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LAURETIS, Tereza de. A tecnologia do gênero. Indiana University Press, 1987.

Disponível:
http://pt.scribd.com/doc/81873993/A-Tecnologia-do-Genero-Teresa-de-Lauretis

Teresa De Lauretis (Bolonha, 1938) é uma teórica feminista que fez


importantes contribuições para estudos de gênero, queer, cinematográficos
e psicanálise. De Lauretis é doutora em Línguas e Literaturas Modernas
pela Universidade de Bocconi (Milão-Itália). Em 1985, entrou como
professora na pós-graduação no Departamento de História da Consciência
da Universidade da Califórnia-Santa Cruz, integrando o grupo, juntamente
com Hayden White, Donna Haraway, Angela Davis e James Clifford.
Tem sido professora visitante em universidades no Canadá, Alemanha,
Itália, Suécia, Áustria, Croácia, França, Espanha, Holanda, Polônia,
Argentina, Chile, além de várias pertencentes aos Estados Unidos. Obteve
o Doutorado Honoris Causa pela Universidade de Lund e pela
Universidade Nacional de Córdoba, entre outros reconhecimentos e
distinções universitárias. Em 2010, obteve o Prêmio de Carreira Distinta
pela Sociedade de Cinema e Estudos de Mídia. Entre suas publicações,
destacamos: Alice Doesn't: Feminism, Semiotics, Cinema (1984)/
Technologies of Gender: Essays on Theory, Film, and Fiction (1987)/
The Practice of Love: Lesbian Sexuality and Perverse Desire (1994)/
Feminist Studies/Critical Studies (1986)/ The Cinematic
Apparatus (1980)/ The Technological Imagination (1980)

Introdução: O debate central circula na ideia de desmantelar o argumento que significa gênero
enquanto “diferenças sexuais”, até então utilizado para criticar os estudos do patriarcado
ocidental. Teresa de Lauretis mostra que essa ideia é insuficiente para perpassar as diferentes
problemáticas que surgem, sobretudo nos anos de 1960/70, e que em vez de problematizar
questões mais urgentes das epistemologias feministas, contribui para criar espaços
“gendrados” e reforça marcadores sociais, limitando a crítica do pensamento feminista.

Não podemos nos esquecer de que essa estratégia de criar um lugar de fala do feminino e
posteriormente, do feminismo, foi fundamental para abalar as estruturas sociais do
patriarcado. Contudo, é fundamental também compreender que essa universalidade de
categorias tem um caráter muito excludente e hierárquico, não resolvendo e não alcançando
demandas solicitadas, por exemplo, por mulheres negras que estavam dentro dos movimentos.

• Os anos 60 e 70 estabeleceram o conceito de gênero como diferença sexual. Como


conseqüência disso, Teresa de Lauretis aponta que criam-se espaços sociais “gendrados”,
estereótipos e reducionismo. Assim, a categoria “Mulher” se estabelecer como o elemento
oposto ao homem (= ponto de referência/base).

• No que tange à estrutura social, Teresa de Lauretis aponta que essa orientação permite que o
patriarcado conduza o pensamento feminista, já que a categoria “Mulher” representa as
diversas multiplicidades que se apresentam (Mulher= mulheres) e este sujeito é circunscrito
pelo sexo. A crítica da autora aponta que essa leitura deixa de considerar outros elementos
como classe, raça/etnia, língua que também atravessam o indivíduo.
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• Nesse sentido, ela propõe reorientar a lógica do pensamento feminista com o seguinte
argumento: “os discursos (institucionais, artísticos (como cinema e literatura), entre outros),
em sua totalidade, contribuem para perpetuar as diferenças estereotipadas impostas para
diferenciar masculino e feminino” (De Lauretis, 208).

• “[...] Para isso, pode-se começar a pensar o gênero a partir de uma visão teórica, que vê a
sexualidade como uma ‘tecnologia sexual’; desta forma, propor-se-ia que também o gênero,
como representação e como auto-representação, é produto de diferentes tecnologias sociais,
como o cinema, por exemplo, e de discursos, epistemologias e práticas críticas
institucionalizadas, bem como as práticas da vida cotidiana (De Lauretis, 208).

• Então, o gênero, assim como a sexualidade seria ser “nas palavras de Foucault, ‘o conjunto de
efeitos produzidos em corpos, comportamentos e relações sociais’, por meio do
desdobramento de ‘uma complexa tecnologia política’”, Eis o gênero como produto e
processo de determinadas “tecnologias sociais” e tal afirmativa vai além de Foucault, que não
levou em conta as diferenciações entre os sujeitos masculinos e femininos em sua
compreensão sobre a tecnologia sexual (De Lauretis, 208).

• Teresa de Lauretis também aponta, para construção de seu argumento e proposta outras
questões:

1) “Gênero é uma representação” e se concretiza no comportamento das pessoas.


2) “A representação do gênero é a sua construção” e evolui à medida que a sociedade também
evolui.
3) A construção do gênero é ininterrupta.
4) “(...) a construção do gênero também se faz por meio de sua desconstrução”.

1-Primeiro bloco de discussões:


• Os significados de “gênero” nos dicionários: “classificação do sexo; sexo” e “representação de
uma relação, a relação de pertencer a uma classe, um grupo, uma categoria” (Nesse caso,
mulher).
• Uso dos possessivos “its”, “his” e “her” para o substantivo “criança”: “Embora a criança tenha
um sexo ‘natural’, é só quando ela se torna (...) menino ou menina que adquire um gênero. (...)
então, (...) gênero não é sexo, uma condição natural, e sim a representação de cada indivíduo
em termos de uma relação social preexistente ao próprio indivíduo e predicada sobre a posição
‘conceitual’ e rígida (estrutural) dos dois sexos biológicos.” (LAURETIS, p. 211).
• O sistema de sexo-gênero e as atribuições de valor, prestígio, status dentro da hierarquia
social, etc.
• A construção de gênero como produto, mas também como processo das tecnologias sociais.

2-Segundo bloco de discussões:

• Gênero e ideologia: da representação à construção de homens e mulheres reais (Althusser x


teorias feministas e marxistas). Teresa de Lauretis usa a definição de ideologia de Althusser:
“não o sistema de relações reais que governam a existência de indivíduos, e sim a relação
imaginária daqueles indivíduos com as relações reais em que vivem” (De Lauretis, 212-213).

• Conforme discute a autora é possível pensar um uso do conceito de gênero, partindo da ideia
de ideologia proposta por Althusser: “toda ideologia tem a função (que a define) de constituir
indivíduos concretos em sujeitos”. Assim, se trocarmos ideologia por gênero e a palavra
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sujeito por homens e mulheres nessa equação, teremos a seguinte proposição: “o gênero tem a
função (que o define) de constituir indivíduos concretos em homens e mulheres. É exatamente
nessa mudança que a relação entre gênero e ideologia pode ser vista como um efeito da
ideologia de gênero” (De Lauretis, 212-213).

• Então, se é possível pensarmos no gênero como algo que perpassa as relações reais, significa
dizer que estas realidades representam: “as relações imaginárias dos indivíduos com as
relações reais em que vivem”. Ou seja, a ideia do conceito de ideologia de Althusser está
intimamente atrelada ideia de ideologia do gênero. Desse modo, Teresa de Lauretis
fundamenta sua tese dizendo: “[...] a teoria de Althusser, tanto quanto uma teoria possa ser
validada por discursos institucionais e adquirir poder ou controle sobre o campo do
significado social, pode ela própria funcionar como uma tecnologia de gênero” (De Lauretis,
212-213).

• Importante lembrar também que não é o próprio Althusser, mas sim algumas teóricas
feministas marxistas que entendem o gênero como uma instância de ideologia. Michèle
Barrett argumentava que “’a ideologia do gênero teve um papel importante na construção
histórica da divisão capitalista do trabalho e da reprodução do poder do trabalho’ e é, portanto,
uma demonstração precisa da ‘conexão integral entre a ideologia e as relações de produção”
(De Lauretis, 214-216).

• A categorização masculino/feminino, excludente, manipula as relações sociais, que não


refletem, mas constroem a realidade. “Os homens e as mulheres não só se posicionam
diferentemente nessas relações, mas — e esse é um ponto importante — as mulheres são
diferentemente afetadas nos diferentes conjuntos.” (LAURETIS, p. 215).

• O conceito de “sujeito do feminismo”: tentativa de diferenciar esse “sujeito” dos conceitos de


“Mulher” (o estereótipo) e “mulheres” (sujeitos reais, mas “engendrados”).

• Feminismo, ideologia e hegemonia: Teresa de Lauretis destaca as publicações de This bridge


called my back (1981) e All the women are white, all the blacks are men, but some of us are
brave (1982), que marcaram a relação entre feminismo e ideologia e que, conseguindo espaço
em meio aos estudos feministas escritos por brancos, abalaram o discurso hegemônico,
redefinindo-o, ao menos em parte.

3-Terceiro bloco de discussões:

• A “interpelação”, conforme a acepção de Althusser e o desvendamento da representação como


algo criado e incorporado pelos indivíduos. “Agora pergunto, isto não é o mesmo que dizer
que a letra F assinalada no formulário grudou em nós como um vestido de seda molhado? Ou
que, embora pensássemos estar marcando o F, na verdade era o F que estava se marcando em
nós?” (LAURETIS, p. 220).

• A importância da História da sexualidade, de Michel Foucault, para o estudo A tecnologia


do gênero e as críticas dirigidas à obra pela autora (Foucault faz uma obra androcêntrica,
porque nega o gênero, o que resulta na anulação das relações desiguais e opressoras entre
masculino e feminino e, por fim, contribui para a continuidade do predomínio do masculino
sobre o feminino).

• A tecnologia do gênero e a sexualização do corpo feminino, sobretudo no cinema. Também


Susan Bordo entende a normatização do corpo feminino como modo de controle social e
manutenção das hierarquias de gênero.

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• A representação do feminino a serviço do masculino: “(...) mesmo quando localizada no
corpo da mulher (...), a sexualidade é percebida como um atributo ou uma propriedade do
masculino.” (LAURETIS, p. 222).

• Wendy Hollway, como demonstra Lauretis, exacerba o cruzamento do gênero com outros
fatores determinantes para o perfil de sujeito, ao investigar como classe social, raça, idade, etc.
influenciam os diferentes posicionamentos das mulheres em relação ao gênero.

• Segundo Lauretis, só acontecerá um avanço nos estudos de gênero, quando for possível o
afastamento da base androcêntrica, a partir da revisão do sujeito diante das representações de
gênero. Isso implica, porém, que os discursos que hoje andam à margem tentem minar o
discurso hegemônico. A tarefa é difícil, já que as mulheres “já assumiram a posição em
questão (a da parte feminina do casal) exatamente porque tal posição já lhes garante, como
mulheres, um certo poder relativo”. (LAURETIS, p. 226).

4- Quarto bloco de discussões:

• O masculino como “antagonista” da ficção feminina, como leitor e como crítico.


• Gênero e diferença discursiva: Culler, com base em Showalter, posiciona-se diante dos
discursos lidos e produzidos por mulheres, segundo Lauretis, reconhecendo que “‘ler como
mulher’ não está, em última análise, vinculado ao gênero do leitor real: repetidamente Culler
fala da necessidade de o crítico adotar o que Showalter denominou a ‘hipótese’ de uma leitora
mulher em vez de invocar a experiência de leitores reais.” (LAURETIS, p. 234).
• Porém, para Tânia Modleski, Culler mostra-se patriarcal, já que, para ela, a crítica feminista
deve promover uma “leitora feminina real” e não a “hipótese”. Rosi Braidotti compartilha
dessa opinião, ao constatar que também Deleuze, Foucault, Lyotard e Derrida não associam a
feminilidade a mulheres reais.
• O “pós-feminismo” e a desconstrução do sujeito (mas “des-reconstrução” para quem?).
• Hoje, a luta é entre discursos (o hegemônico e os das “minorias”) e a finalidade não é a
dialética, mas a contradição, a multiplicidade e a heteronomia, para que o discurso
monopolizador possa, aos poucos, ser modificado.