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O QUE FAZER ANTE O INCUMPRIMENTO DE ACORDOS PARASSOCIAIS?

Sofia Vale Maio de 2013

Os acordos parassociais são extremamente utilizados na nossa prática societária.


Eles podem ser celebrados antes da outorga do contrato de sociedade,
estabelecendo as bases sobre as quais se constituirá uma nova sociedade, ou após a
constituição da sociedade. É muito comum entre nós, no âmbito dos projectos de
investimento a submeter perante a Agência Nacional para o Investimento Privado
(ANIP), os futuros sócios de uma sociedade a constituir estabelecerem através de um
acordo parassocial as linhas gerais do seu projecto de investimento, as obrigações de
cada um dos futuros sócios para a realização do negócio social, as formas através das
quais o projecto será financiado, bem como as regras que irão pautar o funcionamento
dos órgãos sociais (regras estas que, no acto de constituição da sociedade,
deverão ser transpostas para o pacto social).

Estes acordos parassociais podem também assumir a natureza de um contrato-promessa


de constituição de sociedade, para reforçar o compromisso dos sócios na sua
constituição após a aprovação do projecto de investimento pela ANIP. Atenta a sua
natureza tendencialmente confidencial, porquanto é prática comum a inserção de
uma cláusula de confidencialidade nos acordos parassociais, a sua existência só é
conhecida do público quando se verifica uma situação de incumprimento.

Registe-se, porém, a tendência, no domínio dos mercados financeiros, no sentido de


tornar públicos os acordos parassociais celebrados entre os sócios de sociedades que
estejam sujeitas à supervisão de entidades reguladoras. Impondo a publicidade dos
acordos parassociais, veja-se o artigo 113.º da Lei n.º 12/2005, de 23 de Setembro
(Lei de Valores Mobiliários), em que se exige que sejam comunicados à Comissão de
Mercado de Capitais, no prazo de três dias após a sua celebração, os acordos
parassociais que «visem adquirir ou reforçar uma participação qualificada em
sociedade aberta, ou assegurar ou frustrar o êxito de oferta pública de aquisição».
No mesmo sentido vai o artigo 79.º, n.º 1, da Lei n.º 13/2005, de 30 de Setembro (Lei
das Instituições Financeiras), nos termos do qual «os acordos parassociais entre
accionistas de instituições financeiras relativos ao exercício do direito de voto estão
sujeitos a registo no Organismo de Supervisão competente, sob pena de ineficácia».

Imagine-se, então, que uma das partes não cumpre o acordado em sede
parassocial. De que mecanismos se pode socorrer a contraparte para exigir o
respectivo cumprimento ou, tal não sendo possível, para ser ressarcida pelos danos
que tal incumprimento lhe causou? Ainda que se verifique uma eficácia relativa dos
acordos parassociais, nada obsta, prima facie, a que, em caso de incumprimento de uma
obrigação do acordo parassocial, se apliquem as normas gerais relativas ao
incumprimento das obrigações. Deste modo, os sócios lesados podem intentar
uma acção de indemnização, para ressarcimento de perdas e danos contra o sócio
que não cumpriu o acordo parassocial (artigos 562.º e 789.º do Código Civil).
Contudo, no seio dos mecanismos gerais de reacção ao incumprimento, cabe indagar da
possibilidade de se exigir judicialmente o cumprimento da obrigação constituída pelo
acordo parassocial, ao abrigo do disposto no artigo 817.º do Código Civil (acção
de cumprimento). Em regra, nada parece indiciar o afastamento do mecanismo da
acção de cumprimento, desde que a prestação ainda seja possível. No que respeita à
acção de execução específica (artigo 830.º do Código Civil), deve entender-se que ela
poderá ser utilizada caso estejam preenchidos os pressupostos básicos para a sua
aplicação:

(i) A validade do acordo parassocial e


(ii) A conformidade com os requisitos do artigo 830.º do Código Civil.

Por exemplo, o recurso à execução específica deverá ser admitido nas relações
entre sócios que subscrevam um acordo parassocial que consubstancie um
contrato-promessa de transmissão de participações sociais. Os casos mais
complexos de aplicação do mecanismo da execução específica
correspondem aos acordos de voto. Parece inequívoco que à luz do disposto
no artigo 19.º, n.º 1 da Lei das Sociedades Comerciais, sendo os votos
emitidos na assembleia geral (em desconformidade com o acordo
parassocial), estes tornam-se inimpugnáveis, restando apenas às restantes partes
no acordo parassocial uma tutela indemnizatória – não sendo viável, pelas
razões apontadas, o recurso ao mecanismo de execução específica.

Mas o recurso à execução específica poderá, em nosso entender, admitir-se em casos


de deliberações sociais futuras (o que inclui a renovação de deliberações quando os
efeitos das deliberações anteriores ainda possam ser alterados), quando se verifique uma
declaração antecipada de não cumprimento. Este entendimento não é, contudo,
pacífico, para quem cuide que o direito de voto, atendendo à sua natureza, não
poderá ser exercido através de uma sentença, sendo indissociável da pessoa do seu
titular. É de admitir igualmente a possibilidade de recurso a providência cautelar,
seguindo o regime plasmado no artigo 399.º do Código de Processo Civil, nas
situações elencadas supra, para prevenir o incumprimento do acordo relativo ao
direito de voto.

Mais discutível se afigura a possibilidade de incluir no contrato de sociedade uma


cláusula na qual se preveja que o sócio que violar as disposições de um acordo
parassocial que tenha subscrito pode ser excluído da sociedade, atenta a ineficácia
relativa dos acordos parassociais plasmada no artigo 19º, n.º 1 da Lei das Sociedades
Comerciais. Torna-se, por isso, prática corrente a inserção de pesadas cláusulas penais
nos acordos parassociais, na tentativa de, por um lado, dissuadir comportamentos
inadimplentes e, por outro lado, salvaguardar a posição da parte cumpridora em
caso de incumprimento, mediante a fixação prévia do quantum indemnizatório que
torna desnecessária a produção de prova quanto à extensão dos danos.

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