para desenhá-la sob esta rada na Marguerite da peça A Dama
com que se redimisse de toda a ve- das Camélias, de Alexandre Dumas
face.
nalidade [venal é quem se vende] e Convencida de que todos os seus inúme- Filho; ele é Paulo Silva, um jovem
infâmia. O romance retrata os hábitos ros apaixonados, sem exceção de um, a promissor, de boa família, inspirado
e vícios da sociedade fluminense da pretendiam unicamente pela riqueza, Aurélia
reagia contra essa afronta, aplicando a esses
no Alfredo da mesma peça. Aqui, co-
época, influenciada pelos hábitos mo em Senhora, Alencar, romantica-
indivíduos o mesmo estalão.
europeus e em vias de formação Assim costumava ela indicar o mereci- mente, apresenta o amor como ope-
urbana. Com uma narrativa comple- mento relativo de cada um dos pretendentes, rador de mudanças comportamen-
xa para o romance da época, é dos dando-lhes certo valor monetário. Em lingua- tais nas pessoas — mudanças que
gem financeira, Aurélia cotava os seus adora-
melhores livros de José de Alencar. dores pelo preço que razoavelmente poderiam
trazem purificação, redenção, eleva-
(A. Coutinho, Enciclopédia de Litera- obter no mercado matrimonial. ção. No jogo de “pecado”, “pureza”,
tura Brasileira, MEC) (Senhora, cap. I) sexo e convenções sociais, revela-se
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a concepção moral de Alencar, que que significa, na sua língua, “filho da


exprime o moralismo da parcela con- dor”. Martim enterra o corpo da espo-
servadora da sociedade de seu tem- sa e parte, levando o filho e a sauda-
po. de da fiel companheira. (R. M. Pinto,
in Pequeno Dicionário de Literatura
TEXTO III Brasileira, Cultrix.)
Iracema, por sua linguagem su-
Um embaraço imprevisto, causado por gestiva e delicada, é um verdadeiro
duas gôndolas1, tinha feito parar o carro. A
poema em prosa. A narrativa procura
moça ouvia-me; voltou ligeiramente a cabeça
para olhar-me e sorriu. Qual é a mulher bonita Iracema, de Antônio Parreiras (1869- representar, miticamente, o surgimen-
que não sorri a um elogio espontâneo e um 1937), inspirado na personagem homô- to da nacionalidade brasileira pelo
grito ingênuo de admiração? Se não sorri nos nima de José de Alencar. Iracema, “lenda contato da terra virgem (Iracema é a
lábios, sorri no coração. do Ceará”, metaforiza a formação de uma
Durante que se desimpedia o caminho,
“virgem dos lábios de mel”) com o
nova raça, morena, mestiça, tropical, uma europeu civilizado. Quanto a este
tínhamos parado para melhor admirá-la; e
utopia romântica e nacionalista, revestida
então ainda mais notei a serenidade de seu sentido simbólico, já foi notado que o
olhar que nos procurava com ingênua curiosi-
de um intenso lirismo e alta poesia.
nome Iracema é um anagrama de
dade, sem provocação e sem vaidade. O carro
partiu; porém tão de repente e com tal ímpeto q Resumo América (anagrama é palavra forma-
dos cavalos por algum tempo sofreados, que a Numa atmosfera lendária, de exó- da pela transposição das letras de
moça assustou-se e deixou cair o leque. Apres- tica e delicada poesia, desenrola-se a outra palavra).
sei-me e tive o prazer de o restituir inteiro.
Na ocasião de entregar o leque apertei-lhe história triste dos amores de Martim,
primeiro colonizador português no Cea- TEXTO IV
a ponta dos dedos presos na luva de pelica.
Bem vê que tive razão assegurando-lhe que rá, e Iracema, a jovem e bela índia taba-
não sou tímido. A minha afoiteza a fez corar; Além, muito além daquela serra, que
jara, filha de Araquém, pajé da tribo.
agradeceu-me com um segundo sorriso e uma ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
ligeira inclinação da cabeça; mas o sorriso Martim saíra à caça com seu amigo Iracema, a virgem dos lábios de mel, que
desta vez foi tão melancólico, que me fez dizer Poti, guerreiro pitiguara, e perdera-se tinha os cabelos mais negros que a asa da graú-
ao meu companheiro: do companheiro, indo ter aos campos na e mais longos que seu talhe de palmeira.
— Esta moça não é feliz! O favo da jati não era doce como seu
dos inimigos dos tabajaras. Encontra
— Não sei; mas o homem a quem ela sorriso; nem a baunilha recendia no bosque
amar deve ser bem feliz! Iracema, que o acolhe na cabana de como seu hálito perfumado.
Nunca lhe sucedeu, passeando em nos- Araquém, enquanto volta Caubi, seu Mais rápida que a ema selvagem, a
sos campos, admirar alguma das brilhantes irmão, que reconduziria o guerreiro morena virgem corria o sertão e as matas do
parasitas que pendem dos ramos das árvores, Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da
abrindo ao sol a rubra corola? E quando ao co-
branco, são e salvo, às terras piti-
grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal
lher a linda flor, em vez da suave fragrância guaras. Iracema, porém, apaixona-se roçando, alisava apenas a verde pelúcia que
que esperava, sentiu o cheiro repulsivo de por Martim, traindo o “segredo da jure- vestia a terra com as primeiras águas.
torpe inseto que nela dormiu, não a atirou com ma”, que guardava como “virgem de Um dia, ao pino do sol, ela repousava em
desprezo para longe de si? um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a
É o que se passava em mim quando
Tupã” [Iracema entrega-se sexualmen- sombra da oiticica, mais fresca do que o
essas primeiras recordações roçaram a face te a Martim, inebriados ambos pela orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre
da Lúcia que eu encontrara na Glória. Voltei-me droga cujo segredo ela deveria pre- esparziam flores sobre os úmidos cabelos.
no leito para fugir à sua imagem e dormi. servar]. Acompanha o esposo, deixan- Escondidos na folhagem os pássaros ameiga-
(Lucíola, cap. II) vam o canto.
do na sua tribo um ambiente de revol- (...)
Vocabulário e Notas ta, acirrado pelos ciúmes de Irapuã, Rumor suspeito quebra a doce harmonia
1 – Gôndola: carro puxado por burros. destemido chefe tabajara. Desenca- da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol
deia-se a guerra de vingança, e os não deslumbra; sua vista perturba-se.
2. O ROMANCE INDIANISTA Diante dela e todo a contemplá-la, está um
tabajaras são derrotados; Iracema con- guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum
q Iracema funde as venturas do amor com as mau espírito da floresta. Tem nas faces o bran-
Iracema é um romance lírico que amargas tristezas que despertam os co das areias que bordam o mar, nos olhos o
desenvolve uma antiga lenda sobre a campos juncados de cadáveres de azul triste das águas profundas. Ignotas armas
e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
colonização do Ceará, terra do autor. seus irmãos. Ao remorso e saudade Foi rápido, como o olhar, o gesto de Irace-
A ação, centrada no encontro/desen- outra dor se lhe acrescenta: o arrefe- ma. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de
contro entre o europeu e o nativo cimento do amor de Martim que, para sangue borbulham na face do desconhecido.
brasileiro, envolve a rivalidade entre amenizar a nostalgia da pátria distan- De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu
sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O
as tribos tabajara e pitiguara. Martim te, ausentava-se em longas e demo- moço guerreiro aprendeu na religião de sua
é europeu, branco e civilizado; Irace- radas jornadas. Num dos seus regres- mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e
ma, a bela selvagem tabajara que sos, encontra Iracema às portas da amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no
foge com ele para o litoral, repre- morte, exausta pelo esforço que fize-
rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de
senta a América virgem e ingênua, ra para alimentar o filhinho recém-nas- si o arco e a uiraçaba e correu para o guer-
cativa e dominada. cido, a quem dera o nome de Moacir, reiro, sentida da mágoa que causara.

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A mão que rápida ferira estancou mais q Visconde de Taunay q Franklin Távora
rápida e compassiva o sangue que gotejava. (1843-1899) (1842-1888)
Depois Iracema quebrou a flecha homicida:
deu a haste ao desconhecido, guardando
Engenheiro militar, participou da Foi o mais radical e coerente dos
consigo a ponta farpada. Guerra do Paraguai, tendo oportuni- regionalistas românticos, propondo
dade de observar a paisagem e os uma literatura do Norte, distinta da
(Iracema, cap. II)
costumes do sertão e do Pantanal do Sul, fundada na realidade local
Mato-Grossense, que retrata de ma- vivida e observada, apoiada em uma
3. O ROMANCE REGIONALISTA neira objetiva, “realista”, em Inocência, atitude documental com relação à
OU SERTANEJO considerado o melhor romance que o História, à Geografia e aos proble-
regionalismo romântico produziu. Em mas humanos da região açucareira
q Bernardo Guimarães A Retirada da Laguna compôs um do Nordeste. Foi, nesse sentido, pre-
(1825-1884) relato histórico-documental desse cursor, entre outros, de Domingos
Trouxe a paisagem do sertão de episódio da Guerra do Paraguai. Olímpio, Manuel de Oliveira Paiva,
Minas Gerais e de Goiás, fundindo a Aproxima-se do Realismo, no Euclides da Cunha, Rachel de Quei-
idealização romântica e a descrição sentido da fidelidade fotográfica com roz, José Lins do Rego, José Américo
da paisagem cheia de adjetivos com que fixa a natureza e os costumes da de Almeida, Graciliano Ramos,
os elementos tomados à narrativa região mato-grossense. Mas o enre- ficcionistas comprometidos com a
oral, na base do contador de casos. do, a trama, é ainda romântico. (Ino- paisagem nordestina.
Escreveu o primeiro romance cência reproduz um dos clichês mais Atacou duramente o idealismo e
regionalista brasileiro: O Ermitão de usados no Romantismo — história de a imaginação de José de Alencar
Muquém (1858). amor com desfecho trágico, provo- nas Cartas a Cincinato. Sua obra,
O Ermitão de Muquém e O Semi- cado pela autoridade paterna, pela ainda que vazada em um estilo
narista são romances de tese contra intriga e pela atuação do vilão.) sóbrio e bem-ordenado, é inconve-
o celibato clerical e a vocação força- Em Inocência, Pereira simboliza niente.
da, inspirados no Monasticon, do a noção de honradez do sertanejo, Em O Cabeleira focaliza o bandi-
romancista romântico português Ale- intransigente e anacrônica. Inocên- tismo e a violência, personificados no
xandre Herculano (Eurico, o Presbíte- cia personifica a beleza submissa, bandido José Gomes que, arrastado
ro e O Monge de Cister). meiga e singela. Manecão repre- ao crime pela sociedade e por seu
Com A Escrava Isaura, antecipa senta a mentalidade rústica e vio- próprio pai, regenera-se pelo amor
o filão abolicionista, apesar dos exa- lenta do vaqueiro. Cirino, curandeiro, de uma donzela que tentara violentar
geros de idealização (Isaura, escrava caracteriza um tipo regional. O e na qual reconhece a companheira
branca, que fala francês e toca cientista alemão Mayer, hóspede de de infância que amava. O Matuto e
piano) e da fragilidade do enredo Pereira, expressa, dentro do ro- Lourenço reconstituem episódios da
folhetinesco. Em Maurício, ou Os mance, a visão europeia e “civiliza- Guerra dos Mascates (1710/1711,
Paulistas em São João Del Rei, rea- da” do sertão. A fidelidade na carac- entre Recife e Olinda), também apro-
liza romance histórico, tematizando a terização dos costumes e do modo veitados por Alencar. Louva-se o
descoberta e exploração do ouro. O de pensar do sertanejo e a repro- equilíbrio das descrições dos costu-
Garimpeiro focaliza a paisagem dos dução do falar regional são peças mes regionais nordestinos em Um
garimpos da região de Araxá (MG). fundamentais do romance. Casamento no Arrabalde.

MÓDULO 22 Manuel Antônio de Almeida


1. MANUEL ANTÔNIO DE q Vida e obra descrições pomposas, o apego ao
ALMEIDA (1831-1861) Memórias de um Sargento de concreto imediato, a presença das
Milícias, seu único romance, apare- camadas populares (trabalhadores
ceu em folhetim publicado no suple- braçais, malandros, vadios), a ausên-
mento dominical “A Pacotilha”, do cia de heróis e vilões e a imparciali-
Correio Mercantil, entre junho de dade do narrador fizeram das Memó-
1852 e julho de 1853, sob o pseu- rias uma obra excêntrica em relação à
dônimo “Um Brasileiro”. corrente formada pela ficção idea-
Médico (não exerceu a profissão), lizadora, galante, heroica e sentimen-
jornalista, diretor da Tipografia Nacio- tal, tão ao agrado do leitor da época.
nal, Manuel Antônio de Almeida pare- Como Memórias fugisse à tipicidade
ce não ter tido pretensões à carreira da ficção romântica, não obteve êxito
literária, embora revele inegável talen- no tempo em que foi publicado.
Manuel
Antônio to na pequena obra-prima que deixou. A crítica mais recente tirou-o da
de O estilo despretensioso, a lingua- vala comum das obras menores, ven-
Almeida gem coloquial direta, a ausência de do nele antecipações de Machado de
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Assis e Lima Barreto, ao retratar o coti- faltou a proteção da madrinha, tudo em todos os seus níveis, com
diano carioca, e de Mário de Andrade, tem “conclusão feliz”: promoção a transgressões da lei cometidas
pelo humor e pelo cinismo que fazem sargento de milícias e casamento até pelas altas figuras que têm o
do protagonista, Leonardo, um ances- com Luisinha. (A. S. Amora, verbete dever de zelar pelo respeito à lei.
tral de Macunaíma, na mais legítima “Memórias de um Sargento de Milí-
linhagem do malandro nacional, do cias”, in Pequeno Dicionário de Lite- Antologia
“herói sem nenhum caráter”. ratura Brasileira, Cultrix.)
Como Macunaíma, Leonardo é um
anti-herói, com características de píca- TEXTO I
ro (tipo vadio, que vive ao sabor do
acaso). Bastardo, “filho de uma pisa- Era no tempo do rei.
dela e de um beliscão”, Leonardo en- Uma das quatro esquinas que formam as
carna um amoralismo relacionado com ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se
mutuamente, chamava-se nesse tempo — O
a necessidade de sobrevivência,
canto dos meirinhos1 —; e bem lhe assentava
fome e toda sorte de sujeições que o nome, porque era aí o lugar de encontro favo-
oprimem as camadas populares. rito de todos os indivíduos dessa classe (que
Memórias de um Sargento de Mi- gozava então de não pequena consideração).
lícias, escrito no reinado de D. Pedro II, Os meirinhos de hoje não são mais do que a
sombra caricata dos meirinhos do tempo do
refere-se ao período de D. João VI,
Uniforme militar, em desenho de Debret rei; esses eram gente temível e temida, respei-
fase de transição entre a condição tável e respeitada; formavam um dos extremos
colonial e a independência. As festas da formidável cadeia judiciária que envolvia
populares, a arraia-miúda (saloias, q Características todo o Rio de Janeiro no tempo em que a
meirinhos, parteiras, barbeiros, deso- Resumindo e esquematizando, demanda era entre nós um elemento de vida: o
extremo oposto eram os desembargadores. Ora,
cupados etc.), as mazelas, o jeitinho as características principais das Me- os extremos se tocam, e estes, tocando-se,
e o empreguismo são retratados mórias de um Sargento de Milícias fechavam o círculo dentro do qual se pas-
direta e objetivamente, distorcidos são as seguintes: savam os terríveis combates das citações, pro-
apenas pelo tom galhofeiro e bem- • semelhança voluntária com o varás2 , razões principais e finais e todos esses
humorado do narrador que, divertido, estilo da crônica histórica, assumi- trejeitos judiciais que se chamava o processo.
Daí sua influência moral.
desmascara os mecanismos de uma do em tom irônico e crítico;
sociedade minada pela hipocrisia e • filiação à tradição do romance pi- (Memórias de um Sargento
pelo falso moralismo. caresco, por centrar-se nas aven- de Milícias, cap. I)
turas de um herói de posição social
q Resumo inferior, a partir do qual se traça um Vocabulário e Notas
1 – Meirinho: antigo funcionário judicial, cor-
As Memórias são uma narrativa retrato da sociedade em seus diver- respondente ao oficial de justiça de hoje.
vibrante e cheia de peripécias, o que sos estratos. O pícaro, para sobre- 2 – Provará: cada um dos artigos de um
torna qualquer resumo inapropriado viver na pobreza, dribla as condi- requerimento judicial.
e pálido. Em linhas gerais, trata-se da ções adversas por meio de peque-
história da vida de Leonardo, filho de nos engodos e variados empregos;
dois imigrantes portugueses, a saloia • representação de usos e costumes TEXTO II
[camponesa, rústica] Maria da Horta- da sociedade carioca à época de
liça e Leonardo, “algibebe” [vendedor D. João (valor documental e artís- Apesar de tudo quanto havia já sofrido por
de roupas grosseiras] em Lisboa e amores, o Leonardo de modo algum queria
tico);
emendar-se; enquanto se lembrou da cadeia,
depois meirinho [oficial de justiça] no • ausência do idealismo heroico que dos granadeiros e do Vidigal esqueceu-se da
Rio no tempo do Rei D. João Vl: caracteriza os romances românti- cigana, ou antes só pensava nela para jurar
nascimento do “herói”; sua infância cos, o que faz de Manuel Antônio esquecê-la; quando, porém, as caçoadas dos
de endiabrado; suas desditas de de Almeida um autor de transição companheiros foram cessando, começou a
filho abandonado mas sempre salvo entre este período e o Realismo; renovar-se a paixão, e teve lugar uma grande
de dificuldades pelos padrinhos (a descrição de diversos tipos popu- luta entre a sua ternura e a sua dignidade, em
que esta última quase triunfava, quando uma
parteira e um barbeiro); sua juventu- lares, por vezes apresentados ca-
descoberta maldita veio transtornar tudo. Não
de de valdevinos [vagabundo]; seus ricaturalmente: ciganos, barbei- sabemos por que meio o Leonardo descobriu
amores com a dengosa mulatinha ros, militares aposentados, bea- um dia que o rival feliz que o pusera fora de
Vidinha; suas malandrices com o tas, policiais etc.; combate era o reverendo mestre-de-ce-
truculento Major Vidigal, chefe de • completo afastamento de qual- rimônias1 da Sé! Subiu-lhe com isto o sangue
polícia; seu namoro com Luisinha; quer forma de moralismo: o ma- à cabeça:
sua prisão pelo major; seu enga- — Pois um padre!?... dizia ele; é preciso
landro Leonardinho não é conde-
que eu salve aquela criatura do inferno, onde
jamento, por punição, no corpo de nado, assim como são apresen- ela se está metendo já em vida...
tropa do mesmo major; finalmente, tados com naturalidade episódios E começou de novo em tentativas, em
porque os fados [o destino] acaba- em que se evidencia o funcio- promessas, em partidos para com a cigana,
ram por Ihe ser propícios e não Ihe namento “malandro” da sociedade que a coisa alguma queria dobrar-se. Um dia
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que a pilhou de jeito à janela abordou-a e — Homem, sabe que mais? Você para uma modinha.
começou ex-abrupto2 a falar-lhe deste modo: pregador não serve, não tem jeito... eu como (Memórias de um Sargento
— Você está já em vida no inferno!... pois estou, estou muito bem; não me dei bem com de Milícias, cap. XV)
logo um padre?!... os meirinhos; eu nasci para coisa melhor...
A cigana interrompeu-o: — Pois então tem alguma coisa que dizer Vocabulário e Notas
— Havia muitos meirinhos para escolher, de mim?... Hei de me ver vingado... e bem 1 – Mestre-de-cerimônias: padre que dirige o
mas nenhum me agradou... vingado. cerimonial litúrgico.
— Mas você está cometendo um pecado — Ora! respondeu a cigana, rindo-se. 2 – Ex-abrupto: de súbito; sem preparação;
mortal... está deitando sua alma a perder... E começou a cantarolar o estribilho de intempestivamente.

MÓDULO 23 Introdução ao Realismo-Naturalismo

1. CONTEXTO café, as oligarquias regionais e a raça, hereditariedade), sociológi-


HISTÓRICO-CULTURAL aparição de novos atores na cena cos e ambientais (Ecologia, Geo-
política — os militares). Porém, nossa grafia, meio ou classe social), além
elite pensava segundo os modelos das circunstâncias históricas.
q A Revolução Industrial – europeus e procurava assimilar os Em síntese: determinismo de raça,
O Materialismo – costumes civilizados de Paris e de meio e momento.
O Cientificismo Londres.
Da segunda metade do século Opondo-se ao idealismo e ao es- q Os antecedentes europeus
XIX ao início do século XX, o mundo piritualismo românticos, os realistas Em sentido amplo, a atitude
ocidental assistiu ao triunfo da fazem da ciência e do materialismo realista sempre existiu, em
Revolução Industrial, à consoli- uma nova religião. Nada que não pu- todos os tempos e em todas as es-
dação e ao fortalecimento da bur- desse ser visto, apalpado, medido e colas literárias, como um dos polos
guesia como classe dominante e à examinado por meio dos sentidos de- da criação artística, voltada para a
expansão do capitalismo industrial veria merecer atenção do cientista e tendência de reproduzir nas obras os
às antigas áreas coloniais da Amé- do artista. Assim, as noções de alma, traços observados no mundo real,
rica, da África e da Ásia, agora sob a de religião, de Deus, de transcen- seja nas coisas, seja nas pessoas ou
denominação de capitalismo avança- dência, tão caras aos românticos, nos sentimentos. Essa atitude rea-
do, alicerçando-se no avanço cien- são abandonadas. Tornam-se comuns lista, universal no tempo e no espa-
tífico e tecnológico (locomotiva a vapor, o anticlericalismo e a crítica ao ço, opõe-se à atitude romântica (tam-
eletricidade, telégrafo sem fio etc.). cristianismo (Guerra Junqueiro, Eça bém universal), caracterizada pela
Surge a civilização indus- de Queirós, Inglês de Sousa, Aluísio fantasia, pela tendência a inventar
trial e acentuam-se os seus des- Azevedo, dentre outros, fizeram dos um mundo novo, diferente e muitas
dobramentos: a explosão urbana, as padres os vilões de suas obras). vezes oposto às leis do mundo real.
massas trabalhadoras, os sindicatos, Dentre as correntes científicas e Os autores e as modas literárias
as reivindicações do proletariado filosóficas em voga no Realismo e no oscilam incessantemente entre am-
(socialismo utópico de Proudhon, o Naturalismo, destacam-se bas as atitudes e é da sua combi-
socialismo científico de Marx e Engels). • o Positivismo de Auguste nação, mais ou menos variada, que
Ciência, Progresso e Razão pas- Comte, propondo o primado da ciên- se faz a Literatura.
sam a ser as palavras de ordem da cia positiva no conhecimento do A ficção moderna constitui-se
classe dominante, interessada na homem e do mundo; justamente da tendência de se bus-
estabilização de suas conquistas, • o Evolucionismo de Charles car, cada vez mais, comunicar ao
substituindo o ímpeto revolucionário, Darwin e de Herbert Spencer, subme- leitor o sentimento da realidade, por
contestatório e individualista da épo- tendo o homem às leis da Biologia meio da observação exata do mundo
ca romântica. A paixão e o impulso e à evolução natural das espécies. e dos seres. Nesse sentido, o roman-
pessoal cedem lugar à reflexão, à O homem passa a ser visto como um ce romântico esteve pleno de
observação, à análise e à disciplina. animal, submetido às mesmas leis realismo. Autores como Stendhal e
As ideias avançadas do cientifi- que regem todos os animais. Daí a pre- Balzac, na França, Charles
cismo e do materialismo europeu ferência pelos aspectos biológicos, Dickens, na Inglaterra, Gogol, na
contaminam a elite brasileira, ainda fisiológicos e instintivos que de- Rússia, todos da primeira metade do
que nossa realidade social e eco- terminam as ações das personagens, século XIX, ainda que frequente-
nômica fosse diferente da situação superando a vontade e a razão. mente relacionados ao Romantismo,
europeia. Éramos ainda uma socie- A realidade passa a ser interpre- foram os verdadeiros fundadores do
dade agrária, recém-saída do escra- tada como um todo orgânico em que Realismo na ficção contemporânea.
vagismo, fundada na produção agrí- o universo, a natureza e o homem
cola (café, açúcar, borracha) e estão intimamente associados e su-
governada por uma República Oli- jeitos, em igualdade de condições, aos 2. CARACTERÍSTICAS
gárquica, instável e frequentemente mesmos princípios, leis e finalidades;
abalada por conflitos de interesses • o Determinismo de Hippolyte q Objetivismo
no seio da própria classe dominante Taine, o qual propõe que o compor- Preocupação com a verdade não
(aristocracia decadente da cana-de- tamento humano seja determinado apenas verossímil, mas exata, apoia-
açúcar, aristocracia ascendente do pelos fatores biológicos (instinto, da na observação e na análise.
– 45
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q Predomínio das sensações q Romance social, psicológi- Apresenta preferência pelos


A realidade é captada e trans- co e de tese; poesia urbana temas escabrosos, pela patologia
crita por meio de impressões senso- e agreste (Carvalho Júnior, humana e social (taras, vícios,
riais nítidas, precisas. Daí o predomí- Bernardino Lopes, Cesário sedução, adultério, incesto, assas-
nio da descrição objetiva e minucio- Verde); poesia filosófico- sinato, homossexualismo). A aborda-
sa. Os detalhes são da maior impor- científica (Sílvio Romero); gem dos aspectos degradantes da
tância: nada é desprovido de poesia social (Antero de condição humana implica certo mo-
interesse na reconstituição exata da Quental, Guerra Junqueiro ralismo, não importando a opinião
realidade. e Teófilo Braga). sobre os atos, mas os atos em si
Enquanto o romântico capta o mesmos.
mundo por meio do coração, do q Preocupação formal É frequente a zoomorfização,
sentimento, o realista é, sobretudo, Buscam-se a clareza, o equilí- ou seja, a aproximação, por meio de
sensorial. O amor perde a conotação brio, a harmonia da composição. símiles, entre o homem e o animal, com
espiritualizante, para privilegiar o propósito depreciativo em relação ao
aspecto físico. Ocorre uma “sexuali- q Correção gramatical homem-larva, ao homem-besta,
zação” do amor, e o sexo torna-se Purismo, vernaculidade, econo- regido pelo instinto cego e brutal:
tema quase obrigatório. mia vocabular, precisão lexical.
Rita Baiana… uma cadela no cio
q q Predomínio da denotação
Temas contemporâneos
Só o presente interessa; desa- A metáfora cede lugar à meto- O Cortiço… uma geração que pa-
parece o romance histórico. A ficção nímia. Linguagem simples, direta. recia brotar espontânea… e multi-
centra-se na crítica social (contra Preferência pela narração. Uma plicar-se como larvas no esterco.
a burguesia, contra o clero, contra o contribuição importante do Realismo
capitalismo selvagem, contra o obs- foi a superação do tom excessiva- Leandra… a ‘Machona’, portuguesa
curantismo) e na análise psico- mente declamatório e do verbalismo feroz, berradora, pulsos cabeludos e
lógica, voltada para a investigação adjetival dos românticos. grossos, anca de animal do
das causas profundas das ações campo.
humanas. 3. O NATURALISMO (A. Azevedo, O Cortiço)

Surgiu na França, e seu criador e Focaliza, de preferência, as


q Impassibilidade – principal teórico foi Émile Zola camadas sociais inferiores, o
Contenção Emocional (Thérèse Raquin, Germinal ). Foi Zola proletariado e os marginaliza-
O autor ausenta-se da narrativa, que cunhou a expressão romance dos. Denuncia os aspectos degra-
assumindo uma posição neutra, im- experimental como designativa de dantes, com o propósito de tomada
parcial, desinteressado pelo destino suas aproximações com as ciências. de consciência, visando à redenção
das personagens, fotografadas “por Ainda no âmbito das propostas moral e social do homem. Arte enga-
dentro” (Machado de Assis) e “por realistas, o Naturalismo representa jada, a serviço de ideais políticos e
fora” (Aluísio Azevedo). Busca-se uma exacerbação, uma radicalização sociais.
uma explicação lógica e cientifi- do cientificismo, do materia- O Naturalismo peca, quase
camente aceitável para o compor- lismo e do determinismo. Bus- sempre, pelo reducionismo e pelo
tamento e para as ações das perso- cou analisar o comportamento hu- esquematismo, restringindo-se às
nagens. mano à luz das teorias científicas do explicações mecanicistas, à exterio-
fim do século XIX, ressaltando os ridade, aos condicionamentos, inca-
q Personagens esféricas aspectos instintivos e biológi- pazes de apreender o homem em
Opondo-se à linearidade das cos do homem, submetido ao peso toda a sua complexidade.
personagens românticas (herói x dos fatores que determinavam Nos textos que se seguem, a
vilão), as personagens realistas são sua conduta: a hereditariedade, passagem de O Cortiço ilustra a típi-
complexas, multiformes, imprevisí- a raça, o meio ambiente e a ca descrição naturalista, e a de A
veis, repelindo qualquer simplifica- sociedade. Cidade e as Serras satiriza a atitude
ção. São também dinâmicas, porque Inspirado no experimentalis- cientificista daquele tempo.
evoluem e têm profundidade psico- mo científico de Claude Bernard
lógica. (a Medicina Experimental), o Natu-
ralismo assimilou a objetividade TEXTO I
q Materialismo – das Ciências Naturais, fazendo
Cientificismo do romance uma espécie de labora- Noventa e cinco casinhas comportou a
A realidade é de caráter exclu- tório da vida, e encarando o homem imensa estalagem.
sivamente material. Oposição à como um “caso” a ser analisado. Daí Prontas, João Romão mandou levantar na
metafísica e à religiosidade. decorre a visão mais mecanicista, frente, nas vinte braças que separavam a ven-
da do sobrado do Miranda, um grosso muro de
mais determinista, e o enquadra-
dez palmos de altura, coroado de cacos de
q Narrativa lenta mento do homem como produto das vidro e fundos de garrafa, e com um grande
Ao se valorizarem as minúcias, a leis da Biologia; da hereditariedade, portão no centro, onde se dependurou uma
ação e o enredo perdem a importân- da Sociologia e da Ecologia, contra as lanterna de vidraças vermelhas, por cima de
cia para a caracterização das perso- quais a razão e a vontade humana uma tabuleta amarela, em que se lia o seguin-
nagens e dos ambientes. nada podem. te, escrito a tinta encarnada e sem ortografia:

46 –
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“Estalagem de São Romão. Alugam-se o brilho, a uma forma algébrica:


casinhas e tinas para lavadeiras”. TEXTO II

}
As casinhas eram alugadas por mês e as suma ciência
tinas por dia; tudo pago adiantado. O preço de (...) Ora, nesse tempo Jacinto concebera X = suma felicidade
cada tina, metendo a água, quinhentos réis; uma ideia… Este Príncipe concebera a ideia suma potência
sabão à parte. As moradoras do cortiço tinham de que “o homem só é superiormente feliz
preferência e não pagavam nada para lavar. quando é superiormente civilizado”. E por ho- E durante dias, do Odeon à Sorbona, foi
Graças à abundância de água que lá mem civilizado o meu camarada entendia louvada pela mocidade positiva a equação
havia, como em nenhuma outra parte, e aquele que, robustecendo1 a sua força metafísica de Jacinto.
graças ao muito espaço de que se dispunha pensante com todas as noções adquiridas Para Jacinto, porém, o seu conceito não
no cortiço para estender a roupa, a concor- desde Aristóteles e multiplicando a potência era meramente metafísico e lançado pelo gozo
rência às tinas não se fez esperar; acudiram corporal dos seus órgãos com todos os elegante de exercer a razão especulativa; mas
lavadeiras de todos os pontos da cidade, mecanismos inventados desde Terâmenes, constituía uma regra, toda de realidade e de
entre elas algumas vindas de bem longe. E, criador da roda, se torna um magnífico Adão, utilidade, determinando a conduta, modalizan-
mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, quase onipotente, quase onisciente, e apto do a vida. E já a esse tempo, em concordância
um canto onde coubesse um colchão, surgia portanto a recolher dentro de uma sociedade com o seu preceito, ele se surtira5 da Pequena
uma nuvem de pretendentes a disputá-los. e nos limites do progresso (tal como ele se Enciclopédia dos Conhecimentos Universais
E aquilo se foi constituindo numa grande comportava em 1875) todos os gozos e todos em setenta e cinco volumes e instalara, sobre
lavanderia, agitada e barulhenta, com as suas os proveitos que resultam de saber e de os telhados do 202, num mirante envidraçado,
cercas de varas, as suas hortaliças verdejan- poder… Pelo menos assim Jacinto formulava um telescópio. Justamente com esse teles-
tes e os seus jardinzinhos de três e quatro copiosamente2 a sua ideia, quando conversa- cópio me tornou ele palpável a sua ideia,
palmos, que apareciam como manchas ale- mos de fins e destinos humanos, sorvendo numa noite de agosto, de mole e dormente
gres por entre a negrura das limosas tinas bocks3 poeirentos, sob o toldo das cervejarias calor. Nos céus remotos lampejavam relâm-
transbordantes e o revérbero1 das claras bar- filosóficas, no Boulevard Saint-Michel. pagos lânguidos. Pela Avenida dos Campos
racas de algodão cru, armadas sobre os Este conceito de Jacinto impressionara Elísios, os fiacres6 rolavam para as frescuras
lustrosos bancos de lavar. E os gotejantes os nossos camaradas de cenáculo4, que, do Bosque, lentos, abertos, cansados,
jiraus2, cobertos de roupa molhada, cintilavam tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 transbordando de vestidos claros.
ao sol, que nem lagos de metal branco. a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha
E naquela terra encharcada e fumegante, de Sedan, e ouvindo constantemente, desde (Eça de Queirós,
naquela umidade quente e lodosa, começou a então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a A Cidade e as Serras, cap. I)
minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, espingarda de agulha que vencera em
uma coisa viva, uma geração, que parecia Sadowa e fora o mestre-escola quem vencera
brotar espontânea, ali mesmo, daquele la- em Sedan, estavam largamente preparados a Vocabulário e Notas
meiro, e multiplicar-se como larvas no esterco. acreditar que a felicidade dos indivíduos, 1 – Robustecer: fortalecer.
(Aluísio Azevedo, O Cortiço, cap. I) como a das nações, se realiza pelo ilimitado 2 – Copiosamente: abundantemente.
desenvolvimento da Mecânica e da erudição. 3 – Bock: cerveja preta.
Vocabulário e Notas Um desses moços mesmo, o nosso inventivo 4 – Cenáculo: grupo de amigos.
1 – Revérbero: reflexo. Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, 5 – Surtir-se: servir-se.
2 – Jirau: varal. para lhe facilitar a circulação e lhe condensar 6 – Fiacre: carruagem.

MÓDULO 24 O Realismo em Portugal – Antero de Quental


1. O CONTEXTO PORTUGUÊS combatiam. escola.
Os realistas-naturalistas portugue- As teorias que fundamentaram
As teorias positivistas do século XIX ses oscilaram entre duas posições: a ideologicamente o Realismo-Natura-
surgiram em decorrência das solici- dos republicanos, adeptos de uma lismo foram, dentre outras,
tações materiais ou ideológicas da maior intervenção social do governo – a teoria determinista de
Revolução Industrial, nos países mais para promover a democratização do Hippolyte Taine (1825-1893), se-
desenvolvidos. Não era o caso de liberalismo, e a dos socialistas utó- gundo a qual o homem (e a própria
Portugal, que possuía ainda formas picos, defensores, de acordo com o arte) resultava de três condicio-
capitalistas primárias, associa- modelo proudhoniano, da criação de nantes: a raça (fatores hereditários,
das a sobrevivências feudais. cooperativas operárias, que se con- biológicos), o meio (social, geográ-
O Realismo vai chegar ao país por trapusessem à força do grande capital. fico) e o momento (fatores históri-
importação. Foi mais uma posição inte- cos);
lectual de grupos reformistas minori- – a filosofia positivista de
tários. Contudo, sua influência será 2. CARACTERÍSTICAS DO Auguste Comte (1798-1857), que
bastante importante em setores bur- REALISMO PORTUGUÊS propugnava por uma espécie de
gueses mais progressistas. “religião da ciência”, já que
A ausência de uma base social Os modelos literários do Realis- todos os fatos do mundo físico, social
similar à da França atenuará a con- mo português foram franceses: ou espiritual possuem conexões
tundência que o Realismo teve na- Balzac e Stendhal (advindos do imediatas, mecânicas. Precursor na
quele país. As produções mais tími- Romantismo) e, especialmente, Gus- moder na tecnocracia, defendia o
das e mesmo os escritores mais ra- tave Flaubert e Émile Zola, autores primado do conhecimento empírico,
dicais mostram em suas obras traços que o viés positivista e a crítica social baseado na observação, experimen-
ideológicos do Romantismo, que tanto fizeram paradigmáticos da nova tação e comparação;
– 47
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– o socialismo “utópico” de tizar (sobretudo numa perspectiva


Pierre-Joseph Proudhon (1809- republicana) o poder político e de
1865), que, contrário à luta política, instituir amplas reformas sociais.
propunha a organização dos peque- Procuravam diagnosticar os proble-
nos produtores em associações de mas da vida social e apontar solu-
auxílio mútuo. Ateu e antiburguês; ções reformistas, de caráter às vezes
– o evolucionismo de Char- socialista, mas mantendo-se a estru-
les Robert Darwin (1809-1882), que tura do regime capitalista;
fundamentou a teoria de que os • representação da vida
seres vivos evoluíram por causa da contemporânea, procurando mos-
seleção natural das espécies, e as trar todos os seus detalhes signifi-
espécies mais simples teriam, grada- cativos. Há a preocupação de se es-
tivamente, dado origem às mais tabelecer conexões rigorosas de cau-
complexas; sa e efeito entre os fenômenos obser-
– o experimentalismo de vados, já que as leis naturais são
Claude Bernard (1813-1878), equivalentes, por exemplo, nos cam-
fisiologista, fundador da “medicina pos da Física, Química e Biologia. Teófilo Braga, em gravura de autor
experimental”, na qual propunha que desconhecido, 1864.
a verdade “científica” só poderia ser 3. A QUESTÃO COIMBRÃ
concebida como tal após sua com- A primeira desavença entre os
provação “experimental” ou labora- q Antecedentes dois grupos surgiu quando Castilho,
torial; Romântico, no começo do século prefaciando o poema D. Jaime, de
– o criticismo e o anticleri- XIX, já não era somente o literato Tomás Ribeiro, declarou que Os
calismo de Joseph-Ernest filiado à Escola, mas designava um Lusíadas já não tinham mais razão de
Renan (1823-1892), propondo a estado de alma: misto de me- ser; que nenhum poeta de seu tempo
revisão da história e do papel da lancolia, tédio, abandono da subscreveria uma única oitava de to-
Igreja Católica. vida, inquietação — tudo em dos os dez cantos. João de Deus se
Podemos sintetizar o sentido comportamento liricamente insurgiu contra o “ditador das letras”
ideológico de construção da escrita choroso. e achou que a atitude do leviano crí-
do Realismo-Naturalismo português Em oposição, o século XIX ama- tico era a de profanação. Isto foi a pri-
nos seguintes pontos: durecia em conquistas científi- meira clarinada do combate.
• crítica ao tradicionalis- cas: de um lado crescia a indus-
mo vazio da sociedade portuguesa, trialização, trazendo novos hábitos q A Questão Coimbrã ou a
produto, segundo eles, da educação de vida; de outro, firmavam-se a polêmica Bom Senso e
romântica, muito convencional e Física, Química, Biologia, Psi- Bom Gosto (1865)
distante da realidade. Há um com- cologia, promovendo novos conhe- A contrarresposta de Castilho
promisso ético do escritor em relação cimentos e exigindo alterações de apareceu em sua Carta que acom-
à realidade, a ser representada com base do homem diante da vida. panhava, como posfácio, o Poema
toda a veracidade, e o seu papel é A literatura, nutrida dessas novas da Mocidade, de Pinheiro Chagas.
semelhante ao de um profeta, com concepções, abandona o Romantis- Tal poema, ingênuo e ultrarromân-
uma missão a cumprir; mo — completamente divorciado da tico, explora assunto banal e gasto:
• crítica ao conservadoris- realidade da vida —, e surge o Rea- Artur, enamorado de Ema, é traído
mo da Igreja, uma instituição volta- lismo, preocupado em ser objetivo e por ela. Bate-se em duelo com o rival
da para o passado e que impedia o de- exato. Surgiram novas ideias sobre e se desgraça, a si e à amante... Mas
senvolvimento natural da sociedade; poesia, romance, crítica, filosofia. Castilho considerou-o excelso; lou-
• visão objetiva e natural Em Coimbra, um grupo de vou o poema, discutiu política, filo-
da realidade: o escritor deveria cons- rapazes vivia em pleno tumulto sofia, estética e educação. E, em
truir suas personagens utilizando mental. Identificados com a reno- tudo, sempre, ironicamente, fez refe-
tipos concretos existentes na vida vação que vinha da França, exaspe- rências desairosas aos moços de
social, observando suas relações ravam-se diante da indiferença do Coimbra e aos impulsos (moder-
com o meio. A personalidade desses resto do país. nizadores) da rapaziada.
tipos seria a do meio ambiente, em Em Lisboa, pontificava Cas- Antero de Quental foi quem
menor escala, pelos seus compo- tilho. Era o mentor de um grupo de respondeu à Carta de Castilho, no
nentes psicofisiológicos, isto é, pela poetas e críticos, reunidos no mundo célebre folheto Bom Senso e Bom
influência dos órgãos e glândulas do do “elogio mútuo”. Bem se poderia Gosto. O moço foi desabrido e irre-
corpo humano em sua conduta; dizer: Coimbra simbolizava a reno- verente, não respeitando as cãs de
• preocupação com a refor- vação, a ideia nova, o Realismo; Lis- seu antigo professor de primeiras
ma (e não com a revolução) da so- boa, o passado, o pieguismo, o letras: “queremos puxar-lhe as
ciedade, com o objetivo de democra- Romantismo. orelhas”, diz.
48 –
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A favor de Castilho militaram • Poesia


Pinheiro Chagas, Camilo Cas- a) Primeira Fase: O Idealis-
telo Branco, Júlio de Castilho mo – O Lirismo Amoroso – As
e Ramalho Ortigão. Aproximações com o Roman-
Cerca de quarenta opúsculos tismo
circularam durante a contenda. Em Primaveras Românticas e
Os moços de Coimbra, em em alguns momentos de Raios da
verdade, não “derrubaram” o Ro- Extinta Luz, Antero parece buscar a
mantismo, mas prepararam o campo transcendência do amor espiritual.
ideológico no qual o Realismo cres- Na linha de Petrarca e de Camões,
ceu imponente e fértil. en con tramos o dualismo psico -
Castilho simboliza o Romantismo lógico quanto ao amor: a beleza
em agonia; Antero é profeta dos espiritual x a atração carnal,
novos tempos, e o Realismo não foi o amar x o querer. Antero es-
só um “momento” literário, mas o piritualiza a mulher a ponto de
sinal da nova civilização, alicerçada projetar nela a excelência e a
nas conquistas do século XIX. pureza da figura materna, da irmã,
A Questão Coimbrã é considerada da criança.
o marco inicial do Realismo português. Antero Tarquínio de Quental na juven- IDEAL
tude. Foto de autor desconhecido, 1864.
q As Conferências do Cassi- Aquela, que eu adoro, não é feita
no Lisbonense Organizou as Conferências De lírios nem de rosas purpurinas,
Realizadas na primavera de 1871, Democráticas do Cassino Lis- Não tem as formas lânguidas, divinas
foram consequências da Questão bonense (1871), proferindo a con- Da antiga Vênus1 de cintura estreita...
Coimbrã, espécie de aplicação das ferência “A Causa da Decadência
Não é a Circe2, cuja mão suspeita
ideias defendidas, arregimentação dos Povos Peninsulares”.
Compõe filtros mortais entre ruínas,
prática dos gênios da época. Publicou, além disso, artigos em Nem a Amazona3, que se agarra às crinas
Realizaram-se quatro conferên- jornais republicanos e folhetos de Do corcel 4 e combate satisfeita...
cias. Anunciada a quinta, o Cassino propaganda socialista para as orga-
foi fechado pela polícia. nizações operárias. Fundou, com A mim mesmo pergunto e não atino
Antero de Quental fez-se José Fontana, a seção portuguesa Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra, ora esconde o meu
socialista; Teófilo Braga, positivis- da Organização Internacional dos
[destino...
ta e republicano; Eça de Queirós, Trabalhadores.
Ramalho Ortigão, Guerra Jun- Candidatou-se a deputado (sim- É como uma miragem que entrevejo,
queiro e Oliveira Martins, críticos bolicamente) por duas vezes. Desi- Ideal, que nasceu da solidão...
e negativistas: todos esses constituí- ludiu-se das possibilidades revolu- Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
am o conhecido Grupo dos Ven- cionárias das camadas populares,
Vocabulário e Notas
cidos da Vida, marcado pelo ceti- passando a integrar o Grupo dos
1 – Vênus: deusa do amor.
cismo risonho e conformista. Embora Vencidos da Vida. 2 – Circe: feiticeira lendária.
“vencedores”, em termos de reco- Oscilando sempre entre o mate- 3 – Amazona: mulher guerreira que montava a
nhecimento social, consideravam-se rialismo e o idealismo, entre a cavalo.
“vencidos” em termos de ideais. E dúvida e a fé, teve vida agitada. 4 – Corcel: cavalo.
em alegres jantares comemoravam a Acometido de uma psicose de-
crise e o desalento ideológico. pressiva, suicidou-se. b) Segunda Fase: A Poesia
Antero de Quental constitui, de Combate – O Socialismo –
4. ANTERO TARQUÍNIO DE com Camões e Bocage, o trio dos
QUENTAL (1842-1891) O Humanitarismo
maiores sonetistas da Língua Por- Nas Odes Modernas, a visão
q Vida tuguesa. cristã do mundo é substituída por
Formado em Direito por Coimbra; q Obras uma religiosidade naturalista, pan-
ainda como estudante liderou a • Prosa teísta (= identificação de Deus com
chamada Campanha do Bom Senso – Bom Senso e Bom Gosto o mundo concreto). A revolução é
e Bom Gosto (Questão Coimbrã), – A Dignidade das Letras e as vista em termos dessa religiosidade:
publicando os folhetos Bom Senso e Literaturas Oficiais ideais como liberdade, igualdade e
Bom Gosto e A Dignidade das Letras – Tendências Gerais da Filo- justiça são transformados em valo-
e as Literaturas Oficiais, ambos em sofia na Segunda Metade do res santificados. O próprio ato de
1865. Interessado no movimento Século XIX escrever transforma-se em um ato
operário, instalou-se em Paris, como – Causas da Decadência dos de fé revolucionária, uma utopia que
tipógrafo, para acompanhar o movi- Povos Peninsulares nos Sécu- o escritor procura alcançar seguin-
mento operário francês. los XVII e XVIII do o humanismo proudhoniano.
– 49
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TESE E ANTÍTESE Recebi o batismo dos poetas Vocabulário e Notas


E assentado entre as formas incompletas, 1 – Roto: estragado.
I Para sempre fiquei pálido e triste. 2 – Fragor: estrondo, barulho.
Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada, O poeta frustra-se por não con-
Torva no aspecto, à luz da barricada, A GERMANO MEIRELES
seguir uma síntese entre o co-
Como bacante1 após lúbrica2 ceia!
nhecimento subjetivo (ideia) e Só males são reais, só dor existe;
Sanguinolento o olhar se lhe incendeia... o objetivo (formas reais). Uma Prazeres só os gera a fantasia;
Aspira fumo e fogo embriagada... Em nada, um imaginar, o bem consiste,
“ideia pura” pediria uma forma
A deusa de alma vasta e sossegada Anda o mal em cada hora e instante e dia.
Ei-la presa das fúrias de Medeia3! plena, totalizadora, para assim che-
gar-se a uma síntese de absolutos.
Um século irritado e truculento Se buscamos o que é, o que devia
Chama à epilepsia pensamento, Por natureza ser não nos assiste;
Verbo ao estampido de pelouro e obus4...
c) Terceira Fase: O Pessimis- Se fiamos num bem, que a mente cria,
mo – A Poesia Dilemática e Que outro remédio há aí senão ser triste?
Mas a ideia é um mundo inalterável, Metafísica – O Transcendentalis-
Num cristalino céu, que vive estável... Oh! quem tanto pudera que passasse
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!
mo – A Morte e a Busca de Deus
A vida em sonhos só e nada vira...
Nas partes finais dos Sonetos Mas, no que se não vê, labor1 perdido!
Vocabulário e Notas Completos, agrava-se a divisão do
1 – Bacante: integrante do cortejo de Baco.
poeta, já expressa nas fases ante- Quem fora tão ditoso2 que olvidasse3...
2 – Lúbrico: sensual.
riores, entre o Ideal (que leva ao Mas nem seu mal com ele então dormira,
3 – Medeia: figura mitológica; abandonada
Absoluto, a Deus) e o Real (que leva Que sempre o mal pior é ter nascido!
pelo marido, Jasão, vinga-se assassinando
os filhos de maneira horrenda. às ciências experimentais). Os poe-
4 – Pelouro e obus: munição e peça de mas dilemáticos dessa fase oscilam Vocabulário e Notas
artilharia, respectivamente. 1 – Labor: trabalho, esforço.
entre a sensação de aniquilamento 2 – Ditoso: feliz.
(“O Palácio da Ventura”, “A Germano 3 – Olvidar: esquecer.
O soneto, de inspiração hegelia-
Meireles” etc.) e o conformismo mís-
na, expressa o sentido contraditório do
tico (“Na Mão de Deus”).
comportamento humano: a ideia é su-
blime, mas o homem, para implantá- O PALÁCIO DA VENTURA
la, comete desmandos e a falsifica.
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
TORMENTO DO IDEAL
Paladino do amor, busco anelante
O Palácio encantado da Ventura!
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra Quebrada a espada já, rota1 a armadura...
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre, E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra Com grandes golpes bato à porta e brado:
Perder a cor, bem como a nuvem que erra Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Ao pôr-do-sol e sobre o mar discorre. Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura, Abrem-se as portas d’ouro, com fragor2...
Tropeço, em sombras, na matéria dura, Mas dentro encontro só, cheio de dor, Antônio Feliciano de Castilho,
E encontro a imperfeição de quanto existe. Silêncio e escuridão — e nada mais! aos 70 anos.

MÓDULO 25 Eça de Queirós I


1. JOSÉ MARIA EÇA DE simples espectador da Ques- q Obras
QUEIRÓS (1845-1900) tão Coimbrã, ligando-se aos rea- a) Primeira fase: de 1866 a
listas em Lisboa, no grupo Cenáculo. 1875. Há apego romântico e fanta-
q Vida Viaja, em 1869, para o Egito; partici- sioso. Escreveu folhetins na Gazeta
“Eu sou apenas um pobre pa, em 1871, das Conferências do de Portugal, depois reunidos no vo-
homem de Póvoa do Varzim.” Cassino; vai para Leiria, como admi- lume Prosas Bárbaras. Ainda a essa
Assim Eça de Queirós se apresen- nistrador do conselho. Em 1873, vai fase pertencem O Mistério da Estra-
tava. Em 1866, forma-se em Direito, como cônsul para Havana; viaja pela da de Sintra, romance originalíssimo,
pela Universidade de Coimbra. Exer- América e, finalmente, segue para a escrito em parceria com Ramalho
ce o cargo de advogado, influencia- Inglaterra e depois para a França, Ortigão. Eça estava em Lisboa. Ra-
do pelo pai, que era juiz de direito. É onde, já casado, vem a falecer. malho, em Liz. Durante dois meses,
50 –
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sem nenhum plano da obra, cada comprometedoras da ama, e explo- apoplexia1. O pároco era um homem san-
escritor remetia um folhetim ao jornal rou plenamente a situação, pondo a guíneo e nutrido, que passava entre o clero
Diário de Notícias, continuando o patroa no trabalho e maltratando-a. diocesano pelo comilão dos comilões.
Contavam-se histórias singulares da sua
enredo. Também da primeira fase é Eça declara: “A família lisboeta é pro- voracidade. O Carlos da botica — que o de-
Uma Campanha Alegre, coletânea duto do namoro, reunião desagradá- testava — costumava dizer, sempre que o via
de seus artigos publicados em As vel de egoísmos que se contradizem, sair depois da sesta, com a face afogueada de
Farpas — periódico de combate, que e, mais tarde ou mais cedo, são cen- sangue, muito enfartado:
analisava e criticava Portugal em tros de bambochata. Uma sociedade — Lá vai a jiboia esmoer2. Um dia
estoura!
todos os setores de atividade: sobre estas falsas bases não está na Com efeito estourou, depois de uma ceia
política, educação, arte, literatura, verdade: atacá-la é um dever”. de peixe — à hora em que defronte, na casa
saúde, finanças. do Dr. Godinho, que fazia anos, se polcava3
• O Mandarim com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca
b) Segunda fase: de 1875 a Romance de influência orienta- gente ao seu enterro. Em geral não era
lista. As lutas de consciência tra- estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os
1888, quando Eça se integra na
vadas em um homem que substitui o pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos
técnica realista (“Sobre a nudez nos ouvidos, palavras muito rudes.
forte da verdade, o manto trabalho pelo enriquecimento ines- Nunca fora querido das devotas; arrotava
diáfano da fantasia”), e apare- crupuloso. no confessionário e, tendo vivido sempre em
cem os romances: freguesias da aldeia ou da serra, não com-
• Os Maias preendia certas sensibilidades requintadas da
Romance de crítica social, último devoção: perdera por isso, logo ao princípio,
• O Crime do Padre Amaro da série pertencente à segunda fase quase todas as confessadas, que tinham pas-
Este livro é o introdutor do roman- sado para o polido Padre Gusmão, tão cheio
do autor. É a história do amor inces-
ce realista em Portugal. A obra tem a de lábia!
tuoso de Carlos da Maia com sua
preocupação de fixar instantâneos E quando as beatas, que lhe eram fiéis,
irmã, Maria Eduarda, e, ao mesmo
da vida provinciana. A sociedade lhe iam falar de escrúpulos de visões, José
tempo, uma ampla crônica da alta Miguéis escandalizava-as, rosnando:
leiriense é o cenário, com os serões sociedade lisboeta. Se, em O Crime — Ora histórias, santinha! Peça juízo a
da Sra. Joaneira. Romance ma- do Padre Amaro (1875), Eça foca- Deus! Mais miolo na bola!
licioso, farto de observações agudas As exagerações dos jejuns sobretudo
lizou a vida devota da Província, e,
e belos quadros psicológicos. O irritavam-no:
em O Primo Basílio (1878), retratou a
herói é o padre Amaro, que mantém — Coma-lhe e beba-lhe — costumava
classe média da Capital, com Os
relações íntimas com Amélia, e gritar —, coma-lhe e beba-lhe, criatura!
Maias (1888) o escritor retrata a vida Era miguelista — e os partidos liberais, as
depois a abandona. das altas esferas da política, do go- suas opiniões, os seus jornais enchiam-no
verno, da aristocracia e dos literatos, duma cólera irracionável:
• O Primo Basílio em meio a jogos e festas. — Cacete! cacete! — exclamava,
Análise da família burgue- meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.
sa. Neste romance, Eça cria tipos (O Crime do Padre Amaro, cap. I)
definitivos. O Conselheiro Acá-
Vocabulário e Notas
cio, que é o formalismo oficial: “Era 1 – Apoplexia: derrame cerebral.
alto, magro, vestido todo de preto, 2 – Esmoer: fazer a digestão.
com o pescoço entalado num cola- 3 – Polcar: dançar a polca.
rinho direito. O rosto, aguçado no
queixo, ia-se alargando até a calva,
vasta e polida, um pouco amolgada TEXTO II
no alto. (…) Era muito pálido; nunca Que noite para Luísa! A cada momento
tirava as lunetas escuras. (…) Fora, acordava num sobressalto, abria os olhos na
outrora, diretor-geral do Ministério do penumbra do quarto, e caía-lhe logo na alma,
Reino e sempre que dizia — El-Rei! como uma punhalada, aquele cuidado pun-
erguia-se um pouco na cadeira. Os gente: Que havia de fazer? Como havia de ar-
seus gestos eram medidos, mesmo a ranjar dinheiro? Seiscentos mil-réis! As suas
joias valiam talvez duzentos mil-réis. Mas de-
tomar rapé. Nunca usava palavras
pois, que diria Jorge? Tinha as pratas… Mas
triviais, não dizia vomitar, fazia um era o mesmo!
gesto indicativo e empregava resti- A noite estava quente, e na sua inquie-
tuir.” Luísa, a heroína que se entre- Eça de Queirós, por volta de 1868. tação a roupa escorregara; apenas lhe restava
gara, durante a ausência do marido, Fotografia de Henrique Nunes.
o lençol sobre o corpo. Às vezes a fadiga
aos amores de um primo conquis- readormecia-a de um sono superficial, cortado
tador, Basílio, encarna o papel da de sonhos muito vivos. Via montões de libras
adúltera que sofre desesperadamen- TEXTO I reluzirem vagamente, maços de notas agita-
rem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava
te. Juliana, a criada, que “personifi- Foi no domingo de Páscoa que se soube para as agarrar, mas as libras começavam a
ca o descontentamento azedo e o em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um
tédio da profissão”, possuía cartas tinha morrido de madrugada com uma chão liso, e as notas desapareciam, voando

– 51
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muito leves com um frêmito1 de asas irônicas. punha frialdades de metal sobre a pele nua do Vocabulário e Notas
Ou então era alguém que entrava na sala, peito. Acordava assustada; e o contraste da 1 – Frêmito: agitação.
curvava-se respeitosamente e começava a sua miséria real com aquelas riquezas do 2 – Chinó: peruca.
tirar do chapéu, a deixar-lhe cair no regaço li- sonho era como um acréscimo de amargura. 3 – Pera: barba no queixo, cavanhaque.
bras, moedas de cinco mil-réis, peças, muitas, Quem lhe poderia valer? — Sebastião! 4 – Impudente: desavergonhado, atrevido,
muitas, profusamente; não conhecia o homem; Sebastião era rico, era bom. Mas mandá-lo sensual.
tinha um chinó2 ver melho e uma pera3 chamar e dizer-lhe ela, ela Luísa, mulher de 5 – De esguelha: de lado.
impudente4. Seria o diabo? Que lhe impor- Jorge: — Empreste-me seiscentos mil-réis. —
tava? Estava rica, estava salva! Punha-se a Para quê, minha senhora? E podia lá
chamar, a gritar por Juliana, a correr atrás responder: para resgatar umas cartas que A terceira fase da obra de Eça de
dela, por um corredor que não findava e que escrevi ao meu amante. Era lá possível! Não,
estava perdida. Restava-lhe ir para um con-
Queirós, que constitui uma profunda
começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que
era como uma fenda por onde ela se arrastava vento. reviravolta em alguns elementos im-
de esguelha5, respirando mal e apertando portantes da fase anterior, será estu-
sempre contra si o montão de libras que lhe (O Primo Basílio, cap. Vlll) dada na próxima aula.

MÓDULO 26 Eça de Queirós II


romances da Idade Média. Desse con- próprio título indica, a obra baseia-se
traste surge, por um lado, a ironia e, em uma antítese, dividindo-se em
por outro, o sentimento de amor à ter- duas partes. A primeira, que vai até a
ra, à gente e à paisagem portuguesa. metade do capítulo oitavo, narra a
Em A Ilustre Casa de Ramires vida de Jacinto em Paris. A segunda,
ocorrem duas histórias paralelas: a que encerra a obra, relata a ida de
primeira é a história central, ambien- Jacinto para o campo e seu encontro
tada no século XIX, que focaliza os com os ideais da vida rústica, o amor
valores da aristocracia decadente, e a felicidade. Neste romance, Eça
representada pelo protagonista Gon- critica a elite portuguesa afrancesa-
çalo Mendes Ramires; a segunda é a da e defende um retorno às raízes e
novela medieval, escrita por esse à cultura lusitana.
mesmo protagonista, que narra a A obra é estruturada de forma
vida de seu antepassado, Tructesin- dialética. Semelhante a um silogismo,
do. Temos assim uma história dentro apresenta uma tese, a antítese e a
da outra. Ambas são narradas em síntese. Primeiro, o protagonista Jacin-
terceira pessoa, por narradores to proclama a vida na cidade como o
oniscientes. As diferenças estão no suprassumo da civilização; depois,
compor tamento dos dois perso- passa a contestar o artificialismo da
nagens (o primeiro é covarde e vida urbana, voltando-se para as delí-
Eça de Queirós em Newcastle-on-tyne. ganancioso, e o segundo, heroico e cias do campo. Por fim, a cidade e as
Foto de H. S. Mendelssohn. honrado), no tempo (século XIX e XII) serras se conciliam, e a personagem
e na linguagem das duas narrativas usa as conquistas da civilização para
q Obras (continuação) (a primeira é realista, e a segunda, melhor aproveitar a vida rural.
c) Terceira fase: a partir de de caráter épico, parodia os roman- O romance é narrado na primeira
1897. É considerada a fase de ces históricos, à moda de Hercula- pessoa por Zé Fernandes, amigo
maturidade, em que Eça retorna aos no). íntimo de Jacinto. Trata-se de um
valores tradicionais portugueses. No final do romance, Gonçalo parte narrador-testemunha, que apresenta
Sua obra, agora, tem preocupação para a África em busca de fortuna, os fatos segundo sua ótica pessoal,
moral. A sátira corrosiva é substituída viagem que significará sua redenção ou seja, subjetivamente, de acordo
por uma ironia condescendente. Em moral e, numa alegoria ao antigo im- com o seu humor, sua simpatia ou
lugar do pessimismo, entra um oti- pério português de ultramar, a renova- antipatia.
mismo esperançoso. Abandonam-se ção das energias ancestrais do país. A ação se passa no período que
os esquemas naturalistas. Pertencem vai de 1820 a 1893. O protagonista,
a essa fase os romances: • A Cidade e as Serras Jacinto, tinha o apelido de “Príncipe
Publicado em 1901, um ano após da Grã-Ventura”, devido à sua riqueza,
• A Ilustre Casa de a morte do autor, A Cidade e as saúde e sorte. Vivendo em Paris, no
Ramires Serras é seu último romance, desen- palacete número 202 da Avenida
Publicado em 1897, e de forma volvido a partir do conto “Civilização” Campos Elíseos e convivendo com a
completa em 1900, o romance con- (1892). Desencantado com a civiliza- alta classe local, seu ideal de vida era
fronta a realidade do século XIX com ção urbana, Eça compõe um hino à expresso na “equação metafísica”:
o universo heroico e fantasioso dos natureza e à vida rural. Como o
52 –
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suma ciência (…) Certamente, meu Príncipe, uma nesta criação tão antinatural onde o solo é de
X
suma potência } = suma felicidade ilusão! E a mais amarga, porque o homem
pensa ter na cidade a base de toda a sua
grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua
pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu,
e a gente vive acamada nos prédios como o
paninho nas lojas, e a claridade vem pelos
miséria. (…) Na cidade findou a sua liberdade canos, e as mentiras se murmuram através de
No entanto, decorrido algum tem-
moral; cada manhã ela lhe impõe uma arames, o homem aparece como uma criatura
po, ele começa a enfadar-se de sua
necessidade, e cada necessidade o arremes- anti-humana... (…) E aqui tem o belo Jacinto o
vida repleta de luxo e riqueza, mas sa para uma dependência; pobre e subal- que é a bela cidade!
pobre de espírito. Atacado por uma terno, a sua vida é um constante solicitar, E ante estas encanecidas4 e veneráveis
melancolia crescente que afeta sua adular, vergar, rastejar, aturar; e rico e superior invectivas5, (…) o meu Príncipe vergou6 a
saúde, Jacinto parte para o campo, como um Jacinto, a sociedade logo o enreda nuca dócil, como se elas brotassem, inespe-
indo viver em sua propriedade na em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, radas e frescas, duma revelação superior,
Serra de Tormes, em Portugal. Em praxes, ritos, serviços mais disciplinares que naqueles cimos de Montmartre:
contato com a natureza e o trabalho os dum cárcere ou dum quartel… (…) Os — Sim, com efeito, a cidade… É talvez
rural, ele recupera o antigo vigor e sentimentos mais genuinamente humanos uma ilusão perversa!
disposição. O amor de Joaninha logo na cidade se desumanizam! (…) Mas o (A Cidade e as Serras, cap. VI)
completa o quadro de sua felicidade. que a cidade mais deteriora no homem é a
inteligência, porque ou lha arregimenta dentro Vocabulário e Notas
1 – Balar: o mesmo que balir: berrar como
da banalidade ou lha empurra para a extra-
ovelha, soltar balidos.
vagância. Nesta densa e pairante camada de
TEXTO 2 – Esgar: trejeito, careta.
ideias e fórmulas que constitui a atmosfera
3 – Cabriola: cambalhota.
Neste trecho de A Cidade e as mental das cidades, o homem que a respira, 4 – Encanecido: de encanecer: embranquecer
nela envolto, só pensa todos os pensamentos
Serras, Jacinto e Zé Fernandes ob- os cabelos; experiente; antigo.
já pensados, só exprime todas as expressões 5 – Invectiva: ataque, crítica feroz.
servam a cidade de Paris do alto de
já exprimidas (…) Todos, intelectualmente, são 6 – Vergar: curvar, dobrar.
uma colina. Essa visão panorâmica carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando1 o
encoraja Zé Fernandes a falar sobre mesmo balido, com o focinho pendido para a
os males da civilização urbana. Entre as demais obras de Eça de
poeira onde pisam, em fila, as pegadas
pisadas; e alguns são macacos, saltando no Queirós, estão A Relíquia, A Capital,
— Sim, é talvez tudo uma ilusão… E a topo de mastros vistosos, com esgares2 e A Tragédia da Rua das Flores, Con-
cidade a maior ilusão! cabriolas3. Assim, meu Jacinto, na cidade, tos, Cartas de Inglaterra.

MÓDULO 27 Poesia da Época do Realismo: Cesário Verde


1. VIDA q A valorização da cidade q O proletariado urbano
Entre os anos de 1877 e 1880, a Cesário Verde apresenta, entre
Filho de comerciante, Cesário grande musa de sua poesia é a ci- as imagens novas de sua poesia, um
Verde nasceu em Lisboa, em 1855. dade de Lisboa e suas transforma- quadro impressionante do operaria-
Frequentou por algum tempo o Curso ções ao se modernizar (com a che- do da cidade de Lisboa. São pes-
Superior de Letras e viajou a Paris gada da iluminação pública a gás, soas transformadas em “bestas” de
um ano antes de sua morte prematu- por exemplo). O poeta dedica à pai- carga, em consequência das con-
ra, em 1886, aos 31 anos de idade. sagem citadina um importante poe- dições desumanas de trabalho:
A poesia inovadora que produziu ma chamado “O Sentimento dum
Homens de carga! Assim as bestas vão
não foi devidamente reconhecida du- Ocidental”. Posteriormente, já tu- [curvadas!
rante sua vida, sendo publicada somen- berculoso, passa à fase da poesia
te em 1887, por seu amigo Silva Pinto, campestre, quando elogia os as- Que vida tão custosa! Que diabo!
com o título O Livro de Cesário Verde. pectos saudáveis desse tipo de (“Cristalizações”)
vida.
2. CARACTERÍSTICAS Por todas estas características,
assim como pela objetividade, preci-
É o mais singular poeta realista q A forte visualidade são e antissentimentalismo de sua
português. Sua obra não possui os A cidade, figura básica de sua linguagem, sua obra reveste-se de
aspectos místicos e filosóficos que poesia, é fixada por meio de flashes, extraordinária modernidade, tendo
caracterizam a poesia de Antero de imagens em movimento, que captam por isso influenciado alguns poetas
Quental. Ao contrário, utiliza uma lin- seu clima humano e os elementos inovadores, como os brasileiros
guagem objetiva e coloquial, com- perdidos com o desenvolvimento Augusto dos Anjos e João Cabral de
pletamente fora dos padrões do moderno. A montagem dos flashes Melo Neto e o português Fernando
lirismo tradicional, ao descrever faz-se por um processo que lembra, Pessoa, cujos heterônimos Álvaro de
cenas do cotidiano, até então hoje, o cinema, com a justaposição Campos e Alberto Caeiro prolongam
consideradas inadequadas para a de imagens fragmentadas e múlti- as duas faces de sua poesia: a cita-
poesia. São notáveis em sua obra: plas. dina e a campesina.
– 53
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EU E ELA Nós teremos então sobre os joelhos Vocabulário e Notas


Um livro que nos diga muitas cousas 1 – Lousa: túmulo.
Cobertos de folhagem, na verdura,
Dos mistérios que estão para além das 2 – Vida à paxá: vida preguiçosa e feliz.
O teu braço ao redor do meu pescoço,
[lousas1, 3 – Flos Sanctorum (latim): A Vida dos Santos,
O teu fato sem ter um só destroço,
Onde havemos de entrar antes de velhos. título de uma antologia moral composta
O meu braço apertando-te a cintura;
por Alonso de Villegas no século XVI.
Num mimoso jardim, ó pomba mansa, Outras vezes buscando distração, 4 – Laxo: débil, fraco, franzino.
Sobre um banco de mármore assentados. Leremos bons romances galhofeiros, 5 – Cavaleiro de Faublas: personagem do
Na sombra dos arbustos, que abraçados, Gozaremos assim dias inteiros, romance Os Amores do Cavaleiro de
Beijarão meigamente a tua trança. Formando unicamente um coração. Faublas (1787-90), de Louvet de Couvray.

Nós havemos de estar ambos unidos, Beatos ou pagãos, vida à paxá2,


Sem gozos sensuais, sem más ideias, Nós leremos, aceita este meu voto,
Esquecendo para sempre as nossas ceias, O Flos Sanctorum3 místico e devoto
E a loucura dos vinhos atrevidos. E o laxo4 Cavaleiro de Faublas5...

MÓDULO 28 Machado de Assis I


1. LOCALIZAÇÃO cação das instituições culturais e dos bava sempre absorvido pela respei-
HISTÓRICO-CULTURAL órgãos de imprensa (A Revista tabilidade acadêmica. Até o irreve-
Brasileira, A Gazeta Literária, A rente Emílio de Meneses acabou elei-
q Os antecedentes europeus Semana, dentre outros). to para a Academia.
e brasileiros Esse incremento na vida cultural A importância desse período
No Brasil, especialmente na projetou a maturação da nacionalida- completa-se com o relevo adquirido
ficção regionalista e urbana, os auto- de e a dinamização e consolidação da pela oratória civil (Rui Barbosa); pelos
res românticos procuraram a descri- vida nacional (modernização das cida- estudos históricos (Joaquim Nabuco,
ção da vida social e a observação do des, codificação racional das leis, mo- Capistrano de Abreu e Oliveira Lima);
ambiente, contrabalançando os exa- dernização do equipamento técnico pelo jornalismo (José do Patrocínio e
geros da imaginação e da fantasia. e do ensino superior, penetração nas Alcindo Guanabara); pelos estudos
José de Alencar, em Senhora, zonas internas, estabilização das de gramática (Júlio Ribeiro e João
desmascarou e pôs a nu certas idea- fronteiras com os países limítrofes). Ribeiro); pela crítica literária (Sílvio
lizações da moral burguesa, aprofun- O escritor passa a ser socialmen- Romero, José Veríssimo e Araripe
dando a análise psicológica e a críti- te reconhecido. Nesse sentido, a fun- Júnior) e pelo ensaísmo (Tobias
ca social; Bernardo Guimarães, dação da Academia Brasileira Barreto, Farias Brito, Euclides da
em O Seminarista, descreveu o amor de Letras (1897) veio, de certo Cunha e Clóvis Bevilácqua).
com acentuada franqueza, anteci- modo, oficializar a literatura, logran-
pando aspectos do determinismo do o reconhecimento do mundo 2. CARACTERÍSTICAS
biológico dos naturalistas; Taunay, oficial e da opinião pública e exer-
em Inocência, fotografou, com muita cendo a intermediação entre a pro- q Observação importante
fidelidade, os costumes e a paisa- dução intelectual, o poder e o pú- No Brasil, os movimentos realis-
gem do sertão de Mato Grosso; blico, papel exercido, timidamente, ta, naturalista e parnasianista
Franklin Távora, nas Cartas a no Romantismo, pelo Instituto Histó- são simultâneos, e não suces-
Cincinato, censurou duramente José rico e Geográfico. sivos. Os três ocorreram no mesmo
de Alencar pela falta de observação Se, por um lado, a Academia deu período cronológico: 1881-1893. O
adequada dos costumes e da paisa- respeitabilidade à literatura perante o Realismo inaugura-se em 1881, com
gem e pelas inverdades, que são corpo social, por outro lado, acabou a publicação de Memórias Póstumas
comuns em O Sertanejo, O Gaúcho e gerando o academicismo (no mau de Brás Cubas, de Machado de
A Guerra dos Mascates; Manuel sentido), dando à literatura um cunho Assis. O Naturalismo aparece tam-
Antônio de Almeida, em Memó- oficial e ajustando-a aos ideais da bém em 1881, com a publicação de
rias de um Sargento de Milícias, classe dominante. O Mulato, de Aluísio Azevedo. Costu-
focalizou, com surpreendente impar- Ao lado da tendência acadêmi- ma-se identificar como marco inicial
cialidade, os costumes do Rio de ca, respeitosa do decoro, que tem do Parnasianismo o aparecimento,
Janeiro, no fim da Era Colonial. em Machado de Assis um verda- em 1882, do livro de poemas Fanfar-
deiro paradigma de sobriedade, ras, de Teófilo Dias.
q O contexto brasileiro equilíbrio e dignidade, surge a figura É comum designar-se como pe-
O período realista foi o primeiro, do escritor boêmio, à margem dos ríodo realista o conjunto desses
em nossa literatura, a apresentar um padrões burgueses, livre e sem pre- três movimentos ou correntes: o
panorama completo da vida literária, conceito, cujo exemplo mais vivo é o Realismo propriamente dito, o Natu-
com todos os gêneros moder- de Emílio de Meneses. Mas o ralismo (ou Realismo Naturalista) e o
nos florescendo, com a multipli- segmento boêmio e irreverente aca- Parnasianismo.
54 –
TEORIA_C2_3A_Conv_DANIEL 25/10/10 16:04 Página 55

Esse período irá desdobrar-se q A ficção machadiana tradição entre parecer e ser, entre a
muito além de seus limites cronoló- A) Conto máscara e o desejo, entre a vida pú-
gicos estritos, projetando-se no Pré- O contista Machado de Assis, blica e os impulsos escuros da vida
Modernismo (Euclides da Cunha, para muitos, supera o romancista. interior, desembocando sempre na
Monteiro Lobato, Lima Barreto) e Coube a ele dar ao conto densidade fatal capitulação do sujeito à aparên-
fundindo-se, por vezes, com a prosa e excelência insuperáveis em nossa cia dominante.
de cunho impressionista. A atitude literatura, fundando esse gênero e Machado procura roer a substân-
realista de observação direta e de abrindo caminhos, pelos quais, cia do “eu” e do fato moral conside-
crítica social será retomada, em ple- mais tarde, iriam trilhar Mário de rados em si mesmos, mas deixa nua
no Modernismo, pela ficção regio- Andrade e Clarice Lispector, para a relação de dependência do mundo
nalista do Nordeste (Neorrea- ficarmos em apenas dois contistas interior em face da conveniência do
lismo), na década de 1930. Essa modernos. mais forte. É dessa relação que se
atitude realista, modernizada quanto Distinguem-se duas fases: a pri- ocupa, enquanto narrador.
ao código linguístico e tornada mais meira, dita romântica, com os livros É a móvel combinação de de-
aguda quanto ao propósito de Contos Fluminenses e Histórias da sejo, interesses e valor social que
análise e crítica da sociedade, é Meia-Noite; a segunda, realista, inclui fundamenta as estranhas teorias do
evidente nos autores regionalistas, os melhores contos: Papéis Avulsos, compor tamento expressas nos
ou neorrealistas, Graciliano Ramos, Histórias sem Data, Várias Histórias e contos “O Alienista”, “Teoria do
José Lins do Rego, Rachel de Relíquias de Casa Velha. Medalhão”, “O Segredo do Bonzo”,
Queiroz, Jorge Amado e José Améri- “A Sereníssima República”, “O
co de Almeida. A1) Na fase romântica, a angús- Espelho”, “A Causa Secreta”, “Conto
tia, oculta ou patente, das persona- Alexandrino”, “A Igreja do Diabo”.
3. MACHADO DE ASSIS gens é determinada pela necessida- É exatamente isso que nos diz o
(Rio de Janeiro, 1839-1908) de de obtenção de status, quer pela mais sábio dos bonzos:
aquisição de patrimônio, quer pela “Se puserdes as mais sublimes
q Vida consecução de um matrimônio com virtudes e os mais profundos conhe-
Machado de Assis é o grande parceiro mais abonado. “Segredo de cimentos em um sujeito solitário, remo-
representante do Realismo no Brasil. Augusta” e “Miss Dollar” antecipam a to de todo contato com outros ho-
De origem humilde, foi autodidata, temática de A Mão e a Luva: o dinhei- mens, é como se eles não existis-
venceu limitações pessoais (era ga- ro como móvel do casamento. O sem. Os frutos de uma laranjeira, se
go e epilético) e sociais (era mulato tema da traição (suposta ou real), ninguém os gostar, valem tanto como
e pobre). Foi aprendiz de tipógrafo antes de aparecer em Dom Casmur- as urzes e as plantas bravias, e, se
na Tipografia Nacional, sob as ro, já estava nos contos “A Mulher de ninguém os vir, não valem nada; ou,
ordens e proteção de Manuel Antô- Preto” e “Confissões de uma Viúva por outras palavras mais enérgicas,
nio de Almeida (o autor de Memórias Moça”. não há espetáculo sem espectador.”
de um Sargento de Milícias) e iniciou Nessa primeira fase, a mentira é (“O Segredo do Bonzo”)
sua carreira literária aos dezesseis punida ou desmascarada. Há nisso
anos. Ocupou cargos públicos um laivo de moralismo romântico, na B) Poesia
importantes e foi o fundador e pri- pregação de casos exemplares. Mas Em Crisálidas, Falenas e Ameri-
meiro presidente da Academia Bra- essa linha será, a seguir, superada, canas, livros que encerram a poesia
sileira de Letras. ainda na fase romântica. Em “A Para- romântica de Machado de Assis,
Considerado um agudo “analista sita Azul”, o enganador triunfa pela são evidentes as sugestões temá-
da alma humana”, Machado de Assis primeira vez. O cálculo frio, o cinis- ticas e formais da poesia de Gon-
começou escrevendo poesia e prosa mo, a máscara e o jogo de interesses çalves Dias, Casimiro de Abreu e
romântica. Em 1881 inaugura o Rea- constituem o cerne desse pragmatis- Fagundes Varela: o lirismo senti-
lismo, com o romance Memórias mo ou utilitarismo para o qual pen- mental, a poesia indianista, a natu-
Póstumas de Brás Cubas, um dos dem especialmente as personagens reza americana.
livros mais extraordinários de nossa femininas, capazes de sufocar a pai- Já Ocidentais revela maior
língua. Seus contos chegam a ser tão xão e o amor em nome da “fria elei- apuro formal e contenção de lin-
importantes quanto seus mais notá- ção do espírito”, da “segunda nature- guagem, aproximando-se das dire-
veis romances. Escreveu também za, tão imperiosa como a primeira”. A trizes do Parnasianismo. A poesia
peças teatrais, mas no teatro, assim segunda natureza do corpo é o de cunho filosófico, a reflexão sobre
como na poesia, não conseguiu ele- status, a sociedade que se incrusta o ser, o tempo e a moral constituem
var-se acima do nível mediano da na vida. os momentos mais bem realizados
produção de seu tempo. Como cro- do livro, que são os poemas: “So-
nista e como crítico literário publicou A2) Na fase realista, a partir dos neto de Natal”, “Suave Mari Magno”,
páginas notáveis, que estão entre o contos de Papéis Avulsos, Machado “A Mosca Azul”, “Círculo Vicioso”,
que se escreveu de melhor nesses começa a cunhar a fórmula mais “No Alto” e “Mundo Interior”. É
gêneros no Brasil. permanente de seus contos: a con- sempre uma poesia discreta, sem
– 55
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arrebata-mentos, reflexiva e densa, do pequeno ao grandioso, do real muitas vezes poderíamos obter,
culta, teórica, correta, mas quase ao imaginário. Por medo de tentar.]
sempre ca rente de emoções e Não quis fazer romance de
vibração. E) Crítica costumes; tentei o esboço de uma
Apesar de pequena, a produção situação e o contraste de dois carac-
C) Teatro
machadiana no gênero revela hones- teres; com esses simples elementos
Quase todas as comédias de
tidade, senso estético, fina capaci- busquei o interesse do livro, a crítica
Machado são da década de 1860,
dade analítica e independência decidirá se a obra corresponde ao
contemporâneas, portanto, das pro-
intelectual, que o colocaram acima intuito, e sobretudo se o operário tem
duções “românticas” na poesia. São
dos modismos de sua época. jeito para ela.
mais contos dialogados que propria-
Entre seus melhores trabalhos, É o que peço com o coração nas
mente peças teatrais; revelam-se
incluem-se as apreciações sobre os mãos.”
poemas de Castro Alves (em carta a Ainda que se tenha vulgarizado a
melhores quando lidas do que quan-
José de Alencar), as considerações designação de romances “românti-
do encenadas.
sobre a pouca originalidade da poe- cos”, essas primeiras experiências
Essas comédias foram represen-
sia arcádica e o estudo sobre Eça de com a ficção de maior fôlego não se
tadas com algum êxito durante a vida
Queirós, que suscitou verdadeira po- enquadram nos estreitos limites da
do seu autor, e são: A Queda que as
Mulheres Têm para os Tolos, Desen- lêmica. ficção propriamente romântica: a idea-
cantos, Quase Ministro, O Caminho lização das personagens centrais
da Porta, O Protocolo, Não Consultes F) Romance não é total, reservando lugar para
o Médico, Os Deuses de Casaca e F1) A Fase Romântica aspectos problemáticos de sua con-
Tu, só Tu, Puro Amor, inspirada no Os primeiros romances de Ma- duta, e a tensão bem versus mal, herói
chado de Assis (Ressurreição, A versus vilão, não é nítida. Caberia
episódio de Inês de Castro, de Os
Lusíadas, e encenada em come- Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia) melhor a designação de romances
podem ser considerados experiên- “convencionais”. Já existem nesses
moração do tricentenário da morte
cias para o salto qualitativo que viria romances os traços que serão cons-
do poeta português.
com Memórias Póstumas de Brás tantes na fase realista: a observação
Cubas (1881), que inaugura a fase psicológica e o interesse como o mó-
D) Crônica realista de Machado. vel principal das ações humanas.
Machado de Assis militou na O caráter de “experiência” fica Mesmo as heroínas ditas “românti-
imprensa diária do Rio de Janeiro evidente na “Advertência” com que cas” de Machado de Assis agem
durante quase toda a sua vida: pas- Machado apresenta a primeira edi- movidas pelo interesse, pelo desejo
sou pelas redações, entre outras, do ção do romance Ressurreição: de ascensão social, e não pelo amor.
Correio Mercantil, do Diário do Rio de “Não sei o que deva pensar des-
Janeiro, da Gazeta de Notícias, de O te livro; ignoro sobretudo o que pen-
Século. As crônicas que escreveu sará dele o leitor. A benevolência
iam da linguagem sarcástica, dos com que foi recebido um volume
tempos de militância liberal, ao inti- de contos e novelas, que há dois
mismo das páginas de Relíquias de anos publiquei, me animou a
Casa Velha. Nomeado funcionário escrevê-lo. É um ensaio. Vai despre-
público, subordinado à Secretaria de tensiosamente às mãos da crítica e
Estado, não pôde atuar de forma do público, que o tratarão com a
mais ostensiva no Movimento Aboli- justiça que merecer.” E, concluindo a
cionista, o que serviu de base a “Advertência”:
ideias de que ele não teria tido in- “Minha ideia ao escrever este
teresse na sorte dos escravos, dos livro foi pôr aquele pensamento de
quais descendia pelo lado paterno. Shakespeare:
As crônicas, pela maior liberda- Our doubts are traitors,
de que permitem, revelam a tendên- And make us lose the good we
cia de Machado para o diver - oft might win,
tissement, a brincadeira, o texto leve By fearing to attempt.
e divertido. Vão do corriqueiro ao [Nossas dúvidas são traidoras
sublime, do cotidiano ao clássico, E fazem-nos perder o bem que Machado de Assis aos 45 anos.

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MÓDULO 29 Machado de Assis II


F2) O Romance Realista ciais e os impulsos interiores, a q O pessimismo
É a partir de Memórias Póstumas normalidade e a loucura, o acaso, o Machado revela sempre uma vi-
de Brás Cubas (1881) que Machado ciúme, a irracionalidade, a usura, a são desencantada da vida e do ho-
atinge o ponto mais alto e equilibrado crueldade. mem. Não acreditava nos valores do
da ficção brasileira. Alinhavamos, a A pobreza de descrições, a qua- seu tempo e, a rigor, não acreditava
seguir, alguns aspectos da ficção se ausência da paisagem são ainda em nenhum valor. Mais do que pes-
machadiana. desdobramentos dessa concentração simista ou negativista, sua postura é
na análise psicológica e na reflexão “niilista” (nihil = nada). O desmasca-
q A ruptura com filosófica. As tramas dos romances ramento do cinismo e da hipocrisia,
a narrativa linear machadianos poderiam, sem grandes do egoísmo e do interesse, que se
Os fatos e as ações não se- prejuízos à narrativa, ser transplanta- camuflavam sob as convenções so-
das para qualquer época e qualquer ciais, é o móvel de grande parte da
guem um fio lógico ou cronológico;
cidade. ficção machadiana:
obedecem a um ordenamento inte-
rior, são relatados à medida que Não tive filhos, não transmiti a
q As influências
afloram à consciência ou à memória nenhuma criatura o legado de nossa
Machado de Assis esteve acima
do narrador, num processo que se miséria. (Memórias Póstumas de Brás
dos modismos da época. Enquanto
aproxima do impressionismo Cubas, “Das Negativas”, cap. CLX)
Gustave Flaubert, pai do Realismo,
associativo. defendia a superioridade do “ro- q A ironia, o humor negro
mance que narra a si mesmo”,
A forma de revolta de Machado
q A organização ocultando por completo a figura do
era o riso, quase sempre um riso
metalinguística do narrador, Machado subverte essa
amargo, que exteriorizava o desen-
discurso narrativo regra, intrometendo o narrador na
canto e o desalento ante a miséria fí-
É comum, na ficção machadiana, narrativa, fazendo que o leitor o
sica e moral de suas personagens:
que o narrador interrompa a narrativa identifique sempre, por trás e acima
“…Em verdade vos digo que
para, com saborosa e bem-humora- das convenções de verossimilhança
toda sabedoria humana não vale um
da bisbilhotice, comentar com o leitor (= aparência de realidade) da
par de botas curtas.
a própria escritura do romance, fa- ficção.
Autodidata, Machado adquiriu
Tu, minha Eugênia, é que não as
zendo-o participar de sua constru- descalçaste; foste aí pela estrada da
ção; ou, ainda, para dialogar sobre sólida formação clássica: Shakes-
peare, Dante Alighieri, Cervantes e vida, manquejando da perna e do
uma personagem, refletir sobre um amor, triste como os enterros pobres,
episódio do enredo ou tecer suas Goethe eram suas leituras obriga-
tórias. Mas os modelos que seguiu solitária, calada, laboriosa, até que
digressões sobre os mais variados vieste também para esta outra men-
mais de perto foram os do século
assuntos. sagem… O que eu não sei é se a tua
XVIII: Voltaire, com sua ironia cor-
Machado assume a posição de existência era muito necessária ao
tante, além do refinado sense of
quem escreve e, ao mesmo tempo, se século. Quem sabe? Talvez um com-
humor dos autores ingleses Sterne e
vê escrevendo. Esses comentários à parsa de menos fizesse patear a tra-
Swift.
margem da narração têm interesse gédia humana.”
central, pois neles se encontram im- q Os grandes arquétipos “Antes cair das nuvens que de
portantes ideias do autor sobre sua Uma das linhas mestras da um terceiro andar.”
arte — sobre a narrativa e sua rela- ficção machadiana parte do aprovei- “Deus, para a felicidade do ho-
ção com a vida. tamento dos arquétipos (arquétipo mem, criou a religião e o amor. Mas o
= modelo de seres criados; padrão, demônio, invejoso do sucesso de
q O universalismo exemplar; imagens psíquicas do Deus, fez com que o homem confun-
Machado captou, na sociedade inconsciente coletivo e que são o disse a religião com a Igreja, e o
carioca do século XIX, os grandes patrimônio comum a toda a humani- amor com o casamento.”
temas de sua obra. O seu interesse dade), remontando à tradição clás-
jamais recaiu sobre o típico, o pito- sica e aos textos bíblicos. q O psicologismo
resco, a cor local, o exótico, tão ao Assim, o conflito dos irmãos Pe- Ação e enredo perdem a impor-
gosto dos românticos. Buscou, na dro e Paulo, em Esaú e Jacó, remon- tância para a caracterização das
sociedade do seu tempo, o univer- ta ao arquétipo bíblico da rivalidade personagens.
sal, a essência humana, os grandes entre Caim e Abel; a psicose do Os acontecimentos exteriores
temas filosóficos: a essência e a ciúme de Bentinho, em Dom Casmur- são considerados somente à medida
aparência, o caráter relativo da ro, aproxima-se do drama de Otelo e que revelam o interior, os motivos
moral humana, as convenções so- Desdêmona, de Shakespeare. profundos da ação, que Machado de-
vassa e apresenta detalhadamente.
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Daí a narrativa lenta, pois o menor deta- Lobo Neves, homem ambicioso. qua e dissimulada”, brilha entre todas
lhe e o menor gesto são significativos Virgília, que se torna amante de Brás as personagens de Machado, não só
na composição do quadro psicológico; Cubas, é uma das grandes persona- as femininas.
nada é desprovido de interesse. Essa gens femininas de Machado. Nessa
fixação pelo pormenor é o que se obra já aparece o filósofo-mendigo q Quincas Borba (1891)
denomina microrrealismo. Quincas Borba, que será a persona- Quincas Borba é continuação de
gem principal do romance seguinte Memórias Póstumas de Brás Cubas,
q O estilo machadiano pois, como vimos, o filósofo-mendi-
de Machado. Fundamentalmente pes-
Machado prima pelo equilíbrio, simista, Brás Cubas é também um go, personagem que dá nome a este
pela disciplina clássica, correção homem cínico, até cruel, figura ele- romance, e a sua filosofia, o Humani-
gramatical, concisão e economia vo- gante e típica da ociosa elite carioca tismo, já tinham aparecido nas
cabular. Ao contrário da nossa do século passado. Memórias, nas quais, na verdade, há
congê- nita tendência ao uso um período de tempo em que Quin-
imoderado do adjetivo e do advérbio, cas Borba desaparece, só voltando
tão ao gosto de Castro Alves, de para morrer na casa de Brás Cubas.
Alencar, de Rui Barbosa etc., O romance Quincas Borba narra em
Machado é parcimonioso, sóbrio, terceira pessoa as aventuras de
quase “britânico”. Não é, contudo, Quincas nesse intervalo, nas quais in-
uma linguagem simétrica e terveio, novamente, o acaso: Quincas
mecânica, porém medida pelo seu recebeu uma herança e foi viver num
ritmo interior, donde o segredo da local tranquilo, Barbacena, mais ade-
unidade da obra. São frequentes as quado à sua filosofia. Lá se pas-
experiências narrativas
saram os fatos principais da história.
antecipadoras da modernidade, pelo
Apaixonado e recusado por Maria
aspecto irônico e antinarrativo.
Piedade, Quincas adoeceu e foi
Em Memórias Póstumas de Brás Capitu, em pintura de J. da Rocha Ferreira.
tratado por Rubião, seu amigo. Este,
Cubas, em vez de narrar a morte de
a quem Quincas tentara explicar o
D. Eulália Damasceno de Brito, Brás q Dom Casmurro (1899) Humanitismo, se interessava na ver-
Cubas “fotografa” seu epitáfio, trans- Dom Casmurro é considerado um dade pela fortuna do outro. E Rubião,
pondo o ícone, a inscrição tumular: romance sobre o adultério. Nem o de fato, tornou-se herdeiro universal
adultério é fato certo na história, nem do filósofo sob a condição de cuidar
Capítulo CXXV
o tema do romance se limita a ele. É de seu cão (que se chama também
Epitáfio
antes a abordagem da vaidade mas- Quincas Borba). Despreparado para
AQUI JAZ culina, e do vazio das instituições que a riqueza, ele é explorado pelo casal
domina, e do mistério da mulher. Sofia e Cristiano Palha. Apaixona-se
D. EULÁLIA DAMASCENO DE BRITO
Assim, todo o conjunto de certezas por ela, que é incentivada pelo mari-
MORTA da realidade (e do Realismo) torna-se do a ser receptiva a seus favores.
frágil, ilusório e enganador. Todos os Aos poucos, vai perdendo tudo, sem
AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE
acontecimentos narrados na obra conquistar o amor de Sofia, e enlou-
ORAI POR ELA!
ganham esta aura de dúvida por cau- quece, como Quincas. Nesse roman-
sa do ciúme que o próprio narrador- ce, é desenvolvida a teoria do Huma-
q Memórias Póstumas personagem — Bentinho, um ser me- nitismo e sua máxima, “ao vencedor,
de Brás Cubas (1881) díocre — tem de Capitu, amiguinha as batatas”. Trata-se de satirização de
Nesse romance, em primeira de infância, depois namorada, noiva correntes filosóficas da época, como
pessoa, o narrador-personagem e, enfim, esposa. Não há nenhuma pro- o Positivismo e o Evolucionismo.
Brás Cubas relata sua vida a partir va conclusiva do adultério de Capitu;
de uma estranha situação: já está ao contrário, a relação intertextual do q Esaú e Jacó (1904)
morto, sendo, por isso, como ele romance com Otelo, de Shakespeare, O título alude à famosa passa-
mesmo diz, um “defunto autor”. Com parece advertir que tanto a realidade gem do Antigo Testamento, em que
um texto cheio de digressões e de quanto as percepções humanas são
dois irmãos disputam o privilégio da
humor, narra o grande projeto de sua abaladas pelas paixões. Assim,
bênção do pai. Machado, utilizando
todas as “provas” e, em particular, a
vida, criar o “emplasto anti-hipocon- a ideia da rivalidade entre irmãos, cons-
semelhança de Ezequiel, o filho do
dríaco Brás Cubas”, esperança frus- trói as personagens Pedro e Paulo,
casal, com Escobar, o suposto amante,
trada de renome e riqueza. Brás Cubas cujo desentendimento e inimizade
são relativas, duvidosas. Machado
conta sua infância, fala da família, de não têm explicação racional. Brigavam
atinge o objetivo de mostrar que a
Marcela — a primeira amante — e de desde o útero materno. Flora é a mu-
realidade é algo móvel e enganador.
Virgília, que foi sua namorada e que lher que se apaixona pelos dois, e
Capitu, de “olhos de ressaca”, “oblí-
acaba se casando com o deputado
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que ambos amavam. Nem a morte e Carmo e o drama de sua vida, a im- lancólica da velhice, da solidão e do
dela nem a de sua própria mãe os possibilidade de ter filhos. Conso- mundo. D. Carmo, esposa do velho
reconcilia. Seu ódio destruía as pes- lam-se no amor paternal que dedi- Aguiar, seria a projeção da própria
soas em redor. Nessa obra já apa- cavam a um afilhado, Tristão. Deses- esposa de Machado, já falecida. A
rece o Conselheiro Aires, persona- peram-se quando este vai para a ironia e o sarcasmo dos livros anterio-
gem central do romance seguinte, o Europa e reencontram alegria com res são substituídos por um tom com-
último de Machado de Assis. Fidélia, até que de novo a fatalidade passivo e melancólico, as persona-
q Memorial de Aires (1908) intervém: Tristão casa-se com Fidélia gens são simples e bondosas, muito
Nesse romance em forma de diário, e a leva consigo para a Europa. distantes dos paranoicos e psicóti-
o narrador, Aires, diplomata, relata Memorial de Aires é apontado cos dos romances anteriores. Alguns
episódios de sua vida após se apo- como o romance mais projetivo da veem no Memorial de Aires uma obra
sentar, o retorno ao Brasil, a vidinha personalidade e da vida de Machado de retrocesso a concepções romanti-
em Petrópolis. Por meio de Fidélia, de Assis. zadas do mundo; outros tomam o ro-
Aires e sua irmã, Rita, entram em con- Escrito após a morte de sua es- mance como o testamento literário e
tato com o casal de velhinhos Aguiar posa, Carolina, revela uma visão me- humano de Machado de Assis.

MÓDULO 30 Machado de Assis III


grupo e cada época encontrem as desde cedo chamou a atenção dos
suas obsessões e as suas necessi- críticos, como um dos temas prin-
dades de expressão. Por isso, as cipais de sua obra.
sucessivas gerações de leitores e
críticos brasileiros foram encon-
q “O Alienista”
trando níveis diferentes em Machado
de Assis, estimando-o por motivos di- Quanto ao problema da loucura,
versos e vendo nele um grande podemos citar o conto “O Alienista”.
escritor devido a qualidades por (…) Um médico funda um hospício
vezes contraditórias. O mais curioso para os loucos da cidade e vai
é que provavelmente todas essas diagnosticando todas as manifes-
interpretações são justas, porque ao tações de anormalidade mental que
apanhar um ângulo não podem observa. Aos poucos o hospício se
deixar de ao menos pressentir os enche; dali a tempos já tem a metade
outros. (...) da população; depois quase toda
Muitos dos seus contos e alguns ela, até que o alienista sente que a
dos seus romances parecem aber- verdade, em consequência, está no
tos, sem conclusão necessária, ou contrário da sua teoria. Manda então
Machado de Assis permitindo uma dupla leitura, como soltar os internados e recolher a
ocorre entre os nossos contempo- pequena minoria de pessoas equili-
ANÁLISE CRÍTICA
râneos. (...) bradas, porque, sendo exceção, esta
Talvez possamos dizer que um é que é realmente anormal. A minoria
Nessa aula você lerá trechos de
dos problemas fundamentais da sua é submetida a um tratamento de
um texto de Antonio Candido, que
versa sobre alguns dos temas pre- obra é o da identidade. Quem sou “segunda alma”, para usar os termos
sentes e característicos da obra de eu? O que sou eu? Em que medida do conto precedente: cada um é
Machado de Assis. No texto, origi- eu só existo por meio dos outros? Eu tentado por uma fraqueza, acaba
nalmente uma palestra proferida em sou mais autêntico quando penso ou cedendo e se equipara deste modo à
1968, o crítico ressalta a importância quando existo? Haverá mais de um maioria, sendo libertado, até que o
e modernidade das “situações ficcio- ser em mim? Eis algumas perguntas hospício se esvazia de novo. O alie-
nais” criadas por Machado de Assis, que parecem formar o substrato de nista percebe então que os germes
citando, respectivamente, alguns de muitos dos seus contos e romances. de desequilíbrio prosperaram tão
seus contos e romances. Sob a forma branda, é o problema facilmente porque já estavam laten-
Nas obras dos grandes escrito- da divisão do ser ou do desdo- tes em todos; portanto, o mérito não é
res é mais visível a polivalência do bramento da personalidade, estu- da sua terapia. Não haveria um só
verbo literário. Elas são grandes por- dado por Augusto Meyer. Sob a homem normal, imune às solicitações
que são extremamente ricas de forma extrema é o problema dos das manias, das vaidades, da falta
significado, permitindo que cada limites da razão e da loucura, que de ponderação? Analisando-se bem,
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vê que é o seu caso; e resolve inter- foi um dos temas centrais do tramos em diversos contos e sobre-
nar-se, só no casarão vazio do hospí- existencialismo literário contempo- tudo num dos mais belos e pun-
cio, onde morre meses depois. E nós râneo, em Sartre e Camus, por gentes que escreveu: “Um Homem
perguntamos: quem era louco? Ou exemplo. Serei eu alguma coisa Célebre”.
seriam todos loucos, caso em que nin- mais do que o ato que me exprime? Trata-se de um compositor de
guém o é? Notemos que este conto e Será a vida mais do que uma polcas, Pestana, o mais famoso do
o anterior manifestam, no fim do século cadeia de opções? Num dos seus momento, reconhecido e louvado por
XIX, o que faria a voga de Pirandello melhores romances, Esaú e Jacó, onde vá, procurado pelos editores,
a partir do decênio de 1920. ele retoma, já no fim da carreira, abastado materialmente. No entanto,
este problema que pontilha a sua Pestana odeia as suas polcas que
q Dom Casmurro obra inteira. Retoma-o sob a for ma toda a gente canta e executa, porque
Outro problema que surge com sim bó lica da rivalidade perma - o seu desejo é compor uma peça
frequência na obra de Machado de nente de dois irmãos gêmeos, erudita de alta qualidade, uma sona-
Assis é o da relação entre o fato real Pedro e Paulo, que representam ta, uma missa, como as que admira
e o fato imaginado, que será um dos invaria velmente a alter na tiva de em Beethoven ou Mozart. À noite,
eixos do grande romance de Marcel qualquer ato. Um só faz o contrário postado no piano, leva horas solici-
Proust, e que ambos analisam princi- do outro, e evidentemente as duas tando a inspiração que resiste. De-
palmente com relação ao ciúme. A possibili da des são legítimas. O pois de muitos dias, começa a sentir
mesma reversibilidade entre a razão grande problema suscitado é o da algo que prenuncia a visita da deusa
e a loucura, que torna impossível de- validade do ato e de sua relação e a sua emoção aumenta, sente
marcar as fronteiras e, portanto, de- com o intuito que o sustém. Através quase as notas desejadas brotando
fini-las de modo satisfatório, existe da crônica aparen temente cor - nos dedos, atira-se ao teclado e...
entre o que aconteceu e o que riqueira de uma família da bur- compõe mais uma polca! Polcas e
pensamos que aconteceu. (…) Uma guesia carioca no fim do Império e sempre polcas, cada vez mais bri-
estudiosa norte-americana, Helen começo da Re pú blica, surge a lhantes e populares é o que faz até
Caldwell, no livro The Brazilian cada instante este debate, que se morrer. A alternativa é negada tam-
Othello of Machado de Assis, levan- comple ta pelo terceiro per sona - bém a ele; só lhe resta fazer como é
tou a hipótese viável, porque bem gem-chave, a moça Flora, que possível, não como lhe agradaria.
machadiana, de que na verdade ambos os irmãos amam, está claro,
Capitu não traiu o marido. Como o mas que, situada entre eles, não q Conclusão
livro é narrado por este, na primeira sabe como escolher. É a ela, como Isto é dito para justificar um con-
pessoa, é preciso convir que só a outras mulheres na obra de selho final: não procuremos na sua
conhecemos a sua visão das coisas, Machado de Assis, que cabe obra uma coleção de apólogos nem
e que para a furiosa “cristalização” encarnar a decisão ética, o com- uma galeria de tipos singulares. Pro-
negativa de um ciumento, é possível promisso do ser no ato que não curemos sobretudo as situações fic-
até encontrar semelhanças inexisten- volta atrás, porque uma vez pra- cionais que ele inventou. Tanto aque-
tes, ou que são produtos do acaso ticado define e obriga o ser de las onde os destinos e os aconteci-
(como a de Capitu com a mãe de quem o praticou. Os irmãos agem e mentos se organizam segundo uma
Sancha, mulher de Escobar). Mas o optam sem parar, porque são as espécie de encantamento gratuito;
fato é que, dentro do universo ma- alter nativas opostas; mas ela, que quanto as outras, ricas de significado
chadiano, não importa muito que a deve identificar-se com uma ou em sua aparente simplici- dade,
convicção de Bento seja falsa ou com outra, se sentiria reduzida à manifestando, com uma enganadora
verdadeira, porque a consequência metade se o fizesse, e só a posse neutralidade de tom, os conflitos
é exatamente a mesma nos dois das duas metades a realizaria; isto essenciais do homem consigo mes-
casos: imaginária ou real, ela destrói é impossível, porque seria suprimir mo, com os outros homens, com as
a sua casa e a sua vida. E concluí- a própria lei do ato, que é a opção. classes e os grupos. A visão resul-
mos que neste romance, como nou- Simbolicamente, Flora morre sem tante é poderosa, como esta palestra
tras situações da sua obra, o real escolher. não seria capaz sequer de sugerir. O
pode ser o que parece real. melhor que posso fazer é aconselhar
q “Um Homem Célebre” a cada um que esqueça o que eu
q Esaú e Jacó Parece evidente que o tema da disse, compendiando os críticos, e
Neste caso, que sentido tem o opção se completa por uma das abra diretamente os livros de Macha-
ato? Eis outro problema funda - obsessões fundamentais de Macha- do de Assis.
mental em Machado de Assis, que do de Assis, muito bem analisada
o aproxima das preocupações de por Lúcia Miguel-Pereira — o tema (Antonio Candido. “Esquema de
escritores como o Conrad de Lord da perfeição, a aspiração ao ato Machado de Assis”. Vários Escritos. São
Jim ou de The Secret Sharer, e que completo, à obra total, que encon- Paulo, Livraria Duas Cidades, 1970.)
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MÓDULO 31 Aluísio Azevedo


Realismo), com a publicação de O 3. CARACTERÍSTICAS
Mulato, de Aluísio Azevedo. DAS OBRAS

q Obra heterogênea
2. ALUÍSIO AZEVEDO
(1857-1913) Alterna romances naturalistas, de
vigor crítico e estofo cientificista, com
q Vida melodramas românticos, publicados
em folhetins pela imprensa e que
Filho de vice-cônsul português
foram, durante algum tempo, o ga-
em São Luís, transfere-se para o Rio
nha-pão do autor.
de Janeiro após ter atacado a con-
servadora sociedade maranhense
com a publicação de O Mulato. No
Rio, juntou-se ao irmão, o famoso co-
mediógrafo Artur Azevedo. Foi jorna-
lista e escreveu romances, contos,
operetas e revistas teatrais. Era
também bom desenhista, hábil na
Aluísio Azevedo arte da caricatura. Esse seu talento,
aliás, tem relação com a força plás-
1. NATURALISMO NO BRASIL tica de suas descrições. Tentou so-
breviver de sua profissão de escritor Courbet, Os Britadores de Pedras – Óleo
Caracterizando-se como um Rea- e, para isso, teve de aceitar encomen- sobre tela – 1849 – coleção particular,
lismo mais extremado, o Naturalismo das de editores, que lhe pediam ro- Milão, Itália.
tem como elemento fundamental o mances românticos ao gosto do pú-
determinismo cientificista, que diver- blico, em completo contraste com seus q Romance social
ge do determinismo sociopolítico, tí- ideais literários. Aos 38 anos aban- Nos livros mais bem realizados,
pico do Realismo. No final do século donou a carreira literária, ingres- Aluísio Azevedo revela extraordinário
XIX, junto ao avanço da ciência sur- sando na diplomacia. poder de dar vida aos agrupamentos
ge uma nova visão de mundo, diver- humanos, às habitações coletivas,
q Os folhetins romanescos onde os protagonistas vão, social e
sa da idealização romântica: Ver-
dade, Razão e Ciência são agora os Decorrem da atividade de Aluísio moralmente, se degradando, por for-
ideais. Observação e análise são Azevedo como escritor profissional; ça da opressão social e econômica e
seus métodos. Produzir uma arte do- têm escasso valor literário e represen- dos impulsos irreprimíveis da sexuali-
tam meras concessões ao gosto do dade, das taras e dos vícios.
cumental é seu objetivo. O autor na-
turalista constrói enredo, trama e per- leitor da época. Escritos sem muito
cuidado, para publicação na impren- q Visão rigorosamente
sonagens com a intenção de com-
sa diária, o próprio autor reconhecia a determinista
provar certas teorias, nas quais
fragilidade desses trabalhos. Para o autor, o Homem e a socie-
acredita, sobretudo aquelas das
Essas obras são: Uma Lágrima dade estavam submetidos às leis
ciências biológicas: Evolucionismo, inexoráveis da raça (instinto, heredi-
de Mulher, Condessa Vésper, Girân-
Genética, Patologia. A nova visão tariedade), do meio (geográfico, so-
dola de Amores, Filomena Borges e
teórica repercute na prática política cial) e do momento (circunstâncias
A Mortalha de Alzira.
de vários autores, por meio da qual históricas).
se manifestam as preocupações so- q Os romances
cialistas, atividades abolicionistas e realistas-naturalistas q Influências de Eça
a tendência anticlerical. Constituem o segmento apreciá- de Queirós e Émile Zola
Os principais autores naturalistas vel da obra de Aluísio Azevedo, Utilizou a técnica do tipo, defor-
brasileiros foram Aluísio Azevedo, ainda que seja um conjunto bastante mando, pelo exagero, os traços,
Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Do- heterogêneo, sem resíduos românti- criando verdadeiras caricaturas. Não
mingos Olímpio e Inglês de Sousa. cos, com documentação realista, conseguiu criar personagens que
Todos seguiram o mestre francês Émile experimentação naturalista etc. O pudessem transcender as condições
Zola, o mais importante escritor des- Mulato, Casa de Pensão, O Coruja, O sociais que as geraram. As persona-
se movimento. O Naturalismo, no Brasil, Homem, O Cortiço e O Livro de uma gens são psicologicamente superfi-
tem início em 1881 (assim como o Sogra são as obras dessa vertente. ciais e subsistem apenas em função
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de contextos predeterminados. Não vida e morte de um cortiço, meio pelo que aspira à nobreza. Do outro, a
há drama moral; os protagonistas qual seu dono, o português João “gentalha”, caracterizada como um
são vistos “de fora”, e a tragédia em Romão, pretende enriquecer. Ao la- conjunto de animais, movidos pelo
que as tramas desembocam decorre do, há um sobrado, que simboliza um instinto e pela fome:
apenas do fatalismo das doutrinas nível social mais elevado e cujo E naquela terra encharcada e fu-
deterministas. proprietário é também um português, megante, naquela umidade quente e
Não há o refinamento estilístico de o comendador Miranda. Os portu- lodosa, começou a minhocar, a fervi-
Machado de Assis, nem a potência gueses conseguem ascensão econô- lhar, a crescer um mundo, uma coisa
verbal de Raul Pompeia, mas os diá- mica e social rápidas, que obtêm por viva, uma geração que parecia brotar
logos se salvam pela vivacidade, pela meio da exploração do brasileiro, re- espontânea, ali mesmo, daquele
frase sempre incisiva. Há visível ten- presentado coletivamente pelo povo lameiro e multiplicar-se como larvas
dência lusitanizante, o que se explica do cortiço. É nesse espaço social no esterco.
pela origem luso-maranhense do autor. que as leis ambientais interferem no (...)
indivíduo e determinam seu compor- As corridas até a venda reprodu-
q O Mulato (1881) tamento. O cortiço e a negra Berto- ziam-se num verminar de formigueiro
Obra de crítica ao preconceito leza, amásia de João Romão, só lhe assanhado.
racial e à Igreja. O mulato Raimundo, interessam enquanto lhe são úteis. A redução das criaturas ao nível
educado na Europa, retorna a São Quando João Romão se casa com animal (zoomorfismo) é caracterís-
Luís para conhecer suas origens. Zulmira, a filha do comendador, e tica do Naturalismo e revela a in-
Apaixona-se por sua prima Ana atinge a posição social desejada, fluência das teorias da Biologia do
Rosa, mas a família lhes impede o nem Bertoleza, que o ajudara a subir século XIX (darwinismo, lamarquis-
casamento. Pretendem fugir, mas na vida, nem o cortiço, com o qual mo) e do determinismo (raça,
Raimundo é perseguido e morto a enriquecera, são mais necessários: o meio, momento):
mando do padre Diogo, que represen- cortiço sofre um incêndio e passa por ...depois de correr meia légua,
ta a degradação do clero. Ana Rosa remodelação, e Bertoleza, rejeitada e puxando uma carga superior às suas
acaba se casando com o assassino, denunciada à polícia (era uma escra- forças, caiu morto na rua, ao lado da
com quem viverá de modo feliz. va foragida), suicida-se.
carroça, estrompado como uma besta.
(...)
q Casa de Pensão (1884) Leandra... a ‘Machona’, portugue-
4. CARACTERÍSTICAS
Narrativa intermediária entre o sa feroz, berradoura, pulsos cabelu-
DE O CORTIÇO
romance de personagem (O Mulato) dos e grossos, anca de animal do
e o romance de espaço ou de cole- campo.
tividade (O Cortiço). Inspirado em um q Romance social (...)
caso verídico, a Questão Capistrano, Desistindo de montar um enredo Rita Baiana... uma cadela no cio.
crime que sensibilizou o Rio de em função de pessoas, [Aluísio] ate-
Janeiro entre 1876 e 1877, expressa ve-se à sequência de descrições q A força do sexo
uma visão determinista. Amâncio muito precisas onde cenas coletivas
O sexo é, em O Cortiço, força
Vasconcelos, personagem central, e tipos psicologicamente primários
mais degradante que a ambição e a
tem suas ações e comportamento fazem, no conjunto, do cortiço a per-
cobiça. A supervalorização do sexo,
determinados pela formação (a sonagem mais convincente do nosso típica do determinismo biológico e do
educação severa, a superproteção romance naturalista. (Alfredo Bosi, Naturalismo, conduz Aluísio a buscar
materna, a sífilis contraída da ama- História Concisa da Literatura Bra- quase todas as formas de patologia
de-leite). Ele, um jovem e rico mara- sileira) sexual: desde o “acanalhamento”
nhense, chega ao Rio de Janeiro Todas as existências se entrela- das relações matrimoniais até o adul-
para estudar Medicina. Boêmio e çam e repercutem umas nas outras. tério, prostituição, lesbianismo etc.
extravagante, hospeda-se na pensão O cortiço é o núcleo gerador de tudo
de João Coqueiro, que trama casá-lo
e, feito à imagem de seu proprietário,
com sua irmã, Amélia, para apossar- q A situação da mulher
se da fortuna de Amâncio. Com a cresce, desenvolve-se e se trans-
As mulheres são reduzidas a três
recusa do rapaz, Coqueiro o denun- forma com João Romão. condições: a primeira, de objeto,
cia falsamente por violência sexual usadas e aviltadas pelo homem:
contra a irmã, é derrotado na justiça q A crítica ao Bertoleza e Piedade; a segunda,
e, inconformado, mata Amâncio. capitalismo selvagem de objeto e sujeito, simultaneamente:
O tema é a ambição e a explora- Rita Baiana; a terceira, de sujeito
q O Cortiço (1890) ção do homem pelo próprio homem. — são as que independem do ho-
Ambientado no Rio de Janeiro, De um lado, João Romão, que mem, prostituindo-se: Leonie e
este romance narra o nascimento, aspira à riqueza, e Miranda, já rico, Pombinha.
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MÓDULO 32 Raul Pompeia


1. RAUL POMPEIA como microcosmo da sociedade. – elementos impressionis-
(1863-1895) “Vais encontrar o mundo” é a pri- tas: evidenciam-se no trabalho da
meira sentença do livro. memória como fio condutor. O pas-
Narrado em primeira pessoa por sado é recriado por meio de “man-
Sérgio, um homem que revê seu pas- chas” de recordação — daí a exis-
sado e conta passagens de sua vida tência de um certo esfumaçamento
de menino, o romance estrutura-se da realidade, pois o internato é
por meio de “manchas de recorda- reconstituído por meio das impres-
ção”, ou seja, de uma sucessão de sões, mais subjetivas que objetivas.
episódios, cujo fio condutor é a me- A técnica impressionista que
mória do personagem-narrador. A Pompeia utiliza consiste em destacar
evocação do passado faz que a se- antecipadamente do objeto que
quência cronológica de fatos (o tem- descreve um ou mais traços e seu
po objetivo) seja entrecortada por efeito no observador. Há quem, por
associações e semelhanças sub- isso, rotule O Ateneu de romance
conscientes (o tempo subjetivo, a impressionista:
duração interior). Esse procedimento Transformara-se em anfiteatro
evidencia certa ruptura do romance uma das grandes salas da frente do
com os modos realista e naturalista edifício, exatamente a que servia de
de mera observação objetiva da vida. capela; paredes estucadas de sun-
Raul Pompeia tuosos relevos, e o teto aprofundado
B) Há uma superposição de
diversos estilos, o que torna proble- em largo medalhão, de magistral
q Vida
mática a vinculação de O Ateneu a pintura, onde uma aberta de céu azul
Nascido em Angra dos Reis (RJ), despenhava aos cachos deliciosos
em 1863, Raul Pompeia estudou uma determinada corrente estética.
Assim, podemos identificar anjinhos, ostentando atrevimentos
Direito e ocupou cargos públicos. róseos de carne, agitando os minús-
Militou no movimento abolicionista e – elementos expressionis-
culos pés e, as mãozinhas, desatan-
no republicano e colaborou na Gaze- tas: a linguagem do livro aproxima-se
do fitas de gaza no ar.
ta de Notícias, de José do Patrocínio. da técnica expressionista, que consis-
– elementos naturalistas:
Envolveu-se em diversas polêmicas te na deformação grotesca e mórbida
decorrem da concepção instintiva e
e num duelo com Olavo Bilac. Suici- do que se descreve. Apresenta enor-
animalesca das personagens, cujo
dou-se na noite de Natal de 1895, me poder para a caricatura (distor-
comportamento é determinado pela
aos 32 anos. ção ou ênfase dos elementos domi-
sexualidade, condição social etc. Há
nantes de um objeto ou de uma pes-
q Obra um certo gosto “naturalista” pelas
soa) e grandes recursos de imagens
A) Prosa “perversões”. É o que ocorre nas
visuais e sonoras. A frase transmite
– Uma Tragédia no Amazonas descrições de Ângela e na tensão do
uma forte carga emocional. O estilo é
(romance) homossexualismo que existe nas
nervoso, ágil. A redução das perso- relações de Sérgio com Sanches,
– Microscópicos (contos) nagens a caricaturas parece prove-
– As Joias da Coroa (romance) Bento Alves e Egbert:
niente da intenção de deformar, de Ângela tinha cerca de vinte anos;
– O Ateneu (romance) exagerar, como se Raul Pompeia
– Agonia (romance inacabado e parecia mais velha pelo desenvolvi-
estivesse se “vingando” de tudo e de mento das proporções. Grande, car-
inédito) todos:
B) Poesia nuda, sanguínea e fogosa, era um
Os companheiros de classe desses exemplares excessivos do
– Canções sem Metro (poemas eram cerca de vinte; uma variedade
em prosa) sexo que parecem conformados ex-
de tipos que divertia. O Gualtério, pressamente para esposas da mul-
miúdo, redondo de costas, cabelos tidão — protestos revolucionários
q O Ateneu: Crônica de revoltos, motilidade brusca e caretas contra o monopólio do tálamo.
Saudades de símio palhaço dos outros, como Mas é um naturalismo dissiden-
A) O romance O Ateneu, Crônica dizia o professor. O Nascimento, o bi- te, que nada tem a ver com o aprio-
de Saudades (1888) focaliza a vida canca, alongado por um modelo ge- rismo ou com o esquematismo
em um internato, apresentando pe- ral de pelicano, nariz esbelto, curvo e característicos dessa corrente. O
netrante análise social e psicológica largo como uma foice; (...) o Negrão, doutor Cláudio, conferencista que
das personagens: Aristarco, o diretor de ventas acesas, lábios inquietos, algumas vezes pontifica no internato,
(que personifica o poder), professo- fisionomia agreste de cabra, canhoto e que exterioriza algumas ideias
res, funcionários e alunos, e a escola e anguloso... artísticas do próprio Raul Pompeia,
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define a arte como o processo sub- de decifrar o sistema de ideias que extremo gozo em que pode ficar a vida porque
jetivo da “evolução secular do ins- se poderia depreender. fora uma conclusão triunfal. Notas graves,
uma, uma; pausas de silêncio e treva em que
tinto da espécie”. 1.a) Fala sobre a cultura brasi- o instrumento sucumbe e logo um dia claro de
Seria possível rastrear, em O leira, em que os desejos republica- renascença, que ilumina o mundo como o
Ateneu, aproximações também com nos de Pompeia se mostram, momento fantástico do relâmpago, que a
o Parnasianismo, com o Simbolismo investigando o “pântano das escuridão novamente abate...
Há reminiscências sonoras que ficam per-
e, até, antecipações modernistas. almas” da vida emocional, sob a pétuas, como um eco do passado. Recorda-me,
C) O comportamento sexual é o “tirania mole de um tirano de às vezes, o piano, ressurge-me aquela data.
traço mais valorizado na personali- sebo”. Do fundo repouso caído de convalescente,
dade dos adolescentes do internato, 2.a) Fala sobre a arte, entendida serenidade extenuada em que nos deixa a
febre, infantilizados no enfraquecimento como
divididos em “machos” e “fêmeas”, pré-freudianamente como “educa- a recomeçar a vida, inermes contra a
em dominadores e dominados. Ob- ção do instinto sexual”, e ante- sensação por um requinte mórbido da
serve o que diz o narrador em rela- cipando também Nietzsche como sensibilidade — eu aspirava a música como a
ção ao seu colega Bento Alves: “expressão dionisíaca”: embriaguez dulcíssima de um perfume
funesto; a música envolvia-me num contágio
Estimei-o femininamente, porque Cruel, obscena, egoísta, imoral, in- de vibração, como se houvesse nervos no ar.
era grande, forte, bravo; porque me dômita, eternamente selvagem, a arte As notas distantes cresciam-me n’alma em
podia valer, porque me respeitava, é a superioridade humana acima dos ressonância enorme de cisterna; eu sofria,
quase tímido, como se não tivesse âni- preceitos que se combatem, acima como das palpitações fortes do coração quan-
do o sentimento exacerba-se — a
mo de ser amigo. Para me fitar espera- da ciência que se corrige: “embria-
sensualidade dissolvente dos sons.
va que eu tirasse dele os meus olhos. guez como a orgia e como o êxtase”. Lasso, sobre os lençóis, em conforto ideal
D) Raul Pompeia projeta no inter- 3.a) Fala sobre as relações entre de túmulo, que a vontade morrera, eu deixava
nato toda a problemática do mundo a escola e a sociedade: martirizar-me o encanto. A imaginação de
asas crescidas fugia solta.
adulto. O Ateneu é uma redução, em (...) Não é o internato que faz a sociedade; (...)
escala, da visão que o autor tinha da o internato a reflete. A corrupção que ali viceja
sociedade como um todo. O móvel vai de fora. (...) (Raul Pompeia, O Ateneu, cap. XII)
(...)
das ações de Aristarco era o dinhei- A educação não faz as almas; exercita-as.
ro, e os alunos eram tratados pelo Vocabulário e Notas
(Raul Pompeia, O Ateneu, cap. XI)
diretor conforme o segmento social a
1 – Gottschalk: Louis Moreau Gottschalk
que pertenciam seus pais. Música estranha, na hora cálida. Devia ser (1829-1869), pianista e compositor nascido
Raul Pompeia não deixa ao arbí- Gottschalk1. Aquele esforço agonizante dos em Nova Orleans (EUA) e falecido no Rio de
trio dos futuros intérpretes o trabalho sons, lentos, pungidos, angústia deliciosa de Janeiro.

MÓDULO 33 Parnasianismo
1. ORIGENS romana (Monte Parnaso = região da 2. ANTECEDENTES
Fócida, na Grécia, que a mitologia BRASILEIROS
O Parnasianismo remete-nos contemplava como a morada dos
ao mesmo contexto histórico-cultural Em 1878, desfere-se pelas pági-
deuses e poetas, ali isolados do
do Realismo e do Naturalismo e nas do Diário do Rio de Janeiro a
mundo para dedicarem-se exclusiva- “Batalha do Parnaso”, polêmica,
compartilha, com esses dois movi-
mente à arte). Isso sugere a apro- em versos agressivos (e de má quali-
mentos, de alguns ideais e de algu-
ximação às fontes e aos ideais dade), entre os defensores da
mas atitudes: a negação do sub-
clássicos da arte (o Belo, o Bem, “IDEIA NOVA” e os epígonos do
jetivismo, a postura antirro-
a Verdade, a Perfeição, o Equilíbrio, a Romantismo.
mântica e a luta contra “o uso
Disciplina e o rigor formal, a obe- Influenciados pela Questão Coim-
profissional e imoderado das
diência às regras e aos modelos, a brã e pelas obras dos poetas rea-
lágrimas”. listas portugueses Teófilo Braga
arte como imitação da natureza — a
O movimento parnasiano surgiu (Visão dos Tempos) e Antero de
mimese aristotélica, a Razão, o
na França em 1866, com a edição da Quental (Odes Modernas), os arau-
antologia Le Parnasse Contem- antropocentrismo). São frequentes as
tos da “IDEIA NOVA” combatiam
porain. Abrigando poetas de tendên- alegorias fundadas na mitologia e na
os “Abreus e Varelas”, opondo-se ao
cias diversas, como Théophile história da Grécia e de Roma: “O sentimentalismo piegas e à frouxidão
Gautier, Leconte de Lisle, Charles Sonho de Marco Antônio”, “A Sesta dos versos dos últimos românticos, e
Baudelaire, Heredia, Banville, havia de Nero”, “O Triunfo de Afrodite”, “O propunham algumas atitudes:
em comum a oposição ao sentimen- Incêndio de Roma”, “A Tentação de • a poesia participante,
talismo romântico. Xenócrates”, “O Julgamento de Fri- que pregasse a justiça, a república
neia”, “Delenda Cartago”, todos de fraternal, o progresso científico e
A denominação Parnasianismo
Olavo Bilac, “O Vaso Grego” e “A Vol- material, atacando, algumas vezes
remete-nos à antiguidade greco-
ta da Galera”, de Alberto de Oliveira. de forma desabrida, as instituições; é
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o caso de Lúcio de Mendonça, Vocabulário especialmente o soneto (quase


Martins Júnior e Sílvio Romero. 1 – Beneditino: abnegado como um monge abandonado pelos românticos), além
beneditino.
• a poesia “realista”, com da sextina, da balada e do rondó.
abandono dos eufemismos relativos q A impassibilidade – O emprego de enjambements
ao amor por uma descrição mais dire- A contenção lírica como meio de quebrar a monotonia
ta do corpo e dos desejos, e ainda a Para desidentificar-se da anti- rítmica (enjambement — palavra fran-
poesia realista urbana e agreste; se- quíssima síntese entre eu e mundo, cesa que se pronuncia ãjãbemã — cor-
guem nessa direção: Carvalho Júnior, introduzindo um hiato entre essas responde ao prolongamento sintático
Bernardino Lopes e Teófilo Dias. duas instâncias do real, o narrador e semântico de um verso no verso
Cabe observar que os sonhos de parnasiano (o eu lírico) procura trans- seguinte, com supressão da pausa
justiça e a república fraternal já ha- formar a poesia em puro trabalho, característica do final do verso):
viam encontrado em Castro Alves, artefato, construção.
Daí a aproximação com os ideais E, de súbito, paramos na estrada
no último romantismo, uma expressão Da vida, longos anos, presa à minha
muito mais talentosa, convincente e das artes plásticas — o poeta- A tua mão, a vista deslumbrada
eloquente. ourives, o poeta-escultor, o Tive, da luz que seu olhar continha.
Costuma-se considerar as Fanfar- poeta-arquiteto, o poeta-pintor; (Olavo Bilac, “Nel Mezzo del Camin”)
ras, de Teófilo Dias, como o primeiro o poeta que modela pacientemente
livro parnasiano, em seu sentido sua obra, sem confundir-se com ela. q A poesia descritiva,
próprio. O Parnasianismo tal como Invejo o ourives quando escrevo:
plástica e visual
hoje o concebemos só se definiria com Imito o amor Os parnasianos pretendem apre-
Alberto de Oliveira, Raimundo Com que ele, em ouro, o alto relevo ender descritivamente o real, por meio
Faz de uma flor. de impressões sensoriais nítidas, apo-
Correia e Olavo Bilac, que cons-
(...) iando-se em imagens visuais, que
tituíram a Trindade Parnasiana e Torce, aprimora, alteia1, lima
realizaram suas obras sob os prin- A frase; e, enfim,
se convertem em verdadeiros
cípios da “arte pela arte”, da im- No verso de ouro engasta 2 a rima, cromos, tal a intensidade das
passibilidade e da perfeição Como um rubim. cores e do brilho.
formal, ainda que tivessem, todos Concentram-se na descrição de
Quero que a estrofe cristalina,
eles, estreado com versos românticos. Dobrada ao jeito fenômenos da natureza (o anoi-
Do ourives, saia da oficina tecer, a primavera, as árvores); na
3. CARACTERÍSTICAS Sem um defeito. fixação de cenas históricas e
(...)
mitológicas (“O Incêndio de
q A arte pela arte – (Olavo Bilac, “Profissão de Fé”) Roma”, “O Triunfo de Afrodite”); na
O esteticismo contemplação de objetos de
Vocabulário e Notas
Sintetizada na forma latina ars arte, exóticos e requintados (“O
1 – Altear: elevar.
Vaso Grego”, “O Leque”, “A Estátua”),
gratia artis (arte pela arte), a poesia 2 – Engastar: encravar, embutir.
privilegiando, também, a beleza
parnasiana propõe que a beleza
q Perfeição formal física da mulher.
formal justifica a existência do
poema, e que a arte não deve ter ou- Centrados no puro fazer poético,
tros compromissos senão com o os parnasianos instauram o mate- q O mito da
rialismo da forma. A palavra é tra- objetualidade e o Kitsch
belo, com a perfeição formal.
balhada como matéria-prima, que deve O gosto pelo exótico, pelo
Negando a poesia realista, filosó-
ser lapidada, burilada, cinzelada. diferente, o prazer da raridade visa
fico-científica e socialista de seus
A poesia deve ser fruto do esfor- especialmente a satisfazer “o bom
precursores, os parnasianos impõem
ço intelectual, da elaboração. Por isso, gosto” burguês, sua ânsia pelo raro,
uma atitude de distanciamento
os parnasianos, exímios conhecedo- pelo prestigioso, pela negação da
da vida, de afastamento do
res da língua, são “poetas de di- vulgaridade (sem esquecer que um
cotidiano, de alienação dos
cionário”, obcecados pela cor- - dos aspectos mais repelentes da
problemas do mundo, de des-
reção gramatical, pela pureza vulgaridade é o esforço medido e
prezo pela plebe e pelas aspi-
da linguagem, pela vernaculi- planejado para fugir dela).
rações populares e de recusa
dade, pela seleção vocabular. Buscando o raro e o requintado, o
de temas vulgares.
Outro aspecto desse formalismo parnasiano cai, muitas vezes, na
Assim, os parnasianos se fecham
é a valorização de alguns procedi- superficialidade, na obsessão do
em suas “torres-de-marfim”, en-
mentos, tais como adorno, esquecido da essência.
tregues ao puro fazer poético:
• o culto das rimas ricas, É nesse sentido que se alinham
Longe do estéril turbilhão da rua, raras e preciosas; al gumas objeções à atitude parna-
Beneditino1 escreve! No aconchego • a preferência pelos versos siana:
Do claustro, na paciência e no sossego, alexandrinos (12 sílabas métricas) • privilegiando a organização
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! léxica e gramatical do discurso poé-
e a metrificação rigorosa;
(Bilac, “A um Poeta”) • o gosto pelas formas fixas, tico, os parnasianos se esquecem de
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que a grande poesia consiste “na xou, além da obra poética que vere- penha em um maior comedimento,
linguagem carregada de signi- mos, crônicas, novelas, poesias in- quer do ímpeto romântico, quer do
ficação no mais alto grau fantis, conferências literárias e um convencionalismo parnasiano, valo-
possível” (Ezra Pound). Por isso os tratado de versificação. rizando o aspecto reflexivo e filo-
modernistas, entendendo que, na Estreou em 1888 com Poesias, sófico e as ce nas da natureza,
grande poesia, cada palavra livro saudado com entusiasmo por vazado em linguagem simples e
deve vibrar como um novo Alberto de Oliveira e Raimundo Cor- acessível, já distante do artificialis-
significado, atacaram duramente o reia, que formariam, com Bilac, a mo dos livros anteriores.
parnasianismo, no que ele tinha de “Trindade Parnasiana”. Em Tarde, Bilac procura, nos
ornamental e estereotipado; As Poesias, além de uma introdu- poemas descritivos, captar a tonali-
• diz-se que um artista pratica o ção em verso, chamada “Profissão de dade do momento fugaz, valorizan-
Kitsch quando ele mistura formas e Fé” — espécie de manifesto parnasia- do a sugestão e a notação impres-
truques para impressionar o aprecia- no —, continham três partes distintas: sionista:
dor, sugerindo, por meio de efeitos • Panóplias: poemas descritivos,
obedecendo rigorosamente aos câno- CANTILENA
previamente estudados, conotações
prestigiosas, ostentando falsa rique- nes parnasianos, aproveitando suges- Quando as estrelas surgem na tarde, surge
tões da antiguidade greco-romana, [a esperança...
za ou cultura. Toda alma triste no seu desgosto sonha um
O Kitsch está na base da cha- com referências que tendem à super-
[Messias:
mada indústria cultural, por meio da ficialidade e ao puramente ornamental. Quem sabe? o acaso, na sorte esquiva,
reprodução em série de obras de arte • Via-Láctea: trinta e cinco so- [traz a mudança
e objetos “raros” para deleite da clas- netos, tematizando o lirismo amoroso E enche de mundos as existências que
platônico, com o aproveitamento de [eram vazias!
se média neurotizada pelo status —
sugestões românticas e clássicas. Quando as estrelas brilham mais vivas,
(móveis Luís XV; porcelana inglesa
Obra de inegável êxito junto ao leitor, [brilha a esperança...
do século XVIII; escultura oriental da
resvala o Kitsch, reeditando, em Os olhos fulgem; loucas, ensaiam as asas
Dinastia Ming; quadros de grandes frias:
tom menor, a lírica de Camões e
mestres e pequenos pintores, Rem- Tantos amores há pela terra, que a mão
Bocage. O título Via-Láctea alude a [alcança!
brandt e Di Cavalcanti, lado a lado;
uma constante na poesia de Bilac: E há tantos astros, com outras vidas, para
peças do artesanato marajoara, as estrelas (“Ora (direis) ouvir [outros dias!
nordestino etc., tudo adquirido no estrelas! Certo / Perdeste o senso!”).
supermercado da esquina). • Sarças de Fogo: poemas eróti- Mas, de asas fracas, baixando os olhos, o
O Parnasianismo tem muito disso: [sonho cansa;
cos, centrados na beleza física da No céu e na alma, cerram-se as brumas,
provocar efeitos, valorizando o que é mulher e no amor carnal, reduzido a [gelam as luzes:
logro e ostentação, sob a máscara da um jogo bem-arranjado de palavras, Quando as estrelas tremem de frio, treme a
beleza e do prestígio. Nenhum dos nos- buscando mais o efeito que a genuí- [esperança...
sos parnasianos foi helenista, mas qua- na sensualidade. É um erotismo de- Tempo, o delírio da mocidade não
se todos recorreram a evoluções este- clamatório, que descamba, muitas ve- [reproduzes!
reotipadas da Antiga Grécia (galerias, zes, para algo próximo à pornografia. Dorme o passado: quantas saudades e
mármores, vasos, pártenons), trans- É o caso de “Tentação de Xenócra- [quantas cruzes!
formadas em verdadeiros fetiches. Quando as estrelas morrem na aurora,
tes”, “Satânia”, “O Julgamento de [morre a esperança...
4. AUTORES Frineia”, “Alvorada do Amor” e outras.
Em 1902, as Poesias foram acres- (Olavo Bilac)

q Olavo Bilac (1865-1918) cidas de três outros livros: Alma In- q Alberto de Oliveira
Olavo Brás Martins dos Guimarães quieta e Viagens, marcados por um (1859-1937)
Bilac, já no próprio nome um alexan- veemente temperamento romântico, Foi o mais ortodoxo dos nossos
drino perfeito, cursou Medicina e controlado pela disciplina formal parnasianos e o que seguiu com
Direito, sem concluir nenhum dos cur- aprendida com os parnasianos fran- maior rigor as propostas da escola:
sos. Viveu como jornalista, funcioná- ceses (Gautier, Leconte de Lisle e objetivismo, impassibilidade,
rio público, boêmio e poeta de largo Heredia), além do poema épico-
preocupação esteticista, rigor
prestígio no seu tempo. Foi eleito em patriótico “O Caçador de Esmeral-
formal e tecnicismo. Coerente
1913, pela revista Fon-Fon, o Prín- das”, escrito em sextilhas e alexan-
com as propostas parnasianas, afas-
cipe dos Poetas Brasileiros. drinos, evocando a figura de Fernão
tou-se do sentimentalismo e da pie-
Ativista nas campanhas abolicio- Dias Pais, apoiado na tradição
guice, realizando uma poesia des-
nista, republicana, civilista, pelo ser- ufanista e motivado pelo civismo,
critiva, plástica, visual, apoiada nos
viço militar obrigatório, pela vacina que Bilac praticou na frequente
exaltação da pátria, de seus símbo- modelos clássicos renascentistas e
obrigatória, pela reurbanização do
los e heróis. arcádicos.
Rio de Janeiro, pela entrada do Brasil
na Primeira Grande Guerra; autor da • Em 1919, aparece o livro pós- Obras
letra do Hino à Bandeira, Bilac dei- tumo Tarde, em que o poeta se em-
– Canções Românticas
– Meridionais
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– Sonetos e Poemas mulher, recorrendo a formas e moti- q Vicente de Carvalho


– Versos e Rimas vos que se aproximam de Casimiro (1886-1924)
– Por Amor de uma Lágrima de Abreu e dos românticos menores. Assumiu uma postura indepen-
– O Livro de Ema Sinfonias marca a adesão do dente em relação às tendências for-
– Alma em Flor poeta ao Parnasianismo, reunindo malistas do Parnasianismo, manten-
VASO GREGO seus melhores e mais conhecidos do o veio romântico e sentimental que
poemas: “As Pombas”, “Mal Secreto”. marcou sua estreia, nos livros Arden-
Esta de áureos relevos, trabalhada
tias e Relicário. Absorveu também a
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada, MAL SECRETO fluidez, a musicalidade, a melancolia
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. e a emotividade do Simbolismo.
Se a cólera que espuma, a dor que mora Em Poemas e Canções e Rosa,
Era o poeta de Teos que a suspendia N’alma e destrói cada ilusão que nasce, Rosa de Amor, firma-se como um
Então, e, ora repleta ora esvazada, Tudo o que punge, tudo o que devora
grande lírico da natureza, fundindo o
A taça amiga aos dedos seus tinia, O coração, no rosto se estampasse;
Toda de roxas pétalas colmada.
sensorial e o emotivo, em uma lingua-
Se se pudesse o espírito que chora gem nova e pessoal, marcada pela
Depois... Mais o lavor da taça admira, Ver através da máscara da face, plasticidade, pela musicalidade e
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas Quanta gente, talvez, que inveja agora pelas ressonâncias psicológicas.
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce, Nos causa, então piedade nos causasse!
q Francisca Júlia
Ignota voz, qual se da antiga lira Quanta gente que ri, talvez, consigo
Fosse a encantada música das cordas, Guarda um atroz, recôndito inimigo, (1874-1920)
Qual se essa voz de Anacreonte fosse. Como invisível chaga cancerosa! Mármores, sua obra mais expres-
siva, submete-se rigorosamente aos
q Raimundo Correia
Quanta gente que ri talvez existe, preceitos parnasianos: esteticismo,
Cuja ventura única consiste contenção lírica, perfeccionismo. A
(1859-1911) Em parecer aos outros venturosa!
poetisa paulistana, muito considera-
Em Primeiros Sonhos, livro de es-
da em sua época pelos mestres
treia (1879), que reúne a poesia de Outras obras parnasianos, configurou, ao lado de
adolescência, revela a aproximação – Versos e Versões Alberto de Oliveira, a vertente mais
com o Romantismo, na idealização da – Aleluias ortodoxa da escola.

MÓDULO 34 Simbolismo: Características, Autores e Obras

1. CONCEITO E ÂMBITO A oposição ao racionalismo, às q Decadentismo e


pretensões cientificistas e ao progres- Simbolismo
q A reação antimaterialista, sismo da sociedade industrial tem O termo decadentismo foi aplica-
antipositivista e como precursores alguns filósofos — do às primeiras manifestações da lite-
antirrealista como Schopenhauer e Kierkegaard ratura simbolista, que ocorreram em
A ciência e a técnica permitiram — e alguns escritores e poetas “es- Paris, em torno dos anos 1880-90. A
ao homem do fim do século XIX um tranhos”, como o americano Edgar designação perdeu a conotação pejo-
extraordinário conforto material (tele- Allan Poe. Charles Baudelaire, gran- rativa inicial, que lhe foi atribuída
fone, motor a explosão, microfone, fo- de poeta que se afasta dos padrões pelos opositores da nova literatura, e
nógrafo, raios X, cinematógrafo, telé- passou a designar um conjunto de
do Parnasianismo de seu tempo, é
grafo, lâmpada incandescente), pro- elementos típicos como: gosto por
um dos pais da nova poética, de que
vocando enorme euforia. O espírito signos do refinamento e da ele-
serão expoentes Stéphane Mallarmé,
científico, o materialismo, o positivis- gância intelectual de certas épocas
mo, o determinismo transformaram- Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. O tidas como “decadentes” (o helenis-
se numa verdadeira religião. desenvolvimento da ciência, em fins mo de Alexandria, o fim do Império
Contudo, alguns intelectuais, dis- do século XIX e início do século XX, Romano); a predileção por experiên-
tanciados dessa euforia, começaram orientou-se para caminhos seme- cias raras, sutis, artificiosas, “proi-
a expressar a necessidade de supe- lhantes aos trilhados por aqueles bidas”; a recuperação de um ideal
rar a visão racionalista e mecanicista grandes pensadores e poetas. Assim, esgotado de beleza; a evocação de
do universo, colocando questões a física relativista de Einstein colocou um Oriente misterioso e sensual; o
que transcendem a possibilidade de em questão alguns postulados bási- desprezo pelas ideias humanitárias e
comprovação objetiva, na busca de cos da ciência tradicional, enquanto socialísticas; a recusa do positivismo
um modo suprarracional de conheci- Freud inaugurou o estudo do incons- burguês; a exaltação do irracional e
mento, que pudesse penetrar as ca- ciente e abalou crenças fundamen- o interesse no esotérico, no oculto, na
madas profundas do “eu” e traduzir tais a respeito da lógica do compor- ascese mística ou, no outro extremo,
os “mistérios” da vida. tamento humano. no inferno do submundo da prostituição

– 67
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e da marginalidade. Um exemplo sais para o plano do consciente a fim que se expressam por meio de si-
desse clima decadentista na literatura de comunicá-las a outrem. Era neces- nestesia, um tipo de metáfora que
de língua portuguesa se encontra na sário inventar uma linguagem nova, consiste na transferência (ou “cruza-
narrativa A Confissão de Lúcio, de fundada numa gramática e numa mento”) de percepção de um senti-
Mário de Sá-Carneiro. Também Fer- sintaxe psicológica, utilizando arcaís- do para outro, ou seja, a fusão, num só
nando Pessoa, contemporâneo e ami- mos, termos exóticos e litúrgicos, re- ato de percepção, de dois sentidos ou
go de Sá-Carneiro, inicia a obra de correndo a neologismos, a inespera- mais. É o que ocorre em “ruído
seu heterônimo Álvaro de Campos das combinações vocabulares e a áspero” (audição e tato); “música do-
com um grande poema de explícito recursos gráficos (maiúsculas alegori- ce” (audição e gustação); “som colo-
teor decadentista, “Opiário”, confis- zantes, uso de cores na impressão rido” (audição e visão).
são de um viciado em ópio que viaja dos poemas).
por um Oriente fantástico (“um Orien- Para tentar traduzir as mensa- d) A música antes de tudo –
te ao oriente do Oriente”). Coinciden- gens cifradas do “eu profundo”, das as aliterações e assonâncias.
temente, aquele que é talvez o maior partes nebulosas do ser, os simbo- Para os simbolistas, a música
poeta simbolista da literatura de listas apelaram para a evocação, ocupa o primeiro lugar entre todas as
língua portuguesa, Camilo Pessanha, para a sugestão, empregando uma artes porque, liberta de toda referên-
foi viciado em ópio e viveu no Oriente linguagem indireta que apenas
cia específica aos diversos objetos da
(China). sugerisse os conteúdos emotivos e
vontade, poderia exprimi-la em sua
O nome simbolismo, que veio a sentimentais, sem narrá-los ou des-
essência.
substituir decadentismo, foi proposto crevê-los. A metáfora e o símbolo
É o que propõe Verlaine.
por Jean Moréas, em manifesto pu- ganharão, a partir daí, nova estrutura
blicado em 1886 em defesa da nova e fisionomia, buscando as múltiplas
ARTE POÉTICA
escola. relações entre a essência do “eu
profundo”, a palavra e o objeto. Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto o Ímpar. Só cabe usar
q As propostas do Simbolismo c) A teoria das correspon- O que é mais vago e solúvel no ar,
• Características dências – a sinestesia. Sem nada em si que pousa ou que pesa.
a) O Simbolismo pode ser consi- Propunha Baudelaire: “tudo, for-
ma, movimento, número, cor, perfume, Pesar palavras será preciso,
derado um prolongamento ou uma Mas com algum desdém pela pinça:
radicalização do Romantismo: retoma no [mundo] espiritual, como no Nada melhor do que a canção cinza
o subjetivismo, o individua- natural, é significativo, recíproco, Onde o Indeciso se une ao Preciso.
lismo, o espiritualismo, o sen- conversível, correspondente”.
Uns belos olhos atrás do véu,
tido conflituoso “eu x mundo”, e CORRESPONDÊNCIAS O lusco-fusco no meio-dia,
leva às últimas consequências a A turba azul de estrelas que estria1
concepção de mundo inaugurada com A natureza é um templo onde vivos pilares O outono agônico2 pelo céu!
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
as doutrinas romântico-liberais.
Fazem o homem passar através de florestas Pois a Nuance é que leva a palma,
Mas, contrariamente aos românti- De símbolos que o veem com olhos familiares. Nada de Cor, somente a nuance!
cos, os simbolistas entendiam que a Nuance, só, que nos afiance3
poesia não é somente emoção, Como os ecos além confundem seus rumores O sonho ao sonho e a flauta na alma!
mas a tomada de consciência Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade, Foge do Chiste4, a Farpa mesquinha,
dessa emoção; que a atitude Harmonizam-se os sons, os perfumes e as Frase de espírito, Riso alvar5,
poética não é unicamente afe- [cores. Que o olho do Azul faz lacrimejar,
tiva, mas ao mesmo tempo afe- Alho plebeu de baixa cozinha!
tiva e cognitiva. Por outras pala- Há perfumes frescos como carnes de criança,
Doces como os oboés, verdes como as A eloquência? Torce-lhe o pescoço!
vras: a poesia carrega em si uma E convém empregar de uma vez
[campinas,
certa maneira de conhecer. E outros, corrompidos, mas ricos e triunfantes, A rima com certa sensatez
b) O mergulho no “eu pro- Ou vamos todos parar no fosso!
fundo”, no inconsciente, a in- Que possuem a efusão das coisas infinitas
Como o sândalo1, o almíscar2, o benjoim3 e Quem nos dirá dos males da rima!
tuição, a sugestão. Que surdo absurdo ou que negro louco
[o incenso,
Buscando as esferas inconscien- Forjou em joia este toco oco
Que cantam o êxtase do espírito e dos
tes, o “eu profundo”, os simbolistas [sentidos. Que soa falso e vil sob a lima?
iniciam a exploração do mundo inte- (Charles Baudelaire,
rior, rompendo os níveis do razoável, Música ainda, e eternamente!
trad. de Jamil A. Haddad)
Que teu verso seja o voo alto
do lógico e atingindo os estratos Vocabulário e Notas Que se desprende da alma no salto
mentais anteriores à fala e à lógica. 1 – Sândalo, 2 – Almíscar, Para outros céus e para outra mente.
Mais do que tocar os desvãos do 3 – Benjoim: substâncias aromáticas.
inconsciente, pretendiam senti-los, Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego6 ar da manhã
examiná-los. A teoria das correspondên-
Que enchem de aroma o timo7 e a hortelã...
O problema mais difícil era o de cias propõe um processo cósmico E todo o resto é literatura.
como transportar as vivências abis- de aproximação entre as realidades (Verlaine, trad. de Augusto de Campos)

68 –
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Vocabulário e Notas ras”, “cabalístico”, “quimérico”, “tan- vidade romântica e parnasiana, sua
1 – Estriar: riscar. tálico”, “hialino”, “ebúrneo”, “cinamo- poesia espanta pela intensidade e
2 – Agônico: aflito.
3 – Afiançar: garantir. mos”, “quintessências” etc. pelas inovações. Apoiado nas corres-
4 – Chiste: gracejo. Esta musicalidade do Simbolismo pondências sinestésicas (sons /
5 – Alvar: grosseiro. apoia-se na valorização do su- cores / imagens / sentimento), propõe
6 – Árdego: impetuoso. gestivo e na diminuição do sig-
7 – Timo: tomilho.
uma instrumentação verbal, uma
nificado lógico das palavras: à poesia nem descritiva nem narrativa,
Visando à sugestão, à nuance,
medida que não entendemos o signifi- mas sugestiva; “nomear um objeto é
ao indeciso dos estados da al-
cado de uma frase, tendemos a prestar suprimir três quartos do prazer do
ma, ao vago do coração, ao ne-
mais atenção a seu aspecto sonoro. poema, que é feito da felicidade de
buloso, ao quimérico, ao místi-
co, ao inexprimível, ao trans- adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo,
cendente, os simbolistas querem e) A alquimia do verbo – o eis o sonho, (...) pois deve haver
tocar o ouvido, sem feri-lo, por meio de ilogismo – o hermetismo. sempre enigma em poesia, e é o
procedimentos sonoros, tais como O verso simbolista é obscuro, objetivo da literatura — e não há outro
d1) a rima aproximativa, nem hermético, distanciando-se do vulgar — evocar os objetos”.
rica nem agressiva. e do profano. Construído por sucessi- f) Espiritualismo, misticismo,
d2) as aliterações: (sequência vas implicações de sentidos de sons, de subjetivismo intenso, ocultis-
de fonemas consonantais idênticos ritmos, vale pelas sugestões, e não mo.
ou de mesma área de articulação, por suas descrições ou explicações. A Ânsia de superação, de fuga do
dentro do mesmo verso). função do poema não é significar ou terreno, comunhão com os Astros,
dizer, mas existir por si mesmo, como o Espírito, o Alto, a Alma, o
E as cantilenas de serenos sons amenos Infinito, a Essência, o Desco-
fogem fluidas fluindo à fina flor dos fenos. objeto ideal, perfeito, oposto à
(Eugênio de Castro) nhecido. Fixação pela Idade Mé-
impureza do mundo.
dia e por vocabulário litúrgico de am-
Vozes veladas veludosas vozes biência eclesiástica (antífona,
Volúpias dos violões, vozes veladas. e1) Rimbaud, antecipando ca- missal, ladainha, hinos, breviá-
(Cruz e Sousa) minhos que os modernistas retomaram, rio, turíbulos, aras, incenso).
propunha a palavra poética acessível
d3) as assonâncias (sequên- a todas as significações; a fixação do g) As maiúsculas alegori-
cia dos mesmos fonemas vocálicos inexprimível; a alquimia do verbo, zantes.
nas sílabas tônicas de palavras su- buscando a Beleza por meio da Os simbolistas empregavam, sis-
cessivas ou próximas).
vertigem, do delírio, da aluci- tematicamente, substantivos comuns
Ó formas Alvas, brAncas, formas clAras nação sensorial, daí a alucinação escritos com inicial maiúscula, no inte-
(Cruz e Sousa) e o mistério da palavra. rior do verso, para realçá-los semanti-
camente, aumentando a sua expressi-
d4) as onomatopeias (com- “...ser vidente por meio de um vidade:
binação ou repetição de palavras, cu- longo, imenso e racional desregra-
jos sons, numa espécie de harmonia Indefiníveis músicas supremas,
mento de todos os sentidos; buscar a Harmonia da Cor e do Perfume...
imitativa, transmitem ideias si, esgotar em si todos os venenos, a Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
aproximadas ou exatas do objeto ou fim de só reter a quintessência.” Réquiem do sol que a Dor da luz resume
ação a que se refere o texto).
(Cruz e Sousa)
A catedral ebúrnea do meu sonho
e2) Cabe ressaltar que os simbolis-
Aparece na paz do céu risonho tas tinham verdadeira fixação pela no- h) É frequente o uso de reticên-
Toda branca de sol, tação cromática, especialmente pela cias, sugerindo a vaguidão, o indefi-
cor branca e suas variáveis se- nível, o inefável, bem como do co-
E o sino canta em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus” mânticas: cisne, lírio, linho, neve, né- nectivo bíblico e no início do verso.
voa, nívea, alvo; ou por objetos trans-
d5) as palavras raras e mu- lúcidos (astros, sol, luz, lua). Em Cruz e i) Pontos de contato com o
sicais, escolhidas pela sonoridade: Sousa há verdadeira obsessão pela Parnasianismo:
arcaísmos, neologismos, termos litúr- cor branca, que traduzia os ideais de – preocupação formal, culto da
gicos, combinações vocabulares ines- vaguidão, do mistério, da languidez, da rima, preferência pelo soneto
peradas, numa verdadeira verboma- espiritualidade, da pureza, do etéreo, (não sistematicamente);
nia: “absconso”, “adamantino”, “cíto- do oculto, do transcendente etc. – distanciamento da vida, des-
las”, “crótalos”, “lactescentes”, “oaris- e3) Stéphane Mallarmé repre- compromisso com as ques-
tos”, “cornamusas”, “balaústres”, senta o ponto mais radical que atingi- tões mundanas (os poetas das
“mádidas”, “dormências”, “clepsidra”, ram as experiências simbolistas. “torres de marfim”, os “nefeli-
“litanias”, “antífona”, “turíbulos”, “a- batas”).
Abandonando a retórica e a discursi-
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j) Antecipações da moder- marco inaugural da nova estética — Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
nidade: Oaristos, de Eugênio de Castro, de Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!
– ruptura com o descritivo e 1890.
linear;
– monólogo interior, captação do q q Camilo Pessanha
Antônio Nobre (1867-1900)
fluxo de consciência; Autor de Primeiros Versos, Despe- (1867-1926)
– desarticulação sintática e se- didas e Só, representa a vertente Filho natural de um estudante e
mântica; simbolista de raízes neorromânticas. uma moça do povo, nasceu em Coim-
– sondagem infinitesimal da Esse retorno ao Romantismo bra, onde cursou Direito. Formado,
memória. evidencia-se não só na recuperação segue para a China, onde se orien-
da tradição literária, na influência de talizou e se viciou em ópio. Viveu como
2. SIMBOLISMO PORTUGUÊS Garrett, como no tom acentuada- funcionário público no Oriente,
mente subjetivista, marcado pela publicando esporadicamente nos jor-
q O contexto histórico saudade e pela tristeza. nais de província alguns poemas.
Não são nítidas as relações entre Suas poesias comunicam ao leitor Numa visita a Portugal, em 1915,
a arte simbolista e a vida política e intensa depressão e profundo ditou a João de Castro Osório as com-
social portuguesa, e as ligações que pessimismo. O temperamento de posições que viriam a ser coletadas no
se estabelecem nesse nível não artista tuberculoso, descrente de tudo volume Clepsidra, aparecido em 1920.
esclarecem absolutamente os proble- e de todos, desalentado, dava às suas Consumido pelo ópio, morre em Macau.
mas da poesia simbolista. poesias um estranho sabor de
A Proclamação da República amargura e infelicidade. O “sosis- Obra
parece ter definido certas tendências mo” (expressão que deriva do título Clepsidra – 1920
pré-simbolistas, numa atmosfera do livro Só) criou uma legião de imi-
neorromântica, que correspon- China – Coleção de artigos sobre
tadores idólatras e tem ressonância, a cultura chinesa, reunidos em 1944.
deriam a duas posições ideológicas: a no Brasil, na poesia de Manuel Ban-
monárquica e a republicana. À Foi o poeta mais autentica-
deira e Ribeiro Couto, entre outros.
primeira, monárquica, corresponderia mente simbolista de Portugal,
Antônio Nobre afastou-se do pre-
o neogarrettismo (ou nacionalis- e um grande inovador da poética de
ciosismo vocabular de seus contem-
mo, integralismo), representado seu país, cuja influência se estende
porâneos, utilizando o registro colo-
por Alberto de Oliveira e Afonso Lopes até os modernistas, como Fernando
quial da linguagem, inspirado na
Vieira. À segunda, republicana, estaria Pessoa. Afastou-se do discursivismo
dicção popular, no decadentismo
ligado o saudosismo de Teixeira francês (Jules Laforgue) e na lírica neorromântico dos poetas do seu
de Pascoaes, representando o romântica de Garrett. tempo (Antônio Nobre, Augusto Gil,
misticismo panteísta que já Afonso Lopes Vieira) e inovou a escri-
A caracterização de ambientes
impregnara a Geração de 1970 ta poética, incorporando proce-
provincianos, as recordações da in-
(Guerra Junqueiro, entre outros). Essa dimentos próximos aos do deca-
fância, a atmosfera crepuscular, a nos-
vertente saudosista serviu de apro- dentismo de Verlaine, em especial
talgia, o pessimismo, a evasão do pre-
ximação entre o neorromantismo, no que se refere à aproximação
sente e a projeção na sua infância dos
o simbolismo e o modernismo da entre a poesia e a música.
mitos pátrios são ainda aspectos
revista Orpheu, o orfismo.
dessa aproximação de Antônio Nobre
A afirmação mais radical do este- • Uma poética da
ao Romantismo.
ticismo simbolista repelia, contudo, as
desagregação
correntes saudosista, naciona-
A percepção de mundo em Camilo
lista ou regionalista, encami- TEXTO
Pessanha é fragmentária, aparente-
nhando-se para a arte “pura”, sem
mente desarticulada, expressa por meio
qualquer compromisso, a não ser com SONETO
sua própria elaboração. Essa é a de sensações que o poeta considera
situação de Eugênio de Castro,
Ó Virgens que passais, ao Sol-poente, sem sentido. A desagregação formal
Pelas estradas ermas, a cantar!
poeta muito mais relacionado com as parece corresponder à desagregação
Eu quero ouvir uma canção ardente,
experiências de outras partes do Que me transporte ao meu perdido Lar. do próprio poeta opiômano, hipersen-
mundo, notadamente de Paris, do que sível e inadaptado.
com a realidade portuguesa. A Cantai-me, nessa voz onipotente, Lírico da desesperança, da
O Sol que tomba aureolando o Mar, dor e da ilusão, seu pessimismo
influência francesa foi fundamental A fartura da seara reluzente,
para a divulgação das novas expe- O vinho, a Graça, a formosura, o luar!
tem laivos do decadentismo francês e
riências rítmicas e estilísticas, por meio do budismo que conheceu em Macau.
de duas revistas editadas em Cantai! cantai as límpidas cantigas! É constante a sensação de estranheza
Coimbra, em 1889, Insubmissos e Das ruínas do meu Lar desenterrai diante do mundo, da alucinação,
Boêmia Nova, e da obra que serve de Todas aquelas ilusões antigas expressas numa linguagem poderosa,
70 –
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sugestiva, tecida com metáforas Vocabulário e Notas II


insólitas, símbolos, sinestesias 1 – Lânguido: abatido, sem forças. Encontraste-me um dia no caminho
e intensa musicali- dade 2 – Inerme: indefeso. Em procura de quê, nem eu o sei
(alterações, assonâncias etc.). — Bom dia, companheiro — te saudei,
Aproximou-se do rigor formal de TEXTO II Que a jornada é maior indo sozinho.
Mallarmé, sem a determinação
intelectual do poeta francês. A CAMINHO É longe, é muito longe, há muito
I [espinho!
intelectualização dos poemas de
Paraste a repousar, eu descansei...
Camilo Pessanha é marcada pelo Tenho sonhos cruéis; n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro. Na venda em que pousaste, onde
pessimismo em relação ao mundo,
Vou a medo na aresta do futuro, [pousei,
que lhe parecia em degenerescência. Bebemos cada um do mesmo vinho.
A adesão do poeta à estética de- Embebido em saudades do presente...
cadentista-simbolista não era simples É no monte escabroso2, solitário.
modismo — era existencial. Saudades desta dor que em vão
[ procuro Corta os pés como a rocha dum
Do peito afugentar bem rudemente, [calvário
Devendo, ao desmaiar sobre o poente, E queima como a areia!... Foi no
TEXTO I Cobrir-me o coração dum véu escuro!... [entanto

Porque a dor, esta falta d’harmonia, Que choramos a dor de cada um...
INSCRIÇÃO
Toda a luz desgrenhada1 que alumia E o vinho em que choraste era comum:
Eu vi a luz em um país perdido. As almas doidamente, o céu d’agora, Tivemos que beber do mesmo pranto.
A minha alma é lânguida1 e inerme2.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! Sem ela o coração é quase nada: Vocabulário e Notas
No chão sumir-se, como faz um Um sol onde expirasse a madrugada, 1 – Desgrenhado: desordenado.
[verme... Porque é só madrugada quando chora. 2 – Escabroso: escarpado.

MÓDULO 35 Simbolismo no Brasil I


1. SIMBOLISMO NO BRASIL lismo e Pré-Modernismo são quase a fundação da Academia Brasileira
sempre discutíveis, dada a simulta- de Letras, e que não deixou margem
q Limites cronológicos neidade em que esses movimentos a que se reconhecesse o valor e
• Início: 1893 se desenvolvem. alcance do movimento simbolista.
Publicação de Missal (poemas O primeiro núcleo simbolista no “O Simbolismo Brasileiro, apesar
em prosa) e Broquéis (poesia), de Brasil formou-se no jornal carioca Fo- de ter produzido um Cruz e Sousa e
Cruz e Sousa. lha Popular, por volta de 1890-1891, um Alphonsus de Guimaraens, foi su-
reunindo Bernardino Lopes, Emi- focado (...) e, só hoje recebe a
• Término: 1902 liano Perneta e Oscar Rosas, devida consideração, negligenciado
Em sentido amplo, os limites do liderados por Cruz e Sousa, que, a como era sob o regime artificialmente
Simbolismo se estendem até a Se- propósito do ambiente intelectual prolongado do Parnasianismo.
mana de Arte Moderna, em 1922, e, daquela época, diria: (...) O Modernismo, Simbolismo
em sentido estrito, até 1902, quando “Era uma politicazinha engenho- inconsciente a meu ver, possibilitou a
se reconhece a publicação de Os sa de medíocres, de tacanhos, de transformação do Simbolismo priva-
Sertões, de Euclides da Cunha, e de perfeitos imbecilizados ou cínicos, do em poesia pública.”
Canaã, de Graça Aranha, como mar- que faziam da Arte um jogo capcio- (Otto Maria Carpeaux)
cos iniciais de um novo período lite- so, maneiroso, para arranjar relações
rário, o Pré-Modernismo, cujo ad- e prestígio no meio, de jeito a não Apelidados de nefelibatas (ou se-
vento não significou a interrupção do ofender, a não fazer corar o diletan- ja, “habitantes das nuvens”), os sim-
Simbolismo. tismo das suas ideias (...)”. bolistas eram, pejorativamente, iden-
No Brasil, os movimentos artísti- No Brasil, o Simbolismo foi “su- tificados pelos parnasianos como so-
cos finisseculares (fins do século XIX focado” pelo prestígio que, entre nós, nhadores, que se valiam de uma lin-
e início do século XX) são muito mais gozou o Parnasianismo, cujos poe- guagem de conotação imponderável,
simultâneos que sucessivos, o que tas, de mais fácil leitura e dóceis ao puramente sugestiva, estratosférica.
torna problemáticos os já em si pre- regime, gozavam de inequívoca pre- Além de Cruz e Sousa e Al-
cários critérios de periodização. For- ferência da elite “culta” dos salões phonsus de Guimaraens, pode
çoso é admitir que os limites cronoló- literários e do poder público. O Par- ser estudado também Augusto
gicos do Realismo, Naturalismo, Par- nasianismo era a poesia “oficial”, dos Anjos, que não foi propria-
nasianismo, Impressionismo, Simbo- que condicionou, pelo seu prestígio, mente simbolista, mas assimilou
– 71
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grande influência dessa estética. degradadas, como a doença, a lou- oprimido, vil e desprezível. A única
Augusto dos Anjos será estudado no cura, a miséria e o preconceito de cor. solução seria a fuga, a separação, a
Pré-Modernismo (no livro de Litera- transcendentalização, a ascensão
tura, porém, este autor é estudado no • Resíduos Parnasianos
para outro mundo, espiritual, puro,
capítulo dedicado ao Simbolismo). Na predileção pelo soneto, pelas
etéreo, branco. Da tensão “eu” versus
rimas ricas, pela chave de ouro, pelo
“mundo” decorre o emparedamento,
vocabulário raro, especialmente em
2. CRUZ E SOUSA (1861-1898) a sensação aguda de que a existên-
Broquéis (broquel era um tipo de es-
cia é uma prisão. O próprio poeta
cudo espartano, bem ao gosto par-
q Vida autodefinia-se como o “grande triste”.
nasiano de reviver objetos raros e an-
Negro retinto, filho de escravos tigos). Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
alforriados, Cruz e Sousa foi edu- • Formação Filosófica e De luares, de neves, de neblinas!...
cado na cidade natal, Desterro, atual Científica, Realista e Naturalista Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Florianópolis, Santa Catarina, como No emprego de termos científi- Incensos dos turíbulos das aras...
(“Longe de Tudo”)
criança branca, graças ao tutor, um cos e na visão pessimista, combi-
marechal que o protegeu até a ado- nada com as imprecisões e musicali- Vocabulário
lescência. dades vagamente espiritualistas do 1 – Sidérea: celeste.
Ponto de companhia teatral, pu- Simbolismo e com um individualismo • É comum identificarem-se em
blica seus primeiros versos na impren- neorromântico, na transfiguração de sua trajetória espiritual estes marcos
sa catarinense, e, em 1885, com Vir- seus impulsos pessoais. bem definidos:
gílio Várzea, Tropos e Fantasias, al- • Influência de Baudelaire 1 – a revolta contra a condição
ternando páginas sentimentais e poe- A quem deve o domínio do poe- humana, especialmente os negros,
sias contra a escravidão, à maneira ma em prosa, certo satanismo, o sen- os humilhados, os miseráveis (a dor
do condoreirismo de Castro Alves. so dos contrastes e das correspon- de ser homem);
Impedido de assumir o cargo de dências (sinestesias), além do gosto 2 – a busca da transcendência,
promotor da cidade de Laguna, por pela forma lapidar. aceitação da dor (a dor e a glória de
causa do preconceito, muda-se para • O culto da noite, o pendor ser espírito).
o Rio de Janeiro, onde forma o pri- pela poesia filosófica e a tensão
meiro grupo simbolista brasileiro, meditativa o aproximam de Antero • A Obsessão do Branco
com Bernardino Lopes e Oscar Ro- de Quental. Roger Bastide, crítico e admira-
sas, colaborando também com a Fo- • O professor Antonio Candido dor incondicional de Cruz e Sousa,
lha Popular. ressalta, como traço fundamental, a localizou em sua obra a aparição, por
Casa-se com uma jovem negra, potência verbal de Cruz e Sousa, 169 vezes, de imagens apoiadas na
Gavita, de quem teve três filhos. Vi- aproximando-o de Raul Pompeia e cor branca e em palavras associa-
vendo aperturas econômicas, mina- Coelho Neto, e que terá como desdo- das à área semântica do branco, do
do pela tuberculose, abalado com a bramento radical a poesia de Augus- brilho, da transcendência (“lírio”, “li-
loucura da esposa, morre em Sítio, to dos Anjos. nho”, “neve”, “névoa”, “nuvem”, “lumi-
estação climática, em Minas Gerais, Para essa potência verbal noso”, “brilhante”, “marfim”, “espu-
aos 36 anos de idade. contribuem o verbalismo requintado ma”, “opaco”, “pérola”, entre outros
e oratório, o senso exaltado de me- exemplos).
q Obras lodia da palavra e o poder de criar Procurou-se uma explicação psi-
Missal (poemas em prosa) imagens de grande beleza que reves- cológica para essa recorrência à cor
Broquéis (poesias) tem a concepção trágica da branca: seria uma forma compen-
Evocações (poemas em prosa) vida e a busca da transcen- satória à negritude, que o poeta teria
Faróis (poesias) dência. se recusado a assumir; um instru-
Últimos Sonetos (poesias recolhi- • Imbuído de alto fervor quanto mento de “clarificação”, de ascensão
das por Nestor Vítor, amigo e admira- à missão do poeta, é, a um só tempo, social.
dor do poeta, obra publicada em 1905) poeta expressivo e construtivo, Essa interpretação tem sido refu-
q
harmonizando seus impulsos pes- tada. Ocorre que a cor branca, além
Características
• Não convém ler a poesia de soais e a consciência estética dos de simbolizar, na liturgia religiosa, a
Cruz e Sousa do ponto de vista da procedimentos estilísticos adequa- pureza, a espiritualidade, é, de velha
biografia sentimental. Ocorre que, ain- dos à expressão. É esse equilíbrio data, símbolo da ânsia de totalidade,
da que sua visão trágica da exis- que faz de Cruz e Sousa, segundo de transcendentalização, de supera-
tência tenha íntima relação com a Roger Bastide, um dos três maiores ção da dor pela elevação espiritual,
sua vida, não há alusões diretas à nomes do Simbolismo mundial. atitudes que o poeta assumiu com
autobiografia e à confissão: a trans- • A cosmovisão de Cruz e Sou- fervor. Como místico excepcional, faz
figuração das experiências ma- sa lembra o Barroco: o mundo da Dor motivo para a superação es-
nifesta-se em seus textos nas alusões terreno é um grande cárcere de dor e piritual, para a grandeza moral, para
a realidades sociais degradantes e infortúnio; o homem, um ser a purificação e o êxtase.
72 –
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ANTÍFONA TÉDIO

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras Vala comum de corpos que apodrecem,
De luares, de neves, de neblinas!... Esverdeada gangrena
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Cobrindo vastidões que fosforescem
Incensos dos turíbulos das aras... Sobre a esfera terrena.
(Cruz e Sousa) (...)

FLORES DA LUA Mudas epilepsias, mudas, mudas,


Mudas epilepsias,
Brancuras imortais da Lua Nova, Masturbações mentais, fundas, agudas,
Frios de nostalgia e sonolência... Negras nevrostenias1.
Sonhos brancos da Lua e viva essência
Dos fantasmas noctívagos1 da Cova. Flores sangrentas do soturno vício
Que as almas queima e morde...
(Cruz e Sousa)
Música estranha de letal suplício,
Vago, mórbido acorde...
Vocabulário
1 – Noctívago: que vagueia de noite. (...)
(Cruz e Sousa) Cruz e Sousa
SIDERAÇÕES Vocabulário q Apreciações críticas
1 – Nevrostenia: irritação dos nervos. Transcrevemos, a seguir, algu-
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo, mas apreciações feitas pela crítica a
Galgando azuis e siderais noivados • “Vê como a dor te trans- respeito da obra de Cruz e Sousa:
De nuvens brancas a amplidão vestindo... cendentaliza” – A maturidade “Três principais direções tomou a
(Cruz e Sousa) dos Últimos Sonetos sua inspiração: a sondagem do mundo
Se nos primeiros livros o sensualis- interior, donde arrancou a tragédia de
• O Emparedamento – mo forte, o desejo carnal, é diretamen- todas as suas revoltas, de todos os
A Dor e a Revolta te estetizado (sem sublimação), com seus delírios (vejam-se, a título de
Em Faróis e Evocações, o esteti- os Últimos Sonetos é que o poeta ob- exemplo, ‘Só’, ‘Emparedado’), mas
cismo dos primeiros livros transfor- tém em maior grau a espiritualização também onde encontrou raios de fé,
ma-se num lirismo trágico, tétrico, sublimatória da experiência dos sen- de esperança e de caridade (‘Renas-
mórbido. tidos. O eu lírico forceja por libertar-se cimento’, ‘Assim Seja’); a visão da
Basta um inventário nos títulos da carne. A caridade e a piedade existência no que esta oferece de es-
insinuam-se como o caminho de sal- petáculo trágico de dores, de misé-
para termos uma ideia do mundo que
vação e conforto. Liberto dos apeti- rias, de injustiças, de vícios, de insa-
povoa estes poemas: “Tristeza do
tes sensuais e sociais, o poeta se des- nidade (‘Crianças Negras’, ‘Vida
Infinito”, “Sem Esperança”, “Caveira”,
poja, se humilha rendido, pondo-se Obscura’, ‘Meu Filho’, ‘Acrobata da
“A Flor do Diabo”, “Música da Morte”, nu diante do Mistério, cujo recesso Dor’, ‘Lésbia’, ‘Tuberculosa’), desgra-
“A Ironia dos Vermes”, “Condenado à almeja conhecer integralmente. çadas sinas humanas que só a espe-
Morte”, “Dor Negra”, “Anjos Rebela- Nessa etapa, a palavra e a subs- rança da libertação do espírito pode
dos”, “No Inferno”, “Talvez à Morte?”, tância poética, o tecido expressivo, consolar (‘Triunfo Supremo’); final-
“Abrindo Féretros”, “O Emparedado”, fundem-se numa só entidade, reali- mente o sentido muito íntimo e inten-
“Tédio”. zando o ideal simbolista de explorar samente lírico da realidade circun-
Segundo um crítico, “do ponto até o seu limite último o conteúdo se- dante (‘Violões que Choram’, ‘Triste’).
de vista da aceitação social, a bio- mântico e musical das palavras. Possuído de inspiração por vezes
grafia do preto Cruz e Sousa, poeta delirante, de capacidade invulgar de
‘maldito’, é o inverso da do mulato SORRISO INTERIOR expressão, sobretudo para os ele-
Machado de Assis, que teve a sua mentos plásticos dos seus delírios já
carreira de escritor glorificada pelo O ser que é ser e que jamais vacila próximos do surrealismo, deu-nos uma
Nas guerras imortais entra sem susto,
poder cultural (...). Leva consigo esse brasão augusto poesia que tem, a par de densidade
Considerando-se o ‘emparedado Do grande amor, da grande fé tranquila. e intensidade dramática, uma imagé-
de uma raça’, Cruz e Sousa registrou tica simbolista estranha e algumas
Os abismos carnais da triste argila vezes preciosa e esotérica, o que sem
em Evocações ‘a batalha formidável Ele os vence sem ânsias e sem custo...
de um temperamento fatalizado pelo Fica sereno, num sorriso justo, dúvida contribuiu para que viesse a
sangue’. Enquanto tudo em derredor oscila. ser poeta apenas de uma aristocra-
Daí a aproximação com Baude- cia intelectual, se bem que seja, in-
laire, com a poesia enraizada no san- Nessa mesma linha, você deve contestavelmente, um poeta autênti-
gue e na carne, a mesma que Au- ler os sonetos “Cárcere das Almas”, co, dos maiores em língua portugue-
“Assim Seja!”, “Alma das Almas”, sa.” (Antônio Soares Amora, História
gusto dos Anjos irá retomar pouco
transcritos no livro 4, cap. 3, pp. 90-1. da Literatura Brasileira, pp. 124-5)
depois.”
– 73
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“Pondo de parte os poemas ini- gir as camadas do Absoluto e desco- Os miseráveis, os rotos
ciais publicados ainda em Santa Ca- brir o ‘mistério de todas as coisas’.” são as flores dos esgotos.
tarina, e que não passam de simples (Naief Sáfady, Dicionário de Literatura) São espectros implacáveis
aprendizagem, assim como os volu- “Em que consiste a singularida- os rotos, os miseráveis
mes de prosa do poeta, conside- de da poesia de Cruz e Sousa? ...
remos apenas os volumes dos poe- Andrade Murici, respeitável estu- São os grandes visionários
mas dados a lume no Rio, alguns pos- dioso do Simbolismo brasileiro, se dos abismos tumultuários
tumamente: Broquéis, Faróis, Últimos empenhou em destruir ou ao menos ...
Bandeiras rotas, sem nome
Sonetos, grosso modo. Em Broquéis atenuar o mito do poeta negro fe- das barricadas da fome.
é, substancialmente, a dor de ser chado em sua alienada torre literária,
negro que se exprime; em Faróis, a surdo a qualquer reclamo racial e E a litania continua, em versos
dor de ser homem, o que já repre- aos grandes problemas (a Abolição) acoplados, como um cortejo de Breu-
senta, com relação a Broquéis, um que ocorrem ao seu redor e como- ghel, como uma marcha da fome de
ponto muito mais alto na escalada; em vem todo o país; ou no máximo inte- um filme expressionista. Procedimen-
Últimos Sonetos, a dor, mas também a ressado neles somente em primeira tos expressionistas podem-se colher
alegria e a glória de ser espírito, de pessoa, para fugir individualmente por toda parte. Baste a autobiográfica
comungar com o eterno e he- da sua própria condição de negro: ‘Canção Negra’:
roicamente sobrevoar os abismos e com o álibi do ódio
as sombras da pobre terrenalidade. Ó boca em tromba retorcida
Claro que se trata de simples esque- Ó meu ódio... cuspindo injúrias para o Céu
matização, para efeitos didáticos.” Meu ódio santo e puro, benfazejo, aberta e pútrida ferida
orgulhoso com os seres sem Desejo, em tudo pondo igual labéu,
(Tasso da Silveira, Cruz e Sousa, p. 7)
sem Bondade, sem Fé...
“Dois aspectos são constantes Ódio são, ódio bom! sê meu escudo... imagem barroca, selada com o dístico
na obra de Cruz e Sousa: a tendência
formal (o grosso de suas composi- ou com a agulha do desejo sempre bendita seja a negra boca
ções são sonetos) e a constante da que tão malditas coisas diz!
apontada para um ‘branco’ que en-
atitude mística, formada numa filoso- che os seus versos de gelos, de ‘nu-
fia da vida que se representa pelo Tanto em Broquéis como em Fa-
vens brancas’, de cândidas luas, fan- róis se prolonga ainda o gosto parna-
esquema: vida material — restrição tasmas de ‘brancuras vaporosas’, de
do espírito (emparedamento); morte siano pelo soneto (fechado sempre
‘formas claras de luares, de neves, com magistral ‘chave de ouro’), pela
— libertação do espírito. Essa atitude
de neblinas’, de ‘brancas opulências, rima rigorosa (quase irônica às ve-
passa por três fases, que coincidem
brumais brancuras, fúlgidas brancu- zes), as quadras clássicas de decas-
com a cronologia de seus escritos:
ras, alvuras castas, virginais alvuras, sílabos alternados; mas os conteú-
1.a – em que a temática se prende à
latescências das raras latescências’. dos e a sensibilidade são sem
dolorosa contingência material do
Aquele mito, apoiado como é sobre dúvida diferentes. Não descreve,
Homem; animam-na preocupações
uma honesta estatística lexical, natu- mas sugere: com o som sobretudo.
puramente estéticas, que se refletem
em atitudes escassamente humani- ralmente resiste. Mas, para corrigir a Rimas em fim de verso e rimas inter-
zadas. A ela pertence Broquéis, com interpretação sociológica para a qual nas (das quais em seguida nascerá o
o poema ‘Antífona’, verdadeira profis- ‘o Simbolismo produzia exatamente o milagre desta prosa simbolista),
são de fé simbolista (melopeia, poe- tipo de arte e de literatura que na- aliterações, assonâncias, reminis-
sia do inconsciente, tédio, ânsia); 2.a quele momento mais convinha aos cências litúrgicas e hínicas:
– tentativa de carrear para a poesia manejos da contrarrevolução’ (Astro-
uma experiência humana, menos in- jildo Pereira), temos a seu lado, tími- Filho meu, de nome escrito
da, a realidade de um homem negro da minh’alma no Infinito.
telectualizada, entretanto negativista
e pessimista, muito semelhante à de crescido literariamente à sombra das
Escrito a estrelas e sangue
Raimundo Correia, destacando-se a ‘Vozes d’África’ e do Navio Negreiro no farol da lua langue...
ânsia de descobrir o absoluto (nirva- de Castro Alves, diretor de um jornal-
na), a essência das coisas; 3.a – em zinho ilustrado de título racialmente Das tuas asas serenas
provocativo (O Moleque, Desterro – faz manto para estas penas.
que aparece a sublimação da vivên-
cia humana, agora integralmente 1885) e autor de sonetos, poemas e Dá-me a esmola de um carinho
transferida para o campo da poesia, prosas abolicionistas (‘25 de Março’, como a luz de um claro vinho.
e seguida de uma doação, onde os ‘Escravocratas’, ‘Dilema’, ‘Auréola
anseios cedem lugar à pregação do Equatorial’, ‘Na Senzala’, ‘Dor Ne- Com tua mão pequenina
amor, numa mensagem de fé suprar- gra’). Poucos textos de protesto tur- caminhos em flor me ensina.
...
racional, de um cristianismo incons- vam contudo a nitidez de Broquéis Faz brotar nevados lírios
ciente, valorizando, especialmente, a ou arranham o polimento de Faróis: a das cruzes dos meus martírios.
libertação do espírito, por meio da ‘Litania dos Pobres’ (em que Alfredo
morte, de sua contingência material Bosi sente traços de Blok, suponho Dá-me um sol de estranho brilho,
perecível, para que a Alma possa atin- Flor das lágrimas, meu filho.
que do Blok dos Doze):
74 –
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(...) Ao fechado, autossuficiente As sonoras Por toda a parte escrito em fogo eterno
universo do parnasiano, à estátua, ao ondulações e brumas do Mistério Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!”
...
mármore, mas também à Distinção (Luciana Stegagno Picchio, La
Agora fundos, no ondular da poeira
civil e ao sorriso, o simbolista Cruz e Letteratura Brasiliana, pp. 328-32)
...
Sousa contrapõe o seu universo si- Ondula, ondeia, curioso e belo
nuoso, instável, inquietante, misterio- ...
so, alucinante. Brumas, névoas, mar- De ondulações fantásticas, brumosa
fins, pratas, crânios, lua, o beijo da ...
múmia, ‘Lésbia nervosa, fascinante e Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante
doente’. Mas também ‘o Cristo de ...
E o teu perfil oscila, treme, ondula,
bronze do Pecado, ... o Cristo de
(...)
bronze das luxúrias’; o Mistério, a pelos abismos eternais circula,
Morte, o Sonho, o Infinito, o Luar, a
Formosura, a treva, o Infer no, o
e chamas que rompem em
Tédio,
fachos o limbo branco cinza
Tédio que pões nas almas olvidadas argênteo do cosmo:
ondulações de abismo...
Não sei se é sonho ou realidade todo
e ondas, ondas, ondas:
esse acordar de chamas e de lodo
Ondulação da vaporosa Iua Cruz e Sousa (direita) e os amigos Virgílio Várzea
... até o grito desesperado: (centro) e Horácio de Carvalho.

MÓDULO 36 Simbolismo no Brasil II


1. ALPHONSUS DE Cursou Direito em São Paulo e, q O Amor e a Morte
GUIMARAENS (1870-1921) formado, exerceu a magistratura em Alphonsus de Guimaraens foi um
Mariana, Minas Gerais, isolado da poeta monotemático. Quase tudo
q O Solitário de Mariana – agitação dos grandes centros, com que escreveu gravita em torno do
O Trovador Enfermiço – catorze filhos, que sustentou a duras amor e da morte, da morte da
O Poeta Lunar penas. Burocrata, boêmio, levando amada (a prima Constança) ou da
Afonso Henriques da Costa Gui- uma vida pacata, “entre a rotina e a Virgem Maria, com quem esse ca-
marães era o nome real do poeta. quimera”, realizou uma poesia sem tólico mariano e devoto termina por
Perdeu, aos 18 anos, uma prima desníveis — das mais puras que a identificar a amada perdida.
— Constança — de quem se ena- nossa lírica conheceu. O tom lírico predominante é o
morara, e cuja presença é constante ele gíaco, perpassado pela tris-
em sua lírica. q Obras teza das cidades antigas de Minas,
• Poesia das quais o verso plangente de
Kiriale (publicado somente em Alphon sus nunca destoou, com
1902) suas igrejas, catedrais, procissões,
Setenário das Dores de Nossa réquiens, fins de tarde, flores roxas.
Senhora (1899) Quando o fantasma da amada
Câmara Ardente (1899) morta assola o poeta, a morte se lhe
Dona Mística (1899) repropõe como a presença do corpo
Pauvre Lire (1921) morto, como o luto circunstante — os
Pastoral aos Crentes do Amor e círios, o cantochão, o esquife, o
da Morte (1923)* féretro, os panos roxos, o réquiem, o
Escada de Jacó (1938)* sepultamento no campo santo, as
Pulvis (1938)* orações fúnebres. Kiriale é um dobre
de finados, até pelos títulos dos poe-
• Prosa mas: “Luar sobre a Cruz da Tua Co-
Os Mendigos (1920) va”, “À Meia-Noite”, “Ocaso – Im-
pressões de Véspera de Finados”,
• Tradução “Spectrum”, “Ossea Mea”.
Nova Primavera (de Heine) O platonismo místico conduz ao
(1938)* desalento do amor que não se cum-
priu e que jamais se cumprirá, salvo
Alphonsus de Guimaraens * publicações póstumas. além-túmulo ou na esfera transcendente.
– 75
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Daí o elogio da morte que se saltos obsedantes dos três ‘inimigos A CATEDRAL
materializa numa simbologia funerária. da alma’: diabo, carne e mundo.”
Entre brumas 1, ao longe, surge a aurora.
A obsessão da morte não tem (Alfredo Bosi) O hialino2 orvalho aos poucos se evapora,
em Alphonsus o caráter negativo de agoniza o arrebol3.
horror, de fobia. Ela é desejada, an- Como lírico religioso, es- A catedral ebúrnea4 do meu sonho
siada, porque encarna a possibilida- sencialmente mariano, coloca-se co- aparece, na paz do céu risonho,
toda branca de sol.
de de aproximação da amada e/ou mo um emotivo da religiosida-
do Absoluto, representado por Deus, de, simples e devoto. Esse veio ele- E o sino canta em lúgubres5 responsos6:
oferecendo-lhe o tão procurado apa- gíaco irá ramificar, no Modernismo, “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”
ziguamento e a superação da vida, em certas páginas de Manuel Ban-
vista como miséria, pó, infâmia, lama deira, Ribeiro Couto, Henriqueta O astro glorioso7 segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila8 em cada
e podridão. Observe os fragmentos: Lisboa e, especialmente, em Cecília refulgente raio de luz.
Meireles. A catedral ebúrnea do meu sonho,
(...) onde os meus olhos tão cansados ponho,
Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas recebe as bênçãos de Jesus.
Foi-lhe a vida um eterno mês de maio,
Cheio de rezas brancas a Maria, Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Que ela vivera como num desmaio. Cujas veias azuis parecem feitas E o sino clama em lúgubres responsos:
Da mesma essência astral dos óleos bentos: “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”
Tão branca assim! Fizera-se de cera...
Sorriu-lhe Deus, e ela, que lhe sorria, Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas (...)
Virgem voltou como do céu descera. A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas O céu é todo trevas: o vento uiva.
(“Pulchra ut Luna” — expressão
Em hinos sobre as torres dos conventos Do relâmpago a cabeleira ruiva
latina que pode ser traduzida por
vem açoitar9 o rosto meu.
“bela como a lua”.)
(Setenário das Dores de Nossa Senhora) E a catedral ebúrnea do meu sonho
afunda-se no caos do céu medonho
(...)
q como um astro que já morreu.
Trabalhou com a mesma quali-
A lua, que lhe foi mãe carinhosa, dade as redondilhas medievais
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la E o sino geme em lúgubres responsos:
Entre lírios e pétalas de rosa. e as formas e gêneros arcaicos da “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”
medida velha, bem como os de- (Alphonsus de Guimaraens,
Os meus sonhos de amor serão defuntos... cassílabos, em sonetos de grande in Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte)
E os arcanjos dirão no azul, ao vê-la, expressividade.
Pensando em mim: — “Por que não vieram Vocabulário
[juntos?” 1 – Bruma: nevoeiro.
ISMÁLIA
(“Hão de Chorar por Ela os Cinamomos”) 2 – Hialino: transparente como o vidro.
Quando Ismália enlouqueceu, 3 – Arrebol: vermelhidão ao nascer do Sol.
Pôs-se na torre a sonhar… 4 – Ebúrneo: de marfim.
q Viu uma lua no céu, 5 – Lúgubre: triste, fúnebre.
A poesia mística –
Viu outra lua no mar. 6 – Responso: conjunto de versículos pronun-
A lírica mariana ciados ou cantados alternadamente.
Foi o maior poeta místico da Lite- No sonho em que se perdeu, 7 – Astro glorioso: o Sol.
ratura Brasileira, não apenas pela Banhou-se toda em luar… 8 – Cintilar: brilhar.
parte diretamente referente à liturgia Queria subir ao céu, 9 – Açoitar: chicotear.
católica e à exaltação da Virgem, mas Queria descer ao mar…
q Apreciações críticas
também pela atmosfera de sonho e
E, no desvario1 seu, Antônio Soares Amora, em sua
mistério, pela tonalidade medieval, Na torre pôs-se a cantar…
pelo tom de ternura e melancolia. História da Literatura Brasileira (pp.
Estava perto do céu,
“O fato de ter transformado a reli- 125-6), assim se refere a Alphonsus
Estava longe do mar…
gião numa experiência profunda lhe de Guimaraens:
possibilitou não só adotar a moda E como um anjo pendeu “Embora poeta de alta estirpe, não
simbolista da poesia litúrgica, mas As asas para voar… conseguiu, em vida, fazer sentir toda
Queria a lua do céu, a significação literária da sua obra.
vivê-la interiormente, tornando-se o Queria a lua do mar…
único a exprimir uma religiosidade Modernamente vem-lhe fazendo, a
que não parece receita da escola.” As asas que Deus lhe deu
crítica, a justiça que merece. Simbo-
Ruflaram2 de par em par… lista desde as primeiras horas do
(Antonio Candido) Sua alma subiu ao céu, movimento, definiu, entre 1899/1902,
Seu corpo desceu ao mar… com Setenário das Dores de Nossa
“No poeta mineiro, passadista e Senhora, Câmara Ardente, Dona Mís-
decadente, há um homem preso às (Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte)
tica e Kiriale, os caminhos da sua
franjas de uma religiosidade espan- Vocabulário inspiração dentro do movimento ge-
tada, cujo fim último é evocar o fan- 1 – Desvario: loucura. ral de renovação da poesia brasileira:
tasma da morte para reprimir os as- 2 – Ruflar: agitar-se. 1) lirismo amoroso de caráter espiri-
76 –
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tualista, ou mais precisamente, platô- na mocidade está presente dando castelã morta:
nico; o que significou, no seu caso, o um tom de amargurada tristeza. O
A suave castelã das horas mortas
regresso ao idealismo amoroso de vocabulário utilizado casa-se bem a
Assoma à torre do castelo. As portas,
Petrarca, de Camões, e de todos os essa sensibilidade e são frequentes Que o rubro ocaso em onda ensanguentara,
medievais e clássicos do amor espiri- as referências a flores roxas, a vio- Brilham do luar à Luz celeste e clara,
tualizado, o que, entretanto, não o letas, a virgens mortas, a fins de tar-
impediu de ser original, e comovida- de. Tinha também o gosto de criar ou ainda:
mente sincero. Nesta atitude perante vocábulos, tão em voga entre os Quando as folhas caírem e tu fores
a Mulher e o Amor, ditada por in- simbolistas, ao mesmo tempo que a Procurar minha luz no campo-santo,
fluências muito sugestivas do Sim- influência de língua arcaica, o que o Hás de encontrá-la, meu amor, num canto,
bolismo europeu, mas também con- fez arcaizar o próprio nome. A redon- Circundada de flores.
dizente com o seu caráter e o seu dilha foi um dos metros que preferiu,
temperamento, pôde construir uma e o soneto decassílabo o que mais (...) É fato que há na poesia de
obra cheia de belezas, rica de emo- utilizou, dando-lhe, entretanto, uma Alphonsus de Guimaraens um as-
ção e muito significativa na história característica própria, um módulo to- pecto lúdico, de travesti intelectualís-
da nossa literatura (Kiriale, Dona Mís- do pessoal. Verlaine e Mallarmé fo- tico (o medievalista, o petrarquista, o
tica, Pastoral aos Crentes do Amor e ram seus mestres, do primeiro tra- enamorado da menina morta e, tal-
da Morte); 2) lirismo religioso, im- duzindo belamente alguns poemas, vez, o poeta simbolista: um Alphon-
pregnado de intenso sentimento mís- ao segundo dedicando um dos seus sus lutuoso que sorri de si mesmo
tico, comovido, docemente encan- sonetos em francês, em que confessa nos versos franceses, autodenomi-
tado ante todas as belezas concebi- o que lhe deve. Poesia pouco descri- nando-se, com transparente calem-
das pelo Cristianismo: as doçuras da tiva, que consegue muito mais sugerir bour, ‘Vicomte de Grandeuil’), que
vida piedosa e penitente; as inefá- do que dizer, a música tem, nela, não foi ainda suficientemente estu-
veis delícias da vida celeste; o grande importância: os versos de A. dado. Tendentes a construir um cli-
profundo e arrebatador sentido do de G. são finamente melodiosos. Para ché existencial, esquecemos por ve-
simbolismo hierático, litúrgico e alcançar isso, inovou ele os metros zes que, como queria Fernando Pes-
mortuário; a poesia que envolve to- consagrados, alterando e deslo- soa ‘o poeta é um fingidor’, e despre-
das as manifestações de Fé, e de cando acentos, conferindo-lhes o tom zamos certos aspectos de Alphon-
culto aos mortos; o profundo signifi- musical que, juntamente com o voca- sus que aparentemente contrastam
cado da vida de Nossa Senhora, bulário tão peculiar, criam a nota que com a sua máscara oficial: o repu-
plena de Virtudes, ‘Mater Dolorosa’ é dele e só dele na poesia brasileira.” blicano, o poeta juvenil não ainda
(Setenário das Dores de Nossa “Poesia de amor e poesia místi- ‘castigado’:
Senhora, Dona Mística, Escada de co-religiosa da qual participa, como
Ó minha amante, eu quero a volúpia vermelha
Jacó); 3) evasão da vida, da humana evocação, uma paisagem de meias- dos teus beijos febris receber sobre a boca...
dor, fuga para o mundo encantado tintas, enfumaçada de luz crepuscu-
da fantasia, onde, e só onde, conse- lar (não por acaso o Penumbrismo o autor de versos satânicos que são
guiu realizar-se, ou como um brasileiro terá raízes também na poe- o reverso da medalha angélica e fu-
‘cavaleiro’ da mística e amatória sia de Alphonsus) ou banhado de nérea, e também o Alphonsus que se
cavalaria medieval, ou como um luar. A mulher amada aparece sobre compraz em escrever — sem todavia
‘trovador’ vagabundo, de cantigas de o leito de morte com a marmórea rigi- assiná-los — versos facetos em jor-
amor, ou, num extremo de desmateri- dez, a inexorável juventude de uma naizinhos das cidades mortas que o
alização, como espírito puro a pas- estátua sepulcral: hospedaram: Mariana, Conceição do
sear e a viver num éden de supremas Serro.” (L. S. Picchio, La Letteratura
Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
belezas, de suprema felicidade (A Brasiliana, pp. 336-9)
de tons marfíneos, de ossatura rica,
Escada de Jacó, Pulvis).” pairando no ar, num gesto brando e leve,
que parece ordenar, mas que suplica ...
Fernando Góes fez a seguinte Acrescente-se à lista de L. S.
caracterização da poesia de Alphon- ou Picchio mais um aspecto da obra de
sus de Guimaraens (in Pequeno Di- Alphonsus de Guimaraens que a crí-
Hirta e branca... Repousa a sua áurea cabeça tica tem descurado: a reflexão meta-
cionário de Literatura Brasileira, s.v.): Numa almofada de cetim bordada em lírios.
“A poesia de A. de G. é uma poe- Ei-la morta afinal como quem adormeça linguística, a poesia que tematiza o
sia de tons velados, poesia de Aqui para sofrer Além novos martírios. próprio fazer poético, utilizando-se
música de câmara, que o ambiente de um símbolo que remete à ave cé-
em que viveu marcou profundamente, De mãos postas, num sonho ausente, a som- lebre de Edgar Allan Poe: trata-se de
[bra espessa
com as procissões, as igrejas, a vida um poema estranho e único na obra
Do seu corpo escurece a luz dos quatro círios:
devota, os sinos tocando de manhã à Ela faz-me pensar numa ancestral Condessa do Solitário de Mariana, “A Cabeça
noite. Poesia elegíaca, em que a Da Idade Média, morta em sagrados delírios, de Corvo” (poema que se encontra
lembrança da noiva que ele perdeu ou, com insistência sobre o tema da transcrito na p. 96 do livro 3).
– 77
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FRENTE 4 Morfologia e Redação

MÓDULOS 11 e 12 Acentuação Gráfica

1. INTRODUÇÃO ❑ Proparoxítonos
Palavras cuja sílaba tônica é a antepenúltima:
As palavras, quando são pronunciadas, apre-
sentam uma sílaba emitida com maior intensidade – paralelepípedo; eólico; exército; bávaro
sonora e sílaba(s) emitida(s) com menor intensidade
sonora. As que apresentam maior intensidade na 3. REGRAS DE ACENTUAÇÃO GRÁFICA
pronúncia chamam-se tônicas e as que têm menor ❑ Monossílabos tônicos
intensidade chamam-se átonas. Acentuam-se apenas os terminados por a(s), e(s),
• Sílaba tônica é a que se emite com maior intensi- o(s). Também seguem essa regra as formas verbais
dade. monossilábicas no infinitivo, quando seguidas
• Sílaba átona é a que se emite com menor intensi- dos pronomes átonos: lo(s), la(s).
dade. Exemplificando

Exemplificando – pá, pás – lê, lês – dá-lo


– pé, pés – nó, nós – pô-lo
átonas: pa - le
– paletó
❑ Oxítonos
tônica: tó Acentuam-se apenas os terminados por a(s), e(s),
o(s), em, ens. Também seguem essa regra as
átonas: pa - to formas verbais oxítonas no infinitivo, quando
– palito
seguidas dos pronomes átonos: lo(s), la(s).
tônica: li Exemplificando
átonas: li - do – guaraná, guaranás – armazém, armazéns
– pálido – você, vocês – criticá-lo
tônica: pá
– até, através – vendê-lo
– avô, avôs – compô-lo

2. CLASSIFICAÇÃO DAS PALAVRAS ❑ Paroxítonos


QUANTO À POSIÇÃO DA SÍLABA TÔNICA
Acentuam-se apenas os terminados por:
❑ Monossílabos – R , X , N , L , PS
a) átonos: uma única sílaba com pronúncia fraca:
Exemplificando
– me; se; lhe; mas
– açúcar, câncer
b) tônicos: uma única sílaba com pronúncia forte: – tórax, sílex
– pólen, hífen (no entanto, no plural não são
– sol; mar; tu; nós acentuados: polens, hifens)
– útil, agradável
❑ Oxítonos – bíceps, fórceps
Palavras cuja sílaba tônica é a última:
– I(s) , U(s)
– acarajé; Salomé; marajá; dendê; urutu; juruti
Exemplificando
❑ Paroxítonos – júri, dândi
Palavras cuja sílaba tônica é a penúltima: – lápis, oásis
– meinácu (= índio do Xingu)
– janela; telefone; parede; porta; agenda; repórter
– vírus, lótus

78 –
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Exemplificando
– Ã(s) , ÃO(s) , ONS , UM , UNS
– saída, faísca – baú, balaústre
Exemplificando

– órfã, órfãs – elétrons, prótons i u


6. São acentuadas as oxítonas com e na
– bênção, bênçãos – álbum, álbuns
posição final depois de um ditongo.
Exemplificando
– ditongos seguidos ou não de s
– Piauí, tuiuiú
Exemplificando
Notas
– glória, histórias a) Caso i e u nos hiatos não estiverem isola-
– tênue, vácuos
– remédio, próprios dos ou seguidos de nh na sílaba posterior a eles,
– série, cáries não serão acentuados.
– jérsei, úteis Exemplificando
– ruim (= ru - im)
Nota
– Raul (= Ra - ul)
Não se usa o acento circunflexo nas palavras termi- – ainda (= a - in - da)
nadas em oo(s) . – sair (= sa - ir)
Exemplificando – raiz (= ra - iz) → porém: raízes (ra- í -zes)

– perdoo; magoo; voo; voos isolado
– ventoinha (= ven - to - i - nha)
❑ Proparoxítonos
b) Não se acentuam i e u tônicos que
Acentuam-se todos os da língua portu-
– aparecem depois de um ditongo em palavras paro-
guesa.
xítonas.
Exemplificando Exemplificando

– crisântemo; lúdico; míope; ínterim; álibi; – baiuca, feiura.


Niágara; Lúcifer
7. TREMA
O trema (¨) é usado somente nas palavras estran-
4. São acentuados os ditongos orais abertos éi , geiras e em suas derivadas.
éu , ói seguidos ou não de s , nas palavras Exemplificando
oxítonas. – Müller, mülleriano
Exemplificando – Hübner, hübneriano
– papéis – réu, céus – herói, lençóis Nota
Não receberá acento agudo ( ) o u dos grupos
Nota
gua , gue , gui , guo , que , qui , seguidos ou
Não se usa o acento nos ditongos abertos tônicos
ei e oi de palavras paroxítonas. não de s , quando esse u for pronunciado e tônico.

Exemplificando Exemplificando

– ideia, colmeia. – que eu averigue (= a - ve - ri - gu - e)


– heroico – que tu averigues (= a - ve - ri - gu - es)
– ele argui (= ar - gu - i)
5. São acentuados i e u tônicos, seguidos ou – tu arguis (= ar - gu - is)
s , quando eles formarem hiato com a – que eu oblique (= obli - qu - e)
não de
– que tu obliques (= o - bli - qu - es)
vogal anterior.
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8. ACENTO DIFERENCIAL Observe que os verbos ter e vir recebem


Ainda é mantido em: acento na 3.a pessoa do plural do Presente do
Indicativo e que seus derivados recebem acento agudo
≠ { ás (substantivo)
as (artigo definido feminino plural)
no singular e acento circunflexo no plural.

pôde (terceira pessoa do singular do pretérito { ele vem ele intervém


{ eles
{
eles vêm intervêm
do indicativo)
≠ pode (terceira pessoa do singular do presente
do indicativo) { ele tem
eles têm
ele mantém
{eles mantêm

pôr (verbo, faz parte do composto pôr-do-sol;



{ seus derivados não são acentuados no infinitivo:
repor, supor, dispor, decompor, sotopor etc.)
por (preposição)
2. Os nomes próprios devem ser acentuados de
acordo com as regras de acentuação gráfica.
Exemplificando

Cláudia, Luísa, Júnior, Antônio, César, Estêvão,


≠ { porquê (substantivo)
porque (conjunção) Anhangabaú, Paraná etc.

quê (substantivo: interjeição, pronome em final

{
3. Os elementos de palavras compostas, com
de frase) hífen, devem ser analisados e acentuados, se for o

que (pronome, advérbio, conjunção ou partí- caso, separadamente.
cula expletiva) Exemplificando

– cana-de-açúcar
Nota
– pé-de-meia
No caso da palavra forma, o uso do acento – água-viva
diferencial é facultativo, para conferir clareza à frase. – arraia-miúda

4. As palavras com letras maiúsculas devem receber


Observações Complementares normalmente o acento gráfico.
Exemplificando
1. Observe que os verbos crer , dar , ler , CRISE NO COMÉRCIO ATINGE SEU PONTO
ver e seus derivados dobram o e na terceira MÁXIMO

pessoa do plural e perdem o acento:


5. As palavras compostas cujos elementos estão
justapostos são acentuadas de acordo com as regras
gerais e específicas.
ele crê ele descrê
{ eles creem { eles descreem
Exemplificando

– agrotóxico
que ele dê que ele redê – geógrafo
{ que eles deem { que eles redeem – arranha-céu

6. As abreviaturas devem ser acentuadas quando o


ele lê ele relê
{ eles leem { eles releem
acento gráfico ocorrer antes do ponto abreviativo.
Exemplificando

ele vê ele prevê – técnicas → téc.


{ eles veem { eles preveem – páginas → pág.
– século → séc.

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MÓDULO 13 Interpretação de Tema

vista de quem escreve. A conclusão deve arrematar as


ideias discutidas ao longo do texto ou retomar a tese.

Use os dotes que tiver: os bosques seriam muito


silenciosos se neles só cantassem as aves que
cantam melhor.
(Henry Van Dyke)

Para interpretar a conotação do trecho acima, que


poderia ser um tema de vestibular, precisamos
decodificar a mensagem, estabelecendo determinadas
relações:

1.o)“Use os dotes que tiver” é um apelo para que se


utilizem os dons natos, o talento que todos têm, em
algum grau, para alguma atividade;

2.o)“os bosques seriam muito silenciosos se neles


só cantassem as aves que cantam melhor”:
compreende-se que todos devem fazer uso do seu
Alguns vestibulares, a Fuvest por exemplo, apre- canto para que haja música no bosque, ou seja, se cada
sentam uma proposta de redação que precisa ser inter- um colaborar com sua parcela de talento, o resultado
pretada. A determinação do tema é decisiva, pois a final será mais rico e mais belo.
correção de textos cujo tema exige interpretação leva Dessa forma, sintetizando as relações apontadas,
em conta principalmente itens como adequação ao teremos:
tema proposto (o que depende do entendimento – cada um é talentoso do seu jeito e, para que se
adequado do tema), coerência (ideias distribuídas em obtenha o melhor resultado, todos devem fazer uso do
progressão — sem repetições, sem circularidade de talento que têm.
ideias) e coesão (elementos de coesão — advérbio,
conjunções e preposições — usados convenientemente
para encadear frases, orações, períodos e parágrafos). Temos então, para elaborar uma dissertação, a
Tais itens têm peso 2, enquanto gramática e seguinte discussão: a variedade de talentos, habili-
informatividade (repertório de conhecimentos e dades e aptidões promove o equilíbrio nas relações
informações utilizado) recebem peso 1. sociais, econômicas, institucionais, educacionais
etc.
O que se espera do candidato, quando a proposta
induz a interpretar e delimitar o tema, é que ele
demonstre capacidade para discorrer sobre assuntos Esse tema, portanto, pode ser reduzido ao ditado
abstratos (o individualismo, o misticismo, a amizade “uma andorinha só não faz verão”, considerando-se que
etc.) com desenvoltura. Para tanto, a tese deve ser toda andorinha tem o seu canto, o seu talento, e que o
genérica. Os parágrafos argumentativos, além de bom resultado coletivo (o verão) depende da
justificativas, devem apresentar exemplos da história colaboração de todas as andorinhas, cada qual dentro
passada ou atual para melhor fundamentar o ponto de das suas possibilidades.

conotação ou linguagem conotativa: a palavra assume decodificar: decifrar, traduzir, esclarecer, interpretar.
sentido figurado, adquirindo significados diferentes daqueles sintetizando: resumindo.
encontrados no dicionário.

– 81
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MÓDULO 14 Ortografia, Emprego do Porquê, Mal e Outros


A palavra ortografia é formada por dois radicais Exemplos
gregos: orto (= correto) e grafia (= escrita).
– ele diz, eu dizia
Embora não possamos sistematizar o estudo de – eu fiz, ele fez
ortografia como foi feito na acentuação gráfica, po- – ele traz, ele trazia
demos estabelecer algumas regras práticas para fa-
cilitar a escrita de certas palavras. 4. OS SUFIXOS ES E ESA

1. O SUFIXO IZAR Esses sufixos são grafados com S quando eles


denotam origem, nacionalidade, títulos de nobreza.
Esse sufixo grafa-se com Zquando auxilia a
Exemplos
formar verbos, a partir de substantivos e adjetivos.
– burguês, burguesa
Exemplos
– inglês, inglesa
– marquês, marquesa
– canal + izar = canalizar
– capital + izar = capitalizar
– suave + izar = suavizar
5. O SUFIXO ISA
– atual + izar = atualizar
Esse sufixo é grafado com S quando ele ajuda a
Porém, alguns verbos são formados pelo sufixo AR , formar o feminino de certas palavras.
o qual é somado a uma palavra que já apresenta S .
Exemplos
Exemplos
– papa → papisa
– diácono → diaconisa
– friso + ar = frisar – profeta → profetisa
– improviso + ar = improvisar
– pesquisa + ar = pesquisar
– catálise + ar = catalisar 6. O SUFIXO OSO

Esse sufixo é grafado com S quando indica


cheio de, pleno de.
2. OS SUFIXOS EZ E EZA
Exemplos
Esses sufixos são grafados com Z quando eles
ajudam a formar substantivos, a partir de adjetivos. – apetite + oso = apetitoso
– jeito + oso = jeitoso
Exemplos
– maneira + oso = maneiroso

– pálido + ez = palidez
– escasso + ez = escassez Porém, os verbos pôr ; querer e usar , por
– grande + eza = grandeza Z
não apresentarem no seu infinitivo, são grafados
– pobre + eza = pobreza
sempre com S .
– alto + eza = alteza

Exemplos
3. Os verbos dizer , fazer e trazer , por – eu pus, quando eu puser, se eu pusesse
apresentarem Z no seu infinitivo, são grafados com – eu quis, quando eu quiser, se eu quisesse
Z durante a sua conjugação. – eu usei, quando eu usar, se eu usasse

82 –
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7. Os verbos terminados por AIR , UIR e OER Porém, há exceções para essa regra.

são grafados com I . Quando houver a inicial EN , se a palavra for


derivada de outra iniciada por CH , prevalece o CH .
Exemplos
Exemplos

– atrair na segunda e terceira pessoa do – encharcar (charco)


presente do indicativo: tu atrais, ele atrai – encher (cheio)
– enchente (cheio)
– possuir na segunda e terceira pessoa do – enchouriçar (chouriço)
presente do indicativo: tu possuis, ele possui

– corroer na segunda e terceira pessoa do 10. Há muitas palavras em que o fonema / z / é


presente do indicativo: tu corróis, ele corrói representado pela letra X .

Exemplos

Porém, os verbos terminados por UAR são grafa- – exalar


– executar
dos, no presente do subjuntivo, com E .
– exequível
Exemplos – exótico
– inexorável
– continuar: que eu continue, que tu – exorbitar
continues...
– atuar: que eu atue, que tu atues...
11. A letra X , por sua vez, pode representar diversos
fonemas; ela também representa, em alguns casos,
dois fonemas / ks /.
8. Após ditongo , é usado X .
Exemplos
Exemplos
– amplexo
– clímax
– baixo
– fixo
– frouxo – nexo
– peixe – paradoxo
– queixa

12. O G é usado nos substantivos terminados por


agem , igem , ugem .
9. Após a inicial EN , é usado X .
Exemplos
Exemplos

– aragem
– enxada
– barragem
– enxoval
– fuligem
– enxugar – vertigem
– enxurrada – ferrugem
– enxuto – rabugem

– 83
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13. O G também é usado nas palavras terminadas Porque ele sempre se atrasa, ninguém mais o espera.
2. Conjunção indicando finalidade, equivalendo a
em ágio , égio , ígio , ógio , úgio . para que, a fim de.

Exemplos Exemplo:
“— Não julgues porque não te julguem.”
– presságio
– colégio PORQUÊ
– prestígio – Substantivo, sendo acompanhado de palavra deter-
– necrológio minante (artigo ou pronome).
– refúgio
Exemplos:
Não é fácil encontrar o porquê de toda essa confusão.
Emprego do Porquê — Dê-me ao menos um porquê para sua atitude.

POR QUE AONDE


1. Oração interrogativa com preposição (por) e um – Indica ideia de movimento ou aproximação, é usado
pronome interrogativo (que); pode ser substituído por com verbos de movimento.
qual motivo ou por qual razão.
Exemplos:
Exemplos: — Aonde você vai?
— Por que devemos nos preocupar com o meio — Aonde você quer chegar com essas ideias?
ambiente? Ninguém sabe aonde se dirigir para retirar os
Não é fácil saber por que a situação persiste em não ingressos.
melhorar.
Não sei por que você se comportou daquela maneira. ONDE
– Indica o lugar em que se está ou em que se passa
2. Preposição (por) e pronome relativo (que); equiva- algum fato, é usado, normalmente, com verbos que
lendo a pelo qual. exprimem estado ou permanência.

Exemplo: Exemplos:
O túnel por que deveríamos passar desabou ontem. — Onde você está?
Os motivos por que não veio são desconhecidos. — Onde você vai ficar nas próximas férias?
Discrimine os locais onde as tropas permaneceram
POR QUÊ estacionadas.
1. Final de frase ou seguido de pontuação.
SE NÃO
Exemplos: Quando o se tem função específica, pode-se retirar a
— Você ainda tem coragem de perguntar por quê? negação (não) que o valor do se não se altera.
— Não sei por quê! Exemplos:
Eles condenam, gostaria de saber por quê, o compor- 1. Conjunção integrante: Perguntou se não iria à festa.
tamento dela. 2. Conjunção condicional: Falarei se não chegarem
agora. (caso)
PORQUE 3. Pronome apassivador: Há coisas que se não dizem.
1. Conjunção indicando explicação ou causa, equiva- 4. Índice de indeterminação do sujeito: Lugares onde
lendo a pois, já que, uma vez que, como. não se vive.

Exemplos: SENÃO
Volte durante o dia, porque a estrada é muito ruim. 1. Preposição: pode ser substituído por com exce-
A situação agravou-se porque ninguém reclamou. ção de, exceto, salvo, a não ser.
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Exemplos: b) O uso de há rejeita atrás quando se refere a


Marcos jamais amou outra pessoa, senão a mim. tempo, pois o emprego dos dois numa mesma frase é
Não faz outra coisa, senão reclamar. redundante (pleonástico).
Não tinha outros parentes, senão a eles.
Ex.: Há dois anos estive em Brasília.
2. Conjunção alternativa: pode ser substituído por ou, Dois anos atrás, estive em Brasília.
de outro modo, do contrário.
2. A exprime distância ou tempo futuro.
Exemplos:
Tomara que chova, senão estaremos arruinados. Exemplos:
Estude, senão será reprovado. Daqui a três anos, ele estará se formando.
De hoje a três dias, esgota-se o prazo para o paga-
3. Conjunção aditiva: pode ser substituído por (não mento.
só...) mas sim, (não apenas...) mas também. O atirador estava a cinco metros de distância.
A cidade mais próxima fica a cem quilômetros.
Exemplos:
Ele não era só conhecido dos amigos, senão de todo o MAU
– É adjetivo e significa “ruim, de má índole, de má
bairro.
qualidade”. Opõe-se a bom e apresenta a forma
Agora não falará apenas por uma rede de TV, senão por
feminina má.
todas as emissoras.

Exemplos:
4. Conjunção adversativa: pode ser substituído por
Ele não é mau aluno.
mas, porém.
Escolheste um mau momento.
Ele tem um coração mau.
Exemplos:
Ninguém ama o que deve, senão o que deseja.
MAL
Não fez isso para irritá-lo, senão para adverti-lo.
1. Advérbio e significa irregularmente, errada-
mente, de forma inconveniente ou desagra-
5. Substantivo: pode ser substituído por falha,
dável. Opõe-se a bem.
defeito, mácula, obstáculo.
Exemplos:
Exemplos: Era previsível que ele se comportaria mal.
Só tinha um senão: falava demais. Os atletas jogaram mal.
Não há beleza sem algum senão. Falou mal de você embora não estivesse mal-
intencionado.
HÁ, A
1. Há indica tempo passado e pode ser substituído 2. Conjunção temporal, equivalendo a quando,
por faz. assim que, no momento em que.

Exemplos: Exemplos:
Há cinco minutos eles chegaram. Mal cheguei, vi que ela estava triste.
Elas se encontraram há pouco. Mal começou a chover, ele saiu.
As eleições ocorreram há três meses.
Observações: 3. Substantivo, sendo acompanhado de palavra deter-
a) Usa-se havia quando equivale a fazia. minante (artigo ou pronome).

Ex.: Havia quase dois anos que não o encontrava. Exemplos:


Estava sem dormir havia três meses. Isto é um mal necessário.
O lugar parecia abandonado havia anos. O mal é que ninguém tomou nenhuma atitude.

– 85
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MÓDULO 15 Verbos I

Verbo é a palavra que, exprimindo ação ou apresentando estado FORMAÇÃO DOS TEMPOS
ou mudança de um estado a outro, pode fazer indicação de pessoa,
tempo, modo e voz. PRIMITIVOS DERIVADOS

{
1. Presente do
Subjuntivo
I – Presente 2. Imperativo
do Afirmativo
Indicativo 3. Imperativo
Negativo

1. Pretérito Mais-

{
que-Perfeito
do Indicativo
II – Pretérito
2. Pretérito Imper -
Perfeito do
feito do Subjun-
Indicativo
tivo
3. Futuro do Sub-
juntivo

1. Infinitivo Pessoal

{
2. Particípio
3. Gerúndio
4. Pretérito
Imperfeito do
III – Infinitivo Indicativo
5. Futuro do Pre-
Impessoal sente do Indica-
tivo
6. Futuro do Preté-
rito do Indicativo

PRESENTE DO INDICATIVO E
SEUS DERIVADOS

1. Presente do Subjuntivo
É formado a partir da primeira pes-
soa do singular do presente do
indicativo.

Para a primeira conjugação, troca-


mos a desinência o por e.
eu louvo → que eu louve

Para a segunda e terceira, trocamos


a desinência o por a.
eu vendo → que eu venda
eu parto → que eu parta

86 –
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Exemplificando:

Presente do Indicativo origina Presente do Subjuntivo

–o +e
eu louvo ⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯→ que eu louve
tu louvas que tu louves
ele louva que ele louve
nós louvamos que nós louvemos
vós louvais que vós louveis
eles louvam que eles louvem

–o +a

eu vendo ⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯→ que eu venda


tu vendes que tu vendas
ele vende que ele venda
nós vendemos que nós vendamos
vós vendeis que vós vendais
eles vendem que eles vendam

–o +a

eu parto ⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯⎯→ que eu parta


tu partes que tu partas
ele parte que ele parta
nós partimos que nós partamos
vós partis que vós partais
eles partem que eles partam

CONJUGAÇÃO DE ALGUNS VERBOS Pres. do Subjuntivo → (que eu) águe, águes,


NO PRESENTE DO INDICATIVO E águe, aguemos, agueis, águem.
PRESENTE DO SUBJUNTIVO
Conjugam-se como aguar: enxaguar,
1) ADERIR
desaguar etc.
Pres. do Indicativo → adiro, aderes, adere,
aderimos, aderis, aderem. Nota:
Atenção para com os verbos terminados por IGUAR
Conjugam-se como aderir os seguintes (= averiguar e apaziguar) que se conjugam assim:
verbos: ferir, despir, repelir, competir etc.
Pres. do Indicativo → averiguo, averiguas,
averigua, averiguamos, averiguais, averigam.
2) AGREDIR Pres. do Subjuntivo → (que eu) averigúe,
Pres. do Indicativo → agrido, agrides, averigúes, averigúe, averiguemos, averigueis, averigúem.
agride, agredimos, agredis, agridem.
4) CABER
Conjugam-se como agredir: progredir, Pres. do Indicativo → caibo, cabes, cabe,
regredir, transgredir, denegrir, cerzir, prevenir etc. cabemos, cabeis, cabem.

5) COLORIR
3) AGUAR Pres. do Indicativo → ––, colores, colore,
colorimos, coloris, colorem.
Pres. do Indicativo → águo, águas, água,
aguamos, aguais, águam. Pres. do Subjuntivo → não existe.
– 87
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6) CRER 12)POLIR
Pres. do Indicativo → creio, crês, crê, Pres. do Indicativo → pulo, pules, pule,
cremos, credes, crêem. polimos, polis, pulem.

7) HAVER Pres. do Subjuntivo → (que eu) pula, pulas,


Pres. do Indicativo → hei, hás, há, havemos, pula, pulamos, pulais, pulam.
haveis, hão. 13)PÔR
Pres. do Indicativo → ponho, pões, põe,
Pres. do Subjuntivo → (que eu) haja, hajas, pomos, pondes, põem.
haja, hajamos, hajais, hajam.
14)PROVER
8) IR É conjugado como o verbo VER.
Pres. do Indicativo → vou, vais, vai, vamos, Pres. do Indicativo → provejo, provês,
ides, vão. provê, provemos, proveis, proveêm.

15)REAVER
Pres. do Subjuntivo → (que eu) vá, vás, vá, É um verbo defectivo, derivado do verbo HAVER e
vamos, vades, vão. só é conjugado quando o verbo haver apresenta a letra V.
Pres. do Indicativo → nós reavemos, vós
9) MAQUIAR reaveis.
Pres. do Indicativo → maquio, maquias,
maquia, maquiamos, maquiais, maquiam.
Pres. do Subjuntivo → não existe.
16)REQUERER
Pres. do Subjuntivo → (que eu) maquie, Pres. do Indicativo → requeiro, requeres,
maquies, maquie, maquiemos, maquieis, maquiem. requer, requeremos, requereis, requerem.

10) NOMEAR 17)RIR


Pres. do Indicativo → nomeio, nomeias, Pres. do Indicativo → rio, ris, ri, rimos, rides,
nomeia, nomeamos, nomeais, nomeiam. riem.

Pres. do Subjuntivo → (que eu) ria, rias, ria,


Pres. do Subjuntivo → (que eu) nomeie,
riamos, riais, riam.
nomeies, nomeie, nomeemos, nomeeis, nomeiam.
18)TER
Pres. do Indicativo → tenho, tens, tem,
Conjugam-se como nomear os verbos
temos, tendes, têm.
passear, bloquear, barbear-se, banquetear-
19)VER
se, titubear etc.
Pres. do Indicativo → vejo, vês, vê, vemos,
vedes, vêem.
11) ODIAR
20)VIR
Pres. do Indicativo → odeio, odeias, odeia,
Pres. do Indicativo → venho, vens, vem,
odiamos, odiais, odeiam. vimos, vindes, vêm.

Pres. do Subjuntivo → (que eu) odeie, 21)ADEQUAR, PRECAVER-SE, FALIR etc. são
verbos defectivos, ou seja, só se conjugam na 1.a e 2.a
odeies, odeie, odiemos, odieis, odeiem. pessoa do plural do Presente do Indicativo, não
apresentando Presente do Subjuntivo.

Conjugam-se como odiar os verbos mediar, Exemplo: Presente do Indicativo:


adequar – nós adequamos, vós adequais
ansiar, remediar, incendiar. precaver-se – nós nos precavemos, vós vos precaveis
falir – nós falimos, vós falis
88 –
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MÓDULO 16 Verbos II

1. Imperativo Afirmativo 2. Imperativo Negativo


Não possui a primeira pessoa do singular; e as É inteiramente igual ao presente do subjuntivo (não
segundas pessoas (singular e plural) são formadas a perde “s”), apenas com apresentação formal diferente.
partir das correspondentes no presente do indicativo, Nota
com a eliminação do “s” final. O verbo ser é uma exceção para o imperativo
As demais pessoas são extraídas diretamente do afirmativo:
presente do subjuntivo, sem alterações. Sê tu
Sede vós
As demais pessoas seguem a regra geral

Presente Ind. Imperativo Afirm. Pres. Subjuntivo Imperativo Negativo

eu vejo veja

tu VÊS – s final ⎯⎯⎯→ VÊ (tu) vejas ⎯⎯⎯→ Não vejas (tu)

ele vê VEJA (você) ←⎯⎯⎯ VEJA ⎯⎯⎯→ Não veja (você)

nós vemos VEJAMOS (nós) ←⎯⎯⎯ VEJAMOS ⎯⎯⎯→ Não vejamos (nós)

vós VEDES – s final ⎯⎯⎯→ VEDE (vós) vejais ⎯⎯⎯→ Não vejais (vós)

eles vêem VEJAM (vocês) ←⎯⎯⎯ VEJAM ⎯⎯⎯→ Não vejam (vocês)

FORMAS NOMINAIS DO VERBO (3) Particípio

(1) Infinitivo Pessoal |


am ___
ar
é derivado do Infinitivo Impessoal + ado = amado

Exemplificando:
amar eu vender eu partir eu
vend ___
er |
+ ido = vendido
amares tu venderes tu partires tu
amar ele vender ele partir ele
amarmos nós vendermos nós partirmos nós
part ___
ir|
+ ido = partido
amardes vós venderdes vós partides vós
amarem eles venderem eles partirem eles
Notas:
a) O particípio regular dos verbos se caracteriza
(2) Gerúndio por terminar por ADO ou IDO. Porém, alguns verbos
têm o seu particípio irregular.
|
ama ___
r
+ ndo = amando
Exemplificando:
– fazer → feito
vende ___
r | – dizer → dito
+ ndo = vendendo – escrever → escrito
– ver → visto
|
parti ___
r
– vir → vindo
+ ndo = partindo
– pôr → posto

– 89
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b) Às vezes, um verbo apresenta duplo particípio: uma forma regular e outra irregular.

Exemplificando:

Infinitivo Particípio regular Particípio irregular

aceitar aceitado aceito, aceite


assentar assentado assento, assente
entregar entregado entregue
enxugar enxugado enxuto
expressar expressado expresso
expulsar expulsado expulso
fartar fartado farto
findar findado findo
ganhar ganhado ganho
gastar gastado gasto
isentar isentado isento
juntar juntado junto
limpar limpado limpo
matar matado morto
pagar pagado pago
salvar salvado salvo
acender acendido aceso
desenvolver desenvolvido desenvolto
eleger elegido eleito
envolver envolvido envolto
prender prendido preso
suspender suspendido suspenso
desabrir desabrido desaberto (só usados
como adjetivos)
erigir erigido ereto
exprimir exprimido expresso
extinguir extinguido extinto
frigir frigido frito
imprimir imprimido impresso
inserir inserido inserto
tingir tingido tinto

EMPREGO DO PARTICÍPIO

a) as formas regulares do particípio são empregadas com os verbos ter e haver.


Exemplificando:
– A direção da escola havia expulsado o seu pior aluno.
– A polícia não teria prendido uma pessoa inocente?
– Muitas vezes tenho pegado o bonde errado.

b) as formas irregulares do particípio são empregadas com os verbos ser e estar.


Exemplificando:
– O pássaro foi pego pelo menino.
– Percebi que as lâmpadas estavam acesas.
– A criança fora morta por uma bala perdida.

90 –
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MÓDULO 17 Verbos III

A) O PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →


E SEUS DERIVADOS
eu crera, tu creras... eles creram
1. Pretérito Mais-que-Perfeito do Indicativo
Futuro do Subjuntivo → quando eu crer,

quando tu creres, ... quando eles crerem


|
eles dera ____
m = dera
Imperfeito do Subjuntivo → se eu cresse,
– eu dera, tu deras, ele dera
se tu cresses, ... se eles cressem
– nós déramos, vós déreis, eles deram

2. Futuro do Subjuntivo
3) HAVER

Pret. Perfeito do Indicativo → eu houve, tu


|
eles der ____
am = der
houveste, ... eles houveram
– quando eu der, tu deres, ele der
– nós dermos, vós derdes, eles derem Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
eu houvera, tu houveras, ... eles houveram
3. Pretérito Imperfeito do Subjuntivo
Futuro do Subjuntivo → quando eu houver,
quando tu houveres, ... quando eles houverem
|
eles de ____
ram
____ = desse
+ sse Imperfeito do Subjuntivo → se eu

– se eu desse, tu desses, ele desse houvesse, se tu houvesses, ... se eles houverem


– nós déssemos, vós désseis, eles dessem

CONJUGAÇÃO DE ALGUNS VERBOS 4) IR / SER


NO PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO
E SEUS DERIVADOS
Pret. Perfeito do Indicativo → eu fui, tu

foste, ... eles foram


1) CABER
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
Pret. Perfeito do Indicativo → eu coube, tu eu fora, tu foras, ... eles foram
coubeste... eles couberam Futuro do Subjuntivo → quando eu for,
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo → quando tu fores, ... quando eles forem
eu coubera, tu couberas,... eles couberam Imperfeito do Subjuntivo → se eu fosse, se
Futuro do Subjuntivo → quando eu couber, tu fosses, ... se eles fossem

quando tu couberes... quando eles couberem

Inperfeito do Subjuntivo → se eu cou- 5) PÔR (e seus derivados: depor, repor, antepor,


supor, compor etc.)
besse, se tu coubesses,... se eles coubessem
Pret. Perfeito do Indicativo → eu pus, tu
2) CRER puseste, ... eles puseram
Pret. Perfeito do Indicativo → eu cri, tu Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
creste, ele creu,... eles creram eu pusera, tu puseras, ... eles puseram

– 91
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Futuro do Subjuntivo → quando eu puser, 9) QUERER

quando tu puseres, ... quando eles puserem Pret. Perfeito do Indicativo → eu quis, tu

Imperfeito do Subjuntivo → se eu pusesse, quiseste, ... eles quiseram

se tu pusesses, ... se eles pusessem Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →


eu quisera, tu quiseras, ... eles quiseram

6) PREVER (segue o verbo VER, em todos os Futuro do Subjuntivo → quando eu quiser,


tempos e modos) quando tu quiseres, ... quando eles quiserem
Pret. Perfeito do Indicativo → eu previ, tu Imperfeito do Subjuntivo → se eu
previste, ... eles previram quisesse, se tu quisesses, ... se eles quisessem
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
10) REQUERER (é regular no Pretérito Per-
eu previra, tu previras, ... eles previram
feito do Indicativo e seus derivados, conjugando-se
Futuro do Subjuntivo → quando eu previr, como VENDER)
quando tu previres, ... quando eles previrem Pret. Perfeito do Indicativo → eu requeri,
Imperfeito do Subjuntivo → se eu previsse, tu requereste, ele requereu, nós requeremos, vós
se tu previsses, ... se eles previssem requerestes, eles requereram

Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →


7) PROVER (segue o verbo VENDER) eu requerera, tu requereras, ... eles requereram
Pret. Perfeito do Indicativo → eu provi, tu Futuro do Subjuntivo → quando eu requerer,
proveste, ... eles proveram quando tu requereres, ... quando eles requererem
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo → Imperfeito do Subjuntivo → se eu reque-
eu provera, tu proveras, ... eles proveram resse, se tu requeresses, ... se eles requeressem
Futuro do Subjuntivo → quando eu prover,

quando tu proveres, quando eles proverem 11) REAVER (no Pret. Perf. do Ind. e seus deri-
vados, segue o verbo HAVER)
Imperfeito do Subjuntivo → se eu
Pret. Perfeito do Indicativo → eu reouve,
provesse, se tu provesses, ... se eles provessem
tu reouveste, ... eles reouveram

Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →


8) PROVIR (segue o verbo VIR)
eu reouvera, tu reouveras, ... eles reouveram
Pret. Perfeito do Indicativo → eu provim,
Futuro do Subjuntivo → quando eu reouver,
tu provieste, ... eles provieram
quando tu reouveres, ... quando eles reouverem
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
Imperfeito do Subjuntivo → se eu reou-
eu proviera, tu provieras, ... eles provieram
vesse, se tu reouvesses, ... se eles reouvessem
Futuro do Subjuntivo → quando eu provier,
quando tu provieres, ... quando eles provierem 12) SABER
Imperfeito do Subjuntivo → se eu Pret. Perfeito do Indicativo → eu soube, tu
proviesse, se tu proviesses, ... se eles proviessem soubeste, ... eles souberam

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Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo → Futuro do Subjuntivo → quando eu vier,

eu soubera, tu souberas, ... eles souberam quando tu vieres, ... quando eles vierem

Futuro do Subjuntivo → quando eu souber, Imperfeito do Subjuntivo → se eu viesse,

quando tu souberes, ... quando eles souberem se tu viesses, ... se eles viessem
Também merecem atenção no Pretérito Perfeito e
Imperfeito do Subjuntivo → se eu
seus derivados:
soubesse, se tu soubesses, ... se eles soubessem

16) DIZER

13) TER (e seus derivados: deter, manter, reter, Pret. Perfeito do Indicativo → eu disse, tu
entreter etc.) disseste, ele disse, nós dissemos, vós dissestes, eles
Pret. Perfeito do Indicativo → eu tive, tu disseram
tiveste, ... eles tiveram Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo → eu dissera, tu disseras, ...eles disseram
eu tivera, tu tiveras, ... eles tiveram Futuro do Subjuntivo → quando eu disser,

Futuro do Subjuntivo → quando eu tiver, quando tu disseres, ... quando eles disserem

quando tu tiveres, ... quando eles tiverem Imperfeito do Subjuntivo → se eu

Imperfeito do Subjuntivo → se eu tivesse, dissesse, se tu dissesses, ... se eles dissessem

se tu tivesses, ... se eles tivessem


17) FAZER
Pret. Perfeito do Indicativo → eu fiz, tu
14) VER (e seus derivados: rever, antever, pre-
fizeste, ele fez, nós fizemos, vós fizestes, eles fizeram
ver, entrever etc.)
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
Pret. Perfeito do Indicativo → eu vi, tu
eu fizera, tu fizeras, ...eles fizeram
viste, ... eles viram
Futuro do Subjuntivo → quando eu fizer,
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo → quando tu fizeres, ... quando eles fizerem
eu vira, tu viras, ... eles viram
Imperfeito do Subjuntivo → se eu fizesse,
Futuro do Subjuntivo → quando eu vir,
se tu fizesses, se ele fizesse, ... se eles fizessem
quando tu vires, ... quando eles virem

Imperfeito do Subjuntivo → se eu visse, se


18) TRAZER
tu visses, ... se eles vissem Pret. Perfeito do Indicativo → eu trouxe, tu
trouxeste, ... eles trouxeram

15) VIR (e seus derivados: intervir, provir, advir, Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
desavir-se etc.) eu trouxera, tu trouxeras, ... eles trouxeram
Pret. Perfeito do Indicativo → eu vim, tu Futuro do Subjuntivo → quando eu trouxer,
vieste, ... eles vieram quando tu trouxeres, ... quando eles trouxerem

Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo → Imperfeito do Subjuntivo → se eu

eu viera, tu vieras, ... eles vieram trouxesse, se tu trouxesses, ... se eles trouxessem

– 93
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19) APRAZER amar ia


Pret. Perfeito do Indicativo → eu aprouve,
tu aprouveste, ele aprouve, ... eles aprouveram amar íamos
Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →
eu aprouvera, tu aprouveras, ... eles aprouveram amar íeis
Futuro do Subjuntivo → quando eu aprouver,
quando tu aprouveres, ... quando eles aprouverem amar iam

Imperfeito do Subjuntivo → se eu
aprouvesse, se tu aprouvesses, ... se eles aprouvessem Nota:
Merecem atenção, no Futuro do Presente do Indica-
tivo e no Futuro do Pretérito do Indicativo, os verbos:
20) ESTAR
FAZER, DIZER, TRAZER (nos quais desaparece o
Pret. Perfeito do Indicativo → eu estive, tu ZE).

estiveste, ... eles estiveram Exemplificando:

Pret. Mais-que-Perfeito do Indicativo →


eu estivera, tu estiveras, ... eles estiveram [ – fa ze r + ei = farei
– fa ze r + ia = faria
Futuro do Subjuntivo → quando eu estiver,
quando tu estiveres, ... quando eles estiverem [ – di ze r + ei = direi
– di ze r + ia = diria
Imperfeito do Subjuntivo → se eu
estivesse, se tu estivesses, ... se eles estivessem [ – tra ze r + ei = trarei
– tra ze r + ia = traria

B) INFINITIVO IMPESSOAL E SEUS


DERIVADOS (3) Pretérito Imperfeito do Indicativo

(1) Futuro do Presente do Indicativo também é derivado do Infinitivo Impessoal

amar ei
ama __
r|
+ va = amava
amar ás

amar á vend ___


er |
+ ia = vendia

amar emos

|
part ___
ir
amar eis + ia = partia

Fazem exceção os verbos:


amar ão
– SER → eu era
(2) Futuro do Pretérito do Indicativo
– ESTAR → eu estava

amar ia – TER → eu tinha

– VIR → eu vinha
amar ias
– PÔR → eu punha
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MÓDULO 18 Níveis de Linguagem


1. LÍNGUA E LINGUAGEM porque os sinais gráficos não conse- quanto da linguagem culta. Obvia-
guem registrar grande parte dos ele- mente a linguagem popular é mais
Língua é um sistema de códigos mentos da fala, como o timbre da voz, usada na fala, nas expressões orais
usado para facilitar o entendimento a entonação, e ainda os gestos e a cotidianas. Porém, nada impede que
entre os elementos de um grupo so- expressão facial. Na realidade a lín- ela esteja presente em poesias (o
cial. Por isso, a língua é uniforme e gua falada é mais descontraída, es- Movimento Modernista Brasileiro
visa a padronizar a linguagem. pontânea e informal, porque se ma- procurou valorizar a linguagem po-
A linguagem, porém, é individual e nifesta na conversação diária, na sen- pular), contos, crônicas e romances
flexível e pode variar dependendo da sibilidade e na liberdade de ex- em que o diálogo é usado para repre-
idade, cultura, posição social, profissão pressão do falante. Nessas situações sentar a língua falada.
etc. A maneira de articular as palavras, informais, muitas regras determinadas
organizá-las na frase, no texto, deter- pela língua padrão são quebradas em ❑ A Linguagem
mina nossa linguagem, nosso estilo nome da naturalidade, da liberdade Popular ou Coloquial
(forma de expressão pessoal). de expressão e da sensibilidade É aquela usada espontânea e
As inovações linguísticas, criadas estilística do falante. fluentemente pelo povo. Mostra-se
pelo falante, provocam, com o de- Sob o impacto do cinema, do rá- quase sempre rebelde à norma gra-
correr do tempo, mudanças na es- dio, da televisão, das histórias em qua- matical e é carregada de vícios de
trutura da língua, que só as incorpora drinhos e do computador, a língua linguagem (solecismo – erros de
muito lentamente, depois de aceitas escrita tende a ser direta, sintética, regência e concordância; barbarismo
por todo o grupo social. Muitas novi- despojada, eficaz. A língua falada, por – erros de pronúncia, grafia e flexão;
dades criadas na linguagem não vin- sua vez, ganha um espaço privilegiado ambiguidade; cacofonia; pleonasmo),
gam na língua e caem em desuso. nesta época em que predominam os expressões vulgares, gírias e prefe-
meios de comunicação audiovisual. rência pela coordenação, que ressal-
2. LÍNGUA ESCRITA ta o caráter oral e popular da língua. A
3. LINGUAGEM POPULAR linguagem popular está presente nas
E LÍNGUA FALADA E LINGUAGEM CULTA conversas familiares ou entre amigos,
A língua escrita não é a simples A língua falada e a escrita podem anedotas, irradiação de esportes, pro-
reprodução gráfica da língua falada, valer-se tanto da linguagem popular gramas de TV e auditório, novelas, na
expressão dos estados emocionais
etc.

❑ A Linguagem
Culta ou Padrão
É aquela ensinada nas escolas e
serve de veículo às ciências em que
se apresenta com terminologia es-
pecial. É usada pelas pessoas ins-
truídas das diferentes classes sociais
e caracteriza-se pela obediência às
normas gramaticais. Mais comumente
usada na linguagem escrita e literária,
reflete prestígio social e cultural. É
mais artificial, mais estável, menos
sujeita a variações. Está presente nas
aulas, conferências, sermões, discur-
sos políticos, comunicações científi-
cas, noticiários de TV, programas
culturais etc.

4. GÍRIA

Segundo Mattoso Câmara Júnior,


“estilo literário e gíria são, em ver-
dade, dois polos da Estilística, pois
gíria não é a linguagem popular,

– 95
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como pensam alguns, mas apenas


um estilo que se integra à língua po- fininho e some. Mas, às vezes, vol- no chão.
pular”. Tanto que nem todas as pes- ta arrebentando, sem o menor — Buenas. Vá entrando e se
soas que se exprimem através da lin- aviso. Afinal, qual é a da gíria? abanque, índio velho.
guagem popular usam gíria. (Cássio Schubsky, — O senhor quer que eu deite
A gíria relaciona-se ao cotidiano de Superinteressante) logo no divã?
certos grupos sociais “que vivem à — Bom, se o amigo quiser
margem das classes dominantes: os dançar uma marcha, antes, esteja
estudantes, esportistas, prostitutas, 5. LINGUAGEM VULGAR a gosto. Mas eu prefiro ver o
ladrões” (Dino Preti) como arma de vivente estendido e charlando
defesa contra as classes dominantes. Existe uma linguagem vulgar, se- que nem china da fronteira, pra
Esses grupos utilizam a gíria como gundo Dino Preti, “ligada aos grupos não perder tempo nem dinheiro.
meio de expressão do cotidiano, para extremamente incultos, aos analfa- (Luís Fernando Veríssimo,
que as mensagens sejam decodifi- betos”, aos que têm pouco ou ne- O Analista de Bagé)
cadas apenas por eles mesmos. nhum contato com centros civili-
Assim a gíria é criada por deter- zados. Na linguagem vulgar multi-
minados grupos que divulgam o pa- plicam-se estruturas com “nóis vai,
lavreado para outros grupos até ele fica”, “eu di um beijo nela”,
chegar à mídia. Os meios de comu- Ex.: falar caipira.
“Vamo i no mercado”.
nicação de massa, como a televisão e
o rádio, propagam os novos vocá- 6. LINGUAGEM REGIONAL
bulos, às vezes, também inventam Aos dezoito anos pai Norato
Regionalismos ou falares locais deu uma facada num rapaz, num
alguns. A gíria que circula pode aca-
são variações geográficas do uso da adjutório, e abriu o pé no mundo.
bar incorporada pela língua oficial,
língua padrão, quanto às cons- Nunca mais ninguém botou os
permanecer no vocabulário de pe-
truções gramaticais e empregos de olhos em riba dele, afora o afilha-
quenos grupos ou cair em desuso.
certas palavras e expressões. Há, no do.
Ex.: “chutar o pau da barraca”,
Brasil, por exemplo, os falares ama- — Padrinho, evim cá chamá o
“viajar na maionese”, “delirar na goia-
zônico, nordestino, baiano, flumi- sinhô pra mode i morá mais eu.
bada”, “pirar na batatinha”, “galera”,
nense, mineiro, sulino. — Quá, fio, esse caco de gente
“mina”, “chuchuzinho”, “tipo assim”.
Ex.: falar gaúcho. num sai daqui mais não.
— Bamo. Buli gente num bole,
Primeiro, ela pinta como quem Pues, diz que o divã no con- mais bicho… O sinhô anda per-
não quer nada. Chega na moral, sultório do analista de Bagé é for- rengado…
dando uma de Migué, e acaba rado com um pelego. Ele recebe
caindo na boca do povo. Depois os pacientes de bombacha e (Bernardo Élis, Pai Norato)
desbaratina, vira lero-lero, sai de pé

PAPOS
— Me disseram... — É para o seu bem. — Esquece.
— Disseram-me. — Dispenso as suas correções. Vê — Não. Como “esquece”? Você
— Hein? se esquece-me. Falo como bem enten- prefere falar errado? E o certo é “es-
— O correto é “disseram-me”. Não der. Mais uma correção e eu... quece” ou “esqueça”? Ilumine-me. Mo
“me disseram”. — O quê? diga. Ensine-lo-me, vamos.
— Eu falo como quero. E te digo — O mato. — Depende.
mais... Ou é “digo-te”? — Que mato?
— O quê? — Depende. Perfeito. Não o sabes.
— Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas
— Digo-te que você...
Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?
— O “te” e o “você” não combinam. não sabe-o.
— Eu só estava querendo...
— Lhe digo? — Está bem, está bem. Desculpe.
— Pois esqueça-o e pára-te.
— Também não. O que você ia me Fale como quiser.
dizer? Pronome no lugar certo é elitismo!
— Agradeço-lhe a permissão para
— Que você está sendo grosseiro, — Se você prefere falar errado...
— Falo como todo mundo fala. O falar errado que mas dás. Mas não
pedante e chato. E que eu vou te partir a
importante é me entenderem. Ou enten- posso dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara.
derem-me? — Por quê?
Como é que se diz?
— Partir-te a cara. — No caso... não sei. — Porque, com todo este papo,
— Pois é. Partila-hei de, se você não — Ah, não sabe? Não o sabes? esqueci-lo.
parar de me corrigir. Ou corrigir-me. Sabes-lo não? (Luis Fernando Verissimo)

96 –