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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
GJWH
Nº 70079907150 (Nº CNJ: 0355927-38.2018.8.21.7000)
2018/CÍVEL

AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROMESSA DE


COMPRA E VENDA. EXECUÇÃO DE TÍTULO
EXTRAJUDICIAL. PLURALIDADE DE
CREDORES. SOLIDARIEDADE ATIVA.
REFORMA DA DECISÃO.
A solidariedade consiste na relação jurídica
obrigacional na qual o credor (ou devedor) está
obrigado à prestação por inteiro, ou seja, há
unidade na obrigação a ser prestada, nos
termos do art. 264 do CCB.
Entretanto, conforme preceitua o art. 265 do
CCB, a solidariedade não se presume e, em se
tratando de solidariedade ativa, decorre
somente da vontade das partes.
No caso, há contrato de compra e venda, no
qual não há qualquer previsão acerca de
individualização dos valores a serem recebidos
pelos promitentes vendedores, o que
caracteriza a solidariedade dos credores em
face da unidade da prestação.
Cada um tem o direito de exigir do devedor o
cumprimento da prestação por inteiro (art. 267
do CC), assim como, se um dos credores
receber a prestação por inteiro, aos outros
assistirá o direito de exigir dele a parte que lhe
caiba (art. 261 do CC). Prosseguimento da
execução da totalidade da dívida. Doutrina e
Jurisprudência deste Tribunal.
AGRAVO DE INSTRUMENTO PROVIDO.
UNÂNIME.

AGRAVO DE INSTRUMENTO VIGÉSIMA CÂMARA CÍVEL

Nº 70079907150 (Nº CNJ: 0355927- COMARCA DE SÃO LUIZ GONZAGA


38.2018.8.21.7000)

CARINE IANOWICH AGRAVANTE

CRISTIAN IANOWICH AGRAVANTE

WILSON MORAES DE OLIVEIRA AGRAVADO

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ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Vigésima


Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em dar
provimento ao agravo de instrumento.

Custas na forma da lei.

Participaram do julgamento, além do signatário (Presidente),


os eminentes Senhores DES.ª WALDA MARIA MELO PIERRO E DES.
DILSO DOMINGOS PEREIRA.

Porto Alegre, 24 de abril de 2019.

DES. GLÊNIO JOSÉ WASSERSTEIN HEKMAN,


Relator.

R E L AT Ó R I O

DES. GLÊNIO JOSÉ WASSERSTEIN HEKMAN (RELATOR)

Trata-se de agravo de instrumento interposto por CARINE


IANOWICH e CRISTIAN IANOWICH contra decisão interlocutória que
expediu alvará em favor da parte exequente, nos autos da execução de
título extrajudicial movida em face de WILSON MORAES DE OLIVEIRA.

A decisão está assim redigida:

Vistos. Expeça-se alvará em favor da parte


exequente autorizando o levantamento dos
valores depositados, uma vez que se trata de
valor incontroverso. Retifique-se a autuação do
feito para constar no polo ativo Carina Ianowich
e Cristian Ianowich. Intime-se a parte
exequente para adequar os cálculos do valor
devido, uma vez que deverá ser excluída a cota
parte referente ao credor Antonio Ianowich
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Filho, uma vez que postulou sua exclusão do


feito. Por fim, intime-se o executado para que
efetue o pagamento do saldo devedor.
Diligências legais.

Em suas razões, alega que as partes firmaram contrato


particular de compra e venda de imóvel urbano com benfeitorias, pelo
preço equivalente a 3.000 sacas de soja, um terreno urbano de centro
com benfeitorias. Afirma que não procede a alegação apresentada pelo
executado de que teriam revogado a procuração pública em favor de
Lígia e os substabelecimento em favor de Carine, posto que nada foi
juntado aos autos do processo executivo comprovando a revogação.
Menciona, acerca da petição apresentada pelos coautores, que fora
outorgado por Antonio e Fabiula procuração pública em favor de Ligia
para a venda do imóvel de matrícula nº 19.557, onde, entre outros
poderes conferidos, encontra-se os poderes para representação perante
repartições públicas, outorga de escritura, transmissão de posse, passar
recibos, receber e dar quitações e praticar tudo mais necessário para o
bom desempenho do mandado. Sustenta que não há falar em ausência
de poderes ou ainda em fraude. Menciona que tanto Antonio quanto
Fabiula sempre tiveram conhecimento da existência da presente ação.
Assevera que não seria crível acreditar que, sendo os exequentes irmãos,
Antonio nunca teria buscado junto aos seus coautores informações
referentes ao imóvel do qual também era proprietário e do qual também
teria valores para receber. Aduz que, com base nos art. 260 a 267 do CC,
os agravantes podem exigir 100% da dívida, posto que, diante da
pluralidade de credores, qualquer um deles pode exigir por inteiro a
dívida do devedor. Colaciono jurisprudência. Requer a reforma da decisão,
a fim de manter no débito executado a cota parte atinente aos credores
solidários.

De acordo com as fls. 551-553, a concessão do efeito


suspensivo restou indeferido.

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Não foram apresentadas contrarrazões.

É o relatório.

VOTOS

DES. GLÊNIO JOSÉ WASSERSTEIN HEKMAN (RELATOR)

Eminentes colegas.

Conheço do agravo de instrumento, pois presentes seus


requisitos de admissibilidade recursal.

Os agravantes, juntamente com o Sr. Antonio Ianowich Filho,


eram proprietários de um terreno urbano de centro e benfeitorias,
tombado sob a matrícula nº 19557 no Registro de Imóveis de São Luiz
Gonzaga.

Consoante Contrato Particular de Compra e Venda, juntado


às fls. 07/09 dos autos originários, os então proprietários do terreno
alienaram o bem ao Sr. Wilson Morais de Oliveira, ora executado.

Assim, após o inadimplemento da obrigação, os agravantes


ingressaram com a presente ação de execução, a fim de executar os
valores que entendiam devidos pelo agravado.

Em razão da existência de três promitentes vendedores, o


Juízo a quo determinou que fosse realizada emenda à inicial, incluindo o
Sr. Antonio no polo ativo da demanda. Entretanto, este afirmou que não
possuía interesse em compor o polo ativo da lide, requerendo, portanto, a
sua exclusão, o que foi acolhido pelo Juízo de origem.

Ao excluir o terceiro credor da lide, o Magistrado a quo


determinou a exclusão da cota parte do Sr. Antonio do cálculo dos valores
devidos, razão pela qual os exequentes interpuseram o presente recurso.

Pois bem.

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O art. 260 do Código Civil1 prevê que, em havendo


pluralidade de credores, poderá, cada um, exigir a totalidade da dívida,
desobrigando os devedores em caso de pagamento a um dos credores.
Porém, para caracterizar a possibilidade de um dos credores cobrar a
dívida inteira, é impositivo realizar a análise quanto à solidariedade da
obrigação.

A solidariedade consiste na relação jurídica obrigacional na


qual o credor (ou devedor) está obrigado à prestação por inteiro, ou seja,
há unidade na prestação.

Assim enuncia o art. 264 do Código Civil:

Art. 264. Há solidariedade, quando na mesma


obrigação concorre mais de um credor, ou mais
de um devedor, cada um com direito, ou
obrigado, à dívida toda.

Sobre o tema, manifestaram-se os doutrinadores Nelson


Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery 2:

4. Princípio da unidade da prestação. A


solidariedade se dá quando há pluralidade de
credores (solidariedade ativa) ou pluralidade de
devedores (solidariedade passiva), ou, ainda,
pluralidade de credores e de devedores
(solidariedade mista), relativamente ao objeto
de uma obrigação. A característica marcante da
solidariedade, segundo o sistema brasileiro,
representado pela norma do CC 264, é a
unidade da prestação. Há pluralidade de
relações subjetivas, mas unidade objetiva da
prestação. A solidariedade passiva funciona
como uma garantia pessoal em favor do credor,
e a solidariedade ativa funciona como
1
Art. 260. Se a pluralidade for dos credores, poderá cada um destes exigir a
dívida inteira; mas o devedor ou devedores se desobrigarão, pagando:
I - a todos conjuntamente;
II - a um, dando este caução de ratificação dos outros credores.
2
JÚNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código Civil comentado
[livro eletrônico]. 2ª ed. em e-book baseada na 12ª ed. impressa. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2017.
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comodidade em favor do devedor para o


adimplemento de sua obrigação, na medida em
que qualquer credor pode pagar. Se o crédito
pode ser cobrado de qualquer dos devedores,
solidariamente e indivisivelmente engajados
perante o credor quanto ao adimplemento de
seu crédito, este estará particularmente
garantido (Savatier. Obligations, n. 146, p. 191).

Igualmente lecionaram os doutrinadores José Miguel Garcia


Medina e Fábio Caldas de Araújo3:

I. Obrigação solidária. Princípio da unidade


da prestação. Na solidariedade há
plurissubjetividade nos polos ativo ou passivo,
ou em ambos os polos, em que as partes se
vinculam quanto à totalidade da prestação. Na
solidariedade não se aplica de modo imediato o
beneficium divisionis, que é característica
peculiar das obrigações divisíveis, em que o
credor somente poderia exigir a cota-parte que
seria devida pelo codevedor. No regime de
solidariedade vigora o princípio da unidade da
prestação (Menezes Cordeiro, Tratado de Direito
Civil – Direito das Obrigações, t. II, p. 721), uma
vez que a pluralidade ativa e/ou passiva
importa no cumprimento de uma única
prestação, que poderá ser exigida por um
credor em relação a um único devedor. Por este
motivo, correta a afirmação de Carvalho de
Mendonça: “No fundo, quanto à exactio, não
existe na solidariedade sinão [sic] um credor e
um devedor” (Doutrina e Prática das
Obrigações, t. I, p. 273). Em outras palavras,
qualquer credor poderá exigir o cumprimento
de qualquer um dos devedores.

3
MEDINA, José Miguel Garcia; ARAÚJO, Fábio Caldas de. Código Civil comentado
[livro eletrônico]: com súmulas, julgados selecionados e enunciadas das jornadas
do CJF. 1ª ed, em e-book baseada na 1ª ed. impressa. São Paulo: Thomson
Reuters Brasil, 2018.
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Por sua vez, destaca-se que a solidariedade não se presume,


nos termos do art. 265 do CCB 4, sendo resultado da lei ou da vontade das
partes, razão pela qual deve ser demonstrado pela parte exequente. Em
especial, no caso de solidariedade ativa, a solidariedade não pode ser
determinada em lei, mas tão somente através de convenção realizada
pelas partes.

Assim expõem os doutrinadores Nelson Nery Junior e Rosa


Maria de Andrade Nery5:

2. Pluralidade de sujeitos. A regra geral das


obrigações com pluralidade de sujeitos é a de
que cada devedor só se obriga pela sua parte e
cada credor tem direito a uma parte na
prestação. A exceção a essa regra deve ser
prevista de forma expressa pela lei. Essa é a
razão pela qual a solidariedade não se presume.
A solidariedade é, portanto, excepcional e como
tal comporta interpretação restritiva, seja ativa,
passiva ou mista (Pezzella. L’obbligazione in
solido, n. 24, p. 34).

4. Solidariedade legal. Ainda que os


contratantes não tenham estabelecido a
solidariedade, quando manifestaram sua
vontade na formação do negócio jurídico, a
solidariedade pode ser determinada pela lei.
Quando há na lei indicação de caso de
solidariedade essa nomeação é hipótese de
solidariedade legal. Somente a solidariedade
passiva pode resultar da lei. A solidariedade
ativa institui-se apenas pela convenção das
partes ou por testamento (v., abaixo, coment.
CC 267).

No mesmo molde, segue a Jurisprudência desta Câmara:

4
Art. 265. A solidariedade não se presume; resulta da lei ou da vontade das
partes.
5
JÚNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código Civil comentado
[livro eletrônico]. 2ª ed. em e-book baseada na 12ª ed. impressa. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2017.
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AGRAVO DE INSTRUMENTO. DIREITO PRIVADO


NÃO ESPECIFICADO. IMPUGNAÇÃO AO
CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. NULIDADE NÃO
RECONHECIDA POR AUSÊNCIA DE PREJUÍZO.
SOLIDARIEDADE QUE NÃO SE PRESUME.
MANTIDA A DECISÃO AGRAVADA. Como sabido,
a declaração de nulidade, por força do princípio
da instrumentalidade das formas, depende de
demonstração do prejuízo sofrido, o que - a
toda evidência - não se constata na hipótese
dos autos. Caso concreto em que a afirmada
ausência de intimação em nome dos novos
procuradores constituídos pela agravante não
lhe causou prejuízo, eis que apresentadas
sucessivas manifestações nos autos. Por outro
lado, nos termos do art. 265 do Código
Civil, a solidariedade não se presume,
resultando da lei ou da vontade das
partes. Hipótese em que a simples existência
de litisconsórcio ativo não comprova a
solidariedade entre os ora agravados, a
justificar o equívoco no pagamento realizado
pela recorrente. Por tais razões, deve ser
mantida a decisão objeto do presente recurso.
Agravo de instrumento desprovido. Unânime.
(Agravo de Instrumento Nº 70076580596,
Vigésima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do
RS, Relator: Dilso Domingos Pereira, Julgado em
11/04/2018) (grifei)

In casu, constata-se que há Contrato Particular de Compra e


Venda de Imóvel Urbano e Benfeitorias (fls. 07/09 dos autos originários),
no qual constam como promitentes vendedores o Sr. Antonio Ianowich
Filho e sua esposa, Sra. Fabiula de Carla Pinto Machado Ianowich, bem
como os agravantes, Sr. Cristian Ianowich e Sra. Carine Ianowich.

Deste modo, há contrato pactuado pelas partes e, neste, não


há qualquer previsão acerca de individualização dos valores a serem
recebidos pelo promitente comprador, ora agravado, Sr. Wilson Morais
Oliveira, o que caracteriza a solidariedade dos credores em face da
unidade da prestação.

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Caracterizada a solidariedade entre os credores, cada um


tem o direito de exigir do devedor o cumprimento da prestação por
inteiro (art. 267 do CC), assim como, se um dos credores receber a
prestação por inteiro, aos outros assistirá o direito de exigir dele a parte
que lhe caiba (art. 261 do CC).

Cito os dispositivos legais invocados:

Art. 267. Cada um dos credores solidários tem


direito a exigir do devedor o cumprimento da
prestação por inteiro.

Art. 261. Se um só dos credores receber a


prestação por inteiro, a cada um dos outros
assistirá o direito de exigir dele em dinheiro a
parte que lhe caiba no total.

Colaciono doutrina6:

2. Conceito. A solidariedade ativa é a


modalidade de obrigação com pluralidade de
credores, em que cada um dos credores é
autorizado a exigir do devedor o cumprimento
por inteiro da prestação, ainda que esta seja
divisível. Porque há muitos inconvenientes dela
decorrentes, a prática da solidariedade ativa é
cada vez mais rara. O principal inconveniente é
o perigo de o credor que recebe a totalidade da
prestação, dela apropriar-se ou de dissipá-la,
em detrimento dos demais cocredores
solidários.
3. Formação. A solidariedade ativa, deriva da
convenção das partes ou de testamento, não
podendo ser instituída pela lei (Planiol-Ripert.
Traité2, t. VII, 2.ª parte, n. 1060, p. 415). No
mesmo sentido: Bevilaqua. CC, IV9, coment. 5
CC/1916 898, p. 38.

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Portanto, havendo pluralidade de credores, unicidade da


obrigação a ser prestada pelo devedor, bem como há ato de constituição
convencional da solidariedade (contrato de compra e venda), impõe-se a
reforma da decisão, posto que é direito de cada credor exigir a totalidade
da dívida.

Ante o exposto, dou provimento ao agravo de


instrumento, a fim de reformar a decisão, determinando o
prosseguimento da execução da totalidade do débito, com fulcro no art.
267 do Código Civil.

É como voto.

DES.ª WALDA MARIA MELO PIERRO - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. DILSO DOMINGOS PEREIRA - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. GLÊNIO JOSÉ WASSERSTEIN HEKMAN - Presidente - Agravo de


Instrumento nº 70079907150, Comarca de São Luiz Gonzaga: "DERAM
PROVIMENTO AO AGRAVO DE INSTRUMENTO. UNÂNIME."

Julgador(a) de 1º Grau:

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