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METODOLOGIA FILOSÓFICA
PAULO A. F. MOTTA

3 A CIÊNCIA NO SÉCULO XX

3.1 A “DES-TEOLOGIZAÇÃO” DA CIÊNCIA, INDETERMINAÇÃO E CAOS


PROBABILÍSTICO

Os fundadores do método científico moderno procuraram contrapor suas


idéias à visão de mundo predominante na Antiguidade e durante toda a Idade Média.
Nesses dois períodos, o conhecimento da natureza se baseava na compreensão da
interação harmônica de seus elementos. Assim, o sujeito que se propunha conhecer a
natureza, não procurava conquistá-la ou dominá-la tendo em vista o seu (dele)
benefício próprio – a realidade era vista como sendo algo intocável e divinizado.
Essa conquista e esse domínio da natureza passam a ser a nova perspectiva
da ciência a partir dos séculos XVI e XVII, quando alguns pensadores (Galileu,
Newton, Bacon, Descartes, dentre outros) lançam as bases do método científico (que
predominou até o início do século XX como paradigma da atividade científica) a partir
d retomada de alguns elementos do pensamento grego. Ou seja, a partir daquelas áreas
onde a civilização grega havia realizado os seus maiores progressos, a saber: na
matemática, na estatística e na astronomia.
Contudo, e principalmente em Descartes, o novo método científico - que
colocava a ordenação da realidade como sendo promovida pela razão - ainda se
deixava impregnar por uma entidade metafísica alheia ao objeto de estudo da ciência
(o mundo real, a extensão)1: a razão, consequentemente, e em última instância, era
validada por essa entidade supra-sensível, ou Deus.
Mesmo séculos depois, está noção ainda impregna o pensamento de Albert
Einstein, um dos maiores cientistas do séculos XX: ao afirmar que “Deus não joga

1 Ver nota 3.
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dados”, ainda pressupõe a existência de um ser supramundano. Porém, essa


pressuposição perde o seu significado sobretudo como o desenvolvimento da física
quântica, onde a natureza do conhecimento, o papel dos cientistas, a objetividade e o
determinismo da ciência tradicional (a que atende aos pressupostos da perspectiva
cartesiana) são profundamente questionados.
Por volta do início do século XX, uma parcela da comunidade científica se
apercebeu que, diferentemente da noção de conhecimento da realidade vigente até essa
época, não se pressupõe, mais a possibilidade de um conhecimento universal e perene,
mas sim que há apenas a alternativa de se conhecer parcelas da realidade. Ou seja,
descarta-se a possibilidade de um conhecimento absoluto da realidade, pelo fato de se
aperceber que a estrutura mesma do universo é dinâmica e instável. Isso se dá,
sobretudo, pela formulação do “princípio de incerteza” por Wener Heisenberg, no qual
é postulado que sempre que optamos em observar um aspecto da natureza, fatalmente
negligenciamos outro; o que significa dizer que, no caso específico da física quântica,
por exemplo, a impossibilidade de se conhecer simultaneamente a velocidade e a
posição de uma determinada partícula subatômica.
Desta forma, os cientistas se aperceberam também que, eventualmente,
teriam que renunciar a sua interpretação objetiva dos fenômenos da natureza, visto
que, em sua estrutura fundamental, a relação dos componentes dessa estrutura
fundamental se apresenta caracteristicamente dinâmica e indeterminada.
Consequentemente, os processos do mundo físico escapam a uma descrição precisa e
objetiva, sendo possível apenas formulá-la em termos de probabilidade.
Como se daria então o determinismo e a “materialidade” do mundo físico?
Ao reconhecerem que os processos de relação entre os componentes fundamentais da
matéria são eminentemente indeterminados e probabilísticos (caóticos), os cientistas
deram conta que a aparente solidez do objeto (da res extensa) está exatamente
fundamentada nesses processos indeterminados e probabilísticos que, não obstante, e
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em determinadas condições, emergem para o macro-mundo, delegando a ele


instabilidade e imprevisibilidade.
Em função da constatação desses fatos, o papel dos cientistas diante do
conhecimento da natureza passa a ser questionado (auto-questionado pelos próprios
cientistas), pelo fato de tanto a objetividade de seus processos de observação da
realidade e o próprio (aparente) determinismo do mundo se apresentam como não
possuidores de uma fundamentação teórico-prática: o mundo e os fenômenos da
natureza se apresentam caóticos e não objetivamente e deterministicamente
mensuráveis (apenas convencional e consensualmente mensuráveis), não pelo fatos de
sermos ineptos ou de não termos uma tecnologia eficiente, mas sim por ser a própria
realidade fundamentalmente impregnada de imprevisibilidade e indeterminismo, e
regida por leis estatísticas e probabilísticas. Em decorrência, uma das principais
conseqüências dessa percepções e constatações é que se postula a necessidade de
haver uma interação “natural” entre observador e objeto observado; ou, mais
exatamente, de se admitir que há, independentemente de nossa vontade consciente,
uma participação ativa da consciência do observador no seu “objeto” de estudo, e
consequentemente, fazendo com que os resultados da experiência estejam sujeitos,
mesmo que subliminarmente, impregnados pela subjetividade do próprio observador.

3.2 A REFUTABILIDADE EMPÍRICA DE KARL POPPER

3.2.1 Princípios gerais2


[Segundo a teoria da refutabilidade empírica] a ciência não é o processo de
confirmação por exemplos de leis da Natureza obtidas pela indução. E, neste caso,
talvez se trate de um processo de falseamento por exemplos de conjeturas sem base
lógica nos fatos até agora conhecidos. Tal teoria, a que [também] se dá o nome de
“falibilismo”, foi desenvolvida nos tempos modernos por Sir Karl Popper.

2 Extraído de HARRÉ, R. Formas de raciocínio científico. In : As filosofias da ciência.


Lisboa: Edições 70, 1988, p. 64-66; e POPPER, K. Cojectura e refutabilidade. In: A lógica da

investigação científica; Três concepções acerca do conhecimento humano; A sociedade aberta e

seus inimigos. . São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Os Pensadores), p. VI-VII.
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...Segundo Popper, a ciência tem a sua origem num nevoeiro de conjecturas


acerca do modo como as coisas se passam. Este corpo de hipóteses é progressivamente
desbastado por meio do trabalho experimental, cujos resultados falseiam determinados
componentes.
Em conformidade com tal parecer, o progresso da anatomia, [por exemplo],
deverá estender-se não como o desenvolvimento de idéias corretas dos órgãos e das
estruturas dos organismos, conseguido por meio de dissecação e de observação, mas
sim como o falseamento de conjecturas incorretas quanto àquilo que existe por
debaixo da pele.
[Segundo Popper], o que distingue teorias científicas de pseudo-científicas
não é a verificabilidade empírica e sim a refutabilidade empírica (grifo do autor). O
que define a racionalidade científica não é o momento da obtenção das teorias, nem
tampouco o de sua verificação, que é impossível, mas o de sua crítica (grifo do autor).
[Consequentemente], uma teoria deve ser reconhecida como científica na medida
em que for possível deduzir dela proposições observacionais singulares, cuja
falsidade seria pois prova conclusiva da falsidade da teoria. Por outro lado, se uma
teoria não prevê meios para uma possível refutação empírica, se não há experiência
capaz de refutá-la, deve ser reconhecida como um mito (grifo do autor), explicação
pseudo-científica do real. A atitude científica diante de uma hipótese não consiste,
pois, em procurar casos particulares que a confirmem, mas procurar casos que, se
ocorressem, falsificariam a hipótese. A racionalidade da adoção provisória (grifo do
autor) de uma teoria ou de sua rejeição deriva, portanto, da objetividade dos processos
dedutivos (grifo do autor), que orientam o discernimento das possíveis experiências
refutadoras. Popper conclui então pela total irrelevância das tentativas de elaborar
uma lógica indutiva como método de decisão em ciência provisória (grifo nosso).

3.2.2 O conceito de ciência em Karl Popper3

3 Extraído de ASSIS, J. P. Filósofo Popper morre de cancêr aos 92 anos. Folha de São
Paulo, São Paulo, 18 set. 1994. Mundo, p. (3)-8.
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No início de sua carreira, nos anos 1930, [Karl Popper] foi o mais rigoroso
crítico dos filósofos do chamado “Círculo de Viena”, cujo programa visava a encontrar
uma base sólida para fundar as ciências naturais. (...) Os filósofos do Círculo de Viena
tentavam encontrar uma base para as ciências naturais partindo da idéia de
corroboração. O plano consistia em tornar rigorosa uma suposição do senso comum: a
de que, quanto mais casos particulares confirmam uma teoria, mais chance ela tem de
ser verdadeira (por exemplo, quanto mais cisnes brancos encontramos, mais próxima
da verdade estaria a teoria que afirmasse que todos os cisnes são brancos).
Bom para o senso comum, mas mau para a filosofia, como Popper se
encarregou de mostrar. Uma vez que as teorias científicas lidam com conjuntos
infinitos de objetos (a teoria dos cisnes deve valer para todos os infinitos cisnes que
tenham existido, existam ou venham a existir sobre o planeta), por mais que achem
casos “bons”, a probabilidade de que a teoria seja verdadeira continua virtualmente
nula.
Dessa forma, Popper propôs um novo critério para demarcar afirmações
científicas. Embora seja impossível provar que uma teoria seja verdadeira, sempre é
possível provar que ela é falsa. No exemplo acima, bastaria encontrar um cisnezinho
que não fosse branco, para que a teoria afundasse. Assim, o projeto popperiano de
separar ciência de não-ciência funda-se na idéia de que asserções científicas não
podem ser jamais provadas.
Dessa reflexão resulta toda sua filosofia. As teorias científicas não são
sugeridas pelos fatos. São produtos da livre imaginação humana (grifo nosso).
Depois de formuladas, devem passar por testes que visem a refutá-las. O sucesso em
testes sucessivos marca a qualidade da teoria, o que não quer dizer que ela seja
verdadeira, mas apenas melhor que suas concorrentes. Enfim, [teorias científicas são
constituídas por] “conjecturas e refutações”, par de conceitos que deu nome a um de
seus livros, publicado em 1963, [e que se tornou uma das obras fundamentais da
epistemologia do século XX].
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3.3 O CONCEITO DE “PARADIGMA CIENTÍFICO” DE THOMAS S. KUHN 4


Thomas S. Kuhn montou [a sua obra] A estrutura das revoluções científicas
articulando alguns conceitos básicos, alguns deles inéditos no contexto da
epistemologia, como “ciência normal”, “ciência extraordinária”; outros foram
reaproveitados, mas com função específica na articulação como os primeiros, para a
constituição de suas Revoluções, como é o caso dos conceitos de “crise”, “anomalias”,
“paradigmas” etc.
Se (...) quiséssemos resumir telegraficamente as Estruturas... de Kuhn,
diríamos que os seus traços principais concernentes às fases da evolução do
empreendimento científico são:
(a) Uma fase denominada “ciência normal”, homogênea, onde
o crescimento do saber científico é cumulativo. Nesta fase, as práticas
teóricas e experimentais são regidas pelas regras ou princípios do
paradigma vigente. As leis ou teorias estabelecidas não podem
contradizer estes princípios ou regras...
(b) Ao termo de um certo período de exploração intensa das
possibilidades e aberturas proporcionadas pelas teorias e práticas
experimentais delimitadas pelos princípios, regras e constrições do
paradigma vigente, surgem as chamadas “anomalias” (resultados
experimentais não assimilados pela teoria) que, segundo Kuhn, “são
produzidas inadvertidamente por um jogo realizado segundo um conjunto
de regras, cuja assimilação, porém, requer a elaboração de um novo
conjunto... A prática intensa da ciência normal conduz à exploração

4 Extraído de OLIVA, A. Thomas S. Kuhn : a cientificidade entendida como vigência de


um pardigma. In : OLIVA, A. (org). Epistemologia : a cientificidade em questão. Campinas : Papirus,

1990, p. 103-127.
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detalhada das possibilidades abertas pelas teorias e práticas experimentais


abrigadas e delimitadas pelos parâmetros do respectivo paradigma. E,
graças a esta atividade cerrada que, diz Kuhn, “a ciência normal - um
empreendimento não dirigido para novidades - pode, não obstante, ser tão
eficaz para provocá-las.”
(c) A fase de prática intensiva e homogênea da ciência normal
sob a égide de um paradigma é sucedida por outra, onde cresce o número
de anomalias não absorvidas pela ciência normal que, por sua vez, geram
a crise. Esta é resolvida pela mudança de paradigma: a revolução
científica.

3.4 JÜRGEN HABERMAS E A “TEORIA CONSENSUAL DA VERDADE”: “A


QUESTÃO DA CIENTIFICIDADE”5
A questão da cientificidade numa teoria consensualista corresponde a indagar
acerca dos critérios utilizados efetivamente, na prática cotidiana da pesquisa, pelos
participantes da comunidade científica para aceitar, como cogentes (ou seja, como
racionalmente necessários) argumentos substanciais produzidos acerca de questões
pertinentes a determinado setor do conhecimento supostamente incluído no âmbito de
alguma ciência específica, de tal sorte que o consenso formado em conseqüência dessa
argumentação se aproxime, tanto quanto se possa conceber, do consenso verdadeiro.
Isto significa que o exame da questão da cientificidade passa pela questão de:
(a) uma ética da investigação científica (grifo do autor) - os
participantes da comunidade científica são sujeitos imputáveis 6 cuja boa

5 Extraído de ROCHA, A. L. Cientificidade e consenso : esboço de uma epistemologia a


partir da teoria consensual da verdade de Jürgen Habermas. In : OLIVA, A. (org). Epistemologia : a

cientificidade em questão. Campinas : Papirus, 1990, p. 207.

6 Conforme BARROSO,1999: Imputar [Do lat. imp. imputare.] V. t. d. e i. 1. Atribuir (a


alguém) a responsabilidade de; assacar: Imputam-lhe a morte do amigo; "a maior calúnia que se pode
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fé se presume; seu compromisso precisa ser com os interesses


universalizáveis, o que se traduziu, de um modo singelo, pelo ideal de
ciência neutra e
(b) uma metodologia da investigação científica (grifo do autor)
- a cogência de determinados argumentos deriva do modo pelo qual se
tenha produzido seu conteúdo informativo.
Estas duas ordens de considerações não estão desvinculadas uma da outra. A
escolha de métodos e processos de produzir informação envolve decisões que podem
ter significado ético também no sentido específico [de] uma ética da investigação
científica. Muitos consideram que uma ortodoxia metodológica seria a garantia
principal, se não a única, de uma investigação inatacável.

3.5 INTERDISCIPLINARIDADE
3.5.1 O que a interdisciplinaridade não é7
Em primeiro lugar, a interdisciplinaridade não é uma moda, pois corresponde
a uma nova etapa do desenvolvimento do conhecimento e de sua repartição
epistemológica. Em segundo lugar, não pode ser considerada uma panacéia, porque a
ciência pode adotar outros caminhos, utilizar outros métodos e empregar outros
procedimentos. Não se trata também de uma simples questão de instaurar novos
programas educativos. Por outro lado, não se confunde com a pluridisciplinaridade.
Esta se apresenta como uma prática de ensino, ao passo que a interdisciplinaridade
reivindica as características de uma categoria científica, dizendo respeito à
pesquisa (grifo nosso). Nesse sentido, corresponde a um nível teórico de

assacar a um Ente Perfeito é imputar-lhe a criação do homem." (Camilo Castelo Branco, Perfil do

Marquês de Pombal, p. 49).

7 Extraído de JAPIASSU, H. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro:


Imago, 1976, p. 51-
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constituição das ciências e a um momento fundamental de sua história (grifo


nosso).
...O que importa [na interdisciplinaridade] é constatar todo um esforço
por aproximar, comparar, relacionar e integrar (grifo nosso).. [Tais características
indicam que] não podemos ignorar que a interdisciplinaridade também é um método
que se elabora para responder a uma série de demandas:
(a) Há uma demanda ligada ao desenvolvimento da ciência: a
interdisciplinaridade vem responder à necessidade de criar um
fundamento ao surgimento de novas disciplinas;
(b) Há uma demanda ligada às reivindicações estudantis contra
um saber fragmentado, artificialmente cortado, pois a realidade é
necessariamente global e multidimensional...
(c) Há uma demanda [de ordem profissional]: a
interdisciplinaridade responde à necessidade de formar profissionais que
não sejam especialistas de um só especialidade;
(d) Há uma demanda social crescente fazendo com que as
universidades proponham novos temas de estudo que, por definição, não
podem ser encerrados nos estreitos compartimentos das disciplinas
existentes.
[Quais seriam então os principais objetivos de uma metodologia científica
fundamentada na interdisciplinaridade? Destacam-se os seguintes tópicos referentes
aos objetivos metodológicos interdisciplinares]:
- Despertar entre os estudantes e os professores um interesse
pessoal pela aplicação de sua própria disciplina à outra;
- Estabelecer um vínculo sempre mais estreito entre [os
conteúdos das disciplinas estudadas];
- Abolir o trabalho maçante e por vezes “bitolante” que
constitui a especialização em determinada disciplina;
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- Reorganizar o saber; estabelecer comunicações entre os


especialistas;
- Criar disciplinas e domínios novos de conhecimento, mais
bem adaptados à realidade social;
- Aperfeiçoar e reciclar os professores, reorientando-os, de
sua formação especializada, a um estudo que vise à solução de
problemas.
- Reconhecer o caráter comum de certos problemas
estruturais etc.

...[Em decorrência de tais objetivos] a interdisciplinaridade aparece como o


instrumento e a expressão de uma crítica interna do saber, como um meio de superar o
isolacionismo das disciplinas, como uma maneira de abandonar a pseudo-ideologia da
independência de cada disciplina relativamente aos outros domínios da atividade
humana e aos diversos setores do próprio saber; como uma modalidade inovadora de
adequar as atividades de ensino e de pesquisa às necessidades sócio-profissionais, bem
como de superar o fosso que ainda separa a universidade da sociedade.
...[Há, por exemplo, nas ciências humanas], um estado de desmembramento
bastante aberrante. Várias famílias epistemológicas partilham entre si as disciplinas.
Elas se separam uma das outras por compartimentos estanques, por fronteiras rígidas,
cada disciplina convertendo-se num pequeno feudo intelectual, cujo proprietário está
vigilante contra toda intromissão em seu terreno cercado e metodologicamente
protegido contra os “inimigos” de fora. E não somente entre as disciplinas, mas até
mesmo no interior dos domínios de estudo, existem cisões metodológicas rígidas, que
freqüentemente tornam impossível a compreensão recíproca dos especialistas e sua
eventual colaboração: [a interdisciplinaridade] surge como uma proposta
paradigmática de caráter metodológico, propondo uma aproximação entre as
várias disciplinas e os campos de saber (grifo nosso). Tal proposta não implica que o
estudioso de determinada área deve ser um “sabe tudo” ou, em outras palavras, ser um
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“multi-especialista”, mas sim compreender que sua área de saber poderá ser
enriquecida ao se aproximar de outras disciplinas; e estar disponível para a troca de
experiências e vivências de seus colegas pesquisadores. Enfim, a interdisciplinaridade
não implica em um “vale-tudo” epistemológico, mas sim na percepção de que apenas
haverá um conhecimento científico verdadeiramente amplo e abrangente se houver a
aproximação das “especialidades científicas” próprias de cada área.

3.6 CONTRA O MÉTODO: O ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO DE PAUL

FEYERABEND8

A obra de Paul Feyerabend mais conhecida - Contra o Método – [evidencia


uma epistemologia que tende a apresentar uma] inextricável associação da crítica às
metodologias até hoje propostas, [com] a crítica ao próprio processo científico de
produção de conhecimentos.
... Feyerabend é inegavelmente um discípulo de Popper que resolveu levar às
últimas conseqüências a critica popperiana assacada contra a tradição empirista
inaugurada por F. Bacon. E, lendo Feyerabend, em especial Contra o Método, contata-
se que a crítica que dirige ao justificacionismo (ou seja, “à identificação do
conhecimento com o conhecimento provado”) empirista é tão devastadora que o faz
sentir-se autorizado a desacreditar toda e qualquer metodologia (passada,
presente ou futura) (grifo nosso).
...O anarquismo epistemológico, [que tem em Feyerabend seu mais
extremado representante], configura uma tentativa de enfrentar o processo de
erosão das regulamentações metodológicas clássicas pela adoção do ponto de vista
de que regras são inúteis e castradoras quando se está no bojo de um processo
criativo (grifo nosso), no interior do qual pululam direções interpretativas cujas

8 Extraído de OLIVA, A. Anarquismo epistemológico : última etapa da crítica ao ideal


empirista de ciência?. In : OLIVA, A. (org). Epistemologia : a cientificidade em questão. Campinas :

Papirus, 1990, p. 131-168.


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diferenças expressivas não podem ser arbitradas a partir de um background [de uma
“base comum”) evidencial compartilhado(a).
[Nas palavras de Feyerabend]:

Existindo a ciência, a razão não pode reinar universalmente, nem a desrazão pode ver-se
excluída. Esse traço da ciência pede uma epistemologia anárquica. A compreensão de que o
debate entre ciência e mito se encerrou sem vitória para qualquer dos lados empresta maior
força ao anarquismo.9 Sem freqüente renúncia à razão não há progresso (...) Temos,
portanto, de concluir que, mesmo no campo da ciência, não se deve e não se pode permitir
que a razão seja exclusiva, devendo ela, freqüentes vezes, ser posta de lado ou eliminada
em prol de outras entidades.10

Para poder arrancar da ciência a superioridade explicativa que a tradição


epistemológica lhe vem outorgando o que é necessário? De um ponto de vista
metacientífico, envolve a recusa de formular um critério de cientificidade/demarcação
(dos critérios de cientificidade) capaz de, pela identificação dos traços definitivos da
racionalidade científica, estabelecer contraposição entre o que é e o que não é
conhecimento (empírico): “...Ciência e mito se superpõem sob muitos aspectos,
diferenças aparentemente perceptíveis são, com freqüência, fenômenos localizados
que, em outros pontos, se transformam em similaridades e que as discrepâncias
fundamentais resultam antes de propósitos diversos do que de métodos diferentes a
tentar alcançar um único e mesmo fim “racional”. 11 As semelhanças entre ciência e
mito são inegavelmente de espantar.”12
.

...Feyerabend alterna, em Contra o Método, momentos em que critica o


cientismo clássico com momentos em que acusa a epistemologia de se dedicar a um
objeto inexistente – o método científico:

“Contudo a ciência continua soberana. Reina soberana porque seus praticantes são

9 FEYERABEND, P. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979, p. 447.


10 Ibidem, p. 279.
11 Ibidem, p. 450.
12 Ibidem, p. 452.
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incapazes de compreender e não se dispõem a tolerar ideologias diferentes, porque têm
força para impor seus desejos. 13 (...) Combinando essa informação com a percepção de que
a ciência não dispõe de método especial (grifo nosso), chegamos à conclusão de que a
separação entre ciência e não-ciência não é apenas artificial, mas perniciosa para o avanço
do saber. Se desejamos compreender a natureza, se desejamos dominar a circunstância
física, devemos recorrer a todas as idéias, todos os métodos e não apenas a reduzido
número deles.

...No fundo o que faz a epistemologia feyerabendiana uma forma de


anarquismo é o fato de rechaçar [ilimitadamente] qualquer critério de
cientificidade/demarcação. Essa descrença na existência de uma racionalidade
tipicamente científica, geradora da indistinção igualitarista, se alicerça na rejeição de
teses e princípios acalentados por muito tempo como verdades inquestionáveis pela
tradição metodológica fundada por Bacon. Trata-se de rejeitar a formulação de um
critério de cientificidade/demarcação repelindo as bases de sustentação dos critérios
até hoje propostos, isto é, recusando
1. A legitimidade de toda e qualquer estipulação de regras
metodológicas.
2. A distinção entre linguagem teórica e linguagem
observacional, com a defesa da tese da interpenetração simbólica entre o
que é experiencial e o que interpretativo.
3. A distinção entre contexto da descoberta e contexto da
justificação, com a epistemologia passando a levar em conta fatores
tradicionalmente estudados pela sociologia da ciência e pela psicologia da
criação.
4. A tese do progresso cumulativo, isto é, do princípio da
comparabilidade entre o antes e o depois dos processos revolucionários
globais no âmbito de uma disciplina.

13 Ibidem, p. 453.
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[Complementarmente ao exposta acima], o ataque anarquista às regras


[metodológicas] pode ser assim desdobrado:

1. A história da ciência tem mostrado que os mais autênticos


progressos do conhecimento contrariam, de uma ou de outra maneira,
todas as metodologias até hoje propostas. Há contra-exemplos históricos
para todos os padrões normativos caracterizados, em sua unidade
funcional, como o método universal da ciência:

A diferença entre ciência e metodologia, que é fato óbvio da história, indica, portanto,
insuficiência da metodologia (grifos nossos) e, talvez, também das “leis da razão”. 14 A
idéia de conduzir os negócios da ciência com o auxílio de um método que encerre
princípios firmes, imutáveis e incondicionalmente obrigatórios vê-se diante de
considerável dificuldade quando posta em confronto com os resultados da pesquisa
histórica. Verificamos, fazendo um confronto, que não há uma só regra, embora plausível e
bem fundada na epistemologia, que deixe de ser violada em algum momento." 15

2. Descompasso entre o que propõem as metodologias e o que


fazem os cientistas:

Ora, há, naturalmente, perceptível diferença entre as regras de teste, nos termos em que são
“reconstruídas” por filósofos da ciência, e os procedimentos de que se valem os cientistas
na pesquisa efetivamente realizada. 16 (...) A enorme distância que existe entre várias
imagens de ciência e a “coisa mesma” (...) - a tentativa de reformar as ciências fazendo
com que se aproximem da imagem - está fadada a prejudicá-las e poderá talvez destruí-
las.17

3. Deficiências de fundamentação exibidas pelos mais


diferentes discursos metodológicos: “Casos específicos... falam contra a
validade universal de qualquer regra. Todas as metodologias têm
limitações e só a regra do “vale tudo” é capaz de manter-se.18

14 Ibidem, p. 278.
15 Ibidem, p. 29
16 Ibidem, p. 260.
17 Ibidem, p. 287.
18 Ibidem, p. 450
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4. As regras constituem, nos momentos decisivos, em


autênticos entraves à marcha do desenvolvimento do conhecimento. Em
outras palavras, atingem o efeito contrário daquele que se propunham:
servem de estorvo à conquista do conhecimento e ao seu progresso. Só a
violação das regras favorece a produção de novidades cognitivas.19

5. “Não há uma só regra que seja válida em todas as


circunstâncias, nem uma instância para a qual se possa apelar em todas as
situações.”20

6. Além disso, Feyerabend denuncia que a adoção de regras é


feita, em certas situações, à base de coerção extra-intelectual: “As regras
metodológicas podem ser, e usualmente são, impostas por ameaças,
intimidação, impostura.” (grifo nosso)21

...As diferenças entre Ciência, Arte e Filosofia são creditáveis aos seus
distintos projetos de interação interpretativa com a realidade, à obediência a propósitos
sócio-intelectuais distintos. Já não há lugar para a atribuição de superioridades
explicativas, fundamentadas num método especial, à ciência... No fundo, o ceticismo
metodológico não tem como ser dissociado do ceticismo substantivo: a descrença
quanto à possibilidade de fazermos nítidas diferenciações entre os conteúdos de
verdade e os de falsidade das teorias científicas se vincula à crença metacientífica na
impossibilidade de estabelecermos a separação entre regras profícuas e
regulamentações burocráticas cerceadoras da criatividade interpretativa.

19 Ibidem, p. 387.
20 Ibidem, p. 279.
21 Ibidem, p. 303.
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...[Enfim], para o anarquismo [feyerabendiano], a proposição de um


método científico equivaleria a impor a adoção de um conjunto de padrões
epistêmicos, pretensamente constituidores de uma forma privilegiada de
racionalidade, pela negação de outras possíveis vias.

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