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De volta ao front socialista

Obra-prima de Mészáros, discípulo de Lukács, retoma Marx e propõe o fim do


capital

Mauro Luis Iasi*

Paulo Denisar Fraga**

Certa vez, Marx declarou: "Eu não faço receitas para os botecos do futuro". Era
a consciência histórica de um pensador vigoroso, que não se propunha a desenhar
futurologias utópicas e frisou que o comunismo não era um lugar ideal para onde o
mundo deveria ir, mas o movimento real superador do estado de coisas atual, cujas
condições resultam dos "pressupostos atualmente existentes".

Mas estes "pressupostos" contemporâneos a Marx eram os de um modo de


produção que, se, por um lado, como ele disse com Engels, varria todas as fronteiras
pré-capitalistas do globo, por outro, ainda existia, em forma mais desenvolvida, somente
no "cantinho do mundo" da Europa. É o que lembra a primeira linha da "Introdução" do
livro Para além do capital: rumo a uma teoria da transição, de István Mészáros,
lançado no Brasil pelas editoras Boitempo e Unicamp.

Partindo dessa constatação, Mészáros, professor emérito da Universidade de


Sussex (Inglaterra) e autor de obras como Marx: a teoria da alienação (Zahar),
Filosofia, ideologia e ciência social e O poder da ideologia (Ensaio), atribui um triplo
sentido ao título de Para além do capital, esclarecimento que por si só já mostra a
magnitude do projeto teórico que atravessa as mais de mil páginas dessa obra. Primeiro:
tal como era o intento de Marx, ir além do capital em si, e não só além do capitalismo.
Segundo: ir além da versão publicada de O capital, de Marx, cujo projeto permaneceu
inacabado. Terceiro: ir além do projeto marxiano tal como ele poderia ser pensado nos
limites da ascensão inicial do capitalismo do século XIX, quando as formas atuais de
adaptação e controle universal do capital não eram suficientemente visíveis ao exame
teórico.

O centro da obra nutre-se de uma importante distinção entre capital e


capitalismo, considerando que aquele antecede este. O capital se articula num tripé
constituído entre capital, trabalho e Estado e consiste num processo metabólico de
controle de todas as esferas da sociabilidade humana. Para Mészáros, o capitalismo
pode ser derrubado por um ato político, mas não a lógica que preside o capital, nem o
Estado, nem a divisão hierárquica do trabalho, cujas vigências podem repor o
capitalismo. A esta incompreensão reputa a questão fundamental do malogro das
sociedades pós-capitalistas (como denomina as sociedades que passaram por
experiências socialistas no século XX) que, segundo ele, superaram a forma da
dominação política capitalista, assim como formas de propriedade, mas não a regência
do controle sociometabólico do capital.
O tríplice complexo constituinte da noção de capital, para Mészáros, articula,
também, um novo conceito de Estado como parte estrutural do próprio sistema de
reprodução do capital, superando, assim, a compreensão dicotômica entre capital e
Estado como elemento superestrutural da sociedade burguesa. Por conta disso,
Mészáros ironiza os ideólogos da redução da presença do Estado na economia e afirma
que o complexo orgânico do funcionamento do capital não sobrevive sem a intervenção
permanente do Estado. Portanto, como escreveu Ricardo Antunes, "a crítica radical ao
Estado ganha sentido somente se a ação tiver como centro a destruição do sistema de
sociometabolismo do capital".

Crítico implacável do evolucionismo dos defensores do "socialismo aos


pouquinhos", da incoerência dos que pregam que "não existe alternativa" mas falam em
"arte do possível" na política, e do saudosismo da esquerda social-democrata em relação
ao "canto da sereia" do Estado de bem-estar, para Mészáros o capital vive uma crise de
natureza estrutural. Neste sentido, a urgência do que ele chama de "atualidade histórica
da ofensiva socialista" deriva da incontrolabilidade da produção destrutiva do capital,
cuja necessidade de enfrentamento e superação é um desafio que diz respeito à própria
sobrevivência física da humanidade. Razão pela qual Mészáros inclui, articuladamente a
isso, como tema programático decisivo aos socialistas, a questão ambiental.

Tanto a questão ambiental como a luta das mulheres por uma "igualdade
substantiva" seriam, segundo o autor, indicativos de que o sociometabolismo do capital,
em sua forma altamente desenvolvida, já se coloca em antagonismo à própria produção
social da vida, atualizando a afirmação marxiana sobre a contradição entre o
desenvolvimento das forças produtivas materiais e as relações sociais de produção,
através da afirmação sobre o atual caráter destrutivo do capital. Esta tese, já presente em
outras obras do autor, coloca exemplarmente os limites da incontrolabilidade do capital,
assim como agudiza contradições presentes desde a origem do próprio capital, tais como
a contradição entre o impulso à expansão, o caráter internacional do capital e as formas
nacionais do Estado.

Outro ponto a ser destacado é o paciente e competente trabalho de crítica da


crítica que, durante décadas, buscou atacar as premissas marxianas e desmerecer a
cientificidade das afirmações de Marx. Neste campo o autor dosa sua capacidade
intelectual com tons de ironia e humor, quando, por exemplo, lembra a tentativa de
relacionar as crises do capital com as manchas solares, como faz Jevons, ou às previsões
sobre o crescimento da população, como faz Malthus.

Dentre outros aspectos do pensamento estratégico de sua obra, Mészáros tem


fineza teórica suficiente para criticar a política estaliniana que transformou os sindicatos
em "correias de transmissão" do partido e, ao mesmo tempo, condenar a
despotencialização da ação política radical pela separação entre braço político (partidos)
e braço industrial (sindicatos) que, segundo ele, gerou uma autocensura defensiva na
consciência do movimento operário, situação na qual os partidos foram reconhecidos ao
preço de que as ações organizadas dos trabalhadores enquanto classe não tivessem fins
políticos. Para Mészáros, como o capital tem o seu centro em si mesmo, e não no
parlamento, é ilusória a esperança em qualquer reforma que possa alterar
substancialmente as condições sociais do trabalho pela via meramente institucional, sem
o concurso da intervenção de uma força extraparlamentar, apoiada em um amplo
movimento de massas.

Recolhidas de forma fragmentária, estas são algumas das tantas idéias-força que
o livro desenvolve, com impressionante riqueza conceitual e argumentativa, trazendo
uma fundamental contribuição para uma teoria da transição ao mesmo tempo renovada e
coerente com seus princípios emancipatórios.

Estilo arrojado, ironia, teses polêmicas, requinte e atrevimento teórico... são


algumas das qualidades potentes que recheiam as densas páginas de Para além do
capital, que a revista inglesa Radical Philosophy chamou de "a primeira condenação de
peso do capitalismo desde a queda do muro de Berlim", elogio que não deve elidir que
muitos dos textos presentes neste livro foram redigidos bem antes da queda da URSS e
do Leste Europeu, inteligindo razões que levaram à inevitável falência desses sistemas,
cujas contradições, como diz Mészáros, "estiveram visíveis por muitas décadas".

Para além do capital é, enfim, uma obra definitiva, forjada durante vinte anos
de pesquisa e luta teórica. Muito provavelmente, a obra mais original e importante do
pensamento marxista no último quartel do século XX. E um clássico indispensável para
o século XXI.

* Professor de Introdução ao Pensamento Social da UERGS, autor de O processo de


consciência, São Paulo, CPV, 2001.

** Professor do Departamento de Filosofia e Psicologia da Unijuí (RS), co-organizador


de Filosofia e ensino em debate, Ijuí, Unijuí, 2002.

Obras de Mészáros no Brasil

Livros

A necessidade do controle social. 2.ed. São Paulo: Ensaio, 1993.

A obra de Sartre: busca da liberdade. São Paulo: Ensaio, 1991.

Filosofia, ideologia e ciência social: ensaio de negação e afirmação. São Paulo: Ensaio,
1993.

Marx: a teoria da alienação. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

O poder da ideologia. São Paulo: Ensaio, 1996.

Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo/Campinas:


Boitempo/Unicamp, 2002.

Produção destrutiva e Estado capitalista. 2.ed. São Paulo: Ensaio, 1996.


Artigos e entrevistas

"A crise estrutural do capital". Outubro, São Paulo, n. 4, 2000.

"A ordem do capital no metabolismo social da reprodução". Ensaios Ad Hominem. São


Paulo, t. 1 - marxismo, 1999.

"Atualidade histórica da ofensiva socialista". Práxis, Belo Horizonte, n. 11, 1998.

"Democracia por subtração". Folha de São Paulo, São Paulo, 09.jun.2002. Mais!
Entrevista.

"Ir além do capital". In: COGGIOLA, O. (org.). Globalização e socialismo. São Paulo:
Xamã, 1997.

"Lucien Goldmann"; "György Lukács"; "Mediação"; "Negação"; "Jean-Paul Sartre";


"Totalidade". In: BOTTOMORE, T. (ed.). Dicionário do pensamento marxista. 4.ed.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

"Marx 'filósofo'". In: HOBSBAWM, E. J. História do marxismo. 2.ed. Rio de Janeiro:


Paz e Terra, 1983. v. 1: o marxismo no tempo de Marx.

"Marxismo-política-moralidade". Práxis, Belo Horizonte, n. 3, 1995.

"O marxismo hoje". Crítica Marxista, São Paulo, n. 2, 1995. Entrevista.

"Poder político e dissidência nas sociedades pós-revolucionárias". Ensaio, São Paulo, n.


14, 1985.

"Política radical e transição para o socialismo: reflexões sobre o centenário de Marx".


In: CHASIN, J. (org.). Marx hoje. 2.ed. São Paulo: Ensaio, 1988.

"Tempos de Lukács e nossos tempos: socialismo e liberdade". Ensaio, São Paulo, n. 13,
1984. Entrevista.