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HEIDEGGER: ARTE COMO

CULTIVO 00 INAPARENTE

\
I~

THAlS CURI BEAINI

ED USP
** NOWI STELLA
Sendo a primeira obra publicada em
língua portuguêsa sobre a Arte no pensa-
me nto de Ma rtin Heidegger (1899- 1976),
este livro é um trabalho original que
contribui para o enriquecimento da Bi-
bliografia tão care nte, nest e domínio,
em nosso Pa ís.
A preocupação, sempre presente, no
sentido de uma pesquisa direta das [on-
tes, a t esta sua atualidade.

Re fl e tindo sobre o sentido do Ser -


e nqua nto compreens ibilidade de tudo o
que é --, Heidegger cons tata o seu es-
queci me nto fundamentado na postura do
Homem que , e nqua nto suje ito, domina os
e ntes-obje tos. O c aráter simbÓ lic o do fa-
zer arttstic o tende a diluir-se na Estéti-
ca e o Niilismo da Técnica predomina,
uma vez que , fundadas na Meta física,
consti tue m o tríplice caráter de uma
e ra do obscurecimento da Verdade do
Ser, que assinala a inessencialidade, ge-
rando o perigo inerente à habitação do
estar-aí em seu Mundo.
O caminho para a recuperação do
sentido do Ser está centrado na lingua-
gem poétic a e na Arte. A Arte Pocmá-
tica , e nquanto essencial, é a possibilida-
de de inauguração de uma nova era fun-
dada no des-velamento do Ser, que recu-
pera a o riginari~ade daq~ilo que u,!! dia
foi captado nas epocas Mltica e Pre-So-
c rática, no seio das qua is a vinculaç ão
entre Theoria, Práxis e A lé the ia foram
preservadas.
Este livro contem a Tese de Douto-
ramento apresentada ao Departamento
de Filosofia da Universidade de são Pau-
lo -- onde obteve a nota máxima. Ele
é fruto de dezessete anos de dedicação
da Professora Thais Curi Beaini ao pen-
sar de Martin Heidegger, que se iniciou
com uma reflexão acerca do problema
~a Linguagem, eublicada com o título:
A escuta do s ilencio; um estudo sobre a
linguagem no pensamento de Heidegger.

A clareza do estilo da autora, a fa-


miliaridade e a determinação precisa
dos temas que desenvolve em uma lin-
guagem acessível, bem como a ex posi-
ção extremamente didática de suas
idéias, propiciam ao leitor a penetração-
-compreensiva na beleza do universo
he ideggeriano, considerado, por muitos,
hermetico.
-
A busca do sent ido do Ser e a quest ao
f undame ntal q ue norte ia todo o pensar de
Ma rtin He idegger. Ne le a Arte OCU~ um
lugar priv ilegia do. Enqua nto i n stit~ui çao da
Verdade do Ser na obra, a Arte e nomeada
Poema. Sua f unção é de resgat a r a
a utentic idade do f azer a rtístico - perdida
no decorrer da Filosofi a , da Est é t ica e da
Técnica -, recuper a ndo a eclosão do
s imbÓlico nas épocas Mít ica e Pré-Socrá tica.
Por inte rmé d io da Arte - e nqua nto fazer
não utilitá rio e a rraigado ao Ser - pode mos
r edime ns iona r a uniformidade e a subje tividade
que im pera m na Técnica, colocando e m risco a
essênc ia m esma do Homem, sua ha bitação no
Mundo. Assum indo livre me nte o Ser, o Ho me m
o cultiva, ha bitando o Mundo_ Habitar é, assim,
uma tare fa a rtís tico-,.J>Oética, -cria do ra - ta refa
daqueles que se dispoe a esperar o mome nto
propício par a o desabrocha r do que c ultiva ram,
poi s estão cientes que tudo pro vé m da Ve rdade
do Ser e ne la se c ons uma.

c oleção Belas aR!:es


HEIDEGGER: ARTE COMO
CULTIVO DO INAPARENTE

THAIS CURI BEAINI

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

~
'I
. ** N0V~ 5TELL~
. :

Obra publicada em co-edição com a

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Reitor: José Goldemberg

Vice-reitor: Roberto Leal Lobo e Silva Filho

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Presidente: José Carneiro

Comissão Editorial:

Presidente: José Carneiro. Membros: Alfredo Bosi,


Antonio Brito da Cunha, José E. Mindlin e
Oswaldo Paulo Forattini.
Coleção BELAS ARTES

volumes publicados:

À margem do cinema

Luiz Nazário

Heidegger: Arte como cultivo do inaparente


(

Thais Curi Beaini


~ ~
Capa: reprodução do quadro 'Portrait de Vallier',
de Cézanne.

Revisão: Rogério Carlos Gastaldo de Oliveira


e autora.
Composição: Dora Pratt e Gilberto Francisco de Lima
Arte Final e Impressão: José Luiz Goldfarb, Luciano
Molinari e Tom Genz

1~ Edição 1986

Coleção BELAS ARTES

Copyright by Thais Curi Beaini

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional


(Cãmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Beaini J TIlais Curi.


B35h Heidegger : ar te como cultivo do inaparente
Thais Curi Beain i . -- são Paulo: Nova St el1a : Edi-
tora da Universidade de são Paulo , 1986 .
CColeção belas artes)

Originalmente ap resentada como tese da au t or a


Cdoutor ado--Unive r s i dade de são Paulo) sob o titulo:
A arte como fruto das concepções epocais do ser .
Bi b liografia .

1. Arte - Filosofia 2 . Heidegger, Martin , 1889-


1976 - Crítica e interpretação I. Títul o . II. Se r ie : Dedico este livro
Belas artes .

CDD-70l Aos meus pais, Rosa e Fouad: obras de


86 - 1160 -193
arte, poemas de serenidade que, em sua
Indices para catá lago sistemático: luminosidade, cultivaram o que sou.
1. Arte : Filosof ia 701
2. Heidegger : Filoso~ia alemã 193

Às pessoas mais queridas, diante das quais


meu amor eclode sublime: Tania, Salua,
5alma, Elisa e José Carlos.
NOV A STELLA EDITORIAL Ltda.
Av. Paulista nQ 2~~8 Àqueles a quem o Tempo não deu tempo
são Paulo SP O1310
para est-ªrem aq,ui: à vo.vó Victória, ao tio
telefone: 881-5771 e 256-8316 Armando, a Jose Nicolau -- com saudade.
/.I;
Agradeço

Ao professor doutor Victor Knoll por sua


orientação, horizonte de proximidade, no aconchego
do diálogo, percurso deste caminhar.

Ao professor doutor Ernildo Stein solo profundo


para o desabrochar deste livro: por seu acolhimento
amigo, pelo enriquecimento bibliográfico e pessoal.

À professora doutora Raquel Glezer por suas


palavras de estr-rÍlulo.
Índice

Prefácio de Ernildo Stein 11

Introdução 21

Primeira Parte: A Arte: sua vinculação ou afastamento do Ser

Capitulo o Mito e os Pré-Socráticos: as epocas de


um pensar originário sobre o Ser e a Arte 29
Capítulo II A Metafísica, a Arte enquanto Estética e a
Técnica: as épocas do esquecimento do Ser 49

Capítulo III - A Arte enquanto Ontologia: a des-truição da


subjetividade e a instauração do sentido do Ser 67

Segúnda Parte: A Arte: uma exaltação do Poético


como o Verdadeiro

Capitulo IV - Linguagem, Poema e Arte 87

Capítulo V - A Arte e o des-velamento do Ser


enquanto Verdade 107

Capitulo VI - A Arte: uma passagem do fazer do estar-ai


como ser-no-Mundo à habitação do Mundo 121

Conclusão 141
PREFÁCIO

NECESSIDADE E HISTORICIDADE

A justificação dos enunciados cognitivos, e. particular os da


estética em Martin Heidegger.

Ernildo Stein

1. Ao se aproximar de seus sessenta anos de publicação, a obra


central de M. Heidegger, Ser e Te.po, ainda não foi esgotada em
sua capacidade de produzir novos efeitos na compreensão de ques-
tões centrais da Filosofia. Corno toda obra filosófica, também
esta esconde no projeto que a move, um princípio de racionalida-
de. Mas o novum deste princípio constitui-se em um lugar onde se
dividem ~s ~guas da pós-modernidade. A idéia do "fim da metafí-
sica" não é algo desconhecido nos anos vinte deste século . Era
com esta idéia que se pensava o fim de um tipo de racionalidade,
para retomar a questão a partir do ângulo linguístico, epistemo-
lógico, ideológico, da mundividência, da história . Esta nova po-
sição para analisar o estatuto da razão humana, marcava, sem dG-
vida, o fim da modernidade com sua pretensão de pensar, ainda
urna vez e de modo total, o universo do conhecimento, da ciêncta,
da moral, da arte e da religião, a partir de uma razão que não
cessa de inscrever-se, produzindo necessidade, universalidade e
sistematicidade. Heide.gger, porém, propôs pensar o "fim da meta-
física" a partir da "hermenêutica da facticidade",le'"antando,as-
sim, a qu~stão de pensar a razão' a partir d~ co~tingência, isto
é, a partir de algo que cessa de não ' inscrever-se, e a partir
da possibilidade, isto é, a partir de algo que cessa de inscre-
ver-se . "Porque existe o ente e não antes nada?", é a questão
leibniziana que Heidegger vai retomar, não mais no paradigma da
metafísica da subjetividade, mas a partir da analítica existen-
cial . Porque algo cessa de não se inscrever? Por que h~ o estar-
aí. "Somente enquanto estar-aí, d~-se ser" . A racionalidade est~
vinculada com a existência:"A essência do homem é a existência":
Algo cessa de increver-se.

2 . A era pós-moderna, certamente, ainda que fale do "fim da


metafísica", se vê às voltas com questões centrais da modernida-
de, procurando, no entanto, dar-lhes uma resposta não metafísi~
ca. Na medida em que a filosofia do século vinte se empenha em
resolver, por novos caminhos, a questão do "transcendental", a

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ser se~uido ne~t~ tarefa seria o.co~c~ito de t~mpo ~p:esença) ,da
questão do "apriori", ela retoma a questão da racionalidade do tradiçao metaflslca. Todos os prln c lplo~ epoc als (ldea, ousla,
século XVIII e do século XIX. Mas, nesta mesma medida, ela se esse, cogito, "eu penso" de Ka~t, saber absoluto de Hegel , _etc.)
enfrenta com a questão do estatuto desta racionalidade a ser são marcados por esta concepçao de tempo. E esta concepçao de
fundado a nível linguístico, epistemológico, ideológico, cultu- tempo linear (presente) é a garantia ~a ~acionalidade fundadora
ral e histórico. Como justificar a necessidade, a universalidade destes princípios epocais. Todos os prlnclplos epoca:s.passam a
e a sistematicidade a partir de cada um destes lugares, sem con- marcar cada época, cada um a seu tempo, por uma es~ecle ~~ d~s­
verter a racionalidade em algo que flui do necessário, isto é, tino historial em todas as formas de manifestaçao: ClenCla,
que se constitui a partir daquilo que não cessa de inscrever-se? moral, arte, r~ligião . Esta a racionalidade metafísica: justifi-
O transcendental e a questão do apriori pretendem apresentar a ca r a partir do que não cessa de se inscrever . ..
garantia para uma racionalidade que se constitui através do co- Historicamente, portanto, a racionalidade aprlorl.que e:a
nhecimento empírico. Mas ' como dar conta desta racionalidade posta como base da racionalidade cognitiva, produ~id~ .dlscursl-
transcendental, apriori, para com ela fundar a racionalidade que vamente, em cada época se articulava com um prlnclplo epoca~,
se produz cognitivamente? Recorrer ao sujeito transcendental que era descrito como algo permanente, algo pre~ente, .que nao
kantiano ou ao pensamento holista de extração hegeliana? Certa- cessava de inscrever-se e se constelava numa açao artlculadora
mente não. É preciso ver como é possível justificar o conheci~ de todas as esferas fundamentais do saber . Heidegger afirma que
mento em sua racionalidade, sem cair nas armadilhas do fundamen- o Ocidente chegou ao fim destes princípios epocais com ~ sistema
talismo ou do holismo. Racionalidade apriori, portanto, para absoluto de Hegel e ' as tentativas epigonais de Marx e Nletzsche.
fundar a racionalidade cognitiva, sem hipostasiar algum tipo de Ambos apontam para além do paradigma metafísico, mas ainda fazem
sujeito ou alguma filosofia primeira. Em outras palavras: justi- das questões cosmológicas e teológicas alvos _de crítica~ com
ficar o que cessa de não se inscrever -- o contingente, pelo que tentativas de substituição. Em ambos, a questao do sentldo do
não cessa de se inscrever -- o necessário, porém, sem apelo a ser e a questão do ser-no-mundo, faltam para delimitare~ o :ampo
soluções metafísicas. Nesta tarefa se empenham todas as filoso - do conhecimento possível em filosofia e assim, a determlnaçao de
fias da lógica e epistemologias contemporâneas, quando querem uma racionalidade que não dependesse mais de um principio epo-
resolver o problema da racionalidade (necessidade, universalida- cal. No primeiro, a produção do homem pela transform~çao do mun-
de, sistematicidade) do conhecimento empírico- analítico. Mas do e no outro, a vontade de poder. Em Marx ainda est~ presente , a
como enfrentam estas tentativas a questão da moral, da arte, da garantia apriori de racionalidade que se resume no metodo diale-
religião e das ciências humanas em geral? tico hegeliano, que é assumido em flagrante contradição com sua
afirmação: "A razão existiu sempre, mas nem s~mpre de modo
3. A fenomenologia hermenêutica e a ontologia fenomenológica racional."
de Heidegger foram resultado de uma manobra de superação da me -
tafísica que produziu o que resolvi denominar de "encurtamento 4. A pretensão de Ser e Tempo e, particularmente, a de inau-
hermenêutico". Entendo por esta expressão a inauguração de um gurar um modo de racionalidade -- contexto do "encurtamento her-
novo paradigma na filosofia, que se determina basicamente por menêutico" - - que, de um lado, não exigisse mais um princípio
uma delimitação de um conhecimento possível na filosofia, impli- epocal para justificar a racionalidade produzida discursivamente
cando na exclusão de um discurso sobre o mundo natural (origem e que, de outro lado, não caísse nas, aporias das tentati~as
do mundo, origem do homem, evolução, etc.) e sobre a teologia epistemológicas de "superação da metaflsica" que termlnavam l~ ­
natural (existência de um ser supremo, criação do mundo, etc.) e vencívelmente produzindo um apriori fundante que repetia o "nao
que passa a constituir o "mundo hermenêutico". As seis teses cessa de inscrever-se" da metafísica, ainda que na forma de re -
centrais de Ser e Tempo visam a constituição deste "mundo herme- gras ou critérios que garantiri~m.a ra:ional~dade dos enunciados
nêutico": Sentido do ser, estar-aí, ser-no- mundo, cuidado (cu - da ciência. Estas regras e criterlos nao podlam, no entanto, dar
ra), temporalidade, temporalidade ecstática. A analítica exis- conta de sua própria racionalidade, sem que se iniciasse um re-
tencial pretende descrever os três modos fundamentais do estar- gresso ao infinito. É que esta justificação se fazia ao modo da
aí, enquanto ser-no-mundo:~. representação d~ en~e puramente ontologia da coisa e se restringia ao primeiro modo de s~r do
subsistente (Vorhandenes), o lidar com o ente dlsponlvel (Zuhan- estar-aí: a representação do ente puramente subsistente ( a Vor-
dene s ) e o compreender-se em direção da existência. A partir handenhe i t ).
destes modos de ser-no-mundo do estar-aí, Heidegger pretende A racionalidade que Heidegger procura desenvolver se apoia
"fundamentar", descrevendo (fenomenologia), a questão da racio- no segundo modo fundamental de ser do estar-aí: o lida: com O
nalidade. Esta, como consequência do "encurtamento hermenêuti- ente disponível, modo que situa o homem no mundo, atraves de um
co", não se pode produzir a partir do espaço metafísico (mundo compreender que antecede a compreensão teórica e sua explicita-
natural e teologia natural). É este espaço metafísico que Hei- ção pela enunciação: O "como hermenêutico" que fun~a ~ "como
degger visa desmascarar com sua "destruição da metafísica", a- apofântico". ~ racionalidade instituí~a pela,"hermene~tlca. da
nunciada já na p.rimeira seção de Ser e Tempo e a ser efetivada facticidade" e capaz de dar conta de Si, atraves da raclonallda-
nas seções 1 ,2,3 ~,a s~gunda parte, não publicadas. O caminho a
/

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de das diversas áreas do saber (da racionalidade cognitiva, pro- ria do agir comunicativ o de Habermas, vem desenvolvendo ~ltima­
duzida discursivamente) que a ela remetem, numa relação circu- mente um tipo de racionalidade que somente seria possível a par-
lar: é o c irculo hermenêutico -- a boa circularidade . Esta cir- tir de uma mudança de paradigma na filosofia . Habermas mesmo o
cularidade , no entanto, não seria possivel sem o compreender-se reconhece: é o concei to de ' mundo' em Ser e Tempo que inaugura
do estar-aí, em vista de sua existência que é o terceiro modo e sta mudança de paradigma .
fundamental de ser do estar-aí. Ser-no-mundo significa ter como
seu ser o cuidado (a cura ), cujo sentido é a temporalidade ecs- 6. Heidegger não deu atenção às consequências de nível ôntico
tática, não a linear, . objetivável, dos diversos princípios epo- de s ua analítica e xi stenc i al. Os efeitos de sua "hermenêutica da
cais da tra.d ição metafísica . O estar-aí já sempre se compreende facticidade" foram, primeiramente, conceitos básicos, tais como:
em v ista da existência, da facticidade e da decaída. O "mundo" a) o "como hermenêutico"; b) o "encurtamento hermenêutico"; c) o
do estar-aí se estrutura a partir do cuidado que tem uma forma "mundo hermenêutico" ; d) o "circulo hermenêutic.9..~'; · e) o "método
específica de temporalidade que se manifesta na morte. Somente a hermenêutico". Esta s expressões , nem todas presentes nos textos
partir da morte se compreende um poder-ser-total que, entretan- do próprio filósofo, pretendem resumir áreas temáticas e es~aços
to , nunca se realiza: ou ainda". não somos totais ou então, quando teóricos criados pela analítica existencial . Levar Kant ate as
totais, não mais nos podemos compreender . A racionalidade que ~ltimas consequências, radicalizá-lo, será, de certo modo, sem-
Heidegger propõe em Ser e Tempo é atravessada pela dupla dimen- pre o ideal da obra de Heidegger. Buscar as condições de possi-
são do que cessa de não se inscrever (contingência) e do que bilidade,mas não em um espaço privilegiado da mente : o eu trans-
cessa de inscrever-se (possibilidade). A morte é esta dimensão cendental. Encontrar as formas, mas numa "intuição caterial" .
em que algo não cessa de não se inscrever: a impossibilidade e, Retomar a questão do tempo, mas não em função de uma síntese co-
como tal, a ~ltima possibilidade do estar-aí: para cada estar-aí mo no esquematismo kantiano . Elevar a temporalidade até a sua
mortal, a dimensão em que algo cessa de inscrever-se. função de sentido do ser do estar-aí, e não simplesmente reduzí-
la a elemento de explicitação do primeiro modo de ser do estar-
5. As tentativas de ' superação da metafísica para fundar o sa- aí, a representação do ente simplesmente existente, objeto do
ber humano numa racionalidade não produzida discursivamente, ma s universo empírico-analítico. Construir a ontologia fundamental
de caráter nem transcendental, nem apriori, terminam as aporias 'para, a partir dela, recuperar a orientação para uma "totalida-
referidas, porque somente levam em consideração um dos aspectos de" não metafísica, através de uma hermenêutica abrangente que
dos modos fundamentais de ser do estar-aí: a representação do fosse capaz de pensar, não apenas a racionalidade da ciência e-
ente puramente subsistente. Por isso mesmo, podem se permitir xata, mas das ciências humanas, em fim, as esferas cognitiva,
estabelecer a racionalidade que garante a "necessidade", univer- normativa e expressiva -- a ciência, a moral e a arte. Importa-
salidade e sistematicidade (totalidade) a partir da dimensão de va-lhe superar, pela "hermenêutica da facticidade", o dualismo
algo que não cessa de inscrever-se: a necessidade . Mas esta "ne- metafísico que separa entre- mundo inteligível e mundo sensível,
cessidad'e" é sempre ad hoc, Ou melhor, um exercício de COIBO através do modelo da relação sujeito-objeto. Era este mod~ib' que
se. A proposta para fugir do regresso ao infinito ou da simula- levara todas as propostas metafísicas, e mesmo as que pretendiam
çao através das formas de vida, de Wittgenstein; do mundo-da- "superar" a metafísica, a estabelecer ' uma racionalidade apriori,
vida, de Husserl, sofre de uma falha fundamental: aquela que a transcendental, não produzida cognitivamente, para garantir a
analítica existencial pretende sanar pela "hermenêutica da fac- racionalidade do universo empírico-analítico, racionalidade a-
ticidade", em que sempre entram em consideração os três modos priori que, no entanto, não conseguia dar contas da racioria1ida-
fundamentais do ser-no-mundo: a representação do ente puramente de das ciências humanas e muito menos da moral e da arte.
subsistente, o lidar com o ente disponível (dimensão prática que A filosofia "hermenêutica" de Heidegger deveria sér capaz
Heidegger propõe) e o compreender-se em vista da existência. Ao de pensar as esferas individuais da experiência e do saber, em
fim dos princípios epocais, a racionalidade que se quer consti- direção a um centro "especulativo". Mas de tal modo, que estas
tuir a partir da necessidade (algo não cessa de inscrever-se), esferas individuais, que sempre se transformam historicamente,
deve, no mínimo, ter consciência de sua precariedade; na medida se desenvolvessem em direção a um centro que, de distintos pon-
em que não leva em consideração todos os modos fundamentais de tos de partida, também se mostrasse sempre de outra maneira, as-
ser do estar-aí, não considerando, assim, a questão que se põe sim, que não pudesse ser determinado definitivamente de maneira
com o ser-para-a-morte: algo que cessa de não se inscrever para completa e fechada. Seria esta a sua maneira de, mesmo aceitando
então cessar de inscrever-se, situando o ser-no-mundo diante do o fim dos princípios epocais, não' cair numa anarquia e fragmen-
inelutável: algo não cessa de não inscrever-se. tação: filosofar não deveria significar ~issolvei-s~~no trabalho
Aquilo que em Lukács é denominado reificação da conSClen- das ciências particulares e na justificação de sua racionalida-
cia; na Escola de Frankfurt, razão instrumental; e já em M. We- de, nem déspedaçar-se em disciplinas individúais da própria fi-
ber, de racionalização, aponta para a unilateralidade da racio- losofia. Filosofar seria perguntar em que constelação se situam
nalidade que se funda na ontologia da coisa e se atém apenas à as esferas individuais do "mundo" em cada momento histórico. Um
atividade da representação do ente puramente subsistente. A teo- tal tipo de racionalidade não se destinaria simplesmente a jus-
lo;

14 15
tificar a racionalidade de todas as esferas individuais. Elas 7. É numa das questões mais difíceis para a metafísica, a
teriam aí o lugar "último" de sua emergência: o "mundo", o questão da arte, que podemos observar as modificações que a obra
,imundo da vida", algo semelhante às formas de vida de que Witt- de Heidegger introduz . À medida em que o princípio epocal re-
genstein falaria, após sua leitura de Ser'e Tempo, no fim dos presenta, em sua vigência, a fonte de compreensão e racionalida-
anos vinte. Os três modos fundamentais de ser do estar-aí, en- de de qualquer manifestação no universo histórico, também a in-
quanto este é cuidado, e "enquanto o sentido do cuidado é a tem- terpretacão do belo, da obra de arte, recebe seu impulso desta
poralidade (Zeitlichkeit), teriam que manifestar-se na articula- racionalidade, para se inserir, ao lado do conceito de realidade
ção de uma outra temporalidade (Temporalitat) como lugar, hori- e de verdade, numa ordem sistemática. Não há dúvida que todo
zonte, espaço de distinção e separação de todos os modos·de ser dualismo metafísico sofre particular constrangimento nesta esfe-
não próprios do estar-aí. A terceira seção da primeira parte ra ôntica particular, em face do abismo que separa o inteligível
pretendia desenvolver isto, pois, Heidegger compreendera como do sensível. A incorporação do belo aos transcendentais na tra-
"atemporais", de certo modo, os três modos fundamentais de ser dição escolástica, ao lado da bondade e da verdade, forneceu-lhe
do estar~aí -- temporalmente invariantes, visto que o Dasein era um estatuto legitimador como região privilegiada do saber, mas é
um constructo. No entanto, a distinção do mundo como Gestell -- indisfarçável a dificuldade em delimitar o específico de sua
arrazoamento, isto é, o mundo científico-técnico dos objetos, e posição a partir do princípio epocal da Idade Média.
estoques e do mundo como Geviert -- quaternidade, isto é, o mun- A estética conseguiu uma relativa autonomia com a obra de
do da arte, da moral, da política, da religiã~, somente podia A. Baumgarten que lhe determinou o lugar sistemático. E Kant, em
ser compreendida como constelação de uma época, preparada pela sua terceira crítica, consolidou o significado sistemático do
história concreta. problema estático. Todo o empenho do romantismo alemão e do ide-
Quando Heidegger introduz a temporalidade (Temporalitat) alismo, com a monumental estética de Hegel, não produziu outro
como um princípio ativo de distinção e ordenação que articula o efeito que submeter toda a questão do belo e da experiência es-
mundo numa estrutura determinada de manifestação do ser, ele tética ao princípio epocal vigente: a subjetividade. Heidegger
pretende encontrar, ao mesmo tempo, um princípio de racionalida- foi encontrar uma situação de crise da questão do estético. Os
de que permita compreender e justificar a racionalidade das "on- neokantianos, com suas preocupações epistemológicas, não tinham
tologias regionais" e as razões que permitam justificar e com- como resolver a dimensão do estético, no universo de sua visão
"preendera estrutura historial em que os compromissos possíveis do ressurgimento de Kant. É o que se pode'ver espelhado na a-
de uma época se articulam com uma determinada racionalidade. Es- bordagem que o filósofo faz, no início de sua análise, no texto
ta proposta heideggeriana contém duas consequências notáveis: a) sobre a origem da obra de arte: a separação entre obra de arte e
a racionalidade que se determina a partir de uma necessidade coisa. O que está no coração desta distinção é a crítica do fi-
"contingente", isto é, a partir de algo que não cessa de se ins- lósofo à concepção da realidade e dos objetos como puro fundo de
crever, mas não do mesmo modo historicamente, apresentando um reserva, para a objetivação e o cálculo. Nem o caráter de coisa
caráter historial (destino, destinação); b) a idéia de paradigma da coisa, nem o caráter de artefato do instrumento é, assim,
que permite pensar a coexistência de racionalidades, a nível de pensado. Sua reflexão sobre a obra de arte, sobre a obra como
condição de possibilidades históricas que determinam o modo como tal, vai lhe abrir passagem para o conceito fundamental com que
se produz a racionalidade cognitiva em grupos de pesquisadores revoluciona a questão da arte: a questão do 'mundo'. "O mundo
ou em culturas diferentes. Isto que se poderia aproximar perigo- todo da vida camponesa está nestes sapatos". "A obra de arte
samente dos princípios epocais da história da metafísica, é exa- abre seu próprio "mundo"."
tamente o resultado da superação da metafísica, através do uso A racionalidade, mesmo aquela que se pretende superadora da
do fio condutor da questão do tempó, que na determinação linear metafísica, prende-se ao primeiro modo fundamental de ser do es-
e objetivista como presente, presença, vicia toda a concepção tar-aí: a representação do ente puramente subsistente. O segundo
dos princípios epocais. modo fundamental de ser do estar-aí: o lidar com o ente disponí-
É na questão do círculo hermenêutico que se funda esta vel, representa uma das grandes intuições de Heidegger, quando
racionalidade, pois a racionalidade assim concebida trabalha com estabelece o conceito de Zuhandenheit -- a qualidade do estar
o método hermenêutico. Daí que a racionalidade que Heidegger disponível, do estar à mao. É a partir deste conceito que a
busca na filosofia e que repousa na "hermenêut'ica da facticida- analítica existencial produz um espaço que é receptivo ao mundo
de" é, ao mesmo tempo, dotada de necessidade e de historicidade. da obra ou da obra que constitui o "mundo". É claro, que o ter-
Aos modos fundamentais de ser do estar-aí como ser-no-mundo, ceiro modo fundamental de ser-aí: o compreender-se em direção à
correspondem os modos em que este "mundo" se articula nas diver- existência, não é apenas um último modo de ser. É dele que a
sas regi'ões do ser, sempre "historialmente". obra recebe aquilo que a insere no "mundo". Mas o compreender-se
em direção à sua existência é como que preenchido a partir da
obra que constitui mundo. O "como hermenêutico" resulta precisa-
mente deste compreender-se, já sempre lidando com o "mundo" dos
artefatos, daquilo que esta disponível. É precisamente a partir
~I

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do "como hermenêutico" que se determina o carater fundamental de moldura justificadora dos enunciados do mundo da arte, da polí-
ser-no-mundo. tica, da moral, etc. As análises das questões da estética e da
Não há dúvida, que a questão do estético recebeu, no para- produção art~stica situam-se fora do contexto das ontologias
digma inaugurado por Ser e Tempo, um espaço totalmente novo. A objetivistas, e da tradição das filosofias da representação e da
superação da racionalidade da ontologia da coisa (instrumental) s.ubjetividade. E esta racionalidade -- ao mesmo tempo marcada
como único caminho para o acesso aos entes; a superação do dua- pela necessidade e pela historicidade -- não recai no antigo
lismo entre inteligibilidade e sensibilidade; e, sobretudo, a quadro de uma fundamentação última, mas não deixa lugar para um
crítica ao modelo da relação sujeito-objeto, ao mesmo tempo em completo ceticismo quanto às condições formais em que a filoso-
que atingiam aspectos essenciais da racionalidade produzida pe- fia pode pensar os enunciados da estética. Ainda que se articu-
los princípios epocais da tradição metafísica, levou Heidegger a lem sempre "historialmente", as diversas manifestações da região
introduzir o conceito de "temporalidade" (Temporalitat) a partir do surgimento da obra de arte, podem ser justificadas racional-
do qual as diferentes esferas individuais do mundo receberiam mente, isto é, determinadas desde o sentido do ser, a partir do
seu estatuto legitimador. Mas não mais como legitimação vinda de qual o ser humano arma e instala sua compreensão do mundo. A o-
algum princípio metafísico, princípio que lhe garantiria racio- bra de arte pode ser pensada em sua racionalidade -- seu sentido
nalidade, mas legitimação pelo próprio acontecer histórico, como -- a partir do que não cessa de inscrever-se, mas não sempre do
constelação de uma época, resultado de uma articulação de formas mesmo modo, apresentando exatamente um caráter historial. ·Ela se
de vida. Aí a obra de arte encontra seu lugar. Daí o Filósofo insere num universo de racionalidades coexistentes, a nível de
ligar o aparecer das obras de arte a um povo como uma espécie de condição de possibilidades. A idéia de paradigma que se tornou
destino, isto é, como algo que acontece historialmente sem poder possível para a filosofia através de algumas teses centrais de
ser esgotado por análises antropológicas, sociológicas ou psico- Ser e Tempo, funciona justamente também neste caso. Pois, a ra-
lógicas. Daí também que a transitoriedade da obra de arte -- a cionalidade apriori da tradição, passa a manter-se como condição
sua condição de estar ligada ao que cessa de não se inscrever e de possibilidade, que no entanto, se gera no próprio processo do
ao que cessa de se inscrever -- enquanto contingência e possibi- conhecimento empírico que se produz através dos modos fundamen-
lidade, não ser a condição fútil de uma mercadoria que sai da tais de ser do estar-aí que emergem no "mundo". A idéia da intu-
circulação. Sua transitoriedade lhe garante "mundo" e inscrição ição categorial e da intuição empírica, que inspirava Heidegger
na constelação de uma época e de um povo. desde cedo, mas que somente foi explicitada tardiamente, pode
Assim como O filósofo, ao fim da primeira analítica, mostra ser considerada o lugar da descoberta desta racionalidade fun-
como as consequências das teses de Ser e Tempo, impõem que se dadora de racionalidade, racionalidade fundadora que é sempre
r~pense o conceito de realidade e de verdade, da mesma maneira, necessária e sempre "historial". Também aqui está o lugar a par-
estas teses transformam o conceito de arte, obra de arte. Mas na tir do qual se produziu a análise totalmente original da questão
obra de arte acontece nao simplesmente a revelação (Erschlossen- da arte na obra de Martin Heidegger.
heit) de· uma verdade. Com a obra de arte se introduz algo de
bovo na existência do estar-aí, ela é um acontecimento em que se
articula a quaternidade: a terra e os ceus, os mortais e os deu-
ses. Porto Alegre, 26 de maio de 1986.
Aparentemente Ser e Tempo estava trazendo poucas contribui-
ções para a questão da obra de arte. É preciso ter claro, no
entanto, que as abordagens posteriores, desde A origem da obra
de arte, passando por inúmeros ensaios sobre a poesia, até seus
estudos mais recentes, ' estão fundamentadas na perspectiva para-
digmática que foi aberta em sua obra de 1927. Não se tratava, em
Ser e Tempo, de apenas uma nova concepção filosófica em meio a
muitas outras. A analítica existencial, a proposta da superação
da metafísica, através da crítica do conceito de tempo linear e
objetivável, representava a tentativa de redefinir, na filoso-
fia, a questão do transcendental, do apriori, ou melhor, como
mostramos neste ensaio, de repensar a questão desta racionalida-
de que, na tradição, é: condição de possibilidade de qualquer ra-
cionalidade produzida discursivamente nos enunciados científi-
cos. Mas, para Heidegger, a questão não deveria limitar-se ao
campo dos enunciados científicos, ao domínio do científico-téc-
nico dos objetos do mundo natural. Era importante ampliar a ra-

.
cionalidade até poder encontrar nela o ponto de ancoragem, a
";

18 19
Introdução

A busca do sentido (Sinn) do Ser é a questão fundamental


que norteia todo o pensar de Martin Heidegger. A intuição bási-
ca na qual está centrada a especificidade de seu Método Fenome-
nológico é a A-létheia grega(l), a tendência para o velamento
constitutiva do processo de des-velamento do Ser (Unverborgen-
heit). A união essencial do Ser com o estar-a í(2) emerge na Arte
e na Linguagem.
Nesse contexto, o objetivo desse livro é analisar o lugar
privilegiado que a Arte ocupa no horizonte de investigação hei-
deggeriana, em seu estreito vínculo com o Ser e com as suas con-
cepções epocais. Por meio delas a Arte será circunscrita por um
cunho autêntico ou inautêntico. Antes de enfocarmos estas duas
modalidades nas quais se desdobra a Arte, convém explicitarmos o
significado do termo época, que elegemos como fio condutor de
nossas reflexões acerca do tema.

"Época não significa um intervalo de tempo no curso do


que acontece, mas o traço fundamental do envio: a retenção, em
cada caso, graças à qual o que se dá pode ser percebido". (3)

Esta delimitação do termo época nos remete à peculiaridade


da linguagem e da interrogação heideggeriana do Ser, bem como ao
âmbito da diferença ontológica. Para Heidegger, aquilo que é
designa o ente (Seiende) enquanto tal: do Ser (Sein), podemos
dizer que ele advém. Contudo, o termo época, derivado do grego
Epoché (epi- échein), remonta ao processo de suspensão que con-
tém a ausência, o recolhimento do Ser. Sob esse prisma, a época
nos remete à conservação do Ser que, guardado em si, se faz se-
gredo e concomitantemente à sua doação . O Ser se manifesta (das
Offenbare) como a abertura que, saindo de seu mistério, confi-
dencia o seu enigma ao estar-aí. Contudo, como o enigmático re-
quer cautela por parte da compreensão, o pensar se consolidou
voltando-se para:" ... o ser em vista da fundamentação do ente"(4)
Surgem as épocas que instituem o Ser em forma de fundamento
(Grund) ou princípio (Arkhé, Anfang) polar izador, que as espe-
cifica como um subsídio inquestionável. .

"Estas ~pocas se encobr~m, em sua sucessio, tio bem que a


destinação inicial do ser como pre-s-ença ~ cada vez mais enc o-
berta de diversas maneiras"(S).

Assim, a questão fundamental que merece ser refletida, no


tocante às épocas, é o esquecimento daquilo que, em seu desve-

21
lar-se se vela, propiciando a manifestação do ente como presen- desta era c itaremos : os Sofistas, Sócrates, Platão, Aristóteles
te is~o é, do S€r como simbólico. Esquecer o Ser consiste em e Descartes. Por meio deles, o filosofar, expressão da subjeti-
de~erminá-Io como sinônimo do ente. vidade, transforma a Metafísica em Onto- lógica. (8)
A epoca Metafísica, afastado do Ser, é um processo de rup-
"Em última análise, a presença não é diferenciada em face tura no qual se dá a perda do Mundo como referencial . Buscando
das coisas que se presentam. Vale apenas como o mais universal e esgotar o real, conhecê-lo exaustivamente, o Homem se des-conhe-
supremo das coisas que se presentam, sendo tomada como uma de- ce: a-pátrida, fixado em meio i Terra que se furta, perde sua
las". (6) especificidade, a habitação . É a era do Niilismo.

Quais sao as epocas nas quais o estar-aí se a~roxim~ ou se "Pensado a partir do destino do ser, o nihil do niilismo,
distancia do Ser? Elas são cinco: a Mítica, a Pre-Socratica, a significa que o ser mesmo é tido como nada. O ser não entra na
Filosófico-Metafísica, a Estética e a Científico- Técnica. luz do desdobramento de seu reino. No momento mesmo da aparição
Iniciaremos enfocando as duas épocas que se constituem a- do ente como tal , o próprio ser está ausente . A verdade do ser
través da mesma interrogação: como se deu a passagem do Kaos ao escapa".
Kosmos? A época Mítica remonta ao nível imediato e pré - predica- "A metafIsica é uma época da história do próprio ser. Mas,
tivo, no qual o estar-aí, apreendendo-se como um ser-no- Mundo, em sua essência, a metafIsica é niilismo".
busca uma explicação a-teórica para os fatos que lhe são proble- "O ser se tornou valor".(9)
máticos. Retornaremos a esta era, posto que a sua importância
reside no fato de o estar - aí, assumindo-se como um ser-de-rela- Entre cada época, em sua sucessão, há um espaço vago para a
çao, relacionar-se com o Ser em sua totalidade. Isso emerge em formulaç,ão de novos conceitos do Ser. A eles, Heidegger designa,
um nível no qual " ... 0 ser mesmo é a relação ... "(7). metaforicamente, como: a "Noite do Mundo"(10), a "fuga dos deu -
O dizer pré-socrático, elaborado em forma de pensar, dá uma ses", o "fim da Filosofia" . (ll)
continuidade ao dizer mítico. Nele se des-cerra o âmbito essen- A nova visão de Mundo elaborada pela Metafísica oferece as
cial onde pensamento, Linguagem e Arte se colocam a serviço do bases para um fazer obj~tivador, que representa e domina o ente,
Ser. Estas duas eras - - manifestações simbólicas do estar-aí - - no âmbito da Estética~ da Ciência e da Técnica.
se elaboram a partir do simbólico, do des-velado: da A- létheia, A Estética é a época de esvaziamento da Arte, de inautenti -
da Physis. O estar-aí e o Ser, em sua união indissolúvel, se cidade, posto que nela não há mais uma colaboração do Homem para o
pertencem mutuamente. Nelas se cultiva a relação (das Verhae l - des-velamento do.Ser. Este processo remonta a Platão, que define
tnis) ao aberto, ao manifesto, de cujo mistério participam todas a Arte como "Mimesis", como imitação afastada do verdadeiro ', ao
as coisas que são. Há uma atitude de disponibilidade e respei- qual tem acesso o filosofar. As dicotomias entre a teoria e prá -
to, no seio da qual são preservados o Sagrado, o divino e os xis, entre o sujeito e objeto, se espalham pela Estética. Tendo
deuses. A Arte é Techne, saber, que, participando da destina- recebido de Aristóteles a cópula "matéria e forma", a Estética
çao originaria, celebra no Templo e na Tragédia a história do associa o ente i matéria, ao objeto com o qual lida um indíviduo
estar-aí ligada i história do Ser. A Arte, enquanto Poema, habi- privilegiado: o artista. Ele produz obras de arte enquanto cria
ta o equilíbrio do Mundo. Tendo como arkhé a Physis, a meta da formas, a partir de seu modo de perceber o real. Sua função e
Arte é tornar visível o que surge espontaneamente. O estar-aí, gerar o Belo.
enquanto temporal, compreende a A-létheia, em uma atitude con- Em seu texto "Die Zeit des Weltbildes~, contid,? na obra
templativa norteada pela fidelidade de sua instauração . Nestas Bolzwege (12), Heidegger cita os cinco fenomenos basicos que
duas épocas criadoras, experiencia-se a significação do Kosmos, caracterizam a Modernidade: a Ciência, a Técnica, a Arte enquan-
a ligação que há em tudo. Ser solicitado silenciosamente, ser- to Estética, a Cultura e o desaparecimento dos deuses. Após co-
v~r: eis a grandeza do estar-aí, o seu sentido de vida, que o locar estes itens, Heidegger desenvolve, ate o final do texto,
leva a transcender o aparente rumo ao que lhe é mais profundo. A apenas o fenômeno da Ciência. Ele poderia ter feito o mesmo em
Arte, dádiva e devolução, desabrochou em todo o seu potencial, relação aos outros quatro, mas não o fez. Por quê? Porque a Ci-
foi o que deveria ter sido. Por esse motivo a Arte Helênica per- ência tecnicizada é uma espécie de modelo para a análise da
manece, ainda hoje, imortal. obra de arte, da Arte e da desdivinização elaborada pelo Cristi-
Estas duas épocas foram sucedidas pela Metafísica. O Homem, anismo. Todos levam a um ponto em comum: a objetivação do ente.
em contacto com sua individualidade, com o seu ser-pessoa, des-
cobre a . sua importância, rompendo os laços que o atavam ao real. "Um terceiro fen6meno igualmente essencial dos Tempos Mo-
O Kosmos, a A-létheia, a Physis já não têm a importância que dernos é constituIdo pelo processo de entrada da Arte no hori-
lhes fora outorgada. Afinal, o ponto para o qual converge tudo o zonte da Estética. Isto significa que a obra de arte torna - se
que e é o Homem, o novo arkhé. Separado da totalidade do Ser objeto disto que se chama vivência, e, consequentemente, a Arte
ele é o sujeito que, conhecendo conceitualmente o seu objeto passa ' por uma expressão da vi~a humana" (13).
o ente o de~ne, . delimita, limita e domina. Como exemplo
'/

22 23
A Ciência e a Técnica tem como arkhé o sujeito que manipu- tica . A Arte Poemática sera, como a Helênica, um modo privilegi-
la os objetos disponíveis . Em seu campo estão contidos: o ente, ~do de mostração da A-létheia. ~omo exemplo desta Arte vinculada
as obras de arte, a Arte, a Linguagem e o Homem, destituídos de a Verdade, Heidegger analisara as ob r as de dois pintores : Vin-
seu caráter simbólico . O que é produzido tem como meta um fim cent Van Gogh ("ein Paar Bauernschuehe") e Paul Céza nne (" le
e specífico: o consumo. A tecnologia, não conseguindo suprimir o Portrait de Valier").
desejo -- sinônimo da fiqitude do estar-aí e da ausência do Ser A função da Arte Poemática, enquanto um fazer-criativo que
, cria desejos secundários, que são satisfeitos mediante sua se constitui apreendendo o velamento-des-velador do Ser, é a de
aquisição. Nessa era do renovável, do descartável e da ilusão do resgatar a autenticidade do fazer técnico e do teorizar metafí-
prazer, que é a hodierna, o Homem volta - se à sua indigência. Sua s ico . Já em Seio und Zeit, Heidegger analisa a práxis cotidiana
essência se esvazia em seu af astamento do Ser e do Mundo, posto do estar-aí, o seu fazer, que se constitui em seu lidar com o
que o Homem, enquanto ente, pertence necessariamente ao âmbito ente disponível, c aptado a-tematicamente, em seu estar- à-mão,
dessas dimensões. em sua serventia. Constata-se, assim, que o Ser se des-vela nos
entes em um nível anterior a toda e qualquer elaboração teórico-
"O desgaste de todas as matjrias, ai compreendida a matjria temático-conceitual executada pelo estar-aí . Neste fazer origi-
primeira 'homem', em beneficio da produção tjcnica, da possibi- nário já se encontram as sementes do que é a Arte, enquanto atu-
lidade absoluta de tudo fabricar, j secretamente determinado pe- ar autêntico, que se distingue da mera inserção do estar-aí em
lo vazio total onde o ente, onde os or namentos do real, estão um agir que se subordina exclusivamente ao ente na fabricação.
suspensos. Este vazio deve ser inteir amente preenchido" . Sua proximidade com esses entes ocorre no manusear: para expli-
" ... a tjcnica, que sem o saber está em relação com o vazio cá-la faltam termos, falha a linguagem corrente , mas abre-se a
do ser, e, assim, a organização da penúria" ( 14). dimensão poemática para as obras da segunda fase de seu pensar.
Nelas, o habitar enquanto poético (16) instaura o Mundo como
O processo de objetivação técni c a se estende tanto ao Mun- "Quaternidade" (Geviertl, união mítica do estar-aí com o Sagra-
do, a Terra -- " .. . objeto de um assalto permanente ... "(15) do, o divino, os deuses e o Ser. A escultura, enquanto Arte li-
como também à Natureza, que pode ser manipulada pelo Homem que gada ao espaço, é abertura do espaço no qual a Quaternidade apa-
superou a Physis. A Técnica des.igna, assim, o lugar em que o su- rece.
jeito se afirma como absoluto, como senhor do Universo. Em seu Deixar o Ser dar-se: esta e a tarefa da Arte enquanto Ar-
intuito de devastar o Mundo, o Homem elabora a sua própria ex- quitetura, Linguagem, Poesia, Pintura, Escultura. Retornando ao
tinção . Com o termo extinção não nos referimos aqui somente ao brotar espontâneo da Physis, a Arte Poemática propicia ao estar-
seu lado orgânico, ao corpo agredido pelos agrotóxicos e pela aí habitar a totalidade do Ser.
poluição . A terceira Guerra Mundial é um perigo, mas, anterior-
mente ao seu advento, é a essência do Homem que está ameaçada. "Liberar a Poesia da literatura' é' u_a coisa. E outra, da
Preocupado com este perigo, consequência do afastamento do qual temos necessidade: salvar a Terra para o Mundo (die Erde
Ser, Heidegger elabora uma des-truição (Abbau), que visa à supe- ruer die Welt retten)". " ... a partir do alto-jogo entre os di-
r~çao daquilo que ata o Homem . O que ata o Homem são as concep- vinos e os mortais, para este jogo".
çoes . epocais da Metafísica, da Estética e da Técnica, que colo- "~ porque, atrás da aparênCia de uma simples 'poesia da
cam o Homem como a medida do real. É, pois, necessário romper natureza" arrastada e romintica, pode-se já despontar o começo
estas concepções, redimensioná-las, e isso significa: retornar inaparente de uma salvaguarda da Terra. Repentinamente, como um
ao originário, buscar o Ser enquanto Ser. Para tanto, Heidegger relimpago sem trovão, a intacta proximidade do ser pode falar-
elabora um pensar que, transcendendo a todo arkhé, se torna nos".(l7)
"a-nárquico", recorrendo à Linguagem poética a-conceitual, que
preserva a relação do estar-aí com o que é significativo, com o Os objetivos visados por Heidegger em suas reflexões sobre
simbólico. Essa Linguagem apela, em sua dimensão poemática , ao a Arte são resgatar a pertença originária entre a Terra -- en-
pensar essencial e à Arte, que se constituem a partir do des-ve- quanto velamento -- e o Mundo -- enquanto des-velamento --, bem
lado . Neste contexto, Heidegger escuta a mensagem dos poetas, como o acesso a diferença ontológica. Voltar-se ao sentido do
sobretudo a de Friedrich Hoelderlin e a de Rainer Maria Rilke, Ser, à sua Verdade : eis aí a origem da Arte em sua essencialida-
atentos ao desarraigamento essenc~al do estar-aí, nas épocas do de. Nesse contexto, como aos interesses de Heidegger extrapola-
abandono do Ser. Conscientes da "indigência" humana, buscam a ram a formulação de uma "Teoria da Arte", nosso propósito não é
passagell1 da "Noite" em' que vivemos para a "Manhã" nela latente. o de fazer um estudo sobre a Arte enquanto Estética . Isto porque
Propiciar esta eclosão é a meta da Arte que assume a sua o próprio Heidegger supera a Estética e volta-se para a Arte en-
dimensão poemática, a missão de tornar manifesta a Verdade do quanto Ontologia, isto é, situando-a no nível do des-velamento
Ser. Por meio dela, será devolvido ao estar-aí o que lhe é mais do Ser. É a esta Arte que dedicaremos nossa atenção no decorrer
peculiar: o seu ser-de-relação, a unidade com o Ser em sua tota- dos seis capítulos que comporão a primeira e segunda parte deste
lidade . A esta p \~nitude ascenderam a época Mítica e Pré-Socrá- livro.
/

24 25
ALGUMAS OBSERVAÇÕES: •

Nestas considerações gerais, convem justificar o critério NOTAS


de escolha para a seleção das obras de Martin Heidegger: foram
consultadas as obras de maior envergadura e aquelas -- livros ou
op~sculos -- que diretamente dizem respeito ao tema deste livro.
Embora consultadas prioritariamente as edições alemãs, fizemos 1- A A-létheia é a idéia diretriz, a mola propulsora de todo
uso das edições em língua francesa, dando preferência à utiliza- pensar heideggeriano. Optamos pela grafia A-létheia para refor-
ção de todas as traduções publicadas em língua portuguesa. Tal çarmos o conte~do originário ao qual Heidegger refere este termo:
fato se deve em especial e quase que exclusivamente às obras à Verdade do Ser. É a ,Verdade do Ser que institui as épocas do
traduzidas por Ernildo Stein e por ele adaptadas à nossa língua, pensar, no interior das quais pode ser compreendida epocalmente.
em uma atividade criadora e fidelíssima ao seu conte~do origi- Na tentativa de elucidar o percurso que conduz ao encontro . com o
nal. Dentre elas podemos destacar aquelas a que explicitamente ontológico recorremos ao termo "epocal", inexistente em nossa
recorremos como subsídio para nossa reflexão: Que é Ketafísica? língua, q~e os tradutores de Heidegger para o português, com
(Was ist Ketapbysik?); Sobre a essência do fundamento (Vom Wesen muita propriedade, utilizam.
des Grundes); Sobre o "Humanismo" (Ueber den "Humanismus"); So- Cf. CARNEIRO LEÃO, Emmanuel. Itinerário do pensamento de Heide-
bre a es·: ;ência da Verdade (Vom Wesen der Wabrheit); A Sentença gger, apresentação da tradução portuguesa da obra de Martin Hei-
de Anaximandro (Der Spruch des Anaximander); O caminho do campo degger, Introdução à Ketafísica(Einfuehruog in die Ketapbysik).
(Der Feldveg); Logos - Heráclito Fragmento 50 (Logos - Heraklit Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1978, p.17 sq. Biblioteca Tem-
Fragment 50); Que é isto - a Filosofia? (Was ist das - die Phi- po Universitário 1.
losophie?); Sobre o problema do ser (Zur Seinsfrage); O princí- Cf. STEIN, Ernildo . Tradução da obra de Martin Heidegger, A sen-
pio da Identidade (Der Satz der Identitaet) e A Constituição tença de Anaximandro (Der Spruch des Anaximander). ln: Os Pensa-
onto-teo-lógica da Metafísica (Die onto-teo-logische Verfassung dores. 2. ed. são Paulo, Abril Cultural, 1978, p.28. Os Pré-So-
der Metaphysik), ln: Identidade e Diferença (Identitaet und cráticos.
Differenz); Hegel e os Gregos (Hegel und die Griechen); A tese 2- Evitando as conotações filosófico-antropológicas contidas no
de Kant sobre o ser (Kants These ueber das Sein); O fim da Filo- termo "Homem", Heidegger recorre, para designar este ente, ao
sofia e a tarefa do pensamento (Das Ende der Philosophie und die constructo "Da-Seio". Este vocábulo foi traduzido para o portu-
Aufgabe des Denkens); Tempo e Ser (Zeit und Sein). guês como"ser-aí", "eis-aí-ser" ou "estar-al". Sempre que nos
No tocante aos escritos sobre Heidegger, como são muitos os referirmos a ele, manteremos o vocábulo "estar-aí", que, a nosso
seus comentadores, configurando uma bibliografia bastante volu- ver, ressalta com mais profundidade a missão deste ente: a capa-
mosa e específica sobre a Arte, restringimo-nos somente a men- . ~idade de relacionar-se com o Ser e de revelá-lo.
cioná-los, remetendo o leitor a um estudo complementar das mes- Cf. HEIDEGGER, Martin. Seio und Zeit. Elfte Auflage. Tuebingen,
mas n.as notas derodapé.:lsso não significa negligência ou não apro- Max Niemeyer, 1966, p.7.
fundamento no conte~do por elas exposto. Pelo contrário, no de- 3- Id. Der Satz vom Grund. Dritte Aufl.age. pfullingen, Guenther
correr de nosso percurso, buscamos uma atualização constante, Neske, 1957, p. 153.
mediante, o contacto com os mais recentes escritos publicados, 4- Id. Tempo e Ser (Zeit und Sein). ln: Os Pensadores. Tradução
muitos dos quais ainda não podem ser encontrados em nosso país. de Ernildo Stein. são Paulo, Abril Cultural, 1973, p. 459,v. XLV.
Por um critério metodológico, julgamos necessária uma triagem 5- Id., ibid., p. 459 . .
desses escritos, o que, a nosso ver, torna mais concisa e con- 6- Id. A sentença de Anaximandro. ln: Os Pensadores, p.42.
sistente a abordagem do tema ao qual nos dedicamos. 7- Id. · Sobre o 'Humanismo' (Ueber den Humanismus). ln. Os Pensa-
dores, p. 356.
8- A Metafísica, em sua busca de fundamentar o real, torna-se
Onto-Lógica e Onto- Teo -lógica, enquanto requer Deus como o
princípio absoluto do Ser.
9- HEIDEGGER, Martin. Nietzsches Wort "Gott ist tot".
ln: Holzvege, p. 260, 261 e 253.
10- Cf., Id. Wozu Dichter? ln: Ibid., p.265-316.
11- Cf., Id. O fim da Filosofia e a tarefa do pensamento (Das
Ende der Philosophie und die Aufgabe des Denkens). ln: Os pensa-
dores, p.263-279.

26 27
12- Die Zeit des Weltbildes. ln: Bolzvege, p. 73-110.
13- ld., ibid., p. 73. , •
14- ld. Ueberwindung der Metaphysik. ln: Vortraege und Aufsae-
tze.Zweite Auflage. pfullingen, Guenther Neske, 1954, p.95.
15- ld., Nie tzsches Wort "Got t is t tot" . ln: Bolzwege, p. 251 . PRIMEIRA PARTE
16- "O homem da presente idade do mundo, este homem também habi-
ta poeticamente, à sua maneira ... impoeticamente".
" ... o homem toma a medida sobre uma terra desfigurada pelas AARTE: SUA VINCULAÇÃO OU AFASTAMENTO DO SER
suas maquinações".
Id., L'habitation de I'Homme. ln: Exercíces de la patience.
Tracdution de François Fédier. Paris, Association Obsidiane,
(3/4) : 154, print. 1982. Cahiers de Phi losophie.
Cf. IRIGARAY, Luce. L'oubli de l'air. Paris, Mimi'it, 1983. Capítulo I
160 p. Collection "Critique".
17- HEIDEGGER, Martin. Remarque avant une lecture de Poémes. ln: o Mito e os Pré-Socráticos: as épocas de
E~ercíces de la patience, p. 146. um pensar originário sobre o Ser e a Arte

Iniciaremos nossa abordagem enfocando a época originária de


um saber que antecedeu ao pensar: o Mito (1). Nosso objetivo vi-
sa à colocação do Mito em um âmbito diferente daquele que o pos-
tula como um sinônimo do fantástico ou do irreal. Enquanto cons-
titui a gênese do pensar, o Mito é um retrato da própria condi-
ção humana: uma etapa em seu processo de desenvolvimento de
suas possibilidades mais inerentes de ser. Os homens, vivendo em
comunidades para a preservação da vida, questionam-se acerca de
si mesmos, dos entes que os rodeiam e do Ser. Fruto de uma prá-
xis elaborada a partir da inserção da comunidade em seu meio am-
biente, o Mito é um saber a-sistemático que não visa a uma ex-
plicação objetiva do real. Sua meta não é a formulação de uma
teoria lógica sobre algo, o acesso a um rigor que estabeleça re-
lações lógicas entre os fatos observados e a organização de seus
princípios fundamentais. Pelo contrário, situa-se em um nível
pré-predicativo, em que, em um horizonte imediato, se des-cerra
a um povo o seu ser-no-Mundo. Esta característica peculiar for-
nece ao Mito um cunho regional, que atesta a sua diversidade .
Contudo,.sua simultânea homogeneidade se deve a uma ~nica causa:
o Homem e um ente que, diferentemente dos outros, busca soluções
para aquilo que lhe é problemático. Nelas está contido o sentido
do Mundo humano.
O primeiro grande problema do homem mítico refere-se à pas-
sagem do Kaos ao Kosmos, isto é, do aberto ilimitado anterior a
tudo, da obscuridade desordenada à ordenação. Esta questão re-
montará ao surgimento do Homem, pois somente a ele compete cap-
tar a inteligibilidade do real -- enquanto verdadeiro --, re-ve-
lando o seu significado. O fio condutor do pensar pré-reflexivo
do homem mítico é o Sagrado, elemento constitutivo de tudo o que
é. O Sagrado é o sentido do Kosmos, que possibilita ao Homem
penetrá-lo, para compreender e ascender ao simbólico. O Sagrado
concilia a harmonia do Homem com os deuses -- forças misteriosas
presentes nos entes --, com a ' comunidade e com o Ser. Enquanto
sinônimo da totalidade do Kosmos, da qual nada se exclui, o Sa-
irado designa o essenciar. Por seu intermédio se manifesta tam-
:"/

28 29
bém a ligação que se estabelece entre tudo o que é, a unidade. sendo que a recuperação ocasional da sa~de, no tocante às molés-
Captando a ligação, o homem mítico elevou-se ao Mundo considera- tias graves, dependia do próprio cor po, da natureza. Todos eram
do como o lugar de sua habitação . Em sinal de agradecimento e artistas, enquanto capazes de executar uma idéia significativa.
reverência ao Sagrado, a comunidade institui a Festa (2). Nela Assim, a Arte é Techne de forma tão abrangente quanto o univer-
se celebra o equílibrio sacral, o des-velamento, enquanto cami- so profundamente rico, no qual os gregos a situavam. A Techne
nho por meio do qual Homem e Ser, abertos um ao outro, atingem está no âmbito da Physis, à qual pertence, e da qual recebe os
o âmbito do originário. Pela primeira vez o Homem, enquanto ser- parâmetros para a sua instituição.
de-relação, vive em relação existencial (Daseinsbezug) com o Uma vez que o objetivo deste livro e o estabelecimento da
Ser, em reciprocidade e disponibilidade (3). Exerce assim, sua vinculação essencial entre Arte e Ser, convém que explicitemos
capacidade de transcendência, conferindo valor aos entes, orde- sucintamente a noção de ente subjacente ao pensar grego. No que
nando o Kosmos . se refere à questão de a práxis humana, sem vinculação intelec-
Concluindo, convém ressaltar que a primeira visão de Mund~, tual, ser desconsiderada, seu fundamento está no fato de que o
fornecida pelo Mito, prega a unidade ontológica de tudo o que e, ente apresentado ao lidar cotidiano -- de forma imediata -- como
bem como a necessidade de sua preservação. Em sua raiz etimoló- um utensílio (7), algo que "está-à-mão" (Zuhanden) e, em sua
gica, Hhytos designa a "Palavra" primordial, poética, nomeadora "disponibilidade", "serve para algo" --, não tem ressonância no
de sentido. Por meio dela, as experiências da práxis individual âmbito deste pensar . Consequentemente, o fazer é acessorlo,
foram narradas à comunidade, que as preservou na memória (4), pois o Homem não é definido como aquele que, estando-aí, se re-
constituindo a Cultura. O conte~do mítico, expondo a harmonia, o laciona fundamentalmente com o Ser, por meio da abertura instau-
equilíbrio e a conciliação entre homens, deuses e Ser, mediados rada pelo ente intramundano no seio do Mundo.
pelo Sagrado, tornou-se temporal. Ocasião propícia para o desa- Para os gregos o ente intramundano é o que "está- à-vista"
brochar, que mantém na lembrança o brilho de uma força origina- (Vorhanden) (8), sinônimo do estável, daquilo que é atingido no
ria e originante: o Ser. Contudo, o Mito, aos poucos foi-se ex- momento em que o Homem se detém para ver e tematizar os entes,
tenuando . Sua continuidade foi parcialmente mantida na época que através da "Theoria". A "Theoria" grega é diferente da atual!
o sucedeu: no pensar pré- socrático, posteriormente ao qual o Mi- que se caracteriza unicamente pela racionalidade. Ela remonta a
to foi abandonado como algo irrelevante, fantasioso, irracional. contemplação, ao olhar atento e admirado para a Physis, a partir
A preocupação fundamental do pensar pré-socrático permanece do ente- à-vista, tendo por função torná-lo visível. Os gregos
centrada na passagem do Kaos ao Kosmos, pois a Filosofia é, em referem a "Theoria" à Techne, pois ela impregna toda práxis, so-
seu ínicio, mais mítica que científica. Seu método parte da ex- bretudo a esta que tem por função penetrar naquilo que é sign i-
periência do Homem como ser- no-Mundo, e sua preocupação funda- ficativo no ente, isto é, no Ser. Nesta reciprocidade se insti-
mental é o estabelecimento de uma unidade inteligível em meio à tui a Arte que extrapola a esfera do conhecer rumo ao efetuar,
multiplicidade fornecida pelo sensível. Seu primeiro problema é unindo, assim, a "Theoria" a praxis.
a Physis ("Natureza" em uma acepção muito especial), em seu sig- Convém, pois, que especifiquemos o modo como o Ser se mos-
ni ficado e ordenação que ins t iga o conhec imento. Surgem os ar- trou aos primeiros pensadores gregos, como pré-requisito ao
khai, os princípios explicativos que diferem entre estes pensa- acesso a este âmbito onde a Arte emerge do Ser.
dores, também denominados "físicos" (physikoi). Termo básico de Iniciaremos nossa abordagem remontando a Homero. Enfocare-
todo o pensamento grego, a Physis é o primeiro arkhé (5), en- mos a leitura heideggeriana deste grego, posto que o conte~do de
quanto sinônimo do que se manifesta espontaneamente, do que é, sua mensagem assinala a questão, por excelência, do pensar em
do que vem a ser, do Ser (6). sua originariedade.
Tal é o contexto no qual se situa o termo que especifica-
mente se torna a questão mesma de nossa reflexão: a Techne. Este "Nisto que denominamos o grego, repousa, pensado epocal-
termo se refere não somente à Arte e à obra -- tais como as de- mente, o inicio da época do ser. Este inicio a ser pensado ele
finimos hoje --, mas também a todas as formas de relação humana mesmo epocalmente é o primórdio do destino no ser a partir do
individual com a Physis. O valor da Techne reside em dois ele- ser". (9)
mentos fundamentais: é o fruto de um "ato intelectual" de homens
que, compreendendo aquilo que executam, por se colocarem dispo- Homero nos clarifica o sentido do Ser, nos introduz em seu
níveis ao Ser, têm a possibilidade de transmitir sua ciência aos mistério, chamando nossa atenção para aquilo que nao vemos, para
demais. Fruto de uma "finalidade intencional", vincula-se à cri- o simbólico.
ação, P9sto que criar ~ sempre uma abertura que cuida e cultiva O símbolo e sempre inerente aos entes, se bem que, quando
o des-velado dando condições para o surgimento daquilo que será os visamos como coisas, eles se tornam ob-jetos colocados pelo
preservado. Daí a importância dos "técnicos", daqueles que exer- sujeito à sua frente. À medida que limitamos nossa direção ape-
cem a Techne: o artista criador, o artesão, o médico. O artesão nas à exterioridade, os entes-objetos tornam-se vazios, mensurá-
desempenha, por sua própria conta, uma arte, um ofício . O médi- veis, manipuláveis: deixando de simbolizar, eles não indicam na-
co, observando a !req~lncia das doenças, cuida dos pacientes da. Contudo, se ultrapassarmos nossa postura unilateral do dia-
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a-dia, captaremos os entes como sinais. Neles, enquanto o que e os conserva em certa posição. Cuidar dos entes e um traço per-
imediato (presente), um sentido e uma significação nos apelam: o tencente ao Ser designando sua relação precursora-incursora no
Ser (ausente no presente). O Ser instaura seu aparecer através ente, que vigia: O que foi colocado nos introduz à tradução hei-
do ente, invocando o estar-aí para que preste atenção a ele e deggeriana da sentença, que diz:
proteja o que aparece. Mas o mistério do Ser não é acessível a
todos. A Ilíada (versos 68-72),exemplifica esta questão por meio " ... Segundo a mantença; deixam pois ter lugar o acordo e
daquele que tem o dom de penetrar no inaparente. Ele é denomina- assim também o cuidado, um para o outro (no penetrar e assumir)
do "vidente", "frenético". (10) Contudo, este termo não o quali- do des-acordo".(19)
fica como alguém delirante, que se entrega aos devaneios. Pelo
contrário, o frêmito, é o rumor surdo que ecoa em seus ouvidos e o des-acordo acena à possibilidade cíclica na qual uma po-
o coloca em uma dimensão diferente daquela dos outros homens, tência subordina a outra, a domina. Ora, este domínio, se esta-
imersos no cotidiano . Ele se situa no âmbito mesmo de onde ~ro­ belecido de modo definitivo, romperia o todo da Physis. Anaxi-
cede a re-velação e do verdadeiro, pois ..... conhecia o que e, o mandro resolve este aparente paradoxo derivando o Kosmos de um
que será e o que foi antes".(ll) arkhé originário, o ápeiron que forma, organiza e mantém pri-
Caracterizando o a·d ivinho como aquele que se propõe a rece- mordialmente todos os entes. Nele a oposição e a multiplicidade
ber o desígnio do Ser -- fonte que lhe envia a capacidade de têm como patamar a reciprocidade. Pela reciprocidade se mantém a
profetizar --, Homero acena à prioridade de seu advento que, ordenação do Kosmos como um todo único. O ápeiron ~, assim,
inesperadamente, envolve o Homem. sinônimo de equilíbrio .
Para Heráclito, o Ser é o L6gos: no seio do Ser, enquanto
"O adivinho j j sempre tem visto. Tendo visto, ele vê ante- mudança e consistência, se estabelece um combate. O resulta~o
cipando, ele pre7vê". "O j j visto de um tal ver só poder ser desse combate é a organização do Kosmos, a harmonia -- a relaçao
aquilo que se presenta no desvelado". (12) das partes com o todo culminando na unificação, no acordo.
Acerca do proces~o que compõe a Natureza, Heráclito, em seu
Foi assim que Homero acedeu ao Ser como o " ... pre-sente não fragmento 123, diz: " ... Phjsis krytesthai philei" ... ... 'a essen-
presente" (13), que instaura a diferença ontológica. A partícula c ia das coisas ama ocultar-se' ...... (20)
"pre", separada por hífen do termo que a sucede, acena à anteri- A Natureza enquanto Physis manifesta a pluralidade dos en-
oridade, ao Ser como possibilidade de aparição do ente. tes, mas enquanto Lógos, recolhendo o Ser que instaura os en-
No enfoque do adivinho como o vidente e do caráter essen- tes, se oculta. A diferença fundamental entre o Lógos (razão,
cial do "viver" como "contemplar" (14), Homero anuncia a concep- Ser, ser-dito na palavra) e a Dike de Anaximandro é que o Ló~
çao grega · do ente- à-vista, do Ser como o des-velado e do Homem gos se refere a urna unidade que sintetiza os opostos (contra-
como o ente que se admira por ser mirado pelo Ser -- que nortea- rios) e deles necessita para aceder à harmonia, à ordem. Aqui a
rá todo o pensar pré-socrático. , oposição não cessa, mas perdura, por meio do conflito, n~ tot~­
A preocupação fundamental do pensar de Anaximandro, Hera- lidade do real, sem gerar a desordem . O Ser enquanto Logos nao
clito e Parmênides é preservar a unidade da Physis, do ente-sen- e um conceito, mas uma experiência ~a dimensão do velamento e
do. do des-velamento a ele inerente. O Logos refere-se ao lugar on-
A Physis foi formulada pela poesia-pensante dos gregos, a de habita o essencial. Simbolizado pelo "fogo", o Lógos acolhe
partir de sua visão do Ser como permanente. Esta afirmação en- e dá hospitalidade aos homens e deuses, abrigando-os no Ser.(21)
contra suas bases em Anaximandro, na "mais antiga sentença do O Lógos é a união de Ser e ente, no interior da qual ambos se
pensamento ocidental" (15), através de suas diferentes tradu- resguardam, para não pôr em perigo o des-velamento. A precau~
ções. Sentença distante de nós não só pelo longo e~paço de tem- çao, enquanto impelir para longe (para dentro ou para fora), e
po que nos separa, ou pela dificuldade de interpreta-la, mas so- parte constitutiva do desdobrar-se do ente-sendo, do Ser-do-en-
bretudo pela falta de disponibilidade para estabelecermos um di- te. Assim, velamento e des-velamento constituem o processo mesmo
álogo com ela, no contexto próprio em,que foi um dia, inspirada. do Ser, no qual o latente aguarda um impulso para o seu surgir,
Para Anaximandro o Ser,o to khreon, vincula-se a Dike (16), para a passagem à não-latência. Ambos garantem a plenitude da
a associação dos opostos, à ordem, ao acordo. Physis.
O apéiron de Anaximandro conduz Parmênides a imutabilidade
-Dike, pensando a partir do ser como presença, é o acordo do Ser, à negação do devir e da temporalidade -- em suas dimen-
que articula e harmoni~a". sões de passado e futuro. O Ser, em sua in~isibilidade, permite
"d Khréon ... dest~na assim o modo de seu advento como o ao ente aparecer.
tempo das coisas que se demoram transitoriamente".(17) A importância de Parmênides é fundamental na interrogação
pré-socrática, posto que ele efetua a passagem da fase cosmoló-
Heidegger tradui o Khréon por "Mantença" (18) considerando- gica à ontológica. Ele não Qusca um princípio material para ex-
se que o Ser provê os entes do necessário para a subsistência, plicar a Physis, mas se pergunta sobre o Ser enquanto fonte do
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saber. Colocando a Verdade como o mais digno do questionamento, "Saber é ter visto, no sentido amplo de ver, isto é: apre-
estabelece sua identidade com o Ser. O verdadeiro é o que se ma- ender, experimentar a presença do presente enquanto tal. A es-
nifesta tal como é, sendo assim o autêntico. Contudo, no decor- sência do saber repousa, para o pensar grego, na A-létheia, is-
rer da História da Filosofia, a Verdade perderá seu cunho onto- to é, na eclosão do ser".(28)
lógico, sua autenticidade, que será retomada no pensar heidegge-
rlano. Esse saber descarta a utilidade, o fazer aplicado, pois se
Em seu "Poema Didático"(22) se estabelecem os três caminhos constitui ao meditar, ao entrar em harmonia. Apenas nesse momen-
possíveis de ser trilhados pelo Homem. Direcionando o Homem no to poderemos penetrar na relação entre Arte e Ser, enraizada o'a
percurso de seu caminhar, duas deusas o auxiliam em seu discer- Techne como um saber, penetração no inefável. A Techoe é um sa-
nimento: a Dike e a A-létheia. A Dike o impulsiona a assumir a ber engendrado pela Physis, que se refere à Arte, enquanto nela
trilha do Ser, a buscar sua unidade por meio do não-ser e a su- o Homem atualiza sua capacidade de acesso ao des-velado, reali-
perar a tendência de decair na inautenticidade do aparente. Ou- zando a passagem desta aparição originária à obra por meio da
vindo-a atentamente, o Homem ~orna-se sábio: capta o conte~do qual se tornará visível o Ser enquanto Ser. Assim, Ser, Verdade
que pronuncia racionalmente o Ser, pela re-velação da A-létheia. e Arte são uma continuidade do desdobrar-se do mesmo, per-passa-
Compreende, assim, como é preciso agir para aceder ao verdadei- da pelo saber .
ro. Como Homero, parmênides capta o enigma do Ser e odes-cerra
no envio de seu pre-sentar-se. "Saber é o poder de pSr o Ser em ação como um talou qual
"Pre-sentificar significa: desvelar, enviar ao aberto".(23) ente". "A obra d'arte não é, em primeiro lugar, obra, porque é
O Se~ é o Eon, "dobra" (Zwiefalt) que aparece como Ser e conFeccionada, é feita, mas porque opera o Ser em um ente. Ope-
como ente, que separa o Ser (A-létheia) do Nada. (24) rar significa, aqui, pSr em obra, no qual, como no que aparece,
Postulando, em seu fragmento 3, a identidade de Ser e pen- chega a brilhar a phy s is, a brotar imperante que vigora. Pela
sar (25), e definindo o pensar como uma produção do Ser, como obra d'arte, como o Ser que é, tudo que aparece e pode ser en-
uma das modalidades do processo de seu.tornar-se presente, Par- contrado, é confirmado tornar-se inteli~ível e compreensível co-
rnênides preserva a unidade da Physis. Contudo, o Lógos mantém mo ente ou não-ente".(29)
sua relevância, pois é na Linguagem que ocorre e se preserva a
rnostração do Ser. Há uma ligação essencial entre o Homem e o Ser A Techne, enquanto saber, ressalta um outro elemento con-
00 âmbito do manifesto, no seio do qual o Homem reside enquanto cernente à Arte: a pro-dução, a Poiesis (30), por meio da qual o
pensa e diz o conteúdo, por ele captado, no brilho do Ser. Abre- Ser aparece.
se, no âmago da Techne, o espaço no qual a Arte poderá ocupar Nesse contexto, a Arte é essencialmente produção, enquan~o
um lugar privilegiado, posto que nela também se libera o des-ve- geradora de um ente -- a obra de arte -- instaurando, atraves
lado. dele, a eclosão do Ser . Originariamente, a Physis é produção
Mediante estes dados, sucintamente colocados, tentaremos enquanto gênese que propicia o caráter genético em meio ao qual
mostrar como foi pensada a ligação entre a Physis, o Ser e a Ar- se move a Arte: um trazer à presença o presente. Mediante a pro-
te enquanto Techne. dução aqui enfocada, a Arte atinge o seu apogeu, pois por melO
Os gregos, estabelecendo a oposição entre o Ser enquanto da obra de arte fecha-se o círculo do remetimento: vinda do Ser,
Physis e o Kaos, denominaram Techne à irrupção humana no seio a ele retorna, tornando visível o des-velamento.
do ente, designando esse ato como um "saber". Isso porque desde Assim, o que foi produzido, a obra de arte, não se identi-
os primórdios o pensar filosófico foi definido como "o amor pela fica com um fazer (31) criador ligado unicamente ao artista,
sabedoria" (26), de onde poderíamos, indubitavelmente, nomear os posto que o vir-a-ser da obra depende daquilo que em si mesmo é
físicos como sábios. pro-dução: do florescer do Ser. A Poiesis é abertura que acolhe
Saber é compreender intimamente, penetrar com cautela no a A-létheia. Acolher significa esperar atenta e serenamente, ex-
conteúdo de algo. Esse conte údo é o que se constitui em si mesmo pondo o que se clareia, sobretudo através da obra de arte. Neste
como alvo da preocupação e do questionamento dos gregos: a busca contéxto, é no aconchego da Arte que a Verdade enviada pelo Ser
do essencial, do mistério do ente-ser, que " . .. se tornou para se perpetua . Arte, Ser e Verdade são, assim, indissociáveis.
os gregos o mais espantoso".(27) O espanto gera o acesso do Ho- Acedemos ao caráter poético (32) da Arte, mediante o qual o Ser,
mem ao aberto do Ser, consequentemente o seu empenho de , partici- instaurado como verdadeiro, fulgura como Belo.
par do processo do tornar-se manifesto. Estes elementos estavam Por meio do Belo, retomamos e retornamos à Techne como um
contidos no pensar pré-s oc rático enquanto ~aber. Encontrando o saber que harmoniza. Heráclito, definindo o Lógos como o que
ente e encontrando-se em meio ao ente, o sábio o extrapola bus- reúne, nos mostrou que a ele é inerente a conciliação e a harmo-
cando o oculto, o não-habitual, o Ser . Tarefa árdua, que imp;ica nia de Ser e ente. Ele capta, assim, o elemento propriamente ar-
a serenidade da espera, o pensar sem precipitações, o exerC1ClO tístico da ir~upção do Ser: a beleza ..
perene ao encalço de um conte~do que, de antemão, se tem ciência
de não esgotar,PQsto Rue é o profundo, o infinitamente possível .
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de arte zelando e , ao mesmo tempo, se defrontando com este enig-
"O Ser de todo e n t-e é o qu e ma is a pa rece , i. e, o mais be- ma, que Heidegg e r nomeará como "Terra" e ''Mundo''. O Mundo, en-
lo, o que , em si me s mo, é o mais con si s te nt e . Par a os gr e gos , . a quanto aberto, deixa o ente surgir como ente, o Homem como Ho-
bBleza é disciplin a ( Baendigu ng) ". ( 33 ) mem. A obra de arte é uma produçio fundada primordialmente no
"combate" entre estas duas possibilidades aparentemente opostas .
Enquanto disciplina, o Belo , na Arte como Techne. nao se Ora, os pré-socráticos tiveram acesso ao Ser como o simultanea-
refere a um atributo agradável ao olhar, mas a uma s{ntese que mente des-velado e velado, como o ausente no presente, acenando
conduz à ordem total i zante da Physis. organizando entre si as a necessidade de penetrar em seu pre-sentar-se . A obra de arte
partes que a compõem. A ruptura com uma delas geraria, conse- helênica é eterna, porque faz parte da História de um povo, re~
quentemente, o afastame ntp da unidade. A unidade do mundo grego tratando a inserçio do Homem no Ser, a passagem do presente.a
está na indissolubilidade que v incula homens e deuses, na qual presença . Identifica-se, pois, com a Verdade. Enquanto verdade 1-
se preserva o caráter específico da divindade, o mistério ine- ra, a Arte é poemática. Por isso os pensadores gregos, fundamen-
rente ao Sagrado, i dimensio do Ser . A Arte, enquanto Poiesis. talmente poetas, a anunciaram.
é testemunha desta junç io . O Templo, como o Homem, está sustentado,no s olo da Te~ra~
mas abre-se ao céu, ao ilimitado, para exalta-lo . A exaltaçao e
"No inicio do de s t i no do Ocide nte, a s artes forne c eram na o impulso que, celebrando o sublime, dá condições para sua ep~­
Grécia o nivel mais ele vado que seu des- velamento pode conce- fania . O Templo caracteriza-se, assim, por colocar os homens d1-
der. Elas fizeram resplandecer a presença dos deuses,o diálogo ante da Verdade, em seu processo de produçio que institui os
dos destinos divino e humano. E ~ Arte n~o se chamava sen~o Te- traços constitutivos de uma época . O Templo, Poiesis, é a di-
chne. Ela foi um des-velamento único e múltiplo. Ela foi piedo- mensio poética do viver .
sa, Prómos, isto e, 'aguçada', dócil ao poder e à conservaç~o da
verdade" . (34) "A instalaç~o como tal significa: erigir para devotar e
glorificar". "Devotar quer dizer consagrar, no sentido de que,
Neste momento nos deteremos na análise de uma das modalida- pela instalaç~o da obra, o sagrado é aberto enquanto sagrado, e
des na qual, entre outras, se desdobrou a produçio da Arte grega o Deus chamado no aberto de sua presença. Ao devotar pertence a
e que nos interessa diretamente: o Templo Grego (35) estudado glorificaç~o, que é consideraç~o da dignidade e do esplendor de
por Heidegger. Deus". " ... no riflexo deste esplendor brilha, isto é, se abre
O Templo é uma obra de arte "nio-figurativa" (36), que per- em luz (lichtet sich) o que nós chamamos mundo. Erigir signifi-
tence à Arquitetura -- e esta, por sua vez, tem um papel polari- ca: abrir . . . no sentido . .. que nos di o essencial como medida" .
zador em relaçio às demais artes que dela derivam. Como a Arqui- (38)
tetura depende de um projeto, mediante o qual a obra será feita
e ' elaborada, os arquitetos gregos nio visavam à extensio do es - No Templo, enquanto obra de arte, se abre a dimensio do
paço interno, mas à beleza exterior dos edifícios. Erigidos em Mundo, na qual há um vínculo entre o . env~ar-se dos ' deuses e .0 '
céu aberto, ' sua finalidade era ser o lugar de habitaçio dos deu - seu retirar-se, testemunhando a participaçao do povo em um amb1-
s es . No Templo grego estava contida a visio de mundo da época ente impregnado pelo divino. Nele se alternam os deuses"o Sa-
cunhada pela uniio indissol~vel que determinava a temporalidade grado embate con~ra o profano, o essencial contra ~ superfluo,
e historicidade dos mortais. traçando a previsio do futuro humano, a sua destinaçao. O Mundo,
Nio dispomos de dados para afirmar qual e o,Templo estuda- sinônimo de A-létheia, designa também a "Qua~ernidade" (39), ou
do por He idegger. Como resposta, reiteramos a hipotese: "talvez seja, a uniio essencial e mística do estar-a1 com os deuses, o
o de Paesteum" . (37) O que interessa especificamente ao pensador Ser e o Sagrado. É por meio desta un1ao que o Homem e as coisas
e o caráter harmonizante ' descerrado pelo Templo, mediante o atingem o seu sentido, aparecem tal como sio, preservando para-
qual será refletida a própria medida do Homem como ser-na-Mundo. lelamente o Ser enquanto tal . Contudo, a obra de arte somente
O Templo reflete a colocaçio dos gregos no âmbito do des-velado, instala um Mundo na medida em que ilu~ina os entes, arremessa-
que reivindica o Sagrado -- enquanto harmonia conciliadora da os para além d~ seu obscuro encobrimento e desorgani:açio. O
relaçio com os deuses (em sua essência, o divino) e com o Ser . O Templo, a concessio do equilíbrio no espaço do Mundo, e" como
Templo des-cerra, a ss im, a Verdade e o Mundo, a salvaçio do es- tal, uma passagem para, uma transfiguraçio rumo ao transcenden-
sencial. A salvaçio consiste no aparecimento do deus, que por te. A Techne equivale, aqui, à transiçio para o int e ligível.
meio qo Sagrado, aco~~ece ao se encontrar com o Homem. A esta A obra de arte Templo, como todas as demais, é edificada
Verdade acedeu somente a Arte helênica e o Templo a preserva em com o auxílio de materiais recebidos da Physis que acolhendo o
s e u caráter original . Homem lhe fornece também o que se constituirá como suporte, a
O enigma mítico , da passagem do Kaos (do que se recusa) ao partir do qual a obra é feita e adquire seu poder de mostraçio.
Kosmos (o que se dá à ordenaçio) nio reflete senio o binômio A matéria é essencial para ~ forma, porque a perpassa impregnan-
heideggeriano velq~enso-des-velamento. A Verdade surge na obra do-a. A forma encarna a matéria, sem a qual nio poderia surgir.
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Essas matérias são entes que, colocados a serviço do homem- Ser artista e determinar-se como alguém chamado pelo Ser
artista, revelam na obra de arte, seu Ser. Tanto para os gregos para o surgimento da obra. Essa é a medida de sua grandiosidade
qua~to para Heidegger, a matéria ocupa um valor fundamental na pois ele oferece à Physis uma iluminação, um clareamento ante~
obra: sem ela seria impossível a sua concretização, o estabele- oculto. No Mundo estabelecido pelo artista por meio da obra, a
cimento da forma. (40) A obra de arte, enquanto constitúída pela destinação histórica dos homens ligados aos deuses, bem como o
matéria, acede ao que lhe é mais próprio: à capacidade de reve- Ser dos entes, se tornam compreensíveis . Na criação o artista
lação. Contudo, ela não pode ser abertura total, pois se limita, está enlaçado à Physis, porque sabe que ela lhe oferece a possi-
presa à finitude que a delimita, e denuncia a própria contingên- bilidade de segurança, no abrigo de seu seio, assim como ' lhe fa-
cia do Homem, a enigmaticidade no acontecer do Ser. Na obra de vorece a procedência da Arte.
arte a Terra é aquilo que se fecha e vela para a racionalidade,
para proteger o des-velamento do Ser, o aberto do Mundo das ten- "Mas em seu sentido helinico 'proceder' nio subentende aqui
tativas humanas de dominação intelectual-científica, pois mesmo o fato de se atacar ( à Physis), mas de deixar-se produzir o que
se a reduzirmos aos átomos, persistirá o seu mistério, que ja- jj estj presente nela (isto j, o prj-essencial)".(4S)
mais poderá ser manipulado. A Terra se abre somente à obra de
arte, a qual, ao revelá-la, conserva-a intacta, como se jamais Concluindo, podemos dizer que o artista se defini como sen-
houvesse sido tocada: há uma integração entre ambas. do aquele que acata, temporalmente, a Physis, permanecendo unido
ao Ser. No seio dessa unidade é necessário elaborar um questio-
"A obra-templo, ao contrjrio, instalando um mundo, longe de namento sobre a essência do Homem. Isto porque ele é o ente que
deixar desaparecer a matjria, ressalta-a: a saber, no aberto do desdobra seu ser relacionando-se existencialmente com o Ser Es-
mundo da obra. A rocha suporta o templo e repousa nele mesmo: j se âmbito, anterior a toda elaboração teórico-conceituaI . foi
somente assim que ela se torna rocha; os metais chegam a seu atingido na época mítica e no dizer dos pré-soc:áticos ~- que
resplandescimento e a sua cintilação, as cores a seu brilho, o nomearam a essência humana e a expuseram na Tragedia. Convem,
som a sua ressonincia, a palavra ao dizer". pois, que r~flitamos mais especificamente sobre a Linguagem onde
"A cor irradia, e ela nada mais quer que irradiar. Se n6s a o Ser habitou: a Tragédia. Heidegger atribui uma importância
decompomos, por uma inteligente medida, em números de vibrações, fundamental à ~rte grega, ~ão somente enquanto Arquitetura, Tem-
então ela desapareceu". (41) plo, como tambem com relaçao a seu acontecer nesta palavra pri-
mordial. A Tragédia preserva, como o Templo, o Ser em sua origi-
Após termos colocado o Templo como um modo especial de a- nariedade,sua essência verdadeira, que une o Sagrado, o divino e
cesso ao essencial, em um contexto no qual a Arte é reivindicada o Homem no seio do Mundo.
pelo Ser, convém que abordemos aquele pelo qual a obra vem-a- Na época da plenitude do pensar pré-socr;tico, mais preci -
ser: o artista. samente no final do século VI, iniciou-se a.Tragédia, que desve-
O artista, para os gregos, e aquele que dá harmonia aos ma- la a temporalidade e a historicidade humana. Nela, Chronos (o
teriais, de acordo com seu projeto intelectual, por meio do com- Tempo) designa o pai de Zeus a quem compete a ordenação -- tanto
bate que se estabelece, no momento da criação, entre Mundo e do Kosmos quanto do tempo histórico no interior do qual se re-
Terra. Buscar arrancar o des-velamento do velamento, sem violen- trata o enigma da existência humana. Imbuída pelo Mito contido
tá-lo, em uma atitude de respeito que, atendendo a uma convoca- na palavra do~ poetas, a Tragédia ac~na a um tempo simbólico, no
çao, libere o manifesto -- este é o significado próprio da cri- qual a eternldade dos deuses e o devir dos terrestres, longe de
açao. Essa atividade está sempre subordinada ao des-velamento se oporem , coincidem.
propriamente criador, pois para os gregos o que definia o Homem A Tragé~ia, des-velando a dimensão temporal, adquire uma
era "ser contemplado pelo ser".(42) Nessa consideração do Ser grande importancia no pensar heideggeriano. O Tempo divino-sim-
para com ele havia todo um reconhecimento pelo mérito conferido, bólico por ela des-cerrado é a ocasião que propicia o encontro
a partir do qual o Homem, devanecido, refletia, ao tornar-se ele do Homem com a unidade ontológica de tudo o que é . Esse é o âm-
também o contemplador. que olhava para o Ser. Seu grande mérito bito no qual o Homem, enquanto ser-no-Mundo, se move, ao colo-
reside em receber o que lhe foi enviado e preservá-lo. Não há, c~r-se em,b~sca, da Verdade. Assim, esse conteúdo alcançado no
assim, um culto do artista, • pois este não era considerado como dlzer traglco e recuperado em Sein und Zeit quando da elabora-
soberano, mas como alguém que se coloca em uma atitude de dispo- ção da An~lítica Existencial do estar-aí na'qual, o sentido do
nibilidade, que se abre ao aberto. Ser -- identico ao verdadeiro -- está diretamente vinculado com
a compreensão que cada um tem de si mesmo e com a sua re-velação
"Na grande arte (43), e j a grande arte somente que estj na Linguagem.
aqui em questão, o artista permanece, em relação à obra, um tan- O homem trágico investe contra o desconhecido, avança em
to indiferente, quase como se ele fosse uma passagem para o nas- direção ao futuro, isto é, ao local próprio da aventura humana
cimento da obra, que se destruiria a si mesmo na criação". (44) no Mundo, no Tempo. Responsável por si, mas sob o jugo da supre-
/,tI macia do poder e da justiça de Zeus, o Homem enfrenta a finitu-

38 39
de de seu ser-em-conflito.
Diante disso, Heidegger volta a sua at:nção a Sófocles(46), A obra "Antígona" coloca estas duas dimensões do estranho, res-
dizer poético capta o divino -- ja em fase de afasta- pectivamente, nas figuras de Creonte (o homem da Técnica) e de
que, em ' . . . - - ) Antígona (o novo começo). Sófocles mostra ainda a possibilidade
mento do Homem (no primeiro mom:nto de 1nst1tu1çao da razao ~-d'
ameando o sentido que compete a palavra preservar. Este sent1 o de o Homem reconhecer o Ser como a totalidade que envolve a sua
ns ur ge em" Édipo Rei" -- a experiência
_ . do divino
_ . enquanto tal existência, como a última instância explicativa de toda e qual-
__ e em "Antígona" -- a experienc1a da transcendenc1a. quer realidade, desde a vida até a morte .
Édipo (47), enquanto herói da Tragédia, tem uma proximi- Durante todo este capítulo abordamos e ressaltamos a harmo-
dade com os deuses e com o Ser, cuja mensagem pode interpretar e nia e a vinculação entre Homem e Physis. Por isso, não podemos
transmitir aos ~utros homens. Ora, como já foi dito, a Verdade, descartar a possibilidade do desejo, da tentativa de emancipação
para os gregos, e a não-latência, manifestação que se des-vela humana, fonte da subjetividade metafísico-técnico-estética. Dela
na palavra poética sinal da divindade. O oráculo de Delfos surge a separação ou diferença entre a Physis -- enquanto tota-
estabelece o destino de Édipo, sinônimo de fatalidade a ser lidade do Ser -- e a Techne -- enquanto ato individual do Homem
cumprida, irremediavelmente . Herói paradoxal, por ser ao mesmo que irrompe em seu âmago. Como o artista, o artesão, etc. produ-
tempo imperfeito (aleijado), vence o enigmá da esfinge. Triunfa zem a partir da Physis, pode ocorrer-lhes, enquanto homens, a
pela palavra; que será também a sua perdição, enquanto amaldiçoa tentação de desvincular-se dela, de dominá- la, de sobrepor-se ao
o assassino que ele mesmo era. Édipo é um homem sem destino, Ser (Dike). A isso Sófocles acena em sua "Antígona", esclarecen-
sem origem, pois, desconhecendo o seu passado, situa-se na di- do o binômio estranho-familiar por intermédio do impasse humano
mensão do presente. Realiza, assim, o seu destino buscando com- de acomodar-se · no presente, ou de empreender a conquista de um
preendê-lo, tendo no colocar-se a caminho a sua existência. Des- novo lugar para o seu habitar: o ausente.
vendando o seu enigma e aS5umindo-o na coragem de ser, sai de
Tebas. Tendo se defrontado com a sua significação -- que o apro- "O embate da techne contra a dike constitui para o poeta o
xima dos deuses --, inaugura um espaço vedado a eles: a histori- acontecimento pelo qual o homem deixa de ser familiar, perde a
cidade . Os deuses têm somente um presente eterno, mas Édipo se intimidade de seu lar"." ~ nessa expulsão do que lhe ~ Intimo,
resgata por meio do vir-a-ser, da palavra que tem o poder de que se abre e des-venda, como tal, o que lhe ~ alheio, o vigor
des-vendar e de ocultar. Transforma-se em sábio, enquanto cego, que predomina". (48)
em Homem que habita finalmente o seu Mundo, por ter alcançado o
horizonte do significado. Vence a ambiguidade de seu ser, pois Como foi colocado anteriormente, a Tragédia é o espaço onde
se assume, buscando constantemente a sua unidade. Sua vida ad- se desdobra o conflito entre o passado (a tradição, o Mito) e o
quire um sentido e, por intermédio dela, também a sua morte. A- presente do Homem, que é, enquanto faz-se. Em seu fazer - se o
gindo, Édipo antecipa-se à morte, que o encontra na trilha que Homem que busca os princípios que norteiam o seu agir, pertence
o conduz a ela, glorificando-se na Terra que se abre para rece- a uma organização no interior da qual convive com os outros ho-
bê-lo. mens. Essa dimensão do acontecer do povo grego é denominada Po-
Contudo, Sófocles, na "Antígona", por meio do binômio es- lis.
tranho-familiar, retrata, no personagem título, a busca da habi-
tação no Ser, o acolhimento da mdrte. Antígona é a figura da nA polis e o lugar hist6rico, o espaço no qual, a partir
transcendência do ente rumo à Verdade do Ser. Em sua obra Ein- do qual e para o qual acontece a hist6ria. A essa dimensão his-
fuehrung in die Metaphysik, Heidegger se detém na análise do tórica pertencem os deuses, os templos, os sacerdotes, as fes-
primeiro coro de "Antígona", no qual a essência do Homem é colo- tas, os jogos, os poetas, os pensadores, os governantes, o con-
cada por meio do binômio estranho - familiar, ou seja, do movi- selho dos anciãos, a assembl~ia do povo, o ex~rcito dos guerrei-
mento no qual se desdobra o seu existir. O familiar é, inicial- ros, os navios". (49)
mente, o ente circundante, que o Homem busca dominar. Nesse con-
texto, Sófocles define o Homem como aquele que se lança sobre o Enquanto temporal, o Homem desenvolve sua historicidade na
mar, que não se contentando em deixar a terra dar frutos a fere praxis, que alcança o âmbito pleno de seu desabrochar quando se
c om o seu arado, usando sua astúcia para caçar e subjugar manifesta em obras de arte, como também na celebração da divin-
os animais. Nessa postura de violência, que se utiliza dos entes dade, em sua disponibilidade ao Ser. Nesse contexto, os gregos,
para determinados fins previamente estabelecidos, estão contidas direcionados pelo caráter sacral de seu ser-na- Polis, entraram
as sementes do fazer técnico. Por outro lado, o estranho -- en- em comunhão com o Mundo. A Polis é a abertura da dimensão mesma
quanto 9 não-aparente, : o não-ente -- designa o Ser. Diante de onde o estar-aí, transcendendo-se, eleva os entes à sua especi-
sua totalidade o Homem naufraga. Ele é o violento, mas o Ser e o ficidade, àquilo que essencialmente são. Situa-se, assim, em um
prepotente diante do qual esbarra e cai. O Homem terá acesso ao prisma diferente diante do Ser, da Dike e da Polis, pois, rom-
seu mais próprio estar-aí, na medida em que se tornar a brecha pendo a ordem e a segurança, arrisca-se rumo ao inesperado.
para deixar o Ser surgir, lutando pela superação do esquecimen-
to, pela salvagua~da do que, sendo familiar, tornou-se estranho.
'; .
40 41
.São, porém, significa aqui: como os ,que instaura~ o vigor Histórico. Esse caráter repentino e único da existência, os gre-
e se tornam, as Sl'm , eminentes no ser_
Historico
. 'como
. crladores
- e gos pressentiram profundamente". (53)
instauradores Eminentes na dimensao da Hlst~r:a sao, ao mesmo
m cidade e sem lugar, solitarlos estranhos, A obra de arte é, assim, o ponto culminante do embate entre
tempo, apo 11s , se . d
apare't'lCOS (sem saída) no meio do ente em sua totalldade,
_ . . .. e Dike e Techoe, enquanto o estar-aí reconhece a supremacia e a
vez que, co.o criadores, são eles que devem entao fundar e lns- gratuidade do enviar-se do Ser. Há, pois, duas atitudes diferen-
taurar tudo isso". (50) tes do Homem diante da Physis: na primeira, no desejo de invadí-
la ou libertar-se dela, há uma ruptura na harmonia do Homem com
O lugar do homem comum consiste em estabelecer o seu l~r em o real. Contudo, esta irrupção pode ter um cunho poético (como o
meio ao ente. Contudo, o Ser em seu advento como estranho, con- teve para os gregos) se o objetivo do Homem for o de conhecer o
voca àqueles que se dispõe a escutá-lo, para construirem o seu Ser em seu mistério, por meio do binômio estranho-familiar, Ser-
lar próximo à fonte da qual jorra todo o saber. O lugar desses ente. Neste segundo 'caso, o Homem, ouvindo o apelo do Ser, se
homens não é a Polis: eles residem no Ser que lhes fornece como colocará no caminho de superação do ente e de ultrapassagem de
abrigo a Arte e a Linguagem . si .

De acordo com esse enfoque, recorreremos novamente à "~ntí­ "O caráter de mistério pertence i própria Essencialização
gona" que des-velando a essência do Homem, ~expressa tambem a da origem da linguagem. Isso significa, que a linguagem só pode
própria função da Poesia: a instituição do ambito dos d:us:s e ter princJpiado a partir do · vigor prepotente, que impera, e do
do que está acima deles, do Ser (51). A tarefa da Poesia e a estranho, na irrupção do homem no Ser. Nessa irrupção a lingua-
instauração da História, isto é, do espaço de encontro do estar- gem enquanto conversão do Ser em palavra era poesia (01chtung).
aí com o des-velamento que se manifesta epocalmente. A linguagem é a poesia originária (Ur-Oichtung), em que um povo
poetiza o Ser. Inversamente vale: a grande poesia, pela qual um
"Ao destino chega o ser, na medida em que ele, o ser, se povo entra na História, inicia a configuração de sua linguagem.
dá. Mas isto significa, quando pensando com docilidade ao des- Os gregos criaram e experimentaram tal poesia através de Homero.
tino: ele dá-se e recusa-se simultaneamente". (52) A linguagem se manifestou à existência grega, como irrupção no
Ser, como configuração re-veladora do ente". (54)
A História será por nós colocada no capítulo,IV, em sua l~­
gação fundamental com a Art: e o p~et~, . pois el~ e o solo propi- Após explicitarmos a obra de arte como Templo, enfocamos o
cio que possibilita a eclosao do simbolico, manifest~ no enc~n­ artista e a Tragédia, colocando nessa sequência a Linguagem. Is-
tro do estar-aí com o Ser. O Ser, enquanto Dike~ e a clareira . so poderia parecer, à primeira vista, algo solto ou forçado.
originária em relação à Techoe, isto é, à sua propria circuns- Contudo, nosso intuito ~ de reforçar o fato de que o Templo e a
crição em forma de obra de arte, posto que a Arte é a eclosão Tragédia estão ligados à temporalidade, que em Heidegger recebe
que deriva do clareamento do Ser . Do conflito entre Dike e Te- o cunho de re-velação, de acesso ao essencial, de compreensão,
chne brota o estranho, o âmbito no qual Ser e estar-aí se per- do assumir constante que o estar-aí engendra rumo a ele mesmo e
tencem mutuamente -- a dimensão do aberto onde a presença do Ser ao Ser . Quem tem acesso à esfera do Ser é o Homem: um ente que
se faz historialmente obra. A História -- como advento no aber- fala. Assim:
to, como irrupção no Ser -- é, assim, o acontecer artístico, de "O tempo é o templo do ser, porque no tempo fala a lingua-
um povo epocalmente vinculado à destinação do Ser que se da no gem". (55)
limite espaço - temporal que a Arte, em sua originariedade, trans- E a Linguagem" ... é a circunscrição (templum). quer dizer,
cende. A História une-se, assim, à Techoe, ao saber que, em sua a casa do ser". (56)
praxis, põe em obra -- e deixa pôr-se em obra -- a Verdade do Separar o Ser do não-ser, alcançar a sua Verdade e mantê-la
Ser. Isto ocorre em um agir, em uma pro-dução na qual o Homem, na palavra é também Techoe, ou seja, operar, Arte poética de
se edifica em meio ao Ser, cuidando da perpetuação da mensagem pôr-se a caminho da essência, aventurar-se no âmbito da Physis e
por ele enviada, con~ertendo-a em obra de arte . Este é o signi- provocá-la, serenamente . Enquanto temporal, Q Homem, compreen-
ficado da autenticidade do agir, do ser-no-Mundo dos homens que dendo, ouviu o Ser e o manifestou em sua Arte e Linguagem, que o
contemplam o Ser. Ser escolheu para habitai. Pensando, o homem grego, em sua ati-
tude de disponibilidade, nos legou a Arte essencial. Elevando- se
,,~ pela obra qúe o vigor que predomina, o Ser, se afirma ao Belo, assumiu o Ser como Physis, Dike, Logos, A-létheia.
como acontecer Histórico. Contudo, com a instauração da racionalidade na Filosofia e
Como a brecha para a abertura e manifestação do Ser, posto a concomitante mudança de postura do Homem frente ao Ser, a His-
em obra no ente, a existência do homem Histórico é um in-ciden- toria -- enquanto encontro des-velador do estar-aí com o Ser --
te: a incidência, em que surgem, de repente, as forças da su- chega ao seu fim (57). O iEício da História, segundo Heidegger,
premacia desencaçead~ do Ser e se põe em obra como acontecer situa-se na sentença de Anaximandro, na "Hespéria" (58), na épo-
/

42 43
ca de eclosão do Ser na Linguagem. Afastado do Ser, o Homem per- 5- O termo Arkhé acena ao elemento primordial de tudo o que é,
de a sua destinação, e, portanto, a historial idade do Ser como à origem que possibilita aos entes vi rem-a-ser o que são. Ar-
também a sua própria historicidade, a sua identidade. A Filoso- khé designa também, simultaneamente, o primeiro e o último prin-
fia posterior, restringindo-se apenas à u~ilateralidade, defini- cípio, imperceptível sensorialmente, que propicia o conhecimento
rá o Ser como o presente (des-velado), perdendo a dimensão do humano.
velamento e da relação. Em seu âmbito, é o Homem quem toma a 6- "('Natureza' vem a ser aqui o nome para o que está acima dos
iniciativa de aceder ao Ser, po~ meio de sua racionalidade. O deuses e 'mais antigo que as idades', idades estas onde, a cada
afastamento do Ser faz parte de um destino epocal caracterizado vez, o ente vem a ser. 'Natureza' vem a ser o nome para o 'ser',
pela ruptura. Apartando-se do Sagrado e do divino, o Homem sepa- porque o 'ser' é anterior -a todo o ente ... )" HEIDEGGER, Martin.
ra-se, concomitantemente, da Physis. Buscando dominá-la e domi- Ce qu'est et comment se détermine la Physis; Aristote, Physique
nando-a de fato, dela se aparta na época da auto-afirmação . Sur- BI (Die Physis bei Aristote) . ln: Questions II. Traduit par
ge o subjetivismo -- inexistente na esfera do saber pré-socráti- François Fédier. Paris, Gallimard, 1966. Classiques de la Philo-
co. Começa a Filosofia: uma atividade humana que abandona a to- sophie. p.180.
talidade, esquece o mistério, afasta-se do Ser em seu des-velar- 7- Cf. HEIDEGGER, Marti~. Sein und Zeit, p.68 sq. Para Heide-
se. gger há um modo de ser pratico, anterior a todo e qualquer saber
temático, no qual se estabelece a vinculação do estar-aí com o
ente intramundano. Em seu lidar, ele se constitui como o obreiro
do ente, como aquele que, fazendo, se liga favoravelmente à obra
fe i ta.
NOTAS 8- Cf . Id., ibid., p. 69. Segundo He idegger, es ta é a segunda
modalidade de manifestação do ente, na qual o estar-aí, tendo
como objetivo conhecer o ente, fixa-se apenas nos atos que o
isolam do ente-coisa. O conhecimento gerado, se estabelecido
1- A importância do Mito tem sido constatada, na epoca atual, nestes moldes, tornar-se- á inautêntico, porque rompe com a to-
por meio dos estudos que vários autores elaboram acerca de seu talidade do Ser e do ser-no-Mundo.
conteúdo, com o intuito de recuperá-lo . Mas é sobretudo no pen- 9- Id. A sentença de Anaximandro. ln: Os Pensadores, p.28.
sar heideggeriano que o Mito ocupa um .lugar de destaque. Refe- 10- Cf. Id., ibid., p.32-35.
rindo-se ao dizer mítico-percursor como a fonte do des-velamento 11- Id., ibid., p.32
do Ser, Heidegger a ele recorre quando de suas análises da Tragé- 12-: Id., ibid., p.31
dia e do Templo Grego, do Mundo como Quaternidade, bem corno 137 Id., ibid., p.32
e~seus comentários sobre os poemas de Hoelderlin. 14- Cf. Id . Aletheia ( Heraklit, Fragment 16). ln.: Vortraege und
2- A partir do poeta Hoelderlin, Heidegger nomeia a Festa como Afsaetze, p. 132 .
o mome.nto supremo do encontro, que salvaguarda e salva, através 15- Cf. Id . A sentença de Anaximandro. ln: Os Pensadores, p.19.
do Sagrado, a dimensão do Mundo, a eclosão do Ser . Cf. HEIDE- 16- O termo Dike - oposto à Thémi~, à lei imposta pela divin-
GGER, Martin. Comme au jour de fête (Wie wenn am Feiertage) e dade denomina a "Justiça". Esta Justiça não designa uma qualida-
Souvenir (Andenken). ln: Approche de Hoelderlin (Erlauterungen de moral dos indivíduos, mas a compensação, a justa medida na
zu Hoelderlins Dichtung>. Traduit par Michel Deguy, François Fé- relação que os entes mantêm entre si. Sendo que o apéiron desig-
dier, Jean Launay. Paris, Gallimard, 1962. Classiques de la Phi- na a organização e o equilíbrio do Kosmos, a Dike, obedecendo à
losophie., p.65sq., 130sq. harmonia dessa ordem inerente à Physis, é a norma íntima que
3- Isso porque o Homem, nao se compreendendo como indivíduo, rege a todo o real. Nesse contexto, Heidegger traduziu Dike por
como pessoa e, consequentemente, como sujeito, exalta o Sagrado, "ac o rdo" -- concordância, conformidade --, atribuindo à adikia
• .... • II '

o divino e o Ser como fontes de sua inspiração, sem o desejo de ?u seja, a injUstiça, o cunho do des-acordo" -- a transgressão
dominá-los. a lei que rege a essência das coisas, a desintegração.
4- Refletindo sobre a Memória, " ... o solo de onde brota a poe- 17- HEIDEGGER, Martin. A sentença de Anaximand:.:o, ln: Os Pensa-
sia ... e o pensar", Heidegger a vincula ao Mito como saber con- dores, p. 38 e 42.
templativo, " ... o mais digno de ser pensado". Cf. HEIDEGGER, 18- Id., ibid., p . 44.
Martin. Was heisst Denken? ln: Vortraege und Aufsaetze, p.137. 19- Id., ibid . , p . 47.
Houve, ,ontudo, um abandono do Mito, um esquecimento de sua men- 20-HERÁCLITO, frg. 123 apud HEIDEGGER, Martin. Logos (Log05,
sagem. Des-vinculado, enquanto organismo cíclico, do processo de Heraklit Fragment 50). ln : Ibid., p. 130 .
surgi i e desparecer da Natureza, que o unia aos entes, o Homem 21- Cf. H!':IDEGGER, Martin. Sobre o "Humanismo" . ln: Os Pensado-
perde o seu contacto com o Ser. t, pois, fundamental recuperar- res, p. 368-369.
mos o conteúdo desta palavra perene, meditá-la, para garantirmos 22- Cf. Id., Introdução à Metafísica, p . 137 sq.
na época atual, c~mo houve outrora, um acesso ao sentido do Ser. 23- Id . Tempo e Ser. ln: OS Pensadores, p.457.
I

44 45
gger enquanto representantes da época emergente do clareamento
24-' Id . Moira (parménide, VIII, 34-41). ln: Vortraege und Auf- do Ser, que o poeta alemão assume ao meditá-la . A tarefa de am-
saetze, p.240. bos será a de auxiliar o Homem atual na volta ao precursor, na
25- Cf. Id., ibid., p. 231-256. recuperação da ordem que, um dia o vinculou ao Ser e à qual sen-
26- Como nos mostra Heidegger, o termo Filosofia surge com Herá- te necessidade de' retornar, para tornar-se plenamente Homem.
clito e contém "amor", "a harmonia que se revela na :eclproca 47- Cf. HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica, p . 133sq .,
integração de dois seres ... disponibilidade". Id., Que e isto-- 197.
a Filosofia? (Was ist das -- die Philosophie?). Tradução de Er- 48- Id., ibid., p.188.
nildo Stein e revisão de José Geraldo Nogueira Moutinho. 2ª ed. 49- Id., ibid., p.175.
são Paulo, Duas Cidades, 1971, p.26. 50- Id., ibid., p.175.
27- Ibid., p.27. 51- "Porque não foi Zeus que me deu a palavra, (mas outra coisa,
28- Id., Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.45. este' é necessário' que dê a sabed". Sófoc1es,Antígona, v.450.
29- Id., Introdução à Metafísica, p.181 e 182. Apud HEIDEGGER, Martin. Das Wort. ln: Unterwegs zur Sprache,
30- Poiesis (Poiein) - termo que . designa o faz'e r de modo ge- p . 219 .
ral, enquanto criação, ordenação do Homem no Mundo. Agindo por 52- HEIDEGGER, Martin. Sobre o 'humanismo'. ln: Os Pensadores,
meio de sua Techne, o Homem eleva-se à ação espontânea do desa- p.358 .
brochar . originário da Physis. A pro-dução, enquanto poética, é 53- Id. Introdução à metafísica, p.185.
uma práxis significativa. O poeta (poietes) é aquele que tem o 54- Id., ibid., p.192-193.
dom de compreender a divindade e . 'tornar-se seu mensageiro, por 55- STEIN, Ernildo. Compreensão e Finitude; Estrutura e movimen-
intermédio de seu canto, que atinge aos outros homens. to da interrogação heideggeriana. Porto Alegre, Ética Impresso-
31- HEIDEGGER, Martin . Ce qu'est et comment se détermine la Phy- ra, 1967, p.222. /Tese - Livre-Docência - Universidade Federal
siso ln: Questions II, p.255-256. do Rio Grande do Sul/o
32- Heidegger assume também esta mensagem grega para designar a 56- Heidegger, Martin. Wozu Dichter? ln: Holzwege, p. 306.
Arte como "poemática", reconciliadora dos elementos sacramentais 57- Cf. Id. Introdução à MetafIsica, p.199.
e totalizantes aos quais os gregos ascenderam, e que se afasta- 58- Id . A sentença de Anaximandro. ln: Os Pensadores, p.22 .
ram de nós, juntamente com o Ser. O pensador buscará devolver o
simbólico à Arte, a harmonia unificadora, em meio à época frag-
mentária e superficial em que vivemos.
33- HEIDEGGER, Martin. Introdução à Metafísica, p.156.
34- Id. Die Frage nach der Technik.In: Vortraege und Aufsaetze,
p.42.
35- Cf . DE WAELHENS, Alphonse. La pbilosophie de Martin Heide-
gger. 7. éd. Louvain/Paris, Béatrice-Nauwelarts, 1971,p. 285 sq.
36- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des. Kunstwerkes. ln: Holzwe-
ge, p. 27 .
37- Id., ibid., p.26.
38- Id., ibid., p.29.
39- Cf. Id. Bauen Wohnen Denken; Das Ding. ln: Vortraege und
Aufsaetze. p.150 sq. e 179 sq.· Veja-se ainda: Id. Die Sprache.
ln: Unterwegs zur Sprache. Fuenfte Auflage. pfullingen, Guenther
Neske, 1957, p.17 sq.
40- Este dado será perdido pela Estética em função da forma', do
criado, do elaborado pelo intelecto de artistas desvinculados da
Physis, do Ser.
41- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes . ln: Holzwege, p.31,32 .
42- Id. Die Zeit des Weltbildes. ln: Holzwege, p.88.
43- A grande arte é,para Heidegger, "A arte helênica da época do
esplendor".Cf. Nietzsthe (Nietzsche). Traduit par Pierre Klosio-
wski.Paris, Gallimard, 1971. Classiques de la Philosophie . Vol.I
p.78.
44- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes . ln: Holzwege, p.25 .
45- Id. Nietzsche I, p . 80.
46- Tanto Sófoc~es qpanto Hoelderlin serão evocados por Heide-
'I

46 47
Capítulo II

A Metafísica, a Arte enquanto Estética e a


Técnica: as épocas do esquecimento do Ser.

Com.o foi dito no capítulo anterior, a epoca grega é marcada


pela vinculação essencial entre o Ser e a Arte que lo manifesta.
Contudo, na passagem do pensar ao filosofar-metafísico, a situa-
ção se transforma. Convém, pois, que remontemos ao momento no
qual decorreu a metamorfose da Arte helênica à Arte desarraigada
do Ser, a Estética.
A segunda época do pensar, a Filosofia, nasce em um ambien-
te onde h~ uma dessacralização do Kosmos e da Physis, uma ruptu-
ra com o Ser, enquanto transcendente, e com o invi~ível: o mis-
tério do Sagrado, do divino e dos deuses (1). O arkhé anterior,
o ente-sendo, torna-se algo corriqueiro, inquestionável. Consi-
derado como possibilidade de captar a tendência do claro-escuro
no qual se desdobra o Ser e fixando-se em um de seus aspectos,
tomado como fio condutor de algo mais globalizante que permanece
obscuro, à espera de, a conceituação filosófica do Ser oferece à
segunda época, o caráter de interrupção, de perda, d.e deserção.
O início da Filosofia contém as sementes de seu próprio fim.
Contudo, nesse espaço vago, o des-velamento est~ positivamente ~
espera de um novo tempo. Tempo no qual, sem repetir os gregos ,
ele possa tornar-se, empregando cautelosamente o termo, o arkhé
do pensar re-estabelecido enquanto reflexão. O fim da Filosofia
coincide com o seu advento enquanto época metafísica, na qual se
inaugura o término do pensar, substituído pela racionalidade.
"O passo para a 'filosofia',-- preparado pela sofística, so
foi realizado por Sócrates e Platão". (2)
Contrariando a opinião corrente segundo a qual a indagação
dos Sofistas é uma passagem da era cosmológica à antropológica,
Heidegger nos prop~e uma visão não-depreciativa dos mesmoi. Sal-
vaguardando a mentalidade da época à qual pertenceram e anali-
sando o dizer de Protágoras -- "... 'o homem é a medida de todas
as coisas, das que são, porque são, e das que não são, !,orque
não são'" (3) --, Heidegger o liberta do enfoque subjetivista.
Refletindo sobre o significado do Homem para os gregos --
indissoluvelmente ligado ao Ser ,Heidegger recupera o conte~­
do inerente ao termo "medida" e o institui no âmbito mesmo do
des-velado.

"O homem da relaç~o fundamental grega com o ente e com o


seu desocultamento j metron, medida na medida e~ que toma
para si n~o ultrapassar a esfera do des-velamento limiJada ao
raio da presença de um eu, reconhecendo assim a retirada do ente

49
com a sua indecisibilidade quanto à presença ou à ocultação des- jeito ao objeto. Passa-se da época de totalidade e harmonia à é-
te, tanto quanto do assim presente-ausente". (4) poca de fragmentação e dicotomias, no universo do Homem civili-
zado.
Como para os gregos o Ser mesmo, ao des - velar -se, é a medi- A necessidade de uma elaboração mais sistemática da Lógica,
da da presença e da instauração do Homem em meio à presença, não p~r intermédio da determinação dos conceitos, é a herança que
e o indivíduo que determina o processo do tornar-se manifesto. Socrates legou à tradição. Seu grande limite foi ter enclausu-
Pelo contrário, como foi colocado no capítulo I de:te livro por rado a Verdade no conhecimento, isolando-a do des-velamento do
intermédio de Homero, Anaximandro, Heráclito e Parmenides (5), a Ser. Sócrates abre perspectivas na Filosofia às quais seus su-
tensão entre velamento e des-velamento é um movimento inerente cessores, concordando com elas ou as reformulando, sempre se re-
ao Ser. Competia ao homem grego, impulsionado pelo saber-poéti- ferirão. É o caso de Platão.
co liberar o Ser, contemplá-lo atentamente, não visando a sua A Metafísica se estabelece com Platão. Heidegger nos mostra
re~resentação. E é justamente neste sentido que o Homem é medi- a gravidade das consequênc ias que o "Mi to da Caverna" (9), trou-
da, enquanto permite que o Ser se auto-revele e se esconda. Le: xe à Filosofia, descrevendo-o propriamente como um desvio do ca-
a frase de Protágoras como uma demonstração da subjetivi~ade e minho rumo ao Ser, à Verdade. Pretendendo libertar o Homem da-
colocar-se diante dela interpondo-lhe as categorias filosoficas quilo que o aprisiona -- de modo que contemple a luz brilhante
posteriores. do Sol --, Platão instaura uma nova hierarquia ontológica.
Para os gregos, aquilo que brilha é o Ser. Contudo, para
,,~ impossível toda a espjcie de subjetivlsmo na Sofística Platão, o que tem o poder de iluminar-se e, assim, tornar-se co-
grega, porque o homem jamais pOdia aí ser sujeito; e ele não sa- nhecido pelo Homem são as Idéias. O Ser é, pois, definido como
beria sê-lo, porque o ser, nela, j presença, e a verdade, eclo- Idéia. Compete, pois, ao Homem contemplá-las. "O ser da idéia
são". (6) consiste em poder-brilhar,em poder ser visível". "As idéias são,
em cada ente, o que é". (10)
o Sofista nao e, assim, um enganador, mas um sábio que se É justamente no contemplar que se estabelece o próprio
mantém no âmbito de harmonia do des-velado, pois sua meta con- paradoxo do platonismo, a sua ambiguidade, que assinalará também
siste em caminhar na busca do essencial. toda a Filosofia posterior. Contemplar é perceber . A Verdade es-
Quando da introdução ao pensar pré-socrático, referimo-nos, tá centrada, a partir de então, na Idéia do Bem, primordial em
brevemente, às mudanças que geraram a passagem do Mito ao pen- relação à A-Iétheia. pois é por intermédio de sua luminosidade
sar. Convém que essa circunstância de transformação seja comple- que se estabelece a Verdade no Mundo Invisível, a sabedoria no
tada por meio de outros adventos, que nos poss~bilitarão o es- mundo humano e o Belo . " ... ela concede o não-velamento (a isto
clarecimento de uma nova passagem: a do pensar ao filosofar. A que se mostra) e ao mesmo tempo a percepção (do não-velado)".
Filosofia surge quando o Homem se descobre como um ente corpo- ( 11)
ral, como uma individualidade. Surge a "História" -- que tem co- Contudo, aquele que tem a capacidade de ver, é o Homem.
mo objetivo estudar os acontecimentos humanos --, vinculada ao
estabelecimento da Lei na Polis. O homem histórico é aquele que "Quando, na caverna, o homem liberto se desvia das sombras
tem um nome próprio, que deseja preservá-lo para a posteridade, para considerar as coisas, ela jj dirige seu olhar na direção do
por intermédio dos atos mais marcantes por ele praticados. Esse que' tem mais ser' que as simples sombras . . . Passar de um esta-
fato se reflete na Literatura -- as obras, escritas em prosa, do ao outro é olhar de um modo mais exato. Tudo estj subordina-
passam a ser assinadas pelos seus autores (7). A Arte, por in- do... à exatidão do olhar". " ... hj uma mudança na essência da
termédio dos retratos e das estátuas feitas para os homens céle- verdade. A verdade se torna ... a exatidão da percepção e da lin-
bres, denota essa busca de imortalidade, posto que na compreen- guagem". (12)
são do eu pessoal está implícita a compreensão da morte (8) . ,Ca-
da um tem um espaço e um tempo finito, no qual desenvolvera o A vlsao, sinônimo de percepção, isto e, do ato de distin-
seu ser-no-Mundo. guir o sensível do inteligível, tem sua causa no conhecimento
Nesse contexto, à consciencia emerge, por meio dela um novo conceituaI. É por meio dele que o Homem se coloca em des-acordo
valor se confirma para o Homem: a responsabilidade pessoal com o com o Ser, pondo em risco a harmonia que se estabelecia na rela-
seu ser e com a sociedade onde o seu agir repercute. A histori- ção entre ambos . O Homem é, agora, o único criterlo no discer-
cidade, enquanto fazer individual, acena à sucessão -- traço de- nimento do verdadeiramente real: a Verdade consiste na adequação
terminpnte de seu pro~esso. Personagem e personalidade, o Homem da visão ao ente, e o ente é o representável pelo Homem. Buscan-
rompe com a unanimidade comunitá ria do Mito e com o Mundo --con- do definir a sabedoria como um atributo da visão humana, Platão
siderado aqui como a totalictade do Sagrado,do divino, dos deuses a perde . Assim, a contemplação, destituída de seu elemento cons-
e do Ser --, do qua~, anteriormente, ele era parte constituti~a. titutivo -- a admiração pelo ente-sendo --, identifica-se unica-
O Homem adquire a sua independência por meio da razão: nela, e o mente ao olhar do Homem-observador do ente.
conhecer que o yincula à Natureza, que, por sua vez, une o su-
"; ,

50 51
A crítica heideggeriana do platonismo prossegue no tocante um mero fantasma· .
a visão . Como dissemos no capítulo anterior, quando citamos a •... tais imitadores, sem dar-se conta, . .. estão a uma trí-
Ilíada, ver é estar em relação com o Ser. Consequentemente, o plice distância do ser .. . •. (18)
sábio é o vidente.
Assim, a Arte, enclausurada no domínio do aparente e do
·0 adivinho jj semdre tem visto·. sensível, transmite apenas impressões, sombras que não podem
·0 ver não se determina a partir do olho, mas a partir da conduzir ao verdadeiro.
clareira do s~r·. IA essincia do ver enquanto ter visto i o sa- No platonismo há, pois, um afastamento entre Ser, Arte e
ber·. ·0 saber i a lembrança do ser . ~ por isto que Mni.osyne Verdade. A Arte mimética, enquanto mediação, tem por conseqüên-
e a mãe das musas.· ·Saber i a salvaguarda pensante da guarda cia um ente cujo grau de perfeição é o infer~or. No c~ntexto_ d~
do ser.· (13) Imitação surgem os demiurgos -- humanos ou na~ --, cUJa funçao e
a de p~oduzir alguma coisa. Os demiurgos serao competentes en-
Platão dá o primeiro passo em um percurso que sera seguido quanto reproduzirem diretamente as, Idéias, porque as conhe:~m.
por seus sucessores: ele estabelece o "Humanismo" (14) na Meta- Assim, a Techoe, que pode estar proxima ou distante da Ide~a,
física; dele resulta o final da Filosofia na segunda época do outorgará m~ior ou menor valo: à Imitação. A im~tação, repro~u­
pensar, regida pelo Homem. Agora será ressaltada a hominidade ou zindo a aparencia de um ente, e um falseamento: e este o mot~vo
a capacidade de raciocínio deste sujeito que se quer pensante, pelo qual as artes têm pouco apreço para Platão. A Mimesis, em
embora desarraigado do Ser. A influência deste postulado se fará seu afastamento da Verdade, retrata toda sua precariedade e con-
notória na Ciência e na Técnica: o Homem é o centro do ente que tingência.
estabelece a Verdade, por sua inteligência. O artista, tendo como elemento do seu trabalho os materiais
deste mundo que limitam a reprodução do modelo ideal, tem ainda
·Todo humanismo funda-se ou numa metafísica ou ele mesmo como intermediários os sentidos. Ora, o corpo impede o acesso a
se postula como fundamento de uma tal. Toda determinação da es- Idéia à Verdade (19). Estes dados são acrescidos por outro fun-
sência do homem que jj pressupõe a interpretação do ente, sem a damen~al -- o artista, nao conhecendo as Idéias, não pode ex-
questão da verdade do ser, e o faz sabendo ou não sabendo, i pressar o verdadeiro: ele expressa apenas ilusões, aparências,
metafísica·. (15) somb·r as.
No tocante ao Belo, não compete à Arte retratá -l o, pois ele
o Humanismo traz como consequêncii a despersonalização da se manifesta na Idéia do Bem, à qual o artista não tem acesso. O
Arte, que se agrava no Renascimento; ela não e mais um tributo à Belo é o "Eros", a inquietaçao que inunda a alma, o desejo de
Physis ou aos deuses, mas ao seu produtor: o artista-criador, sabedoria, sede de imortalidade, instauração do des-velado -- o
cultuada na época da Arte -Estét ica. que somente p'ode ser alcançado pelo filósofo -- que busca o su-
Seguindo a Teoria das Idéias podemos especificar a concep- pra-sensível. Contudo, Heidegger capta também uma dicotomia na
çao da Arte no platonismo (16), mostrando, ao mesmo tempo, o noção platônica do Belo, analisando as passagens 250 b- d do Fe-
seu lugar secundário enquanto fazer diferente do teorizar. Se- dro (20), pois nelas:
gundo Platão, todas as idéias (exceto a do Bem) servem como mo-
delos para tudo o que é. Ele nos apresenta três graus de reali - ·0 Belo, segundo sua essincia, i, de tudo o que brilha, o
dade, que aparecem hierarquicamente: a Idéia que é o Ser em que resplandece com mais evidência no domínio do sensível, de
si; os fenômenos -- aquilo que nos é permitido relativamente tal maneira que, por sua luminosidade própria, ele deixa luzir o
captar; e as obras -- que imitam os fenômenos. Há o Deus criador próprio ser·.
das Idéias, do essencial; mas aqueles que fazem as obras nada •... o Belo, enquanto o que brilha na aparinCia, enquanto
criam, pois dependem absolutamente dos modelos -- garantia mesma sensível, oculta antes de tudo sua própria essência na verdade
da autenticidade do produto. Como exemplo, ele nos cita três es- do ser, ou seja, no não sensível.· (21)
péc ie s de camas: a fabr icada "por Deus", a cons truída "pe lo car -
pinteiro" e a feita "pelo pintor". (17) Este duplo movimento do Belo nao foi captado por Platão.
A Arte é Mimesis, Imitação. Nesse caso, o pintor, tendo co- Ora, se o Belo se dá no sensível e se ele é a própria manifesta-
mo modelo a cama feita pelo carpinteiro, refere-se, ao produzir çao da Idéia do Bem, do supra-sensível por excelência, então a
a sua obra, não ao que é em si mesmo, mas apenas a um simulacro. Arte não poderia ser repensada como um elemento importante no
A pintura vincula-se ao que é inferior da alma, pois está dis- platonismo? Se o artista se move em meio ao sensível, ele nao
tante do verdadeiro, da Idéia sempre igual a si mesma. A Arte está, portanto, totalmente desvincu~ado da Verdade, mas, como o
define-se, assim, como a imagem de uma imagem. filósofo; tem a possibilidade de toca-la. Entretanto, o Ideal~s­
mo platônico não se colocando estas questões, inicia a decaden-
·Bem longe, pois, do verdadeiro estj a arte imitativa, ... cia da Arte ~fastada do Ser. É esta a mensagem por ele legada à
que nao alcança~senãp muito pouco de cada coisa, e este pouco i tradição ocidental: a Arte- é uma ilusão.
'I

52 53
Caberia ainda uma outra questão: a Arte pré-socrática vin- "Mas nao ~ precisamente a reuniio matêria-forma que j usual
cula-se à Physis. É possível est abel ecer uma vinculação entre na esfera onde queremos nos mover? Certamente. A distinçio entre
a Idéia platônica, a Arte e a Physis? Não, pois o platonismo matjria e forma serve mesmo e em toda sua variedade, de esquema
restringe o Ser à Idéia, que, remetida diretamente à apreensão conceituaI por excelência para toda teoria da arte e toda esté-
humana, lança as bases da subjetividad~, da separação entre o tica. Não obstante, este fato inegável nio prova nem que a dis-
que é conhecido e aquele que conhece, do Ser concebido como en- tinção matjria e forma esteja suficientemente fundada, nem que
te. (22) ela pertença originalmente ao âmbito da arte e da obra de arte.
Além do mais, o domínio onde se move este duplo conceito ultra-
"O Ser, como idjia, se converte então no ente propriamente, passa, largamente e durante muito tempo, aquele da estética.
e o ente mesmo, o que antes i mpe rava no vigor, degrada-se no que Forma e conteúdo sio noções sob as quais se pode colocar tudo.
Platão chama me on , no que propr~amente não devia ser e também Que juntamente com isto se subordine a forma ao racional, e ao
propriamente não é". "A transf ormação do Ser em idea provoca irracional a matéria, se se toma o racional como lógico e o ir-
uma das formas essenciais de movimento, em que se move o aconte- racional como o ilógico, acopla - se, finalmente, o par matéria e
cer Histórico do Ocidente e não apenas o de sua arte". (23) forma ao par sujeito-objeto, e a representação disporá de uma
mecânica conceituaI à qual nada mais poderá, daqui em diante,
A História do Ocidente e a época que sucede aos pré-socrá- resistir". (29)
ti cos, época de af~stamento do essencial, da perda do Ser. Nela,
Aristóteles foi um marco, pois , dando continuidade ao dizer pla- A matéria designa os materiais que, de açordo com o projeto
tônico, define o Ser como ente subordinado ao conhecimento huma- intelectual do artista, se rã o selecionados para constituir uma
no . determinada obra de arte. Se ela for de pintura, requererá uma
Sistematizando a Lógi ca socrática, Aristóteles institui na tela, pincel, cores, etc. Se for de arquitetura ou escultura,
Metafísica a dualidade sujeito-objeto, a "representação" (-24), a requererá a pedra, o mármore, etc. Se for musical, o papel, a
"'v aloração" (25). A Metafísica, enclausurando o Ser em um con- caneta, a sonoridade, o instrumento musical, etc. Se for poé[i-
ceito, deixa de ser Ontologia para tornar-se Onto- Lógica. Sua ca, o papel, a tinta, as palavras, etc. Todos estes elementos
c0nsequência é a fragmentação do real, o afastamento do Lógos serão novamente selecionados, para gerarem seu projeto final, de
(2 6) -- que deixa de ser o lugar da diferença ontológica para acordo com a espec ifi cidade visada no interior de cada Arte. Seu
tornar-se um sinônimo da racionalidade. A esse domínio perten- produto depende de um co nhec imento da área na qual será desen-
cem, a partir de então, a Verdade e o Ser. Isolado em si, en- volvido: a habilidade para o desenho, a construção , a m~sica, a
cla~surado na subjetividade, o Homem oculta a reciprocidade ao poesia, etc., cujo resultado será a forma.
des-velado, ontificando o real. Este processo gera uma cisão en- A forma é o que se dá a ver sensivelmente e, no campo da
quanto identifica o ente à vista com um objeto posto pelo sujei- Estética, tem uma importância maior do que a da matéria (con tra-
to, encobrindo a Physis, e o seu prioritário ser-no-Mundo. Isto ri~mente à postura pré - socrática), pois é fruto da elaboração de
porque, o Homem é definido como o "animal rationale", "o senhor um sujeito que, lida~do com o ente-matéria, isto é, seu ob -jet o,
do ente". (27) o domina par a atingir os seus fins.
Enquanto Onto-Lógica, a Metafísica constitui-se pela bus-
ca de fundamentos: o S-er é o arkhé do ente e a representação é, "É . . . a forma que determina a ordenação da matéria". (30)
por sua vez, o princípio daquilo que se manifesta.
Com relação à forma, considerada como contorno, a obra de arte,
"Fundamento é aquilo de onde o ente como tal, em seu tor- nao tendo nenhuma destinação do des - velamento, está restrita à
nar-se, passar e permanecer, j aquilo que é e como e, enquanto inspiração do artista e poderá, assim, ser destinada a um fim
cognoscível, manipulável, transformável". (28) qualquer. No ato criador, é o sujeito que domina a matéria-obje-
to, o "irracional", submisso à sua vontade. Estes dados nã o cap-
Todo o filosofar, embasado em arkhai, define seu fundamento tam o Ser, o ente e o fazer artístico em sua origi nariedade .
como causa e como valor. Esses termos são partes integrantes de A Metafísica e ~ Arte, repousam, assim, sob um fundamento
um processo de abandono do Ser, na significação rigorosa dos qu e elas mesmas desconhecem. Tornam-se inautênticas na medida
termos . Nesse contexto, é estabelecido, de antemão e sem ques- mesma em que se afastam do modo primordial do presentar-se do
tionamentos, o' que é o ente, atribuindo-lhe qualidades . Ser, isto e, o des-velamento. O Homem, enquanto produtor, li da
A -noção aristotél:"ica de ente serve de base e fundamento pa- com os entes, des-conhecendo, contudo, o seu sen t ido. A có pula
ra a Arte concebida metafisicamente, isto é, para a Estética, em matéria e forma dualiza, e ao mesmo tempo sintetiz a, a noção
um ambiente de ruptura com o Ser e com a Verdade . Seus quatro ari s t otélica do e nt e.
elementos: matéria e forma, sujeito e objeto -- que carec:m de
uma reflexão mais intensa sobre o Ser --, determinam apropria "A alusão ao vasto~mprego deste complexo conceituaI no
noção da obra de ~tef da Arte e da atividade criadora. . domínio da estética, pOderia nos fazer crer que maté r ia e forma

54 55
sao primeiramente as determinações inerentes à obra de arte, e rio a Est~tica. Seu advento se dar~ na me~ma ocasiio em que a
que a partir dela somente as transportamos às coisas. Onde, pois, subjetividade do Homem residir na certeza de sua racionalidade.
o complexo forma-matéria tem sua origem, no ser coisa da coisa Isto ocorrer~ com Descartes na Modernidade assentada na reclusio
ou no ser obta da obra?" (31) do Mundo em uma "Imagem".
"A obra de arte na Idade M~dia e a ausencia de 'Imagem de
Como foi colocado no capítulo anterior, quando enfocamos a Mundo' própria a esta era, caminham juntas". (34)
Arte Helênica, o que confere inteligibilidade aos entes nio é a Para especificarmos o surgimento da Estética, convem que
sua forma, nem a sua consist ência repousa na mat~ria. Pelo con- voltemos nossa atençio a Descartes. A visio de mundo cartesiana,
tr~rio, ~ a experiência do Ser enquanto tal que propicia a con~ que retoma a noçio aristotélica do Homem como "animal racional",
sonância aos entes, a sua harmonia com o Homem. Nio se atendo às retrata uma época histórica que se retoma, postulando como valor
dicotomias, os gregos captaram a obra de arte como Techne: pro- m~ximo a evidência racional. No decorrer das épocas os arkhai
veniente da Physis e da A-létheia a Arte ~ um saber po~tico no mudaram com o Homem: os deuses míticos imanentes ao Kosmos cede-
interior do qual se libera a manifestaçio do Ser. Esta ~ a medi- ram seu lugar ao Deus transcendente que salvaguarda a humanidade
da na qual repousa a Arte enquanto fazer significativo que des- dos mortais. O mist~rio de Ser e ente cedeu seu lugar a uma vi-
cerra o momento da irru~çio. sio que olha sem espanto ao ente- à-vista. Na época da Moderni-
Contudo, a Metafísica e a Arte -- restritas ao domínio da dade a força do Homem eclode em sua transcendência, por interm~­
mat~ria e da forma que definem a partir de entio o ente --, dis- dio da evidência e da inteligibilidade que residem na certeza do
tanciar-se- io, mais e mais, no decorrer das eras, da unidade conhecimento. O Homem cognoscente, convicto da veracidade de seu
com a totalidade, do des-velamento. Os postulados aristot~licos, ser (35), assegura-se em sua subjetividade extremada, o arkhé do
afastados do Ser, determinam, na Idade M~dia, a Metafísica en- cartesianismo.
quanto Onto- Teo - Lógica. Ela passa a reivindicar um fundamento
para o Ser e o delimita em um termo: Deus (32). Deus é o causa- "A tarefa metafísica de Descartes torna-se entio esta: cri-
dor do Ser, considerando-se que faz com que o Ser exista, por ar o fundamento metafísico à liberação do homem em direção à li-
meio de seu ato criador. Contudo, Deus, na medida em que ocasio- berdade como autodeterminação de si mesma". (36)
na a si mesmo, nio possui uma causa da qual dependa e à qual se
subordine. Procurando libertar-se dos fundamentos das epocas anterio-
Deus ~ o princípio supremo que esclarece o Homem sobre o rés,o Homem deixa de lado os absolutos que determinavam seu ser.
enigma do Ser, de sua existência e da ordenaçio do Universo, A partir de entio o único absoluto ser~ a sua individualidade. A
contidos em sua capacidade gen~tica. Verdade esvazia-se mais e mais nesta modalidade Metafísica que
A Arte na Idade Média ~ perpassada pela dualidade criador- conduz seu enfoque às ~ltimas consequências .
criatura. Os entes dependem ontologicamente, de seu criador,
posto que foram produzidos por ele. Estabelecem-se diferentes "Com a interpretação do homem como 'subjectum', Descartes
graus de perfeiçio no ente, posto que este foi formado ou a par- cria a condição metafísica de toda a antropologia futura". ( ... )
tir do Nada (por Deus), ou a partir da matéria (pelo Homem). O "A antropologia é uma interpretação do homem que sabe, no
binômio matéria e forma permanece, assim, no seio da Arte medie- fundo, o que é o homem e que não pode, consequentemente, pergun-
val. tar-se quem é o homem".(37)

"A tendincia a fazer do complexo forma-matéria a estrutura É neste clima de isolamento do sujeito conhecedor e do
de todó ente ~ncontra ainda um encorajamento todo particular no objeto conhecido, de quebra das vinculações entre o Homem e a
fato que se figura, repentinamente, em virtude de uma crença Physis, que ' a Est~tica surge. Heidegger, remontando às origens
a fé bíblica -- o conjunto dos entes como alguma coisa criada, da Estética, se dedica a uma reflexio sobre a época humanista, o
entendemos aqui: fabricada. A filosofia desta fé pode certamente s~culo XVIII, no qual este termo surge como: " ... uma antropolo-
afi~mar que a atividade criadora de Deus é distinta daquela de gia-est~tico-moral".(38)
um artesão. Quando se pensa ao mesmo te~po, ou a priori o tomis- Seu traço b~sico é circunscrito pelo centrar-se cartesiano
mo pela interpretação da Bíblia -- o ens .creatulI a partir da u- no Homem enquanto sujeito, tendo como consequência a instauraçio
nidade da forma e da matéria, se interpreta então, a fé a par- da visio de mundo (Weltanschaung).
tir de uma filosofia cuja verdade repousa em uma eclosão do ente
que é ~iversa do mundci ao gual se tem fé na Fé".(33) "~ a partir da época citada que a palavra passou a ser
empregada. Desde que o mundo tornou-se imagem concebida , a pos-
A Arte, diretamente influenciada pelos fundamentos e con- tura do homem passou a ser de visão do mundo".
cepções epocais, tem sua essência alterada no interior de cada "A palavra imagem significa agora configuração, Gebild, da
era. Contudo, como o pressuposto da Metafísica enquanto Onto-Ló- produção representante. ~esta, o homem luta pela situação que
gica e Onto- Te~ -Lógica é a visio do ente como um composto de lhe permite ser o ente que dá a medida a todo ente e determina
mat~ria e forma, iançam-se as sementes que posteriormente compo-
56 57
todas as normas".(39) Quem sabe o que é o Belo - enquanto conceito ou o que e be-
lo -- enquanto qualidade própria de uma coisa? Uma pessoa, por
A imagem de mundo (Welt~ild) da Meta~ísica, a d~:ot~mia.s~­ exemplo, nasce bela ou faz-se bela à medida que desenvolve as
jeito-objeto, perpassa a Estetica, por mel~ d~ experlencla V1Vl- suas potencialidades naturais, manifestando este "atributo" como
da. O ente é enclausurado no espaço da vivencla. .um modo essencial de ser? O que é mais bonito: um par de olhos
A vivência ou experiência vivida denota um modo de viver, ou um olhar profundo que alguns olhos transmitem? O Belo é har-
sentir e captar. A Arte não pode ser separada do real, p~is é o monia, como disseram os gregos, de um ente .humano ou natural:
elemento de unidade do artista com a totalidade; e esta so pode- pode ele ser concebido? Duas pessoas olhando concomitantemente a
rá ser expressa se se ampliar a área restrita da vivência. Mas a mesma coisa têm opiniões diferentes sobre ela; uma pode conside-
Estética fecha-se ao elemento primordial do Homem como um ser- rá-la perfeita, a outra não. Beleza e felicidade são fugazes,
no-Mundo, que, lidando com os entes, os situa no âmbito da dife- como o Ser, e vêm inesperadamente, sem ser convocadas ou solici-
rença ontológica - possibilidade ~nica de re-cria: o Mundo, de tadas a alguém.
revelá-lo. A desvinculação entre a teoria e a praxis encobre o Contrariamente a isso, a Estética postula a criação do Be-
primordial acesso ao produzir, à obra de arte e à_Arte. lo. Algum artista é capaz, por si só e independentemente de um
Quando visamos a uma obra de arte em funçao do gostar ou des-velamento, de criar a beleza? O Belo desabrocha. O artista
não gostar, não nos colocamos diante dela como pessoas livres; pode somente criar formas, cultivar as circunstâncias propícias
pelo contrário: esta atitude denota que somos culturalmente de- para que o Belo ecloda, e não gerá-lo automatic~mente, como um
terminados pelos modismos da época. O domínio próprio da Arte produto mecânico de suas mãos. Em contrapartida, uma fórmula se
não é o da vivência, mas o do indizível, a ser penetrado na luta apresenta a nós:
por traduzi-lo.
A partir de Descartes, o fazer artístico --considerado como "A estjtJca j, por consequincia, a consideração do estado
o dar forma à matéria-- centra-se na certeza racional. Assim, a afetivo do homem em sua relação com o Belo, a consideração do
Arte-Estética é assinalada, desde o seu início, por um esvazia- 8elo enquanto o 8elo se situa em relação ao estado afetivo do
mento essencial. Este espaço caótico é concernente ao Ser e à homem". (42)
Arte, ambos decaídos, enquanto des-arraigados um do outro. Seu
fundamento é o Homem, caracterizado como eixo absoluto de tudo o Mas como e de onde provem o Belo senão do Ser, dos entes,
que e. da Natureza, de uma série de circunstâncias que despertam os es-
tados afetivos, a disposição de ânimo no artista?
"Eu mesmo e meus estados constitufmos o primeiro ente pro-
priamente dito ... " "Para n6s, modernos, o belo j, ... o que alivia tensões, des-
"A reflexão sobre o Belo na arte passa agora, de uma manei- cansa e tranquiliza, e, por isso, algo destinado ao prazer e ao
ra acentuada e exclusiva, na relação ao estado do homem, o a1s- gozo. Assim, a arte j algo do domfnio das confeitarias".(43)
thenesis·. (40)
Tais considerações sobre o Belo nos conduzem diretamente ao
Assim, vale indagar: qual e o critério para sabermos se a seu ponto de origem: à subjetividade do artista. Este se rela-
forma impressa na matéria é válida ou não? Segundo as normas da ciona com o seu objeto, a obia de arte, em termos de dominação,
Estética, a obra será verdadeira se for bela. na qual a realidade, reduzida a um ponto de vista, torna-se des-
"O termo 'estética' para defini.r a reflexão sobre a arte e conhecida. Contudo, na Estética, a Verdade não é mais o que sur-
o belo é de formação recente e data do século XVIII". (41) ge espontaneamente na criaçã6; mas 'o objeto criado, no qual a
Mas a Estética, enquanto metafísica, é envolta pela Lógica, forma, platonicamente considerada, é a Idéia, o espiritual agin-
que separa o belo do feio, o verdadeiro do falso, o bom do mau, do sobre a matéria e ordenando-a. Verdade e obra de arte são o
definindo-os. A esta definição racional escapa um dos objetivos resultado do fazer de um sujeito. O binômio metafísico sujeito-
a que a Estética se propõe: "refletir sobre a Arte". Como pode- objeto, invadindo a Estética, coloca-a no seio do humano. Até
ria ela refletir, se o Homem repete os conceitos herdados da que ponto o artista pode captar, em sua vlvencia, o que ocorre
tradição, se não se entrega à difícil tarefa de pensar, se está com o homem de sua época histórica, tornando-se um veículo para
distante do Ser? Escapa-lhe também, e em maior proporção ainda, delatar os elementos fundamentais dessa época? Passa-se por alto
o que é a Arte. A Arte, para que questioná-la, buscar o seu sen- sobre esta questão, pois é o artista quem foi incumbido de cons-
tido, se ela já foi concebida como Estética? E a Estética e, por truir a Verdade, a partir de sua individualidade.
sua vez, um estudo do Belo.
Pois bem, retornaremos a Estética e nela situaremos o Belo o subjetivismo moderno interpreta a criação a seu mo-
-- termo tão complexo e abrangente, se bem que extremamente re- do: como resultado do exercício de uma virtuosidade genial em um
duzido no seu âmbito. sujeito soberanO".(44)
" ... ele se mostra aos homens sobre as aparencias do 'cria-
"1

58 59
dor' e do 'gênio'. Ora,tudo o que é 'criador' é inato ... " "Como se prosseguirmos distantes do pensar, da expressão na Linguagem
poderj ele, sem isso, crescer at~ o termo de sua 'grandeza'?". e na Arte? Resta a questão: quem irá pensá-la? A Arte, em harmo-
(45) nia com o Belo e o saber, cede seu lugar ao vazio estético no
qua l o Homem faz e representa objetos belos, obras de arte.
Criar e expressar os sentimentos que determinado objeto O artista não pertence à área da racionalidade; dela fazem
provoca no Homem . O encontro do sujeito com um objeto circuns- parte os fi16sofos. Dominada pelos padr~es filos6ficos que lhe
tancial é a base da experiência estética - experiência de cisão são alheios, a Arte chega ao fim. O fim da Arte situa-se na cri-
com a totalidade-harmonizante do Mundo e do Ser em sentido sim- açao remetida diretamente ao artista, supondo-se que a percepção
bólico. A Arte reduz o simbolismo ao signific~do afetivo que o não faça parte do Ser, mas seja inerente à experiência de um su-
objeto, dentro de um domínio conceitual, representa na obra de jeito enclausurado em si mesmo. A vivência encobre o fato de que
arte. O objeto, apreendido sensivelmente, passa a ser qualifica- a vida é um meio de dedicar-se à Arte, cujo privilégio é encon-
do como Belo, ou seja, expressivo. Retornamos, assim, a Platão e trar a Verdade e expô-la na criação.
a se~s graus de determinação do Belo, de acordo com proporções Deste modo,o real, o Ser são encobertos pelo "eu". Por meio
matematicas que o estabelecem como mais pr6ximo ou mais distante do "eu", a Arte chega ao seu término, sem atingir o estágio de
da Beleza Ideal. s6 que este "ideal" se encontra, agora, neste uma realização terminal, como aquele que a Arte Helênica alcan-
Mundo, competi ndo à Estética determiná-lo pelo que ele diz à e- çou .
moção, à sensibilidade. Novamente o Homem como um todo é dividi-
do em racionalidade e afetividade. "A estética toma a obra de arte como objeto . .. da apreensão
sensível ... Hoje em dia, designa-se esta apreensão de 'experiên-
"A 'estética' deve efetuar, sobre o plano da sensibilidade cia vivida' (das Erleben). O modo pelo qual a arte é vivida pelo
e do sentimento, a mesma coisa que a lógica no domínio do pen- homem deveria esclarecer-nos sobre sua essência. A experiência
sar. Por esse motivo, a nomeamos também como a 'lógica da sen- vivida é o princípiO que faz autoridade não somente para o pra-
sibilidade'''.(46) zer estético, mas também para a criação . Tudo é experiência vi-
vida. Mas pode ser que a experiênCia vivida seja bem o elemento
Este aparente contra-senso de uma "16gica-sensível" ainda no seio do qual a arte estj a caminho da morte".(48)
impera no domínio ambíguo e exíguo da Arte.
Concluindo essas considerações sobre o artista, convém co- Passamos, assim, da Arte Hêlenica --des-veladora do Ser --,
locar, sinteticamente, a gênese dessa circunstância de esvazia- a Arte -Es tética -- no seio da qual há uma prioridade metafísica
mento do essencial, a partir da transição da Arte Helênica a do sujeito que objetiva os entes. A Estética é a manifestação de·
Arte Estética. uma época na qual o Ser é concebido fora do âmbito de ' seu rela-
A partir do advento da racionalidade, quando o Homem passa cionamento existencial com o Homem. Torna-se, assim, uma "imita-
a ser o autor da obra de arte por ele assinada, o artista surge ção" enquanto se afasta do elemento que lhe concede a veracida-
como criador. Ele cria, conferindo sentido à realidade, de acor- de, que outorga à Arte a possibilidade de re-velação do real: do
do com sua inteligência e sua emoção. Torna-se o senhor da rea- Ser.
lidade. A situação da Arte enquanto Estética agrava-se e corrompe-
Neste contexto, assinalado pelo binômio matéria-forma, a se ainda mais com o avanço da Ciência e da Técnica(49), na época
essência da Arte se transforma sob a égide da Metafísica. Ela atual, derradeira época do esquecimento do Ser.
deixa de ser Techne, saber que irrompe na Physis, no que se A Ciência restringe seu setor de pesquisa ao ente como o
des-vela por si mesmo, no Ser. O artista - que, como foi coloca- verificável empiricamento, mediante a observação ~ o levantamen-
do no capítulo anterior, criava a partir da Physis em seu apare- to de hipóteses que se consolidam em leis. A essas ieis se sub-
cer originário, perpetuando-o nas obras de arte - perde, cada juga a Verdade,' retida no conhecimento. Nas raízes da Ciência
vez mais, sua relação com a Physis. A Arte se reduz ao fazer está a Técnica , pois ambas se implicam. A Técnica tem como seu
de ,um sujeito, o art~sta, que, por sua capacidade, dá forma à arkhé o sujeito cartesiano que calcula. Seu fio condutor sera o
materia que vem-a-ser um objeto artístico. Assim, " ... Techne ente - à -mão, o ente disponível -- não em sua utilidade à práxis
significaria o fazer do trabalhador artesanal". (47) cotidiana, mas em sua manipulação.
A Arte, reduzida ao artista, chega, como a.Metafísica, ao
seu fim. Desvinculada do Ser e, consequentemente, da Verdade e o homem passou da época da objetividade a epoca da
do Belo~ resta-lhe apehas consumir-se ainda mais ou caminhar pa- disponibilidade: nessa época, desde então a nossa, tudo está
ra um outro começo. Nele buscar-se- á o que é originário ao ar- constantemente á disposição, mediante uma encomenda".(50)
tístico e ao filos6fico. Este originário foi alcançado pelos
gregos. Contudo, o homem moderno renunciaría ao seu poder, ao É importante que explicitemos as noções de Ser, ente,
seu suposto avanço, para ter como modelo .uma civilização ant,iga Verdade e Homem contidas na Ciência e na Técnica. Sem se rela-
-- primitiva -- tflve~? Mas a que conduzirá a nossa civilização, cionar com a Physis e com a totalidade do Ser, o Homem perambula
'I

60 61
pela terra, vagando sem Mundo, sem valores mais profundos, sem mem".(54)
Arte. No existir cotidian~ ' o Homem tende ~ inautenticidade, posto
que, de ínicio e de ordinário, se compreende a partir do que ele
"O ente se converte em objeto, seja para a contemplaç~o não é. Essa tendência ~ indeterminação e à dominação é explorada
(aspecto e imagem), seja para a aç~o produtiva, como produto e pela sociedade tecnológica. O "eu" cede o seu lugar ao "todo-o-
cálculo. O que instaura mundo originariamente, a physis, decai e mundo"(55), a um impessoal que fornece, de antemão, ao Homem o
degrada-se em modelo de imitaç~o e cópia. A natureza se trans- modelo para o seu modo de ser, comporta-se, lidar com aquilo que
forma numa esfera especial, distinta da arte e de tudo o que se o cerca. Contudo, mais grave que a uniformidade é o seu oposto,
pode produzir e planificar"(51). a variedade na qual a essência humana, no desejo de p.reservar-
se, se diversifica na inconstância, desviando-se, ainda de mais,
A Técnica não visa apenas ao controle das coisas, da Natu- de si mesma. Este é mais um perigo que a Ciência e a Técnica o-
reza. Sua finalidade se alarga enquanto assume como seu objeto ferecem, ao submeter e controlar o homem-sujeito.
também o Homem -- este lhe é o ente-disponível para ser Qrgani-
zado em certa ordem, para decidir seu desígnio, subordinar, cri- "Igualmente incerto, permanece se a civilizaç~o mundial se-
ar situações temporárias e provisórias. Invadindo a sua privaci- ra em breve subitamente destruída ou se se cristalizará numa
dade, sua emoção, ela avança rumo às suas mais inalienáveis pos- longa duraç~o que n~o resida em algo permanente, mas que se ins-
sibilidades de ser-Homem: ao pensamento, à Linguagem e à Arte. tale, muito ao contrário, na mudança contínua em que que o novo
~ substituído pelo mais novo".(56)
"No imperialismo planetário do homem organizado tecnicamen- Na iminência de desarraigar-se, o' Homem talvez possa perce-
te, o subjetivismo humano atinge o seu ponto culminante, do alto ber que a evolução da Filosofia lhe acarretou a involução na
do qual o homem descerá às planícies da uniformidade organizada, subjetividade. Resta-lhe a esperança: o Ser apela continuamente,
para aí fixar-se e instalar-se. Com efeito, esta uniformidade é sob o ruído intermitente das máquinas e veículos, para ' um ques-
o instrumento mais seguro do império completo sobre a terra,por- tionamento do destino da humanidade. Se o Homem, na solidão edi-
que é técnica". (52) ficada nos edifícios crescentes que não tocam o céu nem o que há
Em meio ao transitório, no qual o próprio ciclo da Natureza de mais profundo, fatigado pela rotina, tie dispuser a ouvi-lo,
tem o seu clima alterado, pela intervenção constante do Homem, empreenderá então uma vira-volta em direção ao que é precursor.
ela já não mantém a fixidez de suas condições inerentes e perde Nela, detendo-se para avaliar seus critérios, terá a oportunida-
sua estabilidade. Esse fato se estende à habitação do Homem no de de modificar-se, bem como de voltar a se relacionar consigo
Mundo. O Homem está desarraigado, é um estranho no âmbito do que mesmo, com os outros, com o Ser . Este é o itinerário que, visan-
lhe deveria ser o mais familiar. 'do à passagem do fechamento em si à abertura do Mundo, permiti-
rá que o pensar, a Arte e o elemento humano voltem a ser preser-
"Ora, há ainda, neste tempo, qualquer coisa como um 'domi- vados.
cílio', uma habitaç~o, uma permanência (Sic). N~o. Há máquinas a Esta é a proposta contida na superação heideggeriana da
habitar, concentrações urbanas; enfim, o produto industrializado subjetividade, na compreensão do significativo, no qual Arte,
e n~o mais uma casa" . (53) Verdade e Ser ocuparão novamente ' sua posição fundamental. Renun-
ciará, assim, ao supérfluo da novidade, a fim de empreender a
A Técnica, enquanto teoria que objetiva o real, e concomi- busca do sempre presente desde os primórdios do pensar.
tantemente práxis que controla a vida do Homem tanto em sua pri-
vacidade quanto em seu viver em sociedade. Desde os primórdios
do fazer artesanal se visa ao consumidor, às suas necessidades.
Contudo, em relação à Técnica, se dá o contrário, criam-se ne-
cessidades de produtos a serem consumidos, o acessório é cada NOTAS
vez mais cultivado sob a aparência ilusória de uma util~dade. O
supérfluo é indissociável da novidade sempre crescente dos pro-
dutos lançados, para os quais a Propaganda -- na qual os fabri-
cantes investem -- cria mensagens que agem no controle da infor- 1- "A filosofia nao surgiu do mito. Ela so surge no pensar a
mação, desempenhando um papel fundamental enquanto estímulo per- part~r do pensar. Mas o pensar é o pensar do ser. Ele não surge.
suasiv~. Ele e, na medida em que o ser se manifesta em sua essência. Mas
A soberania humana, conquistada pelo intelecto e pela posse a decomposição do pensamento nas ciências e nas crenças é o mau
da Verdade acerca do ente-objeto, não lhe assegura mais no unL- destino do ser". HEIDEGGER, Martin. A sentença de Anaximandro.
verso técnico, o uso . de sua liberdade. ln: Os Pensadores, p.36.
"Esta vontade de ser o senhor torna-se cada vez mais insis- 2- Id. Que é isto - a Filosofia?, p.28 .
tente quantb mais a técnica ameaça escapar ao controle do ho-
"I
62 63
3- PROTÁGORAS apud HEIDEGGER, Martin. Die Zeit des Weltbildes. 27- Id. Sobre o 'Humanismo'. ln: Os Pensadores, p.361 .
ln: Holzwege, p,101. 28- Id. O fim da filosofia e a tarefa do pensamento. ln: Os Pen-
4- Id., ibid., p. 102-1 03. sadores, p.269.
5- Cf. Id., ibid. , p.l03. 29- ' Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Bolzwege, p.II-12.
6- Id., ibid., p.l04. 30- Id., ibid ., p.12.
7- Convém ressaltar que Hesíodo, na época da Tragédia, já vin- 31- Id., ibid ., p.12.
culara os feitos e relatos contidos em suas obras a ele enquanto 32- Cf. Id . A con stituição onto- teo-Iógica da metafísica . ln:
Homem, uÍtrapassando a peculiaridade das obras anônimas inspira- Identidade e Diferença, p . 98sq.
das pela divindade. Foi o primeiro autor de que se tem notícia. 33- Id. De r Ursprung des Kunstwerkes . ln: Holzwege, p.14.
8- Com a consciênci a , surgem as noções de pecado, culpa e an- 34- Id. Die Zeit des Weltbildes. ln: Ibid., p.l00 .
gústia. A partir de então, a Filosofia ocupar-se- à da trilogia 35- Cf. RICOEUR, Paul. Existence et Herméneutique . ln: Le con-
Homem, Mundo e Deus (considerado corno transcendente). flit des interprétations; essais d'herméneutique. Paris, Seuil,
9- Cf. PLATÃO . La Repúblique ou de la Justice. ln: Platon oeu- 1971, p.222-232 .
vres complétes. Traduction, introduct ion et notes par Leon Ro- 36- HEIDEGGER, Martin. Die Zeit des Weltbildes. ln: Holzwege,
bin. Bruges, Gallimard/Sainte-Catherine, 1950 . Bibliothéque de p . 105 .
la Pléiade. Livre VII. Vol. I . p . ll01-1138 . 37- Id . , ibid., p.97 e 108 .
10- HEIDEGGER, Martin. La doctrine de Platon sur la vérité. .38- Id. " ibid ., p . 29 .
(Platons Lehre von der Warheit). ln: Questions II. Traduit par 39- Id ., ibid . , p.29 e 30.
François Fédier . Paris, Gallimard, 1966. Classiques de la Phi- 40- Id. Nietzsche I, p. 81.
losophie. p . 146 e 149. 41- Id., ibid., p. 77.
11- Id., ibid., p.152 . 42- Id. ·, ibid., p. 76 .
12- Id., ibid., p.153 . 43- Id . Introdução à Metafísica, p. 156.
13- Id. A sentença de Anaximandro. ln : Os Pensadores, p . 32 e 34 . 44- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Bolzwege, p.62.
14- Id. La doctrine de Platon sur la vérité. ln: Questions II, 45- Id. Souvenir (Andenken). ln: Approche de Hoelderlin (Erlau-
p. 161. terungen zu Hoelderlins Dichtung}. Traduit par Jean Launay. Pa-
15- Id. Sobre o 'humanismo'. ln: Os Pensadores, p.351. ris, Gallimard, 1962. Classiques de la Philosophie. p.116.
16- Cf. SCHUHL, Pierre-Maxime. Platon et l'art de son temps. 46- Id. Nietzsche I, p.81-82, 82 .
2ªéd. Paris, Presses Universitaires de France, 1952. Bibliothé- 47- Id., ibid., p . 79.
que de Philosophie Contemporaine. p .1 -73 . 48- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes . ln: Holzwege, p.65.
17- Cf . PLATÃO. La république ou de la justice. ln: Platon oeu- 49- Estes temas serão bre~emente abordados, pois refletiremos
vres complétes, 597b-c, p.1207 e 1208. sobre eles na segunda parte desta pesquisa . Cf. GUENON, René .
18- Id., ibid., 598b, 598e-599a, p. 1209 e 1210 . Science sacrée et science profane. ln: La crise du monde moderne.
19- Id., Phédon ou de l'ame . ln: Ibid., 65b, p . 776 . Paris, Gallimard, 1946, . p.69-89.
20- Cf. Id. Phédre ou de la Beauté. ln: Ibid. Vol . II, p.4~-~I. 50- HEIDEGGER, Martin. Le séminaire de Zaehringen . ln: Questions
A ambiguidade platônica do Belo desenvolve o dilema socrat~co IV, p . 326-327 .
sobre 6 lugar da beleza: se ela é fruto da imaginação ou se imi- 51- Id . Introdução à metafísica, p.90.
ta a realidade . Arte e Belo permanecerão, durante toda a Idade 52- Id. Die Zeit des Weltbildes. ln: Holzwege, p. 109 .
Média, sobretudo com Aristotéles, sinônimos de cópia, de imita- 53- Id. Le séminaire de Zaehringen. ln: Questions IV, p.327-328.
ç ão das coisas. 54- Id. Die Frage nach der Technik. ln: Vortraege und Aufsae-
21- HEIDEGG~R, Martin. Nietzsche I, p . 179,181. tze, p.15.
22- Definindo o conhecimento como visão, Platão postula o Ho"mem 55- Cf. Id. Sein und Zeit, 27, p . 126-130.
corno aquele que, tendo o poder de apreensão, torna-se o centro 56- Id . O fim da filosofia e a tarefa do pensamento . ln: Os Pen-
do ente. Institui na Filosofia um dado estranho aos pré-socráti- sadores, p . 272.
cos: a subordinação do Ser e do Mundo ao campo restrito da "ima-
gem" estabelecida pelo sujeito. Cf. HEIDEGGER, Martin. Die Zeit
des Weltbildes . ln: Holzwege, p. 89.
23- Id. Introdução à Metafísica, p.204 e 205.
24- Id. Le séminair~ de Zaehringen. ln: Questions IV Traduit
par Jeán Beaufret. Páris, Gallimard, 1976 . Classifiques de la
Philosophie. p.331.
25- Cf. Id. O fim da filosofia e a tarefa do pensamento, Sobre o
'Humanismo' . ln: Pen~adores, p . 269 e 365 .
26- Id. Introdução à metafísica, p.207 .
/J;
64 65
CapLtulo III

A Arte enquanto Ontologia: a des-truição da


subjetividade e a instauração do sentido do Ser

A compreensao ontol~gica da Arte -- este é o título mais


específico para o conteudo que procuramos refletir no horizonte
do pensar heideggeriano. Seu objetivo é ter acesso à essência da
Arte, ao que lhe é mais próprio e foi perdido. Para tanto, é ne-
cessário que se elabore uma tríplice des-truição.
Des-truir significa superar, entendido como purificar: o
Ser, o ente, o Homem, a Verdade e a Arte das concepções metafí-
sico-técnico-estéticas nas quais estão inseridos. Em sua obra
fundamental, Sein und Zeit, que data de 1927, o objetivo de
Heidegger é buscar o Ser em sua originariedade, 1 iberando-o em seu
sentido -- que ultrapassa a esfera do ôntico --, re-fletindo so-
bre ele. A des-truição fenomenológica(l) busca o Ser enquanto
fenômeno, recuperando sua anterioridade em relação à Verdade me-
tafLsica subjetivista e representativa, que reduz o compreender
ao conhecer e ao teorizar. Engendra-se, então, sua investida
contra a MetafLsica.
A superação ou des-truição da Metafísica e da Técnica sera
elaborada por meio da revisão de seus princípios epocais, desem-
bocando na construção de uma nova Ontologia. Nela será dimensio-
nado o significado do termo pensar em sua vinculação essencial
ao Ser, retratada em um poema de Heidegger:

"Três perigos ameaçam o pensar.


a bom perigo e por isso benfazejo é a vizinhança do poeta
que canta.
a mau perigo e por isso mais agudo é o pensar mesmo. aeve
pensar contra si mesmo, o que apenas raramente consegue.
a pior perigo, e por isso confuso, é o filosofar".(2)

Analisaremos inicialmente os perigos negativos: o pensar e


o filosofar. O pensar é prejudicial quando abandona a atitude
que respeita e acolhe o des~velamento, o relacionar-se do estar-
aí com o seu Ser. É a passagem s~bita do estar-aí enquanto ec-
sistente, aberto a, ao horizonte de fechamento no homem-sujeito.
O pensar se ilude ao crer que tem em si sua própria medida e fi-
nalidade. O filosofar, por sua vez, é o pensar já deteriorado,
conquanto se embasa em princípios epocais, mediante os quais os
homens, em seu viver cultural, acatam um modo exclusivo de pen-
sar e agir, assentado em várias hierarquiaS no decorrer do tem-
po. A finitude humana recebe o cunho de indigência na medida em

67
Ser nos envia, perceber que distante dele os homens vagam erran-
que mais se enraiza nesses princípios normadores e organizadores tes pela Terra, tocam o abismo, a falta do solo de onde emerge o
do real. O filosofar, enquanto centrado no Homem como "Animal Ser. O destino da civilização mundial ameaçada pela tecnologia,
Racional" e "Ego Cogito", tem como seu fundamento a posse do en- pode ser encaminhado rumo ao essencial que habita as épocas mí-
te pela razão, que o contém na Lógica. Esvazia-se cada vez mais tica e pré-socrática, atentas ao Sagrado, ao divino, aos deuses
quanto mais se afasta do essencial. e ao des-velado.
Contudo, Heidegger fala de um bom perigo: o poetar, que não Por meio dessas considerações sucintas, podemos perceber
visa a nenhum outro mérito que o de pronunciar o que a ele se que, apesar de uma mudança de atitude, a meta heideggeriana não
anuncia e, em sua gratuidade, recebe a medida de sua grandeza. O foi abandonada: ela visará sempre o sentido do Ser. Pois como o
poeta essencial é aquele que não tem pressa, que aguarda ser so- próprio Heidegger escreve: "O que resta em um pensar é o caminho".
licitado por algo para trazê-lo à luz. Ele depara-se com O ~nex­ (5)
primível e humildemente tenta expressar aquilo que o apela dando Assim, O caminho heideggeriano, por intermédio da Linguagem
sentido à sua existência. Está diante do mistério do Ser, do im- poética, de suas reflexões acerca da Arte e da fun~ão do pensar
percep~ível, sabendo que não se podem forçar respostas, já que o essencial, o conduzirá ainda mais profundamente ao amago de seu
importante é saber esperá-las. questionamento do Ser. Centrando-nos no processo de maturidade
Escrevendo poemas e dando relevância à Linguagem Poética que assinalou o perquerir de Heidegger, é que nos posicionamos,
a-conceituaI, a nova Ontologia, já esboçada em Sein und Zeit, reiterando a postura de alguns dos seus estudiosos, no toca~te
se institui. Contudo, os passos iniciais de Sein un Zeit prepa- às duas fases de seu pensar. A nova Ontologia, elaborada apos
ram apenas o caminho do percurso que somente as obras da segunda Sein und Zeit, não pode ser denominada propriamente Ontologia,
fase do Autor solidificariam. porque é precursora daquilo que superou, esbarrando no risco do
anonimato, do "sem-nome"(6). Aplicamos-lhe,contucto, o título On-
"Mas em Ser e Tempo nao havia ainda lugar um verdadeiro tologia tendo sempre em vista que sua abordagem do Ser não se
conhecimento da história do ser, de onde a imperlcla e propria- faz do mesmo modo que a Lógica, ou dos fundamentos, mas em uma
mente a ingenuidade da destruição ontológica".(3) proximidade da era grega, assinalada a partir de então por um
cunho poético.
Foi necessário,após a e laboração inacabada de Sein un Zeit,
eminentemente preparadora, empreender um novo cami nho, caminho "O pensamento futuro nao ~ mais Filosofia, porque pensa
esse articulado na Kehre, na Vira-volta, na qual o Ser pode ser mais originariamente que a 'MetafIsica', nome que diz o mesmo".
meditado -- o que configura uma mudança em relação à postura me- "O pensar estj na descida para a pobreza de sua essincia
tafísica -- em um pensar que se elabora como pós-metafísico. precursora. O pensar recolhe a linguagem para junto do simples
A Kehre assinala um novo momento no pensar heideggeriano. dizer".(7)
Sein und Zeit foi a obra que prepara Heidegger para a eclosão de
uma fase posterior, mais profunda. Esse fato explica a proviso- Não haverá, assim, mais filósofos, mas se recuperam os
riedade dos constructos heideggerianos presentes nesta obra. A pensadores ligados à Physis, ao que emerge. Neste novo pensar o
Analítica Existencial é deixada de lado, posto que Heidegger Homem, enquanto estar-aí, é o "pastor"(8), aquele que guia o
partirá, a partir de então, do Ser -- como dom que se envia epo- essencial sem, contudo, estabelecê-lo. Esse pensar vai além das
calmente -- para o estar-aí. Esse pensar precursor, abandona os ordens históricas da presença, quebrando os princípios metafísi-
termos metafísicos, deixando de lado o Método Fenomenológico, em cos que postulam o Ser como ente calculável pelo agir humano,
favor de uma abordagem hermenêutica do real.(4) superando o Ser como fundamento, ele instaura o Mundo. No tocan-
Retornando ao des-velado, Heidegger assume os gregos pre- te à questão do Mundo, em Sein und Zeit , por meio do Cuidado(9)
socráticos, salientando a importância da A-Iétheia, da Physis, e do pro-jeto do estar-aí, ele é o lugar onde, por intermédio do
do Lógos. Assumindo a Linguagem poética e o lugar de destaque ente disponível, o Ser adquire sua significação e torna-se re-
que o Tempo possui em relação ao des-velamento e a sua compreen- velado. Em Holzwege, Heidegger dirige-se rumo à A-létheia como
são, Heidegger re-perrsa e re-dimensiona a tradição filosófica ao O combate entre a Terra e o Mundo, entre o velamento e sua eclo-
questioná-la. Os termos que compõem a segunda fase do pensamento são na órbita do manifesto. Esta noção estava presente no pensar
de Heidegger atestam a mudança de sua perspectiva. Em Sein und Zeit pré-socrático. Quem tem acesso a esta dimensão do Mundo são os
compete ao estar-aí resoluto o encontro com O Ser, o que origina pensadores' essenciais e sobretudo os poetas, enquanto "nomeiam"
uma r~sponsabilidade~ ang~stia e culpa diante de sua missão. Nas em sua Linguagem, o" ente em seu ser, a partir de seu ser".
obras posteriores a Sein und Zeit, como competi ao Ser clarear- ( 1O)
se: o estar-aí adquire a serenidade de quem espera pacientemen- A nomeaçao e, para Heidegger, idêntica à preservaçao do
te, ouve o Ser, e libera a sua mensagem. Heidegger refletirá, a Ser. A ela o dizer do poeta tem acesso enquanto se constitui em
partir de então, ; destino não só de um pensar filosófico afas- um evocar, em ex-por o Ser e exaltá-lo, na medida em que pen:-
tado do Ser, mas de toda a Humanidade que se aparta do essen- trando em sua intimidade, -o dá a ver. A questão do fundamento e,
cial. Pensar o#}gináriamente é recordar e agradecer o dom que o

69
68
para Heidegger, diferente do estabelecimento de um conceito ou ente que fala, isto e, que mantém vínculos de re-velação poema-
do Ser como um fundamento. Ela implica um âmbito no qual há um tica com a mensagem que a ele se endereça . Aqui é a A-létheia
apelo à liberdade, enquanto transcendência do estar-aí para o que, novamente, se des-cerra, nomeando na segunda fase do pensar
Ser, que: " . .. dá liberdade e toma fundamento" . "O ser-aí funda heideggeriano a destinação epocal do Ser como Ereignis (17), ou
(erige) mundo apenas enquanto se auto-funda em meio ao ente". seja, como o dom que, ao enviar-se, liga o estar-aí à totalidade
(l!)
do Ser.
Nesse contexto, a noção de fundamento, legada pela tradi- A questão da totalidade, enquanto harmonia, perpassou a to-
çao, e quebrada, pois: do o pensar anterior ao filosofar. Nele o ~esabrochar da Ph!sis
remete ao Kosmos ao Mundo -- que nada mais expressa senao ao
"Ser' é' essencialmente' fundamento'. Assim, o ser nunca Ser. Nesse prisma: o Kaos, enquanto faz parte do Ser,.é uma d~­
pode ter primeiro um fundamento que o fundamente". "No sentido mensão do des-velado, da capacidade do tornar-se manifesto. Di-
de uma tal ausência de fundamento do ser, o ser' é' sem-funda- ferentemente da desordem, db vazio, o Kaos surge, na circulari-
mento (Ab-grund), é abismo. Na medida em que o ser, enquanto dade, do pensar heideggeriano, como um movimento que conduz ao
tal, é fundamento em si mesmo, permanece .ele mesmo sem fundamen- originario. É no seio dessa tensão, desse conflito que o Homem
to". ( 12) tragico, responsável por ele mesmo, assume a tarefa de penetrar
no oculto, buscando engendrar a passagem para a sua des-oculta-,
Recorrendo a Angelus Silesius e a seu misticismo, Heidegger ção. Tarefa artística, instauradora, autêntica e ~a~oriosa a
utiliza a metáfora daquilo que, como a Physis, desabrocha natu- qual o Ser se presenta e des-cerra em toda a sua amplidao.
ralmente:
"A rosa e sem porque, floresce por florescer, "Pensado a partir da Natureza (Physisl, o Kaos ' permanece
Não se inquieta consigo mesma, nem pergunta se alguém a este aberto de onde o Aberto se abre a : fim de conceder a toda
vê". (13) distinçio sua presença delimitada". "O Kaos é o pr6prio Sagra -
O Ser abissal e sem-fundamento apela a uma nova forma de dO".(18)
pensar e de dizer preparadores, a um outro destino e a um novo
agir, que apreende os princípios epocais anteriores como sobre- Atentos à etimologia grega do termo, Kaos (Chaínein) signi-
vindos de um destino fechado para o essencial. Nele, a diferença fica o abrir-se, a separação que, em termos ontológico~, pode
ontológica, o Ser do ente ocidental, é colocada no prisma da.re- remeter-nos à diferença que vigora entre Ser e entes. Ja em He-
lação entre Mundo e coisa; trata-se essencialmente de uma dife- síodo esse termo que é determinado a partir do divino, acena ao
rença temporal. Isso porque o estar-aí questiona o Ser no Tempo, próprio elemento que origina o Kosmos.
no qual se dá o sentido do Ser, a sua Verdade, em forma de ~m Contudo como o Kaos não é abertura plena, mas constitui-se
acontecimento. O acontecimento assinala a temporalidade ek-sta- pela obscuridade, sua função sacral é, a nosso ver, a concessão
tica (do estar-aí) e epocal (do Ser). Captar a importância da do equilíbrio, da região de proximidade espacial onde cada ente
originariedade do Tempo, esquecida pela Metafísica, é romper com advém ao seu Ser e onde o estar-aí se situa, comunicando-se, so-
a presença, em favor do Ser enquanto aconteci~ento. I~so implica lidário e atento, com a divindade. Liberando o Ser, o estar-~í
em uma compreensão do modo de sua articulaçao atraves das con- adquire a liberdade para habitar o seu Mundo enquanto Quaterni-
cepções epocais. O Ser, enquanto temporalização, institui h.isto- dade.
ricamente as épocas de reserva e presença, em seu destinar-se Nesse contexto, como o estar-aí é um ente que se situa no
(14),possibilitando também a ruptura dos princíp~os e das e:as. horizonte do Ser, convém que se re-pense o dizer mítico, pré-so-
A des -tr uição heideggeriana visa, assim, a recuperaçao do crático e filosófico no tocante ao seu modo de apreender o ente,
conteúdo mítico e pré-socrático, sempre atenta ao âmbito no qual o Ser, o estar-aí, guiados por uma questão fundamental: a tempo-
se desdobra a ec-sistência humana em sua íntima relação com o ralidade.
Ser. Na tentativa de devolver ao estar-aí o seu Mundo, Heidegger Na época mitica preserva-se a relação entre Ser e devir,
refletirá sobre dois termos básicos na gênese do pensar: o Kos- que constituem a unidade temporal-simbólica d~ Kosmos. Posicio-
mos e o Kaos. nando-se poeticamente diante do Tempo, essa epoca reconhece e
vigia a Verdade do Ser, como a pro-dução originária a partir do
"Kosmos nio quer dizer este ou aquele ente mesmo que irrompe não-Ser. Sófocles, Anaximandro e Heráclito mantêm-se no horizon-
e se impõe com insistência, nem quer dizer . também tudo isto reu- te do Tempo enquanto transcendência do ente em direção ao Ser.
nido' mas significa 'estado', isto é, o co.o, em que o 'ente, e Entretanto, parmênides e Platão, negando o devir, rompem a uni-
em v~rd'ade, na totalid~de é". (15) dade significativa contida no caráter temporal.
Para os gregos, o Tempo era "um ente dentre os outros", não
Os termos "como" e "totalidade" acenam a dimensão de Mundo possuindo uma "função ontológica fundamental"(19). O fundamento
como o âmbito do des":velamento, da "clareira do ser"(16), Lich- dessa postura remonta a Theoria, ao contemplar que capta o ele-
tung, que propicia ao estar-aí a sua essencialização enquanto mento universal e constante dos entes. Ora, como vimos nos capí-
~/

7.0 71
tulos anteriores, o ente foi definido como o que "está-a-vista", "O valorar não deixa o ente ser, mas todo valorar deixa
como o presente, o permanente -- que na tradiçio filos6fica tor- apenas valer o ente como objeto de seu operar". "O pensar atra-
nou-se um atributo da representaçio. vés de valores é, aqui, e em qualquer outra situação, a maior
Conhecer o Ser é vê-lo. Para Heidegger, o estar-aí somente blasfimia que se pode pensar em face do ~er".(21)
pode conhecer o Ser na medida em que o compreende, isto e, assu-
me a temporalidade como um existencial constitutivo de seu ser- Assim, a renovaçio da proposta heideggeriana se constitui
no-Mundo, abrindo-se à temporalidade como um traço fundamental como uma passagem: do sujeito ao estar-aí, do ente ao Ser como a
do envio do Ser. Faltou aos pré-socráticos a elaboraçio de uma origem doadora de sentido. Nesse quadro, engendra-se também a
Analítica Existencial do estar-aí, uma valorizaçio do Tempo em superaçao do caráter Onto- Teo - L6gico da Metafísica, isto e,
sua vinculaçio com o sentido do Ser, para que esses pensadores do Cristianismo.
pudessem aprofundar a definiçio do Homem como um ente que se A dicotomia sujeito-objeto, a prioridade do teorizar, da
caracteriza pela Linguagem. visão -- platonicamente interpretada --, persistem no decorrer
Com o advento da Metafísica, Platio procura o Ser que está da Filosofia, conduzindo ao estabelecimento das visões e imagens
além da aparência e do Tempo, enquanto imutável, permanente. A de mundo que perpassam a Onto- Teo -Logia e a Estética. A visão
temporalidade humana também é colocada em um nível secundário, de mundo se refere às certezas do Homem de uma época hist6rica,
posto que se refere ao situar-se em meio ao aparente, a um pe- que se transformam em arkhai: o ente, o sujeito, Deus são exem-
ríodo de transiç~o, à passagem para o Mundo Ideal. Postulando plos. A imagem de mundo é o campo no qual se inserem as visões
a visão como o nível mais elevado da apreensio, Platio estabele- m~ltipla., sempre em luta pela disputa de alcançar o domínio de
ce o deslize do conhecimento filos6fico. Na visão há uma ruptura uma sobre a outra. A imagem de mundo é obtida quando o Homem se
do relacionamento do estar-aí com o Ser -- considerado como algo considera como a medida do ente, que torna presente o Ser ao re-
que está no Mundo e que, tornando-se um elemento da abstraçio presentá-lo. Há uma hegemonia do sujeito sobre o real.
elaborada pelo sujeito, se transforma em objeto. Este traço per-
passa toda a Metafísica, elaborando um corte na realidade coti- a relação moderna com o ente torna-se ... confrontação
diana, que se divide em dois domínios diferentes. É como se das visões de mundo, e não de quaisquer visões de mundo, mas
houvesse um sujeito do lado de cá do Mundo e do outro lado dess~ unicamente aquelas que já tenham redescoberta as situações fun-
mesmo Mundo houvesse o Ser. O Homem distancia-se do Ser enquanto damentais e extremas do homem, e com a última determinação pos-
o considera como ente, como mera exterioridade atin~ida pela vi - sível". (22)
são. É justamente porque a visão tem como limite o angulo daqui-
lo que pode ser alcançado pelo olhar, que a extensio do conheci- Assim, as visões e imagens de mundo sao sempre fragmentá-
mento também é reduzida. O filosofar, enquanto se torna concei- rias, não proporcionando seu almejado acesso à unidade, unidade
tual, é uma técnica de apreensio do Ser pelo intelecto,de repre- esta perdida através da segunda época do pensar. Contudo, como
sentação. as visões de mundo nio admitem réplicas, elas se identificam com
Opondo-se a esta postura, Heidegger coloca a Verdade como a a Ideologia(23) -- aqui considerada como práxis transformadora
iluminação do Ser que, ao des-velar-se temporalmente, rompe a do Mundo, a partir da subjetividade. Sua consequência é a perda
distância espacial dos entes, instituindo o âmbito de encontro do Mundo enclausurado em uma imagem, o abandono do Ser, o esva-
do estar-aí com aquilo que é. Esse encontro dá-se, inicialmente, ziamento do Homem, desarraigado do essencial.
por intermédio da práxis cotidiana, pelo fazer que se constitui A visio de mundo cristã t~m como fundamento a "d'esdiviniza-
ao lidar com o ente- à-mão. Nesse contexto, convém ressaltar çio", isto é, "o estado de indecisio em relação a Deus e aos
que, para Heidegger, a compreensio, unindo a práxis e a teoria, deuses". "Quando as coisas chegaram a este ponto, os deuses de-
amplia o seu horizonte de acesso ao sentido do Ser, perpassado sapareceram".(24)
pela temporalidade. A desdivinização é o âmbito no qual está centrada a inves-
Sob esse prisma, Heidegger visa à ultrapassagem da Metafí- tida heideggeriana rumo à des-truiçio da Onto- Teo -Logia, e que
sica enquanto Onto- Lógica. Através de sua postura a-narquica, nos fornecerá subsídios para a busca de um esclarecimento acerca
volta à originariedade do arkhé grego, que: de Deus ou dos deuses aos quais Heidegger se refere.
"Designa aquilo de onde algo surge". (20) A questio de Deus no pensamento de Heidegger(2S) é um tema
Ora, tudo o que é surge do des-velamento, da A-létheia, que complexo, que dá margens a várias interpretações, por parte de
designa a harmonia do estar-aí com a totalidade do Ser. Este seus comentadores. Alguns postulam a presença da formação teo16-
pensar é, assim, transcendência da dicotomia sujeito-objeto, do gica, que Heidegger recebeu em sua juventude, em Sein und Zeit .
Ser enquanto fundamento, isto é, causa do ente e sinônimo de va- (26) Outros, postulando a ambiguidade de seu enfoque, acenam à
lor. dificuldade de delimitá-lo, limitando-se a um elenco das cita-
çoes de Heidegger acerca do assunto.

72 73
a escassez de referências suscita muitas vezes uma fal - Assim a pergunta "Quem j Deus?"(36) ainda não pode ser colocada,
ta de clareza ... " "As afi rm aç6es paradoxais que aparecem na su- enquanto nos mantivermos na esfera da investigação Dnto- Teo _
perfície de um pensar são não raro fruto do fragmentário e podem Lógica.
esconder as intenç6es do autor" . (27) D Cr i stianismo está duplamente afastado de suas fontes: da
fi losófica - enq uanto não se indaga sobre o Ser, assim como so-
Não visando dar_uma resposta ao problema de Deus, Heideg- bre o Homem em seu ser-no-Mundo; da teológica - enquanto coloca
ger centra sua atençao na dicotomia sujeito-obj eto subjacente à Deus por meio da dicotomia entre Criador e criatura. O Deus úni-
Teologia, que a conduzem, a e lab orar as provas da existência de co torna-se desconhecido, é esquecido. Sua intervenção na Histó-
Deus fundamentando-as na Lógica. A Teologia surge da Filosofia, ria humana, não é captada em profundidade, pois a visão c ristã
mas de la se distingue. O objetivo da investigaçã~ teológica é de mundo nos fornece apena s um acesso ao que é secundário. O
Deu s, mas, por out ro lado, o objetivo da inves tiga ç ão metafís ica inaugural jaz juntamente com a não-problematização da História,
é o Ser. Contudo, a Teologia tendo como postulado a fé -- en- do Homem, do Mundo, do sentido e do Ser .
quanto revelação -- , exclui de seu âmbito o Ser.
"Uma den sa nu ve m fugitiva sobre uma terra velada: tal ~ o
"A filosofia j para a fj originariamente cristã uma loucu- obscurecimento da verdade preparada pela certeza cristã da sal-
ra". ( ... ) vação, como certeza da subjetividade, sobre um futuro que nao
"Assim, aquele, para quem a Síblia j verd ade e revelação di- nos ~ dado a conhecer" . (37)
vina, já possui, antes de qualquer investigação da questão, 'Por
que há simplesmente o ente e não antes o Nada?', a resposta: to- Deus não pode ser remetido à esfera da subjetividade. Assim, '
do ente, que não for Deus, j por Ele criado".(28) Heidegger propõe re-pensá-Io essencialmente mediante o resgate
deste Mundo e do estar - aí como um ser-de - relação que habita o
Como Deus não tem necessidade do des-velamento do Ser Mundo . Heidegger critica a visão e imagem de mundo cristã,a par-
por ser idêntico à Verdade --, a Onto- Teo -Logia é assinalada tir do próprio Mundo ao qual o estar-aí pertence originariamen-
pelo esquecimento do Ser. Assim é necéssário que o Deus dos fi- te . A descoberta do ser - no - Mundo é a-conceituaI, pois dá-se na
lósofos seja liberado das noções de "causa como causa sui" (29), práxis cotidiana, anterior às teorias. Por seu intermédio, o es-
do fundamento, enfim dos atributos que o impõem como o "'valor tar - aí, cuidando de si, é histórico. O sentido do Mun~o não,pode
supremo'''(30) . Por outro lado, o Deus da Teologia pode ser re - ser encerrado em uma visão ou imagem de mundo, pois e o prop r io
pensado em um outro nível que transcenda a definição: "Deus e s t Ser que, em seu velamento-des - velador, se envia a o estar-aí. So-
suum esse" (3 I ) . mente na abertura de ambos é que o Mundo eclode - - não como algo
Em sua tentativa de superar as dicotomias que assinalam o definitivo, conceitual - -, mas como uma possibilidade hermenêu-
Cristianismo, Heidegger é influenciado pelas reflexões de Nietz- tica a ser alcançada . O Mundo transcende a teoria, a visão, o
sche sobre Deus. Compara, asslm, a Visao cr istã à visão platôni- olhar humano e o arkhé que tenta defini-lo.
ca, posto que ambas pregam a existência de "dois mundos": o da
vida eterna e o das Idéias - - CO!)lO os mundos "reais" - - sendo "Agora começa e executa - se a diluição da essência moderna em
que o mundo ter~estre, constituido pelos entes, e o mundo das vias de perfazer no que compreende a si mesmo apenas quando este
aparências são "passageiros", adquirindo seu valor apenas en- está assegurado ideologicamente, ou seja, atrav~s das visões de
quanto se reportam aos mundos originários(32). A depreciação do mundo, cresce, por outro lado, a possibilidade de um questiona-
"mundo sensível" conduz a metafísica cristã a uma concomitante mento oriQinal do ser que abre a dimensão na qual se decide
des-valorização do "mundo supra-sensível", dos domínios onde se o ser será ainda uma vez capaz de um Deus, se a essência da
Deus e o Ser deveriam ser refletidos. Este é o campo no solo do verdade do ser colocará a essência do homem na instância de um
qual Nietzsche proclama que "'Deus está morto" ' (33). A Morte de apelo mais original".(38)
Deus denuncia a ruptura da relação de Deus com o Homem e com os
entes, o esquecimento do Ser, que gera uma crise no interior da Rompendo as visões e imagens do mundo, Heidegger des-cerra o
Metafísica e da Teologia cristã. Ambas chegaram ao seu fim en- âmbito no qual Deus e o Ser poderão ocupar um lugar privilegia-
quanto se afastaram da questão mesma que deveria ser o objeto de do na vida dos homens. Assim, as des-truições da Metafísica en-
seu questionamento. Sem alicerces, o Homem perambula pela terra. quanço Onto- Lógica e Onto- Teo - Lógica são perpassadas por um
Por este motivo Heidegger escreve: unlCO traço: a busca do que lhes é mais peculiar e que perma-
"N?s chegamos demjlsiado tarde para nece impensado.
os deuses e demasiado cedo para o Ser". (34) O poetar de Hoelderlin influencia,como o dizer de Nietzsche,
O Homem atual est~ distante da dimensão do "mistério" que o pensar heideggeriano que perscruta o elemento constitutivo de
envolve a "re-velaçã,o" de Deus -- "... que deve manifestar-se Deus, acenando-lhe o caminho que poderá conduzir a este encon-
como aquele que permanece desconhecido"(35 ) -- na medida em que, tro. O pensador volta, pois, sua atenção às épocas .mítica e pré-
esquecendo 6 Ser, não , presta a atenção à sua ausência, julgando socrática, que não enclausuraram Deus em um conceito. Cumpre,
poder conhece-lo ~r intermédio das provas de sua existência.

74 75
pois, que recuperemos o conteúdo de um pensar no âmbito do qual
o próprio Deus possa ser recuperado. Pois, em todos os quadrantes, o que aconteceu retém
junto a si
. ·Th~Ólogos, theologia significa na Antiguidade o dizer mí- Guardada uma decisão de plenitude'" (44)
tlco-poe tico dos deuses, sem referência a um ensinamento de fé e
de uma doutrina ec le sial" . (39) o que retém e o Ser, enquanto destino epocal, velamento e
des-velamento -- o novo caminho para esta época de desdiviniza-
No mundo grego, pré-metafísico, pode - se pensar o modo como o ção, vazia de deuses e do Ser. Esse caminho re-conduzirá o es-
t
ermo " ' ,e ,. ap 1.:. ca - se a D~us. Nesses tempos, o divino, o Sagrad o tar-aí à dimensão na qual céu e terra, homens e deuses, permane-
e os ~euses estao em intrlnseca relação com o des-velamento. Es- cem unidos.
~e . nao e.o :lemento fundamental que se leva em conta na experi- Concluindo estas observações a respeito do abandono do es-
enCla crlsta de Deus. ~ortanto, compete àqueles que queiram sencial na Metafísica e no Cristianismo, convém ressaltar que a
compreender Deus re-pens a-lo a partir dos eleme ntos levantados tarefa de nomeação do Sagrado, do divino, de Deus e do Ser nao
pelos pensadores pré~socráticos : quer ele se recuse a nós, quer compete ao filósofo, mas ao poet q . O poematizar, si tuad o em uma
ele venha a se manlfestar. Somente assim nos poderemos abrir dimensão diferente daquela à qual se restringe a racionalidade
para .a ,época não-metafísica, que virá um dia, e na qua l Deus o pensar categorial --, refere-se à esfera da serenidade, do
surglra em um prisma diferente do que o colocaram a Filosofia e ' abandono ao Ser, do deixar-se convocar temporalmente pelo des-
a Teologia. O Deus a ser buscado é o "Deus divino", também nome- ve lamento. O Poema não busca explicações, nem a dominação do re -
ado por Heidegger como "o último Deus"(40), isto é, como aquele a'l.; por esse motivo constitui geneticamente a Arte não-estética .
que deve ser refletido a partir do des-velamento do Ser . No des- Daí a importância da temporalidade, do Poema e da Arte na Kehre.
velamento são preservados tanto" ... a presença da oculta pleni- Ao Tempo pertence algo que libera-ocultando e que Heidegger
tude do que foi e, assim, continua reunindo o que . é . .. a oculta denomina: o deixar-ser (sein-lassen). Este acontecer, apenas es-
plenitude do divino entre os gregos, do divino entre os profetas boçado em Sein und Zeit, refere-se à "descoberta" do ente em seu
jude~s e do divino na pregação de Jesus"(41), quanto o Sagrado "ser-disponível"(4S). Contudo, as obras posteriores lhe conferem
perdldos pela ' Teologia cristã, juntamente com o Ser. maior amadurecimento, pois:
O Deus de Heidegger, que supera a subjetividade, está, as-
sim, em referência direta com o Ser. Não obstante, ambos nao "Deixar-ser o ente -- a saber, como e~te que ele é signi-
se identificam(42), pois: fica entregar-se ao aberto e à sua abertura, na qual todo ente
entra e permanece, e que cada ente traz, por assim dizer, consi-
"Somente a partir da verdade do ser deixa-se pensar a essên- go".(46)
cia do sagrado. E somente a partir da essência do sagrado deve
ser pensada a essência da divindade. E, finalmente, somente na Penetrar no dom, no enviar-se do Ser e preservá-lo: esta e a
luz da essência da divindade pode ser pensado e dito o que deve tarefa do novo pensar, denominado "Memorial", pois se satisfaz
nomear a pafavra 'Deus'".(43) em liberar o sentido, em relacionar-se com o Ser. O deixar-ser
situa-se na fase pós-metafísica propriamente dita, pois implica
No nomear poético se des-cerra a possibilidade de encontro o abandono de todas as categorias e conc eito s em favor do pró-
do essencial, no âmbito do qual tudo o que é ~stá i~serido. As- prio des-velamento. Nele, a razão é parte constitutiva de algo
sim, é importante que voltemos nossa atenção a Tragedia e ao po- maior: ela é a inteligibilidade de um Mundo -- desvinculada do
etar grego, pois isto significa: voltar ao próprio Ser, edifi- qual não poderia pensar --, por meio da temporalidade . Este é o
cando uma reflexão mais profunda sobre o Deus divino e sobre uma caminho para a recuperação do conteúdo originário do Ser -- não
era que preservava uma atitude sacral de união do estar-aí com a mais um vocábulo, mas um acontecer que, em seu destinar-se, ape-
Natureza.
la e aguarda a resposta do estar-aí para o encontro re-concilia-
dor com o essencial.
"No ser jj todo o dest!no do ente chegou originariamente a Nesta nova Ontolog i a, o termo ôntic o " é", como designante
sua plenitude . do Ser, é abandonado em favor do destino no qual "dá-se"(47) Ser
A última poesia do último poeta da Grécia antiga, ~dipo em e, concomitantemente, dá-se Tempo . Deste modo, o pensar, que na
Colonos, de Sófocles, encerra com a palavra que incompreensi- Kehre supera os arkhai da Hetafísica, é essencialmente a-nár-
velmente se v~lta sobre a oculta h is tória deste povo e conserva quico: ele vai além da racionalidade e da presença, emancipa-se
seu começo na ignota v~rdade do ser: dos princípios epocais e da era Técnica. A-narquia(48) signifi-
ca: um pensar não comandado pelos arkhai das épocas anteriores,
embasado no "sem porquês" no qual se mostra o Ser .
'Mas agora cessa! e nunca para o futuro A conquista heideggeriana, que perpassa o Método Fenomenoló-
O lamento sucitai: gico de Sein und Zeit e _revela o estar-aí como ser-no-Mundo,
"I temporal -- eliminando o Mundo natural, Deus e a consciência da

76
77
tradição --, recoloca
, fundamentalmente , nas obras d a segun d a f a- cial entre a Arte e o Ser, a dimensão na qual ambos se incorpo-
se, o estar - alo Ele lhe devolve na nova Ont 1 . , ram indissociavelmente. Esta dimensão não é outra senão a esfera
te f d 1 . ' o ogla, o seu cara -
r u~ amenta : o habltar o Mundo roubado pela M t f' . do des-velamento, da A-létheia grega, que polariza a harmonia
pela Tecnica. e a lSlca e primordial da Arte com a Physis, da Techne como saber criador
A Técnica é, como vimos no capítu lo anterior o camp onde o que irrompe no Ser e o manifesta enquanto Belo.
real e o Homem apátrida são manipulados. É p;eciso .0 . . O ponto de partida para o re-estabelecimento desta nova Arte
segunda d t . - . lnlc lar a e a recuperação da conquista helênica, cujo paradigma é o Homem
_ . :s- rUlç~o,.em vlsta de um ~or-vir de tudo o que é. A
des trulçao da Tecnlca torna-se posslvel med iante uma refI - em seu plano anterior à subjetividade(S3). Este modo de ser pri-
sobre . '. d . - exao mordial . será abordado, ainda mais genuinamente por Heidegger,
o seu prlnclplo e ob]etivaçao do ente, em favor daquilo
que, com? substrato, permanece oculto: o des-velamento do Ser, o por meio da ec-sistência.
seu destlno. liA 'essência' do estar-aí reside na sua existência" (54)
A Técnica é um fazer do Homem, dentro de um processo desen- Existência, do verbo Ek-sistere, denota a capacidade de e-
freado de conquistas que como um vulcão abre avassaladoramente mergir, de transcender-se e ir ao encontro do Ser, nele pene-
um d abl.· smo no solo. Ess~ abismo separa ~ Hornem d ' l o que e,e
aqul 1 trando. A existência -- escrita por Heidegger com a partícula
pr? UZ1~ e ~o nquistou, mas que de repente extrapolou a sua pro- "ec" separada por hífen -- designa o manter-se no contexto refe-
p:la flnalldade. Diante dela restam duas possibilidades de op- rencial do Ser, que constitui a existencialidade da existência,
çao:. olh~r as fe~das se alargarem ou buscar fundi-las em uma o ser adiante de si mesmo. A ec-sistência mostra também o cará-
re-dlmensao do proprio ser da Técnica(49). ter de escolha entre a autenticidade e a inautenticidade, a al-
. Heidegger, . refl~ti~do sobre a Técn~ca, nos mostra a possibi- ternati va sempre presente ao constituir-se do estar-aí como tal .
lldade de redlmen~lona-la . 9 caminho e prestar atenção no dado Assim, essa nova Arte, que parte da ec-sistência, é definida
concreto ~ue nos clr~unda: ha algo mais preciso que "o pensamen- como Ontológica.
~o exato , que o "calculo"(SO), cujo objetivo é o ente. Há algo E aqui cabe esclarecer em que consiste a proposição da Arte
lntenso que ~os apela e deve ser, como na Época Mítica, coloca- como Ontolgia. Sua característica fundamental é recobrar a força
do em questao: o des-velamento, para que, indo além de todas as da Arte Helênica . A postura que Heidegger assumirá diante do
eras~ se b~sque,o ~en~ido do Ser. Somente porque há des-velamen- conte~do da obra de arte é, como foi colocado, a fenomenológica,
to, e posslvel a Tecnlca manipular o ente, como também transfor- que visa, como os pré-socráticos, a liberar o que se manifesta,
ma:-s: em um fazer significativo, em uma produção cunhada pela contemplar o Ser.
POlesls grega. A produção, vinculada ao des-velamento requer
que se elabore a des-truição da Estética. ' "Toda concepção e todo enunciado que se interpõe entre nós e
,A . des-tr~ição da E~tética está implícita na 'superação da Me- a coisa mesma devem primeiro ser afastados. É somente então que
taflslca, p01S o 7ermo q~e a especifica, o Belo, bem como a obra nos poderemos abandonar à sua própria presença imediata (unvers-
de arte e o artlsta sao definidos por categorias filosóficas teIItes Anwesen)".(S5 )
que, co~o colocamos no capítulo anterior, determinam o fim da
Arte dlstante do Ser. Nessa perspectiva, Heidegger, refletindo Afastar a c onceituação é retirar a Arte do domínio da Esté-
sobre a Arte, nos. apresen~a o terceiro m~do da des-truição . O tica. A Arte não-estética se estabelece através de uma recupera-
que o autor de Seln und Zelt busca agora e o sentido da obra de ção da época anterior à Metafísica, de sua união poética com o
arte, a sua origem(Sl). real, que devolve a Arte à totalidade do saber .
"Origem significa aqui aquilo a partir do que e por onde a
coisa é o que ela é, e . como ela é." " ... sua 'essência' ... ".(S2) "A grande arte helênica... permanece sem reflexão nocional
E;t~belecendo a dlferença entre a coisa, o ente enquanto correspondente, reflexão esta que não devia, necessariamente,
~te~slllo ~ ~ ~b:a de ~rte enquanto ,coisa, Heidegger atinge o ter o sentido de uma Est~tica" . "Por felicidade, os Gregos não
amblto o:lglnarlO da dlferença ontologica, Por meio dela já não tinham experiências vividas; em compensação, eles foram dotados
se pensara ~ ~b:a de ~r~e a partir de uma noção secundária do de um saber claro, tão originalmente desen volvido e de uma tal
en~e, do blnOml? mat:r~a-forma, qu~ .gera a polari~ade sujeito- paixão pelo saber que nesta claridade do saber eles não tinham
ob]~t~ e a conceltuaçao. Pelo contrarlo, por intermedio da des- necessidade de nenhuma 'est~tica'".(56)
trulçao que,problematiza a ob:a de arte, será atingido o lugar
que com~ete a obra~ a sua funçao, assim como a tarefa da ativi- Esta Arte não reivindica uma ciência que dela se incumba co-
dade crladora (artlstica). mo objeto de estudo; ela é finalidade em si. Não há esteriótipos
Na d~s-truição esti implícita ainda a questão sobre como a para defini-la, pois a criação artística não se radica mais nas
Arte se desdobra~no . Mundo,de hoje, o,que conduz à impossibilida- qualidades de um sujeito, em um ponto de vista que nortearia as
de da s~a permanencla i n~ area da Estetica e a necessidade de uma análises das obras de arte. No pensar pré-socrático, o Homem nao
alteraç~o de seu conteu~o. Por meio desta constatação, será es- se contrastava ao Ser, nao se colocava como medida para as cer-
tabelecldo o cam p0 de açao no qual se resgatará a ligação essen- tezas categoriais, não era uma consciência fechada em si. Aberto
4
I
78 79
ao Ser, mantinha sua ordenação e ha rmonia , contemplava o des-ve- tratado. É por meio da comunhão entre o observador e o artista
lado, satisfazendo-se ao vê-lo surgir como Belo. Como não haviam que a obra de arte chega a ser o que ela propriamente é. Na con-
sUJelt~s, os gregos não ressaltavam na obra de arte,como Heideg- templação está implícito o saber, ou seja, a Techne enquanto
ger nao o ressalta (pois para ele o estar-aí não é um sujeito), transcendência do estar-aí em direção do Ser.
a forma como intuição humana, atribuindo à matéria um valor
acessório. Pelo contrário, é por meio da matéria que a obra de "A palavra alemã para contemplatio j Betrachtung". "Fala-se
arte poderá ser feita. de uma Betrachtung no sentido de uma meditação religiosa, de um
Heidegger redime a Arte do Idealismo platônico, da duali- retiro de si". "Falamos tambjm de contemplar (.etrachten) uma
dade aristotélica, da experiência vivida da Estética, do artista obra diante da qual nos libertamos" .( 60)
que cria desvinculado do Ser. O universo estético deixa de ser
um mundo à parte (como no platonismo) para se inserir na ampli- Libertar-se significa compartilhar daquilo que a obra expõe,
tude do Ser enquanto Physis. Não se atribui mais primazia ao deixá-la aparecer em sua essência, sem a interposição dos ele -
sentimento artístico, pois ele faz parte do ec-sistir. O Belo mentos de um juízo prévio e objetivo . Quando conseguimos chegar
não se coloca na percepção, nem no objeto como qualidade consti- a ess a dimensão, somos verdadeir ament e homens. Nesse contex to,
tutiva: é somente na relação de abertura e acolhimento entre es- podemos notar que a noção heideggeriana de contemplação é origi-
tar-aí e Ser que o Belo se manifesta. Não aceitar a vitalidade nal e dela decorre a superação do dualismo sujeito-objeto. Ele
deste pressuposto é querer estar postado fora do equilíbrio, é quer afastar"o perigo que a obra corre de ser transformada em
querer pre-determinar o Mundo na rigidez dos juízos, ficando à objeto, pois,a nosso ver, na contemplação, aque~e que cont~mpla,
margem da realidade. Eliminando-se o sujeito, alteram-se as pre- abrindo-se à obra e o artista que a elaborou sao e foram lnter-
missas da Arte, ampliando-se os seus horizontes, devolvendo-a ao pelados pelo Ser . 'Esta união é o significado próprio ~a exper~­
seu lugar: à Phys~s, ao Mundo, ao Ser. ência artística termo este que substitui a experiencia este-
tica, impregnada de elementos que a tornam um meio inadequado de
"Para os gregos, on e kalon dizem a mesma coisa (Vigor da acesso ao real.
presença (Anwesen) j puro aparecer)". "De fato, porjm, a arte j A aptidão que nos dispõe a ser requeridos pelo advento a-
a abertura do Ser do ente. Devemos dar um novo conteúdo à pala- brangente do Ser é a Arte . Aderindo a ela, aderimos à Verdade
vra 'arte' e àquilo que ela significa. Um novo conteúdo, a par- pois nos colocamos plenamente diante do Ser . Eis o elemento in-
tir de uma posição fundamental para o Ser, readquirida origina- tegrante do artista e do contemplador, que zelam pela obra de
riamente".(57) arte. Eis o sentido mesmo da Arte :

Retirar a Arte da Estética significa: superar a separação do " ... uma possib i lidade de produção ao aberto: precisamente a
artista -- enquanto sujeito, da obra de arte -- enquanto objeto. arte".
Isto leva Heidegger a ir além das visões e imagens de mundo, em "A meditação sobre o que j a arte j inteira e decisivamente
favor do Mundo enquanto lugar no qual o estar-aí é. Restituir o determinada tão s6 pela questão do ser"."A arte acontece da ful-
simbólico à Arte, eis aí a grande conquista heideggeriana. guração, a partir da qual somente se determina o 's entido do
"A Arte é imagem que tem sentido (Sinn-Bild)". (58) ser "'. (6 J)
Como nos mostra esta frase, nas considerações que o seu co- A Arte poderia ser refletida somente ontologicam:nt: por
mentador tece a respeito da nomenclatura, Heidegger, jogando com Heidegger, posto que o sentido do Ser(62) é a preocupaçao unica
os termos que compõem a palavra símbolo (Sinnbild) e ' separando e constante de seu pensar. O sentido do Ser tem, pois, sua habi-
imagem (Bild) e sentido (Sinn), se refere à Arte como o lugar e tação na Arte e, como dissemos no capítulo anterior, na Lingua-
a ocasião propícia para o mostrar-se do Ser. gem. Ambas são chamadas para "deixá-lo ser".No "deixar-ser" hei-
Assim, a criação será refletida por Heidegger a partir do deggeriano, que instaura a-narquicamente o Ser, se instaura tam-
Ser . O Ser, enquanto dom que aparece na obra de arte, requer vi- bém a Arte essencial: Arte no Ser, Arte do Ser . A proposta hei-
gilantes . Esses vigilantes cuidam de sua genuinidade, zelam por deggeriana de des-truição, atrevida para alguns, mística para
ela e a protegem, póis sua tarefa é cultivar a mensagem contida outros tira a poeira e as telas que, no Ocidente, a Filosofia e
no des-velamento para que ela não se perca. ·A esta tarefa pre- a Esté~ica nos transmitiram . Retomando o Lógos heracliteano, no
servadora Heidegger denominará como o salvaguardar, que afasta o qual Ser e palavra são unidade, e, concomitantemente, aprofun-
estar-aí do perigo que ameaça a sua essência. dando o dito parmenideano que id~ntifica a Verdade ao Ser, Hei-
", .. salvaguarda : da obra significa: instância na abertura do degger revoluciona, revolucionando-se também nos termos de seu
ente acontecendo na obra. Mas a persistência da salvaguarda é um próprio dizer. A linguagem metafísica não pode captar_e transmi-
saber".(59) tir o conte~do profundo por ele intuído . Recorre entao aos poe-
Vimos que a obr~ de arte, enquanto ente ou coisa, tem um ca- tas, que ele escuta, poetas que meditam sobre os problema s do
ráter de objetividade: ela mostra algo que se apresenta a uma estar-aí em seu tempo e que em tempo o auxiliam. Por meio deles
subjetividade, ~ um 5>bservador que contempla o conte~do nela re- Heidegger se retoma, retornando aos gregos, e recebe dos poetas,
'I

80 81
em sua linguagem a-conceituàl, um vislumbrar profundo do invisí-
vel: o Sagrado, o divino, os deuses, o Ser, a Verdade. Tudo isso 19- Id. Sein und Zeit, p.26.
faz parte do referencial mesmo da Arte, à qual ele devolve sua 20- Id. Que é isto -- a Filosofia?, p.36.
essenc ia l ização, ao nomeá-la como "P oelllát ica", des-ve ladora da 21- Id. Sobre 'humanismo' . ln: Os Pensadores, p.365.
Verdade.(63) 22- Id. Die Zeit des Weltbildes. ln: Holzwege, p.92.
23- Cf. STEIN,Ernildo . História e Ideologia. 2.ed. Porto Alegre,
Movimento, 1981 . 72p. Coleção Dialética. V. r.
24- HEIDEGGER, Martin . Die Zeit des Weltbildes. ln. Holzwege,
p.74.
NOTAS 25- Dentre as obras escritas sobre esse tema, recomendamos a
leitura de: Id. O caminho do campo (Der Feldweg). Tradução de
Ernildo Stein e revisão de José Geraldo Nogueira Moutinho. são
Paulo, Duas Cidades, 1969, p.67-72 . GUIBAL, Francis . . . . et
1- A Fenomenologia consiste em " ... fazer ver o que se manifes- combien de dieux nouveaux' Heidegger . Paris, Aubier-Montaigne,
ta, tal -qual isto se manifesta". HEIDEGGER, Martin. Sein und 1980. 170p . Approches cont~mporaines. KEARNEY, Richard et allii.
Zeit, p.34. Heidegger atribui um cunho pessoal à noção de "fenô- Heidegger et la question de Dieu. Paris, Bernard Grasset, 1980.
meno" captada por Husserl, pois em sua visão, "o retorno às coi- 346p. Essa obra apresenta um estudo profundo e completo sobre o
sas mesmas" (Id. ibid., p.34) só é possível se acedermos ao fe- assunto, sendo que nela também pode ser encontrado um "Appendice
nômeno por intermédio do binônimo velamento-des-velamento. A fe- bibliographique" (p.311-336). Nele os autores elencam as
nomenologia de Sein und Zeit , se desdobrará como Ontologia e como principais obras de Heidegger e de seus comen~adores sobre Deu:.
Hermenêutica. Seu ponto de partida é a análise do ~nico ente 26- Cf. MAC DOWELL, João Augusto A.A. A genese da ~nto~og1a
que, compreendendo, tem um relacionamento com o Ser: o estar-aí. fundamental de Martin Heidegger; ensaio de caracterizaçao do
2- Id. Da experiência do pensar (Aus der Erfaehrung des Den- modo de pensar de "Sein und Zeit". são Pa~lo, ~er~er, 1970., ~as
kens). Tradução, introdu~ão e notas de Maria do Carmo Tavares de páginas 154-174 é abordada "a inspiraçao crista da Analltica
Miranda. Porto Alegre, Globo, 1969, p.39. Existencial".
3- Id. Le séminaire de Zaehringen. ln: Questions IV, p.333. 27- STEIN, Ernildo. Heidegger e a teologia natural. ln: Anuá-
4- Cf. GADAMER, Hans-Georg. Vérité et Méthode; les grandes rio Riograndense de Filosofia. I, 1967, p.61.
lignes d'une herméneutique philosophique (Wahrheit und Méthode). 28- HEIDEGGER, Martin. Introdução à Metafísica, p.38,38-39.
Traduit par Étienne Sacre et revisée par Paul Ricoeur, 2. éd. 29- Cf. Id. A constituição onto-teo-lógica da metafísica. ln: I-
Paris, Seuil, 1965. 347p. Collection l'ordre Philosophique. dentidade e Diferença. p.99.
5- Cf. HEIDEGGER, Martin. Aus einem Gesprach von der Sprache; 30- Cf. Id. Sobre o 'humanismo' . ln: Os Pensadores, p.365.
zwischen einem Japaner und einem Fragenden. ln: Unterwegs zur 31- Id., ibid., p. 364.
Sprache, p.99. 32- Cf. Id . Nietzsche I, p. 420sq .
6- Id., ibid., p . 94 . 33- Id. Nietzsches Wort "Gott ist tot". ln : Holzwege, p . 212-213.
7- Id., Sobre o 'humanismo'. ln: Os Pensadores, p.373. 34- Id ·. Da Experiência do Pensar I p. 31 .
8- Cf. Id., ibid., p . 361. 35- Id. " ... dichterisch wohnet der Mensch ... ". ln: Vortraege
9- Id . Sein und Zeit, p.181 sq . und Aufsaetze, p.197.
10- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.59 . 36- Id., ibid., p.199.
11- Id. Sobre a essência do fundamento (Vom Wesen des Grundes). 37- Id . Die Zeit des Weltbildes. ln: Holzwege, p. 109.
Tradução de Ernildo Stein e revisão de José Geraldo Nogueira 38- Id., ibid., p. 109-110.
Moutinho . são Paulo, Duas Cidades, 1971, p . 65. 39- Id. A constituição onto-teo-lógica da metafísica. ln: Iden-
12- Id. Der Satz vom Grund, p.92-93 . . tidade e Diferença, p.82-83.
13- Id., ibid., p . 69. 40- Id. Beitraege zur Philosophie apud POEGGELER, Otto. La pen-
14- O destino (Geschick) é um termo de fundamental importância sée de Heidegger; un cheminement vers l' être (Der Denkwe~ Mar-
no pensar heideggeriano e significa o dar-se, no qual o Ser se tin Heideggers) . Traduit par Marianna Simon. Paris, Aubier-
envia ao estar-aí, circunstancialmente, em forma de velamento e Montaigne, 1967, Présence et Pensée, p.358-359.
des-velamento. Seu advento determina todo o existencial humano: 41- HEIDEGGER, Martin. Das Ding. ln: Vortr<iege und Aufsaetze,
o pens,amento, a Lingll,lEigem, a His tór ia. Cf. Id .. Die Frage nach p.183.
der Technik. ln: Vortraege und Aufsaetze, p.29sq. 42- " ... 'Deus é o nome religioso para o ser ... '" Cf . RICOEUR,
15- Id. Sobre a essência do fundamento, p.46. Paul. Contribution d'une réflexion sur le langage à une théolo-
16- Id . Sobre o 'hum<;tnismo'. ln: Os Pensadores, p.354. gie de la parole . ln: Exegese et Herméneutique. Paris, Seuil,
17- Cf. Id. Tempo e ser. ln: ibid, p.466sq. 1971, p . 348. _
18- Id. Commê au ,iour de fête. ln: Approche de Hoelderlin; p.81. 43- HEIDEGGER, Martin. Sobre o 'humanismo'. ln: Os Pensadores,
~ ,
82 83
p.366. 60- Id . Wissenschaft und Besinnung. ln: Vortraege und Aufsaetze
44- Id. Que é metafísica? p.47. p. 55 .
45- Id . Sein und Zeit, p . 85. 61- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p . 57 e 70.
46- Id. Sobre a essência da verdade, p.32, 32-33. 62- O termo "sentido", por nós mencionado desde o início deste
47- Id . Tempo e ser. ln : Os Pensadores, p.457sq. 1 i vro, tem uma grande importânc ia quando se cons idera que: " . ..
48- Cf . SCHUERMANN, Reiner. Le principe de l'anarchie; Heidegger sentido é aquilo no que se fundamenta a compreensibilidade de
et la question de l'agir. Paris , Seuil, 1982. 384 p . Collection algo, sem apresentar-se, ele mesmo, expressa ou tematicamente" .
l'ordre philosophique. Esse pensar, denominado "a-nárquico", re- Id. Sein und Zeit, p.35 . Nesse quadro, ao sentido do Ser se tem
cebe uma outra designação que não pode ser menosprezada. Para acesso por meio da Arte Poemática, que superou os arkhai metafí-
melhor explicitá-la, convém que citemos o texto heideggeriano sico-estéticos, Arte originária e a-temática, porque poética.
que lhe serve de sustentáculo. " . . . a arkhé torna-se aquilo que é 63- Nesse contexto, Heidegger recoloca, em termos mais próprios
expresso pelo verbo arkhein, o que impera". Citando o "espanto" o conteúdo da História da Filosofia e da "História da Arte Oci~
como arkhé, Heidegger o refere: "( àquilo de onde nasce' o filo- dental", guiadas pelo sentido do Ser. Cf. Id . Der Ursprung des
sofar e que constantemente determina sua marcha)". HEIDEGGER, Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.61 (Poema), p. 25 e 67 (História
Martin. Que é isto - a filosofia?, p.36. Nesse prisma, Kelkel da Arte).
define o pensar construído após a Kehre,como "archeologia", por-
que se move continuamente na busca do "logos do arché". Cf. KEL-
KEL, Arion L. La légende de I' être; langage et poésie chez Hei-
degger. Paris, Vrin, 1980, p.540 . Histoire de Philosophie. Se a
reflexão heideggeriana se constitui pela busca do que originari-
amente perpassa a todo o pensar do Ser -- e que foi esquecido
apos a época grega--,essa reflexão já superou a todos os arkhai,
pois se constróí na medida em que ouve ao Ser. como LÓgos. Por
este motivo, decidimos nomeá-la como "a-nárquica", posto que es-
te termo ressalta, a nosso ver, com mais ênfase, a constituição
de um p·rocesso de resgate daquilo que é precursor: do sentido do
Ser contido no Lógos.
49- A Técnica será aqui brevemente enfocada, posto que este tema
será aprofundado no capítulo IV deste livro, em sua vincula-
ção com a Arte Poemática. Este é o motivo pelo qual invertemos
as des-truições heideggerianas, abordando a re-dimensão da Téc-
nica anteriormente à da Estética.
50- HEIDEGGER, Martin. Que é metafísica? p.52.
5'1- Cf. VON HERMANN, Friedrich-Wilhelm. Heideggers Philosophie
der Kunst; eine systematische Interpretation der Holzwege-A-
bhandlung "Der Ursprung des Kunstwerkes". Frankfurt/Main, Vitto-
rio Klostermann, 1980. 382p.
52- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwe-
ge, p.l.
53- Sobre a possibilidade de superação da subjetividade em um
gensar anterior às dicotomias, como n~ época grega, Heidegger
escreve: "Mas o homem pode, numa meditação preparatória, pensar
que o ser-sujeito do .homem não foi nem nunca será a única possi-
bilidade de futurização do homem histórico". Id. Die Zeit des
Weltbildes. ln: ibid., p. 109 .
54- Id. Sein und Zeit, p. 42.
55- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.9.
56- Itl. Nietzsche I, : p. 78.
57- Id. Introdução à metafísica, p. 156-157.
58- POEGGELER, Otto. La pensée de Heidegger; un cheminement vers
I' être, p. 314.
59- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln Holzwe-
ge, p.53. "I

84 85
SEGUNDA PARTE

A ARTE: UMA EXALTAÇÃO DO POÉTICO COMO O VERDADEIRO

Capítulo IV

Linguagem, Poema e Arte

o objetivo de Martin Heidegger -- apos a des-truição da me-


tafisica -~ ~ a busca da essincia da Poesia na Linguagem, par-
tindo da historicidade do estar-ai. Heidegger se questiona sobte
a Linguagem dos pensadores e dos poetas, guiado pelo sentido do
Ser ' e atento ao seu abandono. Detectando o abismo que se abre
entre estes dois tipos de expressão, dirige-se especialmente à
Poesia, caracterizando-a por meio das concepções epocais do Ser.
Os poetas tim sido menosprezados, o que pode ser visto pelo
lugar por eles ocupado, que se caracteriza como situar-se fora
de, sendo que, no caso concreto de Platão,este outro lado ~ o que
está al~m dos limites da Polis. A questão po~tica ~, assim, uma
explosão dos limites epocais . t abandonada pela Met~fisica,
pois não se enquadra na circunscrição lógica, isto · ~, não se
fundamenta na racionalidade. t descartada pela Ciincia e pela
T~cnica, por não estar estabelecida nos crit~rios da objetivi-
dade. Os preconceitos contra o dizer poético o identificam com
um passatempo inútil, irracional e, portanto, irrelevante . Loca-
lizadas no âmbito da fragmentação, a Metafisica , e a T~cnica
abandonam o mist~rio po~tico, bem como a sua vinculação ao Ser .
Heidegger, pensando mais profundamente a'herança destas'~­
pocas, investe contra elas, superando as suas dicotomias . Razão,
fundamento, subjetividade, objetividade, pensar e poetar não são
dominios estanques, mas fazem parte do processo em que se desdo-
bra o Ser. .
O Ser, como dissemos no capitulo anterior, ~ o "sem-funda-
mento" que, mediante sua História, origina a Poesia. Poetar ~
relacionar-se cpm o Ser, assumir a relação. O caminho para a
vinculação entre poetar e Ser dá-se por interm~dio da recupera-
ção dos gregos pr~-socráticos, isto é, da ~poca onde o essen-
cial se manifesta . Rompendo com a noção aristot~lica de "causa-
lidade" enquanto "operar e efetuar"(l), Heidegger retoma a cau-
salidade grega como Poiesis. Detendo-se mais especificamente no
Lógos de Heráclito, na identificação do Ser com o ser-dito,
acede à Linguagem que atende à Linguagem essencial do Ser. A Po-
" esia, colocando-se à esc uta do s i lincio -- preparatório para

87
acolhe: o Ser --, é produção de sentido, Techne. Enquanto Poie- intermédio de seu atributo ontológico, e em sua inautenticidade
sis, e " ... este desvelamento que penetra e rege toda arte do -- enquanto frutos da era atual de representação tecnológica no
belo: a poesia, a coisa poética" .( 2) seio da qual o essencial se oculta. O fundamento dessas duas
No apogeu da época grega, Techne e Poiesis procedem da Phy- colocações vincula-se estreitamente ao fazer-se temporal do
sis, da A-létheia: preservam a Verdade do Ser, a unidade, lu- estar-aí e ao Poema.
tam contr a o ve lament o. Ato disponível e livre, o poetar é a A Língua, segundo o uso corrente, se refere ao conjunto de
pres entação do que se pre-s-enta, do Ser . O poetar é o manter-se palavras usadas por um povo . Ontologicamente , a Língua é um com-
no contex to r efere ncial do des-velado. A Poesia é, assim, ' o ele- promisso do estar-aí c om o Ser , perdido no decorrer da Filoso-
mento fundamental que car acteriza a destinação do Ser e seu aco- fia. Neste contexto, Heidegger volta sua atenção ao esquecimento
lhimento pelo estar-aí, no encontro origi nário de ambos. do Ser -- a estrutura mesma que serve como suporte das Línguas
Atentos a esse caráter da harmonia grega, preservado pela que sucederam a grega.
Poesia e pelo Poema(3), poderemos explicitar mais detalhadamente
o seu significado no âmbito do pensar heideggeriano. Posicionan- "Se n6s agora ou mais tarde prestamos atenção ~s palavras da
d o- se contra a postura técnica de fabricação para o consumo, de língua grega , penetramos numa esfera privilegiada. Lentamente
utilidade, Heidegger escreve: vislumbramos em nossa reflexão que a língua grega não j uma sim-
ples língua como as europjias que conhecemos. A língua grega, e
"Mas o Poema não j nenhuma vagabundagem do espírito inven- somente ela, j 15gos-. "Se escutarmos de maneira grega uma pala-
tando, por toda a parte, o que lhe apraz; não j um abandono da ;ra grega, então seguimos o seu légein, o que expõe sem inter-
representação e da imaginação tendendo ao irreal".(4) mediários. O que ela expõe j o que está aí diante de nós. Pela
palavra grega verdadeiramente ouvida de maneira grega, estamos
O poematizar não pertence à esfera da fantasia, do deva- imediatamente em presença da coisa mesma, aí diante de nós, e
neio , do ilusório, do banal . Isso porque, se postulamos o real não primeiro apenas diante de uma simples significação verbal".
como o que existe de fato, como aquilo que uma coisa é -- indi- (6)
cando, com isso, o seu Ser --, o Poema se insere no real. Contu-
do, se afastarmos o irreal do ilusório e o transferirmos àquilo A Língua grega pronuncia a união do estar-aí com a totali-
que ultrapassa o ente -- real para os sentidos, no cotidiano --, dade do Ser e a expressa no Lógos, na harmonia que nomeando
então o Poema é também i-real. Ele escapa ao cotidiano na medida (7) o que se des-vela o des-oculta na palavra . Retomando o dizer
em que o penetra e nele se aprofunda, na tentativa incansável de de Heráclito, Heidegger nos mostra que os gregos estavam atentos
dei xar que o ser apareça, de instituí-lo na p~lavra. O Poema e, ao fato que a Língua é, também, uma modalidade do afastamento do
assim, re-velação que transcende a esfera do superficial rumo ao Ser .
profundo.
O Poema, enquanto inclinação ao Ser, tem o seu fundamento "Sar.a j o conceito oposto ao 15g05: o simples amontoado
na ec-sistência. O estar-aí vem a ser mais Homem poematizando . frente ao que se sustjm em sua consistência; o entulho frente ~
Este relacionamento é uma con-vocação na qual estar-aí e Ser, unidade de reunião, o ~nti-ser (UN-sein) frente ao Ser".(8)
simultaneamente, cuidam um do outro, preparam-se para assumir as
suas funções. O estar-aí só poematiza, porque foi instaurado co- Nossas Línguas ,ex-põem muito mais o Sarma, posto que esque-
mo o lugar propício ao advento daquilo que se clareia, na Lin- cem o Ser . Este fato repousa em um uso indevido do termo LÓ-
guagem. Heidegger expressa esta requisição do Ser, dizendo: g05, desprovido 'do conteúdo ao qual remetia na época pré-socra-
"Deste, o homem é poema começado" . (5) tica. Rompendo com a totalidàde da Physis o Homem, enquanto su-
O estar-aí é um poema que poetiza considerando-se que atin- jeito, elabora -- como foi dito no capítulo II deste livro
ge o nível de des-coberta e comunicação do Ser. Tentando eluci- juízos de ,valor sobre o real. O Lógos, enquanto sinônimo da ra-
dar o significado do Poema, fizemos uma alusão à Linguagem. Mas cionalidade-representativa, estabelece, por intermédio da Lógi-
isto não aconteceu por acaso. O Poema se constitui de palavras e ca, as regras às quais a Língua se adapta para ser verossímel.
o próprio Ser, ao des-velar-se, o faz por meio da palavra, vindo
a incorporá-la de tal maneira que dela não se distingue . É,pois, "Todavia, somente Aristóteles dá uma interpretação metafí-
necessário que especifiquemos a abordagem heideggeriana da Lín- sica mais clara do logos no sentido da proposição enunciativa",
gua e da Linguagem -- em sua distinção e igualdade --, para es- "Essa concepção da Essencialização do logos tornou-se padrão e
tabelecermos um parale~o entre elas e o Poema . norma para a constituiç~o posterior da 16gica e da gramática".
Corno Língua e Linguagem são expressões fundamentais do ser- (9)
humano, ambas se inserem nas épocas de concepção do Ser. Dp.ssa
forma, podem aproximar-se ou distanciar-se da re-velação e do Refletindo sobre a Língua, Heidegger novamente está diante
simbólico, que as especificam enquanto tais. Nosso objetivo será da Lógica. Denuncia, então, os perigos da "linguística", da "se-
o de apresentá-las circularmente, ~m sua autenticidade -- por mântica" e da "gramática"([O) que enclausuram o Ser em um signo,
";
88 89
buscando a mudança de seu significado nas frases. A Língua tor- te, trazer à palavra a experlencia do estar-aí como ser-na-Mun-
na-se cada vez mais inautêntica na medida mesma e~ que reduz ,o do, em sua historicidade. Neste contexto, o discurso se atualiza
Ser a uma "significação verbal"(ll), tomando-o como o "conceito temporalmente e a hermenêutica heideggeriana privilegia o senti-
'mais geral"', "indefinível" e "evidente"(12). Estas noções que do contido nas palavras que des-velam o momento mesmo da irrup-
ontifi:am o Ser ,não têm acesso ao que é a Língua,nem a sua tran- ção do Ser.
sição a palavra que ocorre na Linguagem. Isto porque enquanto se A faculdade de falar e exclusiva do estar-aí, que se dife-
define a Língua como uma atividade subjetiva, presupõe-se o seu re, justamente pela fala , dos demais entes. Já em Sein und Zeit
fechamento em um sistema conceituaI que remete os signos uns aos Heidegger havia captado a sua importância, descrevendo-a como um
outros e os descreve no interior de um sistema inalterado de dos existenciais constitutivos do estar-aí enquanto ser-no-Mun-
frases. A Língua torna-se, então, uma ' atividade de um sujeito do. Vinculado à compreensão -- ~nterior a todo e qualquer conhe-
anonimo posto que, em seu âmbito, não se pergunta pelo ser cimento teórico-metafísico do ente -- e como ela instaurado pelo
daquele que fala --, sem tempo, sem Mundo, sem relação com o des-velamento do Ser, está o discurso(17). O discurso é o ali-
Ser. cerce da Linguagem: a expressão do sentimento da situação -- de
"Não há língua natural no sentido onde ela seria a palavra quem é o estar-aí enquanto tal -- e de sua união com o Ser. As-
de uma natureza humana sem destino, a-histórica e dado racional sumindo compreensivamente suas possibilidades de ser e tornando-
em si".(13) se responsável por elas, o estar-aí pode pronunciar-se, bem como
A Língua, reduzida ao alfabeto, à sintaxe e à gramatica é o Mundo no 'qual ele é.
um instrumento, uma dissociação do sentido verbal e da intenção O discurso é sempre re-velação de um sentido do Ser e do
mental que põe em risco o advento da Linguagem, posto que o Ser existir deste ente que se constitui falando. A grande novidade
e o ser-dito afastam-se um do outro das regras gramaticais. na abordagem heideggeri~na do discurso está nos caminhos que o
conduzem à Linguagem. O primeiro momento é a Ursprache, o dizer
"~na '16gica' deste 16gos que a gramjtica obt~m seu silencioso do Ser ou Linguagem originária, que é a fonte de
fundamento. Mas esta 16gica se funda ela mesma sobre a ontologia todo o falar humano. O segundo é o discurso, composto pelo ouvir
do ente subsistente". "Liberar a gramjtica da 16gica reclama paciente e acolhedor da mensagem proferida pelo Ser, no silên-
primeiro uma compreensão positiva da estrutura essencial e apri- cio. O terceiro é o falar ou a Linguagem humana, que nada mais e
orística do discurso em geral, tomado como um exi~tencial ... ". do que o discurso pronunciado, a resposta de adesão ao Ser. As-
( 14) sim se constitui a Linguagem essencial ou autêntica.
Diante desse quadro, Heidegger se questiona sobre a cisão
O discurso e um diálogo, e a int~:ação de duas pessoas que de cada um destes três momentos -- Ursprache, discursd e fala
expressam a sua temporalidade, a experlencia de seu ser-no-Mun- que compromete a Linguagem e a Língua. Na época atual, o
do, a abertura ao Ser. O discurso é a possibilidade de transição Homem não tem paciência de esperar que o Ser se enderece a ele,
ao plano "metafórico e simbólico da Língua" (lS), isto é, à Lin- para semear, cultivar e deixar brotar a fala. Contrariamente a
guagem enquanto acontecimento da palavra proveniente do Ser. Pa- este processo, que é lento, temos pressa, queremos falar mais e
ra situar a Língua no local a que pertence, é necessário que mais (18), sem interesse no conte~do proferido. Já não se aceita
inicialmente a libertemos da Lógica. o Ser, nem o seu des-velar-se como possibilidades da Linguagem.
Por outro lado, identificando o dizer com a Língua e restringin-
"Superação da L6gica tradicional não significa abrogar o do-a às estruturas gramaticais ou a uma função biológica do su-
pensar e instituir o domínio do sentimento puro. Significa um jeito(19), o Homem se aparta mais e mais do sentido que lhe foi
pensar mais originirio, mais rigoroso, pertencente ao Ser".(16) confiado para ser pronunciado.
A Linguagem testemunha esta decaída por meio dos três mo-
O caminho que conduz Heidegger a esta superação e a grande mentos que a articulam, substituindo em seu vazio, a dimensão do
conquista de Sein und Zeit, a descoberta do estar-aí como ser- ontológico. O"palavreado" é o falar por falar, o falar à toa,
no-Mundo que, em sua práxis, compreende o essencial. Assim, e que encobre o sentido dos entes em vez de des-ocultá-Ios. A
necessário sair da tr~lha que conduz à ruptura em meio à qual a "curiosidade" é a tendência a procurar novidade para preencher o
coisa, ou seja, o ente subsistente é considerado como estável, e vazio gerado pela falta da individualidade. O "equívoco" é o
o Ser é definido como substância . Este é um novo prisma no qual manter-se em meio às aparências onde as respostas para tudo já
o conhecimento filosófico se impõe como a teoria que domina os estão previamente dadas. Esta Linguagem cotidiana fala fora da
entes, que se distanc~a do significativo, da re-velação priori- presença e do relacionar-se com o essencial, que é abandonado na
tária 'do Ser . Quando ' o Mundo se torna objeto da apreensão inte- época atual, pela Técnica.
lectual do sujeito, a Linguagem perde o seu poder de mostrar a As consequências da dominação e da subjetividade na Lingua-
unidade constitutiva do real. A Linguagem se esvazia, restrita gem do estar-aí -- não mais um poema do Ser -- são expressas por
ao âmbito da apreensão e dos conceitos. A Linguagem é a expres- Heidegger nos seguintes termos:
são da finitude humana, posto que a ela compete, primordialmen-
It;
90 91
"O homem comporta-se como se fosse o criador e senhor da
linguagem, ao passo que é esta, ao contrário, que é e permanece origem, de tal modo que ela tenha vigor e fecundidade.".(23)
sua soberana. Quando esta relação de soberania se inverte, es-
tranhas maquina ções vê m ao espírito do homem. A linguagem torna- A função da Língua e da Linguagem e, assim, a de preservar ,
se um meio de expressão. Enquanto expressão, a ling uagem pode no sentido de cuidar, proteger e zelar pela ~ensagem que o Ser
cair no nível de um simples meio de pressão".(20) lhe endereça. Em sua autenticidade, elas sao o testemunho da
aceitação humana do Ser. Nisso reside a sua riqueza : ~m encami-
Ness e sentido, a Linguagem reduz-se à representação do pen- nhar o des -ve lado à manifestação-protetora. O Poema e a exalta-
samento, impessoal de "todo-o-mundo", perdendo a sua importância ção que aguarda o brilho ' do Ser para, então, configurá-lo , sem
no que e dito. O manifesto, não admitindo r é plicas, é válido pa- confiná-lo, em um termo .
ra todos . Os meios de comuni c ação veicuiam . fórmulas persuasivas "O Poema é a fábula da eclosão do ente". ( ... )
para um falar repetitivo . A Linguagem e também a Arte são obje- " e justamente ela, a Língua, que faz o ente enquanto
tos mecânicos, reduzidos à sua utilidade, isto é , a de inteirar ente acontecer no aberto". (24)
o Homem do que se tornou p~blico. são fórmulas e formas para Permitindo que o ente apareça por intermédio de seu dizer,
subjugar os homens. Língua, Linguagem e Poema identificam-se na simplicidade que
pronuncia o que simplesmente se anuncia. são mensageiras do des-
"A cibernética transforma a linguagem num simples meio de velado, da Ursprache .
troca de mensagens. As artes tornam-se instrumentos controlados
e controladores da informação". (21) "A lfngua mesma é Poema no sentido essencial. Ora, a lfngua
é o advento onde, para o homem, o ente enquanto ente se revela
Devolver ao Homem a sua dimensão simbólica, implica em uma como tal' eis aí a razão pela qual a poesia, o Poema no sentido
re-dimensão da Língua como LÓgos, a fim de que volte ao âmbito restrito: é o Poema mais original no sentido própriO. A lfngua
do Ser . Para que isso seja viável, é necessário que elaboremos não é, pois, Poema porque ela é poesia primordial (Urspoesie)
uma reflexão crítica sobre os pressupostos da sociedade tecnoló- ao contrário, é a poesia que advém a si mesma na lfngua porque é
gica e sobre os riscos que nela corremos, enquanto distamos do esta que guarda em si a essência original do Poema".(2S)
ontológico .
Com? a Língu~ é o horizonte da linguagem poética, Heidegger
"Quando o homem fala . .. ele só fala após ter consentido em busca um acesso a Poesia por intermédio de Friedrich Hoelderlin
ouvir a Língua. Mesmo não saber entender a Língua é uma forma de (26) , considerado como " ... 0 poeta ... do. poeta ... ",.posto
,que ele
,,
escuta. O homem fala a partir da Língua à qual consagra seu ser. " .~ . poematiza expressamente a essenC1a da poes1a em S1 mesma.
Nós denominamos esta Língua: a Língua maternal. Considerando o (27) A importância de Hoelderlin reside no dado fundamental des-
fato que a Língua desenvolvida historicamente é Língua maternal, cerrado por seu dizer: ele capta o destino do Ser ,em seu ~sque­
nos podemos dizer: Na verdade, é a Língua que fala e não o ho- cimento, e pressente este perigo antes que a Metaf1sica.p:e~tas­
.e •. O ho.e. fala na .edida e. que cD-responde à Língua". (22) se atenção a ele. Em Hoelderlin, Heidegger capta a poss1b1l1dade
do início de uma nova época do Ser -- visada pel~ seu pensa:
A palavra é o horizonte no qual o Homem pode tanto fixar-se desde Sein und Zeit--,em meio à qual a linguagem poetica ocupara
em meio ao aparente, quanto transcender na direção da totalidade um lugar privilegiado . Daí a referência ao seu nome como modelo
. do Ser, isto é, no aberto Mundo. Seu ec-sistir faz-se histórico, daqueles que desdobram seu ser como poetas, como poemas em
posto que, por sua palavra atesta o penetrar e o pertencer ao processo.
des-velado . A des-truição da Técnica pode ser aqui engendrada a Respeitando profundamente a Natureza e refletindo sobre o
partir de um dizer voltado para as suas origens, relacionado momento no qual se situa, Hoelderlin retrata a relevância e a
com o Ser. Este dizer traz em si a harmonia e unidade da época pureza da mensagem poética que acata, sem alterar, a Verdade que
pr~-socrática, preservando o mistério de tudo o que é, por ser o Ser lhe endereça.
poetico.
H:idegger ouve o dizer poético de Hebel que, atento à Phy- "Vasos sagrados são os poetas,
sis, a ameaça do cotidiano e da Técnica ao dizer, às possibili- Onde o vinho da vida, ' o espírito
dades do ser humano, restaura na Língua o poder da Linguagem . aos heróis se conserva;

"O ' que encobre, o 'que salvaguarda o espírito de uma verda-


deira lfngua? Ela conserva em si, inaparentes, mas fundamentais, O espírito deste jovem, porém,
as relações a Deus, ao mundo, aos homens, às suas obras, aos Tão rápida, como não quebraria,
seus feitos e gestos . ' O que salvaguarda o espírito da língua, é Se o quisesse prende ~, o vaso?
esta alta e soberana onipresença, de onde cada coisa tira a sua
"'I
92 93
Que o poeta o deixe intacto como o espírito da Natureza; A persistência em um unico aspecto do real, também nomeada
Ante assunto assim faz-se menino o mestre. como ' ''falta dos deuses"(32), não acena a um fechamento total, à
perdição da Huma~idade. Pelo contrário, ela po~e.ser supe:ada,
No poema não pode ele viver e ficar; com muita persistencia, pelo poeta. E em s:u aux1llo s: man1fes-
Vive e fica no mundo".(28) ta o "Sagrado"(33), que, ontologicamente, e uma dimensao do des-
velamento o colocar-se a caminho do Ser. Neste contexto, Hoel-
O poeta, enquanto Homem, é no Mundo, na medida· em que assu- derlin a~uncia a Festa -- título de um de seus poemas (34) --,
me os traços fundamentais de uma era à qual pertence, tendo por como a situação-limite de uma era rumo ao ontológico, na busca
missão penetrá-la, meditando. Hoelderlin, visando a preservação de seu equilíbrio originário. Para Hoelderlin, diferentemente do
da harmonia pré-socrática do Homem com a Physis enquanto homem mítico, não é a comunidade como um todo que a oficia, mas
gênese de tudo o que é --, tenta recuperá-la em seus poemas, pa- um de seus representantes, eleito como espec~al: o poeta. O poe-
ra re-conduzir os homens ao originário do qual se distanciaram. ta se institui como tal quando re-ata os vlnculos entre os ho-
A partir do encontro com Hoelderlin, a problemática heideggeria- mens e os deuses, o que é celebrado na Festa. (35)
na concernente à questão do velamento e do des-velamento, é
assinalada pela influência do poeta -- como poderemos constatar "A Festa, este dom primordial que o Sagradq no~ destina~
nas colocações que faremos nesta sequência. Isto porque, Heideg- permanece a origem de todos os acontecimentos, isto e, da histo-
ger capta em seu poetar o próprio conteúdo de um pensar pós-me- ria. Mas, se a Festa é a origem essencial da história de uma_hu-
tafísico sobre o Ser, que prepara o caminho para a ocasião pro- manidade e se o poeta é ele mesmo um produto da Festa, entao o
pícia de seu pre-s-entar-se. poeta se torna o fundador de uma história da humanidade".(36)
Após o desabrochar do Ser que, por intermédio de seu
brilho, instaurou o princ1plo do pensar e da vida, ou seja, a
"Manhã do Mundo" -- a Filosofia se instaurou como o ocaso. É o
o poeta é, assim, a passagem da Noite do Mundo para,sua Ma-
nhã. É o marco que consagra, por seu dizer, uma nova epo'c a na
"Crepúsculo" de uma era de mudanças abruptas, que culminou na qual o destinar-se do essencial se mantém. Aberto ao Ser e bus-
Técnica, no adormec imento do Homem, na "No i te do Mundo". A cando captá-lo o estar-aí é historial, isto é, está em vincula-
"Noite do Mundo" é uma metáfora usada por Hoelderlin para desig- ção hermenêutica com o des-velado, atento ~o seu mistério no
nar o destino de uma Civilização que vive em uma época histórica velamento. Por intermédio do poeta, estar-al e Ser recuperam o
centrada sobre si mesma. Descartando aquilo que ultrapassa o do- que lhes é mais próprio: a disponibilidade para a entrega, a
mínio da subjetividade, os homens estão entregues a sua própria originária harmonia de seu relacionamento.
sorte. Distantes do referencial que a eles se furta, perambulam Ao superar o comodismo -- a atitude cotidiana que aparta o
incertos de seu rumo, confinados. Homem de olhar as coisas que o circundam --, o poeta tem a cora-
gem de ser. Não tendo medo de expor-se, arremessa-se rumo ao
"O tempo da noite do mundo é o tempo da indigincia, porque Ser. Com isso ele nada perde, pois conquista o espaço no qual o
ele se torna mais e mais estreito. Ele se torna tão estreito que estar-aí ressurge em todo o seu vigor transcendente. Este e jus-
não é nem mesmo capaz de perceber, de reter a falta de deus como tamente o caráter revolucionário por ele ostentado e que faz do
falta. poeta alguém sempre fora do já estabelecido.
Com esta falta é a essincia do mundo, seu fundamento mesmo O poeta, voltando-se como os pré-socratlcos, ao mistério do
que faz falta. Abismo (Abgrund) significa originalmente o solo e ente-sendo, habita a Linguagem da essência, a Ursprache.
o fundo a que tende o que esti suspenso i beira do precipício".
(29) "Pensando a partir do templo do ser, podemos presumir aqui-
lo que ousam aqueles cuja ousadia vai além do ser dos entes.
A Noite do Mundo designa, assim, o fechamento do estar-aí Eles ousam a circunscrição do ser. Eles se aventuram com a lin-
ao des-velado, ao aberto, ao Mundo.'Este fechamento é o espaço guagem"; (37)
da Terra, no qual os homens, que perderam o seu habitar, se en-
quadram. A ausência da ' busca do sentido do Ser e a manipulação Esta aventura consiste na restauração do que foi deixado de
do ente enquanto objeto disponível expressam uma modalidade do lado em nossa época: do Sagrado, do divino dos deuses e do Ser.
afastamento da Verdade do Ser, que Heidegger denomina "não-ver- Agindo assim, o poeta será a clareira, o mensageiro do Ser e ~o
dade", "errância". (30) divino aos outros homens a fim de que sejam salvos, isto e,
"Este vaivém do homem no qual ele se afasta do mistério e encontrem o caminho que 'os retira das incertezas em que estão
se dirige para a realidade corrente, corre de um objeto da vida mergulhados. (38)
cotidiana para outro, desviando-se do mistério, é o errar. (31)
"Os que arriscam mais fazem a perdição do ser sem abrigo
transformar-se em salvaçãQ da existincia mundial. t esta que
deve ser dita". "Em semelhante canto,o espaço íntimo do mundo se

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ser feliz uma coisa, inocente e nossa ... "
estabelece ele próprio em s ua espaciosidade. O c anto destes can-
"E estas coisas
t ores nada ambi c iona; n~o i uma profiss~0".(39 ) que vivem o fugaz, compreendem que teces o se u l ouvo r ;
efêmeras, adivinham salvadores em nós, os mais efêmeros.
Arriscando-se o poeta a s sume o embate da Dike e da Techne Que em nossos corações invisíveis se cump r a a sua
c omo foi enfoc ado no capítulo I desse livro, ao abordarmos a metamorfose infinitamente -- quem quer que se j amos!"(4 1)
Tragédia -~, atinge o Ser como o :stranho, perdendo o seu lugar
segur o em meio ao e nte. O poeta e aquele que se aventura no Ser Tra nsformar a Terra em Mundo: eis a sa l v a ção. O Homem er -
e pelo Ser . rante é reconduzido ao seu lugar originário, ao seu ser - de - rela -
É justame~te po r s ~ a disponibilidade ao Ser que o poeta, ção com o Ser. Nele, o Pensador e os dois poetas se i r manam.
em sua e c-sistencia histori c a, dignifica a historicidade como o Hoelderlin, ass umindo o bi nômio grego "es tr a nh o- f amili ar ", pr o-
âmbito de encontro do estar-aí como o des-velad o . Assim feste- põe um "Retorno"(42) do Homem ao familiar, id ên ti co à Ter r a Na -
ja-se o poeta, celebra-se o Ser, bem como a nova destinação da tal, ao Ser enquanto pát r ia . Heidegger também denomi n a o Ser co -
humanidade que escuta o seu apelo, que respondendo ao seu canto mo pátria. E esta pátria, como disse Rilke, ma ntém suas r aízes
abre-se ao aberto do Mundo. Esta foi a postura de Rainer Maria no so l o fértil da l ing uagem poét i ca - - li nguage m que é " te mpl o
Rilke . O objetivo de Rilke diante da visão planificadora -- vol- do se r" e região do esta r- aí, que habita a " c a sa " d a palav r a e
tada pa:a o ente -- da Metafísica e da Técnica, reside na busca
da total~dade. Esta totalidade é o elemento espe c ífico do Mundo do Mun do .
"A pát r ia deste mo rar hi s t o ri al e a pr oxi mid a de d o se r",
(perdido, pela época atual) --,a unidade mítico-precursora, na "A a p a t ri d ade que as s im deve se r pe n s ad a r es id e no aba n-
qual o ceu e a terra, o estar-a~, enquanto mortal e a divindade
sacral instituem-se na abertura poética. supera~-se assim as dono on tológ i co do en t e. Ela é o s in a l do es qu ec i me nt o do se r" .
dicotomias filosóficas que separam o sujeito do objet~ , a r~zão (43)
do sentlmento, o pensar do poetar, enfim, as superfícies que en-
cobrem o real impenetrado.
A História da civilização contemporânea não se erige na
c~nt~n~idade, mas na des-continuidade, assinalada pela perda do
slmbollco. Expressar o s~mbolismo da Linguagem, re-articulando o
mem, a s s eg ur a ndo -lh e o seu ec - sis tir, i s t o é, a
Mundo enquanto Physis, e liberar o estar-aí e o Ser, é superar
do Home m ao es t a r- a í e do ente a o Se r . É a
a perda da Verdade. Ora, como o símbolo é o invisível o não-
an unc ia . Para a cede r à sa l vação é n ecessá ri o qu e
acessível sensorialmente, ele contém o remetimento ao Mu~do en-
quanto lugar onde nada é anulado. A Linguagem somente nomeará ' qu e e st á s e ndo ameaçado.
À Técnica pertence o "Arr azoamento " (Gestelll (44) : no
quando transcender a esfera do visível, do manipulável, do objeti-
vamente dado ou posto pelo Homem, que des-enraiza o essencial em âmb i to de seu fazer, a r azão visa a dominar a Na t ureza. A Na tu-
r eza , e nqua nt o ente , de i x a- se ex t enuar e esse jogo retrata o pe ~
meio aos procedimentos lógicos . Dessa maneira, o símbolo~ inte-
r igo des s a era i ndigen t e: em nã o pe r ceber o conf r onto , em n ã o
grado com a alegoria, permite o acesso ao todo isto é à sal-
v aç~o . Nela o envolvente é o Ser que se envia. E'aquele ~ue foi ouvir a mens a gem que o Se r l h e end e r eça .
deslgnado para executar esta tarefa salvífica é para Rilke o
"Anjo". ' , " Pel a representaç~o da tot al idade do unive r so ticnico r e du z-
se tudo ao homem e c heg a- se , quando muito , a r eivindicar uma i-
O Anjo é aquele que estabelece a unidade entre o des-vela-
tica para o universo da Ticn i ca . Cat i vos desta representaç ã o,
mento e o velamento, o presente e o ausente(40) . Ele auxilia o
conf irm amo - nos na convicçio de que a Ticnica i um negóc i o do ho -
Homem a vislumbrar os elementos por meio dos quais o Ser o visi-
me m. Passa - se po r alto o ape l o do ser, que fala na essência da
ta. O Anjo é, assim, o transcendente, aquele que anuncia a men-
s agem.do divino aos homens, ao mesmo tempo que os protege. Ele é ric ni ca". (45)
o sinonimo da redenção e apela ao poeta, em seu canto, para vi- O qu e ameaça o Homem em seu ser, e a Técnica. Isto po r que ,
ver o risco de pronunciar o Ser.
como foi d it o na Introduç ã o des t e livro, a Técnica enqua nto
or iu nda d a Me t af í s i ca -- é n iilista , posLu que instaura o va zio
"Eis aqui o tempo do dizível, eis aqui sua pjtria.
do Se r .' Com o esqueciment o da Ve r dade do Ser , o seu env i ar - se --
Fala e proclama. Cada vez mais
ao mo d o d o des - velamen t o --, é encoberto, e nisto r es i de a su -
dissipam-se as coisas que ao nosso lado v i v iam
prema i ndi gência humana : e m não perceber que todo o aglr e no r-
e em seu lugar se instala um Fazer sem Imagem .
t eado pelo a pelo do Se r -- que não deixa de instigar o Homem --,
Fazer, que tenta destruir a crosta limitante".
e não pela von t ade e a ti vid a de de um sujeito que visa à domin a-
"Canta ao Anjo o louvor do mundo, nio o i ndizível" . çao do real .
"Mostra-lhe como pode

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Nesse sentido, recorrendo ao poeta Hoelderlin, Heidegger o pensar que pensa o Ser e que por isso mesmo e grego em
responde positivamente a estas ameaças nos seguintes termos: sua gênese, na medida em que responde ao apelo do des-velado, é
"Mas lá onde está o perigo, lá também poemático, artístico.
Cresce o que salva".(46)
Entre os séculos XVII e XVIII, com o surgimento das maqui- "O pensar do ser i a maneira originjria do poematizar. So-
nas, a Ciência se tornou prática: ela produz . Contrariamente à mente nele, antes de tudo, a linguagem se torna linguagem,
Techne grega, ao :aber que não tem como finalidade produzir, fa- isto i, atinge a sua essência. O pensar diz o ditado da verdade
zer coisas, a Tecnica utiliza o seu conhecimento visando à do ser. O pensar i o dictare originário. O pensar é o poematizar
transformação do real em objeto. A fabricação acelerada para o originjrio que precede toda poesia, mas tambim o elemento poé~i­
consumo tem como finalidade encobrir o vazio essencial do Homem, co da arte, na medida em que esta se torna obra, no seio do am-
instaurado pelo abandono de seus valores e do Ser . bito da linguagem. Todo o poematizar, tanto neste sentido mais
amplo como no sentido mais restrito do poético, é, no fundo, um
"Este circulo de desgaste para o consumo i o ~nico processo pensar. A essência poemática do pensar guarda o imperar da ver-
que caracteriza a hist6ria de um mundo tornado nio-mundo". "A dade do ser".(49)
terra aparece como o nio mundo da errância. Do ponto de vista da
hist6ria do ser, ela i o astro errante".(47) o pensar que será aqui enfocado é o pós-metafísico: o peil-
sarnento que, como nas épocas mítica e grega, escuta o Ser e o
A busca do sentido do Ser, considerado aqui enquanto o es- pronuncia. O pensar e o poetar se irmanam considerando-se que a
sencial, será certamente parte integrante das preocupações da- mesma nascente -- o dizer silencioso do Ser -- os interpela .
queles que superam a Técnica. Poderão, assim, habitar o seu Mun- "O pensar, porém, é o poematizar da verdade do ser, no diá-
do. logo historial dos pensadores" . (50) _
A salvação da época técnica será a meta que norteia a pro- O diálogo que se estabelece entre os pensadores e a busca
posta inovadora de Heidegger, no tocante ao poetar, ao pensar e do Ser considerado enquanto o originário, pre-sente e ausente
à essência da Arte enquanto Ontologia. em sua ~ênese. Contudo, o dizer do pensamento é fruto da refle -
xão, da elaboração: é um voltar-se sobre os seus pressupostos,
"A essência da ticnica nio i nada de técnico' i porque a sobre o já dito, para retomá-los em forma de questionamento. O
reflexio essencial sobre a ticnica e a explicação decisiva com dizer do poeta, por outro lado, é o canto que se constitui em
ele devem ter lugar em um dominio que, de uma parte, tenha pa- evocar, em ex-por o Ser; desse modo, adquire a plenitude de sua
rentesco com a essência da ticnica e, de outra parte, nio seja essência. Entre o pensador e o poeta há, assim, uma divisão, uma
menos profundamente diferente dela. separação necessária ao próprio des-velamento do Ser e que, en-
Um tal dominio é a arte".(48) quanto tal, deve ser considerada."O pensador diz o ser. O poeta
nomeia o sagrado".(5l)
A Arte é um fazer que visa a utilidade, mas uma utilidade Diversificando estes companheiros nas veredas da essência,
diferente, que. remonta à re-velação do oculto, do Ser. Esta Arte notamos que o âmbito do dizer poético é mais amplo e abrangente
que busca a originariedade,devolve ao Homem o seu mais específi- que aquele ao qual o pensador se refere. É, pois, importante
co estar-aí, o seu Mundo. Ela foi uma conquista oferecida ao esclarecer o conte~do específico do dizer e do nomea-:-.'''Dizer'
gregos pré-socráticos pelo Ser. É esta Arte pro-dutora do des- -- sagan -- significa: mostrar, deixar aparecer, dar a ver e a
velamento que poderá conceder à Técnica sua harmonia com o Ser, compreender". (52)
seu crescimento justo, no respeito que acata o ente e acolhe a Pronunciando-se a respeito do Ser, o pensador presenta o
individualidade humana. O fechamento técnico e a abertura artís- pre-s-ente, vindo-a-ser uma interrogação fecunda acerca da~uilo
tica podem, conjuntamente, noticiar o evento que se destina em que, enviando-se, constitui a capacidade humana de reflexao. O
cada era, sem que cotidianamente lhe demos atenção: o Ser. A nomear poético é também uma explicitação da característica es-
esta Arte Heidegger denominará "poemática". . sencial de tudo o que é. Enquanto penetração íntima e aéesso ao
Convém, pois, que explicitemos o sentido da Arte Poemática. mais profundo do Ser, o dizer e o nomear o exaltam na palavra.
Como vimos anteriormente, o Poema é um ato de liberação do mos- A nomeação poética foi por nós caracterizada como salvação,
trar-se do Ser. Dele fazem parte o pensar que reflete sobre o que deixa surgir o Mundo e o Ser, por meio da mediação do Sagra-
essencial, a Poesia e a Arte (conquanto permitem o aparecimento do, do Anjo e dos deuses. Ela reconcilia, percorre as trilhas
do Ser). Todas são Poemas, pois este é o solo onde se abre o es- que conduzem ao resgate do Ser e de sua vinculação ao estar -aí.
paço do Mundo, a comú'nhão com o Ser, os deuses e o Sagrado. O
Poema é o abrigo preservador do essencial, da A-létheia. "O poeta nomeia os deuses e todas as coisas naquilo que
Para que se clareie a retevância do Poema, convém que mos- elas são. Esta nomeaçio não consiste em prover simplesmente de
tremos sua vinculação com o pensar, o poetar e a Arte enquanto um nome uma coisa que anteriormente jj teria sido bem conhecida;
projetos salvíficos, instaurados na época ontológica. mas, dizendo o poeta a pãlavra essencial, somente então é que o
,
.../

98 99
ente se acha po r esta nomea ção nomeado no que ~, e ~ assim co-
nhecido como ente. A poesia ~ funda ção do ser pela palavra". A Linguagem poética surge como continuidade do dizer mítico
( 53) no qual o Homem, enquanto ser-de -r elação, liga-se à esfera do
Ser, integra nd o-se a ele.
o nomear é, assim, sinônimo de fundar, do ar~aigar-se ao
Ser "sem-fundamento", dele recebend o as diretrizes para o esta- "Aquilo que hi (di - se) nao ~ puramente subsistente; inte -
belecimento do que emerge. O privilégio da Linguagem poética em ressa 'muito antes ao homem. Por causa da relaçio com o homem,
sua capacidade de re-velar o Ser situa-se na vinculação do poeta que jaz na expressio, o 'di-se' (hi) designa, no uso linguístico
com a palavra . Ne la , tanto o Ser quanto a palavra serão re-di- imediato, o ser, de maneira mais clara que o puro 'ser', o ' ~'.
men sion~dos na esfera da pureza em que os pré-socr~ticos se vol - Mas, na linguagem po~tica, mostra-se tamb~m o ' ~', nem sempre e
taram para o essenc ial. Por seu int ermédio se institui o âmbito nem somente no se ntido teor~tico e descolorido da constatação de
da diferença ontológica. uma pura subsistência" .(57 )

"O que mostra a e xperiência po~tica com a palavra quando o A Linguagem poética, re-velando o Ser como o que se presen-
pen sar pensa sua continuidade?" "Ela mostra qualquer coisa que ta, como o qu e d~-se, como o que conduz o ente à manifestação,
h i, e que, po rtanto, não '~"'.(54) toca a A-létheia, retrata o Ser em sua Verdade. Não é este o
objetivo a ser alcançado por todo o pensar e por toda a Arte que
Por meio do dizer poético, Heidegger refletir~ sobre a 1m- se voltam para o Se r ? O pensar, o poetar e a Arte, atentos à A-
propriedade da aplicação do termo" é" ao Ser e à palavra. Esta létheia, são necessariamente cunhados pelo Poema . O Poema: não
impropriedade nos conduz a pensar o Ser em sua anterioridade à mais o in~til -- segu ndo as concepções do senso comum, da Me ta-
Lógica e em sua diferença do ente, Tem aqui lugar, então, a se- física e da Técnica --, mas a ligaçã o com o mistério do Ser ,
guinte questão: até que ponto o Ser poderia não-ser? Isso ocorre nomeado no dizer ou em qualqu e r outra modalidade de expressao
na medida em que ele trans ce nde o mero voc~bulo que designa a por meio da qual a Techne mostra o sentido, do Ser.
tudo que pode ser apreendido pelos sentidos, ao palp~vel, ao en-
te . O ente é espaço-temporal(SS), O Ser não aparece, não e um "A arte, se a examinamos para de scob rir o seu ser , ~ uma
objeto que possa ser encontrado em meio aos outros objetos que consagraç ão e um lugar seguro onde, de uma maneira sempre nova,
estão no Mundo. O Ser est~ além do lugar e do sujeito, O Ser, o re al faz presente ao homem do seu esplendor at~ então oculto,
enquanto aquilo que origina o ente, enquanto essência da qual a fim de que, em semelhante claridade , ele veja mais pu rament e e
ele provém, "não é", El e perm ite que captemos o ente, por ser o compreenda mais distintamente o que se diz ao seu ser",(S8)
dom que dando-se a si mesmo , possibilita a aparição do que e vi-
s í ve 1. Acedemos, juntamente com Heidegger, ao sentido mesmo do Ser
Refletindo sobre o assunto, Heidegger retoma o dizer de e da Arte: ao dar - se e ao Poema. Como a Arte acontece some nte
Parmênides sobre o Ser e o aprofunda, captando em seu fragmento quando se volta para a totalidad, do Ser, ao aberto , ao des-ve -
6 todo o mistério do Ser que ainda est~ à espera de um pensar lado , a Art e ocorre no P0ema. A Arte Poem~tica acolhe a Ve rdade
que o r ecupe re e salve . do Ser, r esponde a ela como na epoca pré-socr~tica. Des-vincula-
da de seu elemento poem~tico a Arte, nas épocas posteriores, es -
"No in visível ' ~, se oc ulta tudo o que deve ser pensado no vaziou-se concomita ntement e ao esvaziamento do es tar-aí e do
ser". Ser. A História deste destin o , foi designada como sendo "Noite",
"Ser nao pode ser . Se fosse (ser), nao mais permaneceria como o que obscu re ce e vela, fornecendo a todas as manifestações
ser, mas ser ia um ente". cu lturais que a compõe o cu nh o da perda.Desabrochandd .. com o Ser,
"TOdavia, nio diz aquele pensador que pela primeira vez a Arte Poem~tica salva , r esgata , fulgura como "Manhã" , Autênti -
pensou o ser , nio diz Parmênides ( Frg.6 ) : esti gar einai, ,~, a ca , esta Arte é o que mai s merece a nossa atenção, nos períodos
saber, ser' -- 'pres enta - se , a saber, presentar-se?'" "Ser -- de transição, de busca.
propriamente: o que di presença".(S6)
" A ess§ncia da arte ~ o Poema, A essincla do Poema, e a
Ao Ser -- enquanto o que se presenta e oculta, isto e, en- instauração da verdade. Esta instauração, tomamo-la aqui em um
quanto A-létheia -- somente podemos ter aces so pela via qu e vin- tríplice sentido: como dom, como fundação e como empresa ",
cula o esta r-aí à destinação epoc al do Ser, O Ser d~-se na Lin- nA Arte é, pois, um devir e um adv ir da verdade". (S9)
guagem, é o Logos cap tad o por He r~clito . E a Linguagem poética,
diferentemente do dizer pensa nte, nomeia o Ser em seu acontecer , Enquanto dom, a Arte pres enta o Ser em se u dar-se, reivin-
em seu dar-se. É, assim, anterior e precursora no tocante a dica e é r eiv~ n~i cada pelo Ser. O dar-se é o destin o do qual é
todo o pensar, sobretudo ao fi losofar-met afísico, oriund o o po emat1 co : a nom~ação do Ser, a fundação por intermé-
dio da qual a Arte ve m-a-ser Techne -- saber comp r eensivo vo lta-

100 101
do para o essencial e para o lugar que o estar-aí nele ocupa. 8- HEIDEGGER, Martin. Intrsdução à Hetaf1sica, p.158.
Esta Arte empreende o Ser no sentido de que, visa à organização 9- Id., ibid., p.86.
do real assumindo seus riscos, convivendo com a dificuldade de 10- Cf. Id. Sein und Zeit, p. 166-167, 167.
express~o e com o v~lamento. Ela é fruto ~e um Tempo e, atenta a 11- Cf. Id. Introdução à Hetaf1sica, p.114.
ela retrata a Historia dos homens de um epoca. 12- Cf. Id. Sein und Zeit, p.3-4.
'''Enquanto instauração, a Arte é essencialmente historial". 13-Id. Der Weg zur Sprache. ln: Unterwegs zur Sprache, p.264.
(60) 14- Id . Sein und Zeit, p. 165-166.
Concluindo, convém ressaltar que nos três primeiros capí- 15-Id. Die Sprache. ln: Unterwegs zur Sprache, p.15.
tulos que compuseram a primeira parte deste livro, nos referimos 16- Id. Introdução à Hetaf1sica, p.148.
à busca empreendida por Heidegger, da origem -- do elemento 17- Cf.Id. Sein und Zeit, p.34.
primordial que gera a obra de arte. Estamos situados diante de- 18- Cf. Id . Sobre o 'humanismo' .In: Os Pensadores, p.362.
le: a Arte é, primitivamente, o encontro do estar - aí com o des- 19- Id. Der Weg zur Sprache. ln: Unterwegs zut Sprache, p.244.
-velado . 20- Id. " .. . dichterisch whonet der Mensch ... ". ln: Vortraege
und Aufsaetze, p.190.
nA origem da obra de arte, isto ~, ao mesmo tempo a origem 21- Id. O fim da filosofia e a tarefa do pensamento . ln: Os Pen-
dos criadores e dos guardiões, o que quer dizer: a origem do sadores, p.270.
estar-aí historial de um povo -- ~ a arte. Ela ~ assim porque a 22- Id. Hebel; l'ami de la masion (Hebel - der Hausfreund). ln:
arte ~ em si mesma, em sua essência, uma origem e nada mais: um Questions III. Traduit par Julien Hervier. Paris, Gallimard,
modo insígne de acesso à verdade do ser, isto ~, ao advento, is - 1966, p.67. Classiques de la Philosophie.
to~, à História n .(61) 23- Id., ibid, p.47.
24- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.60.
A Arte Poemática, proveniente da A-létheia, é esta origem 25- Id., ibid., p.60.
que se consuma enquanto retorna circularmente à origem da qual 26 - Convém ressaltar que, diferentemente de Heidegger, centrare:
provém: à A-létheia. As modalidades artísticas de tornar-mani - mos nossa atenção à mensagem de dois poetas: Friedrich Hoelder-
festo o Ser, às quais nos referimos: a Tragédia, o Templo grego, lin e Rainer Maria Rilke. Ambos serão por nós enfocados apenas
a Linguagem do pensamento essencial, da Poesia e da Arte, v~san­ nos elementos concernentes à questão da Técnica. Stefan Georg,
do à eclosão do Ser, são projetos que instituem a Verdade de uma Georg Trakl, Hebel e os demais poetas estudados por Heidegger
época em seu percurso rumo ao des-velado. não estarão presentes neste livro; posto que extrapolam os
limites a que nos propomos. Além do mais, Hoelderlin e Ril~e,
ligados à Physis e atentos ao ser-no-Mundo do Homem da era tec-
nica, salvaguardam a especificidade poemática da Arte e o ser-de
-relação do estar-aí com o Ser, tornando-se assim, sem prejuízos
NOTAS para as nossas reflexões, os representantes dos demais poetas.
27- HEIDEGGER Martin. Hoelderlin et l'essence de la poésie.
ln: Approche de Hoelderlin, p. 42-43. Cf. WAHL, Jean. La pensée
1- Cf. HEIDEGGER, Martin. Die Frage nach der Technik. ln: Vor- de Heidegger et la poésie de Hoelderlin. Paris, Centre de doccu-
traege un Aufsaetze, p. 16sq. mentation universitaire, 1952. 129 p. Le cours de Sorbonne.
2- Id., ibid., p. 42. 28- HOELDERLIN, Friedrich. Buonaparte. ln: Poemas. Prefácio,
3- Empregaremos aqui o termo Poema (Dichtung) em vez de Poesia t~adução e seleção de Paulo Quintela. 2.ed. Coimbra, Atlântica,
(Poesie) pela conotação ampla a que ele acena. O Poema é o 1959, p.19. ,
lugar onde se pro-duz a diferença ontológica. Ele se constitui ·29- HEIDEGGER, Martin. Wozu Dichter? ln: Holzwege, p.265.
pelas atividades que se mantêm neste âmbito poemático, entre 30- A não-verdade pertence, originariamente, tanto ao conheci-
elas a Poesia e a Arte. Cf. Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. mento quanto ao des-velamento, e neste contexto, nao e colocada
ln: Holzwege, p.59. Cf. KELKEL, Arion L. La légende de l' être; como sinônimo de deficiência, ou como impossibilidade de um
langage e t poés ie chez He idegger. Par is, Vrin, 1980, 640 p. His- acesso ao Ser.
to ire de la Philosophie. 31- HEIDEGGER, Martin. Sobre a essência da verdade, p.42.
4- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holz- 32- · Cf. Id. Wozu Dichter? ln: Holzwege, p. 265sq.
wege, p.59. 33- Cf. ido Comme au jour de fête. ln: Approche de Hoelderlin,
5- Id. Da experiência do pensar, p.31. p.65-67, 82-83, 87-89, 97.
6- Id. Que é isto - a Filosofia?, p.25. 34- Cf. HOELDERLIN, Friedrich. Wie wenn am Feiertage ... ln: Poe-
7- Cf. Id., ibid., p.25. O dizer poético, enquanto nomeaçao, mas, p.254-259. Cf. HEIDEGGER, Martin. Comme au jour de fête.
preserva de modo especial, aquilo que os gregos um dia proferi- ln: Approche de Hoelderli~ p. 63-98.
ram: o Ser. 35- Cf. Id. Souvenir. ln: lbid., p. 132sq.

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36- Id., ibid., p. 136. 59- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.61 e 57.
37- Id. Wozu Dichter? ln: Holzwege, p.306. 60- Id., ibid., p. 63.
38- A essência do poeta é caracterizada por Heidegger como a do 61- Id., ibid., p. 64.
Homem especial que, atento ao Ser enquanto simbólico, manifesta
o seu mistério aos outros homens dele afastados. Tendo acesso a
totalidade, o poeta atinge o Sagrado, o divino e os deuses --
ocultos no interior de sua época. Decifrando essas mensagens
enigmáticas, ele se torna o mensageiro do essencial, do oculto,
transmitindo-o àqueles que compartilham o seu tempo. O poeta é,
assim, conduzido à dimensão que supera o seu ser-terrestre, por
transcendê-lo, na medida mesma em que nele penetrando assume o
seu ser-no-Mundo, a sua habitação. Ele é denominado por Heideg-
ger como o estar- aí que se situa "entre dois" âmbitos -- o di-
vino e o humano. Estar "entre" designa a abertura do espaço con-
cedido aos mortais -- por um mortal, que é o poeta -- de atingir
a divindade. Cf. Id. Hoelderlin et l'essence de la poésie. ln:
Ibid. ,p.59.
39- Id., ibid., p.31 1 e 312 .
40- Cf. Id. Wozu Dichter? ln: Holzwege, p. 304sq. Cf. BUDDEBERG,
Else. Denken und Dichten des Seins; Heidegger, Rilke. Stutt-
gard, Metzler, 1956, 210p. Cf. HEDERMAN, Mark Patrick. De l 'i n-
terdiction à l' écoute; Heidegger et Rilke. ln: Heidegger et la
question de Dieu, p.289-295.
41- RILKE, Rainer Maria. Elegias de Duíno (Duineser Elegien).
Tradução de Dora Ferreira da Silva. 2. ed. Porto Alegre, Globo,
1976. p.52.
42 - Cf. HEIDEGGER, Martin. Retour (Heimkunft). ln: Approche de
Hoelderlin, p.9-37.
43 - Id. Sobre o 'Humanismo'. ln: Os Pensadores, p.360.
44- Cf. Id. Die frage nach der Technik. ln: Vortraege und Auf-
saetze, p. 27sq. Cf. Id. O princípio da identidade. ln: Identi-
dade e diferença, p.61sq.
45- Id., ibid., p.60.
46 - Id. Die frage nach der Technik. ln: Vortraege und Aufsae-
tze, p .43
47- Id. Ueberwindung der Metaphysik. ln: Ibid., p.96 e 97.
48- Id. Die frage nach der Technik. ln : Ibid., p.43.
49- Id. A sentença de Anaximandro. ln: Os Pensadores, p.23 .
50- Id., ibid., p. 47 .
51- Id. Que é Metafísica? p.57.
52- Id. Der Weg zur Sprache. ln: Unterwegs zur Sprache, p.252.
53- Id. Hoelderlin et l'essence de la poesie. ln: Approche de
Hoelderlin, p. 52.
54- Id. Das Wesen der Sprache. ln: Unterwegs zur Sprache, p.193.
55- Cf. Id. Tempo e ser. ln: Os Pensadores, p.456sq.
56- Id: A tese de Kant sobre o ser. (Kants these ueber das
sein). Tradução de Ernildo Stein e revisão de José Geraldo No-
gueir<:l Moutinho. são Paulo, Duas Cidades, 1970, p.95.
57- GUZZONI, Alfredo . Protocolo do seminário sobre a conferência
"Tempo e ser" (Protokoll zu einem Seminar ueber den Vortrag
'Zeit und Sein ' ). ln: Os Pensadores, p.481.
58- HEIDEGGER, Martin. Wissenschaft und Besinnung. ln: Vortraege
und Aufsaetze, H.45 . .
'I

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Capítulo V

A Arte e o des-velamento do Ser enquanto Verdade.

No capítulo anterior traçamos o percurso heideggeriano rumo


à essência da Arte, que foi definida como Poema. O intuito de
Heidegger foi o de estabelecer os parâmetros no interior dos
quais a Arte pode ser, na época atual, uma origem para o estar-
aí historial. A questão da origem, que especifica a Arte, nos
remeteu diretamente ao nível de des-coberta do Ser, isto é, ao
des-velament~, à Verdade. A Verdade foi definida como A-létheia,
eclosão que se dissimula, apelando ao pensador, ao poeta e ao
artista para captá-la . Esta é a condição mesma que possibilita à
Arte consti tu ir-se como a passagem do obscurecimento ao que se
clareia, levando os homens à proximidade do Ser.(l) Contudo, es-
te movimento torna-se unicamente viável se o estar-aí compreen-
der a Arte como poemática, ou seja, como o lugar privilegiado no
qual o Ser se manifesta. Sob esse prisma, a Arte pode também
afastar-se do Ser, perdendo-se em meio à inautenticidade de uma
era metafísico-técnica, à qual não visa ultrapassar.
Retomando as definições heideggerianas da Arte, vemo-nos em
meio a um círculo. Este círc ulo parte da A-létheia, da eclosão
do Ser, que constitui a Techne . Mediante o des-velamento ocorre
a produção de um ente, ou seja, o conduzi-lo à sua essência.
Dela decorre a obra de arte, a qual sendo um modo privilegiado
de mostração, é uma coisa a serviço das coisas. A obra de arte,
fruto da criação, é uma modalidade' essencial de relacionamento
com o des-velado. Do des-velamento à produção, da obra de arte a
Criação, originar-se-á a Arte: a eclosão da A-létheia.
"A arte é o colocar-se em obra ·da verdade"
"Na obra, é o verdadeiro que es'tá em obra, e não somente
qualquer coisa do verdadeiro"(2).
Convém que explicitemos o significado do colocar-se em o-
bra. O termo obra, como procuramos mostrar no capítulo anterior,
não se restringe apenas à obra de arte:: Pelo contrário, ele se
refere ao processo no interior do qQal a Verdade se estabelece.
Ora, como o des-velamento provém originariamente do Ser, o Se~
enquanto tal é uma obra que, disponível ao estar-aí, fulgura,
pro-duz-se criativamente. O Ser, enquanto tal, é poematicamente
Arte, desabrochar, encantamento, irrupção da beleza. Nesse con-
texto, a reflexão sobre a Arte é reivindicada por um questiona-
mento sobre a Verdade (que não II· é", mas se dá) e sobre o Ser.
Por seu intermédio retornamos ao Mito e aos pré-socráticos, per-
correndo também as outras _épocas que assinalam o destino do Ser.

107
Em Sein und Zeit Heidegger, buscando o sentido do Ser cen- pesquisar sobre suas partículas mais ínfimas. Contud~, em nenhum
tr~ o seu Método Fenomenológico na A-létheia grega. EI~ é a átomo a invisibilidade do Ser, a sua Verdade, podera ser detec-
ideia d~r:triz, .sínte:e e mola propulsora de todo o seu pensar: tada, mesmo pelos aparelhos mais sofisticados. Aprofunda-se o
sua lntulçao asslnalara uma nova postura diante do Ser. A A-Ié- abismo que lança os homens no vazio de uma Verdade manipulável.
theia f~i buscada por meio de Parmênidis: para ele, um grego, o Submetidos a ela, vemos as opiniões, as aparências e os
Ser deslgna a presença que surge a partir de seu des-ocultar-se. rótulos conduzirem mais e mais ao âmbito do querer, da vontade
Nos dois primeiros versos de seu fragmento 8, podemos ler: dos sujeitos que dispõem dos objetos . Quanto aos sujeitos, se
" ... Resta portanto único o dizer do caminho que conduz lhes resta ainda uma opinlao própria, eles procuram certezas,
para diante do 'que é· ... ". (3) são carentes de referenciais. Sofrem, sem o saber, a ausência do
O caminho conduz ao "domínio do inaparente"(4), a que Hei- Ser, da dimensão contemplativa que lhes proporcionaria um acesso
degger visa enquanto se dedica a superar a esfera do ente, in- à totalidade.
trigando-se pelo Ser -- que se tornou epocalmente desconhecido, A proposição heideggeriana de re-cuperar a A-létheia traz
juntamente com a A-létheia. respostas a anseios essencialmente humanos, os quais a fragmen-
A noção da A-létheia pode ser re-pensada a partir do Mito tação desta era camufla. O Homem atual, cada vez mais limitado,
de .Her(S), no qual Platão conta o privilégio concedido às almas não se completa, em sua finitude, sem se encontrar com algo di-
de contemplar o Mundo das Idéias. Narrando a história de um ho - ferente dele. Porque compete ao Homem relacionar-se, estar em
mem que, morto em uma batalha, retorna à vida Platão fala do equilíbrio e harmonia com a totalidade do Ser, é necessário re-
" Ro".. '
10 Lethe . Bebendo a agua do "Rio da Despreocupação", as almas
formularem-se as premissas nas quais se embasa nossa era indivi-
se esquecem daquilo que vislumbraram. O "Rio do Esquecimento", dualista, -- quer dizer, re-começar. A A-létheia é o originário
conslderado como passagem do reino dos mortos para o Mundo sen- que, estando à espera do Homem, lhe oferece caminhos para a
sível, introduz na Filosofia um elemento fundamental: o A-le- transcendência dos horizontes fechados a que s'e restringe o seu
theuein. Ele designa o âmbito do escondido, do oculto, do vela- contemplar.
do.(~) C~ntudo, esta noção de ausência-na-presença, captada por "Ã transformação da essencia da verdade, corresponde uma
Platao, nao fo~ aprofundada por ele, nem pela tradição que o História da essê ncia da arte ocidental"(ll).
sucedeu. Convem, pois, que voltemos nossa atenção ao seu Assim, mediante uma nova postura diante da Verdade, a Arte,
conte~do. vi ndo-a-ser Poema, des-cerra para o estar-aí a dimensão mesma
"A A-létheia é o impensado digno de ser pensado, a questão que
. , o preenche em seu ser: o Belo. Por seu intermédio, o estar-
do pensamento". (7) -al contempla, preservando em seu ser os momentos privilegiados
Nela reside o mistério do Ser, perdido apos a epoca helêni- de acesso à eclosão da Natureza. Entes simples como uma flor que
ca: As consequên~ias desta perda não se restringem apenas ao se abre, como um pôr-de-sol, uma paisagem ou um arte fato trazem
Ser. Pelo contrario, atingem aos entes aprisionados nos concei- em si um brilho inconfundível, que traduz em imagens a manifes-
tos, ao pensar, ao estar-aí, à obra de arte. Todos recebem sua tação do des-velamento do Ser. O Belo é, nessa postura ontológi-
medida do Ser: esquecê-lo é permanecer na esfera do superficial. ca diante da Arte, como para os pré-socráticos, harmonia. Por
Diante desse quadro, convém que contrastemos a visão hei- seu intermédio, é a totalidade do Ser que se des-cerra .
deggeriana da obra de arte àquela que a História da Arte nos le-
gou. Para Heidegger, todos os entes tem a possibilidade de des- "A verdade ã a eclosão do ente desvelado como tal. A ver -
velamento. A obra de arte, enquanto ente, transmite uma mensagem dade ã a verdade do ser. A beleza não se encontra ao lado desta
do Ser, torna visível o inaparente. verdade: pois, quando a verdade se p6e em obra, ela aparece. ~
este aparecer que, enquanto ser da verdade na obra enquanto
"Porque pertence i essência da verdade instituir - se no en- obra, ã a beleza. Assim, o belo pertence ao acontecimento do
te, para somente assim tornar-se verdade, há, na essência da advento a si da verdade"(12).
verdade, esta atração na direção da obra, enquanto possibilidade
insIgne para a verdade ser ela mesma em meio ao ente"(S). A Arte, enquanto Poema, nos conduziu a Verdade e esta, por
sua vez, nos remete à Beleza. Todas são produtos da manifestação
_ A História da Arte, marcada pelas determinações metafísico- do Ser. Nos capítulos anteriores, detivemo-nos nas análises hei-
est~ticas, t~az em si ,a noção de ente como objeto. Afasta-se, deggerianas da obra de arte enquanto Arquitetura (Templo Grego)
- aSSIm, o cara ter espeCIfico da obra de arte enquanto ente. e Linguagem (Tragédia, Pensamento, Poema). É necessário, pois,
. "~ hi:tória d~ arte transforma as obras em objetos de uma que centremos nossa atenção aos vínculos que se estabelecem di-
InvestIgaçao cienofica"(91. retamente entre a Verdade do Ser e a obra de arte enquanto Pin-
Contudo, a C~ência, volta~a exclusivamente para o ôntico, tura . Convém ressaltar que, como nas abordagens acima referidas,
n~da tem a nos dIzer sobre aqullo que o extrapola, sobre o sim- o objetivo de Heidegger não é o de estudar a Pintura em si, mas
bolico des-c:rrado pela obra. Ele provém do Ser que é o vazio do ter acesso a essencialidade da mensagem nela contida. Esta será
ente, lSto e o ".~ada':. ( 10). A Ciência pode dissecar um objeto, especificada mediante reflêxões sobre dois pintores: Vincent Van
./

108 109
"No quadro, há a cor ... ", de tal forma que " ... o quadro
Gogh e Paul Cézanne.(13)
Iniciaremos nossa abordagem com Van Gogh. A ele são dedica- esta na cor"( 16).
dos o maior número de escritos dos comentadores e críticos de Não se pode dissociar uma obra desse seu caráter "coisal",
Heidegger. Isso porque, no estudo acerca da obra de Van Gogh referido aqui diretamente ~ matéria que cemp~e a obra e da qual
estão contidos os elementos que sintetizam a reflexão ontológica ela própria necessita em seu processo de manifestação, isto é,
da Arte traçada por Heidegger. Nosso primeiro passo será, assim, em seu ser-produzida. Sem colorido não pode haver pinturas. De-
a re-colocação ~ o aprofundamento de alguns temas referentes ~ cifra-se, assim, a primeira questão visada por Heidegger: a
obra de arte. vinculação genética entre a coisa e a obra. Restam ainda duas
Em sua tarefa de des-truição da Estética e da Metafísica, quest~es:
Heidegger penetra no solo em que se encontram os fundamentos o que há ... de propriamente produto no produto e de
destas duas teorias do real: As noç~es de ente e Ser, bem como o propriamente obra na obra.".(17)
método que conduz ~s análises da obra de arte serão demolidos, Isso porque a obra de arte pro-duz um ente, isto é, permite
purificados em sua originariedade. Nelas, como dissemos nos ca- a sua passagem do recolhimento à presença, ao des-velamento, ao
pítulos anteriores, há uma perda da esfera ontológica, -- um Ser, Como foi dito nos capítulos I e II, a pro-dução não é uni-
prejuízo no acesso ao ente, que é representado racionalmente camente um resultado do fazer humano. Sua relevância consiste em
como objeto. A construção heideggeriana partirá da explicitação ser proveniente da Physis, quer dizer, proveniente do Ser em
da diferença entre Ser e ente, coisa, utensílio e obra de arte. seu presentar-se.
Somente nesse contexto a Pintura poderá surgir como obra des-ve- Cabe aqui explicitar o que e um produto: É o resultado de
ladora da V~rdade. um processo de produção. Assim, a obra de arte, enquanto produ-
A obra de arte, já o sabemos, é um ente. E o ente é tudo o to, é uma realização do ordenamento da Physis pela Techne: o
que pode ser captado sensorialmente, considerando-se que ocupa tornar manifesto aquilo que é significativo.
um lugar no espaço, pertence a um tempo. O ente é aquilo a · que Extrapolando a visão do ente como o que "está- à-vista",
temos um acesso imediato em nosso dia-a-dia, visto que nos cir- Heidegger o define como o que "está- à-mão", como um utensílio .
cunda. O Ser não é captado sensorialmente, mas é por seu inter- (18) Ao estar-aí, enquanto ser-no-Mundo, é inerente recorrer aos
médio que o ente adquire o poder de tornar-se manifesto. O Ser é utensílios, dos quais se serve para atingir seus fins imediatos.
a essência, o sentido mesmo implícito quando, referindo-nos ao Os entes intramundanos caracterizam-se, assim, por sua utilida-
ente, dizemos que ele "É". de. A utilidade, a finalidade principal do ente obra de arte,
pode ser especificada nos seguintes termos:
"Ente é tudo do que nos falamos, tudo em que pensamos, tu-
do em relação a que nos comportamos, mas também o que nós pró- "A utilidade é a revelação s~bita fundamental, a partir da
prios somos e a maneira como nós o somos. O ser reside na exis- qual os entes se apresentam, no ato de rasgar-se, a nos; são
tência, na essência, na realidade , no ser-subsistente, no valor, assim presentes e são os entes que eles são"(l9).
no estar-aí, no 'há"'(14).
Assim, a utilidade da obra de arte está em ser o indício do
() ente, enquanto é, também foi denominado "coisa". No to- des-velado. É nisso que se constitui o seu ser-produto.
ca nte a coisa, o senso comum a define como um objeto inanimado,
como algo manufaturado, ressaltando, com isso, seu lado mate- "O ser-produto do produto reside em sua utilidade. Mas
rial. Contudo, em um refletir mais cuidadoso, a coisa nos apre- esta, por seu lado, repousa na plenitude de um ser essencial do
senta seu lado enigmático, que transcende a mera materialidade. produto. Nós a denominamos solidez (die Verlaesslichkeit)w.
Agindo assim, colocamo-nos diante de seu Ser. A ele Heidegger (20)
denomina "coisidade"(lS) (das Dinghafte des Dinges), isto é, o
que concerne especificamente ao seu ser-coisa. Na "coisidade", É necessario, pois, definirmos o conteúdo, o sentido da
enquanto des-velamento, já está contida a relação da coisa com o "solidez". A solidez designa, primeiramente, a qualidade do que
estar-aí. Por meio dela somente, poderemos chegar àquilo que e real, a sua durabilidade e consistência. Contudo, remontahdo
caracteriza a obra de arte como coisa, à sua autenticidade. E a ao termo Verlaesslichkeit, nós o captamos como sinônimo de esta-
obra que nos interessa aqui, em sua "coisidade", é a Pintura. bilidade e certeza, como o que é digno "de confiança", por ser
O caráter "coisal", o lado ôntico das obras, nos permite incontestável. Em nossa língua, a solidez também apresenta esta
uma proximidade, um acesso sensível imediato -- ainda que não característica. Como exemplo, podemos citar uma "amizade sóli-
refletido -- a elas. A Pintura é uma coisa, pois para constitu- da", um sentimento que não se altera com facilidade, que não se
ir-se enquanto tal, ela requer uma tela, um espaço do qual de- deixa destruir, por ser firme e inab~lável. Sabendo o significa-
pende para ser vista -- por exemplo, uma parede de um edifício do de "confiança", podemos ainda ' nos perguntar: quem é "de con-
(Museu Ou residência), na qual ela é ex-posta. A Pintura nao fiança"? Em termos heideggerianos, a resposta seria: aquele que
requer somente o espaço, mas : oferece, essencialmente, firmeza, segurança. Mas ele a oferece a

110 111
um outro, ~ um segundo termo ao qual se refere e que, por sua A utilidade dos sapatos esta em sua serventia. Contudo,
vez, nele confiando, o espera. eles não se restringem apenas a este dado, mas possuem um refe-
Die Verlaesslichkeit é, assim, a nosso ver, o nome para a rencial muito mais amplo. Como todos os entes- à-mão, os sapatos
reciprocidade de entrega na qual o estar-aí e o Ser se vinculam, fazem parte da rotina, do dia-a-dia da camponesa, participando,
primordialmente. Os entes, que nos surgiram corno utensílios, re- assim, de sua História. Fazendo o seu trabalho; a camponesa faz-
metem-se uns aos outros no âmbito da totalidade do Ser, na qual se pessoa: um ente que se preocupa consigo mesmo, com o processo
estão inseridos. O encontro do estar-aí com os entes-utensílios cíclico de produção da terra, que determina, por meio,de sua
ocorre quando ele se faz participante do projeto de proximidade. fertilidade, o seu futuro. Resistindo perseverantemente ~s in-
Aproximando-se dos entes, o estar-aí os organiza e lhes dá sen- tempéries, a camponesa exercita a sua liberdade: disponlvel ao
tido, ao acatá-los como sã~. A solidez é o solo de onde o estar- Ser e comprometida existencialmente com ele, essa mulher ,q~e
aí emerge, tendo como base a sustentação no Ser, a "confiança" acolh& o essencial desenvolve sua historicidade no exerC1ClO
em seu des-velamento. Nesse contexto, a solidez é o elemento cotidiano da Verdade. (24)
originário que define a coisa, a utilidade, o produto, o estar- Novamente o combate entre Terra e Mundo entre o campo
aí, o Ser e a Arte. que pode furtar-se ao cultivo e o seu envio à totalidade do des-
__ Heidegger tem acesso a solidez mediante a análise de um tino daquela que, enquanto é, cuida do solo. Terra e Mundo, fe-
utensíJi9._; Porém não de um utensílio real, posto que seu objeti- chamento e abertura, expressos na tela de Van Gogh --, artista
vo é o de penetrar na obra de arte. Recorre, assim, à solidez de que, anteriormente ao surg~mento desta obra, lutou tamb~m ~ontra
um par de sapatos, que mostra a sua resistência na tela de Van o velamento. A criação artlstica faz-se presente na crlaçao da
Gogh. O Método utilizado por Heidegger para - a contemplação desta camponesa. O grande mérito de Van Gogh está, em noss~ entender,
tela é o Fenomenológico, que elucida sua postura diante da obra. em retratar-se a sí próprio na figura de um campones, em sua
simplicidade profunda, em seu trabalho árduo e irreconhecido.
"O ser-produto do produto foi encontrado. Mas de que manei-
ra?" -" N6s n~o fizemos nada sen~o nos colocarmos em presença do
quadro de Van Gogh. Foi ele que nos falou. Na proximidade da "por meio deste produto se"repassa a muda inquietude pela
obra, subitamente, estivemos em outra parte que lá onde temos o segurança do pio, a silenciosa alegria de sobreviver novamente i
costume de estar"(21). necessidade a angústia do nascimento iminente, o estremecimento
sobre a mor~e que ameaça. O produto pertence i terra, e ele está
Deixar-ser a obra de - arte(22): eis aí a conduta heideggeri- em segurança no mundo da camponesa. No seio desta pertença pro-
ana. Contudo este pintor e esta obra despertaram o interesse do tegida, o produto repousa em si mesmo"(25).
pensador, pelos estilos que o pintor holandês, nascido em 1853 e
morto em 1890, escolheu para elaborá-la. Os estilos da tela "Os Como no Templo e na Tragédia Grega, Van Gogh presenta, por
Sapatos", pintada em 1886, são: o Naturalismo e a Natureza Mor- meio deste ente particular, a existência epocal do homem ?o cam-
ta. Como Naturalista, esta obra visa à mostração da Natureza co- po. Por intermédio de seu caráter harmonizante, que visa a tota-
mo ela é, sem interposiç~es ' subjetivas por parte do artista. Co- lidade, esta pintura re-vela o aberto, o Mundo. Cumpre, assim, a
mo Natureza Morta, ela exp~e uma coisa inanimada, um par de sa- sua função com a mesma pureza e ~ mesmo !sp}endor com que ~ A:te
patos, um ente particular, liberando-o em seu Ser. "Os Sapatos" Helênica, outrora, foi constitulda. Isso porque o Ser esta dlS-
des-cerra, ainda, o próprio ambiente no qual este ente está ponível ao estar-aí temporal, quer dizer, cabe-lhe assumir a
inserido. tarefa de transmiti-lo.
O ser-produto do produto -- sua utilidade e solidez -- foi Cabe agora a questão de como esta obra de arte dá a ver o
encontrado na tela de Van Gogh a partir ?os sapatos! que, en- ~undo. A resposta heideggeriana é: por me io da "... so lidez do
quanto entes, se oferecem a-tematicamente a compreensao, na pra- produto ... "(26).
xis cotidiana daquele que os calça. Quem os calça é uma campone- A solidez acena ao Verlaesslichke~t, à ligacão entre tudo
ra, que se serve deles em seu labor, sem teorizar sobre este o que é. Ligação à qual o Homem mítico t~ve acesso e que aqui e
ente- à-mão. Esta anterioridade do ente- à-mão sobre o ente- a- apontada por meio de um par de sapatos roto. Esse par de sapatos
vista surge na imediaticidade desta pintura. não é apenas um utensílio que serve para proteger os pés da cam-
ponesa em seu caminhar. Em sua solidez ele re-vela o Mundo no
"Um tal produto serve para calçar o p~". qual o sapato, enquanto ente, a mulher que,o~ calça e os outros
"~ a camponesa, nos campos, que usa os sapatos. Lá, so- homens estão inseridos. A solidez, agrupando Terra e Mundo, co-
mente 'eles s~o o que s~o. Eles o s~o de uma maneira tanto mais loca-nos diante da Verdade. O objetivo de Heidegger foi atingi-
espontânea quanto menos a camponesa, durante o seu trabalho, do: a obra-de-arte-pintura des-vela o Ser.
pense neles, n~o os olhe como algo a ser questionado, nem mesmo
os sinta. Ela está de pi e caminha com os sapatos"(23).

""/

112 113
"A tela de Van Gogh j ' abertura do que o produto, o par de '''Por que, na verdade, a arte aí está, na natureza, e aque-
sapatos de camponês, é em verdade. Este ente aparece na eclosão le que pode arrancá-la, ele a tem'? Arrancar significa aqui fa-
de seu ser. A eclosão do ente foi nomeada pelos Gregos Alj- zer sair, tirar à luz o traço e tirá-lo com um tira-linha sobre
theia". (7) a prancha de desenho. Mas imediatamente nós opomos a isso esta
questão: como o traço pode ser tirado, se ele não aparece como o
Contudo, em outro texto, Heidegger retoma a questão do vín- traço de luz, isto j, desde o acesso, como combate entre medida
culo entre o Ser e o des-velamento, do conteúdo mesmo do Ser. e desmedida, na criação da obra? Há seguramente na natureza um
Aqui, ele se questiona sobre esta tela do pintor holandis nos traçado, uma medida e limites aos quais está ligada ... a arte.
seguintes termos: Mas é tambjm certo que esta arte na natureza só se torna mani-
"O que na tela está sendo? A tela? As pinceladas? As man- festa pela obra porque ela está originalmente na obra". (31)
chas de tinta?
Em tudo isso que acabamos de mencionar, o que e o Ser do Se a Natureza se des-vela, cabe à Pintura co-responder a
ente?"(28) sua mostração. Cézanne(32) buscou captar o sentido da Natureza
O Ser, na Pintura, nao e nada de material. O Ser e o que se em seu espetáculo de luz, sombra e cores, oferecido à sensação .
envia, dando-se epocalmente e constituindo o ser-obra-da-obra. Sua tarefa, como pintor, não se restringiu à produção de formas,
Enquanto não-ente, o Ser necessita do ente para manifestar o seu mas em transcendi-las rumo à harmonia, à relação com a Natureza.
significado simbólico. , O objetivo que norteou toda a vida e toda a obra de Cézanne
foi o de chegar à Verdade.
"A ~bra de arte j uma coisa, coisa conduzida ao seu acaba-
mento, mas ela diz ainda qualquer coisa de outro que a coisa que "A verdade, na pintura, está assinada: Cézanne. É uma pa-
nada mais é que coisa ... A obra comunica publicamente outra coi- lavra de Cézanne".
sa, ela nos revela outra coisa: ela é alegoria. Outra coisa ain- "Cézanne prometeu cumprir seu ideal: 'EU VOS DEVO A VER-
da está reunida, na obra de arte, à coisa feita". "A obra é sím- DADE NA PINTURA, E EU A DIREI A VÓS!'". (33)
bolo".(29)
cézanne desempenha sua missão de dizer a Verdade anuncian-
Na "coisidade" da obra, o Ser e alteridade. Heidegger não do a esperança de um progresso na Arte de sua época. Ele se in-
se restringe à caracterização da obra de arte como alegoria, cumbe de resgatar algo ausente no dom{nio mesmo em que está in-
isto é, à representação conceitual que requer um trabalho do serido o seu fazer. , Ora, sendo esse dom{nio a Arte, Cézanne "di-
intelecto para se chegar ao sentido visado. A obra de arte esta- rá" a sua palavra em um dizer diferente daq'fele do pensador ou
beleceu-se como alegoria mediante concepções epocais que postu- do poeta -- que lidam com os termos da L{ngua e o instauram na
laram a finitude humana e a corrupção das coisas da Natureza, Linguagem. Ao artista compete expressar sua mensagem em um dizer
radicalizando-as. Este tornou-se o conteúdo das obras de arte sem palavras -- simbólico como os anteriores --, que em sua pro-
(30).Essa ruptura, levada ao extremo, encobriu o sentido que fec ia proc lama o anunc iado: a Verdade na Pi·ntura. A caminho da
compete à obra de arte revelar . Verdade, o pintor une-se ao pensador e ao poeta, na busca do
Unindo alegoria e s{mbolo, Heidegger restaura; unidade da sentido do Ser, vereda aberta pela A-létheia (34) e pela Urspra-
obra de arte. O s{mbolo é sinal de abertura, considerando-se que che, dirigindo-se ao seu elemento poemático.
evoca algo abstrato, ausente. Nele, o significado a ser revelado Heidegger, poetando, expressa sua admiração por Cézanne:
surge espontaneamente, reunindo a coisa àquilo que ela substi-
tui. O s{mbolo retrata a harmonia e a totalidade visadas por "Reconhecimento
Heidegger. Contudo, como o sentido somente tem significado no Agradecer: deixar dizer que tudo tem um lugar na
âmbito da ausincia, do velamento, da Terra -- que não podem revelação que se serve disto o remetendo a si.
ser menosprezados - - , a obra de arte requer a alegoria. Assegu- Que amplidão, o caminho diante deste lugar, a
ra-se, assim, o acesso à Verdade do Ser. partir do qual
A obra de arte é, metaforicamente, um transporte. Nele re- o pensar, segundo o ritm o , pode elevar
side a essincia do fazer. O artista, encontrando o Ser, capta o o pensamento contra
seu conteúdo, mas não o guarda só para si. Pelo contrário ele ele mesmo, a fim de salvar assim
busca transportá-lo a uma tela, a uma escultura, etc. Sur~em as a reserva de sua pobreza.
obras de arte, porque ao estar-ar é necessário transmitir aquilo Mas o pobre, é serenamente que ele salva seu pouco.
a qu~ teve acesso, criar. Transportar quer dizer: conduzir, en- Deste pouco, o que, sem palavra lega seu poder,
caminhar ao manifesto, passar da imediàticidade do ente à pro- ele o guarda como o mais importante na memória:
fundidade do Ser. Dizer a A-létheia como: a clareira
Heidegger, retomando uma frase de Duerer, questiona a re- Des-cercar a permissão de se escapar".(35)
lação da Pintura com a Natureza, através do ato criador dizendo:
!../

114 115
Perplexo diante de sua meta, Cézanne saptou, conc~mi~a~te­ transfigurada em identidade de enigma.
mente, a missão mais peculiar do estar-aL: enquanto hLstorLco, Uma vereda estreita se abre aqui, que conduzirá
ele se faz no espaço e no tempo, no processo mesmo em que elabo- a uma comum presença do poema e do pensar".(36)
ra e transforma seu próprio Tempo. A práxis cotidiana assinala o
seu ser-no-Mundo de modo radical, pois é por meio dela que a Durante todo esse capítulo a Arte surgiu como o local onde
obra a ser constituída requer homens e entes, endereçando-os ao o Ser se manifesta, isto é se coloca em obra, nos dizeres de
âmbito do Ser. Contudo, a evolução humana é assinalada pela Heidegger. Perpetuar o Ser ~ a missão da Arte originária, da
perda do fazer-criativo: no decorrer das e:as ele se d:sarraiga, Techne grega, do artista que, disponível ao Ser, torna-se o
esvazia- se dando prioridade ao teorizar, a conceituaçao. Esva- poeta de sua mensagem, rompendo os limites que o enclausuram no
ziadas, peia repetibilidade dos termos, a essência do estar-aí e ente, arriscando-se -- como o dissemos no capítulo anterior --
a Verdade reivindicam um novo momento para a sua eclosão. Este no seio do aberto.
se instaurará por intermédio da Arte enquanto reflexão sobre a
relevância do fazer e de suas modalidades de expressão . Ser Ho- "O que há de mais estranho (o homem) i aquilo que ele e,
mem e fazer, significar-se fazendo, transcender-se rumo ao es- por, no fundo, só cultivar e proteger o familiar, para dele se
sencial enquanto medida para este fazer. ~ uffi alO de liberdade arrancar, deixando irromper o vigor cuja força o subj~ga. t o
que vincula novamente, como na ép0~d helênica; teoria e práxis. próprio Ser que lança o homem na rota desse rasgo (Fortriss),
Cézanne buscou resgatar esta a~Ltude originária diante do rea l que o constringe a lançar-se para alim de si mesmo, alongando-se
com sua promessa: um novo crédito na concretização da Verdade ati ao . Ser, com o fim de o pôr em obra, e desse modo, manter
por intermédio do fazer artístico, de sua Techne. aberto e manifesto o ente em sua totalidade. Por isso, quem
A Pintura de Cézanne é um des-cerramento poético, que se instaura vigor, não conhece, nem bondade nem favorecimento (no
oferece aos riscos de ex-por o presente-ausente, permanecendo no sentido comum); desconhece todo o apaziguamento e satisfação
campo de seu jogo clareador-obscuro. Jogar, diferentemente de logrados com sucessos ou prestígio ou sua confirmação".(37)
brincar ou de manipular, é o lançar-se impetuosamente no que se
oferece, deixando-o acontecer como tal. É oferecer-se ao peri- Esse é o motivo pelo qual o artista que cultiva o Ser, que
go, ao arriscar-se prioritário -- o que é assumido por Cézanne, o deixa pôr-se e m obra, não se co nsidera nos termos estéticos,
assim corno por Van Gogh, Hoelderlin e Rilke. Cézanne atira-se no um grande criador. Ele cria enquanto celebra o dom que lhe foi
inesperado, no sem-fundamento, eliminando os pre-conceitos, as oferecido, liberando o seu sentido. A meta da Arte autêntic.a
pré-determinações fornecidas por sua ·eri!.O pintor torna-se o pon- torna-se, assim, o cultivo do Ser.
to ao qual se dirige o Ser: um ponto poético, porque inocente, a Cultivar: atitude da camponesa e do jardineiro Vallier, dos
ser colorido pela dinâmica da primeiro lu~ da manhã, repleta do artistas Van Gogh e Cézanne, dos gregos pré-socrát~cos, do pen-
mistério que povoa o anoitecer. O Ser dá-se em luz, mas também sar e do poetar(38). Cultivar, dar condições favoraveis p~ra a
priva dela a quem se coloca em uma postura constante de espera. eclosão do Ser, é também o cuidado para a sua conservaçao. É
Esperar é ter fé em uma promessa de manifestação. É nesse con- zelar fazer brotar e tornar semente aquele a quem o Ser segreda
texto que Cézanne promete a Verdade : porque se sabe eleito, por o per~urso rumo ao indizível. Cultivar é desenvolver o ser -poeta
ela, em sua Pintura. Sua Pintura, enquanto 11m gênero da Arte contido no estar-aí e abandonado por aqueles que não se dedicam
representativa, na simplicidade de ex-por o simples, cumpriu o as raízes, ao solo . Cultivar é colocar água na medida certa,
seu projeto de presentar o des-velado. Como exemplo de sua obra, podar, retirar as ervas daninhas e as pragas que ameaçam sugar a
Heidegger reflete sob r e a figura "Le Portrait de Vallier " . Neste flor. Cultivar não é uma recreação do jardineiro, mas a tarefa
retrato, é a universalidade do estar-aí que surge em sua digni- na qual todo o seu tempo é dedicado à Natureza, à beleza contida
dade de "pastor": daquele que, indo além do aparente, vem-a-ser na floração.
o jardineiro que zela e protege a Terra, fertilizando o Mundo.
Sentado, de pernas cruzadas e mão sobre os joelhos, Vallier "Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os
um rosto apenas contornado -- aguarda. jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, i cultivada, i favo-
recida. Mas não há jardineiros para os homens".(39)
"cézanne
Dá a pensar o repouso da figura, tranquila Os jardineiros dos homens são os artistas. Eles restauram a
dentro do aberto, do velho jardineiro Vallier, sua dignidade, cultivam seu exercício para a transcendência, en-
ele que cultivava o inaparente ao longo SLnam as trilhas que conduzem à Verdade. Essencialmente poetas,
do caminho de Lauves. em suas obras cultivam uma nova dimensão, o Mundo, preparando-o
Dentro da obra tardia do pintor, a diferença para ser o lugar que acolhe o estar -aí, lugar de habitação. Ha-
do que vem da presença e da presença mesma bitar o Mundo é ser plenamente Homem: é criar raízes em seu so-
se uni fica em simplicidade, ela é 'realizada' e lo. O estar-aí raíz ec - sistente arraigada ao Ser, retornando ao
simultaneamente restituída a ela mesma, seu elemento ~riginário, ouve os pren~ncios de uma nova era na

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qual lhe será restituído o seu Mundo, ~ seu ser-em ... Nutrido 24- Sobre a relação entre liberdade e Verdade, Cf. Id. Sobre a
pela Verdade dO,Ser, umedecid~ enquanto area valiosa para a cul- essência da verdade, p. 31-38.
tura, o estar-a1 resplandecera no encalço de sua autenticidade, 25- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.18-19.
dirigido pelo brilho da Verdade. 26- Id., ibid., p. 19.
27- Id., ibid., p. 20-2l.
28- Id. Introdução à metafísica, p.62.
29- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: H01zwege, p.9.
30- O "Barroco" foi uma época da História da Arte cunhada pela
NOTAS Alegoria. Contudo, em seu interior, Albrecht Duerer, em "Melan-
colia I", teve acesso ao simbólico. Indo além da definição de
Melancolia como "bílis negra", ele dá asas à sua figura da Me-
lancolia,libertando-a, pela possibilidade do vôo. Mostra, assim,
1- Cf. DE WAELHENS, Alphonse. Le dévoilement de la vérité et la a constituição própria do estar-aí, conciliando o peso de sua
pensée de M. Heidegger. ln: Phénoménologie et Vérité. 2e éd. missão des-veladora ao aberto do Mundo. A partir dela podemos
Louvain/paris, Béatrice-Nauwelaerts, 1965, p. 61-158. Cf. GALAN, definir o estar-aí como uma finitude que se transcende. Duerer,
Pedro Celerzo. Arte, verdad y ser en Heidegger; la estética en ultrapassando ao seu tempo, conduziu a Arte à sua autenticidade.
el 'sistema de Heidegger. Madrid, Fundación Universitaire Espanó- 31- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: H01z-
la, 1963, 273p. Cf. SADZIK, Joseph . Esthétique de Martin Heideg- wege, p. 56-57.
ger . Paris, Universitaires, 1963, 212 p. Encyclopédie Univer- 32- Pintor impressionista, nascido em Aix-en-Provence, que viveu
sitaire. entre 1839 e 1906.
2- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holz- 33- DERRIDA, Jacques. La ver1te en peinture . Paris, Flammarion,
wege, p. 63 e 42. 1978, p.6. Champ Philosophique 57.
3- Id. Le séminaire de Zaehringen. ln : Questions IV, p.335. 34- Em sua visita a Provence, Heidegger capta, na ob ra de Cézan-
4- Id., ibid., p. 335. ne, a contiguidade da relação do pintor com' O modo essencial de
5- Cf. PLATÃO. La République ou de la Justice. ln: Oeuvres pronunciar o Ser. Cf. POEGGELER, Otto. Neue Wege mit Heidegger?
comp1étes, livro X, p. 1231-1241. Vol.I. ln: Philosophische Rundschau; eine Zeitscriff fuer Philosophie
6- Para Heidegger o A-Ietheuein é a possibilidade do "não", da Kritik. Tuebingen, J.C.B. Mohr, (Paul Siebeck). 29. Jahrgang,
limitação, por ele referido ao Ser e ao estar-aí. Heft 1/2, 1982 , p. 46-47, 53.
7- HEIDEGGER, Martin. Hegel e OS gregos (Hegel un die Grie- 35- HEIDEGGER, Martin. Gedachtes. ln: Les Cahiers de l'Herne.
chen) Tradução de Ernildo Stein e revisão de José Geraldo No- Paris, l'Herne, 1971, p. 186. n9 15 (consacré a René Char).
gueira Moutinho. são Paulo, Duas Cidades, 1971, p.124. 36- Id., ibid., p. 182.
8- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.48. 37- Id. Introdução à metafísica, p. 185.
9- Id., ibid., p. 25. 38- "Com seu dizer, o pensar abre sulcos invisíveis na li~gua­
10- Cf. Id. Que é metafísica? p.48. gemo Eles são mais invisíveis que os sulcos que o campones, a
11- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.67. pas so lento, traça pe lo campo". ld. Sobre o 'humanismo'. ln: Os
12- Id., ibid., p.67. Pensadores, p.373.
13- Convém r essa ltar que as análises heideggerianas se restrigem 39- SAINT- EXUPÉRY, Antoine de. Terra dos Homens (Terre des
a duas obras: "ein Paar Bauernschuhe", de Van Gogh, e "le Por- Hommes). Tradução de Rubem Braga. 25. ed. Rio de Janeiro, José
trait et Vallier", de Cézanne. Olympio, 1983, p. 155.
14- HEIDEGGER, Martin. Sein und Zeit, p.7.
15- Cf. Id. Das Ding. ln: Vortraege und Aufaetze, p.163-186.
16- Id. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holzwege, p.9.
17-Id ., ibid., p. 16.
18- O "ente- à-mão", ao qual nos referimos brevemente aqui e no
capítulo I, será desenvolvido no capítu lo VI deste livro.
19- HEIDEGGER, Martin. Der Ursp~ung des Kunstwerkes. ln: Holz-
wege, p. 13.
20- Id., ibid., p.19.
21- Id., ibid., p.20.
22- Liberar a obra significa contemplá-la: descrevendo
simplesmente o produto, sem nenhuma teoria filosófica".
Id . , ibid, p. 17.
23- Id., ibid . , p.17, e 18.

118 119
Capítulo VI

A Arte: uma passagem do fazer do estar-aí


como ser-no-Mundo à habitação do Mundo.

Corno a busca do sentido do Ser e a ques~ão fundamental que


norteia todo o pensar heideggeriano, e necessario que recupere-
mos as duas fases nas quais se articula esse pensar. Na primei-
ra, o fazer é definido corno um modo de ser do estar-aí, que lida
com os entes disponíveis no interior do Mundo. Na segunda, o
fazer é definido de três formas: co~o algo secundário, oposto ao
teorizar metafísico acerca do ente sub~istente, corno um modo de
comportamento voltado para o ente disponível, 'visando ~ sua do-
minação -- no fazer técnico; corno um fazer essencialmente cria-
tivo, poético, artístico que visa ao des-velamento do Ser.
Diante disso, para aprofundarmos o percurso trilhado por
Heidegger, é necessário que desenvolvamos alguns ternas a que nos
referimos anteriormente. Para tanto, iniciaremos nossas análises
a partir de Seio und Zeit, obra que assinala a gênese deste
pensar precursor. Pensar que se constitui refletindo, construin-
do, des-truindo (aquilo que o afasta do Ser) e se re-construin-
do. Seu pano de fundo é a relação entre Ser e estar-aí, encober-
ta ou expressa nos modos pelos quais este ente, de acordo com
"' sua constituição, se manifesta epocalmente.
Em Seio und Zeit, o Método Fenomenológico(l), fio condutor
das an.álises elaboradas por Heidegger, se constitui caro Fenomeno-
logia Ontológica e corno Fenomenologia Hermenêutica .Como o estar-
aí é o ente que se constitui pQr sua abertura primordial para o
Ser, essencializando-se corno o lugar de todo o aparecer, Heideg-
ger. elabora a Ontologia Fundamental. A Ontologia Fundamental é
caracterizada por três elementos básicos: é "Hermenêutica"
considerando-se que o estar-aí não é definido pelo conhecimento
(por um ato isolado deste ente diante do Ser), mas pelo compre-
ender (que designa, no encontro com o des-velado, o seu mod o
mais próprio de ser); é "Temporal" -- tendo em vista que o horizon-
te de compreensão do estar-aí e de re-velação do Ser é o Tempo;
e é "Existencial" -- , pois some~te mediante a existência e os
momentos que a compõem se dara o acesso ao Ser. Sua meta é a
busca daquilo que se manifesta em sua possibilidade própria de
tornar-se manifesto, bem corno a re-colocação da problemática
metafísica em termos malS originários. Por seu intermédio, aqui-
lo que é significativo no ente, ou seja, o sentido do Ser, será
interpelado na cotidianeidade do estar-aí.

121
Ainda no tocante ao Cuidado, Heidegger'poderia ter estabele-
cido um vínculo entre o estar-aí e a poesia(8), brevemente cita-
Este processo se fará através da "Analítica Existencial"(2). O
da em Sein und Zeit.
ponto de p~r~ida da Analítica Existencial reside no fato de que
o estar-al e no-Mundo, enquanto age pa~a modificá-lo, ao passo "A comunicação das possibilidades existenciais do sentimen-
q~e os outros.entes_ -- a pedra, o animal, a planta, etc ... to de situação, isto é, da revelação da existência, pode formar
tem seu ser flXO, sao fechados neles mesmos, auto -pr esentes, sem o fim pr6prio de um discurso 'poético'".(9)
Mundo.
. S~r-no-Mundo significa, para,o estar-aí: ec-sistir, estar Pode, mas não é este o momento de sua elucidação no pensar
d15ponlve~ ao aberto do Ser, escuta-lo"compreendê-Io e re-velá- heideggeriano. A Linguagem poética terá de aguardar a sua rele-
lo atraves da Lingu~gem. Contudo, como é inerente ao des-velado vância, quando da elaboração das obras da segunda fase do pensa-
velar-se, ao estar-al, enquanto finitude -temporal, cabe ausen- mento de Heidegger. Nelas, como já o dissemos, o estar -aí corno
ta:-se dO,Ser. Isto ocorre qu~ndo ele se apega àquilo que lhe é ser-no-Mundo temporal des-vela o Ser por meio das três modalida-
malS acesslvel,a um contacto flS1CO, ao familiar, ao e nt e. Este des de encontro com o essencial: pensamento, poesia e arte.
comportamento e denominado "in-sistência". Feito pelo Cuidado, o estar-a í faz-se a si mesmo enquanto
~Insistente o homem está voltado para o que e mais corrente
se busca.
em melO ao ente ". "Ek-sistente, o ser-aí é in-sistente"(3). "A perfectio do estar-aí, o tornar-se aquilo que em seu ser
Enquanto finito, o estar -aí tende a afastar-se tanto do Ser e, livre para suas possibilidades inalienáveis (o projeto), é um
quanto de si mesmo, perdendo-se em meio à inautenticidade à
resultado do 'Cuidado"'. (10)
aparência. Mas, enquanto transcendência, este ente cuida de si e O Cuidado, estrutura básica do estar-aí como ser-no-Mundo,
compreendendo-se busca projetar-se, escolher-se essencialmente. está vinculado à compreensão e à temporalidade. Por intermédio
Nesse ~ontexto, He~degger, :ecorrendo,à fábu~a nQ 220 de Higino, de ambas este ente se constitui historicamente. A História é o
acena,a compreensao espont-;nea e "pre-ontologica"(4), que o es- processo no interior do qual o estar-aí se edifica e constrói,
tar-al tem de seu ser. Ela e retratada por intermédio do Cuidado enquanto lhe compete transcender-se, em suas Ek-stases (11),
(Sorge), que ocupa um lugar fundamental em Sein und Zeit. temporais: passado, presente e futuro, que constituem a unidade
"Quando um dia o Cuidado atravessou o rio viu ele terra em de seu ser.
O passado é a "facticidade"(12), por meio do qual o estar-
forma oe barro: meditando, tomou uma parte de~a e começou a dar- aí se compreende corno já- sendo e já- senda-assim (de modo es.pecí-
l~e .forma. Enquanto medita sobre o que havia criado, aproxima-se
fico, com tais caracte rísticas físicas e psicológicas). t o
Juplter. A ele o Cuidado solicita que dê espírito a esta figura vir -a-si, posto que o estar-aí é enquanto diz "eu tenho sido" --
~scuIPid~ de ba:ro. Quando, no entanto, o Cuidado quis dar nome e este dado é vital para o acesso ao que ele.é agora e ao que
a sua fIgura, Jupiter o proibiu e exigiu que fosse dado o seu sera. O passado afeta sempre a existência como um todo.
nome. Enquanto o Cuidado e Júpiter discutiam sobre os nomes le-
vantou-s: também a Terra e desejou que à figura fosse dado ~ seu O presente é a decaída, a reificação. t a condição de pos-
nome, Ja que ela lhe tinha oferecido uma parte de seu corpo. Os sibilidade mais imediata de ser-no-Mundo, situada na auto-pre-
conflitantes tomaram Saturno para juiz. Saturno pronunciou-lhes sença enquanto afastamento de si e do Ser.
a seguinte,sentença, ap~rentemente justa: Tu, Júpiter, porque O futuro é o por-vir, a crítica : ele não deve ser entendido
deste o espIrita, receberas na sua morte o espírito; tu, Terra, corno um agora que ainda não chegou cronologicamente, mas no sen-
porque lhe.pr~senteaste o corpo, receberás o corpo. Mas porque o tido prioritário que tem em relação aos outros dois momentos,
CUIdado prImeIro formou esta criatura, irá o Cuidado possuí-la pois designa a transcendência, o sair de si, o abrir-se para no-
enquanto ela viver. Como, porém, há discordância sobre o nome, vas possibilidades, o importar-se com o seu ser.
irá chamar-se homo, já que é feita de hu.mus (ter ra)" (5). O Cuidado, vinculando -se à finitude temporal, assinalada
pela Morte, re-vela ao estar-aí a totalidade de sua existência.
Sat~rno, o Tempo, entrega a existência do estar-aí ao Cui- Isso porque a Mo rt e é um impulso qu~ leva cada um a enfrentar a
dado. Heldegger, que poderia ter se aprofundado nas análises dos sua nudez, o seu existir autêntico. t necessário que o estar-aí
e~eme~tos metaforicos contidos nesta fábula, ~ão o fez. Ele tam- se compreenda em sua essencia irredutível, quer dizer, que ele
bem nao se interroga sobre os motivos que teriam levado o Cuida- decida pelo uso de sua liberdade, assuma a própria sorte, com
do a atravessar o rio, se em sua margem também havia barro. Por todo o peso que cada escolha limitadora traz. Ele não pode a-
que o CUldado medita sobre a sua obra?(6) diar as suas decisões, pois não lhe compete a posse de seu Tem-
. Estas que~tões ficam se"! resposta, pois o objetivode Heidegger po, depositada na Morte. Em seu carát~r irreversível, certo e
vlsa_ ao cumpr lme~to de uma unic~ finalidade: explicar a co nsti- absoluto" a Morte é definida como" ... a possibilidade da impos-
tUlça~ do estar-al,sem recorrer as teorias filosóficas. Situando sibilidade de ser-no - Mundo". (13)
o ~uldado em um nlvel de anterioridade em relação ~ "'teoria' e
, pr a XIS.
. '" (7). ' e 1 e,une os elementos dissociados pela Metafísica
dando prIorldade a práxis. '

122 123
Esta possibilidade radical não compete ao estar-aí esco- o manejável, a obra. O ente disponível é aquele que, estando à
lher, pois é inevitável que ela advenha. Cumpre-lhe antecipar-se mão, se oferece ao "uso", à "práxis" cotidiana(19), enquanto
a ela, sem medo, na atitude resoluta de quem sabe que depende modo concreto de ser que antecede a toda e qualquer teoria sobre
unicamente de si o acesso ao sentido da vida, ao ser mais Homem. os entes. O lidar com os entes situa-se em um horizonte mais
Expressão do Cuidado, a "Angústia Existencial"(14) coloca o es- imediato e mais originário que a elaboração de um saber temático
tar-aí diante de seu mais originário poder-ser, de seu ser-no- (20) acerca dos mesmos. Isso porque o estar-aí não precisa sa-
-Mundo, de seu Mundo. ber, constantemente, o que é um utensílio para usá-lo adequada-
Assim, o Cuidado aponta ao estar-aí a sua ec-sistência e mente, nem tão pouco que ele é uma pessoa. Na utilização está
morte, o encontro com o Ser e com os entes que o circundam. implícita uma pré-compreensão dos entes. Por exemplo: acende-se
"A estrutura do cuidado como ser-adiante-de-si-mesmo- ja- uma lâmpada para iluminar e veste - se uma roupa para abrigar o
_perto-de-um-mundo-como-ser-perto-do-ente-intramundano traz em corpo, nunca ocorrendo, em uma pessoa normal, o impulso para
si a abertura e a revelação do ser-aí".(15) agir de modo contrário.
O espaço ontológico, concernente ao estar-aí, designa a ca- Contudo, em seu fazer, o estar-aí não capta apenas o condu-
pacidade que.este ente pos~ui de dar se~tido aos entes, situan- zir de um ente- à-mão ao outro, mas um remetimento à própria
do-os, organ1zando-os. Ass1m, o estar-a1 " ... permite ao ente ser dimensão humana. Na finalidade da obra, no "para-quê" ela é
encontrado na proximidade". (16) feita, está sempre subjacente o "para-quem" ela se endereça.
Nesse quadro, uma modalidade básica do estar-aí ser-no-Mun- Um outro estar-aí está sempre presente na obra: o seu des-
do é o ser~ao~l~do-de, que implica um ambiente propício ao seu tinatário. O Homem nunca pode ser sozinho, pois sendo-no -Mundo
fazer-se h1stor1co. Tendo que ser, o estar-aí faz-se no cotidia- é, relacionando-se com os Outros(21), que o auxiliam, direta ou
no, loc~l mesmo de seu contacto com os entes intramundanos. indiretamente, no desenvolvimento de sua autenticidade ou inau-
Os entes,_por sua vez, só podem ser descobertos pelo estar- tenticidade, bem como em seu fazer. A madeira usada pelo carpin-
-aí po:que estao p:imo:dialmente no Mundo e, assim, se tornam o teiro provém de uma árvore, que remete progressivamente àquele
que sao. O Mundo e o ambito no qual Heidegger situará em Seio que lida com a terra, planta ou corta a madeira. Na práxis se
und Zeit, a partir do mundo ambiente (Umwelt) do esta~-aí as des-vela o mundo ambiente, o lugar onde o estar-aí é e se ende-
duas modalidades pelas quais os entes intramundanos são. EI~s se reça ao ente, que também se envia a ele.
manifestam, primeiramente, no lidar cotidiano, corno o que "está
à mão" (Zuhanden), e, posteriormente, como o que "está à vista" "Ao mesmo tempo que se desvenda o mundo ambiente, se ofere-
(vorhaodeo) . ce uma 'natureza' por ele descoberta".
Partiremos da .análise d~stes entes para desembocarmos, "Com o estar-aí aparece o mundo onde vivem os usujrios e
circularmente, no proprio Mundo enquanto possibilidade de o ente consumidores, mundo que j tambjm nosso mundo~.(22)
ser descoberto ou encoberto pelo estar-aí. Nossa análise deter-
se- á, inic ialmente, no ente- à-mão, também denominado "u tens í- Presente aos entes, em sua práxis cotidiana, o estar-a í tem
lio" (Zeug, Gebrauchsdiog) enquanto, em sua disponibilidade se acesso ao Ser, ao aberto do Mundo. Contudo, sua referência aos
ofere~e ~o estar-aí. Os.utensílios estão sempre em correlaçã~ e entes ocorre não somente quando lida com eles, mas também quando
referenC1a, em seu serV1r para algo. não presta atenção a eles.
" ... um utensílio não' é' jamais sozinho", ele e essen- No dia-a-dia, agimos quase mecanicamente: levantamos
cialmente "qualquer coisa por ... ", " ... 'por' contém um enviar". muitas vezes acordados pelo despertador --, nos banhamos, toma-
·(ln mos café e saímos de casa, servindo-no s da passagem por determi-
A corre~ação mostra-se, por exemplo, quando entramos em uma nados compartimentos do local onde habitamos. Atingindo a porta
sala: nela nao reconhecemos primeiramente urna mesa, depois uma da rua, servindo-no s ou não do elevador, colocamo -nos a caminho
cadeira ou um foco de luz -- objetos isolados -- mas a unidade do estabelecimento de trabalho ou de estudo, seguindo sempre o
que é constitutiva da sala( 18). Esta unidade é des~oberta também mesmo percurso, utilizando-nos do carro, do ônibus, do metrô, do
pelo fazer, P?r ~eio da obr~ .ou tarefa a que ele é endereçado. trem, do táxi, etc. Paramos nossa atividade à hora do almoço e
Nela, o ente- a-mao, o utens1110, se des-vela enquanto tal medi- retomamos o serviço, no mesmo ou em outro local, guiados pela
ante um outro ~ten:ílio. Por exemplo, um sapato -- que serve pressa, pela preocupação do fazer e dos horários -- o que cer-
para calçar os pes, e fei~o com couro, pregos, etc; ou uma casa ceia e limita nosso verdadeiro estar-preocupados --, até voltar-
-- que :erve ~ara m~rar, e feita com tijolos e outros materiais. mos novamente para casa. É o momento do jantar, de sentar para
Assim, e por 1ntermedio da obra a ser realizada que o estar-aí assistir à televisão, ler o jornal, estudar, conversar com aque-
tem acesso ao ente-disponível, de acordo com os materiais por les que nos cercam ou com os que estão mais distantes, usando o
ele utilizados. telefone, e depois dormir. Nos fins-de-semana e feriados, fugin-
O objetivo de Heidegger é atingir o modo de ser cotidiano e do da agitação, ou saímos da cidade ou permanecemos nela, fazen-
prático d~ estar-aí~ em seu relacionamento com aquilo que ele, do coisas diferentes como visitar os amigos, ir ao clube, ao
em seu 11dar cot1d1ano, produz. O que é produzido é o artefato, cinema, ao teatro ou fica~ simplesmente em casa desc~nsando,

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quem sabe, arrumando aqueles objetos com os quais nao tivemos como consumidor. Tal se esta belece na deterioração da relação do
tempo para nos ocupar. Homem com o Homem e com o ente, no seio da Técnica.
Ascendemos, assim, à peculiaridade do enfoque heideggeriano
Esse círculo vicioso leva-nos a não perceber a importância que norteia a consolidação do fazer em suas diferentes modalida-
do despertador, do veículo que serve para a locomoção, do ali- des: como metafísico, técnico, estético e artístico. No fazer
mento que ingerimos, do telefone, da televisão, dos entes que originário já se encontram as sernen~es do que é a Arte:a criação
estão à nossa volta e com os quais convivemos. Estes entes que a partir daquilo que se des-cerra, no Tempo, no Mundo. A Arte é
nos servem sao tão familiares e conhecidos por nós, pelo uso o atuar autêntico, que se distingue de todo o agir que visa . a
diário que deles fa~emos, que, em meio ao óbvio, o sentido mesmo subordinar o ente na fabricação. Ambos dependem da compreen-
deles se esvazia; ha uma perda, na repetição cotidiana, da es- são que o estar-aí tem de si, bem como da finalidade à ' qual se
sencialidade que não somente norteia o agir, mas o pensar e a dirige o seu manusear. Nesse contexto, fazer autenticamente sig-
Linguagem do estar-aí. nifica: escolher as possibilidades de estar-junto, de envolver-
Percebemos a importância dos múltiplos entes com os quais se e interessar-se pelos entes ci rcundantes, por si mesmo, pelo
lidamos apenas quando eles nos faltam ou falham. Nesses momentos Ser. Nele está implí cita a relação do estar-aí com o Mundo.
rompe-se a imediaticidade: é como se acordássemos de um sonho no Após estas colocações, deter-nos-emos brevemente a aborda-
qual o normal se revela em sua a-normalidade, na quebra da es- gem do ente intramundano enquanto aquilo que "está- à-vista"
trutura cotidiana onde tudo está disponível. Ocorre o que pode- (Vorhanden). Esta via de acesso ao ente é obtida por meio do
ríamos denominar um momento de emergência, uma situação crítica. co~hecimento, da conceituação, enfim, da teoria sempre oposta à
Faltando a energia percebemos a importância da luz; na greve dos praxis.
meios de transporte, sentimos a necessidade dos mesmos para a A História da Filosofi~, enquanto Metafísica, consolida
locomoção; sem gás, é impossível cozinhar; sem papel, não se tem esta postura, ja presente na epoca grega. O ente- à-vista carac-
onde escrever; se os correios paralisam, a correspondência atra- teriza-se por ser "subsistente"(26): à diferença do ente dispo-
sa; enfim, percebemos o quanto somos limitados pela ausência dos nível, não se situa no sistema de remetimento e vinculação. Pelo
entes que nos servem. contrário, ele tem necessidade de outro ente para especificá-lo.
Contudo, na "falta" de um ente disponível, diz Heidegger: Apropriando-se deste dado, o conhecimento atribui a sí a tarefa
de especificá-lo, caracterizando este ente como substância, como
"~ novamente o mundo ambiente que se anuncia". "~ preci- coisa.No conhecer há uma apropriação do ente pelo intelecto: es-
samente esta não manifestação do mundo que constitui a estrutura te é definido como um objeto posto pelo sujeito. Surgem as dico-
fenomenal do ser-em-si deste ente".(23) tomias que separam o que até então estivera vinculado: o estar-
-aí e o ente. Sujeito e objeto, eu e Mundo, são agora opostos.
O Mundo manifesta-se, assim, tanto no remetimento e unidade Por seu ato de conhecer, o Homem não permite a manifestação es-
dos utensílios quanto nos momentos em que há uma ruptura no sis- pontânea do ente, considerando aqui que dispõe de categorias que
tema de e nvio que lhes é peculiar. A descoberta do Mundo e a-te- o determinam antecipadamente. Na esfera do conhecer instaura-se
mática, visto que emerge no fazer e agir cotidianos e não no co- o fechamento na subjetividade. A ela se oculta um dado fundamen-
nhecer. Neste primeiro acesso do estar-aí ao ente intramundano ta I:
está contida também a compreens'ã o do âmbito da "significabilida- 'não há' ente disponível que não sobre a base do ente
de"(24), que designa o Mundo. Em Sein und Zeit, o Mundo nomeia a subsistente". (27)
abertura do Ser, na qual o estar-aí, enquanto ec-sistente, é. O É o Ser que se des-vela no ente- a-mao e no ente- à-vis-
Mundo é um "existenc~al"(25), pois vincula-se à compreensão, a ta. Contudo, o conhecimento fixa-se apenas em uma região do des-
descoberta e re-velaçao -- existenciais que constituem o estar- -velado e a toma como absoluta, apropriando-se tematicamente
. -aí -- do essencial no Tempo. dela. O ente subsistente torna-se uma coisa passível de ser
Lidando co~ o ente no manusear, o estar-aí enquanto obra do manipulada. Passa-se do acesso pré-ontológico ao ente disponível
Cuidado é o obreiro do ente. Contudo, ele somente pode produzir no fazer, às categorias ônticas que se sobrepõem à esfera do
a partir daquilo que é~ em sua gênese, pro-dução, da Natureza. ontológico. As consequências desta postura sao: a compreensão
Reabilitando a noç~o grega da Physis vinculada à práxis, Heideg- cede seu lugar ao conhecimento, o fazer ao teorizar, o Ser ao
ger coloca o fazer no nível do que concerne essencialmente ao ente. Se em Sein und Zeit o fazer acena à caract erística funda-
estar-aí. Ultrapassando o enfoque da Natureza como o local onde mental do estar-aí, ao seu ser-no-mundo, o conhecer metafísico-
os entes são e retornando à Physis, Heidegger executa a passagem -técnico-estético caracteriza-se pela perda da possibilidade do
da in~erção na cotidianeidade ao horizont e do Mundo. Isso por- ser-em, do Mundo. O Homem, distante do Ser, perambula, errante
que ,mesmo lidando com o ente disponível,pode-se camuflar a refe- em meio à Terra. Aqui convém que explicitemos novamente a carac-
rên cia à sua ~otalidade. O mesmo pode ocorrer quando o agir, terística do homem de hoje: a perda do Mundo. Passando de um
tornado utilitario, confunde o fazer primordial com a reprodução ente ao outro, rompendo o equilíbrio com a totalidade do Ser, o
do ente. O ente torna-se objeto e o Outro é visado unicamente Homem se torna estranho n~ local que lhe e mais proprio.
~, I

126 127
"O ente jj não se afirma (i. j. não se conserva, como Nas obras que sucederam a Kehre, o habitar (diferente do
tal). Ai o ente j apenas achado. Torna-se um achado. O perfeito fazer) continua a ter um destaque importante, nos diferentes
(das Vollendete) jj não j o que se estabelece dentro de limites enfoques a ele atribuídos. Em Ueber den Humanismus, o estar - aí
(i. j. que alcança a plenitude de sua forma) mas só o que estj habita a Linguagem, a casa do ser, a sua Verdade(30) . No ensaio
pronto e, como tal, à disposição de todo mundo. É o objetiva- "Bauen, Denken, Wohnen" contido na obra de Vortraege und Aufsae-
mente dado, onde já não se instaura nenhum mundo. Ao invjs, o tze (31) é buscada a autenticidade do habitar. Como na época
homem põe e dispõe do dispon{vel".(28) grega, o habitar é um projeto criador no qual, por meio do sim-
bólico, pode - se ter acesso aos parentescos ocultos que se esta-
É importa nte notar como as duas modalidades de manifesta- belecem entre tudo o que é. Se estabelecermos um parentesco en-
ção do ente são radicalizadas no decorrer das épocas. Heideg- tre habitar, cuidar e cultivar, segue-se que o estar-aí é en-
ger, e m Sein und Zeit, dá prioridade ao ente- à-mão, ao ente- quanto cultiva. Cultivar, como foi dito no final do capítulo
-di sponível que propicia uma abertura do estar-aí ao Mundo. anterior, é germinar a terra, dar condições propícias para o seu
Nessa obra, ele não deixa de reiterar a unidade indissol~vel silencioso desabrochar. Tarefa do camponês e do jardineiro,
destas modalidades, no âmbito da totalidade. Acena, no entanto, atentos as larvas que tentam devastar o campo, a plantação, o
a primazia de uma sobre outra. enigma do Ser enquanto inaparente. O habitar, enquanto cultiva,
Abordando a gênese do pensar pré-s oc rático, a Metafísica e e uma adesão artístico -poe máti ca ao Ser.
a Estética, Heidegger denuncia que o subsídio dessas correntes Convém pois que explici t emos o porquê da identificação en-
de pensamento, é o ente- à-vista, o subsistente . Atendo-se a tre o Cuidado e a Cultura. O habitar, no se ntid o de criar raízes
ele, somente os gregos conseguiram preservar o Ser. no solo do Mundo remonta ao termo latino colere: ao cultivar, ao
Analisando criticamente a época técnica, Heidegger mostra cuidar. Enquanto o cuidar zela pela harmonia, Heidegger o iden-
que o seu fundamento se concentra no ente- à-mão, em sua dispo- tifica ao apaziguar.
nibilidade . Contudo, a Técnica aborda este ente em um enfoque
diferente daquele postulado em Sein und Zeit, pois se constitui "O termo paz (Friede) quer dizer o que ~ livre (das Freie,
como um fazer que visa à produção exacerbada para o consumo, a das Frye) e li vre (fry) significa, preservado dos perigos e ame-
utilidade. O ente é disponível para os desejos do sujeito sobe- aças, pr eservado de .. . isto ~, poupado".(32)
rano, enclausurado na Terra que se fecha sobre si mesma.
O caminho para superar esta situação foi po~ nós mencionado Refletindo sob r e o habitar autenticamente enquanto cuida r,
nos capítulos anteriores é a Arte Poemática, que é um dos temas termo que na época atual designa inautenticamente o construir,
c entrais da segunda fase do pensar heideggeriano. A Arte devol- Heidegger constata que:"O sentido próprio de bauen, habitar cai
verá ao Homem o seu estar-aí, como também a sua especificidade: no esquecime n to" . (33)
a habitação do Mundo . Estes dois aspectos essenciais foram con- Para recuperá-lo e necessario resgatar os vínculos que se
quistados por Heidegger, por meio da des-truição elahorada em estabelecem entre o habitar e o fazer artístico - criador, ou se -
Sein und Zeit . ja, transcender a esfera na qual se situa o fazer tecnológico.
Em Sein und Zeit o habita~ se refere ao lugar proprio onde Nele perdemos o Mundo como lugar de moradia. Nesse contexto su-
o es tar-aí é, onde se dá seu encontro com os entes, com o Ser, perador, a Arte surgirá não somente corno urna manifestação cul-
com o desbrochar de suas possibilidades de ser. Ora, esse lugar tural, mas como o alice r ce da Cultura, que institui o essencial
de acesso ao essencial é o Mundo. Sua função é servir de resi- ao nomeá-lo. Quanto mais a Cultura torna-se um cul t o ao essen -
dência ao estar-aí, bem como de destinar o des-velado . É o am- cial, tanto melhor a Civilização Ocidental estará vol ta da ao que
bito da proximidade e da relação. é elevado, afastando-se do transitório, das conquistas humanas
desvinculadas do Ser.
eu sou significa, pois, novamente, eu habito, eu moro Aprofundando as influências r ecebidas das épocas míti~a.e
no ... mundo, tal como ele me ~ familiar".·O estar-aí ... i pré - socrática, o Mundo r eceberá o cunho da ligação originaria
pois a expressão existencial for.al que designa o ser do estar- entre o visível e o invisível, entre a finitude e a transcendên -
-aí enquanto este possui, por contituição essencial, ser-no-.un- cia. Nele, o caminho de volta ao Ser, por meio da mediação do
do". (29) Sagrado, do divino e dos deuses, será elaborado pelo estar-aí. O
Mundo receberá o nome de Quaternidade, po is nele céu e terra,
Cuidando de si, o estar-aí cuida, concomitantemente, de seu divinos e mortais -- atualmente separados --, ascenderão a sua
Mundo, habitando-o em seu fazer-se histórico. Em Sein und Zeit, unidade primordial.
habitar é zelar pelo manifesto, preservá-lo, vincular-se origi-
nariamente ao Ser. A ele o estar-aí acede em se u lidar com o "Os mortais são na Quaternidade enquanto eles habitam. Ora,
ente disponível, na comp reensã o e no discurso. o traço fundamental da habitação ~ o cuidar de si (das Schonen).
Os mortais habitam de tal maneira que eles cuidam da Quaterni-
dade, deixando-a vol tar ao- seu ser". (34)

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Convém, pois, que explicitemos o significado da Quaternida- O estar-aí habita assumindo sua transitoriedade, s e u ser-
de. Esse termo acena às quatro dimensões_que constituem a desti- -terrestre liberando as c oisas em seu caráter sa c ral , sacramen-
nação do Ser: ao ,Homem, ao divino, ,à Terra e ao céu. O estar-aí, tal. A coi~a-sacramento é mais que uma mera coisa, é um símbolo.
enquanto Homem, e mortal. O Homem e no espaço e no Tempo -- no Como exemplo, Heidegger nos cita um "cântaro" (Krug) (37) ;um
qual edifica sua historicidade --, abrindo-se ao Ser. Como nos utensílio que serve para oferecer algo para beber. O conteudo
disse Rilke, em sua Duineser Elegien, compete ao Homem engran- nele depositado modifi c a-se segundo a finalidade à qual ele se
decer poeticamente o seu-ser-terrestre, na medida mesma em que destina. Ele pode conte~ a água -- que pode saciar a sede ou
escuta e responde ao apelo dos entes que o convocam para re-ve- o vinho -- que pode ser destinado ao prazer dos homens Ou ser
lá-los~
oferecido como um tributo de reconciliação aos deuses. Nesse
O estar-aí habita a Terra -- que lhe serve de solo e que segundo caso, na atitude de celebração de uma homenagem à divin-
concomitantemente se vela --, elevando-se ao céu -- enquanto o dade, há um resgate da terra fertilizada pela chuva e pel~ sol,
que se abre --, participando do enigma do divino, dos deuses e pelo ciclo da Natureza. É a Physis que eclode por intermedio da
do Sagrado no âmbito do des-velado. A época atual denuncia a gratidão humana, e nela a força mítica da intimidade e da unida-
ruptura da unidade na destinação do Ser: o Homem, enquanto su- de -- enquanto dimensões 'do habitar - se des-velam.
jeito, enclausura-se na Terra e, apegando-se ao ente -- conside- O estar-aí, pode promover este re-encontro por meio do cul -
rado como objeto --, afasta-se do envio epocal do Ser. O Ser tivo de sua dimensão poético-nomeadora, sinônimo do habitar a
dá-se no espaço e no Tempo, como o que se abre, concedendo a Quaternidade. Recorrendo a Hoelderlin, o pensador assume o seu
possibilidade de proximidade do essencial. dizer:
A Quaternidade nada mais é senão a reunião dos qua;ro ele- "Rico em méritos, mas como poeta
mentos pertencentes ao Ser. Neles penetrando, o estar-al perten- O homem habita sobre esta terra". (38)
ce ao des-velado, preparando a sua casa, o lugar de ' sua habita- Habitar poeticamente é instituir o Ser, arriscar- se, aban-
ção. O Mundo enquanto Quaternidade, é o lugar mesmo onde se donar a subjetividade rumo à entrega ao que merece ser salvo em
institui a Verdade do Ser, o mistério de seu velamento e des-ve- uma época indigente. Assim,
lamento. Ele é a Terra Natal, o lugar de origem, de intimidade e "A poesia é o verdadeiro' fazer habitar"'. (39)
coesão do que se fecha e do que se abre, com O estar -aí . É necessário a busca do habitar, situado no nível poéti-
"O ser da Quaternidade é o jogo do mundo. O jogo de espelho co, posto que o teorizar metafísico se caracteriza pela perda
do mundo é a ronda do fazer-aparecer". (35) desse elemento concernente a essência do estar-aí. Isto porque:
O jogo de espelhos é a imagem do que reflete o retorno à
infância à vida desse mortal que se instaura no silêncio que " ... a metafísica jamais proporcionou, por sua essência, ao
aguarda 'o desabrochar do que se ilumina. Compete ao estar-aí , habitar humano a possibilidade de se estabelecer propriamente na
enquanto ser-no - Mundo, deixar~ver o brilho do Ser. paragem~ isto ~, na essência do esquecimento do ser. ~ por isso
Um caminho que torna viavel essa missão é acenado por Hei- que o pensamento e a poesia devem retornar lá, onde,de certo mo -
degger através da poesia de Hoelderlin, que, retornando à Phy- do, já sempre tinham estado, e, 'contudo, nada construiram. Nós,
sis e ao Sagrado, denuncia a ausência dos deuses, anunciando a contudo, somente podemos preparar o habitar naquela paragem
necessidade do retorno à sua presença. Estar próximo aos deuses atrav~s do construir. A um tal construir quase não lhe ~ permi -
significa: habitar. A Physis designa, para os gregos, o local tido pensar já na edificação da casa para o Deus e das moradas
onde moram os deuses, local que hoje perdeu sua especificidade a para os mortais. Ele deve contentar-se em construir à margem
partir do fato de que a Physis designa somente a Terra. À esfe - do caminho que conduz de volta para a paragem da recuperação da
ra do Mundo, o homem da época atual poderá aceder através de uma metafísica e que, por isso, permite que percorramos e exploremos
volta ao Ser como sem- fundamento, ao des-velamento que dispensa o que ~ conveniente e está destinado para uma superação no nii-
o jogo de espelhos espaço -t emporal, a Quaternidade. Nela se res- lismo".(40)
gata o caráter historial do Ser e do estar-aí.
Como o homem de hoje poderá retornar à Quaternidade, à ha- O pensar-poetante atento ao habitar erige - se no que Heide-
bitação? A Linguagem poética não é sua ~nica alternativa, pois gger denomina a "lembrança"(41): lembrança da tarefa específica
as coisas que o circundam o convocam para uma comunhão, para uma do estar - aí de refletir o Ser em seu mostrar-se e ocultar-se.
penetração e acolhida daquilo que é. Receptivo ao Ser das coi- Acedemos, assim, ao significado do termo construir, citado
sas, o estar-aí reside no Mundo, isto é, na Verdade do Ser, na por Heidegger.
unlao dos quatro elementos que compoem o des-velamento. Habitar "Construir é, em seu ser, fazer-habitar".(42)
e, pois,' voltar ao des-velado, assumí-lo por me io da intimidade Vinculando o construir à pro-dução, . à Techne grega, Heideg-
com os entes que fazem parte do Mundo. ger enriquece o seu conte~do por intermédio do fazer aparecer,
" ... as coisas, em seu tempo, visitam os mortais, e nesta d~ presentar-se. O construir é, assim, o deixar-se convocar pela
visita, propriamente, há Mundo". (36) Quaternidade, a organização que visa a renovar o que foi im~en­
sado na tradição filosófica. Enquanto edificar, o construir e um

130 131
ato criador que funda o Ser e esclarece o estar-aí acerca de sua
situação como ser-no-Mundo. Construindo o estar-aí assume o Mun- elementos dispostos em uma fixidez. Pelo contrário, o espaço e
do como O lugar de sua residência, o torna habitado enquanto originariamente abertura, amplidão. Composto de lugares -- refe-
ocupa o espaço ontológico e nele permanece. Resgata, assim, o renciais de fato~ ou de posiç~es - - i o Ser do espaço consiste em
seu direito de habitante, assentando os alicerces de seu árduo dar lugar, isto e, em originar. Nesse contexto, Heidegger op~e o
trabalho na esfera de um pensamento voltado para o essencial. espaço vago ao vazio desocupado, ao desprovido, definindo-o co-
Pensamento de ruptura, dirigido para o Ser em sua identidade e mo:
diferença. " ... um conduzir-ao-descoberto"(47)
"'Construir' e pensar, cada um a sua maneira, são sempre O espaço é o que outorga o des-velamento a tudo o que nele
para a habitação inevitáveis e incontornáveis".(43) e: em seu interior -- no processo mesmo de abertura concernente
A autenticidade humana consiste no retorno a habitação de a cada,ente -- ocorre a manifestação. O espaço deixa-ser tudo o
sua Terra Natal, ao Ser enquanto pátria. Buscar o espaço do Ser, que es~a no espaço, sendo a abertura que designa o Mundo. Como O
re-dimensionar o seu esquecimento, significa: re-começar poeti- Mundo e Quaternidade, o espaço ontológico não nos remete apenas
camente. aos entes visíveis, mas à totalidade do que se refere à destina-
No poema o estar-aí cumpre sua tarefa: participa do des-ve- çao histórica do estar-aí.
lamento, ascende à condição humana de confiança naquilo que se "Espaçar ~ a dispensa dos locais onde um deus aparece, de
envia e, dedicando-se a ele, o exalta. A palavra poética, escri- onde os deuses fugiram, onde a aparição do divino tarda longa-
ta ou surgindo em imagens na obra de arte, contém o vigor ener- mente. Espaçamento ~: colocar em liberdade os lugares".
gético que auxilia a construção na qual se conserva a Terra e o "Deveríamos aprender a reconhecer que as coisas mesmas sao
Mundo, bem como a permanência humana em seu abrigo. Por isso, os lugares -- e que não estão somente em um determinado lugar".
referindo-se a outro poeta, Heidegger o define retratando o seu (48)
significado em uma imagem repleta de conte~do:
" ... Johann Peter Hebel é o amigo da casa". (44) O obje tivo de Heidegger é a busca da essencia do espaço
A amizade do amigo da casa se embasa na fidelidade que ele perd~da por intermédio da cópula sujeito-objeto, que fragmenta
dedica ao Mundo -- enquanto o protege -- e aos outros homens -- os varios espaços -- de acordo com a perspectiva de análise dos
aos quais quer expor o conte~do por ele apreendido no des-vela- especialistas --, coloca nd o em perigo a sua unidade primordial.
mento. O vínculo que este amigo mantém com os seus amigos reside Volta-se, assim, para o elemento que constitui o espaço enquanto
na palavra, palavra pronunciada após um período preparador, ger- tal.
minada no silêncio, com O intuído de transmitir o sentido pró- A espacialização, enquanto ordena os entes, nada mais é se -
prio do Mundo. Neste intercâmbio ganham tanto o poeta quanto não o conceder a cada um O seu lugar, como também o lugar mesmo
aqueles que o ouvem e o Ser salvaguardado pelo dizer. A habita- do estar-aí em meio aos entes. Podemos ter acesso ao lugar so-
ção atinge, assim, o seu ápice na Linguagem. mente quando penetrarmos naquilo que a região nos des-cerra,
isto é, na intimidade com as características mais próprias de
"A palavra enquanto significação sensível mede espaço que cada ente , que os especifica enquanto tais. É necessário, pois,
se estende da terra até o céu. A língua mantém aberto o domínio que definamos a região:
onde o homem, sobre a terra e sob o céu, habita a casa do mun- "Isto nomeia a livre vastidão" que penetra no seio do des-
ao". (45) -velado para " ... deixar abrir e desabrochar cada coisa em seu
repouso". (49)
O amigo da casa -- lugar de habitação -- é o amigo do Mun- Ora, o desabrochar e o recolhimento do Ser significam, para
do, do estar-aí e do Ser. os ·.~regos, Phys~s. Assim, a partir da penetração no aberto, na
A relação que a Arte Poemáti'ca mantem com a habitação da reglao, a coisa e um lugar -- posto que re~ne os entes na tota -
Quarternidade se instaura por meio do espaço -- que em Seio und lidade do Ser. Esse reunir, enquanto recolhimento, significa,
Zeit ocupou um segundo plano no tocante ao Tempo. Questionando- para os gregos, Lógos. Assim, captando o enviar-se da coisa-lu-
se sobre o que é o espaço em seu dar-se, bem como sobre a dife- gar, o estar -aí a deixa ser, sem impor categorias representati-
rença entre as várias determinaç~es que este adquire no decorrer vas no que se envia. Em sua atitude de "serenidade"(SO), de es -
das épocas, Heidegger reflete sobre a Escultura. Desvincular o pera, o estar-aí acolhe o Ser e, disponível à sua Verdade, pre-
espaço (Raum) de sua caracterização coisal, superar sua limita- sente a ela, habita o Mundo, habitando o Ser. É espacialmente
ção na partícula" é", significa abrir-se para o modo no qual a q~e esse ente acolhe a Quaternidade e a preserva em sua tempora -
Arte e ' o espaço se interpenetram. lldade. Somente aquele que se decide por seu ec-sistir autênti-
O significado do espaço(46), como dissemos anteriormente, co, ~sto é, em. abrir-se ao Ser, pode, através da resolução pela
acena à proximidade do estar-aí com os entes. Ao espaço concerne s:renldade, habltar o Mundo como O lugar de surgimento do onto-
a espacialização, o espaçamento que disp~e e ordena os entes que logico.
nele são. Esta ,disposição não se reduz às caraterísticas dos Liberto das teorias que limitam seu referencial à totalida-
~,
de do des-velado, o estar-aí volta-se originariamente para o

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rea 1 como o homem m1t1co e pré-socrático. o. .fizeram. Ele . contem-
. mantem intactas as coisas que a ele se dão, e permanecendo no
p 1a O Ser , encanta- se diante de sua s1mplic1dade,
" respe1ta
, o C1- âmbito da Physis, espanta-se diante do seu surgir. Desprovido
cIo da Physis, pronuncia o Ser enquanto Logos. O estar-a1 vo~- de sua subjetividade, desenvolve artisticamente o seu ser-poeta.
ta, assim, ao Mundo, ao encontro. com o des-velado-- do qual CU1- Rodin, artista essencial, poeta em seus traços, será por nós
da e cultiva para habltar poemat1camente. brevemente enfocado, ~ guisa de encerramento deste capítulo, não
Atingimos, assim, a dimensão onde Arte e espaço se vincu- por intermédio de suas obras, mas da palavra de um outro poeta
lam. A Arte é originariamente o lugar de combate,entre velamento que escreveu sobre ele: Rilke.
e des-velamento, a criação que origina e mantem os deuses, o " nas coisas artísticas o importante não e ter de-
divino o Sagrado, as coisas e o estar-aí. Na Arte e no espaço, terminada aparência ou produzir um efeito; trata-se sobretudo de
e o Ser que se põe em obra, na ação de seu realizar-se. Ora, o estarem bem feitas". (52)
obrar-se do Ser é a Verdade. Assim, Arte e espaço são o lugar O fazer bem é a disponibilidade de penetrar no mistério que
onde o verdadeiro -- enquanto pJemático e belo -- surge, habi- envolve o real, com urna "paciência madura", corno a deste Homem
tando a obra de arte. A obra de arte é a fonte de proveniência "que era um amante a quem nada podia resistir", a quem "todas as
da habitação autêntica do estar-aí, constituída pela busca do coisas se entregavam". (53)
acesso ~ Verdade. Corno exemplo de uma obra de arte na qual se A tarefa de Rodin tem corno modelo e fonte a Physis, enqu an-
estabelece a relação entre Arte e espaço, citaremos a Escultura. to perfeição, plenitude.

nA escultura seria entio uma incorporaçio dos lugares que, "Assombrado, recolhe um cogumelo e o mostra a madame Rodin
abrindo uma regiio e a tomando em guarda, reúne em torno dela o que, como ele, nio abandonou as sendas tempo ris . 'Olha', lhe diz
livre que concede a toda coisa o seu habitar e aos homens a ha- comovido: 'e isto necessita só de uma noite; em uma noite está
bitaçio em meio is coisas". feito, todas as folhinhas. ~ um bom trabalho".(54)
nA escultura: uma incorporaçio da verdade do ser em sua
obra instituinte de lugares".(51) Respeitando o processo cíclico da Natureza e assumindo-o no
interior de seu próprio ser, Rodin sabe que o artista não pode
O Ser, em seu des-velar-se, é o remeter ~ unidade indisso- queimar etapas, pois precisa acatar todo o movimento velador-
lúvel da Quaternidade, ao Mundo, ao verdadeiro. Eclodindo em -de s - velador que conduz os entes e as obras de arte.~ sua flora-
palavras ou imagens, ele se presenta ao estar -aí que, presente a ção. Em seu trabalho mostra-se um desabrochar criador lentamen-
ele ec -sistent e, o habita. Contudo, como o Ser também se ocul - te esperado, que cultiva e habita o Ser, originando obras de urna
ta,' convém ressaltar que nem a Arte, nem o estar-aí possuem o profundidade singular.
Ser. A posse refere-se sempre a um objeto, ao que pode ser ad- Incompreendido em sua epoca, por instaurar a dimensão da
quirido. O Homem da época técnica, cuja vontade de conquistar é ' Quaternidade, por ter acesso ao Ser, acatando a beleza das coi-
aparentemepte satisfeita, não pode conquistar o Ser. O Ser, en- sas mais ínfimas e fugidias, Rodin buscou a Verdade. Assumiu o
quanto dom, se outorga ao estar-aí. O mérito do estar-aí consis - risco, lan çou -se para além de todos os fundamentos, cap~o~ o
te, pois, em colocar-se a caminho, em buscar o des-velado medi- velamento bem corno o impulso de superá -lo, no momento prop1c10.
ante o percurso de sendas, tendo sempre corno possibilidade o Captou, assim, o enigma das coisas.
fato de muitas vezes chegar somente a um beco sem saída. Assu-
mindo-se e ao Ser, o estar -aí, enquanto finito, não almeja com- "Acaso nio reconhecem elas mesmas sua tensio trágica
preender a totalidade do Ser, porém, disponível ao seu advento, elas, as luminosas, as que em seu desamparo têm arrancado o céu
empreende um caminhar que não oferece lugares, mas apenas ris- e o têm atraído para si? E as que estio aí paradas, e que nenhum
cos . Seu grande mérito consiste no exercício da persistência, edifício pode conter? Estio no espaço. Que nos importam?" "Somos
pois de um beco sem saída também se tem urna volta. um povo nômade, todos, nio porque nio tenhamos uma casa onde fi-
Como Heidegger em seu texto "Die Kunst und Der Raum" refe- car e construir,mas porque já nio temos uma casa em comum".(55)
re - se ~s Artes Plástic~s e especificamente ~ Escultura, sem con-
tudo citar o nome de nenhum escultor, escolhemos um artista que, Corno os poetas, Rodin captou a indigência de sua época, seu
a nosso ver, preenche os requisit os para ser tornado corno modelo caráter tecnicizante, que gera a perda desta "casa em comum" que
da Arte enquanto Ontologia. Seu nome é Auguste Rodin (1840-1917). é a habitação do Mundo. Para superar esta perda, re-estabelece
A pureza e a harmonia contidas nas obras de Rodin manifestam sua em suas obras o ser-em-relação com a Physis, instaurando o âmbi-
comunhão com o Ser, sua atitude perene de contemplação da Natu- to do habitar em sua Escultura.
reza, e disposição ao des-velado. Atinge, assim, o âmbito ao
qual um dia. a Arte Helênica acedeu. UE quando diante da paisagem dizia: 'eis aí todos os esti-
Elaborando urna Arte que transcende a dimensão estética que los futuros', isso já se dirigia aos homens que viriam depois.
objetiva o ente e assume corno função criar o Belo, Rodin o pers- Suas coisas nio podiam esperar; tinham que ser feitas. Há muito
cruta. Corno Hoelçerlin, o poeta eleito por Heidegger, Rodin tempo ele havia previsto seu desamparo. Só ficava nele a opçio

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de agora: a de ganhar para elas o céu que rodeia as montanhas -- do Tempo, o percurso da História e os anuncia na Arte, no espaço
e esse foi seu trabalho. Com um movimento imenso levantou seu aos homens que, por sua obra, convida a habitarem o Mundo.
mundo acima de nós, e o colocou na natureza".(56) H~bitando o Mundo, o estar-aí re-adquire a sua historicida-
de, o seu relacionamento com o destino do Ser, penetrando no â-
Conv~m, pois, que comentemos uma obra de Rodin que :s701he- mago de seu acontecer enquanto envio epocal . Aprofundando - se no
moS dentre as demais -- porque o conteúdo de sua tematica se processo de dissimulação e de mostração inerentes à sua essên:ia
enquadra nas reflexões que elaboramos neste capítulo -- "Les e ao Ser, o estar-aí capta o sentido misterioso que envolve o
Bourgeois de Calais". Essa obra narra a história do rei inglês real. De repente, torna-se transparente a n~vJa que encobria a
Eduardo III dominando Calais, denuncia o poder absoluto do tira- totalidade na figura do "animal racional", do sujeito ou de ou-
no sobre a cidade, e sua decisão acerca da vida de seis homens, tras representações que enclausuraram o Munjo em imagem~ no de-
por e l e escolhidos para morrer. Nela surge a historicidade des- correr das ~pocas do pensar. É somente quando o estar - ai perce-
ses homens: o seu passado, recuperado em um presente, cujo futu- be que o seu percurso prov~m da A-létheia e a ela retorna que
ro imediato ~ a extinção, o fim de seu tempo. Como na Trag~dia ele pode compreender o significado do termo ~poca, bem como o
grega, seus destinos foram previamente traçados -- não por um seu lugar em meio à ~pJ:a em que vive. Por esse motivo, retoma-
deus, mas por um senhor que lhes impôs como sentença o sacrifí - mos aqui o sentido do termo ~poca, para aprofundá-lo, por inter-
cio por uma pena que não cometeram. m~dio do ec-sistir-in-sistente do estar-aí que, livremente, re-
Caminhando rumo à morte, eles perdiam o seu lugar de habi- torna ao seu Mundo, à sua pátria, ao Ser.
tação. O desespero da a-patridade está presente na face, na
postura do corpo desses homens, vivificando a suprema dor que "O ser se subtrai enquanto se desoculta no ente.
sentiam, a angústia que antecedera a resolução pelo sacríficio. Desta maneira, o ser se retém com sua verdade. Este reter-
Homens marcados -- como marca este instante consolidado em uma se é o primeiro modo de seu desvelar-se. O signo primordial do
obra de arte, que marca a era da dor de um povo. Rodin celebra reter - se é a A-létheia. Somente enquanto ela traz desvelamento
nesses homens todos os heróis que se entregaram, em todos os do ente, funda o velamento do ser. O velamento, porém, permanece
tempos, para redimir aos outros. são" Édipos", que rumam para no processo da recusa que retém.
a morte vestidos com roupas simples, que os igualam aos humil- Podemos designar esta retenção clarificadora, com a verdade
des, aos Cristos, às testemunhas do grito do silêncio de uma de sua essência, a epokhé do ser. Esta palavra tomada do uso
ausenCia iminente. Seu lugar ~ o sem-lu gar para onde irão, ~ a linguístico dos estóicos não significa contudo aqui, como em
consumação -- recriada poeticamente por Rodin, escu lpida com Husserl, o caráter metódico da exclusão dos atas téticos da
sentimento, que expressa a força dos sentimentos dessas vítimas consciência, na objetivação. A época do ser pertence a ele mes-
àqueles que as contemplaram e virão a contemplar. mo. Ela é pensada a partir da experiênCia do esquecimento do
Seis homens diferentes, que não surgem na obra como indiví- ser.
duos, mas compõem a unidade harmoniosa de um todo que toca, por É da época do ser que vem a essência epocal de seu desti-
meio de homens que não trocam gestos entre si. Distantes, estão no, onde acontece a verdadeira história universal. Cada vez que
enlaçados, abraçados fortemente em seu desespero e obediência, o ser se retém em seu destino acontece súbita e imprevisivelmen-
em seu momento supremo . Eles são eternos, traduzem a mensagem de te mundo. Cada época da história do mundo é uma época de erran -
uma ~poca a todas as ~pocas. Assim, esta obra do espaço, que tem cia . A essência epocal do ser faz parte do oculto caráter tempo-
o seu lugar no Museu Rojin, em Paris, des-cerra o espaço-con- ral do ser e caracteriza a essência do tempo pensada no ser. Ou -
quistado pela Escultura de Rodin(57) como tamb~m a tempora- tras coisas representadas sob este nome são apenas o vazio da
lidade . aparência do tempo extraído do ente pensado objetivamente".(58)
O anuncio da morte dos burgueses ~ o cultivo do inaparente,
da liberdade que devolve ao povo a paz, a salvação, o alimento, Como foi visto no capítulo III desta pesquisa, a Kehre pos-
enfim, a dignidade à cidade da qual partiam. Um desses homens sibilitou a Heidegger pensar mais profundamente a relação entre
tem em suas mãos a chave da cidade, que simbolicamente acena Tempo e Ser e, desse modo, ampliar seu horizonte at~ a: ~pocas
para a abertura daquilo que em si mesmo se des-vela e vela, para nas quais se destina o Ser, atingindo seu momento maximo na
o Ser. No gesto de livre opção, de renúncia, Rodin retrata o Arte.
sentido do Ser, a sua Verdade. Como a camponesa de Van Gogh, A Arte, resgatando a dimensão simbólico-sacramental das
esses homens que se assumem, habitam o Mundo, em seu empenho coisas, ~ a passagem do fechamento -- da subjetividade, da Terra
para serem mús o que sã"o. Neles se erige a liberdade enquanto ao encontro com o Mundo. Residir no Mundo, penetrar em seu
transcendência, disponibilidade, memória, compromisso temporal solo ~ captar a luminosidade do Ser que acontece, poematicamen-
com o Ser. te, 'como Verdade. Arte e Verdade são, assim, inseparáveis: elas
A vida, que lhes foi posteriormente concedida pelo rei, não designam a ~poca a-nárquica que instaura como meta a harmonia do
conta aqui. O fundamental ~ o momento de antecipação autêntica à estar-aí com o des-velado.- Época que, eclodindo no interior
morte. Como áugur~ .dos antigos Templos, Rodin recolhe o sentido da ~poca t~cnica permite superá-la, sem deixar de lado a esfera

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da cotidianeidade,_e ,sem abandonar os ,benefícios que ela nos 19- Id., ibid., p . 67.
oferece. Superar nao e nega:, mas ir alem do aparente, da massi- 20- Id., ibid., p. 67.
ficação despersonalizante; e questionar c riticamente, para atin- 21- Cf. Ib. ibid., prg.25-27. p. 114-117,126-130.
gir a esfera na qual o própri~ estar-aí e o Ser estão ameaçados. 22- Id., ibid., p. 70 e 71.
Cabe à Arte e ao poeta que ha em cada Homem alterar os padrões 23- Id . , ibid., p. 75.
estabelecidos," . . . recordar a infância ... reestabelecer relações 24- Id., ibid., p . 87.
e renovar harmonias distantes"(59), como o fez Rojin . 25- Id., ibid., p. 64 .
26- Cf. Ib., ibid., p. 61.
27- Id., ibid., p. 71-72.
28- Id. Introdução à metafísica, p.90.
29- Id. Sein und Zeit, p. 54.
NOTAS 30- Id. Sobre o 'humanismo'. ln: Os Pensadores, p. 347.
31- Cf. Id., Bauen Wohnen Denken. ln: Vortraege 'und Aufsaetze,
p. 145-162.
32- Id., ibid., p. 149.
1- Cf. HEIDEGGER, Martin. Die Grundprobleme der Phaenomenolo- 33- Id., ibid., p. 148.
gie. ln: Gesamtausgabe. Frankfurt-Main, Vittorio Klostermann, 34- Id., ibid., p. 150.
1975. 476 p. Band 24. Nela o Autor explicita, mais consistente- 35- Id. Das Ding. ln: ibid., p.179.
mente, o Método Fenomenológico apresentado no prg.7 de Sein und 36- Id. Die Sprache. ln: Unterweges zur Sprache, p.22.
zeit. Cf. Id. Prolegomena zur Geschichte des Zeitbegiffs. ln: 37- Id. Das Ding. ln: Vortraege und Aufsaetze, p.169sq.
Gesamtausgabe Frankfurt/Main, Vittorio Klostermann, 1979. prg.9 38- Id. Bauen Wohnen Denken. ln: Ibid., p. 230.
e 14, p. 110-122, 183-192. Band. 20. Nessa obra, escrita em 39- Id." ... disterisch wohnet der Mensch ... ". ln: Ibid., p.189.
1925, Heidegger apresenta uma sistematização de seu Método como 40- Id. Sobre o problema do ser (Zur Seinsfrage). Tradução de
caminho para o acesso ao sentido do Ser. Ernildo Stein e revisão de José Geraldo Nogueira Moutinho. são
2- Id. Sein und Zeit, p. 13. Paulo, Duas Cidades, 1969, p. 59-60, 60.
3- Id. Sobre a essência da verdade, p. 42. 41- Id., ibid., p. 45, 51 e 60 - dentre outras.
4- Id. Sein und Zeit, p. 197. 42- Id., Bauen Wohnen Denken. ln: Vortraege und Aufsaetze, p.
5- Id., ibid., p. 197 e 198. 160-161.
6- Cf. STEIN, Ernildo. Mudança de paradigma na Filosofia; Feno- 43- Id., ibid., p. 161.
menologia existencial como dramaturgia da existência e dramatur- 44- Id. Hebel; l'ami de la ma1son. ln: Questions III, p. 48.
gia das pulsões. ln: Fenomenologia e Psicologia. são Paulo, 45- Id., ibid., p. 70.
Cortez e Autores Associados, 1984, p. 45-70. 46- Id. Bauen Wohnen Denken. ln: Vortraege und Aufsaetze, p.
7- HEIDEGGER, Martin. Sein und Zeit, p.197. 182-183.
8- Cf. ALLEMANN, Beda. Hoelderlin et Heidegger. (Hoelderlin und 47- Id. L'art et l'espace (Die Kunst und der Raum). ln: Ques-
Heidegger). Traduit par François Fédier. Paris, Presses Univer- tions IV. p . 104.
sitaires de France, 1959, 300p. Épimethée Essais philosophi- 48- Id., ibid., p. 102 e 103.
ques. 49-Id., ibid., p. 103.
9- HEIDEGGER, Martin. Sein und Zeit, p. 162. 50- Cf. Id. Gelassenheit. Sechste Auflage. Guenther Neske, Pful-
10- Id., ibid., p. 199. lingen, 1979. 72p.
11- Como quando nos referimos à ek-sistência, a partícula Ek-, 51- Id. L'Art et l'espace. ln: Questions IV, p. 104 elOS.
contida nas ek-stases, designa a capacidade do estar-aí de lr 52- RILKE, Rainer Maria. Rodin (Rodin). Traducción y prólogo
além de si mesmo, mas também o ficar aquém de si próprio, en- p:>r Andrea Pagni. Buenos Ai re s, Goncourt, 1977, p. 1 14.
quanto inautenticidade, em um envolvimento profundo ou supér- 53- Id., ibid., p.113-114.
fluo deste ente consigo mesmo e com tudo o que o rodeia. Esta 54- Id., ibid., p. 133.
possibilidade, como todas as demais, se desdobra na temporali- 55- Id., ibid., p. 138 .
dade. Cf. Id., ibid., p.365. 56- Id., ibid., p. 139.
12- Cf. Id., ibid., prg.12 e 29. p. 53-59, 134-140. 57- É de fundamental importância citarmos a conquista do espa-
13- Id., ibid., p. 193. ço por Rodin -- do espaço enquanto dimensão para o seu fazer
14- Id., ibid., p. 184-191. criador, e do espaço como lugar mesmo do des-velado, do encontro
15- Id . , ibid., p. 220. com a Quaternidade. O espaço tomou-se a medida artística de habi-
16- Id., ibid., p. 105. tação do Mundo, pelas mãos deste homem que, serenamente, se dis-
17- Id., ibid., p . 68 .
pôs a esperar a mensagem Que o Ser lhe endereçaria. "Se antes as
18- Cf. Id., ibid . ., p. 68-69.
coisas tinham estado no espaço, agora era como se esse espaço as

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arrancasse, atraindo-as para si". "Com esses meios, podia c riar
o bjeto s que se perceberiam à distância , co i sas r odeadas nã o só pe la
atmosfera imediata, se nã o de todo o céu. Com urna superfície
animada, podia apanhar e modificar as distâncias corno um espe - CONCLUSÃO
lho, e podia modelar um gesto que lhe pareceria gra nde e obrigar
o. espaço a participar dele". RILKE, Rainer Maria. Rodin, p. 88.
58- HEIDEGGER, Martin. A sentença de Anaximandro. ln: Os pensa-
dores, p. 28.
59- RILKE, Rainer Mar ia. Rodin, p. 103.
Caminhando ao lado de Heidegger, buscamos a circunscrição
do sentido do Ser através da~ épocas do pensar. Nos seis capítu-
los que compõem a primeira e segunda parte deste livro, o enigma
da passagem do Kaos ao Kosmos, do estranho ao familiar, da Terra
ao Mundo, retratam a passagem do velamento ao des-velamento, do
ente ao Ser --que constituem o movimento da interrogação heideg-
geri ~na na busca da A-létheia. É no seio desta passagem que
se delimita a região na qual a vinculação essencial entre Arte e
Ser pode ser pensada. Cada passo de Heidegger pediu um novo pas-
so e em nossa busca d~ reconstituição da sua trajetór~a, nad~
mais tentamos fazer senão nos deixarmos ·transportar à região a
qual Heidegger nos conduziu: a um Holzwege.
Pôr-se a caminho, sem pressa, sem a certeza do lugar a ser
atingido, sem chegar a um termo -- posto que este é o reino das
conclusões --, é ter como destino o próprio destinar-se do Ser.
Nele reside ~m enigma: é necesário que nos aproximemos de sua
fertilidade, de sua inesgotabilidade, tendo como abrigo o aber-
to. Nele nos abrigando o acolhemos para resguardá-lo e, assim,
nos posicionando diante do real, nada mais fizemos senão retro-
ceder rumo ao inaugural, ao Ser como fonte de possibilidade de
tudo o que é.
Neste contexto, Heidegger recupera os greg?s que, espan-
tados diante do ente-sendo, mantinham-se próximos as coisas, na
medida mesma em que as deixavam ser e manifestar-se, sem a impo-
sição de conceitos ~ue as encobrissem. No retorno à origem, Hei~
degger atinge o Ser como o originário que constitúi a Arte e a
o~r~ · ~e arte em sua essincia, posto que as gera . Seu Método Fe-
nomenológico de Sein und Zeit (cf. capítulo VI) o conduz à supe-
ração dos arkhai, das concepções epocais que, no decorrer da
Filosofia, afastaram o Homem do essencial.Elaborando a des-trui-
ção da Metafísica (cf. capitulo III), do Ser enclausurado em
conceitos racionais, Heidegger busca urna outra dimensão na qual
o des-velado eclode.

"~ possível que o que chamamos aqui, e em outros casos


análogos, um sentimento ou estado afetivo, seja mais racional e
mais sensato, isto é, mais sensível, porque mais aberto ao ser,
que toda razão que, convertida em ra t io, foi equi voc adamente
interpretada como racional".Cl)

Opondo o sentimento ao ilógico ou as experlencias vividas,


Heidegger o compreende como "di.sposição afetiva (Stimmung)" ,
termo que remonta ao "harmoni zar"(2 ). Recupera, assim, a atitude
grega diante do real, a rrarmonia que concilia o Homem com a to-

141
140
talidade do Ser -- sinônimo do Belo (cf . capítulo I) . Retrocede , A ponte e ente- a-mao que serve para facilitar o contacto
assim, ao Ser como a origem da obra de Arte. do Homem com as coisas, com aqueles que moram nas cidades, com a
"( 'Obra' é de se entender aqui sempre no sentido grego atribuição a que cada um se dedica .
de ergon, ... como o presente posto em estado de revelação)". (3) A ponte con'd uz o homem viageiro, que atravessa pontes, a
A origem da obra de arte é o Ser que se des-vela, colocan- regressar à sua Terra Natal, ao âmbito de unidade do des-velado,
do-se em obra na Àrte: uma manifestação do manifesto, em sua à essência mesma do estar-aí que:
originariedade. " . .. reside sobre a terra, sob o céu, diante dos divinos".
(8)
"O que ~ originjrio so permanece e continua originjrio, A ponte é uma coisa d~ espaço que, como foi dito no capítu-
enquanto gozar e possuir sempre a possibilidade de ser aquilo lo VI, desenvolve sua essencia no abrigo que acolhe os entes,
que ~: origem, entendida como originar-se a partir da re-velação que da lugar para que eles sejam o que são. Enquanto construção,
de sua Essencialização".(4) a ponte abriga o Homem, prepara o seu habitar, que se erige na
passagem do fechamento da Terra ao aberto do céu, ao Mundo como
o retorno ao Ser como o precursor, e fundamental nao apenas Quaternidade -- por meio de sua disponibilidade à divindade, aos
para a~e~ermos à Arte, como também para um acesso àquilo que o divinos. Os divinos designam aqui: " ... aqueles que nos fazem
estar-a1 e. Isto porque, influenciado pelo poeta Hoelderlin, signo, os mensageiros da divindade".(9)
Heidegger identifica o Ser à pátria, à Terra Natal à qual per- Para enfocarmos convenientemente o conteúdo desse termo,
tencemos e, contudo, dela nos distanciamos (cf. capítulo IV). A convém retomarmos alguns elementos por nós abordados no decorrer
ligação essencial q~e se instaura entre Arte e Ser, acena também d:ste livro . Os divinos são aqueles que captam a linguagem enig-
ao objetivo das analises heideggerianas das obras de arte. Os matica dos deuses -- que na Tragédia surgiram como sendo os he-
artistas por nós citadoJ, como Van Gogh e Cézanne (cf. capítulo róis (cf. capítulo I) -- e que Heidegger .nomeia como poetas
V), servem como modelos para o esclarecimento das obras de arte pois a eles compete simbolizar o Ser, ter o poder de re-velar o
que despertam o interesse do pensador. Nos sapatos da camponesa seu mistério.
e na tarefa à qual se dedica o jardineiro Vallier, ou seja, ao O divino, é para Rilke, o angélico (cf . capítulo IV), o
cultivo da Terra, a abordagem heideggeriana surgirá em seus dois elemento conciliador da unidade entre o velamento e o des-vela-
aspectos fundamentais: como um estudo "Neolítico" e "Romântico" menta. Em termos ontológicos, Heidegger, a partir do poeta Hoel-
(5) da obra de arte. Convém, pois, que esclareçamos em que medi- derlin, refletindo sobre a Pátria do estar-aí e a sua a-patri-
da se pode atribuir o termo "Neolítico" àquilo que é visado por dade -- localizadas na proximidade Ou distância do Ser -, enfoca
H~idegger._O Neolítico refere-se aqui ao estudo dos objetos ina- a Noite do Mundo por intermédio da fuga dos deuses, buscando a
n1mados, nao se restringindo apenas aos sapatos da camponesa de transição para um nova Manhã. Essa Manhã eclode' a partir do des-
Van Gogh. Outros objetos surgem nos opúsculos "Bauen Wohnen -velamento como o lugar mesmo da união do Sagrado, do divino e
Denken" e "Das Ding"(6) de modo mais e::plícit~, aind~ que e~ dos deuses no âmbito do Ser (cf. capítulo IV). A irrupção do Ser
outras obras estas metáforas também estejam presentes. nos remete ao Sagrado e este ao divino -- que nos re-vela essen-
Buscando a especificidade do habitar, Heidegger, mantendo- cialmente o Deus ou os deuses. As épocas do divino são, assim, a
se no contexto da Quaternidade, cita três coisas como exemplos Noite e a Manhã, que assinalam o Tempo e a História dos mortais.
da unidade com o Mundo. Elas são: "a ponte" (Bruecke), "a casa O adivinho de Homero na Ilíada e os pré-socráticos, captan-
de camponês da Floresta Negra" (Schwarzwaldhof) e o cântaro" do a simplicidade do Ser, penetraram em seu mistério, que une,
(Krug) . sem dividir, a totalidade de tudo o que é Ccf. capítulo I).
A ponte e uma construção cuja finalidade consiste em ligar Pressentindo o longinquo e mantendo-se em relação com ele, o
dois lugares diferentes; neste caso, ligando as margens vincula estar-aí antecipa-se ao seu futuro. Nele se dá o encontro com o
também, as águas do rio com a terra. É um utensílio que serve sublime -- como o mais digno de devoção e admiração --, que gera
para a travessia humana, para o seu constante colocar-se a cami- o espanto, o grau mais elevado de acesso ao Ser, na genese do
nho no tempo e no espaço. A ponte é uma coisa-lugar, o des-cer- pensar. Buscar o divino é, pois, colocar-se rumo à Physis, a
rar mesmo que une os mortais aos divinos. Quaternidade e habitá-la.
E uma coisa, uma ponte -- enquanto construção --, e o ele-
"Oos seus arcos elevados ou baixos, a ponte salta o rio ou mento que'propicia o habitar, abrindo o espaç o para a sua ins-
o córrego, a fim de que os mortais guardando na memória ou tauração.
esquecendo o impulso da ponte --, se esforcem profundamente para "O lugar dá um lugar a Quaternidade em um duplo sentido.
superar o que neles ~ reduzido ao hjbito ou não ~ são , para Ele o admite e o instala". (10)
aproximar-se da integridade do divino".(7) A ponte re-liga o homem atual, em seu caminho ao que é su-
perior: à proximidade com o Ser . A ponte: uma coisa por meio da
qual o estar-aí pode elevar-se superando sua tendência à inau-
tenticidade, à repetibilidade do sempre comum, pois, alocado em

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meio ao aparente, afasta-se mais e mais de sua essência e da "É somente quando podemos habitar que podemos constru-
totalidade do Ser. A ponte, enquanto construção sólida, acena ao ir. Pensemos por um instante em uma residência de camponês na
estar-aí a sua transitoriedade no caminhar entre dois pontos Floresta Negra, que um 'habitar ' camponês construiu há duzentos
extremamente vinculados: a vida e a morte (cf. capítulo VI). anos ll

Diante da realidade e presença da morte, de seu enigma, o viver "Ele não esqueceu o 'canto do Senhor Deus' atrás da mesa
adquire sua relevância. Enquanto finitude, o estar-aí dispõe das familiar, ele 'decora' nos quartos os lugares santificados, que
coisas, acostuma-se a certas normas de comportamento, define e são aqueles do nascimento e da 'árvore da morte' -- pois é as-
estabelece o verdadeiro sem investigá-lo. Enquanto transcehdên- sim que lá nomeiam o ataúde --, e assim, para as diferentes ida-
cia, cabe ao estar-aí retomar-se, buscar o duradouro, a sua des da vida, ele prefigurou, sob o mesmo teto, o cunho de suas
permanência espacial no Mundo, a sua habitação. E a tudo isso a passagens através do tempo". (13)
coisa, em sua simplicidade, acena, quando o estar-aí, disponível
a ela, escuta o seu apelo reconciliador. Como o Templo Grego, a casa do campones traça a temporali-
É a coisa da infância, c itada por Rilke em seu poetar dade humana, a sua destinação, concedendo equilíbrio entre o
sobre Rodin: a coisa que significa, a coisa insubstituível que, velado e o des-velado na dimensão do Mu~do. A casa é uma obra
se perdida pela criança, lesa o seu ser, pois com ela foi com- poética, enquanto abre e ordena a essenCLa do estar-aí com a
partilhado a sua vida. A coisa, como parte da História, foi des- totalidade do Ser.
prezada com a pasagem da infância à idade adulta, do Mito e "Mas habitar é o traço fundamental do ser (Seiu) em confor-
pensar grego a Filosofia racional. Seu valor imaterial --, ~ua midade do qual os mortais são".(14)
familiaridade e as relações nela contidas --, foi substituído O Ser habitando as coisas, está presente no cântaro, por
pelo q~e vale materialmente, pelo que pode ser adquirido. Com nós citado ~o capítulo VI deste livro. Ele é também uma coisa na
isso, e a própria peculiaridade humana que é deixada de lado, qual se des-vela a Quaternidade, a habitação. Para não repetir-
juntamente com sua dimensão des-veladora, contida na mos o conteúdo já citado, convém retomarmos o vínculo que se
simplicidade. estabe le ce entre a obra de arte e a coisa, entre a coisa e o
Homem da época técnica. Seu pano de fundo será o modo como a
"Pensamos ... que a ponte, inicial e propriamente falando, Verdade, enquanto eclosão, é acatada ou abandonada, aceita ou
é simplesmente uma ponte ... ela pode ainda expressar muitas encoberta por conceitos.
coisas. Enquanto é uma tal expressão, ela se torna um símbolo, A Arte poemática, por meio da obra de arte enquanto coisa,
por exemplo, para tudo o que dissemos".(ll) libera às coisas o seu caráter de manifestação. A Ciência-tecni-
cizada, por outro lado, delimitando seu campo de ação e atenção
Se Heidegger escreve e recorre as COLsas inanimadas, ele aos entes, se restringe " ... aos objetos" e, consequentemente, "a
nao se restringe a um estudo neolítico das mesmas. Restituindo o cLencia já destruiu as coisas enquanto coisas muito tempo antes
seu caráter simbólico, que remete o estar-aí à unidade com a da explosão da bomba atômica" .( 15)
invisibilidade do Ser, ele supera a esfera do neolítico. Isto Destruída na representação metafísico-estético-técnica a
porque, a missão do estar-aí no Mundo é a de, ouvindo o apelo do essência da coisa, o Homem dela se distancia, afastando-se tam-
Ser, torná-lo palavra (cf. capítulo IV), no ato mesmo de fazer bém de todo referencial por ela des-cerrado. Refletindo sobre
nascer o Mundo e as coisas. Esta é a medida de nossa habitação. o habitar na época atual, Heidegger diz:
"Em toda parte se fala, e com razão, da crise de habita-
"Estamos aqui talvez para dizer: casa, ção".(6)
ponte, árvore, porta, cântaro, fonte, janela Para este Droblema, o Homem encontra uma justificativa no
e ainda: coluna, torre ... Mas para dizer, crescimento demográfico, colocando suas conquistas tecnológicas
compreenda, para dizer as coisas como elas como meios para a solução desta crise, ou seja, "con:tru~ndo"
mesmas jamais pensaram ser intimamente"(12) (17) mais casas. A crise, segundo Heidegger, refere-se a propr:a
essencialização do estar-aí, à sua indigência: o problema nao
A força contida na coisa foi mostrada por meio da ponte e está em ter onde morar, mas sim em saber habitar.
surgirá agora na casa de campones. Por seu intermédio, o cons- "A verdadeira crise da habitaçio reside nisso: que os mor-
truir, enquanto fazer humano, adquirirá a sua relevância. tais estão como sempre à procura do ser da habitação e que eles
Construir uma casa não significa somente usar os materiais nece ssitam primeirame nte aprender a habitar. E o que dizer, en-
necessários para dar-lhe forma, para erguê-la. A construção é um tio se a apatridade (Heimatlosigkeit) do homem consistia nis-
ato criador, artístico, que aperfeiçoa o ser-em .. . do estar-aí so: que de nenhuma maneira ele considere ainda a verdadeira cri-
que nela reside, considerando-se que ele deixa seus traços no se da habitaçio como sendo a crise (Hot)? Todavia desde que o
local onde habita, instituindo, concomitantemente, o Ser. homem considere a apatridade, esta já nio é mais uma miséria
(Elend). Justamente, considerada e bem retida, ela é o único
apelo que convida os mortais a habitar".

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"Eles o fazem enquanto constroem a partir da habitação e
pensam pela habitação".(18) teorias sobre a Linguagem ou a Art e , o que tantas ve ze s lhe e
cobrado. Nesse prisma, a compreensio ser~ legftima mesmo quan~o
o estar-af habita o Mundo, o des-velamento do Ser, na Lin- nio oferecer respostas definitivas; o importante é investigar
guagem e na Arte. Nisso reside o seu habitar origin~rio: na dis- colocando bem a pergunta, buscando os pressupostos daquilo que
ponibilidade à Verdade . É justamente no tocante ao habitar e ao se vela. Por esse motivo, o percurso heideggeriano consiste na
nio-habitar que Poeggeler situa Heidegger como "romântico", com- travessia de pontes que o conduzem ao significativo.
parando o seu pensar com o dizer de "Saint-Exupéry" na "Cita- Retrocedendo com Heidegge~ nos situamos diante da circula-
delle". (19) ridade de seu Método. A busca da origem da obra de arte o conduz
"Saint-Exupéry começou a trabalhar nes ta obra em 1936. 'Es- ao artista e ambos remetem à Arte que, por sua vez é constitufda
tou escrevendo um poema', disse um dia a pélissier".(20) por artistas e obras. Partindo da obra de arte, a ela se retor-
É precisamente em seu cunho poético que podemos situar na. A postura ontológica de Heidegger o levar~ à an~lise da obra
Heidegger como um "romântico". Como Exupéry, a camponesa de Van de arte como coisa, como produto que, em sua utilidade re-vela o
Gogh ou o jardineiro Vallier de Cézanne, o pensador visa ao Ser, tornando-se propriamente obra enquanto des-cerra o sfmbolo
cultivo daquilo que brota, do Ser . Sua reflexio sobre a Arte-- (cf. capftulo V).
"~eolftico-R,?mântica" ou, como o próprio Heidegger e nós a defi~ Contudo, no retorno aos gregos, um novo cfrculo se instaura
n~mos, "Poematica" --volta-se para as coisas origin~rias que ele na busca da Arte em sua autenticidade. Seu ponto de partida é
pretende resgatar. Somente neste horizonte, mantendo-se fiel aos a A-létheia, o des-velado no seio do qual a Physis e pro-duçio
seus intuitos, é que Heidegger pode elaborar o seu dizer sobre a origin~ria que gera a Arte Helênica enquanto Techne, Poiesis que
essência da Arte, sobre a Arte essencial. E é unicamente sob es- deixa fuigurar o Ser -- como Belo -- na obra de arte. A Arte,
te enfoque que podemos consider~-lo como um romântico: enquanto conduzindo o pre-s - ente à presença, é Poem~tica, instauradora da
pensador que poematiza o Ser. Verdade, celebraçio da A-létheia. E é justamente este car~ter
No tocante ao "Romantismo", é importante assinalar que a fundamental da Arte Helênica que Heidegger busca recuperar na
postura heideggeriana se erige na compreensio, no colocar-se em epoca atual, penetrando no solo no qual se encontram suas raf-
uma atitude hermenêutica diante da Arte. Esta atitude, como dis- zes.
s:mos, lev~ Hei~egger ~ uma volta aos gregos,visando à recupera-
sao da d~me~sao historica d? pensar e da Arte, por intermédio "~necessjrio, assim, resolutamente, percorrer o circulo.
de uma reflexao s'obre a sua genese. Isto não é nem o pior que pode acontecer, nem uma indigência .
Engajar-se em um tal caminho é a força, permanecer nele é a fes-
o Romantismo se converteu em pioneiro da consciência ta do pensar, admitindo-se que o pensar seja um oficio".(22)
hist6ri~a. Seu lema era a volta is fontes originais e, com isso,
situou nossa imagem hist6rica do passado em um terreno completa- Comunicando o Ser, a Arte des-vela ao estar-af o âmbito do
mente novo. Surgiu aqui uma tarefa profundamente hermenêutica". aberto, o Mundo como Quaternidade, como o lugar a ser habitaco,
( 21) a proximidade do essencial.
Após essas considerações, é possfvel desenvolver brevemente
A hermenêutica heideggeriana: vinculando teoria e praxis, alguns elementos que aproximam o pensar de Heidegger do poetar
analisa a Arte a partir da situaçio concreta do estar-af que de Saint-Exupéry. Retornando ao origin~rio, ambos buscam o Ser e
exis te no Mundo e se re laciona com o Ser. A Hermenêut ica, e.n- captam o privilégio por ele concedido ao estar-af. Ascendendo
quanto Fenomenologia, consiste em investir contra as barreiras ao âmbito da diferença ontológica, o poeta mostra o sompromisso
que separam o estar-aí da Verdade do Ser, por intermédio das do Homem com o Ser invisfvel, que v incula tudo o que e, por.meio
visões e imagens de mundo (cf. capftulo III) formuladas no de- da imagem da propriedade.
correr das épocas de concepçio do Ser. É assim que Heidegger
elabora seu estudo da Arte. Dissemos a palavra estudo e não "O caminho, o campo de cevadas e a linha da colina são di-
teoria da Arte porque Heidegger nio elaborou uma Filosofia da ferentes para o homem conforme constituam ou nio uma Proprieda-
Linguagem ou uma Teoria sobre a Arte. Nio deixando de escrever deli .
sobre estes dois temas, Heidegger limitou-se a refletf-los. Seu "E o mesmo se diga daqueles que, ao di visarem o meu terri-
intuito des-truidor da Metaffsica o afasta do perigo de enclau- t6rio, ficam convencidos de que o descobriram. Dizem eles: ora,
surar o Ser em c,?nceitos, de definf-lo em fórmulas que o esgo- o que hj lj são carneiros, cabras, cevada, moradias e montanhas
tem. Seu pensar e uma interrogaçio constante do Ser acolhendo e e nada mais; são pobres, nio possuem mais nada; e têm frio".
respei~ando o processo de seu endereçar - se. A um refletir a-n~r­ "Quando o meu territ6rlo é coisa absolutamente diferente destes
quic~ e artificial estabelecer princfpios normadores do Ser, o carneiros, destes campos, destas moradias e destas montanhas; é,
teor~zar que _afirma racionalmente certas permissas, deduzindo nem mais nem menos, o que os domina e o que os liga. t a
suas conclusoes. Nesse contexto, Heidegger nio poderia elaborar pátria do meu amor. E dá gosto vê-los felizes se porventura o
sabem, porque moram na minha casa".(23)

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Atento a mensagem do des-velamento e, ao mesmo tempo cons-
O território nao aparece aqui como sinônimo de uma extensão ciente das rupturas do real em nossa era, Saint-Exupéry percebe
de terra, 9ue valeria mais ou m~nos ~e acordo com sua grandeza. a esperança de "plenitude"(26), prometida pela s religiões, que
Pelo contrario; ela nos remete a noçao de propriedade -- enquan- dicotomizam ainda mais o Mundo em que vivemos. O Homem nao
to aquilo que é peculiar do estar -aí e dp Ser . A propriedade se faz parte de um setor da NJtureza: cabe, pois, à religião refor-
delimita por ' intermédio da pertença, como o lugar onde o es~en­ çar os vínculos com o Ser. Aproxima-se, novamente, da proposta
cial se propõe àquele que decide acatá-lo. Assim, o proprietario heideggeriana em seu dizer sobre Deus (cf. capítulo III).A Lógi-
não é o que possui mais bens, mas sim aquele q~e sabe adminis- ca, a Técnica e a Estética, afastadas do sentido do Ser, ameaçam
trar o que lhe foi entregue, cuidar de seu conteudo. O proprie- a essência humana que corre perigo. Como Heidegger o poeta sabe
tári o é, assim, como em Heidegger, o guardião. que há possibilidade de salvação e que esta se situa no interior
Os homens que se pro-põem ao Ser são os que se resolvem da própria Técnica.
por e le, que se comprometem a estabelecer relações q~e os v~nc~­ A salvação h~mana esta calcada em sua responsabilidade para
Iam ao des-velado. Contudo, aquilo que liga e une e aproprio consigo mesmo, com os outros e com o Ser. Somente quem cativa
Ser, que se envia convocando o estar-aí a assumir os riscos de -- perpassando os silêncios do Pequeno-Princípe(27), percorrendo
ir ao seu encon tr o, de abrir-se a ele, de ser-poeta -- em termos os diferentes planetas à procura de algo maior -- está a caminho
heideggerianos. O Homem preocupado com o essencial não teme os de sua habitação. Habitar consiste em recuperar o seu planeta de
riscos, pois sabe que sua tarefa árdua e sem os fundamentos que origem, a Terra Natal de cada um de nós que nos leva a residir
o viver em meio aos entes propicia o conduzirá a sua pátria, ao na proximidade do simples. Na pátria ' o Homem encontra sua cida-
Mundo enquanto lugar de seu habitar. dania, enquanto desempenha a missão de zelar pelo Ser. Assim, a
"Cidadela" de Saint-Exupéry é o lugar de defesa de um povo que,
"Aquele que interroga, o que em primeiro lugar procura e o buscando o Ser preserva, concomitantemente, a sua essência.
abismol!.
C •.• )
"E assim um simples pastor. Aquele que vigia modestamente
"O ser nao ~ acessivel i razio. O seu sentido i ser e ten- algumas ovelhas sob as estrelas, se tem consciência de seu pa-
der" . (24) pel, descobre que não i apenas um servidor. t uma sentinela. E
cada sentinela i responsável por todo o impirio".(28)
o Saint-Exupéry romântico, hermeneura, capta o Ser-abissal
e sem-fundamento, que transcende à esfera da dominação humana . O A tarefa humana de guardiã? nos levará novamente as obras
Ser é, para ele, o que origina e dá sentido a tudo o que é, na de arte que Heidegg:r analis ou: a tarefa da camponesa e do jar-
medida mesma em que tende, isto é, destina-se, aproximando o dineiro Vallier. Sao eles que, cultivando, habitam o Mundo que
Homem do que é significativo. Compete-lhe, pois, elevar os entes se oferece ao nosso cuidado: Mundo sem o qual não poderíamos ser
ao seu sentido, àquilo que primordialmente eles são, nomeá-los. o que somos, mas que só atingimos quando o tornamos a nossa
Tarefa poética que se empenha em expressar o simbólico, o Ser casa.
enquanto Ser, sem representá-lo. Ligando-se ao Ser, o Homem
atinge a significabilidade de seu ser-no-Mundo, a Verdade. "t preciso pacificar, cultivar, polir" .
Contudo, não são todos os homens que conseguem elevar-se ao "Porque eu sou, antes do mais, aquele que mora".
Ser. Assim, Saint-Exupéry elabora, como Heidegger, uma des-trui- "Ai tem a grande descoberta que eu fiz: os homens moram, o
ção dos elementos que nos distanciam do Ser. Volta-se para a sentido das coisas muda para eles conforme o sentido das casas".
Lógica, a Religião, a Estética, a Técnica -- com o intuito de (29)
re - qimensioná-la s.
Cultivar o Mundo, estar em relação existencial com ele
"-- vocês nunca hão de vencer, porque procuram a perfeição. como o princepezinho, os homens míticos e pré-socráticos --, e
Ora,a perfeição ~ objeto de museu. Não admitem os erros e Só,ou- dar condições para o desabrochar da Physis, é habitar. Nisso
sam entrar em ação quando conseguem demonstrar que o gesto ha de reside o sentido de vida do estar-aí.
ser eficaz. Mas onde é que vocês leram a demonstração do futuro? O cultivo e a liberdade retornam no movimento que conduz à
A ser assim, alim de comprometerem a vitó ria, não deixam surgir Verdade, à responsabilidade. Contudo, como Rodin, Sain-Exupéry
pintores, escultores ou qualquer outro inventor firtil i super- sabe que não depende da vontade do Homem cultivar, pois ele é
ficie de vosso território. Eu vos afianço: a torre, a cidade ou conv idad o para realizar esta função que eleva à plenitude o seu
o impirio crescem como a árvore. são manifestações da vida, ,por - ser-terrestre e efêmero -- como nos disse Rilke.
que precisam do homem para nascer. E o homem julga calcular".
(25) "Não sabemos prever o essencial".C .. . )
"Nada sabemos, a não ser que há certas
condições que nos f"ertilizam". (30)

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Aquele que fertiliza e que é fertilizado, o jardineiro(31), um percurso constante e incansável rumo ao originário, para que
é tão valorizado porque propicia o desabrochar das sementes nele se resgate o que foi esquecido pela Metafísica, Estética
invisíveis, indizíveis, tornando-se ele mesmo o terreno proprio e Técnica: o Ser em sua Verdade . A obra de arte e a Arte são
para o vir-a -s er daquilo que depende dele para eclodir em luz e
caminhos, trilhas que trilham as sementes que propiciam o culti-
cor. Atento à Natureza, o jardineiro voltará o seu olhar e cui- vo do des-velado, a relação do estar-aí com o sentido do Ser.
dado para o mistério, para a beleza que há em cada pessoa que o
circunda, convidando-as a compartilharem com ele o Mundo ao qual
pertencem.
O jardineiro torna-se, assim, o vigia que zela pelo essen-
cial, pois se comprometeu com o Ser. Humilde, entrega-se ao NOTAS
serviço daquilo que o solicita, cuidando para que não se perca o
que se des-cerra. O jardineiro identifica-se, assim, ao pastor
-- a quem Heidegger confere a extrema dignidade humana.
Concluindo essas considerações acerca de um paralelo entre 1- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: H01z-
Heidegger e Exupéry -- que se encontram no essencial, apesar de
wege, p. 9.
seus dizeres diferentes -- , culminamos no ato que eleva o Homem 2- CARNEIRO LEÃO, Emmanuel. Nota nQ 24 da p. 220 da tradução
à dimensão do sublime: a criação. de Introdução à Metafisica .
3- HEIDEGGER, Martin. Introdução à Metafisica, p. 210.
"~ preciso criar". "Criar j criar o ser, e toda a criaçio 4- Id., ibid., p. 109.
j inexprimível".( ... )
5- Cf. POEGGELER, Otto. Neue Wege mit Heidegger? ln: Philoso-
"Libertem o homem, e ele criarj".(32)
phische Rundschau; eine Zeitscriff fuer Philosophie Kritik.
Tuebingen, J.C.B. Móhr, (PaulSiebeck) . 29 (1/2): 46-47,47,
Assumindo livremente o Ser, o estar-aí o cultiva, habitando
1982.
o Mundo. Habitar é, assim, uma tarefa artístico-poématica, cria- 6- HEIDEGGER, Martin. Bauen Wohnen Denken, Das Ding. ln: Vor-
dora -- tarefa daqueles que se dispõem a esperar o momento pro-
traege und Aufsaetze, p. 145-162, 163-186.
pício para o desabrochar do que cultivaram, pois estão cientes 7- Id. Bauen Wohnen Denken. ln: Ibid., p. 152.
que tudo provém do des-velamento do Ser, da A-1étheia, e nela se 8- Id., ibid., p. 150.
consuma.
9- Id. Das Ding. ln: Ibid., p. 177.
10- Id. Bauen Wohnen Denken. ln. Ibid., p. 159.
"Antes da semeadura, hj o cultivo das terras. Ele se in- 11- Id., ibid., p. 153-154.
quieta em desbravar um campo que devia ficar no incógnito do fa- 12- RILKE, Rainer Maria. Elegias de Duino, p. 52.
to do inevitjvel predomínio do aterrar metafísico. Antes dis- 13- HEIDEGGER, Martin. Bauen Whonen Denken. ln: Vortraege und
ta, ele se inquieta de o pressentir, em seguida de o encontrar,
Aufsaetze, p. 161.
enfim de o cultivar. Ele se inquieta em ir àquele lugar uma pri-
14- Id., ibid., p. 161.
meira vez. Numerosos sio os caminhos ainda desconhecidos que
15- Id. Das Ding. ln: ibid., p. 168.
conduzem a isso. Mas um só caminha j reservada a cada pensador:
16- Id. Bauen Wohnen Denken. ln: Ibid. , p. 162 .
o seu, nos traços do qual ele lhe farj aventurar-se em incessan-
17- Id., ibid., p. 162.
·te vai -e- vem, atj que, enfim, ele o mantenha como seu -- sem
18- Id., ibid., p. 162.
que, contudo, ele lhe pertença jamais -- e que ele diga o que se
19- Cf. POEGGELER, Otto. Neue Wege mit Heidegger? ln: Philoso-
apreende por este caminho."(33)
phische Rundschau; elne Zeitscriff fuer Philosophie Kritik, p.
47sq.
Heidegger, refletindo ou poetando, fala dos caminhos que
20- SAINT- EXUPÉRY , Antoine de. Apud BELLO, Ruy tradutor de Ci-
conduzem ao "não-dito"(34), ao "Simples". (35)
dadela (Citadelle). Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982. Citado
na orelha do livro.
"O Simples guarda o enigma do que permanece e da que j
21- GADAMER, Hans-Georg. A razão na época da ciência (Vernunft
grande. Visita os homens inesperadamente, mas carece de longo
im zeitalter der Wissenschaft). Tradução de Angela Dias. Rio de
tempo para crescer e amadurecer. O dom que dispensa está escon-
Janeiro, Tempo Brasileiro, 1983 . Biblioteca Tempo Universitá ri o
dido na inaparincia do que j sempre o Mesmo".(36)
72. P. 65.
22- HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. ln: Holz-
Embrenhando-nos no H01zwege, voltamos ao dizer de Parmêni-
wege, p.2.
des, ao caminho que conduz "para diante do 'que é"'(cf. capítulo
23- SAINT- EXUPÉRY , Antoine de. Cidadela, p. 19.
v). A A-létheia é o caminho do que se clareia e se ofusca ao
24- Id., ibid., p. 15 e 19._
pensador, ao poeta e ao artista. Caminho de oferta e recusa, de
25- Id., ibid., p. 63.
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151
26- CE. Id. Terra dos Homens, p.144.
27- Cf. Id . O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince). Tradução de BIBLIOGRAFIA
Dom Marcos Barbosa. 26. ed. Rio de Janeiro, Agir, 1983, 100p.
28- I d. Terra dos Homens, p. 149.
29 - Id. Cidadela, p. 18 e 19.
· 30- Id. Terra dos Homens, p. 134-135. 1- OBRAS DE MARTIN HEIDEGGER:
31- Cf. Id. Cidadela, p. 514-518.
32- Id., ibid., p. 190 e 65.
33- HEIDEGGER, Ma.rtin. Nietzsches Wort "Gott ist Tot " . ln : Holz- Seio un Zeit. Elfte AuEl. Tuebingen, Max Niemeyer, 1966. Erste
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Coleção BELAS ARTES:

À margem do cinema Luiz Nazár io

Coleção EIXO:

Astros e símbolos Olavo de Carvalho

Astrologia e religião Olavo de Carvalho

Outros títulos:

Duas Novas Ciências Galileu Galilei

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