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Escravidão e Liberalismo em José Bonifácio: possibilidades de uma abordagem de

história intelectual
PINHEIRO, Marcos Sorrilha1.

José Bonifácio de Andrada e Silva (1763 – 1838) é uma das personagens mais
conhecidas da História Política brasileira. Figura presente em manuais escolares e nos
mais consagrados livros sobre a história nacional, teve este espaço de destaque
construído desde sua época e, também, por constantes reiterações à sua vida e obra.
Ainda no período do processo de independência do Brasil, Bonifácio foi reconhecido
como o principal artífice do certame independentista sendo chamado de “Benjamin
Franklin brasileiro”, “Pai da Pátria”, entre outros nomes. No entanto, a aura heroica não
foi a tônica das interpretações elaboradas sobre ele e, assim, foi colocada em constante
revisão ao longo dos dois últimos séculos, sendo ora defendido e ora atacado em suas
escolhas e posicionamentos políticos. Como bem observou Emília Viotti da Costa
(2007), nos séculos XIX e XX a historiografia produziu diversas versões de cunho
“andradinas” ou “anti-andradinas” sobre o paulista.
De qualquer maneira, independentemente das tomadas de posições, existe um
consenso quanto ao perfil liberal assumido pelo Andrada em sua interpretação a respeito
do Estado e do modelo político a ser erguido no Brasil independente. Tal prerrogativa
encontra respaldo na observância de sua obra. A defesa da monarquia constitucionalista
de matriz liberal, por exemplo, é algo que aparece em seus textos desde os tempos de
estadia no Velho Mundo. Da mesma maneira, a sua filiação aos ideais da ilustração
europeia dão fôlego a tal interpretação. A leitura de autores como Rousseau,
Montesquieu, Voltaire, Leibniz e Locke em sua juventude e a constante referência aos
mesmos no decorrer de sua trajetória influenciaram em características importantes de
seu pensamento, como: o apreço pela natureza e suas leis universais, a razão e a
liberdade (SOUSA, 1967).
A propósito, a defesa da liberdade é algo tão patente nos escritos de Bonifácio
que nos levou a questionar qual teria sido sua interpretação sobre a escravidão
brasileira. Em nossas primeiras sondagens ao pensamento do Andrada, interessava-nos
confrontar a sua imagem de “artífice” do Estado Brasileiro com seu posicionamento
liberal tentando entender: como foi possível, mesmo com sua defesa à liberdade, erguer-

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Marcos Sorrilha Pinheiro é Professor Assistente Doutor do Departamento de História da Universidade
Estadual Paulista (Unesp-Franca).

Anais do XXI Encontro Estadual de História –ANPUH-SP - Campinas, setembro, 2012.


se um país escravocrata? Na realidade, devemos esclarecer que o estudo do paulista se
insere em uma pesquisa mais ampla sobre o liberalismo nas Américas cuja problemática
central é investigar: porque os ideais liberais que incendiaram o discurso de
independência nas Américas não foi suficiente para inflamar a maciça libertação dos
escravos no novo mundo2?
Como se percebe, a pergunta, assim como a personagem, não é nova e parte, até
certo ponto, de alguns pressupostos ingênuos. Afinal: a) como já foi demonstrado, no
século XIX a relação entre ilustração e escravismo, liberalismo e trabalho compulsório
não gerava necessariamente uma lógica excludente entre si (Cf. DAVIS, 2001). b) Da
mesma forma, partiria de uma ótica sobrevalorizada do papel de Bonifácio na
construção do “Estado Brasileiro”. Como se sabe, as disputas políticas em torno do
“poder” extrapolaram em muito a influência do Andrada sobre D. Pedro I, fato
confirmado por seu exílio em novembro de 1823, pouco mais de um ano após a
independência. c) Por fim, fundamenta-se em uma interpretação equivocada de que no
Brasil pós-independência a escravidão não tenha sido alvo de duras críticas e objeto de
discussão por parte do poder Legislativo e de ações combativas oriundas do Executivo.
Na realidade, devemos lembrar que até 1835 tanto o cativeiro quanto o comércio de
escravos foram interpretados de maneira negativa pela Câmara dos Deputados
(PARRON, 2001, p. 23).
De certa forma, esta percepção a respeito da ausência da problemática da
escravidão nos ambientes decisórios da política nacional do século XIX pode ser vista
como um reflexo do próprio tratamento dado pela História Política ao tema. Como se
sabe, ao longo das últimas cinco décadas, a escravidão foi predominantemente
trabalhada pela historiografia brasileira em seus aspectos econômicos e, mais
recentemente, por um viés culturalista, levando em conta a análise do cotidiano da
escravidão e da vida nas senzalas. Longe de desmerecer tais estudos, entendemos,
porém, que tais análises levaram pouco em conta a participação do Estado no debate
sobre o escravismo e, por consequência, afastaram da esfera da política a ideia de
construção de um consenso em prol da escravidão bem como o seu combate. Assim, do
ponto de vista economicista a continuidade de um modelo produtivo baseado em
plantations dominadas pela mão de obra escrava aparece como algo natural e desejável

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Esta comunicação se constitui como resultado preliminar das pesquisas desenvolvidas em um projeto de
que analisa a relação entre liberalismo e escravidão no pensamento de Simón Bolívar, Thomas Jefferson e
José Bonifácio intitulado Os Grilhões Coloniais: escravismo colonial e o processo de independência das
Américas.

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aos membros das elites locais brasileiras e americanas, principais artífices das
independências. Da mesma forma, a resistência e o combate à escravidão foram
reduzidos a ações de grupos minoritários desarticulados do poder estatal ou a inciativas
individuais3.
Seguindo tais interpretações o que se encontraria no Brasil, principalmente nos
primeiros anos após a independência seria um descompasso entre o discurso liberal e a
expansão da defesa da escravidão. Neste sentido, a relação entre escravidão e
liberalismo acabaria por ser tratada como nada mais do que um artifício retórico de
perfil maquiavélico que justificava as ações independentistas, mas que, no plano interno
não se contrapunha as práticas escravistas. O que defendemos é que, na realidade, a
escravidão foi uma das temáticas principais no momento das independências e
movimentou discussões no cenário político nacional e internacional, tanto no
parlamento quanto junto à opinião pública. Da mesma forma, o seu combate gerou não
apenas discursos inflamados contra o tráfico negreiro e a venda de cativos no Brasil
como ações legislativas contra tais práticas. Porém, tanto no campo da política quanto
no cotidiano da sociedade, o discurso antiescravista foi derrotado e deu lugar a
construção de um consenso em torno da escravidão em nosso país. O que fica desta
interpretação é que não existiu, portanto, um descompasso entre ideias e ações. Como
bem interroga Tâmis Parron (2011, p. 33):

será que os súditos do Império brasileiro eram


esquizofrênicos e desorientados, dizendo isso e fazendo
aquilo, mirando para um lado e acertando o outro? Ou será
que eles eram tão materialistas e mesquinhos que se
entregavam apenas à necessidade de “braços”, prescindindo
de convicções íntimas e de um sistema valorativo
correspondente?

Na realidade, a defesa do tráfico e cativeiro no Brasil cresceu em ambientes


públicos de discussão e se fez vitoriosa ao lograr construir uma rede de alianças
políticas e sociais que conseguiu impor sua hegemonia. Longe de querermos desvendar
os caminhos para a consolidação de tal visão, o que nos interessa é demonstrar como a
defesa da liberdade ampla não foi algo apenas retórico, mas sim uma corrente concreta
de pensamento que se viu derrotada no embate político no Brasil nascente.

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Esta interpretação sobre a historiografia brasileira e os estudos sobre a escravidão é feita por Tâmis
Parron em seu livro A política da escravidão no império do Brasil (1826-1865) de 2011.

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É neste ponto que o estudo de José Bonifácio se faz pertinente. Ao contrário do
que poderia se supor, o Andrada não é um objeto para se demonstrar o descompasso
entre as ideias e as ações liberais no Brasil4. Ao contrário, apresenta-se como fonte para
traçarmos a existência de uma vertente combatente da escravidão em nosso país. Como
veremos a seguir, para o paulista, liberalismo, liberdade e escravidão nunca foram
temas contraditórios. Ao contrário, foram complementares. Em sua interpretação, a
escravidão aparece justamente como um entrave para o desenvolvimento de uma
sociedade pautada no trabalho livre, assalariado e formado por pequenas propriedades
privadas. Em outras palavras, a escravidão esta posta como tema relacionado a
implantação de um modelo social fundamentado em concepções liberais de Estado,
sociedade e propriedade privada.
As principais ideias de Bonifácio sobre a escravidão podem ser encontradas em
um projeto apresentado à Assembleia Constituinte de 1823 sob o título de:
Representação à Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil
sobre a Escravatura. Ainda que o assunto apareça em outros momentos de sua
trajetória, este texto acaba por apresenta-lo de maneira sistematizada. Para quem espera
encontrar argumentações evasivas e conservadoras sobre a instituição do tráfico e do
cativeiro em nosso país, bem como uma postura conciliadora com os interesses da
oligarquia nacional a reação será de grande surpresa. O documento encaminhado à
Assembleia é bastante enfático na defesa da extinção de tais instituições em solo
nacional. E tal posicionamento aparece ainda no prelúdio do projeto.
Uma das primeiras preocupações quanto a permanência da escravidão no
alvorecer do país está relacionado a um assunto extremamente caro ao paulista: a
unidade nacional. Conforme já apontado em outros estudos (PRADO JR, 1944; SILVA,
1999) e verificável em sua obra, Bonifácio temia que o Império português tivesse a
mesma sorte seguida pelo Império Espanhol: a fragmentação. Muitos caminhos
poderiam levar a esta temida realidade, entre eles, a escravidão. Conforme defendeu:

É tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com um


tráfico tão bárbaro e carniceiro; é tempo também que
vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da

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A temática da escravidão é ponto obrigatório em estudos dedicados a compilar, apresentar ou analisar a
obra política do Andrada. Da mesma maneira, a ideia de se trabalhar especificamente a escravidão em
Bonifácio não é nova. Ela aparece no livro de Ana Rosa Cloclet da Silva intitulado Construção da nação
e escravidão no pensamento de José Bonifácio 1783-1823 de 1999. No entanto, nossa abordagem procura
inseri-lo em um quadro problemático mais amplo (o Liberalismo no Novo Mundo) ao mesmo tempo em
que se propõe a fazê-lo segundo uma perspectiva de História Intelectual.

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escravidão entre nós, para que venhamos a formar em
poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca
seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes. É
da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade
física e civil; cuidemos pois desde já em combinar
sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em
amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo
homogêneo e compacto, que não se esfarele ao pequeno
toque de qualquer nova convulsão política (SILVA, 1998,
p. 48-49).

Por esta citação é possível perceber a clara preocupação com a unidade e o


temor da fragmentação que se dá em um momento de consolidação do processo de
independência. Se, por um lado, o fim do tráfico de escravos era uma boa estratégia para
garantir a unidade do Estado nascente, por outro lado seria o passo inicial para o
desenvolvimento de um modelo de sociedade desejada. Assim, a manutenção da
escravidão não contribuiria para o desenvolvimento econômico do Brasil nos moldes da
“eficiência moderna” (ROUANET, 1993) sendo, antes de mais nada, um negócio pouco
lucrativo tanto para o Estado quanto para o latifundiário. Em contrapartida, a sua
substituição geraria dividendos imediatos aos donos de escravos, com a valorização do
preço dos escravos remanescentes e, por outro lado, a alforria incentivaria a busca por
terras por parte dos novos livres, algo que acarretaria na valorização dos terrenos por
conta do aumento da procura. Seguindo seu raciocínio:

A lavoura do Brasil, feita por escravos boçais e


preguiçosos, não dá os lucros, com que homens
ignorantes e fantásticos se iludem. [...] Eu desejara, para
seu bem, que os possuidores de grande escravatura
conhecessem que a proibição do tráfico de carne humana
os fará mais ricos; porque seus escravos atuais virão a ter
então mais valor, e serão por interesse seu mais bem
tratados; os senhores promoverão então os casamentos, e
estes a população. Os forros aumentados, para ganharem
a vida, aforarão pequenas porções de terras descobertas
ou taperas, que hoje valem nada (SILVA, 1998, p. 58-
59).

Além de garantir a formação de uma mão de obra livre, a valorização monetária


de terras e o crescimento de pequenas propriedades, o fim da escravidão não poderia ser
visto como algo que atingisse um dos valores mais sagrados para os liberais daquele
momento: a propriedade privada. Argumenta:

Mas dirão talvez que se favorecerdes a liberdade dos


escravos será atacar a propriedade. Não vos iludais,
senhores, a propriedade foi sancionada para o bem de

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todos, e qual é o bem que tira o escravo de perder todos
os seus direitos naturais, e se tornar de pessoa a coisa, na
frase dos jurisconsultos? Não é pois o direito de
propriedade, que querem defender, é o direito da força,
pois que o homem, não podendo ser coisa, não pode ser
objeto de propriedade (SILVA, 1998, p. 60).

Assim, a ideia do escravo enquanto propriedade é dissociada da concepção dos


demais direitos a posse, uma vez que, enquanto homem, por natureza, teria o direito a
liberdade e, por ser livre, direito a propriedade. O fato do cativo ser visto como homem
e, por isso possuidor de direitos naturais, torna a escravidão ilegítima, porém não
interfere nos demais direitos a posse de coisas e bens privados. A propriedade é vista
como um bem disponível a todos os homens, da mesma forma que a liberdade. Tratam-
se de direitos que são indissociáveis na argumentação do Andrada.
Sinteticamente, o fim do tráfico e da escravidão fora defendido como um
benefício para o fortalecimento da unidade nacional, enriquecimento do Estado,
aumento do lucro dos proprietários, acréscimo populacional, expansão da mão de obra
livre e organização da produção em pequenas propriedades. E para executá-los,
Bonifácio propunha algumas medidas imediatas, as quais seguem: fim do comércio da
escravatura africana em quatro ou cinco anos; aumento do valor dos escravos varões
importados nesse período e redução do valor das escravas para incentivar o matrimônio;
facilitação do pagamento das alforrias; criação de Caixas de Piedades para financiar a
libertação de escravos; amparo aos forros idosos por parte dos senhores; e proibição e
punição aos maus tratos.
Existe, portanto uma lógica em cadeia que fundamenta a adoção de tais medidas.
Vejamos. De início a proibição do comércio de escravos, incentivando a vinda de
mulheres africanas em detrimento dos homens como forma de promover o casamento
entre escravos. O casamento deveria ser associado a adesão das políticas de apoio as
alforrias por parte dos senhores, ao mesmo tempo em que promoveria o aumento da
prole entre os forros. Tal fato dispensaria a necessidade de importação de mão de obra e
supriria a ausência do tráfico. O Estado participaria de tais ações promovendo eventos
públicos nos dias das alforrias, utilizando os recursos das Caixas de Piedade para a
compra da liberdade e exigindo/fiscalizando o cumprimento das leis de incentivo a
alforria, como o pagamento parcelado das mesmas e a liberação do escravo de suas
tarefas por um dia da semana mediante a liquidação de 1/6 de seu valor e assim
subsequentemente.

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Existe, portanto, uma opção racional para o discurso antiescravista associado a
defesa de um modelo de sociedade liberal e eficiente. Como observa Miriam Dolhnikoff
(IN SILVA, 1998, p. 30-31)

É importante notar que não foi prioritariamente o


humanismo que moveu José Bonifácio na sua perspectiva
reformista. Ao contrário, um de seus objetivos era o
benefício da própria elite, ao procurar garantir maior
desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo que se
preservava a ordem interna e se conferia ao país
competitividade no plano internacional, colocando-o em
harmonia com as novas diretrizes que imperavam nas
regiões consideradas mais avançadas.

Porém, ao mesmo tempo, a argumentação de Bonifácio contra a escravidão,


também está repleta de analogias à Bíblia e ao sentido da cristandade no mundo. Assim
como é possível encontrar outras de apego moralistas, como os maus costumes
propagados pelos escravos junto as demais camadas da população. Desta maneira, uma
explicação sobre o sentido de escravidão e seu combate em José Bonifácio não pode se
reduzir a um enquadramento da personagem a um modelo engessado de liberal ilustrado
ou como uma simples replicação dos clássicos da ilustração europeia. É preciso ter em
conta os ambientes intelectuais aos quais o Andrada frequentava, as correntes de
pensamento com as quais dialogava, os grupos sociais que pertencia ou combatia.
Por conta disso, para nos aproximarmos das interpretações sobre escravidão
feitas por José Bonifácio entendemos ser necessário lê-los para além da simples análise
discursiva. Como já dito, acreditamos que tais proposições estão intimamente
relacionadas a sua formação intelectual, seus ambientes de circulação intelectual e o
contexto histórico onde se inseriu. É justamente aqui que entra a possibilidade de uma
abordagem de História Intelectual.
Nas últimas décadas a História Intelectual ganhou maior espaço de produção e
almejou a autonomia perante a História das Ideias e a História dos Intelectuais,
propriamente dita. Assim, se transformou num interessante objeto de investigação que,
a sua maneira, pretende valorizar duas “versões da História”, a discursiva e a contextual.
Neste sentido,

visa dois polos de análise: de um lado, o conjunto de


funcionamento de uma sociedade intelectual [...], isto é, suas
práticas, seu modo de ser, suas regras de legitimação, suas
estratégias, seus habitus; e de outro lado, as características
de um momento histórico e conjuntural que impõe formas de

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percepção e de apreciação, ou seja, modalidades específicas
de pensar e agir de uma comunidade intelectual (SILVA,
2003, p. 16).

Assim, estabelece sua autonomia perante a História das Ideias a medida que,
diferentemente desta, não tem um interesse apenas no conjunto de pensamentos
sistematizados ou na apreensão dos grandes tratados filosóficos. Ao mesmo tempo em
que não se dedica somente a uma análise da conjuntura do campo intelectual aos moldes
de uma abordagem sociopolítica como faz a História dos Intelectuais. Neste sentido, o
texto é analisado em dupla perspectiva: em relação ao ambiente intelectual onde é
produzido, junto ao seu segmento de atividade cultural; e em relação aos outros
produtos culturais surgidos ao mesmo tempo em outros ramos de uma cultura (Cf.
SCHORSKE apud SILVA, 2003). Não se trata, portanto, de reduzir o intelectual ao
grupo de discussão em que se insere, mas coloca-lo em perspectiva a outros produtos
culturais e eventos históricos que poderiam impactar sobre esse mesmo grupo e nos
textos produzidos por ele. Assim, o “campo intelectual”, nos dizeres de Bourdieu, ou o
contextualismo de Skinner e Pocock são colocados em interlocução aos processos
históricos e a cultura política (Cf. BERSTEIN, 1998) de um contexto.
No caso específico de Bonifácio, tal metodologia exige que seus escritos sobre
escravidão sejam relacionados a uma série de esferas que tangenciavam sua vida, com
as quais dialogou e pelo qual elaborou a sua própria interpretação sobre a realidade e
sobre o tema. Não se trata de compreender que o pensamento deste intelectual é um
simples resultado determinista dos influxos de seu meio5. O seu “meio”, entendido por
nós enquanto ambiente intelectual e cultura política de seu contexto, fornece os
referenciais significativos que serão eleitos pelo intelectual para a formação de suas
proposições, podendo se apropriar de tais elementos, ressignificando-os e replicando-os,
ou negando-os de maneira dialética.
Assim, uma abordagem de História Intelectual sobre José Bonifácio deve levar
em conta algumas questões de ordem biográfica, como a sua longa estadia (de 1783 a
1819) e formação acadêmica/intelectual na Europa. Considerar a sua vinculação a
Academia das Ciências e Letras de Lisboa, principal centro do pensamento ilustrado
português, e a “geração de 1790”. Por fim, compreender o impacto de eventos como a

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Sabemos da discussão sobre intelectuais e sua definição. Por isso, entendemos que, para muitos autores,
o intelectual tal qual concebemos hoje somente surge após o episódio Dreyfuss. No entanto, aqui
trabalhamos com a denominação intelectual em referencia ao homem de cultura do século XIX que agia
na esfera pública e atuava junto a opinião pública, ainda que tal atuação o reduzisse a um pequeno grupo
de pessoas denominado por Ángel Rama (1985) de “cidade letrada” no caso latino-americano.

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Revolução Francesa, o vintismo, a Revolução Liberal do Porto e as independências no
continente americano. Além disso, no que diz respeito exclusivamente ao tema da
escravidão, não se pode deixar de considerar toda a discussão que se produziu a respeito
da existência da mesma, tanto nos ambientes acadêmicos e políticos, quanto nos
discursos de grupos cristãos, católicos e protestantes.
Ainda que de maneira bastante concisa, gostaríamos de tratar algumas dessas
preocupações mais detidamente. A maioria das obras que trabalharam o pensamento de
José Bonifácio não levou em consideração o seu longo tempo na Europa para a
formulação dos projetos de reforma para o Brasil, como o fim do tráfico de escravos
(Cf. SILVA, 1999). Em nossa opinião, isto é um equívoco. Ainda que claramente tais
propostas efetivamente dialogassem com grupos republicanos e conservadores no
Brasil, numa tentativa de convencer a elite rural dos ganhos econômicos e políticos com
o fim do comércio escravista, o seu período de formação intelectual na Europa foi
fundamental para a elaboração de tais proposições. A formação em Filosofia e Direito
pela Universidade de Coimbra no momento de implantação das reformas ilustradas em
Portugal ressoam claramente em seus escritos. Mais do que isso, seu pertencimento a
Academia das Ciências e Letras de Lisboa, possibilitaram ao autor dialogar com os
princípios modernos de Estado e Governo, além de aprofundar seus estudos sobre
mineralogia e a extração de recursos naturais.
Não obstante, mesmo que essas informações permitam sondar os ambientes
intelectuais frequentados pelo nosso autor, eles não garantiriam imediatamente a sua
adesão aos discursos contra a escravidão. Em Portugal, não era incomum encontrar
adeptos da ilustração que fossem a favor da manutenção da escravidão nas colônias
portuguesas. De certa forma, a permanência do sistema escravista era uma maneira de
realçar as diferenças entre “Portugal moderno” e as “colônias atrasadas”. Assim, por
exemplo, a condição de atraso e barbárie supostamente existentes no Brasil justificaria a
existência da escravidão em suas terras. Neste sentido, não é suficiente aproximá-lo
apenas ao pensamento ilustrado português, mas reconhecer qual grupo de ilustrados ele
pertencia. Tal observação nos leva ao conjunto de pensadores luso-brasileiros
conhecidos por “Geração de 1790”. Neste grupo ou vinculados a ele é possível
encontramos nomes como: Rodrigo de Sousa Coutinho, Domingos Antonio de Sousa
Coutinho, Manuel Ferreira da Câmara Bethencourt Sá, Francisco de Melo Franco, entre
outros.

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Sobre esta geração é preciso destacar sua forte proximidade com o pensamento e
a política inglesa. Rodrigo de Sousa Coutinho (Conde de Linhares), por exemplo, foi
presidente do “Partido Inglês”. Ao mesmo tempo, seu irmão, Dom Domingos (Conde e
Marques do Funchal) foi embaixador de Portugal em terras inglesas entre 1803 e 1814,
período que envolve a vinda da Corte portuguesa para o Brasil. A boa relação entre eles
e Bonifácio também pode ser constatada por meio da troca de correspondências entre os
mesmos. Esta informação é importante uma vez que levemos em conta a força do
discurso antiescravista na Inglaterra. Em 1807-1808 a Inglaterra aboliu o tráfico de
escravos em seu Império e, com isso, iniciou uma forte pressão para que outros países
tomassem o mesmo rumo forçando a assinatura de tratados. Porém, mais do que
motivações econômicas, o combate à escravidão na Inglaterra teve um amplo respaldo e
articulação de grupos de protestantes humanistas (LIBBY; PAIVA, 2005).
Levando isto em consideração, ficaria mais claro compreender o elogio aos
ingleses que abre o texto da Representação à Assembleia Geral escrita por Bonifácio
que afirma:
Quando verdadeiros cristãos e filantropos levantaram a
voz pela primeira em Inglaterra contra o tráfico de
escravos africanos, houve muita gente interesseira ou
preocupada, que gritou ser impossível ou impolítica
semelhante abolição, porque as colônias britânicas não
podiam escusar um tal comércio sem uma total
destruição: todavia passou o Bill, e não se arruinaram as
colônias. Hoje em dia Wilberforces e Buxton trovejam de
novo no Parlamento a favor da emancipação progressiva
dos escravos, agitam-se outra vez os inimigos da
humanidade como outrora; mas espero da justiça e a
generosidade do povo inglês, que se conseguirá a
emancipação, como já se conseguiu a abolição de tão
infame tráfico. E por que os brasileiros somente
continuarão a ser surdos aos gritos da razão, e da religião
cristã, e direi mais, da honra e brio nacional? (SILVA,
2005, 46-47).

Pela citação percebe-se que os elogios não são apenas direcionados aos ingleses
como, também, esses são ressaltados por suas qualidades cristãs. Não podemos nos
esquecer de que a defesa do fim da escravidão a partir do final do século XVIII foi algo
associado a alguns movimentos cristãos que trabalhavam com um paralelo entre o fim
da escravidão na Roma Antiga e o surgimento do cristianismo e a necessidade de se
estabelecer o fim do mesmo em sua época, tal qual uma tarefa cristã (Cf. FINLEY,
1991). Esta “mentalidade” não existiu antes disso. Ao contrário, durante a idade
moderna, o discurso religioso foi um dos grandes incentivadores e legitimadores da

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escravidão como, por exemplo, por meio da lenda de Cam (ver BLACKBURN, 2003).
A recorrência de Bonifácio ao uso concomitante da razão e dos princípios cristãos para
combater a escravidão é algo que somente se torna inteligível à luz das grandes
discussões e correntes de pensamento europeus sobre o assunto naquele momento.
É evidente que a aproximação à Inglaterra não se dá apenas na direção da
simpatia ao discurso abolicionista de religiosos britânicos. Como sabemos, existiu toda
uma pressão inglesa para a adesão do Brasil aos tratados de abolição do tráfico negreiro
por meio de seus embaixadores em terras brasileiras. Tal pressão sobre Bonifácio foi
ainda maior, principalmente no período em que o mesmo foi nomeado Ministro do
Império e Negócios Estrangeiros em 14 de setembro de 1822. Assim, não apenas uma
questão de simpatia, o tema da escravidão era algo motivado por estratégias políticas de
relações internacionais.
Temos aí um cenário difuso, repleto de intersecções entre ambientes intelectuais,
correntes de pensamento, eventos históricos e a cultura política de um contexto. É com
tais influências que José Bonifácio dialogou e se posicionou. Este posicionamento é
encontrado em seus escritos que somente tomam maior inteligibilidade quando
compreendidos enquanto um diálogo múltiplo. A aplicação dos métodos da História
Intelectual permite tal apreensão. É preciso aprofundar ainda mais em outros pontos que
tangenciam a vida do Andrada para compreender o significado da escravidão em seu
pensamento, por meio de um trabalho mais detido e mais amplo que leve em
consideração tais premissas, mas que não cabem nos limites impostos por esta
comunicação.

Referências Bibliográficas

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