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FRENTE 2 Literatura

MÓDULO 37 Pré-Modernismo I
1. CONCEITO E ÂMBITO rastreado em Euclides da Cunha, operariado e pelo subproletariado,
Lima Barreto, Monteiro Lobato e novos atores que, ainda timidamente,
O Pré-Modernismo não confi- Graça Aranha. se projetam na cena política.
gura um estilo literário ou uma O período pré-modernista convi- Entre os fatos históricos que mar-
escola, com um programa definido, veu com diversas correntes do século cam o período, destacamos: a Revolu-
com propostas estéticas específicas. XIX, que já se iam esgotando quando ção de Canudos, o fenômeno do
Não é como o Romantismo, Realismo, da “explosão” modernista de 1922. cangaço e do fanatismo religioso, no
Simbolismo etc. Trata-se de um Daí o caráter de estagnação, de Nordeste; a Revolta da Chibata, a
período cronológico marcado imobilismo que impregnou a literatura revolta contra a vacina obrigatória, no
pelo sincretismo (= fusão, mistura) oficial das academias e salões literá- Rio de Janeiro; a Guerra do Contes-
de diversas tendências, identificado rios, que assistiram (= ampararam) os tado, em Santa Catarina; as greves
primeiramente por Tristão de Ataíde últimos suspiros do Parnasianismo operárias dos imigrantes do Brás e da
(Alceu de Amoroso Lima), que cu- (Alberto de Oliveira, Raimundo Mooca, em São Paulo (1917).
nhou a expressão Pré-Moder nismo Correia, Bilac, Vicente de Carvalho
para designar um conjunto de autores ainda escreviam); do Neoparnasia- 3. EUCLIDES DA CUNHA
que, entre 1902 (Os Sertões, de nismo (Amadeu Amaral e Martins (1866-1909)
Euclides da Cunha, e Canaã, de Gra- Fontes); da prosa tradicionalista
ça Aranha) e 1922 (Semana de Arte de feitio clássico (Rui Barbosa e "Misto de celta, de tapuia
Moderna), representam a aliança ou Joaquim Nabuco); do regionalismo e grego", como se autodefinia, Eu-
transição entre as correntes do fim realista-naturalista (Simões clides da Cunha foi militar (expulso
do século XIX e antecipações da Lopes Neto, Valdomiro Silveira, do Exército), engenheiro, jornalista,
modernidade. Afonso Arinos) e até neoclássicos professor, acadêmico e grande es-
Assim, as chamadas correntes e neorromânticos encontraram critor.
pré-modernistas marcam-se por uma espaço para suas tardias manifesta- Acompanhou, como correspon-
antinomia: o moderno versus o an- ções. dente do jornal A Província de São
timoderno, a renovação versus o Em síntese, quanto à linguagem e Paulo (hoje O Estado), as operações
conservadorismo, aliando (= sin- ao estilo, os pré-modernistas expres- do Exército contra os rebeldes de
cretizando) tendências diversas. sam-se como realistas, naturalis- Canudos, permanecendo no Sertão da
• O aspecto conservador, an- tas, impressionistas, simbolis- Bahia de agosto a outubro de 1897.
timoderno, pode ser localizado na tas, assimilando em graus diferentes Em 1898 e 1901, escreveu, pri-
sobrevivência da mentalidade as características desses estilos. meiro em Descalvado, depois em São
positivista e determinista dos realistas Quanto aos temas, ao conteúdo, é José do Rio Pardo, Os Sertões, cuja
(naturalistas) e parnasianos, e no que se aproximam dos modernos, publicação, em 1902, alcançou reper-
estilo, no código, na linguagem, que, pelo compromisso com a realidade cussão nacional.
com poucas ousadias, perma- brasileira: o sertão da Bahia (Eu- Além de Os Sertões, deixou ou-
neceram fiéis aos modelos realistas clides da Cunha); o subúrbio ca- tros livros sobre problemas brasileiros:
(Machado, Aluísio, Eça, Zola, Flau- rioca (Lima Barreto); o Vale do Contrastes e Confrontos, À Margem
bert, Balzac). Vale observar que o Paraíba paulista (Monteiro Loba- da História, Peru versus Bolívia, Re-
Modernismo de 1922 representou, so- to); a adaptação do imigrante ao latório sobre o Alto Purus.
bretudo, uma ruptura em termos de trópico (Graça Aranha).
linguagem, do código, e, nesse sen- ❑ Características
tido, os pré-modernistas foram, em 2. O CONTEXTO HISTÓRICO • O cientista e o artista
diferentes medidas, antimodernos. Primeiro grande pensador social
• O aspecto antecipador da As primeiras décadas do século brasileiro, Euclides da Cunha harmo-
modernidade localiza-se mais em XX têm como marca a contradição niza o rigor científico, a erudi-
nível do conteúdo, na problema- entre a postura tradicionalista da oli- ção, a formação positivista e
tização da realidade brasileira, na garquia rural e a inquietação dos se- determinista, a exatidão do ma-
crítica às instituições arcaicas, no tores urbanos, esta última matizada de temático e engenheiro, com a
regionalismo crítico e vigoroso e no diversas tendências assimiladas da paixão pela palavra e a potên-
espírito inconformista e rebelde que, América do Norte e da Europa, pelo cia verbal, provando que a arte e a
de diversas maneiras, pode ser imigrante, pela classe média, pelo ciência não se opõem.

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• Crítica Reflete a preguiça invencível, a da realidade brasileira contemporâ-


Sua obra Os Ser tões analisa e atonia9 muscular perene10, em tudo: nea e, por outro lado, a história de um
procura compreender o fenômeno do na palavra remorada11, no gesto con- homem que se realizou pelo amor e
fanatismo religioso no sertão, espe- trafeito, no andar desaprumado, na pela satisfação de seus ideais.
cialmente o caso Canudos. Apresenta cadência langorosa12 das modi- nhas,
visão determinista: A Terra, O Homem, na tendência constante à imobilidade 5. LIMA BARRETO
A Luta (meio, raça, momento). e à quietude. (1881-1922)
Primeira denúncia vigorosa que Entretanto, toda esta aparência
se faz na cultura brasileira contra a de cansaço ilude.
miséria e o abandono em que vive o (Euclides da Cunha, Os Sertões)
sertanejo.
Vocabulário
1 – Desempeno: elegância. 2 – Hércules: figura
TEXTO mitológica, símbolo de força física. Quasímodo:
o corcunda de Notre-Dame, símbolo de feiura.
3 – Fealdade: feiura. 4 – Aprumo: elegância,
(fragmento)
altivez. 5 – Displicência: tédio, apatia. 6 – So-
O sertanejo é, antes de tudo, um frear: refrear. 7 – Espenda: parte da sela sobre
a qual assenta a coxa. 8 – Celeremente: rapi-
forte. Não tem o raquitismo exaustivo
damente. 9 – Atonia: fraqueza. 10 – Perene:
dos mestiços neurastênicos do litoral. eterno. 11 – Remorado: demorado. 12 – Lan-
A sua aparência, entretanto, ao goroso: lânguido, lento, arrastado.
primeiro lance de vista, revela o con-
trário. Falta-lhe a plástica impecável, o 4. GRAÇA ARANHA
desempeno1, a estrutura corretíssima (1868-1931)
das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, ❑ Dados biográficos Lima Barreto.
torto. Hércules-Quasímodo2, reflete no – Nasceu em São Luís do Mara-
aspecto a fealdade3 típica dos fracos. nhão; ❑ Obras
O andar sem firmeza, sem aprumo4, – foi discípulo de Tobias Barreto; Recordações do Escrivão Isaías
quase gingante e sinuoso, aparenta a – participou da Semana de Arte Caminha (romance) – 1909
translação de membros desarticula- Moderna; Triste Fim de Policarpo Quaresma
dos. Agrava-o a postura normalmen- – faleceu no Rio de Janeiro. (romance) – 1911 (em folhetins) e
te abatida, num manifestar de displi- 1915 (em livro)
cência5 que lhe dá um caráter de hu- ❑ Obras Numa e Ninfa (romance da vida
mildade deprimente. A pé, quando Canaã (romance) contemporânea) – 1915
parado, recosta-se invariavelmente ao Malasarte (drama folclórico em Vida e Morte de M. J. Gonzaga
primeiro umbral ou parede que encon- três atos) de Sá (romance) – 1919
tra; a cavalo, se sofreia6 o animal para Estética da Vida (obra filosófica) Histórias e Sonhos (contos) – 1956
trocar duas palavras com um conhe- Viagem Maravilhosa (romance) Cemitério dos Vivos (incompleto)
cido, cai logo sobre um dos estribos, “Espírito Moderno” (conferência) – 1956
descansando sobre a espenda7 da “A Emoção Estética na Arte Mo- Clara dos Anjos (romance) – 1948
sela. Caminhando, mesmo a passo derna” (conferência)
rápido, não traça trajetória retilínea e ❑ Apreciação crítica
firme. Avança celeremente8, num ❑ Apreciação crítica Recordações do Escrivão Isaías
bambolear característico, de que Canaã, romance ao qual deveu Caminha, romance em primeira pes-
parecem ser o traço geométrico os sua celebridade, é construído a partir soa, autobiográfico, retrata a vida de
meandros das trilhas sertanejas. E se da observação de uma pequena um grande jornal da época. Sátira a
na marcha estaca pelo motivo mais comunidade de imigrantes alemães figurões da imprensa e das letras.
vulgar, para enrolar um cigarro, bater (Milkau e Lentz), no Espírito Santo, Extravasamento de suas decepções
o isqueiro, ou travar ligeira conversa evidenciando o contraste entre o ale- e revoltas.
com um amigo, cai logo — cai é o mão, fruto de uma civilização euro- Romance em terceira pessoa,
termo — de cócoras, atravessando peia adiantada, e o miserável homem Triste Fim de Policarpo Quaresma
largo tempo numa posição de equi- rural e provinciano brasileiro. mostra com clareza o ridículo e paté-
líbrio instável, em que todo o seu cor- Malasarte, drama característico tico de um nacionalismo fanatizante e
po fica suspenso pelos dedos simbolista, representa o conflito do anacrônico. O maior sonho de Policar-
grandes dos pés, sentado sobre os indivíduo, dividido entre o desejo vio- po é “o tupi como língua oficial no
calcanhares, com uma simplicidade lento dos prazeres e as forças da mo- Brasil”.
a um tempo ridícula e adorável. ral (Malasarte, Dionísia e Eduardo). Clara dos Anjos, romance auto-
É o homem permanentemente fa- Viagem Maravilhosa procurou, biográfico, é a triste ruína de um ho-
tigado. por um lado, oferecer uma visão total mem que se entrega à embriaguez.
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num uníssono sustentado. Suspen- com uma enorme saúva agarrada


TEXTO
deram um instante a música. O major com toda a fúria à sua pele magra.
apurou o ouvido; o ruído continuava. Descobriu a origem da bulha. Eram
(fragmento) Que era? Eram uns estalos tênues; formigas que, por um buraco no
parecia que quebravam gravetos, assoalho, lhe tinham invadido a des-
A casa estava em silêncio; do la- que deixavam outros cair ao chão... pensa e carregavam as suas reservas
do de fora, não havia a mínima bu- Os sapos recomeçaram; o regente de milho e feijão, cujos recipientes
lha1. Os sapos tinham suspendido um deu uma martelada e logo vieram os tinham sido deixados abertos por
instante a sua orquestra noturna. baixos e os tenores. Demoraram mui- inadvertência3. O chão estava negro,
Quaresma lia; e lembrava-se que to; Quaresma pôde ler umas cinco e, carregadas com os grãos, elas, em
Darwin escutava com prazer esse páginas. Os batráquios2 pararam; a pelotões cerrados, mergulhavam no
concerto dos charcos. Tudo na nossa bulha continuava. O major levantou- solo em busca da sua cidade subter-
terra é extraordinário! pensou. Da se, agarrou o castiçal e foi à depen- rânea.
despensa, que ficava junto a seu dência da casa donde partia o ruído, (Lima Barreto,
aposento, vinha um ruído estranho. assim mesmo como estava, em ca- Triste Fim de Policarpo Quaresma)
Apurou o ouvido e prestou atenção. misa de dormir.
Os sapos recomeçaram o seu hino. Abriu a porta; nada viu. Ia pro- Vocabulário
Havia vozes baixas, outras mais altas curar nos cantos, quando sentiu uma 1 – Bulha: barulho.
e estridentes; uma se seguia à outra, ferroada no peito do pé. Quase gritou. 2 – Batráquio: sapo.
num dado instante todas se juntaram Abaixou a vela para ver melhor e deu 3 – Inadvertência: descuido.

MÓDULO 38 Pré-Modernismo II
1. MONTEIRO LOBATO ❑ Apreciação crítica cócoras enquanto o Brasil esperava
(1882-1948) “A sua obra é variada: contos, por ele”, na famosa figura de Jeca
crônicas e artigos, ensaios quase Tatu; depois se desculpou, falando
❑ Vida das difíceis condições da vida do cam-
panfletários, e literatura infantil. Des-
Nasceu na chácara do Visconde ponês. Atacou publicamente o Mo-
taca-se aqui o sentido da obra do
de Tremembé, seu avô materno, hoje dernismo, no artigo “Paranoia ou
contista de feitio regionalista. Ela está
conhecida como Chácara do Pica- Mistificação?”, de 1917, escrito a pro-
presa à experiência no interior, com-
Pau Amarelo. Formou-se em Direito pósito de uma exposição de Anita
preendido sobretudo nos limites da
em São Paulo, tendo participado in- Malfatti. A principal característica de
região que se denominaria das ‘cida-
tensamente de atividades políticas es- sua linguagem é a oralidade.
des mortas’, onde brilhou o fausto das
tudantis. Fundou a Companhia
grandes fazendas de café do século
Editora Nacional; incentivou as cam-
passado [XIX]. Constitui-se assim de TEXTO
panhas do petróleo e do ferro, fun-
flagrantes bem apanhados do homem
dando, em 1931, a Cia. Petróleo do UM HOMEM DE CONSCIÊNCIA
e da paisagem, embora tomados nos
Brasil. Foi preso por escrever carta ao
seus aspectos exteriores, para nos
ditador Getúlio Vargas sobre o proble- Chamava-se João Teodoro, só. O
comunicar a sugestão de marasmo e
ma do petróleo brasileiro. Mudou-se mais pacato e modesto dos homens.
indolência reinantes. E não disfarça
para a Argentina, regressando no ano Honestíssimo, com um defeito ape-
inteiramente o propósito de denúncia
seguinte, 1947. nas: não dar o mínimo valor a si pró-
de uma situação de indiferença,
❑ Obras deplorável. Por exemplo, Urupês e prio. Para João Teodoro, a coisa de
Urupês (doze histórias tiradas do Cidades Mortas, os dois primeiros menos importância no mundo era
sertão paulista) – 1918 livros que deram consagração e João Teodoro.
Ideias de Jeca Tatu – 1918 popularidade ao A.” Nunca fora nada na vida, nem ad-
Cidades Mortas – 1919 mitia a hipótese de vir a ser alguma
Negrinha (contos) – 1920 (Antonio Candido e J. A. Castello, coisa. E por muito tempo não quis
O Macaco que se Fez Homem – Presença da Literatura Brasileira II, nem sequer o que todos ali queriam:
1923 pp. 348-9) mudar-se para terra melhor.
A Barca de Gleyre (correspon- Mas João Teodoro acompanhava
dência com Godofredo Rangel) – 1944 A principal faceta de sua produ- com aperto de coração o depere-
ção literária são os contos, de cunho cimento1 visível de sua Itaoca.
• Literatura Infantil regionalista, que enfocam o homem e — Isto já foi muito melhor, dizia
Reinações de Narizinho a paisagem da região que se denomi- consigo. Já teve três médicos bem
Viagem ao Céu naria “das ‘cidades mortas’”, isto é, o bons, agora só um e bem ruinzote. Já
O Picapau Amarelo decadente Vale do Paraíba. Criticou teve seis advogados e hoje mal dá
Emília no País da Gramática etc. a indolência do caboclo, “sempre de serviço para um rábula2 ordinário
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como o Tenório. Nem circo de cavali- 2. AUGUSTO DOS ANJOS ❑ “Não sou capaz de amar
nhos bate mais por aqui. A gente que (1884-1914) mulher alguma!”
presta se muda. Fica o restolho3. De- “Se algum dia o prazer vier
cididamente, a minha Itaoca está-se ❑ Vida procurar-me, dize a este
acabando... Paraibano, desde a infância enfer- monstro que fugi de casa!”
João Teodoro entrou a incubar4 a miço e nervoso, é, a rigor, um poeta O asco do prazer é expresso de
ideia de também mudar-se, mas para inclassificável. Sua obra é constituída maneira contundente; a relação entre
isso necessitava dum fato qualquer de um único livro — Eu (1912) —, os sexos é apenas “a matilha espan-
que o convencesse de maneira abso- que, reeditado em 1919, passou a tada dos instintos”, ou, “parodiando
luta de que Itaoca não tinha mesmo chamar-se Eu e Outras Poesias. saraus cínicos, / bilhões de centros-
conserto ou arranjo possível. Transformado em catecismo dos somas apolínicos / na câmara promís-
— É isso, deliberou lá por dentro. pessimistas e em bíblia dos azarados cua do vitellus”.
Quando eu verificar que tudo está e malditos, o livro Eu é de uma insti- Reduzindo o amor humano à ce-
perdido, que Itaoca não vale mais na- gante popularidade, resistente a to- ga e torpe luta de células, cujo fim
da de nada, então arrumo a trouxa e dos os modismos, impermeável às não é senão criar um projeto de ca-
boto-me fora daqui. retaliações da crítica e aos vermes do dáver, o poeta aspira, como Cruz e
Um dia aconteceu a grande novi- tempo. Foi o poeta mais original de Sousa, à imortalidade gélida, mas lu-
dade: a nomeação de João Teodoro nossa literatura, no período que vai minosa, de outros mundos onde não
para delegado. Nosso homem rece- de Cruz e Sousa aos modernistas. lateje a vida-instinto, a vida-carne, a
beu a notícia como se fosse uma ca- vida-corrupção.
cetada no crânio. Delegado, ele! Ele ❑ “Eu, filho do carbono e do
que não era nada, nunca fora nada, amoníaco” As minhas roupas, quero até rompê-las!
Quero, arrancado das prisões carnais,
não queria ser nada, não se julgava As leituras precoces de Darwin, Viver na luz dos astros imortais,
capaz de nada... Haeckel, Lamarck, Schopenhauer e Abraçado com todas as estrelas!
Ser delegado numa cidadezinha outros, feitas na biblioteca de seu pai, (Augusto dos Anjos, “Queixas Noturnas”)
daquelas é coisa seriíssima. Não há fundamentaram a postura existencial
cargo mais importante. É o homem que do poeta, a adesão ao Evolucionismo ❑ “As palavras se desintegram
prende os outros, que solta, que man- de Darwin e Spencer e a angústia fun- na minha boca como
da dar sovas, que vai à capital falar da, letal, ante a fatalidade que arrasta cogumelos mofados.”
com o governo. Uma coisa colossal toda a carne para a decomposição. (von Hofmannsthal)
ser delegado — e estava ele, João Fundem-se a visão cósmica e o deses- Augusto dos Anjos vale-se muitas
Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca!... pero radical, produzindo uma poesia vezes de técnicas expressionistas
João Teodoro caiu em meditação violenta e nova em língua portugue- na montagem de seus textos. O
profunda. Passou a noite em claro, sa. Combinou inovações arrojadas expressionismo, corrente estética
pensando e arrumando as malas. Pe- com elementos provindos do Parna- situada nos limiares do Modernismo,
la madrugada botou-as num burro, sianismo e do Simbolismo. representou uma reação contra o
montou no seu cavalinho magro e impressionismo, contra o gosto pela
A IDEIA
partiu. nuance, contra o refinamento e
Antes de deixar a cidade foi visto De onde ela vem?! De que matéria bruta sutileza na captação do momento.
por um amigo madrugador. Vem essa luz que sobre as nebulosas A imagem é intencionalmente de-
— Que é isso, João? Para onde Cai de incógnitas criptas misteriosas formada e agrupada de maneira des-
se atira tão cedo, assim de armas e Como as estalactites duma gruta?! concertante, por meio da transfigu-
bagagens? ração da realidade. Em lugar da
Vem da psicogenética e alta luta
— Vou-me embora; respondeu o delicadeza e da suavidade, a imagem
Do feixe de moléculas nervosas,
retirante. Verifiquei que Itaoca chegou Que, em desintegrações maravilhosas,
é deformada, por meio de um dese-
mesmo ao fim. Delibera, e depois, quer e executa! nho violento, que acentua e barbariza
— Mas, como? Agora que você a forma, aproximando-se, às vezes,
está delegado? Vem do encéfalo1 absconso2 que a cons- do grotesco e da caricatura.
— Justamente por isso. Terra em [tringe, Daí o “mau gosto”, o “apoético”
que João Teodoro chega a delegado, Chega em seguida às cordas da laringe, que, em Augusto dos Anjos, são con-
eu não moro. Adeus. Tísica, tênue, mínima, raquítica... vertidos em poesia. O jargão científico
E sumiu. e o termo técnico, tradicionalmente pro-
Quebra a força centrípeta que a amarra, saicos, não devem ser abstraídos de
(Monteiro Lobato, Cidades Mortas) Mas, de repente, e quase morta, esbarra um contexto que os exige e os justifica.
No molambo3 da língua paralítica!
Fazia-se mister uma simbiose de ter-
Vocabulário (Augusto dos Anjos)
1 – Deperecimento: definhamento.
mos que definissem toda a estrutura
2 – Rábula: advogado de limitada cultura. Vocabulário da vida (vocabulário físico, químico e
3 – Restolho: resto, sobra. 1 – Encéfalo: cérebro. 2 –Absconso: recôndito, biológico) e termos que exprimissem
4 – Incubar: planejar. oculto. 3 – Molambo: trapo. o asco e o horror ante a existência.
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Apoiando-se na hipérbole, no pa- Acostuma-te à lama que te espera! Dissolva-se, portanto, minha vida
radoxo e na exploração de efeitos so- O Homem, que, nesta terra miserável, Igualmente a uma célula caída
noros, Augusto dos Anjos funde a Mora entre feras, sente inevitável Na aberração de um óvulo infecundo;
Necessidade de também ser fera.
inflexão simbolista e a retórica cientifi-
Mas o agregado abstrato das saudades
cista, criando uma dicção singular, que
Toma um fósforo, acende teu cigarro! Fique batendo nas perpétuas grades
projeta a hipersensibilidade e a visão O beijo amigo é a véspera do escarro, Do último verso que eu fizer no mundo!
trágica e mórbida da existência. A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Observe, nos versos a seguir, o (Augusto dos Anjos)
jogo de aliterações e efeitos sonoros: Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga, Vocabulário
“Tísica, tênue, mínima, raquítica...”,
Escarra nessa boca que te beija! 1 – Diatomácea: micro-organismo que tem ca-
“Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento”, “Cinzas,
pacidade de sintetizar substâncias orgâni-
caixas cranianas, cartilagens” , “De
(Augusto dos Anjos) cas a partir de substâncias inorgânicas.
aberratórias abstrações abstrusas”, “Bruto, de
2 – Criptógama: espécie vegetal que não se
errante rio, alto e hórrido, o urro / reboava”, “À
reproduz por meio de flores: as algas, os
híspida aresta sáxea áspera e abrupta.” BUDISMO MODERNO
musgos, os liquens e as samambaias.
3 – Esbroar: reduzir(-se) a pequenos fragmen-
TEXTOS Tome, Dr., esta tesoura, e… corte tos, a pó.
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
VERSOS ÍNTIMOS Todo o meu coração, depois da morte?!

Vês! Ninguém assistiu ao formidável Ah! um urubu pousou na minha sorte!


Enterro de tua última quimera. Também, das diatomáceas1 da lagoa
Somente a Ingratidão — esta pantera — A criptógama2 cápsula se esbroa3
Foi tua companheira inseparável! Ao contato de bronca destra forte!

MÓDULO 39 Fernando Pessoa I e Mário de Sá-Carneiro


1. A ERA DA MÁQUINA um terço da população mundial ❑ Os “ismos” europeus
permanece subdesenvolvida, mor- Expressionismo: estilo artísti-
(...) rendo de peste ou de fome antes dos co no qual a comunicação direta do
Eia! eia! eia! trinta anos, à margem desse im- sentimento e da emoção é objetivo
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria! pressionante progresso material, nu- fundamental. As obras expressionis-
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica ma situação sórdida, miserável e tas, para refletir desespero, ansieda-
[do Inconsciente! degradante. de, tormento e exaltação, distorcem
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! Em 1914, a crise, latente desde o as imagens do mundo real, por meio
Eia todo o passado dentro do presente! final do século XIX, explode selvagem de colorido subjetivo, contraste inten-
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! e brutal. É a Primeira Guerra Mundial, so, linhas fortes, alteração de formas.
Eia! eia! eia! que deixará 1 400 000 vítimas. Em O expressionismo é associado à arte
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica meio a esse desconcerto, ocorre a alemã e dos países do norte da Euro-
[cosmopolita! Revolução Russa de 1917, que des- pa no final do século XIX e no século
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô! perta esperanças em todo o mundo, XX: Van Gogh, Munch, Ensor, Kan-
Nem sei que existo para dentro. Giro, e surge o homem novo que levaria a dinsky, na pintura; Murnau, Fritz
[rodeio, engenho-me. boa palavra e melhores condições de Lang, Pabst, no cinema; Schönberg,
Engatam-me em todos os comboios. vida à humanidade. Alban Berg, na música; Strindberg,
Içam-me em todos os cais. Após a guerra, vem um período Brecht, na literatura.
Giro dentro das hélices de todos os navios. de descompressão, os anos loucos,
Eia! eia-hô eia! que atravessarão a crise de 1929, Futurismo: movimento artístico
Eia! sou o calor mecânico e a eletricidade! sendo violentamente interrompidos criado na Itália em 1909 pelo poeta
por um novo apocalipse. O genocídio, Filippo Tommaso Marinetti. Reagindo
(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal” ) a tortura, as deportações em massa violentamente contra a tradição, exal-
da Segunda Guerra Mundial manifes- tava os aspectos dinâmicos da vida
No início do século XX, o mundo tam, em plena civilização, o absurdo e contemporânea: velocidade e meca-
vive o otimismo da Belle Époque: o horror da barbárie. nização. Os poetas e pintores tenta-
uma minoria abastada festeja, satis- É nesta atmosfera de euforia e de- vam flagrar o movimento e a simul-
feita e deslumbrada, as descobertas sencanto que devemos armar o es- taneidade dos objetos: aqueles, por
e invenções que se sucedem num rit- pírito para acompanhar a sucessão meio de pontuação, sintaxe, forma e
mo frenético e que tornam a vida mais de ismos, característica da arte do significados novos; estes, pela repe-
confortável. Em contrapartida, quase início do século XX. tição das formas, ausência de
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divisão entre objetos e espaço, e canálise, procurava incluir na criação mento, como descargas de vivências
ênfase em linhas de força. Os futuris- artística os meios de elaboração do profundas, delírios emocionais, vio-
tas foram os primeiros a utilizar ruídos inconsciente, superar a realidade tal lentando nosso impulso natural de
na música e, crítica e humoristica- como ela é percebida cotidiana- buscar as coisas fáceis, sobretudo
mente, criaram até um “teatro sin- mente. Na literatura, criaram o pro- nos domínios da expressão através
tético futurista”, com peças cujos atos cesso “da escrita automática”, utili- da língua.
duravam menos de cinco minutos. zando-se da livre associação de
palavras. Na pintura, representavam ❑ A integração poética da
Cubismo: nome da teoria do imagens do inconsciente e do sonho. civilização material
grupo de pintores liderados por Bra- Além de André Breton, são surrealis- “À sociedade nova, aqui e alhu-
que e Picasso em Paris, a partir de tas os escritores Paul Éluard, Antonin res, correspondia, necessariamente,
1906. Influenciados por esculturas Artaud e Louis Aragon. Salvador Dalí literatura nova — eis o que não se
primitivas e por Cézanne, criaram um notabilizou-se na pintura e Luis cansaram de repetir, desde o primei-
tipo de pintura que eliminou a pers- Buñuel, no cinema. ro instante, todos os teóricos e ar-
pectiva, multiplicando os pontos de Num mundo em que os setores do tistas; (...)
vista num mesmo quadro. Escolhen- conhecimento — ciências, artes, filo- Como é natural, estes tomaram
do objetos familiares, facilmente re- sofia — são interdependentes, um tra- consciência muito mais cedo que os
conhecíveis, os cubistas os pinta- ço fundamental é comum a todas demais do que significavam os pro-
vam, não como os viam, mas como essas esferas: a instabilidade. A Arte gressos técnicos e científicos do co-
os entendiam estruturalmente: reor- se “desrealiza”, torna-se abstrata ou meço do século [XX]; eles
ganizavam os constituintes formais não figurativa, abandona a reprodu- perceberam desde logo que a própria
desses objetos em composições ção imitativa dos seres e objetos re- natureza e a própria qualidade do
geométricas, representando simulta- ais, para, em vez disso, criar seus espírito humano iam se modificar ao
neamente seus vários aspectos. Al- próprios objetos. impacto da máquina; esta última não
guns textos de Oswald de Andrade A Arte Moderna assume posição representava apenas um acréscimo à
foram influenciados pelo cubismo. de constante ruptura, assimilando em vida cotidiana, mas um fator catalítico
seu próprio organismo a fragmenta- de alcance imprevisível.”
ção de uma época marcada pela des-
continuidade e pelo caos inventivo e (MARTINS, Wilson. A Literatura
demolidor. Brasileira. “O Modernismo”.
Na Física, surgem as descobertas São Paulo: Cultrix. Vol. VI. p.13.)
de Max Planck (Teoria dos Quanta,
1900: a energia radiante tem, como a O rápido desenvolvimento tecno-
matéria, estrutura descontínua) e de lógico, que marca os albores do sécu-
Albert Einstein (Teoria da Relativida- lo XX, traz, ao lado da modificação que
de, 1905: a duração do tempo não é a provoca na moda, variações no gosto
mesma para dois observadores que estético e uma ânsia pela novidade;
se deslocam um em relação ao outro). torna-se necessário enfatizar a cren-
Na Filosofia e Psiquiatria, desen- ça de que o novo é sempre melhor. A
volvem-se as pesquisas de Henri técnica traz consigo o dinamismo
Georges Braque (1882-1963). Instrumen- Bergson e Sigmund Freud, respecti- também nas atitudes diante da vida.
tos musicais. Óleo sobre tela (50x61cm). vamente. Bergson, em Matéria e Me-
Coleção particular. mória (1907), afirma que a intuição é ❑ O verso livre
o único meio de conhecimento da O verso livre não implica ausên-
Dadaísmo ou Dadá: movimen- duração dos fenômenos e da vida. cia de ritmo, mas a criação do “ritmo
to antiburguês de arte e literatura que Freud, na Introdução à Psicanálise a cada momento”. Sabemos que, em
se espalhou pela Europa após a (1916/1917), promove a investigação português, a técnica do verso depre-
Primeira Guerra. Rejeitava os valores psicológica no tratamento das neuro- ende, tradicionalmente, esquemas
morais e estéticos tradicionais, le- ses, por meio da procura de tendên- que vão de duas a doze sílabas, com
vando essa rejeição ao absurdo, mas cias reprimidas no inconsciente do acentos regularmente distribuídos. Já
abrindo caminho para novos modos e indivíduo e do seu retorno consciente o que caracteriza o verso livre é,
meios de expressão. Surgiu em Zuri- pela análise. sobretudo, uma mudança de atitude:
que, em 1916, e reuniu artistas como sua unidade de medida deixa de ser
Tristan Tzara, Francis Picabia, Marcel 2. A POESIA MODERNA a sílaba e passa a basear-se na com-
Duchamp. binação das entoações e das pausas.
Surrealismo: originou-se em A poesia moderna rompe a sinta- O ritmo decorre, pois, da sucessão
Paris, em 1924, sob a liderança de xe, o encadeamento lógico; é elíptica, dos grupos de força valorizados pela
André Breton, e teve muito em comum alusiva, não tem limitações norma- entoação, pela maior ou menor
com o Dadá. Tendo apoio da Psi- tivas, e o ritmo é criado a cada mo- rapidez da enunciação.
30 –
TEORIA_CONV_C3_DANIEL 29/04/11 19:38 Página 31

Exemplos – A temática passa dos assuntos ❑ Fernando Pessoa


“O Sr. tem uma escavação no universais para os particulares, indivi- (1888-1935)
[pulmão esquerdo e o pulmão direito duais e específicos. • Vida
[infiltrado.” – O princípio de seleção do ma- Nasceu em Lisboa. Em 1893,
terial expande-se, para incluir todos tornou-se órfão de pai. A mãe casou-
(Manuel Bandeira)
os motivos e assuntos. se novamente e a família viajou para a
– A caracterização das persona- África do Sul. Fez o curso primário e
Preso à minha classe e a algumas
gens varia; aumenta o interesse pelos secundário em Durban, alcançando
[roupas,
estados mentais, pela vida profunda prêmio de redação em inglês. Em
vou de branco pela rua cinzenta.
do “eu”, em detrimento das ações 1905, voltou para Lisboa. Matriculou-
Melancolias, mercadorias esprei-
exteriores. se na faculdade de Letras e foi cor-
[tam-me.
– Por outro lado, a maneira de respondente comercial em línguas
Devo seguir até o enjoo?
apresentação é diferente: a análise e estrangeiras, função que exerceu até
Posso, sem armas, revoltar-me?
a construção dos caracteres se fazem a morte. Em 1912, colaborou com a
(Carlos Drummond de Andrade) por acumulação, em rápidos instan- Águia, como crítico. Em 1915, liderou
tes significativos, ou pela apresenta- o grupo da revista Orpheu. O se-
A nova técnica aparece pela ção da própria consciência em ope- gundo número da revista é de 1916,
primeira vez, de forma ainda tímida, ração, isto é, do fluxo de consciência e o terceiro não chegou a sair, pois
com Arthur Rimbaud, em junho de (stream of consciousness). O autor Mário de Sá-Carneiro, que a finan-
1886, mas é com Walt Whitman que o não faz o retrato da personagem: es- ciava, suicidou-se.
verso livre começa a vencer. ta vive, e o leitor a conhece e julga. Fernando Pessoa iniciou então a
– A literatura torna-se cada vez publicação de parte de sua obra em
❑ Outras constantes da poe- mais subjetiva, interiorizada e abstra- revistas: Centauro, Atena, Contempo-
sia moderna ta, construída de experiências men- rânea, Presença. Em 1934, candida-
– A dessacralização da obra de tais, da vida do espírito. tou-se a um prêmio de poesia com
arte, com o predomínio da concepção – A sugestão e a associação, a Mensagem, único livro, em português,
lúdica sobre a concepção mágica. expressão indireta, passam a ser os publicado em vida, alcançando o se-
– A presença do humor, com o meios de se veicular a experiência. gundo lugar. Com Mensagem, Fer-
poema-piada, como forma de aprofun- nando Pessoa fez uma épica mo-
damento da percepção do homem e derna, a partir de sugestões camo-
3. MODERNISMO
do mundo. nianas, mas vendo todo o século
EM PORTUGAL
– Cosmopolitismo do processo quinhentista por uma perspectiva
literário, que se traduz na intercomuni- crítica.
cação entre os artistas. O Modernismo português teve
– Antiacademicismo, anticonven- início em 1915, com a publicação da
cionalismo, abolição da distinção en- revista Orpheu, da qual participaram
tre temas “poéticos”, “antipoéticos” e Fernando Pessoa, Mário de Sá-Car-
“apoéticos”. neiro, Santa Rita Pintor, Cortes-Rodri-
– “Imagens crescentemente mo- gues, Alfredo Guisado, Ronald de
deladas em linguagem cotidiana.” Carvalho e Eduardo Guimarães. Pre-
– Ausência de inversões, de tendiam causar escândalo para de-
apóstrofes bombásticas. molir heranças literárias dogmati- Fernando
– Ausência e/ou revitalização de zadas e eram unidos pelo inconfor- Pessoa
rimas convencionais. mismo e pelo desejo de renovar a quando
– Sequência de imagens basea- Literatura Portuguesa. Causaram es- jovem.
das na livre associação, abandonan- cândalo, foram combatidos, e a revis-
do-se a lógica de causa e efeito. ta foi logo extinta. Contudo, con- • Obras
– “Ênfase no habitual, e não no seguiram levar para Portugal influxos Mensagem (1934) é a única obra
cósmico.” da nova arte (futurismo, um cubismo em português publicada em vida.
– Interesse maior pelo incons- decadentista etc.). Tem linguagem extremamente elabo-
ciente. rada, num estilo semelhante, como se
– Interesse pelo homem comum. Em 1927, a criação de uma nova verá, ao do heterônimo Ricardo Reis.
Na prosa modernista, observam- revista — Presença — deu novo ânimo Mensagem, ao contrário de Os
se os seguintes traços marcantes: ao Modernismo português. Seus fun- Lusíadas, de que é releitura, celebra,
– O autor ausenta-se da narrativa. dadores, José Régio, Branquinho da não grandezas, mas fantásticas irrea-
– A ação e o enredo perdem im- Fonseca e João Gaspar Simões, além lidades e loucuras de heróis da lenda
portância em favor das emoções, es- de valorizarem criticamente a geração e da história do país, como Ulisses,
tados mentais e reações das perso- de Orpheu, continuavam a luta contra Viriato, D. Sebastião, Vieira etc.
nagens. o academicismo. Mensagem constitui-se de 44 poemas,
– 31
TEORIA_CONV_C3_DANIEL 29/04/11 19:38 Página 32

dispostos em três partes: “Brasão”, Cada uma dessas “máscaras” ou A modernidade de Fernando Pes-
“Mar Português” e “O Encoberto”. heterônimos constitui uma atitude, soa principia pela negação do sen-
Tratam, respectivamente, das figuras uma experiência assumida por Fer- timento puro como conteúdo poético
históricas e lendárias que permitiram nando Pessoa, e desemboca em um (“Tudo o que em mim sente está
a ascensão de Portugal, do apogeu jogo infinito de linguagens/seres, re- pensando”). A essência de sua lin-
de Portugal com as navegações e do velador de uma poderosa consciên- guagem nova reside na constante re-
declínio português. cia crítica do fenômeno poético e de versão do sentimento em pensa-
uma densa posição metalinguística. mento, na constante alquimia do sen-
• Outras Obras As “máscaras” assumidas pelo poeta tido em outra coisa que o excede.
– Poemas de Alberto Caeiro dialogam entre si, correspondem-se e
– Odes de Ricardo Reis indicam as contradições existentes ❑ Fernando Pessoa,
– Poesias de Álvaro de Campos entre elas. ele-mesmo
– Poesias de Fernando Pessoa Multiplicando-se em vários poetas Fernando Pessoa ortônimo, ou
– Poemas Dramáticos – O Mari- — Alberto Caeiro, Ricardo Reis seja, ele-mesmo, diverge muito de
nheiro e Álvaro de Campos —, seus Caeiro e Reis, porque não inculca
– Quadras ao Gosto Popular heterônimos, além da poesia que uma norma de comportamento; nele
– Poemas Ingleses – Poemas realiza sob seu próprio nome, Fer- há quase apenas a expressão
Franceses – Poemas Traduzidos nando Pessoa propõe um jogo infinito musical e sutil do frio, do tédio
– Poesias Inéditas da linguagem, oscilando entre o sentir e dos anseios da alma, de es-
e o pensar, entre o ser e o não ser, tados quase inefáveis em que
Em prosa (textos recolhidos, es- entre o rosto e a máscara. se vislumbra por instantes
tabelecidos e organizados por vários “Tudo o que em mim sente “uma coisa linda”, nostalgia
autores): está pensando”, diz de si o poeta, dum bem perdido que não se
– O Livro do Desassossego, por propondo uma chave para penetrar- sabe qual foi, oscilações qua-
Bernardo Soares mos no labirinto em que ele nos en- se imperceptíveis duma inte-
– Páginas Íntimas e de Auto- reda através da multiplicidade de lin- ligência extremamente sensí-
Interpretação guagem e de cosmovisões: Caeiro é vel, e até vivências tão profun-
– Páginas de Estética e de Teo- um mestre bucólico, Reis é um neo- das que não vêm “à flor das
ria e Crítica Literária clássico estoico, Campos é um futu- frases e dos dias”, mas se insi-
– Textos Filosóficos rista neurótico e angustiado e Fernando nuam pela eufonia dos versos,
– Sobre Portugal – Introdução ao Pessoa, ele-mesmo, parece ser o pelas reticências, numa lingua-
Problema Nacional heterônimo de algum outro ser/poeta, gem finíssima.
– Da República instalado entre um heterônimo e outro, Fernando Pessoa, ele-mesmo, re-
– Ultimatum e Páginas de Socio- nos intervalos, nos interstícios, sim- toma motivos e formas da lírica por-
logia Política ples “ficção do interlúdio”. tuguesa, desde a Idade Média. É onde
– Cartas de Amor A explosão dos heterônimos aspi- mais se projeta o nacionalista
– Textos de Crítica e Intervenção rava ao universal como esperança de místico, o sebastianista racional
unidade: que o poeta se dizia, especialmente no
• Considerações poema esotérico Mensagem, réplica
Realiza uma poética densamente Sentir tudo de todas as maneiras, / não sistemática de Os Lusíadas.
experimental, que, partindo das for- Viver tudo de todos os lados, / Ser a
mas líricas tradicionais, ultrapassa-as mesma coisa de todos os modos TEXTOS
de forma criativa, evoluindo através possíveis ao mesmo tempo, / Realizar
de diversas etapas: o saudosismo em si toda a humanidade de todos os I
esotérico, o paulismo, o futu- momentos / Num só momento difuso,
rismo, o interseccionismo e o profuso, completo e longínquo. POBRE VELHA MÚSICA!
sensacionismo. (Álvaro de Campos, Pobre velha música!
O poeta desdobra-se em várias “Passagem das Horas”) Não sei por que agrado
“máscaras”. Uma delas, Fernando Enche-se de lágrimas
Pessoa, ele-mesmo, constrói a poe- Mas essa esperança de unidade Meu olhar parado.
sia ortonímica, assinada pelo pró- desemboca no esfacelamento. A so-
Recordo outro ouvir-te.
prio Fernando Pessoa. As outras ma dos heterônimos, que tinham no- Não sei se te ouvi
“máscaras” constituem os heterô- me, biografia, profissão e traços Nessa minha infância
nimos do poeta, dentre os quais se característicos, deveria produzir o Que me lembra em ti.
destacam: Alberto Caeiro, Ricardo Todo. Mas entre um sujeito e outro
Reis e Álvaro de Campos, além de ou- desponta o Outro, o Neutro, o Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
tros, menos desenvolvidos: Bernardo Fluido. É o Negativo “ele-mesmo” E eu era feliz? Não sei:
Soares, Alexandre Search, Antônio quem triunfa, recobrindo a afirmação Fui-o outrora agora.
Mora, G. Pacheco e Vicente Guedes. e negando-a, uma e outra. (Fernando Pessoa)

32 –
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II ❑ Mário de Sá-Carneiro TEXTOS


D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL (1890-1916)
Originário da alta burguesia, mar-
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
cou-se por uma personalidade extre- I
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza; mamente sensível, desequilibrada.
Por isso onde o areal está Inadaptado e egocêntrico, sua DISPERSÃO
Ficou meu ser que houve, não o que há. racionalidade e lucidez serão respon-
Perdi-me dentro de mim
sáveis por uma autoanálise trágica,
Minha loucura, outros que me a tomem Porque eu era labirinto,
Com o que nela ia. pelo sentido de aniquilamento que, E hoje, quando me sinto,
Sem a loucura que é o homem agravado pela crise financeira da É com saudades de mim.
Mais que a besta sadia, família, o levarão ao suicídio, com a-
Cadáver adiado que procria? penas 26 anos. Passei pela minha vida
(Fernando Pessoa, Mensagem)
Um astro doido a sonhar
Na ânsia de ultrapassar,
III • Obras
Nem dei pela minha vida...
ULISSES Poesia
– Dispersão; Para mim é sempre ontem,
O mito é o nada que é tudo.
– Indícios de Oiro. Não tenho amanhã nem hoje:
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo — O tempo que aos outros foge
O corpo morto de Deus, Prosa Cai sobre mim feito ontem.
Vivo e desnudo.
– Princípio;
(Mário de Sá-Carneiro)
Este, que aqui aportou, – A Confissão de Lúcio;
Foi por não ser existindo. – Céu em Fogo;
Sem existir nos bastou. – Cartas a Fernando Pessoa. II
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
• Apreciação crítica QUASE
Assim a lenda se escorre “O motivo central de sua obra é o
A entrar na realidade, da crise de personalidade, a inade- Um pouco mais de sol — eu era brasa,
E a fecundá-la decorre. quação do que sente ao que dese- Um pouco mais de azul — eu era além.
Em baixo, a vida, metade Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
De nada, morre.
jaria sentir.
Se ao menos eu permanecesse aquém…
(Fernando Pessoa, Mensagem) Essa crise mascara-se nalguns
poemas pela expressão frenética de Assombro ou paz? Eu vão... Tudo esvaído
IV
uma pretensa plenitude sensorial de Num baixo mar enganador de espuma;
AUTOPSICOGRAFIA quem sabe ‘viajar outros sentimentos’ E o grande sonho despertado em bruma,
O poeta é um fingidor.
(...) em que as categorias lógicas dei- O grande sonho — ó dor! — quase vivido...
Finge tão completamente xam de impor-se, em que tudo psico-
Que chega a fingir que é dor logicamente se perverte ou subverte. Quase o amor, quase o triunfo e a chama;
A dor que deveras sente. As novelas traem mais a formação de- Quase o princípio e o fim — quase a
cadentista e em parte saudosista de [expansão...
E os que leem o que escreve Mas na minh’alma tudo se derrama…
Na dor lida sentem bem,
sua estética, empenhada em perse-
Entanto nada foi só ilusão!
Não as duas que ele teve, guir o mistério metafísico, a confusão
Mas só a que eles não têm. dos sentidos, a coincidência mórbida De tudo houve um começo... e tudo errou...
das coisas humanas mais díspares.” — Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... —
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão, Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Esse comboio de corda (SARAIVA, A. J.; LOPES, Ó. Asa que se elançou mas não voou...
Que se chama o coração. História da Literatura Portuguesa.
(Fernando Pessoa) Porto: Ed. do Porto.) (Mário de Sá-Carneiro)

MÓDULO 40 Fernando Pessoa II


Pessoa situou em 1889 a data do formalmente. Trata-se de um homem judaica, não espiritualizada da vida e
nascimento de Alberto Caeiro. Ele é, simples, criado no campo e nele do mundo. Caeiro nos ensina que o
portanto, um pouco mais novo que o vivendo, alheio à alta sofisticação mundo não é um enigma, um mistério
próprio Pessoa, mas é o seu mestre, cultural que marca os poetas que o que devemos tentar desvendar, nem
como é o mestre dos demais hete- tomam por mestre. E de que Caeiro é o que vemos tem um sentido oculto
rônimos. Isso é paradoxal, porque mestre? Fernando Pessoa nos res- por trás das aparências:
Caeiro é, dentre eles, o menos culto e ponde: é mestre de paganismo, quer
sua poesia é a menos elaborada dizer, de uma visão não cristã, não
– 33
TEORIA_CONV_C3_DANIEL 29/04/11 19:38 Página 34

O que nós vemos das coisas são as coisas Se quiserem que eu tenha um misticismo, meus pensamentos / e os meus
Por que veríamos nós uma coisa se hou- [está bem, tenho-o. pensamentos são todos sensações”.
[vesse outra? Sou místico, mas só com o corpo.
Por que é que ver e ouvir seria iludir-nos A minha alma é simples e não pensa.
Sua poesia, contudo, é mais de
Se ver e ouvir são ver e ouvir? pensamentos que de sensações.
O essencial é saber ver. O meu misticismo é não querer saber. O caráter paradoxal da teoria de
Saber ver sem estar a pensar, É viver e não pensar nisso. Caeiro se manifesta também no plano
Saber ver quando se vê, estilístico: seus poemas evitam tudo o
E nem pensar quando se vê Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Nem ver quando se pensa. Vivo no cimo dum outeiro1
que se costuma tomar por poesia.
Numa casa caiada e sozinha, Seus versos parecem prosa, pois são
Mas isso (tristes de nós que trazemos a E essa é a minha definição. uma forma ritmicamente frouxa de ver-
[alma vestida!), so livre, cujo andamento dá a impres-
Isso exige um estudo profundo, Vocabulário são de naturalidade, de esponta-
Uma aprendizagem de desaprender 1 – Outeiro: colina, morro.
E uma sequestração na liberdade
neidade sem qualquer premeditação
[daquele convento artística (o que é, na verdade, um
Também em relação à poesia
De que os poetas dizem que as estrelas efeito artístico dessa poesia). Seu
[são as freiras eternas Caeiro é polêmico, porque suas ideias
vocabulário é restrito e as mesmas
E as flores as penitentes convictas de um geram uma poesia “antipoética”, que
palavras e expressões se repetem
[só dia1, nega a transcendência:
Mas onde afinal as estrelas não são senão
com pequeno intervalo, sem nenhum
[estrelas O luar através dos altos ramos,
esforço aparente de evitar o que é
Nem as flores senão flores, Dizem os poetas todos que ele é mais tradicionalmente considerado “pobre-
Sendo por isso que lhes chamamos Que o luar através dos altos ramos. za de estilo”. Também do ponto de
[estrelas e flores. vista estritamente linguístico e gra-
Mas para mim, que não sei o que penso, matical, a escrita de Caeiro é menos
Nota O que o luar através dos altos ramos
1 – Observar a crítica a algumas imagens con- É, além de ser
culta e menos rigorosa que a de seus
vencionais da poesia de fundo romântico, espi- O luar através dos altos ramos, “discípulos”.
ritualizada, que Caeiro rejeita. É não ser mais Com tudo isso, a pequena obra
Que o luar através dos altos ramos. singular e singela de Alberto Caeiro
Assim, nossa dificuldade em alcança, com recursos de simplici-
captar o mundo tal como ele é deve- dade extrema, momentos de verda-
se ao nosso vício de interpor o pen- deira mágica poética, nos quais a
samento entre nós e as coisas. Nós sensação é realmente vívida e não
somos como que doentes de pensa- apenas pretexto para a discussão de
mento. Em vez de nos relacionarmos ideias. É o caso do poema seguinte,
com os objetos em sua singularida- que pode ser tomado, de fato, como a
de, que é a sua realidade, nós gene- expressão de um momento de
ralizamos, e destruímos com isso a iluminação zen-budista:
realidade das coisas. Diz Caeiro:
Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
Compreendi que as coisas são reais e todas Alberto Caeiro. E vai-se, sempre muito leve.
[diferentes umas das outras; Pormenor do E eu não sei o que penso
Compreendi isto com os olhos, nunca com o
[pensamento. mural de Nem procuro sabê-lo.
Compreender isto com o pensamento seria Almada
[achá-las todas iguais. Negreiros, na TEXTOS
Faculdade de O GUARDADOR DE REBANHOS
Já se viu em Caeiro semelhança Letras da (1910/1911 – fragmentos)
com o zen-budismo, especialmente em Universidade
Há metafísica bastante em não pensar em
sua insistência no não pensamento de Lisboa
[nada.
como condição da experiência exis- (1958).
tencial verdadeira. Caeiro defende um O que penso eu do Mundo?
pensamento contra o pensamento, Os poemas de Caeiro, que falam Sei lá o que penso do Mundo!
uma filosofia antifilosófica (“Com da concretude do mundo, da realidade Se eu adoecesse pensaria nisso.
filosofia não há árvores, há ideias única das sensações, são na verdade
Que ideia tenho eu das coisas?
apenas” ) e nega qualquer forma de poemas abstratos, quase inteiramente
Que opinião tenho sobre as causas e os
espiritualismo ou de transcendência, carentes de imagens do mundo, por-
[efeitos?
ou seja, nega a ideia de qualquer rea- que o que o poeta faz é defender uma Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
lidade além daquela que constitui teoria – uma curiosa teoria que con- E sobre a criação do Mundo?
nossa experiência concreta e imedia- dena todas as teorias. Seu livro cha- Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os
ta das coisas, com as quais nosso ma-se O Guardador de Rebanhos, [olhos
corpo se relaciona: mas, como ele diz, “o rebanho é os E não pensar. É correr as cortinas

34 –
TEORIA_CONV_C3_DANIEL 29/04/11 19:38 Página 35

Da minha janela (mas ela não tem cortinas). O único sentido íntimo das coisas E amo-o sem pensar nele,
O mistério das coisas? Sei lá o que é É elas não terem sentido íntimo nenhum. E penso-o vendo e ouvindo,
[mistério! Não acredito em Deus porque nunca o vi. E ando com ele a toda a hora.
O único mistério é haver quem pense no Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
[mistério. Sem dúvida que viria falar comigo VI
Quem está ao sol e fecha os olhos E entraria pela minha porta dentro
Começa a não saber o que é o Sol Dizendo-me, Aqui estou! Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
E a pensar muitas coisas cheias de calor. Porque Deus quis que o não
Mas abre os olhos e vê o Sol (Isto é talvez ridículo aos ouvidos [conhecêssemos,
E já não pode pensar em nada, De quem, por não saber o que é olhar para Por isso se nos não mostrou...
Porque a luz do Sol vale mais que os [as coisas, Sejamos simples e calmos,
[pensamentos Não compreende quem fala delas Como os regatos e as árvores,
De todos os filósofos e de todos os poetas. Com o modo de falar que reparar para elas E Deus amar-nos-á fazendo de nós
A luz do Sol não sabe o que faz [ensina.) Belos como as árvores e os regatos,
E por isso não erra e é comum e boa. E dar-nos-á verdor na sua primavera,
Mas se Deus é as flores e as árvores E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
Metafísica? Que metafísica têm aquelas E os montes e sol e o luar,
[árvores? Então acredito nele,
A de serem verdes e copadas e de terem Então acredito nele a toda a hora, XXXVI
[ramos E a minha vida é toda uma oração e uma
E há poetas que são artistas
E a de dar fruto na sua hora, o que não [missa,
E trabalham nos seus versos
[nos faz pensar, E uma comunhão com os olhos e pelos
Como um carpinteiro nas tábuas!...
A nós, que não sabemos dar por elas. [ouvidos.
Que triste não saber florir!
Mas que melhor metafísica que a delas, Mas se Deus é as árvores e as flores
Ter que pôr verso sobre verso, como quem
Que é a de não saber para que vivem E os montes e o luar e o sol,
Nem saber que o não sabem? [constrói um muro
Para que lhe chamo eu Deus?
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol
“Constituição íntima das coisas...” Quando a única casa artística é a Terra toda
[e luar;
“Sentido íntimo do Universo...” Que varia e está sempre bem e é sempre
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer [a mesma.
Sol e luar e flores e árvores e montes,
[nada. Se ele me aparece como sendo árvores e Penso nisto, não como quem pensa, mas
É incrível que se possa pensar em coisas [montes [como quem respira,
[dessas. E luar e sol e flores, E olho para as flores e sorrio...
É como pensar em razões e fins É que ele quer que eu o conheça Não sei se elas me compreendem
Quando o começo da manhã está raiando, Como árvores e montes e flores e luar e sol. Nem se eu as compreendo a elas,
[e pelos lados das árvores E por isso eu obedeço-lhe, Mas sei que a verdade está nelas e em mim
Um vago ouro lustroso vai perdendo a (Que mais sei eu de Deus que Deus de si E na nossa comum divindade
[escuridão. [próprio?). De nos deixarmos ir e viver pela Terra
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, E levar ao colo pelas Estações contentes
Pensar no sentido íntimo das coisas Como quem abre os olhos e vê, E deixar que o vento cante para
É acrescentado, como pensar na saúde E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e [adormecermos
Ou levar um copo à água das fontes. [montes, E não termos sonhos no nosso sono.

MÓDULO 41 Fernando Pessoa III

1. OUTROS HETERÔNIMOS também tomado ao latim. Sua poesia maneira antiga, com grande rigor de
DE FERNANDO PESSOA aborda os temas clássicos da brevi- construção, com estrofes que alter-
dade da vida, da necessidade de go- nam versos longos e breves, de métri-
❑ Ricardo Reis zar o presente, que é a única realidade ca perfeita e sem rimas.
Ricardo Reis é cultor dos clássi- acessível diante da fatalidade da
cos gregos e latinos. Seu paganismo morte que sempre nos aguarda. Esta
TEXTOS
deriva da lição dos escritores da Anti- atitude hedonista (voltada para o
guidade, mas revela também influên- prazer), ou epicurista (decorrente da
I
cia de Alberto Caeiro, no amor pela filosofia de Epicuro), é associada a
vida rústica e no apego à Natureza. uma postura estoica, que propõe a Para ser grande, sê inteiro: nada
Sua poesia, porém, distancia-se mui- austeridade na fruição dos prazeres, Teu exagera ou exclui.
to da de Caeiro por ser cultíssima, pois seremos tanto mais felizes quanto Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
marcada por sintaxe latinizante (gran- menores forem nossas necessidades. No mínimo que fazes.
des inversões, enorme liberdade na Ricardo Reis tem no poeta latino Assim em cada lago a Lua toda
ordem das palavras, regências desu- Horácio (século I a.C.) seu modelo Brilha, porque alta vive.
literário, e seus poemas são odes à (Ricardo Reis)
sadas) e vocabulário raro, por vezes
– 35
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II Nem cuidados, porque se os tivesse o rio


[sempre correria,
TEXTOS
Tanto quanto vivemos, vive a hora
E sempre iria ter ao mar.
Em que vivemos, igualmente morta
(...) (fragmentos)
Quando passa conosco,
Que passamos com ela. (Ricardo Reis)
LISBON REVISITED
(Ricardo Reis)
(1923)
❑ Álvaro de Campos
V
É em Álvaro de Campos, Não: não quero nada.
Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero. nascido em 1890, que encontramos Já disse que não quero nada.
Em ti como nos outros creio deuses mais a inquietação metafísica de Pessoa
[velhos Não me venham com conclusões!
e seu lado “moderno”, caracteriza- A única conclusão é morrer.
Só te tenho por não mais nem menos do pela vontade de conquista, pelo
Do que eles, mas mais novo apenas.
amor à civi lização e ao pro - Não me tragam estéticas!
gresso (e ao mesmo tempo cons- Não me falem em moral!
Odeio-os sim, e a esses com calma Tirem-me daqui a metafísica!
ciên cia desse mundo) e por uma
[aborreço, Não me apregoem sistemas completos,
Que te querem acima dos outros teus
linguagem de tom irreverente. Essa [não me enfileirem conquistas
[iguais deuses. “moder nidade” tem ligações claras Das ciências (das ciências, Deus meu,
Quero-te onde tu ‘stás, nem mais alto com o cosmopolita Cesário Verde, [das ciências!) —
Nem mais baixo que eles, tu apenas. com Walt Whit man e com o Das ciências, das artes, da civilização
[moderna!
Futuris mo. Sen tindo e inte lec -
Deus triste, preciso talvez porque nenhum tualizando suas sensações (sentir e Que mal fiz eu aos deuses todos?
[havia pensar), Campos percebe a impos- Se têm a verdade, guardem-na!
Como tu, um a mais no Panteão e no culto, si bilidade de não pensar, observa
Nada mais, nem mais alto nem mais puro criticamente o mundo e a si próprio, Sou um técnico, mas tenho técnica só
Porque para tudo havia deuses, menos tu. [dentro da técnica.
angustiando-se diante do tempo Fora disso sou doido, com todo o direito a
Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a
inexo rável e do ab surdo da vida. [sê-lo.
[vida
“Poeta sensaci o nista e por Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
É múltipla e todos os dias são diferentes
[dos outros,
vezes escandaloso” (qualificati-
vos da carta de Pessoa a A. Casais Não me macem1, por amor de Deus!
E só sendo múltiplos como eles
‘Staremos com a verdade e sós. Monteiro), Cam pos é o pri meiro a Queriam-me casado, fútil, cotidiano e
fazer um retrato de si e a referir cir- [tributável?
(Ricardo Reis) cunstâncias biográficas, o que refor- Queriam-me o contrário disto, o contrário
ça a simulação que daria ao próprio [de qualquer coisa?
VI Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, todos,
Fernando Pessoa estímulos para se
[a vontade.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. manter na pele do heterô ni mo. Assim, como sou, tenham paciência!
Sossegadamente fitemos o seu curso e Descreve-se de “monóculo e casaco Vão para o diabo sem mim,
[aprendamos exageradamente cintado”, “franzino Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Que a vida passa, e não estamos de mãos e civilizado”, “pobre engenheiro Para que havemos de ir juntos?
[enlaçadas. preso a sucessibilíssimas vitórias”.
(Enlacemos as mãos.) Não me peguem no braço!
Escreve, febril, “à dolorosa luz Não gosto que me peguem no braço.
das grandes lâmpadas elétricas da [Quero ser sozinho.
Depois pensemos, crianças adultas, que fábrica”, ou no “cubículo”, ouvindo “o Já disse que sou sozinho!
[a vida tic-tac estalado das máquinas de es- Ah, que maçada quererem que eu seja da
Passa e não fica, nada deixa e nunca [companhia!
crever”.
[regressa, É o outro radical, moderno, en- Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Vai para um mar muito longe, para ao pé do
genheiro, paradoxal, sadomasoquis- Eterna verdade vazia e perfeita!
[Fado, Ó macio Tejo ancestral e mudo,
ta, inconciliado, “neurótico”.
Mais longe que os deuses. Pequena verdade onde o céu se reflete!
Vale-se de uma prosa disposta
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de
Desenlacemos as mãos, porque não vale a em forma poética, com versos [hoje!
[pena cansarmo-nos, frequentemente desencadeados e Nada me dais, nada me tirais, nada sois
Quer gozemos, quer não gozemos, assimétricos, além de caracteres [que eu me sinta.
[passamos como o rio. tipográficos, sobrecarga de sinais de
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu
Mais vale saber passar silenciosamente pontuação e outras “anomalias” discur-
[nunca tardo...
E sem desassossegos grandes. sivas. E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio
Entre seus poemas mais conhe- [quero estar sozinho!
Sem amores, nem ódios, nem paixões que cidos, citam-se: “Tabacaria”, “Lisbon
[levantam a voz, (Álvaro de Campos)
Revisited”, “Saudação a Walt Whitman”,
Nem invejas que dão movimento demais
“Opiário”, “Ode Triunfal”, “Ode Marí- Vocabulário
[aos olhos,
tima” e “Poema em Linha Reta”. 1 – Maçar: chatear.
36 –
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TABACARIA Estou hoje perplexo, como quem pensou POEMA EM LINHA RETA
[e achou e esqueceu.
Não sou nada. Estou hoje dividido entre a lealdade que Nunca conheci quem tivesse levado
Nunca serei nada. [devo [porrada.
Não posso querer ser nada. À Tabacaria do outro lado da rua, como
Todos os meus conhecidos têm sido cam-
À parte isso, tenho em mim todos os [coisa real por fora,
[peões em tudo.
[sonhos do mundo. E à sensação de que tudo é sonho, como
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco,
[coisa real por dentro.
[tantas vezes vil,
Janelas do meu quarto,
(...) Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Do meu quarto de um dos milhões do
[mundo que ninguém sabe quem é Indesculpavelmente sujo,
Fiz de mim o que não soube, Eu, que tantas vezes não tenho tido
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
E o que podia fazer de mim não o fiz. [paciência para tomar banho,
Dais para o mistério de uma rua cruzada
O dominó que vesti era errado.
[constantemente de gente, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo,
Conheceram-me logo por quem não era e
[absurdo,
[não desmenti, e perdi-me.
Para uma rua inacessível a todos os pensa- Que tenho enrolado os pés publicamente
Quando quis tirar a máscara,
[mentos, [nos tapetes das etiquetas,
Estava pegada à cara.
Real, impossivelmente real, certa, desconhe- Que tenho sido grotesco, mesquinho,
Quando a tirei e me vi ao espelho,
[cidamente certa, [submisso e arrogante,
Já tinha envelhecido.
Com o mistério das coisas por baixo das Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó
[pedras e dos seres, Que quando não tenho calado, tenho
[que não tinha tirado.
Com a morte a pôr umidade nas paredes
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário [sido mais ridículo ainda;
[e cabelos brancos nos homens.
Como um cão tolerado pela gerência Eu, que tenho sido cômico às criadas de
Com o Destino a conduzir a carroça de
Por ser inofensivo [hotel,
[tudo pela estrada de nada.
E vou escrever esta história para provar Eu, que tenho sentido o piscar de olhos
[que sou sublime. [dos moços de fretes,
Estou hoje vencido, como se soubesse a
Essência musical dos meus versos inúteis, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras,
[verdade
Quem me dera encontrar-te como coisa [pedido emprestado sem pagar;
Estou hoje lúcido, como se estivesse para
[que eu fizesse, Eu, que, quando a hora do soco surgiu,
[morrer.
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria
E não tivesse mais irmandade com as [me tenho agachado
[de defronte,
[coisas Para fora da possibilidade do soco;
Calcando aos pés a consciência de estar
Senão uma despedida, tornando-se esta Eu, que tenho sofrido a angústia das
[existindo,
[casa e este lado da rua [pequenas coisas ridículas,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
A fileira de carruagens de um comboio, e Eu verifico que não tenho par nisto tudo
Ou um capacho que os ciganos roubaram
[uma partida apitada [neste mundo.
[e não valia nada.
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um (...) (...)
[ranger de ossos na ida. (Álvaro de Campos) (Álvaro de Campos)

MÓDULO 42 A Semana de Arte Moderna


1. ANTECEDENTES os prejuízos. A grande paralisação de seguintes eventos:
operários, em 1907, a Revolta dos 18
Nos primeiros anos do século XX, do Forte de Copacabana, o Tenen- • 1912: Oswald de Andrade vol-
iniciou-se em São Paulo o processo tismo, em 1922, somados aos ecos ta da Europa e começa a divulgar o
de industrialização do País. Produzi- da Primeira Guerra Mundial (1914-18), Futurismo, de Marinetti, e a técnica do
ram-se, além de manufaturados, con- evidenciavam o esgotamento da verso livre. Já no ano anterior fundara,
tingentes de trabalhadores operários: estrutura de poder no primeiro quarto com Emílio de Meneses, o jornal
homens, mulheres e crianças, que, do século XX no Brasil. humorístico O Pirralho, em que Juó
submetidos às condições mais avil- Junto com a estrutura sociopolíti- Bananere (Alexandre Marcondes
tantes de trabalho, ocupavam as filei- ca, esgotara-se também a arte que Machado) parodiava, no português
ras das linhas de produção. Enquanto ela sustentava, de modo que, conco- dos ítalo-paulistanos, poemas céle-
isso, a decadente elite do café, já mitantemente àqueles acontecimen- bres do Romantismo e do Parnasia-
deficitária, ostentava um alto padrão tos, os próprios artistas denunciavam nismo.
de vida, sustentado pela política dos a crise da cultura e da arte brasileiras No seguinte poema, Juó Bana-
governadores, que, para evitar a que- e a necessidade de sua transfor- nere satiriza o famoso soneto XII de
da do preço do produto, compravam mação. Assim, antes mesmo da Via-Láctea, de Olavo Bilac (“Ora,
os excedentes, socializando apenas Semana de 22, são notáveis os direis, ouvir estrelas…”):

– 37
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UVI STRELLA pos”, que seria recitado na segunda 2. A SEMANA DE


noite da Semana de Arte Moderna. ARTE MODERNA
Che scuitá strella, né meia strella!
– Moisés e Juca Mulato, de
Vucê stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi pra iscuitalas moltas veiz livanto,
Menotti del Picchia. Patrocinada pela elite letrada dos
I vô dá una spiada na gianella. – Nós, de Guilherme de Almeida, quatrocentões paulistanos, a Semana
ainda parnasiano e decadentista. “foi, ao mesmo tempo, o ponto de
I passo as notte acunversáno c’oella, – A Frauta de Pã, de Cassiano encontro das diversas tendências mo-
Inguanto che as otra lá d’un canto Ricardo, com sonetos parnasianos. dernas que desde a Primeira Guerra
Sto mi spiano. I o sol come un briglianto se vinham firmando em São Paulo e
Nasce. Oglio p’ru çeu — Cadê strella?!
Outros eventos no Rio, e a plataforma que permitiu a
Direis intó: — Ó migno inlustre amigo! consolidação de grupos, a publica-
O chi é chi as strellas ti dizia • Na música erudita, Villa-Lobos ção de livros, revistas e manifestos,
Quanto illas viéro acunversá contigo? compõe o balé Amazonas, incluindo numa palavra, o seu desdobrar-se em
elementos do folclore brasileiro, in- viva realidade cultural”. (BOSI,
E io ti diró: — Studi pra intendela, fluenciado por Stravinsky; na música Alfredo. História Concisa da Literatura
Pois só chi giá studô Astrolomia,
popular, é pela primeira vez gravado Brasileira. São Paulo: Cultrix, 3.a ed.,
É capaiz de intendê istas strella.
(Juó Bananere, La Divina Increnca)
em disco um samba, Pelo Telefone, 1987. p. 385). Ocorreu em três noites,
de Donga. 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, no
“O satírico aparece em estágios • Exposição de 53 quadros de Teatro Municipal de São Paulo.
complexos e saturados de vida urba- Anita Malfatti (1917), que provocou a Na primeira noite, Graça Aranha,
na; momentos em que a consciência dura crítica “Paranoia ou Mistifica- que, como membro da Academia
do homem culto já se rela com as ção?”, de Monteiro Lobato, em O Es- Brasileira de Letras, conferia ao
contradições entre o cotidiano real e tado de S. Paulo (20/12/1917). evento um ar de respeitabilidade, pro-
os valores que o enleiam. E a paródia, Segue-se trecho da crítica: fere a conferência “A Emoção Estética
‘canto paralelo’, só se faz possível da Arte Moderna”, ilustrada com poe-
quando uma formação literária e um “… Estas considerações são pro- mas declamados por Guilherme de
gosto, outrora sólidos, entram em vocadas pela exposição da Sra. Mal- Almeida e Ronald de Carvalho, acom-
crise, isto é, sobrevivem apesar do fatti, onde se notam acentuadíssimas panhados por Ernâni Braga ao piano,
cotidiano, sobrevivem como disfarce, tendências para uma atitude estética executando, de Eric Satie, a paródia
como véu ideológico.” forçada no sentido das extravagân- da Marcha Fúnebre de Chopin.
(Alfredo Bosi) cias de Picasso e companhia. Essa Na segunda noite, há a conferên-
artista possui talento vigoroso, fora do cia de Menotti del Picchia, ilustrada
• 1913: Lasar Segall realiza a pri- comum. Poucas vezes, através de com vários textos, entre os quais “Os
meira exposição de pintura moderna uma obra torcida para má direção, se Sapos”, de Manuel Bandeira, vaiados
em São Paulo. Expõe quadros expres- notam tantas e tão preciosas qualida- todos pelo público. Segue-se um
sionistas e é totalmente ignorado. des latentes (…)” trecho da conferência:
• 1914: Anita Malfatti faz sua pri- “Queremos lua, ar, ventiladores,
meira exposição de pintura não aca- Nos anos seguintes, houve o sur- aeroplanos, reivindicações obreiras,
dêmica. Uma série de artigos sobre o gimento de Victor Brecheret, a publica- idealismos, motores, chaminés de
Futurismo sai em O Estado de S. ção de Carnaval, de Manuel Bandeira, fábricas, sangue, velocidade, sonho
Paulo. a exposição de Di Cavalcanti, a publi- na nossa arte. E que o rufo do automó-
• 1915: Fundação da revista cação dos artigos “Mestres do Passa- vel, nos trilhos de dois versos, espan-
Orpheu, que introduz o Modernismo do”, em que Mário de Andrade ana- te da poesia o último deus homérico,
em Portugal. Ronald de Carvalho, que lisa e critica, duramente, a poesia par- que ficou, anacronicamente, a dormir
participaria da Semana, e Luís de nasiana. e a sonhar, na era do jazz band e do
Montalvor organizam no Rio o pri- cinema, com a frauta dos pastores da
meiro número da revista. Arcádia e dos seios de Helena!”
• 1917: Publicação de livros de Mário de Andrade, sob vaias, lê
estreia de futuros participantes da poemas que constituiriam o livro A Es-
Semana: crava que não é Isaura. Renato de Al-
– Há uma Gota de Sangue em meida critica o Parnasianismo e
Cada Poema, de Mário de Andrade, Villa-Lobos entra no palco de chinelos
protesto pacifista contra a Primeira (pois teria um calo no pé) e guarda-
Guerra Mundial. chuva, indignando o público.
– Cinza das Horas, de Manuel A terceira noite tem apenas pro-
Bandeira, “queixume de um doente de- grama musical e Villa-Lobos rege
senganado”, segundo o próprio autor. composições conhecidas do reduzido
No seu livro seguinte, Carnaval (1919), público, que aplaudiu, sem escân-
apareceria o poema satírico “Os Sa- Victor Brecheret, Pietá, madeira – 40x50cm. dalos.
38 –
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❑ A revista Klaxon, Mensário de Ar- propunham a exaltação da terra, do


te Moderna, durou de maio de 1922 a homem, do folclore e dos heróis
fevereiro de 1923. Reunindo os nacionais. Aproximavam-se do Inte-
modernistas da fase heroica, não gralismo, doutrina que defendia um
sobreviveu à divisão entre a corrente regime político totalitário, corpora-
dinamista, adepta do futurismo, da tivista e nacionalista. Os manifestos
técnica, da velocidade, da experi- dessa corrente estão em Curupira e o
mentação de uma linguagem nova, e Carão, de Plínio, Menotti e Cassiano,
a primitivista, chegada ao expressio- e no Nhengaçu Verde-Amarelo. Mar-
nismo e à exploração do folclore bra- tim Cererê, de Cassiano Ricardo, é a
sileiro. Dividida entre a ânsia de melhor realização poética dos
modernização do Brasil e a convicção ideais dessa vertente.
de que nossas raízes indígenas e ne- Tarsila do Amaral, Antropofagia, 1929.
gras precisavam de tratamento esté- Nhengaçu Verde-Amarelo
tico adequado, a revista, incon- (fragmentos) Manifesto Antropófago
gruente na aparência, é o fundamento (fragmentos)
de obras como Macunaíma, Pau- “A descida dos tupis do planalto
Brasil, Cobra Norato, Martim Cererê, central no rumo do Atlântico foi uma Só a antropofagia nos une. So-
Revista de Antropofagia, Memórias fatalidade histórica pré-cabralina, que cialmente. Economicamente. Filoso-
Sentimentais de João Miramar etc. preparou o ambiente para as en- ficamente.
tradas no sertão pelos aventureiros

brancos desbravadores do oceano
(…). Única lei do mundo. Expressão
Os tupis desceram para serem ab- mascarada de todos os individualis-
sorvidos, para se diluírem no sangue mos, de todos os coletivismos. De to-
da gente nova. Para viver subjetiva- das as religiões. De todos os tratados
mente e transformar numa prodigiosa de paz.
força a bondade brasileira e o seu

grande sentimento de humanidade.
Seu totem não é carnívoro: Anta. Tupi or not tupi, that’s the question.
É este animal que abre caminhos, e (…)
aí parece estar indicada a predestina- Já tínhamos o comunismo. Já tí-
ção da gente tupi. (…).” nhamos a língua surrealista. A idade
de ouro. (…)
❑ Corrente primitivista: grupos “Pau-
Brasil” (1924) e “Antropofagia” (1928). (…)
Tiveram a liderança marcante de
Oswald de Andrade e a participação Somos concretistas. As ideias to-
de Tarsila do Amaral, Raul Bopp, mam conta, reagem, queimam gente
Antônio de Alcântara Machado (só na nas praças públicas. Suprimamos as
Capa do primeiro número da revista Klaxon. “Antropofagia”) e de Mário de Andra- ideias e as outras paralisias. Pelos
de, na fase de Macunaíma e Clã do roteiros. Acreditar nos sinais, acre-
❑ A revista Estética, dirigida por Jabuti. Os ideais da corrente foram ditar nos instrumentos e nas estrelas.
Sérgio Buarque de Holanda e Pruden- expressos no Manifesto Antropófago,
te de Morais Neto, foi lançada em publicado no primeiro número da Re- (…)
1924 e teve três números fartos de vista de Antropofagia, em 1928. Essa Contra a realidade social, vestida e
material teórico. Nessa revista, a dis- revista foi publicada em duas “denti- opressora, cadastrada por Freud —
puta era entre “arte interessada” e ções”: de maio de 1928 a janeiro de a realidade sem complexos, sem lou-
“arte autônoma”. 1929, mensalmente, e de março a cura, sem prostituições e sem peniten-
agosto de 1929, semanalmente. ciárias do matriarcado de Pindorama.
3. AS CORRENTES
MODERNISTAS Pretendendo “reintegrar o homem
na livre expansão dos seus instintos vi- Oswald de Andrade.
❑ Corrente nacionalista: grupos tais”, essa corrente propunha, não uma Em Piratininga.
“Verde-Amarelo” (1924), “Anta” (1929) aceitação passiva do legado europeu Ano 374 da Deglutição do Bispo
e “Bandeira” (1936). Reuniram-se à cultura brasileira, mas a devoração Sardinha.
principalmente em torno de Menotti crítica desse legado e sua trans-
del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio formação em algo novo, com identida- (Revista de Antropofagia, Ano I,
Salgado. Tinham visão ufanista e de própria e alcance universal. n.o 1, maio de 1928)

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Textos da “fase heroica” Observações


do Modernismo “Os Sapos”, poema declamado
OS SAPOS por Ronald de Carvalho na segunda
noite da Semana de Arte Moderna,
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
em 15 de fevereiro de 1922, satiriza a
Aos pulos, os sapos. preocupação parnasiana com as
A luz os deslumbra. rimas, com a métrica, com o vocabu-
Em ronco que aterra,
lário precioso. Aproxima-se, parodis-
Berra o sapo-boi: ticamente, do poema “Profissão de
— “Meu pai foi à guerra!” Fé”, de Olavo Bilac:
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”
Invejo o ourives quando escrevo
O sapo-tanoeiro, Imito o amor
Parnasiano aguado, Com que ele, em ouro, o alto relevo
Diz: — “Meu cancioneiro Faz de uma flor.
É bem martelado.
O sapo-tanoeiro (v. 9) é uma alu-
Vede como primo são a Bilac (tanoeiro é o artesão que,
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
com martelo, enverga a madeira, pa-
Os termos cognatos. ra a construção ou barricas). O sapo-
cururu simboliza a poesia autêntica,
O meu verso é bom despida de artificialismo.
Frumento sem joio.
Oswald de Andrade, em tela de Tarsila do Nos versos 23 e 24 — “Reduzi sem
Faço rimas com
Amaral. Consoantes de apoio. danos / A fôrmas a forma” —, há um
trocadilho, ironizando o fato de que a
Vai por cinquenta anos
❑ Definição e características rigidez das regras parnasianas era tão
Que lhes dei a norma:
da linguagem modernista Reduzi sem danos forte que reduzia a forma (ó) em forma
A fôrmas a forma. (ô), ou seja, reduzia a forma da poesia
• Rejeição das normas e a um molde, modelo obrigatório.
Clame a saparia
estéticas consagradas Em críticas céticas: POÉTICA
– antiacademismo, anticonfor- Não há mais poesia,
mismo; Mas há artes poéticas…” Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Urra o sapo-boi: Do lirismo funcionário público com livro de
– perseguição incessante de três [ponto expediente protocolo e
— “Meu pai foi rei” — “Foi!”
princípios: [manifestações de apreço ao sr. diretor.
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”
1. direito à pesquisa estética; Estou farto do lirismo que para e vai averiguar
Brada em um assomo [no dicionário o cunho vernáculo
O sapo-tanoeiro: [de um vocábulo
2. atualização da inteligência artísti- — “A grande arte é como
ca brasileira; Lavor de joalheiro. Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os
3. estabilização de uma consciência Ou bem de estatuário. [barbarismos universais
Tudo quanto é belo, Todas as construções sobretudo as sintaxes
criadora nacional. [de exceção
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.” Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
• Inovações na linguagem
Outros, sapos-pipas Estou farto do lirismo namorador
poética Político
(Um mal em si cabe),
– novos ritmos: versos livres, no- Falam pelas tripas: Raquítico
vo fraseado; Sifilítico
— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!”
De todo lirismo que capitula ao que quer
Longe dessa grita, [que seja fora de si mesmo.
– aproximação entre poesia e
prosa; Lá onde mais densa
De resto não é lirismo
A noite infinita Será contabilidade tabela de cossenos
– nova concepção do mundo e Verte a sombra imensa; [secretário do amante exemplar com
do homem (civilização moderna, o co- Lá, fugido ao mundo,
[cem modelos de cartas e as diferentes
[maneiras de agradar às mulheres etc.
tidiano, o nacional, o subconsciente) – Sem glória, sem fé,
surgimento de novos temas; No perau profundo Quero antes o lirismo dos loucos
E solitário, é O lirismo dos bêbados
– irreverência, humorismo — o O lirismo difícil e pungente dos bêbados
Que soluças tu, O lirismo dos clowns de Shakespeare
“poema-piada”;
Transido de frio,
Sapo-cururu — Não quero mais saber do lirismo que
– síntese, simultaneísmo, ima- [não é libertação.
Da beira do rio…
gens vívidas, fusão de elementos di-
versos, expressão elíptica. (Manuel Bandeira, Carnaval, 1919) (Manuel Bandeira, Libertinagem, 1930)

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MÓDULO 43 Primeiro Tempo Modernista: Mário de Andrade I


1. MÁRIO DE ANDRADE • Ensaio A outra vertente é folclórica, fincada
(SÃO PAULO, 1893-1945) A Escrava que não é Isaura (1925) nas lendas brasileiras, inspirada em
O Aleijadinho e Álvares de Aze- nossa formação cultural. Essa poesia
❑ Vida vedo (1935) aparece sobretudo em Clã do Jabuti
“Sou trezentos, sou trezentos-e- A Música e a Canção Populares no (1927).
cinquenta, / mas um dia afinal toparei Brasil (1936) Mas a partir de 1930, a poesia de
comigo...” O Baile das Quatro Artes (1943) Mário de Andrade vai mostrando evo-
Fez o curso secundário no Ginásio Aspectos da Literatura Brasileira lução e maturidade. Em Remate de
Nossa Senhora do Carmo e diplomou- (1943) Males (1930), ele já abandona muitos
se no Conservatório Dramático e O Empalhador de Passarinhos maneirismos e modismos futuristas
Musical, onde viria a ser professor de (1944) para criar uma poesia que consegue
História da Música. Tendo sido um dos O Banquete (1978) fundir o pessoal e o coletivo.
responsáveis pela Semana de Arte
❑ Prosa
Moderna, animou as principais revistas • Crônica
A prosa literária de Mário de An-
do movimento na sua fase de afirmação Os Filhos da Candinha (1943)
drade apresenta também duas tendên-
polêmica: Klaxon, Estética, Terra Roxa
cias:
e Outras Terras. Soube conjugar uma vi- • Musicologia e Folclore
da de intensa criação literária com o Ensaio sobre a Música Brasileira • A prosa mítica e
estudo apaixonado da música, das (1928) folclórica de Macunaíma
artes plásticas e do folclore brasileiro. Compêndio de História da Música Macunaíma é uma revolução na
De 1934 a 1937 dirigiu o Departamento (1929) linguagem da narrativa. Mário de An-
de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Modinhas e Lundus Imperiais (1930) drade une tom oral a um vocabulário re-
fundou a Discoteca Pública, promoveu Música, Doce Música (1933) gional inédito na prosa de ficção.
o Primeiro Congresso de Língua Nacio- Namoros com a Medicina (1939) Macunaíma é “o herói sem nenhum ca-
nal Cantada e dinamizou a excelente Música do Brasil (1941) ráter”, é o índio nascido no Amazonas,
Revista do Arquivo Municipal. Danças Dramáticas do Brasil (3 que vem para São Paulo buscar sua
De 1938 a 1940 lecionou Estética vols., 1959) “muiraquitã” (pedrinha mágica, em
na Universidade do Distrito Federal. Música e Feitiçaria no Brasil (1963) forma de jacaré), roubada por um
Voltando a São Paulo, passou a traba- gigante de dupla identidade: por um
lhar no Serviço do Patrimônio Histórico. • História da Arte lado é índio antropófago (o gigante
Faleceu na sua cidade aos cinquenta e Padre Jesuíno do Monte Carmelo Piaimã), por outro é de origem italiana
um anos de idade. (1946) e um grande número de opús- e mora em São Paulo (Venceslau
culos, folhetos etc., reunidos em vo- Pietra). Macunaíma consegue vencê-lo
❑ Obras lumes nas Obras Completas. e recuperar a pedra. De volta à sua terra
• Poesia natal, não encontra mais sua tribo, que
• Correspondência fora destruída. Fica sozinho na floresta,
Há uma Gota de Sangue em Cada
Em parte inédita. Há centenas de sempre triste por ter perdido a mulher
Poema (1917)
cartas escritas para inúmeros amigos, que amava, Ci, mãe do mato,
Pauliceia Desvairada (1922)
artistas, intelectuais etc. Destacam-se rainha das Icamiabas (tribo amazônica).
Losango Cáqui (1926) Macunaíma passa o tempo contando
as para Manuel Bandeira, Drummond,
Clã do Jabuti (1927) suas histórias (e mentindo muito) a um
Murilo Mendes, Sérgio Milliet, Paulo
Remate de Males (1930) Duarte. papagaio, seu único companheiro na
Poesias (1941) solidão e narrador presumível do livro.
Lira Paulistana (1946) 2. CONSIDERAÇÕES CRÍTICAS Morto pelo abraço destruidor de Yara
O Carro da Miséria (1946) (espécie de sereia dos índios), sobe ao
Poesias Completas (1955) ❑ Poesia céu, transformado numa estrela da Ursa
A poesia de Mário de Andrade Maior. Trata-se de uma fábula múltipla,
• Conto segue dois caminhos, muito ligados ao ou rapsódia, porque reúne várias lendas
tipo de assunto que abordam. Quando brasileiras, tendo no centro a lenda de
Primeiro Andar (1926)
fala de São Paulo, o poeta incorpora Macunaíma, que Mário de Andrade ex-
Belazarte (1934)
várias técnicas da poesia futurista euro- traiu de um livro sobre os mitos
Contos Novos (1947)
peia, porque a cidade, precisamente a indígenas do norte do Amazonas. A
metrópole, foi o eixo principal de toda a narrativa reúne superstições, frases
• Romance arte moderna. É o que Mário de Andrade feitas, provérbios e modismos de
Amar, Verbo Intransitivo (1927) realiza principalmente em Pauliceia linguagem, tudo sistematizado e
Macunaíma (1928) – Rapsódia Desvairada (1922). intencionalmente entretecido.
– 41
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• A prosa pessoal urbana grita. Penso depois: não só para corrigir, como II
A prosa urbana de Mário de An- para justificar o que escrevi. Daí a razão deste
Prefácio Interessantíssimo. (…)
drade recolhe vários falares paulista-
(…) Então Macunaíma percebeu que não era
nos do dia-a-dia, seja a fala mais assombração nada, era mas o monstro Oibê
Escrever a arte moderna não significa
polida, como aparece nos Contos No- minhocão temível. Criou coragem pegou no
jamais para mim representar a vida atual no
vos (1947), seja a oralidade dos bair- que tem de exterior: automóveis, cinema,
brinco da orelha esquerda que era a máquina
ros de imigrantes italianos, como revólver e deu um tiro na assombração. Porém
asfalto. Si estas palavras frequentam-me o livro Oibê não fez caso e veio vindo. O herói tornou
Belazar te (1934). No primeiro, Mário não é porque pense com elas escrever mo- a ter medo. Pulou na rede agarrou a gaiola e
descarrega muita dose de psicolo- derno, mas porque, sendo meu livro moderno, escafedeu pela janela, jogando baratas no
gismo, que culmina no célebre conto elas têm nele razão de ser. caminho todo. Oibê correu atrás. Mas era só
“Peru de Natal”, o mais conhecido dos (…) de brincadeira que ele queria comer o herói.
contos de Mário. Apoiando-se em Macunaíma desembestara agreste fora mas
Chove? isso ia que ia acochado pelo minhocão. Então
Freud (Totem e Tabu), desmistifica as
Sorri uma garoa cor de cinza, botou o furabolo na goela, fez cosquinha e
relações familiares. lançou a farinha engolida. A farinha virou num
muito triste, como um tristemente longo...
Em Belazarte, com muita graça e areão e enquanto o monstro pelejava pra atra-
A casa Kosmos não tem impermeáveis
compadecimento cristão, Mário fala da vessar aquele mundo de areia escorregando,
[em liquidação...
gente pobre e oprimida das classes Macunaíma fugia. Tomou pela direita, desceu
Mas neste largo do Arouche o morro do Estrondo que soa de sete em sete
médias de São Paulo. posso abrir o meu guarda-chuva para- anos seguiu por uns caponetes e depois de
Em Amar, Verbo Intransitivo, Mário [doxal, cortar um travessão encapelado fez o Sergipe
de Andrade dá tratamento literário a este lírico plátano de rendas mar... de ponta a ponta e parou ofegante num agar-
processos psicanalíticos freudianos, rado muito pedregoso. Na frente havia uma
como fixações, recalques e sublima- Ali em frente... — Mário, põe a máscara! lapa grande furada por uma furna com um
— Tens razão, minha Loucura, tens razão. altarzinho dentro. Na boca da socava um frade.
ções. Neste romance, narra-se a história
O rei de Tule jogou a taça ao mar... Macunaíma perguntou pro frade:
de uma jovem alemã, Fräulein, cha- — Como se chama o nome de você?
Os homens passam encharcados...
mada por uma família de burgueses O frade pôs no herói uns olhos frios e
Os reflexos dos vultos curtos
paulistanos para iniciar Carlos, filho secundou com pachorra:
mancham o petit-pavé...
mais velho, na vida sexual. — Eu sou Mendonça Mar pintor.
As rolas da Normal Desgostoso da injustiça dos homens faz três
esvoaçam entre os dedos da garoa... séculos que afastei-me deles metendo cara no
(E si pusesse um verso de Crisfal sertão. Descobri esta gruta ergui com minhas
TEXTOS
No De Profundis?...) mãos este altar do Bom Jesus da Lapa e vivo
De repente aqui perdoando gente mudado em frei Fran-
(fragmentos) um raio de Sol arisco cisco da Soledade.
I risca o chuvisco ao meio. — Está bom, Macunaíma falou. E partiu na
chispada.
Quando sinto a impulsão lírica escrevo (Mário de Andrade, (…)
sem pensar tudo o que meu inconsciente me Pauliceia Desvairada) (Mário de Andrade, Macunaíma, cap. XV)

MÓDULO 44 Mário de Andrade II: Macunaíma e Oswald de Andrade I


1. MACUNAÍMA – ti fi cava cada trecho cantado de um anedotas da história brasileira com os
ANÁLISE DA OBRA poema épico. Em música, segundo o costumes do Nordeste etc.
dicionário Aurélio, é uma “fantasia ins-
Em 1928, Mário de Andrade publi- trumental que utiliza melodias tiradas ❑ Tempo e espaço
cou sua obra-prima, a “rapsódia” Macu- dos cantos tradicionais ou populares”. Criando uma narrativa fantástica e
naíma. Escrita em poucos dias em São também rapsódias os velhos ro- picaresca, há subversão do tempo e do
dezembro de 1926, a obra foi revisada mances versificados e musicados, as espaço geográfico, que não obede-
três vezes antes de ser editada. Para canções de gesta de Rolando, a Encan- cem às regras de verossimilhança, de
escrevê-la, o autor passou vários anos tada Branca-Flor e, nos dias atuais, as tal forma que o “herói sem nenhum
pesquisando a mitologia indígena, o fol- gestas dos cangaceiros, entoadas nas caráter” pode, num mesmo capítulo,
clore nacional, os costumes e a lin- feiras do Nordeste pelos cantadores. estar em São Paulo, encontrar o minho-
guagem dos brasileiros. Numa tentativa O livro segue o mesmo processo de cão Oibê, assombração, e fugir dele
de mapear o Brasil, registrando sua composição ou construção da rapsódia, correndo por Sergipe, Campinas, Bahia,
história, seus costumes, seus falares, os justapondo vários trechos que ganham deparando-se em todo esse percurso
ritmos das canções e das danças unidade no conjunto da obra. Assim, com personagens reais e lendárias.
populares, o livro, num clima surrealista tomando como fio condutor a persona- Assim, as sucessivas traquinagens
e mítico, acumula um exagero de len- gem Macunaíma, o autor faz uma de Macunaíma são vividas num espaço
das, superstições, frases feitas, provér- colagem de diversos fragmentos, mistu- mágico, próprio da atmosfera fantástica
bios e modismos de linguagem. rando as lendas dos índios com a vida e maravilhosa em que se desenvolve a
Rapsódia, na antiga Grécia, iden- urbana das cidades do Sudeste, as narrativa.
42 –
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❑ Linguagem ganhar vintém. E também espertava Sou livre-docente de literatura na


A linguagem também é construída quando a família ia tomar banho no rio, Faculdade de Filosofia da Universi-
pelo processo de colagem, pela combi- todos juntos e nus. (...) dade de São Paulo.
nação de vocábulos e torneios sintáticos Quando era pra dormir trepava no (Oswald de Andrade, de um artigo
colhidos dos mais variados falares do macuru pequeninho sempre se esque- publicado pelo
Brasil. Com isso, o autor criou um estilo cendo de mijar. Como a rede da mãe Diário de Notícias, em 1950.)
muito pessoal e expressivo, capaz de estava por debaixo do berço, o herói
transmitir lirismo, humor, deboche, mijava quente na velha, espantando os O mal foi ter eu medido o meu
comicidade, revelando maturidade lite- mosquitos bem. Então adormecia avanço sobre o cabresto metrificado e
rária e domínio estilístico. sonhando palavras feias, imoralidades nacionalista de duas remotas alimárias
estrambólicas e dava patadas no ar. — Bilac e Coelho Neto. O erro foi ter
❑ Foco narrativo (...) corrido na mesma pista inexistente. (...)
O foco narrativo predominante é o (Mário de Andrade, Macunaíma, cap. I) A situação “revolucionária” desta
de terceira pessoa, mas Mário de bosta mental sul-americana apresenta-
Andrade inova ao utilizar uma técnica ❑ Um estilo de paródia va-se assim: o contrário do burguês não
cinematográfica de cortes bruscos no Retoma, satiricamente, a linguagem era o proletário — era o boêmio! As
discurso do narrador para dar lugar à empolada e pedante dos parnasianos e massas, ignoradas no território e, como
fala das personagens. dos cultores de Rui Barbosa e Coelho hoje, sob a completa devassidão eco-
Neto. É o que se vê na “Carta pras nômica dos políticos e dos ricos. Os
Icamiabas”, que o herói escreve no intelectuais brincando de roda.
2. ESTILOS DE NARRAÇÃO capítulo IX, focalizando a duplicidade (Oswald de Andrade,
no uso de nossa língua. prefácio de Serafim Ponte Grande)
A narrativa de Macunaíma apoia-se
na ideia de que tudo vira tudo e na (...) Mas cair-nos-iam as faces, si O mais radical dos modernistas de
capacidade de compor e recompor ocultáramos no silêncio uma curio- 22 teve sua vida marcada por uma cria-
configurações a partir de conteúdos sidade original deste povo. Ora sabe- tiva vontade de transgredir, por um fe-
díspares, esvaziados de suas primitivas reis que a sua riqueza de expressão cundo anarquismo, fazendo de Oswald
funções. Daí a técnica caleidoscó- intelectual é tão prodigiosa, que falam uma personagem em perpétua revolta,
pica, por meio da qual as ideias e numa língua e escrevem noutra. (...) guiado por uma infinita curiosidade:
imagens se projetam arbitrariamente, Nas conversas, utilizam-se os pau- “Encaixo tudo, somo, incorporo”.
inclusive nos modos de contar, nos listanos dum linguajar bárbaro e multifá- Das memórias da infância, uma das
estilos narrativos. rio, crasso de feição e impuro na mais marcantes foi a descoberta do
Alfredo Bosi destaca três estilos de vernaculidade, mas que não deixa de circo, que plasmou a visão circense do
narrar: ter o seu sabor e força nas apóstrofes, mundo, a carnavalização da vida, tão
e também nas vozes do brincar. Destas marcantes na ironia, no humor e nas
❑ Um estilo de lenda, e daquelas nos inteiramos, solícito; e paródias de Oswald, que se dizia “um
épico-lírico, solene nos será grata empresa vô-las ensi- palhaço da burguesia”.
No fundo do mato-virgem nasceu narmos aí chegado. Mas si de tal Aos 22 anos parte para a Europa,
Macunaíma, herói de nossa gente. Era desprezível língua se utilizam na incorporando em sua bagagem, no re-
preto retinto e filho do medo da noite. conversação os naturais desta terra, gresso, os “ismos” da vanguarda do
Houve um momento em que o silêncio logo que tomam da pena, se despojam velho mundo: as lembranças de Landa
foi tão grande escutando o murmurejo do de tanta asperidade, e surge o Homem Kosbach, dançarina, “flor de carne
Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu Latino de Lineu, exprimindo-se numa musculosa e doirada”, e Kamiá, ex-
uma criança feia. Essa criança é que outra linguagem, mui próxima da rainha dos estudantes de Montmartre,
chamaram de Macunaíma. vergiliana, no dizer dum panegirista, que lhe dá o primeiro filho, Nonê
(Mário de Andrade, Macunaíma, cap. I) meigo idioma, que, com imperecível (síntese de “nosso nenê”).
galhardia, se intitula: língua de Camões! Conhece também lsadora Duncan,
❑ Um estilo de crônica, (Mário de Andrade, Macunaíma, cap. IX) de quem foi muito amigo e com quem
cômico, despachado, solto escandalizou a sociedade da época.
Já na meninice fez coisas de sa- 3. OSWALD DE ANDRADE Dessas relações, a mais intensa se-
rapantar. De primeiro passou mais de (São Paulo, 1890-1954) rá com Deise, apelidada “Miss Ciclone”,
seis anos não falando. Si o incitavam a moça de uma garçonnière da Rua
falar, exclamava: ❑ Vida Líbero Badaró, com quem Oswald
Viajei, fiquei pobre, fiquei rico, ca- passa a viver em 1917. Deise morre
— Ai! que preguiça!... sei, enviuvei, casei, divorciei, viajei, tragicamente de um aborto malsuce-
e não dizia mais nada. Ficava no casei... já disse que sou conjugal, gre- dido, e Oswald casa-se com ela in
canto da maloca, trepado no jirau de mial e ordeiro. O que não me impediu extremis, no leito do hospital em que
paxiúba, espiando o trabalho dos ou- de ter brigado diversas vezes à por- estava internada.
tros e principalmente os dois manos tuguesa e tomado parte em algumas As marcas dessa relação vão rea-
que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê batalhas campais. Nem ter sido preso parecer no primeiro romance, Os Con-
na força de homem. O diver timento 13 vezes. Tive também grandes fugas denados. Em seu livro de memórias,
dele era decepar cabeça de saúva. por motivos políticos. Tenho três filhos Oswald fala dessa fase:
Vivia deitado mas si punha os olhos em e três netos e sou casado, em últimas “Sinto-me só, perdido numa imensa
dinheiro, Macunaíma dandava pra núpcias com Maria Antonieta d’Alkimin. noite de orfandade.
– 43
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A amada que me deu a vida partiu etílico-gastronômico-culturais. Em Paris, do-se ao Partido Comunista e fundando
sem me dizer adeus. Oswald lança seu primeiro livro de poe- o jornal O Homem do Povo, pasquim
A francesa que trouxe de Paris veio sias, Pau-Brasil, ilustrado por Tarsila. humorístico-panfletário, que foi empas-
buscar o dinheiro para outro homem. Com a crise internacional em 1929, telado por estudantes da Faculdade de
Landa, que foi o primeiro sonho vi- Oswald vai à falência, dependurando- Direito do Largo São Francisco. Serafim
vo que me ofuscou, tornou-se a estátua se nos reis da vela, apelido dos agiotas Ponte Grande é o romance que projeta
de sal da lenda bíblica. Olhou para o da zona bancária do centro velho de essa fase de radicalidade criativa e
passado. São Paulo. Perde tudo, transforma-se ideológica.
lsadora Duncan estrondou como num “vira-latas do Modernismo”, mas Fiel à sua proposta de “monogamia
raio e passou. A que encontrei, enfim, adquire uma vigorosa experiência das sucessiva”, Oswald casa-se, em 1936,
para ser toda minha, meu ciúme matou... misérias do mundo das finanças, com a poetisa Julieta Bárbara e, em
Estou só e a vida vai custar a reflorir. matéria-prima que vai transpor em O 1942, com Maria Antonieta d’Alkimin,
Estou só.” Rei da Vela. sua relação mais estável, documentada
Mais tarde, já no auge do movi- No início dos anos de 1930, passa nos poemas de Cântico dos Cânticos,
mento modernista (1926), casa-se com a viver com Patrícia Galvão (Pagu), ati- para Flauta e Violão e no livro de
Tarsila do Amaral, formando o elegan- víssima mulher que foi finalmente resga- memórias.
tíssimo casal Tarsiwald, fundador do tada para a memória nacional por Nas décadas de 1940 e 1950,
Movimento Antropófago. Entra em con- Augusto de Campos, em trabalho pu- Oswald dedica-se à vida acadêmica,
tato com alguns artistas europeus, co- blicado no ano de 1982. inclinando-se para a problemática es-
mo Blaise Cendrars e Leger. Neste Com Pagu, Oswald realiza uma gui- piritual e para os temas essenciais da
período promove concorridas reuniões nada ideológica para a esquerda, filian- vida.

MÓDULO 45 Oswald de Andrade II


❑ Obras O Rei da Vela (1937) “Oswald de Andrade foi um dos
• Romance A Morta (1937) mais vivos ensaístas e panfletários de
Os Condenados, I – Alma; II – A O Rei Floquinhos (infantil, 1953) nossa literatura, com uma rara capa-
Estrela de Absinto; III – A Escada cidade de tornar sugestiva a ideia, pela
• Memórias violência corrosiva das afirmações, o
Vermelha (1941; reedição, num
Um Homem sem Profissão (1954) humorismo e o fulgor dos tropos. Na
único volume, de A Trilogia do Exílio
• Crônicas obra propriamente criadora, mostrou a
ou Romances do Exílio, escritos
Telefonemas (edição póstuma) importância das experiências semân-
entre 1922 e 1934)
Memórias Sentimentais de João Mi- ticas e o relevo que a palavra adquire,
❑ Considerações gerais quando manipulada com o duplo apoio
ramar (1924)
a) Oswald chega a vivenciar uma de imagem surpreendente e da sintaxe
Serafim Ponte Grande (1933) São Paulo ainda provinciana, desper-
Marco Zero, I – A Revolução Me- descamada. Deste modo, quebrou as
tando para o seu processo de industria- barreiras entre poesia e prosa, para
lancólica (1943) lização. Ele está no meio de duas
Marco Zero, lI – Chão (1945) atingir a uma espécie de fonte comum
forças: a do patriarcalismo agrário, já de linguagem artística. Pode-se dizer
• Poesia passada, e a do início da tecnologia ur- que a sua importância histórica de reno-
Pau-Brasil (1925) bana. “Nossos pais vinham do patriar- vador e agitador (no mais alto sentido)
Primeiro Caderno do Aluno de Poe- cado rural, nós inaugurávamos a era da foi decisiva para a formação da nossa
sia Oswald de Andrade (1927) indústria”, ele afirma com lucidez na literatura contemporânea.”
Poesias Reunidas (edição póstuma) mirada retrospectiva de sua vida. c) O Prof. Alfredo Bosi identifica, na
Assim, os meios de comunicação obra de Oswald, três níveis:
• Manifestos, Teses e de massa — como o cinema, o rádio, a I – O mais inferior: a prosa de Os
Ensaios linguagem da propaganda — são rapi- Condenados, A Estrela de Absinto e A
Manifesto da Poesia Pau-Brasil damente assimilados pelo poeta. “Pos- Escada Vermelha, novelas meio munda-
(1924) tes da Light”, em Poesia Pau-Brasil, é nas, meio psicológicas, nas quais há
Manifesto Antropófago (1928) um exemplo de poema cujo estilo vem sempre um artista atribulado pelas
Ponta de Lança (1945) contaminado pela síntese vertiginosa exigências de sua personalidade.
A Arcádia e a Inconfidência (1945) causada pela nova paisagem urbana; lI – O trânsito para a experiência do
A Crise da Filosofia Messiânica suas principais personagens são a romance “informal” de Memórias Sen-
(1950) multidão, os novos meios de transporte, timentais de João Miramar, seu ponto
A Marcha das Utopias (póstuma, o fonógrafo, o cinema etc. Exemplo vivo alto, e de Serafim Ponte Grande. Ambas
1966) desta fascinação pelo moderno é o as obras correm paralelamente às poé-
famoso Cadillac verde que Oswald ticas do Pau-Brasil e da Antropofagia,
• Teatro
possuía nessa época. no sentido de satirizar o Brasil.
O Homem e o Cavalo (1934)
b) Do Prof. Antonio Candido:
44 –
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III – A “nova revolução formal”: o te- Topamos aves NOTURNO


legrafismo das rupturas sintáticas, o E houvemos vista de terra
simultaneísmo, as ordens do subcons- (Oswald de Andrade, Lá fora o luar continua
“História do Brasil”) E o trem divide o Brasil
ciente, os neologismos. A composição
Como um meridiano
do romance é revolucionária: capítulos-
OS SELVAGENS (Oswald de Andrade,
instantes; capítulos-relâmpagos; capí- “São Martinho”)
tulos-sensações (capítulos-flash). Mostraram-lhes uma galinha
Oswald, leitor dos futuristas e afe- Quase haviam medo dela DITIRAMBO
tado pela técnica do cinema — a co- E não queriam pôr a mão
lagem rápida de signos, os processos E depois a tomaram como espantados Meu amor me ensinou a ser simples
diretos “sem comparações de apoio”, (Oswald de Andrade, Como um largo de igreja
“as palavras em liberdade” —, vai além “História do Brasil”) Onde não há nem um sino
do verso livre. Desarticulação total da AS MENINAS DA GARE Nem um lápis
Nem uma sensualidade
frase — o que produzirá também um
modo novo de dispor o texto, uma nova Eram três ou quatro moças bem moças (Oswald de Andrade, “rp 1”)
espacialização do material literário. [e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas Temos aqui dois exemplos da for-
E suas vergonhas tão altas e tão ça expressiva que Oswald retira de sua
❑ Pau-Brasil linguagem elíptica, alusiva, conden-
[saradinhas
Composto em Paris, Oswald cria Que de nós as muito bem olharmos sada. O “Noturno” evidencia a técnica
neste livro aquilo que ele chamaria de Não tínhamos nenhuma vergonha cubista, prevalecendo as for mas
poesia de exportação. (Oswald de Andrade, geométricas: o círculo da lua e as re-
O projeto visava a um desligamen- “História do Brasil”) tas do trem e do meridiano. O título é
to dos modelos poéticos importados, ambíguo, remetendo-nos tanto a um
pondo fim à grandiloquência e à serie- Oswald recria, poeticamente, a tipo de composição musical romântica
dade. Composto de poemas-pílulas, Carta de Caminha a D. Manuel. Veja em (os noturnos de Chopin) quanto à
mistura a linguagem antiga dos cronis- “As Meninas da Gare” a justaposição do designação de um trem noturno.
tas e jesuítas da época do descobri- histórico ao moderno: as indígenas a
mento do Brasil com o falar coloquial de que Pero Vaz se refere são vistas como ESCOLA BERLITES
seu tempo; reinventa composições as meninas da gare (gare: palavra
francesa que significa “estação”). Todos os alunos têm a cara ávida
consagradas do Romantismo em paró-
Mas a professora sufragete
dias irônicas. Maltrata as pobres datilógrafas bonitas
E detesta
VÍCIO NA FALA
TEXTOS The spring
Para dizerem milho dizem mio Der Frühling
ESCAPULÁRIO Para melhor dizem mió La primavera scapigliata
Para pior pió Há uma porção de livros pra ser comprados
No Pão de Açúcar Para telha dizem teia A gente fica meio esperando
De Cada Dia Para telhado dizem teiado As campainhas avisam
Dai-nos Senhor E vão fazendo telhados As portas se fecham
A Poesia É formoso o pavão?
(Oswald de Andrade,
De Cada Dia De que cor é o Senhor Seixas?
“História do Brasil”)
Senhor Lázaro traga-me tinta
(Oswald de Andrade,
Qual é a primeira letra do alfabeto?
Ah!
“Por Ocasião da Descoberta do Brasil”) PRONOMINAIS
(Oswald de Andrade, “Postes da Light”)
Dê-me um cigarro
Note como Oswald de Andrade pa- Diz a gramática RECLAME
rodia a linguagem religiosa, substituin- Do professor e do aluno
do o termo “pão”, do Pai-Nosso, por E do mulato sabido Fala a graciosa atriz
“Pão de Açúcar” e “Poesia”. Com isto, Mas o bom negro e o bom branco Margarida Perna Grossa
o poeta subverte a ordem litúrgica para Da Nação Brasileira Linda cor — que admirável loção
introduzir o elemento brasileiro e refletir Dizem todos os dias Considero lindacor o complemento
Deixa disso camarada Da toalete feminina da mulher
sobre o caráter da poesia. São traços
Me dá um cigarro Pelo seu perfume agradável
modernos do poema o seu humor, seu E como tônico do cabelo garçone
caráter sintético, assim como a ausên- (Oswald de Andrade,
“Postes da Light”)
Se entendam todas com Seu Fagundes
cia total de pontuação. Único depositário
Nos E. U. do Brasil
Nos dois poemas se manifesta a (Oswald de Andrade, “Postes da Light”)
A DESCOBERTA proposta de reduzir a distância entre a
linguagem falada e a escrita, renegando Nestes dois poemas, dois aspectos
Seguimos nosso caminho por este mar o passadismo acadêmico e abolindo “cosmopolitas” de São Paulo: a escola
[de longo “as alfândegas culturais”, como diria de línguas (“berlites”) e a sociedade de
Até a oitava da Páscoa Oswald. consumo (“reclame”).

– 45
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MÓDULO 46 Manuel Bandeira


1. MANUEL BANDEIRA (Recife, ❑ Considerações gerais TEXTOS
1886 – Rio de Janeiro, 1968) “A poesia de Manuel Bandeira ca-
racteriza-se pela amplitude do âm-
❑ Vida bito, testemunho de uma variedade
VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Feitos os estudos primários na cida- Vou-me embora pra Pasárgada
criadora que vem do Parnasianismo
de natal, em 1896 muda-se com a famí- Lá sou amigo do rei
crepuscular até as experiências concre-
lia para o Rio de Janeiro, onde se Lá tenho a mulher que eu quero
matricula no Colégio Pedro II. Termina- tistas, do soneto às formas mais au- Na cama que escolherei
do o curso secundário, vai para São dazes de expressão. Doutro lado, Vou-me embora pra Pasárgada
Paulo estudar engenharia, mas adoece conservou e adaptou ao espírito mo-
Vou-me embora pra Pasárgada
gravemente e abandona o projeto de derno os ritmos e formas mais regula- Aqui eu não sou feliz
ser arquiteto (1904). Inicia-se, então, res, de tal maneira que nenhum outro Lá a existência é uma aventura
uma demorada peregrinação em busca contemporâneo revela tão acentuada- De tal modo inconsequente
de melhoras, o que finalmente o leva a Que Joana a Louca de Espanha
mente a herança do mais puro lirismo
Clavadel, na Suíça (1913). Com a Rainha e falsa demente
português, transfundido na mais autên- Vem a ser contraparente
deflagração da Primeira Grande Guer- tica pesqui sa da nossa sensibilidade. Da nora que nunca tive
ra, regressa ao Brasil e, em 1917,
Sob este aspecto, a sua obra lembra a
publica seu primeiro livro: A Cinza das E como farei ginástica
de Gonçalves Dias. Andarei de bicicleta
Horas. Integrado no movimento reno-
vador de 1922, continua a escrever e Em toda ela, com timbre inconfun- Montarei em burro bravo
dível, corre a nota da ternura ardente Subirei no pau-de-sebo
publicar poesia, enquanto colabora
da paixão pela vida, que vem desde os Tomarei banhos de mar
com a imprensa. Em 1935, é nomeado
E quando estiver cansado
inspetor do ensino secundário, três anos versos da mocidade até os de hoje, Deito na beira do rio
mais tarde, professor de Literatura no como força humanizadora. Graças a Mando chamar a mãe-d’água
Colégio Pedro II e, em 1943, é nomeado isso, a confidência e a notação exterior Pra me contar histórias
professor de Filosofia, cargo em que se se unem numa expressão poética ao Que no tempo de eu menino
aposentou em 1956. Pertenceu à Rosa vinha me contar
mesmo tempo familiar e requintada,
Academia Brasileira de Letras e faleceu Vou-me embora pra Pasárgada
pitoresca e essencial, unificando o que
no Rio de Janeiro em 13 de outubro de (...)
há de melhor no lirismo intimista e no
1968.
Estrela da vida inteira.
registro do espetáculo da vida. Daí E quando eu estiver mais triste
uma simplicidade que em muitos Mas triste de não ter jeito
Da vida que poderia
Quando de noite me der
Ter sido e não foi. Poesia, modernistas parece afetada, mas que
Vontade de me matar
Minha vida verdadeira. nele é a própria marca da inspiração.” — Lá sou amigo do rei —
São frequentes, em sua poesia, os Terei a mulher que eu quero
❑ Obras
seguintes temas: a morte, a recordação Na cama que escolherei
• Poesia
Vou-me embora pra Pasárgada.
A Cinza das Horas (1917) da infância, o cotidiano simples, a
(Manuel Bandeira, Libertinagem )
Carnaval (1919) melancolia, o erotismo. Como poeta da
O Ritmo Dissoluto (1924) morte, é dos maiores de nossa língua. DESENCANTO
Libertinagem (1930) O mais célebre de seus poemas de
Estrela da Manhã (1936) recordação da infância é “Evocação do Eu faço versos como quem chora
Lira dos Cinquent’Anos (1940) De desalento... de desencanto...
Recife”. Talvez sua mais famosa com- Fecha o meu livro, se por agora
Belo, Belo (1948) posição seja “Vou-me embora pra Não tens motivo nenhum de pranto.
Mafuá do Malungo (1948)
Pasárgada”, na qual constrói uma uto-
Opus 10 (1952) Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
pia como compensação emocional.
Estrela da Tarde (1958) Tristeza esparsa... remorso vão...
Sua linguagem poética caracteriza- Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Estrela da Vida Inteira (1966)
se pela musicalidade, que sempre se Cai, gota a gota, do coração.
• Prosa conserva próxima do coloquial. É um
Itinerário de Pasárgada (1954) E nestes versos de angústia rouca
exemplar artesão da forma poética, tanto
Andorinha, Andorinha (1966) Assim dos lábios a vida corre,
das formas tradicionais da poesia, quanto Deixando um acre sabor na boca.
(textos inéditos, selecionados por
da forma moderna do verso livre e da
Carlos Drummond de Andrade) — Eu faço versos como quem morre.
composição, não obediente a padrões
Também escreveu crítica literária, estabelecidos. (Antonio Candido) (Manuel Bandeira, A Cinza das Horas)
crônicas etc.
46 –
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PNEUMOTÓRAX — Então, doutor, não é possível tentar o TERESA


[pneumotórax3?
A primeira vez que vi Teresa
Febre, hemoptise1, dispneia2 e suores noturnos. — Não. A única coisa a fazer é tocar um tango
Achei que ela tinha pernas estúpidas
A vida inteira que podia ter sido e que não foi. [argentino.
Achei também que a cara parecia uma perna
Tosse, tosse, tosse.
(Manuel Bandeira, Quando vi Teresa de novo
Mandou chamar o médico: Libertinagem ) Achei que os olhos eram muito mais velhos que
— Diga trinta e três. [o resto do corpo
— Trinta e três... trinta e três... trinta e três... (Os olhos nasceram e ficaram dez anos
Vocabulário
— Respire. [esperando que o resto do corpo nascesse)
1 – Hemoptise: expectoração de sangue prove-
niente dos pulmões. Da terceira vez não vi mais nada
.............................................................................
Os céus se misturaram com a terra
2 – Dispneia: dificuldade de respirar.
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a
— O senhor tem uma escavação no pulmão 3 – Pneumotórax: forma de tratamento da tu- [face das águas.
[esquerdo e o pulmão berculose.
[direito infiltrado. (Manuel Bandeira,
Libertinagem )

Segunda Geração Modernista (Poesia):


MÓDULO 47
Carlos Drummond de Andrade I
1. CONCEITO E ÂMBITO — a aliança do tenentismo liberal e linguístico, em termos de normas de
da política getuliana com as oligarquias, linguagem.
O segundo tempo modernista mar- provocando a radicalização política dos Há, na poesia, três direções básicas:
ca, simultaneamente, a consolidação segmentos da inteligência nacional, • a poesia de tensões ideoló-
de algumas propostas da “fase heroica” marginalizados no processo; daí as gicas: Carlos Drummond de Andrade;
ou “de demolição” (1922-1930) e certo aproximações de Rachel de Queirós, • a poesia de preocupação
recuo quanto às propostas mais Jorge Amado, Graciliano Ramos e religiosa e filosófica (o grupo
radicais da “Semana” e dos seus outros ao Partido Comunista, no qual “Festa”, de tendência espiritua-
desdobramentos. Propõe-se, passada militaram; lista): Cecília Meireles, Tasso da
a fase de ruptura, um moder nismo — a Segunda Guerra Mundial Silveira, Augusto Frederico Schmidt,
moderado, com o abandono, por (1939-1945) fecha o período, projetan- Jorge de Lima e Vinícius de Moraes;
exemplo, do radicalismo experimen- do no país a tensão externa. • a poesia de dimensão sur-
talista de Oswald e a retomada de ❑ Plano estético realista: Murilo Mendes.
certas linhas do passado (o Simbolismo No plano estético, destacam-se:
na corrente espiritualista, as formas — o predomínio de um “projeto ❑ Prosa
clássicas, a tradição lírica portuguesa e ideológico” sobre um “projeto es- Na prosa, são identificáveis duas
brasileira etc.). tético”; direções:
— a consolidação das conquistas • o realismo regionalista, que
de 1922, mas com o recuo quanto às se configura nos romances do ciclo
❑ O contexto histórico
propostas mais radicais da “fase nordestino, marcado pelo propósito
O período de 1930-1945 foi marca-
heroica”; de análise e denúncia dos problemas
do, entre outros, pelos seguintes even-
— o cessar da oposição ao Moder- sociais do Nordeste (José Américo
tos:
nismo; de Almeida, Rachel de Queirós,
— os efeitos da crise econômica
— o desejo de denúncia da realida- Graciliano Ramos, José Lins do
ocorrida em 1929 com o crack da Bolsa
de social e espiritual do Brasil. Rego e Jorge Amado), concreti-
de Nova York;
— a radicalização política: Direita zando uma literatura empenhada, partic-
(nazismo, fascismo, integralismo) e ❑ Poesia ipante, presa aos moldes do
Esquerda (comunismo); Na poesia são identificáveis estas neorrealismo e do neonaturalismo;
— as esperanças com a Revolução constantes: • o romance intimista ou psi-
de 1930, logo frustradas pelo Estado — estabilização das conquistas no- cológico, voltado para a crise
Novo e pela Ditadura Vargas; vas; essencial da burguesia urbana e para a
— o rompimento da dominação in- — ampliação da temática; sondagem profunda do “eu” (Cyro dos
conteste das oligarquias regionais e a — caminho para o universal; Anjos, Cornélio Pena, Érico
ascensão da nova burguesia industrial; — equilíbrio no uso do material Veríssimo — primeira fase).
– 47
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2. CARLOS DRUMMOND DE Passeios na Ilha (ensaios e crô- Alguns anos vivi em Itabira.
ANDRADE (Itabira, MG, 1902 nicas, 1952) Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
– Rio de Janeiro, 1987) Fala, Amendoeira (1957)
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
A Bolsa e a Vida (crônicas e poe- Oitenta por cento de ferro nas almas.
❑ Vida mas, 1962) E esse alheamento do que na vida é
• Descendente de fazendeiros e Cadeira de Balanço (crônicas e [porosidade e comunicação.
mineradores da cidade mineira de poemas, 1970)
Itabira (jazidas de ferro). A vontade de amar, que me paralisa o
O Poder Ultrajovem e mais 79 Tex- [trabalho,
• Expulso de um colégio de pa- tos em Prosa e Verso (1972) vem de Itabira, de suas noites brancas,
dres; estudou Farmácia em Belo Hori- Os Dias Lindos (1977) [sem mulheres e sem horizontes.
zonte. 70 Historinhas (1978) E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
• Contato com o Modernismo é doce herança itabirana.
Boca de Luar (1984)
paulista; fundação de A Revista (1925), (...)
O Observador no Escritório (1985)
primeiro periódico de literatura moder-
Moça Deitada na Grama (1987)
na em Minas. — Drummond manteve estreitos la-
O Avesso das Coisas (1987)
• Funcionário público no Rio de ços de amizade com o grupo dos mo-
Janeiro. dernistas de 1922 (Mário, Oswald e
❑ Apreciação Bandeira). Sob inspiração dos ideais da
• Autor de crônicas jornalísticas
— Nos primeiros livros são constan- Semana de 22, funda, em 1925, A
bastante populares.
tes a ironia, a atitude mineira- Revista, ponta de lança do Modernismo
mente desconfiada de refletir, o
❑ Obra em Minas Gerais. Em 1928, publica o
pessimismo, a autonegação, as arquifamoso “No Meio do Caminho”, na
• Poesia
reminiscências da infância itabi- Revista de Antropofagia.
Alguma Poesia (1930)
rana. Drummond parece buscar a si — A partir de Sentimento do
Brejo das Almas (1934)
mesmo, posicionando-se como espec- Mundo e especialmente em A Rosa
Sentimento do Mundo (1940)
tador de um mundo que não aceita e do Povo, a poesia de Drummond
Poesias (1942)
que tenta descrever e encontrar. centra-se na dimensão social, no
A Rosa do Povo (1945)
Poesia até Agora (1948) cotidiano, na denúncia da estupidez,
— No “Poema de Sete Faces”, que da incompreensão; na luta contra o
Claro Enigma (1951)
abre o primeiro livro, Alguma Poesia medo (“que esteriliza os abraços”) e
Viola de Bolso (1952)
(1930), a confissão do poeta que se contra a consciência da impos-
Fazendeiro do Ar & Poesia até
Agora (1953) sente gauche (= sem jeito, inadaptado) sibilidade da luta (“eu tenho apenas
Viola de Bolso Novamente En- e a ironia, sob a forma intencional de duas mãos / e o sentimento do mundo”).
cordoada (1955) um antilirismo: — Em “Mãos Dadas”, o compromis-
Quando nasci, um anjo torto
Poemas (1959) so com o homem, a solidariedade:
desses que vivem na sombra
A Vida Passada a Limpo (1959) disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Lição de Coisas (1962) Não serei o poeta de um mundo caduco.
(...) Também não cantarei o mundo futuro.
Versiprosa (1967)
(...)
Boitempo (1968) (...)
Meu Deus, por que me abandonaste
Menino Antigo (1973) se sabias que eu não era Deus O tempo é a minha matéria, o tempo
As Impurezas do Branco (1973) se sabias que eu era fraco. [presente, os homens presentes,
Discurso da Primavera & Algumas Mundo mundo vasto mundo, a vida presente.
Sombras (1978) se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução. — A poesia social de Drummond faz
A Paixão Medida (1980)
Mundo mundo vasto mundo,
Corpo (1984) desabrochar o “sentimento do mun-
mais vasto é meu coração.
Amar se Aprende Amando (1985) do”, marcado pela consciência da
Tempo Vida Poesia (1986) (...) solidão, da impotência do homem di-
Poesia Errante (1988) — Na “Confidência do Itabirano”, a ante de um mundo frio e mecânico que
O Amor Natural (1992) infância e a vida, modelando a prover- o reduz a objeto. “Os Mortos de Sobre-
Farewell (1996) bial “secura” do poeta, o alheamen- casaca”, “Congresso Internacional do
to, o poeta que se sente de ferro, que Medo”, “A Noite Dissolve os Homens”,
• Prosa se diz ilha, mas que esconde sob essa “Mundo Grande”, “O Lutador”, “Mão
Confissões de Minas (ensaios e aparente indiferença uma indisfarçável Suja”, “A Morte do Leiteiro”, “A Flor e a
crônicas, 1944) solidariedade, um profundo senso do Náusea” e “José” incluem-se nessa
Contos de Aprendiz (1951) humano e do social: vertente.
48 –
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— Em Claro Enigma (1951) pas- calização de processos estruturais que a foice o fascículo
sa a predominar a escavação do real, já estavam presentes desde Alguma a lex o judex
o maiô o avô
mediante um processo de interroga- Poesia, na opção pelo prosaico, pelo irô-
a ave o mocotó
ções e negações que acaba revelando nico, pelo antirretórico, pelo antilirismo o só o sambaqui
o vazio à espreita do homem. O mundo intencional e que predispunham, pela
define-se como “um vácuo atormenta- recusa e pela contenção, ao poema- (...)
do” (existencialismo niilista). A objeto, típico da Geração de 1950.
— A procura da poesia, a poe-
abolição de toda crença e o apagar-se O processo básico é a linguagem
sia metalinguística, que se pensa
de toda esperança trazem consigo o nominal – (“fazer as coisas e as
e se interroga, a metapoesia são cons-
autofechamento do espírito. palavras – nomes de coisas – boiar
tantes no poeta:
Essa negatividade, a abolição de nesse vácuo sem bordas a que a
Não faças versos sobre acontecimentos
toda crença, o apagar-se de toda es- interrogação reduziu os reinos do ser”), (...)
perança traduzem-se pela expressão por meio da desintegração da palavra. Penetra surdamente no reino das
de dor, do vazio, da angústia, da cons- Drummond, contudo, não aderiu a [palavras.
ciência da queda que aprisiona todo ser nenhuma receita poética das vanguar- (“Procura da Poesia”)
vivo, daí o autofechamento: das do Concretismo, Poema-Processo, Meu verso é minha consolação.
(...) Poesia-Práxis etc. Meu verso é minha cachaça.
A ruptura com a sintaxe, a rima final (...)
É sempre nos meus pulos o limite.
ou interna, a assonância, a aliteração e
É sempre nos meus lábios a estampilha. Meu verso me agrada sempre...
o eco, a repetição compulsória do som-
É sempre no meu não aquele trauma.
coisa, aproximam, contudo, Drummond (“Explicação”)
Sempre no meu amor a noite rompe. das operações técnicas das vanguar-
Sempre dentro de mim meu inimigo. das de 1950/60:
E sempre no meu sempre a mesma
[ausência. ISSO É AQUILO Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
(“O Enterrado Vivo”)
O fácil o fóssil Rimarei com a palavra carne
o míssil o físsil ou qualquer outra, que todas me convêm.
— Lição de Coisas marca a opção a arte o infarte (...)
concreto-formalista do poeta. Essa poe- o ocre o canopo
sia objetual de Drummond é uma radi- a urna o farniente (“Consideração do Poema”)

MÓDULO 48 Carlos Drummond de Andrade II


1. TEMÁTICA DRUMMONDIANA que há também entre seus poemas célebre exemplo deste tema (ver frag-
alguns – bem poucos, é verdade – cuja mentos do poema na aula anterior, no
Na Antologia Poética que publicou temática não corresponde a nenhum de item “Apreciação”). As inquietações do
em 1962, Carlos Drummond de Andrade tais temas. Ainda assim, o quadro indivíduo drummondiano envolvem, por
classificou tematicamente sua poesia, discernido pelo poeta oferece uma visão exemplo, preocupação com a velhice,
distribuindo os seus poemas por nove abrangente das preocupações que como em “Dentaduras Duplas”:
compartimentos, considerados “pontos frequentaram a sua obra ao longo de
de partida ou matéria de poesia”. A seguir, todo o seu desenvolvimento. Dentaduras duplas!

enumeramos e comentamos brevemente Inda não sou bem velho

esses nove núcleos temáticos da poesia para merecer-vos...


Há que contentar-me
drummondiana, colocando ao lado de ❑ 1. O indivíduo:
com uma ponte móvel
cada um, entre aspas, o título da seção “um eu todo retorcido”
e esparsas coroas.
correspondente da Antologia. O indivíduo, na poesia de
(Coroas sem reino,
O próprio poeta adverte sobre a Drummond, é complicado, torturado,
os reinos protéticos
existência de poemas seus que pode- fragmentado. O “Poema de Sete Faces”,
de onde proviestes
riam ser associados a mais de um dos primeiro texto do primeiro livro de
quando produzirão
temas seguintes. Pode-se acrescentar Drummond (Alguma Poesia, 1930), é um a tripla dentadura,

– 49
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dentadura múltipla, parte de suas emoções e de seu ima- Todos os cemitérios se parecem,
a serra mecânica, ginário. Os antepassados e a relação e não pousas em nenhum deles, mas
sempre desejada, [onde a dúvida
com eles constituem um problema
jamais possuída, apalpa o mármore da verdade, a descobrir
inquietante, que põe em questão os
que acabará a fenda necessária;
fundamentos de nossa existência, como onde o diabo joga dama com o destino,
com o tédio da boca,
a boca que beija,
se constata no poema “Convívio”: estás sempre aí, bruxo alusivo e
[zombeteiro,
a boca romântica?...)
Cada dia que passa incorporo mais esta que resolves em mim tantos enigmas.

(...) [verdade, de que eles não


(...)
A morte e o sentido (ou falta de [vivem senão em nós

sentido) da existência, a consciência e por isso vivem tão pouco; tão


❑ 5. O choque social:
[intervalado; tão débil.
culpada, a busca de sabedoria são
(...)
“na praça de convites”
outros dos temas que frequentam os
Aqui os poemas se voltam para o
poemas do indivíduo na poesia de espaço social, onde o indivíduo se ex-
(...)
Drummond. põe ao apelo dos outros e vive os dra-
Ou talvez existamos somente neles, que mas coletivos. Os grandes poemas de
❑ 2. A terra natal : [são omissos, e nossa existência, temática político-social de Drummond
“uma província: esta” apenas uma forma impura de silêncio,
abordam os horrores da guerra, da
[que preferiram.
A profunda, dura, triste relação com opressão, da injustiça, da violência.
o lugar de origem, que o indivíduo aban- Durante os anos marcados pela
dona, mas que não o abandona, carac- ❑ 4. Amigos:
Segunda Guerra Mundial e, no Brasil,
teriza o tema da “terra natal”. Um dos “cantar de amigos”
pela ditadura de Getúlio Vargas (época
mais célebres poemas sobre o assunto O título atribuído pelo poeta à seção
em que Drummond aderiu, brevemente,
é “Confidência do Itabirano” (ver frag- de sua Antologia Poética dedicada aos
ao credo socialista), o poeta produziu
mento do texto na aula anterior). Mas o amigos joga com os “cantares” ou
alguns de seus mais inflamados poemas
tema pode ser tratado também de “cantigas de amigo” medievais. São
“participantes”, como “Elegia 1938”
forma bem humorada e crítica, como homenagens a figuras admiradas,
(também referente ao tema do indi-
em “Cidadezinha Qualquer”: próximas ou distantes, como Machado
víduo), que termina assim:
de Assis, Charles Chaplin, Mário de
Casas entre bananeiras Andrade ou Manuel Bandeira, em poe- Coração orgulhoso, tens pressa de
mulheres entre laranjeiras mas às vezes de grande penetração [confessar tua derrota
pomar amor cantar. crítica. O poema dedicado a Machado e adiar para outro século a felicidade
de Assis, “A um Bruxo, com Amor”, con- [coletiva.
Um homem vai devagar. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego
tém as seguintes iluminações:
Um cachorro vai devagar. [e a injusta distribuição
Um burro vai devagar. porque não podes, sozinho, dinamitar a
(...)
[ilha de Manhattan.
Devagar... as janelas olham.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
Eta vida besta, meu Deus. como para uma simples quebra da
[monotonia universal ❑ 6. O conhecimento
e tens no rosto antigo
❑ 3. A família: amoroso: “amar-amaro”
uma expressão a que não acho nome certo
“a família que me dei” Amaro é “amargo”. A paronomásia
(das sensações do mundo a mais sutil):
Sem qualquer sentimentalismo – (trocadilho) que descreve este tema
volúpia do aborrecimento?
bem ao contrário – o indivíduo interroga, ou, grande lascivo, do nada? exprime um elemento básico da con-
sem alegria, a misteriosa realidade da cepção drummondiana do amor. Numa
família, que existe nele, em seu corpo, é (...) visão nada romântica ou sentimental, o

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amor é entendido como uma forma pri- Diferentes são as grandes “artes poé- ❑ 8. Exercícios lúdicos:
vilegiada e incontornável de exploração ticas” de Drummond, como “Procura da “uma, duas argolinhas”
da existência e, portanto, de conhe- Poesia”:
cimento – conhecimento de si e do Aqui temos os jogos com as pala-
outro. Mas se trata de algo “amargo” Não faças versos sobre acontecimentos.
vras – atividade aparentemente infantil,
Não há criação nem morte perante a poesia.
porque impõe sofrimento, sendo uma mas poética em sua essência, e respon-
Diante dela, a vida é um sol estático,
sede insaciável, um desejo impossível sável por alguns dos mais espantosos e
não aquece nem ilumina.
de satisfazer, uma necessidade que não As afinidades, os aniversários, os complexos poemas de Drummond,
encontra correspondência: [incidentes pessoais não contam. como “Áporo” ou “Isso é Aquilo”. As
Não faças poesia com o corpo,
Que pode uma criatura senão, “brincadeiras” podem ter, por exemplo,
esse excelente, completo e confortável
entre criaturas, amar? sentido crítico, de criticism of life, como
[corpo, tão infenso à efusão lírica.
amar e esquecer,
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de no divertido e malicioso quadro da artifi-
amar e malamar,
[dor no escuro cialidade da vida moderna, em “Os
amar, desamar, amar?
são indiferentes.
sempre, e até de olhos vidrados, amar? Materiais da Vida”:
Nem me reveles teus sentimentos,
(...)
que se prevalecem do equívoco e tentam
[a longa viagem. Drls? Faço meu amor em vidrotil
Este o nosso destino: amor sem conta,
O que pensas e sentes, isso ainda não é nossos coitos são de modernfold
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
[poesia. até que a lança de interflex
doação ilimitada a uma completa
[ingratidão, vipax nos separe
(...)
e na concha vazia do amor a procura em clavilux
Penetra surdamente no reino das palavras.
[medrosa, camabel camabel o vale ecoa
Lá estão os poemas que esperam ser
paciente, de mais e mais amor. sobre o vazio de ondalit
[escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero, a noite asfáltica
Amar a nossa falta mesma de amor, e na plkx
há calma e frescura na superfície intata.
[secura nossa
Ei-los sós e mudos, em estado de
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a
[dicionário.
[sede infinita.
(...) ❑ 9. Uma visão, ou tentativa de,
(“Amar”)
da existência: “tentativa de
❑ 7. A própria poesia: Chega mais perto e contempla as palavras.
exploração e de interpretação
“poesia contemplada” Cada uma
do estar-no-mundo”
Trata-se das “artes poéticas” de tem mil faces secretas sob a face neutra
Drummond: poemas sobre o quê e o e te pergunta, sem interesse pela resposta,
Trata-se de poemas em torno de
como da poesia. Podem ser poemas de pobre ou terrível, que lhe deres:
questões e conjecturas sobre a exis-
circunstância, singelos como “Poesia”: Trouxeste a chave?
(...) tência, o “estar-aqui”, sobre o que há “no
Gastei uma hora pensando um verso
meio do caminho”:
que a pena não quer escrever. Trata-se de uma “arte poética” por-
No entanto ele está cá dentro que é um poema que contém uma con- No meio do caminho tinha uma pedra
inquieto, vivo. tinha uma pedra no meio do caminho
cepção do que seja a poesia e de como
Ele está cá dentro
tinha uma pedra
e não quer sair. ela deva ser feita. A concepção expressa
no meio do caminho tinha uma pedra.
(...) neste texto é bastante diferente da que Nunca me esquecerei desse
antes apareceu no poema “Poesia”, pois [acontecimento
Esse poema trata da incapacidade
aqui a ideia é de que o poema é um na vida de minhas retinas tão fatigadas.
de expressão (a poesia intuída que não
Nunca me esquecerei que no meio do
chega às palavras), que revela uma objeto de palavras e, portanto, que a
[caminho
ideia “romântica” de poesia (como algo poesia se faz com palavras, não sendo
tinha uma pedra
que existe na alma do poeta, para a qual algo que possa existir “dentro” do poeta, tinha uma pedra no meio do caminho
ele pode “não encontrar palavras”). independentemente das palavras. no meio do caminho tinha uma pedra.

– 51
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FRENTE 4 Morfologia e Redação

MÓDULOS 20 e 21 Pontuação

A vírgula é usada para indicar a separação entre termos independentes entre si, quer no período, quer na oração.
Por indicar o que já está separado, a vírgula não pode ser empregada entre os termos que mantêm entre si uma estreita
ligação. Seria erro grave, portanto, colocá-la entre

• o sujeito e o verbo:

Cada instante da vida é um passo rumo à morte. (Corneille)

sujeito verbo

• o verbo e seu complemento:

A prosperidade faz poucos amigos. (Vauvenargues)

verbo complemento
verbal

• o nome e seu adjunto adnominal ou complemento nominal:

A mais nobre missão do ser humano é prestar sua ajuda ao semelhante... (Sófocles)

adjunto nome adjunto nome complemento


adnominal adnominal nominal

• a oração subordinada substantiva e a oração principal:

O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever. (Almirante Barroso)

oração principal oração subordinada substantiva

Quem não gosta do Brasil não me interessa. (Gilberto Amado)

oração subordinada oração principal


substantiva

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1. USA-SE VÍRGULA PARA j) nas datas, o nome do rativos (em leis, decretos, por-
SEPARAR: lugar: “São Paulo, 11 de dezembro tarias, regulamentos etc.).
de 1977.”;
a) termos que exercem a 4. PONTO FINAL
mesma função sintática: “Ela l) partículas e expressões
tem sua claricidade, seus caminhos, de explicação, correção, con- Usa-se para:
suas escadas, seus andaimes.” (Ce- tinuação, conclusão, conces- — denotar maior pausa,
cília Meireles); são: “Sairá amanhã, aliás, depois de encerramento, períodos que
amanhã.”; terminem por oração que não
b) orações coordenadas as- seja interrogativa direta ou
sindéticas: “Examinou o polvarinho m) para indicar, às vezes, a exclamativa:
e o chumbeiro, pensou na viagem, elipse do verbo: “Em frente, um
estremeceu.” (Graciliano Ramos); gramal vastíssimo.” (Raul Pompeia). “O retrato mostra uns olhos re-
dondos, que me acompanham para
c) orações coordenadas 2. DOIS-PONTOS todos os lados, efeito de uma pintura
sindéticas, salvo as introduzi- que me assombrava em pequeno.”
das pela conjunção e: “Ces- Usam-se: (Machado de Assis, Dom Casmurro).
saram as buzinas, mas prosseguia o a) em enumerações expli-
alarido nas ruas.” “O último (amor) é cativas: “De vez em quando o olhar 5. PONTO DE
que é o verdadeiro, porque é o único distraído esbarra numa novidade: INTERROGAÇÃO
que não muda.” (Manuel Antônio de bangalô em construção, obras na
Almeida); calçada, ou apenas um papel na vi- Usa-se:
draça...” (Augusto Meyer); a) nas orações interrogati-
d) aposto explicativo: “Co- vas diretas: “Quem sou? Para onde
nhecia também o marido, seu Ra- b) para anunciar citações: vou? Qual minha origem?” (Augusto
malho, sujeito calado, sério, “Murmura a relva: ‘que suave raio!;’ / dos Anjos);
asmático, eletricista da Nordeste.” Responde o ramo: ‘como a luz é
(Graciliano Ramos); meiga!’” (Castro Alves); b) no diálogo, sozinho ou
acompanhado de exclamação
e) pleonasmo, polissíndeto c) para indicar esclareci- para expressar dúvida:
e repetições: “Tornou a andar, a mento, síntese, consequência “– Conheceu, gente, o que é
andar, a andar.” (Machado de Assis); do que foi dito: “Não és bom, nem sangue de Peixoto?!” (Guimarães
és mau: és triste e humano...” (Olavo Rosa).
f) Vocativo: “Dom Casmurro, Bilac).
domingo vou jantar com você.” (Ma- 6. RETICÊNCIAS
chado de Assis); 3. PONTO E VÍRGULA
Usam-se para denotar hesitação,
g) orações subordinadas Usa-se: interrupção do pensamento:
adjetivas explicativas: “Calçava a) para anunciar pausas
sapatos de duraque, rasos e velhos, mais fortes: “Os dois primeiros al- “Sei que você fez promessa... mas
a que ela mesma dera alguns vitres foram desprezados por impra- uma promessa assim... não sei... Creio
pontos.” (Machado de Assis); ticáveis; Ernesto não tinha dinheiro que, bem pensado... Você acha que,
nem crédito tão alto.” (Machado de prima Justina?” (Machado de Assis).
h) orações intercaladas: “A Assis);
rosa, disse o Gênio, é a tua infância.” 7. ASPAS
(Augusto Meyer); b) para separar as adversa-
tivas, enfatizando o contraste: Usam-se para ressaltar expressões
i) orações subordinadas “Não se disse mais nada; mas de ou apontar vocábulo com estran-
adverbiais deslocadas: “Assim noite Lobo Neves insistiu no projeto.” geirismo ou gíria e nas citações:
como a abelha fabrica mel no cora- (Machado de Assis);
ção negro do jacarandá, a doçura es- – “Me passe” os cobres... é a
tá no peito do mais valente guerreiro.” c) para separar os diversos fórmula de uma cobrança amigável.
(José de Alencar); itens de enunciados enume- (Júlio Ribeiro).

– 53
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MÓDULO 22 Processo Descritivo

1. DESCRIÇÃO real das palavras). esse mesmo estímulo registrado por


uma filmadora. A concepção fixa da
Viam-se homens de corpo nu, realidade seria dada pela fotografia;
A descrição é um tipo de texto, ou
jogando a placa, com grande al- já o movimento do sol, só o filme
modalidade textual, em que predo-
gazarra. Um grupo de italianos, poderia mostrar.
minam verbos de estado e adjetivos
assentado debaixo de uma ár- Observe, no texto abaixo, o dina-
que caracterizam pessoas, ambientes
vore, conversava ruidosamente, mismo captado pelo observador.
e objetos. É raro encontrarmos um
texto exclusivamente descritivo. Qua- fumando cachimbo. Mulheres
ensaboavam os filhos pequenos Os homens olhavam-se atôni-
se sempre a descrição vem mesclada
debaixo da bica, muito zangadas tos, diante do clamor geral das
a outras modalidades, caracterizando vítimas. Línguas de fogo viperi-
uma personagem, detalhando um a darem-lhes murros, a pra-
nas procuravam atingi-los. Pelos
cenário, um ambiente ou paisagem. guejar, e as crianças berravam cimos da mata se escapavam
de olhos fechados, espernean- aves espantadas, remontando às
De acordo com os objetivos de do. alturas num voo desesperado,
quem escreve, a descrição pode pri- (Aluísio Azevedo) pairando sobre o fumo.
vilegiar diferentes aspectos: Uma araponga feria o ar com
um grito metálico e cruciante.
Na subjetiva, apreendem-se as
(Graça Aranha)
• pormenorização – correspon- sensações que o objeto evoca; é o
ponde a uma persistência na carac- modo particular e pessoal de sentir e
terização de detalhes; interpretar o que se descreve. Não ❑ Descrição de pessoa
há preocupação com a exatidão da Ao descrever uma pessoa ou uma
imagem; o que importa é transmitir a paisagem, podemos reproduzir os
• dinamização – é a captação dos
impressão causada pelo objeto. Pre- pormenores físicos e/ou psicológicos.
movimentos de objetos e seres;
domina a linguagem conotativa. Os pormenores psicológicos retratam
os aspectos emocionais ou mentais:
• impressão – são os filtros da caráter, comportamento, tempera-
subjetividade, da atividade psicológica, Há um pinheiro estático e ex- mento, defeitos, virtudes, preferên-
interpretando os elementos observados. tático, há grandes salso-chorões cias, inclinações e personalidade.
Apreendemos o mundo utilizando derramados para o chão, e a gra- A dosagem equilibrada dos as-
nossos sentidos (visão, audição, ça menina de uma cerejeira cor pectos físicos e psicológicos garante
gustação, olfato e tato) e transforma- de vinho, que o sol oblíquo acen- um texto descritivo em que a subje-
de e faz fulgurar; mas o álamo tividade se projeta sobre a objetivi-
mos nossa percepção em palavras.
junto do portão tem um vigor e dade dos traços físicos: olhar viperino,
Aquele que descreve compõe uma sorriso doce, passo tímido, gestos
imagem verbal; o receptor recria essa uma pureza que me fazem bem
nervosos, boca desdenhosa, nariz
imagem mentalmente através dos ele- pela manhã, como se toda ma-
altivo, cabelos selvagens, dentes feli-
mentos e sensações descritas. nhã, ao abrir a janela, eu visse nos, corpo sensual, andar provocan-
uma jovem, de pé, sorrindo para te, voz envolvente.
mim. Observe como na descrição
❑ Descrição objetiva (Rubem Braga) abaixo predominam os aspectos
e subjetiva psicológicos.
A captação de uma imagem pode
ser objetiva ou subjetiva. Assim, ❑ Descrição estática Meu pai era um sonhador,
temos a descrição objetiva e a e dinâmica minha mãe uma realista.
descrição subjetiva. Na objetiva, há a A captação de uma realidade es- Enquanto ela mantinha os pés
reprodução de uma percepção co- pacial pode ocorrer de duas ma- firmemente plantados na terra, ele
neiras: estática, como uma fotografia, se deixava erguer no balão irides-
mum a todos (tamanho, cor, forma,
ou dinâmica, como um filme. cente de sua fantasia, recusando
espessura, consistência, volume, di- Lendo ou elaborando um texto
mensões etc.); o observador des- ver a realidade, oferecendo a Lua
descritivo, precisamos formar ou dar a si mesmo e aos outros, desejan-
creve o objeto tal qual ele se apre- a conhecer uma dessas duas realida- do sempre o impossível...
senta na realidade. Predomina a des. Imaginemos um pôr do sol cap- (Érico Veríssimo)
linguagem denotativa (o significado tado por uma máquina fotográfica e

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• Figuras de linguagem
AUTORRETRATO Efetivamente a rua era aquela; Recursos expressivos, geralmente
e o velho palácio estava na em linguagem conotativa. As mais usa-
Provinciano que nunca soube minha frente. Era um palácio de das na descrição são a metáfora, a
Escolher bem uma gravata; trezentos anos, cor de barro, que comparação, a prosopopeia, a
me parecia muito familiar quanto onomatopeia e a sinestesia.
Pernambucano a quem repugna
ao desenho de sua alta porta, aos
A faca do pernambucano; ornatos das colunas e ao lança-
Poeta ruim que na arte da prosa mento da escada do vestíbulo. O rio era aquele cantador de
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas (Cecília Meireles) viola, em cuja alma se refletia o
Ficou cronista de província; batuque das estrelas nuas, perdi-
Arquiteto falhado, músico • Frases enumerativas das no vácuo milenarmente frio do
Falhado (engoliu um dia Sequência de nomes, geralmente
Um piano, mas o teclado sem verbo. espaço... Depois ele ia cantando
Ficou de fora); sem família, isso de perau em perau, de
Religião ou filosofia; cachoeira em cachoeira...
A cama de ferro; a colcha
Mal tendo a inquietação
branca, o travesseiro com fronha
[de espírito
de morim. O lavatório esmaltado,
Que vem do sobrenatural, (Bernardo Élis)
a bacia e o jarro. Uma mesa de
E em matéria de profissão pau, uma cadeira de pau, o
Um tísico profissional. tinteiro, papéis, uma caneta. • Sensações
Quadros na parede. Um dos cinco sentidos, ou seja,
(Manuel Bandeira) as percepções visuais, auditivas, gus-
(Érico Veríssimo) tativas, olfativas e táteis.
❑ Elementos predominantes
na descrição • Adjetivação
Caracterizadores qualificando Os sons se sacodem, ber-
• Frases nominais
São frases sem verbo ou orações nomes ram... Dentro dos sons movem-se
em que predominam verbos de esta- cores vivas, ardentes... Dentro
do ou condição. dos sons e das cores, movem-se
A pele da cabocla era desse
moreno enxuto e parelho das cheiros, cheiro de negro... Dentro
Sol já meio de esguelha, sol chinesas. Tinha uns olhos graú- dos cheiros, os movimentos dos
das três horas. A areia, um bor- dos, lustrosos e negros como tatos violentos, brutais... Tatos,
ralho de quente. A caatinga, um os cabelos lisos, e um sorriso
sons, cores, cheiros se fundem
mundo perdido. Tudo, tudo para- suave e limpo a animar-lhe o
do: parado e morto. rosto oval de feições delicadas. em gosto de gengibre...

(Mário Palmério) (Érico Veríssimo) (Graça Aranha)

MÓDULO 23 Elementos da Narrativa


1. DEFINIÇÃO recer até mesmo numa única frase. 2. ESTRUTURA

Narrar é contar uma história (real ou Exemplos: Convencionalmente, o enredo da


fictícia). O fato narrado apresenta uma narração pode ser assim estruturado:
sequência de ações envolvendo O menino caiu. exposição (apresentação das per-
personagens num determinado tempo e “Minha sogra ficou avó.” sonagens e/ou do cenário e/ou da
espaço. São exemplos de narrativas: época), complicação (início do
novela, romance, conto, crônica e, (Oswald de Andrade) conflito), clímax (ponto de maior
também, notícia de jornal, piada, poema, tensão) e desfecho (solução dos
letra de música ou história em Repare que a última frase resume conflitos).
quadrinhos, desde que apresentem uma ações relativas a casamento, mater- Entretanto, há diferentes possibili-
sucessão de acontecimentos, de fatos. nidade e a transformação da sogra dades de se compor uma trama, seja
Situações narrativas podem apa- em avó. iniciá-la pelo desfecho, construí-la
– 55
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apenas através de diálogos, ou mes- elementos, em seu texto não devem QUEM? – a personagem, ou perso-
mo fugir ao nexo lógico de episódios. faltar emoção, suspense, surpresa e nagens;
As narrativas mais longas (ro- criatividade para torná-lo cativante O QUÊ? – o enredo, ou seja, o
mance, novela, conto) podem expl- ao leitor. A linguagem é fundamental acontecimento em si;
orar mais detalhadamente as noções para definir o estilo, conferindo um COMO? – o modo como se tecem
de tempo — cronológico (marca- toque de originalidade ao texto. os fatos;
do pelas horas, por datas) e psico- ONDE? – o lugar, ou os lugares, da
ló gi co (marcado pelo fluxo 3. O QUE SE PEDE NA ocorrência;
inconsciente) — e de espaço (cená- NARRAÇÃO QUANDO? – o momento, ou
rio, paisagem, ambiente). Visando, momentos, em que se passam os
porém, à narração para vestibular, A narrativa deve tentar fatos;
são elementos imprescindíveis: per- responder às seguintes perguntas POR QUÊ? – a causa do aconteci-
so na gens e ação. Além desses essenciais: mento.

Observe o exemplo abaixo.

Quando o visitante do Hospício de Alienados atravessava uma sala viu um louquinho de ouvido
personagem espaço ação espaço ação personagem

colado à parede, muito atento. Uma hora depois, passando na mesma sala, lá estava o homem na mesma posição.
tempo cronológico ação espaço personagem

Acercou-se dele e perguntou:


ação

“Que é que você está ouvindo?” O louquinho virou-se e disse: “Encoste a cabeça e escute”. O outro colou
discurso direto personagem ação discurso direto ação

ouvido à parede, não ouvia nada: “Não estou ouvindo nada”. Então o louquinho explicou intrigado: “Está
discurso direto personagem discurso

assim há cinco horas”.


direto tempo

(Manuel Bandeira, Andorinha, Andorinha)

4. PONTO DE VISTA OU ❑ Tipos de narrador • Narrador observador


FOCO NARRATIVO O narrador observador relata os
• Narrador-personagem ou fatos, registrando as ações e as falas
Fato e narração são realidades narrador participante das personagens; ele conta, como
diferentes. Um único fato pode ser tra- O narrador é uma das persona- mero espectador, uma história vivida
duzido de maneiras distintas. Contar gens, principal ou secundária, da his- por terceiros. É a narrativa elaborada
(ato de narrar) ou como contar (a tória. Ele está “dentro” da história e em terceira pessoa (ele, ela, eles, elas).
interpretação do fato) implica uma “vê” os acontecimentos de dentro pa-
certa posição do narrador com rela- ra fora. Nesse caso, a narrativa é ela- Exemplo
ção ao acontecimento. Assim sendo, borada em primeira pessoa (eu – nós). O Campos, segundo o costu-
o narrador pode assumir dois pon- me, acabava de descer do almoço e,
Exemplo
tos de vista na narrativa ou fo- a pena atrás da orelha, o lenço por
Coloquei-me acima de minha
cos narrativos. Se o narrador está dentro do colarinho, dispunha-se a
classe, creio que me elevei bastan-
dentro da história, o foco narrativo é prosseguir o trabalho interrompido
te. Como lhes disse, fui guia de ce-
de primeira pessoa (eu); se, ao pouco antes. Entrou no escritório e
go, vendedor de doces e trabalhador
contrário, está fora da história, o foco foi sentar-se à secretária.
de aluguel. Estou convencido de
é de terceira pessoa.
que nenhum desses ofícios me da-
(Aluísio Azevedo, Casa de Pensão)
ria os recursos intelectuais neces-
sários para engendrar esta narrativa.

(Graciliano Ramos, São Bernardo)


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• Narrador onisciente ou pouco: por que as coisas nunca – Estou cansada demais para
onipresente eram dela? conversar.
O narrador é uma espécie de (Clarice Lispector, Imitação • Indireto – o narrador transcre-
testemunha invisível de tudo quanto da Rosa) ve a fala da personagem, adaptando
ocorre, em todos os lugares e em o tempo verbal.
todos os momentos; ele não só se ❑ Tipos de discurso Olhando ao redor, Luci dis-
preocupa em dizer o que as Os tipos de discurso de que po- se que estava cansada demais
personagens fazem ou falam, mas de utilizar-se o narrador são: para conversar.
também traduz o que pensam e sen-
tem. Portanto, ele tenta passar para o • Direto – o narrador transcreve • Indireto livre – é a fusão da
leitor as emoções, os pensamentos e fielmente a fala da personagem. fala do narrador com a da persona-
os sentimentos das personagens. 1) – Estou cansada demais pa- gem, sem qualquer indicação gráfica
ra conversar, disse Luci, (travessão, dois-pontos ou verbos
Exemplo olhando ao redor. como “disse”, “falou” e outros).
Um segundo depois, muito 2) – Olhando ao redor, Luci dis-
suave ainda o pensamento fi- se: “Estou cansada demais pa-
cou levemente mais intenso, ra conversar”. Luci olhou ao redor. Estou
qua se tentador: não dê, elas 3) – Olhando ao redor, Luci dis- cansada demais para
são suas. Laura espantou-se um se: conversar.

ESTRUTURA NARRATIVA

Personagem(ns)
[ – definem-se pelas caracte-
rísticas e pelas ações Espaço [ – lugar (definido pela descrição ou apenas
citado)

Enredo [ – ação, organização de fatos

[
– direto (fala da personagem)
Discurso – indireto (o narrador traduz a fala da personagem)
– indireto livre (fusão da fala do narrador e da
Tempo [ –– cronológico (tempo real)
psicológico (tempo mental) personagem)

{
– narrador onisciente (tudo sabe, conhece a
de terceira pessoa

[
interioridade das personagens)
(de fora da história) – narrador observador (tudo vê)
Foco Narrativo
de primeira pessoa
(de dentro da história) { – narrador-personagem (conta o que vê como
personagem)

MÓDULO 24 Tipos de Discurso Narrativo


1. INTRODUÇÃO
acrescentar exclamar pedir
afirmar explicar perguntar Na composição de um texto narrativo,
o narrador pode reproduzir a fala da
concordar gritar prosseguir personagem empregando as seguintes
consentir indagar protestar possibilidades: discurso direto, discurso
indireto, discurso indireto livre.
contestar insistir reclamar
continuar interrogar repetir 2. DISCURSO DIRETO
declarar interromper replicar No discurso direto indica-se o
determinar intervir responder interlocutor e caracteriza-se-lhe a fala por
meio de verbos dicendi ou de
dizer mandar retrucar elocução: que indicam quem está
esclarecer ordenar solicitar emitindo a mensagem.
Nem sempre o autor indica de quem

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são as falas, já que elas se A moça olhou de lado e ou se (dicendi interrogativo) para
esclarecem dentro do contexto. O esperou. introduzirem a fala da personagem
exemplo abaixo ilustra essa possibi- — Você não sabe quando a na voz do narrador. Observe, nos
lidade: gente é criança e de repente vê exemplos abaixo, os discursos indi-
— Bonito papel! quase três da uma lagarta listada? retos destacados.
madrugada e os senhores comple- A moça se lembrava: “Ele começou, então, a contar
tamente bêbados, não é? — A gente fica olhando ... que tivera um sonho estra-
Foi aí que um dos bêbados pe- A meninice brincou de novo nos nho.”
diu: olhos dela. “Todos se calaram para ouvi-lo
— Sem bronca, minha senhora. O rapaz prosseguiu com muita e ele, muito sério, perguntou qual
Veja logo qual de nós quatro é o seu doçura: era o assunto. Informado, pros-
marido que os outros querem ir para — Antônia, você parece uma la- seguiu dizendo que estava
casa. garta listada. profundamente interessado
(Stanislaw Ponte Preta) A moça arregalou os olhos, fez em colaborar.”
exclamações. “João perguntou se ele
O diálogo acelera a narrativa, le- O rapaz concluiu: estava interessado nas
vando o leitor a entrar em contato — Antônia, você é engraçada! aulas.”
direto com as personagens. O nar- Você parece louca. Na narração, para reconstituir a
rador apenas dá indicações sobre (Manuel Bandeira) fala da personagem, utiliza-se a
quem fala. Além de imprimir mais estrutura de um discurso direto ou
dinamismo e realismo à narração, o O discurso direto apresenta de um discurso indireto. O domínio
diálogo presentifica a história. Os pontuação específica, podendo dessas estruturas é importante tan-
traços linguísticos do discurso direto aparecer depois de dois-pontos, to para empregar corretamente os
revelam a identidade cultural e entre aspas ou com travessão. tipos de discurso na redação esco-
social da personagem e, ao mesmo Alguns romancistas modernos abo- lar, como para exercitar a transfor-
tempo, oferecem elementos para liram esses recursos gráficos e mação desses discursos exigida
sua caracterização psicológica. inovaram a introdução do diálogo, em alguns exames vestibulares.
Segundo Celso Cunha e como é o caso de José Saramago, No discurso indireto, o narrador
Lindley Cintra (Nova gramática do em Memorial do Convento, que exprime indiretamente a fala da
português contemporâneo), “no apenas usa a maiúscula no meio do personagem. O narrador funciona
plano expressivo, a força da discurso do narrador para introduzir como testemunha auditiva e passa
narração em discurso direto o discurso direto. para o leitor o que ouviu da perso-
provém essen cialmente de E, pegando numa ideia, depois nagem. Nessa transcrição, o verbo
sua capacidade de atualizar noutra, por alguma razão desco- aparece na terceira pessoa, sendo
o episódio, fazendo emergir da nhecida as ligando, perguntou ao imprescindível a presença de
situação a personagem, tornando- soldado, E vossemecê, que verbos introdutórios dicendi ou de-
a viva para o ouvinte, à maneira de idade tem, e Baltazar respondeu, clarativos (dizer, responder, retru-
uma cena teatral, em que o Vinte e seis anos. car, replicar, perguntar, pedir,
narrador desempenha a mera fun- exclamar, contestar, concordar,
ção de indicador das falas. Estas, (José Saramago, ordenar, gritar, indagar, declarar,
na reprodução direta, ganham Memorial do Convento) afirmar, mandar etc.) seguidos dos
naturalidade e vivacidade, enri- conectivos que (dicendi afirmativo)
quecidas por elementos 3. DISCURSO INDIRETO ou se (dicendi interrogativo) para
linguísticos tais como excla- introduzirem a fala da personagem
mações, interrogações, interjei- No discurso indireto, o narrador na voz do narrador. Observe, no
ções, vocativos e imperativos, que exprime indiretamente a fala da exemplo abaixo, o discurso indireto
costumam impregnar de personagem. O narrador funciona destacado:
emotividade a expressão oral”. como testemunha auditiva e passa
Observe o efeito dos diálogos para o leitor o que ouviu da perso- (...) e moleque Prudêncio me
na pequena narração a seguir. nagem. Nessa transcrição, o verbo disse que uma pessoa do meu
aparece na terceira pessoa, sendo conhecimento se mudara na
NAMORADOS imprescindível a presença de véspera para uma casa roxa,
verbos dicendi (dizer, responder, situada a duzentos passos da
O rapaz chegou-se para junto retrucar, replicar, perguntar, pedir, nossa.
da moça e disse: exclamar, contestar, concordar,
— Antônia, ainda não me ordenar, gritar, indagar, declarar, (Machado de Assis)
acostumei com o seu corpo, com afirmar, mandar etc.) seguidos dos
a sua cara. conectivos que (dicendi afirmativo)

58 –
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Na passagem do discurso direto para o indireto, cabem as seguintes observações quanto à construção da frase:

DISCURSO DIRETO DISCURSO INDIRETO

• Presente ——————––––––––––––––––––––——> Pretérito imperfeito


O eletricista, irritado, comentou: O eletricista, irritado, comentou que naquele
— Agora é o interruptor que não funciona! momento (ou instante) era o interruptor que não
funcionava.

• Pretérito perfeito —––––––––––––––––––————> Pretérito mais-que-perfeito


— Já esperei demais, retrucou com indignação. Retrucou com indignação que já esperara (ou tinha
esperado) demais.

• Futuro do presente ———–––––––––––––———-> Futuro do pretérito


Pedrinho gritou: Pedrinho gritou que só sairia do seu quarto (ou do
— Só sairei do meu quarto amanhã. quarto dele) no dia seguinte.

• Imperativo ——–––––––––––––––––——————-> Pretérito imperfeito do subjuntivo


— Olhou-a e disse secamente: Olhou-a e disse secamente que ela o deixasse em paz.
— Deixe-me em paz.

• Primeira ou segunda pessoa –––––––––––———-> Terceira pessoa


Maria disse: Maria disse que não queria sair com Roberto naquele
— Não quero sair com Roberto hoje. dia.

• Demonstrativo este ou esse ——–––––––––——-> Demonstrativo aquele


Retirou o livro da estante e acrescentou: Retirou o livro da estante e acrescentou que aquele era
— Este é o melhor. o melhor.

• Vocativo ———––––––––––––––––––––––————> Objeto indireto na oração principal


— Você quer café, João? perguntou a prima. A prima perguntou a João se ele queria café.

• Forma interrogativa ou imperativa —–––––––——> Forma declarativa


Abriu o estojo, contou os lápis e depois perguntou ansiosa: Abriu o estojo, contou os lápis e depois per guntou
— E o amarelo? ansiosa pelo amarelo.

• Advérbios de lugar e de tempo


aqui ——————–––––––––––––––––––––––––———> lá
daqui ——————–––––––––––––––––––––––––———> dali, de lá
agora ——————–––––––––––––––––––––––––———> naquele momento, naquela ocasião, então
hoje ——————–––––––––––––––––––––––––———> naquele dia
ontem ——————–––––––––––––––––––––––––———> no dia anterior, na véspera
amanhã ——————–––––––––––––––––––––––––———> no dia seguinte

• Pronomes demonstrativos e possessivos


essa(s), esta(s) ——————–––––––––––––––––––———> aquela(s)
esse(s), este(s) ——————–––––––––––––––––––———> aquele(s)
isso, isto ——————–––––––––––––––––––———> aquilo
meu, minha ——————–––––––––––––––––––———> seu, sua (dele, dela)
teu, tua ——————–––––––––––––––––––———> seu, sua (dele, dela)
nosso, nossa ——————–––––––––––––––––––———> seu, sua (deles, delas)

– 59
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4. DISCURSO INDIRETO LIVRE 5. DISCURSO DO NARRADOR incomodei. Andei cortando rosas. Fui
ver o poço debaixo das laranjeiras.
Resultante da mistura dos Há, também, o discurso em que o Não senti nada. Passei mesmo um
discursos direto e indireto, existe uma narrador registra a ação das perso- dia delicioso. Como é possível que
terceira modalidade de técnica nagens, além de comentar, analisar, aquilo fosse arsênico? Como é pos-
inferir, interpretar e relacionar fatos da sível imaginar que se deixe um paco-
narrativa, o chamado discurso indireto
história. É o discurso do narrador. te de arsênico na mesa da cozinha?
livre, processo de grande efeito
Nem me ocorreu que existisse no
estilístico. É uma espécie de monó- De repente, Honório olhou para o mundo arsênico em tanta quantidade.
logo interior das personagens, mas chão e viu uma carteira. Abaixar-se, E que população de ratos há na
expresso pelo narrador que deverá, apanhá-la e guardá-la foi obra de granja para se ter de usar veneno aos
obrigatoriamente, ser de terceira alguns instantes. Ninguém o viu, quilos?
pessoa e onisciente. Este interrompe salvo um homem que estava à porta (Cecília Meireles)
a narrativa para registrar e inserir re- de uma loja...
flexões ou pensamentos das perso- (Machado de Assis) Resumindo
nagens, com as quais passa a ser
confundido. Foco narrativo ou ponto de vista
6. MONÓLOGO INTERIOR
As orações do discurso indireto
do narrador:
livre são, em regra, independentes, Forma dramática ou literária do
sem verbos dicendi, sem pontuação discurso da personagem consigo • Narrador personagem ou
que marque a passagem da fala do mesma. No monólogo interior, o participante: foco narrativo
narrador para a fala da personagem, narrador (em primeira ou terceira em primeira pessoa.
mas com transposições do tempo do pessoa) registra as emoções da per-
sonagem, suas divagações íntimas, • Narrador observador: foco
verbo (pretérito imperfeito) e dos
pronomes (terceira pessoa). Esse seus desabafos. Dessa forma, a narrativo em terceira pessoa.
discurso é muito empregado na personagem parece esquecer-se do
• Narrador onisciente: foco
narrativa moderna, pela fluência e leitor ou do ouvinte, escrevendo ou
falando, de maneira desconexa, tudo narrativo em terceira pessoa.
ritmo que confere ao texto. Exemplo:
que lhe vem à mente, sem obedecer,
Deu um passo para a catingueira.
necessariamente, à concatenação
Se ele gritasse “Desafasta”, que faria Tipos de discurso:
lógica dos períodos e aos aspectos
a polícia? Não se afastaria, ficaria sintáticos tradicionais. Essa associa- • direto (diálogo): o narrador
colado ao pé de pau. Uma lazeira, ção livre de ideias traduz o “fluxo de reproduz textualmente a fala
a gente podia xingar a mãe consciência” da personagem, que o
dele. Mas então... Fabiano estirava o narrador transcreve utilizando, de da personagem.
beiço e rosnava. Aquela coisa arriada preferência, o discurso direto ou o • indireto: o narrador conta o
e achacada metia as pessoas na indireto livre. que a personagem fala.
cadeia, dava-lhes surra. Não enten- Observação
Para a maioria dos autores, • indireto livre: a fala da
dia. Se fosse uma criatura de
saúde e muque, estava certo. monólogo e solilóquio represen- personagem funde-se com a
tavam a mesma forma de discurso da
Enfim, apanhar do governo não é fala do narrador.
personagem consigo mesma.
desfeita, e Fabiano até sentia orgulho • do narrador: o narrador conta
ao recordar-se da aventura. Mas
MONÓLOGO a história e tece comentários
aquilo... Soltou uns grunhidos. Por
que motivo o governo aprovei- sobre personagens e
Quem é capaz de imaginar que o
tava gente assim? Só se ele pó branco de um saco de papel, em acontecimentos.
tinha receio de empregar tipos cima da mesa da cozinha, não seja • Monólogo: em primeira ou
direitos. Aquela cambada só açúcar ou sal? Naturalmente, provei. terceira pessoa, registro do
servia para morder as pessoas Tinha um sabor acre e pegajoso.
inofensivas. Ele, Fabiano, seria tão Pensei: deve ser algum desses adu- pensamento da personagem,
ruim se andasse fardado? Iria pisar bos químicos que o Antônio traz para linguagem às vezes des-
os pés dos trabalhadores e dar as beterrabas. Não consigo lembrar
conexa, “fluxo de
pancadas neles? Não iria. se cuspi ou engoli. Devo ter engolido.
Fiquei com uma sensação ads- consciência”.
(Graciliano Ramos) tringente na garganta. Mas não me

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