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UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS

FACULDADE DE DIREITO
CURSO DE DIREITO

O TRIBUNAL DO JURI E O PRINCÍPIO DA MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES

Manaus
2019
PRISCILA RIBEIRO

O TRIBUNAL DO JURI E O PRINCÍPIO DA MOTIVAÇÃO DAS DECISÕES

Projeto de Pesquisa apresentado à Faculdade de Direito,


da Universidade Federal do Amazonas como requisito de
nota em Metodologia do Estudo em Direito, disciplina
ministrada pela professora Dra. Caroline Barbosa
Contente Nogueira.

Orientador: Profa. Dra. Caroline Barbosa Contente Nogueira

Manaus
2019
SUMÁRIO

1 TEMA E DELIMITAÇÃO DO TEMA ............................................................................... 3


2 PROBLEMA DE PESQUISA............................................................................................... 3
3 HIPÓTESE ............................................................................................................................. 4
4 JUSTITIVATIVA .................................................................................................................. 4
5 OBJETIVOS .......................................................................................................................... 5
5.1 GERAL ................................................................................................................................ 5
5.2 ESPECÍFICOS ................................................................................................................... 5
6 METODOLOGIA .................................................................................................................. 6
7 REFERENCIAL TEÓRICO PRELIMINAR ..................................................................... 6
8 CRONOGRAMA ................................................................................................................... 6
9. REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 7
APÊNDICES ............................................................................................................................. 7
ANEXOS.................................................................................................................................... 7
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1 TEMA E DELIMITAÇÃO DO TEMA

TEMA: O Tribunal do Júri e o Princípio da motivação das decisões.

DELIMITAÇÃO DO TEMA: A motivação das decisões dos jurados que compõem o Conselho de
Sentença do Tribunal do Júri frente aos princípios constitucionais.

2 PROBLEMA DE PESQUISA

O Tribunal do Júri integra o Poder Judiciário e a Carta Constitucional estabelece em seu art.
5º, inciso XXXVIII, que este é uma manifestação democrática estabelecida no ordenamento jurídico,
sendo um Tribunal Popular disciplinado no Capítulo dos Direitos e Garantias Individuais da
Constituição, os princípios que norteiam a atuação do Tribunal do Júri nos julgamentos de crimes
dolosos contra a vida, sendo um procedimento diferenciado que julga crimes de relevância social.
Assim, os princípios basilares da atuação do Tribunal do Júri são: a plenitude de defesa, o
sigilo das votações e a soberania dos vereditos. Sendo, a finalidade do Tribunal do Júri a ampliação
do direito de defesa dos réus, sendo assim uma espécie de garantia individual dos acusados de prática
de crimes contra a vida, neste sentido ao invés da decisão ser proferida por magistrado, sejam julgados
por seus pares, por íntima convicção.
Por um prisma garantista, os jurados têm atuação como magistrados do fato e que a garantia
do processo objetiva a livre convicção, somada a convicção íntima. Todavia, alguns doutrinadores
afirmam que os jurados não possuem conhecimento jurídico e desconhecem direito penal, do direito
processual penal e do conjunto probatório do caso que irão julgar, nesse contexto, a decisão proferida
está passível de erro, imparcialidade e opiniões previamente consideradas.
O presente projeto tem por escopo os princípios e os aspectos afetos à configuração
constitucional do Júri. A Constituição estabelece a necessidade de fundamentação em todas as
decisões proferidas pelo judiciário. Assim, as decisões dos jurados que compõem o Conselho de
Sentença do Tribunal do Júri divergem quanto o princípio constitucional, sendo importante uma
análise a respeito da problemática das decisões proferidas sem fundamentação
No que tange a motivação das decisões judiciais esta é necessária para que o juiz exponha as
razões do seu convencimento, expondo os critérios racionais por meio dos quais um determinado juízo
tenha chegado a uma determinada decisão. Assim, é necessário para que as partes tenham ciência dos
critérios utilizados, possibilitando a ampla defesa e o contraditório para eventual impugnação e,
segurança jurídica. Salienta-se, entretanto, a importância do viés democrático do Tribunal do Júri.
Neste tocante, o legislador estabelece que os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão
públicos, e as decisões fundamentadas, sob pena de nulidade. Várias discussões acerca da falibilidade
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do Tribunal do Júri propõe a adequação do Código de Processo Penal à Constituição, para que haja
uma interpretação segundo a Constituição. O ponto principal das discussões está que o conselho de
sentença necessita da devida motivação, uma vez que envolve direito assegurado pela Constituição
Federal e por colocar em análise o preparo técnico-jurídico do Júri, vulnerável ao senso comum e as
opiniões públicas.
Todavia é de suma relevância respeitar a importância democrática do Júri, aperfeiçoando seus
institutos. Uma vez que representa uma garantia constitucional, estabelecido como cláusula pétrea no
capítulo dos direitos e garantias fundamentais da Carta Constitucional. Assim, o presente traz a
importância de análise dos aspectos formais-estruturais do mesmo.

3 HIPÓTESE

A existência de certos mecanismos conflita com o caráter soberano dos vereditos, estes são
capazes de modificarem as decisões dos jurados, assim, o Tribunal deve respeitar a plenitude das
decisões advindas do conselho de sentença, mesmo que sejam contrárias as provas produzidas nos
autos, caso contrário não configuraria efetividade. Analisando, a controvérsia no que tange as decisões
proferidas pelo Tribunal do Júri se estas estão consonância com os princípios estabelecidos pela
constituição.

4 JUSTITIVATIVA

É necessário demonstrar a relevância do tema de maneira ampla. Nesse sentido, destaca-se que
o tema possui importância considerando que, após identificadas as possíveis falhas do instituto, deve-
se trazer à lume a sua importância social e democrática, observando sua função historicamente
destinada.
Assim, levando em consideração o contexto histórico-social de seu surgimento, é vital que se
analise todo o Júri através de perspectivas principiológicas, jurídicas e sociais. A problematização
consiste na indagação: o indivíduo deve ser submetido a julgamento por seus pares, considerando a
soberania das decisões sem motivação fazendo um contraponto com os princípios constitucionais.
Posteriormente, se faz necessário uma análise mais específica, destacando a importância do
Tribunal do Júri, como Instituto garantista, ressaltando suas peculiaridades, bem como sua abordagem
pela doutrina. Nesse sentido, merece uma análise mais aprofundada devido às suas singularidades,
além da necessidade de consonância não só aos princípios constitucionais.
Ademais, para uma melhor exploração e estudo da experiência brasileira nesse sentido, faz-se
necessária a investigação e exposição do tema. Dessa forma, é possível inferir quais os possíveis
próximos passos que podem ser dados no sentido de aprimorar a aplicação da mediação envolvendo
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o direto público.
Portanto, apesar de a doutrina já ter, de certa forma, se debruçado sobre tal tema, é fundamental
aumentar a produção sobre a temática, devido aos efeitos positivos que a discussão tende a trazer. A
produção e o debate são necessários igualmente para embasar as próximas manifestações acadêmicas
e doutrinárias que levem à evolução da aplicação de tal instituto no Processo Penal. Assim, não restam
dúvidas, portanto, da pertinência e relevância do tema proposto.

5 OBJETIVOS

5.1 GERAL

Analisar se as decisões proferidas pelo Tribunal do Júri estão consonância com os princípios
estabelecidos pela carta constitucional de 1988

5.2 ESPECÍFICOS

Identificar qual a extensão da soberania dada aos vereditos do Tribunal do Júri?


Analisar se o princípio constitucional que institui a soberania das decisões outorga poderes
ilimitados e irrestritos nas decisões do Conselho de Sentença.

6 METODOLOGIA

Inicialmente, é fundamental esclarecer que o trabalho se baseia na pesquisa teórica e de casos


concretos, com consulta às mais diversas fontes das ciências humanas. Isso porque tal questão envolve
um trabalho de desenvolvimento legislativo, bem como análise doutrinária e da prática jurídica, em
diversos âmbitos do direito. A pesquisa será, portanto, transversal, consistindo em consulta à diversas
obras que abordem o tema. Não obstante isso, será dada especial atenção ao Direito Processual Penal,
Direito Penal e Constitucional devido à maior pertinência relativa à temática do presente trabalho
monográfico.
Em síntese, a metodologia utilizada para a confecção da pesquisa será de análise bibliográfica,
com pesquisa a livros, dissertações, teses, artigos e consulta de casos práticos, sobretudo doutrinas que
tragam o Tribunal do Júri em suas mais variadas acepções; documentos eletrônicos como artigos
jurídicos, entrevistas, revistas e sites; realização de pesquisa de campo por meio de entrevistas e
indagações a jurados constituintes do tribunal popular, cidadãos leigos e operadores do direito,
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realizada por amostras aleatórias; por fim, será abordada algumas discussões que envolvem o Júri
Popular, sem a ambição, porém, de exaurir a temática, mas sim de gerar reflexão sobre os interessados
na questão.

7 REFERENCIAL TEÓRICO PRELIMINAR

7.1 A origem do Tribunal do Júri

A instituição do Tribunal do Júri pode ser definida como um termômetro democrático da


sociedade. Mesmo se desenvolvendo sob o prisma de variadas perspectivas, faz-se presente em parte
significativa dos sistemas jurídicos da atualidade. De acordo com Bonfim (2006), isto ocorre, pois,
em virtude da sua ampla partição popular, é possível identificar a legitimação do sistema jurídico, de
forma a serem incorporados no sistema processual penal valores democráticos.
A legitimação do sistema se traduz na aceitação popular, de modo que o ideal de justiça a ser
alcançado através do julgamento em plenário se reveste da concepção do povo, isto é, reveste-se
daquilo que a comunidade entende como justo. O Estado Democrático de Direito se funda,
essencialmente, no princípio da soberania popular, a partir da qual todo poder emana do povo.
A partir deste prisma através do qual enxerga-se o Júri como um instrumento de controle do
poder estatal ao mesmo tempo em que se estabelece como uma ferramenta democrática, é
compreensível a sua posição constitucional como uma garantia fundamental a todo cidadão, tendo
sido assegurada pelo legislador constituinte de 1988. Nesse ínterim, pode-se afirmar que, mais do que
uma singela forma procedimental, o Tribunal Popular se fortaleceu, ao longo do tempo, como um
direito.
Diante de todas as peculiaridades que trouxe consigo ao longo do tempo, o Tribunal do Júri
tornou-se um instituto ligeiramente enigmático no Direito Processual Penal, sendo capaz de gerar
incontáveis controvérsias, acumulando, de um lado, vigorosos defensores e, de outro, fortes críticos.
Entretanto, em virtude do seu procedimento e características singulares, os quais foram atribuídos pela
Constituição Federal de 1988, poucos são aqueles que conseguem negar a relevância desta milenar
instituição no cenário do Ordenamento Jurídico brasileiro.
A instituição do Júri, colecionando intrínsecas características conceituais e estruturais, é
investigada através dos tempos. A origem do Tribunal do Júri é bastante discutida entre os
doutrinadores. Não se pode falar que é incerta, sendo mais correto apontá-la como controversa,
levando cada doutrinador a defender determinada civilização como a precursora do mesmo. A corrente
majoritária entende que o instituto teria se originado no Direito Inglês. Contudo, há quem entenda que
já existia no mundo outros tribunais com as suas características.
O Tribunal do Júri, tal qual é entendido atualmente, origina-se, de fato, na Magna Carta da
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Inglaterra, de 1215. Sabe-se, contudo, que o mundo já conhecia o Júri antes disso. Na Palestina, havia
o Tribunal dos Vinte e Três nas vilas em que a população fosse superior a 120 famílias. Tais cortes
conheciam e julgavam processos criminais relacionados a crimes puníveis com a pena de morte.
Os membros eram escolhidos dentre padres, levitas e principais chefes de famílias de Israel.
Em Roma, no período evolutivo do sistema acusatório do processo penal, foi instituída a quaestio –
“órgão colegiado constituído por cidadãos, representantes do populus romano (...)”. Algumas
características do julgamento perante a quaestio seriam próximas ao do que temos hoje no Brasil,
razão pela qual a origem do Tribunal do Júri pode ser considerada como sendo romana.
Assim, de acordo com Grazioli (2018) no decorrer de sua história, o Tribunal Popular se
desenvolveu como um instrumento legítimo de manifestação de justiça, no qual o povo exerce o poder
jurisdicional. A origem do instituto é direcionada por uma significativa imprecisão doutrinária, visto
que vagos e escassos são os registros, motivo pelo qual este assunto é amplamente discutido. Neste
sentido, em virtude de tal controvérsia, Carlos Maximilliano afirmou que “as origens do instituto, são
tão vagas e indefinidas, que se perdem na noite dos tempos” (MAXMILLIANO, Carlos apud NUCCI,
Guilherme de Souza).
Segundo Rocha (2002), é possível encontrar relatos antigos sobre o instituto do Júri Popular
através do livro do Pentateuco, fato que atesta a origem mosaica da instituição, a qual teria surgido
entre os judeus do Egito sob a orientação de Moisés. Além de prever os princípios fundamentais e o
peculiar rito processual, as leis mosaicas atribuíram a origem do Tribunal do Júri à concepção do
julgamento pelos pares, conforme o qual o ideal da justiça seria alcançado a partir do julgamento do
cidadão comum por outros cidadãos comuns.
No âmbito doutrinário, a perspectiva da origem grega do Tribunal do Júri é bem recebida pelos
estudiosos. Isto ocorre, pois, foi na Grécia, por volta do século V a.C., que se consolidaram as
participações populares nas questões relacionadas ao governo. Percebe-se, portanto, que a presença
do povo nos assuntos governamentais consistiu num desdobramento indispensável para o surgimento
da precedência para a instituição. Em sendo assim, a participação democrática nas matérias de ordem
pública fundamentou as bases do instituto do Tribunal Popular.
Todavia, segundo Tourinho Filho (2013) ainda aqueles que compreendem Roma como o berço
do Júri. Segundo o Tucci (1999), a nascente do instituto dá-se do período evolutivo da história do
processo penal romano, o que se caracteriza pelo sistema acusatório, consubstanciado nas
denominadas questiones perpetue, criada como órgão jurisdicional. Assim, apesar das divergências, o
Júri possui raízes remotas em institutos de distintas origens: os judices jurati, dos romanos, os dikastas
gregos e os centeni comitês, dos germanos (TUCCI 1999).
Neste sentido, segundo o mesmo autor supramencionado, em embargo aos antecedentes até
então expostos, o posicionamento majoritário da doutrina assenta a origem do Tribunal Popular na
Inglaterra. De acordo com este entendimento, a gênese do instituto remota ao período no qual o
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Concílio de Latrão aboliu os ordalias e os Juízos de Deus. As ordialias consistiam num tribunal no
qual o julgamento era devoto à Divindade. No decorrer do processo, os réus eram submetidos aos
Juízos de Deus, ou ordiálios, que através de duras provas, apontavam para o verdadeiro culpado do
delito.
Na contramão do que estava ocorrendo na Europa continental, onde emergia o processo
inquisitivo, surgiu na Inglaterra o instituto denominado “Jury”. O “Jury” foi adotado em substituição
aos ordalia, e consistia num pretérito costume normando, no qual homens bondosos da comunidade
eram reunidos para, sob juramento, julgar cidadãos acusados de cometer algum delito.
Com o advento da Revolução Francesa, o Júri se fez conhecer na França e, a partir daí,
propalou-se por quase todo o continente europeu, o qual estava sendo inundado com as percepções de
liberdade e democracia dos ideais iluministas, estabelecendo-se como um instrumento de refração do
absolutismo monárquico. Segundo James Tubenchlak:

Com efeito, tendo por berço a Inglaterra, depois que o Concílio de Latrão aboliu as
ordálias e os juízos de Deus, em 1215, espargiu-se o Júri, pelas mãos da Revolução
Francesa, por numerosos países, notadamente da Europa, simbolizando vigorosa
forma de reação ao absolutismo monárquico, vale dizer, um mecanismo político por
excelência, malgrado com supedâneos místicos e religiosos, ainda presentes na
fórmula do juramento do Júri inglês, onde há a expressa invocação de Deus.
(TUBENCHLAK, 1997).

Ainda que não tenha conservado as mesmas características ao longo do tempo, o Tribunal do
Júri sempre trouxe em seu âmago a participação democrática, de modo que punha diretamente nas
mãos da coletividade a competência para julgar os seus semelhantes pelos delitos perpetrados.
Conservando sua essência, hoje esta forma de julgamento se consolidou como uma garantia
constitucional ao cidadão – e por que não dizer como uma tradução do poder do povo? –, sendo
revestida por três princípios fundamentais, os quais sejam: a soberania dos veredictos, o sigilo das
votações e a plenitude da defesa.
O Júri em matéria criminal só se consolidou muito depois do júri civil, pois, inicialmente, os
jurados julgavam apenas as causas cíveis, surgindo depois a necessidade de submetê-los também às
matérias criminais, envolvendo, agora, a liberdade individual e, em alguns países, até a vida, pois a
pena de morte foi e é reconhecida em alguns países, retirando das mãos do soberano o poder de decidir,
sozinho, a vida dos seus súditos.
Segundo leciona Paulo Rangel (2015), não há dúvida do caráter democrático da instituição do
Tribunal do Júri que nasce, exatamente, das decisões emanadas do povo, retirando das mãos do
magistrado e comprometidos com o déspota o poder da decisão. Fato que, posteriormente, com a
formação do Tribunal do Júri no Brasil, feita por pessoas que gozassem do conceito público por serem
inteligentes, íntegras e de bons costumes (Constituição art. 27 e do Código Criminal do Império – Lei
29 de novembro de 1832), faz estabelecer um preconceito social e, embora disfarçada, uma luta entre
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classes.

7.2 Breve histórico do Tribunal do Júri no Brasil

No Brasil, segundo Ventura (1999), “a origem do Júri no Brasil data do decreto de 18 de junho
de 1822, anterior à nossa independência política, que determinava sua competência somente para os
crimes políticos”. Nessa época, o Júri era composto por 24 cidadãos “bons, honrados, inteligentes e
patriotas”,neste sentido de acordo com Nucci (2015) prontos a julgar os delitos de abuso da liberdade
de imprensa, sendo suas decisões passiveis de revisão somente pelo Príncipe Regente.
A Constituição Imperial de 1824 consagrou o Tribunal do Júri como ramo do Poder Judiciário
e definiu nova competência, tanto na esfera cível quanto na criminal. Em que pese a aludida previsão,
não se tem notícia de que alguma vez o Júri tenha atuado em matéria cível.
Assim, diferente da maioria das Constituições posteriores, a Constituição Imperial de 25 de
março de 1824 definiu o júri como um dos ramos do Poder Judiciário – e não como direito e garantia
do acusado. Ainda, a aludida Constituição estabeleceu que o poder judicial é independente e será
composto por juízes e jurados, os quais terão lugar, assim no cível como no crime, nos casos e pelo
modo que os códigos determinarem, e os jurados se pronunciam sobre o fato, e os juízes aplicam a lei.
Com a proclamação da República, manteve-se o Júri no Brasil, sendo criado, ainda, o Júri
Federal. Sob a influência da Constituição Americana, por ocasião da inclusão do Júri na Constituição
Republicana, transferiu-se a instituição para o contexto dos direitos e garantias individuais.
Neste sentido Nassif (2009) no que tange ao tema entre as garantias outorgadas a brasileiros e
estrangeiros residentes no país, a primeira Constituição Republicana (24 de fevereiro de 1891)
preservou o Tribunal Popular, ainda que com novo caráter jurídico-constitucional. (...) A instituição
resistiu à turbulência política que marcou o fim do século XIX e o primeiro terço do século XX.
De acordo com Nucci (2015) a Constituição de 1834 voltou a inserir o Tribunal do Júri no
capítulo referente ao Poder Judiciário, para, depois, ser totalmente retirado do texto constitucional em
1937, o que permitiu ao decreto nº. 167, de 5 de janeiro de 1938, suprimir esta soberania, permitindo
aos tribunais de apelação a reforma de seus julgamentos pelo mérito.
Nucci (2015) leciona que a Constituição democrática de 1946 restabeleceu a soberania do Júri,
prevendo-o entre os direitos e garantias constitucionais. Assim, a Constituição de 1946 ressuscitou o
Tribunal Popular no seu texto, reinserindo-o no capítulo dos direitos e garantias individuais “como se
fosse uma autêntica bandeira na luta contra o autoritarismo”
Percebe-se, portanto, segundo Capez (2006) com a Constituição de 1946, o retorno do instituto
como um direito previsto ao acusado. A Constituição de 24 de janeiro de 1967 também manteve o Júri
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no capítulo dos direitos e garantias individuais. A emenda constitucional nº 1, de 17 de outubro de


1969, manteve a instituição no mesmo capítulo, mas restrita ao julgamento dos crimes dolosos contra
a vida.
Redemocratizado o país, a Constituição Federal de 1988 não só manteve o Tribunal do Júri
entre os direitos e garantias fundamentais (art. 5º XXXVIII), como restabeleceu a soberania dos
veredictos e limitou-se a definir competência mínima de seus julgamentos. Assim, a Constituição
vigente manteve como preceito constitucional e exclusivo a relativa aos crimes dolosos contra a vida.
Para Nassif (2009), portanto, A atual carta é reflexo de amplo movimento popular e de intensa
movimentação política. É fruto de atitudes corajosas e da persistência de um povo inteiro, cansado de
arbitrariedade, em busca do resgate de sua integridade político-jurídica. Por isto mesmo que ela
convoca cidadãos para compor a amostragem da sociedade, e, soberanamente, julgar seus pares.
Em 1988, portanto, de acordo com a obra de Nucci (2015) visualiza-se o retorno da democracia
ao cenário brasileiro, novamente prevendo-se o Tribunal do Júri no capítulo referente aos direitos e
garantias individuais, trazendo de volta os princípios da Carta de 1946: soberania dos veredictos, sigilo
das votações e plenitude de defesa. A competência tornou-se mínima para os crimes dolosos contra a
vida.
Passou o Tribunal do Júri, portanto, no decorrer dos anos e com as diversas Constituições, por
diversas alterações. A última modificação se deu em 2008, com o advento da Lei 11.689/08, cujo
escopo foi modernizar o Tribunal Popular, conferindo-lhe celeridade, simplicidade e agilidade.
O fato de o Júri existir há muito tempo em nosso ordenamento jurídico não afasta a relevância
do estudo, sendo, pois, equivocado o entendimento de que, por se prestar ao uso a que se destina – o
julgamento com participação popular -, a instituição, em virtude do cumprimento de sua finalidade,
não estaria a merecer escrupulosa investigação.
Nesse sentido, para Aury Lopes Junior: Um dos graves problemas para a evolução de um
determinado campo do saber é o repouso dogmático. Quando não se estuda mais e não se questiona
as “verdades absolutas”. O Tribunal do Júri é um dos temas em que a doutrina nacional desfruta um
longo repouso dogmático.
O Tribunal do Júri é de suma importância no ordenamento jurídico brasileiro que não é
concebível que ainda se encontre nesse “repouso dogmático”. Dessa forma, todo o pensar amadurecido
sobre a corte popular, voltado à verificação da existência de alguma proposta de alteração ou
aperfeiçoamento do modelo existente, é tarefa que não pode evitar a realização de um exame crítico
do referido instituto, levando em consideração os argumentos trazidos tanto pelos defensores como
pelos críticos, o que passará a ser feito nos capítulos que seguem.
No Brasil, a instituição do júri surgiu em 18 de junho de 1822, sendo encarregado pelo
julgamento dos crimes de imprensa. Consoante a isso Guilherme de Souza Nucci (1999), salienta que
o Príncipe Regente declarou:
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[...] procurando ligar a bondade, a justiça e a salvação pública sem ofender à liberdade
bem entendida da imprensa, que desejo sustentar e conservar, a que tanto bem tem
feito à causa sagrada da liberdade brasileira, criava um tribunal de juízes de fato
composto de vinte e quatro cidadãos... homens bons, honrados, inteligentes e
patriotas, nomeados pelo Corregedor do Crime da Corte e da Casa. NUCCI (1999).

Ainda, através desse decreto, o juiz de direito nas causas de abuso de liberdade de imprensa
nas províncias, que tivessem relação, seriam nomeados pelo Ouvidor do Crime e pelo de Comarca nas
que não tivessem. Diante dos jurados os réus poderiam recusar dezesseis dos vinte e quatro jurados,
sendo que os oito restantes seriam suficientes para compor o conselho de julgamento. Os réus só
poderiam apelar para a real clemência do Regente.
Em 1824, quando a instituição do júri foi inserida na constituição do império nos artigos 151
e 152, passou a integrar o poder judiciário, sendo considerado, como definiu Nassif (2001), um poder
judicial independente, composto de juízes e jurados, na esfera cível e criminal, nos casos e pelo modo
que estiver determinado pelos códigos, sendo que os jurados se pronunciam sobre o fato e os juízes
aplicam a lei.
Nota-se que ao contrário do que a constituição atual preceitua, o júri está inserido no capítulo
referente ao poder judiciário e não entre os direitos e garantias individuais. Em relação a isso, quando
os direitos estavam em ascensão em todo o mundo, o Brasil não considerou o júri como tal.
Neste sentido, Rogério Lauria Tucci (1999) também assegura que:

[...] a Constituição Política do Império, de 25 de março de 1824, estabeleceu, no seu


art. 151, que o Poder Judicial, independente, seria composto de juízes e jurados,
acrescentando, no art. 152, que estes se pronunciariam sobre os fatos e aqueles
aplicariam as leis.

Diante disso, a carta de 1824, consagrou os direitos e garantias fundamentais, declarando em


seu art. 179, a inviolabilidade dos direitos civis e políticos, sendo estes baseados na liberdade, na
segurança individual e no direito de propriedade.
De acordo com Nucci (1999):

O Código de Processo Criminal, de 1832, ampliou sobremaneira a competência do


Tribunal do Júri, restringindo a atividade do juiz de direito a praticamente só presidir
as sessões do júri, orientar os jurados a aplicar a pena (art. 46). A instituição do
tribunal popular, no Brasil, ganhou então os contornos que sempre possuía o júri nos
países do common law. (NUCCI, 1999),

Em 1841, através da Lei nº 261, a vocação liberal da constituição foi alterada, eliminando-se
assim o júri de acusação. Já pela Lei nº 2.033, de 20 de setembro de 1871, regulada pelo Decreto
Imperial nº 4.824, de 22 de novembro de 1871, foi redefinida a competência do júri para toda matéria
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criminal.
Consoante a isso, Daher (2002) afirma pelo Código de Processo Criminal de 1832 e pela
reforma de 1871, foi alterado em sua estrutura e competência. Mantido na constituição de 1891 e nas
sucessivas, incluindo-se a constituição de 1934 até 1937, quando a carta silenciou-se sobre o tribunal
popular.
Aramis Nassif (2001, p. 18), afirma ainda:
A Constituição de 1891, de cunho iminentemente federalista, consagrou a autonomia
política dos Estados Federados, identificando-se com a estrutura norte-americana. As
unidades federalistas passaram a legislar sobre o júri, e a respeito o Estado do Rio
Grande do Sul crio-o de forma singular, merecendo destaque a Lei nº 19, de 16 de
dezembro de 1895, regulamentadora da Instituição. Neste texto legal, foi determinado
que as sentenças do júri, serão proferidas pelo voto a descoberto da maioria (art. 65,
§ 1º) e que os jurados não podem ser recusados.

A constituição de 1937, ao não mencionar nada sobre o júri, levou alguns juristas da época a
conclusão de que a instituição teria sido extinta.
Essa opinião, no entanto, não prevaleceu, tendo em vista que o Decreto-Lei nº 167, de 5 de
janeiro de 1938, regulou a instituição do júri, evidenciando que estava presente no sistema normativo.
Sua competência ficou restrita aos julgamentos dos seguintes crimes: homicídio, infanticídio,
induzimento ou auxilio a suicídio, duelo com resultado de morte ou lesão seguida de morte, roubo
seguido de morte e sua forma tentada conforme disposto no art. 3º.
Consoante ao exposto ocorre que a soberania do tribunal popular deixou legalmente de existir.
O art. 96 do referido decreto, dizia expressamente o seguinte:
Art. 96. Se, apreciando livremente as provas produzidas, quer no sumário de culpa,
quer no plenário de julgamento, o Tribunal de Apelação se convencer de que a decisão
do júri nenhum apoio encontra nos autos, dará provimento à apelação, para aplicar a
pena justa, ou absolver o réu, conforme o caso.

Ao ignorar a soberania do júri, a constituição de 1937, veio a propiciar a ocorrência de


gravíssimos erros judiciários, como é o caso dos irmãos Naves, um dos maiores erros judiciários do
Brasil. Aliás, todas as demais constituições brasileiras atribuíram ao júri a soberania dos veredictos,
pelo qual somente o júri pode apreciar os crimes dolosos contra a vida, podendo, no máximo, a Egrégia
Superior Instância, determinar seja o réu submetido a novo julgamento na hipótese de haver alguma
nulidade ou erro do judiciário.
Na constituição federal de 1946, retorna soberana e definitiva instituição do júri em seu art.
141, §28, sendo de salutar importância destacar que, o constituinte fez constar o júri no capítulo dos
direitos e garantias individuais, com competência obrigatória para os crimes dolosos contra a vida.
Restabeleceu-se a soberania dos veredictos do júri, determinando, inclusive, fosse ímpar o número
dos membros.
Nesse sentido Nassif (2001) pontua:
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A Constituição de 1946 proclamou entre os “Os Direitos e garantias Individuais” que


era mantida a instituição do Júri, com a organização que lhe der lei, contando que seja
ímpar o número de seus membros e garantindo o sigilo das votações, a plenitude de
defesa do réu e a soberania dos veredictos. Serão obrigatoriamente de sua
competência os crimes dolosos contra a vida (art. 141, §28).

A constituição federal de 1988, autenticada que fora pelo espírito democrático, reafirmou a
identidade constitucional do júri, no seu art. 5º, inciso XXXVIII, alíneas a, b, c, d, assegurando-lhe a
plenitude da defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para o
julgamento dos crimes dolosos contra a vida, respectivamente.
Tudo isso, como assegura Nassif (2001), é reflexo de um amplo movimento popular e também
de uma intensa movimentação política, sendo “fruto de atitudes corajosas e da persistência de um povo
inteiro, cansado de arbitrariedades, em busca do resgate de sua integridade político-juridica”.
Consequentemente, a Carta convoca cidadãos para compor a amostragem da sociedade, julgando
assim, soberanamente, seus pares.

8 CRONOGRAMA

AT IV IDA DES 2019


M ese s Março Abril Maio Junho
1. Escolha do Tema
2. Levantamento Bibliográfico
3. Seleção de Material
4. Revisão de Literatura
5. Elaboração do Projeto
6. Revisão Ortográfica
7. Entrega do Projeto Escrito
8. Defesa do Projeto (Apresentação)
15

REFERÊNCIAS

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