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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ
ALICE SOUZA NAEGELE

PSICOLOGIA PERINATAL

Nova Friburgo - RJ
2017
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ALICE SOUZA NAEGELE

PSICOLOGIA PERINATAL

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado à Universidade Estácio de
Sá, como requisito parcial para a
obtenção do grau de Bacharel em
Psicologia.
Orientador: Prof. Raymundo de Oliveira
Reis Neto.

Nova Friburgo - RJ
2017
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“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no


de carne, e sangra todo dia.”
- José Saramago
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Resumo

O campo de atuação do psicólogo é amplo e ainda tem muito a ser desbravado. A


psicologia perinatal, apesar de não ser uma área nova no campo da psicologia,
ainda é pouco conhecida e divulgada tanto entre profissionais quanto entre clientes.
A psicologia perinatal trabalha com famílias no período de gestação, parto e
puerpério e pode auxiliá-las a entender alguns processos e assim realizar escolhas
mais conscientes visando o bem estar físico, psíquico e social dos envolvidos, em
especial da dupla mãe-bebê.

Palavras-chave: Psicologia perinatal; Psicologia da gestação, parto e puerpério;


Psicologia da Gravidez
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Abstract

PERINATAL PSYCHOLOGY

The field of activities of the psychologist is wide and still has much to be broken.
Perinatal psychology, although not a new area in the field of psychology, is still little
known and disseminated both among professionals and between clients. Perinatal
psychology works with families during the gestation, delivery and puerperium periods
and can help them to understand some processes and thus make more conscious
choices aimed at the physical, psychological and social well-being of those involved,
especially the duo mother-baby.

Keywords: Perinatal psychology; Psychology of gestation, childbirth and


puerperium; Psychology of Pregnancy
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1 – INTRODUÇÃO:
O artigo apresenta as fases da gestação, parto e puerpério em que o trabalho
do psicólogo perinatal pode acontecer e visa facilitar o entendimento de algumas
questões e processos presentes nesses momentos. Para isso, a metodologia
utilizada será o levantamento bibliográfico feito a partir de livros que tratam do
assunto de diversas formas, sob diferentes olhares e para públicos diversos.
Inicialmente, a psicologia perinatal será brevemente apresentada. Num
segundo momento, serão apontadas as principais fases em que o trabalho do
psicólogo perinatal pode ser solicitado e, junto a essas fases, breves explicações e
diferenciações importantes tanto do ponto de vista físico e quanto psicológico.
O objetivo principal do trabalho é mostrar o vasto campo de atuação do
psicólogo perinatal junto às famílias e sua contribuição para o entendimento e
humanização desse processo. Como disse Winnicott:
“(...) a psicanálise, como a vejo, oferece à obstetrícia, e a todo trabalho que
diz respeito às relações humanas, um aumento do respeito que os
indivíduos sentem uns pelos outros, bem como pelos direitos individuais. A
sociedade precisa de técnicos e até mesmo para os cuidados médicos e de
enfermagem, mas onde houver pessoas, e não máquinas, o técnico precisa
estudar a forma como as pessoas vivem, pensam e crescem ao longo de
suas experiências.”
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2 – O QUE É A PSICOLOGIA PERINATAL?


A psicologia perinatal, também conhecida como psicologia da gravidez, parto
e puerpério, é a área da psicologia voltada para o atendimento a mães e famílias
que se encontram nesse momento de encontro com um novo membro, o bebê.
A gravidez pode ser uma fase de crise e sofrimento, muitas vezes
negligenciada pelo senso comum de que este é o momento mais pleno da vida de
uma mulher. O papel do psicólogo é acolher e escutar as mães e famílias, em
sofrimento ou não, de modo a auxiliar na adaptação às mudanças trazidas pelo
bebê.

3 – GESTAÇÃO
A gestação, um período de idealização e fantasia, tem algumas funções bem
definidas como preparar o feto para a vida extra uterina e, uma função mais
subjetiva mas tão importante quanto que é a de preparar a mulher para ser mãe.
Para Winnicott (2013), as mulheres se preparam para a tarefa da maternidade
durante os últimos meses de gravidez, o que ele chama de “preocupação materna
primária”. Em um questionamento sobre as origens do indivíduo, Winnicott enumera
alguns fenômenos importantes, começando pelo “ato de conceber mentalmente” que
ocorre nas brincadeiras de crianças de qualquer idade e permanece até a vida
adulta. Devemos salientar que essa concepção mental que ocorre na idade adulta
não está necessariamente ligada ao casamento.
São inúmeras as mudanças provocadas pela gravidez, são mudanças físicas,
laborais, conjugais e financeiras, e é natural que surjam questionamentos sobre
esse período. Maldonado escreve sobre a existência de uma ambivalência afetiva, é
o querer e o não querer. Segundo ela, não existe gravidez completamente aceita ou
rejeitada e toda mulher passa por essa oscilação que podemos chamar de natural.
É no período da gestação que se inicia a vinculação entre mãe e bebê. O
bebê está em sintonia fisiológica e emocional com a mãe (Wilhelm). Ele tem suas
necessidades básicas, como alimentação e respiração, supridas pelo organismo da
mãe e à ela também cabe suprir as necessidades emocionais de seu bebê. Essa
segunda tarefa é tão importante quanto a primeira, porém não é assim tão natural e
depende da gestante estar bem assistida por familiares e profissionais (Winnicott). A
mãe precisa, além de tudo, sentir o bebê como um ser diferente dela, que apesar de
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ser um sujeito dependente, o bebê não é a mãe. Esse entendimento auxilia no


momento do parto onde a separação física entre eles é inevitável (Maldonado).

4 – PARTO
De acordo com Maldonado, o parto é um “salto no escuro”. É sabido que o
parto normal é melhor para o bebê pois o trabalho de parto auxilia na sua adaptação
à vida extra uterina, porém, no caso de ser detectado algum problema na gestação
ou durante o trabalho de parto, costuma-se indicar a cesariana que pode fazer
nascer um bebê viável ou não (MOREIRA, M. E. L.; BRAGA, N. A.; MORSCH, D.
S.). Além das alterações indicadoras do parto operatório, existem profissionais de
saúde e famílias que optam por este tipo de nascimento. Nesses casos, existe a
possibilidade de que a criança nasça prematuramente, o que pode significar um
risco a saúde do bebê.

4.1 – PARTO ESPONTANEO


O que chamamos hoje de parto normal, pode também ser chamado de parto
espontâneo, parto natural ou parto vaginal. Esse tipo de nascimento é o resultado do
trabalho de parto que envolve especialmente a maturação física do bebê.
A espera pelo parto vaginal garante que o bebê está pronto para nascer já
que o período em que o bebê é considerado maduro para viver é longo, entre 37 a
42 semanas, o que faz com que um bebê possa ser retirado da barriga de sua mãe
com 37 semanas sendo que ele precisaria de mais 5 semanas para completa
maturação e a garantia de sustentar sozinho o funcionamento do seu próprio
organismo.
O parto espontâneo, quando bem assistido e assessorado, garante a mãe e
ao bebê a intimidade facilitadora do vínculo. O corte tardio do cordão umbilical
garante a absorção de ferro que por sua vez evita a anemia nos primeiros meses de
vida e o pulsar do cordão mantém mãe e bebê conectados, mesmo com o bebê fora
do corpo da mãe.
Winnicott traz ainda a ideia de que existe o parto psicologicamente normal
para o bebê, quando ele próprio torna possível seu nascimento, quando faz ou
necessita de algo e então se inicia o trabalho de parto.
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4.2 – PARTO OPERATÓRIO


Cesárea é uma palavra proveniente do latim “caedere” que significa corte,
cortar. Na Antiguidade, era praticada apenas após a morte da gestante, com o intuito
de salvar o bebê. A primeira cesariana feita com a gestante viva ocorreu em 1500 e
apenas no século XVIII passou a ser utilizada na obstetrícia e, a partir do século XX
passou a ser uma cirurgia rotineira, uma opção cada vez mais indicada pelos
médicos e cada vez mais aceita pelas gestantes (Rezende).
É sabido que o parto normal é mais seguro para o bebê e para a gestante de
baixo risco, mas ainda assim, de acordo com o Ministério da Saúde, em 2016,
55,5% dos 3 milhões de partos feitos no Brasil foram cesáreas, o que contraria a
recomendação da Organização Mundial da Saúde, de apenas 10 a 15% de partos
operatórios.
Além das questões maturacionais do bebê, outro grande problema
envolvendo o parto operatório é a anestesia geral aplicada na mãe e que atravessa
a placenta e chega ao bebê, produzindo vários níveis de depressão fetal
(Maldonado).
Muitas mulheres têm medo da dor do parto normal e optam pela cesárea.
Esse medo é uma construção social e é bastante corroborada pelos médicos que,
sem nem ao menos explicar sobre a fisiologia do parto normal e seus benefícios,
aceita o pedido da gestante. Essa pronta aceitação por parte do médico impede que
a gestante supere o medo e vivencie ativamente o início dessa nova fase da sua
vida e de seu bebê (Maldonado).
Outras tantas mulheres que rompem a barreira do medo, esbarram na
dificuldade de encontrar médicos dispostos a aguardar a hora do bebê para a
realização do parto normal.

4.3 – PARTO PREMATURO


Uma das causas mais comuns de internação de bebês nas UTIs Neonatais é
a prematuridade. Prematuro, é o bebê nascido com menos de 37 semanas
completas de gestação, e quanto menor a idade gestacional, mais tempo o recém-
nascido precisará do apoio tecnológico da incubadora e de outros aparatos
tecnológicos.
O nascimento do bebê prematuro pode ocorrer quando o trabalho de parto se
inicia antes da maturação total do feto e profissionais da área de saúde não
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conseguem conter o processo ou ainda, quando, ao marcar a data para uma


cesárea, não se tem a certeza da maturidade física do bebê.
A UTI Neonatal é um ambiente hostil, totalmente diferente do quarto
idealizado pelos pais. O contato com o bebê também é diferente do esperado. O
bebê internado luta, de várias formas, para sua sobrevivência e acaba por
concentrar todas as suas forças nesse sentido. A mãe que queria amamentar,
segurar, ninar e dar banho vai precisar esperar os momentos adequados para isso.
Os cuidados com o bebê internado na UTI Neonatal exigem uma parceria de
esforços dos pais e da equipe de saúde. Ambos precisam entender sua importância
no processo e garantir o espaço adequado para o desempenho de seus papéis
(MOREIRA, M. E. L.; BRAGA, N. A.; MORSCH, D. S.).

5 – PUERPÉRIO
Puerpério é o período logo após o parto, que dura de 6 a 8 semanas e,
fisiologicamente representa o período de tempo necessário para que o corpo retorne
ao estado anterior a gravidez.
Além do restabelecimento físico, o puerpério é considerado uma fase de
transição entre e mãe grávida do bebê imaginário e a mãe com seu bebê real. De
acordo com Maldonado, essa fase também é conhecida como o quarto trimestre da
gravidez.
São grandes as alterações na vida da mulher entre a gestação e o parto, e
entre os exames e preparativos para a chegada do bebê, muitas das vezes a mulher
não se prepara – e nem é estimulada a se preparar – para elaborar a perda do bebê
imaginário, calmo e perfeito, e o contato com o bebê real, que chora, sente fome e
pode apresentar alguma alteração em sua constituição.
A “preocupação materno primária” situa-se também nesse quarto trimestre, se
inicia nos últimos meses de gestação e dura algumas semanas ou meses após o
parto. Esse é um estado em que a atenção da mãe está totalmente voltada ao bebê
e suas necessidades, como se mãe e bebê fossem apenas um.

5.1 – PÓS-PARTO BLUES


Por volta do terceiro dia após o parto, grande parte das puérperas (de 70% a
90% delas, segundo pesquisas realizadas no Canadá e na França) apresentam o
blues do pós-parto. Nesse período, que pode durar até 10 dias após o nascimento
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do bebê, as recém mães apresentam um estado depressivo, o que, para alguns


autores, representa o final da gestação psíquica.
Apoiar a puérpera, garantir seu descanso nas horas de sono do bebê e
assegurar a resolução das questões externas à dupla mãe-bebê, facilita a
transposição dessa fase e diminuem as chances de que o pós-parto blues evolua
para uma depressão pós-parto.

5.2 – DEPRESSÃO PÓS-PARTO


A depressão pós-parto acomete de 10 a 20% das puérperas e, inicialmente,
pode ser confundida com o pós-parto blues. A grande diferença entre eles é a
gravidade do quadro. A depressão pós-parto pode durar até dois anos após o
nascimento do bebê e configura risco para sua saúde mental (Iaconelli).
De acordo com Maldonado, os níveis de estresse são mais altos em bebês
com mães deprimidas e estas não reagem aos estímulos do bebê.
Engana-se quem pensa que apenas mulheres com histórico prévio de
depressão podem ser acometidas pelo quadro após o parto, este é um fator de risco,
mas até mesmo mulheres com psiquismos mais estruturados podem sofrer com a
intensidade vivida na gestação e vir a adoecer.
O diagnóstico e tratamento precoce são fundamentais para a mãe e para o
desenvolvimento do bebê, ainda tão dependente. Deve-se lançar mão de
acompanhamento psicológico, individual ou grupal, e o acompanhamento
psiquiátrico para quando há necessidade de medicação
Contudo, o mito do amor materno dificulta a expressão dos sentimentos das
mães e estas muitas vezes sofrem sozinhas e caladas com medo de que a família e
a sociedade as julguem por mães ruins, ingratas ou, ainda, egoístas. Não falar sobre
o assunto apenas agrava o quadro e dificulta o tratamento.

5.3 – PSICOSES PUERPERAIS


Cerca de 5% das gestantes sofrem com a psicose puerperal. Um quadro raro
e bastante delicado em que surtos anteriores são os maiores fatores de risco.
A psicose puerperal representa um grande risco para o bebê, porém não é
recomendado que ele seja afastado da mãe, a criação de uma rede que possa servir
de suporte e o monitoramento 24h são essenciais nesses casos para que seja
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garantido o bem estar do bebê e para que o vínculo entre eles seja fortalecido
(MOREIRA, M. E. L.; BRAGA, N. A.; MORSCH, D. S.).
O tratamento da mãe que apresenta o quadro de psicose puerperal deve ser
feito em conjunto entre psicologia e psiquiatria e, assim como na depressão pós
parto, o diagnóstico precoce é essencial para o seu sucesso.

6 – CONSIDERAÇÕES FINAIS:
A gestação, parto e puerpério, de alguma forma, fazem parte da vida de todos
os indivíduos e a psicologia vem para agregar conhecimento e auxiliar famílias e até
mesmo profissionais da área.
Apesar de haverem questões universais no que diz respeito a esse período,
devemos levar em consideração as particularidades de cada mulher, de cada família
e de cada bebê. Cada gestação é única e não se pode prever como a mulher irá
reagir e nem quais situações podem surgir.
A psicologia perinatal pretende estar ao lado dos atores envolvidos nesse
quadro e tornar esses momentos mais leves ou ao menos mais fáceis de serem
elaborados.
O obstetra francês Frederick Leboyer, em 1988, escreve em seu livro “Nascer
Sorrindo” algo que, apesar de destinado a médicos e enfermeiros, se encaixa muito
bem ao papel do psicólogo no trabalho perinatal. Leboyer escreve assim:
"Sim, é preciso tão pouco, nada de orçamentos caros, recursos
eletrônicos... Nada disso, apenas paciência e modéstia. Silêncio. Uma
atenção leve, mas sem falhas. Um pouco de inteligência, de preocupação
com o outro. Esquecimento de si mesmo... É preciso muito amor. Sem amor
vocês não passarão de bem intencionados..."
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REFERÊNCIAS

IACONELLI, V. Depressão pós-parto, psicose pós-parto e tristeza materna. Rev.


Pediatria Moderna, Julho-Agosto, v. 41, nº 4, 2005. Disponível em:
<http://institutogerar.com.br/wp-content/uploads/2017/03/dpp-psicose-pos-parto-e-
tristeza-materna.pdf>

MOREIRA, M. E. L.; BRAGA, N. A.; MORSCH, D. S. Quando a vida começa


diferente: o bebê e sua família na UTI Neonatal. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz,
2003.

MALDONADO, M. T. Psicologia da Gravidez - Parto e Puerpério. São Paulo:


Editora Saraiva, 1997.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS), Declaração da OMS sobre Taxas


de Cesáreas. Disponível em:
<http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/161442/3/WHO_RHR_15.02_por.pdf>

REZENDE, J M. A primeira operação cesariana em parturiente viva In: À


sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo:
Editora Unifesp. 2009.

WINNICOT, D. W. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes. 2013.

WILHEIM, J. O que é psicologia pré-natal. São Paulo: Casa do Psicólogo. 1997