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Imagem: Acervo IHGB

CADERNO DE RESUMOS

IX
CONGRESSSO
BRASILEIRO
DE HISTÓRIA
DO DIREITO

De 04 a 06 de setembro de 2017
CADERNO DE RESUMOS

De 04 a 06 de setembro de 2017

REALIZAÇÃO

INSTITUTO HISTÓRICO
E
GEOGRÁFICO BRASILEIRO
IX Congresso Brasileiro de História do Direito
De 04 a 06 de setembro de 2017
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Avenida Augusto Severo, 8 – Glória – Rio de Janeiro - RJ

Coordenadores de Grupos de Trabalho

Airton Seelaender – UnB Cristina Vano – Itália


Alberto Spinosa – Itália Evandro C. Piza Duarte – UnB
Alexandre Wallmott – UFU Gilberto Bercovici – USP
Ana Lúcia Sabadell – UFRJ Giovanni Cazzetta – Itália
Andrei Koerner – UNICAMP Gustavo Cabral – UFC
Angelica Muller – UFF/ABL Gustavo S. Siqueira – UERJ
Antonio Carlos Wolkmer – UFSC/UNILASALLE Hanna Sonkajärvi – UFRJ
António Manuel Hespanha – Portugal Juliana Neuschwander Magalhães – UFRJ
Arno Wehling – IHGB/ABL Juliana Teixeira – UFPE
Beatriz Gallotti Mamigonian – UFSC Lucia Bastos – UERJ
Carlos Petit – Espanha Luis Fernando Lopes Pereira – UFPR
Carlos Fico – UFRJ Monica Duarte Dantas – USP
Carmen Margarida Oliveira Alveal – UFRN Ricardo Marcelo Fonseca – UFPR
Caroline Ferri – UERJ Samuel Barbosa – USP
Cecília Caballero Lois – UFRJ Sueann Caulfield – EUA
Christian Lynch – UERJ Thiago Reis – FGV-SP
Clara Maria Roman Borges – UFPR Thomas Duve – Alemanha
Clarize Speranza – UFRGS Thula Rafaela de Oliveira Pires – PUC-RIO
Cristiano Paixão – UnB Vera Karam de Chueiri – UFPR
Cristina Buarque – UERJ

Organizadores

Arno Wehling – IHGB/ABL


Christian Lynch – UERJ
Gabriel Melgaço – UERJ
Gustavo S. Siqueira – UERJ
Julia de Souza Rodrigues – UERJ
Ricardo Marcelo Fonseca – UFPR
Samuel Barbosa – USP
Taísa Regina Rodrigues – UERJ

Realização

INSTITUTO HISTÓRICO
E
GEOGRÁFICO BRASILEIRO

Apoio
RESUMOS

Programação 1
• HISTÓRIA SOCIAL DO DIREITO: CONTINUIDADES E RUPTURAS
Política colonizatória e estratificação da cidadania no Brasil: Uma reavaliação historio-
gráfica da Lei de Terras (1850) 9
Bernardo Pinhón Bechtlufft
Propriedade escrava e fundiária em processos judiciais (Brasil, 1835-1850) 13
Mariana Armond Dias Paes
Processos judiciais como fonte de pesquisa histórica: Aposentadoria forçada
dos magistrados do Império 15
Maria da Conceição Cardoso Panait
Uma Proposta de Organização do Contencioso Administrativo
no Brasil Império 19
Pedro Gustavo Aubert
“... Se digne mandar intimar o editor”: Autos crimes de exibição de autógrafo
na comarca de Bragança-SP (1877-1931 23
Rodrigo Camargo de Godoi
Justicia eclesiástica y control social. Acerca del funcionamiento de la Audiencia episcopal
en Córdoba del Tucumán, 1778-1836 29
María Laura Mazzoni
O Direito e o avesso do escravismo: comentários sobre os casos paradigmáticos de Luiz
Gama e as ações de liberdade 35
Paulo Henrique Rodrigues Pereira
O remédio constitucional republicano da população carioca: o habeas-corpus
nos anos 1920 41
Tatiana de Souza Castro
A compreensão parlamentar da suspensão das garantias constitucionais dos
cidadãos no Primeiro Reinado brasileiro: os debates sobre o §35 do Art. 179
da Constituição em 1826, 1829 e 1830 47
Vivian Chieregati Costa
A História do Direito para melhor compreensão do problema
da grilagem de terras devolutas 53
Cláudio Grande Júnior
Criminalizando a política? Conflitos políticos em ações de habeas corpus
julgadas pelo Supremo Tribunal Federal no Brasil da Primeira República (1894-1920) 59
Raquel R. Sirotti
• HISTÓRIA DA CULTURA JURÍDICA CRIMINAL BRASILEIRA
(CRIME, PROCESSO E PENAS)
Luis Jiménez de asúa y Brasil: las cárceles cariocas ante un
“protector de los criminales” 65
Enrique Roldán Cañizares
O crime da rua da Aurora 71
Mônica Maria de Pádua Souto da Cunha
Corrupção empresarial no Brasil republicano: A cordialidade brasileira
nas relações entre o Público e o Privado 77
Anna Flávia Arruda Lanna Barreto
Natália Silva Teixeira Rodrigues de Oliveira
“La exportación del penitenciarismo justicialista: Roberto Pettinato y la
primera reunión penitenciaria brasileña (río de janeiro, noviembre de 1952) 83
Jorge Alberto Núñez
Uma análise acerca do Inciso XLIII do Art. 5º da Cf/88 e da Lei 11.343/06:
A produção das marcas da miséria 87
Michel Cícero Magalhães de Melo
O STF e a vadiagem: Análise de casos que chegaram ao Supremo Tribunal Federal
na Primeira República (1918-1919) 91
Gustavo C. Zatelli
Os debates sobre a pena de morte no Congresso Nacional Constituinte de 1890
e as principais ideias de Beccaria e Lombroso 95
Delmiro Ximenes de Farias
Delmiro X. Farias
Os delitos de abuso de liberdade de imprensa no direito penal do Brasil Imperial 101
Danler Garcia Silva
Histórico do crime de receptação na Legislação brasileira 107
Brenda Lorrana Franco
Karen Lopes Rezende
Yasmin Felipe do Nascimento
Ilegalismo, ilegalístico e duplo nível de legalidade: Uma possível conexão entre os traba-
lhos de Michel Foucault e Mario Sbriccoli 113
Raul Ferreira Belúcio Nogueira
Para além do Código: O papel do poder executivo na interpretação
do Direito Criminal do Império 119
Fernando Nagib Marcos Coelho
O tratamento legal destinado ao ofendido no Brasil Império (1824 – 1858) 123
Antônio de Holanda Cavalcante Segundo
Afonso Roberto Mendes Belarmino
Crime, perdão e gênero: Apontamentos sobre a cultura jurídica criminal
setecentista a partir do caso de Anna Maria do Espírito Santo (1783) 127
Vanessa Massuchetto
Os crimes sexuais no Código Criminal de 1830 133
Débora Tomé de Sousa
Um “cartório de feiticeiras”: Direito e feitiçaria na Vila de Curitiba (1750-1777) 139
Danielle Regina Wobeto de Araujo
Embriaguez, violência e justiça nos jornais de Curitiba (1890-1921) 143
Otávio A. G. Weinhardt
A evolução dos mecanismos de combate à compra de votos no Brasil:
uma análise histórico-jurídica 147
Flávia Carósio Goes
Victor Rodrigues Nascimento Vieira
A presunção de inocência na história e no processo penal:
Crítica a interpretação atual 153
Patricia Rocha Castilho Binski
Nilma Jaqueline Correia
Naiana Caroline Taques
A segregação dos doentes mentais infratores na evolução histórica
da legislação penal brasileira 159
Pedro Henrique Nunes Gentil
Uma análise acerca da criminalização de mulheres negras e brancas a partir
das estatísticas do boletim policial de 1907 a 1917 163
Manuela Abath Valença
Fernanda Lima da Silva
Marília Montenegro Pessoa de Mello
O crepúsculo da forca: considerações sobre a pena de morte na sociedade imperial
a partir da análise do processo judicial relativo à última execução à pena capital ocorri-
do no Brasi 167
Hugo Leonardo Rodrigues Santos
Cultura jurídica processual penal, juristas-legisladores e a circulação
do Código (1930-1964) 171
Gabrielle do Valle Stricker
O Tribunal do Júri da Corte imperial do Rio de Janeiro durante a regência 177
João Luiz de Araújo Ribeiro
• CRISES CONSTITUCIONAIS NA HISTÓRIA DO BRASIL REPÚBLICA
O Marxismo na História do Supremo Tribunal Federal: Uma análise
do período da ditadura civil-militar-empresarial brasileira (1964-1985) 183
Enzo Bello
Rene José Keller
Crise insitucional e a relativização do princípio da proibição do retrocesso
social: Uma análise comparada 187
Débora de Oliveira Côco
Isabella Martins Cecílio
O Brasil à beira de uma crise constitucional, de novo? 191
Rafaele Balbinotte Wincardt
Juristas e ditadura: A atuação política dos professores da Faculdade
de Direito da UFSC durante a ditadura militar (1964-1969) 195
Rodrigo Alessandro Sartoti
Crises constitucionais e a violação dos Direitos Civis e Políticos entre os anos
de 1964 a 1970 no Estado da Paraíb 201
Jean Patrício Silva
Michelle Santos do Nascimento
Lara Celina Maia Mendes de Oliveira
Laís Marreiro de Souza
O autoritarismo invisível – um estudo da relação entre Direito Privado
e ditadura a partir do Decreto-lei n. 911/69 205
Fernando Honorato
O estatuto teórico dos Atos Institucionais na doutrina constitucional
brasileira (1964-1985) 209
Mário Augusto D’antonio Pires
Golpe civil-militar de 1964: Estratégias discursivas como instrumento
de legitamação ditatorial 213
Agenor Gabriel Chaves Miranda
Anna Beatriz Abreu
Marcelo Alves Vieira
Pedro Victor Porto Ferreira
Direito e golpismo: Disputas pela legalidade na crise política de 1955 217
Claudia Paiva Carvalho
O terrorismo na Assembleia Nacional Constituinte (1987-88): Do direito
da Segurança Nacional à Democracia 221
Ana Carolina Couto Pereira Pinto Barbosa
Desigualdade, disputas regionais e estabilidade democrática nos casos
do federalismo brasileiro e alemão: Em estudo comparado 227
Gustavo Castagna Machado
A Faculdade de Direito da Bahia, o golpe de 1964 e seus antecedentes (1961-1964) 237
Márcia Costa Misi
Julio Cesar de Sá Rocha
• CULTURA JURÍDICA E DIÁSPORA AFRICANA
Outras Histórias de Liberdade: Pensar a história constitucional
a partir do Atlântico Negro 245
Marcos Vinícius Lustosa Queiroz
Thiago Ferrare
Sociedade Operária 13 de Maio: Cultura jurídica e associativismo negro
no pós-Abolição (1888-1896) 249
Thiago de Azevedo Pinheiro Hoshino
Possibilidades metodológicas para uma história do Direito do pós Abolição 253
Maurício Azevedo Araújo
Silêncios e apagamentos no julgamento da ADI nº 3239: os quilombos
e a disputa da História constitucional 257
Rodrigo Gomes
Ubuntu: Conceito(s), História e aplicações nos direitos sul-africano e brasileiro 263
Eduardo Ramos Adami
A influência do pan-africanismo na construção do modelo de
regionalismo africano 267
Lucas A. A. de. Souza Lima
A participação do movimento de trabalhadoras domésticas na
Assembleia Nacional Constituinte de 1988 271
Juliana Araújo Lopes
A Escravidão na economia política ensinada na Academia
de Direito de Pernambuco 275
Guilherme Ricken
Gestão de uma cidade negra: Salvador e trabalho de rua no início do Século XX 279
Bruna Portella de Novaes
Memória por direito(s): A Comissão Nacional da Verdade sobre a escravidão Negra
no Brasil e o racismo em disputas sobre reparar e esquecer 283
Gabriela Barretto de Sá
• HISTÓRIA CONSTITUCIONAL
A tolerância e as liberdades das religiões sob a ótica
da teoria crítica histórico-construtivista dos Direitos Humanos 291
Brenner T. Rocha
Teoria constitucional brasileira: Uma história a ser contada? 297
Wingler Alves Pereira
A instrumentalização da fé para a propagação de uma idéia sebastianista
de constituição no limiar da Independência do Brasil 301
Gabriel Lima Marques
Epitácio Pessoa e o Constitucionalismo Estadual 305
Ana Rafaela Pessoa Alcoforado Alcoforado
Marcílio Toscano Franca Filho
Pensamento financeiro e tributário na primeira república: Um estudo
sobre a produção intelectual e a trajetória política de Inocêncio Serzedello Corrêa 311
Priscila, P. P. Gonçalves
Sistemas de governo na Constituinte de 1987/1988: a dicotomia presidencialismo
e parlamentarismo em debate 315
Leonam Baesso da Silva Liziero
Uma abordagem historiográfica sobre a política imigratória
no período Vargas (1930-1945) 319
Isabela Cristina Ferreira Borges
Washington Vinicius Almeida Dias
Lidiane Franco Oliveira
Isabella Alves Santos
Constitucionalismo Social y Lenguaje Jurídico: El caso de la reforma
constitucional argentina de 1949 323
Leticia Vita
Territorialidade e personalidade do Direito: Antecedentes ibéricos 327
João Marcos de Castello Branco Fantinato
A Constituição de 1891 no pensamento dos constituintes 331
Bruno César Prado Soares
A evolução do Poder Judiciário nas Constituições do Brasil:
De coadjuvante a protagonista 335
Carlos André Coutinho Teles
Marcio Caldas de Oliveira
Fernando Rangel Alvarez dos Santos
Centralização e descentralização no sistema educativo e a história constitucional 339
Augusto Righi
Episódios da formação constitucional do Brasil sexualidade, raça e eugenia
sob o governo de Getúlio Vargas (1930-1934) 343
Vanessa Santos do Canto
Responsabilidade política: Crimes de responsabilidade na História Constitucional
do Direito brasileiro 347
Adauto Henrique Estephanini Bignardi
Bárbara Joy Dutra Neves
Alexandre Borges Walmott
Os pareceres anônimos de João Gomes: Um retrato da racionalidade
constitucional vigente no Segundo Reinado? 351
Judá Leão Lobo
Direito, Política e Neoconstitucionalismo: Um breve esboço 357
Marja Mangili Laurindo
Participação popular na Assembleia Nacional Constituinte de 87-88:
A inserção dos instrumentos de democracia direta através de emenda popular 361
Cláudio Ladeira de Oliveira
Thiago Burckhart
Suellen Moura
Entre a Lei e a Justiça: O argumento da equidade e seu impacto
na interpretação constitucional 367
Guilherme Madeira Martins
O modelo da Constituição de 1824 e a contradição pontual
do liberalismo brasileiro 371
Geovana Soares de Oliveira
Gessyca Romilda da Rocha
Natália Siqueira Alves
A (in) constitucionalidade positivista: A Constituição rio-grandense de 1891
e as linguagens políticas republicanas 375
Pedro Pereira
Poder moderador na constituição política do Império do Brasil (1824):
bases teóricas e debates constituintes 381
Cláudio Alcântara MEIRELES JÚNIOR
A Constituição de 1824 à luz do poder moderador com ênfase nos sistemas
de responsabilidade vigentes à època 387
Felipe Eduardo de Oliveira Silva
Alexandre Walmott Borges
Educação e(m) disputa: Discussões sobre a repartição de competências na educação
durante a Constituinte de 1933-1934 393
Laila Maia Galvão
José Arthur Castillo de Macedo
Violação a direitos fundamentais no contexto que antecede a Constituição de 1937:
Uma análise do hc 26.155/1936 (O caso Olga Benário Prestes) 399
João Rodolpho Cabral de Souza
Da provisoriedade à constituição de 1934: O parecer de Hans Kelsen ao
governo Vargas e os caminhos da constituinte 403
Gabriel Frias Araújo
Carlos Eduardo de Abreu Boucault
Às vésperas da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1934: uma história da
eugenia e sua positivação constitucional 409
Taísa Regina RODRIGUES
História, Política e Direito em torno de decisões judiciais 415
Leonardo Seiichi Sasada Sato
Constitucionalismo e autoritarismo no Brasil: O eterno retorno 419
João Paulo Allain Teixeira
Antiliberalismo e federalismo fiscal: Estudo de caso do município de Pelotas-RS nos
primórdios da Primeira República 423
Mauro Francisco Buss Filho
Maria das Graças Pinto de Britto
O rádio à luz da Constituição de 1937: Um instrumento de poder
a serviço do Estado Novo 427
Joanir Fernando Rigo
Patrícia Soster Bortolotto
• HISTÓRIA, GÊNERO E DIREITO: RUPTURAS E PERMANÊNCIAS
Lugar das mulheres negras no período pós-abolição e sua dimensão jurídica:
Um olhar de gênero e raça para a cultura jurídica brasileira 435
Karolyne Mendes Mendonça Moreira
Mariana Silvino Paris
Educação jurídica e a questão de gênero na República Velha:
As primeiras bacharéis em Direito no Ceará 439
Ana Carolina Farias Almeida da Costa
Sarah Dayanna Lacerda Martins Lima
Quem matou Eloá? O recrudescimento da
“Maria da Penha” e a midiatização do crime 445
Laura Lemos e Silva
O caso Sears: Negociações e recusas do binômio igualdade-diferença
quanto à discriminação de gênero no mercado de trabalho 451
Heloisa Bianquini
• DIREITO E EXPANSÃO DA ESTATALIDADE
Utilidade Pública, Interesses Privados: Engenheiros e advogados nas
disputas pela cidade (Rio de Janeiro, 1903-1906) 457
Pedro Jimenez Cantisano
A reforma judiciária de 1841 e os limites da centralização Judiciária 461
Elaine Leonara de Vargas Sodré
O projeto de Teixeira de Freitas: Um código civil antinapoleônico? 467
Alan Wruck Garcia Rangel
O controle punitivo dos escravos no Brasil do século XIX:
um Estado imperial intervencionista? 471
Liliam Ferraresi Brighente
Formação da armadura jurídica do território brasileiro (1931-1950) 475
Thiago Freitas Hansen
Proibido por lei, consentido pelo Direito: Estado, Escravidão
e Ferrovias no Brasil do século XIX 479
Walter Marquezan Augusto
Conselho de Estado e o controle da entrada de pessoas negras no Brasil:
Uma análise da atuação da Seção de Justiça 485
Txapuã Menezes Magalhães
Justicia y procesos de circulación el caso de la Justicia de Paz
(Brasil y Rio de la Plata 1821-1830) 489
Nicolás Beraldi
• DIREITO E JUSTIÇA NA AMÉRICA PORTUGUESA
Guerra justa e escravidão indígena na América Portuguesa: Uma análise sobre o massa-
cre dos índios Paiaku na ribeira do Jaguaribe em 1699 495
Marcos Felipe Vicente
A devassa contra os ilustrados neoclássicos: A “Inconfidência Carioca” de 1794-1795 499
Matheus Farinhas de Oliveira
Jurisdição da Pena de Morte na América Portuguesa (1723-1808) 505
Bárbara Benevides
A Constituição de Cádiz de 1812 e o constitucionalismo
revolucionário brasileiro de 1817 509
Leonardo Morais de Araújo Pinheiro
A Revolução Republicana de 1817 e o dilema constitucional 513
Marcelo Casseb CONTINENTINO
• HISTÓRIA DO DIREITO E TRANSIÇÕES POLÍTICAS
A Ditadura Militar brasileira captada pelas lentes do cinema. Projeto marcas da memó-
ria 519
Marília Kairuz Baracat
Carandiru: Uma história das continuidades autoritárias 525
Tiago Pires Cotias Villas
A voz das vítimas da bomba da OAB como possibilidade de reconstrução
da memória do Direito 529
Lusmarina Garcia
Juliana Neuenschwander
A ADPF n. 153 e a ideologização da memória sobre a ditadura militar 533
Marcus Giraldes
“Michael Kohlhaas” e a transição para a modernidade 537
Sávio Mello
Constitucionalizar a exceção: O debate sobre a criação dos Institutos do Estado de Emer-
gência e das medidas de emergência na Conferência Nacional da OAB de 1978 541
Mateus do Prado utzig
Entre o Direito Adquirido e os Atos Institucionais: O debate sobre
a revogação da Anistia de 1961 no Supremo Tribunal Federal (1969-1977) 547
Raphael Peixoto de Paula Marques
A conexão americana: O Serviço Nacional de Informações (SNI) do Brasil e o
governo invisível dos Estados Unidos 549
Vicente Rodrigues
Inez Stampa
Ruptura democrática e o processo de transição conciliada: Os fantasmas da ditadura
civil-militar na Constituição de 1988 553
Diogo Bacha E Silva
Um debate sobre a positivação do direito de greve a partir da Constituição de 1988.
Avanço ou retrocesso? 557
Gabriel P. P. de S. Melgaço
• HISTÓRIA DO DIREITO DO TRABALHO
Traduzindo conflitos e enunciando direitos: A 1ª Junta de Conciliação e julgamento de
Porto Alegre como espaço de formação de sujeitos
de direitos trabalhistas (1941-1943) 563
Vicente de Azevedo Bastian Cortese
Regulação trabalhista e o contexto constitucional de 1934: Um estudo de caso 569
Rafael Lamera Giesta Cabral
Legislação Social da Primeira República: O Direito, o Estado e o Trabalho 575
Fernanda Cristina Covolan
Advogados associados e sua relação com a sociedade fluminense:
Notícias de uma pesquisa 579
Jorge Luís Rocha da Silveira
De enxadas a Winchesters: Cidadania na demarcação de terras
do Sudoeste do Paraná (1957-1973) 583
Laís Mazzola Piletti
A história da formação operária no Brasil e a greve de 1917 587
Michel Zaidan
Ariston Flávio Costa
O Decreto 24.637 de 1934: Impactos efetivos nas ações de indenização por acidentes
de trabalho e relações empregatícias em Campinas-SP 591
Jacqueline Camargo Cunha
Greves, greves e mais greves: Uma análise da greve como direito a partir dos debates na
Câmara dos Deputados (1934-1935) 595
Julia de Souza Rodrigues
Eini Rovena Dias
• INICIAÇÃO CIENTÍFICA
Análise jurídica e política historiográfica da tentativa de anulação da desapropriação
confiscatória do Palácio Guanabara (Paço Isabel) conflitos temporais a luz das constitui-
ções 1891 e 1988 601
Gustavo de Almeida Muniz Coutinho
Perdidos entre duas Nações: As deportações de operários estrangeiros após a greve de
1917 607
Laryssa Emanuelle Pinheiro Lula
Campos de concentração no Estado Novo: Respaldo legal? 611
Melissa Pinheiro Almeida
A Produção do Código de Processo PenaL: Sua recepção pela sociedade à luz
dos periódicos e da doutrina 617
Guilherme Cundari de Oliveira Amâncio
Maurício Dutra de Oliveira
O trabalhador e os direitos trabalhistas no interior de São Paulo: processos
administrativos pré justiça do trabalho em Araraquara 623
Expedito Claudenilton Pereira Lima
Lauany Oliveira Amaral
Tolstói e o verbo-análise do conceito de Justiça a partir da hermenêutica
religiosa de Liév n. Tolstói 627
Caio Henrique Dias Duarte
A história da Faculdade de Direito do Estado do Rio de Janeiro entre 1935 e 1947 633
Anna Carolina Oliveira Nunes Nunes
Francisca Maria de Medeiros Marques
Maria Clara Costa Guedes Alves
Gustavo Silveira Siqueira
Histórico do crime de receptação na Legislação Brasileira 637
Brenda Lorrana Franco
Karen Lopes Rezende
Yasmin Felipe do Nascimento
A evolução dos mecanismos de combate à compra de votos no Brasil:
Uma análise histórico-jurídica 643
Flávia Carósio Goes
Victor Rodrigues Nascimento Vieira
A presunção de inocência na história e no processo penal:
Crítica a interpretação atual 649
Patricia Rocha Castilho Binski
Nilma Jaqueline Correia
Naiana Caroline Taques
A segregação dos doentes mentais infratores na evolução histórica da legislação penal
brasileira 655
Pedro Henrique Nunes Gentil
PROGRAMAÇÃO
RUPTURAS, CRISES E DIREITO
Quais as formas que os direitos assumem nas rupturas políticas?
De que forma o direito pode ser um instrumento de manutenção ou de alteração das ordens?
Sem perder o rigor metodológico e o aprofundamento nas fontes primárias, o IX Congresso de História do Direi-
to terá como tema central as formas do direito em temos de crise. Nos 190 anos da fundação dos cursos jurídicos
no Brasil, nos 80 anos da outorga da Constituição de 10 de novembro de 1937, nos 50 anos da Constituição de
1967, o objetivo acadêmico é discutir os papéis, as posições e os lugares dos juristas e do direito em tempos de
rupturas e transformações.

SEGUNDA-FEIRA 04 DE SETEMBRO
13:00h – Credenciamento
14:00h – Conferência de abertura
Local: Salão Nobre
“Tradições jurídicas” e História do direito
Thomas Duve
Max-Planck-Institut für europäische Rechtsgeschichte (MPI)

15:30h-18:30h – GTS SIMULTÂNEOS


Local: Terraço
GT1 História Social do Direito: Continuidades e rupturas I
Beatriz Gallotti Mamigonian – UFSC
Mônica Duarte Dantas – USP
Coordenadoras do Grupo de Trabalho

Local: Núcleo de Pesquisas


GT2 História da cultura jurídica criminal brasileira (crime, processo e penas)
Luís Fernando Lopes Pereira –UFPR
Clara Maria Roman Borges – UFPR
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala Teresa Cristina


GT5 História constitucional I
Christian Edward Cyril Lynch – IESP-UERJ – IHGB – FCRB – UVA
Coordenador do Grupo de Trabalho
Local: Sala de Projetos Especiais – Ambiente 1

GT7 Direito e expansão da estatalidade


Airton Seelaender – IHGB – UnB
Ana Lúcia Sabadell – UFRJ
Allan Rangel – UERJ
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala de Projetos Especiais – Ambiente 2


GT11 Iniciação científica
Hanna Sonkajärv – UFRJ
Coordenadora do Grupo de Trabalho

18:30h – Intervalo
18:45h – Conferências
Local: Salão Nobre
De Volta para o futuro. Textos antigos para uma nova ciência jurídica
Cristina Vano – Università degli Studi di Napoli Federico II
República por ações. Sociedade mercantil e sociedade política SS. XVII- XX
Carlos Petit – Universidad de Huelva
Filhos ilegítimos e filhos de criação na casa grande e nas Varas Civis brasilei-
ras, 1916-1940
Sueann Caulfield – University of Michigan
Coquetel de Abertura
Local: Terraço

TERÇA-FEIRA 05 DE SETEMBRO
09:00h-12:30h – GTS SIMULTÂNEOS
Local: Terraço
GT1 História Social do Direito II
Beatriz Gallotti Mamigonian – UFSC
Mônica Duarte Dantas – USP
Coordenadoras do Grupo de Trabalho

Local: Núcleo de Pesquisas


GT2 História da cultura jurídica criminal brasileira II
Luís Fernando Lopes Pereira –UFPR
Clara Maria Roman Borges – UFPR
Coordenadores do Grupo de Trabalho
Local: Sala Pedro Calmon

GT4 Cultura jurídica e diáspora africana II


Thula Rafaela de Oliveira Pires – PUC-Rio
Evandro C. Piza Duarte – UnB
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala Teresa Cristina


GT5 História constitucional I
Christian Edward Cyril Lynch – IESP-UERJ – IHGB – FCRB – UVA
Coordenador do Grupo de Trabalho

Local: Sala Projetos Especiais


GT6 História, gênero e Direito
Cecília Caballero Lois – UFRJ
Caroline Ferri – UERJ
Coordenadoras do Grupo de Trabalho

14:00-15:30h – Conferências
Local: Salão Nobre
Brasil: Crises institucionais e utopia autoritária
Carlos Fico – UFRJ
Entre o Estado administrativo e a crise do Estado interventor: Carl Schmitt e
Francisco Campos?
Gilberto Bercovici – USP
15:30h-18:30h – GTS SIMULTÂNEOS
Local: Terraço
GT1 História Social do Direito III
Beatriz Gallotti Mamigonian – UFSC
Mônica Duarte Dantas – USP
Coordenadoras do Grupo de Trabalho

Local: Núcleo de Pesquisas


GT2 História da cultura jurídica criminal brasileira II
Luís Fernando Lopes Pereira – UFPR
Clara Maria Roman Borges – UFPR
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala Pedro Calmon


GT3 Crises constitucionais do Brasil República II
Cristiano Paixão – UnB
Vera Karam de Chueiri – UFPR
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala Projetos Especiais


GT4 Cultura jurídica e diáspora africana I
Thula Rafaela de Oliveira Pires – PUC-Rio
Evandro C. Piza Duarte – UnB
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala Teresa Cristina


GT5 História constitucional III
Christian Edward Cyril Lynch – IESP-UERJ, FCRB, UVA
Coordenador do Grupo de Trabalho

18:30h – Intervalo
19:00-20:30h – Conferências
Local: Salão Nobre
Uma polissemia conceitual: A definição jurídica dos direitos do homem e o
processo constitucional brasileiro, 1817-1824
Arno Wehling – ABL – IHGB – UVA
Constituição: A trajetória de um conceito no mundo luso-brasileiro
Lúcia Bastos – IHGB – UERJ
O papel e o lugar político do poder judicial no Império
Christian Lynch – IESP-UERJ – IHGB – FCRB – UVA
QUARTA-FEIRA 06 DE SETEMBRO
09:00h-12:30h – GTS SIMULTÂNEOS
Local: Sala Pedro Calmon
GT3 Crises constitucionais do Brasil República I
Cristiano Paixão – UnB
Vera Karam de Chueiri – UFPR
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala Teresa Cristina


GT5 História constitucional IV
Christian Edward Cyril Lynch – IESP-UERJ – IHGB – FCRB, UVA
Coordenador do Grupo de Trabalho

Local: Sala Projetos Especiais


GT8 Direito e Justiça na América Portuguesa
Carmen Margarida Oliveira Alveal – UFRN
Gustavo César Machado Cabral – UFCE
Coordenadores do Grupo de Trabalho

Local: Sala CEPHAS


GT9 História do Direito e transições políticas I
Juliana Neuschwander Magalhães – UFRJ
Angélica Muller – UFF
Coordenadoras do Grupo de Trabalho

Local: Núcleo de Pesquisas


GT10 História do Direito do Trabalho
Clarice Speranza – UFPel
Juliana Teixeira – UFPE
Coordenadoras do Grupo de Trabalho

14:00-16:00h – Conferências
Local: Salão Nobre
A exceção e a regra: o conceito de “ius singulare “ no debate jurídico dos
séculos XIX e XX
Alberto Spinosa – Università degli Studi di Ferrara
Na era das máquinas. Direito codificado e incerteza da classificação pelos
juristas
Giovanni Cazzetta – Università di Ferrara
Esquartejar ou controlar? A formação da Área Penal no Brasil (Secs. XVIII/
XIX)
Ricardo Marcelo Fonseca – IHGB – UFPR
16:00h – Lançamentos de livros
Lançamento do volume especial da R.IHGB
“O Centenário do Código Civil e o Livro do Centenário”
Airton Seelaender – IHGB – UnB
Lançamento do projeto da Revista do Instituto Brasileiro de História do Di-
reito
16:30h – Conferência de encerramento
Local: Salão Nobre
A História das “coisas invisíveis”: O Direito das cores
António Manuel Hespanha – IHGB – Universidade Nova Lisboa
Coquetel de Encerramento
Local: Terraço
RESUMOS

HISTÓRIA SOCIAL DO DIREITO:


CONTINUIDADES E RUPTURAS
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

POLÍTICA COLONIZATÓRIA E ESTRATIFICAÇÃO DA


CIDADANIA NO BRASIL: UMA REAVALIAÇÃO HISTO-
RIOGRÁFICA DA LEI DE TERRAS (1850)

BERNARDO PINHÓN BECHTLUFFT


Mestrando em Direito pelo Centro Universitário Internacional (UNINTER)
E-mail: bernardo.bechtlufft@gmail.com

Eixo Temático: 1. História social do Direito: continuidades e rupturas. Co-


ordenadoras: Beatriz Gallotti Mamigonian - UFSC e Monica Duarte Dantas - USP

Palavras-chave: HISTÓRIA DO DIREITO; LEI DE TERRAS; POLÍTICA CO-


LONIZATÓRIA.

Resumo: No campo dos direitos humanos, a carência de um discurso


crítico sobre o passado do direito se faz sentir de modo desmesurado. Afinal,
muito embora a sua legitimidade seja reclamada a partir de um déficit na sua
implementação, o fundamento histórico empregado, por vezes, peca pela au-
sência de maior elaboração téorica dessa pretérita violação. Sem isto, por vezes,
o árduo trabalho de concessão de uma legitimidade histórica aos denominados
“novos direitos” tem que buscar nas mesmas fontes, teorias e discursos da história
dos vencedores a base para a sua legitimação. É dizer: procura nos despojos do
vencedor as armas com as quais quer deflagar o conflito epistêmico sob o qual,
ética e politicamente, visa afirmar, contramajoritariamente, o seu objeto.

É necessário, pois, escrever a história do direito a contrapêlo, isto é, sob a


perspectiva dos vencidos (BENJAMIN, 1987), listando-se os direitos que lhes foram
negados, subtraídos, subjugados, para a afirmação de uma vontade política que o
discurso histórico corrente oblitera ou simplesmente teima em desconhecer. Neste
sentido, se torna imprescindível a elaboração de uma contranarrativa (WHITE,
1994), fundada em uma crítica ferrenha às condições de produção de suas fontes
e de seus postulados fundamentais. Com isto, combatemos o pernicioso legado
do positivismo no seio das ciências jurídicas, o qual, transposto à historiografia
do direito, tende a compreender e glorificar o presente como se fosse legado
de uma tradição imemorial, inserida na ordem natural (e a-histórica) das relações

9
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

sociais ou, ao revés, como se fosse o produto acabado e aperfeiçoado de uma


experiência civilizatória (FONSECA, 2009; HESPANHA, 1997).

Eis aqui, por conseguinte, a chave interpretativa a partir da qual nos per-
mitimos reavaliar a importância da Lei nº 601/1850 (Lei de Terras) para a história
do direito e o resgate desta mesma experiência para o direito contemporâneo,
notadamente no que atine ao nem tão inédito direito de migrar. Pretendemos
demonstrar o quanto a análise da denominada Lei de Terras não pode estar
limitada nem à avaliação de seus efeitos jurídicos imediatos, sobre a constituição
de uma moderna acepção de direito da propriedade em contraposição à prática
sesmarial (DI BENEDETTO, 2002; FONSECA, 2005; STAUT JUNIOR, 2008), tampouco
a seus efeitos sociais, no que atine à efetiva regulação da propriedade fundiária
(CARVALHO, 2008; SILVA, 2008). Pelo contrário, recuperando-se a dimensão his-
tórico-jurídica dos debates parlamentares em torno aos quais se deu a discussão
e aprovação da Lei de Terras, ressaltamos a necessária vinculação desta proposta
legislativa a um esforço obnubilado de normatização outrora da vida social: a
elaboração de uma política colonizatória.

Muito embora a preocupação com a atração de colonos europeus para


o preenchimento do “vazio da terra” estivesse presente no imaginário das elites
letradas desde o início do século XIX, não havia, até a década de 1840, maior
vinculação entre a questão colonizatória e a discussão sobre a prática sesmarial.
Tratavam-se, pois, de assuntos aos quais os legisladores conferiam enorme urgência
e centralidade, mas que eram vistos em separado, cada qual com suas ressalvas e
pecualiaridades. Não se articulava, portanto, a expectativa de atração de braços
para a indústria com a necessidade de regulamentação dos meios e modos de
aquisição da propriedade privada, situação que apenas será modificada a partir da
recepção, pelas elites letradas brasileiras, do pensamento do economista político
britânico Edward Gibbon Wakefield (1796-1862), responsável pela elaboração de
uma proposta colonizatória para as colônias inglesas.

O pensamento de Wakefield (1839) poderia ser assim resumido: a exis-


tência de terras abundantes, escassamente povoadas e devolutas constituiria um
verdadeiro empecilho à atividade produtiva, posto que, nesta hipótese, não haveria
como compelir o operário ao trabalho assalariado. Em um contexto mais amplo,
da Inglaterra imperialista e pós-Revolução industrial, a migração para Nova Gales
do Sul (Austrália), consistia em um problema real: melhor sorte teria o trabalhador
em ser deportado do que ser submetido às péssimas condições de trabalho das
fábricas inglesas. Deste modo, Wakefield concebe sua proposta de colonização
sistemática, por meio da qual propugna a criação de artifícios jurídicos para, nas
terras coloniais, insuflar-lhes o valor e negar-lhes a pronta aquisição do domínio.
O direito seria, portanto, o instrumento essencial para a reprodução social das

10
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

aristocráticas condições da vida metropolitana em cada uma das colônias inglesas


(RUSCHE & KIRCHHEIMER, 2004; MARTINS, 2016).

Transposta a questão ao cenário legislativo brasileiro, que representava como


iminente o fim do escravismo e, em decorrência deste, o enorme caos produtivo
e social, a proposta de E. G. Wakefield despertou enorme entusiasmo, a ponto de,
no repertório político e jurídico, ser lida como capaz de superar todos os males
da vida social. A preocupação demonstrada pelo legislador com uma proposta
colonizatória não mais se refere ao vazio demográfico, ao mero povoamento da
terra. Pelo contrário, pensar a colonização em meados do século XIX implica em
trazer à tona a necessidade de se repensar diversos aspectos jurídicos, sendo a
regulação dos meios de obtenção da propriedade apenas um dentre os proce-
dimentos necessários para a atração de braços industriosos, capazes de manter
a produção e a reprodução da própria vida social, em todos os seus aspectos.

Com esta inversão de sinal, destacando-se a necessária circulação de ideias


políticas e econômicas junto ao universo letrado das elites brasileiras, ressaltamos
que o conjunto de esforços despendidos pelo Império Brasileiro para com a nor-
matização da propriedade fundiária não consistia em um fim, mas sim o meio e,
simultaneamente, o efeito de superfície de uma proposta colonizatória. Ao dizê
-lo, destacamos que o direito à propriedade não se revelava historicamente um
instrumento de regulação do acesso ao espaço, de democratização do acesso à
terra, em detrimento das práticas sesmariais da Coroa Portuguesa. Ele é, ao revés,
o caminho por intermédio do qual se opera a estratificação da própria cidadania,
a partir da modulação premeditada e artificial de meios econômico-sociais de
aquisição da propriedade privada, que refletir-se-ão posteriormente sobre uma
distribuição social desigual dos pressupostos básicos em torno aos quais se funda
então uma vivência cidadã: o acesso à terra e ao trabalho.

Referências bibliográficas
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: ___. Obras escolhidas: Magia
e Técnica, Arte e Política. v. 01. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
CARVALHO, José Murilo de. O teatro das sombras: a política imperial. 4. ed. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
COSTA, Emília Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos (1977). São
Paulo: Unesp, 1999.
___. Da senzala à colônia (1962). São Paulo: Editora Unesp, 1998.
DI BENEDETTO, Roberto. Formação histórica do instituto da propriedade no Brasil
do século XIX. Dissertação (Mestrado em Direito), Setor de Ciências Jurídicas,
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2002.

11
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

FONSECA, Ricardo Marcelo. A “Lei de Terras” e o advento da propriedade mo-


derna no Brasil. Anuário Mexicano de Historia del Derecho, México: Instituto de
Investigaciones Jurídicas Unam, n. 17, p. 97-112, 2005.
___. Introdução teórica à histórica do direito. Curitiba: Juruá, 2009.
HESPANHA, Antonio Manuel. Cultura Jurídica Europeia: Síntese de um milênio.
Coimbra: Almedina, 2012.
IANNI, Octavio. Origens agrárias do Estado brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1984.
LIMA, Ruy Cirne. Pequena história territorial do Brasil: sesmarias e terras devolutas
(1954). São Paulo: Secretaria do Estado da Cultura,1990.
MARTINS, José de Souza. O cativeiro da terra (1986). São Paulo: Hucitec, 1996.
MARTINS, Roberto Borges. “Se Deus quiser, semana que vem... ou na ou-
tra...”: Terra, Trabalho e Liberdade. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HIS-
TÓRIA ECONÔMICA, XI, 2015, Vitória. Anais... Vitória: UFES, 2015. Dis-
ponível em: <http://www.abphe.org.br/arquivos/2015_roberto_borges
_martins_se-deus-quiser-semana-que-vem-ou-na-outra_terra-trabalho-e-liberdade.
pdf>. Acesso em: 16 jul. 2016.
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2015.
MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas Fronteiras do poder: conflito e direito à
terra no Brasil do século XIX. 2ed. Niterói: EdUFF, 2008.
RUSCHE, Georg; KIRCHHEIMER, Otto. Punição e Estrutura Social. 2. ed. Rio de
Janeiro: Revan, 2004
SILVA, Lígia Osório. Terras devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de Terras de 1850.
2. ed. Campinas: EdUnicamp, 2008.
SMITH, Roberto. Propriedade da Terra e Transição: Estudo da Formação da Pro-
priedade Privada da Terra e Transição para o Capitalismo no Brasil. São Paulo:
Brasiliense, 1990.
STAUT JUNIOR, Sérgio Said. Dimensão jurídica e formas de apropriação no Brasil.
Revista da Faculdade de Direito - UFPR, Curitiba, n.47, p. 29-64, 2008.
WAKEFIELD, Edward Gibbon. A view of the art of colonization. Ontario: Batoche
Books, 2001;
___. A letter from Sydney: Principal town of Australasia. London: Robert Gouger,
1839.

12
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

PROPRIEDADE ESCRAVA E FUNDIÁRIA EM


PROCESSOS JUDICIAIS (BRASIL, 1835-1850)

MARIANA ARMOND DIAS PAES


Doutoranda
Universidade de São Paulo (USP)
Max-Planck-Institut für europäische Rechtsgeschichte (MPIeR)
E-mail: mdiaspaes@gmail.com

Eixo temático: História social do Direito: continuidades e rupturas

Palavras-chave: escravidão, terras, propriedade

Introdução

O presente trabalho apresenta resultados parciais de minha pesquisa de


doutorado, cujo título é Escravos e terras entre posses e títulos: a construção social
do direito de propriedade no Brasil (1835-1889). Esta pesquisa tem como propósito
principal identificar o papel desempenhado pelos títulos e pela posse na dinâmica
de aquisição da propriedade escrava e fundiária no Brasil do século XIX. Utiliza-se
a expressão “títulos” nesta pesquisa com um valor conceitual histórico, a fim de
designar todo o gênero de documentos que especificam, com valor judicial, um
bem e seu respectivo proprietário. Os “títulos” se distinguem historicamente das
“posses”, isto é, das relações fáticas entre uma pessoa e um bem que, em certas
condições, geram o reconhecimento jurídico da propriedade. A identificação da
multiplicidade concreta das espécies de documentos abarcados pela categoria
“títulos” e um tratamento jurídico mais rigoroso da expressão constitui um dos
propósitos da pesquisa.

Nota-se, ainda, que o problema da ilegalidade latente dos modos de


aquisição da propriedade aproxima as questões escrava e fundiária. Esta pesquisa
trata como pressuposto essa perspectiva unificadora das duas questões e cuidará
de aprofundá-la investigando de que maneira os títulos de propriedade atuaram
em um contexto de disseminadas práticas de apossamentos irregulares.

13
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

Metodologia

Os resultados parciais apresentados neste trabalho são fruto da análise


de 18 processos judiciais que tramitaram perante o Tribunal da Relação do Rio
de Janeiro, entre 1835 e 1850. Tratam-se de diversos tipos processuais: ações de
liberdade, ações de demarcação, ações possessórias, ações de reivindicação de
propriedade.

Resultados e conclusões

As ações analisadas são marcadas por longas discussões a respeito da


validade dos títulos de domínio. Que tipo de documentos poderiam ser consi-
derados como títulos de domínio? Qual a força desses títulos diante de situações
possessórias? Quem eram os sujeitos legítimos para produzir esses documentos?
Essas eram, naquele momento, algumas das questões cujas respostas, em constante
disputa, eram juridicamente indeterminadas. Ao longo dos procedimentos judiciais,
as partes apresentaram variados tipos de documentos com a pretensão de que
fossem considerados pelos juízes como títulos válidos: assento de batismo, contrato
de compra e venda, escritura particular, formal de partilha, carta de doação de
alforria, escritura de alforria, declaração dos limites de um terreno, instrumento
passado diante de escrivão, dentre outros. Em cada processo, havia um debate
a respeito da força e da legitimidade desses títulos.

Ao longo do período analisado, os documentos usados como títulos de


domínio também estavam intrinsecamente relacionados à posse. A posse era um
elemento central no estabelecimento de relações jurídicas entre as pessoas e as
coisas. Já havia ecos de discursos que pretendiam dotar os títulos de propriedade
de força absoluta diante de situações possessórias. Já havia ecos de discursos de
“plenitude” do direito de propriedade. No entanto, esses discursos ainda não
eram hegemônicos e não eram capazes de alijar a posse do centro dos debates
a respeito das relações jurídicas entre pessoas e coisas. Os próprios títulos de-
pendiam, frequentemente, de confirmação pelo exercício de atos possessórios.
Na ausência de posse, o próprio domínio – mesmo aquele que se baseasse em
título válido – estava em risco.

Em um cenário em que havia inúmeras controvérsias a respeito de quais


eram as características de um título hábil a comprovar o domínio ou a pro-
priedade, o recurso à prova testemunhal e ao argumento do exercício da posse
proporcionavam às partes maiores chances de sucesso. Nesse contexto, mais
importante do que ter um documento escrito, era ter o reconhecimento social
da comunidade a respeito de qual relação estava estabelecida entre uma deter-
minada pessoa e uma coisa.

14
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

PROCESSOS JUDICIAIS COMO FONTE DE PESQUISA


HISTÓRICA: APOSENTADORIA FORÇADA
DOS MAGISTRADOS DO IMPÉRIO

MARIA DA CONCEIÇÃO CARDOSO PANAIT


Doutoranda
Programa de Pós-Graduação em História Comparada - PPGHC
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
maria.panait@gmail.com

Eixo Temático: História Social do Direito: continuidades e rupturas.

Palavras-chave: Império; República; Magistrados.

Introdução

Os arquivos do Poder Judiciário são reconhecidos como fonte de pesquisa


primária multidisciplinar, sendo considerados documentos públicos, nos termos
da Lei 8159, de 08 de janeiro de 1991. O presente trabalho tem como objetivo
demonstrar a função probatória destes documentos e a sua utilização para le-
vantar dados relevantes para a história social do direito, principalmente quando
estudamos certos períodos de escassa a documentação arquivística, quando não
havia grande preocupação com registros para preservar a memória.

Com esse intuito, selecionamos para análise um dos processos históricos


que compõe o acervo do Centro de Memória da Justiça Federal da 2ª Região.
Trata-se de uma ação sumária ajuizada em 18 de julho de 1896 na Justiça Fe-
deral da Capital (Rio de Janeiro). Os autores Luiz Gonzaga de Almeida Araújo,
Joaquim Ferreira Vellozo, Manoel Joaquim dos Santos Patury, Thomé Affonso
de Moura, Francisco José da Silva, Manoel Armindo Cordeiro Guraná e João de
Siqueira Cavalcanti eram juízes de direito do período imperial, postos em dispo-
nibilidade com o advento da República, e que posteriormente foram obrigados
à aposentadoria forçada, por força do Decreto nº 2.056, de 25 de julho de 1985,
recebendo proventos proporcionais ao tempo trabalhado. A ação, patrocinada
por Ruy Barbosa, visava a nulidade do referido Decreto, por violar o art. 6º das
Disposições transitórias da Constituição Federal de 1891.

15
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

A documentação probatória acostada aos autos traz uma relação nomi-


nal de outros magistrados imperiais, em diversos distritos do país, que também
foram postos em disponibilidade, bem como publicações de atos oficiais. Entre
outras peças, consta um substabelecimento, redigido de próprio punho por Ruy
Barbosa para os Drs. Edmundo Bittencourt e Domingos Olympio Braga Caval-
canti, importantes advogados do cenário jurídico da Primeira República e para o
solicitador Gaspar Teixeira de Carvalho. Observamos, também, a atuação de José
Pereira da Graça Aranha, que na época era funcionário adjunto de Procurador, e
do Procurador Seccional Esmeraldino Bandeira.

Cumpre destacar a irretocável advocacia de Ruy Barbosa, no teor de suas


petições, nas quais desenvolveu profunda interpretação legislativa e constitucional
sobre os conceitos de direito adquirido, estabilidade jurídica, princípio da vitali-
ciedade da magistratura e outros.

A sentença foi proferida em 24 de junho de 1897, pelo juiz seccional da


Capital Godofredo Xavier da Cunha, que julgou nulo o referido Decreto e conde-
nou a Fazenda Pública a pagar aos autores os ordenados atrasados desde a data
em que foram aposentados compulsoriamente até serem aposentados legalmente.

A fonte estudada retrata, portanto, vestígios do regime imperial, que ainda


permaneceram nos anos iniciais da República (recorte temporal), em confronto
com a nova estrutura federativa, que adotou o dualismo judiciário com a criação
da Justiça Federal ao lado da Justiça Estadual.

O presente trabalho também deseja fomentar o uso de processos judiciais


históricos como fonte primária de pesquisa, bem como divulgar o acesso ao
acervo da justiça federal da 2ª Região, não apenas aos pesquisadores da história
do Direito, mas aos investigadores de todas as áreas do conhecimento, tendo em
vista o caráter multidisciplinar dessas fontes.

Metodologia

O acesso aos processos históricos está disponibilizado no site do Tribunal


Regional Federal da 2ª Região, como parte de projetos visando o resgate e a
valorização da memória institucional. A amostra estudada foi selecionada através
de uma plataforma de pesquisa virtual que realiza a busca por palavras-chave.
Apesar das regras de acesso ainda estarem em fase de aprovação pelo órgão, foi
solicitada a autorização da instituição para proceder à digitalização do documento.

Realizada a análise qualitativa das narrativas do processo judicial histórico,


nos foi permitido evidenciar o posicionamento dos atores em um campo jurídico,

16
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

ampliando a compreensão do discurso situado naquele contexto histórico, social


e político.

A proposta de apresentação desse estudo, no grupo de trabalho Histó-


ria Social do Direito: continuidades e rupturas, envolve a utilização do programa
PowerPoint, para melhor visualizar as características e informações pertinentes à
fonte selecionada.

Resultados da pesquisa

Após leitura e análise detalhada do processo, levantamos elementos que


problematizam o conflito abordado pelos magistrados do império nos primeiros
anos da República, a legislação vigente, a ação do judiciário, levantamento dos
personagens envolvidos, o teor dos discursos contextualizados, bem como outras
informações fornecidas no documento que enriquecem a historiografia jurídica
institucional.

Referências bibliográficas
BARBOSA, Ruy. A Aposentadoria Forçada dos Magistrados em Disponibilidade. Rio
de Janeiro: Typographia do Jornal do Comercio de Rodrigues & C., 1896.
SALLES, Campos. Discursos na República. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902.
v.3, p.09-62. Disponível em <http://www.archive.org/stream/discursos00sallgoog#pa-
ge/n2/mode/1up>. Acesso em 09. jun.2017.
FREITAS, Vladimir Passos de. Justiça Federal: histórico e evolução no Brasil. Curitiba:
Juruá, 2010.
KOERNER, Andrei. Judiciário e cidadania na constituição da primeira república
brasileira. (1841-1920). 2ªed. Curitiba: Juruá, 2010.
BRASIL. Coleção das Leis do Império. Biblioteca digital. Obras Raras. Brasília: Câma-
ra dos Deputados. Disponível em <http://bd.camara.gov.br/bd/handle/bdcama-
ra/18299> acesso em jun. 2017.

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IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

UMA PROPOSTA DE ORGANIZAÇÃO DO


CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO
NO BRASIL IMPÉRIO

PEDRO GUSTAVO AUBERT


Universidade de São Paulo-USP
E-mail: pedroaubert@yahoo.com.br

Eixo Temático: História Social do Direito.

Palavras-Chave: Conselho de Estado; Direito Administrativo; Política.

Introdução

O Brasil Império passou pela experiência de importar da França napoleônica


a ideia de Direito Administrativo. Surgida no contexto revolucionário, se guiava
pela percepção de que a razão de Estado não poderia ficar sujeita aos tribunais
judiciais, considerados então guardiões das tradições do Antigo Regime. Com isso, a
administração tornava-se sua própria julgadora quando a razão de Estado entrasse
em conflito com o interesse particular. Nas disputas políticas do Brasil oitocentista
essa concepção de Estado encontrou eco no núcleo do Partido Conservador
que se materializou na aprovação da Lei que recriou o Conselho de Estado em
1841 com seus regulamentos de 1842 estabelecendo no Capítulo III a instituição
“Dos Objetos Contenciosos” que previa o contencioso administrativo mas não o
organizava. Por essa razão, o Conselho de Estado passou a concentrar a matéria.
Tema presente em diversas pesquisas, em geral, voltadas à história das institui-
ções, o contencioso administrativo no Império vai para além da vasta produção
jurisprudencial que encontramos na documentação das Seções do Conselho de
Estado, notadamente as de Justiça e dos Negócios do Império. Porém, em 1857,
quando as cadeiras de Direito Administrativo já estavam instituídas nos cursos
jurídicos de São Paulo e Olinda (aprovadas pela Assembleia Geral Legislativa em
1851), o Visconde do Uruguai elaborou um projeto de organização do contencioso
administrativo em primeira e segunda instância. Tal proposta veio na esteira de
disputas políticas que seu grupo vinha travando desde 1853.

19
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

Metodologia

Tornado pela historiografia um símbolo do pensamento político do Vis-


conde do Uruguai, o Ensaio Sobre o Direito Administrativo desenvolveu diversos
conceitos presentes em outro trabalho de seu autor. Trata-se das Bases Para Melhor
Organização das Administrações Provinciais, publicado como anexo do Relatório
do Ministério dos Negócios do Império de 1858, então regido pelo Marquês
de Olinda no qual a proposta foi postulada. Tanto um trabalho como o outro
foram obras políticas. Importante ressaltar que o Ensaio não foi sequer cogitado
para ser submetido à apreciação do Poder Legislativo como compêndio para os
cursos jurídicos. Sua publicação se deu em um momento de disputa política
com a chamada Liga Progressista, com Zacarias de Góes e Vasconcelos à frente.

Resultados

A proposta formulada nas Bases pelo Visconde do Uruguai para organizar


em primeira e segunda instância o contencioso administrativo brasileiro consistia
em recriar os Conselhos de Presidência de Província que foram extintos pelo
Ato Adicional de 1834. Esses conselhos funcionariam como órgão de cúpula da
segunda instância. Para a primeira instância concebia que nos diversos distritos
haveria comissários da Presidência da Província que seriam os julgadores em
primeira instância, com a lei prevendo os casos de recurso obrigatório para o
Conselho de Presidência para serem validados. Afora isso, devido ao fato de as
Seções do Conselho de Estado lidarem com matérias contenciosas propunha que
fosse criada uma Secretaria do Conselho de Estado e uma Seção específica para o
contencioso administrativo. Ademais, postulava que esse sistema fosse instituído de
forma gradual, cabendo à experiência indicar os melhoramentos que demandava.

Conslusões

Esse projeto foi concebido pelo Visconde do Uruguai em momento no


qual o chamado gabinete da conciliação chegava ao poder com uma pauta po-
lítica concebida por Pedro II que se contrapunha à prática de trocar cargos por
apoio eleitoral. Por essa razão, a primeira pauta levada adiante pela conciliação
em 1854 foi a da tentativa de reforma da Lei de 3 de dezembro de 1841 que
dotava o Poder Executivo geral de uma série de cargos policiais e judiciários que
eram negociados em troca de apoio aos candidatos do governo nas eleições
legislativas. Estano o visconde na oposição ao projeto que o derrotou no Senado,
foi enviado em missão diplomátiva à França. No ano seguinte, sem a presença
desse influente opositor, foi pautada e votada a chamada Lei dos Círculos que
institui o voto distrital e instituiu incompatibilidades.

20
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Isto posto, é preciso olhar para a proposta de organização do conten-


cioso feita dois anos após a aprovação do sistema distrital pelo prisma político.
Eleitos deputados que Uruguai denominava “notabilidades de aldeia”, defendia
ele uma ingerência maior do governo nas eleições, na contramão das pretenções
do Imperador. Esse projeto das Bases criava uma série de novos cargos que se
subordinavam ao Poder Executivo e aumentava com isso a capacidade de ne-
gociação de apoios, pois passava então o governo a dispor de mais posições de
poder para alocar seus aliados.

Referências bibliográficas
AUBERT, P.G., Entre as Idéias e a Ação: o Visconde do Uruguai, o Direito e a Po-
lítica na Consolidação do Estado Nacional. Dissertação de Mestrado. São Paulo,
FFLCH/USP, 2011.
GARNER, L., “In Pursuit of Order: The Section of Empire of the Council of State,
1842-1889”. Tese de doutoramento, The Johns Hopkins University, 1987.
LOPES, J.R.L. O Oráculo de Delfos. O Conselho de Estado no Brasil-Império. São
Paulo: Saraiva & Fundação Getúlio Vargas, 2010
RIBAS, A.J. Direito Administrativo Brasileiro: Noções Preliminares. (Obra premiada
e aprovada pela Resolução Imperial de 9 de fevereiro de 1861 para uso das aulas
das Faculdades de Direito de Recife e São Paulo). Rio de Janeiro, F.L. Pinto & C.
Livreiros-Editores 87, 1866.
URUGUAI, V. Bases Para Melhor Organização das Administrações Provinciais. Rio
de Janeiro, Typografia Nacional, 1858.
URUGUAI, V. Ensaio Sobre o Direito Administrativo. in: CARVALHO, J.M. (ORG),
Visconde do Uruguai. São Paulo, Editora 34, 2002.

21
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

“... SE DIGNE MANDAR INTIMAR O EDITOR”:


AUTOS CRIMES DE EXIBIÇÃO DE AUTÓGRAFO
NA COMARCA DE BRAGANÇA-SP (1877-1931

RODRIGO CAMARGO DE GODOI


Universidade Estadual de Campinas – Unicamp
E-mail: rcgodoi@unicamp.br

História Social do Direito: Continuidades e Rupturas.

Palavras-chave: Crime; Imprensa; Injúria.

Em fins da década de 1870, ainda não era consenso entre os juristas do


Império se a Lei de 20 de Setembro de 1830 sobre o abuso da liberdade de im-
prensa teria sido ou não revogada com a promulgação do Código Criminal, a 16
de dezembro do mesmo ano.1 Em todo caso, no que se referia à responsabilidade
pelos impressos sediciosos e caluniosos, as duas legislações mantinham pratica-
mente intacto o princípio da responsabilidade sucessiva esboçado no primeiro
decreto sobre o tema assinado por D. João VI, em 1821.2 Na medida em que
o anonimato do autor era garantido por lei, “nos delitos de abuso da liberdade
de comunicar os pensamentos” eram considerados criminosos em primeiro lugar
os impressores, gravadores ou litógrafos, seguidos dos editores, em terceiro lugar
os autores e, por fim, os vendedores ou livreiros. Os impressores, gravadores e
litógrafos só se isentavam das penas e multas previstas na lei caso apresentassem
por escrito a obrigação de responsabilidade dos editores. Estes, por sua vez, só
escapavam das malhas do judiciário se apresentassem também em juízo docu-
mentos semelhantes assinados pelos autores. O modo como estas disposições
funcionavam na prática é o que demonstra uma série de Autos de Exibição de
Autógrafo processados na Comarca de Bragança, em São Paulo, entre 1877 e 1931.

Por exemplo, no dia 20 de março de 1881, foi publicado no jornal O


Guaripocaba de Bragança um artigo intitulado “A polícia e o rolo” 3. O texto
1 “Supremo Tribunal de Justiça: Revista Cível n. 2281”, Gazeta Jurídica, 1877, p. 296-306. “Revista nos crimes
de injúria – Lei de 20 de setembro de 1830 sobre os delitos de imprensa”, Gazeta Jurídica, 1877, p. 112-119.
2 GODOI, Rodrigo Camargo de. Um editor no Império: Francisco de Paula Brito (1809-1861). São Paulo: Edusp,
2016. Principalmente o cap. 6: “Leis e crimes de imprensa no tempo do Padre Feíjó”, p. 105-106.
3 “A polícia e o rolo”, O Guaripocaba, Bragança, 20 mar. 1881, p. 2. Um exemplar desta edição do jornal foi

23
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

anônimo narrava o esforço do delegado de polícia, Capitão José Francisco Buenos


Ayres, em suprimir as pateadas no Circo Universal da Companhia Equestre Borel &
Casali em excursão pela cidade.4 O quiproquó havia começado em uma noite de
espetáculo na qual um dos palhaços do circo, “para fazer espírito”, dirigiu pilhérias
contra um dos “filhos-família” da cidade. Já na manhã seguinte ao espetáculo
corria o rumor de que, por vingança da chalaça, o moço e seus amigos haviam
prometido patear a companhia no próximo final de semana.5

Conforme o artigo, “o boato foi correndo e sempre aumentando o vo-


lume até que chegou aos ouvidos da autoridade policial: dizia-se então que os
rapazes estavam prevenidos para um grande barulho no circo, todos iriam arma-
dos e ninguém sairia vivo de lá!!!”. O delegado então se armou até os dentes e,
acompanhado de trinta homens, marchou para o circo na noite fatídica. Porém,
lá encontrou tudo em paz. O articulista anônimo do Guaripocaba não perdeu
a oportunidade de repreender a atitude da polícia, em seu entender exagerada,
escrevendo em tom prenhe de ironias que “a conclusão lógica desse fato selva-
gem é que o Sr. Capitão delegado não deposita a menor confiança na sua força
moral, decerto por... modéstia”. Em síntese, o artigo sugeria que quem interpretou
o palhaço na noite circense foi o Capitão Buenos Ayres que, “se quisesse raciocinar
um pouco, havia de concluir que o boato não passava de uma simples pilhéria”.

Com o Guaripocaba em mãos, o delegado por certo não gostou nada


do que leu. Assim, já do dia seguinte à publicação, ele remetia ao Juiz Municipal
de Bragança a petição a seguir transcrita na íntegra:

encartado no processo, ver: Processo de injúria pela imprensa contra a autoridade policial, Basílio Ferreira do
Apocalipse, réu; Justiça, autor, 1881, CDAPH-USF, caixa 93A, pasta 4.
4 Entre 1881 e 1882, é possível seguir nas páginas do Correio Paulistano a Companhia Borel apresentando-se
em outras cidades do interior da Província de São Paulo, como Capivari e Campinas. Correio Paulistano, 18 out.
1881, p. 2; 20 jan. 1882, p. 1; 29 jan. 1881, p. 1; 6 fev. 1882, p. 1.
5 Bastante comuns na Corte e nas Províncias desde a instalação dos primeiros teatros e casas de ópera na
colônia e período joanino, as pateadas consistiam em manifestações de reprovação da plateia ao espéculo em
cena. Por meio delas o público chegava ao ponto de interromper o espetáculo batendo os pés nos assoalhos
dos teatros. SOUZA, Silvia Cristina Martins de. As noites do Ginásio: teatro e tensões culturais na corte (1832-
1868). Campinas: Ed. Unicamp, Cecult, 2002, p. 290.

24
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Exmo. Sr Juiz Municipal em exercício.


Diz o Capitão José Francisco Bueno Ayres, delegado de polícia deste
termo, que ele suplicante, no exercício de suas atribuições, deparou com
um artigo inserto no jornal Guaripocaba que se publica nesta cidade, sob
a epígrafe “A Polícia e o Rolo”, sob n. 247 datado de ontem, em que se
considera injuriado em diversos períodos do mesmo artigo e em outros,
com reticências, que dependem de explicações, ainda mais injuriado se
julga porque refere-se a atos de exercício de autoridade e talvez ao seu
caráter público, que este suplicante se esforça em zelar. É por isso, de
conformidade com os artigos 230 §2º do Código [Criminal] que considera
injúria tudo que pode prejudicar a reputação de alguém e 237 § do mesmo
Código – contra qualquer depositário ou agente de autoridade pública
em razão de seu ofício, impondo as penas aí estabelecidas, considerando-
se o suplicante injuriado por um tal artigo de que necessariamente teve
responsabilidade legal, requer a V. S. que [ilegível] seja citado o redator
do mesmo jornal, o cidadão José Guilherme Christiano para na primeira
audiência exibir o autógrafo do mesmo artigo, visto como o gerente do
mesmo periódico não tem responsabilidade legal, procedendo-se a forma-
ção da culpa nos termo da Lei, isto com procedimento oficial visto como
as injúrias e calúnias irrogadas a autoridade pública em ato de exercício
de suas funções cabe o mesmo procedimento em vista do decreto n.
1090 de 1º de setembro de 1860, com citação do Dr. Promotor Público
da Comarca para promovê-lo nos termo que a lei marca.
P. deferimento
ERM
Bragança, 21 de março de 1881.
José Francisco Bueno Ayres.6

De acordo com a queixa, o delegado procurava enquadrar a ofensa que


lera no jornal no artigo 230 do Código Criminal do Império. Inserto na Seção III,
“Calúnia e injúria”, do Capítulo II, “Dos crimes contra a segurança da honra”, este
artigo dispunha sobre as calunias cometidas contra “corporações que exerçam a
autoridade pública” por meios impressos, litografados ou gravados distribuídos,
e consequentemente lidos, por mais de quinze pessoas. Nestes casos, as penas
previstas variavam de “prisão por oitos meses a dous anos e multa correspon-
dente à metade do tempo”.7 As disposições do artigo 230 eram reforçadas pelo
artigo 237 § 2º que, conforme transcrito na petição, tratava especificamente das
injúrias “contra qualquer depositário ou agente de autoridade pública em razão
do seu ofício”. Aí as condenações podiam variar de nove a três meses de prisão
e multas correspondentes.8
6 Processo de injúria pela imprensa contra a autoridade policial, Basílio Ferreira do Apocalipse, réu; Justiça,
autor, 1881, CDAPH-USF, caixa 93A, pasta 4, fls. 6-6v.
7 Em seu grau máximo as penas aplicadas ao art. 230 chegavam a dois anos de prisão simples e multa; em
grau médio, a 1 ano e 4 meses de prisão e multa; e, em grau mínimo, 8 meses de prisão simples e multa
correspondente. PESSOA, Vicente Alves de Paula. Código Criminal do Império do Brasil anotado com leis, decretos,
jurisprudência dos tribunais do país e avisos do governo até o fim de 1876. Rio de Janeiro: Livraria Popular, 1877,
p. 369.
8 Idem, ibidem, p. 378.

25
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

No entanto, como mencionado, o artigo “A polícia e o rolo” não foi as-


sinado e sem saber o nome de seu autor era impossível proceder-se a formação
da culpa. A petição então solicitava que o Juiz Municipal intimasse o redator do
jornal O Guaripocaba, José Guilherme Christiano, para que, em audiência pública,
ele apresentasse a responsabilidade assinada do texto que tanto aborrecimento
causava ao Capitão Buenos Ayres. Havia casos em que o subscritor da responsa-
bilidade não era necessariamente o autor do artigo injurioso. Em uma apelação
julgada no Tribunal de Relação da Corte, em 1875, o advogado e antigo redator do
Diário do Rio de Janeiro, Joaquim Saldanha Marinho, afirmava com conhecimento
de causa que “artigos publicados na imprensa, com assinatura de seus autores,
têm sido chamado a juízo e aí aparece um testa de ferro que toma a si a res-
ponsabilidade; só contra este se procede criminalmente”9. Entretanto, tendo em
vista o princípio da responsabilidade sucessiva vigente, para editores, redatores e
donos de jornais no Brasil do século XIX este documento registrado por tabelião
competente era o único dispositivo capaz de livrá-los, em certos casos, da cadeia.

Por certo ciente das leis de imprensa do Império, o redator do jornal O


Guaripocaba estava prevenido. Na audiência do dia 26 de março de 1881, José
Guilherme Christiano apresentou os originais manuscritos do artigo “A polícia e
o rolo”, bem como a responsabilidade assinada por Basílio Ferreira do Apocalip-
se, de 31 anos, solteiro e dono de um armazém. Quiçá um dos “filhos-família”
de Bragança que queriam patear o Circo Universal, o qual foi finalmente identi-
ficado e processado.10
Responsabilizo-me pela publicação e
circulação do artigo sob a epígrafe – A
polícia e o rolo – em três tiras das quais
esta é a 5ª coluna, cuja publicação será
feita no jornal Guaripocaba. Bragança,
18 de março de 1881.
Basílio Ferreira do Apocalipse.
R.ce [reconhece] verdadeira a firma
supra do que dou fé.
Bragança, 19 de março de 1881.
Em testemunha de verdade
O Tabelião Francisco de Oliveira Cam-
pos.11

9 “Jurisdição criminal: Tribunal da Relação da Corte. Apelação Crime n. 153”, Gazeta Jurídica, 1875, p. 464-481.
10 “Auto de perguntas ao signatário autógrafo sob o título ‘A polícia e rolo’”. Processo de injúria pela imprensa
contra a autoridade policial, Basílio Ferreira do Apocalipse, réu; Justiça, autor, 1881, CDAPH-USF, caixa 93A, pasta
4, fls. 13. “Bragança-Cidade: Armazéns de secos, molhados, ferragens e louças”, In: SECKLER, Jorge. Almanak da
Província de São Paulo: Administrativo, Industrial e Comercial para 1887. São Paulo: Jorge Seckler & Comp., 1886,
p. 289.
11 Processo de injúria pela imprensa contra a autoridade policial, Basílio Ferreira do Apocalipse, réu; Justiça,

26
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Parte da pesquisa intitulada “Penas afiadas: crimes da escrita na Província


de São Paulo, c. 1830-1930”, que se encontra em estágio inicial de desenvolvi-
mento, esta comunicação pretende analisar outros dez Autos de Exibição de
Autógrafo processados na Comarca de Bragança, entre 1877 e 1930. O objetivo
da pesquisa é contribuir com a história dos impressos e da justiça no Brasil, por
intermédio do estudo das práticas jurídicas que incidiram sobre a imprensa e
outras modalidades de comunicação no século XIX e início do século XX. Para
tanto, além dos autos do Fundo do Poder Judiciário da Comarca de Bragança,
depositados no Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da
Universidade São Francisco, CDAPH-USF, em Bragança Paulista, pretende-se in-
vestigar a documentação das Comarcas de Jundiaí e Campinas, depositada no
Centro de Memória da Unicamp, assim como os Autos Crimes de São Paulo e
do Interior depositados no Arquivo Público do Estado, na Capital.

autor, 1881, CDAPH-USF, caixa 93A, pasta 4, fls. 8.

27
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

JUSTICIA ECLESIÁSTICA Y CONTROL SOCIAL. ACER-


CA DEL FUNCIONAMIENTO DE LA AUDIENCIA EPIS-
COPAL EN CÓRDOBA DEL TUCUMÁN, 1778-1836

MARÍA LAURA MAZZONI


Doctora en Historia, Ayudante de Historia Argentina I (1776-1810) y de Historia Económica y social I y II, Facultad
de Humanidades y Facultad de Ciencias Económicas y Sociales, Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMdP).
Becaria posdoctoral del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET), Argentina. Miembro
del Grupo de Investigación Problemas y Debates del Siglo XIX, Facultad de Humanidades, UNMdP.
E-mail: mazzonilaura@gmail.com

Palavras-chave: audiencia episcopal; justicia eclesiástica; Córdoba.

Eixo temático: História social do Direito: continuidades e rupturas.

Introducción

Este trabajo tiene un fin exploratorio y se propone avanzar en el es-


tudio de la audiencia episcopal del obispado de Córdoba, en su estructura y
funcionamiento. El conocimiento sobre esta institución eclesiástica me interesa a
los fines de seguir indagando en el gobierno diocesano.12 Mi recorte espacial se
circunscribe al Obispado de Córdoba del Tucumán en el periodo tardocolonial
y en la temprana independencia.13

El análisis de la Audiencia episcopal cordobesa se enmarca en un proyec-


to sobre el funcionamiento de la administración diocesana en el obispado, que

12 Esta investigación forma parte de mi proyecto posdoctoral que continúa una línea de investigación doctoral
sobre los gobiernos diocesanos del obispado de Córdoba del Tucumán entre fines del siglo XVIII y el periodo
posrevolucionario.
13 En el proyecto de trabajo propuesto aquí, el recorte temporal elegido replica el de las administraciones
diocesanas que hemos analizado en la investigación doctoral. En 1778 fue nombrado obispo del Tucumán Joseph
Antonio de San Alberto, y tomamos esa fecha como punto de partida del estudio de las administraciones
diocesanas por ser él un obispo de corte regalista que imprimió un nuevo perfil a la diócesis. La elección del
año 1836, en tanto, radica también en las trayectorias de los obispos analizados, dado que por entonces murió
Benito Lascano, quien marcó también un quiebre con las administraciones que le siguieron. En primer lugar,
porque a su muerte le siguió un prolongado período de vacancia entre Lascano y el prelado siguiente, y en
segundo lugar, por haber sido formado en Córdoba antes de la Revolución de 1810, y conservar en su gobierno
y en su práctica pastoral aspectos propios de un clérigo de antiguo régimen, característica que compartía con
sus antecesores.

29
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

inquiere en la justicia eclesiástica como puerta de entrada al mundo más amplio


del episcopado.14

El objetivo de este plan es profundizar aún más el conocimiento sobre


el ejercicio de la justicia eclesiástica en la jurisdicción de Córdoba, sede episcopal
entre finales del siglo XVIII y principios del XIX. Para ello, exploraremos los expe-
dientes de juicios criminales y civiles radicados en el fuero eclesiástico. El análisis
de estos expedientes nos permitirán analizar el rol del obispo en tanto juez, los
mecanismos de impartición de justicia en el fuero religioso, el papel del clero en
el entramado judicial, y los puntos de contacto con la justicia civil.

La hipótesis que guía este trabajo se vincula con la posición central de los
prelados en la estructura eclesiástica a escala local, pero también con su rol en
la comunidad misma donde se insertaban. Sostenemos que el obispo como juez
del fuero eclesiástico local, y por lo tanto, intérprete del derecho y administrador
de justicia, se constituyó en gestor e intermediario del poder local. En este rol
tuvo la potestad, no solo de organizar la diócesis imponiendo los lineamientos de
funcionamiento y administración diocesana, sino que además guardaba estrecha
relación con el gobierno de una diócesis y con el mantenimiento del control social.

Desde las perspectivas aquí presentadas, nos proponemos emprender


el estudio de la justicia eclesiástica en la Diócesis de Córdoba entre el periodo
colonial y temprano independiente, abarcando especialmente el papel del obispo
y del clero en la Audiencia Episcopal. En este sentido, planeamos concentrarnos
en reconstruir la presencia de la Audiencia Episcopal en la diócesis, analizar su
funcionamiento, y considerar el rol del obispo en tanto juez eclesiástico.

El trabajo constará de un primer punto que se centra en (i) determinar


algunas características generales sobre el funcionamiento de la Audiencia Episcopal
y de los actores intervinientes en ella. En una segunda parte intentaré (ii) esbozar
algunas reflexiones sobre el papel de la audiencia en el ejercicio de la justicia
eclesiástica en el obispado, aunque en este punto aún falta mucho trabajo con
indagación de los fondos del archivo.

Metodología

La nueva historia institucional nos permite pensar las diversas dimensio-


nes políticas, culturales y jurídicas presentes en las dinámicas institucionales (A.
Hespanha 2002). Los prelados analizados se insertaron en la configuración política
local, perjudicando o beneficiando, según el caso, a diferentes grupos de poder de
acuerdo a sus propias alianzas y conveniencias (Moutoukias 2000). Estos actores
14 Proyecto PICT-2015-2433 "La impartición de justicia en el ámbito diocesano. La diócesis de Córdoba del
Tucumán entre la colonia y la revolución, 1778-1836", financiado por el Fondo para la Investigación científica
y tecnológica (FONCyT), categoría Jóvenes Investigadores, Argentina. Investigadora responsable.

30
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

formaron parte de un espacio jurisdiccional, y con esto me refiero a la estructura


diocesana como un ámbito cuyos dispositivos institucionales refieren a la potestad
que implica esa jurisdicción y que le confiere una dimensión política a ese po-
der. Por un lado, esto nos conduce a analizar las acciones políticas que tuvieron
lugar en ese espacio, y por el otro, también nos lleva a apreciar la competencia
institucional de estos obispos. En este sentido, para el caso cordobés Ayrolo ya
ha advertido sobre la conformación de una región eclesiástica, la provincia-dió-
cesis, que expresaba el estrecho vínculo que existía entre el poder civil y el clero
secular en la dirección de la experiencia de autonomía provincial en la segunda
década revolucionaria, y además daba cuenta de una lógica propia (Ayrolo 2007).

Analizaremos los expedientes judiciales de la Audiencia Episcopal del


obispado de Córdoba del Tucumán radicados en el Archivo del Arzobispado de
Córdoba, Argentina. La Audiencia eclesiástica tenía como tarea principal la de
juzgar y dictar sentencia sobre procesos de nulidad matrimonial y divorcios.15
El archivo del arzobispado también consta de dos legajos: Juicios eclesiásticos
(Legajo 35) y Juicios Criminales (Legajo 37) que también contienen actuaciones
de la audiencia. El primero entiende en los casos de quejas sobre el cobro de
emolumentos, y el segundo contiene procesos por injurias, blasfemias y excesos
de los curas. El legajo 34 “Causas y demandas de los curas y seglares” contiene
una variedad de litigios en los que también tuvo actuación la audiencia.

Resultados preliminares

Las líneas de investigación que he desarrollado en mi investigación doc-


toral se centraron en las administraciones diocesanas del Obispado de Córdoba
entre 1778 y 1836 (Mazzoni 2013a). A través del estudio de las trayectorias
personales de los obispos del periodo pudimos confirmar el lugar medular que
poseían, no sólo en la estructura administrativa eclesiástica, sino también en la
vida política de esta comunidad. La experiencia de los prelados analizados aporta
una nueva mirada sobre la intermediación social que estos funcionarios ejercían
en la comunidad, entre fieles y sacerdotes, y entre los clérigos y las autoridades
civiles y eclesiásticas.

La conflictividad política fue objeto de revisión en un posterior trabajo,


en tanto motivó la indagación, a través de un conflicto entre el Comandante de
Armas de Famatina, La Rioja, y el Teniente de Cura de la comunidad en 1824, en
las relaciones entre la religión y la política, y puntualmente en el papel desem-
peñado por el clero como mediador en disputas locales (Mazzoni y Gómez 2015).

15 La palabra divorcio no adscribe a la versión moderna del término. La utilizamos como traducción más
fiel de la palabra en latín como era usada en el derecho canónico, en el título “De divortiis” en las Decretales
por ejemplo, que era utilizada para la substanciación de los pleitos de divorcio en la vía contenciosa. En esto
seguimos a (Dellaferrera, 1990: 10).

31
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

Tal vez como consecuencia de lo anterior, notamos la incidencia de las


administraciones diocesanas en el proceso de formación de una identidad regional
en la que la religión católica romana habría tenido importancia capital (Guerra
2003). La experiencia de los obispos analizados aporta una nueva mirada sobre
la intermediación social que estos funcionarios ejercían en la comunidad, entre
fieles y sacerdotes, y entre los clérigos y las autoridades civiles y eclesiásticas
(Mazzoni 2013). Asimismo, subrayamos en otros trabajos la existencia de una
zona de contacto, un terreno de negociación y de sociabilidad en las cofradías
que funcionaban en el ámbito eclesiástico que canalizaba el ejercicio del control
social por parte de la jerarquía eclesiástica (Mazzoni 2013).

La legislación eclesiástica que operaba como marco de referencia de las


administraciones diocesanas tardocoloniales también ha llamado nuestra atención.
La normativa de la Corona y la emanada del derecho canónico indiano – a través
de Concilios provinciales y Sínodos diocesanos – se constituyó en el basamento
jurídico de la Diócesis cordobesa. Sin embargo, su distancia temporal – y territo-
rial –, junto con la necesidad de regular prácticas ausentes en sus constituciones,
contribuyeron a que el alto clero cordobés se nutriera de otras fuentes jurídicas
a la hora de lidiar con problemas específicos. A fines del siglo XVIII, obispos y
clero secular gobernaron el espacio diocesano cordobés, nutriéndose de un en-
tramado jurídico variado, producto de la apelación a diversas fuentes de derecho
(Mazzoni 2015).

Referências bibliográficas
AYROLO, Valentina. 2007. Funcionarios de Dios y de la República. Clero y política
en las autonomías provinciales. Buenos Aires: Biblos.
DELLAFERRERA, N. (1990). Catálogo de causas matrimoniales. Obispado de cór-
doba (1688-1810). Córdoba: Arzobispado de Córdoba.
HESPANHA, António Manuel. 1993. “El espacio político”. En La gracia del derecho:
economía de la cultura en la edad moderna, 85-123. Madrid: Centro de Estudios
Constitucionales.
___. 2002. Cultura jurídica europea: síntesis de un milenio. Madrid: Tecnos.
MAZZONI, María Laura. 2013a. “Mandato divino y poder terrenal. La adminis-
tración diocesana en el Obispado de Córdoba, 1778-1836”. Tesis doctoral, Tandil:
Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires.
___. 2013. “Cofradías como zona de contacto. Diócesis de Córdoba, fines del siglo
XVIII y principios del XIX” en Lanteri, Ana Laura (comp.) Actores e identidades
en la construcción del estado nacional (Argentina, siglo XIX), Teseo, Buenos Aires,
pp. 97-127.
___. 2015. “Clero y política en La Rioja en los años veinte del siglo XIX. El Teniente
de cura Melchor León de la Barra, de revolucionario a ‘reo de alto crimen’”. En
co-autoría con Lic. Fernando Gómez. En: Almanack, N° 9, abril/2015.

32
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

___. 2015. “La administración diocesana en Córdoba del Tucumán en el periodo


tardocolonial en el marco de la legislación eclesiástica de Lima y Charcas”, en
Albani, Benedeta, Otto Danwerth y Thomas Duve (eds.) Normatividades e ins-
tituciones eclesiásticas en Iberoamérica: Perú, siglos XVI-XIX, de la serie Global
Perspective on Legal History, Max-Planck-Institut für europäische Rechtsgeschichte,
Frankfurt am Main, en prensa.
MOUTOUKIAS, Z. 2000. Gobierno y sociedad en el Tucumán y el Río de la
Plata, 1550-1800.  En: Nueva Historia Argentina,  Tomo 2, Buenos Aires, Sudame-
ricana, 355-411.

33
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O DIREITO E O AVESSO DO ESCRAVISMO:


COMENTÁRIOS SOBRE OS CASOS PARADIGMÁTICOS
DE LUIZ GAMA E AS AÇÕES DE LIBERDADE

PAULO HENRIQUE RODRIGUES PEREIRA


Faculdade de Direito do Largo de São Francisco-Universidade de São Paulo
Mestre em Direito. Aluno Especial do Doutorado.
Email: paulohrpereira@gmail.com

Eixo temático: História Social do Direito: Continuidades e rupturas.

Palavras chave: Luiz Gama; Lei do ventre livre; Direito e Escravidão.

O presente artigo pretende analisar o estado da jurisprudência na segun-


da metade do século XIX, utilizando o litigio judicial como forma de revelação
dos usos práticos da linguagem jurídica atinente ao estatuto do escravismo. A
questão central é expor a lacuna existente entre o status legal da escravidão e a
realidade da sua prática na vida social brasileira. O artigo organiza reflexão sobre
o -alcance da legalidade nas contínuas tentativas de desarticulação do escravismo
por meio da inovação legislativa. A hipótese é que na segunda metade do século
XIX as contínuas leis limitando a escravidão, conforme exposto abaixo, levariam
a escravidão à inviabilidade. A instituição teria se sustentado justamente pelo
distanciamento entre legalidade e uso prático da linguagem jurídica.

Para tanto, o presente resumo apontará (i) a pertinência do tema aos


eixos propostos pelo IX Congresso de História do Direito; bem como (ii) as bases
teóricas em relação às quais se assentam as suas reflexões; depois, mostrará (iii) os
aspectos normativos centrais do estado do direito positivo nas datas das petições
analisadas; para então (iv) analisar as questões postas em discussão nos referidos
litígios judiciais. As peças escolhidas serão aquelas que se encontram disponíveis
do repertório do rábula abolicionista Luiz Gama.

Introdução

O Congresso tem por tema “Rupturas, Crises e Direito”, propondo-se a


compreender as formas que o direito assume nos momentos de tensionamento

35
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

da ordem política, assim como as derivações e performances próprias dessas


ocasiões. Apontou, no seu primeiro eixo temático, o interesse no uso de fontes
judiciais, inclusive com forma de “aproximação com grupos subalternos
que não deixaram registros próprios”.

A segunda metade do século XIX brasileiro, sobretudo a partir dos anos


de 1870, representa episódio de crise social aguda que, se protegida nos aspectos
econômicos pela explosão do café, refletiu-se com vigor nos campos político e
social. A estabilidade alcançada pelo regime imperial após a guerra do Paraguai
desfez-se sistematicamente, culminando com a Proclamação da República em
1889. Entre os muitos motivos de tal erosão, ressalta-se a centralidade da aboli-
ção da escravatura, empenhada pela criação e fortalecimento de novos grupos
de pressão e articulação.

O direito ocupou posição central no debate do escravismo tendo sido,


ao mesmo tempo, projetado nas esperanças do futuro e nas demandas daquele
presente. Protagonizou o projeto da abolição e constituiu ferramenta de ação
concreta por meio das estratégias judiciais que buscaram no arcabouço legal já
existente instrumentos de enfrentamento à servidão. É essa segunda acepção que
interessa ao presente trabalho, na medida em que o uso das fontes judicias pode
revelar aspectos da realidade social do direito atinente à escravidão: os avanços,
ainda que pequenos, já havidos nos anos de 1870 refletiram-se na prática social
do escravismo?

Metodologia

A análise jurisprudencial das ações de liberdade de Luiz Gama dá um


arcabouço interpretativo do direito como razão prática, como técnica voltada à
ação.16 Tal questão faz-se importante na medida em que a análise exclusiva das
instituições tradicionais da prática jurídica – tais quais a lei, a doutrina consagrada,
e mesmo a jurisprudência dos tribunais superiores – pode levar a compreensão
incompleta ou equivocada do uso dos sentidos possíveis de um determinado
discurso em um momento destacado do tempo.17 As fontes tradicionais do
direito nem sempre são equivalentes à sua prática social.

Uma boa compreensão do direito exige a reconstituição do discurso que


o forma, valida-o como prática, e integra os seus atores a uma comunidade. Esse
movimento, que enfraquece a percepção de uma história das ideias propriamente
16 Paul Ricoeur. (RICOEUR, Paul. Do Texto a Acção: Ensaios de Hermenêuticas II. Trad. Alcino Cartaxo e Maria
José Sarabando. Porto, Portugual: RÈS-Editora Ltda, 1989. p. 241).
17 Sobre as lições de uma história institucional do Direito, é possível citar Hespanha (HESPANHA, Manuel
Antonio. Poder e Instituições na Europa do Antigo Regime. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.) e José
Reinaldo de Lima Lopes. (LIMA LOPES, José Reinaldo. As Palavras e a Lei: Direito, Ordem e Justiça na História
do Pensamento Jurídico Moderno. São Paulo: Edesp, 2004; e LIMA LOPES, José Reinaldo. O Direito na história:
Lições Introdutórias. São Paulo: Max Limonad, 2000).

36
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

ditas, dá ênfase no que poderia ser chamado de uma história dos discursos18.
No presente artigo, interessa adaptar essa visão para o que seria a possibilidade
de se inquirir sobre a história dos discursos jurídicos atinentes à escravidão,
abandonando-se uma visão estruturalista, segundo a qual a história do direito se
daria pela análise estática da moldura legal insculpida na norma.

Os discursos, como atos de fala, revelam-se como elementos de uma


determinada ação. A retórica dos atores políticos e jurídicos constitui a formula-
ção de um princípio de prática social, que estabelece sequências argumentativas,
revela arcabouços da formação ideológica do vocabulário utilizado, e permite
a reprodução dos patamares estabelecidos, bem como dos lances que buscam
estabelecer novas formas de articulação e compreensão de um determinado
conteúdo linguístico19.

Esse estatuto estabelece importantes ressalvas sobre o exercício da his-


toriografia das ideias, no sentido de fixar a necessidade de se estabelecer o jogo
dos discursos como aquele que só pode ser compreendido no seu contexto
linguístico. Embora tal percepção tenha, em si, conteúdo problemático face a
impossibilidade real da reconstituição desse ambiente virtual de debates, a sua
colocação como parâmetro revela elementos essenciais da prática do historiador,
do seu ofício. Nesse sentido, a compreensão da fala se dá no desnudar de um
conjunto de convenções e sentidos compartilhados, em relação aos quais se
pode estabelecer as balizas comuns da comunidade que se pretende analisar,
bem como a performance dos conceitos utilizados.20

Nesse contexto, a análise de litígios judiciais auxilia na tarefa de decifrar


os chamados atores menores, praticantes da língua comum, utilizada e praticada
com naturalidade em uma determinada comunidade intelectual, organizando
uma leitura que não pode ser vertical. Dentro deste âmbito, a escolha específica
das ações de liberdades propostas por Luiz Gama se justifica na medida em que
representaram o questionamento proposital de uma prática social consolidada,
buscando tencionar o sistema legal. Por um lado, este caráter vanguardista permite
a compreensão das estratégias utilizadas para mudar os usos práticos da linguagem
jurídica; por outro, seu amparo fático demonstra quais os costumes sociais que
motivaram esta tentativa de mudança.

18 POCOCK, J.G.A. Linguagens do Ideário Político. São Paulo: Edusp, 2003. p. 9.


19 POCOCK, J.G.A. Ob. Cit. p. 11.
20 Ibid. pp. 38-41.

37
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

Resultados: aspectos normativos centrais e análise dos litígios judi-


cializados

As petições judiciais a serem analisadas serão todas mediadas entre os


anos de 1860 e 1870. Já no começo da segunda metade do século XIX, a teia
que sustentava a escravidão já se revelava complexa: o Brasil já havia assinado
dois Tratados internacionais se comprometendo a extinguir o tráfico de escravos,
em 1818 e 1826. Em 1831, o país proibiu o tráfico intercontinental por lei. Com
a Lei Eusébio de Queiroz, em 1850, o Brasil punha em vigência mais uma norma
antitráfico, a quarta da série. Com a lei do ventre livre, de setembro de 1871, a
legislação passou a prever a possibilidade de o escravo se alforriar por preço justo.

Em que pese tais restrições legais à prática da escravidão, o instituto


encontrava-se forte e resiliente na vida social brasileira.21 Como essa contradição
foi possível? É esse questionamento que permite perceber que já nessa época a
escravidão apenas poderia se manter com um arcabouço considerável de fraudes,
conluios oficiais e distorções legais de toda a natureza. É sobre este ponto que
se debruça a análise jurisprudencial proposta.

Lidando com a dualidade apontada acima, o escravismo oscilava entre


o endurecimento institucional, no campo da legalidade, e a articulação de um
sistema pró-escravidão, na prática. Assim, o país se equilibrava dando sinais de
que resolveria a questão da servidão – como requerido pelo imperador na fala
do trono de 1871 - ao mesmo tempo que a aplicação desse arcabouço institu-
cional encontrava dificuldades de se firmar, existir na realidade concreta. A massa
de homens e mulheres escravizados boçais, ou que haviam reunido recursos
próprios à sua alforria, era imensa – sujeitos, portanto, ilegalmente submetidos
à condição de escravidão. A advocacia não estava acessível aos escravos, e não
existiam estruturas destinadas a compor, no campo dos direitos individuais dos
cativos, soluções de legalidade.

Nesse sentido, analisar o trabalho de Luiz Gama,22 a natureza dos seus


casos, bem como as soluções oferecidas pelo Judiciário, pode conferir retrato
do estado da escravidão no Brasil no período, bem como das técnicas utiliza-
das para a sua manutenção, mesmo com o aprofundamento de diplomas legais
que visavam limitá-la no campo normativo. Os resultados parciais dessa análise
demonstram o descasamento entre a formação dos diplomas legais, na análise
estruturalista-normativa, e a realidade social da prática escravista, parcialmente

21 Sobre essa contradição, pode-se citar Tâmis Peixoto Parron. PARRON, Tâmis Peixoto. Política da Escravidão
no Império do Brasil. São Paulo: Civilização brasileira. 2011.
22 Negro liberto, rábula, poeta e jornalista abolicionista e republicano, responsável pela alforria de mais de 500
(quinhentos) homens e mulheres ilegalmente reduzidos à condição de escravos. Para dados sobre Luiz Gama,
Menucci (MENUCCI, SID. O percurso do abolicionismo no Brasil: Luiz Gama. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1938.).

38
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

demonstrada pelos casos submetidos ao judiciário. Um retrato interessante do


papel operativo do judiciário no episódio da escravidão brasileira também pode
ser avaliado pelos estudos demonstrados.

Referências bibliográficas
HESPANHA, Manuel Antonio. Poder e Instituições na Europa do Antigo Regime.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.
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RÈS-Editora Ltda, 1989.

39
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O REMÉDIO CONSTITUCIONAL REPUBLICANO DA


POPULAÇÃO CARIOCA:
O HABEAS-CORPUS NOS ANOS 1920

TATIANA DE SOUZA CASTRO


Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. PPHR/UFRRJ.
Bolsista FAPERJ.
E-mail: ttscastro@globo.com

História Social do Direito: Continuidades e rupturas.

Palavras-chaves: Habeas-corpus; Supremo Tribunal Federal; Rio de Janeiro.

Introdução

O habeas-corpus do latim “tome o corpo” – habeas: ter, manter, possuir,


tomar posse; e corpus, corpo – se fez presente no ordenamento político brasi-
leiro pela primeira vez no Código de Processo Penal de 1832 e sofreu diversas
transformações em sua definição até os dias atuais. Durante a Primeira República,
o habeas-corpus era considerado um remédio jurídico que garantia as liberdades
em geral. Esse período ficou posteriormente conhecido como a “doutrina brasileira
do habeas-corpus”. A interpretação da definição do habeas-corpus na Constituição
de 1891 foi objeto de debate ao longo de toda a Primeira República, culminando
na alteração do artigo que o definia na reforma constitucional de 1926.

A presente pesquisa tem como objetivo contribuir para a discussão so-


bre o processo de construção e o exercício da cidadania na Primeira República,
através da análise da relação entre a população carioca e o Estado, bem como
do exame das formas de manifestação e questionamento do que essa população
entendia serem direitos adquiridos, utilizando como cenário a cidade do Rio de
Janeiro, na década de 1920.

A escolha desta cidade como nosso recorte espacial se deve pela sua
importância no período, já que o Rio, além de sede do novo governo republi-
cano, era o principal centro financeiro, comercial e cultural do país. Quanto ao
recorte cronológico, escolhemos a década de 1920 pelo fato de representar um

41
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

período de efervescência e grandes transformações que colocaram em questão


os padrões culturais e políticos da Primeira República, bem como por ter sido
durante essa década, especificamente no ano de 1926, que a definição do instituto
do habeas-corpus seria alterada devido a reforma constitucional.

Diante desse contexto pretendemos contribuir para o debate referente à


construção da cidadania nos anos 1920, na então capital do Brasil. Nossa proposta
é analisar o exercício da cidadania em meio a esse modelo político excludente,
considerando que mesmo diante dessa realidade, havia canais de reivindicação
para essa população, nos quais práticas de questionamento e demandas feitas
ao Estado eram observadas. O Judiciário pode ser tomado como exemplo nesse
sentido e será um espaço privilegiado em nossa análise.

Trabalharemos com processos de habeas-corpus, em virtude deste caráter


singular que o mesmo apresentou durante a Primeira República. A interpretação
ampla deste instituto o transformou num defensor das liberdades do indivíduo
diante de qualquer ilegalidade ou abuso de Poder, tendo o indivíduo sofrido ou
se encontrando em perigo de sofrer qualquer violência ou coação. Essa definição
só seria alterada em 1926. O habeas-corpus poderia ser solicitado pelo próprio
indivíduo que se sentia ameaçado, não havendo a necessidade de um advogado.
Também não havia custas para o pedido e a celeridade de sua tramitação era o
seu grande diferencial. De acordo com o grau de urgência reconhecido pelo autor
do pedido, o mesmo poderia ser solicitado diretamente ao Supremo Tribunal
Federal. Nesse caso tratava-se de um habeas-corpus originário. Tais características
revelam a riqueza deste tipo de processo para verificarmos como se dava o acesso
à justiça por parte dos cidadãos durante a Primeira República. 

Trabalharemos com processos de habeas-corpus originários, ou seja, proces-


sos que foram iniciados na Suprema Corte brasileira, o Supremo Tribunal Federal.
Acreditamos que no STF o habeas-corpus ganhava uma maior relevância por ser
a ação que podia acessá-lo originariamente por qualquer cidadão que se reconhe-
cesse em urgência de garantir aquilo que considerava como sendo seus direitos.

Entendemos que este estudo se enquadra na história do direito influen-


ciada pela corrente da histografia francesa da Escola dos Annales, como sinalizou
Hespanha (1982), visando superar as barreiras em diversos setores da história. Esta
entendia que para se desenvolver uma história do direito era preciso conhecer
as leis, conhecer o pensamento jurídico de determinada época, mas também
compreender como a sociedade se relacionava com essas normas jurídicas. (SI-
QUEIRA, 2009,38). É dessa linha que nos aproximamos. Entendemos que para
melhor compreendermos os processos de habeas-corpus, é preciso compreender
as normas jurídicas da época, a estrutura processual, as instituições nas quais o
mesmo era julgado, mas, principalmente, verificar como a sociedade da época se

42
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

relacionava com tudo isto. Como a população reconhecia no espaço do Judiciário


um lugar legítimo para questionar seu direito? Como fazia uso do Direito e da
estrutura por ele oferecida, de normas e garantias que poderiam ajuda-los a se
proteger dentro daquela sociedade? Como o contexto político influenciava naquela
sociedade e nos ordenamentos jurídicos que se tornavam um reflexo das reais
necessidades daquela população?

Metodologia

A pesquisa vem sendo realizada a partir de um bloco documental cons-


tituído pelos processos de habeas corpus em petição originária, isto é, oriundos
do Supremo Tribunal Federal. Nosso objetivo é verificar a atuação da população
carioca na Justiça. Os processos de habeas-corpus originários encontram-se dispo-
níveis em dois arquivos: no Arquivo Nacional – processos de 1920 e 1921 – e no
Arquivo do Supremo Tribunal Federal – processos de 1920 à 1929. Trabalharemos
com 20% dos processos encontrados, que representam 435 processos.

Os processos estão sendo lidos e catalogados em um banco de dados


que coleta informações pertinentes e está sendo classificado de acordo com
uma tipologia. A partir do mapeamento esboçado após essa etapa de trabalho
com a fonte, partiremos para o caminho sinalizado pelos mesmos. Através da
análise dos processos será possível compreender o que era mais questionado
pela população e quais eram os tipos de argumentos utilizados, como também
observar a natureza dos processos ali encontrados, apesar das limitações que a
amostragem possa produzir.

Resultados da pesquisa.

A pesquisa ainda se encontra em andamento. Até o momento já foram


lidos e catalogados os processos referentes aos primeiros seis anos da pesquisa –
1920-1925 – e podemos apresentar apenas algumas indicações iniciais e sinalizar
alguns questionamentos que ainda devem ser investigados.

Do total de 435 processos que representam 20% do total de habeas-corpus


originários protocolados no Supremo Tribunal Federal pelo Distrito Federal, verifi-
camos que os primeiros seis anos – 1920-1925 – representam menos de 50% do
total de processos encontrados. Sendo assim, podemos concluir que os últimos
4 anos da década de 1920 representam quase 60% dos processos encontrados
nos acervos. Esse crescimento no número de processos é interessante, pois em
1926 ocorreu uma reforma constitucional que limitou a definição do habeas-cor-
pus, que passou a proteger apenas o direito de locomoção. No entanto, apesar
dessa limitação em sua aplicação, a utilização deste remédio jurídico permaneceu
crescendo nos anos posteriores, como vemos na tabela abaixo.

43
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

Período Nº %
1920-1925 182 42%
1926-1929 253 68%
FONTE: Arquivo do Supremo Tribunal Federal e Arquivo Nacional: Processos de Habeas-Corpus 1920-1929

De uma maneira bem geral, podemos apresentar alguns dados encontrados


nessa primeira análise quantitativa dos processos. Os pedidos de habeas-corpus
poderiam ser individuais, com apenas um paciente, ou coletivos quando o número
era maior que um. Nesses 182 processos, verificamos que os processos coletivos
eram minoria, correspondendo a 18% do total, enquanto os individuais ocuparam
82% do número de processos. Interessante perceber que o tipo de demanda em
grupo não representou ¼ do total de processos nesse período.

Quanto a natureza dos processos, isto é, se eram processos liberatórios


– indivíduos que tinha sua liberdade de locomoção restringida, encontrando-se
presos – ou preventivos – preveniam que qualquer tipo de limitação ou coação
pudesse vir a ocorrer, quando se sentiam coagidos – encontramos um número
significativo de processos liberatórios, 71 % contra 29% de processos preventivos.
Tal fato chama atenção para percebermos que a liberdade de locomoção, neste
momento, era a liberdade mais prejudicada. Os processos preventivos poderiam
ser uma proteção quanto a um direito de ir e vir, ou qualquer outro tipo de
coação a qual o sujeito se sentisse ameaçado, como por exemplo a liberdade
de imprensa, diversos eram os processos de jornalistas que utilizaram o habeas-
corpus para assegurar a publicação de sua coluna nos jornais.

No que se refere ao julgamento dos processos, os classificamos em:


prejudicado, sem tomar conhecimento, concedido e negado. Os primeiros eram
aqueles que ao chegarem ao julgamento dos ministros já tinham sido “resolvidos”,
por exemplo, um habeas-corpus de um estrangeiro ameaçado de extradição, que
já havia sido extraditado no dia do julgamento dos ministros, o segundo, quando
os ministros alegavam não tomar conhecimento do pedido pelo fato do mesmo
não estar devidamente instruído, geralmente isso ocorria em processos redigidos
pelo próprio paciente que não apresentava todas as informações necessárias, os
concedidos e negados eram o resultado positivo ou negativo ao pedido. Do
conjunto de 182 processos, 77% foram negados, 13% não tiverem conhecimen-
to, 8,5% foram concedidos e 1,5% foram prejudicados. Esses dados são muito
significativos, pois nos mostram que praticamente 90% dos pedidos não foram
concedidos. Prosseguiremos na análise, está é apenas uma apresentação inicial da
pesquisa sem maiores aprofundamentos.

44
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Conclusão

Verificamos nessa primeira análise da pesquisa que os dados sinalizam


para maiores questões sobre o tema proposto. Não nos aprofundaremos aqui
nesta tarefa devido as limitações da apresentação. Mas é interessante perceber
como os habeas-corpus nesses seis anos iniciais da década de 1920 se deram
em menor quantidade que nos quatro anos finais, bem como que os pedidos
individuais eram maiores que os coletivos, que a maioria deles eram liberatórios
e não preventivos e que em sua maioria, os pedidos não eram concedidos.

Referências bibliográficas
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de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
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Revista Governança Social, v.3, 2010. (pp.35-40)

45
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A COMPREENSÃO PARLAMENTAR DA SUSPENSÃO


DAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS
CIDADÃOS NO PRIMEIRO REINADO BRASILEIRO:
OS DEBATES SOBRE O §35 DO ART. 179
DA CONSTITUIÇÃO EM 1826, 1829 E 1830

VIVIAN CHIEREGATI COSTA


Doutoranda (CNPq)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo – FFLCH-USP
E-mail: vivian.costa85@gmail.com

História Social do Direito: Continuidades e rupturas.

Palavras-chave: Constituição; Parlamento; Direitos.

Introdução

Entre julho de 1824 e outubro de 1829, dez decretos emitidos pelo Exe-
cutivo brasileiro fundaram-se no dispositivo regulado pelo parágrafo (§) 35 do
artigo 179 da Constituição de 1824 para lidar com circunstâncias consideradas
atentatórias à segurança nacional. Aprovados, respectivamente, na conjuntura da
Confederação do Equador, em 1824 (em Pernambuco e no Ceará), no desenrolar
da chamada “Revolta dos Periquitos”, na Bahia (1824), no contexto da Guerra
Cisplatina, no Sul do país (1825), na sublevação de Afogados, em Pernambuco
(1829), e em consequência das movimentações que, cerca de dois anos mais
tarde, desembocariam na “Revolta de Pinto Madeira”, no Ceará (1829), tais de-
cretos privaram os cidadãos das localidades a que se destinaram de parte ou da
totalidade das formalidades constitucionais que garantiam sua liberdade individual.

O dispositivo constitucional em que se fundaram tais medidas admitia,


nos casos de rebelião, invasão de inimigos e perigo iminente da pátria, a dispensa
das formalidades que garantiam a liberdade individual dos cidadãos brasileiros.
Apesar de, em acordo com dito §35 do art. 179 da Carta de 1824, a prerrogativa
de tal medida pertencer ao Legislativo nacional, sua aplicação pelo Executivo era

47
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

admitida em circunstâncias especiais, prevendo-se a posterior prestação de contas


e responsabilização por quaisquer abusos cometidos em seu decurso.

Abertos os trabalhos do Legislativo nacional, quando seis destes decretos


já haviam sido emitidos, poucos dias se passaram até que a questão entrasse na
pauta dos representantes brasileiros, ocupando-os, com maior ou menor ênfase,
em diferentes conjunturas do Primeiro Reinado. Entre 1826 e 1831, as discussões
parlamentares sobre o §35 do art. 179 foram desenvolvidas, por um lado, sob o
impacto da abertura do legislativo e, por outro, tendo em vistas as posteriores
aplicações deste dispositivo. Daí o destaque aos debates travados em 1826, 1829
e 1830, a serem abordados nesta apresentação.

Se, em 1826, sensibilizados pelos acontecimentos dos anos anteriores – em


especial, a criação de comissões militares nos contextos de aplicação do §35 –,
deputados e senadores do país buscaram plasmar uma compreensão específica
sobre os limites inerentes à aplicação deste dispositivo – retomando interpretações
sobre o mesmo no interior de discussões as mais diversas, como as da lei de
responsabilidade de ministros e conselheiros de Estado e a de abolição dos juízos
privilegiados –, foram surpreendidos, no início de 1829, por novos decretos de
suspensão emitidos pelo Executivo, em tudo dissonantes dos acordos mínimos
firmados no período anterior.

Iniciados os trabalhos parlamentares de 1829, portanto, a questão viria


novamente à tona e com força, despertando contundentes movimentações no
sentido da abertura de denúncias formais, por crime de responsabilidade, contra
os ministros da Justiça e da Guerra do país. Ao final de 1829, impactado pelas
repercussões parlamentares do correr do ano, o Executivo brasileiro aprovaria
novo decreto de suspensão das garantias constitucionais, na província Ceará,
respeitando desta vez, no entanto, a leitura predominante sobre o dispositivo
revelada pelos deputados, concernentes aos limites necessários à sua aplicação.
Tal não impediria, no entanto, que no início do ano parlamentar de 1830, os
debates sobre a questão voltassem à tona na Assembleia nacional, envoltos em
polêmicas e acusações.

Metodologia

Partindo, fundamentalmente, dos registros dos Anais do Parlamento Brasilei-


ro, pretende-se recuperar os debates político-jurídicos travados pelos representantes
do país nos anos 1826, 1829 e 1830 em torno do dispositivo regulado pelo §35
do art. 179 da Carta de 1824. Na análise destes debates, atenção especial será
dada às diferentes interpretações deste dispositivo constitucional, sustentadas por
políticos pertencentes a distintas inclinações políticas, bem como às alterações

48
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

sofridas por tais leituras – ainda no interior de um mesmo grupo – no decorrer


do Primeiro Reinado, a depender das disputas políticas então em jogo.

Paralelamente aos registros dos Anais do Parlamento, far-se-á uso de artigos


publicados pela imprensa do período, bem como de relatórios e ofícios trocados
entre diferentes autoridades – nos âmbitos central e local – do país.

Resultados Parciais

A análise de tais debates e de suas modificações é reveladora não apenas


das inúmeras incertezas e indefinições a cercar a aplicação do §35 do art. 179
no Império do Brasil – haja vista a multiplicidade de interpretações, muitas vezes
contrastantes, sobre este mesmo dispositivo –, mas também dos diversos usos
políticos do texto constitucional empreendidos pelos parlamentares do Primeiro
Reinado.

Destaque seja dado, nesse sentido, ao modo como as discussões sobre


a suspensão das garantias constitucionais dos cidadãos brasileiros relacionaram-se
diretamente às disputas políticas travadas, entre 1826 e 1831, entre o Legislativo
e o Executivo brasileiros, bem como ao modo como, no interior dessas disputas,
fez-se uso do Direito como arma política no interior do Parlamento nacional.

Os meandros de tais contendas, por sua vez, podem ser reconhecidos


nas diferentes tentativas de acusação, por crime de responsabilidade, aos titulares
de pastas ministeriais do período, bem como nos rumos legais que envolveriam
a regulamentação e aplicação do dispositivo de dispensa das garantias constitu-
cionais pelo Império adentro.

Referências bibliográficas
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CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

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50
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

RODRIGUES, José Honório. Atas do Conselho de Estado. Brasilia: Senado Federal,


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51
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A HISTÓRIA DO DIREITO PARA MELHOR


COMPREENSÃO DO PROBLEMA
DA GRILAGEM DE TERRAS DEVOLUTAS

CLÁUDIO GRANDE JÚNIOR


Universidade Federal de Goiás – UFG
Procuradoria-Geral do Estado de Goiás – PGE-GO
E-mail: cgrandejr@gmail.com

Eixo temático – 1. História social do Direito: continuidades e rupturas

Palavras-Chave: Terras Devolutas; Grilagem; História do Direito.

Introdução

Trata-se de texto demonstrativo da imprescindibilidade de estudos e


pesquisas de História do Direito para uma melhor compreensão do fenômeno
da grilagem de terras no território atualmente correspondente ao do Estado de
Goiás e, por extensão, a algumas outras regiões do Brasil.

O texto justifica-se porque, muitas vezes, o estudo jurídico do problema


da grilagem de terras ocorre focado em paradigmas estritamente contemporâ-
neos, com resultados insuficientes para a devida compreensão e enfrentamento
prático das grilagens de terras devolutas, mais especificamente das que ocorreram
calcadas em particularidades da legislação de terras do Império e nas falhas da
normatização registral imobiliária brasileira anterior à Lei de Registros Públicos em
vigor (Lei Federal n.º 6.015, de 1973).

Metodologia

A partir apenas de uma visão jurídica contemporânea não se consegue


compreender razoavelmente o problema jurídico das grilagens de terras devolu-
tas, principalmente das ocorridas até a década de 1970 no território atualmente
correspondente ao Estado de Goiás.

O primeiro erro, muito encontrado no trabalho prático dos operadores


do direito, é o de tentar identificar e questionar supostas antigas grilagens de

53
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

terras com arrimo unicamente na legislação atualmente vigente ou na vigente a


partir da segunda metade do século XX.

Também não proporciona resultados minimamente satisfatórios o estudo


da legislação dos séculos anteriores com as lentes do presente. Neste caso, não
passa de um estudo superficial e até contraproducente, porque o resultado dele
é a extração de um significado atual para textos legais do passado, enquanto o
que se precisa encontrar são os significados extraíveis desses textos em diferentes
momentos do passado e que permearam a cultura e a prática jurídicas vividas e
seus efetivos impactos na sociedade daquelas épocas.

Assim, o adequado enfrentamento do problema exige uma pesquisa muito


mais abrangente. É necessário analisar obras jurídicas de séculos anteriores e os
posteriores trabalhos feitos pelos historiadores do direito, principalmente sobre as
relações de pertencimento entre os seres humanos e as coisas. Ademais, é ne-
cessário ter contato direito com os vestígios do passado, sendo a dimensão mais
tangível disso a colheita de material documental, o que não se restringe a cartas
de sesmarias e registros paroquiais, estendendo-se a antigos autos de processos
judiciais e administrativos, documentos oficiais, provenientes dos ofícios públicos
e, se possível, até mesmo documentos particulares. Por fim, é imprescindível ter
algum conhecimento sobre o processo histórico de povoamento das regiões e
localidades.

Resultados

Em Goiás, na ampla maioria dos casos analisados, não é possível confirmar,


apenas mediante a pesquisa dos registros cartorários de imóveis, a validade da
origem da propriedade privada sobre a terra. Contudo, não se pode automati-
camente deduzir a ocorrência de grilagem de terras unicamente do fato de os
Cartórios de Registro de Imóveis não conseguirem certificar a origem válida da
propriedade territorial privada.

Isso porque a disciplina legal do registro imobiliário brasileiro só foi aper-


feiçoada quanto ao princípio da continuidade registral com o Decreto n.º 18.542,
de 1928. Para piorar, observou-se que, na prática, mesmo décadas depois, referido
princípio seguiu sendo muitas vezes desconsiderado por alguns Oficiais de registro
de imóveis. Além disso, a maioria dos Cartórios de Registro de Imóveis no Estado
de Goiás só foi instalada após 1930. Por outro lado, os registros paroquiais de-
monstram que, nos atuais limites territoriais do Estado de Goiás, a grande maioria
das terras sobre as quais há registros civis de propriedade já se encontravam na
posse de particulares em meados do século XIX. Os registros paroquiais, somados
a outros documentos, tais como escrituras públicas de negociação de terras e
autos judiciais de inventários e partilhas, demonstram que os domínios privados

54
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

sobre boa parte dessas terras foram plena e automaticamente reconhecidos por
força do disposto nos arts. 22 a 27 do Regulamento (Decreto n.º 1.318, de 1854)
da Lei de Terras do Império (Lei n.º 601, de 1850). O problema é que, ao longo
do século XIX, não houve obrigatoriedade do registro imobiliário, no direito bra-
sileiro, para todas as situações de transmissão da propriedade. Tal questão só foi
resolvida muito depois, com o Código Civil de 1916. Daí há um vazio registral
entre as situações fáticas que resultaram na constituição da propriedade territorial
privada e os registros imobiliários existentes. Na maioria dos casos, os títulos que
compõem a cadeia dominial anterior à 1916 estão espalhados em vários cartórios
e fóruns, além de alguns serem meros escritos particulares, conforme permitido
pelo direito pátrio do século XIX e expressamente mencionado no art. 26 do
Regulamento de 1854 da Lei de Terras do Império. Só que, transcorrido tanto
tempo, nem sempre é mais possível uma análise rigorosa disso e, quando sim,
com extrema dificuldade e muita demora. Toda essa situação é evidenciada, em
Goiás, pela análise de fontes primárias e a leitura de fontes secundárias dá conta
de semelhante problema, em outras regiões do país.

Conclusões

É a História do Direito, como ramos saber, que concede uma visão mais
abrangente e diacrônica para melhor compreensão do fenômeno de grilagens de
terras devolutas anteriores à Lei de Registros Públicos vigente, perpetradas em cima
das antigas falhas do direito brasileiro. Sem essa prévia compreensão oferecida pela
História do Direito não é possível identificar e enfrentar eficazmente, na prática,
as referidas situações de grilagem de terras devolutas.

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Rupturas, Crises e Direito

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57
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

CRIMINALIZANDO A POLÍTICA? CONFLITOS


POLÍTICOS EM AÇÕES DE HABEAS CORPUS
JULGADAS PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NO
BRASIL DA PRIMEIRA REPÚBLICA (1894-1920)

RAQUEL R. SIROTTI
Doutoranda
IMPRS-REMEP (International Max-Planck Research School for Retaliation, Mediation and Punishment) [2016-2019]
com contrato doutoral no Instituto Max-Planck para História do Direito Europeu
(Max-Planck-Institut für europäische Rechtsgeschichte) em Frankfurt am Main, Alemanha.
E-mail: raquelsirotti@hotmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processos, penas).

Palavras-chave: conflitos políticos, Supremo Tribunal Federal, criminali-


zação.

A Primeira República é comumente retratada pela historiografia brasileira


como um dos períodos politicamente mais conturbados da história nacional,
quando uma multiplicidade de greves, revoltas e levantes abalavam a integridade
de uma “Nação” que se almejava assentar. Boa parte dos estudos que investigam
a forma como esses conflitos foram de alguma forma reprimidos, contidos ou
administrados pelo governo republicano têm se focado em medidas executivas,
administrativas ou policiais, como é o caso da extradição, da deportação, do estado
de sítio, da intervenção federal, dos inquéritos policiais e dos registros de prisões
para averiguação – para não falar das alterações legislativas que acompanharam
a legitimação desses processos repressivos.23 Mas a forma como a aplicação do
23 Para alguns exemplos (não exaustivos, entretanto), ver: PIVATTO, Priscila Maddalozzo. Discursos sobre o
Estado de Sítio na Primeira República Brasileira: uma abordagem a partir das teorias de linguagem de Mikhail
Bakhtin e Pierre Bourdieu. 172 p. 2006. Dissertação (Mestrado em Direito) – Programa de Pós- graduação em
Teoria do Estado e Direito Constitucional do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do
Rio de Janeiro; GUERRA, Maria Pia dos Santos Lima. Anarquistas, trabalhadores, estrangeiros. A construção do
constitucionalismo brasileiro na Primeira República. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-
Graduação da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, 2011; LEAL, Claudia Feierabend Baeta. Pensiero
e Dinamite – Anarquismo e Repressão em São Paulo nos anos 1890. 2006, 302p. Tese (Doutorado em História)
– Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, 2006; LOPREATO, Christina.
O espírito da revolta: a greve geral anarquista de 1917. 1996, 281p. Tese (Doutorado em História) – Instituto de

59
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

Direito Penal foi adaptada, nos tribunais, por advogados, juízes e promotores
a essas situações de intensa instabilidade política tem sido, entretanto, pouco
explorada. Em outras palavras, apesar de não terem faltado, seja em quantidade
ou variedade, conflitos políticos ao longo desse período, não há muita clareza
quanto à frequência e às circunstâncias em que o Direito Penal (e não o Direito
Policial ou Administrativo) era acionado como resposta jurídica.

A partir dessa constatação, surgem alguns questionamentos sobre as possí-


veis formas de criminalização desses conflitos políticos, que remetem às estratégias
de controle social e administração da justiça criminal na Primeira República. Quais
tipos de crimes eram aplicados (se eram aplicados) nessas situações? Aqueles que
os representantes da doutrina penal costumavam chamar de “crimes políticos”24?
Os que optaram por reunir sob a alcunha de “crimes sociais”? Ou, ao contrário,
predominariam os “crimes comuns” – punidos, em boa parte, com penas mais
altas que os “políticos” –, como o crime de dano, de lesão corporal, de orga-
nização criminosa ou os crimes contra a segurança do trabalho? E mais: quem
chegava a ser de fato processado e julgado pela participação nesses conflitos?
Trabalhadores? Cidadãos brasileiros? Estrangeiros? Jornalistas? Membros do exército?

Neste trabalho – que integra uma pesquisa mais ampla, que venho
desenvolvendo para a escritura de minha tese doutoral – tentarei articular in-
formações que, se não conduzem a respostas válidas para todas as instâncias do
poder judiciário e suas respectivas localidades, ao menos contribuem para que se
compreenda as dinâmicas a orientar certas decisões em um tribunal específico:
o Supremo Tribunal Federal. Dentro desse recorte, usarei a expressão “conflitos
políticos” para definir múltiplos conjuntos de pautas, ações e agentes que foram
percebidos pelos membros do Tribunal como sendo uma ameaça à integridade
dos poderes e instituições estatais. Para mapear os usos do Direito Penal que
emergiram a partir desses acontecimentos, analisarei aproximadamente dez ações
de Habeas Corpus julgadas entre os anos de 1894 e 1920, nas quais é possível
acompanhar discussões sobre a criminalização de temas e atores que compunham
as disputas políticas republicanas.

Os primeiros padrões que emergem dessa análise podem ser divididos em


duas frentes. A primeira aponta para a questão da tipificação, ou da categorização
jurídica das condutas. Os crimes definidos pela doutrina penal como “crimes po-
Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, 1996; ALVES, Paulo. A verdade da repressão:
práticas penais e outras estratégias na ordem republicana (1890-1921). São Paulo: Arte e Ciência, 1997; NUNES,
Diego. Le “Irrequietas Leis de Segurança Nacional”. Sistema Penale e repressione del Dissenso Politico nel Brasile
dell’Estado Novo (1937-1945). Tesi di Dottorato di Ricerca presso l’ Università degli Studi di Macerata, Diparta-
mento di Giurisprudenza, Macerata, 2014.
24 Para informações mais detalhadas sobre esse assunto, bem como sobre a forma como que os juristas
brasileiros atuantes ao longo da Primeira República abordavam teoricamente os crimes políticos, ver: SIROTTI,
Raquel R. Os crimes políticos na doutrina penal brasileira da Primeira República (1889-1930). In: Revista Brasileira
de Ciências Criminais, São Paulo,v.25, n.131, p. 263-298, 2017.

60
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

líticos”, ou que eram classificados pelo procurador autor da denúncia como tais,
não aparecem com muita frequência nos procedimentos, o que parece indicar
que o uso de “crimes comuns” para enquadrar atos cometidos durante conflitos
políticos era bastante comum. A segunda frente conduz à relação entre o status
social dos agentes sob julgamento e o teor das decisões proferidas. Membros
de grupos ou classes sociais mais “privilegiadas”, tendiam, ao que tudo indica, a
obter resultados mais favoráveis em seus julgamentos. Diligências breves, seguidas
da concessão da ordem de habeas corpus, eram os desfechos mais comuns nos
procedimentos que tinham como pacientes membros do Exército, jornalistas e
membros do poder legislativo, por exemplo. Já as longas diligências, seguidas da
negação da ordem de habeas corpus ou da declinação de competência aparecem
como as repostas mais comuns quando se tratava dos pedidos de trabalhadores
fabris, membros de sindicatos e/ou estrangeiros de uma forma geral.

Referências bibliográficas
ALVES, Paulo. A verdade da repressão: práticas penais e outras estratégias na ordem
republicana (1890-1921). São Paulo: Arte e Ciência, 1997
GUERRA, Maria Pia dos Santos Lima. Anarquistas, trabalhadores, estrangeiros. A
construção do constitucionalismo brasileiro na Primeira República. Dissertação de
Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito
da Universidade de Brasília, 2011
LEAL, Claudia Feierabend Baeta. Pensiero e Dinamite – Anarquismo e Repressão
em São Paulo nos anos 1890. 2006, 302p. Tese (Doutorado em História) – Insti-
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Universidade Estadual de Campinas, 1996
NUNES, Diego. Le “Irrequietas Leis de Segurança Nacional”. Sistema Penale e repres-
sione del Dissenso Politico nel Brasile dell’Estado Novo (1937-1945). Tesi di Dottorato
di Ricerca presso l’ Università degli Studi di Macerata, Dipartamento di Giuris-
prudenza, Macerata, 2014
PIVATTO, Priscila Maddalozzo. Discursos sobre o Estado de Sítio na Primeira República
Brasileira: uma abordagem a partir das teorias de linguagem de Mikhail Bakhtin e
Pierre Bourdieu. 172 p. 2006. Dissertação (Mestrado em Direito) – Programa de
Pós- graduação em Teoria do Estado e Direito Constitucional do Departamento
de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
SIROTTI, Raquel R. Os crimes políticos na doutrina penal brasileira da Primeira
República (1889-1930). In: Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo,v.25,
n.131, p. 263-298, 2017.

61
CARDENO DE RESUMOS – História social do Direito: continuidades e rupturas

62
RESUMOS

HISTÓRIA DA CULTURA JURÍDICA


CRIMINAL BRASILEIRA
(CRIME, PROCESSO E PENAS)
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

LUIS JIMÉNEZ DE ASÚA Y BRASIL:


LAS CÁRCELES CARIOCAS ANTE UN “PROTECTOR
DE LOS CRIMINALES”

ENRIQUE ROLDÁN CAÑIZARES


Universidad de Sevilla.
E-mail: enrolcan@gmail.com

Eje temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, pro-


cesso e penas)

Palabras clave: Luis Jiménez de Asúa, Brasil, cárceles.

Introducción: En el año 1927, Luis Jiménez de Asúa es invitado a Río de


Janeiro con el cometido de dictar un ciclo de conferencias. El que fuera consi-
derado como el penalista contemporáneo de lengua española más conocido e
influyente del mundo, queda fascinado con la visita al gigante hispanoamericano1,
y deja constancia de ello en un pequeño trabajo titulado “Un viaje al Brasil”2.
En este texto, además de subrayar la belleza de las ciudades, la frondosidad y
exuberancia de los paisajes naturales y estudiar el modo de vida del brasileño, el
insigne penalista centra buena parte de su atención en el estudio de las cárceles
brasileñas. Analizar e intentar comprender el porqué de la preocupación de Jimé-
nez de Asúa por las condiciones de los presos será el objetivo de este estudio,
tratando de inscribirla en las preferencias e inquietudes intelectuales del autor
por aquellas fechas y en los debates iuspenalistas y penitenciaristas del momento.

Metodología

Para mi objeto de estudio me serviré de tres enfoques metodológicos.


En primer lugar usaré las claves básicas del análisis del discurso, estudiando los
1 La elección del término “Hispanoamérica” no es baladí. Luis Jiménez de Asúa era reacio a utilizar el vocablo
“Latinoamérica”, por considerarla como un apelativo procedente de los franceses que carecía de sentido al no
existir una raza latina propiamente dicha. Al igual ocurre con concepto “Panamerica”, que si bien en una primera
aproximación podría referirse al conjunto de América, a ojos del ilustre madrileño no significa otra cosa que la
expansión de la política “yanqui”. Por ello es partidario de utilizar el término “Hispanoamérica”, en clara referencia
al origen hispánico de los colonizadores de las tierras del centro y sur del continente americano. Vid. “El día
de la Raza”, Escritos, Archivo Luis Jiménez de Asúa 436–17. Fundación Pablo Iglesias.
2 Luis Jiménez de Asúa, Un viaje al Brasil, Madrid, Reus, 1929.

65
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

escritos de Luis Jiménez de Asúa, no solo relativos a su experiencia en Brasil, sino


también aquellos afines al sistema penitenciario, un asunto íntimamente ligado
al fin de la pena. También usaré las herramientas más elementales del análisis
biográfico analizando sus corrientes vitales y su posicionamiento intelectual con
el objetivo de dar encaje al tema estudiado durante la ponencia. Por último, el
estudio será realizado desde el enfoque de la historia social, donde no puedo
dejar de traer a colación las palabras de Albert Soboul, quien dijera que “todo
el dominio de la historia, incluso el más tradicional, pertenece a la historia so-
cial”3. Es por ello que el interés de Jiménez Asúa en los regímenes penitenciarios
en general, y en el brasileño en particular, puede ser enmarcado en un contexto
social de preocupación por los derechos individuales, por la libertad y por la
evolución de la sociedad en un régimen que, aun pretendiéndose liberal, estaba
lejos de garantizar esos derechos.

Resultados

El Luis Jiménez de Asúa que observa Río de Janeiro desde un monte del
Corcovado todavía huérfano de Cristo redentor no alcanza a contemplar el Morro
de Castelo. Este punto clave en el Río antiguo, al igual que otras muchas zonas
de la ciudad, había desaparecido para dejar paso a anchas calles que, atravesando
la metrópoli carioca como haces de luz, habían transformado radicalmente la
fisonomía de una urbe que poco tenía que ver con el Río de Janeiro de siglos
anteriores4.

Sí observa, sin embargo, la Avenida de Río Branco en su incesante conectar


del puerto con el centro neurálgico de la ciudad, al igual que una vez que cae
el sol se fascina por la “larga fila de perlas luminosas [que] se prenden sobre el
mar”5. Se deja absorber por los frondosos jardines de la Avenida de Beiramar, sin
ser plenamente consciente de que con tan solo pasar un túnel se encontraría con
el esplendor de la playa de Copacabana. Se queda embelesado por la localización
idílica de Río de Janeiro, no siendo de extrañar que llegara a considerar la bahía
de Río como la más bella del mundo6.

El Brasil en el que desembarcaba Luis Jiménez de Asúa el 29 de julio de


1927 había sido testigo, casi cuatro décadas atrás, de la caída de un emperador
y de la pacífica llegada de la República; ¡cuánto anhelaría un destino similar para
España, en aquellos momentos presa de las garras de la Dictadura de Primo de
Rivera! Pero hubo un hecho de mayor importancia e impacto para Brasil que el

3 Albert Soboul, “Descripción y medida en historia social”, en L’historie sociale: sources et méthodes (Colloque
de Saint-Cloud), París, 1967, p. 9.
4 Stefan Zweig, Brasil, país de futuro, Salamanca, Capitan Swing, 2012, pp. 182-183.
5 Luis Jiménez de Asúa, Un viaje al Brasil, cit., p. 8.
6 Ibid., p. 7.

66
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

propio cambio de régimen: la I Guerra Mundial. Tuvo que desarrollarse la Gran


Guerra allende los mares para que la industria, y en consecuencia, la economía
brasileña, creciese. La exportación de café, hasta el momento motor principal del
país, se estancó con motivo de la guerra, y surgió la necesidad de una diversificación
que fue dirigida hacia el desarrollo de artículos de producción mecánica y manual,
que hasta el estallido de la conflagración habían sido importados desde Europa7.

Se encontraba nuestro prestigioso penalista en una ciudad que había


experimentado cambios incesantes desde la caída del Imperio Brasileño, una
ciudad en la que, a pesar de las dificultades impuestas por el gobierno de la
dictadura primorriverista8, tendría el honor de dictar un ciclo de conferencias,
del mismo modo que tendría la posibilidad de estudiar la madurez del derecho
penal brasileño y la situación penitenciaria del país, tema que va a ocupar el
desarrollo de esta ponencia.

Si Brasil había evolucionado como país, también lo había hecho Jiménez


de Asúa como penalista. Se encuentra nuestro protagonista en un periodo en el
que ya ha abandonado su adhesión al positivismo, si es que ésta alguna vez fue
certera, tal y como él9, y otros penalistas10 que se dedicaron a escribir sobre su
figura, se encargaron de remarcar en alguna ocasión. Lejos quedaban los elogios
que Enrico Ferri le dedicara como consecuencia de la publicación de su tesis
doctoral La sentencia indeterminada; de hecho, durante los meses en los que
nuestro penalista disfruta de las tierras brasileñas, se produce la ruptura definitiva
con el autor italiano, surgida a raíz de que Jiménez de Asúa acusara a Enrico Ferri
de adhesión al fascismo11.
7 Stefan Zweig, Brasil, país de futuro, cit., p. 139.
8 El gobierno español recriminó al gobierno brasileño el hecho de haber invitado a un “adversario de su
política” y puso trabas, finalmente salvadas por Jiménez de Asúa, al viaje. Vid. Luis Jiménez de Asúa, Un viaje al
Brasil, cit., p. X. Curiosamente, volvería a ocurrir lo mismo en 1949, cuando con ocasión de una invitación para
dictar un ciclo de conferencias en la Universidad de Curitiba, Jiménez de Asúa llegó a perder un avión como
consecuencia de las complicaciones puestas por el “fascista del embajador” español, tal y como le contó a su
buen amigo y colega Mariano Ruíz Funes. Vid., Correspondencia entre Luis Jiménez de Asúa y Mariano Ruíz
Funes de 17 de mayo de 1959, Archivo Luis Jiménez de Asúa 421-43, Fundación Pablo Iglesias.
9 Luis Jiménez de Asúa, Problemas de Derecho Penal, Buenos Aires, La Facultad, 1944, p. 6.
10 Heinz Mattes declara que es innegable la adhesión transitoria de Jiménez de Asúa al positivismo, aunque
de igual modo remarca que fue cuestión de tiempo que declarase la superación del mismo y el anacronismo
de sus teorías. Vid. Heinz Mattes, Luis Jiménez de Asúa, vida y obra, Buenos Aires, De Palma, 1977. Por su parte,
Enrique Bacigalupo comenta que se alcanza un punto en el que el conflicto ideológico entre Jiménez de Asúa
y el positivismo se torna insostenible. Vid. Enrique Bacigalupo, “La teoría jurídica del delito de Jiménez de Asúa
(o el nacimiento de la dogmática penal de habla castellana”, en La teoría jurídica del delito, Dykinson, 2005.
11 El conflicto que acabó con la amistad entre Jiménez de Asúa y Ferri, así como con la adhesión del primero,
por somera que fuese, al positivismo, surge a raíz de una carta que envía Jiménez de Asúa a su colega italiano
en octubre de 1926. Esta carta, que entre otros aspectos criticaba el paso de Ferri a las filas del fascismo, dio
lugar a un duro epistolario que fue publicado en el diario La Prensa de Argentina, y que concluiría, curiosamente,
con una carta enviada por Jiménez de Asúa el 2 de octubre de 1927, al poco tiempo de volver de Brasil. De
este modo podemos deducir que el viaje a Brasil fue utilizado por Jiménez de Asúa como un periodo para
reflexionar sobre el conflicto con el maestro italiano; son tres meses los que transcurren entre las dos últimas
cartas escritas por Jiménez de Asúa, tiempo que utilizó para meditar una respuesta que acabó cortando de
raíz toda relación con el positivismo y con Ferri. Vid. Luis Jiménez de Asúa, Política, Figuras, Paisajes, Madrid,

67
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Pero del mismo modo que había abandonado el positivismo, todavía


no podemos decir que Jiménez de Asúa hubiera penetrado en el campo de la
dogmática penal, algo que no ocurriría, con algunos matices12, hasta la lectura
del discurso de inauguración del año académico de 1931 – 1932. La Teoría Jurí-
dica del delito13 veía la luz y con ella la primera exposición en castellano de un
sistema dogmático moderno del derecho penal, lo que supondría la apertura de
una nueva etapa en la penalística española14.

El periodo que transcurre entre la publicación de su tesis doctoral y


el abrazo a la dogmática, que para Jiménez de Asúa no era sino el verdadero
baluarte en pos de la defensa de las libertades y garantías ciudadanas15, está
marcado por dos factores: el contacto con Franz von Lizt, Alfred Gautier, Gustav
Aschaffenbung, Emile Garçon y Johan Thyren gracias a la beca obtenida de manos
de la Junta de Ampliación de Estudios; y la dedicación al estudio del trabajo de
Dorado Montero, a quien admiró profundamente16, a pesar de que nunca llegó
a conocerlo en persona, llegando a tomar su construcción del Derecho Protector
de los Criminales17 como propia.

La influencia de las doctrinas de Dorado Montero cuyo ataque al principio


de legalidad, no para derribarlo, sino para reubicar el pensamiento penal sobre
unas bases democráticas tal y como ha apuntado Sebastián Martín18, encajaba
perfectamente con la tradición krausista española, hizo que Jiménez de Asúa
concibiera la ciencia penal como una “ciencia de la reforma del derecho penal”19.
Comenzaba por entonces nuestro autor a concebir el derecho penal como una

Historia Nueva, 1927, pp. 91 y ss.


12 A pesar de que La Teoría Jurídica del Delito se considera como el primer acercamiento de Jiménez de Asúa
a la dogmática, en 1929 y en 1930 dictó, en las ciudades de Santa Fe y Montevideo respectivamente, cursos
en los que estudió la doctrina técnica del delito. Vid. Luis Jiménez de Asúa, Problemas de Derecho Penal, cit.,
pp. 5-6.
13 Luis Jiménez de Asúa, La teoría jurídica del delito, Madrid, Dykinson, 2005.
14 Enrique Bacigalupo, “La teoría jurídica del delito de Jiménez de Asúa (o el nacimiento de la dogmática penal
de habla castellana)”, cit., p. VII.
15 Sebastian Urbina Tortella, Ética y política en Luis Jiménez de Asúa, Palma de Mallorca, Facultad de Derecho,
1984, p. 15.
16 Son muchos los escritos que Jiménez de Asúa dedicó a recuperar la memoria y el trabajo de Dorado
Montero. Entre ellos podemos destacar Luis Jiménez de Asúa, “Don Pedro Dorado Montero”, en El Criminalista,
Tomo III, Buenos Aires, TEA, 1949 o Luis Jiménez de Asúa, “El drama silencioso de una vida sabia: Pedro Dorado
Montero”, en El Criminalista, Tomo IV, TEA, 1944.
17 Una idea clave en el pensamiento de Dorado Montero gira en torno a la función penal, la cual debía ser
preventiva y preservadora. Consideraba el catedrático salmantino que lo importante en la prevención de los
delitos era alcanzar la voluntad del delincuente, algo que solo podría hacerse mediante el tratamiento terapéutico
del mismo. Es en este punto cuando en la teoría de Dorado Montero entran en juego instituciones como la
sentencia indeterminada o la condena condicional, enmarcadas por supuesto en un contexto en el que las
cárceles pasarían a tener una función completamente distinta a las desempeñadas hasta el momento.
18 Sebastián Martín, “Penalística y penalistas españoles a la luz del principio de legalidad (1874-1944), en
Quaderni Fiorentini, 36, 2007, pp. 535.
19 Enrique Bacigalupo, “La teoría jurídica del delito de Jiménez de Asúa (o el nacimiento de la dogmática penal
de habla castellana”, cit., p. X.

68
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

herramienta para cambiar el mundo, algo que no tardaría en conectar con sus
ideas socialistas.

Este es el marco penal y académico en el que se desenvuelve Jiménez de


Asúa cuando visita Brasil en 1927, no siendo de extrañar su inquietud e interés
por el régimen penitenciario brasileño, del que ya había dado muestras en obras
como La sentencia indeterminada20, El estado peligroso21, La política criminal en las
legislaciones europeas y norteamericanas22 y La unificación del derecho penal en
Suiza23. Este hecho, unido a la admiración profesada hacia Dorado Montero y el
acatamiento del horizonte reformista de su obra, hace que podamos contextualizar
y dar sentido a los estudios de Jiménez de Asúa sobre la Casa de Corrección de
Río de Janeiro; la penitenciaria de Sao Paulo, la cual consideró como ejemplo a
seguir; y el tratamiento de los menores abandonados y los delincuentes en Brasil24.

Conclusión

Cuando Luis Jiménez de Asúa viaja a Brasil en el año 1927 se encuentra


en una etapa en la que ha roto casi por completo con el positivismo y en el
que todavía no se ha entregado plenamente a la dogmática penal. Se coloca en
un punto en el que, influenciado por la doctrina de Dorado Montero, conside-
ra la ciencia penal como una herramienta útil para reformar la sociedad. Esta
preocupación social es focalizada en la consecución de un sistema judicial en el
que sean respetados las garantías procesales y las libertades individuales y en el
que el fin último no sea la represión sino la prevención, y si fuera necesaria, la
resocialización. Esta preocupación, que ya aparecía en La sentencia indeterminada,
y que se vivifica al amparo de las teorías de Dorado Montero, es la que explica
el interés en conocer la realidad de las cárceles brasileñas. Un interés mostrado
desde que, embarcado en el Re Vittorio, Jiménez de Asúa observara por primera
vez cómo las luces de la luminosa Río de Janeiro quebraban las tinieblas de la
noche americana, unas tinieblas que cruzarían el Atlántico para escasos años
después obligarle a volver a América, la tierra en la que, tras una vida dedicada
al derecho penal, la parca le fue a buscar.

20 Luis Jiménez de Asúa, La sentencia indeterminada, Madrid, Reus, 1913, pp. 99-111.
21 Luis Jiménez de Asúa, El estado peligroso, Madrid, Imprenta de Juan Pueyo, 1922, pp. 86-98.
22 Luis Jiménez de Asúa, La política criminal en las legislaciones europeas y norteamericanas, Madrid, Librería
General de Vitoriano Sáez, 1918, pp. 151-236.
23 Luis Jiménez de Asúa, La unificación del derecho penal en Suiza, Madrid, Reus, 1916, pp. 352-366.
24 Luis Jiménez de Asúa, Un viaje al Brasil, cit., p. 117-147.

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IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O CRIME DA RUA DA AURORA

MÔNICA MARIA DE PÁDUA SOUTO DA CUNHA


Doutoranda em História pelo Programa de Pós-graduação
em História da Universidade Federal de Pernambuco (PPGH-UFPE)
Memorial da Justiça do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE)
E-mail: monica.paduasc@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: Direito criminal; Império do Brasil; Tribunal da Relação


de Pernambuco.

Introdução

Em 1883, na província de Pernambuco, ocorreu um crime que abalou a


cidade do Recife. Os jornais locais chamaram o episódio de Crime da Rua da
Aurora.

O caso foi de homicídio de uma menina de 15 anos de idade, qualificada


nos autos25 como “preta menor”, de nome Esperança. A autora do crime teria
sido sua antiga proprietária, que tinha alforriado a menor, sua ex-escrava, e esta
continuava vivendo sob o mesmo teto da senhora, trabalhando na sua casa, na
Rua da Aurora, nº 3. A ré teve como cúmplice um de seus escravos, chamado
Felisbino, de 19 anos, que foi também acusado no processo criminal.

O que salta aos olhos nesse processo é a discussão relacionada ao que era
ou não permitido como castigo na época, o que era considerado como ordinário
e o que poderia ter sido fora do comum, posto que essa determinação foi muito
importante para estabelecer o nexo de causalidade entre o ato praticado contra
a vítima e a sua morte. Para isso foi realizada uma perícia pormenorizada, em
um texto escrito. Inclusive há nos autos dois desenhos. Um deles onde aparece
o local do crime e a vítima, na posição em que foi castigada, e o outro é uma

25 BR PEMJ TR PJUD AP 1883.12.17, Ação Penal. Memorial da Justiça TJPE, Tribunal da Relação de Pernambuco,
Ano de 1883, caixa 1215. Ação Penal, Recife. 1883-1885. Autor: A Justiça. Réus: Herculina Adelaide de Siqueira
e Felisbino, escravo de D. Herculina Adelaide de Siqueira.

71
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

planta baixa da casa em que vivia. Vale salientar que imagens são muito raras
em processos judiciais desse período e, desenhos de suplícios, mais raros ainda.

Importante ressaltar que esse caso pode ser considerado peculiar para a
pesquisa sobre o Direito Criminal no período imperial. Ele foi noticiado em muitos
jornais locais, por isso é fácil entender que houve pressão popular durante todo
o decorrer do processo, numa época bem perto da abolição da escravidão no
Brasil. Dessa maneira, nesse cenário verifica-se como se comportaram os órgãos
investigadores e julgadores durante todo o tempo e de que forma a legislação
foi aplicada para realizar a prestação jurisdicional, como também fica evidenciada
a rotina de uma família com escravos no Recife do final do Oitocentos.

Metodologia

Foi realizado o tratamento crítico da fonte judicial e discutido o conteúdo


prático dado à legislação – genéricos, impessoais e abrangentes – pelas autoridades
judiciais, em relação à sua coerência com a sociedade escravista, comparando a
lei e suas penas e as decisões.

A fonte primária judicial da província de Pernambuco foi analisada com


relação à prática das autoridades policiais e judiciais. O Direito foi observado por
meio de sua linguagem particular, pois cada corpus documental tem produtores
e destinatários distintos na área jurídica.

Resultados parciais da pesquisa

O processo criminal analisado apresentou a mulher como protagonista,


lugar incomum naquele contexto histórico, onde o perfil do criminoso, testemunha
e informante era masculino, exceto para os crimes em que a mulher obrigatoria-
mente deveria ser o sujeito ativo ou passivo. Observe-se que a ré, as principais
testemunhas e informantes, bem como a vítima e até quem deu a notícia sobre
o crime à Polícia eram mulheres.

O delegado representou à autoridade judiciária, com base dos docu-


mentos, depoimentos e informações coletadas para formação de culpa e prisão
preventiva de Herculina como autora do homicídio e Felisbino como cúmplice,
baseando-se na legislação brasileira para isso, especificamente nos termos da lei

72
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

nº 2.033 de 20/09/1871 artigo 18, § 2º, segunda parte26, e do decreto nº 4.824


de 22 novembro de 1871, artigo 2927.

Importante analisar o papel do perito para a decisão do magistrado,


elaborando documento fruto de um trabalho meticuloso, que concluiu que a
causa mortis de Esperança foi asfixia por estrangulamento, pela pressão das mãos.
Quanto aos desenhos acostados aos autos, foram solicitados pelo magistrado
para entender melhor como a vítima foi castigada, colocando-a no local do
crime, o que também terminou por inserir no processo uma planta baixa da
casa. Como disseram Pires e Santana (2013), a imagem é usada como parte da
reconstituição do crime.

Ainda sobre a decisão do juiz, saliente-se que, na sua sentença de pronúncia,


ele sentiu a necessidade de esclarecer sobre o porquê de ter dado tanto crédito
às informações prestadas por escravos, em detrimento do que foi afirmado por
testemunhas juradas, que defendiam a ré. Explicou o magistrado que as declarações
contidas nos autos foram corroboradas pelo exame cadavérico apresentado pela
perícia. Afirmou que escravos podem ser considerados informantes se estiverem
de acordo com o artigo 8928 do Código de Processo Criminal. O magistrado
pronunciou os réus, usando o artigo 94 do Código de Processo Penal de 183229
para o caso da confissão do escravo, considerado cúmplice do crime, e condenou
a ré, Herculina, como incursa no art. 19330 do Código Criminal e Felisbino no
mesmo artigo, com referência ao artigo 3431 do citado Código.
26 Art. 18. Os Juizes de Direito poderão expedir ordem de habeas-corpus a favor dos que estiverem illegal-
mente presos, ainda quando o fossem por determinação do Chefe de Policia ou de qualquer outra autoridade
administrativa, e sem exclusão dos detidos a titulo de recrutamento, não estando ainda alistados como praças
no exercito ou armada. A superioridade de grão na ordem da jurisdicção judiciaria é a unica que limita a
competencia da respectiva autoridade em resolver sobre as prisões feitas por mandado das mesmas autori-
dades judiciaes. § 2º Não se poderá reconhecer constrangimento iIlegal na prisão determinada por despacho
de pronuncia ou sentença da autoridade competente, qualquer que seja a arguição contra taes actos, que só
pelos meios ordinarios podem ser nullificados.
27 Art. 29. Ainda antes de iniciado o procedimento da formação da culpa ou de quaesquer diligencias do
inquerito policial, o Promotor Publico, ou quem suas vezes fizer, e a parte queixosa poderão requerer, e a
autoridade policial representar, acerca da necessidade ou conveniencia da prisão preventiva do réo indiciado
em crime inafiançavel, apoiando-se em prova de que resultem vehementes indicios de culpabilidade, ou seja
confissão do mesmo réo ou documento ou declaração de duas testemunhas; e, feito o respectivo autuamento,
a autoridade judiciaria competente para a formação da culpa, reconhecendo a procedencia dos indicios contra
o arguido culpado e a conveniencia de sua prisão, por despacho nos autos a ordenará, ou expedindo mandado
escripto, ou requisitando por communicação telegraphica, por aviso geral na imprensa ou por qualquer outro
modo que faça certa a requisição.
28 Art. 89. Não podem ser testemunhas o ascendente, descendente, marido, ou mulher, parente até o segundo
gráo, o escravo, e o menor de quatorze annos; mas o Juiz poderá informar-se deles sobre o objecto da queixa,
ou denuncia, e reduzir a termo a informação, que será assignada pelos informantes, a quem se não deferirá
juramento. Esta informação terá o credito, que o Juiz entender que lhe deve dar, em attenção ás circumstancias.
29 Art. 94. A confissão do réo em Juizo competente, sendo livre, coincidindo com as circumstancias do facto,
prova o delicto; mas, no caso de morte, só póde sujeital-o á pena immediata, quando não haja outra prova.
30 Art. 193. Se o homicídio não tiver sido revestido das referidas circunstâncias agravantes. Penas – de galés
perpétuas no grau máximo; de prisão com trabalho por doze anos no médio; e por seis no mínimo.
31 Art. 34. A tentativa, á que não estiver imposta pena especial, será punida com as mesmas penas do crime,
menos a terça parte em cada um dos gráos. Se a pena fôr de morte, impôr-se-ha ao culpado de tentativa no

73
O promotor, em seu libelo, considerou que o crime foi praticado por
“motivo frívolo” e que a ré tinha superioridade de forças, de maneira que a
vítima não poderia “se defender para repelir a ofensa”, a fim de que isso fosse
e foi usado para os quesitos do Júri e o conteúdo de sua resposta aplicada na
dosimetria da pena.

No mesmo caminho do pensamento de Ilmar de Mattos (1991), e de


Campos (2003, p. 127), que acreditam que o temor gerado na elite com os
movimentos dos escravos ou homens “de cor” gerou uma elevada preocupação
jurídica e policial, e mais, que as elites locais, para controlar as populações de
cor, livre e cativa, além das leis, também usavam dos castigos para impor, pela
força, esse controle, pode-se entender que existia um limite muito tênue entre o
castigo tolerado e aquele não aceito, como no caso de Esperança, que chegou
a causar a sua morte.

Conclusão

Só Felisbino foi julgado. Herculina alegou doença, conseguiu a concessão


de um habeas corpus e não compareceu ao Júri. O escravo foi condenado no
grau médio do artigo 193 do Código Criminal combinado como o artigo 3532. O
juiz decidiu pela pena de 80 (oitenta) açoites e ferro ao pescoço por 4 (quatro)
meses e as custas a serem pagas pela proprietária do escravo, a ré.

Muitas forças atuaram no desenrolar da história desse processo judicial.


A autora era de família abastada e tradicional da região; a imprensa e os movi-
mentos pró-abolição estavam acompanhando tudo, inclusive pelos jornais locais;
a Polícia e a Justiça tinham um arsenal de leis que ainda estavam regulando um
período escravocrata.

Quanto aos castigos, é muito discutido no processo, especialmente nos


depoimentos das testemunhas, o que era aceito na sociedade e o que era conde-
nado. Fica claro que ainda no final do século XIX, perto da abolição, era comum
se castigar as pessoas “de cor”, fossem elas escravas ou libertas, dependentes que
ainda eram dos antigos proprietários e os tipos de suplicio eram tão fortes, que
poderiam levar à morte, como foi o caso descrito neste trabalho.

mesmo gráo a de galés perpetuas. Se fôr de galés perpetuas, ou de prisão perpetua com trabalho, ou sem elle,
impor-se-ha a de galés por vinte annos, ou de prisão com trabalho, ou sem elle por vinte annos. Se fôr de
banimento, impôr-se-ha a de desterro para fóra do Imperio por vinte annos. Se fôr de degredo, ou de desterro
perpetuo, impôr-se-ha a de degredo, ou desterro por vinte annos.
32 Art. 35. A cumplicidade será punida com as penas da tentativa; e a cumplicidade da tentativa com as
mesmas penas desta, menos a terça parte, conforme a regra estabelecida no artigo antecedente.
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Referências bibliográficas
CAMPOS, Adriana Pereira. Nas barras dos tribunais: Direito e escravidão no Espírito
Santo do século XIX. Rio de Janeiro: O autor, 2003. 278 f. Tese (Doutorado em
História). UFRJ/IFCS, 2003.
MATTOS, Ilmar Rohloff; GONÇALVES, Márcio de A. O império da boa sociedade:
a consolidação do estado imperial brasileiro. São Paulo: Atual, 1991.
PIRES, Antonio Liberac Cardoso Simões. SANTANA, Clíssio Santos. Nas Amarras
da tortura: Fontes textuais e imagens sobre poder e violência em Recife Oito-
centista. Revista de História Comparada, volume 7, número 2, Dezembro, 2013.
Disponível em: <http://www.hcomparada.historia.ufrj.br/revistahc/artigos/volu-
me007_Num002_documento001.pdf>. Acesso em: 25 Jun 2017.

Fonte: BR PEMJ TR PJUD AP 1883.12.17, Ação Penal. Memorial da Justiça TJPE,


Tribunal da Relação de Pernambuco, Ano de 1883, caixa 1215, p. 154.

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IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

CORRUPÇÃO EMPRESARIAL NO BRASIL


REPUBLICANO: A CORDIALIDADE BRASILEIRA
NAS RELAÇÕES ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

ANNA FLÁVIA ARRUDA LANNA BARRETO


Professora Adjunta do Centro Universitário UNA, Doutora em História (UFMG)
E-mail: annaflav@prof.una.br

NATÁLIA SILVA TEIXEIRA RODRIGUES DE OLIVEIRA


Professora Adjunta do Centro Universitário UMA, Doutora em Direito (UFMG)
E-mail: nataliastroliveira@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (Crime,


processo e penas)

Palavras-chave: Corrupção; Brasil Republicano; cultura da cordialidade;


direito penal empresarial.

O objetivo da pesquisa é realizar um resgate dos casos de corrupção


empresarial durante o período republicano brasileiro pós 1964, sobretudo os
casos envolvendo grandes obras de infraestrutura, transporte, construção civil e
extração de recursos naturais e minerais. O principal impacto dessa pesquisa
está na construção de uma retrospectiva histórica do fenômeno da corrupção
no Brasil, a fim de explicar a relação entre os fatores sociais, políticos e culturais
que condicionaram a maneira peculiar do brasileiro de tratar a corrupção. Outro
impacto desejável é a verificação da possibilidade de adoção de práticas admi-
nistrativas inovadoras, tanto nas empresas públicas como privadas, que busquem
minimizar a ocorrência de práticas ilícitas que alimentam o fenômeno da corrupção
no Brasil e causam prejuízo ao erário público.

A relevância dessa pesquisa está na análise das causas da corrupção no


Brasil e na verificação da legislação vigente sobre o tema, mas sobretudo, na
identificação dos fatores culturais e morais que condicionam sua frequência e
assiduidade nas esferas públicas e privadas. Acreditamos que a identificação des-
ses fatores poderá fomentar elementos para um questionamento crítico e ético,
das nossas ações como cidadãos de direitos e deveres, compromissados com a
efetivação dos direitos fundamentais e a conquista da cidadania plena.

77
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

A metodologia adotada será a pesquisa bibliográfica e jurisprudencial


sobre corrupção no Brasil republicano, buscando mapear casos de corrupção
empresarial no Brasil e, sobretudo, em Minas Gerais. São resultados esperados
da pesquisa a explicação dos condicionantes que moldam o “jeito peculiar” do
brasileiro tratar a corrupção e tornam imprecisos os limites entre o público e o
privado nas inter-relações sociais e políticas. Um dos impactos dessa pesquisa
está na análise das causas da corrupção no Brasil e na verificação da legislação
vigente sobre o tema, mas sobretudo, na identificação dos fatores culturais e
morais que condicionam a corrupção no Brasil, sua frequência e assiduidade nas
esferas públicas e privadas, tendo como referência as reflexões de Sérgio Buarque
de Holanda na obra “Raízes do Brasil” e Raimundo Faoro na obra “Os donos do
poder: formação do patronato político brasileiro”, possibilitando um questiona-
mento crítico e ético das nossas ações como cidadãos.

A corrupção no Brasil não é uma prática recente. Suas mazelas datam da


época da colonização, quando das relações dos primeiros colonos com a Metró-
pole portuguesa. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho (2009, p. 18) “a
colonização foi um empreendimento do governo colonial aliado a particulares”.
Desde o século XVI, a conquista da América contou com práticas ilegais de fis-
calização e controle das relações comerciais desenvolvidas na colônia, baseadas no
monopólio comercial, que determinava a comercialização restrita da colônia com
a Metrópole, visando a obtenção de lucros exclusivos para esta. Os funcionários
da Metrópole, encarregados de fiscalizar o contrabando e demais transgressões
contra a coroa, praticavam o comércio ilegal de mercadorias brasileiras (como o
pau-brasil, o ouro, o diamante e o tabaco), que acabavam sendo repassadas para
os contrabandistas (BIASON, 2009). As grandes dimensões territoriais da colônia
e a dificuldade enfrentada pela Coroa portuguesa em fiscalizar essas práticas
possibilitaram sua continuidade e seu desenvolvimento durante todo o período
colonial. Sobre este aspecto, as práticas corruptas tornavam-se possíveis graças à
ineficácia da coroa portuguesa em controlar as relações comerciais e judiciais, à
falta de controle das autoridades na prestação de contas, à ineficiência na punição
dos envolvidos e ao descumprimento das leis pelos próprios funcionários reais.

Nos autos da devassa, o mais famoso da história colonial brasileira, de-


corrente da Inconfidência Mineira, as relações espúrias entre o “ouro” e o poder
público já demonstraram ser uma realidade bem presente até os dias de hoje.
Aqueles que participaram da insurreição, mas que faziam parte das elites mineiras,
tiveram penas mais brandas ou foram perdoados. Alguns deles, inclusive, lançan-
do mão de um procedimento bem conhecido atualmente, a delação premiada,
não só se livraram da pena, como ainda receberam inegáveis benefícios, como o
famoso delator Joaquim Silvério dos Reis e o abastado sesmeiro das Minas Gerais
Inácio Corrêa Pamplona. Com certeza, pagaram caro pela liberdade. Tiradentes, o
nosso herói símbolo nacional, como era um simples alferes e sem muitos recursos,

78
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

foi o único condenado à forca, esquartejado e considerado o maior traidor da


Coroa Portuguesa.

O processo de independência do Brasil deu-se via uma negociação entre


a elite nacional, a coroa portuguesa e a Inglaterra. Em 1822, D. João VI aceita a
independência do Brasil mediante o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas
à coroa portuguesa. As elites brasileiras adotaram a monarquia como forma de
governo, mantendo o povo brasileiro como mero espectador do processo. A
ausência de transparência nas relações políticas durante o período imperial, pos-
sibilitou o surgimento de outras formas de corrupção no cenário nacional. Uma
delas diz respeito à manutenção do tráfico negreiro, embora as elites nacionais
tivessem assinado um acordo com a Inglaterra para aboli-lo, em troca de seu
apoio no processo de independência. A inexistência de um controle eficaz do
tráfico negreiro se deve, em parte, aos lucros obtidos pelos subornos e propinas
recebidos por todos os participantes. A origem da expressão “lei para inglês ver”
é atribuída ao período imperial quando foram criadas, pelo governo brasileiro,
uma série de leis que, teoricamente, impediam o comércio de escravos no Brasil,
mas que na prática não eram cumpridas. Essas leis foram criadas somente para os
ingleses pararem de pressionar as autoridades brasileiras quanto ao cumprimento
do acordo firmado.

A primeira Constituição do Brasil, outorgada em 1824, estabeleceu os


três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, e criou um quarto poder, o Poder
Moderador, que era privativo do Imperador, como vestígio do absolutismo por-
tuguês. Além disso, a Carta regulou os direitos políticos dos cidadãos brasileiros
e definiu o direito ao voto, permitido a todos os cidadãos homens a partir dos
25 anos, com renda mínima de 100 mil réis. As mulheres e os escravos não eram
considerados cidadãos, já os libertos poderiam votar nas eleições primárias. As
eleições eram indiretas e feitas em dois turnos. No primeiro, os votantes esco-
lhiam os eleitores, que deveriam ter renda de 200 mil réis, e esses escolhiam os
senadores e deputados. As eleições primárias eram tumultuadas e muitas vezes
eram decididas no grito. Nesse período, sugiram vários especialistas em burlar
as eleições. O principal deles foi o cabalista, a quem cabia garantir um maior
número possível de eleitores partidários de seu chefe local. Era responsabilidade
do cabalista oferecer a prova da renda mínima legal exigida para o eleitor. Cabe
ressaltar que essa prova poderia valer-se de um testemunho pago para dizer que
a renda do votante tinha aspecto legal.

Após a proclamação da República, em 1889, as fraudes eleitorais se so-


fisticaram. Com a adoção do federalismo, os presidentes das antigas províncias
passaram a ser eleitos pela população. A descentralização política tinha como
objetivo aproximar o governo da população, via eleições de presidentes de estado
(hoje, os governadores) e prefeituras. Essa aproximação se deu sobretudo com

79
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

as elites locais, apoiadas em partidos únicos. As práticas eleitorais continuaram


fraudulentas com o voto podendo ser fraudado na hora de ser lançado na urna,
na apuração ou mesmo durante o reconhecimento do eleito. Os grandes latifun-
diários, apelidado de “coronéis”, impunham, de forma coercitiva, o voto desejado
aos seus empregados e dependentes. Era o chamado voto de “cabresto”. Além
dessa, outras formas de corrupções eleitorais eram praticadas, tais como o voto
comprado e a “eleição a bico de pena”. No primeiro caso, o votante vendia o
voto em troca de um par de sapatos, por exemplo. O comprador entregava
um pé de sapato no dia da eleição e o outro pé após apurado o resultado das
eleições. Caso o candidato do comprador não ganhasse, o votante ficaria apenas
com um pé de sapato. A “eleição a bico de pena” acontecia após a apuração do
resultado das eleições e durante o reconhecimento do eleito. Nas atas eleitorais,
eram incluídos como votantes as pessoas mortas e inexistentes. Nesse caso, os
resultados eleitorais eram absurdos, sem nenhuma relação com o número efetivo
de eleitores (LESSA, 1988).

Na República Nova, as disputas eleitorais presidenciais de 1929 contaram


com uma inusitada reviravolta do resultado final. A disputa entre o candidato
das oligarquias cafeicultoras paulistas Júlio Prestes e Getúlio Vargas, candidato dos
setores insatisfeitos com a tradicional política do “café com leite”, que garantia
a alternância do poder executivo ora com um representante de São Paulo ora
com um representante de Minas Gerais, foi marcada por acusações de fraudes
por parte da aliança liberal levando à presidência da República o candidato der-
rotado Getúlio Vargas, embora os resultados eleitorais registrassem a vitória do
candidato Júlio Prestes com 1 milhão e cem mil votos contra 737 mil alcançados
por Getúlio Vargas (GOMES, 1988).

A corrupção, para além do aspecto penal, implica em práticas de subor-


no com o objetivo de corromper alguém ou obter favores de alguma pessoa
por meios ilícitos. Seu uso não se restringe às esferas política e econômica, ele
está inserido em práticas culturais cotidianas que denigrem as relações sociais e
legitimam a tolerância a determinados casos de corrupção. Uma das explicações
mais aceitas pelos estudiosos sobre o fenômeno da corrupção no Brasil é a nossa
herança patrimonialista ibérica. Segundo Raimundo Faoro, no patrimonialismo
não há distinção por parte dos líderes políticos entre o patrimônio público e o
privado, tese também defendida por Sérgio Buarque de Holanda. Mediante essa
prática, os representantes do legislativo brasileiro consideram os cargos políticos
e o Estado como patrimônio privado. Práticas como esta permitem que parentes
de políticos, sem qualquer preparo ou mérito, sejam escolhidos para cargos de
confiança na administração pública ou que empresas financiadoras de campanhas
eleitorais vençam licitações públicas.

80
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O fenômeno da corrupção não é exclusivo do Brasil ou dos tempos


recentes. Ele é fruto de uma complexidade de processos sociais e históricos que
apresentam peculiaridades em cada país e sociedade. Uma das maneiras mais
eficientes de combate a corrupção é o investimento na transparência das infor-
mações com relação ao uso dos recursos públicos e na educação consciente,
baseada em uma moral ética e correta, capaz de orientar as pessoas a realizarem
escolhas livres de vícios imorais e tendenciosos. Como já dizia João Ubaldo Ri-
beiro (2011) “nós sabemos de tudo e não somos bobos, somos apenas omissos,
submissos, cínicos e cada vez mais moralmente insensíveis – ninguém é perfeito”.

Referências bibliográficas
BIASON, Rita; JAF, Ivan. De olho na Corrupção. São Paulo: Ática, 2009.
CARVALHO, José Murilo. Cidadania do Brasil. 12. Ed. Rio de Janeiro: Civilização
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estao-querendo-enganar-quem/. Acesso em 25 nov. 2016.

81
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

“LA EXPORTACIÓN DEL PENITENCIARISMO


JUSTICIALISTA: ROBERTO PETTINATO Y LA
PRIMERA REUNIÓN PENITENCIARIA BRASILEÑA
(RÍO DE JANEIRO, NOVIEMBRE DE 1952)

JORGE ALBERTO NÚÑEZ


CONICET (Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Tecnológicas, Argentina).
INHIDE (Instituto de Investigaciones de Historia del Derecho, Buenos Aires).
E-mail: jorgealber75@gmail.com

Eje temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, pro-


cesso e penas). Coordinadores: Luís Fernando Lopes Pereira (UFPR); Clara Maria
Roman Borges (UFPR); Ricardo Sontag (UFMG); Diego Nunes (UFSC).

Palabras clave: Pettinato-Reforma penitenciaria argentina-Brasil.

Introducción

En los últimos años, la historiografía jurídica y social argentina se abocó al


estudio de la política penitenciaria impulsada durante el primer gobierno peronista
(1946-1955). Además de los pioneros trabajos de Lila Caimari, cabe destacar las
obras de José Daniel Cesano y Jeremías Silva, quienes han abordado de manera
muy sagaz la labor de Roberto Pettinato, Director General de Institutos Penales de
la Nación. Estas exploraciones sobre el modo de castigar durante el peronismo se
insertan en una literatura que estudia los orígenes del primer peronismo (relación
con los intelectuales, políticas de vivienda, maternidad, infancia, democratización
del bienestar, tiempo libre y ocio, etc.) así como en las investigaciones que indagan
en la importancia de estudiar las segundas líneas en el peronismo.

En el tema carcelario se han realizado importantes contribuciones que dan


cuenta de la “humanización” del castigo que produjo el peronismo (alimentación,
salud, sexualidad -a través de las visitas íntimas- deporte, actividades culturales,
preparación técnica de los reclusos, creación del Régimen Atenuado de Disci-
plina, etc.); las políticas dirigidas al Cuerpo de Guardiacárceles (organización y
jerarquización del personal penitenciario, creación de la Escuela Penitenciaria de

83
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

la Nación, equiparación con otros cuerpos del Estado, beneficios materiales) y las
transformaciones “simbólicas” producidas (eliminación del traje a rayas, cierre del
tenebroso Presidio de Ushuaia, conocido como la Siberia criolla, etc.).

Por otro lado, la bibliografía especializada subraya la utilización que hizo el


peronismo de la prisión y la aplicación de malos tratos a los presos políticos (en
especial, comunistas, pero también radicales y socialistas). Así, mientras los presos
comunes habrían atravesado una etapa de notable mejora y bienestar, los presos
políticos, opositores al régimen, sufrieron grandes penurias.

Por último, se afirma que hubo una clara continuidad entre la ideología
carcelaria peronista y el ideario rehabilitador de la criminología positivista de fines
del siglo XIX, esto es, el derecho del Estado a privar de la libertad a un indivi-
duo y aprovechar ese lapso de tiempo para someter al penado a un régimen
coercitivo de disciplina, trabajo y educación con la finalidad de recuperarlo para
la futura vida en sociedad.

Nuestra propuesta, en esta ocasión, es analizar una temática que no ha


sido abordada por la historiografía jurídica y social: la exportación y los vínculos
científicos establecidos por el penitenciarismo justicialista en América Latina. Para
ello, nos ocuparemos de una serie de viajes realizados por Roberto Pettinato a Brasil
en el año 1952, para asistir a la Primera Reunión Penitenciaria Brasileña realizada
en Río de Janeiro. En esa ocasión, además, fue designado miembro de honor del
Instituto de Criminología de esa ciudad y dictó una serie de conferencias sobre
la revolución penitenciaria realizada por el gobierno de Juan Domingo Perón.

Esta visita de Pettinato, creemos, se enmarca en las fructíferas relaciones


e influencias comunes entre penitenciaristas argentinos y brasileños que tuvo
lugar en las décadas de 1940 y 1950, observable, por ejemplo, en la creación de
la Escuela Penitenciaria Brasileña tomando el formato de su par argentina; en la
participación de Pettinato en el Seminario Regional Latinoamericano sobre Pre-
vención del Delito y Tratamiento del Delincuente realizado en San Pablo o en
la visita de Victorio Caneppa. Presidente de la Asociación de Prisiones Brasileña,
a la República Argentina en 1953, entre otros hitos.

Metodología

Como marco general utilizaremos la bibliografía existente sobre los vínculos


entre los juristas brasileños y argentinos en la primera mitad del siglo XX. Pero la
riqueza principal del trabajo, creemos, será la utilización de fuentes éditas, pero
escasamente abordadas por los estudiosos. En particular, el periódico carcelario
Mañana, editado por la Dirección General de Institutos Penales, destinado a la
población reclusa y una serie de documentos de Pettinato ubicados en el Museo

84
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Penitenciario Antonio Ballvé. Asimismo, indagaremos en la prensa argentina y


brasileña (disponible a través de la web), rastreando el impacto de los vínculos
mencionados.

Discusión

El aporte de nuestra investigación radica en que ha sido una temática


muy poco explorada, puesto que, por lo general, la regla, son las investigaciones
“inversas”; esto es la importación de ideas europeas o estadounidenses, por parte
de los estados latinoamericanos. Nuestro trabajo, creemos, parte de una lógica
diversa, que relativiza el concepto de países periféricos. Así, mientras que las mi-
radas suelen estar puestas en la importación de ideas de países centrales hacia
la periferia; no se ha reparado en profundidad sobre el eje periferia/periferia. Por
supuesto que al hablar de “centro” y “periferia”, no suscribo tal diferencia, lo hago
aquí descriptivamente, porque, hay muchos estudios que lo hacen en esa dirección;
lo que, indudablemente, implica una visión sesgada del asunto.

En resumen, esperamos que nuestra ponencia, centrada en una figura


clave de la reforma penitenciaria argentina, analizando un aspecto específico (los
vínculos establecidos con los juristas brasileños) contribuya en el proceso de re-
novación de la historiografía jurídica y social abocada a los temas penitenciarios.

85
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

UMA ANÁLISE ACERCA DO INCISO XLIII


DO ART. 5º DA CF/88 E DA LEI 11.343/06:
A PRODUÇÃO DAS MARCAS DA MISÉRIA

MICHEL CÍCERO MAGALHÃES DE MELO


Graduando em Direito no Instituto Multidisciplinar
da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e bolsista voluntário da PICV – UFRRJ.
E-mail: michelciceromelo@hotmail.com

Eixo-Temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira

Palavras-chave: Encarceramento, Drogas, Corpos Marcados.

Introdução

O presente trabalho analisa a evolução da criminalização dos delitos rela-


cionados de diversas formas com as drogas ilícitas. A primeira parte do trabalho o
inciso XLIII do art. 5º da CF/88, “a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis
de graça ou anistia a prática da tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas
afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os
mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem”, para pensar
todo o aparelho punitivo estatal que foi empregado pelo Estado no momento
posterior a promulgação da Carta Constitucional na guerra as drogas. A partir
desse momento, a análise perpassa a situação da sociedade brasileira que se depara
com a urbanização e os conflitos e violência gerados através da inércia do poder
estatal e do projeto de sociedade inacabado presente no nosso seio social. O
segundo ponto do presente trabalho diz respeito a Lei n. 11.343/06, Lei de Drogas,
e a multiplicação de tipos penais positivados nos seus artigos, principalmente no
seu capítulo II que corresponde aos crimes elencados na legislação. Portanto, o
presente trabalho busca demonstrar as nuances das guerras às drogas e como ela
alimenta um ciclo vicioso que mitiga o poder estatal e seu monopólio da força
além de gerar zonas de conflito permanente. Problemas sociais crônicos dos dias
atuais, que inclusive estão presente a décadas no ciclo produtivo da violência no
Brasil, como encarceramento, homicídios, ausência do poder público e o combate
aos conflitos pela ótica penal é o terceiro ponto de análise que busca demonstrar

87
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

como tais fatos produzem marcas permanentes não só nas sociedades como nas
coletividades e nas relações que a compõem.

Metodologia

A pesquisa tem por base dois eixos teóricos. No primeiro, iremos abordar
a literatura que investiga a relação entre sociedade e violência (ZALUAR, Alb.
MISSE, Michel). No segundo, investigaremos a literatura que trata da perspectiva
criminológica crítica (MALAGUTI, Vera Batista. GARLAND, David. BARATTA, Ales-
sandro. KARAM, Maria Lucia. ZAFARRONI, Eugenio Raul. DE GIORGI, Alessandro.
GEORG, Rusche e OTTO, Kirchheimer), com ênfase na estrutura da punição e
produção de marcas de longa-duração nos corpos e nas relações sociais. Ademais,
serão consultados estudos publicados por órgãos independentes que investigam a
construção da violência social nos seus mais diversos aspectos, como a produção
do IPEA e da FBSP, Atlas da Violência.

Resultado Parciais

O presente trabalho faz um paralelo que começa com a urbanização


brasileira e o período de redemocratização. A partir desse ponto, positivou-se
na CF/88 dispositivos que fortaleceram a guerra a drogas pelo poder estatal.
Dentro dessa lógica, analisou-se os impactos gerados na produção dessa guerra,
especificamente as questões envolvendo encarceramento de massa e homicídios
no território brasileiro. Mostra-se então como o aparelho que antes combatia um
inimigo, opositores da ditadura militar, passam a operar para combater um novo
alvo: as drogas. Decorrente disso, temos um boom dos conflitos sociais que já
estavam latentes na sociedade brasileira na década de 1990 e que se prolongam
até os dias atuais. Temos atualmente um problema crônico no encarceramento,
na insegurança social e nas mortes decorrentes de homicídios. Como resolver
tal fato alimentado a estrutura punitiva? Nossa escolha deve ser pela mitigação
do direito penal em favor de novas formas de resolver as questões sociais, ou
seja, retirar a escolha do direito penal como prima ratio e coloca-lo como forma
excepcional de controle social, isto inclui repensar a sociedade e a produção da
violência além das relações Estado-Sociedade-Indivíduo.

Conclusão

O presente trabalho busca compreender a atuação estatal durante as


últimas décadas para a promoção de uma guerra permanente no seio social
brasileiro e como os conflitos, a violência e o processo de urbanização marca
os indivíduos e a relações que se constituem no meio social. Qual a relação dos
homicídios com a urbanização na seara da guerra às drogas e na criminalização
da miséria? O atlas da violência de 2017, produzido pelo IPEA e FBSP, trás dados

88
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

que se perpetuam pelos últimos 30 anos. No mesmo contexto o número de


encarcerados sobe a cada ano, os delitos aumentam e a sociedade fica a mercê
de um poder público ineficaz na resolução dos conflitos sociais. Se nas três úl-
timas décadas combateu-se o efeito e não a causa dos problemas geradores da
insegurança social, sendo assim, as respostas dadas pelo poder estatal foi mais
punição e criação de crimes que ao invés de reduzir a sensação de impunidade
e gerar mais segurança social só acelerou um processo de desfazimento dos
modos alternativos de resolução de conflitos como na imagem exacerbada do
que é um crime.

Referências bibliográficas
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução
a sociologia do direito penal. Tradução Juarez Cirino dos Santos. Rio de Janeiro.
Editora Revan. Instituto Carioca de Criminologia. 6ª edição. 3ª reimpressão. 2016.
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temporânea. Trad. André Nascimento. Rio de Janeiro. Revan, 2008. 1ª reimpressão,
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ZAFFARONI, Eugenio Raúl. O inimigo no direito penal. Tradução de Sérgio Lamarão.
Rio de Janeiro. Revan. 2007. 2ª edição. 4ª reimpressão. 2016. Coleção Pensamento
Criminológico. Volume 14.
ZALUAR, Alba. Oito temas para debate: violência e segurança pública. So-
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ponível em <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0873-65292002000100003&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 08 out. 2016.

89
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

ZALUAR, A. M., 2003. O contexto social e institucional da violência. In: ed.), pp. 8,
Rio de Janeiro. Disponível em http://nupevi.iesp.uerj.br/artigos_periodicos/contexto.
pdf. Acesso em 16 de janeiro de 2017.

90
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O STF E A VADIAGEM: ANÁLISE DE CASOS


QUE CHEGARAM AO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
NA PRIMEIRA REPÚBLICA (1918-1919)

GUSTAVO C. ZATELLI
Doutorando no Programa de Pós-graduação em Direito da UnB, mestre em Direito pela UFRJ
E-mail: zatelli21@gmail.com

Eixo temático: 2. História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: Supremo Tribunal Federal; vadiagem; controle social.

Introdução

O que despertou o interesse na presente pesquisa foram os mecanismos de


controle social impostos pelo Estado na Primeira República – mais especificamente,
os mecanismos jurídicos de controle social. Obviamente o tema é demasiadamente
amplo e não poderia ser tratado devidamente sem delimitação apropriada.

Optamos, para tanto, pela análise dos processos-crime sobre repressão à


vadiagem nos anos 1917-1919 no Rio de Janeiro que chegaram ao STF. A deli-
mitação temporal explica-se por se tratar de período especialmente conturbado
(não só na capital, mas num contexto quase global) – fim da primeira guerra
mundial, greves gerais repercutindo em todo país. A delimitação geográfica se dá
pela importância da cidade do Rio de Janeiro à época como capital e distrito
federal, o que a transformava inclusive no modelo institucional (dos aparatos
policial e judiciário) para os demais estados federativos. A delimitação temática (a
contravenção de vadiagem) tem a ver com os números excessivos de prisão sob o
artigo 399 e a crescente preocupação da elite com a “questão social” e o controle
social dos trabalhadores livres. A escolha pela instância superior como critério de
delimitação tem a ver com o fato de esta ser uma pesquisa em andamento, na
qual a primeira e segunda instâncias do período já foram analisadas em minha
dissertação de mestrado – vale ressaltar que os processos examinados aqui não
entraram no texto dessa primeira pesquisa e, portanto, esta análise é inédita.

91
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Os processos-crime têm muito a dizer sobre o transcorrer da aplicação


do controle social estatal pois configuram-se como o espaço de mediação e (des)
legitimação das ações policiais por juízes – que, por sua vez, debatem e decidem
utilizando conceitos e lógicas próprios de sua cultura jurídica. O problema levan-
tado aqui, que norteará a pesquisa, será: o judiciário, no contexto escolhido pela
presente pesquisa, possibilitou tal defesa de direitos ou simplesmente legitimou
o controle social efetivado pela polícia?

Para elaborar a resposta, é preciso destrinchar o que se pode classificar


como “tecnologias” de controle social. Afirmamos que a efetivação do controle
social exigiu (e ainda exige) a construção de diversos instrumentos – discursivos
e institucionais – que se caracteriza(ra)m como verdadeiras técnicas de poder. O
saber penal, a legislação, os manuais de chefe de polícia, as estatísticas criminais são
alguns saberes que precisavam ser acionados (conjuntamente ou singularmente)
para a realização prática do controle social imaginado. São saberes e técnicas
que tanto legitimam quanto moldam, estruturam as intervenções de autoridades
públicas.33 Dentre essas técnicas, terão destaque na presente pesquisa a argumen-
tação jurídica34 utilizada nos casos (tanto pelos advogados quanto pelos juízes e
demais partes) e as discussões doutrinárias35 acerca da contravenção de vadiagem.

Metodologia

Nossas fontes serão os casos encontrados no catálogo do Arquivo Nacional


na seção do STF relacionados à vadiagem entre os anos de 1918-1919, no Rio de
Janeiro. Utilizaremos diferentes lentes metodológicas que podem contribuir para
a leitura dessas fontes, tais quais: paradigma indiciário de Ginzburg; “circulação
de cultura jurídica” de Luís Fernando Perreira; “antropofagia jurídica” de Gustavo
Siqueira; as considerações de Chalhoub sobre leitura de fontes judiciais em “Tra-
balho, Lar e Botequim” (que abandonam a pretensão de conhecer a “verdade”
nos processos, mas buscam confrontar as diferentes versões, todas verossímeis,
apresentadas ali entre si e entender seus papéis diante do contexto cultural e
do imaginário social do período). O enfoque recaíra sobre as estratégias e os
argumentos jurídicos operacionalizados na acusação, defesa e sentença dos julga-

33 Aqui, não poderíamos ignorar, diante da análise discursiva, também os fatores que poderíamos chamar de
“materiais” na concretização do controle social por instituições públicas. Alguns exemplos: a verba disponível,
o quadro de funcionários, a disponibilidade de meios de comunicação e transporte eficientes. Nem se pode
esquecer que o funcionamento institucional também depende de uma série de relações informais com a
população civil. Não se trata, entretanto, do objeto principal da presente investigação.
34 Entendida aqui amplamente: qualquer argumentação que incida ou procure incidir na tomada de decisão
judicial. É certo que o foco será no debate jurídico, entretanto, é comum o desenvolvimento de argumentos
que extrapolam o “campo jurídico” propriamente dito. Não levá-los em conta seria ignorar um elemento
indispensável na análise.
35 Com doutrinário entendemos o saber jurídico reconhecido como de “alta qualidade” condensado em forma
escrita (seja por livros ou artigos)

92
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

dos – ou seja, entender como o Direito foi instrumentalizado por atores sociais
diferenciados ao longo do processo judicial.

Resultados parciais

Os processos, apesar de não constarem explicitamente descritos os deba-


tes acerca dos casos pelos ministros do STF (apenas a sentença final e a direção
dos votos de cada um), são ricos ao juntarem os autos da primeira e segunda
instância, dando possibilidade à reconstrução do panorama geral de cada caso
e também do perfil de cada acusado. Assim, pode-se ter uma noção de quais
elementos eram relevantes (dinheiro, conhecimento jurídico, relações interpessoais,
etc.) para o acusado conseguir acesso à instância maior do judiciário. Além do
mais, embora a falta de autos sobre os debates entre os ministros comporte um
silêncio das fontes, pode-se extrair dados valiosos somente das decisões finais:
com exceção de apenas um caso, todos os demais foram indeferidos, que parece
indicar uma falta de disposição do Supremo de se colocar como “guardião de
direitos” para os condenados de vadiagem.

Referências Bibliográficas
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94
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

OS DEBATES SOBRE A PENA DE MORTE NO


CONGRESSO NACIONAL CONSTITUINTE DE 1890
E AS PRINCIPAIS IDEIAS DE BECCARIA E LOMBROSO

DELMIRO XIMENES DE FARIAS


Mestrando em Direito (Ordem Jurídica Constitucional) pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Especialista em Direito Penal pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Advogado.

DELMIRO X. FARIAS
Universidade Federal do Ceará (UFC)
E-mail: delmirofarias@gmail.com

Eixo temático 2: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: Pena de morte; Constituinte de 1890; Constituição de 1891.

Introdução

A pena de morte para crimes comuns, no Brasil, até a primeira Consti-


tuição de 1891, sempre teve previsão normativa. As ordenações mencionavam a
pena de morte (CABRAL, 2016, p. 31). Já, sobre a Constituição de 1824, apesar
de banir as punições cruéis, havia o entendimento de que a pena de morte era
possível (TUCUNDUVA, 1976, p. 33), que foi confirmado pelo Código Criminal
de 1830. À época, era possível a concessão de graça imperial, o qual poderia
ser utilizado pelo soberano para fins de equidade e justiça (HESPANHA, 2006, p.
107). Segundo João Barbalho Uchoa Cavalcanti (1902, p. 327), durante o segundo
reinado, a graça imperial foi sendo cada vez mais utilizada para comutar as penas
de morte, principalmente após o caso Mota Coqueiro.

Com a Proclamação da República e os inícios dos trabalhos em 1890 para


a elaboração de uma nova Constituição, começou-se a discutir no Congresso
Nacional Constituinte a adoção ou abolição de tal castigo. Na prática, a pena
de morte já era considerada abolida, mas ainda haviam parlamentares a favor
da sua manutenção. Ao fim, a sanção foi suprimida nos crimes comuns, através
do artigo 72, § 21, da Constituição de 1891, ressalvando somente os casos da
legislação militar em tempos de guerra.

95
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Desta forma, após fazer uma breve análise do contexto sobre a pena
capital no regime imediatamente anterior, este trabalho pretende estudar princi-
palmente os debates dos parlamentares sobre a abolição da punição em questão,
apresentando os argumentos daqueles que discursaram sobre o assunto, assim
como os fundamentos de suas ideias. Assim, para também fazer um contexto das
doutrinas que eram defendidas pelos representantes do povo, apresenta-se neste
trabalho as ideias principais de Cesare Beccaria e também de Cesare Lombroso,
que são autores icônicos que representavam escolas as quais davam base aos
debates constituintes, mesmo que indiretamente.

Tal trabalho se faz importante em razão da escassez de outros escritos


acerca, especificamente, das discussões acerca da pena de morte no Congresso
Nacional Constituinte de 1890, visto que, seu resultado foi a primeira Constituição
pátria que trouxe a abolição da pena de morte. Assim, trazendo os discursos de
cada parlamentar que se aventurou discutir acerca do tema naquela constituinte,
este trabalho se mostra útil para entender os motivos pelos quais a mencionada
punição deixou de ser aceita no ordenamento jurídico nacional nos crimes comuns.

Metodologia

A pesquisa para a elaboração deste trabalho se dá principalmente através


da leitura de trechos sobre a pena de morte nos anais do Congresso Nacional
Constituinte de 1890, os quais estão disponíveis no sítio eletrônico da Câmara
dos Deputados. A busca dos discursos que tratavam do tema foram encontrados
através da busca, no arquivo eletrônico em pdf de palavras-chaves como “morte”,
“pena”, “capital”, “21” e “22”.

Além da busca por estas palavras chaves, foi utilizado os índices por ses-
são dos anais de cada volume, os quais apontam votações e debates acerca do
Título IV, no qual está inserido o mencionado dispositivo. Também foi utilizado
os índices temáticos dos anais de cada volume, os quais indicam as páginas que
se discutiram a pena de morte.

Este trabalho também utiliza de artigos e livros, tanto da área do Direito


quanto de acadêmico da História, João Luiz Ribeiro (2005), assim como documentos
jurídicos, tudo com o fim de demonstrar o contexto acerca da punição durante
o Império. Para este fim, utiliza-se também de obra da época para demonstrar
que penas deveriam ser utilizadas com parcimônia, como é o caso de Pimenta
Bueno (1857, p. 418). Ainda, para demonstrar as ideias bases que deram guarida
aos debates constituintes, faz-se uso das obras de Beccaria e Lombroso, além de
outros que auxiliam no entendimentos de seus ensinamentos.

96
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Portanto, o tipo de pesquisa utilizada é tanto bibliográfica quanto docu-


mental, sendo ex-post-facto e histórico. Quanto aos resultados, a pesquisa é, prima
facie, pura, pois pretende aumentar os conhecimentos do autor e dos leitores,
e também é qualitativa. Quanto aos fins, a investigação científica é descritiva e
explicativa, pois, além de descrever o contexto social e a forma como a punição
foi abolida, também apresenta os seus fundamentos.

Resultados

Beccaria era contra a pena de morte, argumentando, por exemplo, que


ela não teria o condão de prevenir crimes, sendo inútil e, por isso, injusta (BEC-
CARIA, 2003, p. 21). Além disso, ela não teria legitimidade, já que, de acordo
com uma teoria contratualista, os cidadãos não renunciaram de uma parcela da
liberdade ao ponto de o Estado ter o poder de lhe tirar a vida (TARELLO, 1998,
p. 478). Já Lombroso defendia a ideia do delinquente nato (SHECAIRA, 2013, p.
87), aquele que teria certas características hereditárias que o levariam a cometer
crimes cruéis, sendo, então, algo incurável. Seriam considerados seres primitivos e
selvagens (LOMBROSO, 2010, p. 28). Por este motivo, este tipo de pessoa deveria
ser permanentemente excluída da sociedade, seja pela prisão ou pela morte.

As ideias de Lombroso influenciaram deputados como Barbosa Lima e


João Vieira de Araújo, os quais defenderam no Congresso que, em crimes he-
diondos, cruéis e assassinatos por motivos fúteis, a pena de morte deveria ser
aplicada, em razão de o condenado não ter possibilidade de recuperação ou
arrependimento por conta de sua característica hereditária. A sanção seria uma
forma de defender a sociedade contra esses tipos criminosos. Afirmam que a
prisão não seria suficiente para prevenir crimes, já que sempre há o risco de o
delinquente nato fugir e reincidir.

Já as ideias de Beccaria se vê nos argumentos de parlamentares como


Lacerda Coutinho e Vicente Espírito Santo. O primeiro, em seu discurso, aponta
como principal argumento contra a manutenção da pena de morte a possibilidade
do erro judiciário com a constatação de que, após a execução do condenado,
ele era inocente. Já o segundo, aparentemente com base nas ideias de Beccaria,
sempre põe em dúvida a legitimidade da pena capital, dando a entender que
acredita que a sociedade não pode tirar a vida de alguém, já que ela também
não pode dá-la.

Conclusão

O trabalho demonstra que, apesar dos discursos mais longos e funda-


mentados serem daqueles que pretendiam a manutenção da pena de morte aos
crimes comuns, esta foi a tese vencida, e que a maioria dos parlamentares eram a

97
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

favor da abolição. Destes, alguns queriam que esta medida se desse sem ressalvas,
ou seja, que o castigo ficasse suprimido para todos os casos. Já grande parte era
a favor da hipótese da punição se manter em tempo de guerra nos previstos
na legislação militar. Além disso, vê-se pontos em comum entre os argumentos
utilizados pelos parlamentares com as principais ideias de Beccaria e Lombroso,
principalmente no que tange à falta ou não de caráter preventivo da pena de
morte e na teoria do delinquente nato. Ainda, percebe-se que o contexto ante-
rior a respeito da frequente comutação do castigo também foi utilizado como
argumento para a abolição.

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Paulo: Martin Claret, 2003.
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São Paulo: Ícone, 2010.
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de junho de 1835: Os escravos e a pena de morte no Império do Brasil. Rio de
Janeiro: Renovar, 2005.

98
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

SHECARIA, Sérgio Salomão. Criminologia. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2013.
TARELLO, Giovanni. Storia dela cultura giuridica moderna. Bologna: il Mulino, 1998.
TUCUNDUVA, Ruy Cardoso de Mello. A pena de morte nas constituições do
Brasil. Justitia, São Paulo, Ministério Público de São Paulo, v. 38, n. 93, p. 31-42,
jul./set., 1976.

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IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

OS DELITOS DE ABUSO DE LIBERDADE DE


IMPRENSA NO DIREITO PENAL DO BRASIL IMPERIAL

DANLER GARCIA SILVA


Acadêmico em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
Agência de fomento: CNPq
E-mail: danlergs@hotmail.com

Eixo temático: 2 – História da Cultura Jurídica Crimina Brasileira

Palavras-chave: Brasil Império; Crime de imprensa; Código Criminal.

O escopo desta pesquisa é o exame concernente a natureza jurídica dos


delitos de abuso de liberdade de imprensa no Direito Penal do Brasil Império,
que se desvela, por sua vez, uma temática significativa em virtude da ausência de
estudos jurídico-dogmáticos que averiguam esta circunstância singular. A partir da
investigação realizada à fontes históricas e literaturas atuais, vale dizer, doutrinas, anais
da assembleia constituinte do Império, revista jurisprudencial do quartel estudado,
bem como trabalhos de distintas áreas do conhecimento para além do jurídico, é
passível de se examinar uma condição específica da organização político-jurídica
brasileira. Por conseguinte, partindo da premissa de que o Código Criminal do
Império, sancionado em 1830, estava subdivido em quatro partes – Dos Crimes
e das Penas, Dos Crimes Públicos, Dos Crimes Particulares e Dos Crimes Policiais
–, constata-se a disparidade de autores do período no que concerne a conceitu-
ação dos delitos de abuso de liberdade de imprensa, qualificando-os como crime
ordinário, crime político, crime particular, bem como sui generis.

Por intermédio do elenco de autores que aludem os delitos de imprensa


em suas obras, bem como os abusos da liberdade de expressão e comunicação
– Vicente Alves de Paula Pessoa (1877), Braz Florentino Henriques de Souza
([1872] 2003), José Liberato Barroso (1866), Antonio de Paula Ramos Junior (1875),
Thomaz Alves Júnior (1864) e José Antonio Pimenta Bueno (1857) – é possível
de se examinar um debate acerca da natureza jurídica deste delito. Ora, uma vez
que os princípios dos delitos de imprensa estão devidamente previstos na Parte
Primeira do Código (arts. 7º a 9º), as espécies deste crime estão tipificadas ao
longo de todo o texto, vale dizer, Parte Segunda, Terceira e Quarta, o que resulta,
por conseguinte, na discrepância de conceituações.

101
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Esta pesquisa, por seu turno, possui o intento de aclarar as seguintes


problemáticas: qual seria a natureza jurídica dos delitos de abuso de liberdade de
imprensa? Estes delitos, por sua vez, deteriam tão somente uma única condição?
Qual é a conjuntura histórica e o contexto político-social em que estes delitos
foram emanados e permaneceram incorporados?

A metodologia desta pesquisa se amparou em investigações à fontes


históricas atreladas à literaturas atuais e interdisciplinares. Como aludido acima,
recorreu-se à doutrinas jurídicas, anais da assembleia constituinte do Brasil Império,
assim como revista jurisprudencial do período proposto estudado; outrossim, no
que versa à literatura, empreendeu-se investigação à estudos de diversas áreas do
conhecimento para além do Direito, vale dizer, História e Comunicação Social,
concebendo a investigação de trabalhos que versam as asserções da liberdade de
imprensa e crimes de abuso desta liberdade. O exame empreendido concernente
à temática referida, em obras clássicas e hodiernas, torna-se relevante por suscitar
um forte mecanismo de problematizações sobre a condição nacional supracitada.

Partindo desta crítica, esta pesquisa se mostra relevante, ademais, pelo fato
de examinar uma condição específica da organização político-jurídico brasileira
e, por meio de uma investigação histórico-jurídica, possui-se o intento de revelar
a dialética constituída neste momento, que se valeu de uma dogmática e teoria
divergentes. Ao se investigar o âmago do período, tem-se o escopo de explorar
e compreender a natureza deste delito, bem como a concepção do período
acerca da natureza do mesmo.

No primeiro fragmento da pesquisa, tem-se como escopo desvelar a con-


juntura histórica e o contexto político-social do Brasil Império e seus pormenores,
vale dizer, detém-se como fito discutir a Independência, a Constituição Imperial
de 1824, o Código Criminal do Brasil Império e seus reflexos no que concerne
aos delitos de abuso de liberdade de imprensa.

No segundo fragmento da pesquisa, tem-se como escopo desvelar o


debate presente na doutrina constitucional, bem como no parlamento brasileiro
da assembleia constituinte do Brasil Império e seus desdobramentos e prelações
específicas no que tange os delitos de abuso de liberdade de imprensa.

No terceiro fragmento da pesquisa, tem-se como escopo desvelar toda


a discussão jurídico-dogmática dos doutrinadores do Império no que tange a
conceituação dos delitos de abuso de liberdade de imprensa, vale dizer, a dispa-
ridade de conceituações que perpassam a natureza jurídica ordinária, sui generis,
privada e público-política do delito.

102
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Percorrendo a conjuntura histórica e contexto político-social relevante e


alvoroçado em que o país se localizava após todos os pormenores provenientes
da Independência (FAUSTO, 1995), vale dizer, desde o fim do Livro V das Orde-
nações Filipinas, até a promulgação do Código Criminal do Brasil Império e seus
desdobramentos no que tange aos delitos de abuso de liberdade de imprensa,
deduz-se o cariz político que este delito exerceu perante toda esta problemática,
bem como conjunção político-social em que o País se encontrara (COSTA, 2013;
NUNES, 2010). Por conseguinte, certifica-se novamente o cariz político que os
delitos de abuso de liberdade de imprensa exerceram durante a discussão do
parlamento brasileiro da assembleia constituinte do Brasil Império, desvelando,
por sua vez, seus reflexos no que tange ao regime político proferido – monár-
quico-constitucional –, bem como a divergência de conceituações devidamente
investigadas dos autores que aludem os delitos de abuso do liberdade de imprensa
em suas obras de Direito Penal e Constitucional no Brasil Império.

De outro modo, perpassando o exame da conjuntura histórica e seus


dispositivos ao qual a discussão proposta está circunscrita – Código Criminal do
Brasil Império, anais da Assembleia Constituinte de 1823 –, bem como empreen-
dendo o exame do debate jurídico-dogmático com o escopo de se obter uma
suposta conceituação da natureza jurídica do delito de abuso de liberdade de
imprensa, revela-se árduo asseverar uma única e tão somente própria natureza
jurídica do delito.

Entre seus respectivos escritos, Vicente Alves de Paula Pessoa (1877)


assegura uma natureza ordinária, Braz Florentino Henriques de Souza ([1872]
2003) assegura uma natureza sui generis, José Liberato Barroso (1866), bem como
Antonio de Paula Ramos Junior (1875) asseveram uma natureza privada, Thomaz
Alves Júnior (1864), assim como José Antonio Pimenta Bueno (1857) asseveram
uma natureza política.

Contudo, ainda que exista discrepância entre os discursos dos autores que
aludem o delito proposto, acredita-se em uma conceituação pública – política
– do mesmo. Uma vez que a Independência do Brasil acabara de transcorrer,
as transmutações proferidas posteriormente ao acontecimento – elaboração de
uma Constituição pátria, bem como a inevitabilidade de Códigos também pá-
trios – locomovem-se rumo a ânsia de auferir salvaguarda ao Império, vale dizer,
constituir instituições que propunham segurança ao Imperador e ao regime po-
lítico proferido – monárquico-constitucional. Ora, esta circunstância, atrelada às
considerações e transformações históricas vigentes no estágio, coincidem presumir
a relevância da repressão do delito face à ordem política vigente.

103
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Referências bibliográficas
Fontes
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Brazil. Vol. 1, 1823.
BRASIL. Annaes do Parlamento Brazileiro. Assembléa Constituinte do Império do
Brazil. Vol. 2, 1823.
BRASIL. Annaes do Parlamento Brazileiro. Assembléa Constituinte do Império do
Brazil. Vol. 3, 1823.
BRASIL. Annaes do Parlamento Brazileiro. Assembléa Constituinte do Império do
Brazil. Vol. 4, 1823.
BRASIL. Annaes do Parlamento Brazileiro. Assembléa Constituinte do Império do
Brazil. Vol. 5, 1823.
BRASIL. Annaes do Parlamento Brazileiro. Assembléa Constituinte do Império do
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o fim de 1876. Rio de Janeiro: Livraria Popular, 1877.
RAMOS JUNIOR, Antonio de Paula. Commentario ao Código Criminal brasileiro.
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FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2. Ed. São Paulo: Editora da Universidade de
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NERY, Fernando. Lições de Direito Criminal. 4. Ed. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1937.
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104
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

OLIVEIRA, Eduardo Romero de. A ideia de império e a fundação da monarquia


constitucional no Brasil (Portugal-Brasil, 1772-1824). Tempo, Niterói, v. 9, n. 18, p.
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SLEMIAN, Andrea. Os canais de representação política nos primórdios do Império:
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ZAFFARONI, Eugenio Raúl; et al. Direito Penal Brasileiro. v. I. Rio de Janeiro: Revan,
2003.

105
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

HISTÓRICO DO CRIME DE RECEPTAÇÃO


NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

BRENDA LORRANA FRANCO


Aluna do curso de Direito pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

KAREN LOPES REZENDE


Aluna do curso de Direito pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

YASMIN FELIPE DO NASCIMENTO


Aluna do curso de Direito pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
E-mail para contato: lorranabrenda@hotmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: Receptação; Evolução; Legislação criminal brasileira.

Introdução

O delito de receptação, atualmente tipificado em nosso ordenamento


jurídico no artigo 180 do Código Penal, não se caracteriza como inovação penal
brasileira, haja vista que sua inserção legal se deu em meados do século XVIV,
ainda no Código Imperial Brasileiro. Entretanto, tal tipificação delituosa se distingue
da atualidade em alguns aspectos, em especial, com relação à interpretação e a
materialidade atribuída. Abordaremos assim, o contexto histórico que originou
o delito em estudo, bem como as mudanças ocorridas ao longo da evolução
jurídica brasileira, no que concerne o texto normativo em si e sua aplicabilidade.

Metodologia

Buscando analisar a temática proposta, este trabalho será pautado pela


perspectiva dogmática, buscando uma possível resposta à problemática. De forma
a atingir a maior veracidade possível no processo de conhecimento da problemá-
tica a ser estudado, o trabalho examinará com um olhar investigativo. Ademais,
utilizará o método de abordagem dedutivo.

107
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Resultados da pesquisa concluída ou com resultados parciais

Após a independência do Brasil, o país continuou a ser regido pelas leis


e atos da metrópole, vigorava as Ordenações Filipinas. Nelas, havia a previsão da
receptação, contudo, as penas eram aplicadas conforme o crime antecedente36. A
sociedade brasileira passou a ter uma legislação própria com o Código Imperial
de 1830.37

Assim, nota-se que o crime de receptação não é uma inovação do Có-


digo Penal Brasileiro de 1940, sua origem na história jurídica brasileira deu-se em
um momento anterior. No Código Imperial de 1830, teve-se a previsão legal do
crime em tela, contudo, entendido de uma forma diferenciada.

O delito da receptação não era titulado como autônomo, entendendo-


se que o receptador seria o cúmplice da infração prévia.38 Além disso, referia-se
tanto à forma culposa, quanto à dolosa:
“Art. 6º. Serão tambem considerados complices: 1º Os que receberem,
occultarem ou comprarem cousas obtidas por meios criminosos, sabendo
que o foram, ou devendo sabel-o em razão da qualidade, ou condição
das pessoas, de quem as receberam, ou compraram.”

No Código Penal de 1890, não se observam mudanças, no tocante ao


crime de receptação, sendo que, o próprio texto normativo, não sofreu nenhuma
alteração:
”Art. 21. Serão cumplices: § 3º Os que receberem, ocultarem, ou com-
prarem, cousas obtidas por meios criminosos, sabendo que o foram, ou
devendo sabel-o, pela qualidade ou condição das pessoas de quem as
houverem”.

Contudo, Galdino Siqueira39 já apresentava posição contrária no que tange


a observar o receptador como cúmplice:
“Pelo que diz respeito primeiramente á receptação, é uma verdadeira
anomalia ou desvirtuamento de princípios, considerá-la como caso de
cumplicidade, como faz o código, seguindo quase literalmente o anterior
de 1830, art. 6, § 1.”.

O autor possuía uma visão similar aos códigos modernos do período,


tal como italiano e o alemão, que já observavam o delito como um crime
sui generis, quer dizer, possuidor de seu próprio gênero.

36 PRADO, Luis Regis. Curso de direito penal brasileiro. 7ed. v.2 São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,2008.p.514
37 SIQUEIRA, Galdino. Direito penal brazileiro. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial,2003,p.7
38 PRADO, Luiz Regis. Curso de direito penal Brasileiro. p. 514.
39 SIQUEIRA, Galdino. Direito penal brazileiro. 2003,p.253

108
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Com bem alega Carlos Eduardo Massad40, tratar o receptador como


cúmplice pode acarretar efeitos notoriamente nocivos, pois ele seria punido
tendo como base a pena enquadrada ao autor daquele delito. Dessa forma um
receptador de um roubo poderia sofrer uma punição maior do que aquele que
de fato realizou um furto.

A vocação da legislação brasileira em interpretar, de enquadrar o crime


de receptação como algo de menor insulto ao bem jurídico, quando comparado
a outros crimes patrimoniais, perdurou até a criação do Anteprojeto da Parte Es-
pecial do Código Penal, de 1987. No seu art. 193, estipulava-se pena de reclusão,
de um a três anos para o tipo simples do delito. 41

Sendo assim, o legislador do Código Penal de 194042 analisou o crime


estudado de uma forma diferenciada, entendendo-o como um delito autônomo
e enquadrando-o como um crime patrimonial43. 

Por conseguinte, nota-se a desvinculação com a forma que o crime de


receptação era tratado pelo Código Penal anterior. Realiza-se a distinção entre o
delito de favorecimento (agora categorizado como crime contra a administração
da justiça) e o da receptação (especificado como contra o patrimônio). Ambos
adquirem o caráter da autonomia, quer dizer, ocorrer de fome independente. 44.

Vale ressaltar, para melhor compreender essa separação, que no período


do Império, o crime de receptação era entendido como o que hoje é denomi-
nado de “favorecimento pessoal” – atual artigo 348 do Código Penal-, apesar de
ser punido como receptação real.45

Além de ter adquirido tal característica, ocorreu à proeminência da mo-


dalidade “receptação culposa”46, diferentemente do código italiano do período,

40 MASSAD, Carlos Eduardo. O crime de receptação, sua estrutura e relevância. 2006. Monografia (Bacharel
em Ciências Jurídicas)-Universidade Tuiuti do Paraná, 2006. Disponível em: http://tcconline.utp.br/wp-content/
uploads//2013/07/O-CRIME-DE-RECEPTACAO-SUA-ESTRUTURA-E-RELEVANCIA.pdf. Acesso em: 04 de julho de
2017
41 JESUS, Damásio E. de. Direito penal. 27. ed.v.2 São Paulo: Saraiva, 2005.p.491-492
42 Art. 180. Adquirir, receber ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime,
ou influir para que terceiro de boa fé a adquira, receba ou oculte
43 PRADO, Luis Regis. Curso de direito penal brasileiro. 7ed.v.2 São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008, p.
638.
44 HUNGRIA, Nelson. Comentários ao código penal. 3.ed.Rio de Janeiro: Revista Forense,1967,p.302
45 FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de direito penal- parte especial. São Paulo: Editora José Bushatsky,1958,p.
323-324
46 Receptação culposa: § 1º Adquirir ou receber coisa que por sua natureza ou pela desproporção entre o valor
e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso: Pena - detenção,
de um mês a um ano, ou multa, de tresentos mil réis a dez contos de réis, ou ambas as penas.

109
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

que não a considerava como uma modalidade de receptação, mas sim como
uma contravenção penal. 47

No que tange à pena do caput, ocorreu uma modificação, a partir da


Lei nº 2.505, de 11-6-1955, passando a ser de reclusão de um a quatro anos e
multa de quinhentos cruzeiros a dez mil cruzeiros. Tal modificação se fez neces-
sária, pois a pena antes imposta era caracterizada, por muitos, como excessiva.
O mínimo da condenação era superior ao do furto simples, da apropriação
indébita, do estelionato e da mesma proporção do furto qualificado. Segundo
Nelson Hungria48, tal situação seria incompatível com o caráter autônomo que
o delito de receptação agora possui. Dessa forma, não poderia apresentar uma
punição superior ao crime precedente, tratava-se de um contexto divergente de
toda a tradição histórica brasileira.

Contudo, a redação do artigo 180 do atual Código Penal sofreu altera-


ção com a Lei 9.426 de 24 de dezembro de 1996. Dentre as modificações mais
relevantes, destaca-se a introdução dos verbos “transportar e conduzir” no caput
do art. 180, e a modificação da pena, que passou a ser reclusão, de um a qua-
tro anos, e multa. Além disso, tal lei foi responsável pela criação da receptação
qualificada a partir do objeto material49 e a receptação qualificada no que tange
à atividade comercial e industrial50.

Conclusão

O presente trabalho buscou demonstrar a evolução histórica do crime de


receptação, desde sua origem, com enfoque na legislação penal brasileira, sendo
primeiramente considerada uma conduta atípica, isto é, o Direito Penal brasileiro
sequer entendia o conceito do delito de receptação para além do furto, até os
dias de hoje, dada sua autonomia.

Crescente é a preocupação com o crime de receptação, refletindo na


motivação para a realização do presente trabalho, dado o papel que referido
delito representa no incentivo à criminalidade, destacando o verdadeiro desco-
nhecimento da sociedade acerca da figura típica da receptação.

47 HUNGRIA,Nelson.Comentários ao código penal.p.303


48 HUNGRIA, Nelson. Comentários ao código penal. 3.ed.Rio de Janeiro: Revista Forense,1967.p. 314-316
49 § 6º – Tratando-se de bens e instalações do patrimônio da União, Estado, Município, empresa concessionária
de serviços públicos ou sociedade de economia mista, a pena prevista no caput deste artigo aplica-se em dobro
50 § 1º – Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender,
expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial
ou industrial, coisa que deve saber ser produto de crime.

110
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Portanto, é necessário um aprofundamento nos estudos do crime de


receptação, como forma de adequar a resposta punitiva do Estado, aspirando
sempre a isonomia e a justiça.

A intenção foi demonstrar a evolução histórica do delito, para que a


partir de então, fosse possível evidenciar os diferentes entendimentos acerca do
tema, uma vez que a receptação, ao contrário do que se imagina, está intima-
mente ligada ao nosso dia a dia, na medida em que fomenta a criminalidade
e a violência, consistindo, talvez, nos maiores obstáculos da evolução humana.

Referências bibliográficas
FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de direito penal- parte especial. São Paulo:
Editora José Bushatsky,1958.
HUNGRIA, Nelson. Comentários ao código penal. 3.ed.Rio de Janeiro: Revista Fo-
rense,1967.
JESUS, Damásio E. de. Direito penal. 27. ed.v.2 São Paulo: Saraiva, 2005.
MASSAD, Carlos Eduardo. O crime de receptação, sua estrutura e relevância.
2006. Monografia (Bacharel em Ciências Jurídicas)-Universidade Tuiuti do Paraná,
2006. Disponível em: <http://tcconline.utp.br/wp-content/uploads//2013/07/O-
CRIME-DE-RECEPTACAO-SUA-ESTRUTURA-E-RELEVANCIA.pdf>. Acesso em: 04
de julho de 2017
PRADO, Luis Regis. Curso de direito penal brasileiro. 7ed. v.2 São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais,2008.
SIQUEIRA, Galdino. Direito penal brazileiro. Brasília: Senado Federal, Conselho
Editorial,2003.

111
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

ILEGALISMO, ILEGALÍSTICO E DUPLO NÍVEL


DE LEGALIDADE: UMA POSSÍVEL CONEXÃO ENTRE
OS TRABALHOS DE MICHEL FOUCAULT
E MARIO SBRICCOLI

RAUL FERREIRA BELÚCIO NOGUEIRA


Universidade Federal do Paraná – UFPR (Bolsa de Mestrado CAPES PROEX)
E-mail: raulbelucio@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas)

Palavras-chave: Ilegalismo; Ilegalístico; Duplo nível de legalidade.

Resumo

I. Meu trabalho se dedica a investigar as possibilidades de conexão


entre os conceitos de ilegalismo, utilizado por Michel Foucault e por Mario
Sbriccoli, e do duplo nível de legalidade, de Mario Sbriccoli. O método
prevalentemente utilizado é semelhante ao de uma pesquisa conceitual;
outros métodos serão utilizados conforme seguir a pesquisa. A hipótese
que levanto neste trabalho é a de que, quando os ilegalismos são objeto
de disposição de uma lei penal, a legalidade que a rege é, provavelmente,
a do “segundo nível de legalidade”. Por ser um trabalho em andamento,
ainda não apresento conclusões, mas apenas evidências e resultados parciais.

II. A ideia de ilegalismos (illégalismes) tem um sentido bastante


peculiar na obra de Michel Foucault: o ilegalismo não é apenas um ato
praticado contra a lei ou uma irregularidade não regulada por ela: diferen-
temente de ilegalidade (illegalités), “ilegalismo” não tem uso corrente na
língua francesa e pode ser considerada um neologismo do autor51. Para
Márcio Alves da Fonseca, o ilegalismo se liga à ideia de uma luta que se
dá dentro – ou ao lado – da própria ilegalidade, remetendo-se à ideia de
51 Cf. SOUTO, Caio Augusto. Direito e ilegalismos: reflexões sobre a normalização na obra de michel Foucault.
Kínesis, Vol. II, n° 04, Dezembro-2010, p. 23-39. Disponível em: << http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasE-
letronicas/Kinesis/DireitoeIlegalismos2010.pdf >>. Acesso em: 6 set. 2016.

113
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

um “de um jogo em torno da legalidade e das ilegalidades efetivamente


praticadas”52. Além disso, entre aquilo que vem estabelecido pela lei e as
ilegalidades ou as irregularidades que são praticadas no seio da sociedade,
o que temos não é um sistema absolutamente neutro: “o que ocorre é
que nem toda prática ilegal deve ser punida e, no sentido inverso e ao
mesmo tempo proporcional, nem toda lei deve ser respeitada.”53.

Mais que uma ilegalidade ou um ato que de qualquer forma


contrarie a lei, a noção de ilegalismo parece muito ligada a uma ideia
de (i) regime, de (ii) gestão, de uma (iii) política do punir. (i) Um regime
funcional e diferenciado dos diferentes atos considerados ilegais em uma
dada legislação, punindo alguns e outros não54. (ii) A gestão de um certo
número de práticas, “de ilegalidades ou irregularidades que, considerada (a
gestão) em conjunto, representa em si mesma uma certa regularidade”55.
(iii) Uma nova política do punir56 que, na sua luta contra esses ilegalismos,
rompeu com “todo um equilíbrio de tolerâncias, de apoios e de interesses
recíprocos, que sob o Antigo Regime mantivera umas ao lado das outras
os ilegalismos de diversas camadas sociais57.”

Assim, podemos inferir que na obra de Foucault é possível perce-


ber uma diferenciação mais ou menos clara entre a ilegalidade, que é o
desrespeito à lei por si só, uma irregularidade, um ato ilegal e aquilo que
se pode entender por “ilegalismo”. O ilegalismo é gerido por uma regra
própria, alheia à legislação em si, e pode ser – ou não – reprimido de
forma diferencial.

III. Sbriccoli se usa dessa expressão foucaultiana em mais de um


texto. Em um artigo intitulado La storia, il diritto, la prigione: appunti per
una discussione sull’opera di Michel Foucault58, ele faz uma análise do Sur-
veiller et Punir e de suas possíveis contribuições à historiografia jurídica.
52 FONSECA, Márcio Alves da. Michel Foucault e o Direito. São Paulo: Max Limonad, 2002. p. 132-133. É inte-
ressante ressaltar que a tradução de Raquel Ramalhete do Surveiller et Punir para o português (FOUCAULT,
Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987) parece
não ter se atentado para isso, usando como sinônimos os termos “ilegalidade” e “ilegalismo”. Em virtude disso,
aqui me utilizarei da obra em francês; mantenho a tradução oficial como referência para traduções livres, mas
não como base.
53 Ibidem.
54 Nesse mesmo sentido, idem.
55 Idem, 138-139.
56 Cf. FOUCAULT, Michel. Surveiller... op. cit. p. 84.
57 Traduzi. No original: tout un équilibre de tolérances, d'appuis et d'intérêts réciproques, qui sous l'Ancien Régime
avait maintenu les uns à côté des autres les illégalismes de différentes couches sociales, s'était trouvé rompu.
FOUCAULT, Michel. Surveiller... op. cit. p. 277.
58 SBRICCOLI, Mario. La storia, il diritto, la prigione. Appunti per una discussione sull’operadi Michel Foucault.
In:_____: Storia del diritto penale e della giustizia. Tomo I. Scritti editi e inediti (1972-2007). Milano: Giuffrè
Editore. p. 1075-1092.

114
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Nele, Sbriccoli defende que este trabalho de Foucault traz ao menos dois
momentos de grande importância historiográfica, fornecendo contribuições
de valor absoluto tanto

no método de investigação quanto nos resultados obtidos: a disci-


plina e os “assim chamados ilegalismos”59.

O próprio Sbriccoli retoma os ilegalismos em mais de um texto: em


La piccola criminalità e la criminalità dei poveri nelle riforme settecentesche del
diritto e della legislazione penale60 e em Il furto campestre nell’Italia mezzadrile.
Un’interpretazione61, ele parte do ilegalismo como hipótese de pesquisa, e
trás, neste último artigo, até mesmo uma definição própria desta catego-
ria explicativa: o ilegalismo é um comportamento que ele designa como
“ilegalístico”, devendo-se pensar, primeiramente, em um “comportamento
transgressivo muito difuso e raramente punido (muito difuso também por-
que raramente punido e raramente punido também porque muito difuso),
o qual – segundo o esquema de Foucault – pode ter como objeto bens
ou direitos”62. O “ilegalístico” de Mario Sbriccoli serve mais como adjetivo
(acompanhando palavras como “prática”, “comportamento”, “imposição” 63) e
parece carregar consigo não apenas o conjunto de significados trazido em
“ilegalismo”, mas também a idéia de sua gestão e seu regime de aplicação.

IV. Embora a gestão dos ilegalismos não seja restrita ao campo da


legalidade, eventualmente a regra utilizada para administrar essas práticas
pode ser a lei penal. Nesse caso, o “duplo nível de legalidade”, categoria
criada por Mario Sbriccoli para interpretar o sistema penal italiano, pode
ser útil para se comprender os jogos que regem os ilegalismos dentro do
campo legal.

Por duplo nível de legalidade entende-se a diferenciação da legalidade


em dois graus, sendo o primeiro administrado pela justiça e constituído pela
lei estabelecida nos códigos e o segundo disciplinado por leis de exceção
e mecanismos de polícia. Mas, além disso, “o duplo nível de legalidade
discerne os ‘cavalheiros’ dos ‘malandros’, destinando-os a diferentes filières

59 Traduzi. No original: “cosi dette illegalismi”. SBRICCOLI. La storia, il diritto, la prigione… op. cit. p. 1084.
60 In:_____: Storia del diritto penale e della giustizia. Scritti editi e inediti (1972-2007). Milano: Giuffrè Editore.
pp. 405 e ss.
61 In:_____: Storia del diritto penale e della giustizia. Scritti editi e inediti (1972-2007). Milano: Giuffrè Editore.
pp. 417 e ss.
62 Traduzi. No original: “comportamento trasgressivo molto diffuso e raramente punito (molto diffuso anche perché
raramente punito e raramente punito anche perché molto diffuso), il quale — secondo lo schema di Foucault —
può avere come oggetto beni o diritti.” Idem. p. 418.
63 No original, “pratica” (p. 418), “comportamento” (p. 419) e “forzatura” (p. 996”). Storia del diritto penale... op.
cit.

115
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

punitivos, faz prevalecer a oportunidade política sobre a regra jurídica, o


motivo sobre o direito”64.

Sobre o duplo nível de legalidade, pode-se inferir que ele tenha um


“espaço” (a lei de exceção), um meio de operação (mecanismos de polícia)
e uma “seletividade” (discerne os cavalheiros dos malandros), podendo ser
reconhecido em diferentes contextos e analisado em diferentes países ou
territórios65. O duplo nível de legalidade ainda é, especialmente no Brasil,
uma categoria muito nova, que demanda maiores estudos e cujo potencial
elucidativo pode ser bem aproveitado.

Até hoje, os trabalhos que estendem essa categoria explicativa


sbriccoliana dedicaram-se basicamente à compreensão do delito político.
A partir da forma com que Mario Sbriccoli conceitua o duplo nível de
legalidade em seu Caratteri originari e tratti permanenti del sistema penale
italiano (1860-1990), no entanto, podemos concluir que sua aplicação se
estende para muito além dessa categoria, permitindo-nos nos perguntar,
inclusive, se o duplo nível de legalidade pode ser considerado uma chave
interpretativa para a gestão dos ilegalismos proposta por Foucault.

V. Tanto as análises dos ilegalismos, por Foucault e por Sbriccoli, quanto


as do duplo nível de legalidade, por Sbriccoli, se ligam a um contexto europeu,
sendo que sua transposição, para interpretar a história do Brasil é arriscada de
se fazer - temos aqui muitas particularidades, especialmente se compararmos
a dois países centrais como França e Itália. Entretanto, se tomados os devidos
cuidados, essas categorias explicativas podem jogar uma nova luz também em
alguns episódios de nossa história, levando a novas conclusões e problematizações.

Os “termos de bem viver”, por exemplo, expostos nos arts. 12 e 121 do


Código do Processo Criminal de 1832 e, posteriormente, no Regulamento 120
de 1842, eram impostos “aos vadios, mendigos, bebados por habito, prostitutas,
que perturbam o socego publico, aos turbulentos, que por palavras, ou acções
offendem os bons costumes, a tranquillidade publica, e a paz das familias”. Em
64 Traduzi. No original: “il duplice livello di legalità discerne i <galantuomini> dai <birbanti> destinandoli a diffe-
renti filières punitive, fa prevalere l’oportunità politica sulla regola giuridica, lo scopo sul diritto”. SBRICCOLI, Mario.
Caratteri... op. cit. p. 491.
65 Como exemplos de aplicação do duplo nível de legalidade a outros contextos que não o italiano, podemos
citar: MECCARELLI, Massimo. Fuori dalla società: emergenza politica, espansione del sistema penale e regimi della
legalità nel tardo Ottocento: una comparazione tra Italia e Francia. In_____: Perpetue appendici e codicilli alle
leggi italiane. Le circolari ministeriali, il potere regolamentare e la politica del diritto in Italia tra Otto e Novecento.
Floriana Colao, Luigi Lacchè, Claudia Storti, Chiara Valsecchi (Eds.). Macerata: EUM, 2011, que aplica também
ao contexto francês de repressão anarquista; NUNES, Diego. Le “irrequietas leis de segurança nacional”: sistema
penale e repressione del dissenso politico nel brasile dell’estado novo (1937-1945). Tese (Doutorado em Direito).
Università degli Studi di Macerata. Macerata, 2014, que o aplica lindamente ao período do Estado Novo e
SILVA, Gabriel Videira. Terrorismo e duplo nível de legalidade na cultura jurídico-penal brasileira: da doutrina da
segurança nacional à guerra contra o terror. Dissertação (Mestrado em Direito). Universidade Federal de Santa
Catarina. Florianópolis, 2015, que tenta aplicá-lo à ditadura militar.

116
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

uma análise inicial, cogito se esses termos teriam por objetivo estabelecer e
controlar uma classe perigosa, sem necessariamente o/a “agente” ter cometido
alguma conduta, deixando-o/a em uma zona nebulosa entre a criminalização e a
liberdade. Os termos valiam-se claramente das figuras do “suspeito”, dos disturbers.

Há vasta bibliografia66 dedicada a esses termos: obras que lidam com fontes
primárias e processos, investigando quem seria o alvo e como se davam na prática
as assinaturas desses termos. Uma análise sbriccoli-foucaultiana baseada nestes
trabalhos pode trazer uma visão geral sobre o tema e ensejar novas conclusões
já que se trata, muito provavelmente, de um “instituto” dedicado a administrar
e gerir os ilegalismos a partir de uma lei penal de segundo nível.

66 Como exemplos, cito uma breve e inicial seleção bibliográfica: DINIZ, Mônica. Olhares sobre a cidade: Termos
do bem viver, vadiagem e polícia nas ruas de São Paulo (1870-1890). 2012. 133 fls. Dissertação de Mestrado
(mestrado em história social). USP. 2012. DUTRA, Guilherme Miranda. Bêbados, vadios e turbulentos: Termos de
Bem viver e Controle Social no Segundo Reinado. 2013. 100 fls. Monografia (graduação em Direito). UFRGS. 2013.
MARTINS, Eduardo. Os pobres e os termos de bem viver: novas formas de controle social no Império do Brasil.
2003. 196 fls. Dissertação de Mestrado (Mestrado em História e Sociedade). UNESP. 2003. MATA, Iacy Maia. Os
‘Treze de Maio’: ex-senhores, polícia e libertos na Bahia pós-abolição (1888-1889), Dissertação de Mestrado, UFBA,
2002. ROSA, Andréia Marsaro da. Quentes de cachaça: festas e corridas de cavalos em Guarapuava através de
processos crime e termos de bem viver (1854-1886). 2016. 117 fls. Dissertação de mestrado (Mestrado em História
Social). UEL. 2016. SOARES, Geraldo Antonio. Os limites da ordem: respostas à ação da polícia em Vitória ao
final do século XIX. Topoi (Rio J.), Rio de Janeiro , v. 10, n. 19, p. 112-132, Dec. 2009 . Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-101X2009000200112&lng=en&nrm=iso>. access
on 05 July 2017. http://dx.doi.org/10.1590/2237-101X010019007.

117
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

PARA ALÉM DO CÓDIGO: O PAPEL DO PODER


EXECUTIVO NA INTERPRETAÇÃO
DO DIREITO CRIMINAL DO IMPÉRIO

FERNANDO NAGIB MARCOS COELHO


Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Professor substituto na Universidade Federal do Paraná (UFPR)
E-mail: fernando.nagib@ufpr.br

Eixo Temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas)

Palavras-chave: Ministério da Justiça; Justiça Criminal; Avisos ministeriais

Introdução

Em dezembro de 1830, ainda antes da abdicação de D. Pedro I., foi aprovado


o Código criminal do Império, a fim de substituir a legislação penal portuguesa
vigente por uma norma sistemática e moderna para o direito público brasileiro.
Nos primeiros anos do governo regencial, foi aprovado o código de processo
criminal (1832), o exército foi reduzido a níveis mínimos e foi instituída a guarda
nacional (1831) organizada pelas províncias, foi abolido o conselho de Estado e foi
editado o Ato Adicional (1834). Aqueles anos relativos às primeiras duas legislaturas
regularmente eleitas (1826-1830, 1830-1834) seriam posteriormente identificadas
como o auge do movimento liberal reformista, que buscou estabelecer as suas
concepções políticas e jurídicas nas bases do Estado nacional. Ao lado de fatores
externos, o sucesso liberal parece ter sido responsável diretamente pela abdica-
ção e, consequentemente, pelo estabelecimento de uma regência representativa
resultante da primeira eleição direta no país.

O espírito reformista e liberal na década de 1830, no entanto, não vai


se manter forte diante das pressões políticas e sociais que marcariam a regência
como um período de verdadeira guerra civil. O programa político legislativo liberal
quando implementado, portanto, seria imediatamente seguido pelo regresso con-
servador, que cuidaria de reverter mudanças legislativas através de instrumentos
próprios do poder Executivo. Os organizadores do “regresso” realizaram mudanças

119
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

legislativas menos monumentais do que os liberais no início da regência, man-


tendo os códigos com poucas alterações. A aposta saquarema foi o retorno da
centralização como forma de controle sobre as direções do governo e da política
interna, restaurando o Conselho de Estado e reforçando o papel da reinterpreta-
ção da legislação liberal em um contexto conservador. É neste contexto que os
avisos ministeriais, um instrumento jurídico vinculado ao poder de gerir e ordenar
do executivo, ganharia um papel político novo, diretamente relacionado com o
exercício da jurisdição criminal e com a sua interpretação.

Uma parte importante dos avisos ministeriais estavam relacionados à área


criminal e ao processo criminal – justamente as áreas de maior avanço legislativo
no período de maioria liberal na Assembleia Geral. Todas as edições comentadas
dos códigos criminal e de processo criminal acessíveis nas bibliotecas e bancos
de dados pesquisados se propunham a analisar os artigos dos códigos utilizando
como referência, dentre outras fontes, os avisos ministeriais. O manual de Josino
do Nascimento Silva era intitulado Codigo Criminal do Imperio do Brasil: aumen-
tado com as leis, decretos, avisos e portarias que desde a sua publicação até hoje
se tem expedido, explicando, revogando ou alterando algumas de suas disposições.
Josino do Nascimento Silva foi diretor-geral da Secretaria de Estado dos Negócios
da Justiça durante a década de 1850. Em seu livro Silva advertia que havia tido
“o maior cuidado” para não lhe escapar nenhum ato do Executivo que tivesse
relação com as disposições do Código Criminal, compilando as referências dos
decretos e avisos relevantes ao longo das notas de rodapé do texto da lei. Em
seus comentários, os “avisos ministeriais” são a mais frequente referência norma-
tiva para a interpretação dos artigos do código – mais de sessenta referências a
avisos nas notas de rodapé – à frente dos decretos, das portarias e da legislação
extravagante. A presença dos avisos na regulação da área criminal era ampla e
estes atos do executivo determinavam o alcance da lei. Se o artigo 10 do Código
excluía os menores de quatorze anos do julgamento criminal, o Aviso de 17 de
julho de 1852 estendia tal disposição aos escravos menores. Ao artigo 47 deter-
minava que a pena de prisão obrigaria à reclusão nas prisões públicas, de acordo
com as sentenças, correspondia a vedação da prisão domiciliar dada pelo aviso
de 3 de abril de 1843. Diante do mesmo artigo, o autor do “Código Criminal
aumentado” mencionava que o aviso de 25 de janeiro de 1850 teria autorizado
ao presidente de província do Rio de Janeiro a mandar prender nos quartéis os
praças, pelo limite de até um ano, apesar da lei.

Além de delimitar a abrangência da lei, os avisos tinham uma função


disciplinar sobre a atuação dos juízes criminais. Ao comentar o artigo 60, sobre
as punições ao réu escravo, o autor mencionava o aviso de 3 de fevereiro de
1836, que impediria os juízes de comutar a pena de galés à pena de açoites. Os
avisos limitavam ainda as penalidades dispostas nas sentenças judiciais. Diante

120
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

do artigo 113 do Código, que dispunha sobre o temido crime de insurreição,


Silva mencionava:
O aviso de 10 de Junho de 1861 declarou que o numero de açoutes que
se podem dar, sem perigo de vida do paciente, não deve exceder de 200,
e em todos os casos deve ser ouvido o juizo medico. Em meu entender,
os complices que forem escravos devem ser punidos com açoutes; para
os que forem livres a penalidade que deve regular é a do art. 115.

Diante da inexistência de um “guardião da Constituição”, o Código criminal


aumentado de J. N. Silva demonstrava que na época do Império os avisos foram
usados para afastar o “princípio da presunção de inocência” ao assinalar sobre
o art. 181 do Código o aviso de 12 de janeiro de 1844, dizendo que “não ha
excesso, nem incompetência em prender réos indiciados em crimes inafiançáveis
sem lhes ter formado culpa”.

A mesma roupagem tinha a obra de José Marcelino Pereira de Vasconcellos


com nova edição publicada em 1860 com o título de Codigo criminal do Imperio
do Brazil: annotado com as leis, decretos, avisos e portarias publicados desde a sua
data até o presente, e que explicão, revogão ou alterão algumas das suas disposições,
ou com ellas tem immediata connexão. Nesta obra, a referência aos avisos aparece
desde o artigo primeiro até o antepenúltimo. Alguns comentários do Código
annotado de Vasconcellos são semelhantes aos presentes no Código aumentado
de Silva, mas o primeiro é menos extenso, contendo em torno de 150 páginas,
enquanto o trabalho de Josino do Nascimento Silva possuía aproximadamente
400 páginas. Vasconcellos anota em seu Código no artigo 38 exemplos diversos
de como os avisos determinavam os detalhes da execução da justiça. O caput
“A pena de morte será dada na forca” era acompanhado pelo seguinte rodapé:
A forca deve ser levantada somente quando fôr necessaria, afim de que
não esteja continuadamente ás vistas do publico. (Av. de 17 de julho de
1835) – É ao Juiz Municipal que compete mandar levantal-a. (Av. de 30 de
junho de 1836) – As despezas para esse fim necessarias são provinciaes
e não geraes. (Avv. de 4 e 6 de agosto de 1836).

Como os avisos consistiam em instrumentos do Poder executivo que não


possuíam uma delimitação rígida, mas eram legitimados pelo reforço da autoridade
genérica do monarca e seus ministros enquanto representantes da sociedade, os
mesmos serviriam como um instrumento de governo essencial para os gabinetes
formados durante a regência e, principalmente, após o “regresso conservador”. Em
conjunto com os outros instrumentos normativos, os avisos serviriam de veículo
pelo qual o governo poderia reforçar a autonomia do Poder executivo perante o
Poder legislativo e estabelecer o predomínio do Poder executivo sobre a regulação
da administração da Justiça, especialmente na área criminal.

121
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Metodologia

A metodologia desta pesquisa consiste na análise dos avisos ministeriais


e outros instrumentos do poder executivo registrados na doutrina criminal, nas
coletâneas e nos manuais práticos relacionados ao exercício da atividade juris-
dicional penal, rastreando e identificando em que medida a interpretação dos
juristas e praxistas criminalistas reagia e se poderia ser influenciada pelo governo
central durante o império.

Resultados

A análise não só das coletâneas de legislação, mas também dos manuais


de direito e livros práticos da área, já permite avaliar o significativo impacto o
uso dos avisos como instrumento de governo no período que segue a regência.
A quantidade de avisos presentes nas publicações oficiais do governo aumentaria
de forma consistente após o seu início no regresso (1837). No segundo reinado, o
aumento do número de publicações de “Códigos comentados” e de compilações
legais organizadas de acordo com a interpretação dos avisos do governo já serve
também para demonstrar a importância e o sucesso dos instrumentos normativos
do governo no âmbito da prática do direito criminal.

Referências bibliográficas
Codigo criminal do imperio do Brazil annotado com as leis, decretos, avisos e
portarias publicados desde a sua data até o presente, e que explicão, revogão
ou alterão algumas das suas disposições, ou com ellas tem immediata connexão.
Nova edição; a mais completa; seguido de um appendice contendo a integra das
leis addiccionaes ao mesmo codigo posteriormente promulgadas. Por J. M. Pereira
de Vasconcellos. Rio de Janeiro: 1860.
Código do processo criminal de primeira instancia para o Imperio do Brazil,
com notas, nas quaes se mostrão os artigos que foram revogados, ampliados ou
alterados. Seguido da disposição provisoria acerca da administação da justiça civil,
da lei de 3 de dezembro de 1841 que reforma o mesmo codigo. Rio de Janeiro:
Typographia de Manoel José Cardoso, 1842.
COELHO, Fernando Nagib Marcos. Tipos normativos e separação dos poderes: a
função política do aviso ministerial durante a regência (1831-1840). 2016. 251 p.
Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências
Jurídicas, Programa de Pós-Graduação em Direito, Florianópolis, 2016. Disponível
em: <http://www.bu.ufsc.br/teses/PDPC1255-T.pdf>

122
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O TRATAMENTO LEGAL DESTINADO AO OFENDIDO


NO BRASIL IMPÉRIO (1824 – 1858)

ANTÔNIO DE HOLANDA CAVALCANTE SEGUNDO


Doutorando em Ordem Jurídica Constitucional no Programa de Pós-Graduação
em Direito da Universidade Federal do Ceará (PPGD-UFC)
E-mail: holanda.segundo@gmail.com

AFONSO ROBERTO MENDES BELARMINO


Mestrando em Ordem Jurídica Constitucional no Programa de Pós-Graduação
em Direito da Universidade Federal do Ceará (PPGD-UFC)
E-mail: afonsombelarmino@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas)

Palavras-chave: Brasil Império; legislação criminal; teoria do bem jurídico.

Introdução

Em linhas gerais, o objetivo do presente trabalho é investigar acerca do


pensamento jurídico cultivado no Império e dos seus influxos na legislação penal
que se elaborava para um Brasil pretensamente independente. Naquele contexto,
como esmiuçado em tópico inicial, envidavam-se esforços de combinar a emanci-
pação política com a construção de um sistema igualmente independente, dotado
de instituições próprias e distintas daquelas estabelecidas pelas ordenações vigentes
nos tempos de colônia (BONAVIDES, 2007, p. 71).

O estudo passa, ainda, pela caracterização das ideias que nortearam as


principais leis, em sentido amplo, que surgiram no Império, como a Constituição
de 1824. Nossa primeira constituição lançou as colunas da justiça e da equidade
que sustentariam o Código Criminal de 1830, podendo-se destacar as influências
da chamada Escola Clássica do Direito Penal e da Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão (1789). As vozes liberais que se ouviam naquele período
eram, de certo modo, ecos da Revolução Francesa.

Com a superação da ideia do delito como lesão a direito subjetivo, a


qual teve como maior expoente P. A. Feuerbach, o século XIX observou franco

123
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

desenvolvimento da teoria do bem-jurídico, notadamente em Birnbaum (PRADO,


2014, p. 31). Paralelamente, verificou-se a chamada “marginalização da vítima”, na
medida em que esta se viu cada vez mais alheia à persecução penal (CÂMARA,
2008, p. 57). De um protagonismo permeado por vinganças privadas, passou-se
ao exercício do ius puniendi pelo Estado, que arrecadava as multas penais e,
portanto, lucrava com as persecuções criminais, restando à vítima uma posição
deveras subalterna.

Por outro lado, há que se ressaltar que o Código Criminal de 1830


reservava aos ofendidos um capítulo que previa a satisfação destes pelos danos
sofridos em decorrência de crimes. Em linhas gerais, previa-se a satisfação, pelo
delinquente, do dano causado pelo delito (artigo 21), a qual deveria ser “sempre
a mais completa” (artigo 22).

Assim, o artigo servirá para analisar se a legislação criminal do Império,


notadamente o Código Criminal de 1830, em alguma medida, destoava do ideário
liberal que, ao atribuir ao Estado o ius puniendi, com todos os seus consectários,
promoveu o ostracismo das vítimas em relação à persecução penal.

Metodologia

Além da análise da legislação criminal vigente à época, notadamente o


Código de 1830, o trabalho tem por base a obra de Braz de Sousa intitulada
“Código Criminal do Império”67, que traz anotações de leis, decretos, avisos e
portarias publicados até o ano de 1858. Também se elencam e se relacionam
no mesmo livro, por meio de um apêndice, leis adicionais ao código que foram
promulgadas posteriormente, o que proporcionará um recorte temporal a refinar
a investigação de tal período, uma vez que traz a legislação criminal correlata
publicada até 1858, ano de publicação do livro.

Resultados

- A legislação criminal do Brasil Império, apesar de ter recebido influências


iluministas tendentes à humanização das penas (BECCARIA, 2011), ainda as trazia
com certo ranço de crueldade, a exemplo da forca e das galés.

- Com o desenvolvimento da teoria do bem jurídico, a vítima, que pro-


tagonizava as vinganças decorrentes de delitos sofridos, passa a ser neutralizada
no âmbito da persecução penal ao longo do século XIX.

67 “Código Criminal do Império”: annotado com as leis, decretos, avisos e portarias publicados desde a sua
data até o presente, e que explicação, revogação ou alteração algumas das suas disposições, ou com ellas tem
immediata connexão: acompanhado de um appendice contendo a integra das leis addicionaes ao mesmo
codigo, posteriormente promulgadas”.

124
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

- O Código Criminal de 1830, assim como a legislação criminal correlata,


reservava diversos dispositivos em atenção ao ofendido, que fazia jus ao completo
ressarcimento, na medida do possível, pelo dano sofrido com o delito.

Conclusão

Em conclusão, pode-se afirmar que, a despeito da paulatina neutralização


da vítima verificada com o desenvolvimento da teoria do bem jurídico e da
Escola Clássica do Direito Penal, contemplava-se, no Brasil Império, notadamente
no âmbito do Código Criminal de 1830, a figura da vítima. Muito embora a
chamada “Idade de Ouro” da vítima chegasse ao seu ocaso naquela quadra do
tempo para a doutrina que, ao menos sob os olhos de hoje, figurava como a
mais destacada, o Código de 1830 e a legislação correlata, elencada por Braz de
Sousa, revela que os ofendidos ainda ocupavam certo destaque na persecução
criminal, fazendo jus ao ressarcimento mais completo possível em decorrência do
dano sofrido com o delito, contando com diversos dispositivos legais nesse sentido.

Assim, por esse prisma, conclui-se que o advento de certas ideias não se
dá necessariamente por rupturas, sendo o pensamento jurídico frequentemente
permeado por continuidades, como se verifica no tratamento destinado aos
ofendidos no âmbito dos processos criminais durante o Brasil Império.

Referências bibliográficas
BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas, trad. Paulo M. Oliveira. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2011.
BONAVIDES, Paulo. Teoria do Estado. 6ª Ed. São Paulo: Malheiros, 2007.
CÂMARA, Guilherme Costa. Programa de política criminal orientado para a vítima
de crime. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008.
ESER, Albin. Sobre la exaltación del bien jurídico a costa de la víctima, trad. Manuel
Cancio Meliá. Bogotá: Universidad Externado de Colombia, 1988.
HASSEMER, Winfried. Consideraciones sobre la víctima del delito, trad. Rocío Can-
tarero, ADPCP, 1990, p. 241-259.
OLIVEIRA, Ana Sofia Schmidt de. A vítima e o direito penal: uma abordagem
do movimento vitimológico e de seu impacto no direito penal. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 1999.
QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo. A modernização do direito penal brasileiro - Sursis,
Livramento Condicional e outras reformas do sistema de penas clássico no Brasil,
1924-1940. São Paulo: Quartier Latin, 2007.
PRADO, Luiz Regis. Bem jurídico-penal e constituição. 7ª Ed. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2014.

125
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

SOUZA, Braz Florentino Henriques de. Código Criminal do Império do Brasil.


Recife: Typographia Universal, 1858. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/
bdsf/handle/id/221763>. Acesso em 05/07/2017.

126
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

CRIME, PERDÃO E GÊNERO: APONTAMENTOS


SOBRE A CULTURA JURÍDICA CRIMINAL
SETECENTISTA A PARTIR DO CASO
DE ANNA MARIA DO ESPÍRITO SANTO (1783)

VANESSA MASSUCHETTO
Programa de Pós-Graduação em Direito – Doutorado
Universidade Federal do Paraná – PPGD-UFPR
Bolsista CAPES de Doutorado
E-mail: vanessa.massuchetto@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processos e penas)

Palavras-chave: América Portuguesa; cultura jurídica criminal; perdão.

Introdução

A proposta de apresentação de trabalho ora encaminhada ao IX Con-


gresso Brasileiro de História do Direito versa a respeito do estudo e da análise
de um caso crime ocorrido na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de
Curitiba e ajuizado junto à Ouvidoria da Comarca de Paranaguá em 1783 en-
volvendo os seguintes personagens: a ofendida, Anna Maria do Espírito Santo, o
acusado, Tenente Antonio José do Prado, e a representação da Justiça por seu
Promotor.68 Em suma, a culpa imputada ao Tenente resultou da querela movida
por Anna Maria do Espirito Santo por tê-la forçado a deitar-se com ele.69 Por
esta razão, o acusado fora aprisionado70 e, na tentativa de rediscutir os termos
de sua culpa e consequentemente conseguir ser liberado da prisão, ajuizou um
instrumento processual específico do direito criminal português que permitia a
68 Autos sob o número BR PRAPPR PB 045.PC2393.80, Caixa 80, 1783, Autos de Livramento crime entre a
Justiça por seu Promotor e o Tenente Antonio José do Prado.
69 Forças de mulheres era a expressão utilizada pelas Ordenações Filipinas aos casos de estupro. No caso dos
autos em questão, ao longo das petições das partes e dos depoimentos das testemunhas são cunhadas ambas
expressões.
70 O aprisionamento não era compreendido, no século XVIII, como um modo de penalização em processos
crime. Portanto, a prisão neste momento mantinha sentido de impedir a fuga do acusado, possibilitando que
o ofendido apresentasse o libelo acusatório e ensejasse a aplicação de pena.

127
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

defesa do acusado bem como a desconstituição da culpa formada na querela:


os autos de livramento crime. Todavia, durante o andamento dos termos do
livramento crime, a ofendida concedeu o perdão ao acusado por meio de uma
Escritura de Perdão, na qual “desdisse” a acusação e alegou ter dado a queixa
por medo de seus pais.71

Este caso pode ser considerado simples, entretanto traz à tona uma série
de questões próprias do direito e do processo criminal do Império Português e
dos procedimentos específicos circulantes na América Portuguesa, além de dei-
xar entrever aspectos da cultura jurídica local. Os modos de livrar configuram
maneiras específicas de defesa dos acusados e dos condenados e formas pelas
quais o caminhar de um processamento crime tornava-se menos penoso ao réu.
Em especial os autos de livramento crime era um instrumento peculiar que tinha
como objetivo a rediscussão do aspecto mais central nos processos crime dos
setecentos: a culpa. Era através deste procedimento que o acusado trazia seus
meios de defesa e – geralmente – conseguia o livramento do crime em pauta.
Ainda, cabe salientar a presença da figura do perdão da parte ofendida nestes
autos, revelando em alguma medida uma dimensão “privada”72 da justiça criminal
deste período, podendo aqui ser aproximada da permanência de uma lógica de
justiça penal negocial de Mario Sbriccoli.73 Para além, o caso selecionado para a
presente apresentação de trabalho lança luzes também em temas que envolvem a
discussão de gênero na história e traz questionamentos acerca do posicionamento
social das mulheres na atuação no interior da cultura jurídica das comunidades
existentes na América Portuguesa. O caso em tela trata especificamente de um
crime sexual e, em razão da escritura de perdão da parte compulsada aos autos,
revela os entendimentos comunitários acerca do comparecimento da ofendida
em juízo para prestar queixa.

Metodologia

A proposta metodológica empregada nesta pesquisa identifica-se com


a perspectiva de Carlo Ginzburg74, através da qual o cerne é a interpretação de
aspectos marginalizados, fronteiriços, que extrapolam os espaços comumente
analisados – que neste trabalho correspondem ao Império Ultramarino Portu-
guês como um todo e à América Portuguesa em toda sua extensão. Em uma
análise histórica, um “caso-limite” – que parte de dados a um primeiro momento
negligenciáveis – pode se revelar significativo por auxiliar na visualização e na
71 BR PRAPPR PB 045.PC2393.80, op. cit., folha 5.
72 O termo está entre aspas para marcar sua historicidade, bem como para fazer a ressalva de que a semântica
utilizada não identifica-se com a noção moderna de tentativas de separação entre os campos privado e público.
73 SBRICCOLI, Mario. Giustizia criminale. In: ______. Storia del diritto penale e dela giustizia. Tomo I. Milano:
Giuffrè Editore, 2009, p. 5-6.
74 GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras,
2014, p 149-152.

128
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

compreensão do cerne de acontecimentos mais frequentes ao mesmo tempo em


que permite a visibilização de aspectos mais latentes, mais particulares.75

Neste sentido, a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba


encontra-se em um espaço bastante fronteiriço não somente no interior do Império
Ultramarino Português como também na América Portuguesa, configurando-se em
um espaço privilegiado de visualização da reprodução dos costumes locais e das
regras imperiais circulantes na América Portuguesa, constituindo a cultura jurídica
local.76 No que tange ao recorte temporal, a seleção é realizada pela segunda
metade do século XVIII, compreendendo o período do reinado josefino (1750 a
1777) e o reinado de Dona Maria I na sua extensão até o fim do século, tendo
em vista que este é o período conhecido por iluminismo jurídico-penal em que
existem grandes movimentos de modernização do direito criminal, o que torna
o estudo das fontes históricas mais complexo e necessário.

Resultados

Para a explicação das conclusões extraídas até o presente momento na


pesquisa é importante mencionar que o resumo de trabalho ora apresentado
resulta de duas pesquisas desenvolvidas pela doutoranda no âmbito da cultura
jurídica criminal local da América Portuguesa. Uma mais avançada, realizada ao
longo do período do mestrado, que trata especificamente dos autos de livramento
crime na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba.77 Nos termos
desta pesquisa, a conclusão possível é de que a cultura jurídica criminal da Vila
de Curitiba era orientada por uma prática mais liberatória do que punitiva daque-
les sujeitos que eram condenados pela administração da justiça régia, revelando
uma grande plasticidade das práticas em comparação às normas do período.78
A segunda pesquisa encontra-se em patamar mais inicial, tendo em vista que
corresponde ao projeto de tese atualmente em andamento, e pretende delinear
a compreensão do tratamento das mulheres no interior do direito processual
criminal reproduzido nos organismos locais na Vila de Nossa Senhora da Luz
dos Pinhais de Curitiba. As impressões havidas até o presente momento permi-
tem concluir que colocando lado a lado as condições jurídicas dadas ao gênero

75 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p 21.
76 PEREIRA, Luís Fernando Lopes. O Império Português: a centralidade do concelho e da cidade, espaço da
cultura jurídica. In: FONSECA, Ricardo Marcelo (org.). As formas do direito, ordem, razão e decisão. Curitiba:
Juruá, 2013, p 579-581.
77 MASSUCHETTO, Vanessa Caroline. Os autos de livramento crime e a Vila de Curitiba: apontamentos sobre
a cultura jurídica criminal (1777-1800), Curitiba, 2016, Dissertação (Mestrado em Direito) – Setor de Ciências
Jurídicas, Universidade Federal do Paraná.
78 E tal característica parece ser uma constante em grande parte do território do Império Português, consi-
derando que, sob a perspectiva de António Manuel Hespanha, a ordem jurídica criminal embasava-se mais na
ameaça do que na punição. (Cf. HESPANHA, António Manuel. Da “iustitia” à “disciplina”. Textos, poder e política
penal no Antigo Regime. In:______. Justiça e litigiosidades. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993).

129
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

feminino pelas tradições textuais e os elementos, ritos e procedimentos pelos


quais eram processados os crimes ao longo do Império Português, os maiores
questionamentos à compreensão das práticas da cultura jurídica e do estatuto da
mulher aparecem da leitura de algumas fontes. Isto é, as representações femininas
do período79 seguramente não correspondem às práticas existentes no âmbito
da cultura jurídica local praticada nos foros, e a análise dos processos judiciais
em que mulheres figuram sobretudo como autoras auxilia na desconstrução das
noções que permeiam os estudos de gênero nas tradições textuais setecentistas.

Conclusão

A análise do processo criminal, e por extensão do direito criminal, no


contexto colonial no interior do Antigo Regime português permite a verificação
da existência efetiva de uma grande plasticidade que perpassava a ordem jurídica
criminal ao longo dos espaços do Império Ultramarino Português. Em que pese
o desenvolvimento, ao longo da segunda metade do século XVIII, de políticas
régias que intentaram difundir determinadas noções modernas a respeito do
tratamento jurídico do crime e dos condenados, um estudo centrado em ca-
racterísticas pormenorizadas demonstra a prática de várias permanências, além
de sugerir uma confluência de mentalidades medieval e moderna no interior
do mesmo imaginário. Os elementos que fazem parte de vicissitudes próprias
de uma determinada experiência – usualmente tidos como anormalidades e,
por esta razão, rejeitados por estratégias metodológicas mais tradicionais ou de
perspectiva macro – podem trazer uma maior reflexão não somente acerca da
cultura jurídica específica da comunidade em questão, mas também reflete muito
do que está contido no imaginário dos planos gerais.

Referências bibliográficas
ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ. Autos sob o número BR PRAPPR PB 045.
PC2393.80, Caixa 80, 1783, Autos de Livramento crime entre a Justiça por seu
Promotor e o Tenente Antonio José do Prado.
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. 2ª ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2014.
___. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela
Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
HESPANHA, António Manuel. Como os juristas viam o mundo. 1550-1750. Direitos,
estados, pessoas, coisas, contratos, ações e crimes. Lisboa, 2015.
___. Da “iustitia” à “disciplina”. Textos, poder e política penal no Antigo Regime.
In:___. Justiça e litigiosidades. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.

79 Como a incapacidade nata, a subordinação necessária e a impossibilidade de atuação em for. (Cf. HESPA-
NHA, Antonio Manuel. Imbecillitas, As bem aventuranças da inferioridade nas sociedades de Antigo Regime. São
Paulo: Annablume, 2010, p 102).

130
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

___. Imbecillitas, As bem aventuranças da inferioridade nas sociedades de Antigo


Regime. São Paulo: Annablume, 2010.
MASSUCHETTO, Vanessa Caroline. Os autos de livramento crime e a Vila de
Curitiba: apontamentos sobre a cultura jurídica criminal (1777-1800), Curitiba, 2016,
Dissertação (Mestrado em Direito) – Setor de Ciências Jurídicas, Universidade
Federal do Paraná.
PEREIRA, Luis Fernando Lopes. O Império Português: a centralidade do concelho
e da cidade, espaço da cultura jurídica. In: FONSECA, Ricardo Marcelo (org.). As
formas do direito, ordem, razão e decisão. Curitiba: Juruá, 2013.
PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. Rio
de Janeiro, Paz e Terra, 1992.
SBRICCOLI, Mario. Giustizia criminale. In: ___. Storia del diritto penale e dela
giustizia. Tomo I. Milano: Giuffrè Editore, 2009.

131
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

OS CRIMES SEXUAIS NO CÓDIGO CRIMINAL DE 1830

DÉBORA TOMÉ DE SOUSA


Mestranda em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
E-mail: deboratomedesousa@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: Crimes sexuais; Código Criminal 1830; Penas.

Introdução

O presente trabalho abordará a temática dos crimes sexuais, com enfoque


no primeiro Código Criminal do Império, publicado em 1830. Tal assunto é im-
portante para se entender como as práticas sexuais eram abordadas no período,
bem como para demonstrar as tipificações e as penalidades aplicadas no Brasil
imperial, haja vista que tal codificação foi a primeira lei produzida por deputados
brasileiros, a qual observou as realidades locais e seguiu as determinações da Cons-
tituição Imperial de 1824. Além disso, o Código Criminal Imperial foi a primeira
legislação que revogou dispositivos das Ordenações Filipinas, especificamente o
Livro V, que tratava acerca do Direito Penal e Processual Penal.

A problemática do estudo é entender como eram tipificados os crimes


sexuais e quais as penalidades a eles aplicadas durante a vigência do Código Cri-
minal de 1830. Desta feita, primeiramente se descreverá as circunstâncias sociais
e jurídicas do Brasil durante a vigência do Código Criminal de 1830. Após, serão
apresentados os tipos penais que correspondem aos crimes sexuais dispostos no
Código Criminal, ressaltando as penas aplicadas para cada delito, além de explicar
o objetivo de tais crimes e penalidades. Este estudo não tem por finalidade esgotar
as discussões acerca da temática, apesar de expor como bastante clareza como
os delitos sexuais e suas penas eram abordados no Código Criminal de 1830.

Metodologia

Utilizou-se como metodologia um estudo descritivo-analítico, por meio


de pesquisa bibliográfica, com a leitura de artigos, livros e anais, bem como o
recurso à fonte primária, qual seja, o Código Criminal de 1830, tal pesquisa tem

133
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

por finalidade o interesse intelectual e o despertar para conhecimento de insti-


tutos penais do império.

Resultados

O período colonial brasileiro foi marcado pela existência do direito co-


mum, que era o direito régio, emanado da coroa portuguesa, formado pelas
Ordenações do Reino, pelas normas de direito canônico e pelas leis particulares
editadas especificamente para o Brasil, embora em quantidade insuficiente (HES-
PANHA, 2006, p. 96).

Além da ordem jurídica do direito comum, também estavam presentes


no território brasileiro os sistemas jurídicos formados a partir dos costumes locais,
bem como das práticas dos juízos, das decisões dos casos concretos, em especial,
nas capitanias hereditárias com as decisões dos ouvidores. Estes formavam o di-
reito próprio brasileiro, o qual se solidificou a partir da influência da Revolução
Francesa, dos ideais iluministas e liberais, da Declaração de Direitos do Homem
e do Cidadão e, principalmente, com a Declaração da Independência em 1822,
que culminou com a outorga da Carta Imperial de 1824, sendo necessária a
criação de um Código Criminal do Império, que observasse a realidade brasileira
e tivesse como base a justiça e a equidade.

O Código Criminal de 1830 tratou acerca dos crimes sexuais no Título


II “Dos crimes contra a segurança individual”, Capítulo II “Dos crimes contra a
segurança da honra”. Neste contexto, verifica-se que a tipificação de crimes sexuais
pelo Estado era uma forma dele disciplinar as pessoas, manter e proteger uma
moral comum, barrar a promiscuidade, regular os instintos humanos e acima de
tudo obedecer aos preceitos da Igreja Católica como o casamento e a castidade.
O crime sexual era considerado “o conjunto de fatos que ofendem a liberdade
sexual ou individual, que lesam e põem em perigo, pela sua anormalidade, os
fins da função sexual ou que tendam à destruição do indivíduo ou da espécie”
(GUSMÃO, 1954, p. 85). Portanto, a intenção de normatizar tais condutas não
era a proteção da dignidade sexual das mulheres ou dos homens, mas manter a
ordem moral, social e patriarcal.

Os crimes sexuais previstos na legislação em comento eram basicamente


o estupro e o rapto, ambos tinham como bem jurídico a segurança da honra,
principalmente, a moral ou reputação da família. Desta feita, os artigos 219 aos
225 do Código Criminal tratavam acerca do crime de estupro. O artigo 219
descrevia o crime de “deflorar mulher virgem, menor de dezessete anos”, sendo
assim, o homem que tivesse conjunção carnal com mulher virgem cometia crime.
Deflorar correspondia ao ato sexual de rompimento do hímen feminino, tal ato
era grave, posto que a virgindade da mulher era protegida pela sociedade e pela

134
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

religião católica, que pregava a castidade absoluta como um direito divino, que
só poderia ser rompido com o casamento (GUSMÃO, 1954, p. 83).

O homem que deflorava era penalizado com desterro para fora da


comarca, que residisse a mulher deflorada, pelo período de um a três anos e
ele, ainda, pagaria um dote a ela. O artigo previa como hipótese de extinção
da pena a consumação do casamento entre o homem e a mulher deflorada, já
que se entendia que para reparar o mal causado deveria haver o casamento ou
o pagamento do dote, dessa forma, se resguardava a moral familiar da mulher,
a sua possibilidade de casar (TINÔCO, 2003, p. 401).

Por sua vez, o artigo 220 tipificava o crime de estupro praticado por quem
detinha o poder ou a guarda da mulher deflorada. O sujeito ativo do crime era
o homem que tinha o dever estatal de proteger a honra e a moral da mulher,
mas agia de forma contrária, praticando o incesto. Neste caso, a pena era mais
grave do que a prevista no artigo anterior, qual seja, de desterro, por dois a seis
anos, para fora da província que morava a mulher deflorada e pagamento de
um dote a ela.

Já o artigo 221 criminalizou o estupro praticado por parente da mulher


deflorada, sendo essa relação sexual parental de grau que não se permitia o casa-
mento entre eles. O homem era condenado a pena de degredo para a província
mais remota da qual residisse a mulher deflorada, pelo prazo dois a seis anos,
além disso, tinha que dar um dote a ela.

O artigo 222 descrevia o crime de estupro, propriamente dito, que era o


de “ter copula carnal por meio de violência, ou ameaças, com qualquer mulher
honesta” (BRASIL, online). O estupro era caracterizado fundamentalmente pela
violência (GUSMÃO, 1954, p. 96), seja ela física ou moral. Neste caso, a mulher
deveria ser honesta, embora, pudesse não ser virgem. A pena imposta era de
prisão de três a doze anos e pecuniária de dote. O artigo, ainda, previa que se
o crime fosse praticado contra prostituta, o homem sofria pena mais branda,
qual seja, de prisão por prazo de um mês a dois anos, assim sendo, não havia
previsão de pena pecuniária, por se entender que a mulher prostituta não tinha
perdido a possibilidade de bom casamento.

Por sua vez, o artigo 223 previa como crime a prática de qualquer ato
sexual para satisfação da lascívia do homem, sendo crime o ato libidinoso pesso-
almente ofensivo, que causasse dor ou qualquer mal corpóreo à mulher. Tal ato
era punido com prisão de um a seis meses e multa, correspondente à metade
do tempo, além das penas impostas as ofensas praticadas pelo réu.

135
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

A seu turno o artigo 224 descrevia como crime a sedução de mulher


honesta, menor de dezessete anos, com a finalidade de ter com ela conjunção
carnal, o presente artigo não falou acerca de defloração, desconsiderando a virgin-
dade. Neste caso, o homem era penalizado com o desterro para fora da comarca
em que residia a ofendida, pelo prazo de um a três anos, além disso, tinha que
pagar o dote à ofendida. Por fim, o artigo 225 previa uma hipótese de extinção
da pena, que se dava pelo casamento entre o réu e a mulher ofendida, contu-
do, somente incidiria nos casos dos três artigos antecedentes. Ressalta-se que o
casamento deveria ser realizado, não bastava a intenção do réu de se casar, além
disso, para a concretização do casamento a mulher deveria concordar, bem como
seu pai, tutor, curador ou juiz responsável pela jurisdição (TINÔCO, 2003, p. 407).

Já nos artigos 226 aos 228 estavam previstos os crimes de rapto. O rapto
era definido como “uma espécie de sequestro, ocorrendo quando se tirava a
moça tida como honrada, à força ou por engano, da casa de seu pai, sua mãe ou
qualquer outra pessoa por ela responsável” (ARCANJO, 2015, p. 40), assim sendo,
o crime tinha a finalidade de praticar ato libidinoso com a mulher raptada. Neste
contexto, o artigo 226 previa o crime sexual de raptar qualquer mulher de sua
casa, ou de onde ela estivesse, mediante violência, para a prática de qualquer ato
libidinoso, inclusive, conjunção carnal. A pena aplicada ao réu era de prisão de
dois a dez anos com trabalho e pecuniária de pagar dote à ofendida.

Por sua vez, o artigo 227 descrevia o crime de raptar mulher virgem ou
assim reputada, que fosse menor de dezessete anos, da casa de seu pai, tutor,
curador, ou responsável que detenha poder sobre ela, utilizando-se de afagos e
promessas para fins libidinosos. A promessa de casamento era um dos modos
mais comuns de sedução, por meio dela a mulher permitia que o homem pra-
ticasse com ela atos libidinosos, na esperança da consumação do casamento em
um futuro próximo, fato que nem sempre ocorria (GUSMÃO, 1954, p. 214). Este
tipo penal especificava que a mulher deveria ser virgem ou assim considerada e
trazia o critério da menoridade. O homem que incorresse na prática desse crime
deveria ser preso pelo prazo de um a três anos, bem como pagaria dote à mulher.

Por fim, o artigo 228 previa que nos casos de rapto se houvesse o
casamento entre o réu e a mulher ofendida as penas não seriam aplicadas, na
realidade, o casamento fazia cessar o crime e como consequência a punição
do autor (TINÔCO, 2003, p. 410). Portanto, o Código Criminal possibilitou que
a maioria dos tipos penais fosse abrangida pela extinção de punibilidade pelo
casamento, reforçando que seu interesse era a proteção da honra familiar e da
mulher, que deveria ser virgem para que conseguisse se casar, assim sendo, se o
réu com ela se casassem não haveria motivo para a penalização.

136
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Conclusão

Concluiu-se com o presente trabalho que o Código Criminal era objetivo


e conciso, posto que criminalizou apenas o estupro e o rapto, bem como seus
desdobramentos, não fazendo especificação quanto aos crimes sexuais contra a
ordem religiosa, todavia, isto não quer dizer que não houve influência religiosa
na elaboração de suas normas.

Diante da análise das penas aplicadas aos crimes sexuais, comprovou-se


que o Código de 1830 privilegiou a pena privativa da liberdade, prisão, e penas
mais brandas, não sendo previstas as penas de morte e infamantes, que passavam
da pessoa do condenado para seus descendentes, para tais crimes. Além disso,
previa a pena pecuniária do dote, que tinha como finalidade reparar o mal cau-
sado, se não houvesse o casamento. As penalidades respeitavam o princípio da
igualdade, posto que a lei não variava a pena imposta ao delito a depender da
qualidade da pessoa do acusado. Ressalta-se que a legislação previu o casamento
como forma extinção de alguns delitos sexuais e da respectiva pena, uma vez que
o bem jurídico tutelado era a moral ou a honra da instituição familiar, formada
pelo matrimonio.

Ademais, o presente estudo não esgotou e nem pretendeu explorar total-


mente a temática dos crimes sexuais no Código Criminal de 1830, assim sendo,
se abrem possibilidades para novos trabalhos, com a finalidade de se entender a
história do direito penal brasileiro no império, suas implicações e avanços.

Referências bibliográficas
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ções Primeiras do Arcebispado da Bahia. 2015. 64 f. Trabalho de Conclusão de Curso
(Direito) – Faculdade de Direito, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2015.
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ponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LIM/LIM-16-12-1830.htm >
Acesso em: 17 jun. 2017.
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de Hamilton Carvalhido. Coleção história do direito brasileiro. Brasília: Senado
Federal, Conselho Editorial, 2003. Edição fac-similar.

137
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

UM “CARTÓRIO DE FEITICEIRAS”: DIREITO E FEITI-


ÇARIA NA VILA DE CURITIBA (1750-1777)

DANIELLE REGINA WOBETO DE ARAUJO


Doutora em História do Direito no Programa de Pós-Graduação
em Direito da Universidade Federal do Paraná (PPGD – UFPR).
Pesquisadora em estágio pós-doutoral na UFPR/UFMG/UEPG/UERJ
pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Edital nº 13/2015 – CAPES).
E-mail para contato: daniius76@hotmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: Cultura jurídica colonial. Feitiçaria. Processo Penal.

Introdução

Pouco se sabe sobre a feitiçaria no campo da justiça secular tampouco


se conhece muito acerca da cultura jurídica do período colonial, assim a pes-
quisa teve como objetivo, conhecer um pouco mais da cultura jurídica colonial
criminal e processual criminal do período pombalino por meio de processos que
investigavam o delito de feitiçaria previsto nas Ordenações Filipinas.

O delito de feitiçaria permitiu examinar aspectos sociais, culturais, reli-


giosos e jurídicos, como, por exemplo, as tramas que levavam às investigações e
ao processamento do delito, os valores (critérios de justiça) em que a sociedade
acreditava, os limites que se pretendia manter, e os instintos que deveriam ser
reprimidos.80

Bom ter em mente que de acordo a historiografia portuguesa não houve


a “caça às bruxas” no Império e o delito foi pouco recriminado nas três jurisdições
competentes: inquisitorial, episcopal e secular.

Esta constatação contribui para o debate suscitado por alguns historia-


dores acerca de uma “lenda negra” que recai sobre a cultura jurídica criminal e
evidencia que há muitas leituras anacrônicas acerca do direito e do delito na

80 Ver: GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011b.

139
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

época moderna, especialmente quanto aos temas de sistema inquisitivo, delações,


tormentos, fogueira, feminismo.

Nesse contexto é que se buscou problematizar as fontes históricas, quais


sejam, três processos de feitiçaria – um deles relativo ao curandeirismo e ou
outro à feitiçaria propriamente dita – que tramitaram na Vila de Curitiba e de
Paranaguá. Estes locais eram espaços fronteiriços, dada a sua condição geográfica e
limítrofe na América e no Império Oceânico Português, que fazia o local funcionar
dentro dos moldes da tradição portuguesa, mas que ao mesmo tempo permitia
adaptá-los à luz de suas necessidades locais. Daí porque interessante estudar o
delito em regiões fronteiriças que relatam não uma cultura rústica, mas sim uma
cultura mestiça, cabocla.

Metodologia

Tendo em vista que a pesquisa teve como fonte primária três processos
criminais de feitiçaria dos que se reconstruiu uma cultura jurídica colonial me-
todologicamente empregou-se os recursos de Carlo Ginzburg tanto em relação
ao paradigma indiciário como a uma abordagem cultural que privilegia a circu-
laridade cultural.

Resultados

No que concerne ao delito de feitiçaria pode-se apontar e explicar os


motivos do delito ser pouco recriminado e punido em Portugal; Pode-se traçar
um quadro básico da estrutura das instituições que tinham jurisdição para co-
nhecer o delito. Destacando-se pontos de aproximação e afastamento entre tais
instituições. Resumidamente pode-se dizer que se assemelham nas suas estruturas
processuais em virtude de estarem amparados na mesma doutrina e se afastam
em razão da natureza dos delitos – pecado, heresia, dano - e das finalidades
institucionais distintas, embora todas se caracterizassem mais pela misericórdia
do que pela punição.

Com base no panorama político, religioso e jurídico problematizou-se


as fontes observando que a cultura jurídica na região tinha suas peculiaridades
quanto ao delito e ao processo, mas que e momento algum deixou se mostrar
rústica no sentido pejorativo que lhes conferiam os juristas do século XVIII.

140
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Conclusão

As considerações finais são no sentido de uma cultura jurídica que não


era rústica, mas sim prática quanto ao direito criminal, conforme indicam as fontes
pelo atuar dos procuradores. Quanto ao direito processual, concluiu-se com base
no bom conhecimento das formalidades, usadas muitas vezes pró interesses locais,
mas também para interesses da Coroa. No que concerne ao processamento do
delito na justiça secular, as pistas apontam para uma preocupação com o dano
decorrente da feitiçaria, ou seja, não se preocupa com heresias, como idolatrias,
porém, não vê com bons olhos crenças não condizentes com a estabelecida pela
Igreja, ainda que esta, na América Portuguesa, fosse vivenciada de modo mestiço.

Referências bibliográficas

Manuscritos:
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ (DEAP). BR
PRAPPR PB 045 PC 1363.41, Cx.41, 1763
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ (DEAP). BR
PRAPPR PB 045 PC 1837.57, Cx.57, 1773.
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE ARQUIVO PÚBLICO DO PARANÁ (DEAP). BR
PRAPPR PB 045 PC 1947.61, Cx.61, 1775.
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141
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

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142
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

EMBRIAGUEZ, VIOLÊNCIA E JUSTIÇA


NOS JORNAIS DE CURITIBA (1890-1921)

OTÁVIO A. G. WEINHARDT
Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná (PPGD/UFPR)
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (PPGHIS/UFPR)
Bolsista CnPq
E-mail: otavioaw@bol.com.br

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira

Palavras-chave: Embriaguez; Polícia; Cultura Jurídica Criminal.

A passagem do século XIX ao XX constituiu um período de grandes


transformações no país. A alternância do regime monárquico para o republicano,
a proibição completa do trabalho escravo, a consequente vinda massiva de imi-
grantes europeus, entre outros fatores, contribuíram para alterar profundamente a
paisagem local. Nesse ínterim, a pacata e periférica cidade de Curitiba, cresceu e
se urbanizou, passando a enxergar-se como uma cidade grande e cosmopolita. A
capital paranaense também enriqueceu, em grande medida favorecida pelo comér-
cio da erva-mate, possibilitando uma série de alterações em seu espaço urbano81.

Por todo o Brasil, o fim da escravidão criou a necessidade de fundar uma


nova ética de trabalho, atribuindo a ele uma valoração positiva e dignificadora. Era
necessário enaltecer o trabalho e o trabalhador, estimulando-o a “prazerosamente
mercantilizar sua força de trabalho”82. Como parte desse processo, fazia-se mister
perseguir e criminalizar todas aquelas ações que representavam a antítese dessa
ética – como a ociosidade, a embriaguez e a prostituição83.

A presente proposta concentra-se na criminalização da embriaguez, vista


pelas autoridades como um hábito extremamente reprovável, contrário aos valores
exaltados por aquela sociedade. Por isso, o alcoolismo passa a ser avidamente
81 LOPES PEREIRA, L. F. O espetáculo dos maquinismos modernos: Curitiba na virada do século XIX ao XX. São
Paulo: Blucher Acadêmico, 2009, p. 39.
82 CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle
époque. São Paulo: Unicamp, 2001, p. 48-9.
83 KARVAT, Erivan Cassiano. Discursos e praticas de controle: falas e olhares sobre a mendicidade e a vadiagem
(Curitiba: 1890-1933). Curitiba: 1996, p. 121.

143
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

combatido pelas autoridades policiais e judiciárias. Assim expressa Benedicto


Pereira da Silva Carrão, Chefe de Polícia de Curitiba em 1895:
As classes inferiores da sociedade, onde ainda não conseguirão penetrar,
de modo aproveitável, o respeito e a dignidade pessoal, são as que se
incumbem de fornecer crescido numero de elementos de perturbação
e desordem.
A embriaguez, a vagabundagem e o uso, quase generalisado, entre nós,
de armas prohibidas, são sempre as causas determinantes de ataques á
vida e a propriedade do cidadão.
[...]
Entre nós, principalmente, onde é avultado o numero de estrangeiros, na
sua maioria proletários; onde a população ignorante é bastante espalhada
por todo o vasto território paranaense; onde não ha nem instrucção
suficiente como guia, nem o sentimento religiozo predomina refreando
as paixões dos homens de baixa classe; verifica-se que a maior parte das
vezes em que é desrespeitada a vida ou a propriedade do cidadão, tem
como principal cauza a vagabundagem ou a embriaguez ou o uso de
armas proibidas, influindo no individuo que praticou a acção criminoza.84

Essa visão estava também apoiada no saber criminológico, tido como


científico e verdadeiro, o qual exerceu profunda influência na cultura jurídica
brasileira do período analisado. De Cesare Lombroso, maior nome da criminologia
positiva, tem-se que:
Depois do prazer da vingança e a vaidade satisfeita, o delinqüente não
encontra deleite maior do que o vinho e o jogo. A paixão pelo álcool é
porém muito complexa, por ser causa e efeito do crime. Tríplice causa,
ao contrário, quando se pensa que o alcoólatra dá origem a filhos de-
linqüentes, e o álcool é também o instrumento e uma razão do crime.
Alguns delinqüem para embriagar-se, ou porque, com a bebedeira os
velhacos procuram a coragem necessária aos atos nefandos, depois um
argumento para futura justificação, e com a precoce e embriaguez sedu-
zem os jovens ao delito.85

Como fonte privilegiada na presente proposta, decidiu-se optar pelos


jornais. Na Curitiba do período escolhido, os dois jornais mais importantes eram
A República e o Diário da Tarde. Deles, foram extraídas centenas de notícias
relacionadas à prisão de indivíduos por estarem embriagados no espaço urbano,
confusões e crimes cometidos sob influência do álcool. A partir daí, busca-se rastrear
a atuação da polícia e do Judiciário, extraindo-se indícios acerca da cultura jurídica
então vigentes. Obviamente, o elenco de fontes é muito mais amplo (passando
por relatórios de polícia, estatísticas, processos-crime etc.); todavia, decidiu-se aqui

84 RELATÓRIO apresentado ao Secretário dos Negócios do Interior, Justiça e Instrucção Pública do Estado do
Paraná. Curitiba, 30 de Setembro de 1895, p. 5.
85 LOMBROSO, Cesare. O homem delinquente. São Paulo: Ícone, 2007, p. 118.

144
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

focar nas informações dadas pelo jornal, por ser um meio rico em informações
e importante formador de opinião da sociedade de então.

Quanto à escolha do recorte temporal, definiu-se 1890 como marco inicial


pelo advento do Código Penal republicano, que, em seu art. 396, criminalizou a
embriaguez em público. O encerramento do recorte coincide com o Decreto
4.294, de 06 de julho de 1921, o qual trouxe alterações no tratamento penal da
embriaguez.

A pesquisa encontra-se ainda em um estágio embrionário, mas uma série


de fontes já foi levantada e permite algumas observações. A hipótese sustentada
até o momento é de que o discurso moralizante em torno do álcool servia de
verniz à razões mais pragmáticas. Importava formar uma sociedade de cidadãos
ordeiros, morigerados e trabalhadores (adjetivos que aparecem frequentemente
nas fontes), para a qual a bebida era um obstáculo. Além disso, o ébrio – sujo,
malvestido, espalhado pelas praças e ruas – representava uma mancha no espaço
urbano de uma cidade ávida em transformar-se numa Paris dos trópicos.

Referências bibliográficas
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no
Rio de Janeiro da belle époque. São Paulo: Unicamp, 2001.
KARVAT, Erivan Cassiano. Discursos e praticas de controle: falas e olhares sobre a
mendicidade e a vadiagem (Curitiba: 1890-1933). Curitiba: 1996.
LOMBROSO, Cesare. O homem delinquente. São Paulo: Ícone, 2007.
LOPES PEREIRA, L. F. O espetáculo dos maquinismos modernos: Curitiba na virada
do século XIX ao XX. São Paulo: Blucher Acadêmico, 2009.
RELATÓRIO apresentado ao Secretário dos Negócios do Interior, Justiça e Instrucção
Pública do Estado do Paraná. Curitiba, 30 de Setembro de 1895.

145
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A EVOLUÇÃO DOS MECANISMOS DE COMBATE À


COMPRA DE VOTOS NO BRASIL:
UMA ANÁLISE HISTÓRICO-JURÍDICA

FLÁVIA CARÓSIO GOES


Graduanda em Direito
Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
E-mail: flaviacarosiogoes@gmail.com

VICTOR RODRIGUES NASCIMENTO VIEIRA


Graduando em Direito
Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
E-mail: victorvieira.dir@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Brasileira (crime, processo e


penas)

Palavras-chave: História do Direito; Crime eleitoral; Compra de votos.

Introdução

O período eleitoral é marcado por grande entusiasmo e polêmica, seja


pela possibilidade de mudança econômica e política; seja pelos escândalos en-
volvendo os candidatos que concorrem no pleito. Nesse cenário, a compra de
votos é assunto de destaque visto que, práticas como esta são relevantes para
uma determinada parcela do eleitorado na definição do seu candidato e podem
influenciar diretamente no resultado das eleições.

Neste sentido, cabe salientar que no contexto de criação do primeiro


Diploma Eleitoral brasileiro, o Código de 1932, a prática de manipulação das
eleições era muito comum. A elite possuía um grande poder de influenciar as
massas de eleitores, visto que, naquela época, havia uma relação de dependência
socioeconômica de parte do eleitorado em relação aos latifundiários, predomi-
nando o voto de cabresto, pelo qual a massa dos eleitores votava de acordo
com as determinações da elite por temor a represálias. Com o passar do tempo
e com a alteração na estrutura socioeconômica do país, a configuração das re-
lações sociais também mudou e, consequentemente, os modos de manipulação

147
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

das eleições também se modificaram, surgindo a figura da compra de votos que


conhecemos hoje.

Neste sentido, com o propósito de garantir a lisura do período eleitoral,


coibir e punir os delitos eleitorais foram adotados, historicamente, vários mecanis-
mos legislativos e procedimentais. Assim, em 1965 foi criado o segundo Diploma
Eleitoral, em 1990 surgia a Lei de Inelegibilidade, em 1999 era aprovada a Lei Contra
a Compra de Votos e em 2010 foi sancionada a Lei da Ficha Limpa. Ademais,
outras providências para assegurar a idoneidade do pleito foram adotadas, como
a criação da urna eletrônica e a identificação biométrica dos eleitores.

Frente a isto, o objeto de estudo deste trabalho são os mecanismos


legislativos e procedimentais de combate à prática da compra de votos. Neste
sentido, o problema desta pesquisa se traduz em constatar se o Direito Eleitoral
brasileiro conta com uma legislação eleitoral eficaz frente à compra de votos.

Nesta ordem de ideias o objetivo deste estudo é identificar quais os


dispositivos legais contribuíram de forma significativa para o combate à compra
de votos e, consequentemente, para o fortalecimento da ação da Justiça Eleitoral.

Assim, a presente pesquisa se justifica ao passo que busca mostrar a


importância da codificação das leis eleitorais e da adoção de procedimentos
de escolha dos candidatos para assegurar a lisura do processo eleitoral. Afinal,
somente com uma disputa limpa é que teremos uma concorrência paritária e
um resultado verdadeiramente democrático.

Metodologia

Para isto, a metodologia de pesquisa deste estudo abrange uma análise


legislativa, doutrinária, jurisprudencial e histórica, visando compreender os mecanis-
mos que foram criados para combater a compra de votos tanto no seu aspecto
criminal, quanto na sua feição eleitoral. Para a pesquisa legislativa, foram utilizados,
sobretudo, os Códigos Eleitorais de 1932 e de 1965, a Lei Complementar nº 64
de 1990 (Lei de Inelegibilidade), a Lei Ordinária nº 9.840 de 1.999 (Lei Contra a
Compra de Votos) e a Lei Complementar 135 de 2010 (Lei da Ficha Limpa); em
relação à pesquisa doutrinária foram utilizadas obras de juristas, como João C. da
Rocha Cabral, Galdino Siqueira, Oscar de Macedo Soares e Armando Antônio
Sobreiro Neto; para pesquisa histórica foram consultados livros de História do Brasil,
em especial do historiador Boris Fausto; já a pesquisa jurisprudencial ocorreu nos
variados Tribunais Regionais Eleitorais e no Tribunal Superior Eleitoral.

148
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Resultados parcias

Pelo fato de se tratar de uma pesquisa em andamento, apresentaremos


os resultados parciais, que serão complementados até o fim do estudo.

Assim, temos que a compra de votos é denominação popular que abrange


tanto a corrupção eleitoral, como também a captação ilícita de sufrágio. O crime
de corrupção eleitoral está disposto no art. 299 do atual Código Eleitoral e prevê
reclusão de até quatro anos e pagamento de multa. A captação ilícita de sufrágio,
por sua vez, é um ilícito eleitoral, que foi introduzido na Lei das Eleições, em seu
art. 41-A, por meio da Lei 9.840 e prevê a cassação do registro ou do diploma
eleitoral e o pagamento de multas.

Neste sentido, apresentamos o quadro abaixo que é fruto da pesquisa


legislativa que buscou no ordenamento jurídico brasileiro, os institutos legais que,
direta ou indiretamente, contribuíram para o combate à compra de votos no Brasil:
Figura 1 – Quadro dos mecanismos de combate à compra de votos.

MECANISMOS DE COMBATE À COMPRA DE VOTOS


LEI QUE
CÓDIGO ELEITO- CÓDIGO ELEITO- LEI DE INELEGIBILI-
DISCIPLI- LEI DAS ELEIÇÕES
RAL DE 1932 RAL DE 1965 DADE
NA

Corrupção Corrupção Captação ilícita de


Nome Caso de Inelegibilidade
eleitoral eleitoral sufrágio

Art. 41-A. Ressal- Art. 1º São inelegíveis:


vado o disposto I – para qualquer
no art. 26 e seus cargo:
Art. 299. Dar,
incisos, constitui j) os que forem con-
oferecer, prome-
captação de denados, em decisão
Oferecer, pro- ter, solicitar ou
sufrágio, vedada transitada em julgado
meter, solicitar, receber, para si
por esta Lei, o ou proferida por órgão
exigir ou receber ou para outrem,
candidato doar, colegiado da Justiça
dinheiro , dádiva dinheiro, dádiva,
oferecer, prometer, Eleitoral, por corrupção
ou qualquer van- ou qualquer
Previsão ou entregar, ao eleitoral, por captação
tagem para obter outra vantagem,
legislativa eleitor, com o fim ilícita de sufrágio, por
ou dar voto, ou para obter ou
de obter-lhe o doação, captação
para conseguir dar voto e para
voto, bem ou van- ou gastos ilícitos de
abstenção, ou conseguir ou
tagem pessoal de recursos de campanha
para abster-se de prometer abs-
qualquer natureza, ou por conduta vedada
voto: tenção, ainda
inclusive emprego aos agentes públicos
que a oferta não
ou função pública, em campanhas elei-
seja aceita:
desde o registro torais que impliquem
da candidatura até cassação do registro
o dia da eleição, ou do diploma,

149
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Inclusive, sob pena


de multa de mil
a cinquenta mil
Ufir, e cassação
Pena – reclusão do registro ou do
Pena - seis mê- até quatro anos diploma, observa- pelo prazo de 8 (oito)
Pena ses a dois anos e pagamento de do o procedimento anos a contar da
de prisão celular. cinco a quinze previsto no art. 22 eleição;
dias-multa. da Lei Complemen-
tar no 64, de 18
de maio de 1990.
(Incluído pela Lei
nº 9.840, de 1999)
Quem
Candidato e Candidato e
pode ser Candidato Candidato
eleitor eleitor
punido?
Natureza Crime eleitoral Crime eleitoral Ilícito eleitoral Sanção Eleitoral
Fonte: os autores.

Conclusão

Por todo o exposto, constatamos que os mecanismos que foram criados


ao longo do tempo, trouxeram inúmeros avanços para o Direito Eleitoral brasi-
leiro e contribuíam de forma significativa para o fortalecimento da democracia.
Entretanto, a despeito do avanço dos mecanismos de combate, a prática da
compra de votos encontra-se enraizada na cultura brasileira, se dando de forma
diversificada e se sofisticando com o passar do tempo.

Ademais, como se observa na leitura dos artigos que tratam da compra de


votos no Código Eleitoral de 1965, na Lei das Eleições e na Lei de Inelegibilidade
a legislação eleitoral é dura no tratamento tanto da corrupção eleitoral como da
captação ilícita de sufrágio. Entretanto, da leitura dos julgados, concluímos que
estes dois institutos jurídicos são de difícil caracterização prática e, por isso, de
difícil punição.

Por fim, acreditamos que não é somente com a criação de leis e de apa-
ratos técnicos para a realização das eleições que conseguiremos coibir a compra
de votos. É necessária uma mudança de postura e de mentalidade da população,
campanhas de conscientização e maior fiscalização, pelos órgãos públicos, da
conduta dos candidatos e eleitores durante o pleito eleitoral.

150
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Referências bibliográficas
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com o art. 14, § 9º da Constituição Federal, casos de inelegibilidade, prazos de
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gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp64.htm>. Acesso em: 01 de maio de 2017.
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SOBREIRO NETO, Armando Antonio. Direito Eleitoral: Teoria e prática. 4. ed.
Curitiba: Juruá, 2008.

151
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA NA HISTÓRIA


E NO PROCESSO PENAL:
CRÍTICA A INTERPRETAÇÃO ATUAL

PATRICIA ROCHA CASTILHO BINSKI


Acadêmica do curso de Direito do Instituto Federal do Paraná. IFPR - Campus Palmas

NILMA JAQUELINE CORREIA


Acadêmica do curso de Direito do Instituto Federal do Paraná. IFPR - Campus Palmas

NAIANA CAROLINE TAQUES


Acadêmica do curso de Direito do Instituto Federal do Paraná. IFPR - Campus Palmas
E- mail: patyrcastilho@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (Crime,


Processo e Penas).

Palavras chave: Presunção de inocencia; Desenvolvimento histórico; Apli-


cação do principio.

Introdução

O objetivo deste artigo e fazer uma análise histórica do princípio da


presunção de inocência, seus primeiros apontamentos em documentos históricos
e tratados internacionais, sua adoção pela Constituição brasileira e seu momento
atual moldado por decisões e julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário.

Metodologia

Utilizamos a pesquisa qualitativa, sendo que foi realizada a pesquisa:


bibliográfica, através de livros e artigos científicos; a documental com base em
documentos históricos e a legislação nacional e internacional; e a jurisprudencial
para analisar as decisões e os seus fundamentos, principalmente do STF envol-
vendo o principio da presunção de inocência. Pretende-se por meio de um viés
histórico e comparativo compreender o surgimento e a aplicação desse principio
no processo penal relacionando-o com a ruptura atual, realizando assim um
pesquisa exploratória e descritiva.

153
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Resultados

O princípio da presunção de inocência passou por um processo de cons-


trução e transformação durante longo período da história, sendo recepcionada
pela Carta Magna como um dos princípios fundamentais do Estado Democrático
de Direito.

Em um Estado Democrático de Direito, os direitos humanos e as garantias


individuais são pilares de um ordenamento jurídico, sendo que a presunção de
inocência faz parte dessas garantias, inclusive no processo penal brasileiro.

Embora haja resquícios da presunção de inocência no direito romano,


nessa época sua forma era destorcida ocorrendo na verdade a presunção de
culpa. A proteção da presunção de inocência como conhecemos atualmente,
veio sendo moldada com as declarações de direitos norte-americanas, (estando
disposta na Declaração de Direitos da Virginia -1776), posteriormente na Decla-
ração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789),fruto da revolução francesa
que foi endossada de ideais iluministas. Vindo ser universalizado pela Declaração
dos Direitos Humanos criada pela Organização das Nações unidas e assinada em
1948. Sendo recepcionado pela Constituição Federal brasileira em 1988 como
princípio fundamental.
Apesar de remontar ao direito romano, o princípio da presunção de
inocência até prova em contrário foi ofuscado, se não completamente
invertido, pelas práticas inquisitórias desenvolvidas na Baixa Idade Mé-
dia. Basta recordar que no processo penal medieval a insuficiência da
prova, conquanto deixasse subsistir uma suspeita ou uma dúvida de
culpabilidade, equivalia a uma semiprova, que comportava um juízo de
semiculpabilidade e uma semicondenação a uma pena mais leve.Só no
início da idade moderna aquele princípio é reafirmado com firmeza: “eu
não entendo”, escreveu Hobbes, “como se pode falar de delito sem que
tenha sido pronunciada uma sentença, nem como seja possível infligir
uma pena sempre sem uma sentença prévia”. E se Pufendorf incluiu na
definição mesma de “poena” o fato de ser irrogada “post cognitionem
delicti”, Beccaria afirmou que “um homem não pode ser chamado de réu
antes da sentença do juiz, nem a sociedade pode tolher-lhe a proteção
pública senão quando seja decidido que ele violou os pactos com os
quais ela foi instituída”.Tanto o princípio de submissão à jurisdição como
a presunção de inocência do imputado foram adotados no art. 8 da
Constituição da Virgínia e nos arts. 7 e 9 da Declaração dos Direitos do
Homem de 1789.(FERRAJOLI,2002,p.441-442)

Depois da guerra da independência os americanos através de suas decla-


rações de direitos fundaram o primeiro Estado calcado nos direitos fundamentais,
assumindo posição dianteira no que se refere aos direitos humanos. Segundo

154
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

COMPARATO (2010) a Declaração de Independência Americana constitui o


nascimento dos direitos humanos na história.

A revolução francesa teve como pano de fundo as ideias iluministas,


a valorização do homem como possuidor de direitos e obrigações, a situação
social e econômica péssima da França oriundas de gastos excessivos por parte
da nobreza e má administração de recursos pelo rei, o povo passava grandes
necessidades e se via desamparado pela monarquia. Em 20 de agosto de 1789
o povo se organizou em Assembleia Geral Constituinte e aprovou a Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão. Foi nesse mesmo período que a França
aboliu o sistema inquisitivo puro, fazendo uma reforma no âmbito penal.

A declaração dos Direitos norte-americana e a Declaração dos Direitos


do Homem e do Cidadão representaram importante papel para a emancipação
do indivíduo perante o Estado. A revolução americana embora importante para
emancipação dos indivíduos de forma universal, almejava a emancipação de seus
cidadãos, daqueles pertencentes as treze colônias, sua busca era pela libertação
do poder exercido pela Inglaterra, já a revolução francesa buscava que seus ideais
inspirassem outros países, havia o desejo de reescrever a história com o indivíduo
no centro da sociedade, possuidor de direitos e deveres.
A chamada Revolução Americana foi essencialmente, no mesmo espírito
da Glorious Revolution inglesa, uma restauração das antigas franquias e
dos tradicionais direitos de cidadania, diante dos abusos e usurpações
do poder monárquico. Na Revolução Francesa, em ao contrário, todo
o ímpeto do movimento político tendeu ao futuro e representou uma
tentativa de mudança radical das condições de vida da sociedade. O que
se quis foi apagar completamente o passado e recomeçar a História do
marco zero- reinício muito bem simbolizado pela mudança de calendário.
(COMPARATO, 2010, p.62)

Em 26 de junho de 1945 os líderes políticos vencedores da segunda guerra


mundial se reuniram e criaram a ONU (Organização das Nações Unidas), em 10
de dezembro de 1948 assinaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Com o surgimento de tal declaração surgiu também a ideia do ser humano
portador de direitos no âmbito internacional.

No Brasil após anos de ditadura, a Carta Constituinte veio no sentido


de romper com o passado e valorizar os direitos fundamentais, a democracia
e a dignidade da pessoa humana. Os direitos fundamentais previstos em nossa
constituição são inspirados em tratados internacionais.

O princípio da presunção de inocência previsto em ambas as declarações


e na constituição brasileira, que dispõe que ninguém será considerado culpado
até o trânsito em julgado de decisão definitiva, durante a história sofreu inúme-

155
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

ras afrontas, nos dias atuais vem se discutindo sua aplicação no direito brasileiro
principalmente no âmbito penal.

Como princípio fundamental previsto na constituição e princípio norteador


do processo penal, a presunção de inocência é também um dever de tratamento,
o acusado deve ser tratado como inocente até prova em contrário, sendo que
a prova é de responsabilidade da acusação, pois ninguém tem obrigação de
provar sua inocência.

O presente princípio está sendo aplicado de forma mitigada pelo Supremo.


Em decisões do STF como nas Ações Diretas de Inconstitucionalidade nº 43 e nº
44. Além da decisão do HC 126.292 no último ano, que eliminou a presunção da
inocência ao permitir o cumprimento da pena antes do transito em julgado da
sentença penal condenatória, especificadamente na 2ª instância de jurisdição. Pondo
em questionamento a sua função de guardião da Constituição, desrespeitando-a.

O resultado desta mitigação influi na tese de que o acusado é culpado antes


do transito em julgado, nota-se que há uma crise hermenêutica e de interpretação
com o retrocesso do processo penal e uma presunção de culpabilidade digna
do período medieval, influi também numa confusão no entendimento de outros
tribunais ao aplica-lo, bem como, no encarceramento em massa nos presídios do
nosso país, contribuindo ainda mais para o problema carcerário que enfrentamos.

Conclusão

No presente resumo foi realizada uma síntese sobre o surgimento, evo-


lução histórica da presunção de inocência bem como a sua importância para
o estado democrático de direito e como os juristas ao longo do tempo estão
a interpretando, ressalta-se que o trabalho tem a pretensão de ser expandido
e melhor detalhado. Todavia, a afronta ao principio constitucional que poe em
risco a própria democracia e a garantia de direitos, haja vista, que a própria
história se encarrega de explicitar sua importância e o quanto é desastroso seu
não cumprimento.

Referências bibliográficas
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Nestor Eduardo Araruna. (Coord.). Processo Penal e Constituição. Florianópolis.
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COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. In:___.
A independência americana e a revolução francesa. 7ª ed. Saraiva. São Paulo. 2010.

156
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão: teoria do garantismo penal. 3ª ed. Revista dos
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FOUCAULT, Michel. A Verdade e as Formas Jurídicas. Nau. Rio de Janeiro. 2005.
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157
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A SEGREGAÇÃO DOS DOENTES MENTAIS


INFRATORES NA EVOLUÇÃO HISTÓRICA
DA LEGISLAÇÃO PENAL BRASILEIRA

PEDRO HENRIQUE NUNES GENTIL


Bacharelando do Curso de Direito da Universidade Federal de Uberlândia ( UFU );
Email: pedrovieira_nunes@live.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: Manicômios Judiciários; Medida de Segurança; Inimpu-


tabilidade.

Introdução

O presente estudo visa analisar os Manicômios Judiciários – locais que


abrigam os sujeitos classificados enquanto loucos infratores – destacando as
discussões sobre a Medida de Segurança e a segregação imposta aos pacientes
manicômio-judiciários e como os Códigos criminais brasileiros trataram esses
sujeitos ao longo da história criminal brasileira.

Será feita uma análise do mecanismo judiciário manicomial, sua estrutura-


ção, legislação pertinente a esse dispositivo judicial e como ele tem se apresentado
prejudicial aos indivíduos diagnosticados com transtornos mentais que cometem
delitos. A análise será realizada de modo a atentar-se a desde quando a inim-
putabilidade dos loucos passou a vigorar na legislação, no Código Criminal de
1830 até os dias atuais, passando pelo Código Penal de 1890, pelo Código Penal
de 1940, pela Reforma da Parte Geral em 1984 ( Lei n°. 7.209/1984) e também
pela Lei da Reforma Psiquiátrica de 2001 ( Lei n°. 10.216/2001) e como o meca-
nismo se adaptou aos códigos, mas ao mesmo tempo perpetuou o modelo de
segregação e estigmatização.

Pretende também explorar as estruturas dos Manicômios Judiciários e


de que forma elas configuraram-se – e permanecem configurando-se – como
violações dos direitos, já que os indivíduos têm os laços com a família e com a

159
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

sociedade cortados, além do sofrimento aumentado com a falta de estrutura e a


constante solidão, e também como um mecanismo criado para isolar os loucos
do restante da sociedade e protegê-la, baseando-se no medo social e nos estigmas
históricos que pairam sobre os doentes mentais.

Metodologia

O estudo em questão foi realizado seguindo um caminho metodológico


bibliográfico-documental, baseando-se em estudos e documentos já publicados e
que abortam o tratamento oferecido aos loucos infratores do de maneira direta,
ou em alguns casos indiretamente.

Esta análise se fundamenta em uma revisão bibliográfica através de artigos,


livros, e outros escritos encontrados ao longo da pesquisa. Buscou-se estudar e
analisar legislações pertinentes, como as citadas anteriormente.

A busca também foi realizada em sites de institutos de pesquisa e levan-


tamentos, particulares e governamentais, a fim de conseguir dados estatísticos.
Utilizou-se para o levantamento bibliográfico bases de dados como Google Aca-
dêmico, o Portal de Periódicos da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do
Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação (MEC), o portal de Periódicos
Eletrônicos em Psicologia (PEPSIC), o Catálogo Online do Sistema de Automação
de Bibliotecas (SABi) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o
Portal do Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de São Paulo (SIBiUSP).

Resultados

O estudo em questão, a partir da discussão histórica sobre os manicômios


e os loucos infratores, se dividiu em dois eixos: o primeiro discute a evolução
das medidas de segurança na legislação brasileira; e o segundo – consequência
do primeiro – a perpetuação do modelo manicomial baseado na periculosidade
do agente portador de sofrimento mental.

Na análise dos Códigos penais que vigoraram no Brasil, o Código criminal


de 1830, muito influenciado pelos pensamentos da Escola Clássica, introduziu
em seu texto uma expressa referência aos loucos. Segundo PRADO (2010), “aga-
salhou a fórmula psiquiátrica o código criminal do império (1830), nos termos
seguintes ‘Art. 10. Também não serão julgados criminosos: §2º. Os loucos de
todo gênero, salvo se tiverem lucidos intervallos e nelles commetterem o crime’.”
Logo em seguida, no mesmo código o legislador anotou que “ Art. 12. Os loucos
que tiverem commettido crimes, serão recolhidos ás casas para elles destinadas,
ou entregues ás suas familias, como ao Juiz parecer mais conveniente.” (BRAZIL,
1830). É interessante notar que aqui a ideia de hospícios já é implantada como

160
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

uma porta de saída para o direito penal. Sontag ([2013?], p. 2) levanta o seguin-
te questinamento: “O artigo 12 do código criminal de 1830 seria uma versão
rudimentar das futuras medidas de segurança, que ganhariam, inclusive, capítulo
específico no interior do código penal de 1940?”.

O código penal Republicano de 1890 incorporou uma lógica Positivista


naturalista, com o mecanismo duplo-binário e mudou as preocupações e o objeto
da ciência penal, que passou a ser a própria personalidade do réu, especialmente
no que diz respeito à periculosidade. O duplo-binário aplicava a pena ao agente
e ao final era internado em uma casa de custódia e tratamento.

O código de 1940 modificou o posto no código anterior discriminando a


maneira de tratar os semi-imputáveis e os inimputáveis, aplicando aos primeiros
a pena cumulativamente com a medida de segurança – e aqui se institui de
fato essa denominação – e aos últimos, inteiramente incapazes de entender o
caráter delituoso, apenas as medidadas de segurança. Neste momento, o con-
ceito de poriculosidade ganha contornos médicos necessários, não podendo ser
presumida e os manicômios judiciários fixam-se na legislação como destino dos
doentes mentais infratores.

A Reforma de 1984, que mudou o código de 1940, mas em relação à


medida de segurança só operou a separação completa dela com a pena. Sendo
assim, segundo Jesus (2011) “A reforma penal de 1984, no art. 98, adotou o sis-
tema vicariante (ou unitário): ou é aplicada somente pena ou somente medida
de segurança”.

Nessa evolução histórica percebe-se que pouco mudou em relação ao


destino dos loucos infratores. Desde o império o medo do louco infrator faz o
direito penal tomar medidas que isolam esses indivíduos. O Manicômio, claramen-
te, foi criado para isolar aqueles considerados loucos do restante da sociedade,
e pode assim ser considerada uma resposta social à loucura. A visão sobre o
doente mental sempre foi cercada de estigmas sociais, porém, a grande margina-
lização teve início durante a chamada Era Clássica (FOUCAULT, 1987). No Brasil,
a positivação nos códigos penais brasileiros, foi se modificando e se adaptando
as diferentes momentos históricos e sociais, porém a realidade objetiva continou
perpetuando um modelo de exclusão e invisibilidade do louco. Essas modificação
funcionaram bem como mecanismos de legitimação desse sistema.

Fato que representa bem as tentativas da legislação de buscar adap-


tações que possibilitem legitimar esse formato excludente foi substituição no
ordenamento jurídico da denominação Manicômio Judiciário por Hospital de
Custódia e Tratamento Psiquiátrico após a Reforma Penal de 1984. Entretanto, a
configuração do modelo hegemônico e suas principais características, como, por

161
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

exemplo, ser vinculado à administração do sistema prisonal e não às Secretarias de


Saúde, permaneceram. Desta forma, é justificável e simbólico que nesse trabalho
tratemos às denominações como sinônimos.

Conclusão

A partir do exposto, surgem muitas dúvidas e possibilidades, porém po-


demos concluir que as legislações penais, em toda sua evolução histórica pouco
se modificou em relação ao tratamento dado aos portadores de sofrimento
mental e que cometeram algum delito. Percebe-se, a partir disso, que há uma
violação de direitos desses indivíduos e que é urgente que o Estado pense novas
possibilidades, já que os doentes mentais nessa situação passam por internações
degradantes e desumanas, mesmo com a Reforma Psiquiátrica, instituída pela Lei
n°. 10.216/2001, que deu pouca atenção aos manicômios judiciários.

Correia (2009, p. 12) afirma que “O manicômio criminal nasce da fusão das
duas clássicas instituições totais que a sociedade moderna criou para castigar as
formas mais graves de não adaptação às regras sociais: a prisão e o manicômio.”
Nessa linha, é inadimissível que tal área seja tão negligenciada pelo Estado e pelo
próprio estudo do Direito Penal.

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PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Volume 1- Parte Geral, arts.
1º a 120. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010.
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interpretações do artigo 12 do código criminal brasileiro de 1830. Santa Catarina,
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CORREIA, Ludmila Cerqueira. Avanços e Impasses na garantia dos direitos huma-
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162
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

UMA ANÁLISE ACERCA DA CRIMINALIZAÇÃO


DE MULHERES NEGRAS E BRANCAS A PARTIR
DAS ESTATÍSTICAS DO BOLETIM POLICIAL DE 1907
A 1917

MANUELA ABATH VALENÇA


Doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília.
Pesquisadora do Grupo Asa Branca de Criminologia.
Professora da Universidade Católica de Pernambuco e da Universidade Federal de Pernambuco.
E-mail: manuelaabath@gmail.com

FERNANDA LIMA DA SILVA


Mestranda em Direito pela Universidade de Brasília.
Pesquisadora do Grupo Asa Branca de Criminologia.
E-mail: ffernanda.slima@gmail.com

MARÍLIA MONTENEGRO PESSOA DE MELLO


Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina.
Fundadora do Grupo Asa Branca de Criminologia.
Professora da Universidade Católica de Pernambuco e da Universidade Federal de Pernambuco.
E-mail: marilia_montenegro@yahoo.com.br

Eixo temático: 2. História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas)

Palavras-chave: Polícia; Criminalização; Mulheres Negras.

Introdução

O fim do século XIX é de grande importância para a compreensão da


constituição das polícias no Brasil. Durante várias décadas, elas passaram por
um processo de crescente autonomização e delineamento enquanto instituições
responsáveis pelo gerenciamento do espaço urbano. Como apontado por vários
estudos (BATISTA, 2003, p. 145; CHALHOUB, 1988, p. 16; MAIA, 2007), suas ati-
vidades estavam profundamente atreladas ao controle dos corpos negros, vistos
como corpos temíveis e brutais. Entre o medo do haitianismo e o temor da
“onda negra” (AZEVEDO, 1987) que parecia tomar as cidades, impunha-se uma

163
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

agenda de controle dos indesejáveis que ecoava não apenas na legislação criminal,
particularmente no Código Criminal, como em diplomas de cunho administrativo
como as posturas municipais (DUARTE, 1998). De múltiplas formas, pretendia-se
cercar e vigiar estas vidas perigosas.

Com a abolição da escravidão e a proclamação da República, o papel


das polícias no controle das populações negras torna-se curiosamente ambíguo.
Ambíguo porque se, de um lado, não haveria mais como justificar legalmente a
disparidade de tratamento entre negros e brancos, de outro, o passado recente
e sua memória institucional parecem constituir, ainda, contornos do presente. Na
prática, a mobilização em torno do argumento de proteção à ordem pública e
aquilo que então se entendia como impossibilidade de limitar o chamado “poder
de polícia” constituem chaves importantes para entender as práticas policiais do
período.

No que diz respeito ao controle exercido sobre as mulheres, o senso co-


mum acadêmico costuma colocá-lo em contraposição àquele exercido sobre os
homens: enquanto estes estavam submetidos à polícia, em um controle público,
a elas se reservava o controle privado dentro dos lares. Tal leitura, no entanto, é
enviesada porque ignora as diferenças que marcam as relações e o controle social
sobre mulheres negras e brancas. De fato, a vida das mulheres negras em países
marcados, como o Brasil, pelo escravismo, desenrolava-se em grande medida no
espaço público, pois eram mulheres que não apenas tinham obrigações dentro
dos lares – principalmente dos lares brancos, quando escravas – mas ainda na
rua, trabalhando em condições muito semelhantes a dos homens negros (DAVIS,
1983). A quem ocupa o espaço público, destina-se, em certa medida, um con-
trole também público. Daí a necessidade de refletir sobre as limitações do senso
comum acadêmico e se voltar para as particularidades do controle policial sobre
essas mulheres, destacando, inclusive, suas diferenças para o controle exercido
sobre as mulheres brancas.

Metodologia

Nesta pesquisa, trabalharemos a partir de uma fonte primária, o Boletim


Policial do Distrito Federal. A pretensão do trabalho é analisar os dados estatísticos
do período de 1907 a 1917. A partir destes dados, pretendemos observar que
tipos delitivos compunham o dia-a-dia policial, observando a relação entre crimes
e contravenções penais. Pretendemos destacar, ainda, quais condutas têm maior
representação. A partir do levantamento destes crimes e contravenções, preten-
demos observar como esta criminalização incidia sobre as mulheres, refletindo
sobre possíveis disparidades no controle de mulheres negras e brancas.

164
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Resultados parciais

Analisando os dados estatísticos da polícia civil do Distrito Federal, publica-


dos no Boletim Policial, entre 1907 e 1917, verificamos que uma parte considerável
da atividade policial é ainda voltada à repressão às contravenções, sobretudo a
de vadiagem. Entre julho e setembro de 1907, por exemplo, 1019 pessoas foram
presas pela prática de contravenções. Por crimes, esse número foi de 419. No caso
das contravenções, 800 detenções fora motivadas pela imputação de vadiagem.
Dessas, 646 eram de homens (341 brancos e 305 negros) e 154 mulheres (29
brancas e 125 negras).

Esses dados nos põem de frente para a importância de compreender como


se constituíam as contravenções penais no período, particularmente como era vista
e articulada a ideia de vadiagem. A análise desta contravenção é particularmente
relevante se observamos como ela incidia sobre as mulheres. O senso comum
acadêmico costuma apontar para o fato de que o espaço de controle destinado
às mulheres era o do lar. Os dados aqui apresentados talvez nos apontem para a
necessidade de problematizar essa ideia e pensar como a atividade policial atingia
de maneira muito díspare mulheres negras e brancas.

Sabemos que esses dados são, em si, problemáticos, porque constituem o


registro das agências oficiais do Estado. Porém, é fundamental compreender que
eles cumpriam um esforço grande, na época, de gerar estatísticas e, sobretudo,
publicá-las em uma revista, com o intuito de fomentar uma imagem mais po-
sitiva e moderna da polícia. O Boletim Policial foi criado com esse intuito, após
uma grande reforma sofrida pela Polícia Civil do Distrito Federal, sob a batuta
do chefe de polícia Alfredo Pinto. Assim, apesar dessas dificuldades, entendemos
que explorar esses dados pode nos conduzir a importantes perguntas sobre o
controle penal no Brasil e as múltiplas formas como o racismo o constituiu.

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em Direito) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1998.

165
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

MAIA, Clarissa Nunes. Sambas, batuques, vozerias e farsas públicas: o controle


social sobre os escravos em Pernambuco no século XIX (1850-1888). São Paulo:
Annablume, 2007.

166
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O CREPÚSCULO DA FORCA: CONSIDERAÇÕES SOBRE


A PENA DE MORTE NA SOCIEDADE IMPERIAL
A PARTIR DA ANÁLISE DO PROCESSO JUDICIAL
RELATIVO À ÚLTIMA EXECUÇÃO À PENA CAPITAL
OCORRIDO NO BRASI

HUGO LEONARDO RODRIGUES SANTOS


Professor de Direito Penal, Criminologia e História do Direito na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Centro
Universitário CESMAC. Doutor e Mestre em Direito Penal pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Pesquisador do Grupo Asa Branca de Criminologia.
E-mail: hugoleosantos@yahoo.com.br.

Eixo temático: História da cultura jurídica criminal brasileira (crime, pro-


cesso e penas).

Palavras-chave: Pena de morte; Escravidão; Brasil Império.

Resumo: O trabalho tem por objetivo analisar a aplicação da pena de


morte no Brasil, tomando-se como ponto de partida o processo criminal referente à
ultima execução ocorrida no país. Para tanto, adota-se o método da micro-história,
almejando-se o entendimento histórico do uso da forca, no período imperial, por
meio do estudo de um caso específico, de particular importância para o tema.
Os autos foram obtidos no acervo documental do Instituto Histórico e Geográ-
fico de Alagoas. Como sabido, a pena capital foi prevista no Código Criminal do
Império, de 1830. Contudo, o enorme medo das sublevações de escravos, por
parte da elite brasileira – que tomou maiores proporções após o episódio de
revolta do Haiti e se agravou depois da ocorrência de vários levantes no Brasil,
em especial a revolta dos Malês, em Salvador – impulsionou a edição da Lei nº
4 de junho de 1835. Segundo essa legislação, os escravos que matassem seus
senhores deveriam ser punidos com a morte, por meio de um procedimento
criminal abreviado. De fato, centenas de escravizados foram executados, com
base nessa legislação. Entretanto, em 1854, Dom Pedro II – sabidamente avesso
à utilização dessas reprimendas exageradas – estabeleceu que os escravos con-
denados à morte poderiam apelar, solicitando a clemência imperial, pleiteando
o seu perdão ou mesmo a comutação da pena por uma menos gravosa. Com

167
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

base nesse instrumento, a forca foi paulatinamente caindo em desuso – apesar


de ainda prevista na legislação penal –, devido ao fato de que os apelos dos ne-
gros condenados terminavam, em muitos casos, sensibilizando o regente imperial,
gerando a comutação do castigo para pena de galés ou trabalhos forçados. Tanto
que, apesar de somente ter sido abolida formalmente do ordenamento jurídico
brasileiro com a edição do Código Criminal republicano de 1890, a última exe-
cução de uma pena capital ocorreu bem antes, no dia 28 de abril de 1876, no
município de Pilar, em Alagoas. A sanção foi aplicada ao escravo Francisco, em
decorrência de sua condenação pelo assassinato de João Evangelista de Lima e
de sua esposa Josefa Marta de Lima. Desse modo, o estudo do processo criminal
que originou a derradeira execução à pena capital se faz extremamente impor-
tante, para o entendimento de todo o contexto histórico relacionado à perda
de efetividade dessa prescrição legal, bem como para a compreensão da opinião
da sociedade a seu respeito.

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elites (século XIX). Rio de Janeiro: Paz e terra, 1987.
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168
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

MAIA, Clarice Nunes. Sambas, batuques, vozerias e farsas públicas: o controle


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169
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

CULTURA JURÍDICA PROCESSUAL PENAL,


JURISTAS-LEGISLADORES E A CIRCULAÇÃO
DO CÓDIGO (1930-1964)

GABRIELLE DO VALLE STRICKER


Bacharela e mestranda em Direito do Estado no Programa de Pós-Graduação
em Direito da Universidade Federal do Paraná (PPGD – UFPR).
Pesquisadora bolsista pelo Programa de Excelência Acadêmica
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (PROEX – CAPES).
E-mail para contato: strickergv@gmail.com

Eixo temático: História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas).

Palavras-chave: CPP/41; Juristas-legisladores; Francisco Campos.

Introdução

A história do Código de Processo Penal ainda não foi contada. Tomando


isso como premissa básica, os objetivos principais dessa pesquisa são: a) conhecer
as motivações políticas para essa codificação, que retirou a autonomia legislativa
processual dos Estados; b) os discursos jurídicos que atravessaram pouco mais de
uma década de reforma legislativa processual penal e; c) a recepção do Código
de Processo Penal de 1941 na doutrina.

Para tanto, tomar-se-á a cultura jurídica como um “fato histórico antropo-


lógico” que reúne um conjunto de significados mutáveis (FONSECA, 2006, p. 340).
Estes significados86 atribuem tipicidade ao direito e circulam nos diversos meios e
instituições. Portanto, a esse estudo interessa, no campo processual penal, tantos
esses significados, como os seus meios de circulação e os seus interlocutores e
intérpretes do CPP/41.

O período escolhido para a análise se deve a dois marcos. O primeiro


marco é o Governo Provisório que, instalado com a Revolução de 1930, procedeu
86 Historicamente construídos e que exigem a verificação dos “standards doutrinários, padrões de interpreta-
ção, marcos de autoridade doutrinária nacionais e estrangeiras, influências e usos particulares de concepções
jusfilosóficas” presentes na “configuração discursiva” do processo penal (FONSECA, idem).

171
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

em uma amplíssima reforma legislativa, incluindo a intenção de redigir um código


de processo penal. O segundo marco é o início do regime militar, o qual poderá
ser alterado se for detectada alguma ruptura mais explícita na cultura jurídica
processual penal e que não necessariamente acompanha as contingências políticas.

Metodologia

A proposta acima elaborada será executada nos marcos da História Cultural


do direito, que explora a circularidade da cultura jurídica dentro, mas também
para além das universidades, dos tribunais ou órgãos legiferantes. Assim, as fontes
primárias serão artigos jurídicos publicados nas revistas acadêmicas de maior ex-
pressividade na época (como a Revista Forense), documentos legislativos diversos
e livros doutrinais adotados nos currículos e os dos próprios juristas da Comissão
Revisora. Todas essas fontes são expressões de produção do direito na cultura
jurídica, sendo necessário reencontrar também as fontes relativas à reflexão e à
circulação do Código de Processo Penal de 1941, como a imprensa, por meio
dos jornais de maior circulação no então Distrito Federal, cujo destinatário era a
elite letrada, particularmente as elites política e jurídica.

Resultados parciais da pesquisa

Foi realizado um levantamento preliminar de bibliografia pertinente, com


relação à qual já se estabeleceu algumas conexões. Uma primeira percepção
permite dizer que a categoria “juristas” adquire um relevo especial no trabalho,
vez que Diego Nunes identificou ao menos um novo papel desempenhado
por eles no período, o de juristas-legisladores (2016), e Ricardo Sontag estudou
a “Comissão Revisora”, particularmente Nelson Hungria e Roberto Lyra dentro
dos enquadramentos do Direito Penal e da Lei do Júri de 1938 (2009a; 2009b;
2013; 2017). Deve-se, adiante, estabelecer um vínculo entre as análises sobre os
juristas brasileiros (HESPANHA, 2001; FONSECA, 2006; OLIVEIRA, 2015) e aque-
les seis juristas que compuseram a comissão, bem reconstruir possíveis redes de
colaboracionismo com o varguismo (SEELAENDER, 2009; 2013) e os discursos
políticos que se utilizaram do direito para legitimação (incluindo, além de Vargas,
os principais Ministros da Justiça a participarem das reformas legislativas: Vicente
Raó e Francisco Campos).

No contexto político, a questão do federalismo e da unidade processual,


levantada na Constituinte de 1934, em alguns discursos de Getúlio Vargas e no
Estado Nacional de Francisco Campos, pareceu pertinente e deve ser levantada
ao menos tangencialmente, visto que o tema é ainda original na historiografia. A
questão da reforma legislativa e da identidade nacional já foi tratada por Mariana
de Moraes Silveira (2013; 2016), autora que será levada em consideração.

172
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Por fim, mas não por último, a categoria “código” é inescapável e será
analisada dentro da circularidade da cultura jurídica, considerando que os debates
pré-legislativos envolveram diversos juristas num largo período de tempo e que, à
época da escrita definitiva do Código, não foram publicadas as atas de debates.
Não obstante, outras manifestações dessa cultura jurídica foram presentes àquela
época e novas considerações podem despontar a partir daí.

Conclusão

Até o presente momento, conclui-se que o perfil típico do jurista bra-


sileiro após a independência política é misto. O equilíbrio entre bacharelismo e
tecnicismo se fez necessário na virada do século (OLIVEIRA, 2015, p. 189). O
campo legislativo parece ser onde o jurista híbrido escolhe um caminho próprio
da designação: fazer política eloquentemente, mas legitimado por escolhas téc-
nicas, tal como se vê nos comentários elogiosos de Narcélio de Queiroz sobre
Francisco Campos (1943, p. 457).

Verificou-se, ainda, que o antibacharelismo era irmanado ao antiparla-


mentarismo e ao antiliberalismo (SILVEIRA, 2016, p. 411-460), motivo pelo qual
a cooperação no campo jurídico com o varguismo se deu por meio dos “juris-
tas-legisladores” (NUNES, 2016, p. 153-180). A atuação de Francisco Campos não
passou desapercebida nessa análise preliminar, mas, sendo o jurista um dogmata
do direito privado que exerceu cargos políticos, é possível dizer que suas par-
ticipações diretas no regime são de ordem ideológica (SEELAENDER, 2013, p.
491-525). Uma leitura diversa do articulador entre juristas-legisladores e o governo
ainda será explorada, no que pode caber uma comparação à atuação política
de Vicente Raó no projeto de Código de Processo Penal de 1935. Percebe-se, a
princípio, que Campos, por sua adaptabilidade (SEELAENDER, ibidem), teve mais
sobrevida política do que seu antecessor.

Há, portanto, um corte claro entre o papel dos juristas híbridos (que vinham
se adaptando às mudanças das últimas décadas e tinham expressão política) e os
juristas técnicos (que coparticiparam do regime por meio da atividade jurídica).
Isto provoca uma série de perguntas, para além dos objetivos supramencionados:
houve, de fato, colaboracionismo com o regime e apenas isso ou resistência
“por dentro” na redação do Código de Processo Penal? Os possíveis colabores
lograram vantagens pessoais e profissionais? O tecnicismo afastou os juristas do
nacionalismo? O andamento da pesquisa pode revelar diversos desdobramentos
nessas questões.

173
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

Referências bibliográficas
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174
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

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175
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

176
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O TRIBUNAL DO JÚRI DA CORTE IMPERIAL


DO RIO DE JANEIRO DURANTE A REGÊNCIA

JOÃO LUIZ DE ARAÚJO RIBEIRO


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
E-mail: izjo@hotmail.com

Eixo temático: 2. História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime,


processo e penas)

No dia 19 de agosto de 1833, uma segunda-feira, reuniram-se pela pri-


meira vez no Brasil, na Corte Imperial do Rio de Janeiro, um tribunal de júri
para julgar crimes comuns.87 Dia de grandes esperanças, de muita expectativa.
O tribunal dos jurados representava, então, a liberdade face ao despotismo, ao
arbítrio, ao obscurantismo, uma instituição que vinha de encontro a tudo que
caracterizaria, segundo o pensamento liberal e iluminista de fins do setecentos e
início dos oitocentos, o antigo regime, em particular o antigo sistema penal, com
suas torturas, seu segredo, seus suplícios, suas inquisições.88

A história do júri no império apresenta duas fases bem distintas. Na


primeira, de 1832 a 1841, sob a égide do Código do Processo Criminal de 1832,
“são aptos para serem Jurados todos os cidadãos, que podem ser Eleitores, sendo
de reconhecido bom senso e probidade” (art. 23 da lei de 29 de novembro de
1832). Poderiam ser eleitores os cidadãos que tivessem 200 mil réis de renda
anual. Outrossim, nessa fase o tribunal do júri era dividido segundo o modelo
clássico inglês – um júri de acusação ou primeiro conselho, e um júri de senten-
ça, ou segundo conselho. Na segunda fase, entre 1842 e 1889, já sob as regras
da Reforma do Código do Processo Criminal, realizada em 1841, o júri se elitiza:
“São aptos para Jurados os cidadãos que puderem ser Eleitores (...) con-
tanto que esses cidadãos saibam ler e escrever, e tenham de rendimento
anual por bens de raiz, ou Emprego Publico, quatrocentos mil reis, nos
Termos das Cidades do Rio de Janeiro, Bahia, Recife e S. Luiz do Mara-
87 Na realidade, uma primeira experiência de júri no Brasil já surgira em 1828, mas limitada ao julgamento de
crimes de imprensa.
88 Sobre a ruptura representada pelo júri: ACTES DU COLLOQUE D’ORLEANS - La Révolution et l’ordre juridique
privé – Rationalité ou scandale? - PUF, 1986; CARBASSE, Jean-Marie – Histoire du droit pénal et de la justice
criminelle – PUF, 2000; CLAVERO, Bartolomé – Crédito del jurado y credenciales del constitucionalismo, in Happy
Constitution. Editorial Trotta, 1997.

177
CARDENO DE RESUMOS – História da Cultura Jurídica Criminal Brasileira (crime, processo e penas)

nhão: trezentos mil réis nos Termos das outras Cidades do Império; e
duzentos em todos os mais Termos. Quando o rendimento provier do
comércio ou indústria, deverão ter o duplo.” (art. 27 da Lei 261, de 3 de
dezembro de 1841)

Sobretudo devido a exigência de se saber ler e escrever, criou-se assim


um júri de notáveis, para utilizarmos a expressão francesa. Além disto, foi supri-
mido o júri de acusação; o júri agora se assemelha mais ao modelo do Código
de instrução criminal francês da era napoleônica.

O trabalho que pretendo apresentar no XIX Congresso Brasileiro de His-


tória do Direito, tendo como base as pesquisas que realizei, no tempo de meu
doutoramento, em jornais da Corte, especialmente nos resumos das sessões do
júri, publicadas nos jornais diários, irá traçar um panorama desta primeira fase
do júri imperial.

Para a época do segundo reinado, pudemos contar com informações


relativas a mais de 95% das sessões do júri. Infelizmente, para o período regencial,
isto não foi possível, pois a publicação dos resumos apresenta grande irregularidade
nos anos 30 e início do 40. Todavia pudemos complementar as informações dos
jornais com as extraídas do Códice 324 (minutas dos ofícios do Chefe de Polícia
da Corte) e da Série IJ6 (documentos vários da Polícia da Corte), do Arquivo
Nacional. Assim para o período entre 1833 e 1841, temos informações relativas
a cerca de 50% das sessões.

Na primeira parte do trabalho, acompanharemos a ação do juiz da primeira


vara criminal (e chefe de polícia da corte), Eusébio de Queiroz Matoso Câmara, em
particular a questão jurídica que levou ao Supremo Tribunal de Justiça, relativa ao
sorteio dos jurados. Eusébio, provavelmente inspirado no Grand Jury inglês, sorteava,
no início da sessão judiciária, um primeiro conselho que serviria por toda a sessão.
Já Vaz Vieira, da Segunda Vara, a cada dia sorteava o primeiro conselho. O aviso
de 12 de abril de 1834, com o intuito de uniformizar os procedimentos, adotou
a praxe de Vaz Vieira. Em seguida, analisaremos o balanço – positivo, diga-se de
antemão – que fez da intensa atividade do júri da Corte, desde sua criação até
abril de 1839, quando comunicou ao Ministro da Justiça que, “estando em dia
tanto os processos de réus presos como de afiançados, deixara de ter conselho de
sentença por dois dias durante a última sessão judiciária”.89 Cabe lembrar que o
júri herdou processos pendentes que remontavam a 1808. A segunda parte de
nosso trabalho apresentará os resultados das pesquisas quantitativas nas fontes
mencionadas, trazendo as estatísticas relativas ao julgamento dos principais crimes
contra as coisas – furto, furto de escravos, roubo e estelionato – e contra as
pessoas – ferimentos simples, ferimentos graves, tentativa de homicídio e homi-
89 RIBEIRO, João Luiz – A violência homicida diante do Tribunal do Júri da Corte Imperial do Rio de Janeiro
(1833-1885) – Tese de Doutorado - PPGHiS-UFRRJ, 2008.

178
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

cídio, tanto do júri de acusação como do júri de sentença. Primeiramente, em


consonância com as autoridades coevas, com uma das preocupações maiores de
Eusébio nos detemos nos números relativos à nacionalidade e à condição social
dos réus – brasileiros, africanos, portugueses, livres, escravos, desenhando assim
o quadro das então chamadas “classes perigosas”. Em seguida, determinamos as
porcentagens de absolvição e condenação, bem como as sentenças cominadas.

Por fim, concluímos, com base nos números de absolvição e condenação


pelo crime de homicídio, que o júri mais popular da Regência fora mais severo
do que o júri de notáveis do Segundo Reinado.

179
RESUMOS

CRISES CONSTITUCIONAIS
NA HISTÓRIA DO BRASIL REPÚBLICA
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O MARXISMO NA HISTÓRIA DO SUPREMO


TRIBUNAL FEDERAL: UMA ANÁLISE
DO PERÍODO DA DITADURA CIVIL-MILITAR-EMPRE-
SARIAL BRASILEIRA (1964-1985)

ENZO BELLO
Professor Adjunto III da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação
em Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Professor do Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Estácio de Sá (UNESA).
Doutor em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janiro (UERJ)
E-mail: enzobello@gmail.com

RENE JOSÉ KELLER


Doutorando em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Doutorando em Serviço Social pela Pontifícia Univerisdade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
E-mail: rene.j.keller@gmail.com

Eixo temático 3: Crises constitucionais na História do Brasil República

Palavras-chave: Marxismo; Supremo Tribunal Federal; ditadura civil-mi-


litar-empresarial.

Introdução

Ao longo da história brasileira a recepção do ideário comunista e, por


conseguinte, da teoria marxista não ocorreu de modo pacífico. A própria trajetória
do Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 25 de março de 1922, é mar-
cada por períodos que oscilam entre a legalidade e ilegalidade1. A par de a teoria
marxista ter sua repercussão inconteste nas mais diversas áreas do conhecimento,
ainda permanece pouca a penetração no Direito, âmbito tradicionalmente ligado
a setores conservadores da sociedade.

O presente artigo tem como objetivo geral, a partir de uma investigação


histórica, examinar as decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF)
que mencionaram expressamente a obra de Karl Marx e Friedrich Engels, ou o
1 Astrojildo Pereira (1962, 55-58) recorda que o PCB foi jogado na ilegalidade pela primeira vez após três
meses e meio de fundação, em virtude da turbulência política e decretação do estado de sítio.

183
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

marxismo, no período da ditadura civil-militar-empresarial brasileira (1964-1985). O


objetivo específico remonta à análise da influência e incursão que a teoria marxista
tem para o STF, que não passou imune à obra dos fundadores da filosofia da
práxis, bem como à maneira que foi abordada.

O estudo se justifica na medida em que incursionar na trajetória e no


pensamento dos juristas defensores da ditadura – no caso o Supremo Tribunal
Federal – é imprescindível para compreender o alicerce ideológico de parte da
literatura jurídica utilizada na atualidade na prática do Direito (SEELAENDER: 2008,
420). Destaca-se que o debate se insere como reflexo da crise constitucional
instaurada pós-golpe de 1964, cujas implicações foram sentidas no conteúdo das
decisões, como as que ora serão objeto de análise.

Metodologia

Em termos metodológicos, a pesquisa tem natureza qualitativa, perfil


histórico-teórico, e envolve uma abordagem interdisciplinar realizada mediante
raciocínio indutivo-dedutivo. As técnicas de pesquisa utilizadas são as de análise
documental e revisão bibliográfica. O manejo dos procedimentos metodológicos
envolveu a busca de acórdãos, na base de dados constante do acervo jurispru-
dencial disponível no site do STF.

O critério de busca se baseou nas expressões “Karl Marx”, “Friedrich


Engels”, “marxismo” e “marxista”. Todos os julgados encontrados, ao todo quatro
(4), foram objeto de exame. Em virtude do objetivo delineado, observou-se a
ordem cronológica de exposição dos acórdãos, a fim de examiná-los a partir do
desencadeamento histórico no Brasil no período da ditadura civil-militar-empre-
sarial (1964-1985).

Ressalta-se que não foram objeto de busca termos como “subversão” ou


“subversivo”, que decerto ampliariam o escopo da presente pesquisa, pois a análise
tem como mote examinar o marxismo como campo teórico. Ainda, deve ser
mencionado que os acórdãos encontrados foram os disponibilizados no banco
de dados virtual do STF, não necessariamente representando a totalidade dos
julgados que abordaram o marxismo.

Por fim, cabe destacar que os documentos não retratam fielmente os fatos
ocorridos no período da ditadura civil-militar-empresarial, notadamente porque
se referem a processos judiciais. Grande parte das arbitrariedades cometidas não
foram objeto de apuração pela ordem oficial. Assim, o seu conteúdo histórico
deve ser mensurado em um contexto que a decisão judicial, aliada da ordem
então vigente, não poderia denunciar todas as atrocidades perpetradas pelo
regime militar brasileiro.

184
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Resultados parciais

A partir de análise histórica dos julgados, no período da ditadura civil-


militar-empresarial, a teoria marxista jamais serviu como fundamento de decisão
no STF, restringindo-se a corte a examinar se as condutas constituíam, ou não,
atentado à soberania nacional e ao governo então vigente. Nos julgados mais
antigos, relatados pelo Min. Aliomar Baleeiro, havia uma preocupação, em virtude
do contexto histórico, de apenas situar a obra marxiana no panorama político e
científico. O que se pode depreender dos julgados é que a posição do Supremo
Tribunal Federal criminalizava o marxismo quando posto em prática, ou seja, quan-
do a teoria servia de aporte à ação dos movimentos de contestação do regime.

Conclusão

O presente estudo abre espaço para novas frentes de investiação,


que podem vir a traçar a assimilação da teoria marxista no Supremo
Tribunal Federal em correlação aos períodos históricos, que justificam um
afastamento de uma visão inicial que rejeita a uma assimilação e aplicação
de categorias. Além disso, cabe uma análise mais acurada acerca do papel
que o marxismo assumiu à formação individual dos ministros.

Há uma outra linha a ser seguida, como ampliação da presente


pesquisa, no sentido de abarcar os julgados dos presos políticos, militantes
comunistas, durante o período militar. A restrição de busca eleita, com
termos limitados ao espectro teórico do marxismo, abrangeu tão somente
uma parte das práticas sociais insurgentes, deixando de fora os militantes
dos diversos grupos contra o regime que foram presos por suas ações ou
por portarem materiais considerados subversivos.

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186
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

CRISE INSITUCIONAL E A RELATIVIZAÇÃO


DO PRINCÍPIO DA PROIBIÇÃO DO RETROCESSO
SOCIAL: UMA ANÁLISE COMPARADA

DÉBORA DE OLIVEIRA CÔCO


Graduanda em Direito
Universidade Federal de Uberlândia – UFU.
E-mail: deboracoco_15@hotmail.com

ISABELLA MARTINS CECÍLIO


Graduanda em Direito
Universidade Federal de Uberlândia – UFU.
E-mail: isabellamcecilio@hotmail.com

Eixo Temático: 3 - Crises constitucionais na História do Brasil República

Palavras Chave: Judicialização da política; Princípio da proibição do re-


trocesso social; Crise econômica.

Percebe-se tanto no Estado brasileiro de Direito, quanto no exterior, o


aumento da interferência do Judiciário quando se trata da resolução de diver-
gências entre os poderes executivo e legislativo, o denominado “Ativismo Judicial”.
Tal cenário resulta em decisões judiciais relativas à efetivação de direitos sociais,
matéria esta que não compete originalmente ao Poder Judiciário.

Neste processo, a existência desses fatos possibilitam o surgimento de


questionamentos acerca da efetividade do princípio da separação e autonomia
dos poderes, podendo resultar em um estado de crise institucional. A partir de
tais relatos, surge a necessidade de discutir como a judicialização da política e o
“ativismo judicial”, interferem na efetivação dos direitos fundamentais do cidadão em
tempos de crise econômica, à luz do princípio da proibição do retrocesso social.

Portanto, é de suma importância entender os fenômenos de tal processo,


para que sejam debatidas soluções adequadas e compatíveis com a realidade social.
Uma vez que, os direitos sociais são de extrema relevância para o desenvolvimento
da sociedade. Porém, é recorrente que em períodos de recesso econômico, tais

187
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

direitos sejam relativizados, desencadeando uma forte atuação do judiciário, para


que o Estado cumpra sua função social garantida na Constituição.

O presente artigo tem como objetivo comparar a utilização do princípio


da proibição do retrocesso social no Brasil e em Portugal, abordando as possíveis
influências entre os países, analisando como ocorre a atuação do judiciário em
ambos países. Além de compreender a relação da judicialização da política com
a efetivação dos direitos fundamentais sociais.

A metodologia a ser utilizada será o direito comparado, o qual visa evi-


denciar semelhanças e diferenças entre os ordenamentos jurídicos portugueses
e brasileiros, no que tange à aplicação do princípio da proibição do retrocesso
social, em uma análise qualitativa das teorias. Para isto, buscou-se pesquisar em
sítios eletrônicos, revistas, artigos e livros portugueses e brasileiros.

O princípio da proibição do retrocesso social tem suas origens no direito


europeu, principalmente em Portugal e na Alemanha, e busca a maior efetivação
e proteção de direitos fundamentais em face de intervenções do poder público.

No direito brasileiro Ingo Wolfgang Sarlet, um dos principais teóricos sobre


o tema, defende que o princípio da proibição do retrocesso social tem como
base o princípio da dignidade da pessoa humana, o princípio da confiança e o
princípio da segurança jurídica (SARLET, 2013). De tal forma que, a aplicação do
retrocesso social resultaria em um estado de insegurança jurídica promovendo
a diminuição da efetivação dos direitos sociais. Dessa forma, cita-se o caso bra-
sileiro em que estabelece a manutenção da rede de assistência da criança e do
adolescente, com o agravo 745.745 Minas Gerais. (STF, 2014)

No entanto, José Joaquim Gomes Canotilho, importante doutrinador do


direito português, com o decorrer dos fatos que aprofundaram a recessão eco-
nômica em Portugal na última década, mudou seu posicionamento com relação
a aplicação do princípio da proibição do retrocesso social. Segundo o acórdão
39/84 do Tribunal Constitucional Português, que julgou inconstitucional a lei que
revogava parte do Serviço Nacional de Saúde, “o Estado, que estava obrigado a
actuar para dar satisfação ao direito social, passa a estar obrigado a abster-se de
atentar contra a realização dada ao direito social” (TC, 1984).

Porém, no acordão 353/2012 do Tribunal Constitucional Português, a de-


cisão proferida pela corte admite a redução salarial progressiva de 3,5% até 10%
dos servidores públicos, a suspensão do adicional de férias e do décimo terceiro
e a própria redução dos vencimentos dos servidores em até 25%.

188
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Contudo, o intuito da argumentação adotada por Canotilho, apesar de


defender que “deve relativizar-se este discurso que nós próprios enfatizámos nou-
tros trabalhos” (CANOTILHO, 2003), não seria de violar o Princípio da Proibição
do Retrocesso Social mas assegurar o mínimo dos direitos sociais à população, ‘a
dramática aceitação de ‘menos trabalho e menos salário, mas trabalho e salário
e para todos’(CANOTILHO, 2003).

Indubitavelmente, existe uma forte influência das decisões do direito portu-


guês no direito brasileiro, em decorrência do histórico de colonização, porém com
certa autonomia brasileira, uma vez que a jurisprudência nacional, não seguiu as
decisões portuguesas que propõe a relativização dos direitos sociais, em decorrência
da recessão econômica. Após a comparação, pode-se concluir que a tendência
brasileira é seguir de acordo com as decisões portuguesas com o decorrer dos
anos, no que tange aos casos referentes à efetivação dos direitos sociais.

Referências bibliográficas
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189
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O BRASIL À BEIRA DE UMA CRISE


CONSTITUCIONAL, DE NOVO?

RAFAELE BALBINOTTE WINCARDT


Universidade Federal do Paraná, UFPR
E-mail: rafawincardt@gmail.com

Eixo temático: Crises Constitucionais na História do Brasil República

Palavras-chave: Constitucionalismo; Tensão entre Poderes; Crise Institu-


cional.

Introdução

O Estado Brasileiro encontra-se nasétima Constituição Republicana (1891,


1934, 1937, 1946, 1967, 1969 e 1988), sendo que a última se encontra com o
número surpreendente de cem emendas em seu texto original. Ora, se a média
permanecesse constante, significaria cerca de quatro emendas por ano, fato que
escancara uma instabilidade institucional que, por sua vez, prolonga problemas
e nutre novas crises no país. Pois, um cenário político devastado produz reflexos
imediatos na atuação dos Poderes, impactando, sobretudo, a ordem constitucional
instituída.

Na medida em que o poder constituinte de 1987/1988 pretendeu alterar


o status quo, atribuindo novas atividades ao Estado e flexibilizando o conceito de
soberania, foi aprovada uma Constituição chamada dirigente, conforme expressão
de Canotilho, a fim de se adequar, também, à perspectiva de globalização pro-
veniente do neoliberalismo e dar a devida importância à proteção dos direitos
humanos.

Contudo, na prática, a corrupção e a concussão viraram regra, desmora-


lizando as instituições estatais e conquistando o ódio e desprezo do povo. Para
além disso, os desdobramentos da crise política iniciada em 2015 garantiram uma
abertura à edição desenfreada de medidas provisórias na tentativa de encontrar
escapes, bem como um confronto explícito entre o Judiciário e os Poderes executivo
e legislativo, mitigando os valores da democracia representativa e enterrando com

191
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

cortejo fúnebre a economia do país. O presidencialismo de coalizão passou a se


tornar ameaçador e a intimidação por medidas austeras prenunciaram um “golpe”.

De outro lado, retornando ao ano de 1964, tem-se o governo e os tempos


de Goulart, objeto de interpretações controversas e polêmicas, em que tanto
liberais quanto conservadores atribuíram ao período apenas aspectos negativos
e perversos, classificando-o como “baderna política”, “crise de autoridade” e “caos
administrativo”; inflação descontrolada e recessão econômica, quebra da hierarquia
e indisciplina nas forças armadas, com uma “subversão” da lei da ordem.

Diante dessa fase crítica do constitucionalismo brasileiro, especificamente


a crise de 1964, é possível dizer que o momento atual também reflete em uma
crise constitucional? Ademais, é coerente reconhecer uma intrínseca ligação entre
a crise institucional e a crise constitucional? Sobretudo, são estas algumas das
questões que este pequeno estudo pretende explorar.

Metodologia

A partir de uma análise histórica da estabilidade constitucional no século


XX, pretende-se identificar situações experimentadas pela República em que crises
institucionais refletiram em evidentes crises constitucionais. Em seguida, realizar
um estudo comparativo com o panorama contemporâneo do Estado Brasileiro,
na busca pela compreensão da anatomia, desenvolvimento e desdobramentos
decorrentes de ambos os contextos políticos e jurídicos, com o propósito de
reconhecer se há, atualmente, a instauração de uma nova crise constitucional.

Destarte, importa resgatar as medidas políticas, econômicas e sociais que,


no passado, visaram retomar a supremacia democrática e estabilizar o constitucio-
nalismo estatal, de forma a sopesar a adoção de tais resultados e suas implicações
na conjuntura do século XIX. Para além disso, não se pretende sugerir soluções ou
respostas prontas à complexa crise que se apresenta à nação nos tempos atuais,
mas colaborar, sobretudo, para a compreensão do momento histórico vivido e
possíveis saídas alternativas.

Resultados e conclusões parciais

Há dois pontos em 1964 que são ausentes da crise atual que, por sua
vez, foram imprescindíveis ao golpe. O primeiro diz respeito à politização das
Forças Armadas. Já o segundo aspecto é que Goulart e seus aliados de esquerda
estavam contrariando o Congresso. Em decorrência das mudanças planejadas
para a Constituição, a fim de ampliar o poder do governo, a direita interpretou
indícios de uma escalada autoritária do governo, argumento que conquistou cre-
dibilidade devido às pressões sobre o Congresso. Resguardadas as peculiaridades

192
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

dos contextos jurídico-políticos vividos, o momento atual também demonstra


uma perda significativa de apoio no Congresso, de forma a atingir diretamente as
demais instituições. Uma semelhança inquestionável é a presença da Constituição
como brinquedo que é partilhado para cada um se divertir por vez, podendo
ser manipulada ao bel prazer político. E qual a posição do Poder Judiciário? É o
que o estudo ainda pretende investigar.

Em suma, a postura que se espera é uma luta incessante pelo respeito às


instituições: a defesado sistema legal, dos procedimentos jurídicos e, precipuamente,
da Constituição. As investigações e eventuais punições de práticas corruptivas
merecem ser levadas a efeito com rigor, mas sem abrir espaço à arbitrariedade
política e manipulações eleitorais. O que deve se evitar a todo custo: retrocessos
autoritários, prestigiando, assim, o poder constituinte e o poder constituído, sem
ferir os freios e contrapesos.

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193
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

JURISTAS E DITADURA: A ATUAÇÃO POLÍTICA


DOS PROFESSORES DA FACULDADE DE DIREITO DA
UFSC DURANTE A DITADURA MILITAR (1964-1969)

RODRIGO ALESSANDRO SARTOTI


Advogado, Mestre em Direito e Doutorando em Direito na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
E-mail: rsartont@gmail.com

Eixo temático: Crises constitucionais na História do Brasil República

Palavras-chave: História do Direito; Ditadura Militar; Faculdade de Direito;


Juristas.

Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob uma Ditadura Militar. Diferentemente
das experiências ditatoriais da maioria dos países da América Latina na segunda
metade do século XX, o Brasil passou por um processo de transição para a
democracia que, em larga medida, privou a população de conhecer a fundo o
que realmente ocorreu no país durante o período de exceção. Até hoje, pouco
sabemos sobre como se portaram as instituições diante do Golpe de 1964 e a
Ditadura que se instaurou em seguida.

Neste sentido, a presente pesquisa tem por objetivo investigar a atuação


dos docentes da Faculdade de Direito da UFSC durante a primeira fase Ditadura
Militar (de 1964 a 1969), bem como analisar a postura da própria Faculdade diante
do Golpe e da Ditadura Militar, sob a ótica da História do Direito. Deste modo,
a pesquisa busca responder se houve apoio, com consequente legitimação, ou
mesmo resistência ao Golpe Militar e à Ditadura por parte dos professores da
Faculdade de Direito. Para a investigação histórica, a presente pesquisa elegeu o
período compreendido entre o Golpe de Estado, em 1º de abril de 1964, até a
edição do Ato Institucional n. 5, em 13 de dezembro de 1968, e posterior extinção
da Faculdade no início de 1969.

Colocou-se, especificamente, o seguinte problema de pesquisa: como se


posicionaram a atuaram politicamente os professores da Faculdade de Direito da
UFSC, bem como a instituição enquanto ator individual, diante do golpe de estado
de abril de 1964 e diante da imediata ditadura militar que se instaurou no Brasil?

195
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

Considerou-se a hipótese inicial de que a Faculdade de Direito da UFSC


teve papel importante na legitimação jurídica e política do golpe de abril de 1964
e na sustentação do governo ditatorial em nível estadual, principalmente por ser
o curso de direito mais antigo de Santa Catarina – fundado em 1932 –, o único
curso de direito existente no Estado em 1964 e por estar sediado na Capital.

O objetivo geral da pesquisa era verificar qual o posicionamento político


dos professores da Faculdade de Direito da UFSC diante do golpe militar de 1964
e da ditadura que se seguiu, em especial a posição institucional da Faculdade.
Já os objetivos específicos foram os seguintes: a) verificar se houve apoio e/ou
resistência ao golpe e à ditadura por parte de professores; b) verificar se houve
apoio e/ou resistência institucional da Faculdade ao golpe e à ditadura; c) analisar
a posição política e acadêmica da Faculdade após a outorga da Constituição
de 1967 e após o decreto do Ato Institucional n. 5; d) investigar como era o
ensino do direito constitucional durante este período, especialmente no período
de exceção pós-AI-5; e) investigar se houve perseguição política a professores e
estudantes; g) verificar se houve participação de professores da Faculdade de
Direito no aparato estatal da ditadura.

A pesquisa abrange de maneira mais intensa o período que vai do Golpe


de Estado, em 1964, à edição do Ato Institucional de n. 5, no final de 1968, este
último coincidindo com o fim da autonomia da Faculdade de Direito da UFSC,
vez que, em 1969, deixou ser Faculdade e passou a integrar um novo centro de
ensino da UFSC. A pesquisa abrange, ainda, a conjuntura da Faculdade de Direito
e da incipiente UFSC nas vésperas do golpe, bem como os desdobramentos dos
acontecimentos do ano de 1968 dentro da Universidade.

Para alcançar os objetivos propostos e verificar a hipótese inicial, a presente


pesquisa utilizou o método histórico. Como procedimento, adotou a coleta de
dados com pesquisa em fontes primárias (pesquisa documental e entrevistas) e
pesquisa bibliográfica.

Durante a fase de pesquisa documental, foram analisados os seguintes


arquivos e acervos: Arquivos da Faculdade de Direito e do Centro Socioeconô-
mico; Arquivo Central da UFSC, especificamente o Fundo Fechado da Faculdade
de Direito, o Fundo Fechado da Procuradoria da UFSC, o Subgrupo Fechado da
Reitoria e os Boletins de Pessoal da UFSC; Arquivo do Centro Acadêmico XI de
Fevereiro – CAXIF; Arquivo do Diretório Central dos Estudantes – DCE; Arquivo
Nacional, especificamente o Fundo do Serviço Nacional de Informações – SNI;
Acervo da Comissão da Memória, Verdade e Justiça de Santa Catarina; Acervo
da Comissão da Memória e Verdade da UFSC; Acervo de atas do Conselho
Universitário da UFSC e Hemeroteca da Biblioteca Pública de Santa Catarina,

196
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

onde foram analisados os principais jornais que circularam em Florianópolis no


período investigado.

Foram recolhidas, ainda, 12 entrevistas e relatos pessoais escritos de pes-


soas que viveram o período histórico estudado. A pesquisa também se utiliza de
recursos visuais, como fotos e imagens da época, além da reprodução, ao longo
do texto, de recortes de jornais, fichas do SNI e demais documentos históricos.

À guisa de introdução, ainda, cabe explicar que a presente pesquisa não


pretende, de forma alguma, encerrar discussões históricas e teóricas do tema
proposto, nem se afirmar como verdade absoluta acerca do período histórico
estudado. Cuida-se aqui de uma história política. Nessa linha, cumpre esclarecer
que esta pesquisa se afirma como uma história política, compreendida aqui
como ramo da história que se preocupa com a investigação e estudo acerca
das relações de poder que permeiam a sociedade e o Estado nas suas mais va-
riadas dimensões, passando por partidos políticos, dirigentes, militantes, entidades
representativas, relações sociais cotidianas, instâncias políticas de representação,
governantes, discursos e cultura política2, tornando-se, assim, um dos tentáculos
da própria história do direito.

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198
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

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199
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

CRISES CONSTITUCIONAIS E A VIOLAÇÃO DOS


DIREITOS CIVIS E POLÍTICOS ENTRE OS ANOS
DE 1964 A 1970 NO ESTADO DA PARAÍB

JEAN PATRÍCIO SILVA


Instituto de Ensino Superior (IESP)

MICHELLE SANTOS DO NASCIMENTO


Instituto de Ensino Superior (IESP)

LARA CELINA MAIA MENDES DE OLIVEIRA


Instituto de Ensino Superior (IESP)

LAÍS MARREIRO DE SOUZA


Faculdade Internacional da Paraíba (FPB)
E-mail: jean.historia@hotmail.com

Eixo Temático: Crises constitucionais na História do Brasil República

Direito; Memória; Paraíba.

Introdução

Este trabalho tem como objetivo, demonstrar como as crises políticas e


institucionais de 1964 e 1968, afetaram de forma decisiva a sociedade paraibana
em diversos aspectos. Ressalte-se que a violação a carta política de 1946 com
o golpe civil militar de 1964 e as alterações ocorridas com as Constituições de
1967, o Ato Institucional nº 5 e a EC/01 de 1969 tiveram profundas repercussões
no Estado da Paraíba. Em virtude da exiguidade de tempo, iremos discutir alguns
aspectos dessas crises constitucionais no Estado tendo como pressuposto a cas-
sação de parlamentares e casos de tortura durante o regime militar.

Metodologia

Em se tratando dos arquivos da Comissão Estadual da Verdade


relacionados aos parlamentares cassados durante os anos de 1964 a 1969,
tivemos acesso às atas do Conselho de Segurança Nacional dos seguintes

201
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

parlamentares: José Targino Maranhão3, Osmar de Aquino4, Pedro Gondim5


e Vital do Rego6. Destes, pela exiguidade de tempo, iremos trazer algumas
informações específicas sobre a cassação de José Maranhão e Pedro Gon-
dim, ex-governadores, como também dos deputados estaduais Assis Lemos
e Figueiredo Agra estes punidos no imediato pós golpe.

Um dos pontos fundamentais para a elucidação destes fatos encontra-


se nas chamadas audiências públicas. Nestas, as pessoas que foram punidas são
ouvidas pelos membros da Comissão, respondendo perguntas que podem elucidar
algumas lacunas. No caso específico das torturas a Comissão da verdade realizou
no dia 06 de agosto de 2013, em Campina Grande, a audiência pública intitulada
“Granjas do Terror” quando foram ouvidos os testemunhos de pessoas torturadas
em granjas cedidas por particulares nos arredores de Campina Grande. Outra
audiência pública de grande repercussão foi a de “Torturas nos presos políticos
de Fernando de Noronha”, realizada no dia 22 de outubro de 2013 na cidade de
João Pessoa. Tais depoimentos serão discutidos no presente trabalho.

Resultados da pesquisa

Na Paraíba, logo após os primeiros movimentos do Golpe civil militar


de 1964, as principais casas legislativas do Estado, antecipando-se às deter-
minações estabelecidas pelo Governo Federal através do AI-1, procederam
à cassação dos mandatos de parlamentares supostamente envolvidos com
atividades e ideologias consideradas subversivas. A Assembléia Legislativa,
através de projeto de resolução do deputado Joacil Pereira, teve o aval
para iniciar as cassações.

Através desta resolução, foram cassados os deputados Assis Lemos e


Lagstein de Almeida e dos suplentes, Figueiredo Agra e Agassiz Almeida, por
unanimidade7.

Em se tratando das punições a parlamentares pós Ato Institucional nº 5


foram punidos vários parlamentares destacando-se o Ex- Governador da Paraíba
Pedro Gondim (ARENA-PB)8.

3 Deputado estadual durante os anos de 1955 a 1969. Secretario de Agricultura do Governo Pedro Gondim
( 1958). Deputado Federal entre os anos de 1983 a 1995. Governador da Paraíba 1995 a 2002. Senador pelo
estado da Paraíba 2003 a 2009. Novamente Governador 2009 a 2011.
4 Deputado Federal punido pelo Ato Institucional nº 5
5 Ex- Governador da Paraíba (1958/1960 e 1961 a 1966). Deputado Federal punido pelo Ato Institucional nº5
6 Deputado Federal punido pelo Ato Institucional nº 5
7 Jornal o Norte, 11 de abril de 1964, p. 05.
8 Apesar de compor a bancada governista, sua postura parlamentar foi de oposição ao regime militar.

202
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Seu governo encontrou a Paraíba em grande efervescência político ide-


ológica, face ao movimento das ligas camponesas aqui no Estado9. A morte de
Pedro Fazendeiro, Pedro Teixeira e a “tragédia de Mari10” ocorridas entre os anos
de 1962 a 1964, demonstraram a tensão que envolvia camponeses e latifundiários.
Tais acontecimentos foram fundamentais para a sua cassação em meados de 1969.

Em se tratando do ex-governador José Maranhão, o mesmo era tido,


como um dos parlamentares oposicionistas mais atuantes na Assembleia Legisla-
tiva da Paraíba, tendo sido cassado em 1969, dentre outros motivos, por ter sido
indiciado em IPM, por ter assinado em 1963 manifesto subversivo que propunha
intercambio e contribuição com a CGT, UNE e UBES. E a imediata instalação da
Frente de Mobilização Popular do Estado. Foi um dos signatários do manifesto
da “Frente Parlamentar Nacionalista”, publicado no Jornal Correio da Paraíba em
05 de maio de 196311.

Em relação às torturas vamos nos deter em dois casos: o do jornalista


Jório de Lira Machado e do ex-deputado estadual ligado as Ligas Camponesas
Assis lemos. O primeiro, foi preso político, torturado na Ilha de Fernando de
Noronha. Em 1969, após passar em 1º lugar no concurso público do DASP, em
1963, a UFPB não o nomeou para o cargo de Redator, mais uma outra pessoa
com colocação bem abaixo. O segundo, defensor das ligas camponesas no Estado,
Era Deputado Estadual e professor universitário quando teve, a partir de 1964, o
mandato parlamentar cassado, a demissão da universidade e seus direitos políticos
cassado. Foi brutalmente torturado enquanto este preso.

Conclusões

Do ponto de vista histórico, as tensões sociais na Paraíba, envolvendo o


período anterior ao golpe militar brasileiro de 1964, situaram-se em quadro de
implicações internacionais, nacionais, regionais, estaduais e locais.

No âmbito regional, as crises constitucionais que ocorreram neste período,


destacando-se o golpe civil militar de 1964 e a edição do Ato Institucional nº5
tiveram profundas repercussões no nordeste, em particular na Paraíba. E neces-
sário compreender do ponto de vista do processo histórico e do Direito, como
se processou estas crises, no sentido da importância do Nordeste (em particular
pela atuação do movimento das ligas camponesas) durante a primeira metade
da década de sessenta do século passado. Compreender estes fenômenos, e de
9 Movimento iniciado em 1955 no engenho Galíleia em Pernambuco liderado por Francisco Julião. Teve forte
repercussão na Paraíba em particular nos municípios de Sapé e Mari, quando no auge, a liga de Sapé contava
com mais de 10.000 associados. Nota do autor.
10 Sobre estes episódios, consultar: “A tragédia de Mari” de Nelson Coelho e “1964 no Brasil, Nordeste e Paraíba
de José Octavio de Arruda Mello”.
11 Dados constantes na ata de cassação do deputado estadual José Maranhão MDB/PB

203
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

vital importância para se compreender alguns pontos que culminaram com os


atos de exceção durante o regime militar brasileiro.

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204
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O AUTORITARISMO INVISÍVEL – UM ESTUDO


DA RELAÇÃO ENTRE DIREITO PRIVADO
E DITADURA A PARTIR DO DECRETO-LEI N. 911/69

FERNANDO HONORATO
Mestre em Direto, Estado e Constituição
Universidade de Brasília – UnB
E-mail: fhlhonorato@gmail.com

Eixo Temático: Crises constitucionais na História do Brasil República

Palavras-chave: Direito privado. Ditadura. Decreto-lei n. 911/69

Introdução

A pesquisa versa sobre a relação entre o direito privado e a ditadura a


partir do Decreto-lei 911/69, procurando desvelar as invisibilidades autoritárias que
levaram à sua edição poucos dias depois da Junta Militar substituir Costa e Silva
no poder. O direito público e o direito privado se encontram no percurso do
Decreto-lei 911/69, na medida em que o direito econômico instrumentalizou as
políticas econômicas delfinianas por meio do direito civil. Os juristas da ditadura e
os economistas da ditadura foram determinantes para o sucesso desse encontro12.

O Decreto-lei 911/69, aprovado em pleno Ato Institucional nº 513, cons-


tituiu-se em uma norma extremamente benéfica aos interesses das instituições
financeiras e dos grandes banqueiros14, além de um importante instrumento da
12 Airton Seelaender chama a atenção para o crescente interesse dos historiadores do direito pelo compor-
tamento de profissionais do direito, notadamente juízes, professores e doutrinadores, durante as ditaduras. Para
ele “ainda em desenvolvimento na Alemanha, na França e em outros países europeus, a discussão sobre tal
tema deveria ser prontamente iniciada no Brasil”. Cf. SEELAENDER, Airton Cerqueira Leite. Juristas e ditaduras:
uma leitura brasileira in História do Direito em Perspectiva. Do Antigo Regime à Modernidade (org. Ricardo
Marcelo Fonseca e Airton Cerqueira Leite Seelaender). Curitiba: Juruá, 2009, p. 415-432. Para a citação, p. 415.
13 O Decreto-lei 911 foi aprovado em 1º de outubro de 1969 - após manobra muito bem articulada pelo
Ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto, que assina o Decreto ao lado do Ministro da Justiça, Luís Antônio
da Gama e Silva - pela Junta Militar que governou o país, logo após a substituição de Costa e Silva. A Junta
Militar era composta pelos Ministros da Marinha de Guerra, Augusto Hamann Rademaker, do Exército, Aurélio
Lira Tavares e da Aeronáutica Militar, Márcio de Souza e Mello. Cf. GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São
Paulo: Companhia das letras, 2002, p. 83.
14 O referido Decreto-lei disciplinou a alienação fiduciária em garantia, por meio da qual é transferido ao
banco credor o domínio resolúvel e a posse indireta da coisa móvel oferecida em garantia do pagamento do

205
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

política econômica adotada na ditadura15. O Decreto-lei 911/69 insere-se nesta


franja de concertação entre o governo e os grandes bancos. Tendo em vista a
ampliação das garantias de proteção aos bancos, aumentaram as linhas de cré-
dito direto ao consumidor, o que possibilitou, ao mesmo tempo, o estímulo ao
consumo e um acelerado processo de acumulação financeira16. Os economistas
da ditadura teorizavam sobre as mudanças pretendidas na política econômica do
governo. Os juristas da ditadura instrumentalizaram essas ideias.

Metodologia

Com o desejo de compreender adequadamente o Decreto-lei 911/69


será necessário ir além da textualidade do decreto e examinar o contexto no
qual ele foi editado.

A aproximação entre os militares e empresários foi muito intensa durante


a ditadura. Vários eram os canais para isso, tendo a Escola Superior de Guerra
(ESG) uma função importante. Nela foram promovidas inúmeras conferências
de juristas após 1964, que são importantes fontes de pesquisa para mapear as
ideias dos juristas da ditadura17. Um campo fértil será reconstituir as ligações entre
Delfim Netto e os referidos juristas.

A figura do “Gordo”18 é emblemática para a identificação dos rastros


deixados pelas “tenebrosas transações” entre os militares e o empresariado, em
particular, os grandes banqueiros. Artífice da política econômica de expansão
empréstimo bancário contraído pelo consumidor, que se torna possuidor direto e fiel depositário. A norma
dispunha ainda que, em caso de inadimplemento da obrigação garantida, a propriedade plena se consolidaria
nas mãos da instituição financeira, que poderia vender a coisa a terceiros e aplicar o preço da venda no
pagamento do crédito, ficando ainda o devedor pessoalmente obrigado pelo eventual débito remanescente.
BRASIL. Decreto-lei n. 911, de 1º de outubro de 1969. Altera a redação do art. 66, da Lei nº 4.728, de 14 de
julho de 1965, estabelece normas de processo sobre alienação fiduciária e dá outras providências. Legislação
Federal, art. 66, §§ 4º e 5º.
15 Neste contexto, a política monetária representou um importantíssimo fator para o crescimento econômico
almejado pela nova equipe econômica, com a expansão do crédito direto ao consumidor por meio do CDC
e o consequente aumento da demanda de bens de consumo duráveis. José Pedro Macarini, Professor Doutor
do Instituto de Economia da Unicamp sustenta que: “(...) o movimento de concentração foi instrumentalizado
pelos interesses do grande capital bancário (...) A retomada do crescimento a altas taxas da indústria de bens
de consumo duráveis, em especial da automobilística, acoplou-se à forte expansão do CDC”. MACARINI, José
Pedro. A política bancária do regime militar: O Projeto de Conglomerado (1967-1973). Texto para discussão.
IR/UNICAMP, Campinas, n. 124, jan. 2007, p. 2, 9 e 13-14.
16 O movimento da centralização financeira em direção à constituição de conglomerados avançou a uma
velocidade extraordinária. No início dos anos 70 as financeiras vinculadas a conglomerados sob o controle dos
bancos comerciais concentravam cerca de 70% (setenta por cento) das emissões de aceites cambiais, em um
passo decisivo para a integração final dos sistemas financeiro e de mercado de capitais. Cf. MACARINI, José
Pedro. A política bancária do regime militar: O Projeto de Conglomerado (1967-1973). Texto para discussão.
IR/UNICAMP, Campinas, n. 124, jan. 2007.
17 Cf. SEELAENDER, Airton Cerqueira Leite. Juristas e ditaduras: uma leitura brasileira in História do Direito
em Perspectiva. Do Antigo Regime à Modernidade (org. Ricardo Marcelo Fonseca e Airton Cerqueira Leite
Seelaender). Curitiba: Juruá, 2009, p. 415-432.
18 Apelido atribuído a Antônio Delfim Netto tanto por pessoas próximas ao seu círculo de convívio, como
o é caso da primeira-dama, esposa de Costa e Silva, que o chamava de “gordinho”, quanto por seus inimigos.

206
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

do crédito e do consumo, com o favorecimento do conglomerado das grandes


instituições financeiras, o Ministro da Fazenda ainda controlava diretamente o
Banco Central, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil, mantendo uma relação
muito estreita com os grandes banqueiros nacionais e internacionais19.

Serão utilizadas como fontes primárias de pesquisa o acervo documental


mantido pelo governo, especialmente os estudos elaborados no âmbito da Escola
Superior de Guerra (ESG). Além disso, serão utilizadas reportagens divulgadas em
revistas e periódicos sobre o tema da pesquisa, em especial, aquelas publicadas
pelas Revistas Veja e Visão. Uma personagem central nesse percurso será o to-
do-poderoso Ministro da Fazenda Antônio Delfim Netto, razão pela qual iremos
procurar mapear os seus passos e recolher os fragmentos deixados pelo caminho,
como suas entrevistas20 e participações nas seguidas edições do Congresso Nacional
dos Bancos21. Uma importante fonte de pesquisa será a investigação da doutrina
produzida pelos juristas da época sobre o tema22. Caso as fontes indiquem outros
percursos, poderão ser utilizados capítulos de livros, monografias, dissertações e
teses como fontes secundárias de pesquisa.

Resultados parciais e conclusão

Após uma reflexão sobre a relação entre o direito privado e a ditadura


a partir do Decreto-lei 911-69, pretendemos demonstrar a hipótese de que o
regime fechado constituiu-se em um ambiente propício para as atividades e os
lucros dos banqueiros, possibilitando a sua instalação nas agências de poder e
a influência na definição de políticas públicas benéficas para os seus negócios,
sendo determinante para isso a mobilização do direito, como instrumento de
19 Delfim Netto articulou a compra de bancos privados pelo setor público, defendeu João Moreira Salles
junto ao presidente Costa e Silva, socorreu bancos privados através do Banco Central, além de intermediar a
aquisição de bancos de menor porte pelos grandes conglomerados financeiros. Cf. CAMPOS, Pedro Henrique
Pedreira. “Estranhas Catedrais”. As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. 2ª reimpressão. Rio
de Janeiro: EDUFF, 2017, p. 306.
20 Elio Gaspari informa que em quatro anos, Delfim Netto saíra dezoito vezes na capa da revista Veja, uma
na edição latino-americana da Newsweek e outra, como Super-Homem, na Institutional Investor. Cf. GASPARI,
Elio. A ditadura derrotada. São Paulo: Companhia das letras, 2002, p. 269.
21 Para as participações de Delfim Netto no Congresso Nacional dos Bancos, bem como com indicações de
artigos de revistas e jornais publicados por Delfim Netto no Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Revista
das Finanças Públicas, Revista Visão, Revista Indústria e Desenvolvimento, cf. MACARINI, José Pedro. A política
econômica da ditadura militar no limiar do “milagre” brasileiro: 1967-1969. Texto para discussão. IR/UNICAMP,
Campinas, n. 99, set. 2000.
22 É o caso, por exemplo, do artigo publicado em 1967 por Henrique Candido Camargo, sob o título “Da
Alienação fiduciária em garantia e fundos contábeis de natureza financeira face à lei de mercado de capitais”,
disponível em Arquivos do Ministério da Justiça, v. 25, n. 103, p. 36-59, set. 1967; bem como da obra “Ensaio
sobre a alienação fiduciária em garantia”, de autoria de Alfredo Buzaid, publicado em 1969, pela editora ACREFI
e ainda, especificamente sobre o artigo 66 da Lei 4.728/65, alterado pelo Decreto-Lei 911/69, do mesmo autor,
“Ensaio sobre a alienação fiduciária em garantia: Lei n 4728, de 1965 art. 66, publicado em 1969, disponível em
Revista dos tribunais, São Paulo, v. 58, n. 401, p. 9-29, mar. 1969. Para um interessante olhar sobre o Decreto-lei
911/69 como contraposição entre direito novo e texto de exceção, Alcino Pinto Falcão, “Alienação fiduciária em
garantia, ius novum de direito comum ou de texto excepcional”, publicado em Revista de direito do Ministério
Público do Estado da Guanabara, v. 4, n. 10, p. 84-93, jan./abr. 1970.

207
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

legitimação dessa confusão entre o público e o privado, legitimação essa que


não impediu a permanência dessas estruturas após o advento da democracia.

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Prof. Airton Seelaender, entre os dias 6 e 11 de outubro de 2011.
SEELAENDER, Airton Cerqueira Leite. Juristas e ditaduras: uma leitura brasileira
in História do Direito em Perspectiva. Do Antigo Regime à Modernidade (org.
Ricardo Marcelo Fonseca e Airton Cerqueira Leite Seelaender). Curitiba: Juruá,
2009, p. 415-432.

208
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O ESTATUTO TEÓRICO DOS ATOS


INSTITUCIONAIS NA DOUTRINA
CONSTITUCIONAL BRASILEIRA (1964-1985)

MÁRIO AUGUSTO D’ANTONIO PIRES


Mestrando – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP
Orientação: Prof. Dr. Samuel Rodrigues Barbosa
E-mail: para contato: mario.pires@usp.br; mario.augusto85@gmail.com

Eixo temático: 3. Crises constitucionais na História do Brasil República

Palavras-chave: Atos Institucionais; estatuto teórico; doutrina constitu-


cional.

Introdução

O presente resumo diz respeito a uma pesquisa de mestrado iniciada


no primeiro semestre do presente ano e que tem como objeto as discussões
doutrinárias em direito constitucional a respeito da compreensão do locus teórico
dos “Atos Institucionais” no ordenamento jurídico brasileiro.

O trabalho buscará averiguar a hipótese de que os argumentos elencados


pela doutrina indicam uma compreensão específica de constitucionalismo e esta-
belecem um campo de questionamentos a respeito de noções como ‘democracia’,
‘poder constituinte’, ‘direitos naturais’, ‘revolução’ e ‘processo revolucionário’: mo-
bilizaram-se argumentos de ordem de filosofia política a fim de dar sustentação
jurídica a um fenômeno ainda não conhecido pela doutrina – a saber, os Atos
Institucionais.

Finalmente, reputamos notável o silêncio da doutrina jurídica brasileira


acerca dos Atos Institucionais. Os comentários se reduzem a afirmar que se tratou
de ‘puro arbítrio’, ‘destruição da ordem constitucional’, ou, por outro lado, de ‘um
mal necessário a que se evitasse um mal maior’. Há pouco potencial explicativo
a respeito da racionalidade jurídica que orientava os juristas que escreviam em
favor da legitimidade dos instrumentos do direito de que se socorreu o regime.

209
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

Desse modo, entendemos que uma reconstituição dos debates sobre o


tema é de extrema importância para a adequada compreensão dos fenômenos
apontados.

Metodologia

A pesquisa tem como principal forma de obtenção de dados a coleta de


textos e publicações relativas a Direito Constitucional, a Teoria da Constituição,
Teoria Geral do Estado, livros didáticos, manuais e cursos, discursos e palestras
proferidas por juristas, professores e operadores do Direito, de modo geral.

Busca-se elaborar um panorama das teses e posicionamentos assumidos a


respeito do assunto. Ao verificar sobre o que escreveram, quais aspectos da teoria
constitucional ressaltavam, como argumentavam, é que se buscará demonstrar
a hipótese de que, mais que uma disputa sobre o poder constituinte (PAIXÃO,
2014), tratou-se, na verdade, da elaboração de uma teoria constitucionalista diversa,
com contornos próprios.

Resultados parciais

Pudemos levantar dois posicionamentos fundamentais a respeito da posi-


ção que os Atos Institucionais ocupavam na ordem jurídica brasileira: a) Equivaliam
à emendas constitucionais (FRANCO, 1981); b) eram normas extra ou superconsti-
tucionais e, portanto, acima da Constituição (FILHO, 1973).

Além disso, é digno de nota que alguns dos comentários a respeito da


validade dos Atos Institucionais se refiram ao conteúdo dos seus preâmbulos
(MEDEIROS, 1964), a despeito de ser corrente o entendimento de que os textos
preambulares não tinham conteúdo normativo (MALUF, 1967).

Assim, a estratégia argumentativa dos doutrinadores parece apontar que


as compreensões jurídicas eram insuficientes para justificar a força normativa dos
Atos Institucionais; seja como emenda constitucional, seja como lei acima da cons-
tituição. Buscam no contexto histórico e nos conceitos e projetos assinalados nos
textos dos preâmbulos dos Atos Institucionais mais que um topos interpretativo,
mas, verdadeiramente, fundamento de validade desses instrumentos jurídicos.

Referências bibliográficas
FILHO, J. D. O. Quer conhecer a Constituição? Rio de Janeiro: Forense, 1973.
FRANCO, A. A. D. M. Direito Constitucional. Teoria da Constituição. As Constituições
do Brasil. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1981.
MALUF, S. Direito Constitucional. 3ª. ed. São Paulo: Sugestões Literárias S/A, 1967.

210
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

MEDEIROS, C. Observações sobre o Ato Institucional. Revista de Direito Adminis-


trativo, Rio de Janeiro, v. 76, p. 473-475, Abril-Junho 1964.
PAIXÃO, C. Autonomia, Democracia, e Poder Constituinte: Disputas conceituais na
experiência constitucional brasileira (1964-2014). Quaderni Fiorentini per la storia
del pensiero giuridico moderno, Florença, v. 43, p. 415-458, 2014.

211
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

GOLPE CIVIL-MILITAR DE 1964: ESTRATÉGIAS


DISCURSIVAS COMO INSTRUMENTO
DE LEGITAMAÇÃO DITATORIAL

AGENOR GABRIEL CHAVES MIRANDA


Universidade de Brasília – UnB
E-mail: agenorcmiranda@gmail.com

ANNA BEATRIZ ABREU


Universidade de Brasília – UnB

MARCELO ALVES VIEIRA


Universidade de Brasília – UnB

PEDRO VICTOR PORTO FERREIRA


Universidade de Brasília – UnB
E-mail: pedrovportoferreira@gmail.com

Eixo temático: Crises Constitucionais na História da República.

Palavras-chave: Ditadura civil-militar de 1964; estratégia discursiva; lega-


lidade autoritária.

Introdução

A tomada de poder pelos militares em 1964, em um golpe com amplo


apoio popular, acarretou a necessidade de justificação de medida tão extremada
– do ponto de vista político-constitucional (PAIXÃO, 2014). Se, por um lado, o
regime militar utilizou um argumento de índole política, qual seja a recuperação
econômica e financeira e o combate à “bolchevização” do país (SANTOS, 2012).
Por outro, notou a impossibilidade de transferência de tais fundamentos para a
seara jurídica, visto que a ascensão ao poder dos militares ocorreu por meio da
retirada de um presidente eleito de forma não prevista na Constituição de 1946,
vigente à época (PAIXÃO, 2014).

Dessa forma, o regime militar brasileiro empreendeu esforços para dar uma
roupagem de legalidade e legitimidade às práticas típicas de regime de exceção.
Tal fenômeno é denominado legalidade autoritária e destaca-se pela manipulação
dos instrumentos do sistema jurídico, com a finalidade de respaldar as atividades

213
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

de uma ditadura. Como reforça Pereira, é comum que governos autoritários


utilizem as leis e os tribunais para reforçar o poder estatal, “de modo a tornar
obscura uma distinção simplista entre regimes de facto e regimes constitucionais
(ou de jure) (PEREIRA, 2010, p. 36).

Todavia, a inovação da ditadura-civil militar de 1964 não se destacou pela


legalidade autoritária – tal prática já havia sido utilizada no país em outros mo-
mentos, inclusive na ditadura varguista –, mas pela construção de uma narrativa
consistente para justificar o afastamento de um presidente eleito em um sistema
democrático (PAIXÃO, 2014). Nessa esteira, o governo militar utilizou diplomas
normativos para desenvolver um discurso dominante e plausível apto a sustentar
o golpe iniciado em 1964.

Apresentada a contextualização, o presente trabalho tem por objetivo


analisar como o governo ditatorial de 1964 desenvolveu sua estratégia narrativa
para legitimar suas ações e manipulou as estruturas normativas, sob o aspecto
da legalidade autoritária, para alcançar tal finalidade.

Metodologia

Por meio da revisão bibliográfica, o presente trabalho realizou uma pes-


quisa em relação às produções acadêmicas que tratam do desenvolvimento da
narrativa e estratégia discursiva desenvolvida pela ditadura civil-militar de 1964 para
fundamentar seus atos. A partir disso, trabalhou-se com o conceito de “legalidade
autoridade”. Alfim, também se empreendeu uma pesquisa aos pronunciamentos
políticos proferidos, pelo Poder Executivo, logo após o golpe, de modo a tentar
compreender como os argumentos jurídico-políticos foram desenvolvidos.

Conclusão

A estratégia discursiva é fundamental a qualquer governo para a imposição


de medidas extremas e controversas. Em uma ditadura, isso gera a necessidade
de construção narrativa para se justificar perante a sociedade e às próximas
gerações. Desse modo, o direito surge como um importante mecanismo, pois
confere a aparência de legitimidade aos atos praticados e pode ser manipulado
pelas autoridades.

Como destaca Pierre Bourdieu, “os discursos não são apenas [...] signos
destinados a serem compreendidos, decifrados; são também [...] signos de auto-
ridade a serem acreditados e obedecidos” (BOURDIEU, 2008, p. 55).

214
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Referências
BARBOSA, Leonardo Augusto de Andrade. História constitucional brasileira: mu-
dança constitucional, autoritarismo e democracia no Brasil pós-1964. Câmara dos
Deputados, Edições Câmara, 2016.
BOURDIEU. A economia das trocas lingüísticas. São Paulo: EDUSP, 2008.
___. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Editora Bertrand, 1989.
DE CHUEIRI, Vera Karam; CÂMARA, Heloísa Fernandes. (Des) ordem constitu-
cional: engrenagens da máquina ditatorial no Brasil pós-64. Lua Nova, n. 95, p.
259-289, 2015.
FICO, Carlos. Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar.
Editora Record, 2004.
PAIXÃO, Cristiano. Autonomia, democracia e poder constituinte: disputas concei-
tuais na experiência constitucional brasileira (1964-2014). Quaderni Fiorentini per
la storia del pensiero giuridico moderno, v. 43, p. 415-460, 2014.
PEREIRA, Anthony W. Ditadura e repressão: o autoritarismo e o Estado de Direito
no Brasil, no Chile e na Argentina. Paz e Terra, 2010.
TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia.
Revista Brasileira de História, v. 24, n. 47, p. 13-28, 2004.

215
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

DIREITO E GOLPISMO: DISPUTAS PELA


LEGALIDADE NA CRISE POLÍTICA DE 1955

CLAUDIA PAIVA CARVALHO


Doutoranda pela Universidade de Brasília (UnB).
Bolsista CAPES.
E-mail: claudiapaivac@gmail.com

Eixo temático: 3. Crises Constitucionais na História do Brasil República.

Palavras-chave: Legalidade; Crise 1955; Golpismo.

Introdução

O período de 1945 a 1964 traz múltiplas possibilidades de investiga-


ção para a história constitucional. Uma delas diz respeito ao estudo das crises
políticas atravessadas em 1954, 1955 e 1961.23 Os momentos de crise testam o
funcionamento do direito e das instituições jurídicas, diante de uma ascendência
da política, ou de uma aceleração do tempo político. Ao afetar a estabilidade
institucional, o sistema representativo e a separação dos poderes, as crises políticas
são também crises constitucionais. Desafiam a capacidade de a Constituição servir
como mediadora ou parâmetro organizador das relações entre direito e política.

O foco do presente trabalho é a crise política de 1955. O epicentro da


crise foi a realização das eleições presidenciais em outubro daquele ano, na qual
saiu vitoriosa a chapa PSD/PTB formada por Juscelino Kubitschek e João Goulart.
Setores militares e políticos, principalmente ligados à UDN, que haviam tentado
evitar a realização do pleito, impugnar a candidatura da chapa PSD/PTB e os resul-
tados eleitorais, passaram a endossar um discurso de apelo a soluções extralegais
com o objetivo de impedir a posse dos eleitos.24 De outro lado, setores legalistas
denunciavam o golpismo e defendiam o respeito ao resultado das urnas25. As
tensões aumentaram quando Carlos Luz (PSD), então presidente da Câmara dos
23 A respeito das crises, cf. Ferreira, 2010.
24 Nesse sentido, ver: Tribuna da Imprensa, A hora das Forças Armadas, 04/11/1955; Tribuna da Imprensa, Não
podem tomar posse, 09/11/1955; Tribuna da Imprensa, Não representa o povo o resultado do pleito, 10/11/1955.
25 Em defesa da posse, ver: Correio da Manhã, Os eleitos devem ser empossados. Fala à imprensa o brigadeiro
Alves Seco, 02/11/1955; Correio da Manhã, Os militares não serão os coveiros da opinião pública, 05/11/1955;
Correio da Manhã, Contra o golpe e pela constituição, 05/11/1955.

217
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

Deputados, assumiu a presidência após o afastamento de Café Filho por motivos


de saúde, no dia 3 de novembro. A mudança gerou suspeição, agravada por atritos
que resultaram na demissão do Ministro da Guerra, o general Henrique Teixeira
Lott, no dia 10. Este fato foi a gota d´água que ensejou o movimento de reação
militar que afastou Carlos Luz da presidência, com o objetivo de garantir a posse
dos eleitos. Esse movimento, deflagrado no dia 11 de novembro, foi capitaneado
pelo general Lott e ficou conhecido como contra-golpe ou golpe preventivo. A
ação foi chancelada pela Câmara dos Deputados e o Senado Federal que, em um
primeiro momento, declararam o impedimento de Carlos Luz e, depois, aceitaram
o pedido de renúncia por ele apresentado. Pela ordem sucessória, o vice-presidente
do Senado, Nereu Ramos (PSD), assumiu a presidência.26

A presente pesquisa tem como objeto investigar os debates travados


na imprensa, no Poder Legislativo e no Supremo Tribunal Federal, durante os
meses de novembro e dezembro de 1955, relacionados ao movimento de 11 de
novembro. Interessa particularmente mapear as disputas discursivas em torno do
sentido e da legitimidade do movimento, bem como os instrumentos e meios
jurídicos acionados para gerenciar a crise política. Como apontam os estudos
sobre o período, instaurou-se uma batalha em torno da legalidade. Por um lado,
o movimento do dia 11 se auto-intitulava Movimento de Retorno aos Quadros
Constitucionais27, demonstrando um apego legalista e uma postura defensiva da
ordem e do regime. Por outro lado, a oposição udenista, que contava, até então,
com apoio a soluções extralegais, passou a empunhar a bandeira da legalidade e
a acusar o movimento de subversivo e golpista. Neste aspecto, a pesquisa busca
aprofundar esse embate de posições dentro do campo partidário.

Depois que Café Filho manifestou a intenção de reassumir a presidência,


no dia 22 de novembro, a Câmara e o Senado aprovaram seu impedimento,
por meio de uma resolução legislativa. Em contestação ao ato, Café Filho entrou
com duas ações constitucionais no STF: um habeas corpus e um mandado de
segurança. No mesmo dia em que as ações foram apresentadas, o governo enviou
ao Congresso o projeto de lei prevendo a decretação de estado de sítio, que foi
aprovado no dia 25 de novembro. Assim, para além de verificar as representações
do movimento de 11 de novembro, a pesquisa analisa a interpretação desses dois
institutos (impedimento e estado de sítio) nos diferentes espaços.

Metodologia

A presente pesquisa de tipo histórico se baseia em uma metodologia de


análise documental, envolvendo fontes institucionais (Poder Legislativo e Judiciário)
e não-institucionais (no caso da imprensa). As fontes documentais foram selecio-
26 Cf. Carloni, 2014; Carone, 1985; Marques, 2017.
27 Correio da Manhã, Mensagem do general Lott, 12/11/1955.

218
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

nadas a partir de um duplo recorte: temporal e temático. Delimitou-se os meses


de novembro e dezembro como marco temporal, uma vez que condensam os
principais eventos da crise, após a realização das eleições. Dentro desse marco,
foram levantados os debates relacionados aos temas em análise: o contra-golpe,
o impedimento, o estado de sítio, o julgamento do STF.

Os debates parlamentares foram acessados por consulta aos Diários do


Senado Federal, da Câmara dos Deputados e do Congresso Nacional, delimitados
a partir dos dias dos acontecimentos e/ou das deliberações. As fontes da imprensa
têm sido consultadas por meio da plataforma Hemeroteca Digital, da Biblioteca
Nacional. Para buscar uma amostra representativa da pluralidade de posições
político-ideológicas dos veículos de comunicação, 5 jornais foram selecionados
para análise: Tribuna da Imprensa, O Globo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil
e Imprensa Popular. Por sua vez, as ações constitucionais estão disponibilizadas,
na íntegra, no sítio eletrônico do STF, elencadas entre os julgamentos históricos
do tribunal28.

Tendo em vista os diferentes locais de fala estudados, é reforçado o cuidado


metodológico da crítica dos documentos, orientado por perguntas norteadoras,
como: quem escreveu, em qual formato, com quais objetivos concretos, quais
estratégias, para qual público-alvo29. No mesmo sentido, a história dos conceitos
também funciona como uma ferramenta metodológica para a análise das fontes,
atentando para as delimitações conceituais e os usos de linguagem do contexto.30

Resultados parciais

A pesquisa está em fase inicial de desenvolvimento, com exame parcial das


fontes levantadas. É possível apontar, nesse momento, uma maior complexidade
das posições assumidas pelos atores em jogo. Um elemento pouco destacado nos
estudos existentes diz respeito às demandas por responsabilização daqueles que, a
exemplo do jornalista Carlos Lacerda, teriam defendido e articulado o plano para
impedir a posse dos eleitos e implantar um Estado de Emergência. Em análise
veiculada no Correio da Manhã, no dia 20 de novembro, o IBESP apontava as
contradições do governo Nereu Ramos, com destaque para a falta de medidas
para punição dos golpistas, como fundamento para o discurso que acusava de
ilegal o movimento de novembro.31 Essa postura contraditória estaria ancorada,
por sua vez, em uma tendência a soluções de compromisso que permitia a
flutuação e apropriação da bandeira da legalidade.
28 Arquivo STF, Mandado de Segurança n. 3357, Habeas Corpus 33908-DF. Processos disponíveis em: http://
www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=sobreStfConhecaStfJulgamentoHistorico&pagina=STFPaginaPrinci-
pal1. Acesso em 21 jun. 2017.
29 Cf. Cellard, 2012
30 Cf. Koselleck, 2006, p. 103.
31 Correio da Manhã, Golpe e Antigolpe na presente situação brasileira, 12/11/1955.

219
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

Também será possível compreender melhor o posicionamento das insti-


tuições no contexto da crise política e a medida em que o direito é capaz de
enquadrar a atuação legislativa e judicial e de oferecer respostas. Nesse sentido,
observa-se que a chancela das medidas do impedimento e sítio pelo Congresso
Nacional e a abstenção do STF em realizar o controle de legalidade foram fatores
que se somaram aos argumentos de crítica ao funcionamento do presidencialismo
brasileiro à época.32

Referências bibliográficas
Carloni, Karla. Forças Armadas e democracia no Brasil – o 11 de Novembro de
1955. Rio de Janeiro: Ed. Garamond, 2012.
Carone, Edgard. A República Liberal II. Evolução política (1945-1964). São Paulo:
DIFEL, 1985.
Cellard, A. A análise documental. In: Poupart, J. (org.). A pesquisa qualitativa: en-
foques epistemológicos e metodológicos. Editora Vozes: Petrópolis, 2012.
Ferreira, Jorge. Crises da República: 1954, 1955 e 1961. In: Ferreira, Jorge; Delgado,
Lucília de Araújo Neves. (org.) O Brasil Republicano: o tempo da experiência de-
mocrática – da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. 3a edição.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
Franco, Afonso Arinos de Melo; Pila, Raul. Presidencialismo ou parlamentarismo?
Rio de Janeiro: J. Olympio, 1958.
Koselleck, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos.
Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
Peixoto, Raphael. Entre Impunidade e Repressão: A anistia de 1961 na história
constitucional brasileira. Tese. Programa de Pós-Graduação em Direito da Uni-
versidade de Brasília, 2017.

32 Cf. Franco, 1958

220
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

O TERRORISMO NA ASSEMBLEIA NACIONAL


CONSTITUINTE (1987-88): DO DIREITO
DA SEGURANÇA NACIONAL À DEMOCRACIA

ANA CAROLINA COUTO PEREIRA PINTO BARBOSA


Doutoranda
Faculdade de Direito – UnB
E-mail: couto.anacarolina@gmail.com

Eixo temático: Crises constitucionais na História do Brasil República.

Palavras-chave: Constituinte; Criminologia; Terrorismo.

Introdução

Até 1985, o Brasil adotava a perspectiva autoritária da Doutrina de Se-


gurança Nacional formulada pela Escola Superior de Guerra, que aprofundava
uma tendência anterior de ampliar o tratamento do crime político para além da
abordagem do código penal, formando um sistema complexo, com tipo penal
aberto e supressão e mitigação de garantias processuais. Com a instauração da
Assembleia Nacional Constituinte, esse discurso autoritário é canalizado para as
disputas que envolvem a elaboração da constituição a delinear o Estado Demo-
crático de Direito.

Neste sentido, a apresentação visa a analisar, por meio de teorias e legisla-


ções acerca do crime de terrorismo no regime civil-militar, bem como da doutrina
acerca das noções de poder constituinte na história brasileira contemporânea,
se a tentativa de acrescentar terrorismo na Constituição Federal de 1988 foi um
rescaldo da forma de se tratar o dissenso político no ordenamento jurídico ante-
rior. Os parlamentares que defendiam a criminalização do terrorismo ao lado de
tortura estariam tentando reproduzir o pensamento autoritário, ao justificar que a
prática da tortura era necessária para conter atos de terrorismo, que ameaçavam
a ordem social e a existência do Estado? Este argumento venceu uma disputa
pela criminalização de terrorismo no texto constituinte?

221
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

O tema é tributário da história do direito contemporânea nos campos


constitucional (Paixão33, Barbosa34) e penal (Sbriccoli35 e Meccarelli36). No campo
penal, Mario Sbriccoli e Massimo Meccarelli desenvolveram a chave de leitura
do duplo nível de legalidade, que será útil na avaliação do grau de respeito aos
direitos e garantias de que o sistema penal dispunha tanto no contexto histó-
rico, de modo amplo, quanto na categoria do terrorismo, de modo específico.
No campo constitucional, Cristiano Paixão e Leonardo Barbosa desenvolveram
a chave de leitura do par conceitual democracia/autoritarismo nas constituições
brasileiras, bem como a chave da diversidade de noções de poder constituinte,
que servirá para extrair as disputas em torno da titularidade, do exercício e das
consequências do poder constituinte.

Metodologia

A metodologia de trabalho empregada foi a de pesquisa em fontes pri-


márias e bibliográficas. Quanto às fontes primárias, foram utilizados o Jornal da
Constituinte, os de grande circulação à época, os da mídia alternativa, os textos
legais, mensagens dos órgãos de governo, anais da Constituinte e estudos dou-
trinários da época. Quanto às fontes secundárias, foi feita a revisão bibliográfica
de estudos sobre o período e estudos sobre teoria da constituição e constitu-
cionalismo. O recorte temporal inicial consiste no período que abrange desde o
Ato Institucional nº 1 até a promulgação da Constituição Federal de 1988. Não
se trata, como disse Airton Seelaender, de refletir apenas o texto constitucional,
mas o modo como ele se vinculou à “estrutura social, ao quadro institucional, ao
ambiente cultural e às circunstâncias políticas do passado”37. Ou seja, não se trata
das histórias dos movimentos sociais, das instituições ou das ideias, consideradas
de modo isolado, mas de uma história que indaga qual o papel da Constituição
no arranjo destes elementos. Procura entender de que modo os diversos discursos
ligados ao constitucionalismo orientaram as ações na política e no direito, criando
possibilidades e limitações.

33 PAIXÃO, Cristiano. Autonomia, democracia e poder constituinte: disputas conceituais na experiência consti-
tucional brasileira (1964-2014). Quaderni Fiorentini per la Storia del Pensiero Giuridico Moderno, v. 43, p. 415-460,
2014.
34 BARBOSA, Leonardo Augusto de Andrade. História constitucional brasileira: mudança constitucional, autori-
tarismo e democracia no Brasil pós-1964. Brasília: Câmara dos Deputados, 2016.
35 SBRICCOLI, Mario. Codificazione civile e penale. In: SBRICCOLI, Mario. Storia del diritto penale e della giustizia:
scritti editi e inediti (1972-2007). Milano: Giuffrè, 2009.
36 MECCARELLI, Massimo. Paradigmi dell'eccezione nella parabola della modernità penale. Una prospettiva
storico-giuridica. In: Quaderni storici vol.2, 2009b.
37 SEELAENDER, Airton. História constitucional brasileira. In: TAVARES, André R.; DIMOULIS, Dimitri; RO-
THENBURG, Walter C. (Org.). Dicionário Brasileiro de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 172.

222
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Resultados da pesquisa

Os crimes políticos traduzem uma artificialidade. Certas condutas eram


apenadas por conveniência do governo arbitrário da ditadura militar que ou
usurpava a função legislativa ou a controlava. O fato de terrorismo ser uma
conduta penalmente reconhecida em vários países não fazia com que fosse um
consenso universal, e ainda hoje estão em vigor no Brasil algumas das disposições
da ditadura, como a Lei de Segurança Nacional de 1983. É fundamental consi-
derar, todavia, que o regime político em que são aplicadas essas figuras penais
é altamente relevante.


O arcabouço normativo da ditadura era severíssimo se levar-se em conta


um regime constitucional democrático, como o que previa Castello Branco em seu
discurso de posse, em 1964. A anulação do poder de ação legal dos comunistas,
após o Ato Institucional nº 2 possibilitou a justificativa para a criação do Ato
Institucional nº 5 a fim de reprimir a atuação política clandestina, recrudescendo
a repressão. É o que se notou também após o sequestro do embaixador norte-a-
mericano e a edição do Ato Institucional nº 14, que passou a abordar terrorismo
de “ato de sabotagem ou terrorismo”38 a termos ainda mais vagos, que eram os
“delitos decorrentes da Guerra Psicológica Adversa ou da Guerra Revolucionária ou
Subversiva”39. A repressão era uma demonstração da força que o regime adquirira,
pois, embora não tenha aplicado a pena de morte prevista no AI-14, também
não descartou o efeito simbólico que o regime adquiriu enquanto Estado forte.

Sobre a criminalização de terrorismo na Assembleia Nacional Constituinte,


há dois resultados da pesquisa: um relativo aos debates do artigo 5º e outro aos
do artigo 4º da Constituição Federal de 1988. A relação entre tortura e terrorismo
em um mesmo inciso do artigo 5º não foi um produto do acaso, nem uma
construção discursiva posterior à criação da Assembleia Nacional Constituinte,
mas o fruto de um processo de legalização do regime militar e da participação
possível das oposições, legais ou clandestinas nesse regime. O fato de estarem
contempladas na Constituição tanto a demanda de grupos ligados à resistência
quanto a demanda daqueles ligados aos militares revela dois aspectos principais.
O primeiro é o de que o ordenamento jurídico ditatorial tornou ilegal significativa
parcela das agendas políticas, e criminosos os que manifestavam por essas agendas,
não sem criar uma justificativa que se ancorava no princípio da legalidade e que
tinha o intuito de dar ao regime a aparência de Estado de Direito. O segundo é o
de que a Constituinte foi um momento político da história do Brasil em que não
38 BRASIL. Decreto-Lei no 314, de 13 de março de 1967. Define os crimes contra a segurança nacional, a ordem
política e social e dá outras providências. Diário Oficial da União, 13 mar. 1967, Seção 1, p. 2993. Disponível
em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1960- 1969/decreto-lei-314-13-marco-1967-366980-publicacaoo-
riginal-1-pe.html>. Acesso em 14 jan. 2017.
39 BRASIL. Ato Institucional no 14, de 5 de setembro de 1969. Diário Oficial da União, 10 set. 1969, Seção 1,
p. 7649. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/ait-14- 69.htm>. Acesso em 9 jan. 2017.

223
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

havia uma hegemonia que controlasse todo o processo, de modo que o fervor
social foi canalizado para o Congresso Nacional e as demandas foram negociadas.

Quanto ao inciso VIII do artigo 4º da Constituição Federal, a Comissão


Afonso Arinos foi o principal rascunho. Embora os primeiros anteprojetos não
reproduzam os princípios de relações internacionais assim como previsto no An-
teprojeto da Comissão Afonso Arinos, tanto os especialistas convidados a fazer
exposições nas audiências públicas quanto os constituintes foram, aos poucos,
trazendo seu texto de volta para o debate. Assim, embora os Anteprojetos da
Subcomissão 1-a tenham sido diferentes do anteprojeto Arinos, no que se refere
ao repúdio ao terrorismo permaneceram as proposições deste na redação final
da constituição.

Os debates sobre terrorismo na ANC, portanto, não são a mera con-


cretização de uma teoria dos dois demônios40, ainda que criminalize tortura e
terrorismo no inciso XLIII do artigo 5º. As disputas durante os quase dois anos de
funcionamento da ANC revelam que não há por detrás do inciso o argumento de
que a tortura era justificável porque os terroristas eram uma ameaça à segurança
nacional. Há, pelo contrário, o embate em torno, de um lado, da ideia de que,
mesmo não se aplicando aos atos praticados no regime militar, era importante
criminalizar a tortura, tanto como construção de uma memória coletiva recente
quanto como necessidade de criar mecanismos de construir uma democracia am-
pla, e, de outro lado, a lógica também de que a tortura deveria ser criminalizada,
mas, igualmente, deveriam ser criminalizados outros crimes, como o terrorismo.

Conclusão

O pensamento autoritário do regime militar que se projetou na ANC é


complexo e ultrapassa os debates sobre crime político e terrorismo, mas a rele-
vância do debate sobre a criminalização de terrorismo na constituição democrática
está em demonstrar a permanência, embora não a prevalência, de ideias como a
de que a prática do terrorismo como método político da oposição clandestina
justificaria a repressão pela ditadura militar, em defesa da ordem social e da
existência do Estado brasileiro.

É necessário não superestimar o pensamento autoritário na elaboração


da Constituição de 1988, sendo fundamental perceber como sua compreensão
sobre crimes políticos repercute na atualidade. As constituições democráticas
são constantemente reescritas, e, por isso, nenhuma sociedade está imune ao
efeito de práticas desconstituintes. No Brasil, isso é visível, já que “alguns setores
da sociedade – aqueles mais identificados com o regime anterior – nunca acei-

40 TEROL, José Manuel Barrio. Insurgencia y represión. Acerca de la teoría de los dos demonios. In: Historia
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IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

taram completamente o resultado do processo constituinte de 1987-1988. Essas


forças, que não são insignificantes, estão sempre se articulando para desmontar
o arcabouço normativo construído em 1988”, nas palavras de Cristiano Paixão. O
estudo da elaboração da Constituição Federal de 1988 pode, assim, contribuir para
entender essas aspirações a uma guinada autoritária, mesmo após a reconstrução
da Democracia.

225
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

DESIGUALDADE, DISPUTAS REGIONAIS


E ESTABILIDADE DEMOCRÁTICA NOS CASOS
DO FEDERALISMO BRASILEIRO E ALEMÃO:
EM ESTUDO COMPARADO

GUSTAVO CASTAGNA MACHADO


Doutor em Direito, Doutorando em Ciência Política
Universidade de Frankfurt, Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS),
Faculdades João Paulo II (FJPII)
E-mail: gustavocastagna@gmail.com

Eixo temático: Crises Constitucionais no Brasil República.

Palavras-Chave: Desigualdades Regionais; Federalismo; Estabilidade De-


mocrática.

A Alemanha (analisada aqui a partir de sua reunificação em 1990) é a


4ª economia do mundo e o Brasil (analisado aqui a partir da sua redemocrati-
zação em 1985) é a 7ª. Ambos os países têm uma importância estratégica no
contexto regional e global. Brasil e Alemanha são dois estados federais, e, assim
como ambos possuem desigualdades regionais, também possuem mecanismos
de redistribuição de recursos e poderes em suas estruturas federais para comba-
ter essas desigualdades regionais e impedir que os entes federados mais ricos e
poderosos se tornem cada vez mais ricos e poderosos. Porém, esses mecanismos
federais enfrentam resistência de várias maneiras, exatamente desses estados mais
ricos e poderosos, procurando resistir a essa redistribuição de recursos e poderes.
Na Alemanha, por exemplo, um princípio fundador da equalização financeira
alemã estabelece que os estados mais ricos devem ajudar os estados alemães
mais pobres mediante o envio de recursos orçamentários, mas os estados mais
ricos se opõem a essas transferências de riqueza e ajuizaram uma ação perante o
Tribunal Constitucional alemão (Dick 2013). Mas isso funciona como uma espécie
de barganha política, não afetando a estabilidade democrática. No Brasil, o Partido
dos Trabalhadores (PT), durante seus governos (2003-2016), apoiou uma política
de redistribuição de riquezas e de investimentos fortes nos estados mais pobres

227
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

e isso foi desafiado pelos estados mais ricos em vários níveis, e isso foi feito de
uma forma que corroeu a estabilidade democrática no Brasil.

Dado esse contexto, interessado no tópico e tentando entender a dinâ-


mica de ambos os sistemas federais, comparando-os, para conhecer seus pontos
fortes e fracos, as razões para o sistema alemão reagir melhor institucionalmente
às disputas do que o brasileiro, foi elaborado um projeto para escrever uma tese
de doutorado para identificar como o federalismo desses países trata e resolve
disputas quando há uma forte controvérsia e a possibilidade de quebra demo-
crática e como as partes envolvidas respondem às resoluções de controvérsias.
Aqui, não se pretende fazer uma comparação plena, mas, dando mais ênfase
ao caso brasileiro, analisar semelhanças e diferenças com o caso alemão e ver
como a recente experiência federal alemã poderia contribuir com a brasileira. O
caso alemão deixa claro que é possível um estado federal, com desigualdades
regionais e com mecanismos de redistribuição de recursos e poderes em suas
estruturas federais, combater essas desigualdades regionais sem o risco de uma
ruptura democrática, considerando a estabilidade democrática em Alemanha nas
últimas décadas. Como é possível isso na Alemanha? O que falta na experiência
brasileira? Portanto, aqui é excluída também uma abordagem ingênua que esta-
belece a experiência federal alemã como algo perfeito e acima das críticas, mas
só se estabelece aqui o objetivo de entender o que funciona bem e pode servir
de inspiração para um sistema federal diferente com características semelhantes.

Para entender melhor a questão no Brasil, em primeiro lugar, é necessário


esclarecer que a disputa sobre a presidência da República no Brasil é polarizada
desde 1994 por dois partidos: o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e
o Partido dos Trabalhadores (PT). O primeiro está mais alinhado ideologicamente
com os estados do Sul e Sudeste (principalmente São Paulo, excluindo o Rio de
Janeiro, que está mais alinhado com o PT) do Brasil, os estados mais ricos, enquanto
o segundo está mais alinhado ideologicamente com os estados no Norte e Nor-
deste, os mais pobres. Embora o PT tenha dificuldades históricas para conquistar
as eleições na região Centro-Oeste, também realizou muitas políticas distributivas
que beneficiaram grandemente a região. Os governos do PSDB (1994-2002) não
priorizaram as políticas de distribuição, optando por uma lógica de priorização de
investimentos em São Paulo e seus estados vizinhos (quando era importante para
uma cadeia econômica que tinha São Paulo como seu epicentro), o que manteve
as desigualdades entre os membros da federação, até mesmo as aprofundando.
Durante os governos do PT (de 2003 a 2016), foram feitas políticas de distribuição
profundas, que reduziram a desigualdade entre os estados da federação, embora
a desigualdade ainda seja grande. Além disso, foi feito um trabalho para reduzir
a grande predominância de São Paulo na federação brasileira.

228
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Por exemplo, deve-se mencionar as transformações no PIB brasileiro re-


sultantes das políticas de distribuição. De 2002 a 2012, três grandes regiões
aumentaram sua participação no PIB brasileiro: a região Centro-Oeste aumentou
sua participação em 1,0%; a região Norte aumentou 0,6%; e a região Nordeste
aumentou também 0,6%. Os resultados de 2012 mostraram que a região Sudeste
contribuiu com 55,2% para o produto interno bruto brasileiro (PIB) (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística 2014: p. 13).

Por exemplo, em 2012, em relação ao ano anterior, o estado de São Paulo,


com participação de 32,1% no PIB brasileiro e com quase 32 milhões de eleitores
(22,4% dos 142,8 milhões de eleitores brasileiros), diminuiu 0,5%, enquanto o Rio
de Janeiro aumentou 0,3% e Minas Gerais diminuiu 0,1%. Todos estão localizados
na região Sudeste. A região Nordeste, em 2012, aumentou sua participação em
0,2% em relação a 2011, representando 13,6% do PIB brasileiro. Em 2012, oito
membros da Federação (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande
do Sul, Paraná, Santa Catarina, Distrito Federal e Bahia) representavam 76,6% do
PIB, marcando um declínio de 0,5% da contribuição em comparação a 2011. Na
série 2002-2012, esse grupo perdeu cerca de 3,1% de sua participação para os
outros 19 estados, e a atual participação de 76,6% do PIB estabelecida em 2012
é a menor participação da série. O avanço da fronteira agrícola, os incentivos
regionais, a maior mobilidade das instalações industriais, além do avanço das
novas classes de consumidores, são alguns dos fatores que influenciaram a perda
de participação desses membros da federação no PIB brasileiro nos anos da série
2002-2012. O grupo dos outros 19 estados que contribuiu com 20,3% para o PIB
em 2002 aumentou cerca de 3,1% em 2012 (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística 2014: pp. 13-14).

Além disso, o estado de São Paulo, o maior parque industrial do país, vem
perdendo participação na produção industrial brasileira. Embora seja responsável
por 29,8% de tudo o que é produzido pelo setor no Brasil, a participação do
estado perdeu peso no Produto Interno Bruto industrial (PIB) (Confederação
Nacional da Indústria 2014: p. 182).

Os números podem parecer tímidos, mas a população não percebe assim


e isso causou impactos profundos, alterando a geografia econômica brasileira,
incluindo uma mudança no fluxo migratório interno. Antes, por exemplo, o co-
mum era a migração da população do Nordeste para São Paulo, principalmente
em busca de oportunidades, o que servia para disponibilizar para a comunidade
empresarial de São Paulo (e também para a classe média paulista, que contrata
os migrantes para realizarem trabalhos domésticos) uma maior disponibilidade
de mão-de-obra, também mais barata. No entanto, a migração entre regiões do
país perdeu a intensidade na última década, e os estados do Nordeste, além de

229
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

manter sua população, começaram a receber de volta aqueles que deixaram seus
estados para o centro-sul do país, que já não atrai mais os nordestinos (G1 2011).

De acordo com uma matéria publicada na Folha de São Paulo em 2015,


atualmente é mais provável que um brasileiro faça fortuna nas regiões Norte e
Nordeste do que no Sudeste, que concentrou a maior parte da riqueza brasileira
nos últimos 150 anos ou mais. Isso é demonstrado por uma análise de dados
coletados do imposto de renda brasileiro a partir de declarações apresentadas
em 2014. De 2003 a 2013, o número total de milionários mais do que duplicou
em 13 estados brasileiros – dentre eles estão 8 dos 10 estados das regiões Norte
e Centro-Oeste, excluído o Distrito Federal. Os outros cinco estão localizados na
região Nordeste. No Sudeste, a tendência ascendente dos contribuintes com renda
anual de US $ 1 milhão ou mais foi menor. Dentro de uma década, o total dos
contribuintes dos milionários brasileiros aumentou de 18.500 para 29.800, um
aumento nacional de 61%. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná,
Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que concentravam 82% dos milionários
brasileiros em 2013, o ritmo de adesão ao clube de milionários foi menor do
que a média nacional (Wiziack 2015).

Como mencionado acima, São Paulo, o estado mais rico do Brasil e


responsável por cerca de 32% do PIB brasileiro, diminui anualmente sua partici-
pação no PIB brasileiro. Mas não só isso. De acordo com sua ideologia nacio-
nal-desenvolvimentista, bem como com suas políticas de distribuição de riqueza,
os governos do PT realizaram grandes projetos de infraestrutura que, uma vez
concluídos, criarão novas cadeias econômicas e descentralizarão mais profunda-
mente a economia brasileira. Os principais projetos de construção que podem
ser mencionados aqui são a Transposição do Rio São Francisco (cerca de 700
km de extensão, passando pelo território dos estados de Pernambuco, Paraíba,
Ceará e Rio Grande do Norte), o Porto de Suape (Pernambuco) a reforma dos
portos de Pecém e Mucuripe (Ceará), a reforma do Porto de Itaqui (Maranhão),
a construção do complexo portuário do Porto Sul na Bahia (em Ilhéus), o Es-
trada de ferro Transnordestina (um projeto ferroviário para conectar o porto de
Pecém, em Ceará, até o Porto de Suape, em Pernambuco, também passando pelo
Cerrado do Piauí, na cidade de Eliseu Martins, com um total de 1.728 km), a
Ferrovia Norte-Sul (que já possui 1.574 km, começando no estado de Maranhão
e chegando a Palmas no Tocantins), a Ferrovia Transoceânica (que conectará os
oceanos Pacífico e Atlântico, começando no Porto do Açu no Rio de Janeiro,
Brasil, e chegando ao Peru), a duplicação da rodovia Belém-Brasília (com 1.959
km), a construção das hidrelétricas de Belo Monte (que será a terceira maior
barragem do mundo), Jirau e Santo Antônio, as três localizadas no norte do Brasil.

Conforme observado acima, todas essas construções estão localizadas nas


regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e causarão um impacto profundo na

230
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

economia brasileira uma vez concluídas. Embora as construções estejam sendo


realizadas em todas as regiões do Brasil, a maioria delas são de infraestrutura
social e urbana, não tendo a mesma capacidade de impactar a economia que
as construções listadas acima. Na região Sudeste, construções similares são en-
contradas apenas no Rio de Janeiro, em grande parte devido à Petrobras (Lula e
Dilma venceu no Rio de Janeiro em todas as rodadas das eleições que disputa-
ram), como o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e o Porto
do Açu, e também devido à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016.
Essa lógica de descentralização da economia é uma ruptura em relação à lógica
dos governos brasileiros anteriores de priorizar os investimentos em São Paulo
e seus estados lindeiros e parceiros (quando fosse importante para uma cadeia
econômica que tinha São Paulo como epicentro).

Junto a isso, houve uma tentativa de descentralização do sistema universitá-


rio brasileiro, fortemente concentrado nas Regiões Sudeste e Sul, com a criação de
universidades federais e programas de pós-graduação em outras regiões do Brasil.
Especialmente durante o governo de Lula (2003-2010), foi adotada uma política
de expansão das universidades federais, criando 14 (Moura 2011). Mesmo sendo
tentado descentralizar os programas de pós-graduação, eles ainda estão muito
concentrados. Como afirmou o diretor executivo da the AssociaçãoBrasileira de
Mantenedoras de Ensino Superior, “no Brasil há uma restrição (na oferta) de pós-
graduação, fazendo com que o doutorado seja mais concentrado não Sudeste”.
O cenário regional também mostra forte concentração nos Estados mais ricos:
em 2009, 79% dos pesquisadores brasileiros eram oriundos das universidades do
Distrito Federal, Sul e Sudeste, 15% das universidades localizadas na Região Nordeste
e 6% das universidades das regiões Norte e Centro- Oeste. A mesma relação dez
anos antes (1999) apresentou maior distorção: 88%, 9% e 3%, respectivamente. Até
1999, os 13 estados localizados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste nunca
formaram um doutor. Em 2010, apenas o Acre e Roraima ainda estavam fora
da lista (Máximo 2010). Mais tarde, o Acre e Roraima criaram alguns programas
de pós-graduação, mas eles tinham, juntos, apenas 24 estudantes de doutorado
matriculados em 2014 (Righetti 2016).

Some-se a isso também a concentração dos grandes grupos de mídia em


São Paulo (Editora Abril, Folha de São Paulo e Estadão) e na zona sul do Rio de
Janeiro (Grupo Globo, aliada do capital estrangeiro e com poucos vínculos com
a maioria da população local).

Com todo esse background, São Paulo respondeu politicamente com força
à reeleição e ao governo de Roussef, elevando o nível de “antipetismo” naquele
estado, causando uma crise política e comprometendo a estabilidade da demo-
cracia brasileira (Zanatta 2015). A mesma interpretação do grande quadro aqui
colocado, mas percebendo que a estabilidade democrática foi posta em perigo

231
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

no Brasil, a American Quarterly, em um artigo de seu editor-chefe, Brian Winter,


apontou para “o retorno do antigo, instável Brasil” (Inverno 2015).

Com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, o vice-presidente Mi-


chel Temer (que abertamente conspirou contra Rousseff), do PMDB, o grande
partido pêndulo brasileiro assumiu a presidência do Brasil. Assim como ele era
parte do governo de Dilma Rousseff, Temer também havia sido um importante
aliado político do PSDB durante os governos de Fernando Henrique Cardoso. Ao
assumir o governo, Temer começou a restabelecer as mesmas políticas do PSDB
(e deve ser considerado que o PMDB não tem um programa político claro e se
sente desconfortável quando está no centro dos holofotes) e desfazer as políticas
realizadas pelo governos do PT. Ao contrário de suas promessas, Temer não resol-
veu o problema da instabilidade política criada pelo impeachment, não conseguiu
melhorar a situação econômica e rapidamente se tornou altamente impopular.

Meu problema de pesquisa é: o federalismo brasileiro é marcado por


profundas desigualdades regionais que geram disputas intergovernamentais e afe-
tam a estabilidade de sua democracia. O federalismo alemão também é marcado
por desigualdades regionais que geram disputas intergovernamentais, mas essas
disputas não afetam a estabilidade de sua democracia. Por que acontece, como
os federalismos desses países tratam e resolvem disputas quando há uma forte
controvérsia e a possibilidade de ruptura e como as partes envolvidas respondem
às resoluções de controvérsias? Que tipo de lições o federalismo brasileiro poderia
tirar do caso alemão, especialmente em termos institucionais?

Neste projeto eu utilizarei a obra do cientista político alemão Arthur


Benz como referencial teórico. Ao empregar seu referencial teórico, é possível,
sempre com foco em desigualdades e disputas regionais, entender e interpretar
a dinâmica de ambos os sistemas federais, por que, por um lado, a dinâmica
do sistema federal alemão, com suas lutas de poder, com suas desigualdades
regionais e seus mecanismos de redistribuição de recursos e poderes em sua
estrutura federal não ameaçam a estabilidade democrática e, por outro, o porquê
da dinâmica do sistema federal brasileiro põe a estabilidade democrática em ris-
co. Além disso, este quadro teórico ajuda a analisar quais são as dinâmicas dos
sistemas federais do Brasil e da Alemanha e como o processo de estabilização
e ajuste desses sistemas federais funciona para mudar as condições em meio a
essas disputas, considerando que os desenvolvimentos nas sociedades, instituições
e políticas desses países relacionados às estruturas federais às vezes podem se
apoiar e se reforçar mutuamente, às vezes interferir e causar conflitos e tensões
(o que geralmente acontece no caso do Brasil, como será mostrado na tese).

Para responder à esse problema de pesquisa, este projeto emprega um


método de análise qualitativa e um estudo comparado.

232
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Dois métodos de coleta de dados devem ser aplicados: entrevistas com


experts e análise de documentos. No caso de entrevistas com experts, a opção é
justificada como uma soma a outras fontes escritas. Isso permitirá que eu pergunte
aos experts sobre as questões específicas que me interessam e que não foram
tratadas diretamente em seus escritos.

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IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A FACULDADE DE DIREITO DA BAHIA, O GOLPE


DE 1964 E SEUS ANTECEDENTES (1961-1964)

MÁRCIA COSTA MISI


Professora de Direito da Universidade Estadual de Feira de Santana/Bahia - UEFS
Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Direito da Universidade Federal da Bahia – UFBA
E-mail: marciamisi@gmail.com

JULIO CESAR DE SÁ ROCHA


Professor do Programa de Pós Graduação em Direito
e da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia – UFBA
E-mail: julior@ufba.br

Eixo Temático: História Social do Direito

Palavras-chave: História do direito; Ditadura civil-militar na Bahia; Direito


e regimes autoritários.

Introdução

A história política do Brasil recente é marcada por um período em que


as liberdades democráticas foram tolhidas e as vozes de oposição ao governo
estabelecido foram perseguidas, intimidadas e em alguns casos violentamente
eliminadas. A ditadura que se estabeleceu no país entre 1964 e 1985 faz parte de
um passado que por algum tempo a sociedade brasileira tentou esquecer, mas
que teima em “aparecer” nos vestígios deixados em nosso presente.

Esta observação reforça o reconhecimento acerca da necessidade de


manter mobilização e interesse na produção de pesquisa para entender melhor
o percurso da nossa democracia, a partir de novas abordagens, novos questio-
namentos, novos olhares

Importantes contribuições surgem a partir de historiadores do Rio de


Janeiro que, desde 2004 começam a dirigir o olhar para o elemento civil da
ditadura (nesse sentido, Denise Rollemberg, Daniel Aarão Reis, entre outros). A
participação civil no golpe já havia sido apontada, amparada em farta pesquisa
documental, por René Dreifuss (1981), mas esses historiadores avançam no sentido

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CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

de demonstrar consenso e consentimento na construção do regime autoritário


(ROLLEMBERG E QUARAT: 2010).

A história do direito pode oferecer uma contribuição importante para a


narrativa dessa história, especialmente a história do direito tal como retomada
após a redemocratização, reinserida na matriz curricular dos cursos jurídicos e
considerada como objeto de pesquisa por juristas. Uma história que suspeita do
poder, do romantismo e das continuidades (LOPES, 2000), portanto, uma fazer
história que se liberta da narrativa linear e evolutiva dos grandes acontecimentos
e enaltecedora das grandes personalidades

O levantamento bibliográfico realizado para construir esta proposta de


pesquisa identificou produções acadêmicas que se voltam para esse período
com questionamentos próprios da história do direito. Leonardo Barbosa estu-
dou as mudanças constitucionais empreendidas pelo regime, demonstrando a
estreita relação entre direito e poder ao considerar o ambiente político em que
juristas colaboraram com a consolidação da legalidade autoritária que deu forma
à ditadura que se instalou (BARBOSA, 2012). Por outro lado, Otávio Valério se
debruçou sobre o posicionamento do STF durante o período de implantação
da ditadura (1964-1969), apresentando a corte constitucional como um espaço
de convergência, mas também de divergência com o regime (VALÉRIO, 2010).
No mesmo sentido, mas considerando a atuação do Supremo Tribunal Federal
por um período maior, até a edição da Lei de Anistia em 1979, Walter Swens-
son Junior em tese de doutorado em programa de História (SWENSSON, 2006).
Fabrícia Santos, embora com o enfoque da sociologia, que busca encontrar pa-
drões na posição dos Ministros do STF, lança contribuições para compreender
esta instituição durante a implantação da legalidade autoritária (SANTOS, 2008).

Os debates travados a partir das Faculdades de Direito durante os con-


turbados anos do Governo Goulart e durante a implantação da ditadura ainda
não foram objeto detido de estudo pela história do direito. Airton Cerqueira See-
laender afirma a importância de enfrentar o tema da participação de professores
de direito na legitimação e até mesmo em postos governamentais da ditadura
(SEELAENDER, 2009). Aliás, não são muitas as pesquisas em história do direito
sobre este período, o interesse do pesquisador nesta área costuma ir até a Era
Vargas. Assim, a historiografia sobre os cursos jurídicos e o pensamento jurídico
brasileiro não alcança os anos 60 do século XX.

Esse trabalho é parte de uma que pesquisa pretende compreender em


que medida a Faculdade de Direito da Bahia produziu e reproduziu a posição
predominante entre os atores jurídicos do Brasil a respeito do debate político-
jurídico travado durante o governo Goulart, o golpe de 1964 e a implantação
da ditadura no Brasil.

238
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Neste recorte pretende-se construir um panorama sobre o cotidiano da


Faculdade de Direito da UFBa entre 1961, ano em que Goulart toma possa e,
também ano em que é inaugurado o novo prédio da Faculdade (onde até hoje
está instalada) e 1964, quando o militares depuseram o presidente.

Metodologia

Levantamento bibliográfico sobre a ditadura na universidade; a ditadura


na Bahia; a ditadura e o campo jurídico;

Análise de fontes documentais no Memorial da Faculdade de Direito


da UFBa: Atas de reuniões da Congregação; Cadernetas; Dossiês de alunos e
professores;

Análise de Periódicos jurídicos onde professores e alunos publicavam


seus trabalhos;

Análise de arquivos de jornais onde opiniões de professores eram pu-


blicadas;

Análise de documentos nos arquivos da repressão;

Coleta de depoimentos orais de ex alunos;

Resultados da pesquisa

Consolidação da formulação do problema:


1. Familiarização com historiografia sobre história política, história do
tempo presente, história e memória
2. Familiarização com o debate historiográfico sobre a ditadura civil
militar no Brasil
Aproximação com as fontes
1. Pesquisa exploratória do Memorial da Faculdade de Direito
–– Que tipo de arquivos estão recolhidos e organizados no Memorial?
–– Que tipo de informações posso detectar nos arquivos recolhidos
pelo Memorial?
–– Análise das Atas da Congregação/ Identificação dos professores
no período estudado;
–– Recortes de jornal com notícias sobre a Faculdade de Direito
2. Pesquisa no site do Projeto Brasil Nunca Mais
–– IPM sobre a área de ensino na Bahia – depoimentos de ex-aluno
e de professores sobre fatos ocorridos logo após o golpe de 1964.

239
CARDENO DE RESUMOS – Crises constitucionais na História do Brasil República

Referências bibliográficas
Fontes documentais
Atas da Congregação da Faculdade de Direito
IPM sobre a área de ensino da Bahia
Recortes dos Jornais Diário de Notícia e A Tarde
Livros
ADORNO, Sergio. Os aprendizes do poder. O bacharelismo liberal na política bra-
sileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
BARBOSA, Leonardo de Augusto de Andrade. História constitucional brasileira,
mudança constitucional, autoritarismo e democracia no Brasil pós-1964. Brasília:
Câmara dos Deputados, Ed. Câmara, 2012.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
DANTAS NETO, Paulo Fábio. A quebra da casca do ovo: a elite baiana e a obra
do golpe de 1964. Disponível em http://www.fundaj.gov.br/index.php?option=-
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DREIFUSS, René Armand. 1964 – a conquista do Estado: ação política, poder e
golpe de classe. Petrópolis: Vozes. 1981.
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro.
3 ed. revista. São Paulo: Globo. 2001
FEEREIRA, Muniz Gonçalves. O golpe de estado de 1964 na Bahia, 2003. Dis-
ponível em http://www.fundaj.gov.br/index.php?option=com_content&view=ar-
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Acesso em 17/06/2015.
LOPES, José Reinaldo de Lima. O direito na história. Lições introdutórias. São Paulo:
Max Limonad. 2000.
MOTTA, Rodrigo Pato Sá da. As Universidades e o regime militar: cultura política
brasileira e modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
MOTTA, Marly Silva da. História da Ordem dos Advogados do Brasil, v.5 : da
redemocratização ao estado democrático de direito, (1946-1988) / M arly Silva
da Motta, André Vianna Dantas; [coordenação Hermann Assis Baeta]. Rio de
Janeiro: OAB, 2006.
PEREIRA, Anthony W. Ditadura e repressão. O autoritarismo e o estado de direito
no Brasil, no Chile e na Argentina. São Paulo: Paz e Terra. 2010.
ROCHA, Julio Cesar de Sá da. Faculdade de Direito da Bahia: processo histórico e
agentes de criação da Faculdade Livre no final do século XIX. Salvador: Fundação
Faculdade de Direito da Bahia, 2015.
RODEGHERO, Carla Simone. Os historiadores e os estudos sobre o golpe de
1964 e o regime militar no Brasil in Revista L´Ordinaire Latino-Americano, n. 203,
2006, p. 93-123.

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IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

ROLLEMBERG, Denise e QUADRAT, Samantha (orgs.). A construção social dos


regimes autoritários. Brasil e América Latina, vol. II. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2010.
SACCHETTA, José. O Direito na História: reflexão crítica sobre a pesquisa jurídica
no Brasil. In: PAMPLONA FILHO, Rodolfo; CERQUEIRA, Nelson. (Org.). Metodologia
da Pesquisa em Direito. 1ed. Salvador: JusPodivm, 2010, v. 2, p. 100-120.
SANTOS, Fabrícia Cristina de Sá. Direito e autoritarismo: o Supremo Tribunal Federal
e o processos de habeas corpus entre 1964-1969.
SWENSSON JUNIOR, Walter Cruz. Os limites da liberdade e a atuação do Supremo
Tribunal Federal no julgamento de crimes políticos durante o regime militar de
1964 (1964-1979). Tese de doutorado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, USP, 2007.
TOUTAIN, Lidia Maria Batista Brandão & SILVA, Rubens Ribeiro Gonçalves da
(orgs.). UFBA: do século XIX ao século XXI. Salvador: EDUFBA, 2010.
VALÉRIO, Otávio L. A toga e a farda: o Supremo Tribunal Federal e o regime
militar (1964-1969). Dissertação de mestrado Faculdade de Direito, USP, 2010.
ZACHARIADHES, Grimaldo Carneiro (Org.). A ditadura na Bahia. Histórias de
autoritarismo, conciliação e resistência. Vol. 2. Salvador: EDUFBA, 2014.
___. A ditadura na Bahia. Novos olhares, novos objetos, novos horizontes. Vol. 1.
Salvador: EDUFBA, 2009.

241
RESUMOS

CULTURA JURÍDICA E DIÁSPORA AFRICANA


IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

OUTRAS HISTÓRIAS DE LIBERDADE:


PENSAR A HISTÓRIA CONSTITUCIONAL
A PARTIR DO ATLÂNTICO NEGRO

MARCOS VINÍCIUS LUSTOSA QUEIROZ


Doutorando em Direito – UnB
Universidade de Brasília – UnB

THIAGO FERRARE
Mestre em Teoria e Filosofia do Direito – UERJ
Universidade Federal do Rio de Janeiro –UFRJ

Palavras-chave: História constitucional; Sincronização; Atlântico negro.

A teoria crítica euro-americana tende a reconhecer a produtividade dos


conflitos entre pretensões materiais opostas que convivem no interior de uma
comunidade política. Assim, demandas por reconhecimento ganham espaço na
arena pública enquanto conflitos materiais voltados à efetivação dos princípios
constitucionais que seriam objeto de consenso sobre o modo de resolução desses
conflitos. A política caminharia sem pôr em xeque a forma de resolução dos
conflitos, uma vez que ela se definiria pelo desdobramento daqueles conflitos
passíveis de tematização nos marcos pré-estabelecidos para a vivência da liberdade.
De modo geral, se reconhece a produtividade dos antagonismos materiais, embora
ao preço da ocultação da possibilidade dos antagonismos formais.

A ideia central aqui é a de sincronização1. A partir dela se percebe a


anulação da materialidade da vida política como um desdobramento da supo-
sição da existência de um modelo único de realização da liberdade: a liberdade
realizada no espaço institucional do Estado democrático de direito. Nos marcos
da teoria discursiva de Habermas, a materialidade que dá ensejo aos processos
de aprendizado social é demarcada e limitada em seu potencial produtivo: a

1 Paul Gilroy se vale da ideia de sincronização quando faz referência ao fato de que a história da colonização
foi experienciada a partir de perspectivas distintas e igualmente valiosas. A história sincronizada anula a variedade
de perspectivas em favor da universalização violenta de uma delas. A ilustrar esse ponto, veja-se o seguinte
trecho: “[...] não pode haver nenhuma reciprocidade na plantation fora das possibilidades de rebelião e suicídio,
fuga e luto silencioso, e certamente não há nenhum unidade de discurso para mediar a razão comunicativa.
Em muitos aspectos, os habitantes da plantation vivem de modo assíncrono” (GILROY, 2012, p. 129).

245
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

contradição que o sofrimento instaura não põe em xeque os pressupostos do


discurso prático, as bases do Estado constitucional. Nesse sentido, a descentraliza-
ção das perspectivas dominantes é sempre parcial, no sentido de que nunca dará
conta daquelas vivências cuja concretude não se deixa traduzir nos pressupostos
comunicativos embutidos nos processos constitucionais de crítica social.

A estrutura jurídica - e a gramática constitucional em especial – constitui,


portanto, o padrão hegemônico de realização da liberdade. Habermas reforça a
centralidade da ideia segundo a qual a ordem jurídica de determinada comunidade
política tem continuidade com sua identidade historicamente produzida. Embora
esteja relacionada à história de autodeterminação de um povo, a estrutura jurídica
da sociedade seria também o meio através do qual se dá a constante recons-
trução dos sentidos dessa história: “[...] a teoria do discurso concebe os direitos
fundamentais e princípios do Estado de direito como uma resposta consequente
à pergunta sobre como institucionalizar as exigentes condições de comunicação
do procedimento democrático” (HABERMAS, 2002, p. 280). A gramática constitu-
cional surge aqui como a instância mediadora do aprendizado social. Em outras
palavras, poderíamos dizer que os princípios constitucionais são o meio através
do qual a crítica social é exercida, as estruturas que compõe o espaço no qual
a história de determinada comunidade pode ser revisitada e explorada em suas
facetas até então silenciadas.

Nos marcos da teoria discursiva do Estado democrático de direito há devir,


portanto. Há história a ser ressignificada. Há memória/identidade da comunidade
a ser reconstruída. Ocorre, porém, que o devir, a ressignificação da história e a
reconstrução da memória/identidade de uma comunidade são sincronizados desde
a perspectiva da forma atual por meio da qual se pode falar sobre essas questões.
Só à luz dessa forma se fala sobre a dor dos ofendidos; é essa forma que impõe
restrições a respeito da decisão sobre qual dor pode ser tematizada. A gramática
constitucional estabelece critérios de dizibilidade, formas que são condições de
possibilidade para o falar sobre política e emancipação. É assim que a pretensão
de reconstruir a história de determinada comunidade política se perde na delimi-
tação prévia daquilo que pode ser uma pauta a ser debatida no espaço público
estruturado constitucionalmente. Em resumo, portanto, pode-se dizer que a teoria
crítica hegemônica naturaliza os marcos da crítica, determinando abstratamente
os sentidos possíveis da liberdade.

Ao que parece, há dois modos de se posicionar perante esse desafio: tomar


o direito como uma lógica necessariamente violenta e a partir daí tematizar outros
espaços de realização da liberdade; ou pensar em caminhos de ressignificação
da estrutura constitucional a partir de sua abertura a demandas historicamente
silenciadas. Emancipação fora do direito ou ressignificação histórica da estrutura
jurídico-constitucional: esse é um modo diferente de colocar a mesma questão.

246
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A postura segundo a qual a subversão dos padrões hegemônicos de


subjetivação envolve necessariamente o recurso a espaços de reconhecimento
não estruturados pela gramática jurídica corre o risco de incorrer na seguinte
contradição: manter intocada a formalidade da estrutura jurídica da sociedade
enquanto tematiza outros contextos de realização da liberdade. Por sua vez, a
postura inversa – aquela que investe seu impulso crítico na compreensão da
materialidade da própria gramática jurídica e, portanto, na possibilidade de sua
disputa e ressignificação histórica – tende a ignorar a possibilidade de que de-
terminadas dimensões da subjetividade livre não se deixem tematizar no jargão
uniformizante do direito.

Uma incursão pela obra de Paul Gilroy nos ajuda a evidenciar a insufi-
ciência dessa dicotomia. Com o objetivo de livrar-se de naturalizações, o autor
demarca o seu ponto de partida crítico: “não tomemos nada como pressuposto”
(GILROY, 2012, p. 237). Esse imperativo se concretiza na intenção de reconstruir a
história da modernidade política desde uma perspectiva que, embora tenha sido
silenciada, a constitui. Tal perspectiva tem a ver com a memória da escravidão. O
silenciamento sobre a experiência da escravidão é o pressuposto do qual Gilroy
pretende se livrar, de modo que sua construção teórica deve ser vista como um
típico trabalho de trazer à luz as contradições do pensamento hegemônico; um
típico trabalho de teoria crítica, portanto.

Dentro desse contexto, a obra de Gilroy articula as duas teses que guiam sua
investigação teórica pela produtividade crítica da memória dos povos da diáspora
africana: em primeiro lugar, defende que a escravidão dos povos africanos é uma
dimensão constitutiva da modernidade euro-americana; em segundo, sustenta que
é inocente a teoria política que se constrói sem ter em vista a complexidade das
experiências de liberdade próprias aos povos que compartilham a memória do
mundo atlântico negro2. Tais questões apontam que a teoria crítica hegemônica
e as respectivas narrativas sobre a modernidade são unilaterais na compreensão
dos sentidos que o ocidente atribui para à experiência de liberdade.

Voltando ao campo da gramática do direito moderno, tais deslocamentos


propostos por Paul Gilroy abrem novos horizontes para se pensar metodologica-
mente a história constitucional. Na medida em que toda narrativa histórica é uma
narrativa que goza de pretensões normativas, ainda que não ditas, pretendemos
realizar dois movimentos: primeiramente, apresentar os vínculos entre teoria crítica
hegemônica e o campo da história do constitucionalismo, perquirindo suas “inge-
nuidades” e obliterações; e, em um segundo momento, explorar a chave analítica
2 Gilroy define a expressão quando se refere ao objeto de sua investigação: “Este livro aborda uma pequena
área dentro da consequência maior desta conjunção histórica: as formas culturais estereofônicas, bilíngues ou
bifocais originadas pelos – mas não mais propriedade exclusiva dos – negros dispersos nas estruturas de sen-
timento, produção, comunicação e memória, a que tenho chamado heuristicamente mundo atlântico negro”
(GILROY, 2012, p. 35).

247
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

do Atlântico Negro como mecanismo disruptivo de compreensão da história do


direito na modernidade. Tem-se como pano de fundo não só a necessidade de
desvendar as lutas e experiências esquecidas na história, mas de pensar o próprio
contar da história no presente como um produtor de silêncios que limitam as
fronteiras da nossa imaginação moral e, consequentemente, do que temos como
princípios constitucionais.

Referências bibliográficas
BUCK-MORSS, Susan. Hegel, Haiti and universal reason. Pittsburgh: University of
Pittsburgh Press, 2009.
GILROY, Paul. O atlântico negro: modernidade e dupla consciência. Trad. Cid Knipel
Moreira. São Paulo: Editora 34, 2012.
HABERMAS, Jürgen. A inclusão do outro: estudos de teoria política. Trad. George
Sperber e Paulo Astor Soethe. São Paulo: Loyola, 2002.
___. O discurso filosófico da modernidade: doze lições. Trad. Luiz Repa e Rodnei
Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
HEGEL, G. W. F. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio. Trad. Paulo
Meneses. São Paulo: Loyola, 1995.

248
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

SOCIEDADE OPERÁRIA 13 DE MAIO:


CULTURA JURÍDICA E ASSOCIATIVISMO NEGRO
NO PÓS-ABOLIÇÃO (1888-1896)

THIAGO DE AZEVEDO PINHEIRO HOSHINO


Universidade Federal do Paraná (UFPR)
E-mail: hoshino.thiago@gmail.com

Eixo Temático: Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Palavras-chave: Associativismo negro; Cultura jurídica; Operariado.

Introdução

Fazendo parte da geografia do Alto São Francisco, a Sociedade Operária


Beneficente 13 de Maio, fundada em 1888, acha-se encravada no coração do
“centro histórico” de Curitiba. Mas histórica, de fato, é a escassez de estudos e
informações balizadas a seu respeito, não tanto por culpa das fontes, que vêm
se mostrando fartas, como, talvez, por outras dinâmicas, associadas à economia
simbólica da própria produção acadêmica. Acompanhando esse déficit, apenas
recentemente passou a instituição a receber o reconhecimento público de sua
importância como um dos mais antigos clubes sociais negros do país, ainda em
atividade3. Mesmo a deliberada política de embranquecimento que editou a
narrativa sobre o Paraná4, tentando conferir-lhe ares de um suposto “Brasil dife-
rente”, todavia, não fadou à extinção nem ao olvido um dos mais contundentes
lugares de memória5 afrodescendente no estado e seu acervo que narra modos
híbridos de resistência.

3 Para o enquadramento teórico da questão e esforço inaugural de mapeamento, sistematização e reconhe-


cimento dessas instituições, vide o trabalho seminal de Giane Vargas: ESCOBAR, Giane Vargas. Clubes Sociais
Negros: lugares de memória, resistência negra, patrimônio e potencial. Dissertação de Mestrado (Patrimônio
Cultural). Santa Maria: UFSM, 2010. Igualmente, um conjunto de dados já consolidados acha-se disponível em:
http://www.clubessociaisnegros.com.br/
4 Exemplo deste tipo de historiografia, atualmente foco de severas críticas no próprio campo é o trabalho de
Wilson Martins (Vide: MARTINS, Wilson. Um Brasil diferente: ensaio sobre fenômenos de aculturação no Paraná.
São Paulo: T. A. Queiróz, 1989.)
5 O termo foi teoricamente refinado por Pierre Nora: NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática
dos lugares. In: Revista Projeto História (PUCSP), n. 10, pp. 07-28, dezembro/1993.

249
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Ponto de convergência de muitas trajetórias e ponto de inflexão na experi-


ência de vida de tantos homens e mulheres que a fundaram, que a comandaram,
que por ela lutaram e foram assistidos, que nela se organizaram, se instruíram, se
politizaram e se divertiram, o “Clube 13” atravessou sucessivos regimes, decerto
não sem transformações, rupturas e descontinuidades. Em meio ao jogo da per-
manência e da mudança, vale interrogar os primórdios desta sociedade: em suas
origens oitocentistas, o que propunha e no que consistia ela? Uma agremiação de
trabalhadores? Uma entidade beneficente? Um núcleo de mutualismo negro? Um
clube recreativo? Um movimento dos “homens de cor”? Essas foram as perguntas
fundamentais que nos instigaram à presente investigação, no cenário da primeira
década do pós-Abolição numa capital periférica.

Não deixando jamais de celebrar o 13 de maio, seus membros incorporam


também o 1o de maio num calendário tão festivo quanto político. Conforme
o 28 de setembro (promulgação da Lei do Ventre Livre) perdia proeminência,
outras datas foram ocupando seu lugar, como, contemporaneamente, o 20 de
Novembro, Dia da Consciência Negra (ainda não instituído em Curitiba, diga-se
de passagem). Uma cartografia da presença e do protagonismo negros.

Metodologia

A pesquisa fundamenta-se em trabalho com fontes primárias, entre as quais


destacam-se: a) acervos privados de sociedades operárias, especialmente a Socie-
dade Operária Beneficente 13 de Maio; b) jornais e periódicos da República Velha;
c) processos judiciais do Arquivo Público do Estado do Paraná. Por meio desta
documentação e com referencias da micro-história e da história social, pretende-
se traçar as biografias coletivas e entremeadas de homens e mulheres negros/as
protagonistas da mobilização política e do ativismo racial nos primeiros anos do
pós-Abolição, período que apresenta uma série de peculiaridades e dificuldades
para esta espécie de pesquisa. A categoria do “associativismo negro” é uma das
empregadas para analisar as tensões inter-raciais e os discursos de cidadania que
atravessam as lutas e performatividades da população negra na República Velha,
ressaltando seus vínculos com a construção do movimento operário.

Resultados

O estágio atual da pesquisa permite identificar a centralidade da cultura


jurídica nas lutas do operariado negro curitibano, por meio de dinâmicas de
circularidade cultural entre “profissionais do direito” e “leigos”, bem como um
conjunto de vínculos pessoais e institucionais que conformam ampla rede de
mobilização social. A forte presença negra nas sociedade operárias do período é
um dos dados de destaque, bem como sua organização numa entidade própria,
a Sociedade 13 de Maio, a qual revela continuidades e rupturas com as estraté-

250
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

gias de liberdade do regime escravista. No campo das continuidades, é possível


verificar a manutenção de práticas e redes de contatos acionadas desde antes
da fundação da Sociedade, por grupos que integravam a Irmandade do Rosário
dos Pretos de Curitiba, o movimento abolicionista e corporações mais ou menos
formais de ofício, sobretudo os pedreiros. No campo das rupturas, instaura-se
uma nova gramática da cidadania, em que a negação raça/cor está permeada
de contradições e paradoxos (como o stigma social e a negação por parte do
estado), mas que precisa ser reinventada nas novas lutas da população negra e
sua integração na vida política local (a categoria “homens de cor”, por exemplo,
é uma das que será construída no período).

Conclusões

As conclusões provisórias da pesquisa indicam para aspectos ainda su-


banalisados do período pós-abolição e suas dificuldades metodológicas (como
o silêncio dos dados e fontes oficiais sobre raça/cor). Apesar disso, os resultados
permitem afirmar que existiram espaços de sociabilidade e de organização política
de corte estritamente racial, como a Sociedade Operária 13 de Maio, os quais,
todavia, se inscreviam também num cenário de lutas sociais diversas, sobretudo
dos/as trabalhadores/as. Às representações e imaginários sobre a África e sobre
os “filhos d’África” (expressão que surge nos estatutos da sociedade) agregavam-se
elementos e uma determinada retórica jurídica, patrimônio acumulado desde as
lutas abolicionistas por estes homens e mulheres, e que foi de grande relevância
não apenas para o combate dos estigmas raciais, mas também para a formulação
de um conceito alternativo e, de certa maneira, mais plural, de cidadania dentro
do processo de consolidação do movimento operário paranaense. Nesse sentido,
trabalhadores/as negros/as experienciavam, marcavam e faziam a diferença na
apropriação, expansão e radicalização de conceitos como “igualdade” e “liberdade”
apregoados pelas doutrinas européias recém chegadas à Curitiba, sobretudo os
anarquistas da Greve Geral de 1917.

251
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

POSSIBILIDADES METODOLÓGICAS PARA


UMA HISTÓRIA DO DIREITO DO PÓS ABOLIÇÃO

MAURÍCIO AZEVEDO ARAÚJO


Doutorando do Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná (PPGD/UFPR)
e Professor da Universidade Federal da Bahia(UFBA)
Email: mauricio.araujo@ufba.br

Eixo temático: Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Palavra chave: História do Direito, pós Abolição, Metodologia.

Introdução

Este trabalho é resultado de reflexões dentro da pesquisa de doutorado


que o autor está realizando no Programa de Pós-graduação em Direito da Uni-
versidade Federal do Paraná sobre “Cultura jurídica e racismo científico na Bahia
pós abolição”, mais especificamente um recorte acerca da preocupação sobre
as possibilidades metodológicas para pensar uma história do direito no pós
abolição (1888-1930).

As interpretações históricas acerca da escravidão e do pós abolição fo-


ram marcadas predominantemente pelo olhar culturalista e pela historiografia
marxista. A primeira, sob a influência da sociologia weberiana e a antropologia
cultural, via o processo de escravidão e sua transição para o trabalho assalariado
por meio de tipos culturais em torno do caráter colonizador flexível da cultura
ibérica e da ausência de racialização das relações sociais, representada na crença
da democracia racial.

Do outro lado, a perspectiva marxista, que tem no materialismo histórico


a sua bandeira metodológica, logo, imprime uma análise do período escravista e
pós abolição essencialmente econômica e voltada para os elementos estruturais
da sociedade. Esta perspectiva vai compreender o processo de desestruturação do
modelo escravista necessariamente ligado aos fatores econômicos e as necessidades
capitalistas, desconsiderando o papel de resistência e ação política dos escravos
no processo de emancipação. No caso do pós abolição implicou a negação de
um olhar sobre os processos de negociação e reconhecimento da cidadania em

253
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

um contexto de racialização, em seu lugar, o problema a ser explorado era a


inserção dos ex-escravos nas relações de classe no Brasil, uma ideia que negava
o caráter de trabalho da população negra escrava ou livre no regime escravista,
bem como seu protagonismo político.

A partir dos anos oitenta a historiografia brasileira experimenta novos


olhares e perspectivas metodológicas acerca da história da escravidão e poste-
riomente do pós abolição, autores como Robert Slenes (1999), Sidney Chalhoub
(2013), Maria Helena Machado (1987) e João Reis (2003) influenciados pela história
social inglesa, especialmente os trabalhos de Thompson, deslocam os olhares e as
fontes de pesquisas para processos penais, ações de liberdade e revoltas negras
procurando construir uma historiografia da escravidão a partir dos de baixo, ou
melhor, das ações da população negra enquanto protagonista. Ao tempo que
relativizam as tipologias e mitos da democracia racial e os fundamentos estrutu-
ralistas das perspectivas marxistas.

Neste itinerário da nova historiografia sobre a população negra e as


relações raciais no Brasil, surge diversas pesquisas sobre o pós abolição até então
negligenciado. Autoras como Hebe Mattos (2013), Wlamyra Albuquerque (2009)
e Walter Fraga (2014) e outros levantam a necessidade de pensar um período
histórico pouco pesquisado, tentando compreender as novas relações de nego-
ciação e estratégias da população negra, agora não só por liberdade, mas por
cidadania.

A história do direito por muito tempo ficou restrita a uma concepção


institucional e positivista (FONSECA, 1998), marcada por uma historiografia ins-
titucional do direito enquanto norma do estado e da cultura jurídica por meio
de fontes oficiais e doutrinas dos grandes juristas. Outra negligência, ou melhor,
cegueira proposital, diz respeito a omissão da história do direito sobre o papel
do racismo científico e da racialização da sociedade brasileira (SCHWARCZ, 1993)
na consolidação de uma cultura jurídica pautada pela criminalização e desconsi-
deração da cidadania da população negra.

Este trabalho tem como objetivo apontar caminhos metodológicos para


uma história do direito no pós abolição que permita compreender o direito e
a cultura jurídica enquanto experiência social. Portanto a recepção das idéias
racialistas, a criminalização das manifestações negras - a exemplo das religiões e
da capoeira -, as estratégias da população negra na construção da cidadania e
outras temáticas que sempre foram silenciadas surgem como desafios de uma
nova historiografia do direito.

Portanto, este trabalho pretende compreender a cultura jurídica enquanto


parte de uma experiência cultural que circula entre os “jurístas” e a experiência

254
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

cotidiana em torno do direito no pós abolição, desse modo, permite um olhar da


cultura jurídica no contexto de racialização das relações sociais no pós abolição
enquanto espaço de conflito, negociação e disputas de sentidos, que pode-
mos sistematizar em três elementos: a contextualização da recepção das teorias
racialistas pelos juristas nas faculdades de direito; a compreensão do processo
de racialização e hierarquias estabelecidas no pós abolição e sua relação com a
discussão de cidadania da população negra; e por fim, com o objetivo de per-
ceber a circularidade da cultura jurídica nas práticas cotidianas, que possibilitem
contextualizar como se dava a trama da racialização e as diversas estratégias e
práticas em torno do direito e da cidadania em contexto pós abolição.

Metodologia

Diante do desafio da pesquisa em compreender a relação entre cultura


jurídica e racialização no Brasil da primeira República, torna-se imperioso com-
preender o fenômeno jurídico enquanto experiência social e processo histórico, ou
seja, não como algo pronto, perfeito, fruto do desenvolvimento linear e evolutivo
do Direito. Ou seja, ao intentar uma reflexão sobre a cultura jurídica no pós-abo-
lição devemos analisar dentro do seu acontecimento social. (FONSECA, 1998).

Em termos teóricos e metodológico, a pesquisa situa-se na articulação da


idéia de direito enquanto experiência cultural, tanto da perspectiva da história
social de Thompson e sua abertura a uma multiplicidade de fontes na pesquisa
históriográfica, bem como a compreensão do direito enquanto elemento de
disputa. Com a possibilidade de redução da escala de análise e aprofundamento
concretos da vida cotidiana, o que possibilita um maior aprofundamento e con-
textualização do objeto pesquisado, desta forma, as noções de redução de escala
de Jacques Revel e o método indiciário de Carlo Ginzsburg serão importantes
para pesquisas em fontes de arquivo e aprofundamento dos contextos históricos
em escala reduzida.

Conclusão

Diante do desafio deste trabalho, os resultados provisórios constituem


a própria experiência na articulação entre os métodos da história social e da
micro-histórias como possibilidades para uma nova historiografia do direito no
pós abolição. Mais especificamente, o trabalho de campo em arquivos públicos
e das faculdades no período estudado, procurando refletir sobres os limites e
possibilidades das fontes enquanto indicadores do processo de racialização da
sociedade e do direito no pós abolição.

255
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Referências bibliográficas
ALBUQUERQUE, Wlamyra R. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra
no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
BRAGA, Júlio. Na gamela do feitiço: repressão e resistência nos candomblés da
Bahia. Salvador: Edufba,1994.
BURKE, Peter. História e teoria social. 3. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
PINTO, Cristiano Paixão Araujo. Modernidade, tempo e direito. Belo Horizonte:
Del Rey, 2002.
CARDOSO, Ciro Flamarion; BRIGNOLI, Héctor Pérez. Os métodos da história. 3.
ed. Rio de Janeiro: Edição Graal, 1983.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não ser como fundamento do ser.
2005. Tese (Doutorado em Filosofia) - Faculdade de Filosofia da Universidade
de São Paulo, São Paulo, 2005.
CARVALHO, José Murilo. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não
foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
___. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 16. ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2013.
CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oito-
centista. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
FONSECA, Ricardo Marcelo. História do direito: um esforço de definição. In:
FONSECA, Ricardo Marcelo. Introdução teórica à história do direito. Curitiba/PR:
Juruá, 2009.
FONSECA, Ricardo Marcelo; SEELAENDER, Airton Cerqueira Leite. História do
REIS, J. Resistência escrava na Bahia: “Poderemos Brincar, Folgar e Cantar...”: O
protesto escravo na América. Afro-Ásia, Centro de Estudos Afro-Orientais da
Universidade Federal da Bahia, Salvador, n. 14, 1983.
___.. Domingos Sodré: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX.
São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
___. O desafio historiográfico. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questões
raciais no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

256
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

SILÊNCIOS E APAGAMENTOS NO JULGAMENTO


DA ADI Nº 3239: OS QUILOMBOS
E A DISPUTA DA HISTÓRIA CONSTITUCIONAL

RODRIGO GOMES
Mestrando em Direito
Universidade de Brasília (UnB)
E-mail: rodrigoportelag@gmail.com

Eixo Temático: Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Palavras-chave: quilombos; julgamento da ADI nº 3239; história consti-


tucional.

Introdução

O presente trabalho abordará a potencialidade normativa da historio-


grafia crítica sobre a experiência e trajetória dos quilombos para a questão da
constitucionalidade do Decreto nº 4.887/03, particularmente, tematizando o voto
do Ministro Cezar Peluso na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 32396 que
tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). Isso porque, identificamos na narrativa
do referido voto uma compreensão sobre os quilombos7 como resquício, coeso
e homogêneo do passado escravista.

6 A ação tramita desde 2004 e foi ajuizada a época pelo então Partido da Frente Liberal (PFL), atualmente
Democratas (DEM), questiona a constitucionalidade do Decreto nº 4.887/2003 dispositivo que regulamenta o art.
68 do ADCT, portanto, o procedimento de identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação
das terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos. A disputa principal está na ampliação ou
limitação do alcance do dispositivo constitucional. A tese dos autores da ação é delimitar que a Constituição
reconheceu apenas as posses das terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos e exercidas
de forma mansa no período compreendido entre 1888 e 1988, tese que ficou cunhada por marco temporal.
7 Para fins de exemplificação destaca-se a compreensão de quilombo acionada pelo Ministro Relator da ADI
nº 3239 Cezar Peluso “é seguro afirmar que, para os propósitos do art. 68 do ADCT, o constituinte optou pela
acepção histórica, que é conhecida de toda a gente. Dos Dicionários da língua portuguesa, Aurélio Século XXI e
Houaiss, retiram-se as seguintes definições, respectivamente: ‘Esconderijo, aldeia, cidade ou conjunto de povoações
em que se abrigavam escravos fugidos. A palavra 'quilombo' teria o destino de ser usada com várias acepções, a
mais famosa delas a de habitação de escravos fugidos, em Angola, e a desses refúgios e dos estados que deles
surgiram no Brasil.’; ‘Local escondido, geralmente no mato, onde se abrigavam escravos fugidos; 2. povoação
fortificada de negros fugidos do cativeiro, dotada de divisões e organização’.” (Voto do Min. Rel. Cezar Peluso
ADI 3239, p. 39).

257
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Desde a promulgação do texto constitucional de 1988, há densa discussão


quanto ao termo “remanescente” presente no art. 68 do ADCT. No debate sobre
a (in)efetividade do art. 68 do ADCT muitas vezes aponta-se que o problema
reside em uma suposta controvérsia do texto constitucional quanto à definição
do que são as comunidades remanescentes de quilombos. Apesar de considerar
importante esse tipo de abordagem, acredita-se que ela não dá conta das tensões
produzidas pelos negros na formação do Estado brasileiro na luta por igualdade
e acesso a terra.

Não se trata de problema normativo, mas de cunho hermenêutico, pois


uma leitura restritiva do art. 68 do ADCT, além de reivindicar uma história-ofi-
cial – estruturada no mito da democracia racial – também não da conta das
diversas formas de disputa por direitos que foram empreendidas pelos negros.
Não perceber que essa interpretação da Constituição está vinculada ao modo
como os juristas articulam o direito dessas comunidades ao modo como se
inscreve a história dos quilombos8, é invisibilizar a potencialidade normativa que
a produção da historiografia crítica sobre a escravidão pode oferecer para a
interpretação do art. 68 do ADCT e do Decreto nº 4.88703 regulamentador do
preceito constitucional.

Metodologia

A estratégia de abordagem neste trabalho se deu em duas etapas. Em um


primeiro momento, a identificação e sistematização das discurssividades empreen-
didas no voto do Ministro Cezar Peluso para a compreensão dos quilombos e a
sua articulação com as demandas por direitos destas populações. A segunda foi
viabilizada com a revisão da literatura interdisciplinar quanto à trajetória-experi-
ência dos quilombos. Assim, buscou-se um instrumental reconstrutivo da história
constitucional no que se refere à compreensão sobre os quilombos e as suas lutas
por direitos, consequentemente o impacto que produziram na dinâmica social
do Brasil e que pode ser dimensionado no debate sobre a constitucionalidade
do Decreto nº 4.887/03 no julgamento da ADI nº 3239 no STF.

Sistematizamos que a invisibilização da historicidade dos quilombos tem


como consequência uma compreensão limitada do art. 68 do ADCT e do De-
creto nº 4.887/03. Esse quadro pode ser percebido por meio de mapeamento

8 Nesse sentido, pode-se citar a compreensão do Ministro Relator da ADI nº 3239 Cezar Peluso “os respei-
táveis trabalhos desenvolvidos por juristas e antropólogos, que pretendem ampliar e modernizar o conceito
de quilombos, guardam natureza metajurídica e por isso não têm, nem deveriam ter, compromisso com o
sentido que apreendo ao texto constitucional. É que tais trabalhos, os quais denotam avanços dignos de nota
no campo das ciências políticas, sociais e antropológicas, não estão inibidos ou contidos por limitações de
nenhuma ordem, quando o legislador constituinte, é inegável, as impôs de modo textual. Não é por outra razão
que o artigo 68 do ADCT alcança apenas certa categoria de pessoas, dentre outras tantas que, por variados
critérios, poderiam ser identificadas como “quilombolas”. Isso explica, aliás, a inserção desse dispositivo no Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias” (Voto do Min. Rel. Cezar Peluso ADI 3239, p. 39).

258
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

prévio das pesquisas no campo, as quais se norteiam da seguinte maneira: i) por


um discurso hegemônico no qual predominam narrativas que procuram apagar
o racismo, o escravismo e o colonialismo como constitutivos da modernidade e,
consequentemente, do direito; ii) por uma ausência na reflexão sobre a relação
tempo, história e colonialidade contida no discurso dos juristas sobre os quilom-
bos, enquanto forma política que opera na produção da memória; iii) por uma
unicidade na referência sobre a memória, a identidade e a história nacional que
excluem formas alternativas de narrar a história do Brasil, especialmente, quanto
à presença dos quilombos na historicidade constitucional. Esse quadro denota
que o campo é um terreno fértil à reificação da ideologia da democracia racial,
assim como evidencia a necessidade de um deslocamento teórico-epistêmico-
metodológico das pesquisas sobre a política de reconhecimento das comunidades
remanescentes de quilombos no bojo da CF/88.

Resultados

A importância da revisão historiográfica crítica sobre os quilombos está


na percepção complexa sobre o fenômeno da colonização, ressaltando que os
quilombos empregaram constante disputa sobre os sistemas econômicos, políticos
e jurídicos. Tal aspecto fortalece a produção de uma teoria crítica do direito ao
enfatizar que os fluxos da diáspora negra foram invisibilizados na elaboração do
estado nacional brasileiro, consequentemente sobre a matriz em que se estrutu-
raram as noções de liberdade, igualdade, cidadania e justiça.

O movimento da historiografia crítica sobre a escravidão tensiona às


narrativas sobre história constitucional que aponta para o sentido político e as
múltiplas relações sociais que o negro empregou na história do Brasil, pois não
“só reagiram às lógicas senhoriais, como produziram e redefiniram políticas nos
seus próprios termos” (GOMES, 2006, p. 20). Tematizar a trajetória-experiência
dos quilombos demonstra o papel fundamental que as compreensões sobre o
passado imprimem sobre a hermenêutica, o discurso e a linguagem dos juristas.
Por isso, impõe-se o debate sobre a relação entre história e tempo, uma vez que
as compreensões sobre os quilombos revelam um uso do tempo – o passado
de silenciamento e apagamento – para mobilizar – no presente – a afirmação
ou negação de direitos.

Conclusão

Neste sentido, é fundamental confronto das abordagens sobre os qui-


lombos e seus direito no voto referido perante as pesquisas que reposicionaram
a história e o impacto da população negra na formação do Estado brasileiro,
particularmente a “agency dos quilombos”9 (MOURA, 1981; 1993; GOMES, 2006;
9 Trata-se de termo cunhado por Gomes (2006, p. 21) para designar as múltiplas e complexas relações sociais

259
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

MATTOS, 2009; 2013; NASCIMENTO, 2007; REIS, 1995; REIS e GOMES, 1996). Este
movimento está atrelado à própria aprovação do art. 68 do ADCT, na medida
em que sua inscrição no texto constitucional permite uma abertura e revisão
crítica da própria hermenêutica constitucional. Pois, refere-se a sujeitos que nunca
haviam sido incluídos como titulares de direitos, e a CF/88, particularmente este
artigo, retoma o momento histórico da escravidão, evidenciando que as relações
raciais constituem um problema constitucional a ser enfrentado. Assim, o art.
68 do ADCT é um dispositivo inovador, pois possibilita evidenciar a latência e
centralidade das tensões raciais na história brasileira e permite confrontar que
tipo de narrativa prepondera nos discursos dos juristas a respeito da realidade
passada e presente de desigualdade racial.

Referências Bibliográficas
BRASIL. Constituição Federal de 1988, de 5 de outubro de 1988. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 5 de outubro de 1988. Disponível em
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17 de jun. de 2017.
___. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Diário Oficial da República
Federativa do Brasil, Brasília, DF, 20 de novembro de 2003. Disponível em <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituição.htm>. Acesso em: 17 de
jun. de 2017.
___. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3239/DF, de
24 jun de. 2003. Relator: Min Cézar Pelluzo. Diário de Justiça Eletrônica, Brasília,
16 de jun 2017.
DUARTE, E. C. P.; e SCOTII, G. R. História e memória nacional no discurso jurídico:
o julgamento da ADPF 186. Universitas JUS, v. 24, n. 3, p. 33-45, 2013.
DUARTE, E. C. P.; SCOTTI, G. R.; e CARVALHO NETTO, M. de. A queima dos
arquivos da escravidão e a memória dos juristas: os usos da história brasileira na
(des) construção dos direitos dos negros. In: Universitas JUS, v. 26, n. 2, p. 23-39, 2015.
GOMES, F. dos S. História de quilombolas: mocambos e comunidades de senzala no
Rio de Janeiro, século XIX. Ed. rev. e ampl. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MATTOS, H. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista
– Brasil século XIX. 3. ed.rev. Campinas: Editora da UNICAMP, 2013.
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In: Claudia Mosquera Rosero-Labbé; Luiz Claudio Barcelos (ed.). Afro-reparaciones:
Memorias de la Esclavitud y Justicia Reparativa para negros, afrocolombianos y
raizales. Bogotá: CES/GEA, p. 96-128, 2009.
MOURA, C. Quilombos resistência ao escravismo. 3. ed. São Paulo: Ática, 1993.
___. Os Quilombos e a Rebelião Negra. São Paulo: Brasiliense, 1981.
protagonizadas pelos quilombos no período escravista e com impactos no pós-abolição. Segundo o historiador
as ações dos negros não se tratavam de mera reação ao regime ou algo esquemático, mas uma complexa inte-
ração com o processo histórico em que se inseria, inclusive provocando transformações ao regime – disputas,
negociações, sociabilidades etc.

260
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

NASCIMENTO, B. Negro e racismo. In: RATTS, Alex. “Eu sou atlântica: sobre a
trajetória de vida de Beatriz Nascimento”. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo: Instituto Kuanza, 2007.
REIS, J. J.; GOMES, F. dos S. (orgs.). Liberdade por um fio: história dos quilombos
no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
REIS, J. J. Os quilombos e revoltas escravas no Brasil. Nos achamos em campo a
tratar a liberdade. Revista USP, v.28, dez./fev., 1995.

261
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

UBUNTU: CONCEITO(S), HISTÓRIA E APLICAÇÕES


NOS DIREITOS SUL-AFRICANO E BRASILEIRO

EDUARDO RAMOS ADAMI


Graduando em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
E-mail: eduardo.adami@gmail.com

Eixo Temático: Cultura Jurídica e Diáspora Africana.

Palavras-chave: Ubuntu; Humanismo; Direito Comparado.

Introdução

Nosso direito é repleto de elementos coletados de ordenamentos ao redor


do mundo. Os institutos e as figuras do direito alemão e do norte-americano,
principalmente, perfilam os manuais de todos os ramos do direito brasileiro.
Entretanto, como acontece com diversos outros temas em todas as searas da
vida cotidiana, a África continua deixada de lado, desvalorizada. Isso não significa,
entretanto, que não tenha nada a oferecer – pelo contrário.

Ao voltar nossos olhares para o Continente, encontramos ubuntu. De for-


ma absolutamente insuficiente, poderíamos resumi-lo a uma palavra: humanismo.
Tal conceito, entretanto, difere muito daquele com o que estamos acostumados,
e por isso usaremos o termo original. Ubuntu é uma filosofia antiga e meio
de vida, encontrado em diversas sociedades africanas. De início, MUNYAKA e
MOTLHABI10, de onde retiramos a maior parte das referências ora mencionadas,
informam que se trata de um conceito forte, significativo e substancial – e, por
isso mesmo, por muitas vezes padece de mau uso.

Lembrado pelos autores, o sociolinguista BUNTU MFENYANA explica:


enquanto UBU se refere ao abstrato, NTU se trata do ancestral que faz a sociedade
caminhar (1986: 18) – depreende-se, aqui, outra faceta do conceito: sua relação
quase religiosa, ligada ao espiritual. Outras definições denotam a intrínseca relação
com a pessoa humana, ou como uma qualidade positiva possuída por alguém.
De todo modo, o mote tradicional relacionado ao Ubuntu é, em Xhosa, “umntu

10 Ubuntu and its socio-moral Significance. MUNYAKA, Mluleki; MOTLHABI, Mokgethi. University of KwaZulu-
Natal Press, 2009.

263
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

ngumntu ngabany’ abantu”, ou, por sua vez, em Sotho: “motho ke motho ka batho
ba babang”. Ambos significam que “uma pessoa só é uma pessoa por meio de
outras pessoas”. Ou, mais curto ainda: eu sou, porque nós somos.

Como se vê, a característica principal do Ubuntu é o foco e fortalecimen-


to dos laços comunitários – a percepção de que a indivíduo se insere em um
contexto cuja melhora para um pressupõe a melhora para todos. Ainda assim,
tal conceito é extremamente abstrato – e nem pretendemos aqui desenvolvê-lo
substancialmente –, motivo pelo que pode ser decomposto em outros componen-
tes, responsáveis por lhe dar concretude: o respeito pelas pessoas, a importância
para a comunidade, personalidade, moralidade, dentre outros.

Ubuntu, ademais, não é só um conceito filosófico ou sociológico. Ele tem


seu uso reconhecido e aplicado no direito africano, de modo geral. Inclusive, foi
usado como valor fundante da ordem jurídica sul-africana em sua restruturação
pós-apartheid. Em “Ubuntu and the Law: African ideals and Postapartheid Juris-
prudence”, DRUCILLA CORNELL e NYOKO MUVANGUA exploram sua relação
com o direito, relacionando-o a temas como justiça restaurativa, reconciliação,
direitos socioeconômicos, direito à cultura e diversos outros.

Salvo melhor juízo, não há muito material acadêmico no Brasil sobre o


assunto (ou, ao menos, nunca o encontramos). Tal trabalho poderia ser um passo
inicial para voltar nossas lentes e estudos ao conceito de Ubuntu, trazendo-o para
a língua portuguesa, analisando seus diferentes conceitos e implicações na vida
cotidiana, contrapondo-o ao individualismo exacerbado típico das sociedades
ocidentais, averiguando sua aplicação no direito sul-africano (e de outros países
de África), seus institutos e seu impacto na doutrina e jurisprudência.

Com certa ousadia, poder-se-ia pensar em trazer à ordem jurídica brasileira


tais dispositivos (assim como recentemente buscou-se o estado de coisas incons-
titucional da Corte Colombiana), procurando, inclusive, tentar extrair o conceito
de ubuntu da nossa Carta Magna.

Os caminhos são muitos e o destino final, ou melhor, destinos, parecem


guardar proveitoso potencial. Isso, é claro, para além do já imenso prazer da
própria caminhada.

Metodologia

A metodologia consiste na pesquisa exploratória, eminentemente biblio-


gráfica. Isto é, busca gerar maior familiaridade com um tema tão caro, mas des-
conhecido. O levantamento de uma farta bibliografia tanto sobre Ubuntu – a
filosofia africana – quanto sobre o individualismo ocidental parece ser o primeiro

264
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

dos passos, fazendo a contraposição das duas lógicas dominantes. Depois, o


estudo do direito comparado em seus diversos ramos, seja constitucional, penal,
cível ou outro. Assim, ainda que de maneira inicial, poderemos averiguar o uso
do Ubuntu no direito sul-africano, sua incidência nos institutos e na lógica dos
mecanismos jurídicos, sua aplicação pela doutrina e jurisprudência, valendo-nos,
inclusive, de estudos de caso. Com esse arcabouço teremos material suficiente
para dar o pontapé inicial na busca pela compatibilização do direito brasileiro com
o sul-africano. Deste, poderemos retirar estratégias e arranjos que nos socorram
a resolver problemas atuais – tanto dogmáticos, quanto sociais. Afinal, voltar à
África pode nos ensinar muito sobre o combate ao racismo, socorrendo-nos do
valor-chave utilizado na reconstrução pós-apartheid da África do Sul.

Quem sabe assim poderemos encontrar novos meios efetivos de utilizar


o Direito para a transformação da nossa realidade – e não para a manutenção
do status quo.

Pesquisa

Como ponto de partida, MLULEKI MUNYAKA e MOKGETHI MOTLHABI


têm muito a nos oferecer, do ponto de vista sociológico, com seu “Ubuntu and
its Socio-moral Significance”. Além disso, DRUCILLA CORNELL e seus “Ubuntu
and the Law: African ideals and postapartheid jurisprudence” e “Law e revolution
in South Africa: Ubuntu, dignity, and the struggle for Constitutional Transformation”
podem mostrar o caminho inicial de uma investigação fecunda.

Conclusão

Ubuntu, como se demonstrou, é um conceito denso, de inúmeras facetas


e diferentes aplicações. Entendê-lo pressupõe (ou, de outro modo, talvez permita)
um novo modelo de sociedade. Não este fundado no individualismo exacerbado,
na meritocracia, no “eu” – mas sim uma sociedade verdadeiramente comunitária,
preocupada com o próximo, ciente de que não se resolve problemas sozinho. Só
se é um por meio do todo, dos outros – “motho ke motho ka batho ba babang”.

Nesta busca, com certeza encontraremos dados surpreendentes, ideias


inovadoras e soluções transformadoras. O direito alemão, o norte-americano e
tantos outros aos quais costuma-se voltar os olhos não podem fornecer a res-
posta para problemas que não têm. O sul-africano e outros ordenamentos da
África, por outro lado, se mostram um campo inexplorado, ricos em alternativas
e fecundos de ideias.

265
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Referências
Ubuntu and its socio-moral Significance. MUNYAKA, Mluleki; MOTLHABI, Mok-
gethi. University of KwaZulu-Natal Press, 2009.
Law and Revolution in South Africa: uBuntu, Dignity, and the Struggle for Constitu-
tional Transformation. CORNELL, Drucilla. Fordham University, 2014.
Ubuntu and the Law: African Ideals and Postapartheid Jurisprudence. CORNELL,
Drucilla; MUVANGUA, Nyoko. Fordham University Press, 2012.
Como elaborar projetos de pesquisa. GIL, Antonio Carlos. 4. Ed. São Paulo: Atlas, 2008.

266
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A INFLUÊNCIA DO PAN-AFRICANISMO
NA CONSTRUÇÃO
DO MODELO DE REGIONALISMO AFRICANO

LUCAS A. A. DE. SOUZA LIMA


Mestrando da linha de Direito Internacional da Pós-Graduação
em Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
E-mail para contato: lucasarnaud_@hotmail.com

Eixo temático: Cultura Jurídica e Diáspora Africana.

Palavras-chave: Pan-africanismo, diáspora africana, regionalismo.

Introdução

A mobilização de africanos em diáspora ao redor do mundo no início


do século XX deu origem ao moderno movimento pan-africanista, que buscava
o resgate das relações entre os negros ao redor do mundo com suas raízes afri-
canas. Uma série de Congressos Pan-Africanos, inicialmente realizados em solo
europeu e americano, culminou com a fundação da Organização da Unidade
Africana (OUA), em 1963, em Adis Abeba.

O paulatino colapso da OUA levou não ao fim do projeto integracionista


africano, mas ao seu renascimento com a fundação da União Africana, em 2001.
Além disso, o regionalismo no continente assumiu uma característica particular,
com a pulverização de incontáveis acordos regionais, zonas de livre comércio,
uniões aduaneiras, mercados comuns, etc. Enquanto a maioria dessas iniciativas não
parece ter existência real fora dos seus atos constitutivos, cinco dessas iniciativas
se destacam por apresentarem resultados expressivos: a Comunidade Econômica
dos Estados da África Ocidental, a Comunidade para o Desenvolvimento da África
Austral, a Comunidade Econômica dos Estados da África Central, o Mercado
Comum da África Oriental e Austral e a Comunidade da África Oriental.

Esta pesquisa não tem como foco a análise detalhada de cada um desses
blocos, mas sim verificar que o fato dos movimentos de integração ocorridos no
continente africano no último século contarem com uma robusta base ideológica

267
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

calcada no pan-africanismo concede a esses movimentos um caráter singular em


relação àqueles ocorridos em outras regiões do mundo, inclusive em comparação
com o modelo europeu, muitas vezes adotado pela doutrina como um modelo
paradigmático, cujos valores e características são tomados como referência para
determinar o sucesso ou o fracasso de outras experiências de integração regional.

As demais iniciativas de integração levadas a cabo pelos países do antigo


“terceiro mundo”, notadamente na América Latina e na Ásia, parecem carecer de
uma base ideológica definindo, tendo como prioridade destacada a integração
econômica. Nesse contexto, a integração cultural entre os diferentes povos dessas
regiões não é tomada como prioridade pelas respectivas organizações regionais.

Esta pesquisa pretende analisar, portanto, o caráter singular do regionalismo


africano tanto frente àquele que se desenrola em regiões desenvolvidas quanto
nos demais países em desenvolvimento.

Metodologia

A metodologia consiste na revisão bibliográfica de livros e artigos cientí-


ficos sobre o assunto. Cabe ressaltar que tem se dado prioridade à utilização de
obras produzidas por autores africanos, a fim de resgatar com maior propriedade
a postura ideológica dos próprios especialistas do continente acerca da integração
regional.

Resultados parciais

Verifica-se até o momento o caráter singular do regionalismo africano e a


relação direta dessa singularidade com a forte base ideológica advinda do movi-
mento pan-africanista. Pretende-se a seguir esclarecer melhor essa relação e quais
as consequências práticas para o desenvolvimento da integração so continente.

Conclusão

O regionalismo africano não pode ser analisado sem se levar em conside-


ração a sua filosofia subjacente, já que esta vai demonstrar quais os valores que
desde o início guiaram a integração africana, indicando qual a “régua” que deve
ser utilizada para medir o seu sucesso ou fracasso. Por mais que a influência do
paradigma europeu não possa ser completamente afastada, este deve ser utilizado
apenas como mais um modelo alternativo, fruto de seu próprio contexto, e não
como um modelo absoluto, a ser seguido sem questionamentos por regiões com
características fundamentalmente diferentes.

Até mesmo no que tange ao impacto das iniciativas de integração no


volume de comércio e na dinamização da economia dos países africanos, é fun-

268
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

damental considerar os números não de forma absoluta, mas de forma relativa,


tendo como paradigma de comparação não outras regiões que já passaram por
processos de industrialização há séculos, mas sim o próprio passado recente do
continente. Neste ponto, a perspectiva histórica se mostra essencial.

Determinadas transformações que são fundamentais para que o comércio


na região atinja seu máximo potencial, como o desenvolvimento de infraestrutura
e logística e a institucionalização de instituições governamentais e democráticas,
são desafios de longo prazo cuja dificuldade de viabilização não pode ser su-
bestimada quando colocada em perspectiva com o fato de a quase totalidade
do continente ser composta de Estados que conquistaram sua independência
há poucas décadas.

Diante disso, esta pesquisa pretende ensejar a reflexão sobre os reais pro-
blemas que impedem o desenvolvimento pleno do continente africano, refletindo
sobre soluções a partir da própria cosmovisão e filosofia dos povos africanos, sem
esquecer, ao mesmo tempo, de colher os valiosos aprendizados que podemos
retirar da experiência africana, que como todo processo de integração, é permeada
por avanços e retrocessos. Fugindo da análise maniqueísta que busca apenas por
fracassos ou sucessos, esta pesquisa pretende analisar o regionalismo africano em
todas as suas complexas matizes.

Referências bibligráficas
HARRIS, Joseph E.; ZEGBIDOUR, Slimane. A África e a diáspora negra. In: MA-
ZRUI, Ali. A; WONDJI, Christophe. África desde 1935. Tradução MEC- Centro de
Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Carlos. Coleção história
geral da África, vl. 8. 2a ed. São Paulo: Cortez; Brasiília: UNESCO, 2011, capítulo 23.
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MAZRUI, Ali. A; WONDJI, Christophe. África desde 1935. Tradução MEC- Centro
de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal de São Carlos. Coleção história
geral da África, vl. 8. 2a ed. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2011, capítulo 24.
Bach, D. The diversity of African regionalisms. GREAT Insights Magazine, Volume
5, Issue 4. July/August 2016.
FERNANDES, Lito Nunes; BOUKOUNGA, Jean Christian; FERNANDES JÚNIOR,
José. Integração Econômica Regional Na África Ocidental: Uma Visão Crítica. Revista
Conjuntura Austral, vl. 2, n. 8, Out/Nov, 2011, p. 18-47.
FERNANDES. Joel Aló. A Integração Econômica como Estratégia de Desenvolvimento
do Continente Africano: Proposta de Fusão entre a Comunidade Econômica dos
Estados da África Ocidental (Cedeao) e a União Econômica e Monetária da Áfri-
ca Ocidental (Uemoa). Orientadora: Dra. Odete Maria de Oliveira. [Dissertação]
Universidade Federal de Santa Catarina, 2007.

269
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A PARTICIPAÇÃO DO MOVIMENTO
DE TRABALHADORAS DOMÉSTICAS NA
ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE DE 1988

JULIANA ARAÚJO LOPES


Graduanda em Direito. Universidade de Brasília (UnB)
E-mail: julianaaraujolopes2@gmail.com

Palavras-chave: Assembleia Constituinte de 1988; trabalhadoras domés-


ticas; colonialidade; historiografia constitucional.

Introdução

O movimento nacional de trabalhadoras domésticas, composto de diversos


sindicatos e associações pelo Brasil, tem atuação política organizada pela busca de
direitos trabalhistas e reconhecimento como categoria profissional desde a década
de 1930 (BERNARDINO-COSTA, 2015). Durante a Constituinte ocorrida entre
1987 e 1988, houve mobilização política intensa, trazendo muitas das sindicalistas
a Brasília, apresentando suas demandas. Contudo, as domésticas foram excluídas
expressamente das garantias constitucionais asseguradas a trabalhadores urbanos
e rurais, na forma do art. 7º, a, da CLT11, tendo visto com o passar dos anos a
extensão à conta gotas de direitos sociais, com legislações esparsas e pouco prote-
tivas. Recentemente, a nova regulamentação do trabalho doméstico, especialmente
na figura da Emenda Constitucional 72 de 2013 e da Lei Complementar 150 de
2015, representou algum avanço no plano normativo dos direitos da categoria,
mas, ainda sem promover a equiparação, mantém um status de sub-cidadania.

A historiografia constitucional, ao apagar de seus registros a trajetória


de luta do movimento das trabalhadoras domésticas, reproduz uma “tradição
negreira” (DUARTE, SCOTTI; 2015) que, informada pela prática colonial que se
atualiza no presente, desconsidera a agência política das pessoas negras na di-
áspora africana, construindo uma memória social ausente de sua contribuição.
A partir da experiência das trabalhadoras domésticas na Constituinte de 1988,

11 “Art. 7º Os preceitos constantes da presente Consolidação salvo quando for em cada caso, expressamente
determinado em contrário, não se aplicam: a) aos empregados domésticos, assim considerados, de um modo geral,
os que prestam serviços de natureza não-econômica à pessoa ou à família, no âmbito residencial destas”.

271
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

marginalizada no marco do Estado Democrático de Direito, é possível reescrever


o momento fundador deste paradigma constitucional, bem como questionar as
continuidades entre o trabalho escravo e o trabalho livre da população negra na
contemporaneidade (ALVES, 2017), identificando os efeitos da colonialidade do
poder na defesa de suas garantias.

O conceito de colonialidade do poder (QUIJANO, 2005) descreve o


padrão de poder nascido a partir da modernidade colonial com a conquista da
América, que sobrevive às instituições propriamente coloniais, produzindo papeis
sociais e identidades hierarquizadas pela negação do outro, considerado bárbaro.
Segundo Dussel (1993), o mito da Modernidade, entendida como emancipação
racional da humanidade, justificava a prática irracional de submissão do outro à
violência por sua suposta degeneração – o fardo civilizatório do homem branco.
A colonialidade assume centralidade para compreensão do mundo moderno
por ser a face oculta e constitutiva da Modernidade (HALL, 2013), dando ao
fenômeno colonial caráter universal, atravessado globalmente por agenciamentos
de resistência, não somente compreendido pelas relações verticais entre colonos
e colonizados (GILROY, 2012). Se a Modernidade organiza o mundo ontologi-
camente em categorias homogêneas, dicotômicas, separáveis, a intersecção entre
raça, classe, sexualidade e gênero feita por mulheres de cor do terceiro mundo
transcende a lógica categorial moderna (COLLINS, 2000). Ser ao mesmo tempo
mulher e negro, sobrepondo duas categorias separáveis, marca um não-lugar das
mulheres negras, que é ao mesmo tempo uma lente a partir da qual se podem
aprofundar as apreensões sobre o moderno.

A narrativa sobre o momento constituinte nada mais é que a transição


de um capítulo da história para o próximo. A cisão na História supostamente
produzida pela mudança do marco legal para o Estado Democrático, assim
como a transição da Monarquia para a República, pretende nos convencer de
uma ruptura que não corresponde principalmente à experiência dos grupos mais
subalternizados (DUARTE, SCOTTI; 2015), revelando uma intenção de fazer coin-
cidir transformações formais com uma gramática de práticas sociais que se revela
descontínua em relação a lutas sociais. Politizar a experiência das trabalhadoras
domésticas, que revela a marginalização marcada pela colonialidade do poder,
intercruzando raça, gênero e classe, permite questionar os limites da narrativa
oficial sobre o Brasil. Compreendendo as dinâmicas de poder implicadas na escrita
da história, indaga-se sobre os seus modos de operação na Constituição Federal
de 1988 no que diz respeito ao trabalho doméstico.

Metodologia

O artigo pretende realizar uma revisão bibliográfica sobre a participação


das trabalhadoras domésticas na Assembleia Constituinte ocorrida entre 1987 e

272
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

1988, de modo a compreender o contexto hegemônico das narrativas sobre a


Constituinte, mapear as ausências em relação à atuação do movimento, e propor,
a partir de seus registros, um novo olhar sobre a historiografia constitucional, que
dê conta das lutas empreendidas por sujeitos na diáspora africana, marginalizados
na gramática jurídica por força do colonialismo. Compreende-se que a disputa
das narrativas sobre o passado tem potencial de produzir efeitos no presente, no
sentido de ampliar o acesso a direitos.

Conclusão

Importa aqui refletir sobre como as narrativas sobre a Constituinte de


1988, ao apagarem a dimensão racial, corroboram uma percepção na narrativa
histórica de que a população negra nunca fez disputas constitucionais, seja dentro
dos espaços institucionais, como aconteceu na Assembleia Constituinte, seja ao
longo da história, produzindo tensões nos processos que os momentos consti-
tuintes possibilitam (QUEIROZ, 2017). Conclui-se que a história constitucional, ao
apagar a disputa da identidade constitucional pela população negra, corrobora
uma narrativa que a retrata de modo passivo e objetificante no âmbito do Di-
reito. Neste mote, disputar a gramática da historiografia constitucional por meio
da recuperação de narrativas dos vencidos, que rasuram o discurso oficial sobre
a nação, situando-os como sujeitos, tem potencial de resgatar um projeto de
liberdade universal, reconstituído sob novas bases (BUCK-MORSS, 2011), alargando
as concepções de uma cidadania fraturada pelo racismo.

Referências bibliográficas
ALVES, Raissa Roussenq. Entre o silêncio e a negação: uma análise da CPI do tra-
balho escravo sob a ótica do trabalho “livre” da população negra. Dissertação de
mestrado no curso de pós-graduação em Direito da Universidade de Brasília, 2017.
BERNARDINO-COSTA, Joaze. Saberes subalternos e decolonialidade: os sindicatos das
trabalhadoras domésticas no Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2015.
COLLINS, Patricia Hill. Black Feminist Thought. Knowledge, consciousness, and the
politics of empowerment. 2ed. New York. Routledge. 2000.
DUARTE, Evandro C. Piza; SCOTTI, Guilherme. A Queima dos Arquivos da Escra-
vidão e a Memória dos Juristas: Os Usos da História brasileira na (Des)Construção
dos Direitos dos Negros. Em: Introdução Crítica à Justiça de Transição na América
Latina - Série O Direito Achado na Rua, vol. 7. Organizadores: SOUSA JUNIOR, José
Geraldo de; FILHO, José Carlos Moreira da Silva; PAIXÃO, Cristiano; FONSECA,
Lívia Gimenes Dias da; RAMPIN, Talita Tatiana Dias. Brasília, 2015.
DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem do mito da moderni-
dade: Conferências de Frankfurt. Trad. Jaime A. Clasen. Petrópolis, Rio de Janeiro:
Vozes, 1993.

273
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. Trad. Cid Knipel
Moreira. São Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Universidade Candido Mendes,
Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2012.
HALL, Stuart. Da diáspora: Identidades e mediações culturais. Organização Liv
Sovik; Tradução Adelaine La Guardia Resende ... [et all]. 2ª ed. Belo Horizonte:
UFMG, 2013.
PAIXÃO, Cristiano. Tempo presente e regimes de historicidade: perspectivas de in-
vestigação para a história do direito. In: FONSECA, Ricardo Marcelo (org.). As
formas do direito – ordem, razão e decisão (experiências jurídicas antes e depois
da modernidade). Curitiba, Juruá, 2013, p. 77-87.
QUEIROZ, Marcos. Constitucionalismo brasileiro e o Atlântico Negro: A experiência
constitucional de 1823 diante da Revolução Haitiana. Dissertação de mestrado no
curso de pós-graduação em Direito da Universidade de Brasília, 2017.

274
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A ESCRAVIDÃO NA ECONOMIA POLÍTICA ENSINADA


NA ACADEMIA DE DIREITO DE PERNAMBUCO

GUILHERME RICKEN
Doutorando em Direito na Universidade de São Paulo – USP
E-mail: ricken@usp.br

Eixo temático: Cultura jurídica e diáspora africana

Palavras-chave: História do Direito; Economia Política; Escravidão.

A presente pesquisa tem por escopo averiguar a dualidade da escravi-


dão, na forma de sua presença e ausência, nos livros publicados pelos lentes de
economia política da Academia de Direito de Pernambuco no período imperial,
quais sejam, Pedro Autran da Matta Albuquerque (Elementos de Economia Política,
de 1844, e Prelecções de Economia Política, de 1860) e Lourenço Trigo de Loureiro
(Elementos de Economia Política, de 1854).

O ensino de economia política no Brasil só teve início efetivo com a cria-


ção dos cursos jurídicos, em 1827. De acordo com Lei de 11 de agosto daquele
ano, a cadeira de economia política seria regida no quinto ano do curso. O lente
da disciplina teria a responsabilidade de escolher o compêndio a ser utilizado
na preparação das aulas ou, não havendo nenhum, de elaborá-lo. Na prática,
os primeiros docentes empregaram os compêndios elencados nos Estatutos do
Visconde da Cachoeira. No caso da economia política, isso significava estudar,
basicamente, as obras de Jean-Baptiste Say, Adam Smith, David Ricardo, Thomas
Malthus, Jean de Sismondi e William Godwin.

A despeito da presença de Sismondi e Godwin, autores recalcitrantes em


relação ao livre mercado e duvidosos da harmonia social que ele traria em seu
bojo, é notável o predomínio dos precursores da escola clássica de economia
política. Destarte, os estudantes de direito, futuros advogados e componentes da
máquina estatal, deveriam ter uma formação econômica voltada majoritariamente
ao pensamento então dominante na Europa, segundo o qual a prosperidade
das nações seria alcançada a partir das condutas individuais em um mercado
autorregulável, aliado, ainda, à teoria das vantagens comparativas no comércio
internacional.

275
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Dessa forma, a presente pesquisa busca aclarar, ainda que de maneira


muito modesta, um dos capítulos da aclimatação do liberalismo clássico em um
chão histórico bastante diverso daquele em que foi concebido. O transplante das
ideias europeias não se deu, por certo, de maneira automática e sem adaptações.
Afinal, os autores clássicos da economia política haviam concebido sua produção
teórica em uma Europa que vivenciava a Revolução Industrial, na transição do
trabalho servil para o assalariado. Já no Brasil, os professores de economia iriam
se deparar com a escravidão, fator estranho às equações que lidavam somente
com o trabalho livre.

Assim, face a um modo de produção baseado não na eficácia, mas na


violência e na autoridade, o estudo da racionalização produtiva, bem como sua
modernização continuada, temas caros aos autores europeus, encontravam-se, no
Brasil, “fora do lugar”. Se, de um lado, no Brasil, graças à sua inserção no mercado
externo, havia a presença do raciocínio econômico burguês, voltado ao lucro,
além de a Independência ter sido realizada com base em ideias liberais francesas,
inglesas e norte-americanas, por outro lado, este conjunto ideológico conviveria
com a escravidão e seus defensores.

Isto posto, objetiva-se, aqui, averiguar a dualidade da escravidão, na forma


de sua presença e ausência, nos livros publicados pelos lentes de economia polí-
tica da Academia de Direito de Pernambuco durante o período imperial. Quatro
foram os catedráticos da academia recifense nesse ínterim: Pedro Autran da Matta
Albuquerque, Lourenço Trigo de Loureiro, Aprígio Justiniano da Silva Guimarães e
José Joaquim Tavares Belfort, tendo os dois primeiros, em meados do século XIX,
publicado obras voltadas à disseminação do conhecimento econômico.

Assim, por meio da leitura das fontes primárias, identificou-se o tratamento


conferido à escravidão pelos docentes pernambucanos. Da mesma forma, buscou-se
reconhecer a presença da escravidão nas obras estudadas, ainda que, à primeira
vista, os professores não façam menções a ela. Partimos do pressuposto, portanto,
de que a escravidão era uma realidade inseparável das ideias de propriedade, liber-
dade industrial, produção, crédito, salário e capital, conformando todo o fenômeno
econômico brasileiro no período imperial.

Alcançamos, assim, a conclusão de que os compêndios elaborados por


Matta Albuquerque e Trigo de Loureiro abarcavam todas as áreas sensíveis da
realidade econômica, estando aptos a inserir o elemento escravista em suas res-
pectivas visões acerca da economia política.

Ao tratarem da produção, tanto Albuquerque quanto Loureiro punham,


lado a lado, os elementos físicos e psíquicos dos trabalhadores. O fazer produtivo
demandaria a conjunção de ambos. Estavam, portanto, teorizando sobre traba-

276
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

lhadores assalariados, uma minoria no Brasil oitocentista. É o que se depreende,


aliás, das considerações dos autores sobre as flutuações do preço da mão de obra.

Em relação ao crédito, Albuquerque como se estivesse lidando com um


país europeu em vias de industrialização, traça um eixo de relações nitidamente
privadas: um capitalista emprestando a outro, para que este amplie seus negócios
e aquele receba os juros correspondentes. Aqui, algo fica no ar: no Brasil imperial,
onde estavam investidos os capitais? Em escravos, por certo, graças à insegurança
jurídica em relação à terra. Não é por outro motivo que, com o fim do comércio
de escravos, as elites agrícolas propugnaram a transformação da terra em mer-
cadoria, com a criação de um mercado imobiliário legítimo. O escravo estava
presente na relação creditícia, mesmo que ausente de sua formulação teórica.

Os escravos aparecem, de forma explícita, nas Prelecções de Economia


Politica de Albuquerque. Ao frisar a importância do trabalho livre, ele menciona
as críticas da economia clássica à escravidão: sua carestia, baixa produtividade e a
falta de motivação do escravo para o trabalho. A exemplo do Visconde de Cairu,
apresenta justificativas à existência da escravidão, que, em dadas circunstâncias
– como no Brasil –, seria mais barata que o trabalho livre. Todavia, consoante
ensinado pela economia política europeia, da qual Albuquerque era tributário, o
regime escravista seria superado inexoravelmente, sendo substituído pelo traba-
lhador assalariado – com, no máximo, algum interstício de trabalho servil.

Assim, a economia política ensinada na Academia de Direito de Pernam-


buco, a despeito das influências confessas dos economistas clássicos europeus,
adaptou à periferia a ciência econômica produzida no centro do sistema, confe-
rindo-lhe, em alguma medida, ares de originalidade. Se os argumentos clássicos
contra a escravidão foram repetidos no Brasil, eles foram acompanhados da defesa,
ainda que acanhada, do regime econômico então dominante. E mesmo onde, nas
elucubrações dos lentes, a escravidão estivesse aparentemente ausente, ela estava
presente nas entrelinhas, pois inseparável das ideias essenciais que formavam o
sistema econômico.

Referências bibliográficas
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Typographia de Santos & Companhia, 1844.
ALBUQUERQUE, Pedro Autran da Matta. Prelecções de Economia Politica. 2. ed.
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ALENCASTRO, Luiz Felipe de. A Pré-Revolução de 30. Novos Estudos CEBRAP, n.
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277
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o


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CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da
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GREMAUD, Amaury Patrick. Das controvérsias teóricas à política econômica: pen-
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Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São
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HOLSTON, James. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da moder-
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ROCHA, Antonio Penalves. A escravidão na Economia Política. Revista de História,
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278
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

GESTÃO DE UMA CIDADE NEGRA:


SALVADOR E TRABALHO
DE RUA NO INÍCIO DO SÉCULO XX

BRUNA PORTELLA DE NOVAES


Mestra em Direito pela Universidade de Brasília.
Professora substituta da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia
Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (FD-UFBA)
E-mail: brunaportella@gmail.com

Eixo temático: 4 - Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Palavras-chave: Cidade Negra; Trabalho de rua; Gestão da cidade.

O presente trabalho apresenta resultados de uma pesquisa concluída. Esta


se debruça sobre a cidade de Salvador, compreendendo-na enquanto uma “cidade
negra”, uma experiência histórica de viver urbano entrelaçado por resistências e
ressignificações por parte da população negra. Em suma, um reescrever diaspórico
do cotidiano urbano (DUARTE et al, 2016). Utilizo um marco teórico centrado na
observação profunda deste cotidiano das cidades negras atlânticas (FARIAS et al,
2006), tomando o Rio de Janeiro como uma outra experiência urbana em alguns
aspectos próxima de Salvador. Pensar “cidade negra” implica, além de enxergar as
peculiaridades de um urbano construído por e para a população negra, escrava
e liberta, compreender as redes de relações que se constroem e se inscrevem no
espaço, como nos apresenta Chalhoub (2011).

A premissa para a compreensão da cidade negra – conceito no centro


do qual figura a população negra, como protagonista – é compreender libertos,
escravos e ex-escravos como sujeitos. As formas de desenvolver as suas próprias
narrativas não contam, certamente, com os meios mais tradicionais de fazer história.
Por vezes, é um povo que está aparentemente mudo nos documentos oficiais;
por vezes, se faz presente apenas como objeto de medo ou repulsa.

Este trabalho parte de uma proposta metodológica, contudo, de com-


preender os documentos oficiais tendo em mente as suas limitações, enquanto
documentos feitos para serem lidos (FARGE, 2009). Assim, pretende-se proble-

279
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

matizar as representações objetificadas e correlacionar os dados documentais


oficiais com a extensa bibliografia que compreende os processos políticos como
interações de poder entre sujeitos, com as complexidades que lhes são inerentes,
sem reduzi-los, no caso específico dos escravos, à dualidade de vítima ou algoz
(CHALHOUB, 2011).

Uma vez contextualizada a cidade negra, enquanto território físico e


simbólico, busca-se compreender a gestão de Salvador a partir de uma dimensão
privilegiada: o trabalho de rua (REIS, 1993, 2000, COSTA, 1991). Trabalhador e tra-
balhadora de rua, fazendo do espaço público seu lugar de sociabilidades, diversão
e ganho, se desdobram em ocupações diversas: vendedor ambulante de miudezas
e alimentos, quitandeira em festa popular, carregador de volumes. Compartilham,
em comum, além da apropriação do espaço público, a característica de serem
representação visual de um passado escravocrata que, ao início do século XX, se
buscava apagar a qualquer custo.

Em poucas linhas, é este o contexto que circunda o objeto: nas duas pri-
meiras décadas dos 1900, uma atmosfera de modernização paira sobre os centros
urbanos brasileiros, e desta não escapará Salvador (FERNANDES E GOMES, 1992;
PINHEIRO, 2011). Os valores arquitetônicos e urbanísticos acompanham os ideais
mais profundos do higienismo e do projeto nacional pautado pelo branqueamento
(HOFBAUER, 2006; JACINO, 2008). Não por acaso, são os territórios negros os
primeiros espaços a sofrerem diretamente as contradições das expulsões motivadas
pelo afã de modernizar a cidade (ROLNIK, 1989).

O objeto desta proposta são as práticas de gestão do poder público


municipal sobre os trabalhadores de rua, compreendendo-nas como dimensões
da gestão de cidades negras. A metodologia da análise documental qualitativa
(FARGE, 2009; CELLARD, 2014) se propõe a compreender o documento em sua
dimensão profunda, auxiliando no entendimento qualitativo de um fenômeno
social, adicionando a complexidade da questão temporal. Os documentos utili-
zados foram, além da legislação do município, pareceres de comissões e relatórios
de instituições de fiscalização do trabalho de rua, como a Guarda Municipal, a
Diretoria de Fiscalização e a Inspetoria de Higiene.

Dessa forma, o que se pretendeu foi tematizar o jurídico além da legis-


lação – e, também, além do legislativo – para ampliar o entendimento até as
instituições. Utiliza-se a ideia de governamentalidade (FOUCAULT, 2008) como
instrumento teórico para tematizar o Estado e suas relações com os indivíduos
– no recorte específico, o Estado na figura do poder municipal, e os indivíduos
como os trabalhadores de rua. Em que pese a formulação foucaultiana se di-
recione a compreender uma forma de governamentalidade liberal no contexto

280
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

europeu, entendemos que sua instrumentalidade analítica fornece referências de


grande relevância.

Quanto aos resultados, eles podem ser pensados como as formas de


gestão da cidade baseadas no branqueamento do espaço pelo poder público. O
higienismo, que renova e repensa uma forma de controle dos corpos negros, é
sustentáculo da gestão da cidade, e com ele se promovem também novas formas
de estabelecer diferenciações entre cidadania(s). Além do controle do corpo, a
gestão também se faz através de um controle sobre as miudezas do cotidiano,
que, aplicadas ao contexto do trabalho de rua, se traduzem nas inadequações
dos instrumentos de trabalho, que denunciam o caráter arcaico e “africanizado”
do trabalho de rua, aos olhos das elites da época.

As reações do poder público e de outros setores sociais quanto à per-


manência e resistência do trabalho de rua são dimensões importantes para com-
preender a peculiar configuração do início do século XX, especialmente numa
cidade em que a população negra persiste como relevante componente racial
e social. Salvador se mostra como um exemplo privilegiado para compreender
a gestão da cidade e as peculiaridades locais a partir das quais o projeto de
branqueamento inevitavelmente procurou se adaptar.

Referências bibliográficas
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CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

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282
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

MEMÓRIA POR DIREITO(S):


A COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE
SOBRE A ESCRAVIDÃO NEGRA
NO BRASIL E O RACISMO EM DISPUTAS SOBRE
REPARAR E ESQUECER

GABRIELA BARRETTO DE SÁ
Doutoranda em Direito - “Constituição e Democracia” Universidade de Brasília (UnB).
Mestra em Direito - “Teoria, Filosofia e História do Direito” Universidade Fcderal de Santa Catarina (UFSC/2014).
Professora Auxiliar do curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia (UNEB/Campus III).
E-mail: gabrielabsa@gmail.com

Eixo temático: 4. Cultura Jurídica e Diáspora Africana

Palavras-chave: Direito à Memória; Escravidão Negra; Racismo.

Introdução

Nas últimas décadas, reiterados esforços políticos nacionais e internacionais


no sentido de minimizar a situação de desigualdade econômica e social vivida pelas
populações afrodescendentes revelam que, apesar do fim da escravidão negra, é
difícil apontar onde principia e finda o período conhecido como “pós-abolição”
que marca a transição da condição da vida em cativeiro para a vida em liberdade.
Isto porque, a história do tráfico transatlântico de escravos é mais complexa do
que a relação individualizada entre senhor e escravo e não se resolve com as leis
que determinam a abolição.

Em atenção à necessidade de políticas públicas voltadas para a superação


do racismo e da desigualdade racial, reconhecidas como “consequências tardias”
(ONU, 2001) da escravidão, a Assembleia Geral das Nações Unidas estabeleceu
a Década Internacional dos Afrodescendentes entre 1º de Janeiro de 2015 a 31
de dezembro de 2024, sob o tema “Afrodescendentes: Reconhecimento, Justiça
e Desenvolvimento”.

283
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

No Brasil, último país do mundo a abolir a escravidão, além da legislação


infraconstitucional, a Constituição Federal de 1988 reconhece expressamente direi-
tos e garantias à população afrodescendente. Em consonância com as previsões
constitucionais, na XXII Conferência Nacional dos Advogados, num Painel Especial
intitulado Reparação da Escravidão Negra no Brasil, foi proposta a criação de uma
comissão para apurar a verdade dos fatos relacionados à escravidão. Daí que, o
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), através da Portaria
n.013/2015 , instalou a Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra (CN-
VEN) com o propósito de romper com o “silêncio sepulcral” (OAB, 2015) do
Estado brasileiro quanto ao crime de escravidão e suas consequências. A CNVEN
funcionará por dois anos e desenvolverá seus trabalhos de forma investigatória,
com o objetivo central de apresentar relatório “apto a justificar o dever de se
reparar os fatos relativos à escravidão negra” (OAB, 2015), à luz do seguinte
problema fundamental: “Quais foram, por quem foram e como foram cometidos,
os crimes que tornaram realidade, a escravização de pessoas negras no Brasil?”

Neste contexto, o problema fundamental a ser enfrentado pela pesquisa


é analisar a experiência da Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra
(CNVEN), instituída no âmbito do Conselho Federal da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB), problematizando os limites e possibilidades da tentativa de inserir
o pós-abolição no Brasil no conceito de justiça de transição.

Ao considerar o racismo enquanto realidade constituinte das instituições


e, consequentemente da produção de conhecimento por vias institucionais, bus-
ca-se ainda problematizar as condições da produção discursiva e construção de
sentidos sobre o direito à memória e verdade acerca da escravidão negra no
Brasil no âmbito da CNVEN.

Metodologia

A primeira fase da pesquisa consiste em realizar revisão bibliográfica,


partindo da análise de publicações nacionais e internacionais a respeito das expe-
riências de justiça histórica e comissões da verdade verificadas dentro e fora de
contextos de justiça transicional, com especial interesse no estudo das experiências
relacionadas à fatos traumáticos relacionados à populações negras. Na segunda
fase da pesquisa serão analisadas como fontes primárias os Relatórios Parcial e
Final da Comissão Nacional da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil.

Resultados parciais da pesquisa em andamento

Como resultados parciais da primeira fase da pesquisa em curso, destacamos


que, ao analisar criticamente o papel desempenhado pelas iniciativas no campo
da reparação de injustiças históricas, Berber Bevernage destaca as possibilidades

284
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

dos efeitos conservadores de tais práticas, em especial do risco do “maniqueísmo


temporal” caracterizado pela abordagem reducionista que tenta localizar o mal
em um momento passado que precisa ser superado. Neste sentido, a pesquisa
busca ainda refletir sobre os riscos de que a compreensão da escravidão negra
no Brasil como injustiça histórica termine por fortalecer mitos como a ausência
do racismo, uma vez que o mal do racismo já estaria superado e reparado.

A Comissão Sul-Africana “Verdade e Reconciliação”, instituída por uma lei


de 26 de julho de 1995 no bojo do processo de apuração dos crimes cometidos
durante as décadas de apartheid , ainda hoje se apresenta como experiência
de fundamental importância para as reflexões sobre as possibilidades jurídicas e
políticas de lidar com crimes praticados no passado. Por consequência abre um
vasto campo de discussão sobre a relação entre tempo e direito. (BEVERNAGE,
2010; OST, 1999)

A busca por investigar a verdade sobre os crimes cometidos no passado,


impõe para o presente o desafio de optar politicamente sobre o que fazer a partir
do acesso a tais verdades reveladas. Isto porque, ao abrir a caixa do passado, o
dever de memória e o dever de justiça podem resultar num tensionamento de
alto custo para toda a sociedade, em suas diversas esferas.

No caso da África do Sul, uma vez identificados os culpados pelos


crimes e escutadas suas confissões e relatos sobre as até então desconhecidas
circunstâncias de ocorrência dos fatos, foi necessário definir os rumos políticos
desta negociação . Em outras palavras era preciso definir “os termos do difícil
compromisso elaborado entre direitos da memória e necessidade de reconciliação
“ (OST,1999, p.140). Neste sentido, fez-se a opção por olhar a verdade de frente
e exorcizar o passado; perdoar sem esquecer. (OST, 1999, p.139).

A metafóra da anistia como ato de perdoar sem esquecer como pos-


sibilidade de desligar o passado estava prevista na Constituição Sul-Africana de
1993 (OST, 1999, p.139) se coaduna com a opção de atitude em relação ao
tempo que melhor se adequava ao propósito de possibilitar a melhor justiça para
o momento de transição entre o passado vergonhoso de uma nação marcada
pelo apartheid e o futuro de uma nação do arco-íris, marcada pelo projeto de
igualdade e reconciliação entre todos os cidadãos.

A utilização no campo das experiências de justiça transicional é uma das


características das comissões da verdade. Este momento de transição se carateriza
por se apresentar como campo limítrofe entre o projeto do passado que deve
ser superado e o projeto do futuro que deve ser construído a partir de outras
formas e marcos políticos, jurídicos e sociais. Assim, é comum que a justiça de

285
CARDENO DE RESUMOS – Cultura Jurídica e Diáspora Africana

transição tenha lugar em momentos de rupturas de regimes políticos autoritários


e violentos, a exemplo da experiência sul-africana pós apartheid.

Conclusão

A iniciativa de criação da Comissão Nacional da Verdade sobre a Es-


cravidão Negra no âmbito do Conselho Federal da OAB representa inegável
avanço rumo ao reconhecimento dos crimes praticados contra a população
negra durante a escravidão. No entanto, impõe reconhecer que a importância
do tema exige a participação ativa do Estado proporcionando material humano
e operacional, a exemplo do que ocorreu com a Comissão Nacional da Verdade
(sobre a Ditadura Militar).

Superar o racismo exige questionar os marcos positivistas e pretensamente


universais do direito moderno e assumir que os discursos sobre os direitos que
devem ou não ser protegidos são elaborados em consonância com pressupostos
profundamente excludentes. Se a defesa do direito à memória e à verdade acerca
da ditadura militar no Brasil se ancora e justifica pela concretização da democracia,
enquanto ideal moderno primordial, em oposição a um regime político violento
e autoritário, o direito de buscar a verdade e memória sobre a escravidão negra
no Brasil deve ser assumido em nome do direito a que determinados humanos
sejam reconhecidos não mais como “os outros” aos quais se naturaliza e justifica
toda sorte de sofrimentos. Ao mesmo tempo, impõe o compromisso do Estado
em abandonar discursos idealistas e reconhecer a assimetria das relações sociais
na qual a nossa subjetividade moderna foi forjada.

Referências bibliográficas
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memória do cativeiro, patrimônio cultural e direito à reparação. IberoAmericana,
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Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil e designa os membros.

286
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

ORGANIZAÇAO DAS NAÇOES UNIDAS (ONU). Resolução 68/237 da Assembléia


Geral. Década Internacional Afrodescendente. 23 dezembro 2013.
OST, François. O tempo do Direito. Lisboa: Piaget, 1999.

287
RESUMOS

HISTÓRIA CONSTITUCIONAL
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A TOLERÂNCIA E AS LIBERDADES
DAS RELIGIÕES SOB A ÓTICA
DA TEORIA CRÍTICA HISTÓRICO-CONSTRUTIVISTA
DOS DIREITOS HUMANOS

BRENNER T. ROCHA
Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo
Mestrando em Direito pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
E-mail: brenner.toledo@gmail.com

Eixo Temático: História constitucional

Palavras-chave: Tolerância religiosa; Teoria Crítica Construtivista; Direitos


Humanos.

Introdução

Submersos em uma cultura hegemônica ocidental judaico-cristã, os con-


ceitos construídos em defesa das liberdades religiosas no processo constitucional,
em que pese abstratamente segreguem Estado de religião, ainda não se mostram
suficientes para eliminar as assimetrias e os status privilegiados de determinados
seguimentos. A tradição judaica e cristã (católicos e não católicos) influencia
no calendário, no ritmo de vida, e na estruturação de pensamento ocidental: à
hegemonia, toda proteção jurídica, reconhecida na qualidade cultural e religiosa;
aos seguimentos minoritários, a luta pelo reconhecimento.

Apesar de não se tratar de um estudo em História, mas na ciência jurí-


dica, é importante reconhecer, como método de trabalho inicial, a historicidade
da liberdade religiosa construída na transição para o Estado moderno liberal, o
destinatário das liberdades defendidas pelo liberalismo de John Locke. O caminho
de análise do pensamento jurídico será conforme as teorias filosóficas de libertação
latino-americanas e a filosofia comunicativa em Jürgen Habermas.

291
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

Metodologia

Na primeira seção, será abordada a formação da tolerância religiosa euro-


peia, da transição para a Idade Moderna, e a consolidação dos ideais burgueses
na Idade Contemporânea por meio das revoluções americana e francesa, com a
análise de dois autores clássicos que influenciaram esses movimentos: John Locke
e Montesquieu. Será observado o efeito da secularização após as revoluções bur-
guesas em contraposição ao quadro de diversidade religiosa no mundo.

Na segunda seção será realizado um resgate das críticas da teoria de


libertação, instrumento de reflexão entre a disparidade teórica dos Direitos Hu-
manos e a sua práxis. Mostrar-se-á a questão da tolerância no país e a incipiente
tentativa de regresso ao espaço público das discussões políticas, canal importante
que ainda não é aproveitado no país.

Resultados parciais

Para compreender o complexo significado do laicismo moderno e das


liberdades religiosas hoje explicita e implicitamente amparados pelos movimentos
constitucionais modernos ocidentais, é preciso realizar um resgate histórico ao
surgimento das ideias de segregação entre Estado e Igreja. Esse regresso objetiva
compreender a dinâmica hermenêutica dos conceitos construídos hodiernamen-
te em Direitos Humanos, processo pelo qual Alejandro Rosillo Martínez (2008),
ao reinterpretar as filosofias da libertação, descreve como um dinamismo de
atualização de possibilidades, dado a existência de uma estrutura aberta própria
da existência histórica humana. A filosofia crítica assume a responsabilidade de
desvendar o falso, o injusto e o desigual em uma ideologia hegemônica em um
sistema social, e não de um esforço de meramente observar pelo decurso do
tempo a construção de um conceito.

O laicismo e a tolerância são soluções para as disputas internas de po-


der e influência das comunidades cristãs. A liberdade religiosa interessa como
forma de proteger aos demais direitos fundamentais por Locke pregados: a vida
e os bens civis. Enquanto não houver perturbação da paz pública, defende, não
haveria porque o Estado interferir. A questão da tolerância em Montesquieu é
contraditória: ao passo que defende que o Estado deva tolerar várias religiões e
fazê-las tolerarem-se mutuamente, também defende que,
Porque uma religião que pode tolerar as outras não pensa em sua
propagação, será uma lei civil muito boa a que determine que, quando
o Estado estiver satisfeito com a religião já estabelecida, não tolere o
estabelecimento de outra”. (Montesquieu, 1996:493).

292
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Conclui que um Estado pode ou não admitir o estabelecimento de uma


religião, mas que ao aceita-la, deve tolerá-la.

A obra política de Montesquieu influenciou as revoluções ocorridas no


final da Idade Moderna, sedimentando os ideais iluministas: a guerra de indepen-
dência estadunidense e a Revolução Francesa em 1789, esta última encerrando
o período histórico e introduzindo o mundo na Idade Contemporânea. As duas
revoluções, no aspecto político ocidental, na visão de Fábio Konder Comparato
(2010:63), representaram a reinvenção da democracia,
fórmula encontrada pela burguesia para extinguir os antigos privilégios dos
dois principais estamentos do ancien régime – o clero e a nobreza – e
tornar o governo responsável perante a classe burguesa.

Tanto a revolução americana quanto a revolução francesa formam pre-


cedentes para secularização, necessários para as classes médias que impunham
suas necessidades aos movimentos de massa. A tendência era de secularização
das estruturas, de afastamento das questões religiosas do espaço público: as duas
revoluções serviram de moldes para as demais seguintes, e afastar a discussão
pública das religiões era instrumento de garantia de sucesso das demandas, para
penetrar a vontade das massas.

Já no Brasil, o processo de aceitação de outras denominações religiosas


pelo Estado no Brasil é relativamente recente, com a transição da monarquia
para a república pela Constituição de 1891. Até então, pela égide da Constituição
de 1824 – expressamente no seu Art. 5º, apenas a “Religião Catholica Apostolica
Romana” era aceita pelo Império, na esfera pública; tolerava-se o culto doméstico,
desde que não se expressasse na forma de templo ou manifestar-se publicamente.
Os apontamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística demonstram que
no início da República 98,9% da população se declarava como católica, restando
1% como evangélica e 0,1% como não religiosos. Em cem anos de república, os
dados de 1991 demonstram uma expressiva mudança: 84,1% declaram-se católicos,
9% evangélicos, 1,5% espíritas e 5,1% como não religiosos. Já no Censo de 2010,
além da redução proporcional em relação ao total da população ao longo dos
cem anos, houve uma novidade – a redução em termos absolutos da quanti-
dade de católicos no país em relação ao censo anterior, uma queda quase 1,7
milhão de pessoas. Nesse último censo, 64,6% consideraram-se católicos, 22,2%
evangélicos, 2% espíritas, 0,3% umbandistas e candomblé, e 8% de não religiosos.

Se a tolerância religiosa, como ficou demonstrada anteriormente, foi histori-


camente uma aspiração entre as denominações protestantes frente ao Catolicismo,
o pensamento laico das proteções às suas liberdades imbricadas pode levar ao
não reconhecimento das crenças minoritárias, como as matrizes africanas. Esse
pensamento, que no pós-revolução afastou dos espaços públicos a discussão

293
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

religiosa, implica também no distanciamento das origens do laicismo, na aceitação


de um establishment que segrega as demais crenças.

Observa Rubio (2015), ao abordar a teoria crítica construtivista dos Direitos


Humanos, que o discurso universalista dos Direitos Humanos, aliados ao contexto
de globalização, conseguiu um status político e moral inquestionáveis, enquanto
linguagem hegemônica sobre a dignidade da pessoa humana. Entretanto, esses
mesmos valores universalizados são incorporados de forma assimétrica entre os
países centrais, desenvolvidos, e os países periféricos, subdesenvolvidos. Essa dis-
paridade decorre tanto no âmbito internacional, da dificuldade de reconhecer e
aceitar o estrangeiro em face do nacionalismo e da identidade geográfica, bem
como internamente, por razões de exclusões sociais como classe, renda, religião,
cor. Assim,
Es decir, la universalidad de los derechos humanos se construye sobre
discursos que defienden inclusiones en abstracto de todas las personas,
pero sobre la base trágica y recelosa de exclusiones concretas, individuales
y colectivas (RUBIO, 2015:185).

Conclusão

A razão comunicativa é orientadora nas pretensões de validades, recons-


truindo um exercício para julgar a realidade constitucional: conhecer as intenções
do autor do discurso e participar da construção do discurso. Parte-se da força
social que cria os processos racionais do consenso. “Qualquer idealização gera
conceitos sobre a adaptação mimética a uma realidade dada e carente de um
esclarecimento” (HABERMAS, 1997:27). Nesse sentido, a exclusão da religião espaço
público implica em afastá-la também do locus discursivo, âmbito de formulação
de conceitos universais porém com intenções concretas excludentes.

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294
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

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295
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

TEORIA CONSTITUCIONAL BRASILEIRA:


UMA HISTÓRIA A SER CONTADA?

WINGLER ALVES PEREIRA


Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Federal Fluminense (PPGDC/UFF)
E-mail: wingler@gmail.com

Eixo temático: História Constitucional

Palavras-chave: História Constitucional Brasileira

Introdução

A pesquisa, que é parte da minha dissertação defendida no Programa


de Pós-Graduação em Direito Constitucional da Universidade Federal Fluminense
(PPGDC/UFF), consistiu em revelar o atual e dominante pensamento jurídico bra-
sileiro sobre a história constitucional do país. Por meio da análise das leituras mais
frequentes nos cursos de Direito das Universidades Públicas mais conceituadas do
país, segundo a avaliação da Ordem dos Advogados do Brasil, o trabalho empírico
compreendeu o levantamento dos manuais e livros mais utilizados nas disciplinas
de Teoria da Constituição, e a análise dos seus marcos teóricos. O objetivo es-
pecífico do trabalho foi discutir os resultados a partir de sua correlação com o
marco teórico do pensamento político brasileiro, como sugerem, em especial, os
estudos de Alberto Guerreiro Ramos. Em suma, a partir do método dialético e
de análise de conteúdo das obras de Direito Constitucional mais utilizadas pelos
principais cursos jurídicos do país, a pesquisa buscou entender, a partir destas
fontes primárias, como a história constitucional brasileira é vista atualmente pela
intelectualidade jurídica do país.

Teoria constitucional brasileira: uma história a ser contada?

Nas últimas décadas, o estudo do pensamento político e social brasileiro


apresentou uma expansão significativa nas ciências sociais e na Ciência Política.
A literatura especializada indica que essa ampliação pode ser medida tanto pelo
aumento expressivo do número de dissertações e teses defendidas nos programas
de pós-graduação quanto pelo crescimento do número de artigos destinados ao
tema, bem como pelos trabalhos apresentados nos congressos da Associação Na-

297
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

cional de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Associação Brasileira de Ciência


Política e da Sociedade Brasileira de Sociologia (LYNCH, 2013: 727).

No estudo do imaginário político e social brasileiro há a linha específica


relacionada à análise do pensamento do intelectual periférico. Esta vertente busca
estudar a consciência que estes pensadores fazem da sua própria realidade, dos
seus problemas, em diálogo com o que é pensado nos países “desenvolvidos”. A
questão central deste tipo de estudo consiste em discernir se o intelectual da
periferia busca soluções para os problemas de seu país a partir de sua própria
história, de sua sociedade de passado colonial, em diálogo com o que acontece
nos países “centrais”, ou se suas ideias são aqui transplantadas do mundo “civilizado”
sem um confronto com as circunstâncias particulares de seu meio.

O trabalho buscou trazer esta problemática para o campo do Direito,


mais especificamente por meio do diagnóstico do pensamento constitucional
brasileiro contemporâneo. Assim, haja vista o problema delimitado quanto ao
modo de pensar no mundo periférico, o marco teórico da pesquisa centrou-se
(i) na ideia do imaginário colonial dominante no pensamento político e social
brasileiro, como sugerem os estudos de Alberto Guerreiro Ramos (1957; 1960;
1983; 1995; 1996), e (ii) nas pesquisas mais recentes sobre este mesmo assunto
realizadas por Christian Lynch (2013; 2015).

Assim, o objetivo geral da pesquisa consistiu em compreender qual seria o


imaginário constitucional brasileiro dominante na atualidade, e mais especificamente
se este imaginário é autêntico ou apenas uma imitação de ideias importadas de
países usualmente considerados mais “modernos”. O trabalho almejou, portanto,
entender a situação do pensamento constitucional dominante na intelectualidade
jurídica do país. Nesse passo, o trabalho buscou responder a seguinte questão:
o pensamento constitucional da intelectualidade brasileira é orientado por uma
concepção alienada da sua história? Nessa parte, pretendeu-se avaliar se esse
ideal de constitucionalismo é pautado por uma lógica colonial, de acordo com o
marco teórico adotado, inclusive no que diz respeito ao conceito de “alienação”.

Dada a amplitude desse imaginário, o objetivo específico do trabalho


consistiu em analisar o pensamento constitucional no ensino da graduação em
Direito. Do universo do ensino jurídico da graduação, a pesquisa considerou es-
pecificamente a matéria do Direito Constitucional que tem a capacidade de ao
mesmo tempo vislumbrar ideologias e imaginar instituições políticas e jurídicas:
a história da teoria constitucional, tomada como o estudo dos paradigmas que
definem o conceito de constituição, isto é, a explicação da essência do seu ser.
Além disso, a história constitucional é um dos pontos mais ligados às ciências
afins ao Direito, como a Ciência Política.

298
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Ainda quanto ao seu objetivo específico, a pesquisa buscou investigar


(i) quais são os constitucionalistas que figuram como paradigmáticos da história
constitucional nos livros mais utilizados pelos cursos de Direito, (ii) se eles são
brasileiros ou estrangeiros, (iii) se fazem parte da história e da política brasileira
ou da história e da política de outros países, (iv) se a produção teórica nacional
é adotada como teoria da constituição, (v) se há privilégio de teorias alienígenas,
e (vi) qual a relação entre a teoria constitucional brasileira e a estrangeira.

No aspecto metodológico, para a análise do pensamento constitucional


brasileiro, e mais especificamente para a investigação do imaginário da história
constitucional presente no ensino jurídico, o trabalho utilizou, como visto, fontes
primárias, em um procedimento de coleta de dados e de análise de conteúdo
dos manuais e livros de Direito Constitucional utilizadas nos principais cursos
de Direito do país. Além disso, o trabalho desenvolveu, por meio do método
dialético, uma pesquisa interdisciplinar do tema, orientanda por um raciocínio
não só jurídico, mas também político e social, essenciais para uma abordagem
não dogmática do assunto.

O trabalho foi divido em três partes. Em primeiro plano, apresenta o


marco teórico adotado sobre o imaginário colonial dominante no pensamento
político e social brasileiro, sobretudo com base nos estudos de Alberto Guerreiro
Ramos (1957; 1960; 1983; 1995; 1996) e Christian Lynch (2013; 2015). A partir
deste marco teórico, e a fim de trazer essa problemática para o campo do pen-
samento constitucional brasileiro, na segunda parte são detalhados os métodos
para a coleta das obras de Direito Constitucional mais utilizadas pelos cursos de
Direito selecionados pela pesquisa. A análise de conteúdo destas obras é descrita
na parte subsequente, e última, do trabalho. Assim, em seu terceiro e derradeiro
momento, são analisados os referenciais teóricos de cada obra selecionada quanto
à história constitucional, com o intuito de compreender quais são os paradigmas
dominantes.

Conclusão

O trabalho mostrou, ao final, que o pensamento do jurista brasileiro a


respeito da história constitucional é, em regra, uma reprodução quase que ex-
clusiva de ideias e teorias importadas de países usualmente considerados mais
modernos e avançados. Nesse sentido, a pesquisa apontou, em conclusão, para
o imaginário colonial que predomina no atual pensamento jurídico do país, a
partir da negação de sua história constitucional.

Referências bibliográficas
ARAUJO, Luiz Alberto David; JÚNIOR, Vidal Serrano Nunes. Curso de Direito
Constitucional. 15. ed. São Paulo: Verbatim, 2011.

299
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

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300
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA FÉ PARA
A PROPAGAÇÃO DE UMA IDÉIA SEBASTIANISTA
DE CONSTITUIÇÃO NO LIMIAR
DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

GABRIEL LIMA MARQUES


Doutorando em Direito Público na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.
Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
Especialista em Direito e Saúde pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca – ENSP
da Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ.
Bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.
Professor (40H/DE) de Direito Constitucional e Administrativo da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP. E-mail:
gabriel-marques@hotmail.com.

Eixo Temático: História Constitucional.

Palavras-Chave: Constituição; Religião; Sebastianismo.

Resumo

É já fato há um bom tempo para a historiografia brasileira que no mo-


vimento político da independência do Brasil houve uma intensa participação do
clero católico. Levantamentos dão conta de que quando das cortes de Lisboa –
onde alimentada ainda a utopia do poderoso império luso-brasílico – 26 padres
foram escolhidos para representar os interesses das províncias brasileiras junto a
metrópole. Já em outro momento, mais precisamente quando desfeito aquele
sonho e convocada logo a seguir a primeira constituinte, de um total de 100
deputados, 22 eram sacerdotes (BARBOSA, 1973, p. 52).

Tal volume se explica, pois como em Portugal e por consequência em


seu maior território – o Brasil – as ideias típicas do Século das Luzes conviveram
sobremaneiramente mitigadas pela valorização da religião como a forma mais
elevada do conhecimento (NEVES, 2003, p. 27). Coube, portanto, à instrumen-
talização da fé cristã, entre a revolução do Porto de 1820 e a outorga da carta
política de 1824 – período que retém a atenção do presente trabalho – o papel
de transmitir as novidades liberais.

301
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

Assim sendo, palavras como “Constituição” – o que poucos no Brasil es-


tavam acostumados a lidar em sentido – era tanto a ordem do dia em inúmeros
sermões de religiosos, tal qual o proferido em 1821 por um Cônego da Capela
Real no Rio de Janeiro, conforme se vê no trecho a seguir:
Constituição, senhores, é o baluarte da inocência, o prêmio do merecimen-
to, a hipoteca da segurança pública, o fiador da propriedade individual, o
sacrário da bem entendida liberdade, o refúgio dos miseráveis, o brasão
do sábio, o pergaminho da verdadeira nobreza da nação. Constituição é
a defesa do Estado, o apoio do trono, a escala da grandeza, a melhor
herança do povo, o nível da perfeita igualdade cívica. Constituição é o
código universal da sociedade, a regra infalível da justiça, o Evangelho
político da Nação, o compêndio de todas as obrigações, o manual coti-
diano do cidadão (NEVES, 2003, p. 151).

Quanto era igualmente assunto central em inúmeros periódicos e fo-


lhetos que ilustravam as concepções de seus redatores – religiosos ou não – a
partir da arraigada catolicidade popular. Caso da paródia intitulada “Padre Nosso
Constitucional”, que dispunha:
Constituição portuguesa, que estás em nossos corações, santificado seja
o teu nome, venha a nós o teu regime constitucional, seja feita sempre
a tua vontade, um melhoramento de agricultura, navegação e comércio
nos dá hoje e cada dia; perdoa-nos os defeitos e crimes passados, assim
como nós perdoamos aos nossos devedores, que não nos podem pagar,
não nos deixes cair em tentação dos velhos abusos, mas livra-nos destes
males, assim como do despotismo ministerial, ou anarquia popular. Amem
(NEVES, 2003, p. 41).

Em ambos os casos, porém, salta aos olhos uma leitura messiânica da


Constituição. E explicar a razão disso, realidade que como dito, se deu através
do manejo da fé – porque fonte dos termos e da linguagem para a formulação
de ideias naquela época e naquele lugar (COELHO, 2012, p. 100) – trata-se do
objeto do presente trabalho.

O que vale dizer, colhidos os primeiros resultados de uma pesquisa ini-


cial, alcançou-se como retorno ao problema proposto a hipótese disso se dar
por uma cultura social, tipicamente portuguesa, de contestação das dificuldades
(LIMA, 2005, p. 237). Quer dizer, a ideia orientadora, portanto, será confirmar
com base em bibliografia especializada, sermões de religiosos e semanários ou
periódicos publicados – tudo isso quanto aos procedimentos metodológicos
adotados, permitindo classificar a presente investigação como bibliográfica e do-
cumental – que apesar de toda a perseguição pombalina perpetrada contra o
mito milenarista-sebastianista, ou em outras palavras, ao culto de algo ou alguém
que seria a solução de todas as mazelas e que instauraria um tempo de justiça,
felicidade e paz em terras lusas. Tal modo de observar o mundo, sempre revivido

302
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

em momentos de crise em Portugal, como foram os períodos da Restauração,


da invasão napoleônica, e mais especificamente, mediante as consequências des-
te último evento, o próprio vintismo (AZEVEDO, 1990, p. 93). Também esteve
presente no movimento constitucionalista luso-brasileiro do primeiro quartel do
século XIX, e influenciou sob o manto da fé, os seus rumos.

Referências Bibliográficas
AZEVEDO, João Lúcio. A evolução do sebastianismo. Lisboa: Presença, 1990.
BARBOSA, Francisco de Assis. A Igreja e a independência. In: Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro. Vol. 298. Janeiro-Março, 1973.
COELHO, Luiz Felipe Alves Guimarães. Os reinos de Daniel: profecia e política
em Portugal e na Inglaterra do século XVII. Dissertação de Mestrado em História
Social. Universidade Federal Fluminense – UFF, 2012.
LIMA, Luís Felipe Silvério. O império dos sonhos. Narrativas proféticas, sebastianismo
e messianismo brigantino. Tese de Doutorado em História Social. Universidade de
São Paulo – USP, 2005.
NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Corcundas e Constitucionais. A cultura
política da independência (1820-1822). Rio de Janeiro: Revan, 2003.

303
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

EPITÁCIO PESSOA E O CONSTITUCIONALISMO


ESTADUAL

ANA RAFAELA PESSOA ALCOFORADO ALCOFORADO


Graduanda em Direito pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB
E-mail: anarafa_alcoforado@hotmail.com

MARCÍLIO TOSCANO FRANCA FILHO


Professor da Universidade Federal da Paraíba - UFPB
E-mail: mfilho@tce.pb.gov.br

Eixo temático: História Constitucional.

Palavras-chave: Direito Constitucional; Paraíba; Epitácio Pessoa.

Introdução

Com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a fe-


deração foi declarada, pelo Decreto nº 1, como forma de organização provisória
da nação brasileira, de modo a determinar que as antigas províncias, agora uni-
das pelo vínculo federativo, passassem a constituir os Estados Unidos do Brasil,
cada uma delas com autonomia e constituição próprias. Com a promulgação
da primeira Carta Magna republicana, em 1891, as assembleias constituintes das
antigas províncias iniciaram as suas reuniões, não tardando mais de seis meses a
partir da Constituição nacional até que todos os estados-membros tivessem suas
respectivas cartas. Nesse ínterim, no estado da Paraíba, a figura de um jovem
jurista e legislador, que não fazia parte da constituinte estadual, mas que, pouco
antes, fora eleito deputado na Assembleia Constituinte Nacional, elaborou um
projeto de Constituição estadual que influenciou em demasia a carta paraibana.
O caráter fortemente parlamentar de Epitácio Pessoa era, assim, mais uma vez
demonstrado, e sua importância para o início da formação da república no âmbito
nacional e estadual era afirmado.

Metodologia

A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica e documental, uma


vez que esta possibili-ta a análise de papéis de então e de agora, de modo a
viabilizar o conhecimento do passado mas tam-bém novas visões, interpretações,

305
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

analogias e questionamentos que enriqueçam o tema abordado e propiciem a


formulação de conclusões até então não obtidas. Por conseguinte, um estudo
comparativo foi feito entre o projeto de constituição estadual apresentado por
Epitácio Pessoa ao governo da Paraí-ba, em 13 de maio de 1891, e a primeira
Carta-Magna republicana da Paraíba, promulgada em 5 de agosto de 1891, pelo
viés da importância que o jurista possui e de seu destaque enquanto parlamentar.

Resultados

O CONSTITUCIONALISMO ESTADUAL

Pelo Decreto n.º 802, de 4 de outubro de 1890, o Governo Provisório do


Brasil estabeleceu que assembleias estaduais fossem convocadas até abril de 1891,
a fim de aprovarem suas respectivas cartas constitucionais. Os estados recebiam,
desse modo, sua competência constituinte derivada. Algumas Cartas estaduais
começaram a ser discutidas enquanto ainda se elaborava a Constituição da Re-
pública de 1891 – nenhuma, contudo, fora aprovada antes da nova Constituição
Federal. Com efeito, a última Constituição estadual a ser aprovada foi a da Paraíba,
editada em 5 de agosto do mesmo ano.

AS PRIMEIRAS CONSTITUINTES NACIONAL E PARAIBANA

Após a promulgação da primeira carta magna republicana do Brasil, em


24 de fevereiro de 1891, cabia aos estados-membros se organizarem politicamente.
Na Paraíba, a constituinte foi convocada em março do mesmo ano, composta
majoritariamente por advogados, magistrados e médicos de grande evidência
política na antiga Província. Epitácio Pessoa, nessa mesma altura, não era consti-
tuinte estadual mas já era um ator político importante. Pouco antes, o bacharel
em direito e ex-promotor fora eleito deputado federal constituinte. No Rio de
Janeiro, durante a Assembleia Nacional Constituinte, discutiu com destreza temas
sensíveis como a representatividade das bancadas estaduais, como as mazelas das
fraudes eleitorais que contaminam a legitimidade do voto popular, como a defesa
da autonomia estadual e como a hipertrofia do Poder Judiciário e a concentração
de poderes nas mãos do Executivo.

O PERFIL LEGISLADOR DE EPITÁCIO PESSOA

Nascido em 23 de maio de 1865 na cidade de Umbuzeiro, no interior


árido da Paraíba, Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa fora um dos mais atuantes
parlamentares eleitos pela Paraíba para a Câmara Federal e, depois, para o Senado
da República.Apesar das passagens pelo Executivo e pelo Judiciário, foi no papel
de legislador que Epitácio se sentiu mais á vontade. A face legislativa de Epitácio
Pessoapôs-se a mostra não apenas nos mandatos que ocupou no Congresso

306
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Nacional, como Deputado da primeira legislatura republicana (entre 1891 e 1893)


e Senador por dois mandatos (de 1912 a 1919 e de 1924 a 1930),mas também
quando, enquanto Ministro da Justiça de Campos Sales, redigiu o Código do
Ensino e investiu grande esforço na feitura do Código Civil por Beviláqua; quando,
enquanto Ministro do Supremo Tribunal Federal, discutiu o regimento interno da
Suprema Corte e exarou votos incontornáveis sobre a melhor compreensão do
legislador constitucional; quando, na Presidência da República, propôs projetos
legislativos importantes para o desenvolvimento nacional e quando, ainda secretário
do presidente Venâncio Neiva, redigiu um inovador projeto de constituição para
o estado da Paraíba do Norte.

O PROJETO DE CONSTITUIÇÃO DE EPITÁCIO PESSOA E A CONSTI-


TUIÇÃO ESTADUAL DE 1891

Ainda que não tenha feito parte da Assembleia Constituinte estadual,


Epitácio Pessoa – bacharel em Direito pela Faculdade do Direito do Recife e
ex-promotor de justiça – elaborou um esboço de projeto de Constituição para
o estado da Paraíba durante o exercício de sua função de secretário do então
governador Venâncio Neiva. O fez por iniciativa própria, possuindo o intuito de
poupar aos constituintes o estudo comparativo e o trabalho de unificação ao
qual se submeteu. As similaridades entre o projeto compilado por Pessoa e a
Constituição Paraibana de 1891, promulgada em 5 de agosto, estão presentes em
quase todos os capítulos dos textos. Havia também, entretanto, pontos dissonantes.
Um desses pontos é a sugestão, feita por Epitácio em seu projeto, de que cada
município elegesse um deputado à assembleia estadual, de maneira análoga ao
voto distrital, sistema eleitoral de maioria simples proposto no Brasil, pelo qual
cada parlamentar é eleito individualmente nos limites geográficos de um distrito
pela maioria dos votos.

Assim como Epitácio concebia que todos os estados-membros possuíam


os mesmos direitos e deveriam gozar das mesmas prerrogativas, acreditava que
essa igualdade também se aplicava aos municípios, não aceitando que apenas
algumas das cidades maiores decidissem sobre a política do estado como um
todo. Tal raciocínio, entretanto, não fora espelhado na Constituição paraibana, que
não possuía qualquer dispositivo de proteção aos municípios no que diz respeito
à participação legislativa. Destarte, as disposições acerca das leis e resoluções
estaduais foram mantidas com notável similaridade ao projeto apresentado. As
atribuições postas ao Congresso estadual e ao representante do Poder Executivo
do estado, o governador, enquadram-se também nessa situação: embora tenham
sido expandidas, permaneceram com diversos dispositivos similares, senão idênticos,
ao esboço apresentado pelo então secretário do governador da Paraíba. O capí-
tulo sobre legislativo estadual, a título exemplificativo, passara a dizer respeito ao
julgamento de membro dos outros dois poderes por crimes de responsabilidade.

307
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

O mesmo ocorre com os capítulos sobre o Poder Judiciário, com uma delimitação
estrutural próxima a idêntica, com algumas peculiaridades entre si.

Acerca dos municípios, Pessoa já determina de antemão em seu esboço


a quantidade populacional que os determinariam, sendo esta de dez mil pessoas.
Além disso, sugere também que haja uma proporcionalidade na quantidade de
membros de cada Conselho Municipal de acordo com sua respectiva população.
Nenhuma dessas duas determinações foram acolhidas pela Assembleia Constituinte
do estado, que não dispôs população e unificou a quantidade de sete membros
em todos os municípios que não a capital. As competências do Conselho, além
de outras especificações acerca da administração municipal, foram expandidas,
mas permaneceram iguais em essência.

Uma grande distinção entre a carta-magna aprovada e o esboço apresen-


tado a Venâncio Neiva é o Título VII, acerca dos direitos dos cidadãos paraibanos.
Enquanto Epitácio os menciona sucintamente no art. 4º de seu projeto1, a primeira
Constituição estadual reservou 22 parágrafos para os especificar, expandindo-os e,
portanto, garantindo um maior leque de direitos constitucionais. A liberdade de
expressão, a proibição de prisão sem flagrante delito e sem trânsito em julgado e
a priva-cidade de cartas são algumas das garantias que foram acrescidas. Finalmen-
te, acerca das disposições gerais e transitórias, as distinções com o sugerido pelo
então ainda secretário, mas já exímio parla-mentar, são mínimas, em sua maioria
gramaticais. A semelhança entre os dois textos evidencia o dom legiferante de
Epitácio Pessoa, legislador por uma vida inteira, seja dentro ou fora do Parlamento.

Conclusão

Epitácio Pessoa é figura de grande importância na história político-jurídica


nacional. Transpassando honrosas posições da vida pública nacional e estrangeira,
sempre demonstrou gosto especial pela atividade legislativa. Em particular legou
contribuições relevantes para as primeiras cartas constitucionais republicanas de
sua nação e de seu estado natal – tenham sido elas diretas, com a participação
na Assembleia Nacional Constituinte, ou indiretas, com a apresentação de um
esboço acolhido em quase que totalidade.

Referências bibliográficas
FERNANDES, Flávio Sátiro. História constitucional da Paraíba. 2. ed. Belo Horizonte:
Fórum, 2009.
GABAGLIA, Laurita Pessoa Raja. Epitácio Pessoa. 2. vols. Rio de Janeiro: José
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1 Art. 4º - Aos nacionais e estrangeiros residentes no território do Estado é garantida a inviolabilidade dos
direitos com-cernentes à liberdade, à segurança individual e à propriedade nos mesmos têrmos que assegura
a Constituição Federal.

308
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

MELLO, José Octávio de Arruda. Epitácio Pessoa (Col. Perfis Parlamentares 7).
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TRIGUEIRO, Oswaldo. Direito constitucional estadual. 1 ed. Rio de Janeiro: Forense,
1980.

309
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

PENSAMENTO FINANCEIRO E TRIBUTÁRIO


NA PRIMEIRA REPÚBLICA: UM ESTUDO
SOBRE A PRODUÇÃO INTELECTUAL E A TRAJETÓRIA
POLÍTICA DE INOCÊNCIO SERZEDELLO CORRÊA

PRISCILA, P. P. GONÇALVES
Universidade Federal Fluminense (UFF)
E-mail: priscilapetereit@id.uff.br

Eixo Temático: História Constitucional

Palavras-chave: Pensamento Político-Econômico; Serzedello Corrêa; Pri-


meira República.

Introdução

O tema de pesquisa tem como objetivo debater as ideias de Inocêncio


Serzedello Corrêa em torno das questões fiscais e econômicas que permearam
o início da Primeira República. Serzedello Corrêa, nascido no estado do Pará,
teve um papel relevante na política econômica da recém República brasileira,
sendo um dos principais porta-vozes do debate sobre os rumos da economia no
país. Em 1890 foi eleito deputado constituinte, representando o estado do Pará
no Congresso Constituinte de 1890-1891. Já neste primeiro momento teve um
papel de destaque quando o tema em discussão tratava da temática financeira
e tributária do país.

Posteriormente, o engenheiro passou a integrar importantes cargos no


cenário político como, por exemplo, de Ministro das Relações Exteriores e Mi-
nistro da Fazenda, ainda no governo de Floriano Peixoto. Pode-se observar que
a sua política econômica e financeira se pautou no estímulo à industrialização,
com tarifas protecionistas e facilidades de crédito, sem perder de vista o controle
da especulação e da inflação. Na qualidade de Ministro da Fazenda também
empreendeu a reforma bancária, com a fusão dos bancos da República e do
Brasil, bem como iniciou uma campanha para a instalação do Tribunal de Contas.

311
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

Neste sentido, a partir da análise do texto “O problema econômico no


Brasil”, produzido por Serzedello Corrêa em 1903, bem como através da leitura de
seus Relatórios, na qualidade de Ministro da Fazenda, e de seus discursos proferi-
dos no Congresso Constituinte de 1890-1891, pretende-se investigar a produção
intelectual e a trajetória política de Inocêncio Serzedello Corrêa.

Desta forma, acredita-se que o estudo aprofundado do citado político


brasileiro, bem como de sua produção na área econômica e em torno do Direito
Tributário possa nos revelar uma vertente do pensamento político-econômico
nascente na Primeira República, mostrando, assim, a permeabilidade e a necessi-
dade de estudos que relacionem Política, Direito e História.

Fontes da Pesquisa

O presente trabalho analisará as seguintes fontes primárias (i) o texto


“O problema econômico no Brasil”, escrito por Serzedello Corrêa em 1903; (ii) os
Relatórios produzidos por Serzedello Corrêa, na qualidade de Ministro da Fazen-
da; e, por fim (iii) os discursos proferidos por Serzedello Corrêa no Congresso
Constituinte de 1890-1891.

Serzedello Corrêa foi um dos principais expoentes do debate travado nas


primeiras décadas republicanas sobre os rumos do pensamento econômico-finan-
ceiro, da tributação e da sociedade brasileira. A produção intelectual do autor
sobre matéria econômica está reunida nos artigos do livro “O problema econômico
do Brasil”, publicados originalmente em A Tribuna, em 1903.

O principal objetivo da sua obra era indicar ou sugerir alguns caminhos


para a promoção de uma “evolução social e econômica” do país. Neste momento
de estabilização do regime republicano, o autor acreditava que o Império havia
legado à República “a solução do problema de nossa emancipação econômica.”
(CORRÊA, 1980 [1903]: 05). Ao destacar a monocultura, a incapacidade de
substituição do trabalho escravo, os empréstimos, as sucessivas emissões de pa-
pel-moeda, o déficit orçamentário, ao funding loan, o financista pretendia lançar
o que seriam as bases para a regeneração financeira do país.

A salvação econômica do país deveria começar pela valorização do café.


Serzedello Corrêa defendia uma política econômica que se voltasse para os in-
teresses da produção agrícola interna, bem como para o incremento do desen-
volvimento industrial. O autor ressaltou que apesar do Brasil possuir quase que,
exclusivamente, a produção do café e da borracha o mesmo não conseguia ditar
o preço ao mercado, muito pelo contrário, sofria a especulação e o monopólio
estrangeiro.

312
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Outro ponto destacado pelo autor é que 85% dos lucros da atividade
comercial do país não ficavam no país, ou seja, os fretes de navegação, os lucros
e dividendos de bancos, de empresas, de seguros de toda espécie, de aluguéis
de prédios, tudo em larga escala saia do excesso do valor da produção agrícola
em comparação ao valor da importação. (CORRÊA, 1980 [1903]: 09) É neste
sentido, que o mesmo defendia um conjunto de providências que obedecessem
uma política profundamente nacional.
Sem um plano geral, systematico e persistentemente executado por largos
annos e que obedeça á preocupação de desenvolver as nossas fontes
de produção, melhorar os nossos portos, amparar e proteger as nossas
industrias, diminuir ou suprimir os direitos de exportação e nacionalizar
uma grande parte dos lucros que o exercício da atividade comercial e
industrial vae creando entre nós, impossível será dar solução ao problema
econômico.
Continuaremos fatalmente a ser o que somos e o que temos sido – uma
colônia – de tempos a tempos agitada e perturbada por crises que irão
desmoronando a fortuna pública e particular. (CORRÊA, 1980 [1903]: 10)

Como consequência dessa perspectiva, a política econômica preconizada


por Serzedello Corrêa seria concebida por política comercial fundamentada na
proteção tarifária. Propunha, então, a nacionalização progressiva das atividades
econômicas realizadas no país, devendo operar-se a retenção dos lucros e das
riquezas geradas nos negócios conduzidos por estrangeiros, a partir da internali-
zação das mesmas atividades.

Por sua vez, para o autor, havia duas medidas vitais a serem implementa-
das para a saída da crise econômica instaurada na República: (i) a abolição dos
impostos interestaduais; e (ii) a revisão constitucional no sentido de uma mais
racional e lógica discriminação das rendas, fixada na Constituição Federal de 1891.

Considerando as medidas acima essenciais para a solução da crise eco-


nômica, Serzedello Corrêa pontuou que tendo a União recursos para atender as
responsabilidades da dívida e aos múltiplos encargos que lhe cabiam, poderia,
secundariamente, estruturar as seguintes providências: (i) medidas tendentes a me-
lhorar os portos e ancoradouros, a fim de aliviar o comércio dos ônus das estadias
demoradas e das despesas com cargas e descargas; (ii) medidas que auxiliem e
favoreçam a exploração de novas fontes de produção, entre essas, especialmente,
as minas (minerais combustíveis); (iii) medidas tendentes a combater ou diminuir
os efeitos do absenteísmo, isto é, da remessa para o exterior de quase todos os
proveitos da atividade econômica; (iv) medidas para a promoção do povoamento
do solo; e, por fim, (v) medidas referentes a cada indústria em particular: indústria
agrícola, cultura de cereais, indústria pastoril e indústria manufatureira.

313
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

Conclusão

Primeiramente, é preciso pontuar que as propostas de cunho econômico


e tributário apresentadas por Serzedello Corrêa foram desenhadas no interior de
um contexto histórico específico e articulada juntamente com uma associação
de classe, o Centro Industrial do Brasil (1904).

Desse modo, acredita-se que a análise da trajetória política, bem como


da produção intelectual de Serzedello Corrêa poderá revelar uma vertente do
pensamento político-econômico voltado para o entendimento das questões eco-
nômicas em nível nacional, traduzindo, assim, uma determinada concepção de
nação. Neste sentido, observa-se que o entendimento acerca da crise financeira
republicana estava muito mais associado a uma problemática nacional, do que
a uma discussão, estritamente, econômica local.

Da mesma forma, a discussão parlamentar no Congresso Constituinte de


1890-1891, em torno da questão tributária, nos permitirá mapear e reconstruir
a tensão entre as diversas propostas de construção do Estado, bem como das
disputas sociais e regionais em torno da arrecadação dos tributos.

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Senado Federal; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1980.
COSTA, Wilma Peres. A questão fiscal na transformação republicana – continuidade
e descontinuidade. In: Economia e Sociedade, Campinas, n° 10, 141-173. Jun. 1998.

314
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

SISTEMAS DE GOVERNO NA CONSTITUINTE DE


1987/1988: A DICOTOMIA PRESIDENCIALISMO
E PARLAMENTARISMO EM DEBATE

LEONAM BAESSO DA SILVA LIZIERO


Doutor e Mestre em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
E-mail: leonamliziero@gmail.com

Eixo Temático: História do Constitucionalismo.

Palavras-chave: Constituinte de 1987/1988; Sistemas de Governo;

Introdução

A presente pesquisa tem como objetivo investigar a formação do sentido


de sistema de governo na Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988. Neste
caso, com base nos argumentos acadêmicos e políticos apresentados no momento
histórico, pretende-se reconstruir as razões da escolha pelo presidencialismo em
detrimento ao parlamentarismo. Em tempos de crise institucional, faz-se necessária
tal descrição para a melhor compreensão das instituições atuais.

No caso brasileiro, para lançar-se ao debate sobre vantagens e desvantagens


de sistema de governo no Brasil – que perfaz uma forma muito específica –, é
preciso o resgate das ideias sobre os regimes presidencialista e parlamentarista.
Especialmente, das idas e vindas imperfeitas da pretensão de se estabelecer o
parlamentarismo para o governo brasileiro ao longo da história política brasileira.

Historicamente no Brasil é perceptível o predomínio do Poder Executivo


e da figura do Presidente da República, acreditado como grande delegado nacio-
nal, nas relações com o Poder Legislativo, ao mesmo tempo em que este, numa
perspectiva da sociologia política, é visto com desprestígio.

Segundo Horta, em artigo publicado em 1987, “ é visível o esgotamento


do regime presidencial brasileiro”2. Era notável uma tendência dos autores à crítica
ao sistema do regime militar e seu autoritarismo. Grande parte da concentração
2 HORTA, Raul Machado. Tendências Atuais dos Regimes de Governo. Revista de Informação Legislativa. Brasília,
a.24, n.95, pp. 127-140, 1987, p. 139.

315
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

de poder nas mãos do Presidente deixava evidente a supremacia real do Poder


Executivo sobre o Legislativo, o que fazia presente a necessidade de rediscussão
dos limites do poder do Presidente e das relações entre estes dois poderes, o
que passa pelo modo como o sistema de governo é prescrito pela Constituição.
Assim, tais repercutem em outras questões, como a distribuição do poder entre
partidos político e as relações destes com o partido do Chefe de Governo.

Metodologia

A pesquisa terá como principal fonte os Diários da Assembleia Nacional


Constituinte de 1987/1988 e em especial, as atas de duas subcomissões temáticas: a
do Poder Legislativo e a do Poder Executivo. Nos diários destas duas subcomissões,
serão estudadas as atas das sessões nas quais sistema de governo foi discutido.

Na Subcomissão do Poder Executivo, o tema foi discutido na 6ª Reunião


Ordinária, em 5/5/1987. Na Subcomissão do Poder Legislativo, foi debatido nas
3ª, 4ª e 5ª Reunião Ordinária, ocorridas respectivamente em 14/4/1987, 23/4/1987
e 28/4/1987.

Além das dos argumentos exarados pelos Constituintes, será dada especial
atenção à audiência pública de autoridades acadêmicas convidadas a proferir
discurso sobre parlamentarismo e presidencialismo. O objetivo será a observância
de termos e definições usados e que influenciaram a decisão das subcomissões
pela manutenção do sistema presidencialista. Entre as autoridades ouvidas estão
Miguel Reale, Miguel Reale Junior, Luiz Pinto Ferreira, Sérgio Rezende de Barros
e César Saldanha.

Serão consultados também trabalhos acadêmicos sobre o tema destes


autores consultados para aprofundar o sentido de parlamentarismo e presiden-
cialismo no Brasil e suas possiblidades de realização. Também serão pesquisadas
publicações lançadas nos anos da Constituinte ou próximos que versem sobre
sistemas de governo.

Resultados Parciais

O Brasil tradicionalmente mostrou-se, até a Constituinte, um país de


forte tradição presidencialista, com grande concentração de poder no cargo de
Presidente da República. Apesar de algumas tentativas de implementação do
parlamentarismo, as relações entre Poder Executivo e Poder Legislativo pautaram-
se na proeminência do primeiro.

Foi discutido na Constituinte um sistema alternativo à dicotomia presiden-


cialismo e parlamentarismo, com algumas variações destes dois, buscando maior

316
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

equilíbrio entre os dois poderes: o semiparlamentarismo, já surgido na Comissão


Afonso Arinos. Nos propósitos dos Constituintes, maior equilíbrio significava di-
minuir o poder do Presidente da República, buscando estabelecer mecanismos
de controle às funções do cargo.

Possivelmente, a alternativa era desejável entre constitucionalistas e políticos


em razão do repúdio à centralização do poder do regime militar. Ainda assim,
por alguns o parlamentarismo era visto como utópico, completamente destoante
da experiência brasileira. Como deixa claro Pinto Ferreira, em sua exposição na
Subcomissão do Poder Legislativo, “ o parlamentarismo não tem raiz entre nós
[...] A verdade é uma só: o presidencialismo já ganhou raízes no Brasil e, por isso,
tem hoje mais condições históricas de ser aprimorado e estabilizar-se na nossa
Constituição”3.

Referências bibliográficas
ANDRADE, Régis De Castro. Presidencialismo e reforma institucional no Brasil.
Lua Nova, São Paulo , n. 24, p. 5-26, 1991
BARROS, Sergio Resende de. Parlamentarismo ou Presidencialismo? FMU Direito.
São Paulo, v. 3, p. 13-20,1989
BRASIL. Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988). Anteprojeto da Subcomis-
são do Poder Executivo. Brasília: Senado Federal. Centro Gráfico, 1988.
___. Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988). Anteprojeto da Subcomissão
do Poder Legislativo. Brasília: Senado Federal. Centro Gráfico, 1988.
___. Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988). Diário da Subcomissão do
Poder Executivo. Brasília: Senado Federal. Centro Gráfico, 1988, 216 pp.
___. Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988). Diário da Subcomissão do
Poder Legislativo. Brasília: Senado Federal. Centro Gráfico, 1988, 218 pp.
FERREIRA, Luiz Pinto. O Problema da Representação Proporcional. Revista de
Informação Legislativa. Brasília, a. 11, n. 43, p. 3-22, 1974.
HORTA, Raul Machado. Tendências Atuais dos Regimes de Governo. Revista de
Informação Legislativa. Brasília, a.24, n.95, pp. 127-140, 1987.
MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Interferências entre Poderes do Estado
(Fricções entre o Executivo e o Legislativo na Constituição de 1988). Revista de
Informação Legislativa. Brasília, a. 26, n.103, pp.5-26, 1989.
REALE, Miguel. Momentos decisivos do constitucionalismo brasileiro. Revista de
Informação Legislativa. Brasília, a. 20, n.77, pp.57-68, 1983.
SARTORI, Giovanni. Nem presidencialismo, nem parlamentarismo. Novos Estudos
Cebrap. São Paulo, n.35, pp. 3-20, 1993.
STEPAN, Alfred. Parlamentarismo x presidencialismo no mundo moderno: revisão
de um debate atual. Estudos Avançados, São Paulo, v. 4, n. 8, pp. 96-107, 1990.
3 BRASIL. Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988). Diário da Subcomissão do Poder Legislativo. Brasília:
Senado Federal. Centro Gráfico, 1988, p. 56.

317
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

UMA ABORDAGEM HISTORIOGRÁFICA SOBRE


A POLÍTICA IMIGRATÓRIA
NO PERÍODO VARGAS (1930-1945)

ISABELA CRISTINA FERREIRA BORGES


Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
E-mail: isacrisfb97@gmail.com

WASHINGTON VINICIUS ALMEIDA DIAS


Graduando em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
E-mail: WashingtonVinicius@outlook.com

LIDIANE FRANCO OLIVEIRA


Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
E-mail: lidianefranco2103@gmail.com

ISABELLA ALVES SANTOS


Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU
E-mail: isabella.alvesudi@gmail.com

Eixo Temático: 5 (História Constitucional)

Palavras-Chave: Migração; Era Vargas; Constituição.

Introdução

O Governo Vargas teve trajetória que produziu vários marcos e rupturas


na vida das instituições e do sistema político brasileiro. Os vários campos de
ação e das marcas do governo Vargas podem ser vistos nas leis produzidas, nos
diversos órgãos e agências governamentais, nos impactos na educação, nos outros
serviços do Estado (alguns inexistentes antes e criados por Vargas), e também, na
política de migração, a qual é objeto de análise desta pesquisa. Justifica-se, por-
tanto, a análise pautada no artigo na relevância de retomar elementos históricos
do Brasil buscando evidenciar as transformações tanto sociais, quanto jurídicas e
constitucionais que deles decorreram. O trabalho em questão dispor-se-á desses
elementos históricos, ou seja, dos decretos editados e as duas constituições que
vigeram no Governo Vargas, no que tange a política de imigração.

319
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

O problema levantado consiste em aferir como a política migratória de


Getúlio Vargas se desenvolveu, ou seja, quais as características relevantes em cada
momento governado.

Metodologia

Para alcançar os fins propostos, a princípio será feita uma contextualização


dos principais conceitos de nação e de nacionalidade para, a seguir, verificar as
transformações, criações e mudanças da era Vargas. Para tanto, lançar-se-á mão
da metodologia de pesquisa exploratória, pois a priori será feita uma uma análise
dos documentos jurídicos promulgados no Governo Varguista, dentre eles os
decretos e as duas constituições que vigeram, a primeira de 1934 e a segunda de
1937, a partir de contextualização teórico-bibliográfica, a fim de averiguar quais
elementos foram consideráveis no que tange a restrição imigratória.

De tal feita, é escopo perseguido na presente pesquisa extrair quais as


características relevantes de cada fase de produção de normas referentes a política
de imigração no governo de Getúlio Vargas, a começar do decreto nº 19.482 de
1930, o primeiro documento até o final do governo.

Resultados Provisórios

Pode-se dizer que a grande incorporação de massas populacionais ocor-


ridas no império e na república velha, as quais ditaram a flexibilidade das regras
de nacionalidade, e de permanência do estrangeiro no território nacional, foram
substituídas por formas mais restritivas e com maior especificidade, tanto para
a aquisição da nacionalidade como, sobretudo, para a imigração de estrangeiros.

Esta mudança foi ditada justamente pela consolidação do corpo nacional,


com diferenças em relação aos períodos anteriores quando ainda se projetava como
criar este corpo. É no período Vargas que todos os elementos de afirmação do
estado nacional brasileiro vão se apresentar de forma conjugada e unitária: nação
e povo político, a defesa do território nacional, a ideia de economia nacional, a
identidade do povo nação e a supremacia ou singularidade da cultura nacional.

Esse período é, portanto, o que mais nos interessa, até mesmo pela pro-
posta de trabalho Considerável é denotar que o governo Vargas foi marcantemente
contencioso em relação aos imigrantes quando comparado com os precedentes,
sejam eles, o Império e a República, além disso, é possível perceber variações
quanto a referida restrição no período Vargas, visto que, não foi uma restrição
contínua e homogênea, ao contrário, decorre de particularidades políticas, sociais
e econômicas de cada momento do governo de Getúlio, porém, todas dotadas
de caráter selecionador no que se refere a raça e origem.

320
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

Conclusão

O trabalho em questão configura-se pesquisa inicial a respeito do tema


em destaque, qual seja, política imigratória no governo de Getúlio Vargas, compre-
endido entre 1930 e 1945. Pretende-se analisar, utilizando-se de uma abordagem
historiográfica, os documentos jurídicos e históricos produzidos entre as supra-
citadas datas, a fim de compreender como se desenvolveu a política imigratória
neste, outrossim, quais elementos e características relevantes de cada momento
dentro do período governado, considerando suas particularidades.

Referências Bibliográficas
GERALDO, Endrica. O “perigo alienígena”: política imigratória e pensamento racial
no governo Vargas (1930-1945). 2007. Tese (doutorado) Universidade Estadual de
Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. – Campinas, SP : [s. n.],
2007, disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/280760>
. Acesso em 20. Jun. 2017.
GERALDO, Endrica. O combate contra os “quesitos étnicos”: identidade, assimilação
e política imigratória no Estado Novo. 2009. disponível em <http://www.ufjf.br/
locus/files/2010/02/337.pdf > Acesso em 13. Jun.2017.
D’ ARAÚJO, Maria Celina. Getúlio Vargas – Brasília: Câmara dos Deputados,
Edições Câmara, 2011.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2006.

321
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

CONSTITUCIONALISMO SOCIAL Y LENGUAJE


JURÍDICO: EL CASO DE LA REFORMA
CONSTITUCIONAL ARGENTINA DE 1949

LETICIA VITA
Doctora en Derecho Político, Profesora Adjunta con Dedicación Exclusiva de Teoría del Estado,
Facultad de Derecho, Universidad de Buenos Aires, (UBA) Argentina.
Investigadora del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET), Argentina.
Investigadora Permanente del Instituto de Investigaciones A. L. Gioja,
Facultad Derecho, Universidad de Buenos Aires (UBA), Argentina.
E-mail: ljvita@derecho.uba.ar

Palavras-chave: Constitucionalismo Social; Circulación de Ideas, Argentina

Eixo temático: História constitucional

Introducción

En el año 1949 Argentina llevó a cabo una reforma constitucional que


incluyó por primera vez en su historia un catálogo de derechos sociales y dispo-
siciones sobre economía y rol del Estado que modificaban el modelo de Estado
liberal consagrado en el texto constitucional de 1853. De esta manera Argentina
entraba más tardíamente que otros países de la región a la ola del constitucio-
nalismo social iniciada por la Constitución mexicana de 1917 y la de Weimar de
1919. Si bien ya habían existido proyectos de reforma previos y la legislación de
la época había dado cabida a la cuestión social (ZIMMERMANN, 1995, 2013), el
proyecto de una reforma integral del texto constitucional sólo encontró la opor-
tunidad política para concretarse durante el primer gobierno de Juan D. Perón.

Este trabajo presenta los resultados preliminares de una investigación sobre


las características que adoptó el constitucionalismo social argentino por medio de
la reforma de 19494, en cuya primera etapa nos hemos abocado al análisis histórico
conceptual de los conceptos de “Estado”, “Derecho/s” e “Igualdad” en los debates
4 Esta investigación es financiada por el proyecto UBACyT 20020150200028BA: “La Constitución argentina de
1949 y la “vía argentina” al constitucionalismo social”, Programación Científica 2016, Aprobado según Resolución
(CS) Nº 4756/16 y el proyecto PICT-2015- 3239 (Raíces): “Los DESC como Derechos Exigibles en Argentina:
Aportes para una metodología de argumentación desde una perspectiva integral”, Aprobado según Resolución
N° 240/16 de la Agencia Nacional de Promoción Científica y Tecnológica, Argentina.

323
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

constitucionales de 1949. Para lograr este objetivo general nos hemos propues-
to como objetivos específicos: (i) caracterizar el “horizonte de sentido jurídico”
desde el cual se redactó la Constitución de 1949; (ii) reconstruir el sentido y el
uso de los conceptos de “Estado”, de “derecho/s” y de “igualdad” presentes en el
texto constitucional de 1949, (iii) comparar las características de la vía argentina
al constitucionalismo social con la vía “clásica” del Constitucionalismo social de
Weimar a fin de identificar continuidades y rupturas del discurso jurídico.

Metodología

La investigación utiliza como perspectiva metodológica principal la historia


conceptual en su versión de la Begriffsgeschichte alemana (Koselleck/Brunner) y los
aportes de la escuela argentina (Palti), italiana (Dusso/Chignola) e iberoamericana
(Fernández Sebastián). De esta manera, se busca recuperar los discursos lingüís-
ticamente presentes en los documentos históricos de la reforma constitucional,
pero al mismo tiempo la edificación de conceptos (como es el caso de “Estado”,
“Derecho/s” o “Igualdad”) que permiten explicar realidades o procesos históricos
particulares. De esta manera, se intenta conocer los lenguajes jurídicos que se
encontraban disponibles para los actores en un tiempo dado, asumiendo que
los conceptos representan, reproducen y producen los contextos que engloban
(KOSELLECK, 1993).

Así la historia conceptual es utilizada aquí como método de “crítica de


fuentes” en el sentido de una crítica a la utilización anacrónica de los conceptos
del presente pero también como herramienta para tener conciencia del uso
pragmático del lenguaje. Por esto la investigación se concentra en el uso que
los actores de la época dieron en la experiencia constitucional argentina a los
conceptos seleccionados, y a partir de ese uso se intenta responder a la pregunta
por las características de la “vía argentina” al constitucionalismo social y las que
se derivan de ella: ¿qué influencias tuvieron que ver en el proceso?, ¿se “receptó”
un sentido común que circulaba entre los juristas de la época?, ¿de qué manera
se redefinieron las ideas propias del constitucionalismo social clásico europeo?,
¿se tuvieron en cuenta otras experiencias de la región?, ¿qué se entendía por
Estado intervencionista, por derechos sociales y por igualdad material en la época
de la reforma?, ¿qué quisieron denotar por estos conceptos los convencionales
constituyentes?

Las principales fuentes de esta investigación han sido los proyectos de


Constitución presentados y debatidos, el texto finalmente sancionado y los de-
bates de la Asamblea Constituyente. A los fines de contextualizar el uso que
jurídicamente se dio de los conceptos mencionados y reconstruir el horizonte
de sentido jurídico de la época se analizó la literatura jurídica de la época, con-
formada principalmente por la doctrina jurídica publicada en revistas jurídicas y

324
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

de divulgación y una selección de obras de juristas que publicaron en esos años


obras sobre la materia.

Resultados preliminares

Nuestra conjetura principal sostiene que la solución constitucional argen-


tina a la aparición del llamado “nuevo derecho” implicó un tipo de localización y
redefinición de conceptos que circulaban a nivel nacional e internacional. De esta
manera, entendemos que el constitucionalismo social argentino es en parte producto
de lo que se ha dado en llamar “cuerpos híbridos de conocimiento” (ZIMMERMANN,
2017), en el sentido de que refleja un lenguaje jurídico marcado por la fusión de lo
transnacional y lo local, antes que una pasiva adopción de un modelo.

Los resultados preliminares de la investigación nos han permitido caracte-


rizar el lenguaje jurídico de la época en torno a: (i) el cambio de la concepción
sobre el rol del Estado (de abstencionista a interventor); (ii) la incorporación de
derechos sociales y su comprensión como “nuevos” derechos y (iii) el cambio de
una concepción de igualdad formal a una de igualdad material, que se manifiesta
en distintos ámbitos del derecho: constitucional, civil, laboral, etc. Estos resultados
nos invitan a reflexionar sobre la circulación de ideas en torno al Estado, los
derechos y la igualdad que confluyeron a conformar un lenguaje jurídico consti-
tucional durante el primer peronismo y a identificar en los debates constituyentes
de 1949 el alcance de esa circulación y de las connotaciones que pueden tomar
estos conceptos en el contexto específico del peronismo.

Asimismo, uno de los objetivos específicos de esta investigación ha sido


el del análisis de la recepción de la experiencia del constitucionalismo social de
Weimar en la Argentina5, sin dejar de lado que existieron otras referencias e
influencias, pero concentrándonos en particular en el caso alemán que, como
indican otras investigaciones para el caso de Brasil (FERREIRA SANTOS, 2016;
BUCCHIANERI PINHEIRO, 2006) parece ser una de las referencias más usuales en
el derecho público de los años treinta y cuarenta. De esta manera, nos interesa
presentar también algunas conclusiones respecto de la referencia a Weimar en
el lenguaje jurídico de la época respecto de los derechos sociales y el cambio
en el modelo de Estado que se estaba diseñando en la Constitución, referencia
que, veremos, es muchas veces más citada que conocida.

En síntesis, esta investigación busca realizar un aporte a la historia del


constitucionalismo social en nuestra región y a la historia del constitucionalismo
social argentino en particular, a partir de reconstruir el lenguaje jurídico del
constitucionalismo social de la época, enfatizando en particular la dimensión de
la circulación de saberes jurídicos que nos invita a revisitar el estudio de las co-
5 Ya que esta experiencia había sido objeto de una investigación postdoctoral previa de la autora.

325
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

munidades científicas y académicas, y en particular el rol de abogados y juristas


como “mediadores” de estos saberes (ZIMMERMANN, 2017). En ese sentido,
esta investigación dialoga con la literatura que en los últimos años se ha venido
dando en Argentina respecto de los llamados “saberes del Estado” (PLOTKIN Y
ZIMMERMANN, 2012a, 2012b; BERROTARÁN, 2003) y también la literatura que se
ha ocupado del trayectorias de profesores/as y formación de abogados/as en las
Facultades de Derecho argentinas (ABÁSOLO, 2008) o en la Facultad de Derecho
de la UBA en particular (MARTINEZ DEL SEL, 2016; ORTIZ, 2016), que si bien
no se dirigen al tema específico, tratan de manera tangencial la cuestión acerca
del rol y los saberes de profesores/as y juristas en el momento de la reforma.

Referencias bibliográficas
ABÁSOLO, E. El Primer Peronismo y la enseñanza jurídica universitaria. Protago-
nistas, actitudes y preocupaciones. Cuadernos del Instituto Antonio de Nebrija, V.
11, n°1, p. 13-23, 2008.
BERROTARÁN, P. Del Plan a la Planificación. El estado en la época peronista. Buenos
Aires: Editorial Imago Mundi, 2003.
BUCCHIANERI PINHEIRO, M. C. A Constituição de Weimar e os direitos funda-
mentais sociais: A preponderância da Constituição da República Alemã de 1919 na
inauguração do constitucionalismo social à luz da Constituição Mexicana de 1917.
Revista de Informação Legislativaaño, Brasilia, Senado Federal, V. 43, N° 169, 2006.
FERREIRA SANTOS, G. La constitucionalización de los derechos sociales: puentes
entre Brasil y México. Revista IUS, México, Año X, N° 38, Julio - diciembre de 2016.
KOSELLECK, R. Futuro pasado. Barcelona: Paidós, 1993.
MARTÍNEZ DEL SEL, V. La Facultad de Derecho (Universidad de Buenos Aires)
en el primer peronismo. Una aproximación sobre las trayectorias de los profe-
sores (1946-1955). Rev. bras. hist. educ., Maringá-PR, v. 16, n. 2 (41), p. 106-140,
abril-junho de 2016.
ORTIZ, T. (Coord.) Hombres e ideas de la Facultad de Derecho. Buenos Aires:
Departamento de Publicaciones. Facultad de Derecho, 2016.
PLOTKIN, M. y ZIMMERMANN, E. (comp.) Las prácticas del Estado. Política, so-
ciedad y elites estatales en la Argentina del siglo XX. Buenos Aires: Edhasa, 2012a.
PLOTKIN, M. y ZIMMERMANN, E. (comp.) Los saberes del Estado. Buenos Aires:
Edhasa, 2012b
ZIMMERMANN, E. Estudio Introductorio. Una nota sobre nuevos enfoques de
historia global y transnacional. Estudios Sociales del Estado, Vol. 3, N°5, p. 12-30, 2017.
ZIMMERMANN, E. Los liberales reformistas. Buenos Aires: Sudamericana, 1995.
ZIMMERMANN, E. Un espíritu nuevo: la cuestión social y el Derecho en la Ar-
gentina (1890-1930). Revista de Indias, vol. LXXIII, nº 257, p. 81-106, 2013.

326
IX CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DO DIREITO
Rupturas, Crises e Direito

TERRITORIALIDADE E PERSONALIDADE DO DIREITO:


ANTECEDENTES IBÉRICOS

JOÃO MARCOS DE CASTELLO BRANCO FANTINATO


Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ
E-mail: joaofantinato@tjrj.jus.br

Eixo Temático: História Constitucional

Palavras-chave: Territorialidade e personalidade da lei, Direito visigótico


Art. 5º da CF: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e
à propriedade, nos termos seguintes: (...)

O dispositivo constitucional acima se encontra na raiz de nosso sistema


jurídico e do da maioria dos países da atualidade. De fato, o Brasil adota o sistema
da territorialidade do direito, com pequenas exceções. Mas não foi sempre assim
na história, pois quando o mundo romano se desfez, os povos germânicos que
nele adentraram trouxeram o sistema jurídico da personalidade do direito, em
contraposição à territorialidade da legislação do Império.

Na Península Ibérica o confronto dessas duas concepções do direito se


revelou dos mais profícuos. Aí se instalaram os visigodos, um dos principais pro-
tagonistas dessa justaposição entre direito romano territorial e o germânico de
cunho pessoal. Esses fatos podem parecer distantes, mas estão na genealogia do
direito atual, inclusive do brasileiro, cuja raiz provém de Portugal e de sua formação.

A territorialidade do direito havia sido alcançada no Império quando


o imperador Caracala concedeu a cidadania romana a todos os homens livres.
Aboliu-se a distinção entre aqueles que usufruíam do ius civilis e os que se sub-
metiam a seu direito particular, o ius gentium. Já os germanos d’além fronteira
tinham seu direito pessoal próprio, oral, costumeiro, carregando-o onde quer que
fossem. Dentre os povos germânicos, os visigodos adquiriram o maior nível de
desenvolvimento, por estarem estabelecidos ao longo da fronteira do Danúbio.
Seu maior contato com o Império lhes despertou a admiração pela cultura, pela
organização estatal e pelo direito romanos. Ressalte-se que, no século IV D.C., se

327
CARDENO DE RESUMOS – História Constitucional

tronaram cristãos sob a batuta de seu bispo Ulfila, embora na heresia ariana. As-
sim, quando se fixaram dentro do Império, já eram cristãos e bastante latinizados.

Estabelecidos em torno de Tolosa, na Aquitânia, seu rei de Eurico (466-484)


promulgou o Código de Eurico, apontado por Isidoro de Sevilha como as primeiras
leis escritas dos germânicos, embora seu antecessor Teodorico II também já tivesse
regulamentado a divisão de terras com os galo-romanos. O Codex Euricianus se
destinava exclusivamente aos visigodos, não obstante fortemente inspirado na
legislação do Baixo-império, notadamente o Código de Teodósio de 438.

Logo em seguida, contudo, o Império do Ocidente caiu e os visigodos,


passaram a ter sob seu domínio uma grande população romana. Seu rei Alarico
II (485-507) editou então para os romanos um corpo de leis que repristinava o
citado Código de Teodósio e o trabalho dos últimos grandes jurisprudentes do
Império. Trata-se do Breviário de Alarico, ou Lex Romana Visigothorum, de 506,
que serviu de referência para vários outros reinos germânicos instalados nos
escombros do Império.

Instalou-se assim um sistema de duplicidade de leis, com a agravante de


que os godos eram arianos e os romanos católicos. Tal duplicidade, entretanto, não
extinguiu a territorialidade do direito no continente europeu. Na mesma época,
na Itália, o rei ostrogodo Teodorico publicava um édito prevendo expressamente
sua aplicação territorial. E, entre os visigodos, em 546, Teudis lançava uma lei sobre
custas judiciais, cuja aplicação territorial é admitida pela maioria dos historiado-
res. Cite-se ainda que na bacia oriental do Mediterrâneo, o Império continuava
próspero e Justiniano promulgava seu Corpus Iuris Civilis de 534.

Sempre se entendeu que a legislação visigótica era de cunho pesso-


al, até que, em 1941, o professor espanhol Garcia Gallo passou a defender a
aplicação territorial do Breviário de Alarico, o qual teria revogado o Código de
Eurico, igualmente de aplicação territorial. Para tanto, invocava os termos de seu
Commonitorium (Introdução), determinando que os condes locais aplicassem
o Breviário com exclusão de “qualquer outra lei ou qualquer outra fórmula de
direito”. Ademais, dita lei não versava sobre a solução de conflitos entre godos e
romanos, o que seria de se esperar numa lei de cunho pessoal. Esse argumento
ex silentio foi contestado pelo professor de Coimbra Paulo Merêa, lembrando que
nenhuma fonte originária mencionava que o Breviário tivesse aplicação territorial,
nem o Código de Eurico. Pondera que a razão deste último código ser tão ro-
manizado está no fato de os godos, na época (+/- 475-476), já estarem dentro
do Império há um século.

A polêmica sobre a territorialidade ou personalidade da legislação visigótica