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Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6

Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga


Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

Bertioga

RELATÓRIO Nº 6

BASE DAS INFORMAÇÕES: ATÉ 2012


REVISÃO DE MARÇO DE 2013

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MUNICÍPIO DE BERTIOGA
SUMÁRIO
Bertioga .................................................................................................................................................. 1
1- INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 6
2 - OBJETIVOS DO DIAGNÓSTICO ........................................................................................................... 7
3 – CARACTERIZAÇÃO GERAL DO MUNICÍPIO ........................................................................................ 7
3.1 - Inserção Regional ....................................................................................................... 8
3.2 - Dinâmica populacional ............................................................................................... 9
3.2.1 - Crescimento populacional ................................................................................................... 9
3.2.2 - Caracterização Etária e Étnica da População ..................................................................... 11
3.3 – Perfis das Rendas Domiciliares e dos Responsáveis pelos Domicílios .................... 16
3.4 – Domicílios de Uso Ocasional .................................................................................... 22
3.5 – Caracterização da População Flutuante .................................................................. 26
4 – INSTITUCIONALIDADE E DINÂMICAS SÓCIOPOLÍTICAS .................................................................. 29
4.1. Relações sociopolíticas .............................................................................................. 29
4.1.1. A organização da Sociedade Civil ........................................................................................ 30
4.1.2. Legislação Municipal ........................................................................................................... 44
4.1.3. Espaços de gestão participativa e seus desafios ................................................................ 49
4.2. Leitura Comunitária: Visão do Município e os Desafios para o Desenvolvimento Sustentável
.......................................................................................................................................... 71
4.2.1. A Gestão Pública e as Políticas Públicas em Bertioga ......................................................... 72
4.2.2. A Riviera de São Lourenço, sua relação e o seu significado para o Município ................... 79
4.2.3. O Turismo – Vocação do Município ............................................................................... 82
4.2.4. Potencialidades e Desafios para o Desenvolvimento Sustentável ..................................... 85
4.2.5 Considerações e aspectos relevantes .................................................................................. 91
5. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO ................................................................................................... 93
5.1. Introdução ................................................................................................................. 93
5.2. Mercado Produtivo (Produção de Bens e Serviços) .................................................. 95
5.2.1. Informações Gerais ............................................................................................................. 95
5.2.2. A estrutura produtiva da economia local ........................................................................... 99
5.2.3. Rede Petros Baia de Santos .............................................................................................. 101
5.2.4. Algumas decisões cruciais que podem atingir a economia local ...................................... 102
5.3. Mercado de Trabalho .............................................................................................. 114
5.3.1. A especialização produtiva do trabalho no Município ..................................................... 115
5.3.2 A Capacitação do Mercado Local de Trabalho................................................................... 119
5.4. Finanças Públicas e o Desenvolvimento Socioeconômico municipal: a experiência de Bertioga
........................................................................................................................................ 124
5.5. Considerações finais ................................................................................................ 126
6 . ORDENAMENTO TERRITORIAL ...................................................................................................... 127
6.1 - Evolução da Mancha Urbana do Município de Bertioga Entre 1970 e 2010 ......... 127
6.2. - Regulação dos princípios e diretrizes de política urbana e ordenamento territorial130
6.2.1. - Regulação do ordenamento territorial ........................................................................... 131
6.2.2. – Bertioga e o Zoneamento Econômico Ecológico do Litoral Norte ................................. 133
6.3 – Áreas Potenciais para Ocupação Urbana no Município de Bertioga .................... 133
6.3.1. Áreas com Restrições à Ocupação .................................................................................... 134
6.4. Regulação das Áreas de Expansão Urbana .............................................................. 135
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6.5– Áreas de Monitoramento Territorial no Município de Bertioga ............................ 137


6.5.1 Procedimentos técnicos adotados para definição de áreas de monitoramento territorial –
Litoral Paulista............................................................................................................................. 141
6.6 - Dinâmica Imobiliária ............................................................................................... 150
6.6.1 - Empreendimentos Imobiliários Verticais ........................................................................ 150
6.6.2. Regulação dos Empreendimentos Imobiliários Verticais ................................................. 154
6.6.3. Loteamentos e Condomínios Horizontais no Município de Bertioga ............................... 156
6.6.4 - Regulação dos Loteamentos e Condomínios horizontais. ............................................... 159
6.7 – Imóveis Públicos .................................................................................................... 162
6.8. Regulação dos Bens da União nas Legislações Municipais e Federais .................... 164
6.8.1. Regime Jurídico dos Bens Públicos Municipais ................................................................. 164
6.8.2. Uso dos Bens Municipais .................................................................................................. 164
6.8.3. Uso dos Bens Públicos de Uso Comum e Especial por terceiros ...................................... 164
6.8.4. Alienação ou Aquisição de Bens Públicos ......................................................................... 165
6.8.5. Bens Públicos Municipais e os Loteamentos .................................................................... 166
6.8.6. Bens Públicos Municipais e os Condomínios .................................................................... 166
6.8.7. Bens da União no Município ............................................................................................. 167
6.9 - Patrimônio Histórico Cultural ................................................................................. 168
7 – MEIO AMBIENTE E TERRITÓRIO Erro! Indicador não definido.
7.1 - Unidades de conservação instituídas no Município ..... Erro! Indicador não definido.
7.1.1 Parque Estadual da Serra do Mar ..................................................Erro! Indicador não definido.
7.1.2 - Parque Estadual Restinga de Bertioga .........................................Erro! Indicador não definido.
e. Urbanização formal e informal ...........................................................Erro! Indicador não definido.
7.1.3 APA Marinha Litoral Centro (APAMLC) ..........................................Erro! Indicador não definido.
7.1.4. Ocupação urbana em Áreas de Preservação Permanente ..........Erro! Indicador não definido.
7.1.5. Características, condições e pontos críticos nas áreas de preservação permanenteErro! Indicador
7.2 - Áreas naturais tombadas .............................................. Erro! Indicador não definido.
7.2.1 - Tombamento da Serra do Mar ....................................................Erro! Indicador não definido.
7.3. Contradições e complementações entre unidades de conservação, legislação municipal de
ordenamento territorial e o zoneamento ecológico-econômicoErro! Indicador não definido.
7.3.1 - Contradições e complementações entre unidades de conservação e legislação municipal
de ordenamento territorial .....................................................................Erro! Indicador não definido.
7.3.2 - Contradições e complementações entre unidades de conservação e o Zoneamento
Ecológico – Econômico da Baixada Santista (ZEE – BS) ..........................Erro! Indicador não definido.
7.4. Meio Ambiente e Território na legislação municipal. ... Erro! Indicador não definido.
8 - GRANDES EQUIPAMENTOS DE INFRAESTRUTURA E LOGÍSTICA Erro! Indicador não definido.
8.1. Equipamentos em municípios vizinhos impactantes no municípioErro! Indicador não
definido.
8.2. Legislação municipal de avaliação de impacto .............. Erro! Indicador não definido.
9 - MOBILIDADE URBANA E REGIONAL Erro! Indicador não definido.
9.1 – Demandas por Transportes Coletivos Municipais e Intermunicipais em BertiogaErro!
Indicador não definido.
9.2 - O Transporte Coletivo Público ...................................... Erro! Indicador não definido.
9.3 - Projeto de Integração Espacial do Sistema de Transporte Urbano Municipal de Bertioga Erro!
Indicador não definido.
9.4 - Transporte Coletivo Metropolitano ............................. Erro! Indicador não definido.
3
9.5 - Transporte Coletivo Intermunicipal ............................. Erro! Indicador não definido.
9.6 - Estruturação do Sistema de Transportes Hidroviários . Erro! Indicador não definido.
9.7 - Cobertura do Sistema de Transportes Cicloviários ...... Erro! Indicador não definido.
9.7.1 - Caracterização do Sistema Cicloviário .........................................Erro! Indicador não definido.
9.7.2 - O Uso das Faixas de Domínio de Rodovias, Ferrovias, Eletrovias e Dutovias para
Implantação de Infraestruturas Cicloviárias ...........................................Erro! Indicador não definido.
9.7.3 - O Plano Cicloviário Metropolitano ..............................................Erro! Indicador não definido.
9.8 - Gargalos e Sobrecarga nos Sistemas Viários Locais e RegionaisErro! Indicador não definido.
9.9 - O Plano Viário Metropolitano da Baixada Santista ...... Erro! Indicador não definido.
9.10 - A Legislação Municipal e a Mobilidade Urbana e RegionalErro! Indicador não definido.
10 - HABITAÇÃO E REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA Erro! Indicador não definido.
10.1 - Assentamentos Precários e Informais ........................ Erro! Indicador não definido.
10.1.1 – Favelas .......................................................................................Erro! Indicador não definido.
10.1.2 - Loteamentos Clandestinos e Irregulares ...................................Erro! Indicador não definido.
10.1.3 – Setores Censitários Classificados como Aglomerados SubnormaisErro! Indicador não definido.
10.2 - Necessidades Habitacionais no Município de BertiogaErro! Indicador não definido.
10.2.1 - Dimensionamento da Demanda Prioritária Por Novas Moradias no Município de
Bertioga ...................................................................................................Erro! Indicador não definido.
10.2.2 - Dimensionamento das Moradias Precárias Existentes no Município de BertiogaErro! Indicador n
10.2.3 - Dimensionamento das Demandas Futuras por Novas Moradias no Município de
Bertioga ...................................................................................................Erro! Indicador não definido.
10.3 – Promoção Pública de Habitação de Interesse Social . Erro! Indicador não definido.
10.3.1. Promoção Pública na Produção de Novas Unidades HabitacionaisErro! Indicador não definido.
10.3.2. Urbanização de Assentamentos Precários e Melhoria HabitacionalErro! Indicador não definido.
10.4. Pontos Críticos no Atendimento Habitacional ............ Erro! Indicador não definido.
10.5. A legislação municipal e a questão habitacional ......... Erro! Indicador não definido.
11 - SANEAMENTO AMBIENTAL Erro! Indicador não definido.
11.1 – Abastecimento de Água Potável................................ Erro! Indicador não definido.
11.1.1 – Demanda Domiciliar por Abastecimento de Água....................Erro! Indicador não definido.
11.1.2 – O Sistema de Abastecimento de Água ......................................Erro! Indicador não definido.
11.2 – Coleta e Tratamento de Esgotos ............................... Erro! Indicador não definido.
11.2.1 - Demandas Domiciliares por Coleta e Tratamento de Esgotos ..Erro! Indicador não definido.
11.2.2 – O Sistema de Coleta e Tratamento de Esgotos.........................Erro! Indicador não definido.
11.2.3 - Capacidade de Tratamento e Disposição Final de Esgotos ColetadosErro! Indicador não definido
11.2.4 - Previsão de Investimentos no Sistema de Coleta e Tratamento de Esgoto - Programa
Onda Limpa .............................................................................................Erro! Indicador não definido.
11.2.5 - Saneamento e Balneabilidade das Praias ..................................Erro! Indicador não definido.
11.3 – A Macro e a Micro Drenagem.................................... Erro! Indicador não definido.
11.3.1 - Demandas por Melhorias na Macro e Microdrenagem ............Erro! Indicador não definido.
11.3.2 - Caracterização do Sistema de Macro e Microdrenagem ..........Erro! Indicador não definido.
11.3.3 - Planos, Estudos e Projetos de Macrodrenagem do Município de BertiogaErro! Indicador não de
11.3.4 - A Gestão do Sistema de Drenagem Urbana de Bertioga...........Erro! Indicador não definido.
11.3.5 - Cenários para o Sistema de Drenagem Urbana do Município de BertiogaErro! Indicador não def
11.4. Resíduos Sólidos .......................................................... Erro! Indicador não definido.
11.5. A legislação Municipal e o saneamento ambiental ..... Erro! Indicador não definido.
12. SAÚDE E SEGURANÇA ALIMENTAR Erro! Indicador não definido.
12.1.1. Rede Operacional de Programas - políticas, programas e ações do setor público
municipal e sociedade civil segundo os seguintes eixos: acesso à alimentação; produção e
abastecimento agroalimentar; educação e cultura alimentar; povos e comunidades tradicionais;
acesso à água; alimentação e nutrição no nível da saúde......................Erro! Indicador não definido.
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12.1.2. Sistema de ação política – conselhos, conferências e orgão intersetorialErro! Indicador não defin
12.1.3. Considerações finais ...................................................................Erro! Indicador não definido.
12.2. Saúde ........................................................................... Erro! Indicador não definido.
12.2.1. Situação de Saúde .......................................................................Erro! Indicador não definido.
12.2.2. Diagnóstico dos Serviços de Saúde e dos atendimentos ............Erro! Indicador não definido.
12.2.3. Princípios e Diretrizes Políticas do SUS em Bertioga ..................Erro! Indicador não definido.
12.2.4. O desempenho do SUS-Bertioga: o IDSUS ..................................Erro! Indicador não definido.
12.2.5. Os gastos e investimentos em saúde..........................................Erro! Indicador não definido.
12.2.6. Os compromissos assumidos pelo gestor do SUS de Bertioga – TCG 2011Erro! Indicador não def
12.2.7. O controle social e o Conselho Municipal de Saúde ...................Erro! Indicador não definido.
12.2.8. Considerações e aspectos relevantes: os desafios da saúde em BertiogaErro! Indicador não defin
13. CULTURA Erro! Indicador não definido.
13.1. Painel Cultural da Cidade............................................. Erro! Indicador não definido.
13.1.2. Espaços e ofertas da cultura .......................................................Erro! Indicador não definido.
13.1.3. Acesso à cultura ....................................................................Erro! Indicador não definido.
13.1.4. Regulação, Preservação e Uso dos Imóveis de Interesse Histórico e Cultural do
Município. ...............................................................................................Erro! Indicador não definido.
13.2. Povos Tradicionais ....................................................... Erro! Indicador não definido.
13.2.1. Indígenas .....................................................................................Erro! Indicador não definido.
13.2.2. Caiçaras .......................................................................................Erro! Indicador não definido.
13.3. Culturas Urbanas Contemporâneas ............................ Erro! Indicador não definido.
13.4 Gestão, Participação e Políticas Públicas de Cultura ... Erro! Indicador não definido.
13.4.1. Estrutura da Gestão ....................................................................Erro! Indicador não definido.
13.4.2. Sistema Local de Cultura .............................................................Erro! Indicador não definido.
13.4.3. Relações da gestão com o sistema nacional de cultura .............Erro! Indicador não definido.
13.4.5. Interfaces, ação intersecretarial .................................................Erro! Indicador não definido.
13.5. Orçamento ................................................................... Erro! Indicador não definido.
13.6. Desafios para o desenvolvimento cultural .................. Erro! Indicador não definido.
13.6.1. Gestão e Políticas de Cultura ......................................................Erro! Indicador não definido.
13.6.2. Fortalecimento das manifestações e eventos locais: .................Erro! Indicador não definido.
13.6.3. O eixo cultura-turismo-meio ambiente ......................................Erro! Indicador não definido.
13.6.4. Patrimônio imaterial ...................................................................Erro! Indicador não definido.
13.6.5. O isolamento do município e a relação nacional........................Erro! Indicador não definido.
14. SEGURANÇA PÚBLICA Erro! Indicador não definido.
14.1 Introdução .................................................................... Erro! Indicador não definido.
14.2 Bertioga e um quadro geral da criminalidade .............. Erro! Indicador não definido.
14.3 Raio X institucional e Marco Legal: primeiros apontamentosErro! Indicador não definido.
14.4 Percepção de outros atores do cenário da Segurança Pública no municípioErro! Indicador
não definido.
14.5 Considerações finais ..................................................... Erro! Indicador não definido.
15. FINANÇAS PÚBLICAS Erro! Indicador não definido.
15.1 Processo orçamentário na gestão municipal ............... Erro! Indicador não definido.
15.1.1 Introdução....................................................................................Erro! Indicador não definido.
15.1.2 O Orçamento de Bertioga – 2010 ................................................Erro! Indicador não definido.
15.1.3 Composição da Receita ................................................................Erro! Indicador não definido.
15.1.4 Despesa Orçamentária.................................................................Erro! Indicador não definido.
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS Erro! Indicador não definido.
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1- INTRODUÇÃO
O presente relatório apresenta um conjunto de leituras técnicas sobre as condições e tendências
urbanas e socioambientais do Município de Bertioga, município emancipado em 1991, com 47.645
habitantes em 2010, sendo 98,4% residentes em áreas urbanas e 1,6% residentes em áreas rurais. A
extensão territorial de Bertioga é de 490,03km² sendo que aproximadamente 72,2% insere-se em
Unidades de Conservação instituídas.
As leituras sobre as condições urbanísticas e socioambientais apresentadas neste relatório estão
articuladas com análises sobre diferentes aspectos como, por exemplo, o desenvolvimento econômico,
a cultura, a segurança alimentar e nutricional, a saúde, a segurança pública, as finanças publicas entre
outros. Tais leituras estão articuladas também com um exame detido sobre marcos jurídicos relativos
às políticas públicas que incidem nos espaços territoriais daquele Município, bem como com a visão de
moradores e representantes de entidades sobre o município. Os marcos regulatórios e conceituais a
nível federal e estadual foramm tratados no volume 1 do relatório, e os temas e questões no âmbito
regional, serão tratados em relatório especifico regionaido município sobre tratadas no volume 1. .
Este relatório faz parte de um conjunto de estudos que abrangem as realidades de 13 municípios do
litoral paulista que estão sendo analisados no âmbito do convênio entre a Petrobras e o Instituto Polis.
Esses relatórios municipais deverão servir como base para a consolidação de um estudo regional. Como
posto adiante, todos esses estudos tem como objetivo principal formular agendas de desenvolvimento
local e regional considerando as transformações que poderão ocorrer no litoral paulista em função de
diversos projetos e obras de impacto tais como as explorações de petróleo e gás nas camadas do pré
sal, a ampliação ods portos, duplicação de rodovias, entre outros.
A organização dos conteúdos do presente relatório segue uma estrutura básica, constituída pelos
seguintes componentes:
- caracterização geral do município a partir dos seguintes aspectos: (i) inserção regional; (ii) dinâmicas
populacionais, inclusive da população flutuante; (iii) domicílios de uso ocasional;
- análises do ordenamento territorial a partir dos seguintes aspectos: (i) crescimento da mancha urbana
no período entre 1970 e 2010; (ii) dinâmica imobiliária, especialmente da implantação de
empreendimentos verticais, loteamentos e condomínios horizontais; (iii) áreas potenciais para
ocupações urbanas futuras; (iv) imóveis públicos; (v) imóveis de interesse histórico e cultural e (vi)
áreas com restrição à ocupação urbana;
- análises sobre os diferentes tipos de necessidades habitacionais, especialmente aquelas existentes em
assentamentos precários e irregulares, e sobre a provisão habitacional recente promovida pelo poder
público;
- análises sobre as demandas e desempenhos relativos ao sistema de saneamento básico constituído
pelos sistemas de abastecimento de água, de coleta e tratamento de esgoto, de drenagem urbana e de
gestão de resíduos sólidos;
- análises sobre as condições de mobilidade local e regional, especialmente aquelas relacionadas aos
problemas relativos aos sistemas viários e às diferentes modalidades de transportes coletivos
municipais e intermunicipais;
- análises sobre as características e implicações dos grandes equipamentos e infraestruturas de logística
existentes e previstos, principalmente as ferrovias, rodovias, armazéns, indústrias, portos e aeroportos;
- análises sobre os espaços territoriais especialmente protegidos, em especial as diferentes
modalidades de unidades de conservação instituídas pelos governos federal, estadual e municipal e as

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áreas de interesse ambiental definidas no zoneamento ecológico-econômico e em zoneamentos
municipais;
- análises sobre as questões relativas ao desenvolvimento econômico local, à cultura,à segurança
pública, à segurança alimentar e nutricional e à saude;
- análises sobre aspectos da gestão pública e democrática considerando especialmente as finanças
municipais.
- analises a partir de escutas da sociedade, sobre suas organizações, a participação em espaços de
gestão democrática e suas visões sobre o município e seu desenvolvimento;
Vale dizer que todas essas análises se referenciam em políticas e programas públicos nacionais e
estaduais que envolvem atuações dos governos municipais e incidem nos territórios locais. Nesse
sentido, leva-se em conta, entre outras, as seguintes políticas nacionais:
- política nacional e estadual de desenvolvimento urbano, compostas pelas políticas de ordenamento
territorial, de habitação, de regularização fundiária, de mobilidade urbana e de saneamento ambiental;
- política nacional e estadual de resíduos sólidos;
- política nacional e estadual de segurança alimentar e nutricional.
- politica nacional e estadual de segurança publica
- polittica nacional e estadual de saúde;
- polittica nacional e estadual de cultura;
Ademais, aquelas análises procuram traçar um quadro geral das ofertas e demandas relativas a
serviços, equipamentos e infraestruturas urbanas em âmbitos municipais e regionais a fim de
identificar déficits, gargalos e pontos críticos que necessitam ser superados na busca por um
desenvolvimento que promova o dinamismo econômico, mas também melhore as condições de vida
das pessoas e não provoque perdas e desequilíbrios ambientais.

2 - OBJETIVOS DO DIAGNÓSTICO
Os principais objetivos do presente diagnóstico é subsidiar a formulação de uma agenda de
desenvolvimento local, regional e no litoral paulista baseados no envolvimento dos diversos agentes
governamentais e da sociedade civil. Tal agenda deverá se referenciar na articulação entre políticas
públicas nacionais já instituídas no país. Deverão se referenciar também em políticas, programas e
ações realizadas pelo Governo do Estado de São Paulo inscritas em diferentes setores. As análises que
compõem esse diagnóstico não se encerram em si mesmas. Pretendem se constituir em instrumentos
que orientem ações estruturantes direcionadas ao ordenamento territorial e ao atendimento de
diferentes tipos de necessidades sociais.

3 – CARACTERIZAÇÃO GERAL DO MUNICÍPIO


Esta caracterização inicial do Município de Bertioga traz breves quadros sobre sua inserção regional,
dinâmica populacional, características domiciliares segundo perfis de rendimentos e da condição de
ocupação, com destaque para os domicílios de usos ocasionais, geralmente utilizados como “segunda
residência”. Essa caracterização geral de Bertioga termina com a apresentação e comentários sobre a
população flutuante que aflui para o município durante períodos de férias e de verão.
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3.1 - Inserção Regional


O Município de Bertioga localiza-se na extremidade Nordeste da Região Metropolitana da Baixada
Santista1, instituída pela Lei Complementar Estadual nº 815 de 30 de julho de 1996. Essa lei instituiu
também o Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Baixada Santista (CONDESB),
regulamentado pelo Decreto nº 41.361, de 27 de novembro de 1996, e o Fundo de Desenvolvimento
Metropolitano da Baixada Santista (FUNDESB), regulamentado pelo Decreto Estadual nº 42.833, de 28
de janeiro de 1998. Em 23 de dezembro de 1998, a Lei Complementar Estadual nº 853 criou a Agência
Metropolitana da Baixada Santista (AGEM) com a finalidade de integrar a organização, o planejamento
e a execução das funções públicas de interesse comum nesta região metropolitana. Em 2004, Lei
Complementar nº 956 vinculou a AGEM à Secretaria de Economia e Planejamento, e em 2011, outra
alteração ocorreu, por meio do Decreto Estadual nº 56.635,que passou a vincular a AGEM à
recentemente criada Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano.

Bertioga está geograficamente situada entre os centros dinâmicos da Baixada Santista - formado por
Santos, Guarujá, São Vicente e Cubatão - e o Litoral Norte – formado por São Sebastião e
Caraguatatuba. Trata-se de importantes regiões turísticas no litoral paulista que, nos meses de verão,
recebe grandes quantidades de turistas. Ademais, Bertioga encontra-se delimitada pelo Oceano
Atlântico a Sul e faz divisa com os Municípios de Santos a Oeste; Guarujá a Sudoeste; Mogi das Cruzes,
Biritiba Mirim e Salesópolis a Norte e São Sebastião e Leste. Os acessos regionais e as principais
conexões viárias de Bertioga com seus municípios vizinhos são formadas pelas Rodovias SP-55 e
(Rodovia Dr. Manuel Hyppolito Rego) e SP 98 (Mogi-Bertioga).

De um modo geral, o turismo no litoral paulista, caracterizado como turismo balneário, é um dos
segmentos mais significativos da economia regional, contribuindo efetivamente para o crescimento do
setor terciário de comércio e serviços. Esse modelo de turismo se desenvolveu ao longo do século XX
baseado na sazonalidade e na criação de um significativo parque de residências de veraneio. Essa
modalidade de turismo denominada de “segunda residência” traz enormes inconvenientes e desafios
em relação à implantação de infraestruturas urbanas.
Este tipo de turismo desenvolveu-se em distintas etapas, de acordo com a implantação de sistema de
ligação rodoviária, entre o planalto e o litoral paulista. Assim, os primeiros municípios a serem
impactados por esse desenvolvimento turístico foram os municípios centrais da chamada Baixa
Santista, sobretudo Santos e São Vicente, cujas orlas marítimas foram verticalizadas rapidamente a
partir da inauguração da Via Anchieta, no final da década de 1940. Em meados da década de 1960,
estas áreas já apresentavam sinais de saturação urbana e as construtoras paulistanas e algumas
empresas com atuações locais passaram a desenvolver projetos em outras cidades mais próximas,
principalmente na Praia Grande e Guarujá que, durante as décadas de 1970 e 1980, tiveram suas orlas
marítimas verticalizadas, em intensidade semelhante à dos municípios da Ilha de São Vicente. Contudo,
em função de disporem de orlas mais amplas, a saturação urbana ainda não ocorreu totalmente
naqueles municípios. Na virada do século XX para o XXI, as orlas marítimas de São Vicente e Santos já
haviam passado por uma transformação radical em termos populacionais. Os edifícios originalmente
construídos para veraneio foram paulatinamente ocupados por residentes fixos.
Conforme o complexo rodoviário da SP-55 foi sendo implantado, os municípios mais distantes do
centro regional da Baixa Santista, como Bertioga, passaram a ser ocupados por empreendimentos de
segunda residência, embora com tipologias distintas, marcadamente horizontais, ainda que houvesse
verticalização em algumas áreas específicas. Esse processo provocou grandes aumentos na população
flutuante daqueles municípios. Dinâmica semelhante ocorreu com os municípios do litoral norte, após
a construção da Rodovia dos Tamoios, que transformou as relações econômicas entre os municípios

1
A Região Metropolitana de Baixada Santista é composta pelos municípios de Peruíbe, Itanhaém, Mongaguá, Praia Grande, São
Vicente, Cubatão, Santos, Guarujá, Bertioga.
9
desta região e o Vale do Paraíba, cuja população passou a procurar as praias desta região,
transformando radicalmente as estruturas urbanas locais.

3.2 - Dinâmica populacional


3.2.1 - Crescimento populacional
O município de Bertioga, desde sua emancipação em 1991, vem apresentando crescimento
populacional bastante acelerado. Entre 1991 e 2000, esse ritmo esteve acima dos demais municípios
do litoral paulista. Nesse período Bertioga saltou de 11.426 para 30.039 habitantes, crescendo a Taxas
Geométricas de Crescimento Anual (TGCA) de 11,34% a.a. Entre 2000 e 2010 houve diminuição no
ritmo de crescimento populacional nos treze municípios do litoral paulista ora em análise. Dentre esses
municípios, Bertioga manteve a mais alta TGCA do período: 4,42% a.a.

Tabela 1. Municípios do Litoral Paulista - População Residente e Taxa Geométrica de Crescimento


Anual - TGCA - 2000-2010

População residente
Ano TGCA 2000-
Município
2000 2010 2010
Bertioga - SP 30.903 47.645 4,42
Cubatão - SP 107.904 118.720 0,96
Guarujá - SP 265.155 290.752 0,93
Itanhaém - SP 71.947 87.057 1,92
Mongaguá -
SP 35.106 46.293 2,80
Peruíbe - SP 51.384 59.773 1,52
Praia Grande -
SP 191.811 262.051 3,17
Santos - SP 417.777 419.400 0,04
São Vicente -
SP 302.678 332.445 0,94
São Sebastião
- SP 57.886 73.942 2,48
Caraguatatuba
- SP 78.836 100.840 2,49
Ilhabela - SP 20.744 28.196 3,12
Ubatuba - SP 66.448 78.801 1,72
Fonte: Censos Demográficos IBGE, 2000 e 2010.
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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

Mapa 1 . Municípios do Litoral Paulista, Taxa Geométrica de Crescimento Anual TGCA 1991/2000 e
2000/10

Fonte: Censos Demográficos IBGE, 1991 e 2000 e Censos Demográficos IBGE, 2000 e 2010.

Do ponto de vista da distribuição espacial da população residente em Bertioga nota-se que


praticamente toda esta população, 98%, vive em áreas urbanas. Porém, como se verá adiante neste
relatório, essas áreas urbanizadas se dispersam no território de Bertioga intercalando-se com grandes
áreas desocupadas que se distribuem ao longo da orla marítima. Essa configuração da mancha urbana
de Bertioga ocasiona ocupação com baixas densidades demográficas, de apenas 17,50 hab/ha.

Tabela 2. Municípios do Litoral Paulista - Área do Município e Densidade demográfica - 2010


Pop. Total Densidade Demográfica –
Município Área Urb. 2010
2010 hab/ha
Bertioga 47.645 2.722,95 17,50
Caraguatat
100.840 3.368,37 29,94
uba
Cubatão 118.720 2.410,94 49,24
Guarujá 290.752 3.803,98 76,43
Ilhabela 28.196 831,13 33,92
Itanhém 87.057 4.947,91 17,59
Mongaguá 46.293 1.530,64 30,24
Peruíbe 59.773 3.447,44 17,34
Praia
262.051 3.927,15 66,73
Grande
Santos 419.400 3.507,09 119,59
São
73.942 2.507,92 29,48
Sebastião
São
332.445 2.461,70 135,05
Vicente
Ubatuba 78.801 2.455,98 32,09
Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.
11
Em Bertioga, o setor censitário mais denso possui 200 hab/ha, com uma única exceção de um setor
próximo à Av. do Telégrafo onde essa densidade é maior.

Mapa 2. Bertioga - Densidade Demográfica de População Residente Segundo Setores Censitários –


2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

3.2.2 - Caracterização Etária e Étnica da População


O Município possui população bastante jovem, embora a base de sua pirâmide etária tenha se
estreitado na última década. Em 2010, mais de 50% de sua população possuía menos de 30 anos de
idade. A população de 30 até 60 anos correspondia a 41,5% da população total. Entre 2000 e 2010
percebe-se um ligeiro aumento no envelhecimento da população de Bertioga. Nesse período a
população com mais de 65 anos passou de 3% para 5% sobre a população total.

Figura 1. Bertioga - Pirâmides Etárias – 2000 e 2010

Pirâmide Etária - Bertioga 2000 Pirâmide Etária - Bertioga 2010


80 anos ou mais 80 anos ou mais
75 a 79 anos 75 a 79 anos
70 a 74 anos 70 a 74 anos
65 a 69 anos 65 a 69 anos
60 a 64 anos 60 a 64 anos
55 a 59 anos 55 a 59 anos
50 a 54 anos 50 a 54 anos
faixas etárias

Faixas Etárias

45 a 49 anos 45 a 49 anos
40 a 44 anos 40 a 44 anos
35 a 39 anos 35 a 39 anos
30 a 34 anos 30 a 34 anos
25 a 29 anos 25 a 29 anos
20 a 24 anos 20 a 24 anos
15 a 19 anos 15 a 19 anos
10 a 14 anos 10 a 14 anos
5 a 9 anos 5 a 9 anos
0 a 4 anos 0 a 4 anos

-2.500 -1.500 -500 500 1.500 2.500 -2.500 -1.500 -500 500 1.500 2.500
população População
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Fonte: Censos Demográficos IBGE, 2000 e 2010.

Em relação à classificação da população de acordo com as categorias de cor e raça utilizadas pelo IBGE,
a população residente de Bertioga acompanha parte dos municípios litorâneos paulistas onde o
percentual da população parda e negra sobre a população total está acima do percentual verificado
para o Estado de São Paulo. Embora bastante reduzida, a presença de população indígena no território
de Bertioga é também maior do que no Estado de São Paulo.

Tabela 3. Estado de São Paulo e Municípios do Litoral Paulista - População Residente Segundo Cor ou
Raça - 2010
Cor ou raça
P
Unidade da
r Pa
Federação e Tota Bra Ama Indí
e rd
Municípios l nca rela gena
t a
a
41.2 5, 29
Estado de São Paulo 62.1 63, 5 ,1
99 9% % 1,4% % 0,1%
7, 43
Bertioga - SP 47.6 47, 6 ,8
45 0% % 1,1% % 0,5%
7, 48
Cubatão - SP 118. 42, 7 ,8
720 6% % 0,7% % 0,2%
6, 45
Guarujá - SP 290. 47, 7 ,5
752 0% % 0,6% % 0,2%
5, 35
Itanhaém - SP 87.0 58, 0 ,5
57 4% % 0,7% % 0,4%
6, 34
Mongaguá – SP 46.2 58, 3 ,2
93 2% % 0,6% % 0,7%
6, 34
Peruíbe - SP 59.7 57, 0 ,1
73 8% % 1,3% % 0,7%
5, 36
Praia Grande – SP 262. 57, 9 ,1
051 1% % 0,8% % 0,1%
4, 22
Santos - SP 419. 72, 7 ,0
400 2% % 1,0% % 0,1%
7, 38
São Vicente – SP 332. 53, 1 ,7
445 5% % 0,6% % 0,1%
6, 38
São Sebastião – SP 73.9 53, 4 ,5
42 9% % 0,7% % 0,4%
5, 41
Ilhabela - SP 28.1 52, 1 ,8
96 2% % 0,7% % 0,2%
4, 28
Caraguatatuba – SP 100. 66, 4 ,3
840 2% % 0,9% % 0,1%
5, 33
Ubatuba - SP 78.8 59, 9 ,5
01 2% % 1,0% % 0,4%
Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.
13
Gráfico 1. Bertioga – Distribuição Percentual da População Segundo Cor ou Raça - 2010

Cor ou raça da população residente

Série2;
Indígena;
0,5%; 0%
Série2; Série2;
Parda; Branca;
43,8%; 44% 47,0%; 47%

Série2; Série2;
Amarela; Preta;
1,1%; 1% 7,6%; 8%
Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

A distribuição da população de Bertioga segundo raça ou cor mostra maior presença da população
branca nos setores censitários mais próximos às faixas litorâneas, beneficiada pela proximidade com a
praia, enquanto as populações pardas e negras estão mais distantes da orla marítima, concentradas
nos setores censitários entre a Serra do Mar e a Rodovia SP-55 (Dr. Manuel Hipólito Rego).
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Mapa 3. Distribuição dos Percentuais da População Branca Segundo Setores Censitários – 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Mapa 4 – Distribuição dos Percentuais da População Parda Segundo Setores Censitários – 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

15
Mapa 5. Distribuição dos Percentuais da População Preta Segundo Setores Censitários – 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

A população indígena presente em Bertioga está concentrada em um setor censitário localizado no


extremo leste do município. Nesse setor encontra-se a reserva indígena Ribeirão Silveira, na praia da
Boracéia. Esta reserva teve suas terras demarcadas como indígenas por meio do Decreto Presidencial
nº 94.568/1987. Parte dessa reserva indígena encontra-se no município de São Sebastião.
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Mapa 6. Distribuição dos Percentuais da População Indígena Segundo Setores Censitários – 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

3.3 – Perfis das Rendas Domiciliares e dos Responsáveis pelos Domicílios


Para analisarmos os perfis de renda no município utilizaremos dois tipos de variáveis: a renda mensal
do responsável pelo domicílio; e a renda mensal domiciliar, composta de todos os rendimentos dos
moradores. Estes são importantes indicadores da capacidade de consumo das famílias.
A pessoa responsável pelo domicílio é identificada pelo IBGE como homem ou mulher, de 10 anos ou
mais de idade, reconhecida pelos moradores como responsável pela unidade domiciliar. No Município,
67% das pessoas responsáveis por domicílios com rendimento mensal de 0 a 3 salários mínimos,
apresentando perfil bastante similar a maior parte dos municípios do litoral paulista analisados no
presente trabalho.

Gráfico – Distribuição Percentual das Pessoas Responsáveis Segundo Faixas de Renda Mensal – 2010

Rendimento nominal mensal das Pessoas responsáveis


pelo domicílios
7% 1% 0%
Sem rendimento
14% Até 3 S.M.
11%
Acima de 3 até 5 S.M.
Acima de 5 até 10 S.M.
67% Acima de 10 até 20 S.M.
Acima de 20 S.M.

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010. Elaboração: Instituto Polis.


17
Dentre esses municípios, Santos se distingue por ter maiores percentuais de responsáveis por
domicílios que possuem níveis mais altos de renda, conforme gráfico a seguir.
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Gráfico. Municípios do Litoral Paulista – Distribuição Percentual das Pessoas Responsáveis Segundo
Faixas de Renda Mensal – 2010
Rendimento Nominal Mensal das Pessoas Responsáveis por Domicílios

Sem rendimento Acima de 0 até 3 S.M. acima de 3 até 5 S.M.


Acima de 5 até 10 S.M. Acima de10 S.M.

1,5% 2,2% 1,0% 2,0% 2,3% 1,5% 1,2% 1,9% 2,0% 2,7% 1,9% 1,6%
6,4% 6,9% 5,8% 6,3% 6,7% 5,5% 5,4% 6,3% 7,5% 7,9% 9,7% 5,2%
7,8%
8,9%
11,4% 11,5% 12,6% 11,4% 10,7% 10,8% 12,0% 10,4%
13,6% 10,5% 14,3%
17,7%

18,7%

66,8% 65,8% 62,1% 64,3% 68,4% 65,7% 66,3%


62,5% 67,7% 62,2%
71,3%
70,6%

43,8%

18,5% 16,1% 15,6% 15,1% 14,4% 11,4% 13,7%


13,9% 13,6% 9,7% 13,9% 10,1% 13,0%

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010. Elaboração: Instituto Polis.

Com o objetivo de observar a distribuição espacial dos domicílios e dos responsáveis domiciliares
segundo os níveis de renda, somamos o valor do rendimento nominal mensal de todos os responsáveis
pelos domicílios em cada setor censitário. O resultado foi dividido pelo número total de responsáveis
pelo domicílio do próprio setor. Com isso se obteve o rendimento médio dos responsáveis pelos
domicílios segundo os setores censitários.
A espacialização desse indicador segundo diferentes faixas de renda (conforme mapa abaixo) permite
visualizar as desigualdades socioespaciais existentes em Bertioga. Verificamos maior presença de
responsáveis domiciliares com os maiores níveis de rendimento na orla marítima, no Centro e
principalmente na Riviera de São Lourenço onde boa parte dos setores censitários possuem renda
entre R$ 1.866,00 e R$ 6.220,00. Dentre esses bairros, vale destacar a Riviera de São Lourenço onde há
2 setores censitários cuja renda média dos responsáveis domiciliares fica acima de R$
6.220,00.Conforme mapa abaixo, um setor censitário próximo Maitinga possui concentração de
responsáveis com renda acima de 10 s.m.
Já a população de média renda se concentra espalhada em vários pontos do território, em setores
censitários onde a renda média dos responsáveis domiciliares fica entre R$ 622,00 e R$ 1.866,00.
Interessante observar que os setores onde esse indicador fica abaixo de R$ 622,00 estão mais afastados
da orla marítima, do outro lado da rodovia SP-55.

19
Mapa – Rendimentos Nominais Médios dos Responsáveis pelos Domicílios Segundo Setores
Censitários – R$ - 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Mapa – Percentuais de Responsáveis por Domicílios com Rendimento Nominal Mensal Acima de 10
Salários Mínimos Segundo Setores Censitários – 2010
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Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Os responsáveis por domicílios sem rendimento estão concentrados nossetores censitários afastados
da orla ao interior da Rodovia SP-55 e em poucos setores na área central, conforme pode ser visto no
mapa abaixo.

Mapa – Percentuais de Responsáveis por Domicílios Sem Rendimentos Segundo Setores Censitários –
2010

21
Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Como visto anteriormente, 67% dos responsáveis por domicílios de Bertioga possuem renda até 3 s.m.
Este grupo social se distribui em praticamente todo o território municipal. Interessante observar que a
maior parte dos setores com mais de 75% dos responsáveis pelos domicílios com renda até 3 s.m. está
localizada nos bairros da Boracéia, Rio do Meio e na divisa com Santos e Guarujá.
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Mapa – Distribuição, Segundo Setores Censitários, do percentual de concentração da pessoa


responsável com rendimento nominal mensal de até 3 Salários Mínimos – 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Outra importante variável de rendimento observada é a renda domiciliar que corresponde à somatória
da renda individual dos moradores de um mesmo domicílio. Como dito antes, este indicador tem
relação com a capacidade de consumo da família e deve ser considerado para a definição de critérios
para a formulação e implementação de diversas políticas públicas, especialmente no setor habitacional.
Foram adotadas as faixas de renda utilizadas pelo IBGE nas tabulações realizadas.Desse modo, foram
consideradas as seguintes faixas: sem rendimentos, de 0 a 2s.m.;mais de 2 a 5 s.m.;mais de 5 a 10 s. m.
e mais de 10 s.m. O município possui 31% dos domicílios com renda até 2 salários mínimos, 44% dos
domicílios com renda entre 2 e 5 salários mínimos e 16% com renda domiciliar entre 5 e 10 salários
mínimos.

23
Gráfico – Distribuição Percentual dos Domicílios Segundo Faixas de Renda Domiciliar Mensal – 2010
rendimento mensal domiciliar -
Bertioga
4%
5%
% sem rendimento
16%
31% % até 2SM
% mais de 2 a 5 SM
% mais de 5 a 10

44% % mais de 10 SM

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

3.4 – Domicílios de Uso Ocasional


O Município passou de 26.149 domicílios em 2000 para 44.834 domicílios em 2010, acompanhando o
crescimento populacional ocorrido neste mesmo período. Uma importante característica do perfil dos
domicílios de Bertioga, condizente com sua condição enquanto município turístico e de veraneio, é a
existência de grande quantidade de domicílios de uso ocasional, isto é, o domicílio particular
permanente que serve ocasionalmente de moradia, geralmente usado para descanso nos fins de
semana, férias, entre outras finalidades. De acordo com dados do Censo 2010, 62,18% dos domicílios
particulares permanentes de Bertioga são de uso ocasional. A existência de grande quantidade desse
tipo de imóveis possui relação direta com a significativa população flutuante analisada adiante. Essa
população ocupa o município, no verão, durante a temporada de férias.

Tabela 4. Domicílios Particulares Permanentes, de Uso Ocasional e Vagos - 2010


Partic Particular - não
Particular - não
ular - Particular - ocupado ocupado - uso
ocupado - vago
total ocasional
% do % do % do
Munic
total de total de total de
ípio No No No No
domicíli domicíli domicíli
Absol Absol Absol Absol
os os os
uto uto uto uto
particul particul particul
ares ares ares
Bertio 44.83 14.58 27.87
32,52% 62,18% 2.266 5,05%
ga - SP 4 1 8
Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.
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Gráfico 4. Distribuição Percentual dos Domicílios Particulares Permanentes, Vagos, Ocupados e de


Uso Ocasional - 2010

Domicílios particulares - Bertioga 2010

vago; 5,05%

ocupado; 32,52%

ocasional;
62,18%

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Entre 2000 e 2010, o crescimento dos domicílios de uso ocasional em Bertioga ocorreu num ritmo
muito maior que o crescimento dos domicílios ocupados, contrariando a tendência da maior parte dos
municípios do litoral paulista que tiveram um crescimento mais intenso dos domicílios ocupados
indicando fixação crescente de moradores.

Tabela 5. Municípios do Litoral Paulista – Variação no Percentual de Domicílios Particulares


Permanentes Ocupados, de Uso Ocasional e Vagos – 2000-2010

Crescimento (%) entre os anos de 2000 e 2010


Domicílios
Municípios
ocupados Domicílios de Domicílios não
permanentes uso ocasional ocupados vagos
Bertioga - SP 13,05% 27,18% 1,72%
Caraguatatuba
- SP 15,00% 4,80% -0,23%
Cubatão - SP 16,76% -0,24% -2,15%
Guarujá - SP 9,15% 0,99% -1,52%
Ilhabela - SP 22,32% 6,72% 4,15%
Itanhaém - SP 11,44% 12,07% 0,63%
Mongaguá - SP 11,32% 9,91% -0,47%
Peruíbe - SP 11,92% 6,69% 1,49%
Praia Grande -
SP 14,29% 5,82% -0,10%
Santos - SP 7,54% -0,42% -2,76%
São Sebastião -
SP 16,99% 6,69% 0,17%
São Vicente -
SP 14,76% -2,31% -2,39%
Ubatuba - SP 11,25% 10,07% 1,62%
25
Fonte: Censos Demográficos IBGE, 2000 e 2010.

Em Bertioga, a maior parte dos domicílios ocupados que servem de moradia para a população
residente fixa, geralmente de baixa renda, está concentrada nos setores censitários mais centrais e nas
áreas mais distantes da praia, entre a Rodovia Dr. Manuel Hypólito Rego e a Serra do Mar. Os domicílios
de uso ocasional estão concentrados nos setores censitários mais próximos à orla marítima,
especialmente na Riviera de São Lourenço. Nesses setores censitários, mais de 75% dos domicílios são
de uso ocasional.

Mapa 7. Distribuição dos Percentuais dos Domicílios Particulares Permanentes Ocupados Segundo
Setores Censitários – 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Mapa 8. Distribuição Percentual dos Domicílios de Uso Ocasional Segundo Setores Censitários – 2010
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Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

O Censo 2010 classifica somente os domicílios particulares permanentes ocupados, com residentes
fixos, como casas ou apartamentos. Vale dizer que os domicílios particulares permanentes de uso
ocasional, correspondentes a 60% do total de domicílios particulares permanentes de Bertioga, não
foram computados nessa classificação. Isso exclui boa parte das casas de uso ocasional que se encontra
em vilas e condomínios residenciais. O resultado disso é que o Censo 2010 classifica, como casas em
vilas e condomínios, somente 4% dos domicílios de Bertioga, pois a maioria é de uso ocasional. Pelo
mesmo motivo aquele Censo classifica somente 6% dos domicílios daquele município como
apartamento, pois a grande quantidade de prédios implantados na Riviera de São Lourenço também é
de uso ocasional. Em Bertioga, a maior parte dos domicílios particulares permanentes com moradores
fixos são casas: 89%.

Gráfico 5. Distribuição Percentual dos Domicílios Particulares Permanentes Ocupados Segundo Tipo
(Casa, Casa de Vila ou de Condomínio, Apartamento) – 2010

Bertioga - tipo de domicílio


1% 0%
4%
Casa 6%

Casa de vila ou em
condomínio

Apartamento
89%

27
Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

Figura 2. Distribuição Percentual dos Domicílios Particulares Permanentes com Residentes Fixos do
Tipo Apartamento Segundo Setores Censitários – 2010

Fonte: Censo Demográfico IBGE, 2010.

3.5 – Caracterização da População Flutuante


Conforme o complexo rodoviário da SP-55 (Rodovias Padre Manoel de Nóbrega e Manoel Hipólito do
Rego) foi sendo implantado ao longo da orla marítima paulista, nas direções nordeste-sudeste, os
municípios mais distantes do centro regional da Baixada Santista, como Bertioga, passaram a receber
empreendimentos imobiliários com residências de veraneio. Trata-se de empreendimentos com
tipologias distintas, marcadamente horizontais, ainda que houvesse verticalização em algumas áreas
específicas. Os dados do Censo 2010 apontam que mais de 60% dos domicílios existentes no município
de Bertioga são de uso ocasional, ou seja, são os domicílios que abrigam grande parte da população
flutuante que frequenta a cidade.
Em Bertioga, como nos demais municípios do litoral paulista, o turismo balneário é um segmento dos
mais significativos da economia local e regional, contribuindo efetivamente para a dinâmica do setor
terciário. Contudo, o predomínio das “segundas residências”, em detrimento da modalidade turística
baseada em meios de hospedagem, provoca graves desequilíbrios nos espaços urbanos, como se verá
adiante, e traz enormes inconvenientes e desafios. A implantação de infraestruturas urbanas
dimensionadas para atender os picos das temporadas de veraneio e um desses desequilíbrios, pois
ficam ociosas durante a maior parte do ano. Os sistemas de saneamento básico, de fornecimento de
energia elétrica, de transportes e trânsito, entre outros serviços, são dimensionados de forma a
atender população muito superior à residente. Apesar dos investimentos públicos realizados, persistem
as demandas crescentes das populações fixas e flutuantes. Tal situação gera déficits de serviços
urbanos e significativos passivos socioambientais.
É possível estimar o tamanho da população flutuante em Bertioga e nos demais municípios litorâneos a
partir de dados sobre o consumo de água e de energia elétrica ou da quantidade de lixo gerado e
coletado. O plano de saneamento do Município de Bertioga traz projeções da população total e
flutuante para o período entre 2010 e 2039. Segundo essas projeções, a população total de Bertioga
em 2010 corresponde a 126.086 pessoas em 2010, sendo que 80.992 (64,5%) composta pela população
flutuante e 45.076 (36,5%) pela população residente. Os percentuais dos domicílios ocupados de uso
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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
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ocasional e com residentes fixos são parecidos. No município de Bertioga, as projeções da população
flutuante correspondem a mais de 60% das projeções das populações totais em todos os anos entre
2000 e 2039, chegando a 65,9% da população total em 2039.

29
Tabela. Projeção populacional completa – 2010 - 2039
População Domicílios
Ano Resident Flutuant Ocupado Ocasionai
Total Total
e e s s
201 126.06 38.79
0 45.076 80.992 8 13.089 25.707 7
201 128.42 39.92
1 45.933 82.488 1 13.434 26.492 6
201 130.77 41.05
2 46.791 83.983 4 13.779 27.276 5
201 133.12 42.18
3 47.648 85.478 6 14.124 28.060 4
201 135.47 43.31
4 48.506 86.973 9 14.469 28.844 4
201 137.83 44.44
5 49.364 88.468 2 14.814 29.629 3
201 140.07 45.63
6 50.127 89.949 7 15.213 30.426 8
201 142.32 46.83
7 50.891 91.431 2 15.611 31.223 4
201 144.56 48.02
8 51.655 92.912 7 16.010 32.020 9
201 146.81 49.22
9 52.419 94.393 2 16.408 32.817 5
202 149.05 50.42
0 53.182 95.874 7 16.807 33.614 0
202 151.43 51.78
1 53.831 97.604 6 17.261 34.521 2
202 153.81 53.14
2 54.480 99.334 5 17.714 35.429 3
202 156.19 54.50
3 55.129 101.064 3 18.168 36.337 5
202 158.57 55.86
4 55.778 102.794 2 18.622 37.244 6
202 160.95 57.22
5 56.427 104.524 1 19.076 38.152 8
202 163.32 58.74
6 57.063 106.258 1 19.581 39.162 4
202 165.69 60.25
7 57.699 107.992 1 20.086 40.173 9
202 168.06 61.77
8 58.335 109.726 1 20.592 41.183 5
202 170.43 63.29
9 58.971 111.460 2 21.097 42.194 0
203 172.80 64.80
0 59.607 113.194 2 21.602 43.204 6
203 174.05 65.63
1 59.939 114.115 3 21.879 43.758 7
203 175.30 66.46
2 60.270 115.035 5 22.156 44.313 9
203 176.55 67.30
3 60.601 115.955 6 22.433 44.867 0
203 177.80 68.13
4 60.933 116.875 8 22.711 45.421 2
203 179.06 68.96
5 61.264 117.796 0 22.988 45.975 3
203 179.70 69.39
6 61.433 118.270 3 23.133 46.266 9
203 180.34 69.83
7 61.602 118.744 6 23.278 46.556 4
203 180.98 70.27
8 61.771 119.218 9 23.423 46.847 0
203 181.63 70.70
9 61.940 119.692 2 23.568 47.137 5
Fonte: Concremat engenharia Tecnologia S/A – plano de saneamento – R4.
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Na projeção populacional apresentada no plano municipal de saneamento de Bertioga, foi adotado


cenário considerado “dinâmico” que considera a tendência de atratividade populacional pelo aumento
de investimentos na região. Assume que os saldos migratórios atuais, positivos e crescentes, tenderão
a diminuir no longo prazo. “Mas, por causa dos grandes investimentos previstos, se supôs que estes
saldos continuarão a subir até 2010-15 para começar a diminuir lentamente a partir deste ponto”.2
Portanto, o crescimento populacional das populações fixas e flutuantes continuará a exercer pressão
sobre a expansão urbana de Bertioga no curto e médio prazo. Tal crescimento deve engrossar as
demandas por serviços, equipamentos e infraestruturas urbanas pressionando o poder público.

4 – INSTITUCIONALIDADE E DINÂMICAS SÓCIOPOLÍTICAS


4.1. Relações sociopolíticas
A análise das relações sociopolíticas em Bertioga foi realizada, conforme previsto na metodologia, a
partir da leitura resultante da visão das organizações da sociedade civil e daquela originada de
pesquisa qualitativa, utilizando a técnica de Discussão de Grupo (em 16.12.11), junto a dois grupos de
moradores de ambos os sexos, de idades entre 25 e 50 anos e pertencentes aos segmentos
socioeconômicos c/d. Foram ainda levantados elementos acerca da organização administrativa da
gestão pública e da análise de legislação dos espaços de gestão participativa, especialmente dos
conselhos de políticas públicas.
O diagnóstico construído junto à sociedade civil organizada procurou escutar e acolher as
contribuições de diferentes segmentos organizados atuantes no município. Este processo participativo
realizou, a partir do mapeamento das organizações, conversas e entrevistas (em fev. de 2012) com 12
organizações selecionadas, conforme critérios previstos na metodologia, e realizou uma oficina (em
27.03,12) com 42 participantes de 13 organizações da sociedade civil, para discutir ‘os desafios do
desenvolvimento sustentável em Bertioga’.
A construção do Diagnostico procurou fazer um esforço de compreender as formas de apropriação e
de uso do espaço do município considerando as forças políticas, econômicas, sociais, culturais e
naturais que atuam e moldam o espaço urbano e rural de forma dinâmica.
As diferentes escutas nos permitiram perceber e registrar os interesses específicos, comuns e até
contraditórios de diferentes segmentos sociais. Propiciaram a explicitação de distintas visões sobre o
futuro do município, suas potencialidades para o desenvolvimento e a sua vocação turística.
Possibilitaram vislumbrar possibilidades de inserção do município no cenário futuro do litoral paulista,
que provavelmente continuará sendo impactado pelo crescimento das suas cidades, pelo afluxo de
turistas e por empreendimentos com impacto econômico, como a ampliação de rodovias, portos e a
exploração do pré-sal, entre outros.
A escuta e o envolvimento dos diferentes segmentos sociais, das organizações da sociedade civil,
apontam para a construção de um plano de desenvolvimento sustentável, democrático e inclusivo,
enraizado nos anseios e nos caminhos apontados pela própria comunidade de Bertioga, junto com o
Poder Público local, estadual, federal e outros parceiros que incidem na vida e na história do
município.

2
PMBERTIOGA/CONCREMAT, PLANO DE SANEAMENTO – Relatório 4, 2010, P. 33.
31
4.1.1. A organização da Sociedade Civil
A história de organização da sociedade civil em Bertioga é bem jovem, tendo em vista a recente – e
que provavelmente participaram deste processo -, uma grande parte das organizações hoje existentes
se gestou ao longo dos últimos 20 anos. A emancipação do município (1991) deu-se sob a égide da
nova Constituição Federal (1988), a “Constituição Cidadã”, que colocou a sociedade civil no centro da
construção do processo democrático, fomentando a sua organização e a sua participação em espaços
institucionais que se multiplicaram país afora, especialmente no âmbito dos municípios.
É perceptível que a organização da sociedade civil em Bertioga é fortemente marcada por esta
realidade, tendo em vista que o surgimento de muitas organizações está vinculada ao ‘chamado’ à
participação nos espaços institucionais que foram sendo criados pelo Poder Público local, muitos deles
vinculados à sistemas nacionais de políticas públicas, sem ter tido ‘tempo’ para construir uma história
ou espaços de organização própria e autônoma. Neste sentido, o Poder Público local, certamente
contribuiu e impulsionou o surgimento de várias organizações, ainda que de forma indireta.
Para compreendê-la, procuramos identificar as organizações existentes no município – mapeamos 55
organizações – e selecionamos 12 para conversarmos diretamente, entrevistando-as. Além disso,
realizamos uma Oficina Pública que contou com a participação de representantes de 13 organizações,
onde procuramos aprofundar a nossa escuta. O intuito de escutá-las é o de construir um diagnóstico
acerca das principais características que envolvem a sua organização, sua participação em espaços de
gestão participativa e da sua visão sobre o município e o futuro deste.
Abaixo segue a tabela com as principais características das organizações entrevistadas e participantes
das oficinas.
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Sociedade Civil Organizada de Bertioga


Entidades Entrevistadas e Participantes da Oficina

Motivo de sua

da sociedade
organizações
participação
organização

que articula

públicos de

Articulação
Número de

civil locais/
associados

funciona a

demandas
fundação

regionais
Temas e

Espaços
criação
Ano de

Como

com
Os principais temas de
Está em processo de
atuação são habitação
Surgiu para representar o reorganização; não tem Participa como
e proteção social. Não
bairro Vicente de Carvalho reuniões periódicas; Não ouvinte de 5
desenvolve nenhum
Melhoramentos

II. Uniu-se à antiga Não dispõe está regularizada conselhos –Condema,


projeto atualmente. A
Carvalho II
Vicente de
Sociedade

Sociedade amigos de dessa legalmente. A Prefeitura Idoso, Mulher, Não


sede é usada para
Oswaldo Cruz- SAOC que informação. pagão aluguel da sede Esporte e Direitos da
ensaios da Liga
representava apenas uma onde funciona. O Criança e
Carnavalesca, eventos,
porção do bairro. presidente está no cargo Adolescente
1987

palestras dos conselhos


a 8 anos.
municipais.
Articulações com
entidades do
160
mesmo setor
associados – Ong sem fins lucrativos. Os principais temas de
Câmara dos Dirigentes

AETURB,
entre eles Associados contribuem atuação são
Foi criada para representar Associação
figuram mensalmente. profissionalização e
os interesses dos Comercial ,
micro, Tem sede própria. capacitação dos Contur
Logistas

comerciantes junto ao poder FCDLESP -


pequenos Realiza atividades comerciantes; políticas
público local. Federação das
empresários periódicas com os públicas de interesse
Câmaras de
e associados. dos comerciantes.
Dirigentes Lojistas
ambulantes.
1998

do Estado de São
Paulo
A diretoria se reúne Presta assistência Fupesp (Federação
Foi criada com o intuito de
mensamente. Afiliados jurídica, médica, dos Funcionários
defender os interesses
900 afiliados contribuem com 1,5% de odontológica, social e Não Públicos Municipais
Munic
Servid

Bertio

trabalhistas dos servidores


Sindic

ipais
ores
dos

seu salário/mês. esportiva a seus do Estado de São


ato

de

ga
1995

públicos.
associados. Paulo).

33
Conselho dos idosos;
Em torno de
Desenvolve projetos de Combate às
25 a 30 Oscip; corpo técnico
Fundada por moradores de com crianças, Drogas, assistência Comerciantes
associados. formado por voluntários.
Boracéia sensibilizados com adolescentes, idosos, social; saúde; Direitos locais; Pró-urbe;
Alguns Tem dois membros que
as precárias condições famílias, dependentes da criança e Fundação 10 de
Boracéia Viva

contribuem lideram as atividades


sociais do bairro e químicos, indígenas nas adolescentes; Agosto; Bertioga
doando (presidente e vice) e em
empenhados em mudar essa linhas de saúde, esportes; Direitos da Município Vida
recursos ou torno de 10 voluntários
realidade. assistência social, Mulher; CONDEMA; Saudável; Ong
atuando atuantes. Reúnem-se
educação, cultura, Desenvolvimento da Grupo Vivência .
como mensalmente.
esporte, cidadania. Comunidade Negra;
voluntário.
Políticas Culturais
2005

Se articula em formato de
rede, em torno de ações Se articula com
Desenvolve campanhas
específicas. todas organizações
de mobilização da
Criada para mobilizar a Variável – Utiliza os mais variados da sociedade civil,
sociedade local em
sociedade local a exercer o entre 40 e instrumentos de Conselho de Saúde; em especial CDL;
torno de temas ligados
Pró – Urbe

controle social das políticas 50 comunicação e Habitação; turismo; Associações de


à transparência da
públicas e das ações da colaborador mobilização. Idosos. bairro; AEAA; Não
Administração Pública,
Administração pública. es Não desenvolve projetos tem nenhuma
contas públicas,
específicos, apenas articulação
controle social.
2005

campanhas, seu foco é a regional.


mobilização.
Atua para prevenir
crianças e adolescentes
de situações de risco
ONG que promove
pessoal ou social, cujos Delegado da
atividades com a
direitos tenham sido Consocial; atua nos
Centro Comunitário

contribuição de
Criada para atuar no bairro violados ou ameaçados. conselhos de
associados e recursos do
de Guaratuba, com crianças 64 Para isso conta com o assistência social,
Guaratuba

fundo municipal de Lyons Club local


e adolescentes em situação associados trabalho de professores direitos da criança e
direitos da criança e
de risco. de história, ballet, adolescente e
adolescente. Funciona em
violão, corte e costura, Conselho da
sala alugada em uma
capoeira. alimentação escolar.
igreja católica.
Atende 120
1996

jovens/crianças por
mês.
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Presta consultorias,
inclusive para a
prefeitura; articula
interesses em torno da
construção civil. Entre
sua ações elaborou o
projeto de lei de uso do
solo do Distrito de
Bertioga aprovado pelo
Legislativo Santista e
recebeu o nº 173/86;
participação do Boracéia Viva;
processo de Colônia de
Emancipação do então pescadores Z-23;
Distrito; elaboração do Assoc. Vila Tupi;
Projeto do Plano Fundação 10 de
Diretor de Agosto.
Desenvolvimento Conselho Regional
Sustentável do de Engenharia,
Município de Bertioga, Arquitetura e
aprovado na íntegra Agronomia – SP -
Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bertioga

pelo Legislativo em CREA – SP /


13/11/98. Inspetoria Regional
Formalmente a (instalada em
Nasceu da necessidade Associação tem por 10/12/94) e
Comitê da Bacias
encontrada pelos finalidade: participação com o
Hidrográficas da
profissionais que atuavam - Representar e cargo de
Baixada Santista;
no então Distrito de defender os Conselheiro no
-Conselho Municipal de
Bertioga, no sentido de interesses dos seus Plenário do CREA-
Meio Ambiente:
resguardar e unir forças 150 As reuniões do Conselho associados quer SP;
CONDEMA;
para melhorar a atuação dos associados- Deliberativo e da nas relações que - Federação das
-Conselho Municipal de
engenheiros, arquitetos e em sua Diretoria são realizadas ela mantiver com Associações de
Habitação;
agrônomos, bem como maioria uma vez por mês, salvo entidades Engenharia,
- Conselho Municipal
auxiliar a municipalidade na engenheiros casos extraordinários. congêneres quer Arquitetura e
de Emprego;
execução de leis, decretos, nas relações Agronomia do
- Conselho Municipal
procedimentos e etc., externas; Estado de São
de Turismo;
ligados às atividades da - Desenvolver o espírito Paulo -FAEASP -
- Junta de Recursos
categoria. de classe; participou como
Fiscais;
- Colaborar na solução membro da
de todos os Diretoria de 1990 a
problemas 1998.
técnicos, sociais, - União das
econômicos, dos Associações do
recursos hídricos e Litoral Paulista –
do meio ambiente UALP
que, envolvam - SASP – Sindicato 35
tanto o interesse dos Arquitetos do
de seus associados Estado de S.Paulo
quanto da - FEBRAE –
coletividade; Federação das
- Agir no sentido de ser Associações de
Tem como meta
incorporar o trabalho
da cooperativa à
Central de Triagem do
A cooperativa surgiu com o
A cooperativa foi Município, funcionando
intuito de ampliar o trabalho
formalmente no mesmo espaço que
Coopersubert

do dono de um ferro velho 20


institucionalizada com o esta. Está buscando Não Não
da cidade e transformar a cooperados
apoio de um vereador meios para as sucatas
iniciativa individual em um
municipal do patrimônio da
trabalho cooperativo
prefeitura sejam
destinados a ela invés
2011

de leiloados, como
vem ocorrendo.
Suas atividades tem o
foco na educação e na
capacitação
profissional, atendendo
mil pessoas por ano.
Fundada pela Sobloco é
Oferece cursos de:
Fundação 10 de agosto

uma entidade civil de Associação de


marchetaria, música,
direito privado, sem fins Condema, Contur, Engenheiros,
Criada para desenvolver a cabeleireiro,
lucrativos, com Conselho Consultivo Arquitetos e
área de responsabilidade --- encanador, eletricista,
autonomia patrimonial, do Parque Estadual Agrônomos; Centro
social da Sobloco. inglês e computação,
financeira e da Restinga. de Tradições
alfabetização de
administrativa. Nordestinas.
adultos e artesanato
(pintura e crochê),
limpeza de piscinas,
manutenção de
1992

equipamentos prediais,
jardinagem.
Sua atuação dedica-se
prioritariamente às Articula e mobiliza
questões de moradia e moradores de
do consumo consciente bairros populares e
Criada para ser um
(envolvendo neste movimentos de
instrumento de
segundo Permacultura moradia,
planejamento participativo Aproximada
Não é institucionalizada. e agricultura familiar). associações
de políticas públicas em mente 30 Audiências públicas e
Agenda 21

Faz reuniões mensais nos Atua também com os caiçaras,


torno do desenvolvimento participante conferências
bairros populares. temas de saúde, quilombola e de
sustentável local. Visa a s.
educação e migrantes.
implementação dos
infraestrutura. Faz a No âmbito regional
Objetivos do Milênio (ONU)
mobilização política da se articula com
população de baixa outras agendas 21
2007

renda em torno desses do litoral.


eixos temáticos.
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Criada para buscar Os temas de atuação da


melhorias para a associação giram em
Trata-se de um
comunidade de Vila da Mata torno de projetos
movimento de moradia
que está dentro do território sociais e melhorias para
Amigos Vila da

ainda não
do Parque estadual da o bairro; negociação da
Associação

50 institucionalizado Não participa Agenda 21


Restinga. Esta comunidade situação do
Mata

2011

juridicamente; Promove
se organizou a fim de assentamento junto ao
assembleias mensais
reverter um processo de poder público e o
regulares;
despejo dos moradores do Parque Estadual ;
local. moradia.
Este movimento de moradia
se organizou com o estimulo
da Agenda 21, a fim de lutar Trata-se de um
Vicente de Carvalho

por seu direito de moradia movimento de moradia


A
digna uma vez que estão ainda não Moradia digna;
organização
sofrendo pressões da CDHU institucionalizado infraestrutura; Não participa Agenda 21
moradores de

não tem
2011

para sair da área em que juridicamente; Fazem cidadania.


esse dado
União dos

vivem para que os reuniões


habitantes da área de semanais/quinzenais.
mangue do bairro ali sejam
alocados.
II

Teve origem com uma


extinta associação de bairro
que durou 3 anos e depois
acabou. Atualmente a 90% das
Associação dos Moradores

Regularização fundiária,
associação intermedia os famílias do
Reuniões mensais de integração do bairro e
processos de regularização bairro é
diretoria, assembleia orientação social para a
fundiária da área junto a filiada. O
anual, e reuniões população do bairro. Não Não
justiça, moradores e baiiro possui
2009

informativas para a Promove uma festa de


prefeitura. 220 famílias
população do bairro. natal e no dia das
A área esta sujeita a um e 1500
de Vila Tupi

crianças.
processo de reintegração de pessoas.
posse pois o bairro surgiu
com uma ocupação feita por
caiçaras em 1976.
Empresa de consultoria
criada pelo aumento da
Composta Meio ambiente e
demanda de trabalhos na Presta serviços de Participa como
por 3 desenvolvimento Não
Consul

área de meio ambiente e consultoria. ouvinte do Condema.


Ambie

2010

associados. sustentável.
Terra

toria

desenvolvimento
ntal

sustentável.

37
Oscip que atua com Agenda 21
técnicos na execução de GS GERCO Litoral regional;
Educação ambiental,
projetos; faz articulações Norte/Baixada Associação de
Criada para mobilizar a reciclagem, ecoturismo,
com parceiros Santista; Comitê de Monitores de
sociedade local (litoral 200 capacitação
Litoral Norte

institucionais; reuniões bacias hidrográfica do Ecoturismo;


norte) em torno das associados profissional, projetos
Ambiental

2002
mensais com equipes de litoral norte e da Federação e
questões socioambientais. de percepção da
projetos e assembleia baixada santista, Associações de
paisagem.
trimestral com Condema. Bairro; Empresários
associados. do Trade Turístico.
Faz um trabalho de
acompanhamento da
Movimento pela atuação dos vereadores:
conscientização dos participam das sessões da Pró-Urbe, Ong
Movimento Voto

Conselho Municipal
eleitores. Nasceu da 12 membros câmara, avaliam cada Controle social, Crescer, Comitê
de Políticas Culturais,
campanha do Ficha Limpa atuantes projeto de lei dos 9 cidadania, política. 9840, dentre
2010
Consciente

Saúde.
do Comitê 9840,e do Pró- vereadores e depois outras.
Urbe publicam uma avaliação
dos mandatos com um
ranking dos vereadores.
As ações do Centro de
Férias SESC Bertioga
estão pautadas no
favorecimento do
convívio social, no
respeito às diferenças,
no fortalecimento das
Primeira colônia de férias
relações humanas e na
brasileira com instalações
aproximação de
próprias, serviu como
propostas que
modelo para centenas de
conduzam o acesso a
similares em todo o país e
bens culturais
América Latina. Seu maior
Criado para ser uma colônia necessários para a
mérito foi inserir no
de férias com atividades de promoção da qualidade
cotidiano dos Conselho Tutela e
turismo social para os de vida dos
trabalhadores a questão Contur
1948

comerciários e a sociedade participantes. Outras


do tempo livre, numa
em geral. linguagens também são
época em que poucas
contempladas nas
pessoas se davam conta da
diversas atividades
importância desse aspecto
propostas:
para o bem-estar e o
desenvolvimento físico
desenvolvimento social e
e esportivo, atividades
cultural dos indivíduos.
artísticas como
apresentações musicais,
teatrais, literárias, artes
plásticas, dança,
oficinas na área da
SESC

saúde e alimentação,
entre outras.
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Diretoria
conta com 6
Fazem reuniões três vezes Reabilitação de
Casa de recuperação de pessoas,
ao dia, com leituras dependentes químicos
Terapêuti

dependentes químicos e além de Não Igrejas evangélicas


co Perto

bíblicas, palestras, dentre por meio da doutrina


2010
Senhor
Centro

alcoólicos . colaborador
está o

outros. evangélica
es
anônimos.

COMUNIDADES TRADICIONAIS E POSSIVELMENTE IMPACTADAS

Espaços
Tempo Número
públicos
de Motivo de de Como funciona a Articulação com organizações da
Temas e demandas que articula de
existên sua criação associa organização sociedade civil locais/ regionais
particip
cia dos
ação

A associação comunitária Guarani Conselh


se ocupa de escrever projetos e o
administrar aqueles que estão em Estadual
COMUNIDADE INDÍGENA

andamento. Já conseguiram dos


(Nome da associação??)

financiamento para projetos na Povos


área de segurança alimentar, Indígen
agricultura familiar, manejo as;
florestal, criação e manejo de Conselh
animais, valorização dos saber e o de
práticas tradicionais, geração de Saúde
renda, valorização do patrimônio de São
imaterial, dentre outros. Sebastiã
o.

39
Documentação para o exercício
da atividades dos pescadores;
Direitos trabalhistas (período de 3
meses de proteção do camarão
Está passando
Criada para onde a pesca é proibida e o
por uma
ser uma governo paga um salário mínimo
reestruturação
entidade que por pescador) e aposentadoria dos
interna e
representa pescadores; Serviços dentários
200 processo de Contur,
os subsidiados; Cursos de capacitação Confederação de pescadores e
1928 associa regulamentação Condem
Colônia de Pescadores

pescadores, (informática, inglês, instalações federação de pescadores


dos jurídica. Promove a
aos moldes elétricas, auxiliar administrativo e
reuniões, mas
de uma financeiro), Oferece cursos (POP -
participação dos
entidade de Pescador Profissional) e (MAC -
pescadores é de
classe. Marinheiro Auxiliar de Convés) de
baixa incidência.
capacitação de pesca e marinheiro
regional; Trabalhos de
sustentabilidade da pesca e defeso
do camarão.
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Surgimento das Organizações


A mais antiga das organizações da sociedade civil entrevistadas é a colônia de Pescadores Z-23, que
tem sua origem datada de 1928, enquanto as mais recentes surgiram em 2005. É simbólico que os
pescadores tenham sido o primeiro segmento da sociedade civil a se organizar, haja vista que até 1940
Bertioga era ainda um núcleo de pescadores3. A maioria das organizações surgiram após a
emancipação do município, em 1991, impulsionadas pela atividade política mais intensa desencadeada
a partir de então. Experiências participativas como o Projeto “Bertioga, município saudável”, feito pelo
município em parceria com a Faculdade de Saúde Pública/USP (2000-2002), também impulsionou a
criação de novas organizações da Sociedade Civil, como “Bertioga Município Saudável” e a “Pró-Urbe”.
Formas de Organização e temáticas abordadas
O universo da sociedade civil organizada de Bertioga é composto por ONG’s/Oscips’s, sociedades de
bairro, associações de moradores, entidades de classe, Movimento de Moradia (iniciando), fundação
privada de interesse social, Colônia de Pescadores, Comunidade indígena.
Chama atenção a fragilidade de movimentos populares que se articulem ou mobilizem em torno à
temas específicos, como a questão da moradia (encontra-se em fase de gestação), que se constitui em
uma temática importante no município e que envolve situações conflitivas como remoção, despejos e
ainda condições muito precárias de moradia e de infraestrutura em bairros populares.
Os temas articulados pelas organizações de Bertioga giram em torno da capacitação profissional,
transparência pública e controle social, proteção social, direitos trabalhistas, habitação, defesa de
interesses de classe ou segmentos sociais,necessidades dos bairros.
Meio ambiente parece ser um tema transversal à todas as organizações que atuam no município, uma
vez que grande parte do território de Bertioga é considerado área de preservação ambiental.
Considerando esse dado, que marca fortemente o perfil territorial do município, é surpreendente que
não tenhamos identificado nenhuma organização que atue especificamente na temática ambiental,
com sede em Bertioga.
Situação jurídica
No que tange a situação jurídica das organizações entrevistadas, seis delas estão institucionalizadas e
com situação jurídica regular, duas organizações não estão formalmente constituídas, uma encontra-se
em processo de regularização e outra é uma entidade sindical, juridicamente constituída.
Uma das organizações aponta que as sociedades de bairro e associações de moradores de bairros
populares tem um baixo grau de institucionalização. Isso decorreria de duas situações: pela falta de
organização e de mobilização da população e a falta de apoio e de recursos necessários aos trâmites
burocráticos requeridos no processo de formalização jurídica das organizações.
O diagnóstico feito pela empresa Walm em Bertioga, corrobora esta situação de baixa formalização
jurídica das organizações em bairros de baixa renda. Este estudo fez uma avaliação em sete
comunidades, das quais quatro apontam a falta de participação da população, a pouca efetividade das
associações e a sua não regularidade jurídica. Outras três mostraram-se articuladas, seja pela presença
de representante da comunidade na Câmara de Vereadores, por projetos sociais realizados em ONG,
associação de bairro ou na Igreja Católica.
Organização e mobilização
Diferentes atores consultados pelo presente diagnóstico mencionaram que o nível de organização da
sociedade civil é baixo, frágil, incipiente e o mesmo se estende para sua capacidade de mobilização.
Esta característica é explicitada por um dos entrevistados da seguinte forma: “Existem poucas
organizações bem-organizadas .... A mais bem-organizada é a Associação dos Engenheiros... Também

3
Neste projeto os pescadores são abordados do ponto de vista dos grupos possivelmente impactados pela intervenção da Petrobras e
de outros empreendimentos previstos no Litoral Norte e Baixada Santista. Falaremos mais adiante sobre eles.
41
tem a Câmara de Dirigentes Lojistas..., que é boa, é participativa... O Rotary, o Lions também
trabalham bem... a Boracéia Viva é uma das ONGs mais bem-organizadas da região. Participam
ativamente de vários Conselhos... (a opinião em relação à última é compartilhada por quase todas as
organizações atuantes no município).
De modo geral percebemos nas entrevistas realizadas, que várias organizações existentes em Bertioga,
têm na relação com o Poder Público e na participação dos espaços institucionais, uma referência
importante. Pode-se perceber um certo grau de dependência do Poder Público, revelador de uma frágil
tradição de organização autônoma em relação às instituições públicas do executivo e legislativo.
Revelador desta perspectiva é a fala de uma das lideranças, ao dizer que “a Prefeitura não dá o apoio
necessário: precisa de honorário de advogado, de R$300 de registro no cartório, por exemplo. E a
população não tem aquela visão... Quando se falou em uma mínima cota, para manter a cooperativa
de trabalho..., todo mundo caiu fora”. Confirmando o baixo grau de autonomia das Sociedades de
Bairro de Bertioga, um interlocutor conta que “o vereador...(que gosta do Terceiro Setor) fez uma
conferência (está registrada, foi em agosto ou setembro de 2011), para juntar todas as associações de
bairro, para registrá-las e montar uma Confederação”. A iniciativa tinha como objetivo, a partir da
audiência pública, criar os meios e instrumentos necessários à revitalização dessas entidades, uma vez
que muitas delas não têm conseguido realizar suas atividades periodicamente ou simplesmente
deixaram de funcionar. Em um segundo momento, o objetivo seria reativar o Conselho Municipal das
Sociedades Amigos de Bairros (CONSOBE), como ferramenta para reunir todas essas entidades e para
assessorar o Executivo e o Legislativo em suas funções, trazendo ao seu conhecimento necessidades
específicas de cada bairro. Todavia, a iniciativa não teria seguido em frente, por alguma razão
desconhecida. A iniciativa do Legislativo, ainda que interessante, revela a fragilidade das organizações
de bairro e a sua dependência de iniciativas do Poder Público, para o seu fortalecimento.
Talvez por esta pequena, curta e frágil tradição organizativa em Bertioga, dois entrevistados, que
revelaram posições divergentes em relação à vários temas, manifestem uma percepção muito próxima
quanto à organização da sociedade civil em Bertioga. Uma delas diz que “a população de baixa renda
não está organizada em movimentos” e a outra radicaliza afirmando que “não existem movimentos
organizados autônomos em Bertioga”. É necessário porém matizar a afirmação em relação à
autonomia, tendo em vista que em 2011, houve, segundo os entrevistados, uma grande mobilização
que envolveu muitas organizações de Bertioga, em torno à discussão da implantação ou não de uma
indústria de construção de plataformas para a Petrobras. Apuramos nas entrevistas que
majoritariamente as organizações entrevistadas se posicionaram contra a instalação da indústria,
porém havia posições divergentes em relação ao fato. Tal mobilização, ao que tudo indica, tinha um
grau importante de autonomia por parte das organizações em relação ao Poder Público local, ainda
que as motivações para a articulação e a mobilização pudessem ter interesses distintos. Além disso, a
oficina com organizações da sociedade civil, que teve uma grande presença de pessoas vinculadas à
organizações de bairros populares, demonstraram um potencial organizativo interessante e com
posicionamentos que parecem caracterizar autonomia e independência em relação ao Poder Público.
Atuação nos Espaços Institucionais de Gestão Participativa
Das organizações entrevistadas, oito (8) delas participam de conselhos municipais, uma delas participa
de Conselho Estadual que trata das questões indígenas e três mencionaram a sua participação na
Consocial (A metodologia que define as organizações que serão entrevistadas tem como um dos
critérios é a participação em espaços institucionais). Entre as que participaram da oficina, várias
manifestaram participar de espaços participativos no município.
Tal qual o município, que é bastante novo, a sociedade civil também não teria “tradição na
participação, no controle social e na continuidade desta participação”, nos espaços existentes, assim
entendem dois interlocutores entrevistados. Exemplo desta constatação, segundo as duas
organizações, que disseram terem pressionado a prefeitura para a realização da Consocial em outubro
de 2011, além da pequena participação, é a constatação de que “a sociedade civil não estava
preparada para participar” da conferência pelo seu desconhecimento dos conselhos municipais e das
outras possibilidades de participação social existentes em Bertioga.
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

A situação de não formalização jurídica das organizações do meio popular, impede a sua participação
nos conselhos. Uma delas reclama da falta de apoio para regularizar e oficializar a sua associação:
“Falta muito apoio do Poder Público. Se tiver 15 associações da sociedade civil, acho que só umas 4
estão registradas. Falta registro, orientação, apoio...”. Constatamos no Boletim Oficial do Município –
BOM (nº 498), que “a partir deste mês de março, a Casa dos Conselhos Municipais inicia o atendimento
às entidades que estão dispostas a regularizar sua situação...” As entidades sem fins lucrativos terão o
suporte gratuito de uma comissão formada de advogados, assistentes sociais, contador e outros
funcionários públicos, para regularizar sua situação legal.
Referindo-se à possibilidade de participar do processo de composição dos conselhos no município e
afirmando que muitas organizações de bairro não tem condições de participar, o mesmo interlocutor
constata que “as inscrições estão abertas agora, para a sociedade toda. Só que, para participar como
organização mesmo, tem que estar registrado. E poucas estão. São aquelas que estão representando a
sociedade civil nos Conselhos”. Apesar disso, a liderança entrevistada diz que participa das reuniões de
vários conselhos como ouvinte, ainda que não tenha o direito ao voto, apenas para ter direito à voz.
Articulação local e Regional
À frágil organização se soma pouca articulação entre as associações da sociedade civil local, em torno
de demandas comuns. “Temos contato com a Boracéia Viva, mas não tem muita união entre as
organizações e sociedades amigos de bairro”, avalia uma associação. Esta realidade reflete
particularmente a situação das associações de bairro, que se encontram enfraquecidas na sua
organização e, portanto, com sua capacidade de articulação comprometida. Outras organizações como
ONG’s, entidade de classes e outras organizações mais estruturadas, parecem ter um grau de
articulação maior, principalmente no âmbito dos conselhos ou em circunstâncias ocasionais, como
parece ter sido a articulação em torno à questão da venda do Paço Municipal para concessionária da
Petrobras.
Se o nível de articulação entre organizações do município é baixo, o nível de articulação regional é
menor ainda. A articulação regional acontece nas entidades que representam os interesses de classe,
de profissionais liberais que via de regra pertencem às instâncias de representação regional de sua
categoria. Por exemplo, a Câmara de Dirigentes Lojistas está ligada Federação das Câmaras de
Dirigentes Lojistas do Estado de São Paulo, enquanto a Associação de Engenheiros faz parte da União
das Associações de Engenheiros e Arquitetos do Litoral Paulista. Lideranças que participaram da
oficina, participam de redes e articulações regionais em questões ambientais. Também o movimento
de moradia que está se constituindo, está iniciando uma articulação com um movimento de caráter
estadual.
Relação com o Poder Público
A relação entre a sociedade civil, o Poder Público e a política local foi um tema destacado na fala de
diferentes atores entrevistados. “Têm ONGs que só bate no Prefeito ou que só apóia o Prefeito”
resume um dos entrevistados, dando a entender que posições políticas definem a relação com o Poder
Público. Todos têm compromisso com a política partidária...” e que “as associações de bairro são
vereadores que sustentam na maioria das vezes”, afirma outro entrevistado, dando a entender que a
relação pautada por interesses políticos, seja amplamente difundida na relação entre as organizações e
o Poder Público local, seja com partidos, vereadores e o executivo.
Nesta perspectiva a autonomia das organizações foi uma preocupação constantemente levantada,
porque poderia comprometer a qualidade da atuação da sociedade civil organizada. Um certo
“controle” da prefeitura sobre as organizações da sociedade civil, comprometendo a sua autonomia
frente ao Poder Público local, principalmente no que tange à sua atuação em espaços institucionais,
foi manifestada por diversos interlocutores. “Tira a espontaneidade da sociedade civil. É muito difícil
tratar com a população”, explica um dos interlocutores. Nesta linha, uma das organizações manifestou
que a relação da instituição com a Poder Público local suscita indagações e análise das escolhas feitas

43
pela própria instituição. Se por um lado o apoio do poder local é bem vindo, porque ajudaria a
viabilizar projetos sociais, por outro lado limitaria o exercício da crítica na sua atuação nos conselhos,
porque poderia prejudicar os projetos sociais em andamento.
Um dos motivos apontados para o estabelecimento destas relações ‘clientelistas’, marcadas pela falta
de autonomia, seria a escassa oferta de trabalho no município, e que propiciaria as relações
clientelistas entre a população (organizada ou não) e a Prefeitura, identificada como a maior
empregadora de Bertioga (seguida da Riviera de São Lourenço), fomentando um ciclo de dependência
entre a população e o Poder Público.
Agenda 21
A Agenda 21 de Bertioga não tem um caráter institucional e não conta com a participação e o apoio da
atual gestão municipal. Seu reconhecimento viria do Ministério do Meio Ambiente e da Rede Estadual
das Agendas 21 locais Essa autonomia é considerada, por sua coordenadora, uma vantagem política:
“A Agenda 21 é um pensamento e tem que ter liberdade para agir”. A institucionalização, em sua visão,
traria limitações, pois propiciaria a interferência do empresariado e do Poder Público.
Por outro lado, existe o reconhecimento de que essa mesma autonomia em relação ao Poder Público
traz consequências diretas para o desenvolvimento da organização. Em alguns municípios do litoral “as
Agendas 21 estão compromissadas com o Poder Público municipal”. Enquanto que em outros “as
Agendas 21 são mais autônomas em relação às Prefeituras e, por isso mesmo, são mais fraquinhas...”.
Faltariam, nesses casos, recursos humanos e financeiros para o crescimento da Agenda 21 local, devido
à falta de apoio por parte da Prefeitura.
A Agenda 21 de Bertioga não é uma entidade civil constituída. Sua atuação dá-se prioritariamente nas
questões da moradia e do consumo consciente, envolvendo permacultura e agricultura familiar. Os
dois eixos visam atuar de forma mais prática junto à população, com o intuito de mobilizá-la
politicamente.
Em suma, a Agenda 21 de Bertioga, ainda que frágil, parece ter capacidade e potencial de mobilização
da população de bairros populares, principalmente em torno ao tema da moradia, onde atua e
contribui com a organização de um movimento de moradia.
Debates e Dilemas nas Organizações da Sociedade Civil:
A concepção de meio ambiente e de desenvolvimento sustentável parece ser um tema que divide a
opinião e os interesses dos atores sociais de Bertioga. Por trás desse debate figura a disputa pelo uso e
pela ocupação do território do município. Isso fica claro no dissenso existente em torno do Plano
Diretor Municipal e da construção de habitação de interesse social (ver Leitura Jurídica), entre as
diferentes organizações entrevistadas. De um lado estariam os interesses da construção civil voltada
para os loteamentos, condomínios e a verticalização crescente em Bertioga, representado por
organizações que ocupam espaços em conselhos estratégicos, como do Meio Ambiente. Do outro lado,
estariam os que defendem a função social da propriedade, a democratização da ocupação do solo
urbano, como a Agenda 21, as associações de bairros de baixa renda, localizados nas zonas periféricas
da cidade, entidades ambientalistas externas ao município como WWF Brasil, Geenpeace e outras de
porte menor. Este embate parece dar-se no âmbito do Condema, no qual é vedado a participação de
organizações que não sejam do Município: “Têm muitas organizações ambientais querendo dar pitaco
de fora...”.
Este embate político em torno ao modelo de ocupação do território e ao projeto de desenvolvimento
econômico do município pode ser visto nos modelos de desenvolvimento explicitados pelos diversos
atores.
Outro episódio que explicitou o confronto entre diferentes concepções de desenvolvimento
sustentável foi o debate público instaurado a partir da tentativa de venda do Paço Municipal, por parte
da própria prefeitura de Bertioga, a uma subsidiária da Petrobras.
Outro conflito que envolve a questão ambiental diz respeito à construção da Riveira II, embargada por
determinação da justiça a pedido do Ministério. Parece que esta questão também criou um grande
debate e mobilização no município.
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
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A comunidade indígena e os pescadores artesanais


A comunidade indígena e os pescadores artesanais são segmentos sociais com características culturais
específicas que podem vir a ser impactados diretamente no seu modo de vida ou em suas atividades
econômicas pelos empreendimentos da Petrobras e, outros de grande impacto, como ampliação de
portos e rodovias.
Os pescadores manifestam que atualmente há uma precariedade maior na atividade da pesca, tendo
em vista que os recursos oriundos do mar já não são tão abundantes como antigamente. A tainha já
não existe mais nessa área, o camarão existe, porém em menores quantidades. O robalo é objeto de
um projeto de repovoamento em tanques de rede por parte da Colônia. A atividade pesqueira e o
modo de vida caiçara em Bertioga vêm sendo transformados ao longo dos séculos em paralelo ao
processo civilizatório, pela migração de pescadores de outras regiões do país – de forma mais intensa
de pescadores provenientes de Santa Catarina -, pela urbanização gradativa da costa paulista e o
reduzido apoio do Poder Público. Este conjunto de fatores, ao que tudo indica, contribui para que hoje
praticamente não existam mais comunidades tradicionais caiçaras em Bertioga, diferentemente de
outros municípios do litoral, e ajuda a explicar porque muitos pescadores artesanais deixaram de
pescar e passaram a prestar outros serviços ou ainda iniciassem trabalhos em outras atividades ligadas
ao turismo, como a pesca esportiva.
A colônia de pescadores Z-23 é o órgão de classe que representa os trabalhadores do setor artesanal
da pesca de Bertioga. Conta atualmente com 200 associados. A gestão do atual presidente seria
responsável pela reestruturação da Colônia. Ela chegou a ter 1200 associados, mas nos últimos anos
viveu um esvaziamento de seus associados, por falta de organização, excesso de despesas e de
burocracia. Os pescadores tiveram que migrar para outras colônias, como a do Guarujá, Santos,
Itapema e Perequê, onde recebiam melhor atendimento.
A colônia cuida da regulamentação e dos direitos trabalhistas dos pescadores, promove cursos em
parceria com a Marinha para profissionalizar os pescadores em navegação, emite a carteirinha de
pesca, disponibiliza serviço dentário para os seus associados e promove a Festa do Camarão na
Moranga - apoiada pela Prefeitura – a qual sereia responsável por gerar grande parte dos recursos que
mantêm o funcionamento da própria colônia.
A colônia Z-23 não está articulada com nenhuma entidade ambientalista. Ela participa do CONDEMA
como convidada e tem assento no Conselho de Turismo.
Os representantes da Colônia Z-23 observam que a atividade da Petrobras no mar ainda não afetou os
pescadores de Bertioga, mas entendem que é uma possibilidade que pode vir a ocorrer no futuro,
como nos vazamentos de óleo. Relatam que não têm qualquer organização da categoria para
reivindicar direitos ou protestar contra atividades da Petrobras.
Em relação à população Guarani residente na Reserva Indígena Ribeirão Silveira (ver também item
Cultura) os dados coletados e entrevistas feitas indicam que eles estão bem organizados. A liderança
do grupo, Cacique Adolfo, milita pela causa indígena há décadas e por isso está bem instrumentalizado
para lidar com o Poder Público, as políticas públicas e lutar pela garantia dos direitos indígenas e de
seu território. Embora não participe dos conselhos municipais de Bertioga, ele integra o Conselho
Estadual dos Povos Indígenas e o Conselho de Saúde de São Sebastião (parte da reserva indígena se
encontra no Município de São Sebastião).
Eles possuem uma associação comunitária Guarani, por meio da qual escrevem projetos e administram
os projetos em andamento. Já conseguiram financiamento na área de segurança alimentar, agricultura
familiar, manejo florestal, criação e manejo de animais, valorização do saber e práticas tradicionais,
geração de renda, valorização do patrimônio imaterial, dentre outros.
A reserva tem um ambulatório médico e laboratório odontológico (administrados pela prefeitura de
São Sebastião), centro comunitário, laboratório de informática e escola bilinge, da pré-escola ao ensino
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fundamental. No futuro próximo terão um centro comunitário, construído na beira da rodovia Rio-
Santos, para venda de artesanato e difusão da cultura.
O território que ocupam foi demarcado em 1987 (994 hectares) e desde 2003 existe um luta pela
ampliação da área da reserva indígena. Por isso, atualmente o grande desafio e sua maior prioridade
política dos Guaranis são assegurar a finalização do processo de demarcação com a ampliação das suas
terras.
Tendo em vista o aquecimento do setor imobiliário no litoral paulista, é de suma importância que a
demarcação do território Guarani seja finalizada, a fim de proteger o território e a comunidade
indígena. A cultura indígena se faz presente com maior ênfase na vida da cidade durante a realização
da Festa Indígena, a qual acontece todos os anos no mês de abril. Tal festa alcança grandes
proporções, pois além de divulgar e valorizar a cultura Guarani e de outros povos indígenas
convidados, tem um potencial turístico importante.

4.1.2. Legislação Municipal


No âmbito da legislação municipal destacamos o artigo 35 da Lei Orgânica de Bertioga que trata das
emendas à Lei Orgânica do Município, possibilitando no inciso III que as emendas à Lei Orgânica sejam
realizadas por no mínimo 5% dos eleitores do Município.
O artigo 42 da Lei Orgânica de Bertioga de acordo com a Constituição Federal institui o instrumento da
iniciativa popular, devendo ser apresentada à Câmara Municipal projeto de lei de iniciativa popular
subscrito por, no mínimo, 5% do eleitorado municipal. Determina que a proposta popular deverá ser
articulada, exigindo-se para o seu recebimento a identificação dos assinantes mediante indicação do
número respectivo do título eleitoral. Outrossim garante que nos projetos de lei de iniciativa popular,
será permitido que um dos subscritores do projeto venha expô-lo e defendê-lo na Câmara Municipal na
fase de discussão, durante o máximo o de 15 minutos.
A Lei Orgânica institui que a tramitação dos projetos de iniciativa popular obedecerá às normas
relativas ao processo legislativo estabelecido na própria Lei Orgânica e no Regimento Interno da
Câmara Municipal.
No que se refere aos instrumentos do plebiscito e referendo a lei orgânica não especifica critérios para
utilização dos mesmos, no entanto define a competência privativa da Câmara para autorizar referendo
e promover os meios legais para a convocação de plebiscito.
A fim de motivar o uso dos instrumentos e a respectiva integração ao sistema de gestão democrática é
faz-se necessário a definição de critérios específicos pelo município do uso desses instrumentos, como
exemplo poderá possibilitar que nas decisões administrativas referentes a projetos urbanísticos de
grande impacto estarão sujeitas ao instrumento do referendo.
Exemplo: as operações urbanas, a concessão de licenças para projetos com impacto de vizinhança, a
implantação de aterros sanitários de usinas de compostagem de lixo etc., podem ser submetidas ao
referendo dos moradores do distrito, bairro ou das áreas diretamente atingidas, promovendo a efetiva
gestão democrática das cidades.
Com relação às conferências, consultas e audiências públicas a legislação municipal não específica
nenhum regulamento especial para o uso dos instrumentos no que se refere a política urbana, dessa
forma o município poderá regulamentar ou valer-se do instrumento de acordo com a legislação federal
e estadual.
Embora a lei municipal não regulamente o instrumento do referendo, plebiscito, conferencias e
consultas e audiências publicas, poderá utilizá-los uma vez que a legislação federal já os institui no
entanto com mais cautela e em casos específicos determinados pela lei, sugerimos que o município de
Bertioga regulamentá-los a fim que os mesmos passem a integrar um sistema de gestão da cidade.
A Lei Orgânica define no artigo 80 que no âmbito do planejamento Municipal, em plena consonância
com o Estatuto da Cidade, o Município deverá promover sua política de desenvolvimento urbano
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dentro de um processo de planejamento permanente, com participação da coletividade, atendendo


aos objetivos e diretrizes do Plano Diretor e mediante adequado Sistema de Planejamento.

Instrumentos de Gestão nas diversas políticas


Política de Saúde:
A Lei Orgânica, embora não regulamente, no art. 132 , definindo que o mesmo contará com a
participação de representante das comunidades estabelece a dotação orçamentária através do fundo
Municipal de Saúde, artigo 135.
Destaca-se a Lei Municipal Nº 031/93 dispõem sobre o Fundo Municipal de Saúde, estabelecendo: Os
objetivos do Fundo, as atribuições do Secretario de Saúde, da contabilidade e do orçamento do Fundo,
da execução orçamentária,
Segundo a Lei Municipal nº 707, de 05 de julho de 2006 que altera a Lei Municipal nº 31, de 15 de
outubro de 1993 o Conselho Municipal de Saúde possui a seguinte composição: “I – 06 (seis)
representantes dos usuários; II – 03 (três) representantes de entidades dos trabalhadores de saúde; III
– 02 (dois) representantes do Poder Executivo Municipal ligados à área da Saúde, sendo 01 (um) o
Secretário de Saúde; IV – 01 (um) representante dos prestadores de serviços privados conveniados ou
sem fins lucrativos.” O Conselho Municipal de Saúde tem poder deliberativo sobre o Fundo Municipal
de Saúde.
Política de Assistência Social:
A Lei Orgânica no parágrafo 1 ° do Artigo 140, estabelece o Fundo Municipal de Assistência Social, no
qual o Município alocará, anualmente recursos orçamentários próprios destinados à execução dos
programas, projetos, serviços e benefícios de assistência social. O parágrafo 3° do mesmo artigo institui
o Conselho Municipal de Assistência Social, constituído paritariamente pelo governo e sociedade civil,
como a instância deliberativa do sistema descentralizado e participativo de Assistência Social,
responsável pelo controle e fiscalização da Política Municipal de Assistência Social, devendo no entanto
ser regulamentado por lei a fim de estabelecer a criação, composição, funções e regulamentos. O artigo
159 § 5º estabelece que órgão municipal de assistência social deverá elaborar conjuntamente com o
conselho municipal de assistência social, após a realização de audiências públicas, anualmente o plano
anual de assistência social, e a cada quatro anos, o plano plurianual de assistência social.
Política de Habitação:
A Lei Orgânica no âmbito da Política de Desenvolvimento Urbano no artigo 154 define que o Executivo,
com prévia autorização do Legislativo, poderá criar o Fundo Municipal de Desenvolvimento
Habitacional, cuja função visará, unicamente, a criação de Núcleos habitacionais, para atender aos
trabalhadores que percebem 01 (um) a 05 (cinco) salários mínimos.
Mais especificamente e em vigor sobre a política habitacional a Lei Municipal Nº 393/00 Dispõe sobre
a constituição do Conselho Municipal da Habitação e o Fundo Municipal da Habitação a ele vinculado,
estabelece que o Conselho Municipal da Habitação, órgão vinculado a Secretaria de Planejamento e
Obras, dentre as competências do conselho estão:
“I. deliberar sobre a política habitacional do município; II. aprovar as diretrizes e normas para a gestão
do Fundo Municipal da Habitação; III.aprovar os programas anuais e plurianuais de aplicação dos
recursos a fundo perdido, para as modalidades de atendimentos habitacional;
47
V. deliberar sobre a aplicação dos recursos financeiros do Fundo Municipal de Habitação, na
consecução de seus objetivos; a) estabelecer limites máximos de financiamentos, a títulos oneroso ou a
fundo perdido; b) definir a forma de repasse a terceiros; c) definir as condições de retorno de
investimentos; d) definir a política de subsídios de financiamentos habitacionais;
VI.deliberar sobre a gestão do patrimônio do Fundo Municipal de Habitação definindo: a) normas
gerais; b) critérios de transferência de domínio, pleno ou útil, dos imóveis vinculados ao Fundo, nos
programas habitacionais;
VII.Fiscalizar: a) a execução dos programas de habitação, saneamento e infra-estrutura realizados com
os recursos do Fundo. b) a aplicação dos recursos financeiros e a gestão do patrimônio imobiliário do
Fundo Municipal de Habitação.
VIII.propor medidas administrativas necessárias ao aprimoramento das atividades ligadas ao Conselho
e ao Fundo;
IX.promover a suspensão de repasses do Fundo Municipal de Habitação, constatados desvio de
aplicação de seus recursos, e representar a Procuradoria Jurídica do Município e ao Ministério Público,
por medidas que visem ressarcir o fundo e responsabilizar os agentes infratoresdas irregularidades;
X. fomentar e organizar ações comunitárias visando programas habitacionais com cooperação mútua,
na forma de mutirões.”
Considerando as atribuições acima descritas conclui-se que o Conselho Municipal de habitação tem
caráter deliberativo.
A composição do Conselho Municipal de habitação é definida na Lei Municipal 853 de 04 de Junho de
2009 da seguinte forma: 02 representantes do Executivo, 02 representantes da Câmara Municipal; 03
representantes de organizações comunitárias e um representante da associação de técnicos ligados a
Construção Civil, todas as entidades deverão ter estatuto vigente, a nomeação será realizada mediante
indicação de cada entidade, e o presidente do conselho será eleito por voto direito dos membros do
próprio conselho.
Outrossim, a Lei Complementar 004/2001 que institui as ZEIS, no âmbito da gestão democrática define
no Artigo 29 que Conselho Municipal de Habitação deverá se manifestar no processo administrativo de
urbanização e regularização de áreas contidas em ZEIS, podendo o Conselho solicitar quaisquer
diligências ao Poder Executivo, que as prestará no prazo improrrogável de 10 (dez) dias úteis, para
clarear
eventuais dúvidas. No âmbito da política regularização fundiária alem da manifestação do Conselho
Municipal de Habitação o Art. 30. define que outro instrumento de gestão democrática que é a
Comissão Especial de Regularização de Parcelamentos Urbanos que caberá a competência em
conjunto com a Secretaria de Meio Ambiente e Obras, após as aprovações das ZEIS, bem como dos
respectivos planos de urbanização de:
I - acompanhar e fiscalizar a elaboração do plano de urbanização e sua regularização jurídica;
II - dirimir questões conflitantes não contempladas nesta Lei Complementar;
III - obter parecer favorável, mediante expedição de relatórios, do Conselho Municipal de Habitação
quanto à viabilidade de utilização dos recursos do Fundo Municipal de Habitação;
IV - intermediar assuntos de interesse da respectiva ZEIS 1;
V - definir parâmetros construtivos e urbanísticos, ouvido o Conselho Municipal de Habitação, para a
melhoria da qualidade de vida das ocupações integrantes das ZEIS
A Lei Municipal Nº 393/00 no artigo 6 da dispõem sobre o Fundo Municipal da Habitação destinado a
propiciar recursos ao apoio Político e Técnico do Conselho Municipal de Habitação, bem suporte
financeiro à implementação de programas de habitação voltados a população de baixa renda.
Importante salientar o parágrafo Único deste artigo a fim de garantir uma política habitacional
destinada as pessoas que não provem de habitação estabelece nesse sentido um limite definindo que:
não poderão ser beneficiários dos programas desenvolvidos os que sejam proprietários, promitentes
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compradores, cessionários e promitentes cessionários dos direitos de aquisição ou detentores do


regular domínio útil de outro imóvel de uso residencial do Município.
O Fundo é vinculado diretamente à Secretaria de Planejamento e Obras, que através da Seção de
Habitação, fornecerá os recursos humanos e materiais necessários a consecução de seus objetivos. O
Secretário de Planejamento e Obras juntamente com o presidente do Conselho Municipal de Habitação
administrarão o fundo, devendo entre outras atribuições submeter ao Conselho Municipal da
Habitação o plano para aplicações financeiras a cargo do Fundo e as demonstrações mensais de
receitas e despesas do fundo.
Os respectivos artigos da lei municipal Nº 393/00 definem: artigo 9 estabelece os objetivos aos quais
os recursos do fundo deverão ser aplicados, definem-se os ativos e passivos do fundo, estabelece-se
execução orçamentária; despesas e receitas do fundo. Nesse tópico vale ressaltar a possibilidade de
complementar o inciso VIII do artigo 12 que apenas define produto de arrecadação de multas ligadas a
licenciamento e infrações às normas urbanísticas em geral, edilícias e posturais; devendo ser ampliado
incluindo recursos provenientes de termos de ajustamento de conduta, recursos oriundos de
compensações urbanísticas decorrentes de empreendimentos de potencial impacto entre outros
dependendo os instrumentos urbanísticos que o município vise adotar na nova normativa do plano
diretor.
Política de Meio Ambiente:
A Lei Orgânica estabelece no artigo 159 define que o Município promoverá, sempre que possível, com a
participação da coletividade, a preservação, conservação, defesa, recuperação e melhoria do meio
ambiente nomeadamente: Inciso VI - Mantendo o Conselho Comunitário de Defesa do Meio Ambiente
(CONDEMA) cujas atividades e funcionamento serão regulamentadas em Lei Complementar Específica.
O Código Ambiental do município de Bertioga Lei n 294/98 designa no âmbito da poluição do solo e
subsolo a anuência previa do CONDEMA conjuminada com autorização expressa concedida pela
Secretaria Municipal do Meio Ambiente, artigo 34, para destinação de substâncias ou produtos
poluentes. Outrossim prevê, no âmbito do licenciamento ambiental apenas a aprovação do EIA/RIMA e
RIS após manifestação favorável do CONDEMA e no caso de dispensa do licenciamento fundamentado
pelo Secretaria Municipal do Meio Ambiente (MA) deverá ser referendada pelo CONDEMA.
Os artigos 24 e 25 estabelece que em relação estímulos e incentivos concedidos a empreendimentos
ou atividades com relevantes relevante interesse ambiental, priorizando ações preventivas e o
desenvolvimento de tecnologias limpas, com o objetivo de proteger, manter, melhorar ou recuperar a
qualidade ambiental. dependendo, sempre, de aprovação prévia do CONDEMA.
O Código Ambiental no artigo 82 prevê a possibilidade de ser concedida isenção tributária de Imposto
Predial e Territorial Urbano (IPTU), total ou parcial, mediante requerimento anual, avaliação ambiental
e parecer favorável da Secretaria Municipal do Meio Ambiente referendado pelo CONDEMA, aos
imóveis que abrigarem vegetação classificada como de preservação permanente.
A Lei Municipal Nº 289/98 institui o sistema municipal do meio ambiente define as atribuições do
CONDEMA , dentre elas destacamos referente a política urbana a necessidade de manifestação do
CONDEMA sobre o Plano Diretor do Município e suas alterações, bem como sobre os projetos de lei
relativos à disciplina do uso e ocupação do solo.
Nesse mesmo diploma legal define que o CONDEMA será presidido pelo Secretário do Meio Ambiente
e integrado por, no mínimo, mais 12 membros, sendo metade constituída por representantes do Poder
Público e metade por representantes da sociedade civil organizada.
Os representantes da sociedade civil organizada serão indicados por entidades civis, sem fins lucrativos,
que representem interesses profissionais, sociais, econômicos e ambientais e tenham sede e atuação
no Município.
49
A Lei Municipal 242/97 institui e regulamenta o Fundo Municipal de Preservação Ambiental e Fomento
de Desenvolvimento – FUNESPA, deve o CONDEMA fiscalizar os gastos, estabelecer as diretrizes,
prioridades e programas de alocação de recursos do FUNDESPA.
No âmbito da gestão democrática o Município de Bertioga dispõe ainda:
• Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente – CMDCA - Lei Municipal 396/200,
803/2008 e 732/06
• Conselho Municipal Antidrogas - COMAD e o Fundo Municipal Antidrogras – FUMAD - Lei
Municipal 678/2005
• Conselho Municipal de Alimentação Escolar – CAE, Lei Municipal 904/2010
Casa dos Conselhos
A Lei nº 913, de 23 de Junho de 2010 criou a Casa dos Conselhos como instância municipal. São
objetivos da Casa dos Conselhos:I - congregar em uma única sede todos os Conselhos constituídos no
município, conforme a respectiva legislação; II - atuar na formulação de estratégias para o controle
social preconizado nas leis; III - apoiar as atividades dos conselhos de maneira integrada na articulação
das políticas públicas; IV - cadastrar, orientar e apoiar as instituições públicas e privadas, no âmbito do
Município, que desenvolvam atividades vinculadas a atuação dos Conselhos municipais; V - propor
critérios para a programação e para as execuções financeiras e orçamentárias do Fundo Municipal da
Casa dos Conselhos, acompanhando a movimentação e aplicação dos mesmos; VI - incentivar e
promover o engajamento da sociedade civil na construção de um novo pacto social baseado na justiça
social, humanização, transparência, solidariedade e equidade.
Casa dos Conselhos tem um Conselho Consultivo e Deliberativo composto como membros, os
Presidentes dos Conselhos Municipais devidamente constituídos, no entanto a composição do
Conselho Consultivo dependerá dos presidentes de cada conselho municipal, que em alguns casos
serão eleitos pelos conselheiros em outros são os próprios secretários municipais, portanto não existe
nenhuma regra sobre a composição paritária desse conselho consultivo e deliberativo. São órgãos da
Casa dos Conselhos: I - plenário; II - Secretaria Executiva e III - comitê - Fundo de Recursos Municipais.
Embora o município de Bertioga possua uma série de Conselhos, conforme descrito acima, e em
especial a Casa dos Conselhos no intuito de agregar os demais conselhos, ainda entendemos que é
insuficiente no aspecto da política urbana. Faz-se necessário um órgão colegiado de condução
democrática da política urbana.
Ainda que o instrumento de gestão democrática da política urbana fosse a própria Casa dos Conselhos
para tanto deverá ser inserido uma serie de atribuições: um caráter deliberativo da política urbana,
competência de gestão da política urbana definidas (estabelecer diretrizes para a política urbana,
manifestar-se e/ou referendar projetos que tenham impacto urbano, aprovar quaisquer alteração na
legislação de uso e ocupação do solo, bem como de alteração do Plano Diretor, leis especificas sobre
instrumentos urbanísticos (operações urbanas, outorga onerosa, isenções de IPTU etc...); possuir um
fundo específico entre outros.
Salienta-se também a necessidade de que o órgão colegiado de condução democrática da política
urbana, tenha as eleições de seus membros através de um processo democrático de eleição
considerando os diversos segmentos presentes no município, realizado através de uma conferencia por
exemplo, em que cada segmento elege seu representante, e não simplesmente por indicação de cada
segmento.
No âmbito da Casa dos Conselhos, o órgão de gestor não garante essa paridade por ser composto pelos
Presidentes dos Conselhos que são em muitos casos os representante do executivo. Por exemplo o
presidente do Conselho Comunitário de Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA) é o Secretário
Municipal do Meio Ambiente.
Embora a lei municipal não regulamente o instrumento do referendo, plebiscito, conferencias e
consultas e audiências publicas, poderá utilizá-los uma vez que a legislação federal já os institui no
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

entanto com mais cautela e em casos específicos determinados pela lei, sugerimos que o município de
Bertioga regulamentá-los a fim que os mesmos passem a integrar um sistema de gestão da cidade.
No aspecto legal os conselhos que mais concentram a função urbana são: Conselho Comunitário de
Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA), eis que existe obrigatoriedade de manifestação sobre o Plano
Diretor do Município e suas alterações, bem como sobre os projetos de lei relativos à disciplina do uso
e ocupação do solo; bem como manifestação favorável no âmbito do licenciamento ambiental. O
conselho de Habitação também tem um papel importante na política urbana pois trata de um dos eixos
principais que a garantia ao direito à moradia, devendo portanto ter uma maior integridade com a
política urbana no âmbito de suas competências.
Existe a necessidade de regulamentação de instrumentos de gestão da política urbana, como por
exemplo estudo de impacto de vizinhança que tem uma abrangência muito maior que apenas o
aspecto ambiental como licenciamento ambiental apenas a aprovação do EIA/RIMA e RIS; audiências
publicas, conferencias e referendo. Salientamos a possibilidade de definição de critérios específicos
pelo município do uso dos instrumentos, motivando o uso dos mesmos e a respectiva integração ao
sistema de gestão democrática, como exemplo poderá possibilitar que nas decisões administrativas
referentes a projetos urbanísticos de grande impacto estarão sujeitas ao instrumento do referendo, das
audiências publicas vinculantes, conferências,etc.
Exemplo: as operações urbanas, a concessão de licenças para projetos com impacto de vizinhança, a
implantação de aterros sanitários de usinas de compostagem de lixo etc., podem ser submetidas ao
referendo dos moradores do distrito, bairro ou das áreas diretamente atingidas, promovendo a efetiva
gestão democrática das cidades.

4.1.3. Espaços de gestão participativa e seus desafios


A política de gestão participativa no município de Bertioga está centrada nos Conselhos Municipais de
Políticas Públicas. É perceptível a intenção de valorizá-los como uma marca da atual gestão. No site da
prefeitura, no texto introdutório da seção “Casa dos Conselhos”, podemos verificar que a “a
participação e controle da sociedade no processo de formulação, aplicação e monitoramento das
políticas públicas é uma tendência moderna, e os resultados implicam no desenvolvimento da
sociedade sobre a política pública e em melhor efetividade das ações e serviços públicos. A Prefeitura
Municipal, na gestão do prefeito José Mauro Dedemo Orlandini, abriu este importante canal de
comunicação com a sociedade, permitindo que a mesma se expresse e participe da gestão municipal,
com a inauguração da Casa dos Conselhos Municipais, em julho de 2010”.
A Casa dos Conselhos é apontada com um dos instrumentos importantes para a consecução do
objetivo de fortalecimento deste espaço de participação: “A Casa dos Conselhos Municipais é um dos
instrumentos que propõe o fortalecimento e a atuação dos conselhos municipais. Mas, sobretudo, um
espaço que reúne sociedade civil e Poder Público em prol do desenvolvimento do município de
Bertioga”. A legislação que institui a Casa dos Conselhos diz que é seu objetivo “atuar na formulação
de estratégias para o controle social preconizado nas leis, incentivando e promovendo o engajamento
da sociedade civil na construção de um novo pacto social”.
A assessora da Casa dos Conselhos explicita que é um processo novo e exige amadurecimento da
cidade para a participação: “a cidade ainda enfrenta um processo novo de amadurecimento de discutir
políticas públicas.... Estamos tentando resgatar essa cultura de discutir, de formular, mas não é uma
tarefa fácil”.
Além da criação da Casa dos Conselhos a atual gestão criou vários novos conselhos. Atualmente são 17
conselhos formalmente constituídos. É uma quantidade considerável, tendo em vista o tamanho e o
pouco tempo de emancipação do município.

51
Outro procedimento oficial que manifesta a importância dada aos conselhos como espaços de
participação da sociedade na gestão municipal, é o espaço dado para informações e notícias acerca dos
conselhos, das suas atividades, seu funcionamento e suas resoluções, no site da prefeitura e no
Boletim Oficial do Município – BOM. O BOM é uma edição semanal, onde podemos encontrar muitas
notícias sobre os conselhos e outros espaços participativos, como conferências e audiências públicas.
Parece-nos que não existem muitos outros espaços participativos para além dos conselhos – a quem é
destinado um papel central -, conferências e audiências públicas. A atual gestão teria prometido uma
“sala da transparência”, como espaço para as entidades da sociedade civil levarem as suas demandas e
reivindicações, mas isso ainda não foi concretizado. Este foi um dos itens demandados na CONSOCIAL,
realizada 21 de outubro de 2011, no eixo “Promoção da transparência pública e acesso à informação e
dados públicos”,
Também não existe no município uma “Ouvidoria”, que segundo informações oficiais, já contaria com
um projeto para a sua implementação. Esta também foi uma demanda definida na CONSOCIAL no eixo
“Promoção da transparência pública e acesso à informação e dados públicos”.
Tendo em vista a centralidade dos Conselhos de Políticas Publicas, enquanto instrumentos de
participação, realizamos o seu mapeamento a partir dos dados oficiais disponíveis e pelos dados que
nos foram fornecidos pela gestão municipal e também por conselheiros municipais. O resultado
encontra-se, de forma sintética, no quadro abaixo.
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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
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Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Base das informações até dez 2012 - Revisão de março de 2013

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Revisão de Fev. 2013

Principais características dos Conselhos em Bertioga:


A leitura dos dados que o quadro nos fornece, permite-nos destacar algumas características
importantes, previstos na legislação que os institui.
A totalidade dos conselhos tem previsto composição paritária ou tripartite, o que sinaliza, pelo menos
formalmente, a intencionalidade de garantir uma representação equilibrada entre o Poder Público e a
sociedade civil. É evidente que a previsão legal não é por si só, garantidora da representatividade do
conjunto da sociedade civil e do equilíbrio na participação entre Sociedade Civil e Estado.
Outra característica importante prevista na constituição de todos os conselhos é o seu caráter
deliberativo, consultivo e fiscalizador, que sinaliza para a possibilidade de garantir à esta instância de
participação, poder para propor e deliberar acerca de políticas públicas a serem implementadas no
município. Como podemos perceber abaixo, a definição legal não necessariamente garante que esta
característica deliberativa seja respeitada de fato.
É importante destacar também que a maioria dos Conselhos tem a possibilidade de convocar e propor
conferências públicas, instrumentos importantes para definição das grandes diretrizes para as
respectivas políticas públicas a ser implementadas no município, com a participação de todos os
segmentos relacionados com a temática. Podemos perceber que foram realizadas conferências em
temáticas de oito (8) conselhos municipais, um conselho que realizará a primeira conferência em abril
de 2012 e em oito (8) nunca foram realizadas conferências.
É prevista a periodicidade mensal para as reuniões em todos os conselhos, além de possíveis reuniões
ordinárias. Porém segundo informações da própria prefeitura ou de membros dos conselhos, há
conselhos que funcionam regularmente e bem (Saúde, Assistência Social, Turismo, Deficiência, do
Idoso, da Mulher, da Criança e do Adolescente) e outros que funcionam de forma Irregular e frágil
(Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra, de Esportes, de Educação, de Habitação). O
Conselho de Políticas Culturais, de Juventude e Drogas, foram constituídos recentemente.
Representação da Sociedade Civil nos Conselhos:
A representação da Sociedade Civil nos Conselhos é constituída de ONG’s, Entidades de classe,
Entidades Assistenciais, Associações e Entidades de bairros, Igrejas.
É importante destacar que a presença nos conselhos de organizações oriundas de comunidades do
meio popular é minoritária. Um dos motivos que explicam esta ausência é a exigência, na legislação
que institui os conselhos, da regularidade jurídica das organizações que pretendam participar. A
maioria das organizações oriundas de bairros populares, encontram-se em situação irregular.
Outra constatação que pode ser feita é que algumas organizações tem assento em muitos conselhos
municipais, o que sugere a concentração da representação da sociedade civil nos conselhos em poucas
organizações, possivelmente naquelas organizações que estejam constituídas formalmente, o que não
necessariamente significa que sejam as mais atuantes ou que representem efetivamente os interesses
da maioria da população.
É perceptível também que dentre as organizações com assento nos Conselhos, tem algumas que
parecem só existir no papel e que não se encontram atualmente em funcionamento. Esta constatação
pode ajudar a explicar o funcionamento irregular de alguns conselhos ou outras dificuldades apontadas
pelas organizações entrevistadas, como veremos abaixo.

69
Avaliação das organizações acerca Conselhos:
Destaques positivos:
Conselhos “deixaram de ser pró-forma”, passaram a existir de fato.
Há o reconhecimento de uma mudança positiva recente em relação aos Conselhos “Até pouco tempo
atrás, os Conselhos eram meramente pró-forma, porque eram lei”, afirma um dos entrevistados, no
que tange o seu funcionamento efetivo. Em contraponto à gestão anterior, outro entrevistado
constata que o atual gestor “sempre foi um cara democrático”, destacando a ampliação da participação
da sociedade civil nos conselhos. E afirma que atualmente os conselhos funcionam “O Conselho da
Criança, da Mulher, da Assistência funcionam bem também... O CONDEMA e o Conselho de Saúde
funcionam muito bem, são deliberativo”, dando a entender que nos conselhos onde o caráter
deliberativo é exercido de fato, funcionam.
Liderança de outra associação, que não é conselheira, mas acompanha o seu funcionamento, constata
que atualmente os conselhos são mais ativos, promovem conferências: “É a primeira gestão que os
Conselhos estão bem unidos, porque nunca funcionavam... Em torno de uns 4 anos pra cá, eles estão
mais ativos. Antes, a gente nem sabia deles. Agora, eles fazem pré-conferências nos bairros, estão
funcionando direitinho, alguns mais que outros. Antes, mal e mal, era só o Conselho de Alimentação
Escolar que funcionava mesmo”.
A criação da “Casa dos Conselhos” e ampliação do número de Conselhos.
A criação da Casa dos Conselhos parecer ter se constituído numa referência desta importância dada
aos conselhos. “Tem a Casa dos Conselhos também, agora”, diz um liderança, destacando o seu
significado para o melhor funcionamento dos conselhos. É possível perceber que a Casa dos Conselhos
passou a ser uma referência e um lugar de encontro e de “articulação” dos representantes das
organizações.
Apesar da existência da Casa dos Conselhos, um conselheiro avalia que há necessidade de melhorar a
estrutura e o suporte para os conselhos: “o Conselho, em si, não tem suporte para se manter: não tem
computador, nenhum tipo de suporte. Quem poderia dar isso seria a Prefeitura, por meio da
Secretaria...”.
Outra liderança refere-se à importância da criação do Conselho sobre Drogas, tendo em vista a
preocupação crescente com a temática de uso e tráfico de entorpecentes no Município.
A própria Sociedade Civil escolhe as instituições para compor os conselhos.
É recorrente entre os entrevistados a constatação de que a sociedade civil tem autonomia na escolha e
indicação dos seus representantes. “A eleição é absolutamente democrática: seis do governo, seis das
entidades da sociedade civil e o Secretário (referindo-se a um dos conselhos). É escolhido
abertamente”, resume um dos entrevistados. A definição deste procedimento democrático é
percebido como positivo no processo de composição dos conselhos.
Porém é necessário lembrar que o leque de entidades da sociedade civil em condições para serem
escolhidas e indicadas é restrita, principalmente quanto a sua representatividade junto às organizações
de comunidades mais pobres.
Destaques críticos:
Desrespeito ao papel deliberativo dos conselhos e não encaminhamento das suas deliberações.
Vários entrevistados manifestaram a sua insatisfação em relação ao não encaminhamento de
deliberações do conselho por parte do executivo, o que é recorrente em vários conselhos. Apesar do
caráter deliberativo dos Conselhos previsto na lei, deliberações tomadas não seriam levadas a cabo
pela Prefeitura, para resolver os problemas do município. Um representante de organização, que tem
assento em conselho, afirma que “as anomalias são levadas até o Secretário, mas não são resolvidas”.
Outro entrevistado opina que “isso freia muito as coisas nos outros Conselhos, porque as pessoas se
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reúnem e não podem encaminhar nada para a Prefeitura”, indicando que o Conselho que ele participa
tem eficácia maior no encaminhamento das decisões.
Foi unânime a constatação, entre os dirigentes e lideranças das organizações, de que no Conselho de
Turismo não seria respeitado o seu papel deliberativo e que as decisões que deveriam ser tomadas por
aquele colegiado, já viriam prontas do executivo. “As decisões vem prontas do Secretário”, afirma uma
das lideranças. Outra ratifica a mesma percepção e acrescenta que o Conselho não discute e delibera
sobre o uso dos recursos do Fundo de Turismo, de sua competência: “A própria lei que instaurou o
Conselho de Turismo instituiu o Fundo de Turismo. Mas as coisas não transitam pelo Conselho, para
deliberar, discutir as rendas que entram no Fundo, para decidir a sua aplicação... as decisões já chegam
prontas, não se sabe de onde vêm as verbas...”.
Não funcionamento de conselhos importantes para o Município.
Como já vimos acima, tem alguns conselhos que funcionam muito precariamente. Alguns por falta de
quórum, outros porque estão começando, outros ainda por desmotivação e pela fragilização do papel
dos conselhos.
Chama a atenção o não funcionamento regular do Conselho de Habitação, Planejamento e
Desenvolvimento Urbano, tendo em vista que o déficit habitacional para a população de baixa renda se
constitui em um dos grandes problemas do Município, assim como o planejamento e o
desenvolvimento urbano são questões estratégicas a serem enfrentadas. Uma das organizações acusa
esta situação: “o Conselho de Habitação não se reúne há mais de um ano e meio, apesar de sua
importância. Devia ter reuniões mensais”. Uma das hipóteses levantadas para explicar esta fragilidade
do Conselho de Habitação, é que o Condema tenha incorporada parte das suas atribuições, tendo em
vista a grande presença, neste conselho, de organizações representantes dos interesses imobiliários na
cidade.
Outro Conselho que funciona com fragilidade é o Conselho de Turismo. Como já mostramos acima,
provavelmente o fato de não conseguir exercer o seu caráter deliberativo, especialmente no tocante a
discussão das verbas do fundo do turismo, faz com que haja um desestímulo à participação neste
espaço. Chama atenção o grau de unanimidade que esta avaliação tem entre as organizações. Tendo
em vista que o turismo constitui-se em uma das potencialidades mais importantes para o
desenvolvimento do município, e que, por isso mesmo, deveria criar uma sinergia importante entre a
gestão municipal e a sociedade civil local, é uma contra-senso o não funcionamento adequado do
Conselho.
Ausência de planejamento em políticas públicas:
A ausência de planejamento em algumas políticas públicas é apontado como um problema, tanto para
à efetivação adequada das políticas públicas, assim como para o funcionamento e o papel dos
respectivos conselhos.
Na Política de saúde do município foi constatada a ausência de um Plano Municipal de Saúde, que por
exigência legal deveria ser apresentado pela Secretaria de Saúde e aprovado pelo Conselho. Com a
ausência de um plano municipal de saúde, a política de saúde seria focada em campanhas dispersas: “É
aleatório, não tem um calendário pré-estabelecido: faz uma campanha aqui e ali, e pronto”.
Na área da cultura também se constata a ausência de uma Política Municipal de Cultura, o que
refletiria numa gestão da cultura precária. Há experiências culturais isoladas e desconexas, justamente
pela ausência de uma política cultural. O Conselho de Cultura se encontra em fase de gestação e
poderá, quem sabe, ser um instrumento importante na construção de uma política cultural no
Município.

71
Frágil autonomia da Sociedade Civil nos Conselhos.
Há um manifesto incômodo de significativa parte das organizações entrevistadas com a frágil
autonomia das organizações presentes nos Conselhos em relação aos gestores públicos, já apontada
na análise feita sobre a organização da sociedade civil em Bertioga. Uma das organizações, inclusive,
faz autocrítica no sentido de diagnosticar a fragilização do seu papel nos conselhos, tendo em vista a
parceria com a gestão pública na execução de projetos sociais.
É necessário a “dinamização no funcionamento dos Conselhos..., aumentando a sua autonomia e
qualificação da representação da Sociedade Civil nos Conselhos”, lembra uma das lideranças
entrevistadas, dando a entender a ‘autonomia’ tem muito a ver com formação/capacitação e com
qualidade da representação.
Pouca incidência dos Conselhos no Orçamento Municipal.
É perceptível que a incidência dos conselhos no Orçamento Público é muito restrita ou praticamente
inexistente, principalmente na discussão geral do Orçamento. “O orçamento do município
simplesmente não é discutido. Os valores destinados a cada área já estão definidos, não estão abertos
para debate”.
Chama a atenção que a referência aos fundos, vinculados às políticas de alguns conselhos, recebam de
parte dos representantes de organizações que tem assento nos conselhos, opiniões geralmente
críticas, no sentido de manifestar a dificuldade dos conselhos definirem ou controlarem os gastos dos
recursos dos respectivos fundos. É o que foi manifestado de forma particularmente explícita em
relação ao Conselho de Turismo. No tocante a questão da cultura, a ausência de um fundo de cultura, é
reflexo da própria fragilidade da política de cultura.
À baixa capacidade e possibilidade dos conselhos de intervirem no Orçamento Público é amplificada
ainda mais quando se constata que não existem espaços públicos específicos, que possibilitem a
participação e a intervenção da sociedade em geral na definição e priorização de políticas no âmbito
do processo orçamentário, como o “Orçamento Participativo”, instrumento amplamente conhecido no
país. O controle social do orçamento se restringe às audiências públicas trimestrais de prestação de
contas da Prefeitura, e às reuniões de planejamento do orçamento anual e do plano plurianual.
Fragilidade da representação e descontinuidade na participação
Há uma fala bastante recorrente dos entrevistados acerca da fragilidade da representação da
sociedade civil nos conselhos, atribuída à diversos motivos: não conhecimento adequado dos
conselhos e da sua atribuição enquanto conselheiros, mudança contínuas e freqüentes de conselheiros
na composição dos conselhos, representação de instituições que não funcionem mais, problemas de
autonomia de organizações em relação ao Poder Público, entre outros.
A descontinuidade na participação dos representantes das organizações da sociedade civil refere-se
também aos representantes da própria gestão pública. “Por lei, o Secretário... é membro nato. Mas é o
único que não aparece...”, aponta um entrevistado, apontando a sua ausência freqüente como um
problema que não deveria ocorrer no funcionamento do Conselho.
Em relação à participação dos representantes da gestão pública municipal nos conselhos a
recomendação da CONSOCIAL foi bastante enfática, no sentido garantir a sua presença nas reuniões:
“Criar mecanismo para punição de servidores públicos nomeados em conselhos municipais e que
representem o Poder Público, que não comparecem às reuniões de conselhos”.
Desafios apontados:
Capacitação dos conselheiros para qualificar sua atuação nos conselhos.
Poucos conselhos dizem realizar a capacitação dos conselheiros. Ao que tudo indica esta é uma das
funções atribuídas à Casa dos Conselhos. Segundo as informações disponíveis, não há atividades
formativas regulares e sistemáticas de formação para os conselheiros, como cursos, nem de iniciativa
da sociedade civil, nem do Poder Público. O que parece haver são atividades pontuais e gerais, onde os
conselheiros são convidados a participar, como do “1º Fórum do Terceiro Setor”, entre outros.
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Poucos conselhos fazem referência explícita da capacitação como sendo atribuição do próprio
conselho. Porém a necessidade de capacitação e qualificação dos conselheiros surge como um desafio,
na perspectiva de qualificar o funcionamento dos Conselhos.
No nosso entender a capacidade de discutir e interferir nas políticas públicas, do conhecimento sobre o
processo orçamentário, o conhecimento da temática tratada pelo respectivo conselho, a questão da
autonomia, da representação e da representatividade, se apresentam como temáticas importantes
para processos formativos a serem desencadeados para os conselheiros em Bertioga.
Na CONSOCIAL foram formuladas várias proposições voltadas para a formação e qualificação dos
conselheiros, tanto para os representantes da administração Municipal, como para os representantes
da Sociedade.
Regularização da situação legal das organizações do meio popular
Como já foi apontado na análise sobre a organização da sociedade civil, o desafio de garantir uma
representação equitativa da população de Bertioga nos conselhos, passa por ampliar e viabilizar a
participação de organizações do meio popular, onde vive grande parcela da população, para
representar os seus interesses nos diferentes conselhos de políticas públicas. Isso implica em viabilizar
as condições legais para a sua participação, atualmente restrita pela situação irregular em que se
encontram muitas das organizações, frente às exigências da legislação que institui os conselhos.
“Falta registro, orientação, apoio...”, reclama um dos entrevistados, demandando apoio para resolver
esta questão. A mesma liderança manifesta o desejo de incidir mais na proposição de políticas
públicas, perguntando “porque ficar esperando pelo Poder Público, né? ... poderíamos propor projetos.
O ideal é que os próprios moradores possam propor projetos”.
Interessante anotar que no eixo “Mecanismos de controle social, engajamento e capacitação da
sociedade para o controle da gestão pública”, da CONSOCIAL de Bertioga, foi aprovado um
recomendação de “criar parcerias com entidades e associações de bairros, para que haja uma
articulação maior para participação dos conselho. Esta recomendação da CONSOCIAL confirma a
percepção da necessidade de ampliar a participação de organizações provenientes dos bairros, nos
conselhos..
Ampliar a participação da sociedade civil na presidência dos conselhos.
Mais da metade dos Conselhos – 10 conselhos – são presididos por conselheiros da Sociedade Civil.
Outros 06 conselhos são presididos pelo representante do Poder Público, enquanto que um deles é
presidido pelo segmento dos trabalhadores públicos.
Entre os entrevistados há avaliações que afirmam que o “Presidente de Conselho não pode vir de
dentro da Prefeitura, mas da sociedade, para garantir a autonomia dos Conselhos”. Esta avaliação está
vinculada a uma percepção de que dois dos conselhos mais estratégicos – CONDEMA e CONTUR – são
presididos pelos representantes do executivo, garantido pela legislação que institui ambos os
Conselhos e principalmente pela forma como é conduzido o CONTUR, pouco aberto à opinião,
participação e deliberação da Sociedade Civil.
É interessante anotar que na CONSOCIAL , realizada em 2011, no eixo ‘A atuação dos conselhos de
políticas públicas como instâncias de controle’, foi aprovada uma recomendação de “proibição do
Executivo Municipal indicar o presidente do Conselhos Municipais, e eleito o presidente, que seja
convocado o suplente para manter a paridade”.

4.2. Leitura Comunitária: Visão do Município e os Desafios para o Desenvolvimento Sustentável


As considerações abaixo resultam do processo participativo desencadeado no Município de Bertioga,
junto às organizações da Sociedade Civil e da pesquisa qualitativa junto a dois grupos de moradores. O
material recolhido foi compilado e sistematizado, procurando refletir as principais questões e visões
73
apresentadas sobre o município, suas políticas públicas, perspectivas de desenvolvimento e visão sobre
possíveis impactos dos grandes projetos previstos para o Litoral.
Procuramos explicitar no texto os diferentes pontos de vista dos mais variados segmentos
entrevistados e interesses diversos evidenciados pelos mesmos, sempre numa perspectiva
democrática e inclusiva, no sentido de considerar legítimas todas as opiniões que se colocaram, ainda
que contraditórias e/ou excludentes entre si.
Para facilitar a leitura usaremos os termos “entrevistados”/ “interlocutores”, quando nos referimos às
lideranças e dirigentes de organizações da sociedade civil, e os termos de “participantes das discussões
de grupo” / “participantes dos grupos”, quando nos referimos aos participantes dos grupos da
pesquisa qualitativa.

4.2.1. A Gestão Pública e as Políticas Públicas em Bertioga


A percepção do papel do Estado na efetivação das políticas públicas no Município de Bertioga, pela
população, pelas lideranças e dirigentes das Organizações da Sociedade Civil, ocorre de forma direta e
imediata com o Governo Municipal e de forma indireta e mais distante com o Governo do Estado de
São Paulo e o Governo Federal.
Somente uma das instituições entrevistadas referiu-se à intervenção do Governo Estadual no
Município, especificamente sobre a instalação do Parque da restinga e outra à política do Governo
Federal. Quanto ao governo federal a consideração foi acerca da política federal implementada a partir
da criação do Ministério da Pesca e Aqüicultura pelo ex-presidente Lula, que “trouxe benefícios
concretos para a categoria dos pescadores, além de, segundo o entrevistado, valorizar o ofício e a
identidade dos pescadores artesanais”.
Na Leitura Comunitária nos ateremos, portanto, à gestão municipal.
Gestão Pública
Alguns dos entrevistados da sociedade civil organizada fazem uma avaliação das gestões municipais
que se sucederam no município ao longo dos anos, apontando problemas oriundos do processo de
emancipação, não equacionadas satisfatoriamente: “Bertioga herdou o funcionalismo público de
Santos. Mas aqui não funciona, não funciona a gestão. Bertioga deveria ter aproveitado a
oportunidade da emancipação para implementar um sistema moderno de gestão”. A gestão
implementada na Riviera de São Lourenço é apontada, por interlocutores, como referência de um
“sistema moderno e eficiente”.
Como deficiências da gestão pública em Bertioga são apontadas a não informatização da administração e a
baixa capacidade do seu quadro de funcionários, devido à disputa com o mercado, que ofereceria propostas
salariais mais atraentes. Além disso existiria “um número gigantesco de cargos de confiança...”. Na visão de
outro interlocutor, o Município de Bertioga, ainda que novo e emergente, teria se desenvolvido às custas de
compromissos com grandes interesses econômicos: “Bertioga foi praticamente entregue ao interesse
privado”. Ainda segundo outro interlocutor, a gestões municipais padeceriam de uma falta de “planejamento
estratégico” e de descontinuidade nas políticas públicas: “os prefeitos se recusam a replicar boas práticas
feitas por outros prefeitos”.

A percepção dos segmentos entrevistados em relação à atual gestão municipal e às políticas públicas
no município oscilam entre avaliações positivas e críticas.
Há reconhecimento, por parte de vários entrevistados, de avanços no caráter mais democrático da
atual gestão, em contraponto à gestão anterior, no sentido de ampliar os espaços para a participação
da sociedade. Há, porém, uma percepção generalizada, por parte destas lideranças, da insuficiência de
espaços participativos, de instrumentos de transparência e da necessidade do seu aperfeiçoamento,
no sentido de garantir uma efetiva participação da sociedade no controle e gestão das políticas
públicas.
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Haveria ainda a falta de canais para atendimento das demandas dos munícipes por parte da
administração pública, sobretudo, para a população de baixa renda. “A prefeitura tem dificuldade em
ouvir a população e atender as demandas, no que diz respeito às prioridades. Faz obras, de qualquer
jeito e não quer ouvir as reclamações dos cidadãos... O governo não trata as camadas mais pobres
como bertioguenses”.

No que se refere à participação da Sociedade na definição das políticas públicas, há críticas quanto à
falta de discussão pública do Orçamento no Município de Bertioga, tendo em vista a sua centralidade
na definição das prioridades para investimento.
Em relação ao Orçamento Público de Bertioga há questionamentos de interlocutores quanto à
capacidade de gestão da Prefeitura, entendendo que o município se encontraria em situação
privilegiada na relação entre receita e despesa, vivendo um verdadeiro ‘paradoxo da abundância’:
“Bertioga tem cerca de 40 mil residências. Considerando uma média de 4 pessoas por residência, pode-
se dizer que o município foi projetado para 160 mil pessoas. Contudo, a despesa da cidade está
projetada para 50 mil pessoas. São segundas residências, em sua maioria, que trazem receita para
Bertioga [principalmente através do IPTU], mas que não usufruem das políticas públicas. Logo, o
investimento público não condiz com a arrecadação do município (em todos os setores). Praia Grande
deve seguir o mesmo modelo”. E o interlocutor avalia que “as crianças, por exemplo, vêm passar as
férias aqui, não implicando custos para o município no setor da educação, durante o ano letivo. É uma
característica de estâncias balneárias (diferente de cidades-dormitórios, como Franco da Rocha e
Barueri)”. Em suma, a percepção é de que dado o montante da arrecadação de impostos, recolhido
graças à população flutuante que possui casas de veraneio (segunda residência) em Bertioga, não
existiria justificativa para a ‘péssima’ infraestrutura do município. As receitas arrecadadas pela
Prefeitura não estariam sendo bem aproveitadas.
Percepções positivas ou avaliações cuidadosas são feitas por diferentes atores. Uma avaliação tem
como referencial o “respeito mútuo” entre a gestão municipal e o respectivo segmento, outra diz que a
contratação pela Prefeitura de funcionário ligado à instituição “ajudaria a encaminhar problemas e
demandas” do segmento, outra aponta a “urbanização de bairro popular” e o “apoio para o
funcionamento da organização” no bairro, como ações positivas da atual gestão. Outras organizações
avaliam ainda que “houveram vários acertos, mas ainda restam muitas coisas que precisam ser
mudadas”. Outras ainda desenvolvem projetos sociais em convênio com a gestão municipal, o que,
segundo sua própria avaliação, pauta a relação com a administração municipal.
Esta relação mais próxima de organizações com a Prefeitura é apontada, por outras organizações,
como falta de autonomia e dependência em relação aos políticos em geral. O principal motivo alegado
para o estabelecimento destas relações seria a escassa oferta de trabalho no município, que propiciaria
as relações clientelistas entre a população (organizada ou não) e a Prefeitura, identificada como a
maior empregadora de Bertioga (seguida da Riviera de São Lourenço), fomentando um ciclo de
dependência entre a população e o Poder Público.
Políticas Públicas:
Parece-nos que a frágil autonomia apontada, sugerindo dependência de organizações da sociedade em
relação à Prefeitura, não impede a sua percepção de importantes problemas relativos à insuficiência
ou falta de políticas públicas necessárias ao desenvolvimento do Município. Faz-se notar que a
população em geral não somente percebe, mas fundamentalmente vivencia no seu dia a dia os
resultados dessa insuficiência ou falta de políticas essenciais para garantia da qualidade de vida.
A Educação é apontada por várias organizações como sendo um dos problemas no Município, e que
segundo lideranças, refere-se especialmente à falta de creches: “Tá tudo razoável, né... Tá faltando
creches ainda...”. Faltaria ainda maior investimento na área da educação básica, “para sanar falhas
que vão desde a educação infantil até o ensino médio”. Estas “falhas” no ensino básico, afetaria a

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possibilidade de qualificação profissional de muitas pessoas: “muitos saem da escola, analfabetos e por
isso, não chegam a procurar os cursos de qualificação profissional”.
Os moradores participantes das discussões em grupo e os participantes da oficina com as organizações
sociais, mencionam avanços no que se refere à construção de escolas, mas também a queda da
qualidade do ensino. Há queixas quanto à superlotação das salas de aula, à ausência constante de
professores, à merenda insuficiente, à utilização inadequada do material escolar, à falta de
infraestrutura e de planejamento na gestão escolar. A tônica geral é que há uma diferença entre as
escolas: “são escolas e escolas. Tem uma melhor, mas a maioria não é boa. A Delfino e a Dino Bueno
são as duas escolas que têm em Bertioga e que eu sei que é boa... agora, na Riviera a educação é bem
melhor”.
“Algumas escolas são visivelmente mais estruturadas do que as outras. A de Vista Linda é melhor
que a de Boracéia”.
“Os banheiros das escolas são muito sujos, a merenda não é suficiente em termos de quantidade,
embora a comida seja muito boa. O material escolar, doado pelo governo do estado, é muito bom,
mas os professores os não utilizam adequadamente” .
“Não tem professor. Na escola da minha filha, um dos professores conseguiu uma bolsa para
estudar no estrangeiro, o outro está com problema de saúde e não vem mais. Desde as férias, ela
não teve mais aula de ciências, nem de biologia (...) O meu sobrinho mora comigo e ele vai para
escola às 7hs e às 9hs está de volta porque não tem professor”
“Hoje você tem uma escola em Boracéia, uma aqui no centro, na Vista Linda você tem uma ou duas
escolas. Já dá para suprir. Você tem ônibus escolar... mas é um professor para 55 alunos”
A Saúde também é apontada de forma genérica como sendo um dos problemas das políticas públicas
no município, apesar da percepção de melhora em determinados aspectos. Um dos entrevistados diz
que o “Posto de Saúde demora, mas tá levando tempo pra agendar as consultas e pra conseguir o
resultado dos exames, mas a saúde melhorou. A Fundação está tomando conta do hospital. O SUS já
cobre tomografia...”. Ao que parece, a percepção de melhoria no atendimento hospitalar, estaria
associada à transferência da administração do hospital de Bertioga para a Fundação do ABC (em
setembro de 2009).
As informações levantadas junto aos participantes dos grupos de discussão vão na mesma direção. As
queixas concentram-se na demora na marcação de consultas e na qualidade do atendimento prestado,
tido como ligeiro e pouco atencioso. A necessidade de recorrer a outras cidades para a realização de
cirurgias é outra fonte de insatisfação. Outra questão mencionada diz respeito aos postos de saúde,
cujo número é tido como insuficiente para atender a uma população que se distribui na longa faixa
territorial do município.“Se a gente puxar um tempinho atrás, para fazer exame de sangue a gente
tinha que ir no Santo Amaro. Tinha que pegar três ônibus para fazer um exame de sangue. Hoje você
tem condições de fazer um exame aqui e sai em uma hora. A saúde está um degrauzinho acima... só
que a saúde sobe dois degraus e a população aumenta cinco”.
Organizações presentes à Oficina de escuta comunitária, afirmam que o atendimento ambulatorial do
centro é mais rápido do que nos postos de saúde do “fundão”: “nos bairros que estão do outro lado da
estrada, a demora é muito maior”.
Outra ponderação feita por interlocutores diz respeito ao modelo de saúde “terceirizado”, que vem
sendo adotado pela gestão municipal, que desvirtuaria a política de saúde. Defendem o fortalecimento
do SUS, com gestão pública e não terceirizada: “É um modelo que é terceirizado. Pegam necessidades
básicas (a saúde) e terceirizam”.
O sistema de transporte é apontado como um dos problemas do município: “os principais problemas
do município são os sistema de transporte, educação e saúde e as vias publicas”, diz uma liderança de
um bairro da periferia da cidade.
Há queixas de que após a meia noite os ônibus só passam nos pontos a cada duas horas, limitando o
usufruto das atividades de lazer no próprio município ou nas regiões do entorno. Essa restrição se faz
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especialmente grave na medida em que é consenso que Bertioga oferece poucas opções, o que impõe
aos munícipes buscarem lazer em outras cidades.
“Se você quer ir em algum lugar, você tem que ir já pensando na hora de voltar porque não tem
ônibus. É Cinderela, antes da meia noite você tem que correr pro ponto porque se perde o ônibus,
só às 2 da manhã, depois disso só às 5hs da manhã.”
“Você não tem opção de nada. Se você quer sair, quer ir no cinema, você tem que ir no Ferryboat
pro Guarujá. (...) O pessoal daqui sai para ir no shopping de Santos, e a gente gasta dinheiro para ir
nesses lugares”.
Há uma percepção praticamente unânime em relação a precária infraestrutura urbana, classificada
como “gargalo”, “péssima”, “precária”, “grande problema”. A falta de investimento em
infraestrutura é apontada como um grande problema do Município, ao que tudo indica,
responsabilidade atribuída à todas as gestões municipais. “Bertioga tem um gargalo enorme de
infraestrutura...”, aponta um interlocutor. Outro entrevistado aponta que “a prefeitura fez muitos
projetos, mas concretizou poucos deles... não se dedicou a resolver problemas estruturais da
cidade, como a drenagem, banheiros públicos”. A falta de infraestrutura revela ainda as
disparidades existentes entre os diferentes aglomerados urbanos, especialmente nos bairros
populares: “têm bairros que estão piores do que aqui, como a Boracéia”, que não estaria nem
pavimentada. “A Boracéia reclama muito de esgoto. Aqui, a gente tem aquelas bacias para receber
o esgoto. Já é um passo...”.
Comenta-se que asfalto e saneamento, por exemplo, estão disponíveis somente nas ruas próximas
à orla. Nos bairros mais distantes do centro, a situação é outra: ruas de barro, intransitáveis
quando chove; esgoto a céu aberto, não raro desaguando no mar e a existência de famílias
ocupando áreas irregulares e de grande vulnerabilidade, como a do Mangue Seco, compõem parte
de um cenário revelador da precariedade das condições de vida de parcela significativa da
população. Esse quadro lhes parece ser ainda mais grave nas regiões/ bairros afastados do núcleo
central do município.
“Aqui as valas abertas enchem, alaga a rua... Se você sai de casa em dia de chuva, você sai com
água em cima da canela. A principal rua é asfaltada, as paralelas são asfaltadas, mas se você for
ver aqui atrás, a rua é de barro. Agora eles estão calçando a rua, estão fazendo rede de esgoto.
Está indo... é que estão devagar. Tem muito esgoto a céu aberto. Nessa avenida aqui tem uma
ponte e ali tem esgoto que cai no mar”
“Passa a rede de esgoto, mas saneamento básico é tratado só em alguns bairros. Agora é que eles
estão colocando isso em alguns bairros. Então tem só em alguns pontos específicos, mas lá pro
fundo não tem”
“O percentual de saneamento básic, é muito baixo. Ainda há esgoto a céu aberto, próximo às
escolas de Chácara Vista Linda e Vila Tupi, ou sendo jogado nas praias, sem tratamento, causando
doenças de pele e de outras ordens. Muitas vezes, a água de beber se mistura com a água do
esgoto”.
A falta de infraestrutura é apontada como um grande problema para o desenvolvimento do
município e para a melhoria das condições de sobrevivência de setores como comerciantes e
pescadores.
Outra fala recorrente, especialmente entre entrevistados do meio popular, é a necessidade de
investimento em políticas públicas de geração de emprego, trabalho e renda, no sentido de ampliar a
oferta e as perspectivas de trabalho no Município, que ajudem a superar a sazonalidade própria do
turismo em vigor hoje no Município. Segundo um dos interlocutores “nosso único meio de trabalho é
aqui, na Riviera, né... quatro mil empregos diretos e cinco mil indiretos no verão... mas só em torno de
dois meses,... só verão... diaristas, restaurantes, hotéis...”. Na mesma direção, outros interlocutores
apontam como preocupante o declínio da atividade de construção civil, uma das atividades mais
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importantes no Município e fonte de emprego para uma parcela significativa da população. “Para que
o turismo seja uma alternativa viável de desenvolvimento e uma força econômica para o município
seria preciso que houvesse trabalho nesse setor durante o ano inteiro e não apenas nas temporadas”.
Vários segmentos compartilham da visão de que é fundamental qualificar a população, especialmente
os jovens, para o mercado de trabalho, principalmente para o turismo. Empresas que se instalam no
município não contratariam mão de obra local por falta de qualificação da população local e por que
não existiria lei que proteja o trabalhador que mora na cidade.
“Seria necessário capacitar e qualificar a mão de obra do município para trabalhar neste setor”.
“Há um grande número de jovens que podem ser preparados para o mercado de trabalho local”.
“As empresas que se instalam na região não utilizam a mão de obra local. Trazem pessoas de fora
pra trabalhar nas suas empreitadas”.
“Deve reforçar a qualificação profissional, como cursos de hotelaria, SENAI etc, para a população
não ser apenas trabalhadora braçal”.
“Eles trazem gente de fora, da Bahia... Não tem lei municipal que proteja o trabalhador local. As
empresas trazem trabalhadores de fora a rodo”.
Alguns entrevistados manifestaram a necessidade de ter políticas públicas de prevenção ao uso e
tráfico de entorpecentes e à violência. Explicitam a preocupação com esta situação porque ela atinge,
de forma mais dura, especialmente crianças, adolescentes e jovens: “já existem dois pontos concretos e
estabelecidos de venda de drogas aqui no bairro. Cada vez mais jovens se aglomerando, se juntando
com eles... O PCC de Santos se juntou com o daqui... Há uns seis anos, deu uma melhorada. Chegou a
ter troca de tiros de madrugada. Tinha gente com arma. Mas você vê muitos jovens se perdendo...”. O
entrevistado de outro bairro acrescenta: “quando os jovens entram em contato com a droga é difícil
reabilitar, portanto é cuidar da prevenção, para que ele não vá”. Vincularam o risco de envolvimento
com o tráfico e consumo de entorpecentes e o envolvimento com a violência à falta de perspectiva dos
jovens em relação ao seu futuro, principalmente de acesso ao trabalho.
A situação da moradia popular é outra preocupação amplamente compartilhada pelos segmentos
sociais entrevistados e participantes da oficina e pelos participantes da pesquisa de opinião. Destacam-
se o alto preço dos imóveis, a precariedade das condições habitacionais dos bairros populares, a
maioria deles sem mínima infraestrutura urbana e sujeitos a constantes alagamentos, a situação
irregular em que se encontra grande parte das moradias, assim como as ocupações das áreas de
preservação ambiental em razão da ausência de opções de moradia para segmentos de baixa renda e o
risco de despejos ao qual estão sujeitos. Apontam ainda a necessidade de planejamento e revisão do
Plano Diretor, para fazer a regularização fundiária.
“Bastante gente mora no Mangue. Eu morei no Mangue, no Mangue Seco, quando cheguei aqui. Vinha
aqueles siris dentro da casa...”.
“A maioria dos bairros em Bertioga foi construída em cima de mangue. Então, quando chove tem
muitos lugares que alaga (…) é tudo casa térrea, no chão mesmo...”
“Tem bairros que começa na pista e termina no mangue. E o pessoal invade. Quem não tem condições
vai indo lá pro fundo. Favela, favela não tem. É mais pontos de invasão”
“Há palafitas em Vicente de Carvalho 2 e Chácara Vista Linda que alaga com a enchente do rio,
trazendo uma série de doenças especialmente para as crianças que lá vivem”.
“Os moradores da Vila da Mata (cerca de 150 famílias) estão com ordem de despejo porque o bairro foi
incluído dentro da área do Parque Estadual”.
“Existem pouquíssimos imóveis de até 50 mil reais regularizados. As pessoas que só podem comprar
nessa faixa de preço ficam sem acesso...Falta planejamento e revisão do Plano Diretor”
Se a constatação do déficit de habitação e da situação de precariedade da moradia nos bairros
periféricos é consenso entre as organizações, o mesmo consenso não existe na explicação de como
esta problemática se constituiu no Município e em como equacioná-la.
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Na visão de algumas organizações, o déficit habitacional hoje existente e a formação de bairros em


condições precárias e irregulares resulta da demanda da construção civil, que se instalou no município
para construir os grandes empreendimentos habitacionais destinados ao veraneio.
“Imensa quantidade de gente que veio do nordeste para trabalhar na construção civil e acaba
ocupando terrenos irregulares para construir suas casas, resultando nos bairros periféricos...”.
“De dez anos pra cá, quando a Riviera...isto é, quando a construção civil estava em alta...Morada do
Sol, Morada da Praia, Angarroa, Bongaville 1 e 2... tudo na Rodovia Rio-Santos... teve muita imigração,
gente vindo de fora, que veio trabalhar e acabou ficando por aqui. Agora, deu uma estacionada”.
“Os trabalhadores que vivem no bairro (Vicente Carvalho II) foram trazidos em função da construção da
Riviera de São Lourenço”.
Como contraponto à visão acima, dirigente de outra organização avalia que o problema residiu no fato
de que os trabalhadores que vieram trabalhar na construção civil trouxeram as suas famílias para
morar no município e que teriam invadido áreas de mata atlântica e construído suas habitações
tornando-se um problema para o município.
“Muitos trabalhadores trouxeram e acomodaram seus familiares distantes em Bertioga, quando vieram
trabalhar no ramo da construção civil. Assentadas, essas famílias encontraram empregos informais e
construíram suas habitações em áreas de Mata Atlântica, de mangue ou em outros tipos de área de
preservação ambiental, tornando-se um problema real no município, atualmente”.
“O antigo prefeito deixava correr solto. Muita invasão do lado de lá da rodovia. Com o atual prefeito,
deu uma contenção...”.
Lideranças entrevistadas e participantes na oficina apontam uma relação direta entre o atual déficit
habitacional e a constituição dos assentamentos irregulares no município à forma como o Poder
Público lidou com o crescimento da atividade imobiliária - o boom da construção civil -, ao não dar
respostas efetivas à demanda habitacional e às necessidades desses novos trabalhadores. Ao mesmo
tempo, identificam que a situação precária dos bairros populares e o déficit habitacional são
consequência da vinda de trabalhadores para a construção dos grandes empreendimentos
habitacionais para veraneio no litoral do Município. E manifestam a preocupação de que a Petrobras
repita o mesmo que foi feito por outras empresas que vieram realizar grandes empreendimentos no
município, criando um passivo ainda maior de moradia ou moradia precária.
“50% da população que realmente reside em Bertioga não tem onde morar. Moram em áreas
irregulares. Não moram lá porque acham bonitinho. A cidade de Bertioga é pensada só para os turistas,
que nem estão aqui o ano todo. E daí vai vir outra empresa (a Petrobras), que vai trazer mais gente de
fora, mais imigrantes, para trabalhar. E isso eles vão empurrando com a barriga, criando bolsões de
moradia precária, irregular”.
Em relação à solução da questão habitacional para população de baixa renda, também há divergências.
O entrevistado de uma das organizações aponta como o grande problema para solucionar a demanda
por habitação popular, a criação do Parque Estadual da Restinga de Bertioga, tendo em vista que “nós
defendíamos que nessa área fossem construídas habitações para a população de baixa renda”,
segundo ele, também “previsto no Plano Diretor e posição defendida pela Prefeitura”. Nas negociações
com o Estado, o CONDEMA teria feito uma contraproposta ao Estado: que fosse permitido fazer, na
área da Unidade de Conservação, a compensação ambiental, para a construção de habitação no
município. Em divergência com a informação de que o Plano Diretor continha destinação de áreas para
construção de habitação popular, que estariam previstas na área onde foi criado a Unidade de
Conservação, outro interlocutor afirma que o problema é a não existência de áreas destinadas à
habitação de interesse social no atual Plano Diretor.
Na avaliação de um dos entrevistados, o cenário atual de criação do Parque da Restinga, imposto de
forma arbitrária pelo Governo Estado de São Paulo, sem ouvir adequadamente as instituições do

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Município, criou muitas dificuldades para a construção de habitações populares e, portanto,
inviabilizou o equacionamento do déficit habitacional, uma vez que inviabilizou o uso para esta
finalidade das áreas incorporadas ao Parque. Segundo este interlocutor, a área que se estende da praia
à rodovia Rio-Santos seria de alto valor de mercado, impossibilitando a construção de habitações de
interesse social, uma vez que exigiria da Prefeitura gastos exorbitantes na compra dos terrenos, cujos
preços seriam balizados pela lógica do mercado. Segundo o mesmo entrevistado “têm áreas de vazios
urbanos, mas são áreas de alto valor, que o governo teria que comprar para indenizar o proprietário
(no valor de mercado), o que complica as coisas, para colocar a população de baixa renda”. E finaliza:
“É complicado colocar baixa renda em área de alto valor”.
Outro problema, nesta visão, é que a população de baixa renda não está organizada em movimentos,
inclusive não existiriam movimentos organizados de reivindicação por moradia. Chama a atenção que
não houve, por parte de lideranças de bairro entrevistadas, onde há previsão de despejo, nenhuma
menção ao processo, por conta do projeto de recuperação do mangue pela CDHU. Segundo uma
terceira interlocutora, seriam 400 famílias em uma área desapropriada, que serão afetadas pelos
projetos da CDHU. “Querem tirar as ocupações do manguezal e transferi-las para outro lugar, mas
como ‘desocupação voluntária’ mesmo, em troca de um ano de aluguel apenas, sem direito a mais
nada”.
A revisão do Plano Diretor foi apontada por alguns interlocutores, como uma necessidade a ser
enfrentada pelo Município. “A cidade não despertou ainda para o assunto”, afirma um dirigente. Para
ele, o principal problema seria a inexistência de área destinada à atividade industrial no município.
Para outra liderança, o problema do atual Plano Diretor seria a inexistência de áreas destinadas à
habitação de interesse popular.
Houve uma manifestação bastante crítica ao Governo do Estado de São Paulo, por parte de um
entrevistado, por causa da atuação do Estado no processo de constituição do Parque da Restinga.
Afirmou que inicialmente o Governo do Estado teria acatado a proposta do CONDEMA de
compensação ambiental, mas depois voltado atrás em sua posição. A atuação do Governo do Estado
no processo de constituição do Parque foi considerada ruim e uma interferência inadequada nas
decisões concernentes ao âmbito municipal: “Dão a canetada, embargam, sem saber o que está
acontecendo aqui. O duro é isso, as pessoas não conhecem a cidade”. Para esta Instituição, o decreto
estadual não teria respeitado o Plano Diretor e teria posto um fim à possibilidade de implantar
habitações de interesse social para a população de baixa renda no município.
O serviço de coleta de lixo domiciliar – tema abordado nas discussões em grupo e pelas organizações
presentes na oficina - é aprovado em razão da sua regularidade. No entanto, lamenta-se que a coleta
seletiva de materiais recicláveis ainda não esteja devidamente implantada na cidade e que não seja
realizado um atendimento igualitário para todos os bairros, como seria o caso dos bairros de Vicente
Carvalho 2 e Vista Linda. Alguns acham que ela está em fase inicial de implantação, outros
desconhecem esse fato. A única certeza é que na Riviera de São Lourenço o processo de separação e
reciclagem de materiais está desde há muito em funcionamento. Comenta-se que os resíduos
domiciliares recolhidos são levados para o lixão localizado perto de Caruara. Apenas um participante
mencionou que o lixão está fechado e que o destino dos resíduos é São Paulo. Mesmo tendo sido
desativado há algum tempo, tudo indica que tal lixão ainda se faz presente na memória da população.
Ao falar sobre o assunto mostram-se preocupados com os seus impactos no meio ambiente.
Comentam, inclusive, que Santos também estaria depositando indevidamente nesse local produto
tóxico, com alto teor de contaminação do solo e das águas de Bertioga por meio do chorume.
“Não existem caminhões que recolham resíduos separados pelos moradores diferente do que acontece
na Riviera de São Lourenço, em que tudo é reciclado”.
Quando o assunto é limpeza urbana, eles criticam a falta de lixeiras na cidade, a ausência de um
sistema de drenagem e a precária manutenção das valas por onde escoa a água das chuvas.
“O que tem muito em Bertioga são ruas de terra. Então limpeza urbana é o seguinte: é limpar capim,
limpar a vala, fazer a água fluir. O que precisa aqui é limpeza de vala na beira da praia”
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“Monopólio é a palavra ideal. Só tem uma empresa de lixo que faz isso há dez, quinze, vinte anos, que é
a Monte Azul. Ela passa todos os dias e tal... Coleta seletiva agora que começou. Está em estudo ainda,
em fase de pesquisa. (...) Na era da reciclagem, Bertioga ainda está pensando em fazer...”
“O lixo vai pro lixão, pra frente do Caruara, em sentido do Guarujá. Eu sei que teve uma reportagem
esses tempos que o rapaz que fica lá na portaria do lixão achou um nenê no lixo. (...) É um lixão a céu
aberto, é na natureza, contamina nosso canal...”
Quanto ao abastecimento de alimentos, as críticas desses moradores se dirigem à escassez dos pontos
de venda e ao alto preço dos produtos. A feira de Vicente de Carvalho 2 é valorizada e considerada um
boa opção para hortifruti. Organizada pelos moradores locais, que revendem produtos comprados em
Mogi das Cruzes, atualmente ela vem atraindo feirantes de cidades do entorno.
“Eu acho que os comércios de Bertioga ficam meio distante dos locais que a gente mora. Por exemplo,
eu moro lá em cima na Balsa. Então, pra vir no mercado principal, que é o mercado Caçula, é uma
distância. Não poderia ter um mercado um pouco mais próximo? O mais próximo é o Caçula, porque
depois você tem que andar um montão para chegar no Kril”
“Aqui se conta os mercados que tem. É o Kril, os dois Caçula, um do centro e o outro na 19, e tem o
Albatroz da 19 e o Albatroz da João Ramalho. Você tem que ir em uma dessas opções. (...) Para abrir
um supermercado aqui, você tem que brigar na Justiça. É o caso do Shibata que não abriu... (...) O
pessoal vai tudo pro Guarujá, no Atacadão, que é mais barato e você pode comprar de muito”
“Tem a feira e ela está compensando mais do que a promoção do Kril de quarta-feira. Nessa promoção
as frutas estão tudo estragadas, nada presta. A feira é legal. Os que tem as barracas é da comunidade
de lá mesmo, de Vicente de Carvalho 2. A feira cresceu e hoje tem gente que vem de Mogi. As coisas
que eles vendem vem de Mogi, Suzano, do Ceasa. Eles vão buscar; não é nada daqui”
Uma das questões que mais mobilizaram os participantes da pesquisa de opinião e endossada pelos
interlocutores sociedade civil organizada, diz respeito à falta de opções vigentes em Bertioga: opções
de lazer, de cursos profissionalizantes e de trabalho, sobretudo. Pensada sob essa ótica, o sossego, a
calmaria e tranquilidade, de início tão valorizados, acabam por configurar a ideia de uma cidade boa
para aposentados, mas não para quem preza o lazer, a diversão e tem aspirações de crescimento
pessoal e profissional.
“Pra quem é aposentado e quer calmaria, quer sossego e praia, dá. Mas pra quem quer curtir,
trabalhar, já não dá porque você não tem opção”.

4.2.2. A Riviera de São Lourenço, sua relação e o seu significado para o Município
A Riviera de São Lourenço, condomínio de alto padrão, é referência recorrente nas entrevistas
realizadas junto às lideranças das organizações, assim como na pesquisa qualitativa. As falas sobre
Bertioga são entremeadas por inúmeras referências à Riviera de São Lourenço. E tais referências são
feitas sempre numa perspectiva comparativa e sempre destacando o patamar de qualidade de vida
vigente nesse condomínio, em contraposição a Bertioga.
Aos olhos dos participantes dos grupos, a Riviera se destaca como uma “ilha de excelência” que abriga
moradias de luxo de turistas de alta renda da capital. Um “enclave” que denota o quão distante
Bertioga está do patamar lá alcançado.
“É um condomínio que eles padronizaram o bairro, dividiram o bairro. Montou-se a infraestrutura deles
lá, juntamente com a Sobloco e evoluíram. (...) Eles fizeram o que os prefeitos daqui não fazem. Lá tem
tudo. Lá tem estrutura, tem saneamento básico, a água lá é tratada. Lá tudo é tratado. (...) É um bairro
de primeiro mundo. (...) Eles tem tudo o que a cidade não tem. (...) É que nem o Sul, que é uma coisa, e
o Norte que é outra. É a mesma coisa”

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As menções a esse condomínio deixam entrever certo fascínio com a qualidade dos serviços lá
existentes, por vezes dosado com uma pitada de indignação manifesta por quem não se conforma com
o forte contraste e as disparidades existentes entre esse território e aqueles habitados pelos
moradores locais.
“É como se lá fosse uma cidade e aqui fosse só uma tribo. (...) a sensação é que somos ninguém. Que
somos os Zé Roela e lá só tem os milionários. (...) que somos os esquecidos”
“Eu fico indignada porque quando você vai para a Riviera até artista você encontra lá: Feiticeira,
Ronaldinho, Tony Ramos. As ruas são tudo asfaltadas, as gramas muito bem aparadas...”
O modelo de urbanização da Riviera de São Lourenço é apresentado pelo interlocutor do próprio
condomínio, como exemplo bem-sucedido de desenvolvimento urbano sustentável, que deve ser
seguido em todo o país. O modelo é defendido por entrevistado de outra associação: “Na Riviera, é
tudo muito organizado, planejado, porque não é Poder Público...”.
Hoje, o bairro – conforme definição do nosso entrevistado - abrange uma área de 293 campos de
futebol, ocupando 4.5 km de praia e contando com 10 a 12 mil residentes (flutuantes ou não), com
planos de expansão para 105 mil residentes. O sistema interno de gestão, capitaneado pela Associação
de Amigos da Riviera (empresa de administração do bairro), gerencia o tratamento da água e do
esgoto; a coleta, separação e destinação final do lixo; a segurança interna; a limpeza das ruas; o
trabalho de educação ambiental com os funcionários etc.
O diferencial da Riviera de São Lourenço, comparada a outros empreendimentos imobiliários da região,
residiria nesse sistema interno de gestão de cunho bastante técnico, inspirado nos Conselhos de
Gerência de Cidades encontrados em países como Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
A Riviera teria sido concebida como uma cidade autônoma, mas os seus idealizadores não desejam a
autonomia administrativa em relação à Bertioga. Segundo nosso interlocutor, a Riviera prefere ser
mais um bairro do município, ainda que os habitantes de Bertioga continuem acreditando que o
loteamento teria a intenção de se emancipar. Existiria um medo generalizado do município de perder a
Riviera de São Lourenço do seu domínio territorial e, portanto, da sua receita fiscal. Apesar desta
afirmação, a emancipação poderia ser uma tendência natural, na medida em que própria Riviera é
percebida como sendo “um outro mundo”, demarcada e separada do território de Bertioga, enquanto
um universo à parte, que se plasma na identidade de pertencimento e na linguagem cotidiana dos seus
habitantes: “Não falam que moram em Bertioga, dizem que moram na Riviera, (como num município à
parte)”, diz o dirigente de outra associação. E como um município à parte (virtualmente), a Riviera
seria identificada enquanto um modelo ideal de cidade, onde tudo funcionaria corretamente, por
oposição ao município real de Bertioga, gerido pelo Poder Público.
Além da arrecadação de impostos, o bairro seria responsável pela geração de cinco mil empregos
diretos para Bertioga, sem levar em consideração a alta estação “Existe uma sazonalidade enorme.
Dois mil empregos a mais só esse ano, para a época das férias”, afirma nosso entrevistado. A
população residente, é servida cotidianamente por um corpo de 560 funcionários da Associação de
Amigos da Riviera, além de 200 funcionários do supermercado interno, da rede Pão-de-Açúcar (a filial,
segundo nosso interlocutor, mais rentável do Brasil na alta estação), e dos incontáveis caseiros das
residências particulares. Essa profusão de empregos, ademais, promete ser incrementada pelos
projetos de expansão futura da Riviera de São Lourenço: faltariam ser construídos ainda dez a doze
prédios, fora os condomínios de loteamento. Também existe o projeto de construção das habitações
de baixa renda, para “a comunidade de sustentação” da Riviera. Seriam construídas 500 unidades de
residência, voltadas aos funcionários internos, com o intuito de diminuir os custos operacionais. As
habitações de baixa renda ficariam perto da rodovia Rio-Santos – porém ainda dentro da área do
Condomínio -, onde o valor de mercado dos terrenos é menor. Parte das unidades para população de
baixa renda, também seriam disponibilizados para não funcionários da Riviera.
A visão sobre o significado da Riviera para a arrecadação municipal e na geração de empregos para a
população da cidade, é amplamente compartilhada pelos mais diferentes segmentos entrevistados.
Além disso ela é percebida com um território que gera poucas despesas para o Município.
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

Indagado sobre as possibilidades de integração da população de baixa renda com a população de alta
renda no bairro da Riviera, nosso interlocutor respondeu que “tem que ter uma integração entre o
pessoal da alta e da baixa renda. É um trabalho conjunto com a Secretaria de Meio Ambiente, inclusive,
para que haja educação ambiental nas escolas desde cedo. Assim, quando eles [da baixa renda]
crescerem, vão saber trabalhar aqui direito. Antes, quando vinham os peões pra cá, do nordeste, eles
achavam que podiam entrar aqui e caçar!”! Seria imprescindível, sim, a integração entre as populações
de baixa e de alta renda, na medida em que essa integração contribua com o aprimoramento dos
serviços da Riviera de São Lourenço.
Esta visão de integração, em certa medida, é compartilhada por quem enxerga a Riviera desde outro
lugar social e outro ponto de vista: “São níveis muitos distintos, com um abismo de desigualdade no
meio, que impede qualquer tipo de relação que não a de patrão e empregado”, diz o dirigente de outra
organização.
Algumas falas dos participantes das discussões em grupo revelam esse abismo indicando que no geral é
apenas na condição de trabalhadores que eles acessam o condomínio e usufruem de alguns serviços ali
ofertados. A Riviera parece oferecer tudo o que se almeja, mas o usufruto tende a estar fora do
alcance bolso da maioria dos moradores de Bertioga.
“Eu vou para Riviera porque eu faço serviços de diária. Então, eu conheço mais assim. Mas, frequentar,
frequentar, não. Acho que fui duas vezes só”
“A gente vai mais pro Guarujá porque a Riviera é puxado. A Riviera é mais pra trabalhar mesmo, pra
gastar não dá. É tudo muito caro”
O nosso interlocutor defendeu ainda a filosofia embutida no modelo de urbanização da Riviera,
pautada pela ‘democratização’ das praias (livre acesso), da brisa (espaçamento entre os prédios) e do
bairro (livre circulação). Não foram apontadas contradições com relação à existência de câmeras de
segurança nas ruas e nas praias, ou à inexistência de praças de convivência na Riviera (o único espaço
de convivência seria o shopping ou a própria praia). Na defesa da democratização do espaço, ele
afirma: “Cria-se uma imagem de que aqui pode tudo [na Riviera], e não é bem assim. Aqui, é bem
regradinho. Primeiro que aqui é um bairro. Existe muita falta de conhecimento, inclusive, de quem
mora na cidade. A Riviera é um bairro da cidade, um loteamento aberto, faz parte da cidade. Quando
as pessoas entram, acabam se corrigindo, porque tem vigilância”.
A percepção de interlocutores que vivem fora da Riviera, em bairros de Bertioga, dialoga com a
concepção de espaço democrático, aberto e de livre circulação: “Lá dentro, tem muitas restrições,
muitas regras... Ônibus de turismo só com autorização. Muitos guardas... A Riviera é um lugar para
trabalhar, os ônibus entram, circulam e voltam. Não é para curtir a praia... Muito pouca gente da
Riviera vem para cá, conhecer o município, viu? O centro... a gente acha que isso agora vai mudar,
porque vão construir os prédios na orla... Vêm para consumir alguma coisa, para comprar peixe... Os
flats e condomínios [da Riviera], que dão aquela mordomia, chegaram a receber um processo (não sei
se teve continuidade), porque estavam privatizando as praias... As pessoas que moram ali por perto [no
bairro Indaiá], os farofeiros, iam lá, e chegou a ter um conflito... É muito próximo o bairro Indaiá, onde
moram as pessoas simples, de onde mora a elite, digamos assim, né... A divisão são os guarda-sóis e as
cadeiras da Riviera”, avalia uma liderança. Nas palavras do outro dirigente, “a Riviera é um outro
mundo, um mundo à parte”. E continua: “Lá freqüentam craques do futebol, gente famosa,
milionários. Para a classe baixa lá é um polo de trabalho que pode ser inclusive promissor, trabalhar
como caseiro de uma família rica pode garantir uma boa condição de vida”.
Apesar da fluidez das fronteiras territoriais, parece ficar clara a segregação social entre o restante do
município e o bairro da Riviera, identificada pela interlocutora através de elementos de cerceamento e
de restrição impostos ao cotidiano da convivência entre os dois territórios. “Apesar do bairro ser
aberto e livre à circulação, quem não tem casa na Riviera só se relaciona/comunica com os

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funcionários de lá”, finaliza, deixando claro as dificuldades e restrições percebidas por moradores de
Bertioga em relação ao condomínio.
Outros interlocutores entrevistados já não percebem nenhuma contradição na forma de urbanização
da Riviera e a enxergam como algo positivo: “A Riviera é aberta: os trabalhadores daqui vão trabalhar
lá, pessoas de lá vêm estudar na cidade, aqui. É uma cidade dentro da cidade”.
Segundo nosso interlocutor no condomínio, a Riviera de São Lourenço ainda não explorou toda área
para os empreendimentos imobiliários. Existe uma terceira etapa de expansão em curso, cujos projetos
foram recentemente embargados pelo Ministério Público. A Sobloco teria seguido o regulamento e
realizado o EIA-RIMA e o licenciamento ambiental. O projeto da terceira etapa de expansão já estaria
adiantado quando o Ministério Público deferiu o embargo: “Não se sabe por que embargaram. Já
tínhamos colocado água, luz, rede de esgoto, sarjeta... Agora, querem que volte às condições normais...
Mas não tem mais como! Foi licenciado pelo Estado, por um corpo técnico de 40 pessoas!”. O prejuízo
e a perda teriam sido enormes, até para a Prefeitura, e cerca de mil pessoas teriam ido às ruas para
protestar. No fim, o dinheiro teve que ser devolvido às pessoas que compraram os lotes ainda na
planta, porque o processo judicial deve levar ainda uns quatro anos para ser resolvido. Para nosso
interlocutor, a questão do meio ambiente tem sido tratada de forma diferente pela justiça nos últimos
anos, sem entrar em maiores detalhes. Um interlocutor de outra organização respalda a compreensão
do condomínio, não identificando contradições com a preservação do meio ambiente.
Vendo numa perspectiva do desenvolvimento de Bertioga de uma forma geral pode-se dizer que na
visão de grande parte dos entrevistados a Riviera de São Lourenço é a Bertioga que deu certo. E deu
tão certo que acabou por ofuscar e se sobrepor ao município. Menciona-se, com um forte viés crítico,
que o condomínio é mais conhecido e prestigiado do que o próprio município. Lamenta-se que
Bertioga tenha pouca projeção no cenário turístico paulista, passando despercebida não obstante ser a
primeira praia do tão valorizado litoral Norte. Com uma infraestrutura urbana e turística aquém das
expectativas e defasada em relação às demais cidades da região, Bertioga por vezes é associada a uma
“pessoa velha, acabada, sentada numa cadeira de rodas deixando a vida rodar”. Sua imagem mostra-
se desgastada junto ao segmento pesquisado, que em tom de lamúria comenta: “nunca vejo ninguém
falar bem de Bertioga”.
“Entrou em São Sebastião, você já vê a diferença. Não só em infraestrutura pra cidade, mas a
satisfação do munícipe que está andando lá. Muda o asfalto, muda a paisagem, muda o ponto do
ônibus, muda tudo”
O retrato traçado do município parece repercutir na autoestima do bertioguense, no mais das vezes
inconformado em morar em um município com tanto potencial até agora desperdiçado; um potencial
que deveria ser explorado de forma responsável e se reverter em melhorias nas condições de vida da
população.
“Bertioga é um paraíso, uma cidade que tem tudo para dar certo, só que as pessoas não estão sabendo
como cuidar, como explorar”.
“Tem uma renda maior do que muitas cidades conhecidas aqui, mas, infelizmente, não é desenvolvida”

4.2.3. O Turismo – Vocação do Município


Assim como o turismo se constitui numa possibilidade de desenvolvimento amplamente consensual
em Bertioga, a percepção de que a cidade ainda não lançou bases sólidas e adequadas para o mesmo é
outro consenso. Esta contradição se evidencia nas entrevistas de diferentes organizações quando
falam do desejo e da necessidade de ser uma cidade onde o turismo seja uma fonte importante e
permanente de renda e, por outro lado, quando constatam a ausência de um projeto de
desenvolvimento capaz de mobilizar o conjunto da sociedade a partir de suas potencialidades
ambientais, históricas, culturais e humanas. A falta de um projeto consistente e planejado de
desenvolvimento através do turismo, segundo interlocutores destas organizações, se evidencia na
inexistência de receptivo qualificado, na falta de infraestrutura adequada, na pouca capacitação e
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qualificação para o turismo, na falta de identidade cultural, na inexistência de uma política para atrair
os turistas ao longo de ano todo, entre outras.
Uma das organizações entrevistadas sintetiza esta contradição ao descrever Bertioga como “uma
cidade estranha, porque pretende ser turística, mas não tem receptivo turístico...” Ela deve ter uma
vocação, um destino diferente do restante da Baixada. Deve sobreviver do turismo ambiental, devido
ao grande número de parques e reservas ambientais. “É o turismo mesmo que tem que ser
desenvolvido, porque Bertioga tem vocação turística, mas não é turística de fato”, finaliza.
Na visão dos moradores entrevistados na pesquisa qualitativa, Bertioga deixa a desejar como cidade
turística. É voz corrente que essa sua vocação não está sendo realizada satisfatoriamente. Segundo
eles, Bertioga tem um enorme potencial turístico, mas pouco se tem feito para fomentar essa atividade
no município. Ao invés de promover iniciativas voltadas a atrair tal público, comenta-se que as medidas
adotadas – como a cobrança de tarifas para o uso de chuveiros/ banheiros na praia e para estacionar
carros na rua da orla - acabam por afugentá-los. A morosidade das obras em curso na orla (calçadão,
pista de skate) reforça essa percepção. A ausência de shows e de atividades esportivas na praia –
estratégia que, segundo os participantes, é utilizada em Santos em prol da população e dos turistas -
contribui igualmente para enfraquecer a competitividade face a outras cidades do entorno.
“Muitos turistas vêm e se arrependem porque Bertioga não propicia nada. Não tem muito a oferecer.
(...) Não tem show, como outras cidades, como Santos que tem recreação com monitores da Prefeitura,
milhares de coisas. Então eles não vêm para ficar, é só de passagem”
"O turista vem e não tem nada para fazer. Fica na praia com o carro com o som ligado porque Bertioga
não oferece nada. (...) Não tem o que fazer em Bertioga. Não tem banheiro para turista, tudo agora é
cobrado. (...) Como uma cidade onde você não tem o que fazer vai chamar turista? (...) As autoridades
precisam investir nisso. Precisam dar opção pros turistas”
“Imagina agora, final de ano, a vergonha que a gente vai passar. Eles começaram essas obras do
calçadão e agora final de ano vai ficar assim sem terminar”
“Aqui não se dá a chance desse turismo fluir em Bertioga”
Outra questão abordada por um dos grupos, e que apresenta estreita conexão com o que foi acima
elencado, refere-se à mudança da centralidade do município. Alguns entrevistados comentam os
investimentos feitos com vistas a deslocar a centro de Bertioga para a Rua 19 de Maio, iniciativa que,
em sua opinião, impactará negativamente o turismo local. Argumentam que o ‘centro tradicional de
Bertioga abriga o píer e construções antigas de grande valor histórico, razão pela qual ele deveria
manter a sua condição de núcleo central da cidade e, enquanto tal, ser objeto de atenção especial
dado o seu alto potencial turístico. Lamenta-se que o deslocamento da centralidade urbana atenda a
interesses do grande comércio, privilegiando esse setor em detrimento da atividade turística, tida
como a vocação ‘natural’ do município.
“O centro de Bertioga era aqui na balsa e foi tirado e jogado para a 19 de Maio. Tudo era no centro. A
Festa da Tainha era no centro. A Festa da Moranga, a Festa da Padroeira dos Navegantes era no
centro. O centro era no canal, onde você tem pescadores, onde tem barco, onde tem o píer. É uma coisa
turística. Lá você tem uma igreja de 1500 e pouco, o primeiro Forte do Brasil... é um centro turístico
onde tem história. Então tiraram o centro que tinha essa fotografia bonita, uma geografia bonita e
jogaram no meio do asfalto lá. A Av. 19 de Maio não tem nada; é uma avenida que só tem comércio
para um lado, comércio pro outro. Hoje Bertioga não tem centro”.
Bertioga oscila entre 45 mil habitantes residentes e 250 mil eventuais durante as temporadas de verão.
Nesse sentido o turismo deveria ser um dos pilares de sustentação dos comerciantes locais. Porém,
segundo relato de interlocutores os comerciantes sofrem para se manter, tendo em vista a
característica sazonal do turismo local, caracterizado pela segunda residência. Além de explorar o
ecoturismo, seria necessário, com a diminuição das construções na Riviera, capacitar a população do

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município que até agora tem sido “uma cidade dos pedreiros” para a atividade turística e qualificar o
receptivo turístico. Ainda seria necessário conhecer os próprios atrativos turísticos e investir no
turismo de serviços no lugar do turismo de segunda residência.
“Os comerciantes sofrem dificuldades para manter seus empreendimentos devido à constante
flutuação dos turistas, que oscilam junto com a alta e a baixa temporada... O governo deveria investir
esforços no ecoturismo... capacitar as pessoas da cidade acerca do patrimônio natural da cidade... criar
novos roteiros turísticos... profissionalizar o receptivo turístico...”.
“Para trazer o turista para cá, é preciso saber como vamos acolher. Se é que queremos ser uma cidade
turística”.
“Aqui nós temos moradores que não conhecem os atrativos turísticos que Bertioga tem. Como vamos
vender a nossa vocação!”.
“Investir no turismo de serviços, que gera emprego e renda o ano inteiro, ao invés do turismo de
segunda residência...”
Um dos objetivos de qualificar o turismo seria para “trazer turistas para uma permanência mais longa
na cidade e não só nos períodos de alta temporada”.
Os grupos de pesquisa chamam atenção para o ônus que o turismo hoje praticado traz para os
moradores da cidade. Por não ter nada a oferecer aos turistas, além das belas praias, Bertioga acaba
por atrair um público “farofeiro”, que pouco gasta na cidade e, consequentemente, pouco impacta a
economia local. Na falta de um maior dinamismo do setor turístico, capaz de ampliar e qualificar as
oportunidades de trabalho, o discurso dos participantes - todos eles moradores da área expandida do
centro (segmento privilegiado nessa pesquisa) - tende a enfatizar o ônus decorrente desse perfil de
cidade: custo de vida alto, em especial da moradia, falta de água e de luz na temporada de verão e as
restritas opções de trabalho.
“O turismo aqui é bem fraquinho. Aqui o que vem é farofeiro, turista de um dia que não traz nada para
a cidade, que não gasta na cidade. Só traz sujeira”
Contrastando com a percepção dos grupos de pesquisa, representantes de grupos organizados
apontam o turismo de um dia como um potencial a ser explorado, pela proximidade de Bertioga com
outros municípios e pelas potencialidades presentes no município, como forte presença de
nordestinos, promovendo festas nordestinas e inclusive explorando o grande índice pluviométrico.
Faltariam políticas públicas locais, tanto para o munícipe quanto para o turista, para não segregar a
população residente no município.
“Nós tivemos uma política que impediu o turismo de um dia. Mas, sendo perto dos outros municípios, o
turismo aqui é de um dia. Falta a intervenção do Estado, como indutor das políticas públicas locais...”
“Necessário acabar com o preconceito e segregação do munícipe em relação ao turista”.
“Melhor que Bertioga, só Bertioga com chuva”, como slogan para atrair turistas.
Outra potencialidade turística apontada como importante por uma das organizações foi a de pesca
esportiva, que já envolveria atualmente “pescadores artesanais que alugam barcos e levam os turistas
para pescar”, gerando renda para as suas famílias. Na perspectiva de resgate de uma das identidades
culturais de Bertioga, o apoio e o resgate da pesca artesanal podem se constituir em elemento
importante para um turismo sustentável. Nesta perspectiva foi levantado por este segmento a
necessidade de investimento em “ponto de venda para o pescado destinado aos pescadores (sem
atravessadores), atracadouro para as suas embarcações e estaleiro para os barcos dos pescadores,
fábrica de gelo próprio dos pescadores”.
A cultura como elemento para alavancar o turismo, foi abordada na pesquisa de opinião e por
representantes de organizações na oficina. No geral, ao abordar o tema da cultura, além de apontar a
cultura como um elemento importante para impulsionar o turismo, fala-se sobre as festas tradicionais
de Bertioga: Festa da Tainha e do Camarão na Moranga, denotando o forte traço caiçara da cultura
local. A Festa do Índio, outro evento típico da cidade, homenageia a comunidade indígena localizada
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em Boracéia. A festa foi apontada como um elemento importante para o turismo em Bertioga.
Algumas menções a esse segmento referem-se à degradação dos seus costumes e à baixa qualidade do
seu artesanato. Quanto à cultura caiçara, por vezes lamenta-se que ela esteja gradativamente
desaparecendo. Nesse caso, a fragilidade dessa cultura parece inscrita na mesma chave de leitura que
aponta o pouco que se tem feito para alavancar o enorme potencial turístico do município. Seria
necessário resgatar a “identidade bertioguense” da população, que foi se perdendo com o crescimento
da cidade e com a chegada das grandes construções. Entre os entrevistados sensíveis a essa questão,
para além da tradicional cultura caiçara, faz-se importante também resgatar os traços indígenas que
caracterizam a região.
“Cultura, em Bertioga, é algo que não se fala e é pouco desenvolvida, embora Bertioga seja uma das
cidades mais importantes para a história do Brasil”.
“Falta incentivar a cultura. Temos pontos turísticos, mas não dispomos de infraestrutura de cultura”.
“Quem é o morador de Bertioga? É preciso resgatar a identidade cultural, quais são os grupos sem
preconceito. O morador precisa se conhecer”.
“A Festa do Índio é uma solução para Bertioga e a Aldeia Ribeirão Silveiras é muito bem-cuidada e
precisa continuar sendo”.
“Seria importante resgatar essa história dos índios, o porque das palavras de bairro ou o porque do
nome Bertioga, de onde veio, qual a origem... ”
“Não existe mais canoeiro porque morreram todos aqueles que faziam canoa. Não passaram pros netos
e hoje não tem mais”
“Hoje você pega a faixa etária de 15 anos para cá e você pergunta o que é a Festa da Tainha e ninguém
sabe, Camarão na Moranga, ninguém sabe. Tem gente que nunca foi no Forte...”
Cabe mencionar que o mesmo discurso que ressalta a cultura caiçara chama atenção para o
preconceito existente contra esse segmento. Segundo os entrevistados, é voz corrente que o caiçara é
preguiçoso e indolente, razão pela qual é freqüentemente preterido no mercado de trabalho.
“Aqui em Bertioga se você falar que é daqui, eles até fazem a ficha pra não dispensar, mas não
chamam porque falam que os caiçaras não querem trabalhar”

4.2.4. Potencialidades e Desafios para o Desenvolvimento Sustentável


No geral, os participantes dos grupos compartilham a sensação de que Bertioga vem perdendo
oportunidades de reverter o quadro em que se encontra e de alcançar outro patamar de
desenvolvimento.
No entanto, se as vozes convergem ao se avaliar a situação da Bertioga atual, o mesmo não acontece
ao se pensar o seu futuro. Nesse caso, os grupos e organizações da sociedade civil manifestam visões e
expectativas que não caminham necessariamente na mesma direção.
A idéia de desenvolvimento a princípio não se restringe ao crescimento, mas também inclui ”cuidar da
cidade, trazer empresas, crescer. Melhorar as ruas, dar opção para as pessoas que moram ter alguma
coisa para fazer, é saúde, esporte...”.
Para as organizações participantes da oficina é necessário definir o que se entende por
desenvolvimento sustentável: “nem sempre o desenvolvimento sustentável possui um sentido único”. O
desenvolvimento não pode ter só a perspectiva econômica, porém também a dimensão
socioambiental. O desenvolvimento deve ter como sujeito a população de Bertioga, que deve ser
incluída no crescimento econômico para ser sustentável. Portanto desenvolvimento sustentável
pressupõe inclusão social e participação da população. Não há desenvolvimento sustentável através do
turismo se o morador não pode desfrutar da sua cidade. Portanto, desenvolvimento sustentável
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pressupõe investimentos e políticas públicas para todos os moradores da cidade e não só para o
turista.
“Não pode ser desenvolvimento econômico só. Tem que ser um tripé: econômico, social e ambiental.
Não é fácil, mas tem que caminhar junto”.
“A gente vai crescer, não vai? Então, que o bertioguense participe desse processo”.
“O Pré-sal vai trazer desenvolvimento sustentável para o município? Não adianta ter uma economia
excelente, em números, mas uma população pobre, sem moradia”.
“Se vamos ter desenvolvimento econômico, vai vir muita gente. Vai ter expansão econômica: para que
lado ela vai? Porque não dá para ter só construção civil, senão não vai ter desenvolvimento
sustentável”.
“Não há pertencimento dos moradores. Tudo é feito para o turista. Cerveja é cara. A cidade não é
desfrutada pelo morador. O morador não é ouvido”.
“Não existe uma preocupação do Poder Público com investimentos voltados ao morador. Na Riviera é
tudo reciclado. A diarista desce de um ponto de ônibus e anda 30 minutos para chegar ao destino.
Turista em época de temporada recebe transporte de graça em vários pontos da cidade”.
Segundo as organizações participantes da oficina, as perspectivas de desenvolvimento em Bertioga
ainda são expectativas. Porém eles elencam uma série de desafios que deveriam ser equacionados,
para fazer do desenvolvimento sustentável uma perspectiva viável: repensar o “modelo de
administração pública” para que cumpra a sua “função social”; não permitir a “privatização dos
espaços públicos como as praias”; resolver o problema do déficit habitacional; qualificação voltada ao
turismo; “empoderamento da população” para o controle social; “democratizar as relações de poder”
na cidade; aproveitar o potencial representado pela grande população de jovens; aumento da
arrecadação para transformar em “progresso” com políticas públicas.
Os grupos organizados e os participantes da pesquisa apontam diferentes caminhos para o
desenvolvimento de Bertioga, enfatizando determinadas características e potencialidades a serem
exploradas em cada uma destas perspectivas.
É possível vislumbrar alguns ‘modelos de Desenvolvimento’, não necessariamente excludentes entre si.
Bertioga: cidade com qualidade de vida, meio ambiente preservado, turismo sustentável com
Ecoturismo
Esta opção de desenvolvimento enfatiza a opção por um caminho que preserve o meio ambiente, sua
característica natural mais importante, tendo em vista a alta porcentagem de mata atlântica e áreas de
preservação ambiental do município. Nesta visão “a cidade deveria investir e valorizar a Mata Atlântica
e a natureza dos parques e áreas de preservação ambiental que prevalecem em 80% de seu território
municipal”. Nesta perspectiva é valorizado o “Selo do Programa Estadual Verde-Azul”, referência
recorrente nas entrevistas, como conquista a ser mantida pelo município e que serve para imprimir a
marca de Bertioga enquanto município de “qualidade de vida e de meio ambiente”. Isso significaria que
“Bertioga tinha que trabalhar algo na área de serviços sustentáveis. Não dá para trabalhar com
indústria aqui, não dá para a gente mexer aqui. Tem um dos melhores índices de qualidade ambiental.
Bertioga faz parte dos municípios Verde Azul”, enfatiza um dos interlocutores. Nesta mesma direção
outro interlocutor manifesta que “queremos é que a Petrobras considere aqui uma sala de visitas,
porque polos operacionais a Petrobras já tem. Ela tem que olhar para Bertioga, dentro de seus projetos,
nesse sentido: qualidade de vida e de meio ambiente”.
Esta opção de desenvolvimento, portanto, exclui o modelo baseado na indústria, tendo em vista que,
além dos inconvenientes ambientais, a cidade não teria mão de obra qualificada para tal: “Queremos
sempre preservar o meio ambiente. Todas as cidades estão relacionadas à Petrobras em termos de
trabalho operacional, o que demanda mão de obra super qualificada. Bertioga não tem.” E continua
que “num modelo de desenvolvimento baseado na Indústria viria toda a mão de obra de Cubatão
(soldador, químico, metalúrgico), e Bertioga entraria apenas com profissionais como vigilantes,
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faxineiras etc. Se tornaria uma nova Macaé”. Várias organizações relataram que participaram da
mobilização contra a venda do Paço Municipal de Bertioga para uma subsidiária da Petrobras, para a
instalação de indústria de fabricação de plataformas para a Petrobras, o que gerou um grande debate
na cidade, segundo os moradores, ajudou a impedir a sua concretização. A localização do paço
municipal era estratégica, à margem do rio Itapanhaú, que serviria de via de escoamento das
plataformas até o mar. Os “impactos ambientais ao mangue e à vida animal que ali vive e se
desenvolve e o trânsito constante de carretas transportando as pesadas plataformas pelo meio da
cidade” foram as justificativas levantadas por um dos nossos entrevistados.
Nesta perspectiva, a sustentabilidade seria o eixo em torno ao qual Bertioga deveria consolidar a sua
imagem no litoral, valorizando a sua potencialidade mais importante, sua bela natureza, “explorando
trilhas, cachoeiras” e de forma responsável, “explorar o mar, a serra e os rios para o desenvolvimento
de atividades esportivas”. Inclusive seria interessante “vender a imagem” do município (marketing)
como “Suíça brasileira” por causa dos 80% de área preservada, dando-lhe a visibilidade necessária para
poder ser considerada como “patrimônio da humanidade” pela ONU.
No olhar deste dirigente, isso exigiria esforços e investimentos do Poder Público no ecoturismo, na
criação de novos roteiros turísticos, na capacitação de monitores sobre o patrimônio natural da cidade
e na profissionalização do receptivo turístico. Este esforço de qualificar o turismo teria como um dos
seus objetivos “trazer turistas para uma permanência mais longa na cidade e não só nos períodos de
alta temporada, fazendo do turismo uma fonte permanente de receitas”.
Esta perspectiva evidencia o denominado “Ecoturismo” como uma possibilidade importante de
desenvolvimento sustentável, dadas as características naturais e culturais de Bertioga. Esta discussão
surge na oficina com a sociedade civil organizada e nos grupos de pesquisa.
Na discussão dos grupos de pesquisa, a temática emerge no debate sobre o futuro de Bertioga,
especialmente quando discutem o projeto da Riviera 2 e também a possível construção de uma marina
no canal para barcos de turismo.
No que refere ao primeiro caso, comenta-se que tal projeto está previsto para ser implantado no
último refúgio ainda virgem do litoral paulista. Esse empreendimento parece ter sido objeto de uma
audiência que, segundo comentários, gerou duros embates entre seus apoiadores e críticos. Num dos
grupos de discussão realizados, esses diferentes posicionamentos também vêm à tona, ainda que com
menor intensidade. Cabe mencionar que, neste caso, os argumentos dos entrevistados contrários ao
projeto acabam por se sobrepor aos seus tímidos defensores. Comenta-se que a Petrobras interveio no
caso, impedindo o desfecho favorável aos interesses do mercado já que o empreendimento ficaria em
área próxima a uma torre da estatal. Ao mesmo tempo, pondera-se que será difícil conter o setor
imobiliário, dado o seu poder econômico e o desequilíbrio das forças atuantes nesse processo.
“O assunto do momento era que a praia de Itaguaré, que é a única praia virgem do litoral, a Riviera ia
comprar para fazer a Riviera 2. E aí que veio esse conselho e foi perguntando na mesa o que o pessoal
achava e para 80% estava bom porque ‘eu vou trabalhar’. Então, quer dizer, vai acabar com a
natureza, com a praia, porque vai ter emprego. Só que o filho dela vai viver do que? Isso está em
tramitação, mas o pessoal do bairro não vai conseguir suportar. Em São Lourenço, o pessoal chegou ao
ponto de falar: ‘quanto você quer no seu terreno de frente para a praia? Um milhão? Amanhã meu
advogado está falando com você (...) é muito dinheiro, eles são muito fortes financeiramente (...) são
várias associações de poder aquisitivo absurdo (...) fizeram várias mobilizações, veio o Greenpeace,
mas deu aquela abafada... é muita grana”.
“O pessoal de São Paulo, os maiores, queriam fazer uma marina aqui... inclusive tramita-se que eles
vão mudar a peixaria, a balsa lá do canal...”
“Daí sim gera turismo, um turismo de qualidade”

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“Mas poderia fazer outras coisas sem destruir tanto (...) o impacto que a marina vai causar é absurdo
(...) dá pra ter outras fontes de renda sem ter a marina. Não acho a marina legal porque ali é a entrada
do canal, aí a água vai pro mar (...) vai matar nossos caranguejos, nossos mariscos, nossas ostras,
nossos peixes. Não é interessante. (...) O berçário é o mangue. Então você vai colocar a marina e você
vai ter toneladas de óleo, varias toneladas de gasolina naval jogadas no mar”.
As discussões em torno da Riviera 2 e da construção da marina deixam entrever uma outra visão sobre
desenvolvimento e sobre o futuro que se quer para Bertioga. E aqui estamos falando de um segmento
que aposta e defende um caminho que busca conciliar a expansão da atividade turística com a
preservação ambiental. Essa linha de pensamento, presente nos grupos de pesquisa e também na
oficina com organizações sociais, mais próxima do convencionalmente denominado “ecoturismo”,
defende a exploração de um “nicho de mercado”, capaz de desencadear um círculo virtuoso e
reposicionar o município no circuito turístico regional, capaz de atrair, inclusive, turistas estrangeiros.
Para isso seria necessário melhorar a infraestrutura, com, por exemplo, um sistema viário integrado.
Segundo esse segmento, Bertioga tem um patrimônio ambiental e histórico-cultural e este diferencial
pode e deve ser explorado de maneira responsável e não predatória. É entre esse segmento que
prospera a discussão sobre o desafio de compatibilizar desenvolvimento e preservação ambiental.
“O potencial de ecoturismo é grande, mas falta infraestrutura, como para os traslados. Isso facilitaria a
vinda de turistas estrangeiros. Turista de São Paulo não basta. O sistema viário não é integrado. Além
dos parques nós temos áreas ambientalmente protegidas dentro da cidade. Nossa identidade é
heterogênea, não basta resgatar só a história anterior”.
No escopo dessa discussão, há referências à usina de Itatinga, considerada parte do patrimônio
histórico-ambiental de Bertioga, além de ser um grande contribuinte (junto com a Riviera) para os
cofres municipais.
“Eu acho que as duas coisas podem caminhar juntas. Dá para crescer sem degradar (...) porque aqui
você tem trilhas ecológicas, as cachoeiras, você tem o canal de Bertioga, lá tem três navios da época de
1500 afundados, inúmeras coisas (...) a própria Usina já é um passeio. (...) e as festas culturais podem
trazer mais pessoas para cá (...) um grupo de dez pessoas que visitassem as cachoeiras ia dar emprego
pro canoeiro levar eles lá, e ele vai contando a história daqui”
“Você vai ter que colocar numa balança e deixar o povo decidir”
Neste modelo de desenvolvimento, tendo em vista ampliação de recursos no litoral com a exploração
do pré-sal e outros investimentos, seria importante que houvesse, além do investimento no
ecoturismo, incentivo à criação de “Centros de Formação, Institutos de Pesquisa, Universidades
Públicas”, compatíveis com um desenvolvimento sustentável. É bastante consensual entre os
segmentos organizados entrevistados, que o papel da Petrobras no desenvolvimento de Bertioga deva
se dar em sintonia com as características naturais e as potencialidades do Município.
Bertioga: destino para moradia de qualidade (nos grandes condomínios residenciais) e turismo de
qualidade (restaurando e verticalizando a orla da cidade)
Esta perspectiva de desenvolvimento propugna pela verticalização da orla na cidade como inevitável e
pela continuidade e ampliação dos condomínios voltados para a alta renda como forma de ampliar o
veraneio e o turismo no município, afirma uma associação entrevistada: “Várias empresas já
compraram terrenos, para fazer a verticalização na praia... eu acho inevitável, é um bom turismo, é
bom para a vocação econômica de Bertioga. O que fazer? O município é turismo, hotelaria... Tem que
trazer essas pessoas de São Paulo”. À esta proposta de verticalização se contrapõem entidades
ambientalistas: “Tem ambientalista que não quer que se faça isso, mas tem que fazer, né...”, reforça o
mesmo interlocutor. A ampliação e a construção dos condomínios residenciais voltados para a alta
renda no Município não teriam contradições com a preservação do meio ambiente e tampouco na sua
concepção urbanística. “Todo mundo diz que a Riviera é destruidora da mata, mas não é nada. Está
tudo lá, organizadinho, tem mata...” e “a Riviera tem prêmios internacionais por conta da implantação
urbanística”.
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

Esta concepção de desenvolvimento guarda uma coerência com a tradição do Município em termos de
crescimento econômico ao longo da sua história, onde a construção civil tem sido o carro-chefe.
Tal concepção parece se contrapor aos defensores do modelo de desenvolvimento “cidade com
qualidade de vida, meio ambiente preservado, turismo sustentável com Ecoturismo”. Entre eles teme-
se que, se nada for feito, Bertioga acabe por repetir a trajetória de Guarujá, município outrora
conhecido como a Pérola do Atlântico. A flexibilização da legislação urbanística de Bertioga, que
liberou a construção de prédios na orla, é vista como o início de um processo que se quer evitar.
“A construção civil vem crescendo muito de uns 15 anos para cá porque eles liberaram a parte da
orla para fazer prédio. Isso aguçou muitos investidores em São Paulo (...) Bertioga vai acabar como
Guarujá. Vai estruturar só a frente. Você vai passar a João Ramalho e vai estar tudo abandonado.
Em Guarujá aconteceu há 15 anos o que está acontecendo com Bertioga hoje...”
O modelo de desenvolvimento baseado nos grandes condomínios para segunda residência, adotado
em Bertioga, foi alvo de debate e críticas entre as organizações participantes da oficina. Segundo eles
este modelo traz ilegitimidade e não propicia a cidadania, pois os proprietários destas residências não
participariam da vida da cidade, além de não propiciar acesso à moradia para a população pobre da
cidade. A avaliação é que este modelo baseado na construção civil não propicia um desenvolvimento
que seja sustentável, inclusive por que restringe a oferta de trabalho. Apontam por último que a
dependência exclusiva desse tipo de desenvolvimento envolveria o risco de que os proprietários dos
imóveis pudessem ir embora, deixando a população sem os empregos nestes condomínios.
“Não adianta ter uma economia excelente, em números, mas uma população pobre, sem moradia.
Grande problema nas cidades da região: segundas residências das cidades balneárias. Trazem
muitos impostos, mas não geram cidadania, porque as pessoas que pagam os impostos não estão
aqui, para reivindicá-los. Lógica da ilegitimidade”.
“É urgente uma regulamentação para construção de obras de segunda residência. Nós temos
fartura de casas. Por que a lei enfatiza a infra onde estão as moradias de veraneio. Não existe
loteamento para os moradores de baixo”.
“Se vamos ter desenvolvimento econômico, vai vir muita gente. Vai ter expansão econômica: para
que lado ela vai? Porque não dá para ter só construção civil, senão não vai ter desenvolvimento
sustentável”.
“Nós tivemos uma falha do passado e hoje estamos vivendo as consequências disso. O jovem
quando se forma, não tem caminho aqui. Não há muita área de atuação fora da engenharia civil”.
“Temos uma distorção grande em relação à arrecadação. É uma cidade teoricamente do emprego e
também do desemprego. 42% da arrecadação monstra vem do IPTU de casa do veranista. A hora
que este veranista se encher, ele vai embora e deixa o campo de trabalho vazio. Vamos chegar a
uma situação muito próxima do que se chegou no Guarujá”
Nesta perspectiva, entrevistados levantaram a possibilidade de Bertioga tornar-se “local de moradia e
de lazer, com qualidade de vida, para os funcionários da Petrobras”, tendo em vista a sua localização
estratégica no centro do litoral paulista e a sua qualidade ambiental.
Bertioga com Polo Industrial, gerador de empregos alavancados pela Petrobras.
Esta opção de desenvolvimento foi explicitada por lideranças de organizações dos segmentos
populares e nos grupos de pesquisa que desejariam ampliar as opções de trabalho e renda,
historicamente dependente da construção civil e atualmente restrita à Riviera de São Lourenço e a
Prefeitura. Há uma percepção de que o polo de desenvolvimento deveria cuidar da ‘sustentabilidade’,
em coerência com um discurso amplamente difundido no município e que se traduz no fato de a
cidade ter conquistado o selo VerdeAzul.

91
Ao explicitarem a sua visão acerca do desenvolvimento desejável para a cidade, referiram-se ao fato, já
anteriormente abordado, da venda do Paço Municipal para empresa que construiria plataformas para
a Petrobras, dizendo que o Partido Verde, a Agenda 21 e moradores antigos da cidade haviam se
posicionado contrários. Na sua visão, porém, “seria interessante, porque criaria um polo, com um
salário bem melhor, que pagaria mais do que hoje na Riviera”, o que significaria “mais possibilidade de
crescer e não só na construção civil, que é só o que tem agora, né... que não seja poluente, porque a
gente tem o selo VerdeAzul... tem que diversificar”, referindo-se à economia do Município.
Há uma crítica à Petrobras pela não efetivação do negócio e explicitação da importância de abrir
novas possibilidades e oportunidades de qualificação para à maioria da população mais pobre,
para possíveis futuros empreendimentos da Petrobras: “Eles [a Petrobras] ficariam com o Paço, por
causa da acessibilidade ao mar, mas, em troca, dariam um prédio novo para a Prefeitura, porque
hoje é tudo muito velho, pingando... Eu achei o projeto bem legal. Dava até para fazer um
heliporto... Tem o SENAC aqui, também. Poderia ter mais cursos para soldador, metalúrgico, para
quando chegar a demanda da Petrobras, eles [os jovens] estarem preparados profissionalmente;
sendo que o que eles estão oferecendo agora tem custo, são poucas bolsas. Tem que ser mais
acessível para a população se capacitar. É muito caro hoje”, finaliza a liderança.
“A Petrobras não vinha para cá? Mas Bertioga não tem estrutura... ( ...) Ela ia dar um dinheiro
porque ela queria o terreno da prefeitura. A Petrobras ia comprar um outro terreno pra montar a
prefeitura, para ela ficar ali, que era melhor para eles. O prefeito não aceitou. Pediu muito alto. Até
meu filho estava fazendo curso da Petrobras porque eles estavam pegando gente aqui em Bertioga.
Só que como foi desfeito o negócio, acho que ela foi para Santos. (...) Foi para Santos e eu perdi,
porque eu estava com planos de me encaixar lá. (...) Era uma coisa que ia gera muito emprego (...)
Bertioga ia crescer muito (...) mais do que a Riviera porque ia dragar o canal, ia vir embarcação
grande (...) ia evoluir (...) ou seja, Santos tem a Petrobras e Bertioga não tem nada (...) Bertioga
perdeu e a gente é que está perdendo ”
A força da imagem da Petrobras sustenta essa vertente de desenvolvimento, almejada sobretudo por
quem reivindica oportunidades de crescimento profissional.
Para além dessa parcela que atribui à estatal o papel de propulsora do desenvolvimento local, cabe
destacar que a Petrobras é altamente valorizada por todos os entrevistados: pelo número e qualidade
dos empregos gerados, pelo seu apoio a projetos relevantes e pela sua responsabilidade ambiental.
Falar em Petrobras é falar em “emprego, estabilidade, oportunidade, tecnologia, dinheiro, potência,
trabalho, investimento em infraestrutura”.
Os empregos dessa estatal são bastante prestigiados e desejados. Pode-se dizer que a Petrobras
dialoga com as expectativas de uma inserção produtiva que possibilita um crescimento profissional;
empregos socialmente valorizados e não sazonais, categoria que parece escassa no município.
Independente dos distintos posicionamentos quanto ao futuro desejado para Bertioga, no geral,
impera a sensação de que o município não está preparado para abrigar um empreendimento da
estatal. Frustra~]ao em relação à instalação da Petrobras é um forte sinalizador. Na visão dos
entrevistados e dos participantes da discussão em grupo, nem o Poder Público, nem a população, nem
a infraestrutura da cidade atendem aos requisitos necessários para sediar tal investimento, o que,
como vimos, constitui-se em uma “perda”. Ter uma unidade da Petrobras no município faz diferença.
Santos e São Sebastião são exemplos disso.
No que toca ao Poder Público, entende-se que ele não vem utilizando os royalties pagos pela Petrobras
para dotar a cidade de infraestrutura necessária para comportar a magnitude dos seus
empreendimentos. A população, por sua vez, não tem qualificação necessária para atender às
exigências requeridas.
“Ela vende óleo para o mundo interior. Então, é uma empresa que está sempre girando e se viesse
para cá faria Bertioga girar também”
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

“Se ela viesse, ia trazer investimento, só que ia trazer um investimento que Bertioga ainda não está
preparada (...) começa pelo asfalto. O asfalto nosso não aguenta carga pesada (...) se ela vem,
Bertioga não tem estrutura para receber todo mundo, funcionários, veículos, porque vai trazer
pessoal de fora porque Bertioga não tem pessoal capacitado (...) para empresa que quer investir,
ela não vai investir numa coisa que ela tem dúvida. Ela vai investir onde já está dando certo, caso
de Santos”
Ainda que os entrevistados apontem para um modelo com industrialização, gerador de empregos e
novas oportunidades, tem a percepção das dificuldades inerentes à esta perspectiva. Neste sentido
apontam que “devia investir no turismo. O turismo hoje tá parado. A única opção, por causa dessas
demandas de preservação do meio ambiente... [seria] um turismo totalmente sustentável. Tinha até
uma idéia de um teleférico, lá na prainha do Guarujá...”.
Nesta perspectiva há uma percepção de que a exploração do pré-sal terá um impacto direto no
município e alimenta a visão de que, de alguma forma, a Petrobras pode propiciar novas
oportunidades ao seu desenvolvimento.
Desenvolvimento associado a múltiplas opções de consumo e lazer
Numa outra linha de argumentação, há quem associe, ainda que indiretamente, desenvolvimento à
expansão das oportunidades no que toca, sobretudo, ao lazer. E nesse caso, a ideia de
desenvolvimento parece estar relacionada a certos ícones de consumo e “lazer” tais como Mc Donalds,
Habbibs e, sobretudo, shoppings centers. Ícones de modernidade, tais equipamentos tendem a ser
valorizados por segmentos da população de Bertioga que neles identificam sinais de prosperidade e
contemporaneidade. Esse tipo de postura e expectativa já foi registrado em pesquisas anteriores
realizadas junto a moradores de outros municípios do Estado de São Paulo.
“Eu gosto de Bertioga, mas sinto falta de opção de ter o que fazer, de ter um shopping, uma casa de
show (...) um Habbibs, um Mc Donalds (...) aqui tinha um shopping e fecharam” (Gr1)
Pode-se dizer que as perspectivas de desenvolvimento de Bertioga alinham-se e convergem no sentido
de reafirmar e potencializar a sua vocação turística natural. A construção civil e o comércio estão em
expansão na cidade, mas sua dinâmica, aos olhos dos entrevistados, parece atrelada à atividade motriz
do desenvolvimento local.
É interessante perceber que o município, por ser fortemente caracterizado pela temática ambiental,
constituiu um consenso relativamente enraizado quanto à importância da sustentabilidade –
simbolizado pelo selo VerdeAzul. Porém, por outro lado, os projetos de desenvolvimento capazes de
lançar as bases para a sustentabilidade sócio-ambiental não são consensuais, e estão em disputa.

4.2.5 Considerações e aspectos relevantes


Os aspectos relevantes podem ser sintetizados em algumas idéias-força, que resultam das entrevistas e
debates realizados na oficina com a sociedade civil organizada e das discussões realizadas pelos
moradores nos grupos da pesquisa qualitativa, em relação aos diversos aspectos abordados no
processo de diagnóstico.
As organizações da sociedade civil têm uma incipiente experiência de organização autônoma,
especialmente nos bairros populares. Esta realidade se traduz na existência de movimentos sociais
temáticos, mesmo em torno de questões que se constituem em grandes problemas no município,
como na questão da moradia popular (é onde está sendo gestado um movimento de moradia), onde
há um grande passivo de habitação para baixa renda e de habitações precárias em muitos bairros
periféricos. As mais organizadas são as ONGS, OSCIPS e as entidades de classe, que possuem maior
capacidade de incidência nos rumos do município e nas políticas públicas, principalmente via
conselhos.
93
Os espaços de gestão participativa, principalmente os conselhos, foram retomados e ampliados pela
atual gestão e se constituem em espaços valorizados pelas organizações, que ainda têm uma frágil
capacidade de intervenção na definição dos rumos das políticas públicas em Bertioga.
Nas intervenções e debates acerca da visão do Município e os desafios para o desenvolvimento,
podemos destacar:
Na visão sobre a gestão municipal há uma avaliação mais crítica nos moradores participantes da
pesquisa qualitativa, principalmente em relação às políticas públicas. Já entre as organizações da
sociedade civil há uma avaliação bastante diversificada, que oscila entre o reconhecimento do caráter
mais democrático e aberto à participação através dos conselhos à crítica pela ausência de
planejamento e aos questionamentos em relação à capacidade de gestão e à identificação de relação
clientelista da gestão com a sociedade.
Em relação às políticas públicas podemos destacar três grandes temáticas geradoras de grandes
preocupações e de grande fragilidade: políticas para moradia, políticas em torno à infraestrutura
urbana e políticas na área de geração de emprego e renda.
Nas políticas relativas à moradia, destaca-se o grande déficit habitacional para a população de baixa
renda e a situação precária e irregular nos bairros periféricos. Nas políticas públicas voltadas para a
Infraestrutura urbana, que foi apontada como precária em todo o município e um grave entrave ao
desenvolvimento, se destaca a precariedade ou inexistência de um sistema de drenagem, a insuficiente
captação e tratamento de esgoto, a falta de pavimentação, de banheiros públicos, entre outros.
Quanto mais longe da orla, maior o problema. Nas políticas relativas a emprego e renda, é acentuada a
preocupação com a dependência da prefeitura e da Riviera de São Lourenço, a sensação de que o
município tem perdido oportunidades para novas possibilidades de desenvolvimento e de geração de
emprego, e, com a ausência de políticas para qualificar o município e a sua população, para a principal
alternativa de desenvolvimento, o turismo.
A Riviera de São Lourenço, referência importante para a população e o município, se constitui na
contradição de Bertioga. Por um lado é vista como referência em urbanização, onde tudo funciona,
importante geradora de emprego e fonte de receita para o município. “A Bertioga que deu certo”. Por
outro lado, é percebida com um outro mundo, onde a população de Bertioga não tem acesso, a não ser
para trabalhar. “São níveis muitos distintos, com um abismo de desigualdade no meio, que impede
qualquer tipo de relação que não a de patrão e empregado”
O turismo é a vocação de Bertioga. O turismo é apontado como a principal possibilidade de
desenvolvimento. Porém é consensual que a cidade ainda não lançou bases sólidas e adequadas para o
turismo. É unânime a constatação de que falta um projeto de desenvolvimento para o turismo,
perceptível na inexistência de receptivo qualificado, na falta de infraestrutura adequada, na pouca
capacitação e qualificação para o turismo, na falta de identidade cultural, na inexistência de uma
política para atrair os turistas ao longo do ano todo.
Potencialidades e desafios para o Desenvolvimento Sustentável
Há consenso de que Bertioga precisa encontrar o caminho para o seu desenvolvimento, capaz de abrir
novas possibilidades para o seu futuro.
A expectativa é que o desenvolvimento tenha uma perspectiva inclusiva, onde o morador possa
participar e usufruir da sua cidade. O desenvolvimento é entendido como inclusivo somente se a
população for sujeito do desenvolvimento de Bertioga. Portanto desenvolvimento sustentável
pressupõe inclusão social e participação da população. O Turismo como a principal perspectiva de
desenvolvimento sustentável, também deve ser inclusivo. O morador de Bertioga não somente deve
trabalhar nas atividades turísticas, mas deve usufruir da sua cidade. Ou seja, alavancar o turismo
também com a participação dos moradores.
Em relação ao futuro, porém, há visões e expectativas que não caminham necessariamente na mesma
direção. Há dissensos e interesses diferentes.
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

Identificamos dois principais dissensos e disputas em torno ao desenvolvimento sustentável de


Bertioga:
1. A disputa pelo uso e ocupação do território do município.
De um lado, os interesses da construção civil, voltada para os loteamentos, grandes condomínios
para alta renda e a verticalização crescente em Bertioga, representados por organizações que ocupam
espaços em conselhos estratégicos, como o Conselho do Meio Ambiente. Atualmente tem a
hegemonia no processo de desenvolvimento em Bertioga.
De outro lado interesses que defendem a função social da propriedade, a democratização do uso e
ocupação do solo urbano, como por exemplo para moradia popular. São interesses representados na
Agenda 21, em associações de bairros de baixa renda, em entidades ambientalistas em geral externas
ao município. Encontra-se em processo inicial de organização.
2. Disputa pelo Modelo de Desenvolvimento. Apesar de terem sido apontados ênfases em outras
possibilidades de desenvolvimento, julgamos que os dois modelos encontram-se no dissenso mais
significativo.
De um lado um modelo de desenvolvimento que propõe a ampliação e construção de novos
condomínios de alto padrão e a verticalização da orla, tendo a construção civil como propulsora
desse modelo. O turismo de veraneio é a sua característica. É o modelo atualmente em vigor e
hegemônico no município.
De outro lado um modelo de desenvolvimento que propõe o turismo sustentável e o ecoturismo,
alavancado pelas potencialidades naturais, histórico-culturais e pela qualificação do município para
turismo, através de investimento em infraestrutura, capacitação para o turismo, construção de
roteiros turísticos, resgate da cultura e construção de identidade, melhoria nas políticas sociais,
ampliação do lazer, pesca esportiva, etc. É o modelo proposto majoritariamente pelas organizações da
sociedade civil e grupos da pesquisa qualitativa.
Por fim, não identificamos em Bertioga grandes contradições entre a percepção dos participantes da
pesquisa qualitativa e das organizações da sociedade civil, a não ser na ênfase dada a determinados
aspectos e no grau de informação que estes sujeitos detêm acerca de alguns temas abordados. Tendo
em vista que as organizações da sociedade civil são sujeitos políticos ativos, que interferem nas
disputas e dissensos apontados acima, trouxeram elementos de explicitação e aprofundamento dessas
questões.
Entre as ênfases distintas desses dois sujeitos, poderíamos indicar a percepção do turismo de um dia,
apontado pelos participantes da pesquisa como prejudicial para o município e sua população e
apontada como potencialidade a ser explorada segundo participantes das organizações sociais.

5. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

5.1. Introdução
O projeto “Diagnóstico Urbano Socioambiental e Planejamento de Políticas Públicas”, a ser realizado
nos municípios da Baixada Santista e do Litoral Norte do estado de São Paulo, tem por objetivo
contribuir com a sociedade civil e o setor público, em seus diversos níveis governamentais, por meio de
subsídio a programas de desenvolvimento, articulação de esforços de políticas públicas e pela
proposição de instrumentos de ações estruturantes. Dentro desse objetivo, insere-se o diagnóstico
econômico do Município de Bertioga, pela caracterização das condições socioambientais e de

95
empreendimentos econômicos, bem como, da gestão de políticas públicas, que permitam a inclusão de
toda a população num processo de desenvolvimento sustentável no território.
O grande desafio ao desenvolvimento que se coloca nesse horizonte regional está na capacidade de
especialização da economia, que possibilite o aumento da produtividade e da agregação local de valor.
Esses fatores são fundamentais para a melhoria das condições de vida em geral da população, tendo
em vista especialmente as comunidades tradicionais e a preservação dos sistemas ambientais. O
processo de ocupação do território, os ciclos econômicos e os ativos locais, seja em valores monetários,
culturais e ambientais, constituem traços marcantes da sociedade e da economia local. Frente a isso,
também importa considerar os potenciais impactos urbanos e socioambientais decorrentes da
exploração da camada do Pré-sal, da expansão da infraestrutura de portos, vias, saneamento e da
produção imobiliária nessa região.
A coexistência dos índios, caiçaras e quilombolas, que transcorreu por mais de um século, constituindo
sociedades e povos muito singulares, progressivamente ao longo do século XX, foi marginalizada pelo
processo de industrialização e urbanização, que integrou as grandes regiões do Brasil. Isso ocorreu
tanto pela integração logística (rodoviária, portuária e hidroviária e etc.), como produtiva (com
máquinas e equipamentos) e mesmo pela cultural, que não logrou incluir as populações tradicionais e
em condição precária de trabalho, gerando cidades com territórios segregados e populações excluídas,
desprovidas das condições mínimas de vida.
A centralidade econômica de Santos, construída a partir dos anos 1970, com a especialização do
território ao seu redor, em regiões dormitório, de concentração de produção ou serviços, gerais e
especializados, constituiu uma aglomeração urbana metropolitana, na qual se insere Bertioga. O
município constitui-se como área de transição do núcleo urbano central da Metrópole da Baixada
Santista, em relação ao litoral norte, com área destacada para a produção imobiliária, notadamente, do
segmento residencial da construção de moradia de uso ocasional (2ª residência).
Originalmente o território ora denominado Bertioga era habitado pelas tribos indígenas tupis e
chamado de Buriquioca, que significava morada dos macacos grandes. Martim Afonso de Souza
aportou no local em 1531 e fundou o vilarejo, considerado como ponto estratégico para a defesa da
população contra os ataques indígenas. Em 1547 foi construída a primeira fortificação com o intuito de
proteger os moradores da ameaça representada pelos tamoios. Destruído pelos silvícolas, o forte foi
reconstruído em 1557 tendo recebido o nome de Fortaleza de São Tiago, e posteriormente, em 1765,
de Forte de São João.
No séc. XVI desenvolveram-se as atividades de pesca e de produção de óleo de baleia para iluminação
pública, com o declínio das mesmas no século seguinte. No início do séc. XX Bertioga consistia-se de
um pequeno núcleo de pescadores, e, somente na década de 40 foi dado início à sua função de centro
balneário, ainda de modo restrito devido às dificuldades de acesso da época.
A melhoria dos acessos viários da década de 1950, com a construção da ligação rodoviária com
Guarujá, proporcionou um maior fluxo de turistas e o desenvolvimento local. A partir de 1950 também
se iniciou a construção da ligação com São Sebastião, que mais tarde passou à jurisdição federal
recebendo o nome de Rio-Santos. No final dos anos 70 deu-se início à ligação Mogi-Bertioga,
inaugurada em 1982.
Vale lembrar que, até o ano de 1943, Bertioga era apenas um povoado, sem nenhuma estrutura
político-administrativa. A partir de 30 de novembro de 1944, Bertioga passou a distrito do município de
Santos, e somente em 1946, a Prefeitura de Santos elevou Bertioga à categoria de subprefeitura.
Obteve sua emancipação como Estância Balneária em dezembro de 1991, através do Decreto Estadual
Lei nº 7.664, após a realização de um plebiscito no mês de maio do mesmo ano.
A integração econômica do eixo litoral norte de São Paulo, por meio da rodovia SP – 055, no final da
década de 1970, conectou Bertioga aos municípios de São Sebastião, Ilhabela, Caraguatatuba e
Ubatuba, estendendo um novo eixo para a especulação imobiliária, notadamente do turismo de 2ª
residência. O setor da construção passou a lançar grandes condomínios residenciais, destinados ao uso
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

ocasional de famílias de renda alta, dentre os quais se destaca o condomínio da Riviera de São
Lourenço, entre outros, logo na fundação do Município em 1991.
Junto ao movimento da construção, das habitações de 2ª residências, seguiram as migrações de
populações, para o trabalho na construção, comércio e serviços. O saldo resultante de produção de
habitações entre a década de 2000 e 2010, conforme apontou a Fundação Seade, foi um aumento de
quase 3/4 do estoque de residências particulares permanentes do município, com destaque da
proporção de domicílios de uso ocasional e da expansão dos assentamentos precários.
Mediante este breve panorama histórico e constitutivo da cidade, de forma a apresentar os aspectos
centrais que caracterizam seu desenvolvimento econômico, bem como potencialidades e debilidades,
considerando, como pano de fundo, os elementos históricos e estruturais do capitalismo brasileiro, os
tópicos a seguir terão como objetivo apresentar alguns dados socioeconômicos que nos permitirão
entender um pouco mais das especificidades de Bertioga. Para tal, o estudo se estrutura a partir da
análise dos mercados produtivo e de trabalho, no intuito de apresentar um diagnóstico econômico,
bem como de indicar alguns limites e potenciais caminhos para o desenvolvimento local e regional.
Posteriormente, antes das considerações finais, se faz importante uma breve reflexão acerca das
conexões entre as finanças públicas (tem que será tratado especificamente) e o desenvolvimento
socioeconômico do município.

5.2. Mercado Produtivo (Produção de Bens e Serviços)


A elaboração deste tópico se pautará, fundamentalmente, na utilização de dados secundários, embora
em determinados momentos, informações primárias colhidas em viagens de campo pela Equipe Pólis
serão mencionadas para complementar a análise. A utilização dos dados secundários tem como intuito
levantar e sistematizar alguns dados oficiais que nos permite realizar uma caracterização preliminar do
contexto econômico do município. Optou-se pela utilização de dados e de informações sempre
atualizadas, levando em conta as restrições de tempo inerentes às bases estatísticas nacionais4.

5.2.1. Informações Gerais


Em se tratando de Bertioga, o Produto Interno Bruto (PIB) do município em 2009 (dado mais
recente publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE) foi de quase R$
670 milhões, três vezes superior ao registrado no início da década, quando seu PIB, em 2000,
era cerca de R$ 215 milhões.
Outro indicador interessante de se analisar é o PIB per capita, no entanto, com algumas ressalvas. O
PIB per capita refere-se ao PIB (soma de todas as riquezas produzidas no país) dividido pelo número de
habitantes do município. Vale notar que o PIB pode subir enquanto o PIB per capita diminui, quando,
por exemplo, a população cresce mais do que a produção num determinado ano, mostrando que, na
média, a população empobreceu. É necessário lembrar que o PIB per capita é apenas uma média
indicativa: a distribuição desse ganho ou perda se dá de forma desigual, e esse efeito não pode ser
registrado neste indicador. Como se pode notar, Bertioga apresenta um PIB per capita (R$15 mil)
inferior à média estadual (R$ 16,2 mil) e bastante próximo à média nacional (R$ 15,9 mil), para o ano
de 2009.

4
Os dados e informações levantados buscam uma compreensão do município, que permitirão, posteriormente, ao cruzar com os
diagnósticos de outras áreas, realizar uma análise integrada e multidimensional. Especificamente ao tema desenvolvimento
econômico, para cada município, inicialmente, caberá conhecer alguns dados, visando iniciar o processo de elaboração de diagnóstico
econômico dos municípios, cujo quadro geral – para os 13 municípios – nos permitirão traçar o diagnóstico regional.
97
Figura 1.PIB per capita em reais no município de Bertioga, SP (2009)

Brasil 15.900

São Paulo 26.202

Bertioga 15.056

0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000 30.000

Fonte: IBGE, Cidades

A riqueza produzida no município, de cerca de R$ 612 milhões, em termos de Valor Adicionado (VA)
total, ou seja, sem computar o valor dos impostos, mantinha-se bastante inferior ao desempenho do
VA da média da Baixada Santista (R$ 2,27 bilhões), por conta de sua menor população, mas com uma
taxa de crescimento do VA superior à da região metropolitana, alcançando 247,5% no período de 1999
a 2009.
Quadro 1. Valor Adicionado (VA), em milhões de reais, no município, média dos Municípios da
Baixada Santista e Estado, em 1999, 2009 e Taxa de Crescimento do VA
Valor Adicionado (VA) Taxa de
Região
1999 2009 Crescimento
Bertioga 176 612 247,5%
Média dos Municípios da Baixada Santista 925 2.271 145,6%
Estado de São Paulo 324.730 911.386 180,7%
Fonte: Fundação Seade 2012. Elaboração Instituto Pólis.

A pobreza relativa expressa-se pela relação de VA per capita de R$ 12,8 mil, abaixo da média da Região
Metropolitana da Baixada Santista, próxima de R$ 16 mil, e da do Estado de São Paulo, em que pese a
menor magnitude da população desse conjunto municipal.

Quadro 2. Distribuição do Valor Adicionado em 2009, por Pessoa, segundo a população do Censo de
2010, no Município, na Média da Região Metropolitana e do Estado

Região VA por Pessoa em 2009


Bertioga 12.855
Média da Baixada Santista 15.902
Estado de São Paulo 22.088
Fonte: Fundação Seade 2012 e IBGE Censo 2010. Elaboração Instituto Pólis.

Do ponto de vista da participação dos setores da atividade econômica no valor adicionado (VA) nota-se,
na Figura 2, que do total de riquezas produzidas no município, o setor da agropecuária representa
menos de 1% do total, mas com maior participação em 2009 do que em 1999. Enquanto o setor
industrial decresceu de 15% em 1999 para 12% do VA do município em 2009. Nota-se que, na década
analisada, a indústria perdeu participação no valor agregado, reduzindo ainda mais sua contribuição
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

para a geração do PIB de Bertioga. A participação do setor revela um baixo grau de industrialização no
município. Por outro lado, a alta representatividade do setor de serviços refere-se ao fato de que, neste
setor, contemplam as atividades de turismo e comércio, atividades economicamente importantes na
economia local. Outro aspecto que se destaca é a significativa contribuição da administração pública no
valor agregado municipal, de cerca de 22% do valor adicionado municipal.

Figura 3. Participação dos setores no Valor Adicionado do município (milhões de reais) Bertioga, SP,
1999 - 2009
Valor Adicionado 1999 2009
Agropecuária 1 0% 4 1%
Indústria 27 15% 75 12%
Serviços 148 84% 533 87%
Administração Pública 34 (19,3%) 136 (22,2%)
Comércio e Outros Serviços 114 (64,8%) 397 (64,8%)
Fonte: Fundação SEADE

A população local de mais de 47 mil pessoas de Bertioga, habitava em 2010 pouco mais de 14,5 mil
domicílios, distribuídos em três partes, conforme as suas condições de renda. A população mais rica,
cerca de 21,4% dos domicílios, possuía renda de mais de 5 Salários Mínimos (SMs de cerca R$ 510,00 à
época do Censo). Um segundo conjunto de domicílios, que representava 43,7% das residências
ocupadas, recebia renda de 2 a 5 SMs. Aproximadamente 35% das moradias, por sua vez,
apresentavam renda de até 2 SMs. Quase 4% dos domicílios não tinha renda. O conjunto da população,
com renda de até 2 salários mínimos, destaca-se pela concentração de 92,5% dos domicílios em
aglomerados subnormais, quase 2,7 mil residências (CENSO 2010).
Os dados de renda, produto e valor per capita devem ser relativizados, pois nem todas as pessoas do
município, são beneficiadas pelo crescimento econômico, e por isso tem renda para satisfazer suas
condições básicas. Segundo dados do Portal ODM5, elaborado a partir do Censo 2010, neste município,
de 1991 a 2010, em que pese a redução daqueles que vivem abaixo da linha de pobreza, ainda existem
16,2% da população nesta situação e 5,3% abaixo da linha de indigência6. No Estado de São Paulo, a
proporção de pessoas com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo, em 2010, era de
18,3% em 2010.
Figura 2. Proporção de moradores abaixo da linha da pobreza e indigência Bertioga, 2010

Fonte: Portal ODM e Censo 2010

5
http://www.portalodm.com.br/relatorios/1-acabar-com-a-fome-e-a-miseria/sp/bertioga
6
Para estimar a proporção de pessoas que estão abaixo da linha da pobreza foi somada a renda de todas as pessoas do domicílio, e o
total dividido pelo número de moradores, sendo considerado abaixo da linha da pobreza os que possuíam rendimento per capita
menor que 1/2 salário mínimo, e da indigência, este valor era inferior a 1/4 de salário mínimo.
99
Outra forma de analisar este grupo de pessoas consideradas como vulneráveis social e
economicamente, são os dados e Informações do Cadastro Único, a partir dos Relatórios de
Informações Sociais do MDS. No município de Bertioga há estimadas 1.940 famílias de baixa renda7 e
1.753 famílias beneficiárias do PBF até abril de 20128. Considerando o número médio de pessoas por
família estimado pelo IBGE, de 3,3 pessoas, pode-se depreender que, em Bertioga, há cerca de 6,5 mil
pessoas de baixa renda e 5,8 mil que dependem da renda disponibilizada pelo PBF, ou seja,
respectivamente, 15% e 13% do total dos habitantes são de baixa renda e dependentes do maior
programa brasileiro de transferência de renda.
Um dado complementar de caracterização socioeconômica do município, envolvendo também a renda,
refere-se ao Índice Paulista de Responsabilidade Social – IPRS. Partindo-se do pressuposto da
insuficiência da renda per capita como indicador das condições de vida de uma população, o IPRS
propõe a inclusão de outras dimensões, tais como a longevidade e a escolaridade (assim como o IDH).
Desta forma, a Fundação SEADE procurou construir, para o Estado de São Paulo, um indicador que
preservasse estas três dimensões, mas com certas especificidades9. Vale mencionar que em cada uma
das três dimensões do IPRS, foram criados indicadores sintéticos que permitem hierarquizar os
municípios paulistas conforme seus níveis de riqueza, longevidade e escolaridade. Esses indicadores
são expressos em escala de 0 a 100 e constituem uma combinação linear das variáveis selecionadas
para compor cada dimensão. A estrutura de ponderação foi obtida de acordo com um modelo de
análise fatorial, em que se estuda a estrutura de interdependência entre diversas variáveis. Os
indicadores do IPRS sintetizam a situação de cada município no que diz respeito à riqueza, escolaridade
e longevidade.
Como se percebe no Quadro abaixo, Bertioga se posiciona, em termos de escolaridade, em situação
semelhante à de sua Região Administrativa e inferior ao Estado de São Paulo. Do ponto de vista da
expectativa de vida, percebe-se que sua performance é pouco inferior à Região Administrativa de
Santos e mais acentuada quando se compara com o Estado de São Paulo. Em termos de riqueza, situa-
se em patamar superior à região administrativa e mais ainda em relação à média estadual.

Quadro 4. Índice Paulista de Responsabilidade Social, 2008


Localidade Riqueza Longevidade Escolaridade
Estado de S.P 58 73 68
Região Adm. de Santos 68 67 63
Bertioga 74 66 63
Fonte: Fundação SEADE

Como se vê no quadro a seguir, que desagrega os componentes da dimensão da riqueza do Índice


Paulista de Responsabilidade Social, a riqueza municipal (IPRS de 74) gerada pelo valor localmente
adicionado (IPRS de 34), em relação aos outros conjuntos territoriais da região de governo de Santos e
do estado, encontra-se numa condição de pobreza relativa. Essa condição pode ser explicada em parte
pelo menor rendimento do emprego formal (IPRS de Rendimento Médio 61), completada pela

7
A estimativa de famílias pobres com perfil de atendimento para o Programa Bolsa Família foi feita a partir dos dados do Censo
Demográfico 2010, levando em consideração a renda familiar de até R$ 140,00 por pessoa (MDS, 2012).
8
http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/RIv3/geral/index.php
9
A primeira consistiu na elaboração de uma tipologia de municípios que permitisse identificar, simultaneamente, o padrão de
desenvolvimento de determinado município nas três dimensões consideradas: renda, escolaridade e longevidade. Esse tipo de
indicador, apesar de não ser passível de ordenação, permite maior detalhamento das condições de vida existentes no município,
fundamental para o desenho de políticas públicas específicas para áreas com diferentes níveis e padrões de desenvolvimento. Em
segundo lugar, incluíram-se, na medida do possível, variáveis capazes de apreender mudanças nas condições de vida do município em
períodos mais curtos que os dez anos que separam os censos demográficos, fonte específica de informações do IDH municipal. E, em
terceiro, foram adotados como base de informações, prioritariamente, os registros administrativos que satisfizessem as condições de
qualidade, periodicidade e cobertura, necessárias à produção de um indicador robusto, passível de atualização nos anos entre os
censos demográficos e com a cobertura de todos os municípios do Estado. Assim, apesar de representarem as mesmas dimensões, as
variáveis escolhidas para compor o IPRS são distintas daquelas empregadas no cálculo do IDH.
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economia informal, como se verá, apresentando rendimentos do emprego abaixo da média da RA de


Santos (IPRS de 65) e de São Paulo (IPRS de 70). O indicador de consumo de energia em Bertioga, para
finalidade econômica (IPRS 60), que reflete a intensidade das atividades regionais, situou-se abaixo da
RA de Santos (IPRS 65) e do estado (IPRS 61). Enquanto o consumo residencial (IPRS 100), que indica a
riqueza material das residências, situou-se substancialmente acima da média da RA (IPRS 50) e de São
Paulo (IPRS 52).

Quadro 5. Dimensão da Riqueza Municipal de Bertioga, da Região Administrativa (RA) de Santos e do


Estado de São Paulo, referente ao Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS), por
componentes, Consumo de Energia para a atividade econômica e residencial, Rendimento Médio e
Valor Adicionado Fiscal Per Capita em 2008.
Consumo anual de Consumo anual de Rendimento Valor
Riqueza
Regiões de Governo energia elétrica no energia elétrica médio do adicionado
municipal
comércio, agricultura residencial por emprego fiscal per capita
Bertioga 74 60 100 61 34
RA de Santos 68 65 75 65 52
Estado de São Paulo 58 61 52 70 53
Fonte: Fundação Seade.

Apesar da elevada taxa de crescimento do VA, em grande parte pela expansão das atividades de
serviços e de administração pública, o VA per capita manteve-se abaixo da média regional, com uma
população no município ainda pequena no conjunto da metrópole. Os componentes da dimensão da
riqueza do IPRS mostram, que o alto consumo de energia residencial, que se relaciona com grande
estoque de residências para uso ocasional, contrasta com o baixo consumo de energia com finalidade
econômica, menor renda média do emprego e mesmo do valor adicionado per capito, no município
com relação às demais regiões. Essas informações gerais também apontam para a distinção das
condições da população no município, como se viu por extrato de renda das pessoas do domicílio, em
mais de 5 SMs, entre 2 e 5 SMs e menos de 2 SMs. A população em residências com renda de até 2
SMs, destaca-se pela sua relação mais frequente com a habitação subnormal, pobreza e indigência,
menor rendimento do emprego, e por isso, auxílio do Bolsa Família.

5.2.2. A estrutura produtiva da economia local


A observação da atividade econômica, através das unidades do Cadastro Central de Empresas (CCE) do
IBGE, possibilita aferir a escala e a especialização da estrutura produtiva existente em Bertioga em
2010. Para isso, as atividades econômicas foram agrupadas, inicialmente, em alguns grandes grupos
para a sua análise, a saber: atividades industriais e serviços da produção; atividades de serviços gerais e
comércio; administração pública e serviços sociais.
As atividades da construção, sediadas no município, apresentaram somente “meia dúzia” de
empreendimentos com mais de 30 funcionários, mesmo com as 80 unidades existentes. As grandes
construtoras e incorporadoras que promoveram os grandes condomínios no município provavelmente
estão localizadas em outra região. Somente duas imobiliárias tinham mais de 30 funcionários, dentre as
22 empresas do ramo. Do total de 33 pequenas indústrias de transformação, somente 5 tinham mais
de 10 empregados. Uma única empresa de serviços ambientais (água, esgoto, resíduos e
descontaminação), tinha mais de 10 empregados.

101
Quadro 6. Distribuição das empresas por atividades econômicas produtivas e de serviços da
produção, total e por faixa de pessoal ocupado em Bertioga 2010
Faixas de pessoal ocupado em 2010 Total 0a4 5a9 10 a 19 20 a 29 30 a 49 50 a 99 100 a 249
Construção 80 57 11 5 3 2 1 1
Atividades imobiliárias 22 15 2 3 - 2 - -
Indústrias de transformação 33 25 3 5 - - - -
Água, esgoto, atividades de gestão
8 7 - 1 - - - -
de resíduos e descontaminação
Indústrias extrativas 1 1 - - - - - -
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

As empresas que se destacaram, tanto pelo total de unidades como pela escala de ocupação de
pessoal, estavam inseridas nas atividades de comércios e reparos, administrativas e complementares,
alojamento e alimentação, além de uma empresa de transporte coletivo de grande escala de ocupação
de pessoas. As atividades de transporte, armazenagem, e correio, em geral (a exceção da empresa
acima citada), profissionais, científicas e técnicas, informação e comunicação, são menos
representativas em número de empreendimentos e na escala de ocupação de pessoas.

Quadro 7. Distribuição das empresas por atividades econômicas de serviços e comércio, total e por
faixa de pessoal ocupado em Bertioga 2010
Faixas de pessoal ocupado em 2010 Total 0a4 5a9 10 a 19 20 a 29 30 a 49 50 a 99 100 a 249 250 a 499
Comércio; reparação de veículos
692 518 104 46 15 3 5 - 1
automotores e motocicletas
Transporte, armazenagem e correio 14 13 - - - - - - 1
Atividades administrativas e
463 220 194 44 - 2 2 1 -
serviços complementares
Alojamento e alimentação 289 220 44 18 2 3 2 - -
Atividades profissionais,
43 33 7 3 - - - - -
científicas e técnicas
Informação e comunicação 15 13 2 - - - - - -
Atividades financeiras, de seguros e
11 11 - - - - - - -
serviços relacionados
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

A administração pública municipal e instituições de defesa, além de outras atividades de serviços, como
SESC, SENAC e SENAI, destacam-se como grandes empregadores de pessoal. As unidades de educação,
saúde, serviços sociais, arte, cultura, esporte e recreação dispersam-se em pequenas unidades.

Quadro 8. Distribuição das empresas por atividades econômicas de administração pública e serviços
sociais, total e por faixa de pessoal ocupado em Bertioga 2010
Faixas de pessoal ocupado em 2010 Total 0a4 5a9 10 a 19 20 a 29 30 a 49 50 a 99 250 a 499 500 e mais
Administração pública, defesa
3 - 1 - - - 1 - 1
e seguridade social
Educação 12 20 4 4 3 1 - - -
Saúde humana e serviços sociais 6 4 2 2 2 - - - -
Artes, cultura, esporte e recreação 5 23 2 2 1 - - - -
Outras atividades de serviços 16 89 7 4 2 1 - 1 1
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.
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Entretanto, esta economia formal apresentada, formada por empresas, de diversas escalas de
produção, com trabalho assalariado, forma a estrutura produtiva de bens e serviços, estabelecida até
recentemente no município. Com esse quadro geral de informações, apresenta-se um componente
importante da estrutura econômica local, para a reflexão a cerca das condições de desenvolvimento
econômico. Como se verá, a partir das considerações do mercado de trabalho, existe outro circuito da
economia, que por não aparecer nas estatísticas oficiais de emprego, é denominado de informal,
ausente da análise até aqui realizada.

5.2.3. Rede Petros Baia de Santos


Uma importante iniciativa é a “Rede Petro”, parceria entre o SEBRAE e a Petrobras, cujo
objetivo é promover a inserção competitiva e sustentável dos micro e pequenos negócios,
fornecedores efetivos e potenciais, na cadeia. Segundo informações do SEBRAE, até 2014, deverão ser
investidos R$ 41 bilhões em todo esse segmento10.
Vale lembrar que a primeira Rede Petro foi criada no Rio Grande do Sul, em 1999, num cenário onde o
setor agrícola enfrentava grave crise no Estado e em todo o país. Diante da situação, alguns
empresários e empreendedores começaram a pesquisar onde poderiam encontrar novas
oportunidades para negócios.
De forma geral, os objetivos específicos deste Convênio entre a Petrobras e o Sebrae, também
chamados de “Temas Estratégicos”, são11: 1) Desenvolvimento de diagnóstico e de mapeamento de
oportunidades de negócios para as micro e pequenas empresas (MPEs); 2) Formação, consolidação das
Redes PETRO e promoção da interação entre elas; 3) Sensibilização e mobilização de grandes empresas
para apoiar o desenvolvimento de micro e pequenas empresas (MPEs); 4) Capacitação e qualificação de
micro e pequenas empresas(MPEs); 5) Promoção de Rodadas de Negócios entre grandes empresas e
micro e pequenas empresas fornecedoras (MPEs).

Quadro 9. Empresas Cadastradas, por Origem do Fornecedor, na Rede Petros da Bacia Santos em
2012

Origem da Empresa Unidades


Exterior 5
Nacional 8
Interior de SP 13
Litoral de SP 115
RMSP 43
Total 184
Fonte: Rede Petros Baixa Santista.

10
Informação acessada em: http://www.busca.sebrae.com.br
11
De acordo com informações do próprio site, a primeira fase do Convênio, finalizada em 2007, contou com investimentos de R$ 32
milhões – R$ 12 milhões aportados pela Petrobras e Sebrae e R$ 20 milhões pelas empresas parceiras, envolvendo 12 estados do
Brasil: Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul,
São Paulo e Sergipe. Em 2008, o Convênio Petrobras-Sebrae foi renovado por mais três anos, com aporte inicial de recursos de R$ 32
milhões (R$ 16 milhões de cada parte), a contrapartida mínima das empresas de R$ 8 milhões e a inclusão de mais dois estados:
Pernambuco e Santa Catarina, totalizando 14 estados envolvidos. No período de 2004 a 2010, cerca de 3.400 empresas foram
capacitadas para se tornarem fornecedoras da cadeia produtiva de petróleo e gás. Além disso, foram realizadas 65 Rodadas de
Negócios, que geraram expectativas para fornecimento de bens e serviços em torno de R$ 2,6 bilhões.
103
Em que pesem estas potencialidades, uma análise no banco de dados das empresas cadastradas pela
Rede Petros, verifica-se que é muito pequeno o interesse despertado pelas atividades da Petrobras,
representado pela quantidade de empresas no município de Bertioga, que contabiliza apenas duas
empresas (uma micro e outra pequena), nas áreas de serviços de comunicação e serviços de
engenharia e segurança do trabalho12. Por outro lado, chama atenção a concentração de grande parte
dos interessados em empresas localizadas na região mais central da Baixada Santista, de São Paulo e de
outros centros econômicos nacionais e estrangeiros.

5.2.4. Algumas decisões cruciais que podem atingir a economia local


De acordo com o Relatório da Cespeg (2011), os investimentos previstos no setor de petróleo e gás são,
em média, de US$ 5 bilhões/ano (US$ 3,7 bilhões relacionados à exploração, produção e refino) e
devem produzir impactos altamente significativos na economia brasileira. Os impactos diretos,
indiretos e de efeito-renda são potencialmente de US$ 12 bilhões por ano – relação de 1:2,5 com o
investimento. A realização total desse potencial depende da parcela de fornecimento local de insumos
e serviços.

Atualmente, cada R$ 1 investido na cadeia do pré-sal e atividades correlatas gera


benefícios diretos e indiretos de R$ 1,26, além de R$ 1,9 em termos de efeito-renda
(Cespeg, 2011).

O efeito potencial em termos de crescimento do PIB anual brasileiro é da ordem de 0,6%, com uma
geração adicional de 234.000 empregos. Os setores mais impactados pelos investimentos no setor de
petróleo são o de prestação de serviços a empresas (que inclui consultorias, serviços jurídicos,
informática, segurança, entre outros), siderurgia, metalurgia, máquinas e tratores, o próprio setor de
petróleo e gás, construção civil, comércio e agropecuário. Os maiores beneficiados em termos de valor
da produção são: serviços prestados a empresas (15,6%), siderurgia (11,3%), petróleo e gás (9,1%),
máquinas e tratores (8,8%), peças e outros veículos (principalmente indústria naval, 7,4%) e construção
civil (6,4%).
Segundo levantamentos realizados com base em leitura de documentos, relatórios e estudos
específicos sobre os impactos dos investimentos do pré-sal e de seus desdobramentos (porto, rodovia
etc), bem como com base em conversas e entrevistas com especialistas e gestores, aparecem alguns
setores potenciais que serão impactados.
Em termos gerais, os grandes setores que potencialmente sofrerão impactos em toda a região são:
Indústria de Transformação; Construção Civil; Infraestrutura; Turismo; Resíduos Sólidos e Pesca.

5.2.4.a. Mercado Imobiliário

O município de Bertioga, na região praieira da Baixada Santista, ainda tem sentido as consequências do
crescimento imobiliário que se instalou na região, já em meados dos anos 80. O bairro Riviera de São
Lourenço é um dos locais mais valorizados do município, começou a ser construído em 1979, quando a
empresa Sobloco investiu em infraestrutura básica, lançando as bases para a venda de terrenos e a
construção de edifícios na região. Essa especificidade caracteriza o mercado da construção local, cujos
três grandes empreendimentos – Riviera de São Lourenço, Morada da Praia e Costa do Sol – em seu
substancial porte de incorporação do território, foram produzidos por grandes empresas “de fora”,
como Praias Paulistas S. A. (Sobloco), Consurb S. A. e Helbor, com atuação em todo o estado, junto a
outras grandes construtoras que ainda hoje tem ingressado na economia local.

12
Informações em: http://www.redebs.org.br/group/guest/1
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Ainda na primeira década do século XXI, os domicílios de uso ocasional, chamados de 2ª residência ou
de veranismo, apresentaram um substancial crescimento do estoque de habitações (77,7%), com
menor dinamismo do crescimento dos domicílios ocupados (67,1%) pelos munícipes de Bertioga e
ainda menor de domicílios vagos (5,1%). A expansão de 72,6% do total de domicílios, mais de 44 mil
unidades em 2010, constituiu uma estrutura habitacional em que predomina os domicílios de uso
ocasional, com uma forte demanda por residências, denotada pela redução da proporção de unidades
vagas.

Quadro 10. Distribuição dos Domicílios, segundo a sua Espécie, Taxa de Crescimento das Unidades e
da estrutura Habitacional, em Bertioga 2000 e 2010.
Espécie de Taxa de Estrutura
2000 2010
Domicílio Crescimento Habitacional
Ocupado 8.728 14.581 67,1% 32,6%
Uso ocasional 15.691 27.878 77,7% 62,3%
Vago 1.497 2.266 51,4% 5,1%
Total 25.916 44.725 72,6% 100%

Fonte: Censo Demográfico do IBGE 2010.

Além dos lançamentos de novas unidades residenciais, que promovem a valorização do mercado
imobiliário, o mercado secundário de recompra de imóveis, a partir das informações da Pesquisa Cresci
de Imóveis Usados, revela um pouco mais da dinâmica imobiliária da litoral. O mercado de recompra
no litoral tem acompanhado a dinâmica do Estado de São Paulo, com um ligeiro crescimento da
revenda de imóveis.

Quadro 11. Venda de Imóveis Usados no Litoral de São Paulo, nos meses de Janeiro de 2010, 2011 e
2012
jan/10 jan/11 jan/12
São Paulo 215 684 691
Litoral 69 226 231

Fonte: Pesquisa CRECI de Imóveis usados de 2010, 2011 e 2012.

No entanto, os preços do m construído em Bertioga, considerando a venda de imóveis nos primeiros


semestres de 2010 e 2012, mostra algumas especificidades do mercado local, cujas unidades: casa de 2
e apartamentos de 3 dormitórios, apresentaram maior valorização do m , enquanto as casas de 3, 4 e
apartamentos de 2 dormitórios obtiveram a menor taxa de crescimento da valorização do imóvel. Isso
também se deve, segundo o mesmo relatório, a localização do imóvel se central, em região nobre e
outras referências importantes para o investidor.

105
Quadro 12. Preço do m do imóvel vendido em Bertioga, segundo as características das unidades,
nos primeiros semestres de 2010 e 2012 e taxa de crescimento

Caracaterísticas 1o Semestre 1o Semestre Taxa de


das Unidades 2010 2012 Crescimento
Casa de 2 Dormitórios 1.151 1.826 58,6%
Casa de 3 Dormitórios 1.888 2.565 35,9%
Casa de 4 Dormitórios 2.254 2.342 3,9%
Apartamento de 2 Dormitórios 2.289 2.159 -5,7%
Apartamento de 3 Dormitórios 4.338 6.790 56,5%

Fonte: Pesquisa CRECI de Imóveis usados de 2010, 2011 e 2012.

As atividades de construção civil, obras públicas, abastecimento de água, tratamento do esgoto, gestão
de resíduos, descontaminação e de serviços imobiliários, tem entre si um relação especial de
interdependência, que se deve observar no conjunto da gestão da política urbana. O mercado local da
construção civil era formado por 292 empresas em 2010. Esse conjunto era 41,7% maior do que o de
2006, com o crescimento da escala da ocupação de pessoas, em empresas maiores, mesmo que em
algumas o crescimento tenha sido zero ou negativo, isso deveu por não terem registro ou ao aumento
da escala de ocupação de pessoas da empresa em 2010 em relação a 2006. Oito empresas
ultrapassaram a escala de 100 e 2 a de 250 pessoas ocupadas. O crescimento foi mais intenso no caso
das grandes empresas, com mais de 50, e das empreiteiras médias, com mais de 20 pessoas ocupadas.

Quadro 13. Número de Construtoras, por Faixa de Pessoal Ocupado, em 2006, 2010 e Taxa de
crescimento, em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 19 57 200,0%
5a9 2 11 450,0%
10 a 19 4 5 25,0%
20 a 29 - 3 -
30 a 49 3 2 -33,3%
50 a 99 - 1 -
100 a 249 - 1 -
Total 28 80 185,7%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

Dos recursos repassados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2010), segundo as funções
de governo de urbanismo, habitação e infraestrutura, ligada a promoção do turismo, o município
acessou pouco mais de R$ 700 mil, enquanto o Estado de São Paulo, acesso de R$ 33,5 milhões, que
juntos representaram também mais de 2,6% do total destinado ao litoral considerado (dos 13
municípios). No que diz respeito a função de governo de saneamento, o recurso de R$ 75,1 milhões,
representou pouco mais de 3,6% deste conjunto. A expansão das empresas da construção, recebeu
dessa maneira, um importante estímulo governamental, orientado em boa medida para a produção de
produtos e serviços, para as faixas de renda mais baixas e para a melhoria da infraestrutura de
saneamento, habitação e destinada aos serviços turísticos.
Os empreendimentos de abastecimento de água, tratamento do esgoto, gestão de resíduos e
descontaminação, contudo, ainda são poucos e de pequena escala, mas que vêm surgindo nos últimos
anos, provavelmente pelo estímulo da política de saneamento e resíduos sólidos. A atividade é um
importante locus de expansão da política pública, não só econômica, mas especialmente
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socioambiental, com a articulação do capital e trabalho local, inclusive a partir da demanda por
serviços públicos. A organização dos coletores de materiais recicláveis é um bom exemplo.

Quadro 14. Número de Empresas de Saneamento, por Faixa de Pessoal Ocupado, em 2006, 2010 e
Taxa de crescimento, em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 - 7 -
10 a 19 - 1 -
Total - 8 -
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

O crescimento das empresas no mercado imobiliário deu-se tanto em número absoluto, em unidades,
como na sua escala. Ainda mantendo-se concentrada em pequenas empresas. A taxa de crescimento
total das empresas imobiliárias foi pouco maior que a taxa das construtoras. A dinâmica de ambas
inter-relacionada seja por meio da produção de imóveis residenciais, de diversos usos (permanente,
especulação, veraneio e hospedagem) como pela produção de “obras” pesadas da infraestrutura
(viária, saneamento ambiental (água e esgoto), equipamentos públicos e etc.) e de serviços
especializados da construção, repercute sobre o valor dos estoques de moradia.

Quadro 15. Número de Imobiliárias, por Faixa de Pessoal Ocupado, em 2006, 2010 e Taxa de
crescimento, em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 14 15 7,1%
5a9 3 2 -33,3%
10 a 19 1 3 200%
20 a 29 2 - -
30 a 49 - 2 -
Total 20 22 10%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

Um aspecto fundamental da economia de Bertioga é a sua especialização produtiva, em que cerca de


16,7% da população ocupada, seja na economia formal (como empregador ou empregado assalariado,
cerca de 15% segundo dados da RAIS) e informal (por conta própria, cerca de 85%, dado elaborado a
partir dos dados do Censo), está no setor de construção (3.920 pessoas conforme o Censo do IBGE). As
atividades imobiliárias ocupavam quase 6% da população, mais de 1.630 pessoas. Enquanto a atividade
de construção aumentou a sua participação no conjunto da população ocupada, entre a década de
2000-2010, os trabalhadores da imobiliária reduziram seu número.
Uma constatação advinda da espetacular expansão da construção de residências de 72,6%, entre 2000
e 2010, está no crescimento da população ocupada na atividade de construção de 72,5%, segundo
dados dos Censos 2000-2010. Junto ao incremento de 77,7%, da atividade de construção destinada à
habitação de veraneio, também se pode atribuir o simultâneo aumento da ocupação informal no
trabalho doméstico, sem o registro de vínculos trabalhistas, no mesmo período, à taxa de 95,2% na
década, respondendo por mais de 4 mil postos de trabalho em 2010.

107
A pesar da substancial expansão da construção, a produção de ocupações subnormais, alcançou cerca
de 20% das moradias e da população do município, quase 3 mil domicílios e mais de 10 mil pessoas. A
necessidade de trabalho, mesmo que informal, sem garantias dos direitos trabalhistas previstos pela
CLT, nas atividades de construção e trabalhos domésticos, além de outras atividades como agricultura,
pesca e comércio, explica perpetuação da produção informal de moradia, muitas vezes autoconstruída.
A relevância do fenômeno de especialização na construção de habitações para veraneio deve-se à recente e
intensa ocupação do território de Bertioga, da qual resulta a representativa ocupação da orla do município, por
moradias do melhor padrão de construção, destinadas à 2ª residência ou à espera de valorização, muitas vezes
retidas pela legislação ambiental e de interesses sociais. A vizinhança dos grandes condomínios residenciais
evidenciam sérios conflitos com a legislação ambiental e os interesses territorializados dos grupos locais, tanto
com relação à disposição de infraestrutura como a oportunidades de trabalho e uso do território.

5.2.4.b. Turismo e Pesca


A “cadeia de produção turística” pode ser definida como o conjunto das empresas e dos “elementos
materiais e imateriais” que realizam atividades ligadas ao turismo, com procedimentos, ideias,
doutrinas e princípios ordenados. Enumeradas, de acordo com estudos desenvolvidos pelo SEBRAE
(2011)13, elas seriam divididas nas seguintes áreas:
1) Agência de viagens: a primeira porta de entrada ao turista, responsável pela emissão de passagens,
pacotes, hotéis, e informações e assessoria sobre os destinos turísticos e a devida organização de itens
de viagem;
2) Transporte: pode ser rodoviário, aéreo, ferroviário e aquaviário. As atividades envolvidas incluem
assessoria a novas rotas, aluguel de veículos, fretamento e pacotes promocionais;
3) Alojamento: são os diversos meios de hospedagem, como hotéis, resorts, cama e café e pousadas.
Serviços demandados neste setor são os mais variados, como a manutenção e segurança, serviços de
reserva e telecomunicações, gerenciamento e suporte para negócios e convenções, além da construção
e infraestrutura;
4) Alimentação: inclui desde estabelecimentos de bares e restaurantes, a empreendimentos de
alimentação fora do lar, como quiosques e ambulantes. Os serviços relacionados vão do abastecimento
aos meios de hospedagem às atividades de valor agregado como rede de distribuição, agricultura,
logística e consultoria.
5) Atividades recreativas e desportivas: refere-se ao uso e benefício de equipamentos turísticos ou de
uso da comunidade, como parques temáticos, unidades de conservação ambiental, eventos culturais e
desportivos.
6) Outras atividades recreativas: em geral, relacionado ao comércio local com compras, artesanato,
shopping e a inclusão da cadeia de produção regional.
A devida identificação de cada ator, dentro da realidade local de um município ou Estado, é um desafio
para gestores e empreendedores. Depois do devido diagnóstico da cadeia produtiva, os governos locais
terão os meios para incentivar a criação e o fortalecimento de novas micros e pequenas empresas
voltadas ao turismo, gerando mais emprego e sustentabilidade.
Além das áreas citadas acima, o leque de beneficiados na cadeia produtiva inclui artesãos, agricultores,
transportadores, pecuaristas, artistas, comerciantes, industriais e até empresários da saúde que
conseguem ver no setor uma alternativa de desenvolvimento econômico.
Do ponto de vista dos segmentos turísticos14, estes podem se dividir em:
a) Ecoturismo: segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e
cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista por meio da
interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações. Considerando os aspectos

13
Disponível em: http://www.sebrae.com.br/setor/turismo/o-setor/gestao/integra_bia/ident_unico/18466
14
Disponível em:http://www.turismo.gov.br/turismo/programas_acoes/regionalizacao_turismo/
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peculiares que o caracterizam e lhe conferem identidade – os recursos naturais –, o Ecoturismo exige
referenciais teóricos e práticos e suporte legal que orientem processos e ações para seu
desenvolvimento, sob os princípios da sustentabilidade;
b) Turismo Cultural: o patrimônio cultural, mais do que atrativo turístico, é fator de identidade cultural
e de memória das comunidades, fonte que as remete a uma cultura partilhada, a experiências vividas, a
sua identidade cultural e, como tal, deve ter seu sentido respeitado. O uso turístico deve sempre atuar
no sentido do fortalecimento das culturas. Assim, a atividade turística é incentivada como estratégia de
preservação do patrimônio, em função da promoção de seu valor econômico. Assim, a definição dada
pelo Ministério do Turismo para o “Turismo Cultural” compreende as atividades turísticas relacionadas
à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos
culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura;
c) Turismo de Aventura: o “Turismo de Aventura” compreende os movimentos turísticos decorrentes da
prática de atividades de aventura de caráter recreativo e não competitivo. Consideram-se atividades de
aventura as experiências físicas e sensoriais recreativas que envolvem desafio, riscos avaliados,
controláveis e assumidos que podem proporcionar sensações diversas como liberdade, prazer,
superação, a depender da expectativa e experiência de cada pessoa e do nível de dificuldade de cada
atividade. Devido à dimensão econômica, às especificidades desse segmento turístico e às inter-
relações com outros tipos de turismo, principalmente, quanto à segurança, o Ministério do Turismo
delimitou em “Turismo Aventura: orientações básicas” a abrangência conceitual dessa atividade e de
definiu suas características, aspectos e atributos peculiares que lhe conferem identidade;
d) Turismo de Sol e Praia: esta modalidade, mais conhecida e divulgada, praticada em cidades com
praia, envolvendo uma gama de serviços de apoio, tais como serviços de hotelaria, alimentação, além
de passeios diversos, comércio local etc;
e) Turismo de Pesca: compreende as atividades turísticas decorrentes da prática da pesca amadora, ou
seja, atividade praticada com a finalidade de lazer, turismo ou desporto, sem finalidade comercial. O
Brasil dispõe de recursos com potencial para atrair pescadores do mundo todo, representados pela
diversidade de seus peixes, suas vastas bacias hidrográficas e seus oito mil quilômetros de costa,
aproximadamente.
f) Outros segmentos de Turismo: o Ministério do Turismo publicou um documento, parte do Programa
“Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil”, onde se analisam 12 categorias do Turismo nacional,
incluindo, além dos anteriormente supracitados, os de: Turismo Social, Turismo Cultural, Turismo de
Estudos e Intercâmbio, Turismo de Esporte, Turismo Náutico, Turismo de Negócios e Eventos, Turismo
Rural e Turismo de Saúde.
Em se tratando das vocações econômicas do município e fonte de geração de emprego e renda, cabe
mencionar algumas informações concernentes ao turismo e à pesca. Essas considerações, no âmbito da
reflexão sobre o desenvolvimento econômico, buscam complementar as informações e análises
apresentadas em outras dimensões que compõe o presente relatório geral.
Não há duvidas de que o setor de turismo15 representa um dos mais importantes setores da atividade
econômica de Bertioga. Segundo relatos de representantes da Prefeitura Municipal, “a cidade tem
vocação sim, mas ainda não conseguiu oferecer um turismo mais focado nas opções que a cidade tem.
Não há projetos voltados para esse desenvolvimento”.
Uma destas constatações desfavoráveis refere-se ao turismo e a sazonalidade. Bertioga oscila entre 45
mil habitantes residentes e mais de 120 mil eventuais durante as temporadas de verão16, o que reduz a
capacidade do turismo como força dinâmica do comércio local pela constante flutuação dos turistas.

16
Segundo dados da Fundação Seade.
109
Nesse sentido, conforme levantamento realizado em entrevistas a representantes do setor público e de
associações do setor, além de políticas públicas específicas, é necessário também “uma visão mais
empreendedora dos próprios empresários”.
As atividades características de turismo (ACT), segundo Sakowski e Coelho (IPEA 2012), forma-se em
parte por serviços alimentação, alojamento, agências de viagens e de transporte. Para operacionalizar
uma aproximação dessas informações, no nível municipal e a partir das informações do Cadastro
Central de Empresas do IBGE, utilizam-se as atividades correlatas do CNAE de administração, serviços
complementares, alojamento, alimentação, artísticas, culturais, esportivas e recreativas.
As atividades de administração e de serviços complementares (que abarcam, entre outras, as
atividades de agências de viagens, operadoras de turismo e serviços de reservas), apresentou um
crescimento especialmente nas faixas de menor ocupação de pessoas em empresas com menos de 20
pessoas ocupadas. Além da redução de 2 empresas de média escala, entre 20 e 29 pessoas ocupadas, e
1 empresa de maior escala, de mais de 50 pessoas ocupadas, que pode explicar o surgimento de 1
empresa de mais de 100 pessoas ocupadas.

Quadro 16. Número de Empresas de Administração e Serviços Complementares, por Faixa de Pessoal
Ocupado, 2006, 2010 e Taxa de crescimento em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento

0a4 196 220 12,2%


5a9 142 194 36,6%
10 a 19 12 44 266,7%
20 a 29 2 - -
30 a 49 2 2 0,0%
50 a 99 3 2 -33,3%
100 a 249 - 1 -
Total 357 463 29,7%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

As atividades de alojamento e alimentação, que representam respectivamente, os hotéis, campings,


pousadas e etc. e os restaurantes, o incremento ou surgimento de empresas, segundo a faixa de
ocupação, foi de maneira geral pequeno, melhor para as unidades de médio porte, entre 20 e 50
trabalhadores e de grande escala, com mais de 50 pessoas ocupadas, inclusive, duas unidades com
mais de 100 pessoas ocupadas. Existe ainda a atividade de uma grande unidade do SESC no município,
que é computado em outras atividades de serviços, mas que presta serviços de hospedagem e
alimentação.
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Quadro 17. Número de Empresas de Alojamento e Alimentação, por Faixa de Pessoal Ocupado
em 2006, 2010 e Taxa de crescimento, em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 218 220 0,9%
5a9 30 44 46,7%
10 a 19 20 18 -10,0%
20 a 29 5 2 -60,0%
30 a 49 1 3 200,0%
50 a 99 - 2 -
Total 274 289 5,5%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

A expansão das empresas ligadas ao lazer, no período considerado, é considerável, cerca de 64,7%, mas
constituindo um conjunto ainda pequeno de 28 empreendimentos engajados nessa finalidade,
fundamental para o desenvolvimento da atividade de turismo, especialmente, pelo estímulo a
permanência dos visitantes. Os empreendimentos relacionados a artes, cultura, esporte e recreação, de
pequena escala de ocupação, até 19 pessoas, apresentaram um crescimento importante. Existi apenas
1 unidade de mais de 20 pessoas ocupadas.

Quadro 18. Número de Empresas de Artes, Cultura, Esporte e Recreação, por Faixa de Pessoal
Ocupado em 2006, 2010 e Taxa de crescimento, em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 14 23 64,3%
5a9 2 2 0%
10 a 19 1 2 100%
20 a 29 - 1 -
Total 17 28 64,7%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

As atividades administrativas e complementares tem se expandido de maneira substancial (29,7%), em


número de empreendimentos e na sua escala de ocupação. O crescimento de empresas ligadas as
atividades de artes, cultura, esporte e recreação, em expansão de 64,7%, mesmo que importante, não
é tão significativo, no conjunto de atividades do litoral e em termos absolutos. As atividades de
alojamento e alimentação, apesar do crescimento da escala de ocupação de pessoas, o número de
empreendimentos cresceu pouco (5,5%). Uma explicação para a falta de dinamismo dessa última
atividade é a importância do “turismo de 2ª residência” no município, em que a estrutura urbana dos
grandes condomínios, desestimula o mercado pela falta de integração da infraestrutura urbana, com
parques, praças, centros de atividades, serviços e comércio.

De maneira geral, há uma percepção de que o município de Bertioga “deixa a desejar” como cidade
turística. Ou seja, nota-se que esta vocação não está sendo realizada de forma satisfatória. Na visão dos
entrevistados, representantes de instituições e associações comerciais, de moradores, pescadores etc,
Bertioga apresenta aptidão para o desenvolvimento das atividades deste setor, mas pouco se tem feito
para fomentá-las no município. Medidas usuais na cidade, tais como cobrança de tarifas para o uso de
chuveiros e banheiros na praia, passando pela morosidade das obras em curso na orla (calçadão) e

111
ausência de shows e de atividades desportivas em prol da população e dos turistas na praia, além dos
aspectos já levantados de infraestrutura urbana, são fatores que reduzem a atratividade de turistas
pelo município em relação à infraestrutura e serviços disponíveis em outras cidades vizinhas.

Dentre os segmentos mencionados de turismo, entende-se que Bertioga poderia se enquadrar em uma
diversidade deles, tais como o já conhecido turismo de sol e praia, mas também direcionar-se ao
turismo de pesca, de aventura e ecoturismo e mesmo de negócios. Atrativos que demandariam uma
diversidade de atividades serviços complementares, de maneira mais perene ao longo das estações.
Segundo relatos colhidos pela Equipe Pólis em campo, “o governo municipal deveria investir esforços no
ecoturismo... capacitar as pessoas da cidade acerca do patrimônio natural da cidade... criar novos
roteiros turísticos... profissionalizar o receptivo turístico...”. Um dos objetivos de qualificar o turismo
seria para “trazer turistas para uma permanência mais longa na cidade e não só nos períodos de alta
temporada”.
Em Bertioga, uma outra potencialidade turística apontada como importante por uma das organizações
visitadas é o turismo da pesca esportiva (amadora), que já envolveria atualmente “pescadores
artesanais que alugam barcos e levam os turistas para pescar” gerando renda para as suas famílias.
Além da pesca esportiva (amadora), vale lembrar que a atividade pesqueira tem importância em
termos de geração de emprego e renda na região litorânea.
Especificamente em Bertioga, a produção marinha e estuarina, em 2010, foi de 238 toneladas, próxima
a 1% da produção estadual, de 22,1 mil toneladas neste período, em suas 72 unidades produtivas
contabilizadas, para um total de 4.838 unidades em todo o Estado de São Paulo. Por categoria de
pescado, no município de Bertioga, a produção de camarão sete-barbas17 responde por quase 80% do
total produzido de espécies.
A atividade pesqueira no município pode ser mais bem compreendida por conta das informações
disponibilizadas pelo Instituto de Pesca de São Paulo, que mostra por tipo de aparelho o número de
embarcações e a quantidade de produção de pescado. Destes dados infere-se a produtividade média
por mês no ano de 2010. A partir dessas informações é possível perceber a importância das estações,
mais ou menos intensivas na mobilização das embarcações, no resultado da produção e da
produtividade média ao mês. Aprofundando as informações, verifica-se que dois aparelhos são mais
comuns na pesca local: embarcação de Arrasto Duplo de pequeno porte (55 unidades) e rede de
emalhe (11 unidades) a partir da costa.

17
Conforme documento do Instituto da Pesca, o camarão é uma excelente fonte de proteína alimentar, além de ser bastante
conhecido e de possuir alto valor agregado e de ser um produto de elevada demanda por consumidores e importadores dos Estados
Unidos e União Europeia. Tais informações abrem para se pensar a comercialização deste produto, de maneira sustentável e de modo
a dinamizar as fontes de geração de emprego e renda em Bertioga.
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Quadro 19. Conjunto de Unidades Pesqueiras, Produção de Pescado (Kg) e Produtividade


(Unidade/Pescado), em Bertioga 2010

Conjunto de Unidades Pesqueiras,


Produção de Pescado(Kg) e Produtividade
(Unidade/Pescado), em Bertioga 2010
Mês Undiades Pescado Produtividade
janeiro 27 20.892 774
fevereiro 24 24.751 1.031
março 9 1.518 169
abril 6 1.763 294
maio 5 2.483 497
junho 28 31.916 1.140
julho 33 31.250 947
agosto 24 22.860 953
setembro 32 22.820 713
outubro 32 31.406 981
novembro 42 35.429 844
dezembro 23 13.494 587
Total 64 240.584 3.759
Fonte: Instituto da Pesca de SP/Estatística da Pesca.

Na perspectiva de resgate das identidades culturais de Bertioga, o apoio e a retomada da pesca pode se
constituir em elemento importante para o turismo sustentável. Nesta perspectiva foi levantado pela
Colônia dos Pescadores, conforme já mencionado, a necessidade de investimento em pontos de venda
para o pescado, suprimindo a necessidade de “atravessadores” acarretando assim na melhora do nível
de renda no comércio do produto do trabalho da pesca. Outras demandas se dão pela necessidade de
atracadouro para embarcações e estaleiro para barcos, além de uma fábrica de gelo.
O fortalecimento da infraestrutura de serviços e equipamentos públicos, na medida em que integrue a
população e território, como a ciclovia, transporte, áreas verdes e espaços, para a especialização de
serviços, comércio e lazer, pode melhor o uso do potencial estabelecido pelo estoque de habitação,
mesmo que de veranismo, para atrair e acolher por mais tempo os visitantes, pelo estimulo do hábito
de turismo, no sentido de descobrimento e se relação com a cidade de Bertioga,

5.2.4.c. Infraestrutura produtiva e logística


A infraestrutura coloca-se como um tema de imensos desafios como decorrência dos potenciais
impactos dos investimentos na cadeia do Pré-sal e de empreendimentos associados e correlatos. O
escopo é amplo e contempla infraestrutura urbana, para o turismo, para o tráfego de passageiros e de
cargas e de potenciais atividades que poderão acontecer com estes investimentos. Em outros termos, é
fundamental viabilizar investimentos em obras de infraestrutura e saneamento básico, aprimorando o
fornecimento energético e o transporte de passageiros e de cargas. Desta forma, entende-se que o
tema concernente à infraestrutura é de bastante relevância para averiguar as potencialidades de cada
município.
As atividades de comércio e reparação de automotores, veículos, inclusive náuticos, oferecem não só
novos equipamentos, mas a manutenção e conservação. O crescimento dessas atividades apresentou
um desempenho positivo tanto no número de empreendimentos como no aumento de unidades de
média escala, entre 20 e 50 pessoas ocupadas. As unidades de pequena escala, com menos de 20
funcionários, apresentaram crescimento de menor monta. No período analisado, surgiram 6 grandes
empresas, com mais de 50 trabalhadores, entre elas 1 de mais de 250 pessoas ocupadas.

113
Quadro 20. Número de Empresas de Comércio e Reparação de Automóveis, por Faixa de Pessoal
Ocupado, em 2006, 2010 e Taxa de crescimento, em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 532 518 -2,6%
5a9 64 104 62,5%
10 a 19 35 46 31,4%
20 a 29 8 15 87,5%
30 a 49 3 3 0,0%
50 a 99 - 5 -
100 a 249 1 - -
250 a 499 - 1 -
Total 643 692 7,6%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

As empresas de transporte, armazenagem e correio, relacionadas principalmente à logística do fluxo de


mercadorias, mas também de pessoas, apresentou um crescimento relevante do número de
empreendimentos, especialmente de menor escala até 4 pessoas. Uma única empresa, que já tinha
mais de 100 funcionários, passou a ter mais de 250.

Quadro 21. Número de Empresas de Transporte, Armazenamento e Correio, por Faixa de Pessoal
Ocupado, em 2006, 2010 e Taxa de crescimento, em Bertioga

Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 7 13 85,7%
5a9 2 - -
100 a 249 1 - -
250 a 499 - 1 -
Total 10 14 40%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

As empresas de transformação apresentaram um crescimento no total do número de


empreendimentos de mais de 43,5%. A atividade teve uma expansão das unidades instaladas,
especialmente, unidades de pequena escala, com menos de 20 pessoas ocupadas.

Quadro 22. Número de Empresas Industriais de Transformação, por Faixa de Pessoal Ocupado, em
2006, 2010 e Taxa de crescimento, em Bertioga
Faixas de Taxa de
2006 2010
pessoal ocupado Crescimento
0a4 20 25 25,0%
5a9 3 3 0,0%
10 a 19 - 5 -
Total 23 33 43,5%
Fonte: IBGE-SIDRA-CCE 2010.

O que se percebe nos números analisados, referentes às empresas de segmentos associados às


atividades de infraestrutura produtiva e logística e a sua escala, é que o crescimento do mercado local
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no período estudado, deu-se mais por empreendimentos de pequena escala. A exceção das atividades
de comércio e reparação de automotores, que cresceu consideravelmente de escala de ocupação. As
unidades de transformação industrial, transporte, armazenamento e correio marcaram-se por pequena
escala, a exceção de uma empresa, que provavelmente deva ser a de transporte municipal.
Em se tratando de Bertioga, os levantamentos de informações primárias realizados pela Equipe do
Instituto Pólis em campo revelam uma relativa precariedade na infraestrutura deste município. Ou seja,
há uma percepção consensual entre os entrevistados em relação à precária infraestrutura urbana, em
diferentes áreas, mencionada como “gargalo”, “péssima”, “precária” e “grande problema”. A falta de
investimento em infraestrutura é apontada como um grande problema do município, que se constitui
em um dos principais entraves ao desenvolvimento das potencialidades da cidade, como, por exemplo,
do turismo.
Outros segmentos também apontam problemas específicos relacionados ao desenvolvimento de
atividades econômicas em suas respectivas áreas, como é o caso da Câmara de Comércio, que aponta,
por exemplo, a “falta de drenagem” ou “organização inadequada de avenidas” como prejudiciais aos
comerciantes.
A Colônia de Pescadores, por sua vez, atenta ao fato da falta de investimento do poder público na
concessão de infraestrutura destinada à atividade da pesca artesanal, como a inexistência de ponto de
venda para o pescado no município, além de uma fábrica de gelo para os pescadores. Tais obstáculos se
refletem em barreiras ao potencial da atividade que, se suplantados, podem melhorar as condições de
trabalho da pesca artesanal, por meio da produtividade, do comércio do pescado e da geração de
renda.
A questão da infraestrutura pode ser discutida também pela perspectiva do déficit habitacional
popular. Na visão da liderança do Sindicato dos Servidores Municipais, a significativa demanda por
moradia, desprovida de condições de compra formal da moradia, constituiu-se num sério problema de
infraestrutura. A integração produtiva regional e nacional que alcançou São Paulo, Santos e depois
Bertioga, desencadeou um processo de ocupação de assentamentos precários (irregulares) em bairros
periféricos, como o Ana Paula, Esperança, Chácara Vista Linda, Vicente Carvalho II, Boracéia e
Guaratuba, por meio da autoconstrução da moradia, casas populares e favelas..

Investimentos em Infraestrutura Previstos


Em trabalho de campo, a partir de conversas com integrantes da assessoria da Prefeitura e
levantamento de dados, constataram-se alguns projetos de investimento em andamento que
propiciarão melhorias nas condições de infraestrutura do município. Os projetos, bem como seus
valores, são apresentados na tabela 12 a seguir.
Os investimentos da política urbana em curso, referente ao Plano Cicloviário e ao Projeto de Integração
espacial, apresentam avanços e retrocessos na integração do Condomínio da Riviera, ao centro da
cidade e do alcance das comunidades ao norte deste condomínio. O primeiro plano a aproveitar o
traçado da SP – 055 cria uma alternativa importante, se concretizada em sua plenitude, entre o centro
municipal, a Riviera e a região do São Lourenço. Enquanto o plano de integração espacial (Transbordo)
circunda o muro do condomínio, até a comunidade do Lourenço, e ainda não alcança a região norte do
município, a partir de Guaratuba. Essa forma de integração da infraestrutura e dos serviços de
transporte reduz a potencialidade das diversas centralidades regionais, instaladas nos aglomerados
mais importantes, respectivamente por ordem espacial, a saber: o centro, Indaiá, Riviera, São
Lourenço, Guaratuba e Boracéia.

115
Quadro 23. Investimentos em realização geridos pelo poder executivo municipal de Bertioga,
complementado pelos poderes estadual e federal, em 2012.
Investimento
Investimentos em realização Percentual
em milhões de R$
Pista Anchieta 31,2 37%
Construção do Portal da cidade (2013) 8,0 9%
Revitalização da Orla Marítima 7,0 8%
Revitalização do PIER 6,0 7%
Canalização e pavimentação da Tomé de Souza 5,5 7%
Transbordo 1,7 2%
Rodoviária 1,4 2%
PAC II 9,0 11%
Remoção de famílias em áreas de margem e urbanização da favela por
meio do CDHU, onde conta com triagem para encaminhar para
8,0 9%
comércios, valorização da área envolvendo cerca de 500 famílias mais ou
menos 3000 pessoas
Projeto da Sabesp de drenagens 0,6 1%
Creche Vista Alegre 4,0 5%
Reforma do Hospital 2,0 2%
Total de Recursos 84,4 100%

Fonte: Prefeitura de Bertioga 2012.

Os investimentos listados podem ser divididos em dois grandes grupos segundo suas especificidades,
um de política de infraestrutura urbana e outro de serviços sociais. O primeiro recorte, que responde
por mais de 2/3 dos recursos, permite observar alguns traços importantes do projeto de cidade
implementado pelo poder público local. O segundo conjunto, além de ter uma parcela importante de
repasses, vindos dos governos, estadual e federal, em especial por programas e companhias
orientados a função urbana, como PAC, CDHU e Sabesp, de saneamento, urbanização, regularização e
produção habitacional, localiza-se em todo o território, mas se concentra próximo da sede municipal
(Mapas de Sistemas de Esgoto, ZEIS e Empreendimentos HIS).
O reforço da centralidade da Rodovia Anchieta, associado ao esquema de transbordo do transporte e a
prioridade das obras do Pier e Portal, dão força à segregação do território, pelo reforço do acesso
exclusivo rodoviário, entre um centro de Bertioga e Indaiá, à Riviera e aos outros condomínios que
polarizam o território. Um projeto de integração do território, de fato e não estético, requereria uma
relação mais intima da Riviera com Indaiá e São Lourenço, Guaratuba, Boracéia e etc., ou seja, por
novas vias de fluxo articuladas a um projeto econômico de ocupação, preservação, recuperação e uso
sustentável do interior e da orla.

5.3. Mercado de Trabalho


Para melhor entendermos as especificidades do mercado laboral de Bertioga, cabe apresentar alguns
indicadores destinados a mostrar algumas especificidades do mercado de trabalho no que tange à sua
estrutura, distribuição e formalidade.
Com base nos dados do IBGE, de 2010, Bertioga possui 47.645 habitantes e sua População em Idade
Ativa (PIA) é de 39.345, ou seja, 82% de sua população total. Vale lembrar que a PIA refere-se ao
segmento da população total com idade entre 15 e 65 anos, ou seja, a parcela disponível na sociedade
à realização de sua produção nacional. No entanto, no Brasil, onde as políticas públicas tiveram alcance
limitado, considera-se como integrante da PIA as pessoas com 10 anos ou mais, sem critérios de
estabelecimento de idade limite18. Mas nem todas as pessoas com 10 anos ou mais estão “disponíveis”

18
Conforme Dedecca (1998:96): “Os limites de idade da PIA variam de acordo com o nível de desenvolvimento de cada país”.
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Revisão de Fev. 2013

para a vida produtiva, pois parcela desta encontra-se estudando, doente, como donas de casa e
aposentados. Assim, apenas uma parcela da PIA realiza alguma atividade produtiva. Esta parcela
chama-se População Economicamente Ativa (PEA).
Em Bertioga, a PEA (25.368) é de cerca de 65% da PIA. Do total da PEA, há um segmento que se
encontra efetivamente trabalhando (ocupados) e outro que está fora do mercado de trabalho em busca
de ocupação (desocupado). Em Bertioga a taxa de ocupação (população ocupada dividida pela PEA) é
de 92,5%, visto que há 23.467 ocupados. Isto demonstra que a taxa de desocupação é de cerca de
7,5%, menor que as verificadas na Região Metropolitana da Baixada Santista, no Estado de São Paulo e
que a média nacional, próxima à de Bertioga. Para efeito de comparação ao longo do tempo, é mister
mencionar que, em 2000, seguindo a mesma metodologia, a taxa de desocupação em Bertioga estava
em 16,3%, mais que o dobro da verificada em 2010.

Quadro 24. Indicadores de Mercado de Trabalho, 2010

Tx Desocupação* Tx Informalidade**
Local PEA PIA
(Em %) (Em %)
Bertioga 25.368 39.395 7,4 47
RMBS 827.560 1.433.817 9,8 37
Estado de SP21.639.776 35.723.254 8,1 33
Brasil 93.504.659 161.981.299 7,6 41
Fonte: IBGE, SIDRA – Censo 2010 (Elaboração Própria).
* População Desocupada/PEA
** Proxy considerando os empregados sem carteira e os por conta própria/total de ocupados

Outro indicador é a informalidade do mercado de trabalho no município. Sabe-se que não há consenso
teórico-conceitual (o que redunda em dificuldades para quantificação) em torno da informalidade,
sendo necessária a elaboração de proxys para a sua análise. Neste trabalho, com o intuito de analisar o
peso das ocupações em situação de informalidade (sem carteira de trabalho assinada), optou-se por
somar os empregados sem carteira e os por conta própria e dividi-los pelo total de empregados.
Entende-se que este exercício nos permite ter uma ideia de quanto pesa o mercado de trabalho
informal no município. Com base nesta construção, nota-se que a taxa de informalidade do mercado de
trabalho é de 47% em Bertioga, superior às taxas registradas na Região Metropolitana da Baixada
Santista, no Estado de São Paulo e no Brasil. Em relação à taxa registrada em 2000 (44,7%), nota-se um
ligeiro aumento do peso das ocupações informais no município de Bertioga o que, inclusive, nos
permite pensar que parte dos desocupados foram absorvidos em atividades informais como forma de
subsistência.
Mesmo que a taxa de desocupação e de informalidade tenham caído em 2010, em relação à 2000, os
seus números totais, explicam muito da precariedade dos assentamentos urbanos e das relações
econômicas locais, por conta da condição de inserção do trabalhador no mercado. O desafio para a
inclusão social no município, é melhorar a condição de vida de mais de 11 mil trabalhadores na
economia informal, quase 2 mil pessoas desocupadas e um percentual relevante de trabalhadores de
mais de 10 anos, com rendimentos e não alfabetizados (5,4%, 1.372 pessoas), acima da taxa estadual
(4,1%), que são moradores em condições de pobreza (18,7% dos domicílios) e de indigência (6,5% dos
domicílios).

5.3.1. A especialização produtiva do trabalho no Município


O mercado de produção, com trabalho formal confrome a legislação, permite melhores condições de
aumento da renda e da especialização do trabalho pela verticalização do investimento em meios de
117
produção, respectivo aumento da escala, da produtividade e da diferenciação de produtos e serviços.
Por isso, busca-se descobrir algumas tendências do mercado de trabalho, a partir das informações da
distribuição do emprego formal, nas diversas atividades, as suas respectivas remunerações médias do
trabalho e a especialização regional das atividades locais na economia do estado.
No que se refere à distribuição dos estabelecimentos pelos setores da atividade econômica, de acordo
com os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE), verifica-se que, em 2010, do total de 1.233 estabelecimentos registrados, mais de 60% estavam
nos serviços, 34% no comércio, 2,9% na indústria da construção, 2,3% na indústria extrativa e de
transformação e cerca de 0,6% na agropecuária. Estes dados reiteram o exposto acima, de alta
participação dos serviços e comércio, baixo nível de industrialização e da agropecuária, o que pode ser
um indício de estagnação econômica, baixo valor agregado da produção, baixa competitividade e
inovação, baixo nível de formalização do emprego etc. Sobre a agropecuária, cabe lembrar que por se
tratar de uma fonte de dados que abarca os empreendimentos formais da economia (RAIS), a parcela
substancial desta atividade, realizada de maneira informal, não é registrada.

Figura 3. Distribuição (%) dos estabelecimentos por setores da atividade econômica Bertioga, SP,
2010

Indústria
Agropecuária; Extrativa e
0,6 Transformação
; 2,3
Indústria da
Construção;
2,9

Comércio; 34,0
Serviço; 60,3

19
Fonte: IBGE, Perfil dos Municípios e RAIS, MTE (Elaboração Instituto Pólis ).

Ao desagregar estes estabelecimentos com base nos dados da Classificação Nacional da Atividade
Econômica – CNAE – IBGE, nota-se que os setores que mais se destacam em relação ao número de
estabelecimentos, são: estabelecimentos de comércio e serviços de reparação em motocicletas e
veículos automotores (37% dos estabelecimentos); atividades administrativas e serviços
complementares (25%); alojamento e alimentação (15,6%); construção (4,3%). Por outro lado, ao
analisar os dados concernentes à indústria, comprova-se o baixo nível de industrialização do município,
uma vez que o total de estabelecimentos industriais não chega a 2%, e deste total, 85% tem até 10
empregados. Por tamanho dos estabelecimentos, ao analisar a mesma fonte de dados, nota-se que a
grande maioria é de pequenos estabelecimentos, visto que 96% deles tem até 20 empregados, sendo
quase 70% com até 4 empregados.
Do ponto de vista de gênero, ao analisar os dados do mercado de trabalho formal no município, de
acordo com a RAIS, para o ano de 2010, percebe-se que, do total dos empregos formais gerados no
município de Bertioga, apenas 37,2% são ocupados por mulheres, o que sugere baixa participação da
mulher no mercado de trabalho formal ou elevada taxa de informalidade em suas atividades
profissionais. Em se tratando dos rendimentos médios, na média, os salários das mulheres, para as
mesmas atividades exercidas, são cerca de 90% dos ocupados do sexo masculino. Por faixa etária, os

19
Os conceitos das atividades econômicas foram renomeados, contemplando quando possível a sua relação setorial, especialmente
com a indústria, de forma a tornar de mais simples entendimento para o leitor, sem perder sua capacidade explicativa.
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jovens, com idade entre 15 a 24 anos (metodologia IBGE), representam 23,1% do total dos empregados
e auferem, em média, 60% do rendimento médio do total dos empregados formais.
Em relação aos empregos formais no município de Bertioga em 2010 (há contabilizados neste ano
11.020 empregos formais), têm-se o seguinte cenário: 51,1% estão no setor de serviços (com destaque
aos serviços de alojamento e alimentação); 26,4% no comércio; 16% na administração pública; 5% na
indústria da construção e, nos demais setores, tais como agropecuária, indústria de transformação e
indústria extrativa, a participação, em cada setor, não chega a 1% dos empregos em Bertioga. É válido
mencionar que o emprego formal captado pelos dados do RAIS/MTE refere-se aos vínculos
empregatícios regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e estatutários (regidos pelo Estatuto
do Servidor Público), marcos institucionais formais do mercado de trabalho nacional.
Cabe aqui frisar o peso da participação do setor público no emprego formal do município (de 16%),
sobretudo, levando em conta o fato de que a massa salarial auferida por este setor se constitui como
importante elemento de dinamização das atividades econômicas municipais, sobretudo no comércio e
na prestação de serviços.
A partir destes dados, percebe-se que os empregadores neste município são o setor de serviços, de
comércio e a administração pública, sendo marginal a geração de emprego em outros setores. A
indústria da construção, apontada como empregadora potencial em Bertioga, apresenta apenas 5% dos
empregos formais, o que indica elevada informalidade inerente ao setor.

Figura 4. Distribuição (%) dos empregos formais por setores da atividade econômica - Bertioga, SP,
2010
Indústria Indústria de Indústria da
Extrativa ; 0,0 transformação; Construção;
Agropecuária; 0,9 5,0 Servicos
0,3 Industriais de
Utilidade
Administração Pública; 0,7
Pública; 16,0

Comércio; 26,4

Serviço; 51,1

Fonte: MTE, RAIS (Elaboração Instituto Pólis).

No que se refere à remuneração média auferida em Bertioga, para o ano de 2010, verifica-se (Figura 5)
que os maiores salários estão no setor de serviços industriais de utilidade pública (SIUP: água, esgoto
etc), R$ 2,6 mil, em que pese o fato de que este setor tem baixíssima representatividade no que diz
respeito à geração de emprego (menos de 1% do emprego total do município). Do outro lado, o menor
rendimento auferido está no setor da agropecuária. Os serviços e o comércio, setores de significativa
importância para a geração de empregos formais neste município, registram remunerações de R$ 1.455
e R$ 967, respectivamente. Com exceção do setor de SIUP, nos demais setores vale notar que os
rendimentos médios auferidos em Bertioga são inferiores aos registrados no Estado de São Paulo e no
Brasil.
Tal constatação nos permite verificar que o perfil salarial registrado no município o caracteriza como
um mercado formal de trabalho com baixos salários. Em que pese que os baixos salários constituam
uma característica estrutural da formação do mercado de trabalho no Brasil, percebe-se que em

119
Bertioga esta característica se intensifica. Eis a manutenção do que Maricato (1996) identificou como
“urbanização com baixos salários”20.

Figura 5. Remuneração média em reais por setores da atividade econômica - Bertioga, SP - 2010
Bertioga São Paulo Brasil

4.500
4.000
3.500
3.000 2.682
2.354
2.500
2.000 1.445
1.500 1.198 1.057
944 968
1.000
500 0
-
Agropecuária Indústria Indústria de Indústria da Servicos Comér cio Serviço Administração
Extrativa transformação Construção Industriais de Pública
Utilidade Pública

Fonte: MTE, RAIS (Elaboração Instituto Pólis).

Outro dado interessante de mencionar, para uma melhor caracterização da atividade econômica, é o
Quociente Locacional (QL21). Conforme Silva et al. (2008), para a elaboração de critérios de
identificação de aglomerações produtivas locais, “é desejável elaborar um indicador que seja capaz de
captar pelo menos três características de uma aglomeração produtiva local: a) a especificidade de um
setor dentro de uma região (município); b) o seu peso em relação à estrutura empresarial da região
(município) e c) a importância do setor para a economia do Estado” (p.6). Dados da RAIS22, do MTE,
foram coletados para o cálculo do QL de cada setor econômico no município.

20
MARICATO, Ermínia; "Metrópole na periferia do capitalismo", São Paulo: Hucitec/Série Estudos Urbanos, 1996.
21
Este exercício realizou-se com base no cálculo do QL. O QL refere-se a um indicador típico na literatura de economia regional, de
comparação de duas estruturas setorial-espaciais, a partir da razão entre as duas estruturas econômicas, sendo considerada, no
numerador, a “economia em estudo” (município) e, no denominador, a “economia de referência” (estado). Desta forma, o cálculo leva
em conta, no numerador, a relação entre o emprego do setor ou atividade “x” no município “j” em estudo e, no denominador, a
relação entre o emprego do setor “x” no Estado em que está este município “j” pelo emprego total no Estado deste município.
Após os cálculos, considera-se como potenciais Arranjos Produtivos Locais (APLs) aqueles setores com QL superior a 1. Vale lembrar
que há estudos que adotam como critério o QL maior ou igual a dois ou três. Em quaisquer das situações (QL superior a 1, 2 ou 3), o
resultado indica que a especialização do município “j” na atividade ou setor “x” é superior à especialização do conjunto do Estado
nessa atividade ou setor (Silva et al., 2008). Nossa opção por analisar os QLs superiores a 1 deve-se ao fato dos municípios em análise
serem pequenos, de baixa renda e/ou estagnados.
22
Em relação aos dados da RAIS, cabe mencionar que sua utilização para este exercício justifica-se pela possibilidade de desagregação
setorial e geográfica dos dados, até o nível municipal e, em termos setoriais, até o nível de subsetores da atividade econômica
seguindo a Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE). Por outro lado, é sabido que esta base de dados traz consigo a
restrição de somente contemplar o emprego formal, não permitindo, portanto, medir a “força” da economia/empreendimentos
informais, constituída de pequenas empresas familiares e outras atividades de pequena escala; empreendimentos estes de
importância nesta pesquisa. Por estas limitações, este exercício nos serviu apenas como ponto de partida para aplicação dos
questionários e mapeamento de setores estratégicos e potenciais do município, e outros perfis de estabelecimentos (inúmeros
informais, por exemplo) foram sido visitados e analisados a partir dos questionários e entrevistas realizadas.
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Quadro 25. Quociente Locacional (QL) para o município de Bertioga, SP – 2000 e 2010
Setores da Atividade Econômica 2000 2010 13-Alimentos e Bebidas 0,11 0,10
01-Extrativa Mineral 0,27 0 14-Serviço Utilidade Pública 0,77 0,84
02-Prod. Mineral não Metálico 0,86 0,34 15-Construção Civil 0,20 1,02
03-Indústria Metalúrgica 0 0,04 16-Comércio Varejista 1,73 1,57
04-Indústria Mecânica 0 0 17-Comércio Atacadista 0,25 0,38
05-Elétrico e Comunicações 0 0 18-Instituição Financeira 0,31 0,28
06-Material de Transporte 0 0 19-Adm Técnica Profissional 1,71 1,6
07-Madeira e Mobiliário 0,02 0,02 20-Transporte e Comunicações 0,53 0,46
08-Papel e Gráfico 0,15 0,07 21-Aloj e Comunic 3,30 2,29
09-Borracha, Fumo, Couros 0 0,03 22-Médicos Odontológicos Vet 0,14 0,88
10-Indústria Química 0 0 23-Ensino 0,73 0,62
11- Indústria Têxtil 0,06 0 24-Administração Pública 1,07 1,26
12- Indústria de Calçados 0 0 25-Agricultura 0,03 0,11
Fonte: MTE, RAIS (Elaboração Instituto Pólis).

Os dados para Bertioga (Quadro 1) apontam, para o ano de 2010, as seguintes atividades econômicas
com maior destaque em sua especialização produtiva regional: alojamento e comunicação (certamente
alojamento, tendo em vista a cadeia do turismo, que inclui serviços de hotelaria (QL de 2,29);
atividades técnico-profissionais (QL de 1,60); comércio varejista (QL de 1,57); administração pública (QL
de 1,26) e construção civil (QL de 1,02). Quando se comparam estes dados com os anos de 2000, a
análise da década nos traz algumas questões interessantes. Por exemplo, no caso da construção civil,
este setor não apresentava QL maior que 1 (era de apenas 0,20 em 2000), o que revela dinamismo ou
formalização da atividade, na atividade ao longo deste período. Por outro lado, o setor de alojamento,
que em 2010 registrou um QL significativo, em 2000 era ainda mais representativo (3,30), o que pode
indicar um relativo arrefecimento das atividades neste segmento, considerado importante à geração de
emprego e renda.
As tendências do mercado de trabalho, captadas nas informações da distribuição do emprego, pode ser
apresentada da seguinte maneira, os serviços em geral ocuparam 50,9% das pessoas (alojamento,
alimento, administrativo público e privado e outro), comércio 26,3% das pessoas, administração pública
15,9% e construção 5%. Os salários médios estavam mais elevados nas atividades de serviços
industriais de utilidade pública, administração pública e serviços, e era proporcionalmente menor nas
atividades de industriais, construção civil, comércio e agropecuária.
A concentração da ocupação de pessoas em determinadas atividades, acima da média do estado,
mostrou-se representativa, nos segmentos de alojamento e comunicação, técnico profissional,
comércio varejista, administração pública e construção civil. Mas se deve refletir no aumento da
importância da ocupação formal na construção, simultâneo a redução da importância da ocupação nas
atividades de alojamento e alimentação.

5.3.2 A Capacitação do Mercado Local de Trabalho


O desafio para a integração das pessoas nas atividades econômicas, especialmente, nas relações
formais de emprego na produção, requer o ajuste da pretensão das pessoas (oferta de trabalho), às
oportunidades oferecidas por empreendimentos e famílias (demanda por trabalho). Por isso é
fundamental, confrontar alguns grandes grupos de pretensões profissionais dos trabalhadores, com a
requisição por trabalho e especialidades. Para por fim, considerar a capacidade de preparação local da
população, para alguns grandes segmentos ou mercados de trabalho, estratégicos e importantes.
A oferta de trabalho considera as melhores inserções profissionais, do ponto de vista 3 escolhas do
candidato, registrado pela Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (Sert). Com essas
121
informações, verificam-se diversas ocupações pretendidas, com destaque para faxineiros,
recepcionista, auxiliar de escritório, operador de caixa, vendedor, camareiro, porteiro,
vigilante, atendente de lanchonete e etc.. As mulheres ofereciam mais do que os homens, o
trabalho como faxineira, operadora de caixa, vendedora, camareira,atendente de
lanchonete, cozinheira, assistente administrativa, recepcionista de consultório e em geral. Esses 18
tipos de ocupações, concentravam quase 60% da oferta de trabalho das mulheres. Os homens
ofertavam mais do que as mulheres, o trabalho como porteiro, vigilante, repositor de
mercadorias, motorista, garçom, manutenção de edifícios e pintor de obras. Os mesmos 18 tipos
de ocupações representam uma proporção menor do conjunto masculino, cerca de 32,8%.

Quadro 26. Oferta de Trabalho, segundo a especialidade pretendida, sexo, percentual e total, em
Bertioga 2010
Ocupação Pretendidas Mulheres Homens Total
(Oferta de trabalho) Nº Abs. % Nº Abs. % Nº Abs. %
Faxineiro 138 14,7 60 6,9 198 14,0
Recepcionista, em geral 106 11,3 9 1,0 115 8,2
Auxiliar de escritório, em geral 51 5,4 20 2,3 71 5,0
Operador de caixa 46 4,9 2 0,2 48 3,4
Vendedor de comércio varejista 37 4,0 10 1,1 47 3,3
Camareiro de hotel 46 4,9 - 46 3,3
Porteiro de edifícios 2 0,2 41 4,7 43 3,0
Vigilante - 33 3,8 33 2,3
Atendente de lanchonete 22 2,4 9 1,0 31 2,2
Repositor de mercadorias 11 1,2 19 2,2 30 2,1
Motorista de carro de passeio 3 0,3 22 2,5 25 1,8
Cozinhador (conservação de alimentos) 20 2,1 3 0,3 23 1,6
Assistente administrativo 16 1,7 4 0,5 20 1,4
Promotor de vendas 10 1,1 10 1,1 20 1,4
Trabalhador da manutenção de edificações 4 0,4 16 1,8 20 1,4
Garçom 5 0,5 12 1,4 17 1,2
Pintor de obras - 16 1,8 16 1,1
Recepcionista de consultório médico ou dentário 16 1,7 - 16 1,1
18 Especialidades Mais Ofertadas 533 56,9 286 32,8 819 58,0
Oferta Total de 266 Especialidades 629 782 1411 100

Fonte: Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho – Sert. Emprega São Paulo; Fundação Seade. (1) Os candidatos podem
indicar até três ocupações pretendidas, nesta tabela foram computadas todas as ocupações indicadas. (2) Incluem candidatos
disponíveis, em seleção, admitidos, suspensos e desativados. (3) Em razão da transição do Sistema de Intermediação de mão-
de-obra do Governo do Estado de São Paulo (Emprega São Paulo) para o sistema operado pelo Ministério do Trabalho e
Emprego do Governo Federal (MTE Mais Emprego) a série de dados foi, momentaneamente, interrompida em julho de 2011.
(Elaboração Instituto Pólis).

A demanda por trabalho, por parte das empresas e famílias, é bem menor que a necessidade dos
trabalhadores. Se dividirmos toda a ocupação requisistada, pelo número de escolhas do candidato
(3X), chega-se a uma estimativa a oferta total de trabalho de 14.852 profissionais em São Vicente,
entre janeiro e dezembro de 2010. A oferta de trabalho no mesmo período registrado pela Sert foi de
1.932 postos de trabalho. Além disso, a oferta total distribuída entre os gêneros de 22.610 mulheres e
21.945 homens, do ponto de vista da demanda por trabalho, foi pior para as mulheres, que tiveram a
oportunidade de apenas 125 postos de trabalho, exclusivos para o seu sexo, 632 com a sexualidade
indiferente e 1,182 oportunidades restritas aos homens. A sexualidade é um forte fator de restrição
profissional para as mulheres, em atividades, como eletricista, instalador de tubulações, técnico de
instrumentos, operador de máquinas, soldador elétrico, montagem de máquinas e andaimes. As
mulheres tiverem oportunidade em mercados exclusivos, como operadoras de caixa, no comércio,
faxineiras, em lanchonetes e como promotoras de vendas. Mas se concentraram nas atividades de
venda no comércio, faxina, atendente de lanchonete e promotora de vendas.
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Quadro 27. Demanda por Trabalho, segundo a especialidade pretendida, por sexo, percentual e
total, em Bertioga 2010
Ocupação Requisitada Masculino Indiferente Total
(Demanda de trabalho) Nº Abs. % Nº Abs. % Nº Abs. %
Assistente administrativo 1 4 1 3,4
Funileiro de veículos (reparação) 1 4 1 3,4
Garçom 20 80 20 69,0
Montador de veículos (reparação) 1 4 1 3,4
Motorista de carro de passeio 1 25 1 3,4
Pintor de veículos (fabricação) 2 8 2 6,9
Recepcionista de hotel 1 25 1 3,4
Vigilante 2 50 2 6,9
Demanda Total de 8 Especialidade 4 100 25 100 29 100

Fonte: Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho; Fundação Seade. (Elaboração Instituto Pólis).

Grande parte das vagas disponibilizadas, entre janeiro e dezembro de 2010, mais de 1.500 delas
exigiam certificação de experiências anteriores. A exigência de experiência era maior para homens
(91,4% das vagas) do que para as mulheres (76,2%), e no caso da indiferença sexual, a exigência de
experiência era ainda menor.

Quadro 28. Número de Vagas, segundo o Requisitos de Experiência de Trabalho, por Sexo, em
Bertioga 2010
Feminino Masculino Indiferente Total
Experiencia Anterior
Nº Abs. % Nº Abs. % Nº Abs. % Nº Abs. %
Com Experiência 25 89% 5 29% 78 92% 108 83%
Sem Experiência 3 11% 12 71% 7 8% 22 17%
Total 28 100% 17 100% 85 100% 130 100%

Fonte: Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho – Sert; Fundação Seade. (Elaboração Instituto Pólis).

Outro ponto pertinente de ser exposto refere-se ao número de operações e volume de empréstimos
concedidos pelo Banco do Povo Paulista23, administrado pela Secretaria de Emprego e Relações de
Trabalho do Estado de São Paulo (SERT), em conjunto com a Prefeitura, cujo principal objetivo é o
auxílio na geração de trabalho, emprego e renda, a partir do microcrédito que se direciona para a
consecução de pequenos negócios formais ou informais24.
Conforme se percebe na Tabela abaixo, o número de operações, o volume emprestado, bem como a
média de valores subiram significativamente, sobretudo nos dois últimos anos em que os dados estão
disponíveis. Isto reflete nas potencialidades que se abrem para os pequenos empreendedores que, em
sua maioria de baixa renda e não inseridos no mercado formal de trabalho, lutam pela sobrevivência
econômica a partir de empreendimentos enquadrados na órbita da economia solidária.

23
http://www.bancodopovo.sp.gov.br/
24
Os objetivos específicos do programa são: democratizar o acesso ao crédito de pequenos empreendedores que objetivam produzir
e crescer, apoiando suas habilidades e experiências de produção e serviços; aumentar a renda familiar; estimular o
empreendedorismo e a criação de novos postos de trabalho e oferecer oportunidades reais de melhoria no trabalho e na renda.
123
Tabela 29. Número de operações e valores emprestados (em R$) pelo Banco do Povo Paulista
em Bertioga - 2000 a 2011

Número de Empréstimos Média de Valor


Ano
Operações Em R$ Em R$
2002 2 3.360 1.680
2003 23 71.224 3.097
2004 18 43.266 2.404
2005 18 51.248 2.847
2006 15 39.790 2.653
2007 7 21.936 3.134
2008 6 20.831 3.472
2009 13 45.872 3.529
2010 25 77.177 3.087
2011 52 209.556 4.030

Fonte: SERT - Banco do Povo Paulista – F. SEADE. (Elaboração Instituto Pólis).

Esta é, inclusive, uma frente que pode ser fomentada, como elemento de contribuição ao
desenvolvimento econômico do município, em projetos, ações e práticas que devem estar articuladas
aos governos estadual (como o próprio Banco do Povo Paulista) e também federal, no âmbito da
Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES). Vale lembrar que inúmeras práticas levadas a cabo
pelas operações utilizando o microcrédito e a economia solidária representam uma forma específica de
operar ações de geração de trabalho e renda, pois estão assentadas em uma concepção estratégica de
desenvolvimento territorial.
Na práxis, é necessário pensar o território a partir da inter-relação de, principalmente, três aspectos: a)
setoriais: objetivando melhoras permanentes da eficiência e da produtividade dos setores produtivos, a
partir de ações para a qualificação, formação, inovações tecnológicas etc; b) territoriais: formas de
administrar e gerir os recursos endógenos (mão-de-obra, recursos naturais e infraestrutura), visando a
criação de um entorno local favorável e c) meio ambientais: a partir de ações para conservação dos
recursos naturais e do respeito ao ecológico, tido como valor estratégico em questões de
desenvolvimento de localidades.
No entanto, é mister frisar que tal ideia não deve negligenciar a importância das políticas econômicas
adotadas em âmbito federal. Muito pelo contrário, estas devem ser pensadas e implementadas de
modo a contribuírem para a exitosa consecução das políticas territoriais. Afinal, questões cruciais como
taxa de juros, nível de investimento, taxa de câmbio, bem como percentual de repasses aos municípios
e de gastos em determinadas políticas locais, são decisões tomadas em âmbito federal e que podem
ajudar ou inviabilizar ações, programas e projetos de desenvolvimento territorial/local.
Os impactos dos investimentos na cadeia de petróleo e gás natural, bem como seus desdobramentos
em investimentos de infraestrutura (portos, rodovias etc), indubitavelmente trarão impactos na
questão da mão de obra. Um recente estudo (ONIP, 2011), aponta para a possibilidade de geração de
mais de 2 milhões de postos de trabalho no país como desdobramento dos investimentos que já vem
se efetivando e que se manterão até 2020 nesta cadeia.
A magnitude e a abrangência da cadeia de petróleo e gás natural fazem com que o setor apresente
necessidades diversificadas por mão-de-obra. Estudos realizados pelo SEBRAE Nacional25 identificam os

25
Disponível em: http://www.biblioteca.sebrae.com.br/bds/BDS.nsf/8760602B214695CA832573BE004E6135/$File/Ind%C3%
BAstria_do_Petr%C3%B3leo.pdf
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perfis de recursos humanos, de nível médio e superior que serão demandados como corolário destes
investimentos. São eles:

Engenheiros: Químico; Civil; de Inspeção de Equipamentos; de Instalações Marítimas;


de Manutenção; de Materiais; de Perfuração; de Processamento de Petróleo; de
Produção; de Reservatório; de Telecomunicações; Eletricista; Eletrônico; Metalurgista;
Naval; Submarino. Além de Geofísico; Geólogo; Paleontólogo; Químico de Lama e de
Petróleo, Analistas; Eletricistas; Inspetor de Ensaios não Destrutivos; de Equipamentos;
Instrumentistas; Mecânicos; Operadores de Processo; de transferência e Estocagem;
de VCR; Soldadores; Sondadores; Técnicos de Laboratório; de Produção; de
Perfuração; de Suprimentos; de Instrumentação; de Manutenção; de Processamento.

Para suprir as necessidades da indústria petrolífera nacional foi criado, em 2006, o Plano Nacional de
Qualificação Profissional (PNQP) do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás
Natural - Prominp, cujo objetivo é o treinamento da mão-de-obra (com o oferecimento de bolsas de
estudo para os participantes) demandada pelos empreendimentos do setor de petróleo,
principalmente às empresas fornecedoras de bens e serviços nos 17 estados do País onde foram
previstos investimentos por parte da Petrobras. A estruturação de cursos do PNQP é baseada na
previsão de demanda, calculada com base no portfólio e projetos da Petrobras. O foco do PNQP é a
qualificação profissional por meio de cursos de curta duração (semestrais), destinados ao ensino
básico, médio e superior, além de cursos de formação gerencial.
Em se tratando deste Programa, é interessante tratar do tema “conteúdo local”. A parcela de
participação da indústria nacional no fornecimento de bens e serviços para um determinado
empreendimento é denominada de “conteúdo local”. Ou seja, quando uma plataforma ou refinaria, por
exemplo, possui um alto índice de conteúdo local, significa que os bens e serviços utilizados em sua
construção são, em grande parte, de origem nacional, e não importados26.

No que se refere ao município de Bertioga, levantamentos realizados pela Equipe Pólis


apontam para o fato de que a qualificação de mão de obra no município é um
problema a ser enfrentado.

Este tema encontra respaldo quando se analisam as percepções dos potenciais impactos dos
investimentos do Pré-sal em Bertioga. Na visão de alguns entrevistados, todas as cidades que estão
relacionadas à Petrobras em termos de trabalho operacional demandam mão de obra “super
qualificada”. E, nesse sentido, “Bertioga não tem”. No caso de potenciais impactos oriundos do avanço
de empregos industriais (algo no momento um pouco fora de cogitação, por temas de licenciamento
ambiental e perfil sócio-cultural e político do município), há a ideia de que a mão de obra certamente
viria toda de Cubatão (soldador, químico, metalúrgico) e Bertioga entraria apenas com profissionais
como vigilantes, faxineiras etc.
Dados do Censo SUAS (2011)27, elaborado pelo MDS, em seu Boletim especial para o tema Qualificação
Profissional aponta que no município, existe estudo setorial ou diagnóstico socioeconômico que tenha
sido realizado nos últimos cinco anos, bem como o governo municipal desenvolve programas, ações ou

26
Desde 2003, o Governo Federal vem implementando uma política de conteúdo local no setor de petróleo e gás natural com o
objetivo de ampliar a participação da indústria nacional no fornecimento de bens e serviços, em bases competitivas e sustentáveis, a
fim de traduzir os investimentos do setor em geração de emprego e renda para o país.
27
http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/RIv3/geral/carrega_pdf.php?rel=qualificacao_profissional (Acesso em 11.06.2012).
125
projetos de inclusão produtiva para geração de trabalho e renda, assim como programas, ações ou
projetos de formação, qualificação ou capacitação profissional. No entanto, em se tratando de
programas específicos de inclusão socioprofissional para deficientes físicos, nota-se que não existem
projetos específicos para este grupo. Ainda de acordo com este Censo, há projetos, ações e programas
de geração de trabalho e renda e de ações de qualificação profissional sendo desenvolvidos em
parceria com o Governo Estadual (e não com o Federal), com parcerias público-privadas (PPP), com
cooperativas de crédito e o Sistema S (Sesi e Senac). No que tange aos grupos beneficiados pelos
programas, ações e projetos, somente a população em situação de rua e os beneficiários do Programa
Bolsa Família que foram selecionados28, com base no oferecimento de 124 vagas nas áreas de
construção e reparos e turismo e hospitalidade.
Em se tratando especificamente dos impactos do Pré-sal e dos empreendimentos da Petrobras, uma
forma de superar a sazonalidade dos empregos gerados nos setores responsáveis pela maior demanda
de mão de obra (srviços e construção civil) é a qualificação em setores mais dinâmicos, que abre
perspectivas para inserção no mercado de trabalho em ocupações promissoras. No entanto, a
especificidade sociopolítica e cultural de parte dos atores sociais organizados e não organizados do
município de Bertioga em relação à não aceitação do avanço do setor industrial, de certa forma,
restringe as possibilidades neste sentido.

Basta analisar que, no que tange ao Promimp, no momento, se realiza o 6ª Ciclo de


Qualificação Profissional29 e, de acordo com informações de seu site30, o município de
Bertioga não apresenta nenhum curso de qualificação técnica-profissional referente a
este programa.

5.4. Finanças Públicas e o Desenvolvimento Socioeconômico municipal: a experiência de Bertioga


Para melhor situarmos as pertinentes conexões entre as finanças públicas municipais e o
desenvolvimento socioeconômico, entende-se como relevante tecer algumas observações a respeito
deste tema, em que pese que neste Relatório exista uma parte específica concernente às finanças
públicas. O Estado brasileiro, principalmente a partir implementação do Modelo de Substituição de
Importações, através de seus investimentos diretos, das companhias estatais e do planejamento
executado, teve um papel fundamental no desenvolvimento econômico de nosso país.
Apesar do processo de privatização desenvolvido a partir dos anos de 1990 a importância do Estado
continua expressiva na área econômica e na área social. Neste contexto é importante lembrar que,
cerca de 34% do PIB, chega às mãos do setor público através da cobrança de tributos federais,
estaduais e municipais. Especificamente em relação aos municípios essa presença do Estado, através
das ações da prefeitura bem como das esferas estadual e federal, mesmo que em muitos casos ainda
insuficiente, é fundamental para o desenvolvimento local.
Na área da educação, por exemplo, é do conhecimento de todos que a grande maioria dos estudantes
de nosso país, com exceção do ensino universitário, dependem fundamentalmente do ensino público
gratuito. Nessa área, as prefeituras são as principais responsáveis pela manutenção de creches e de
escolas do ensino fundamental. O mesmo podemos dizer sobre a área da saúde pública onde a maioria

28
O que significa que nada foi direcionado à população ribeirinha, comunidade quilombola, agricultor familiar, povos indígenas etc.
29
Estão abertas de 07 de março a 12 de abril de 2012 as inscrições para o 6° ciclo de cursos gratuitos do Prominp para os níveis básico,
médio, técnico e superior. São oferecidas mais de 11 mil vagas, para 85 ocupações voltadas para o setor de petróleo e gás natural, em
14 estados: Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio
Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo. A escolha das cidades que receberão os cursos do Prominp
está relacionada aos locais onde há projetos e empreendimentos do setor de petróleo e gás em execução ou previstos para os
próximos anos, considerando seus respectivos cronogramas de implementação e necessidade de mão de obra. Do total de vagas
oferecidas, 7335 são para cursos de nível básico, 3706 para cursos de nível médio e técnico e 630 para cursos de nível superior.
Informações adicionais em: http://www.prominp.com.br/data/pages/8A9D2A9835ED5F820135 EE4D19825A8B.htm
30
http://portal.prominp.com.br/prom/filtrarConsultaCurso.do
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da população depende dos serviços de atendimento em postos de saúde mantidos em grande parte
pelas prefeituras.
No caso específico de Bertioga alguns dados são ilustrativos nesse sentido. No caso dos gastos com
pessoal e encargos sociais se verifica que R$ 75,3 milhões correspondente a 38,2% do total da despesa
empenhada do município em 2010 foram despendidos neste tipo de gastos sendo a prefeitura, um dos
principais polos de contratação de mão de obra local. Não há dúvida que a renda proveniente desses
salários é gasta no comércio e nos mais variados serviços oferecidos no município desencadeando todo
um efeito multiplicador de emprego, renda e arrecadação de tributos.
Ao acrescentar ao valor apontado, as despesas com as transferências de recursos da prefeitura para
instituições privadas sem fins lucrativos, que somaram R$ 24,9 milhões - 12,6% do total das despesas
empenhadas também em 2010 e, as despesas com outros serviços de terceiros que corresponderam a
R$ 52,3 milhões – 27% do total, temos a dimensão da importância do gasto público como gerador de
emprego, renda e atendimento a população nas mais variadas áreas.
Por sua vez os financiamentos/repasses que estão sendo realizados pela Caixa Econômica Federal
naquele município, entre 2005 e 2011 e que estão em vigência, atingem o valor total de R$ 67,4
milhões que somados às contra partidas da própria Prefeitura, da Sabesp e do Governo do Estado
atingem R$ 137,7 milhões e estão sendo investidos nas áreas de infraestrutura, habitação, saneamento
e outras. Esses dados reforçam, ainda mais, o entendimento sobre o papel dos recursos públicos na
melhoria da qualidade de vida da população e da infraestrutura nas mais variadas esferas do município.
Por outro lado, como o município de Bertioga praticamente não tem endividamento e segundo a
Resolução 40 do Senado Federal, que define que os municípios podem se endividar até 120% de sua
receita corrente líquida, há uma ampla capacidade de o município antecipar a solução dos mais
diversos problemas como habitação e outros, através do planejamento do aumento de sua dívida.
Em relação às receitas que são vinculadas às transferências de outras esferas de governo destaca-se
que a maior parte vem da União, atingindo 21,0% do total arrecadado com R$ 43,2 milhões. A receita
de Transferência da União mais elevada está no item Outras Transferências da União – Compensação
Financeira/Royalties Petróleo, transferência esta que representa 10,5% do total da receita orçamentária
sendo a segunda mais importante fonte de recursos do município com R$ 21,4 milhões. Com o
desenvolvimento do Pré-Sal este tipo de receita – Transferência de Compensação Financeira - tende a
ocupar um espaço cada vez maior na composição da receita do município.
Já a transferência do FPM representou 7,4% da receita total com R$ 15,1 milhões. Em relação ao
potencial de crescimento das transferências baseadas no FPM é importante assinalar que elas estão
vinculadas ao crescimento do PIB porque os recursos deste Fundo estão baseados na arrecadação do
Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI e do Imposto de renda – IR. Os recursos do Fundo
refletem também as possíveis políticas de isenções fiscais como as que ocorreram em 2009 para
enfrentar a crise econômica. Naquele período houve a isenção do IPI para a indústria automobilística e
a chamada linha branca, o que diminuiu o montante da receita do Fundo, causando consequente
redução do valor transferido para muitos municípios.
As Transferências do Estado representaram 8,6% do total da receita, R$ 17,5 milhões. A maior parte
desses recursos foi das transferências do ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços,
com R$ 14,3 milhões, isto representou 7,0% do total. O potencial de aumento dessa fonte de
arrecadação também está diretamente ligado ás perspectivas de aumento do PIB e também a uma
fiscalização mais eficaz. Outra forma de se potencializar esse tipo de arrecadação é a implantação de
novas empresas no município se for o caso.
Por esses dados da receita, é possível concluir que a melhoria da qualidade de vida e do
desenvolvimento local estão ligados ao desenvolvimento econômico do país.

127
5.5. Considerações finais
O desenvolvimento econômico do território deve considerar a importância não somente da dimensão
econômica (relacionada com a criação, acumulação e distribuição da riqueza), mas também das
dimensões social e cultural (implica qualidade de vida, equidade e integração social), ambiental (se
refere aos recursos naturais e a sustentabilidade dos modelos de médio e longo prazo) e política (trata-
se de aspectos relacionados à governança territorial, bem como ao projeto coletivo, participativo e
sustentável).
Do ponto de vista econômico, baseado em informações do trabalho formal, observa-se que grande
parte da riqueza do município de Bertioga vem do setor terciário, claramente marcado pelas atividades
relacionadas aos serviços e comércio em geral. Esta constatação pode ser confirmada a partir de três
conjuntos de dados apresentados: i) Os dados referentes à participação dos serviços (60%) e do
comércio (34%) no número de estabelecimentos em 2010; ii) Os dados de participação do emprego
formal (RAIS 2010) mostram que 50,9% estavam no setor de serviços e 26,3% no comércio e iii) Os
dados concernentes aos QLs, sobre a importância relativa das atividades econômicas no município,
comparadas às do estado, em 2000 e 2010, apontam a concentração da ocupação em atividades de
administração pública e construção, e a relevância, mesmo que em declínio, nas de alojamento,
alimentação, comércio varejista e atividades técnicas e profissionais.
A pesar de o setor industrial ser bastante reduzido, grande parte do seu valor adicionado advém da
construção civil. Em relação à baixa participação da indústria, o fato da não aceitação da instalação de
uma indústria de plataformas, destinada a cadeia produtiva de Petróleo e Gás, mostra o interesse de
grupos sociais, na manutenção da atual dinâmica econômica.
A especialização produtiva na atividade de construção representou, no período do Censo 2010, a
ocupação de cerca de 3.920 pessoas, das quais 85% estavam inseridas no mercado informal de
trabalho e somente 15% no formal (RAIS 2010, Elaboração do Instituto Pólis). O declínio da ocupação
das atividades de serviços imobiliários mostra alguma redução dinâmica de produção de imóveis. Os
serviços domésticos e o trabalho informal na construção têm acompanhando o ritmo da produção de
moradia, com elevado crescimento.
A potencialidade do setor de turismo, em suas atividades características, como alimentação,
hospedagem, agências de turismo e transporte, incluindo a pesca, constitui-se numa ideia estratégica a
ser considerada, por sua capacidade de aglutinar diversos projetos, abarcando a diversidade de
condições socioeconômicas e origens culturais do município, bem como, as restrições impostas pelo
avanço de determinadas atividades econômicas asseguradas pela legislação ambiental. Outra
possibilidade refere-se à instalação de cooperativas de reciclagem a partir dos resíduos domiciliares, da
construção civil e da atividade pesqueira, como forma de geração de emprego e renda, inclusão social e
sustentabilidade ambiental.
As atividades em sistemas naturais, respeitando as restrições da legislação, orientada a inclusão de
comunidades tradicionais e de famílias em condições de vulnerabilidade, podem contribuir para a
redução da demanda do município por alimentos vindos de outras regiões, além da ocupação de
pessoas e geração de renda. Essa solução de gestão da produção e de serviços, em ambientes e áreas
sociais especiais, na medida em que melhore a vizinhança no entorno dos grandes condomínios,
contribui para a promoção imobiliária.
Essa melhora deve ser acompanhada pela integração do território, por meio de infraestrutura e
destinada a estimular a circulação das pessoas, com o subsequente fortalecimento de centralidades e
diversificação de comércios e serviços. O aumento das atividades de produção e serviços,
especialmente pela diversificação, pode contribuir para a fixação da população, dinamização da
economia e inclusão social.
A queda das taxas de desocupação e informalidade, registradas nos Censos 2000 e 2010, ainda indica
uma grande precariedade dos assentamentos urbanos e das relações econômicas locais, por conta da
condição de inserção do trabalhador no mercado. O desafio para a inclusão social no município, é
melhorar a condição de vida de mais de 11 mil trabalhadores na economia informal, quase 2 mil
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pessoas desocupadas e um número relevante (1.372 pessoas) de trabalhadores de mais de 10 anos,


com rendimentos e não alfabetizados, moradores em condições de pobreza (18,7% dos domicílios) e
indigência (6,5%).

6 . ORDENAMENTO TERRITORIAL
6.1 - Evolução da Mancha Urbana do Município de Bertioga Entre 1970 e 2010
O crescimento das áreas urbanas de Bertioga seguiu, basicamente, dois vetores: um vetor longitudinal,
ao longo da rodovia SP-55, em paralelo à orla marítima, e outro vetor transversal, da orla marítima em
direção à Serra do Mar. Esse padrão é verificado em outros municípios do litoral paulista cuja
urbanização se encaixa nas planícies localizadas entre o mar e as montanhas. Em Bertioga, a
urbanização ainda não avançou sobre as encostas mais íngremes das montanhas. Isso é um fator
positivo, pois evita situações de vulnerabilidades.
A mancha urbana de Bertioga cresce das porções sudoeste do município, onde está o centro da cidade,
para as porções nordeste, em direção à divisa com São Sebastião. A urbanização das porções sudoeste
de Bertioga é mais antiga por estar mais próximo de Santos, cidade a qual pertencia até os anos 1990.
As diferentes partes das áreas urbanas de Bertioga são estruturadas e interligadas pela Rodovia SP-55
(Dr. Manuel Hyppolito Rego) e pela Avenida Anchieta. Ambas as vias correm em paralelo à orla
marítima. A distribuição das áreas urbanas em Bertioga apresenta várias descontinuidades. Isso faz
com que a mancha urbana seja bastante fragmentada, intercalada com áreas desocupadas de
diferentes tamanhos e configurações, cobertas com diferentes tipos de vegetações. Algumas dessas
áreas desocupadas, apesar dessas coberturas vegetais, são passíveis de serem urbanizadas. Outras
devem ser preservadas ou utilizadas com cuidado para não prejudicar o meio ambiente.
Essa fragmentação na mancha urbana de Bertioga foi produzida pela implantação desarticulada de
loteamentos e condomínios ocupados predominantemente por “segundas residências”. Isso gera uma
espécie de “espalhamento urbano” caracterizado por grandes distâncias e desconexões entre os bairros
existentes. Como se verá adiante, tal fragmentação provoca descontinuidades nos sistemas de ruas,
drenagem urbana, abastecimento de água, coleta de esgotos, entre outros. Torna o transporte coletivo
ineficiente e causa aumentos nas distâncias entre os bairros prejudicando a coesão social e territorial.
Até o início da década de 1980 a área urbana de Bertioga era pequena, concentrada
predominantemente no Centro, nas proximidades do Canal de Bertioga. Porém, mesmo com tamanho
pequeno, essa área já apresentava certa descontinuidade entre o Centro e a área onde se encontram as
instalações do SESC.

129
Figura 8. Bertioga – Mancha Urbana – 1979/1980

Fonte: Imagens Landsat 1979, 1980.

Na década de 1980 várias áreas foram urbanizadas nos arredores do Centro como, por exemplo, no
entorno da atual Praça Vicente Molinari e nos arredores da Avenida Dezenove de Maio. Nesse período
formou-se o bairro Maitinga, e se urbanizou uma grande área no Rio do Meio, junto às atuais Ruas José
Carlos Pace e Nicolau Miguel Obeide. É desse período também a formação da maior parte do Indaiá, da
Riviera de São Lourenço, das ocupações iniciais do Guaratuba e de praticamente toda a área da
Boracéia. Nessa década de 1980, a Riviera de São Lourenço se urbanizou na faixa junto à orla marítima
com prédios de apartamentos utilizados, predominantemente, como “segunda residência”. Pode-se
dizer que nessa década se constituiu boa parte das áreas urbanas ocupadas por moradias de famílias
de classe média e alta do município.

Figura 9. Bertioga – Mancha Urbana – 1991/1992

Fonte: Imagens Landsat 1991, 1992.


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Na década de 1990 a maior parte do crescimento da mancha urbana de Bertioga ocorreu junto às áreas
ocupadas na década anterior. Nesse período se formaram assentamentos precários nos pontos da
mancha urbana que estão mais distantes das praias. Houve também a urbanização da Vista Linda, a
expansão urbana de Guaratuba e o crescimento da Boracéia. Nota-se, nesse período, a formação de
pequenos núcleos urbanos precários, ocupados por grupos de baixa renda, nas áreas localizadas na
margem oposta ao Centro do Canal de Bertioga, junto à Rodovia SP-55. São núcleos desconectados das
áreas urbanas mais consolidadas como, por exemplo, o Vicente de Carvalho.

Figura 10. Bertioga – Mancha Urbana – 2000

Fonte: Imagens Landsat 2000.

Na década de 2000 o acontecimento mais relevante no crescimento da mancha urbana de Bertioga foi
a expansão da Riviera de São Lourenço, com a urbanização de uma grande área do empreendimento
destinada a moradias horizontais de alto padrão. Nesse período ocorreu também, em menor dimensão,
a ocupação de áreas na Boracéia junto aos locais já urbanizados em períodos anteriores.

131
Figura 11. Bertioga – Mancha Urbana – 2011

Fonte: Google Earth 2011.

Em suma, como em outros municípios da Baixada Santista, o crescimento da mancha urbana de


Bertioga estruturou um padrão desigual e contraditório de urbanização. Nas áreas urbanas junto à orla
marítima, está a maior parte das moradias de alta renda utilizadas principalmente no verão, durante os
períodos de temporada. Como se verá adiante, essas áreas com “segundas residências”, utilizadas
somente em alguns períodos do ano, contam com melhor oferta de infraestrutura de saneamento
básico em comparação com aquelas que estão localizadas entre a Rodovia SP-55 (Dr. Manuel Hyppolito
Rego) e a Serra do Mar, onde está boa parte das moradias de residentes fixos de Bertioga. Os
municípios de Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, São Vicente e Peruíbe apresentam padrões similares
de urbanização.

6.2. - Regulação dos princípios e diretrizes de política urbana e ordenamento territorial


Os princípios e diretrizes da política urbana - já consagrados pelo texto constitucional de 88 e o
Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/01)- são regulados por diversas leis municipais em
Bertioga: o Plano Diretor (Lei municipal nº 315/98 ), a Lei de Uso e Ocupação do Solo (Lei
municipal nº 317/98), o Código Ambiental ( Lei municipal nº 294/98), a Lei Orgânica entre
outras.
Vale notar, que as principais leis relacionadas ao desenvolvimento urbano do Município de
Bertioga foram editadas, em sua maioria, em período anterior ao Estatuto da Cidade (Lei
Federal nº 10.257/01), que regulamentou à luz do seu art. 2º as diretrizes gerais da política
urbana no Brasil. Ainda assim, a legislação de Bertioga regula indiretamente alguns destes
princípios e diretrizes.
Com efeito, as atribuições do Município – o principal executor da política urbana – são
definidas pela Lei Orgânica Municipal e relacionam-se diretamente com a política urbana, tais
como “criar, organizar e suprimir Distritos, observando a legislação estadual” (art. 6º, inciso IV)
ou então “estabelecer normais de edificação, de loteamento, desmembramento, de
arruamento e de zoneamentos, bem como as limitações urbanísticas convenientes à
ordenação de seu território e à preservação do meio ambiente, observada a legislação
pertinente” (art. 6º, inciso XXI).
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
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O Plano Diretor de Bertioga, por sua vez, também estabelece objetivos básicos da política
urbana municipal (art. 3º), definindo diretrizes específicas para o setor social, administrativo,
físico-territorial e econômico. Dentre os objetivos e diretrizes do plano diretor, destaque-se a
“retomada do desenvolvimento” (art. 3, I) e o “respeito ao meio ambiente” (II). Estes
dispositivos correlacionam-se com os dispositivos do art. 3º da Lei Federal 10.257/2001, que
estabelecem a “garantia a cidades sustentáveis” (I), cujo desenvolvimento deve ser feito “de
modo a evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o
meio ambiente” (IV). Também são objetivos do plano a “racionalização do uso do solo” (V) e a
“promoção do adensamento populacional” (VIII), dentre outros.
A Lei Orgânica do Município (LOM), em seu capítulo VI, da Política Urbana, menciona “ as
funções sociais da cidade” , mas não prevê expressamente o princípio da função social da
propriedade . Vale notar, que de acordo com o texto constitucional de 88 o papel do plano
diretor é exatamente dar conteúdo concreto ao princípio da função social da propriedade (art.
182, § 2º). Além disso, o plano diretor não prevê as áreas para aplicação do parcelamento ou
edificação compulsórios; do imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana
progressivo no tempo; e da desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida
pública. As áreas para aplicação desses instrumentos é considerada como conteúdo mínimo do
plano diretor de acordo com o Estatuto da Cidade (art. 42, inciso I) e exigida também pela Lei
Orgânica Municipal.
Não obstante, há que se reconhecer que a legislação municipal de Bertioga regula o
componente ambiental da propriedade urbana de maneira bastante ampla, especialmente por
meio do Código Ambiental, que eleva à condição de princípio da política ambiental municipal a
“função ambiental da propriedade” (art. 2º c/c art. 29 do Código Ambiental).

6.2.1. - Regulação do ordenamento territorial


Como se sabe, o texto constitucional de 88 alça o plano diretor à condição de principal
instrumento de planejamento territorial, cabendo-lhe o papel de definir o conteúdo concreto
da função social da propriedade urbana.
A aprovação do texto constitucional – mesmo antes da regulamentação das diretrizes gerais da
política urbana por lei federal (art. 182, caput, Constituição Federal), o que viria a ocorrer
somente dez anos depois pela promulgação do Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01) – já
influencia diversos Municípios brasileiros, que, ao longo da década de 90, incorporam as
determinações constitucionais e elaboram seus planos diretores.
Esse é exatamente o caso de Bertioga cujo plano diretor foi aprovado em 98 e, portanto, em
momento anterior à promulgação do Estatuto da Cidade (Lei 10257/10) e das Resoluções do
Conselho Nacional das Cidades (Resolução nº 25, Resolução nº 34, Resolução Recomendada nº
83) .
De fato, o plano diretor de Bertioga apresenta alguns mecanismos no sentido de recuperar
investimentos públicos devidos pela implantação de infraestruturas, como a contribuição de
melhoria (art. 38, plano diretor), e corrigir distorções na cobrança do tributo municipal sobre a
propriedade imobiliária (IPTU), mediante a revisão da planta genérica de valores (art. 37, plano
diretor).
Todavia, a incorporação dos instrumentos do Estatuto da Cidade ampliariam as possibilidades
de promoção da justa distribuição dos ônus e encargos decorrentes das obras e serviços da
133
infraestrutura urbana, agindo no sentido de recuperar para a coletividade a valorização
imobiliária decorrente da ação do Poder Público.
É necessário, portanto, promover a revisão do plano diretor de Bertioga tendo em vista que o
prazo para fazê-lo já expirou . Com efeito, a necessidade de revisão do plano diretor de
Bertioga já foi reconhecida inclusive pela Câmara Municipal que criou em 2011 a “Comissão
Legislativa de Estudos e Acompanhamento de Trabalhos para Revisão do Plano Diretor de
Desenvolvimento Sustentado de Bertioga” (Resolução nº 106/2011 da Mesa Diretora da
Câmara Municipal) .
Não obstante a necessidade de revisão do plano diretor, vale elencar as principais regras de
uso e ocupação do solo atualmente vigentes no Município.
O Plano Diretor Municipal, aprovado pela Lei municipal nº 315/98, aponta a existência de
diversas zonas no Município de Bertioga .
Tais zonas, porém, embora citadas pelo texto legal, não são caracterizadas com profundidade
pelo plano diretor. Com efeito, o plano diretor cita as diversas zonas existentes, mas não
desenvolve suas principais características, não apresenta sua delimitação em mapas ,
descrição de perímetros ou parâmetros urbanísticos.
Com efeito, a divisão do território municipal é regulada de maneira mais clara pela Lei de Uso
e Ocupação do Solo de Bertioga (Lei municipal nº 317/98).
O território municipal divide-se entre Zona Urbana e Zona de Proteção Ambiental (art. 47,
caput,LUOS) .
A Zona Urbana “caracteriza-se pela ocupação destinada a assentamentos residenciais,
comerciais e de serviços, ligados a atividades urbanas” (art. 47, §1º, LUOS) e subdivide-se em:
I –Zona Turística 1 (ZT-1), Zona Turística 2- (ZT- 2), Zona Turística 3 – ZT3 e Zona Turística 4
(ZT4);
II – Zona Residencial 1 (ZR-1), Zona Residencial 2 (ZR-2) Zona Residencial 3 (ZR-3) Zona
Residencial 4 (ZR-4) Zona Residencial 5 (ZR-5);
III – Zona Mista 1 (ZM-1) e Zona Mista 2 (ZM-2)
IV – Zona Comercial 1, Zona Comercial 2, Zona Comercial 3 e Zona Comercial 4
V- Corredores Comerciais
VI – Zona de Suporte Urbano (ZSU)
VII – Zona Especial de Interesse Histórico-Cultural
VIII – Zona de Suporte Turístico, Náutico, Ambiental
IX – Zona de Baixa Densidade 1 e Zona de Baixa Densidade 2
A Zona de Proteção Ambiental, por sua vez, “caracteriza-se prioritariamente pela preservação
dos recursos naturais[...]” (art. 47, §2º) e subdivide-se em:
I –Zona de Preservação (ZP);
II – Zona de Suporte Ambiental – ZSA
III – Zona de uso especial (ZUE)
IV – Zona de Parque Temático (ZPT)
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Os índices urbanísticos regulamentados pela LUOS são: taxa de ocupação, índice de


aproveitamento, área mínima do terreno, frente mínima, recuo frontal, lateral, de fundo e
número de pavimentos.
As principais categorias de uso utilizadas são: residencial, institucional, recreativo, assistencial,
de prestação de serviços, comercial e industrial (art. 46).
6.2.2. – Bertioga e o Zoneamento Econômico Ecológico do Litoral Norte
No que se refere ainda ao ordenamento territorial no Município de Bertioga, é fundamental
também a análise das regras de uso e ocupação do solo estabelecidas pela política nacional e
estadual de gerenciamento costeiro tendo em vista que a cidade localiza-se na Zona Costeira e
compõe a região metropolitana da Baixada Santista.
A Baixada Santista – divisão territorial na qual se inclui o Município de Bertioga – é
considerada como um setor da Zona Costeira de São Paulo (art. 3º, inciso III, Lei estadual
10.019/98).
Com efeito, no dia 13 de dezembro de 2011, o Conselho Estadual do Meio Ambiente
(Consema) aprovou a minuta de decreto que dispõe sobre o Zoneamento Ecológico Econômico
(ZEE) da Baixada Santista .
Embora ainda não tenha sido promulgado o Decreto do Governador – o que de fato lhe daria
validade jurídica - há que se considerar que o Zoneamento Econômico Ecológico é instrumento
da política nacional e estadual de gerenciamento costeiro, regulado pela Lei federal nº
7.661/88, Decreto federal nº 5.300/04 e na Lei estadual 10.019/98. Como tal, poderá
estabelecer importantes diretrizes de uso e ocupação do solo aos Municípios integrantes da
Zona Costeira.
A minuta de Decreto disponível no site da Secretaria Estadual de Meio Ambiente reconhece as
peculiaridades, diversidade e complexidade dos processo econômicos e sociais da Baixada
Santista e não foi feito necessariamente conforme suas características atuais, mas respeitando
a dinâmica de ocupação do território e metas de desenvolvimento econômico e ambiental
(art. 8º da Minuta de Decreto).
Destaque-se também a necessidade de compatibilização das metas previstas e as previsões
dos planos diretores regionais, municipais e demais instrumentos da política urbana (art. 8º,
parágrafo único, minuta de Decreto).
A minuta de Decreto – embora ainda sem validade jurídica - propõe um ordenamento
territorial para o Município de Bertioga.

6.3 – Áreas Potenciais para Ocupação Urbana no Município de Bertioga


Em Bertioga, o ritmo de crescimento populacional ainda se mantém acelerado, com TGCA de 4,4% ao
ano, conforme visto anteriormente. Essa tendência leva a um processo de expansão urbana que
aumenta as demandas por serviços, equipamentos e infraestruturas os quais já apresentam quadros
deficitários em diferentes bairros da cidade. Se esse crescimento urbano não for ordenado e ocorrer de
modo inadequado junto aos cursos d’água, nos locais com topografia acidentada e em áreas com
cobertura vegetal significativa, haverá problemas na ordem urbanística local. No contexto do litoral
paulista como um todo, processos desordenados de urbanização também poderão pressionar o meio
ambiente de modo negativo. Como visto anteriormente, a urbanização de Bertioga ainda não avançou
para o interior das áreas demarcadas como Unidades de Conservação. Isso é positivo, pois Bertioga

135
ainda possui áreas que podem ser utilizadas para orientar a urbanização futura, como pode ser visto no
mapa abaixo.

Mapa 11. Bertioga – Áreas com Potencial para Ocupação Urbana

Fonte: Secretaria do Meio Ambiente, 2012, SP; IBAMA, 2011; MOSAICO SRTM, 2011; Google Earth, 2011; Prefeitura
municipal de Bertioga e Avaliação Ambiental Estratégica – PINO.

A identificação das áreas potenciais para ocupação urbana baseou-se na justaposição dos seguintes
elementos: Unidades de Conservação; Reservas Particulares de Preservação Natural (RPPN); terra
indígena ___; zoneamento municipal que restringe a ocupação urbana (ZP e Zona de Parque Temático);
áreas com alta declividade, maior do que 45 graus; Áreas de Preservação Permanente que se
encontram localizadas junto aos cursos d’água.
Trata-se de uma primeira tentativa para a identificação de áreas potenciais para a expansão urbana
futura. Não se trata de uma indicação conclusiva e definitiva, pois análises complementares deverão
ser realizadas a fim de que se tenha a demarcação mais precisa dos locais nos quais a cidade de
Bertioga pode crescer. Vale repetir, a indicação de áreas potenciais para ocupação urbana futura é uma
primeira referência que merece ser detalhada e aprofundada em estudos posteriores.
Essas áreas potenciais para a ocupação urbana futura de Bertioga localizam-se majoritariamente nas
proximidades de bairros e assentamentos já existentes. Somam, aproximadamente, ___ hectares,
correspondentes a ___ % da mancha urbana atual. No mapa acima, nota-se que nas porções dessas
áreas localizadas junto ao Rio Itapanhaú, na margem oposta onde se encontra o centro de Bertioga, há
vários cursos d’água cujas Áreas de Preservação Permanente precisam ser preservadas.
É importante orientar a urbanização para essas áreas a fim de que se tenha maior articulação entre os
bairros atuais. Com isso a cidade poderá se tornar mais coesa, menos fragmentada e mais contínua.

6.3.1. Áreas com Restrições à Ocupação


Os municípios do litoral paulista apresentam diversos tipos de restrições à ocupação urbana em seus
territórios. Uma das principais restrições é de ordem socioambiental, pois mais da metade da região é
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demarcada como Unidades de Conservação. Esse tipo de restrição será analisado com maior
profundidade mais adiante. Aqui cabe examinar as restrições que incidem nas áreas potenciais para
ocupação urbana, analisadas anteriormente. Nesse exame consideramos dois fatores principais: a
cobertura vegetal e as características geotécnicas existentes naquelas áreas.
Quanto à cobertura vegetal, as áreas potenciais para ocupação urbana identificadas em Bertioga
apresentam as seguintes características: ___
Em relação aos fatores geotécnicos, as áreas potenciais para ocupação urbana identificadas em
Bertioga apresentam restrições nos locais onde XX_.

6.4. Regulação das Áreas de Expansão Urbana

A Lei Orgânica do Município de Bertioga determina que a delimitação da zona urbana será definida por
lei municipal, aprovada por maioria absoluta , observado o estabelecido no plano diretor .
Conforme já desenvolvido no item princípios e diretrizes da política urbana e ordenamento territorial, o
plano diretor, aprovado pela Lei municipal nº 315/98, aponta a existência de diversas zonas no
Município de Bertioga . A divisão do território municipal, porém, é regulada de maneira mais
aprofundada pela Lei de Uso e Ocupação do Solo de Bertioga (Lei municipal nº 317/98) .
O território municipal divide-se entre Zona Urbana e Zona de Proteção Ambiental (art. 47, caput,LUOS).
A Zona Urbana “caracteriza-se pela ocupação destinada a assentamentos residenciais, comerciais e de
serviços, ligados a atividades urbanas” (art. 47, §1º, LUOS) e subdivide-se em:
I –Zona Turística 1 (ZT-1), Zona Turística 2- (ZT- 2), Zona Turística 3 – ZT3 e Zona Turística 4 (ZT4);
II – Zona Residencial 1 (ZR-1), Zona Residencial 2 (ZR-2) Zona Residencial 3 (ZR-3) Zona Residencial 4
(ZR-4) Zona Residencial 5 (ZR-5);
III – Zona Mista 1 (ZM-1) e Zona Mista 2 (ZM-2)
IV – Zona Comercial 1, Zona Comercial 2, Zona Comercial 3 e Zona Comercial 4
V- Corredores Comerciais
VI – Zona de Suporte Urbano (ZSU)
VII – Zona Especial de Interesse Histórico-Cultural
VIII – Zona de Suporte Turístico, Náutico, Ambiental
IX – Zona de Baixa Densidade 1 e Zona de Baixa Densidade 2
A Zona de Proteção Ambiental, por sua vez, “caracteriza-se prioritariamente pela preservação dos
recursos naturais [...]” (art. 47, §2º) e subdivide-se em:
I – Zona de Preservação (ZP);
II – Zona de Suporte Ambiental – ZSA
III – Zona de uso especial (ZUE)
IV – Zona de Parque Temático (ZPT)
Há que se notar que a Zona de Proteção Ambiental reconhece de maneira de ampla diversos usos não
urbanos, não se restringindo aos usos e atividades agrícolas mais tradicionais. Com efeito, dentre os
usos permitidos na ZPA, incluem-se: as atividades de pesquisa, aquicultura, atividades náuticas,
turísticas; as atividades agrícolas compatíveis com os ecossistemas, a maricultura, ranicultura,
psicultura, manejo de palmito, lazer, conservação de recursos naturais e etc.

137
No que se refere ainda às relações entre o rural e o urbano, dispõe a LUOS que “Toda e qualquer
urbanização de terrenos localizados nas áreas urbanas e de expansão urbana, deverá ser,
obrigatoriamente, integrada harmonicamente à estrutura urbana existente, mediante a conexão do
sistema viário e das redes dos serviços públicos existentes ou projetados.” (art. 6º). Com efeito, para
fins tributários, o Código Tributário Municipal considera como área urbana aquela definida em lei
municipal e a existência de alguns itens relacionados à infraestrutura urbana (art. 32, §1º, CTN) .
É autorizado, porém, o parcelamento em zona rural em alguns casos. Dispõem a LUOS que “Na área
rural o parcelamento do solo somente será permitido mediante regulamentação própria, atendida a
legislação ambiental vigente.” (art. 2º). O CTN, por sua vez, reconhece a possibilidade da lei municipal
considerar urbanas as áreas urbanizáveis, ou de expansão urbana, constantes de loteamentos
aprovados pelos órgãos competentes, destinados à habitação, à indústria ou ao comércio, mesmo que
localizados em zona rural (art. 32, §2º, CTN)
As complexidades envolvendo o território urbano e rural são ainda mais profundas no Município de
Bertioga.
Com efeito, a Lei municipal nº 343/99 que dispõe sobre a regularização de parcelamento do solo para
fins urbanos transformou em zona de expansão urbana todas as áreas parceladas para fins urbanos
localizados na zona rural até a data de publicação da lei (art. 1º, §4º). Não foi encontrado, porém, a
definição dessas áreas em mapas e/ou descrições de perímetro que possibilite a identificação dessa
porção da área rural eventualmente considerada como zona de expansão urbana .
Tal informação é importante tendo em vista que as mudanças do perímetro rural e urbano
normalmente correspondem, de um lado, a uma significativa valorização dos imóveis e, de outro, a
existência de parcelamento urbano sem a infraestrutura correspondente .
O Estatuto da Cidade considera como diretrizes gerais da política urbana o planejamento do
desenvolvimento municipal no território bem como a integração e complementariedade entre as
atividades urbanas e rurais (art. 2º, inciso IV e VII, Lei 10.257/01).
Além disso, determina que a política urbana municipal deve orientar-se pela “justa distribuição dos
benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização”; “adequação dos instrumentos de política
econômica, tributária e financeira e dos gastos públicos aos objetivos do desenvolvimento urbano, de
modo a privilegiar os investimentos geradores de bem-estar geral e a fruição dos bens pelos diferentes
segmentos sociais” e “recuperação dos investimentos do Poder Público de que tenha resultado a
valorização de imóveis urbanos” (art. 2º, incisos IX, X e XI, Lei 10.257/01).
Tais diretrizes gerais autorizam o Município de Bertioga a recuperar eventuais valorizações decorrentes
de alterações pontuais ao perímetro urbano.
Um importante instrumento regulamentado pelo Estatuto da Cidade e que pode ser aplicado é a
outorga onerosa do direito de uso (Art. 4º, inciso V, alínea “n” c/c arts. 29 a 31, Estatuto da Cidade).
Com efeito, o plano diretor pode definir áreas em que pode ser alterado o uso mediante contrapartida
do beneficiário (art. 29). Lei municipal específica irá definir as condições para a aplicação outorga
onerosa do direito de uso, determinando a fórmula de cálculo da cobrança, eventuais isenções e a
contrapartida devida (art. 30). Mais importante, porém, é que os recursos captados pela outorga
onerosa do direito de uso pode ser revertido para implementação da política urbana municipal, tal
como autorizado pelo art. 31 e art. 26 .
Há que se considerar, porém, que o plano diretor de Bertioga – aprovado antes do Estatuto da Cidade -
não possui qualquer previsão sobre a aplicação da outorga onerosa do direito de uso, o que poderá ser
alterado por ocasião da revisão do plano diretor.
Tais instrumentos podem ser incorporados em eventual revisão do plano diretor de Bertioga.
O Zoneamento Ecológico Econômico do Estado de São Paulo (Lei estadual nº 10.019/98) define duas
zonas com características mais propriamente urbanas. São elas: a Z-4 e a Z-5 . A Z-3, por sua vez,
possui algumas características mais rurais, sendo certo que as práticas agropecuárias e a silvicultura são
autorizadas .
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No que se refere à expansão urbana, cumpre notar que a lei de uso e ocupação do Município de
Bertioga não cria expressamente uma “zona de expansão urbana”, mas algumas zonas caracterizam-se
por serem “áreas a serem urbanizadas”. Esse é o caso da Zona Turística 2 e Zona Residencial 2 .
Pontualmente, a lei municipal nº 343/99 que dispõe sobre a regularização de parcelamento do solo
para fins urbanos transformou em zona de expansão urbana todas as áreas parceladas para fins
urbanos localizados na zona rural até a data de publicação da lei (art. 1º, §4º). Conforme já
desenvolvido no item anterior, não há o mapeamento ou descrição do perímetro dessas áreas na
legislação.
A minuta de Decreto que institui o Zoneamento Ecológico-Econômico da Baixada Decreto - que, vale
frisar, ainda não possui validade jurídica estabelece expressamente que a Z5TE é de “interesse ao
desenvolvimento e à expansão urbana” (art. 37). A Z4T em alguma medida pode também ser
considerada com área de expansão urbana. Com efeito, a Z4T é composta por “assentamentos urbanos
descontínuos” e “loteamentos aprovados, mas ainda não ocupados ou parcialmente ocupados” (art.
24, incisos III e IV), cujas diretrizes de gestão são, dentre outras, “priorizar a ocupação de áreas
urbanizadas e estimular [...] a ocupação dos vazios” (art. 25, inciso VI).
As eventuais alterações do perímetro urbano de Bertioga relacionam-se diretamente com as
modificações trazidas pela Lei Federal 12.608/12, que alterou o art. 42 do Estatuto da Cidade.
Com efeito, a partir da publicação da nova lei, os Municípios que pretendam ampliar seu perímetro
urbano deverão elaborar projeto específico que contenha no mínimo (art. 42 – B, Estatuto da Cidade):
I - demarcação do novo perímetro urbano;
II - delimitação dos trechos com restrições à urbanização e dos trechos sujeitos a controle especial em
função de ameaça de desastres naturais;
III - definição de diretrizes específicas e de áreas que serão utilizadas para infraestrutura, sistema
viário, equipamentos e instalações públicas, urbanas e sociais;
IV - definição de parâmetros de parcelamento, uso e ocupação do solo, de modo a promover a
diversidade de usos e contribuir para a geração de emprego e renda;
V - a previsão de áreas para habitação de interesse social por meio da demarcação de zonas especiais
de interesse social e de outros instrumentos de política urbana, quando o uso habitacional for
permitido;
VI - definição de diretrizes e instrumentos específicos para proteção ambiental e do patrimônio
histórico e cultural; e
VII - definição de mecanismos para garantir a justa distribuição dos ônus e benefícios decorrentes do
processo de urbanização do território de expansão urbana e a recuperação para a coletividade da
valorização imobiliária resultante da ação do poder público.
Com efeito, esse projeto específico deverá ser instituído por lei municipal e atender à diretrizes do
plano diretor (art. 42-A, §1º, Estatuto da Cidade). Além disso, é considerado como condição para a
aprovação de projetos de parcelamento do solo no novo perímetro (art. 42-B, §2º, Estatuto da Cidade).

6.5– Áreas de Monitoramento Territorial no Município de Bertioga


Em Bertioga, o ritmo de crescimento populacional ainda se mantém acelerado, com TGCA de 4,4%
ao ano, conforme visto anteriormente. Essa tendência leva a um processo de expansão urbana que
aumenta as demandas por serviços, equipamentos e infraestruturas os quais já apresentam quadros
deficitários em diferentes bairros da cidade. Se esse crescimento urbano não for ordenado e ocorrer
de modo inadequado junto aos cursos d’água, nos locais com topografia acidentada e em áreas com
139
cobertura vegetal significativa, haverá problemas na ordem urbanística local. No contexto do litoral
paulista como um todo, processos desordenados de urbanização também poderão pressionar o
meio ambiente de modo negativo.
Como visto anteriormente, a urbanização de Bertioga ainda não avançou para o interior das áreas
demarcadas como Unidades de Conservação. O município possui 91% de sua área recoberta por
uma vegetação natural rica em biodiversidade e que abrange praticamente todas as fitofisionomias
de mata atlântica e ecossistemas associados relativos ao litoral paulista, incluindo floresta ombrófila
densa, restingas, manguezais e vegetação de costão rochoso. Entretanto, muitas áreas
ambientalmente representativas de restinga (incluindo Floresta Baixa de Restinga e Restinga
Arbustiva, fisionomias vegetais extremamente raras em todo o litoral paulista) são consideradas pelo
mercado imobiliário local áreas preferenciais para a expansão de condomínios fechados voltados ao
veranismo. Ademais, também vem ocorrendo o avanço de ocupações irregulares que surgem a
reboque da falta de um programa habitacional de interesse social que consiga atender as demandas
de moradia da população de baixa renda. Tais situações configuram uma disputa pela apropriação
do espaço que tem de por um lado a imperativa obrigatoriedade de se preservar o ambiente natural
através da criação de áreas protegidas e da imposição de restrições legais a ocupação e, por outro
lado, a necessidade de se garantir estoques de terra para o atendimento de demandas urbanas.
Para verificar as áreas que apresentam potencial para ocupação urbana, e que desta forma
necessitam de um monitoramento mais atento, primeiramente foram identificadas as áreas que são
resguardadas por espaços territoriais especialmente protegidos31 e que não permitem a ocupação
urbana. Para tanto, realizou-se uma justaposição dos seguintes elementos: Unidades de
Conservação de proteção integral ou de uso sustentável que vedam expressamente a possibilidade
de urbanização; Terras Indígenas; e algumas tipologias de áreas de preservação permanente
previstas no Novo Código Florestal, incluindo áreas com declividade superior a 45 graus, localizadas
junto aos cursos d’água e manguezais. Ver Mapa___. (ver metodologia anexo___)

Os espaços territoriais especialmente protegidos expressos no Art. 225, § 1º, inc. III da Constituição Federal são gênero de áreas
protegidas que engloba como espécies uma série de tipologias legais, incluídas aí as Unidades de Conservação (Parques Estaduais,
Estações Ecológicas, Áreas de Proteção Ambiental, etc.), Áreas de Preservação Permanente, Terras Indígenas, entre outras. Estas
tipologias legais fornecem tratamento especial a porções do território nacional no sentido de sujeitar estes locais a um regime de
interesse público com o intuito de proteger os seus atributos ambientais e as suas potencialidades socioculturais.
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Mapa. Bertioga – Áreas Protegidas e de ocupação urbana

Trata-se de uma primeira tentativa para a identificação de áreas que não são abrangidas por áreas
protegidas e que devem, portanto, ser monitoradas para que tenham uma destinação adequada,
sejam elas para expansão urbana futura ou para preservação ambiental. No Mapa as áreas em
branco, correspondem a cerca de 15% do território de Bertioga, e que chamamos de áreas de
monitoramento territorial.
Não se trata de uma identificação definitiva uma vez que há leis municipais que regulam e protegem
essas áreas, bem como legislação específica voltada para a proteção da vegetação natural em
âmbito estadual e federal que limitam ou vedam supressão da vegetação natural, como é o caso da
Lei da Mata Atlântica. Além disso, análises complementares na escala local deverão ser realizadas a
fim de que se tenha uma leitura mais precisa da situação do território, uma vez que não foram
incorporados a este estudo mapeamentos referentes aos estágios sucessionais da vegetação devido
à ausência de material cartográfico de âmbito regional em escalada adequada e disponível. Ademais,
cumpre mencionar que algumas bases de dados utilizadas apresentam uma leitura bastante
simplificada da realidade, incluindo aí a hidrografia utilizada para a delimitação das APPs que foi
digitalizada a partir da base cartográfica do IBGE na escala 1:50.000, as imagens TOPODATA
existentes no banco de dados geomorfométricos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)
utilizadas para delimitar as áreas com declividade superior a 45° e a delimitação dos manguezais
extraídas do banco de dados da S.O.S Mata Atlântica.
Esta área deverá ser monitorada, especialmente no direcionamento do crescimento da mancha
urbana. Em Bertioga localiza-se majoritariamente nas proximidades de bairros e assentamentos já
141
existentes. Somam, aproximadamente, 7.300 hectares, correspondentes a 2,5 vezes a área da
mancha urbana atual. Nota-se que nas porções dessas áreas localizadas junto ao Rio Itapanhaú, na
margem oposta onde se encontra o centro de Bertioga, há vários cursos d’água cujas e Áreas de
Preservação Permanente precisam ser preservadas. É importante orientar a urbanização de forma
que se tenha maior articulação entre os bairros atuais. Com isso a cidade poderá se tornar mais
coesa, menos fragmentada e mais contínua.
Buscando contribuir para o monitoramento deste território e sua adequada destinação, realizou-se
um mapeamento das características geotécnicas do solo, o qual se cruzou com as áreas de
monitoramento detectadas no mapa_____

Mapa. Bertioga – Áreas de Monitoramento Territorial e Características Geotécnicas32

Bertioga possui uma significativa quantidade de áreas não protegidas segundo aqueles critérios
descritos, em relação aos fatores geotécnicos, como se pode observar no mapa __. No entanto,
todas estas áreas apresentam algum grau de fragilidade geotécnica, desde alta suscetibilidade à
erosão por sulcos, ravinas e boçorocas até alta suscetibilidade à escorregamentos naturais ou
induzidos. Estes fatores trazem a necessidade de um rígido controle sobre a ocupação urbana deste
município, com o estabelecimento de regras de ordenamento urbano e de construção que garantam
uma ocupação adequada às restrições geológicas. A suscetibilidade é entendida como decorrente
de um fenômeno natural relacionada a características intrínsecas ao meio físico, sendo assim
determinante em sua capacidade de sofrer alterações e de resistência (resiliência). Trata-se de uma
medida probabilística, e não impeditiva de ocupação, que devem estar associadas também a outros

32
A carta geotécnica utilizada foi incorporada ao presente estudo a partir da digitalização da cartografia geológica geotécnica do
litoral paulista produzida originariamente na escala 1:50.000 pelo IPT e disponibilizada pela base dados da AAE PINO (Avaliação
Ambiental Estratégica do Litoral Paulista das atividades Portuárias, Industriais, Navais e Offshore). Ver metodologia no anexo___
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conceitos como o risco e a vulnerabilidade, incorporando dimensões humanas mais explícitas. Isto
significa que apesar da existência de áreas com potencial para ocupação urbana em Bertioga, é
importante mencionar que esta base cartográfica, apesar de trazer informações importantes para se
pensar o planejamento do uso e ocupação do solo deste Município, não permite uma leitura com
grande precisão dos riscos geotécnicos ali presentes e, portanto, não elimina a necessidade de
estudos com melhor nível de detalhamento. 33

6.5.1 Procedimentos técnicos adotados para definição de áreas de monitoramento territorial – Litoral
Paulista

INTRODUÇÃO
Este texto traz os procedimentos utilizados para a identificação de áreas de monitoramento territorial em
municípios do litoral paulista, através do uso de procedimentos de análises espaciais realizado em
ambiente Arcgis. O procedimento foi realizado visando uma leitura regional integrada para os treze
municípios que configuram a área de estudo, sendo: Bertioga, Caraguatatuba, Cubatão, Guarujá, Santos,
São Sebastião, São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Ilhabela e Ubatuba. .
O principal instrumento de análise foi um sistema de Informações Geográficas, o qual pode ser definido
como da seguinte forma:
“ Um SIG é sem dúvida nenhuma o “método” para desenhar, editar, e modificar um
mapa urbano e para inserir, de um modo interativo, qualquer tipo de dados
associados a objetos específicos representados nele. SIG é um sistema que
combina computador, software, informação geográfica e operadores que podem
receber, manusear, analisar e visualizar de um modo eficiente qualquer tipo de
dado espacial que possui uma referência geográfica. O dado é representado em um
mapa e qualquer objeto representado deve conter informação que pode ser
analisada, a partir das quais modelos podem ser construídos , visualizados e, ao
final, se necessário reproduzidos numa cópia impressa” (SARTORI, NEMBRINI e
STAUFFER, 2001).
Tais características presentes em um SIG direcionam o fluxo de trabalho do exercício apresentado
neste texto.

Objetivos e METODOLOGIA
O objetivo do estudo é identificar áreas para monitoramento de possíveis ocupações futuras em
função de restrições físicas e legais através de uma leitura regional integrada do território, visando
auxiliar na construção de políticas públicas tecnicamente apoiadas que possam subsidiar as políticas
de zoneamento e de uso e ocupação do solo.
Vale ressaltar que sobre as áreas identificadas ainda cabem uma série de análises e sobreposições,
especialmente em nível local, sobre áreas contaminadas, áreas com importância ou interesse histórico
cultural ou arqueológico, legislação municipal de uso e ocupação do solo, e verificação das áreas de risco e
características geotécnicas do terreno, dentre outras variáveis locais.

33
Ver item 6.4.1 __ - Procedimentos técnicos adotados para definição de áreas de monitoramento territorial – Litoral Paulista.

143
PROCEDIMENTOS TÉCNICOS
Para a identificação das áreas de monitoramento territorial, foram primeiramente levantadas as
áreas que não podem ser ocupadas em função de restrições de ocupação do solo, principalmente
de natureza ambiental, e relacionados a riscos de deslizamentos, quais sejam:
o os limites de ocupação da faixa de 300 m ao longo da costa (preamar), considerada a partir da linha
da maré, excluindo-se os costões rochosos;
o as áreas de mangues, bem como de rios e córregos e respeitados os limites das APPs hídricas, Áreas
de Preservação Permanente ao longo de nascentes e cursos d’água previstas na legislação vigente;
o os limites das Unidades de Conservação – UCs existentes, incluindo as RPPN – Reserva Particular do
Patrimônio natural;
o os limites das terras de ocupação indígenas;
o as áreas de encostas de morros com declividade superior a 45º devido ao risco de deslizamentos.
o as áreas já ocupadas que configuram a mancha urbana.
A partir das restrições legais e ambientais apontadas acima, foram levantados dados em diversas fontes para
montagem de banco de dados geográfico georreferenciado, representando as principais restrições à
ocupação urbana.

COLETA DE DADOS
A base de dados utilizada é composta por um basemap formado por um mosaico de imagens de
satélite armazenadas em nuvem (cloud GIS), e que pode ser acessado via ArcGIS online (sistema de
compartilhamento de dados geográficos) ou via outras bibliotecas como o open layers. Esse mosaico
é popularmente conhecido como BING MAPS, e é hoje muito popular assim como outras bases
utilizadas como o Google Earth e outros derivados como os street maps de forma geral.
Estes dados funcionam através do armazenamento de tiles na máquina local de acesso, e por
trabalhar em diversas escalas esse mosaico é composto por imagens com resolução espacial
diversas, datas de aquisição diversas, as quais se alteram em função da escala associada ao nível de
zoom empregado pelo operador e uma relativa heterogeneidade, em função de cobrir a maior parte
da superfície terrestre, o que a torna uma espécie de colcha de retalhos. Essa é uma das principais
restrições que se deve atentar no uso desses dados, ressaltando também sua baixa qualidade
geométrica em escalas cadastrais, a qual deve ser levada em consideração em determinados usos.
Não obstante, ainda que a aquisição de imagens de satélite tenha passado por um grande processo
de barateamento, em alguns casos, o uso deste tipo de basemap é uma boa opção em função do
custo benefício, além de abrir possibilidades de compartilhamento de dados espaciais sobre base
única.
Este basemap foi utilizado no ajuste dos dados restritivos a ocupação supra mencionados, o qual
proporcionou a validação visual das áreas apontadas além de enquadrar o layout de apresentação
dos resultados.
Em resumo, os dados utilizados são os que se apresentam na tabela 1:

Tabela 1: dados utilizados


Dado Descrição Fonte
Mapa base Bing maps e Bing street http://www.esri.com/software/arcgis/explorer-
maps linkados
diretamento ao ArcGIS online
10
Unidades de APA, ARIE, ESEC, http://www.icmbio.gov.br/portal/comunicacao/do
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conservação Parques Estaduais e wnloads.html


Parque Nacionais (SP)
em formato shapefile
Áreas de mangue Delimitação das áreas http://www.icmbio.gov.br/portal/comunicacao/do
de mangue no litoral
paulista em formato wnloads.html
shapefile
Terras indígenas Delimitação dos http://www.icmbio.gov.br/portal/comunicacao/do
do litoral paulista polígonos de terras
indígenas no litoral wnloads.html
paulista
Reservas Delimitação dos http://www.icmbio.gov.br/portal/comunicacao/do
particulares do polígonos de RPPN no
patrimônio litoral paulista wnloads.html
natural - RPPN e complementação de Instituto Polis, 2012.
Declividades Polígono delimitando o TOPODATA – BD Geomorfométricos SRTM, INPE, 2008
superiores a 45º cálculo efetuado para
todo o litoral paulista
Faixa de APP de Buffer de 300 metros Linha delimitada visualmente sobre o mapa base (satélite), sobre a
Preamar ao longo das faixas de qual foi gerado o buffer correspondente
preamar
Faixas de APP Buffers de 10, 30, 50 e Prefeitura Municipal de Bertioga;
hídrica 200 metros a partir da
Dados complementados por Instituto Polis, 2012;
linha de margem dos
cursos hídricos, de Medição e inserção dos valores de largura de rio coletados em
acordo com a largura imagem de satélite e inseridos no banco de dados das linhas dos
do curso definida em cursos hídricos.
legislação específica
Limites Poligono delimitando o IBGE, 2010. http://www.ibge.gov.br
municipais município de Bertioga
Mancha Urbana Poligono delimitando a Imagem Landsat 2011
existente - 2011 mancha urbana
Elaborado por Instituto Polis, 2012
existente em 2011

Software (sig) UTILIZADO


Para preparação, cruzamento e análise dos dados foi utilizado o software ArcGIS 10. Tal software possui
atualmente uma grande inserção no mercado de geotecnologias e é um SIG no estado da arte, possuindo
todas as funções a algoritmos necessários para o exercício proposto. Sua escolha se deu em função do
atendimento aos requisitos do trabalho e do domínio já estabelecido sobre seu uso.

OPERAÇÕES COM MAPAS VETORIAIS


A lógica para indicação das áreas de monitoramento é relativamente simples, e seus resultados dependem
dos dados de origem utilizados.
O principio básico do procedimento metodológico proposto é o de que excluindo-se as áreas restritivas e a
mancha urbana, dentro do nível de informações coletadas e adotadas, identificamos, nos espaços do
território não preenchidos ou inseridos nestas restrições, áreas de monitoramento territorial. Isto significa
que é preciso um olhar atento sobre estas áreas, identificando suas características e potencialidades, seja
para ocupação urbana futura, seja para preservação e proteção do meio ambiente. . Para tal, o
geoprocessamento é ferramenta eficiente.
Inicialmente o que procedeu foi a coleta, ajuste e inserção dos dados em ambiente SIG, conforme
ilustra a figura 1:
145
Figura 1: dados inseridos no SIG

Como primeiro procedimento, foram gerados os buffers sobre os cursos hídricos e a faixa de
Preamar. O buffer ou banda, cria polígonos ao redor de feições, sejam elas pontos, linhas ou
polígonos, numa ou várias distâncias especificadas pelo usuário, gerados conforme a figura 2:
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Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

Figura 2: Faixas de APP ao longo dos cursos hídricos com tamanho variável e faixa de preamar de 300 m
(restinga), conforme resolução Conama 303 de 2002.

Com estes buffers gerados, todos os polígonos restritivos considerados neste exercício já estão
consolidados e prontos para os próximos procedimentos. Na sequência efetuamos o recorte dos polígonos
em função dos limites municipais, visando obter resultados apenas na área específica de estudo e
minimizando o tempo de processamento necessário. Tal processo se deu através do comando CLIP no
ArcGIS, o qual recorta as feições de entrada em função da feição de CLIP, conforme ilustra a figura 3:

Figura 3: Exemplo do comando CLIP aplicado sobre as declividades superiores a 45º, onde se ver o
resultado em vermelho comparado com o anterior em rosa. Como Imput feature foi utilizado o
limite municipal.

147
Para todos os outros polígonos de restrição foi utilizado o mesmo procedimento, utilizando como
dado de CLIP o limite municipal. Com todos os polígonos restritivos já ajustados ao limite
municipal procedemos a união de todos estes polígonos numa única feição, visando a construção
de uma máscara única de restrição para todo o município e região. No ArcGIS este processo se dá
através do comando UNION, cujo resultado pode ser visto na figura 4:

Figura 4: União de todas as áreas com restrição a ocupação consideradas, recortadas por seu polígono de
origem e sobreposição

O comando UNION possibilita que os dados originais do banco de dados do polígono sejam
preservados, e nas áreas onde houve sobreposição de polígonos os dados de ambos os polígonos
em situação de overlay são carregados.
Contudo, para o interesse deste exercício, optamos por criar um único polígono se divisões internas e
dados associados advindos dos polígonos de origem, visando a criação de uma máscara uniforme para
análise visual das áreas não restritas e continuidade das análises. O comando que possibilitou tal processo
no ArcGIS foi o chamado MERGE. Este comando faz com que os polígonos selecionados para tal tornem-se
uma única linha no banco de dados associado, ou seja, ainda que descontínuos, eles serão uma única
feição para o SIG, além disso, polígonos adjacentes unem-se espacialmente, cirando uma única feição com
a eliminação dos lados adjacentes. O Resultado é um polígono continuo em suas áreas adjacentes,
conforme podemos ver na figura 5:
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Revisão de Fev. 2013

Figura 5: máscara formada por todas as áreas restritivas em Bertioga, através do comando MERGE

Tendo a máscara de restrições pronta e o limite municipal, o próximo passo foi o cálculo do
inverso da máscara gerada, através da diferença simétrica entre as áreas restritivas e o limite
municipal. No ArcGIS este procedimento é possível através do comando Symmetrical Difference
(semelhante ao comando diferença no gvSIG). Este procedimento computa em um novo polígono
a diferença entre os polígonos de entrada, gerando uma máscara oposta. Feito isso com a
mascara de restrições e o limite municipal, o resultado é mostrado a seguir na figura 6:

149
Figura 6: Resultado do Symmetrical Difference entre as áreas restritivas e o limite municipal

O polígono resultante, no exemplo acima, corresponde ás áreas dentro do município de Bertioga que,
replicado para todos os municípios da área de estudo, possibilita uma leitura regional. Com os dados de
restrição à ocupação espacializados, chegou-se ao mapa Áreas Protegidas e de ocupação urbana,
conforme exemplo abaixo.

Mapa. Áreas Protegidas e de ocupação urbana

As áreas deixadas em branco, ou seja, onde não incidem as restrições identificadas, são as chamadas áreas
de monitoramento territorial.

Buscando contribuir para uma destinação adequada destas áreas de monitoramento, agregamos
informações do perfil geológico do terreno. A carta de risco geotécnico utilizada no projeto Litoral
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Sustentável é uma carta do tipo “carta de suscetibilidade”, indicada para uso regional (escalas menores
que 1:100.000) e foi produzida pelo IPT seguindo sua própria metodologia.
De acordo com Zuquette & Nakazawa (1998), a metodologia do IPT tenta buscar uma otimização entre
processos de investigação e utilidade da informação obtida, e para tanto é baseada em alguns
fundamentos básicos:
 Identificar no território os problemas mais significativos do ambiente físico inicialmente e buscar as
condicionantes passíveis de mapeamento, as quais são: Geologia do terreno; Declividade do terreno
e Tipos de solo presentes, em função da associação aos processos físicos relacionados.
(escorregamento de encostas e matacões, deslocamentos de massa, processos erosivos, declividades
acentuadas, enchentes, assoreamentos, etc);
 Fazer a integração dos problemas do ambiente físico levantados aos processos de uso e ocupação;
 Coleta direcionada de dados para estabelecer para estabelecimento das unidades geológico-
geotécnicas de igual comportamento;
 Buscar a superação de conceitos de "aptidão", visando maximizar as opções plausíveis de uso do solo;
 Confeccionar cartas geotécnicas dinâmicas, as quais permitam a incorporação de novas análises e
conhecimentos sobre uso e ocupação do solo.
Nesse sentido, podem ser definidos 4 tipos distintos de Cartas Geológico-Geotécnicas (Proin/Capes &
Unesp/IGCE, 1999):
- CARTAS GEOTÉCNICAS (PROPRIAMENTE DITAS): expõem as limitações e potencialidades dos terrenos,
estabelecendo as diretrizes de ocupação, frente às formas de uso do solo.
- CARTAS DE ATRIBUTOS ou PARÂMETROS: apresentam a distribuição geográfica de características de
interesse (atributos, parâmetros geotécnicos) a uma ou mais formas de uso e ocupação do solo.
- CARTAS DE RISCOS GEOLÓGICOS: prepondera a avaliação de dano potencial à ocupação, frente a uma ou
mais características ou fenômenos naturais ou induzidos pelo uso do solo.
- CARTAS DE SUSCETIBILIDADE34: informam sobre a possibilidade de ocorrência de um ou mais fenômenos
geológicos e de comportamentos indesejáveis, pressupondo uma dada forma de uso do solo.
Em função da disponibilidade de dados e da possibilidade de análise regional, a carta utilizada no projeto
foi a carta de suscetibilidade. A suscetibilidade é entendida como decorrente de um fenômeno natural
relacionada a características intrínsecas ao meio físico, sendo assim determinante em sua capacidade de
sofrer alterações e de resistência (resiliência). Geralmente, em cartas de suscetibilidade é graduada em
baixa, média e alta, sendo associada ao potencial probabilístico de ocorrência de fenômenos naturais em
função da composição estrutural e funcional do meio, portanto, uma medida probabilística, e não
impeditiva de ocupação, que devem estar associadas também a outros conceitos como o risco e a
vulnerabilidade, incorporando dimensões humanas mais explícitas.

151
Mapa. Áreas de Monitoramento Territorial e risco geológico

6.6 - Dinâmica Imobiliária


A análise sobre a dinâmica imobiliária visa examinar dois tipos específicos de padrões de uso e
ocupação do solo urbano que são constituídos pelos empreendimentos imobiliários verticais e
loteamentos e condomínios horizontais, geralmente produzidos por agentes do mercado formal.
Bertioga possui esses dois tipos de ocupação urbana, mormente voltada para a provisão de “segundas
residências” dos grupos de classe média e alta renda.

6.6.1 - Empreendimentos Imobiliários Verticais


Nos municípios da Baixada Santista e do Litoral Norte de São Paulo registra-se o fenômeno da
valorização do solo urbano provocada pela demanda por terras para a implantação de
empreendimentos imobiliários que conforma uma nova paisagem urbana, resultando, em alguns casos,
na descaracterização urbanística de áreas da cidade.
A cidade de Bertioga, diferentemente de grande parte dos municípios da Baixada Santista, apresenta
ainda um padrão construtivo predominantemente horizontal. Mesmo nos bairros onde a ocupação é
mais antiga e consolidada35, não existe áreas que concentrem construções verticais de forma
significativa. Tais construções aparecem de forma dispersa por esses bairros e próximos à orla.
São nos bairros do Centro e Rio do Meio, junto à Av. Anchieta e à Rua João Ramalho, vias que cortam os
dois bairros paralelamente à praia, onde é possível identificar alguns empreendimentos verticais de
médio e alto padrão, com até 06 pavimentos, dispostos de maneira dispersa por esses bairros, sem
constituir um grupo de quadras com edifícios verticais.
Estes empreendimentos estão localizados em áreas valorizadas do município, pela proximidade à orla
marítima e ao centro comercial. São áreas predominantemente residenciais, providas de sistema de
abastecimento de água, coleta de esgoto, drenagem e pavimentação, ainda que insuficientes. Vale

35
As áreas da cidade com ocupação mais antiga e consolidada compreendem os seguintes bairros: Vila Tamoios, Bairro Santista, Bairro
Clipper, Vila Itapanhaú, Jardim Lido, Center Ville, Vila Clais, Jardim Paulista, Vila Tupi, Maitinga e Jardim Albatroz.
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ressaltar as precárias condições de infraestrutura urbana do município de Bertioga, onde somente as


vias públicas principais do município apresentam pavimentação que valorizam os imóveis próximos.
Apesar Centro de Bertioga apresentar alguns empreendimentos verticais, a quantidade não é muito
significativa. É nos bairros Rio do Meio e Riviera de São Lourenço que está a maior parte dos
empreendimentos imobiliários verticais. Conforme mapa ___ acima (distribuição percentual dos
domicílios de uso ocasional segundo setores censitários de 2010) esses são constituídos
predominantemente por setores censitários onde mais 50% dos domicílios são uso ocasional.
Conforme o mapa ___ abaixo, a incidência de empreendimentos verticais está em consonância com o
zoneamento do município (estabelecido pela lei ___), na medida em que estão espacializados dentro
das Zonas Turísticas (ZT1, ZT2, ZT3 e ZT4). As ZT1, ZT2 e ZT3 estão localizadas entre a orla da praia, a Av.
Anchieta, e a Rua João Ramalho, enquanto que a ZT4 está demarcada dentro da Riviera de São
Lourenço, também junto à praia.

Mapa 12. Bertioga – Áreas com Concentração de Empreendimentos Imobiliários Verticais e


Zoneamento Municipal da Lei de Uso e Ocupação do Solo de 1998 – 2012

Fonte: Áreas com Empreendimentos Imobiliários Verticais - ?; Zoneamento Municipal – Lei Municipal n° 317/1998.
Elaboração: Instituto Polis, 2012.

No mapa acima observamos que todos os empreendimentos imobiliários verticais estão localizados em
zonas turísticas que atraem empreendimentos voltados para a população de média alta e alta renda.
Em cidades com forte economia ligada ao setor do turismo, como Bertioga, as zonas turísticas são as
que recebem maior atenção do poder público e recebem a maior parte dos investimentos por causa da
importância que as atividades turísticas representam para orçamento do município. Nessas zonas
turísticas os índices urbanísticos incentivam a construção de empreendimentos com diversos
pavimentos36, com baixa taxa de ocupação.

36
Na ZT2 por exemplo, pode-se construir edifícios de até 10 pavimentos.
153
Já em relação ao cruzamento entre a localização dos empreendimentos verticais e o Zoneamento
Ecológico Econômico do Litoral Norte (ZEE)37, foi identificado que a totalidade desses
empreendimentos estão em Zona 5 Terrestre (Z5T). Abaixo estão relacionados alguns aspectos relativos
às principais determinações do ZEE, que podem ter relação direta com a preferência do mercado
imobiliário em produzir empreendimentos verticais nessa zona:
- Características Socioambientais: cobertura vegetal alterada ou suprimida em área igual ou superior a
70% do total da zona, com assentamentos urbanos consolidados ou em fase de consolidação e
adensamento e existência de infraestrutura orbana, instalações industriais, comerciais e de serviços.
- Diretrizes para gestão: otimizar a ocupação dos loteamentos já aprovados e promover a implantação
de empreendimentos habitacionais de interesse social.
- Metas mínimas quanto à conservação e recuperação: atendimento de 100% em relação ao
abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos sanitários, disposição adequada de resíduos
sólidos, e implementação de coleta seletiva.
- Usos e atividades permitidas: parcelamentos e condomínios desde que compatíveis com o Plano
Diretor Municipal, empreedimentos de turismo e lazer, garantindo-se a distribuição e tratamento de
água, coleta tratamento e destinação dos efluentes líquidos e dos resíduos sólidos coletados.
A grande parte dos empreendimentos verticais construídos no município são, em sua maioria, imóveis
de veraneio, que abrigam a população flutuante de média e alta renda que utiliza os imóveis durante as
férias e feriados. Bertioga possui caráter turístico, apresentando 62,18% de domicílios de uso ocasional,
segundo dados do IBGE 2010. Essa característica foi desenvolvida ao longo dos anos, principalmente
com a construção dos condomínios fechados de alto padrão, e recentemente, com os
empreendimentos imobiliários verticais em alguns pontos da cidade.

Figura 12. Bertioga - Empreendimentos Verticais no bairro Rio do Meio

Fonte: Google Earth, 2009.

37
Elaborado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de São Paulo e instituído pelo Decreto Estadual 49.215 de 7 de dezembro de
2004.
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Figura 13. Bertioga - Empreendimentos Verticais na Av. Anchieta, principal via da cidade

Fonte: Google Earth, 2009.

Em outras áreas da cidade identificamos empreendimentos verticais construídos principalmente a


partir de 2003, impulsionados pelo aquecimento da construção civil. O surgimento desses
empreendimentos é resultado de um processo de crescimento do setor imobiliário que ocorre em todo
o país, não representando um fato isolado na cidade.
Em contraponto à ocupação horizontal predominante na cidade, temos a Riviera de São Lourenço,
loteamento de alto padrão localizado na Enseada de São Lourenço. Esse loteamento foi projetado em
módulos residenciais com padrões de ocupação distintos. São nos módulos localizados em frente à
faixa de areia onde predominam os empreendimentos verticais. Esses módulos possuem índices baixos
de adensamento. São edifícios de apartamentos de alto padrão, em sua maioria de uso ocasional,
utilizados principalmente durante feriados e períodos de férias38.

38
Em todo o loteamento – incluindo casas e apartamentos, residem cerca de 3 mil pessoas, sendo que nos finais de semana a
população cresce para aproximadamente 10 mil, atingindo sua maior população no feriados e período de férias, alcançando 45 mil
pessoas
155
Figura 14. Bertioga - Empreendimentos Verticais em Frente à Orla na Riviera de São Lourenço

Fonte: Acervo de Marcos Pertinhes.

Essa característica da verticalização em Bertioga, concentrada em um loteamento de alto padrão,


mostra uma tendência de produção do mercado imobiliário direcionado para uma demanda de alta
renda. Essa demanda é formada minoritariamente por famílias de alta renda oriundas da própria na
cidade e majoritariamente por famílias de outras cidades que utilizam esses imóveis para veraneio.
Podemos observar que a produção de empreendimentos verticais não é fruto de uma política de
desenvolvimento urbano e habitacional voltada para adensamento de áreas de moradia da população
fixa. Também não se trata de uma medida voltada para otimizar o aproveitamento da malha urbana da
cidade, com o adensamento de áreas providas de infraestrutura adequada. Tal política deveria ser
aliada a mecanismos de regulação do preço do solo urbano para que todas as classes sociais pudessem
ter acesso a essas áreas adensáveis, o que não ocorre em Bertioga, tendo em vista o perfil dos
empreendimentos verticais construídos que atendem às famílias de média e alta oriundas de outras
cidades.
Percebemos que a produção de empreendimentos imobiliários verticais de alto padrão direciona os
investimentos em infraestrutura em benefícios dos grupos mais abastados e das áreas com “segundas
residências” utilizadas ocasionalmente, em detrimento da universalização de acessos à moradia digna
provida infraestrutura para a população residente.
Cabe lembrar que a produção de empreendimentos imobiliários de alta renda, via de regra, gera
aumento de preços dos imóveis das áreas mais nobres da cidade – nos bairros com infraestrutura
consolidada próximos à orla da praia, ou com projeções de atendimento – afastando cada vez mais a
possibilidade de famílias de média e baixa renda morarem em áreas urbanizadas adequadamente.

6.6.2. Regulação dos Empreendimentos Imobiliários Verticais


A possibilidade de verticalização de empreendimentos imobiliários é regulada pela Lei de Uso e
Ocupação do Solo do Município de Bertioga.
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O direito de construir no Município é delimitado a partir de uma combinação entre os índices


urbanísticos (art. 45, §2º, LUOS), os usos autorizados (art. 46, LUOS) e as diversas zonas instituídas (art.
47, LUOS).
Conforme já mencionado em item anterior, os índices urbanísticos são: taxa de ocupação, índice de
aproveitamento, área mínima do terreno, frente mínima, recuo frontal, lateral, de fundo e número de
pavimentos.
As principais categorias de uso utilizadas são: residencial, institucional, recreativo, assistencial, de
prestação de serviços, comercial e industrial (art. 46, LUOS).
A possibilidade de construção de mais de 4 pavimentos varia conforme a zona e o uso utilizado como
regra geral .
Na Zona Urbana, a verticalização é autorizada – a depender da categoria de uso utilizada – nas Zonas
Turísticas, na ZR2, nas Zonas Mistas, nas Zonas Comerciais, no Corredor Comercial, na Zona de Suporte
Urbano e na Zona de Baixa Densidade 2.
Especificamente sobre verticalização de empreendimentos, vale considerar alguns dos principais
objetivos do PDDS – Bertioga: “Racionalização do uso do solo para a perfeita adequação da mancha
urbana da cidade e viabilização da dotação de infraestrutura” (art. 3º, inciso I, Lei 315/98); “promoção
do adensamento populacional como fórmula capaz de viabilizar obras e prestação de serviços públicos,
num critério de viabilidade econômica compatível” (art. 3º, inciso VII).
Além disso, o PDDS- Bertioga estabelece como diretrizes do Setor Físico- Territorial a “ocupação
racional do solo, segundo legislação complementar, visando o desenvolvimento harmônico do
Município” (art. 4º, inciso III, alínea “a”, Lei 315/98).
No que se refere à verticalização de empreendimento, o Município não regula claramente
instrumentos urbanísticos capazes de estimular ou conter a verticalização.
Diversos são os instrumentos trazidos pelo Estatuto da Cidade capazes de agir sobre o crescimento
vertical da cidade de maneira a adequá-lo à infra-estrutura urbana existente.
Com efeito, instrumentos como a outorga onerosa e transferência do direito de construir, consórcios
imobiliários, operações urbanas, parcelamento, edificação e utilização compulsórios interferem na
dinâmica imobiliária municipal e no direito de construir (ou não) edifícios na cidade.
A outorga onerosa, por exemplo, é o instrumento que garante o pagamento de contrapartida àqueles
que possam construir acima do coeficiente de aproveitamento (art. 28, Lei 10.257/01). Assim, nas
áreas em que a construção de edifícios onere a infraestrutura, é possível exigir o pagamento de
contrapartidas que podem ser aplicadas nas mais diversas finalidades da política urbana municipal (art.
31 c/c art. 26, Lei 10.257/01). A verticalização nesses casos pode converter-se em benefício para toda a
cidade.

A transferência do direito de construir, por sua vez, também pode ser utilizada quando o imóvel for
considerado necessário para fins de implantação de equipamentos públicos e comunitárias, para fins
de preservação do patrimônio histórico, arquitetônico, paisagístico, social ou cultural; para programas
de regularização fundiária e habitação de interesse social (art. 35, Lei 10.257/01).
Nesses casos, o potencial construtivo poderá ser exercido em áreas consideradas aptas como, por
exemplo, as destinadas à verticalização de empreendimentos.
Nesse sentido, é importante salientar que o Município de Bertioga não regulou nenhum desses
instrumentos, seja pelo plano diretor, seja pelas leis municipais específicas.
Tendo em vista que é possível que o Município altere seu plano diretor, vale notar que as áreas nas
quais serão aplicados os instrumentos do parcelamento, edificação e utilização compulsórios, da
157
outorga onerosa do direito de construir, das operações urbanas, da transferência do direito de
construir são consideradas como conteúdo mínimo obrigatório dos planos diretores (art. 42, incisos I e
II, Lei 10.257/01).
Assim, no caso de interesse municipal em promover a verticalização de maneira compatível com a
infraestrutura existente, pode-se regular a aplicação dos instrumentos em eventual novo plano diretor.

6.6.3. Loteamentos e Condomínios Horizontais no Município de Bertioga


Como visto anteriormente, em Bertioga a ocupação urbana deu-se a partir da orla em direção à Serra
do Mar, seguindo a preferência do setor imobiliário formal em ocupar áreas próximas às praias que são
atrativas para o turismo de “segunda residência”. Esse modelo de ocupação urbana espraiada, ao longo
da faixa da orla, é resultado das limitações geográficas da cidade que possui grande parte de seu
território inserida em Unidades de Conservação e em outras áreas de interesse ambiental, junto a Serra
do Mar. Tal fator limita a ocupação urbana de Bertioga encaixada entre a Serra do Mar e a faixa da orla
marítima.
Como visto antes, as principais vias do sistema de Bertioga são a Rodovia SP-055 (Manoel Hyppolito
Rego), que corta a cidade ligando-a à Baixa Santista e às cidades do litoral norte, e a Avenida Anchieta,
que corre em paralelo àquela Rodovia e a orla da praia. Essas vias cortam os principais bairros da
cidade e delimitam as grandes porções urbanas da cidade. As áreas localizadas nas faixas delimitadas
pela orla da praia, Avenida Anchieta e aquela Rodovia concentram grande parte dos loteamentos e
condomínios horizontais, fechados ou não, ocupados predominantemente com moradias de veraneio
ou de residentes fixos.
Os loteamentos horizontais de Bertioga mais antigos datam da década de 1960. Nesse período se
constituiu a maioria de grandes loteamentos urbanos horizontais localizados na parte leste da cidade e
que atualmente abrigam predominantemente a população residente fixa como, por exemplo, o Jardim
Indaiá, no Bairro Indaiá.
A abertura da Rodovia SP-055 na década de 1970 ampliou a acessibilidade a diversas áreas de Bertioga
e, com isso, propiciou o crescimento urbano local. Esse crescimento se deu principalmente a partir da
implantação de loteamentos e condomínios fechados constituídos predominantemente por moradias
de veraneio.
A partir da década de 1980 o crescimento da mancha urbana de Bertioga se expande no sentido
nordeste para áreas mais afastadas do centro, a partir da implantação dos extensos loteamentos e
condomínios fechados voltados, sobretudo, às classes de média e alta renda, como é o caso da Riviera
de São Lourenço, Costa do Sol no bairro Guaratuba, e Morada da Praia, no Bairro Boracéia, localizados
nas faixas entre a rodovia e a orla marítima. Grande parte desses condomínios adotou características
de veraneio, na intenção de atender a demanda do turismo de balneário baseando na “segunda
residência” responsável pela geração de grande população flutuante que aflui para o município em
períodos de verão.
A partir da década de 1990 ocorre o adensamento e a consolidação desses loteamentos horizontais ao
mesmo tempo em que surgem outros empreendimentos horizontais nos vazios ainda existentes como,
por exemplo, o condomínio fechado Hanga-Roa, localizado no bairro Indaiá.
Os loteamentos e condomínios horizontais são os modelos marcantes de ocupação do solo da cidade
de Bertioga. A construção desses empreendimentos se identifica com o próprio processo de
emancipação da cidade ocorrido no ano de 1991, a partir do Município de Santos. Esse processo teve
como uma de suas determinantes a disputa entre a intenção da administração municipal de Santos,
que desenvolveu parâmetros para regular o uso e a ocupação do solo no distrito do qual se originou o
Município de Bertioga, e interesses dos setores da construção civil e do mercado imobiliário que
visavam tornar Bertioga um território urbano predominantemente formado por loteamentos e
condomínios horizontais constituídos por “segundas residências”.
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Os principais condomínios horizontais fechados de Bertioga ocupados predominantemente por


moradias de veraneio são:
- Condomínio Costa do Sol, no bairro de Guaratuba;
- Condomínio Hanga-Roa, no bairro Indaiá;
- Condomínio Morada da Praia, no bairro Boracéia;
- Condomínios Bougainville I, II, III e IV, no bairro Vicente de Carvalho.
A maioria desses condomínios horizontais fechados apresentam baixa densidade urbana e, geralmente,
com residências assobradadas com 3 a 7 dormitórios e 5 vagas de garagem. Todos esses condomínios
possuem residências de frente para a orla marítima e tem grandes dimensões, ocupando grande parte
das faixas de orla. Alguns deles chegam a possuir 900.000 m² como, por exemplo, o Bougainville,
localizado no bairro Rio do Meio. Alguns chegam a comercializar lotes de até 3.000 m², como é o caso
do Hanga-Roa. Seus traçados viários internos não seguem um padrão, diferenciando-se de um
condomínio para outro.
Esses loteamentos e condomínios estão espacializados de forma dispersa, resultado da atuação de
agentes do mercado imobiliário que contaram com pouca regulação urbanística em nível local. A
ausência de processos e mecanismos de planejamento e gestão urbana, conduzidos pelo governo local,
fez com que o crescimento urbano de Bertioga ocorresse de modo desordenado. Como visto, esse
crescimento se deu de modo disperso e fragmentado. Esse modelo de ocupação favorece a
especulação imobiliária à medida que cria vazios urbanos entre áreas urbanizadas que são valorizados
ao longo do tempo pelos investimentos públicos em serviços, equipamentos e infraestruturas urbanas.
Desse modo, o capital imobiliário se apropria das rendas fundiárias valorizadas por investimentos
coletivos, de todos os cidadãos.
Ademais, esse modelo favorece a segregação social entre moradias dos grupos sociais ricos e pobres
além da aumentar excessivamente as distâncias físicas entre os bairros. O isolamento entre porções de
espaços urbanos ocasiona descontinuidades no sistema viário público do município que, muitas vezes,
é interrompido por esses empreendimentos. Em Bertioga, aquele sistema viário já se caracteriza por
descontinuidades e fragmentações. Exemplos de descontinuidade nas paisagens e nas vias públicas
locais podem ser vistos na Riviera de São Lourenço, situada na Enseada São Lourenço. Esse loteamento
interrompe o traçado viário da Avenida Anchieta que se constitui como a principal via que estrutura o
acesso aos vários bairros do município, ocasionando pequenos conflitos na malha viária local. Isso leva
a encarecimentos na oferta de serviços, equipamentos e infraestruturas urbanas, geralmente
viabilizadas por investimentos do poder público. Desse modo, vemos em Bertioga um modelo de
desenvolvimento urbano desigual encontrado na maioria das cidades brasileiras.

159
Figura 15. Bertioga – Exemplos de Traçados Viários dos Condomínios Costa do Sol, no Bairro
Guaratuba, e Morada da Praia, no Bairro Boracéia

Fonte: Gloogle Earth, 2012

Por se tratarem de espaços isolados e, em alguns casos, murados, às vezes com uma única entrada, os
loteamentos e condomínios fechados possuem pouca integração urbana com seu entorno imediato,
dificultando as relações sociais e coletivas no espaço urbano. Tal isolamento chega ao ponto de alguns
loteamentos e condomínios horizontais de alto padrão possuírem sistemas de saneamento próprios,
como é o caso da Riviera de São Lourenço que possui sistemas de tratamento e abastecimento de água
e de coleta e tratamento de esgoto que atendem somente os imóveis inseridos no empreendimento.
Esses sistemas são privados e independentes em relação aos sistemas públicos do município. Exames
mais detidos sobre esses sistemas são apresentados adiante.
Esse isolamento, atrelado a pouca presença de centros comerciais nos bairros e insuficiência de
estabelecimentos comerciais e de serviços locais, pode ser considerado um ponto crítico relevante. Esta
situação gera a necessidade de viagens a outros bairros através da utilização da rodovia, intensificando
a tráfego nessa via regional que serve de ligação entre a Baixada Santista e o Litoral Norte. Isso ocorre
principalmente durante o verão quando muitos domicílios de veraneio possuem moradores
temporários.
Essa constatação revela a importância de se consolidar, em Bertioga, um sistema viário local que gere
alternativas de interligações entre loteamentos e condomínios localizados em diferentes pontos das
áreas urbanas do município e aliviem a Rodovia SP-055 (Dr. Manuel Hyppolito Rego) do tráfego local.
Porém, esse aspecto importante é subvalorizado na política urbana de Bertioga visto que o município
não dispõe de um Plano Viário e não trata dessa questão em sua legislação urbanística.
O acesso às praias também passa a ser um complicador, pois muitos condomínios fechados e
loteamentos colocam barreiras físicas, como estacionamentos e guaritas com funcionários que
controlam o único acesso às suas áreas internas que, por sua vez, levam às praias.
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Figura 16. Bertioga - Entrada da Riviera de São Lourenço e Vazios urbanos gerados entre loteamentos

Fonte: Prefeitura Municipal de Bertioga, 2008.

6.6.4 - Regulação dos Loteamentos e Condomínios horizontais.


O Plano Diretor do Município, qual seja, a Lei n 315/98 disciplina em seu artigos 19 a 23 aspectos gerais
de enquadramento jurídico e competência do município acerca do parcelamento do solo urbano.
Inicialmente, cabe registrar que o artigo 20 prescreve a abrangência da expressão parcelamento do
solo de maneira a englobar, além das tradicionais formas prescritas na Lei federal nº 6.766/79 (de
loteamento e desmembramento), também as modalidades de condomínio.
Portanto, ao definir a abrangência do termo, infere-se que o tratamento da legislação municipal acerca
do parcelamento aplicar-se-ia também aos condomínios.
Ainda sobre o tema, o Plano Diretor estabelece exigência de prévia aprovação pelo Município do
parcelamento, sob pena de embargo e demais cominações legais (artigo 22); mas também prevê a
possibilidade do Município promover a regularização de parcelamento do solo implantados, aplicando-
se-lhes a legislação vigente à época de implantação (artigo 19).
Com relação às áreas públicas, remete a assuntos como a implantação de logradouro público, suas
características, percentuais de áreas a serem reservadas ao uso público ou institucional e exigibilidade
de equipamentos de infraestrutura à legislação municipal sobre o parcelamento (artigos 21 e 23).
Também são remetidas à lei específica disposições para áreas de uso privado como dimensões
mínimas e máximas de lotes (artigo 23).
Apesar de definida a abrangência no Plano Diretor, o instrumento jurídico a pormenorizar a
implantação do parcelamento do solo urbano no Município é a Lei de Uso e Ocupação do Solo (Lei
Municipal 317/1998). Reitera-se aqui que referida lei municipal deveria tratar dos assuntos
expressamente a ela delegados pelo Plano Diretor nos artigos 21 e 23. Tais aspectos serão retomados
na presente análise.
Vale ressaltar a definição de lote de acordo com a Lei 6.766/79 (parágrafo 4 º e 5 º do seu artigo 2º)
que estabelece como lote o terreno servido de infra estrutura básica e cujas dimensões atendam os
índices urbanísticos definidos no Plano Diretor; considerando infraestrutura básica os equipamentos
urbanos de saneamento de águas pluviais, iluminação pública, redes de esgoto sanitário e
abastecimento de água potável, e de energia elétrica pública domiciliar e as vias de circulação
pavimentadas ou não.
O artigo 4º da Lei Municipal 317/1998 estabelece critérios gerais para assegurar o aspecto paisagístico
funcional do Município como:

161
- a coordenação das vias dos terrenos a urbanizar com outras vias existentes ou planejadas nos
terrenos confinantes entre si assegurando sua conformidade com o sistema viário oficial.
- as quadras deverão ter disposição e dimensões perfeitamente adequadas ao planejamento urbano
adotado para o Município, assegurado sua conformidade com o sistema viário oficial.
- cada lote deverá ter forma, área e dimensões que satisfaçam as exigências mínimas do planejamento
urbano adotado para o Município.
O artigo 5º por outro lado estabelece critérios específicos determinando conforme estabelece a Lei
Federal 6766/79 com as alterações trazidas pela lei federal 9785/1999 no parágrafo 1 do artigo 4º que
a legislação municipal definira os usos permitidos, os índices urbanísticos de parcelamento e ocupação
do solo: As áreas livres destinadas a sistema de circulação e implantação de equipamentos urbanos, e a
edifícios públicos, e a preservação de cobertura vegetal deverão desempenhar função primordial na
composição harmoniosa da paisagem urbana tanto pela localização e dimensionamento como pelos
usos a que destinarem, não podendo ser inferiores a 35% (trinta e cinco por cento) da superfície total
do terreno a urbanizar.
“§ 1º As áreas livres destinadas a sistema de circulação e implantação de equipamentos urbanos
deverão corresponder a 20% (vinte por cento) da superfície do terreno a urbanizar.
§ 2º As áreas livres destinadas a edifícios públicos deverão corresponder a 5% (cinco por cento) da
superfície do terreno a urbanizar sendo que em se tratando de urbanização na forma de
desmembramento essa doação se dará para terrenos com superfície superior a 10.000 m2 (dez mil
metros quadrados).
§ 3º. As áreas livres, destinadas à preservação de cobertura vegetal ou de florestamento com espécies
nativas regionais, deverão ser proporcionais à superfície total dos terrenos a urbanizar, conforme a
seguinte fórmula: 0,24 b = 1, 1 X a onde: a = área total da gleba b = percentual de áreas livres”
Excetua-se da aplicação da formula estabelecida pelo parágrafo 3 transcrito acima quando a avaliação
for realizada por órgãos ambientais do Estado ou da União com a respectiva área de reserva legal da
área destinada a cobertura vegetal ou reflorestamento.
No entanto deve-se considerar as alterações trazidas pela Lei 9.785/99 estabelecidas no inciso I do
artigo 4 da lei federal 6766/79 de que essas áreas destinadas a sistema de circulação, implementação
de equipamento urbano e comunitário, bem como espaços livres de uso público, serão proporcionais a
densidade de ocupação previstas pelo plano diretor ou aprovadas por leis municipais, ou seja, concede
aos Municípios a fixação do percentual segundo um critério de proporção com a densidade de
ocupação.
O Capítulo III da Lei Municipal 317/1998 define o procedimento para o fornecimento das diretrizes, os
requisitos do pré-plano urbanístico e por fim do plano urbanístico.
Da mesma forma o artigo 10 da Lei Municipal 317/1998 estabelece o conteúdo do pré-plano
urbanístico e o artigo 11 o conteúdo obrigatório do Plano Urbanístico.
O pré-plano urbanístico é uma exigência da legislação municipal e será a base de elaboração do plano
urbanístico; embora o pré-plano urbanístico contenha requisitos obrigatórios do projeto urbanístico,
não exime a exigência legal trazida pela 9785/99 no artigo 9 da Lei Federal 6766/79 que o projeto do
loteamento deverá conter desenhos, memorial descritivo e cronograma das obras com duração
máxima do é de quatro anos; bem como os desenhos do projeto urbanístico deverá conter também o
sistema de vias e suas respectivas hierarquias.
Portanto é necessário que a legislação municipal seja complementada nos itens apontados nessa
analise, para que esteja em consonância com a normativa federal.
Somente no artigo 18 do mesmo diploma legal é que estabelece o prazo da licença de dois anos
prorrogáveis mais dois anos; esta de acordo com o parágrafo 1 do artigo 12 da Lei Federa 6766/79
alterado pela Lei Federal nº 12.608/12 (conversão da Medida Provisória 547 de 2011), o qual define
como requisito obrigatório que o projeto deverá ser executado no prazo constante no cronograma de
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execução sob pena de caducidade, complementado pelo período máximo de 4 anos segundo o artigo
9º da Lei Federa 6766/79 alterado pela Lei Federal nº 12.608/12.
O Capítulo VI da lei municipal 317/1998 estabelece os requisitos para a modificação do Plano
Urbanístico e o Capítulo VII trata da Aceitação das Obras de Urbanização.
Com relação a modalidade de parcelamento definida como desmembramento a lei de uso e ocupação
do solo deverá ser complementada pela necessidade de apresentação da certidão atualizada da
matricula da gleba expedida pelo Cartório de Registro de Imóveis, dispensado quando se tratar de
parcelamento popular, entre outras exigências da estabelecidas pela lei federal 6766/79 como por
exemplo o conteúdo na planta de desmembramento de indicação do tipo de uso predominante no
local; indicação de vias existentes e dos loteamentos próximos entre outros.
Salientamos o artigo 34 da lei municipal 317/1998 que estabelece que a modalidade do
desmembramento em mais de 6 (seis) partes em um terreno seguira as exigências para implementação
de loteamentos. A restrição da quantidade de desmembramento em um mesmo lote é fundamental
para restringir uso desse instrumento como forma de burlar a legislação promovendo verdadeiros
loteamentos sem cumprimento das exigências legais. Nos parece que o desmembramentos de seis
partes em um mesmo lote, possa ser reduzido para quatro, o que limitaria mais a possibilidade de
realizar parcelamentos sem cumprimento da exigências legais da Legislação Federal 6766 combinada
com as legislação do município de Bertioga.
Ao tratar do desmembramento, a Lei nº 317/98 diferenciou de maneira clara a hipótese de construção
de mais de uma edificação (tanto no caso de várias casas como no caso de vários edifícios) no mesmo
do lote da modalidade de desmembramento. Na hipótese prescrita pelo artigo 33, o lote onde foram
implantadas as distintas edificações mantém-se indiviso.
O mesmo Diploma legal do Município passa, na sequência, a tutelar os condomínios residenciais.
Cumpre destacar que a disciplina para implantação dos condomínios residenciais prescritos no Capítulo
X, do Título I, da Lei nº 317/98, não diferencia expressamente suas exigências urbanísticas de
parcelamento entre as modalidades de implantação verticalizadas e horizontais, o que não implica a
desnecessidade de atender às imposições de ocupação e instalação de usos imposta pelo zoneamento.
Ao tratar de exigências urbanísticas, Bertioga equipara os condomínios à modalidade do loteamento
para exigir a implantação de áreas reservadas a sistemas de circulação e implantação de equipamentos
urbanos, a edifícios públicos e preservação da cobertura vegetal (artigo 36). Os percentuais de áreas
reservadas não são diferenciados para o caso do condomínio em relação ao loteamento.
No entanto, somente as áreas reservadas para implantação de edifícios públicos é exigida fora do
perímetro do condomínio implantado, nos termos do parágrafo único do artigo 36. Compreende-se a
partir dessa disposição que a lei municipal autoriza a localização das demais áreas exigidas dentro dos
limites do condomínio, com eventual restrição de acesso.
Nesse particular, cumpre retomar alguns dos aspectos remetidos pelo Plano Diretor (Lei nº 315/98) à
disciplina pela lei municipal de parcelamento do solo nos seus artigos 21 e 23 e já tratados nesta
análise. Assim, constitui-se matéria da lei de parcelamento (que deve ser entendida como a atual Lei nº
317/98):
• Condições de implantação de via ou logradouro público;
• Reserva de áreas para espaços livres e uso institucional;
• Mecanismos de compensação financeira;
• Dimensões mínimas e máximas dos terrenos;
• Características das vias;
• Equipamentos de infraestrutura obrigatórios e
163
• demais exigências julgadas convenientes.
Considerando-se que tais exigências aplicar-se-iam também à implantação de condomínios, identifica-
se o silencio da lei acerca do aspecto “dimensão máxima” dos terrenos passíveis da implantação de um
condomínio, não sendo encontrada na lei municipal qualquer vedação que impeça a criação de
condomínios de grandes dimensões com restrição de acesso dentro do tecido urbano.
Naquilo que diz respeito aos procedimentos para aprovação, os artigos 37 a 40 discriminam etapas,
documentação e atos administrativos orientadores (diretrizes municipais) e de aprovação (que no caso
do condomínio, tem validade de apenas um ano). Além disso, são prescritas exigências direcionadas
especificamente aos condomínios como afastamento entre edificações, áreas de lazer,
estacionamento, implantação do sistema de circulação etc. (artigo 39).

6.7 – Imóveis Públicos


O conhecimento da estrutura fundiária urbana identificando os imóveis de propriedade pública,
especialmente imóveis vazios e ociosos, são uma importante variável de análise e proposição de
ocupação do território. O reconhecimento e disponibilização dos imóveis sem uso no cumprimento da
função social, sejam eles públicos ou privados, contribuem para a execução de projetos propostos nos
municípios, de forma a constituir um banco de terras para a implantação de equipamentos,
infraestrutura ou outros usos de seu interesse, como a moradia de interesse social ou uso institucional.
No caso dos imóveis públicos, ocupados por entidades ou empresas através de concessão ou outro
instrumento (municipal, estadual ou federal) é fundamental identificar aqueles que muitas vezes não
atendem ao interesse público. Nestes casos, a revisão das concessões pode contribuir para que o poder
público destine estes imóveis para finalidades articuladas aos objetivos de planos e projetos existentes.
No caso do litoral paulista, as praias e seus acrescidos estão entre os bens públicos de uso comum do
povo sob o domínio da União (art. 20, IV e VII, da CF/88). Além da questão da titularidade, estas áreas
são recursos naturais integrantes da Zona Costeira. Nesse sentido, qualquer intervenção em área de
praia deve ser precedida de autorização da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), órgão da União
responsável pela gestão dos bens públicos nacionais.
A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) estabeleceu procedimentos específicos de acordo com o
tipo de imóvel e destinação. O município de Bertioga possui dois imóveis da União de Uso Especial, ou
seja, destinados a uso de interesse público: a terra indígena guarani do Ribeirão Silveira (reserva
indígena) e o Forte São Tiago, sob gestão do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico (IPHAN).

Tabela 7. Imóveis da União de Uso Especial – Bertioga


Número do Data da Validade Área do
Logradouro -
Endereço - Reponsável pelo imóvel da Avaliação da Terreno
SPIUnet
SPIUnet Utilização Utilizado
IPHAN 9A.
PRAIA DE
S/N COORDENACAO 26/12/2002 9.500,00
BERTIOGA
REGIONAL - SAO PAULO
TERRA
INDIGENA FUNAI-COORDENACAO
GUARANI DO S/N REGIONAL DO LITORAL 30/11/2012 1.008.000,00
RIBEIRAO SUDOESTE/SP
SILVEIRA
Fonte: SPU/SP – ofício GP-SPU/SP 462/12

Além disso, a SPU vem realizando procedimento de atualização de seu cadastro e regularização das
concessões das áreas de marinha. As áreas de marinha consistem na faixa de terra existente entre a
preamar-média de 1.831 e uma extensão de 33 metros medidos a partir desse alinhamento inicial, nas
áreas sujeitas a maré.
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O cadastro e controle destas áreas é um importante instrumento de gestão do território. O Governo


Federal vem incentivando um processo de construção de gestão articuladas das áreas costeiras através
da construção de um plano para a orla marítima, o Projeto Orla. O projeto visa também estabelecer
critérios para destinação de usos de bens da União, visando o uso adequado de áreas públicas e de
recursos naturais protegidos compatibilizando as políticas ambiental e patrimonial. Embora a
competência legal para o gerenciamento destas áreas encontre-se majoritariamente na órbita do
Governo Federal, o Projeto Orla concebe o nível municipal, apoiado pelo estado, como agente
executivo da gestão compartilhada da orla. Embora seja uma iniciativa interessante de gestão
articulada destas áreas o projeto orla não é lei e nem condiciona o recebimento de recursos. Desta
forma o projeto ainda foi pouco desenvolvido no litoral de São Paulo No caso do município de Bertioga
o plano para a orla marítima ainda não foi desenvolvido.
Além disso, o processo de cadastro e regularização das áreas de marinha ainda está em andamento.
Desta forma, ainda são poucas as áreas identificadas no município. De acordo com cadastro da SPU/SP,
foram identificados 18 imóveis, somando 342.790m².

Tabela 8 . Imóveis de domínio da união – terrenos de marinha


Imóveis da
MUNICÍPIOS Soma de Área do Terreno da União (m²)
União

BERTIOGA 18 342.790
CARAGUATATUBA 914 3.482.349
CUBATAO 344 11.915.747
GUARUJA 5.072 16.774.400
ILHABELA 147 1.222.982
ITANHAEM 223 159.485
MONGAGUA 109 107.229
PERUIBE 20 27.247.677
PRAIA GRANDE 1.929 3.349.671
SANTOS 16.664 79.740.469
SAO SEBASTIAO 847 3.979.057
SAO VICENTE 8.783 15.706.910
UBATUBA 889 3.037.654
Total Geral 35.959 167.066.420
Fonte: SPU/SP – ofício GP-SPU/SP 462/12

165
6.8. Regulação dos Bens da União nas Legislações Municipais e Federais
6.8.1. Regime Jurídico dos Bens Públicos Municipais
A Lei Orgânica do Município de Bertioga (LOM) trata dos próprios municipais no Capítulo IV intitulado
“Dos Bens Municipais”. Neste capítulo estão dispostas as competências e exigências legais para o uso e
gestão dos bens públicos sob seu domínio e também de bens de domínio da União, como, por
exemplo, as praias.
Além dos artigos dispostos no capítulo IV, uma série de outros artigos esparsos na LOM tratam do
tema e seus desdobramentos de competências, possibilidades de exceções às regras dispostas e
principalmente a regulamentação de uso e gestão de bens que não integram o patrimônio municipal,
como as praias, terrenos de marinha e acrescidos, o mar territorial, neste caso, bens da União.
A Lei Orgânica Municipal de Bertioga, define no art. 92 que “Constituem bens municipais todas as
coisas móveis e imóveis, direitos e ações que, a qualquer título, pertençam ao Município”.
Neste passo, o art. 93 determina que cabe ao Prefeito a administração dos bens municipais, respeitada
a competência da Câmara àqueles utilizados em seus serviços.

6.8.2. Uso dos Bens Municipais


Determina o art. 96 que “O uso de bens municipais de uso comum e especial por terceiros, a título
oneroso ou gratuito, dar-se-á através de autorização, permissão ou concessão, e o uso de bens
dominicais por terceiros dar-se-á através de instrumento do direito civil.”
Na mesma linha, dispõe o art. 98 que “Poderá ser permitido a terceiros, com aprovação do legislativo, a
título oneroso ou gratuito conforme o caso, o uso do subsolo ou do espaço aéreo de logradouros
públicos para construção de passagem destinada à segurança ou conforto dos transeuntes e usuários
ou para outros fins de interesse urbanístico”.

6.8.3. Uso dos Bens Públicos de Uso Comum e Especial por terceiros
A LOM determina no já citado art. 96, que a utilização de bens municipais de uso comum e especial por
terceiros, a título oneroso ou gratuito, dar-se-á através de autorização , permissão ou concessão.
Os instrumentos da permissão e autorização de uso são considerados atos administrativos, concedidos
a título precário, sendo que no Município a autorização dar-se-á por Portaria e a permissão de uso por
Decreto e termo de permissão.
A LOM também prevê a possibilidade da permissão de uso de qualquer bem ser feita, a título precário,
por meio de decreto legislativo (art. 6°, XIIX) .
O instrumento da permissão também é previsto para a prestação ou execução de serviços públicos ou
de utilidade pública e deverá ser outorgada por decreto e precedida de edital de chamamento (art. 88,
§ 1º da LOM).
O capítulo II da LOM, que trata da “Competência do Município”, concentra os artigos que
regulamentam a concessão de uso do patrimônio público de Bertioga. Com efeito, determina a
legislação municipal que a concessão de uso de bens de uso comum dar-se-á de forma gratuita ou
onerosa, mediante autorização legislativa . Não menciona a desafetação, necessária neste caso, mas
supõem-se a autorização legislativa aqui mencionada presta-se para tal fim.
Nos termos da LOM, o uso de bens dominicais por terceiros dar-se-á através de instrumento do direito
civil. O § 3º menciona que “A concessão, formalizada através de contrato, sempre será precedida de
autorização legislativa e licitação, sendo dispensadas estas, quando necessária para formar canteiro de
obra pública e pelo período dela ou quando agregada à concessão de serviços públicos”
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A outorga da concessão do direito real de uso (CDRU) tem preferência sobre a alienação e deverá
ocorrer por meio de concorrência. Há, no entanto, a possibilidade de dispensa da concorrência no caso
de comprovado interesse social, mas somente através de promulgação de lei ordinária autorizando o
ato administrativo (art. 94, § 1º da LOM).
O instrumento da concessão do direito real de uso (CDRU), instituído pelo Decreto 271/67, em seus
artigos 7° e 8°, não transfere a propriedade do imóvel para o possuidor, porém concede direito real de
uso sobre a terra não edificada para fins de edificação, urbanização, por um certo período de tempo,
renovável pelo mesmo período de tempo, mas mantem o Poder Público como proprietário da terra.
Não há qualquer referência na LOM à CDRU para fins de moradia, espécie que dispensa a realização de
concorrência, uma vez que atente a interesses sociais de bens públicos somente pode ser concedida
para fins específicos de regularização fundiária.
Já a Concessão de Uso Especial para Fins de Moradia (CUEM), espécie de concessão de uso gratuita de
bem público, prevista no art. 4°, V, h, da Lei n° 10.257/01 (Estatuto da Cidade) e disciplinada pela
Medida Provisória n° 2.220/01, foi prevista na Lei Complementar n° 004 de 2001 , que institui as Zonas
Especiais de Interesse Social no município de Bertioga para fins de regularização fundiária de imóveis
públicos em áreas urbanas.

6.8.4. Alienação ou Aquisição de Bens Públicos


A Lei de Licitações estabelece que os imóveis públicos somente podem ser alienados com autorização
legislativa e, como regra geral, por meio de licitação, na modalidade concorrência, que será dispensada
em hipóteses especificadas na referida norma (art. 17, I, Lei nº 8.666/93).
A alienação ou aquisição dos bens municipais dominiais também é regulamentada pela LOM, que
prevê a subordinação do ato à existência de interesse público devidamente justificado (art. 94) e a
exigência da realização de processo licitatório, no caso de bens móveis e concorrência, no caso dos
imóveis, além da prévia anuência do poder legislativo.
Em consonância com a legislação federal (art. 23, § 3°, da Lei 8.666/93) a LOM prevê a subordinação da
alienação de qualquer bem imóvel municipal ao interesse público, prévia avaliação, de autorização
legislativa e da realização de concorrência (art. 94, I ).
Verifica-se, portanto, que a legislação municipal cumpre o disposto na legislação federal, no que diz
respeito à alienação e concessões de direito real de uso de bens públicos próprios. O art. 23, § 3º, da
Lei nº 8.666/93, determina que o ato de venda de um bem público municipal deve ser precedido de
prévia autorização legislativa, cujo projeto de lei é de iniciativa do próprio Prefeito, e licitação, na
modalidade de concorrência.
A doação e permuta de bens públicos municipais também estão regulamentados no artigo 94 da LOM
(art. 94, I, “a” e “b”). Apesar de não fazer referência explícita a doação de bens móveis do Município
será permitida exclusivamente para outro órgão ou entidade da administração pública de qualquer
grau federativo, após prévia autorização da Câmara Municipal, e avaliação do bem, dispensada,
fundamentalmente, a licitação.
O § 2º do art. 94 da LOM também trata das hipóteses de investidura dos de bens públicos do
município. Apesar de não se referir ao termo “investidura”, segundo o conceito do § 3º do art. 17 da
Lei nº 8.666/93, é a forma de alienação feita pelo poder público de imóveis lindeiros de área
remanescente ou resultante de obra pública, área esta que se tornou inaproveitável isoladamente, por
preço nunca inferior ao da avaliação e desde que esse não ultrapasse a 50% (cinqüenta por cento) do
valor fixado legalmente por convite. (“imóveis lindeiros” = imóveis limítrofes).
Com relação à gestão e uso dos bens públicos imóveis municipais, cumpre indicar que a legislação
analisada não faz nenhuma menção à dispensa de licitação de bens imóveis destinados ou
167
efetivamente utilizados no âmbito de programas habitacionais ou de regularização fundiária de
interesse social (art. 17, I, “f” e “h” da Lei 8.666/93, com redação dada pela Lei 11.481/2007).
Tais exceções constituem importante instrumento de consecução da função social do bem público,
princípio constitucional ao qual devem estar submetidas tanto as propriedades privadas quanto as
públicas (art. 5°, XXII), e para o cumprimento e respeito às diretrizes gerais da política urbana
estabelecidas pelo Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001)

6.8.5. Bens Públicos Municipais e os Loteamentos


O Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentado de Bertioga derroga à lei especifica de parcelamento
do solo urbano os percentuais a serem doados à administração pública municipal para a reserva de
áreas livres de uso públicos e demais detalhamentos referente às dimensões dos terrenos, vias
públicas etc. (art. 23, da Lei 316/1998 ).
A Lei de Uso e Ocupação do Solo de Bertioga (Lei 317/98) define o mínimo de 35% da superfície total
dos terrenos a urbanizar para serem destinados aos bens públicos de uso comum do povo, como ruas,
praças e áreas destinadas à preservação de cobertura vegetal, além dos bens de uso especial, como os
edifícios públicos destinados ao serviço ou estabelecimento da administração (art. 5° da LUOS ).
Tal exigência, feita pela lei federal de parcelamento do solo urbano (Lei 6766/79), deixou de existir em
2009. Atualmente não há mais a reserva de no mínimo 35% da área dos terrenos destinados ao
domínio público. A nova redação da lei dispõe que a definição de tais índices urbanísticos de
parcelamento e ocupação do solo nas diferentes zonas em que se divida o território do município, são
sua de responsabilidade e deverá obrigatoriamente estar prevista em sua lei de zoneamento (art.4°, §
1°, da Lei 6766/79 com redação dada pela Lei 9.785/99).
A LUOS também prevê a realização do “plano urbanístico” que deverá atender às exigências disposta
na lei para as novas áreas que se pretende urbanizar, conferindo ao Prefeito a competência para
aprovar, via decreto, os novos loteamentos e/ou condomínios (art. 12, IV).
No plano urbanístico são definidas as áreas que passarão a constituir bens do domínio público (art. 12,
IV ) bem como as vias de circulação, os espaços públicos e sua denominação oficial, que serão
entregues formalmente ao domínio público por meio de decreto (arts. 22, 23 e 24 da LUOS ).

6.8.6. Bens Públicos Municipais e os Condomínios


No caso de Bertioga, a LUOS, em seu Capítulo XII, traz a figura da “Urbanização de Glebas na Forma de
Condomínio Residenciais”. As questões jurídico urbanísticas que permeiam esta modalidade
enquadrada pelo Município como parcelamento do solo,foi tratada em item específico desta leitura
jurídica. Aqui nos cabe tão somente indicar que, com relação a reserva das áreas destes loteamentos
que deverão ser destinadas poder público para o uso comum e especial, seguem as mesmas regras que
os loteamentos tradicionais estabelecidos no art. 5° da LUOS.
O grande diferencial é que, por permitir o fechamento do loteamento, a legislação exige que os edifício
públicos deverão estar localizadas em área externa ao condomínio, a fim de garantir o acesso ao
público e, consequentemente não interferir nas regras de acesso aos “Condomínios Residenciais” (art.
36, parágrafo único ). Decorre da interpretação do parágrafo único a possibilidade das demais áreas
públicas terem aproveitamento privativo pelos condôminos.
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6.8.7. Bens da União no Município


Do ponto de vista jurídico, a localização do município em área de Zona Costeira eleva seu território ao
status previsto no art. 225, da Constituição Federal. Na prática determina um território com
significativa concentração de bens públicos sob domínio da União (praias, mar territorial, terrenos de
marinha e acrescidos, etc), e que possuem um regime jurídico diverso das espécies de bens públicos
sob domínio exclusivo do município (praças, sistema viário, edifícios públicos, etc).
Ainda em seu território, Bertioga possui áreas de Mata Atlântica e da Serra do Mar. Sendo assim, não é
de se surpreender a existência de conflitos na regulação, gestão e uso destes bens entre os entes
federados.
Sob esta perspectiva é que devemos analisar a legislação de Bertioga que disciplina o uso e ocupação
de bens de domínio da União a fim de ponderar sobre sua legalidade e consonância diante da esparsa
legislação federal que trata do tema.
Praias, terrenos de marinha e seus acrescidos
As praias, terrenos de marinha e seus acrescidos estão entre os bens públicos de uso comum do povo
sob o domínio da União (art. 20, IV e VII, da CF/88). Além da questão da titularidade, as praias,
terrenos de marinha e seus acrescidos, tais biomas são recursos naturais integrantes da Zona Costeira
(art. 225, § 4° da CF) tratado acima. Nesse sentido, qualquer intervenção em área de praia deve ser
precedida de autorização da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), órgão da União responsável pela
gestão dos bens públicos nacionais.
Apesar do Plano Diretor de Bertioga elevar as praias do município ao status de área de preservação
permanente (art. 26, V), em ato contínuo o mesmo diploma legal prevê a possibilidade da retirada de
areia das praias em se tratando de “casos devidamente aferidos de assoreamentos de valas de
drenagem ou de foz de cursos de água perenes, mediante prévia autorização dos órgãos competentes
e da Prefeitura Municipal”(art. 32).
A potencialidade lesiva resultante dessa disposição pode ser constatada pela Ação Civil Pública em
curso contra o Município de Bertioga, movida pelo Ministério Público Federal, em razão da retirada de
areia da Praia da Enseada em quantidade significativa e sua utilização para urbanização de ruas no
bairro Vicente de Carvalho II39 , colaborando para a erosão e o progressivo desaparecimento das praias
da região.
O Decreto-lei federal n° 2.389/87, em seu art. 6°, com a redação da Lei federal n° 9.636/98, ao
cominar penalidades à realização de aterro, construção, obra ou instalação de equipamento em área
de praias sem o prévia anuência da União, implica a necessidade de manifestação anterior da
autoridade federal em qualquer caso de intervenção nas praias.
No caso de Bertioga, encontram-se cadastrados oito imóveis perante a Superintendência do
Patrimônio da União em São Paulo sob a forma de apropriação privativa de imóveis públicos federais
dominiais (seja por meio de inscrição de ocupação, seja por meio de aforamento). Apesar de
quantitativamente pouco expressivos, o regime de utilização privativa de bens públicos por
particulares é significativo do ponto de vista territorial. Os oito imóveis com uso outorgado desta
forma representa 342 mil metros quadrados de terrenos de marinha e acrescidos no Município de
Bertioga, sobre os quais incidem obrigações ao possuidor, em especial a remuneração à União por
meio de preços público (tais como foros, taxas de ocupação e laudêmios)40 .

39
Ação Civil Pública 0004662-57.2010.40.3.6104, movida pela Procuradoria da República na Comarca de Santos,
conforme informado no sítio eletrônico do Ministério Público Federal em consulta em 29 de março de 2012. Disponível
em < http://4ccr.pgr.mpf.gov.br/institucional/grupos-de-trabalho/gt-zona-costeira/acoes-civis-publicas-2013-zona-
costeira?portal_status_message=Changes%20saved.
40
Conforme informação prestada pelo Ofício GP SPU/SP nº 462, de 05 de abril de 2012.
169
Além disso, registra-se a existência de dois outros bens federais no Município: o Forte de São João, sob
a responsabilidade do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN); e a Reserva
Indígena Guarani do Ribeirão Silveira, sob a responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (FUNAI)41

6.9 - Patrimônio Histórico Cultural


Diversos municípios do litoral paulista possuem em seu território parte da memória da história de
formação do país, guardada nos seus espaços públicos e nos seus imóveis edificados. As especificidades
dessas áreas, a historicidade de suas construções, seu caráter pedagógico e sua vocação para cultura,
lazer e turismo, são importantes fatores que devem ser considerados para a promoção de um
desenvolvimento sustentável.
A previsão de novos usos e a realização de novos projetos de reabilitação ou requalificação em áreas de
interesse de preservação deve passar, necessariamente, pela valorização do patrimônio cultural, tendo
como objetivo principal o aproveitamento de seu potencial para alavancar processos de
desenvolvimento social e econômico. No caso de imóveis de interesse cultural, o cumprimento da
função social se dá na medida em que o imóvel consiga preservar os valores culturais que foram
associados a ele e à área onde ele se insere.
Para preservar estes imóveis, é preciso, primeiramente, identificá-los através da elaboração de
inventários. “O inventário é um instrumento de proteção dos imóveis de interesse cultural, assim como
o tombamento. Juntos eles permitem a preservação dos bens de valor histórico, cultural, arquitetônico,
ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo que venham a ser destruídos ou
descaracterizados. O tombamento é um instrumento de proteção que pode ser realizado pelo
município, estados ou governo federal” (BRASIL. CIDADES/IPHAN, 201142).
O município de Bertioga possui apenas um imóvel tombado, tanto pelo Instituto do Patrimônio
Histórico Nacional (IPHAN) quanto pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico,
Artístico e Turístico (CONDEPHAAT). Trata-se do Forte de São Tiago ou São João de Bertioga,
representante da arquitetura militar brasileira, presente em vários pontos da zona costeira. Localiza-se
na margem oposta à Ponta da Armação, na Ilha de Santo Amaro, local em que se situa o Forte de São
Filipe, com o qual cruzava fogo em defesa do litoral paulista. De acordo com o CONDEPHAAT, o edifício,
em pedra e argamassa de cal de ostra, sofreu reparos em 1710 e, em 1817, foi reformado de acordo
com o projeto do oficial José Felizardo, por determinação do governador da província. Na década de
1940 foi restaurado pelo IPHAN em conjunto com o Instituto Histórico e Geográfico Guarujá-Bertioga,
que posteriormente instalou no local o Museu João Ramalho, no início da década de 60.

41
Conforme informação prestada pelo Ofício GP SPU/SP nº 462, de 05 de abril de 2012.
42
BRASIL. Ministério das Cidades; Iphan. IMPLEMENTAÇÃO DE AÇÕES EM ÁREAS URBANAS CENTRAIS E CIDADES HISTÓRICAS -
MANUAL DE ORIENTAÇÃO. Brasília, 2011.
Convênio Petrobras Instituto Pólis | Relatório nº 6
Diagnóstico Urbano Socioambiental | Município de Bertioga
Revisão de Fev. 2013

Figura 14. Bertioga - Forte São Tiago

Fonte: http://www.cultura.sp.gov.br/

Em 1996 o IPHAN retomou a responsabilidade sobre o Forte São Tiago que foi fechado ao público por
suas condições precárias. O Forte passou novamente por um processo de restauro. Em meados de 2001
foi totalmente reformulado e, atualmente, conta com salas temáticas, exposições de armas e
armaduras, exposições itinerantes e visitas monitoradas. No ano de 2004, durante as comemorações da
IV Festa Nacional do Índio, foi inaugurado, em seu entorno, o Parque dos Tupiniquins43.
O município de Bertioga não possui uma política estruturada de patrimônio histórico e nem há
indicação de proteção de outros imóveis de interesse histórico. No entanto, o Plano Diretor possui
algumas diretrizes em relação a esse aspecto indicando uma zona específica para a proteção do
patrimônio histórico e cultural, onde se localiza o Forte São Tiago. A Lei de Uso e Ocupação do Solo
(LUOS) aponta a Zona de Especial Interesse Histórico e Cultural - ZHC, que “destina-se à localização de
edificações uni e pluri-habitacionais, equipamentos náuticos e turísticos, comércio e serviços
compatíveis com o uso residencial, mantendo-se a harmonização urbanística com o patrimônio
histórico e cultural existente”. (art. 47)
Outro aspecto que deve ser levado em consideração, diz respeito à existência de sambaquis no
município de Bertioga, inseridos no contexto do Parque Estadual Restinga. Os sambaquis são formações
que constituem importantes sítios arqueológicos da pré-história brasileira. Segundo GASPAR (2009) os
sambaquis “são caracterizados basicamente por serem uma elevação de forma arredondada que, em
algumas regiões do Brasil, chega a ter mais de 60 metros de altura e é composto basicamente de
material faunístico como conchas, ossos de peixe e mamíferos”44 (GASPAR, 2009). Estes sítios
arqueológicos guardam artefatos que podem contribuir para a compreensão dos povos sambaqueiros.
São regulados pela lei federal 3.924/1961 e decreto estadual 21.935/1952 de forma genérica.

43
Site: http://sapl.camarabertioga.sp.gov.br:8080/historia/turismo/forte-sao-joao
44
GASPAR, M.D. Arqueologia, Cultura Material e Patrimônio. Sambaquis e Cachimbos. In: GRANATO, Marcus e RANGEL, Marcio, F..
(Org.). Cultura Material e Patrimônio da Ciência e Tecnologia. 1 ed. Rio de Janeiro: Museu de Astronomia e Ciências Afins/ Grupo de
Pesquisa em Preservação de Acervos Culturais (MAST/ M, 2009, v. , p. 39-52.
171
Mapa 17 Bertioga – Localizações de Imóveis e Sítios de Interesse Histórico Cultural – 2012

Fonte: Instituto Florestal e CONDEPHAAT, 2012 Elaboração: Instituto Polis, 2012.

Embora o município de Bertioga não possua muitos bens tombados, o município pode desenvolver
uma política de patrimônio cultural que envolva a sociedade no debate. Em processos relacionados à
valorização e proteção do patrimônio cultural, a educação patrimonial oferece possibilidades
importantes de atuação participativa e mobilização social efetiva. Neste sentido, a educação
patrimonial deve ser considerada não um fim em si, mas um componente essencial de todo o processo
relacionado a inventário, tombamento, registro e ações de gestão do patrimônio cultural.
O Instituto de Patrimônio Histórico e Cultural (IPHAN) lançou em 2010 um programa para realização de
Planos de Ação em Cidades Históricas (PAC-CH), que tem como foco o desenvolvimento local, usando
as potencialidades do patrimônio histórico e cultural, em cidades onde há bens culturais como
Bertioga. No entanto, o município ainda não se envolveu no projeto que é uma oportunidade de
formular propostas e programas facilitando a captação de recursos para fomento ao patrimônio
cultural, integrando políticas setoriais e planos existentes.