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PRÁXIS

A CATEGORIA MATERIALI5TA
DE PRATICA SOCIAL

VOLUME II
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Colecção DIALÉCTICA Organização e selecção de
sob a direcção de VASCO DE MAGALHAES-VILHENA VASCO DE MAGALHÃES·VILHENA
1 IGUALITARISMO AG.H.ARIO E SOCIALISMO UTOPICO NA T.H.ANSIÇÃü
DO FEUDALISMO PARA O CAPITALISMO EM FRANÇA NO SÉCULO XVIII
Hernâni A. Resende
2 PRAXIS
A CATEGORIA MATERIALISTA DE PRATICA SOCIAL (VaI. I)
:J PRAXIS
A CATEGORIA MATERIALISTA DE PRATICA SOCIAL (VaI. II)
No prelo:
4 UTOPIA e UTOPISTAS FRANCESES DO SECULO XVIII
PRÁXIS
A CATEGORIA MATERIALISTA
DE PRÁTICA SOCIAL
VOLUME II
LIVROS HORIZONTE
AO LEITOR
Prosseguindo a publicação da colecção Dialéctica, apresenta-
mos aos estudiosos uma colecção de volumes concebida geralmente
sob a forma de colectâneas sobre as ciências sociais, as implicações
e os fundamentos sociais e filosóficos das ciências e das técnicas.
Os tomos variam entre cerca de 100 e 200 páginas.
Em princípio, cada obra contém estudos de fundo' ou capítulos
de livros, acompanhados por vezes de curtos extractos comple-
mentares. Os trabalhos, agrupados em cada tomo sobre um tema
determinado, animados por via de regra por uma consequente
inspiração ideológica, mas exprimindo pontos de vista diferentes
e até discordantes, formarão todavia, no seu conjunto, um todo
estruturado. Os estudos dados a público serão, na maioria das
vezes, e para desta sorte alargar mais completamente o leque
de temas ·e tendências, não apenas de um só autor, mas de
diversos autores e de diversas proveniências. Muito frequente-
mente, mas não em exclusivo, serão obras de especialistas:
críticos, filósofos, sociólogos, historiadores, economistas e
outros investigadores no geral pouco conhecidos ainda em
Portugal, dada a pouca acessibilidade das línguas e das
publicações em que apareceram originalmente, e praticamente
desconhecidas entre nós ou de difícil obtenção. Mas também
© Livros Horizonte -1980
Capa de: Soares Rocha
não descuraremos, antes incitaremos, a publicação de investi-
gações de autores portugueses, e designadamente de jovens
LIVROS HORIZONTE. LDA. autores, alguns deles saídos de centros universitários interna-
Rua das Chagas. 17-1.' Dt.' - 1200 Lisboa cionais, consagrados a temas portugueses ou a outros temas
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de particular interesse para nós no momento presente, tratados
sempre numa perspectiva crítica e rigorosa.
Os volumes, relativos cada um a um mesmo problema
fundamental ou a grupos de problemas relacionados, incidirão,
na maioria das vezes, sobre a nova problemática e os novos
rumos das ciências sociais, ou sobre as implicações e os funda-
mentos sociais e filosóficos da ciência contemporânea, mormente
das ciências de ponta e das novas ciências e ramos do saber
em vias de elaboração ou de restruturação. As questões gnoseo-
lógicas ou epistemológicas, lógicas e metodológicas estarão, por
isso, frequentemente no centro dos debates. Mas não só elas. Este segundo tomo dedicado à Práxis. A Categoria Materialista
Serão tratados temas até agora pouco estudados ou desconhe- da Prâxis Social, forma com o primeiro um todo, razão pela
cidos em Portugal, ou vistos a uma nova luz e num horizonte qual apresentamos os dois índices no fim de cada tomo. Inicial-
pouco comum. mente concebidos para uma só publicação, os dois devem ser
lidos na perspectiva de que os sucessivos artigos, em princípio,
Acrescentaremos ainda uma indicação para finalizar: a abordam a problemática num grau de complexidade crescente.
selecção dos textos publicados obedece estritamente ao critério
Não seria por isso recomendável, sobretudo para o leitor não
do interesse e importância teóricos e intrínsecos que neles
familiarizado com a temática, a leitura deste segundo tomo sem
pensamos encontrar; não significa de qualquer modo adesão aos
o conhecimento do material de nível mais introdutório publicado
pontos de vista neles expendidos. As opiniões explanadas são no primeiro. No conjunto pretende-se colocar ao dispor dos inte-
da responsabilidade dos seus respectivos autores e podem divergir ressados por este tema diferentes perspectivas enunciadoras de
entre si profundamente.
pontos de vista, os quais, embora partindo de autores que par-
Inútil dizer ainda que cada tomo publicado ou a publicar tilham ou estão próximos de uma mesma orientação filosófica,
não tem necessariamente a pretensão' - bem longe disso - de não deixam de ser polémicos. Pensamos que o leitor português
esgotar o tema tratado; não é mais do que uma contribuição, encontrará abundante matéria de reflexão sobre um problema
obviamente parcial, para o estudo da temática em análise e deve que está no centro dos interesses do homem contemporâneo.
ser lido nessa perspectiva. Foi nossa intenção ao fazermos a escolha dos textos ora publi-
cados incluirmos autores de primeiríssimo plano, procedentes de
Todas as críticas e sugestões serão bem-vindas. diferentes quadrantes, respeitando os originais, tanto quanto o
permite a difícil tarefa de traduzir. Desta guisa, adoptamos o
critério de traduzir e completar as notas para melhor inteligência
do leitor.
Os artigos aqui reunidos não necessitam de apresentações nem
de explicitações particulares. Seleccionados pelas suas caracterís-
ticas, bastam-se a si mesmos. Impõem-se por si próprios, pelo
8 Ao Leitor
seu valor intrínseco ou pelo seu valor como elementos de um EXTENSÃO E SIGNIFICAÇÃO
conjunto. Entendemos deixar aos leitores a inteira liberdade de DA CATEGORIA DE PRÁXIS
opção não os solicitando num caminho ou noutro, ou de os aceitar
ou rejeitar a todos. Não é este um modo de agir ainda corrente
no nosso país, mas esta é, a nosso ver, a tarefa que nos incumbe. Tadeusz M. Jaroszewski
A revisão e o preparo final dos materiais para esta edição
estiveram a cargo de Maria Ivone C. Ornellas de Andrade e
Castro, licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa, e de Hélêne de Magalhães-Vilhena.
Vasco de M agalhães- V ilhena Qual é a estrutura do trabalho na concepção marxista? Que
relações existem entre o trabalho produtivo e a actividade de
conhecimento? Quais são as relações e os limites conceptuais
entre as noções: «trabalho produtivo», «conhecimento», «saber
do homem», «conhecimentos humanos do mundo»? Será que
as noções de «prática objectiva: e de «trabalho produtivo:
têm o mesmo significado? Qual é a relação entre o conceito
de «prática» e os conceitos de «acto», de «acção», de «activi-
dade», de «existência humana»? Consideraria Marx a «criação
artística e científica», a «actividade pedagógica» como fazendo
parte da «prática» no sentido filosófico? Como definir o con-
ceito marxista de «prática»?
São essas as questões a que tentarei responder.
1. Relação entre conceitos de «prática», de «trabalho produ-
tivo» e de «saber»
Os elementos que constituem a estrutura do processo do
trabalho humano, cujo resultado final é a criação dum novo
«produto» - quer dizer, dum objecto transformado pela activi-
dade humana indispensável para satisfazer as necessidades do
homem são as seguintes (1):
1. O contacto material do homem com a natureza, quer
dizer, com o objecto e os me/ias do trabalho (utensílios, condi-
ções materiais e objectivas do trabalho).
2. As actividades orientadas, quer dizer, o trabalho em si,
segundo Marx, cujo fim é a criação, mediante utensílios necessá-
rios e conscientemente escolhidos, dum produto previamente
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Extensão e Significado da Categoria de Práxís
Extensão e Significado da Categoria de Práxts 11
concebido (pelo próprio trabalhador, ou pelos organizadores do
seu trabalho), quanto à sua construção e uso. Essas actividades Alguns autores marxistas consideram os conhecimentos, o
orientadas compreendem: objecto, os meios e as qualificações dos trabalhadores não
como os elementos compondo o processo do trabalho mas
como as condições do trabalho. Parece, contudo, que os conhe-
a) o dispêndio duma quantidade determinada de força do
cimentos do objecto, dos utensílios e do desenrolar do tra-
trabalhador (troca de energia entre o homem e a natureza);
balho, as qualificações profissionais e gerais (as de traba-
b) um esforço psíquico determinado, resultante da utilização lhadores directos mas também as de controladores, construtores
consciente dos utensílios e das condições objectivas de trabalho e técnicos) sejam indispensáveis para executar com êxito essa
a fim de obter a transformação pretendida do objecto de tra- actividade orientada de que falamos. Os aperfeiçoamentos da
balho; entendo por tal «a vontade de trabalho» e a concentração qualificação e dos conhecimentos gerais dos trabalhadores encon-
da atenção indispensável para dirigir os processos de produção (2). tram os seus efeitos nos resultados do trabalho (ao mesmo tempo
O esforço físico e psíquico assim como a invenção tecnológica quantitativos e qualitativos) e aumentam por esse facto o valor
e estética porque, tal como o sublinhava Marx, o homem pro- de uso dos produtos. Uma certa actividade de conhecimento
duz também «segundo os cânones da beleza», mas não todavia junta à aplicação de conhecimentos já adquiridos é um elemento
em todas as condições de trabalho (3), são transmitidos ao pro- de invenção criadora e participa na racionalização do processo
duto do trabalho contribuíndo para lhe dar um valor ele uso. ele trabalho. Esses dois factos são característicos do trabalho
Assim, as forças vitais do homem «exteriorizam-se e objecti- criativo do trabalhador cm certas condições socials. Assim, pois,
vam-se no objecto de' trabalho». em minha opinião a actividade do conhecimento e os próprios
conheoimentos não constituem só por si uma condição necessária,
3. As qualificações práticas e os conhecimentos utilizados nem mesmo uma condição decisiva para que o trabalho possa
no curso ela produção. realizar-se. Elas participam também numa certa medida no pró-
prio desenvolvimento do trabalho, dinamizando os processos
O segundo e o terceiro momentos podem ser igualmente enca- criativos e aumentando os seus resultados. No processo de pro-
rados numa óptica cibernética, na medida em que são uma dução, têm a mesma utilidade que o esforço físico ou a concen-
forma particular de actos auto-orientados. Os actos do operário tração da atenção. Pode dizer-se o mesmo das qualificações
executando um produto têm então dois aspectos principais: morais dos trabalhadores.
energético e regulador. O aspecto energético aparece sob a forma É por isso que Marx sublinhava que ao lado do sistema
do esforço intelectual e físico. Quanto à regulação das activida- tecnológico, que ao lado da organização do trabalho, que ao
des produtivas, ela divide-se em três termos, de acordo com a lado das forças físicas dos trabalhadores, das suas qualificações
justa definição de Tadeusz Tomaszevski: práticas, da sua disciplina e ela sua responsabilidade moral, os
conhecimentos do homem constituem um elemento das forças
a) «orientação, isto é recepção dos sinais em função dos de produção da sociedade, sobretudo nas condições da segunda
quais os trabalhadores intervêm na situação, actuam no funcio- fase da industrialização. É pois a justo título que P. Kopnine
namento das máquinas, sinais respeitantes às mudanças que escreve que «os conhecimentos são um elemento indispensável
ocorrem no material, na posição e nos movimentos do seu pró- e uma das premissas da actividade humana. O trabalho do
prio corpo»; homem supõe a existência da ciência» (5).
b) «tomada de decisão»; Existe, pois, entre os conhecimentos e o trabalho produtivo
c) «manipulação, isto é, o conjunto dos movimentos de tra- que deles decorre um verdadeiro «f'eed-back». Por um lado,
balho executado sobre um objecto determinado (material, uten- os conhecimentos aumentam sobretudo com as necessidades do
sílios, ... )>> (4). desenvolvimento da produção (só a partir duma certa etapa do
desenvolvimento da divisão do trabalho e da cultura é que pode
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Extensão e Significado da Categoria de Práxis 13
12 Extensão e Significado da Categoria de Praxís
distinguir-se uma forma de actividade de conhecimento distinto); condições de eficácia e os critérios do conhecimento adequado
por outro lado, o conhecimento e o seu resultado, o saber do mundo.
humano, tomam-se não só condições mas também, numa certa Os marxistas chamam também a atenção para o facto de
medida, elementos da estrutura do processo de trabalho. que na base do conhecimento humano se encontra a natureza
já transformada pelo homem. As relações dos objectos com
Poderemos nós, contudo, como o fazem certos autores, reco-
o homem e as suas necessidades estão já classificadas. As fun-
nhecer no trabalho do homem e na «prática objectiva» o ele-
ções e as propriedades das coisas são atribuídas consoante as
mento principal e estruturante da essência do nosso conheci-
relações existentes entre elas e ele; para explicar o que é um
mento da realidade adquirida no decurso da produção?
martelo há que explicar o que o leva a utilizar; para falar do
Penso que não. Com efeito, da tese que o trabalho nasce da petróleo, não bastará indicar a sua origem orgânica e a sua
necessidade de conhecer, que a sua execução conveniente supõe composição química; deveremos acrescentar que ele faz parte
conhecimentos e que enfim estes são proveitosos para o tra- integrante das fontes de energia.
balho, não se segue de forma alguma que haja que considerar O homem interessa-se pelo mundo sobretudo por causa da
o trabalho como elemento principal e determinante da estru- prática material, das necessidades a satisfazer, das possibilidades
tura do saber ou mesmo que haja que identificar um ao outro. que ele oferece para facilitar o trabalho e aumentar a sua efi-
Daí a justa observação de Kopnine: «o trabalho é o domínio
cácia.
prático dos fenómenos, dos processos da natureza. Este tem por-
tanto que dar lugar à criação de novas coisas indispensáveis Esse elo essencial entre a prática e o conhecimento reflecte-se
àexistênoia da humanidade. Quanto ao saber, se é certo que no nosso saber e não podemos deixar de nele o encontrar.
ele é igualmente domínio do objecto indispensável ao homem, Ê somente neste sentido que eu compreendo as passagens de
tal domínio é apenas teórico e não prático. O saber só dá do Marx e de Engels exprimindo o facto que a história do saber se
objecto a sua ideia bem como a possibilidade de o obter na confunde com a história da indústria. O homem conhece «não
prática» (6). uma natureza abstracta e pura mas uma natureza transformada
pelo seu trabalho). Da mesma forma quanto ao que dizia Lénine:
Só existe um caso em que poderemos dizer que «o trabalho «O ponto de vista da vida, da prática deve ser o ponto de vista
cria o saber»; é quando traçamos um paralelo entre o trabalho primeiro, fundamental, da teoria do conhecimento» (7), que «toda
e o saber. Com efeito, o trabalho material e o seu êxito exigem a prática do homem deve entrar na «definição» completa do
progressos do saber e é esse facto, junto ao acréscimo da pro- objecto, ao mesmo tempo como critério da verdade e como
dução que, desde sempre, tem sido um dos mais importantes determinante prática da ligação do objecto com o que é neces-
estimulantes do desenvolvimento das pesquisas experimentais e sário ao homem» (8).
das investigações teóricas.
O nosso' conhecimento activo e transformador selecciona os
A produção material está igualmente equipada com meios objectivos de investigação e a sua sucessão e chama a nossa
e aparelhos adaptados a uma pesquisa frutuosa. O desenvolvi- atenção para certos aspectos dos objectos, sem se deter noutros,
menta da indústria moderna determina, na maioria dos casos, menos importantes.
a direcção do desenvolvimento de' sectores científicos correspon-
Com o desenvolvimento da produção vem o aperfeiçoamento
dentes; coloca aos cientistas problemas precisos para J esolver.
O nosso conhecimento do mundo faz-se activamente pela trans- dos instrumentos técnicos: instrumentos de medida, sistemas
formação devida, pelo facto de que os trabalhadores procuram especializados e outros, cuja aplicação às investigações limita
aperfeiçoar o seu trabalho. Os marxistas elevam a actividade a maneira de encarar a realidade. Neste sentido, o trabalho
objectiva, o saber e' a necessidade do contacto com a prática contribui fortemente para dar uma forma especificamente sub-
ao nível duma atitude, duma orientação consciente, e duma jectiva à visão que o homem tem da realidade objectiva. Esta
estratégia do conhecimento que ilumina as fontes, os fins, as forma subjectiva pode informar-nos indirectamente sobre o pró-
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Extensão e Significado da Categoria de Prli.xis
14 Extensão e Significado ela Categoria ele Prli.XIS
do nosso saber «não é uma questão teórica, mas uma questão
prio trabalho porque, em certa medida, ela reflecte as caracte- prática» (9). Lendo isto há que não confund'ir dois problemas.
rísticas do trabalho, as suas condições, necessidades e meios. O primeiro problema é saber o que permite ao homem conhecer,
Contudo, o resultado da nossa actividade depende, de facto, da pois são os momentos do desenvolvimento da actividade colec-
informação objectiva relativa aos utensílios e ao objecto do tra- tiva que o incitam a tal, abrindo-lhe novos horizontes e novas
balho. É por isso que o essencial do nosso saber, dos nossos possibilid'ldes de investigação, qual é o seu conhecimento, activo
conhecimentos, da nossa representação não Se concentra no ou passivo, e enfim, como pode ele verificar as suas opiniões
trabalho, seus fins e necessidades que satisfaz, mas sobre o teóricas por meio da realidade. O segundo problema é o de
objecto, os utensílios, os processos materiais, necessários a ins- saber aquilo que o homem concebeu na verdade, qual a essência
talar para deles tirar um bom rendimento. Numa palavra, con- do seu conhecimento, das suas impressões sensoriais, das suas
centra-se na natureza tal como ela é. representações e das suas teorias abstractas.
O trabalho produtivo não dá o elemento principal ou único Não é pois minha intenção negar o facto que o trabalho
estruturando o meu saber; neste sentido, a minha concepção possa naturalmente tomar-se um elemento principal e substancial
cio mundo é igual à minha práxis, A minha concepção do mundo, do saber. É a nossa actividade produtiva e não a natureza tal
com efeito, é função da minha práxis e, sobretudo, função do como a conhecemos que: pomos no centro da nossa observação
meu trabalho. Ela não se acha ligada ao mundo em si mesmo. e das nossas investigações científicas. Quer dizer que o trabalho
Por outras palavras, sempre que eu conheço o mundo em acção, em si próprio constitui o objecto de estudo do fisiologista,
a minha visão ultrapassa o trabalho, as acções e os actos que do sociólogo, do economista, do «praxeólogo», do ergonomista,
neles intervêm. Ela contém sobretudo as condições materiais do tecnólogo, etc., da mesma forma que a actividade de conhe-
do desenvolvimento do trabalho, que são independentes do eu cimento (os actos de conhecimento e não a sua representação)
e das minhas capacidades criadoras. Assim, a significação da pode tornar-se facilmente objecto de estudo da neurofisiologia,
palavra «saber» é mais lata do que as diferentes formas do tra- da psicologia, da gnoseologia. Não pretendo levantar uma polé-
balho produtivo. mica em torno da concepção segundo a qual o próprio trabalho
(assim como as actividades de conhecimento) possa ser para
O trabalho produtivo ou, mais amplamente, a noção de quem por isso se interesse o objecto de estudos científicos. Neste
prática objectiva, também não é essencialmente um conheci- sentido é então efectivamente um dos elementos principais e
mento, ainda que no decurso do seu desenvolvimento interve- essenciais da estrutura da ciência. Respondo apenas à opinião
nham também os processos de conhecimento e que a actividade espalhada numa parte da literatura segundo a qual o homem,
científica, por seu turno, esteja ligada à execução dum certo que na filosofia de Karl Marx conhece o mundo pelo trabalho,
trabalho objectivo, por exemplo, no decurso de pesquisas expe- só conheceria o trabalho organizado com vista a transformar
rimentais de laboratório. É o que faz que o conhecimento se o mundo bem como Os valores, as necessidades, as esperanças
torne inoispensável, o que lhe fornece o material empírico e faz e os fins ligados ao trabalho. Não conheceria pois o «mundo
surgir Os problemas teóricos, o que inspira e cria. Graças a esta em si» tal como ele existe independentemente da nossa activi-
prática o homem conhece o mundo e chega aos critérios da dade produtiva. Por outras palavras, oponho-me à opinião
verdade. Parece, poís, que as principais teses marxistas a este segundo a qual o conteúdo do saber que adquirimos ao longo
respeito derivem desta significação; porque elas não identificam do desenvolvimento do trabalho não é a realidade objectiva mas
a estrutura de conhecimento à estrutura da actividade produtora. somente o mundo subjectivo da actividade humana. Convém
Elas exprimem o facto de que «o objecto, a realidade, o sublinhar que o tipo de contacto objectivo com a natureza que
mundo sensível» não devem ser concebidos unicamente na sua representa o trabalho produtivo possui o carácter duma dupla
relação dialéctica. O homem que transforma a natureza segundo
forma objectiva mas também subjectivamente, na medida em
os fins precisos que para si fixou, muda também duma forma
que por tal se entenda a actividade material do homem - isto
notável ao longo do processo. Graças ao trabalho ele distingue-se
é, a sua «prática». O problema da verificação da objectividade
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Extensão e Significado da Categoria de Práxís
Extensão e Significado da Categoria de Práxis 17
da natureza. Com o desenvolvimento do trabalho, a sua natureza
e as suas características psicofisiológicas mudam também. Para- Não basta todavia esta reserva para resolver o problema.
lelamente ao desenvolvimento do processo de trabalho prossegue Em várias passagens filosóficas, Karl Marx insiste muito parti-
um processo de evolução biológica (ainda que muito lento) e, cularmente na prioridade do trabalho produtivo no conjunto da
ao mesmo tempo, aparecem novos valores culturais, transmitidos vida do homem. Pareceria pois que a teoria marxista da práxis
e .assimilados duma geração à outra; esses valores enriquecem apenas se refere ao domínio da produção material. Esta ideia
incessantemente: é o que entendemos quando falamos de «huma- está contudo em contradição com outros textos de Marx nos
nidade». O trabalho aperfeiçoa pois duplamente o código gené- quais se trata do conjunto socio-histórico da actividade material
tico do homem; no sentido literal, favorecendo certas caracte- do homem. Ao mesmo tempo que ele transforma o seu meio
rísticas pessoais, consolidando certas tendências que têm a sua conforme as suas necessidades crescentes «transforma-se e cria-se
origem nas mutações, mas também no sentido da codificação a si mesmo» (12). Assim Marx fala ela transformação do «meio
da mensagem cultural. Daí, dois elementos da definição, mar- natural» pelo homem, da mudança das relações e das estruturas
xista do trabalho: a transformação da natureza e a transfor- sociais, da mesma forma que da transformação dos meios de
mação do homem pelo homem, experimentada no decurso desse acção.
processo, transformação da sua inteligência, do seu psiquisrno, Os textos citados a seguir, tal como o ensaio marxista Tra-
da sua cultura; «o trabalho - escreve Marx - é antes de mais balho Assalariado e Capital sugerem esta interpretação. Marx
um acto que se passa entre o homem e a natureza. O homem sublinha aí que (ma produção os homens não agem somente
desempenha aí face à natureza o papel duma nova potencialidade sobre a natureza mas também uns sobre os outros: (13). Neste
natural. As forças de que o seu corpo é dotado, braços e pernas, domínio «as relações de produção» e as tendências que têm as
cabeça e mãos, são por ele postas em movimento a fim de assi- diferentes classes «para abolir ou reforçar as relações de pro-
milar matérias dando-lhes uma forma útil à vida. Ao mesmo dução» desempenham um papel importante. Em A Ideologia
tempo que ele age por esse movimento sobre a natureza exterior Alemã, nas Teses sobre Feuerbach, Marx entende a actividade
e a modifica, ele modifica a sua própria natureza e desenvolve política e social, incluindo a prática revolucionária, igualmente
as faculdades que nele estão adormecidas» (10). como uma «prática humana». Podemos ler aí, por exemplo,
que (la coincidência da mudança das circunstâncias e da activi-
2. Relações entre Os conceitos de «prática, e «actividade social» dade humana ou auto mudança não pode ser considerada e com-
preendida racionalmente senão como «prática revolucioná-
Os textos que citámos obrigam-nos a esclarecer imediata- ria» (14); que, «a família terrestre é o segredo da família celeste,
mente a seguinte ideia: o conceito marxista de práxís engloba é a primeira a partir de agora à qual há que fazer a crítica
somente o trabalho produtivo (é o que sugerem as formulações teórica e revolucionar na prática»; que <ta vida social é essen-
«prática humana objecto-material», «prática material») ou então
cialmente prática. Todos os mistérios que desviam a teoria para
diz respeéto ao conjunto da actividade humana. Em certos textos, o misticismo encontram a sua solução racional na prática e na
Marx utiliza as noções de «prática socio-revolucionária», «de compreensão dessa prática» (15). Em todos estes textos, a palavra
experimentação e de prática científica», «de prática artística», «prática» justifica a tese que a teoria marxista da práxis abarca
etc. Em ensaios de Engels sobre os problemas metodológicos de também todas as formas da actividade social que transformam
pré-história e de etnografia, reencontramos a noção de «prática» as relações interpessoais, a luta política, e, sobretudo, a luta de
na expressão «prática cultual» (11).
classe.
Parece que seria necessário distinguir todos os textos clás-
sicos nos quais ia palavra «prática» é usualmente oposta à Uma interpretação semelhante foi adoptada estes últimos anos
palavra «teoria» (pode falar-se neste caso da teoria e da prática por muitos autores soviéticos. Assim, A. Spirkine, por exemplo,
científica, artística e mesmo religiosa ou cultual), dos textos define este conceito da seguinte forma: «A prática é a actividade
respeitantes à prática que enunciam os princípios filosóficos fun- material objectiva dos homens, é a sua actividade concentrada
damentais. num objecto definido afim de o transformar e satisfazer as suas
inecessidades formadas historicamente» (16). O autor sublinha
2
1;1'"
19
Extensão e Significado da Oategoria de Práxis
18 Extensão e Significado da Oategor ía de Praxís
do meio ambiente do homem. Nós não podemos afirmar que a
contudo que o termo «prática objectiva» deve ser compreendido «(prática cultuab>, a actividade artística ou C'. elaboração de teo-
no seu sentido mais lato, isto é, no sentido de actividade de rias oientíficas transformem o material do ambiente do homem.
transformação da realidade física e também social. «O tipo fun- Com efeito, ainda que as teorias científicas possam preparar uma
damental da prática é a actividade de produção material humana. tal transformação, elas próprias não provocam nenhuma mudança
Ela cria os bens materiais, transforma também socialmente a acti- material. Certas obras de arte transformam o meio natural mas
vidade revolucionária de massa que visa mudar as relações de
a sua verdadeira função não é essa.
produção. A actividade prática dos homens é a sua participação
na vida sacio-política, as suas lutas de classe, a sua revolução conceito de «prática» e o de «existência
3. Relações entre o
social» (17).
humana»
No Dicionário Filosófico soviético a prática é definida assim: O conceito de «prática» é compreendido duma maneira ainda
«A actividade dos homens para assegurar a vida e o desenvolvi- mais alargada pelo filósofo checo Karel Kosik. Ele tem razão
mento da sociedade; isto é, antes de mais, o processo de pro- quando protesta contra a redução da «práxis» à técnica dei mani-
dução material». «A actividade de transformação revolucionária pulação dos objectos ou às diferentes formas de «usufruto» das
de classes e qualquer outra forma da actividade social tendente coisas, ou ainda às noções pragmáticas do «êxito», «sucesso:
a transformar o mundo» pertencem à noção de prática (18). (o que Marx, como ele o sublinha, qualificava já de apreensão
A palavra «mundo» é entendida neste texto no sentido de imprópria da noção de prática na sua forma «judaica»). Pare-
«mundo da natureza» e de «mundo das relações sociais». Certos ce-nos, contudo que ele dá um sentido demasiado lato ao con-
autores vão mais longe pretendendo atribuir à «prática» um ceito de práxis. Estamos de acordo com ele quando escreve:
carácter tão universal que englobasse toda a actividade dos indi- «A prática, além dos momentos do trabalho, compreende igual-
víduos, incluindo a sua actividade intelectual, a criação artística mente os momentos existenciais. Ela manifesta-se na actividade
e científica, a elaboração duma concepção ideológica e até a objectiva do homem transformando a natureza e conferindo à
actividade pastoral, as celebrações cultuais ou a reflexão teoló- matéria bruta da natureza um conteúdo humano; ela manifesta-se
gica. Assim Maurice Cornforth 'inclui entre as formas de acti- também pela formação do objecto humano no qual os momentos
vidades humanas abrangidas pelo conceito de «prática», além existenciais tais como o constrang,imento, a repulsa, o medo, a
da actividade económica, de produção e de distribuição dos alegria, a esperança, etc., não são sentimentos passivos mas cons-
objectos de que temos necessidade, «os actos mágicos», «as acti- tituem uma parte da luta pelo seu reconhecimento, ou seja, do
vidades artísticas e científicas». Segundo ele, este conceito processo de realização da sua liberdade (22). O que provoca objec-
abarca também «as práticas religiosas e mágicas»,as actividades ções da nossa parte é a tese na qual o autor identifica
«políticas, as da ciência, e dos diferentes ramos artísticos» (19). a prática com «(O conjunto da existência do homem), com o
Podemos encontrar formulações semelhantes na obra de «(comportamento específico do homem» (23).
Karol Martel Problemas Fundamentais da Teoria Marxista do O facto de o trabalho produtivo e outras formas da práxis
Conhecimento. Após ter observado, conforme as teses mar- objectiva constituírem os elementos essenciais da «existência
xistas, que «a actividade material é o domínio da prática, pro- humana» é indubitável. Define o que Marx designa como «a espe-
dução dos bem materiais e luta de' classe resultante de relações cific\idade do género humano» mas não esgota de forma alguma
de trabalho» eO), Martel acrescenta que «a actividade humana o conjunto da existência humana. Esta possui formas de com-
alargada a muitos outros domínios tais como a actividade política, portamento específicas que permanecem absolutamente 'exteriores
ideológica, científica, estética, pedagógica, etc., pertence à «prá- à prática, por exemplo, o sono, a contemplação, os sentimentos,
tica» no sentido lato deste termo» (21).
a introspecção. etc.
Nós não estamos de acordo com uma tal extensão do con- A concepção proposta por Kosik, a saber que tudo o que
ceito marxista de práxis, pela razão que, como já o dissemos, Qhomem faz é prática, priva de sentido, pela extensã.o excessiva
Marx ligava este conceito à actividade material transformadora
.20
Extensão e Signiflcado da Oategoria de Práxrs
Extensão e Significado da Categoria de Práxis 21
da noção de «praxis», várias teses marxistas: a verificação da
teoria pela prática; a prática como critério de verdade; a impos- põe, escreve Kosik, é o de saber em que sentido e em que medida
sibilidade de resolver o problema da ((Objectividade do nosso é possível tomar o trabalho como base para reflectir sobre a
conhecimento» na esfera da teoria e a necessidade do recurso realidade humana. Parece impossível defender isso de outra forma
à prática; o facto de que não é o cogito ou o ((autoconhecimento» senão reduzindo toda a realidade humana ao trabalho para que
hegeliano, acto puramente espiritual, mas a acção, a prática, que todas as formas da existência do homem sejam apreendidas corno
define e constitui a existência humana. Da mesma forma, certas sendo um dos aspectos do trabalho. Uma outra possibilidade- é
limitações do conceito de «práxís» que Kosik propõe ao escrever considerar como marginais e secundárias as esferas da realidade
que «sornenrs a actividade criadora, progressista pertence à humana que não podemos nem reduzir ao trabalho, nem explicar
prãxís», nada mudam no essenolaí. Com efeito, a teoria criadora a partir do trabalho. Nesta hipótese seria pois absolutamente
fica exterior à prática até ao momento da sua aplicação e da normal que o divertimento não se oferecesse efectivamente rela-
sua realização. Também não vejo porque razão não deveriam cionado com trabalho e apenas como pura diversão e por con-
considerar, por exemplo, a actividade política reacoionária ou o seguinte como um fenómeno secundário» (27).
trabalho mal executado como fazendo parte da prática. Kosik O facto de o trabalho ser o factor que permitiu ao homem
escreve enfim que (mós só conhecemos o mundo material e os emergir da natureza e que abriu a possibilidade de desenvolvi-
processos que dele derivam na medida em que os ((reproduzimos mento a outras formas da existência humana não sobressai de
pelo espírito e pelo intelecto». Esta reprodução intelectual da modo nenhum nem na hipótese em que essas formas são redu-
realidade deve compreender-se como sendo uma das formas da zidas ao trabalho, nem quando são rebaixadas ao nível de fenó-
atitude prática do homem para com a realidade que mais funda- meno secundário na vida humana. Em contrapartida. se aban-
mentalmente contribui para a criação da realidade sócio-humana. donarmos a tese de que o trabalho e as suas diferentes formas
Sem realidade sócio-humana, a reprod'ução espiritual e racional constituem o elemento essencial na vida do homem e determinam
é impossível (24). Parece-me que assim Kosik ligou duma forma mesmo as suas outras esferas, então é impossível compreender
pouco fel1iz dois problemas diferentes: primeiro «a penetração donde vêm as deformações do divertimento que encontramos
do conjunto da vida do homem pela prática e isso em todas as na cultura burguesa actual: o «divertimento: assumindo diversas
suas manifestações» (o que podemos aceitar) e em seguida a formas compensatórias e sendo a sublimação d'as tendências
definição da «prátícas. Se a prática penetrar assim todas as criadoras não realizadas, «divertimento. como uma forma para
esferas da vid'a humana isso não significa de forma nenhuma alcançar o prestígio, a celebridade, o êxito, etc. E não se trata
que se passa identifícar a elas. Em contrapartida, elas constituem aqui senão duma das «formas de existência: citadas por Kosik.
o seu elemento mais dinâmico e mais consistente. É igualmente
aí que' se situa uma das diferenças de concepção da práxis entre Mais, se aceitarmos a teoria de Kosik sobre a equivalência de
Marx e Hegel (na do Espirito) (25), O próprio todas as formas da práxis, ser-nos-à impossível resolver o pro-
Kosik parece sentir do mesmo modo porque numa outra das suas blema da humanização do divertimento, ou seja, por outras pala-
obras, escreve: «Marx, como Engels, considera a evolução do vras, de lhe atribuir um outro lugar na vida do homem. Com
homem que ele estuda na sua relação com a natureza, como o efeito, a análise de diferentes formas de depreciação do diver-
processo de autocriação; este processo tem, contudo, para ele timento é 'impossível sem a análise das suas bases que são a
um valor objectivo e material relevando da actividade prática desumanização do trabalho e a comercialização das relações
que é o trabalho» (26). inter-hurnanas, a qual deriva da alienação. Se fosse feita abstrac-
Estou novamente em desacordo com Kosik quando, num dos ção destes «condicionamentos», ser-nos-ia difícil entregar-nos
seus artigos publicado na revista Praxis editada em Zagreb, ele eficazmente à pesquisa das formas de divertimento próprias para
satisfazer as necessidades reais do homem e a enriquecer a sua
coloca em pé de igualdade o trabalho e manifestações da acti-
personalidade. Não nos seria pois possível achar formas nas quais
vidade humana tais como o riso e o divertimento para explicar
o que caracteriza a existência do homem. «(O problema que se o divertimento desempenhasse a sua própria função, e não outras
que lhe fossem alheias, a saber, a função de sublimação, de pres-
- . .- . .IiliIIiIMI-Iilii--iiiíi----....- .. ..
23
22 Extensão e Significado da Categoria de Práxis Extensã.o e Significado da Categoria de Práxts
tígio, de compensação ... , e que, por consequência, a relegariam Este ponto de vista é mais o do puritanismo burguês que o
para «um nível secundário) ou a algo de totalmenteindependente de Karl Marx. Este, com efeito, está longe de reduzir a huma-
nidade ao Homo Faber ou ao Homo Economicus. Ele defende
da noção de «jogo». A mesma coisa pode dizer-se a propósito dos
a concepção do «homem completo» realizando-se ele próprio tanto
outros aspectos da «realidade humana» de que fala Kosik.
no trabalho criador e activo como na sua participação na vida
Há, aliás, que reconhecer honestamente que mesmo nesta pública, cultural, ou na sua actividade de conhecimento. Marx
questão Kosik está longe de ser consequente, porque numa outra fez a crítica da sociedade burguesa justamente por que ela reduz
obra, ele sublinha o carácter antropogéneo da actividade pro- a vida da maioria dos cidadãos (sobretudo proletários) ao papel
duriva como base do desenvolvimento do pensamento e da acti- d'e produtores, o que, por isso mesmo, diminui as suas possibi-
vidade do homem. Ele constata, em conclusão, que «o trabalho lidades de part'iciparem noutras formas da prática humana cujo
é a actividade que penetra toda a existência do homem e constitui significado não pode reduzir-se à «preparação para o trabalho»
a sua especificidade» (28). . ou à «reprodução das formas de trabalho» mas possuem para
a vida do homem um valor em si mesmo. O significado da
É por isso que estou inteiramente de acordo com Szewczyk
expressão «alienação do trabalhoi reside segundo Marx no facto
que, em desacordo com Kosik, sublinha que no conjunto da prá-
de se tirar ao trabalho do trabalhador o carácter de trabalho
tica humana a actividade produtiva preenche o papel «primordial
criador «reduzindo a vida deste último a uma luta existencial
e constitutivo para o conjunto», e que todas as outras formas
puramente biológica». É por essa razão que, no terceiro livro
«de actividade existencial do homem não poderiam ser consi-
de O Capital, ele atribuía uma tão grande importância à limitação
deradas se não dela provenientes; quer dizer, que ela decide quanto dos horários de trabalho e à extensão dos tempos livres (33). Marx
às possibilidades de criação e de desenvolvimento. Estas últimas
ligava duma forma indissolúvel a perspectiva da libertação e de
não são, pois, mais do que actividades derivadas do trabalho. Elas
humanização do trabalho humano ao desenvolvimento, de outras
nascem e adquirem a sua extensão em função do desenvolvimento
do trabalho produtivo e são como que dependentes face àquele formas da prática humana.
que produz ele próprio a vida [ ... ]» (29). Também não posso estar de acordo com Szewczyk quando
(num outro dos seus artigos e no seu ensaio Filosofia do Tra-
Sou 'igualmente da sua opinião quando ele sublinha que «o
balho) renuncia à noção de práxis e se limita à do «trabalho
conceito marxista de prática integra todas as formas de activi- físico intensivo (isto é, a um trabalho sabisfazendo as necessidades
dade com o trabalho que as torna possíveis. Nesta concepção a físicas do organismo no trabalho), mudando o mundo físico e
extensão do conceito de «trabalho» e a do conceito de «prática» realizando nele os seus fins intelectuais». Revelando os motivos
estão estreitamente Iigadas (30). O mesmo se passa quando ele dessa limitação Szewczyk escreve: «Ao considerar o trabalho
escreve que «o próprio homem, com todas as suas caracterís- como esforço do pensamento humano onde ele se objectiva pela
ticas e atributos é o produto primeiro da sua actividade colectiva sua finalidade, se materializa e se realiza, esforço-me por me
produtiva [ ... ]; quer dizer que ele se elaborou literalmente a aproximar da ideia da «prática) que Marx introduziu nas Teses
partir da natureza, que o continua a fazer, e cada vez mais sobre Feuerbach e que foi tão fortemente acentuado por Lénine.
conscientemente, o que implica que tudo o que podemos chamar Afasto-me, contudo, do termo de «prática» em si mesmo a fim
humano é, quer o trabalho, quer o efeito do trabalho, quer o de me distinguir das suas interpretações posteriores que eram ou
fruto do trabalho, seja isso condicionado ou derivado do tra- tão gerais que lhe tiravam todo o significado importante na
balho» (31). filosofia, ou tão estreitas que, na verdade, reduziam «a prática)
Em contrapartida, não posso deixar de me opor a Szewczyk à actividade profissional dos filósofos». {Podemos observar ten-
quando ele escreve que «toda a existência do, homem se reduz dências semelhantes, por exemplo, em artigos aparecidos na
ao trabalho, e portanto que tudo está submetido à subsistência revista íugoslava Praxis entre 1965 e 1968 (34». Se este método
ou ao crescimento; quer dizer que ela só se torna humana na se tornasse geral poderíamos encontrar por exemplo enunciados
medida em que participa dessa acção» (32). do tipo: «Como Teilhard de Chardin vitaliza e espiritualiza a
i.
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l!V
Extensão e Significado da Categoria de Práxis 2ô
24 Extensão e Significado da Categoria de Práxís
matéria há que substituir o conceito de «matéria» pelo de «corpo» ração material entre os homens; todavia, existem muitas activi-
ou de «massa», por exemplo». «Como Jean-Paul Sartre aniquila dades materiais que, tendendo para a transformação de estruturas
a personalidade há que substituir o conceito de personalidade por sociais, nem por isso têm carácter produtivo. Por exemplo, a
«exemplar do género humano». «Como TaIcott Parsons separa greve ou a guerra transformam profundamente o meio ambiente,
o conceito de «classe» da noção de «relações de produção» os provocando a travagem das actividades produtivas senão mesmo
marxistas devem deixar de se servir do termo de «classe» e uti- a sua destruição. Para caracterizar as actividades materiais que
lizar, por exemplo, o de «camadas sociais»... transformam as relações de produção, certos autores servem-se
dum resumo intelectual: no domínio da prática intervém a luta
Além disso, o processo que substitui o conceito de «práxis», de classe» (36).
em todos os contextos existentes até hoje, pelo de «trabalho físico
intensivo», simplifica muito o sentido da concepção marxista do 4. Relações entre os conceitos de «prática», de «acto» e de
homem e do desenvolvimento social, Conduz à redução extrema
«actividade»
de todas as manifestações da actividade humana que tendem para
a actividade produtiva. Assim acontece desde que se tente' provar Para terminar convém elucidar as relações mútuas existentes
que «a noção de trabalho utilizada aqui esgota toda a existência entre os conceitos de «prática» e de «actividade), por que os
humana e ao mesmo tempo tenta explicá-Ia segundo a ideia seus campos de significação não são os mesmos. Mais precisa-
marxista»; que a «existência do homem no mundo, mesmo quando
mente, a prática é apenas uma certa categoria de actividades
preenchida sobretudo pela acção do pensamento, possui de qual-
humanas. Antes de abordar os elementos dessa distinção gosta-
quer forma, em última instância, o carácter de esforço físico
ríamos de fazer algumas observações sobre o conceito e o carácter
humano, do trabalho físico concentrado na oposição ao
mundo» (35). da actividade humana.
O homem realizando as suas necessidades biológicas e sociais,
A existência humana manifesta-se, tal como menciona Sze- as que o ligam ao mundo animal e 'as que lhe são específicas,
wczyk, tanto pelo trabalho físico e pelas diferentes actividades porque criadas na base do desenvolvimento das relações sociais
aferentes ao trabalho - trabalho intelectual, controlo da pro-
e da cultura humana, executa diversos movimentos e acções
dução, investigações científicas e técnicas, serviços, ordem pública
destinados a obter um efeito preciso; o resultado é aquilo a que
e educação - como, e isso é subestimado por Szewczyk, pelas
chamamos habitualmente a actividade humana (37). São sobretudo
formas de actividades que não têm hoje em dia nada de comum
específicas do homem as acções conscientes que ele executa para
com o trabalho produtivo e que não se limitam à «preparação
alcançar um fim determinado (independentemente do facto de
para o trabalho», ou à «reprodução da força de trabalho».
Trata-se da criação artística, do divertimento, do amor, da parti- ele ter plena consciência das consequências das suas acções, de
cipação na vida cultural, dos exercícios desportivos e turísticos, obter ou não os resultados pretendidos, que conheça até o fim os
da auto-educação política e filosófica, etc. verdadeiros motivos da sua actividade ou de não ter consciência
disso) e no decurso das quais ele controla as suas acções bioló-
Devemos também reconhecer que, contrariamente às refle- gicas e psíquicas.
xões de Szewczyk, a «prática objectiva» do homem não é somente
constituída pelas «actividades aferentes ao trabalho» e pelo «tra- Uma tal finalidade pode ser constituída por certas transfor-
balho físico» mas, conforme a ideia de Marx, pelo conjunto da mações do ambiente natural do homem, das relações sociais,
actividade objectiva dos homens, transformando (em função das dele próprio, de outras pessoas. Pode consistir em obter uma
suas necessidades culturais e materiais crescentes) o meio natural vantagem, ou em criar uma obra mais ou menos durável; pode
que os rodeia tal como o meio social e,enfim, eles próprios sem- ser, por exemplo, a transformação de um objecto ou de um
pre que se entreguem a essa actividade. Daí, a justa observação conjunto de objectos, a criação de uma vantagem definida, de
de J. Ladosz, que escreve que «a actividade produtiva transforma uma obra de arte, a execução de uma experiência, de uma des-
a natureza, modifica muitas vezes in ipso as estruturas de coope- coberta científica; ou ainda uma simples apropriação: por exern-
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I
27
26 Extensão e Significado da Categoria de Práxís Extensão e Significado da Categoria de Práxls
plo, dar qualquer coisa a alguém ou, pelo contrário, obter alguma -culturais e psíquicas (ele exprime, assim, a sua estrutura psíquica
coisa de alguém; ou ainda a criação, a transformação ou a des- específica e as suas experiências), ele procura a satisfação real
truição de um organismo social, a apropriação ou a transmissão ou imaginária das suas necessidades, enfim, está submetido à
de uma coisa, de uma dignidade, de um poder, a estima de si, tendência para realizar uma tarefa proporcional à satisfação das
dos outros, de algo, a luta revolucionária... necessidades em questão.
O homem não se caracteriza somente pela acção consciente. Ao mesmo tempo cada acção supõe que o homem utiliza
Muitas das suas acções são. tal como nos animais, instintivas. a sua energia psíquica e física. Em certas situações em que haja
Outras são condicionadas pelas instâncias inconscientes da per- que renunciar a certas acções na medida em que o homem que
sonalidade. Podemos mencionar por exemplo: age julgue possível alcançar o fim em vista sem intervir no pro-
cesso, é necessária uma tensão física e psíquica, uma vigilância e
1. As reacções (instintivas mas também por vezes condicionadas) a necessidade de conservar a possibilidade de intervir no momento
aos estímulos exteriores não comandadas pela consciência. em que o desenvolvimento do processo adquire uma direcção
indesejável; neste sentido podemos dizer que a não-acção con-
2. A tendência espontânea para satisfazer necessidades biológicas
precisas. tinua a ser uma acção em si (39).
A actividade consciente decompõe-se habitualmente da forma
3. Os elementos do comportamento específicos e característicos
do homem que exprimem as reacções deste perante certas seguinte:
situações de relação interpessoais mas que não são, contudo,
1) Reconhecimento da sua necessidade (para a satisfação directa
controladas pela consciência; estas podem dizer respeito, por
ou indirecta das necessidades experimentadas pelo homem ou
exemplo, ao prestígio social, certos comportamentos na luta
ou a tensões psíquicas. pela colectividade).
2) Obtenção das informações respeitantes ao seu suposto desen-
4. As acções exprimindo a tendência para realizar certas necessi-
volvimento.
dades sociais ou pessoais ainda latentes e controladas pelas
instâncias inconscientes do psiquismo. 3) Formulação do fim e do programa.
As acções humanas são objectivas sempre que tendam a 4) Tomada de decisão.
transformar um objecto. Em contrapartida, sempre que se apli- 5) Execução dos actos conforme a decisão tomada (40).
cam unicamente no domínio do pensamento, falaremos então de
acções de consciência. As acções humanas podem pois ser objec- Por entre as diferentes acções humanas conscientes e exer-
tivas (materiais) ou de consciência, com ou sem tomada de cons- cendo uma influência sobre o ambiente podemos ainda distinguir
ciência, controladas pela vontade consciente ou totalmente uma categoria particular de acções objectivas cujo resultado é
involuntárias; estas diferentes categorias podem combinar-se: por a transformação material do meio. Trata-se das acções que o
exemplo, o trabalho produtivo é uma acção objectiva consciente homem realiza quando transforma a estrutura ou as formas dos
mas não uma acção material de consciência. objectos, ou quando modifica as relações humanas nos seus aspec-
tos materiais criando novos objectos ou novos sistemas sociais.
Não é meu propósito estudar estas diferentes noções. Remeto
Ele transforma, assim, a constituição física do meio ambiente
as pessoas a quem dsso possa interessar para as obras especiali-
natural do homem ou ainda as formas extra-conscientes e objec-
zadas de psicologia, praxeologia, biologia, economia, direito,
etc. (38). Queria simplesmente sublinhar que o homem em todos tivadas da vida colectiva pertencente ao' seu meio social. É jus-
tamente no carácter objectivo e material da actividade consciente
os seus actos manifesta uma certa atitude face à natureza, face
do homem que. se funda a noção de prática na sua concepção
às pessoas, face aos conjuntos sociais, e mesmo face a si-próprio,
porque todo o acto resulta das suas necessidades biológicas, sócio- marxista.
29
28 Extensão e Significado da Categoria de Praxís Extensão e Significado da Categoria de Pràxís
Além dos cinco elementos essenciais já citados, próprios de criação à transformação da matéria e da natureza (contudo o
qualquer acção, haveria que acrescentar outros aspectos especí- escritor transforma também os objectos, por exemplo, cobrindo
ficos da estrutura das acções orientadas de carácter objectivo; o papel de tintas), mas não é esta transformação que constitui
a função principal deste tipo de actividade. Trata-se sobretudo
1. O contacto material do homem com os elementos da natureza de provocar no «receptoOl impressões psíquicas determinadas de
(ou com as formas objectivadas das relações humanas); expri- carácter estético. Importa comunicar uma certa visão do
me-se pelas acções transformando os seus elementos e é, ao mundo (44).
mesmo tempo, «determinante prática da ligação do objecto Por vezes, os representantes destas artes produzem objectos
com o que é necessário ao homem» (41). materiais com qualidades estéticas elevadas e com um grande
2. O dispêndio, para além da energia psíquica, dum certo quan- valor utilitário. Neste caso a sua actividade deveria ser considerada
tum de energia física que se integra no objecto, nele se con- como fazendo parte da prática.
densando ao transformá-lo. Não diremos também que os sentimentos, as emoções, a con-
3. A adaptação do desenrolar das actividades à natureza e às templação, os actos introspectivos, a reflexão ideológica, o acto
especificidades objectivas do mundo exterior (matéria ou socie- normativo e apreciativo assim como outras formas de actividades
dade) que está a ser transformado. chamadas espirituais fazem parte da prática.
O que pertence à prática, no sentido marxista, é a actividade
Esta limitação à significação do conceito de prática nas formas orientada, objectiva pela qual os homens transformam os objectos
das acções citadas, isto é, à actividade orientada e ao mesmo materiais e as estruturas económicas e políticas, as instituições
tempo objectiva, não nos permite incluir aí a actividade pura- e outras formas da articulação social. Trata-se aqui das activi-
mente teórica (ou outras formas de actividade de consciência, dades individuais e colectivas que se desenrolam no quadro da
como por exemplo, a reflexão sobre o mundo). Isso é assim transformação histórica das formas de interacção social. Na
porque o seu efeito inicial é a transformação da realidade extra- base das formas das actividades em questão encontra-se a necessi-
consciente, ainda que possa todavia mudar e transformar o estado dade de regularizar as relações mútuas entre os homens e a natu-
de consciência do criador, tal como pode ter por finalidade reza, assim como entre eles, o que é necessário para melhor
indirecta a transformação da realidade. Neste caso podemos dizer satisfazer as necessidades crescentes elo homem. É justamente o
que uma teoria, que uma reflexão sobre o mundo, sobre si pró- conjunto dessas actividades humanas intervindo no decurso da
prio serve a prática, que está ligada a ela, mas que não é de história que Marx chamava «a prática sacio-histórica do homem».
forma alguma a própria prática (42).
Por razões semelhantes, consideraremos como não fazendo 5. O «ponto de vista da prática»
parte da prática toda a reflexão a propósito desta, do seu aper-
Esta concepção marxista da prática que tem sido aplicada
feiçoamento e sua melhor execução. Assim, segundo o nosso
à solução de várias questões filosóficas marcou um momento
ponto de vista, a actividade do actor de teatro, do escritor, do
importante no desenvolvimento do pensamento materialista. Se
ideólogo, do propagandista, do pedagogo, do estratega, do dou-
nos reportarmos ao «ponto de vista da prática» ela resolve de uma
trinário, não poderá ser incluída na prática. Ela pode, bem forma nova vários problemas clássicos respeitantes ao processo
entendido, contribuir para a mudança da realidade social e muitas de conhecimento da realidade, tal como a génese e o estatuto
vezes ela é mesmo o seu catalizador porque muda e transforma do nosso saber. O materialismo anterior, contemplativo, conside-
a consciência dos «receptores». Contudo, em si mesma, ela não rava o conhecimento humano como o reflexo passivo dos objec-
é a transformação da realidade extraconsciente (43). tos e dos fenómenos que podiam produzir-se no mundo da natu-
Quanto à actividade artística no domínio das artes plásticas, reza. O materialismo activo, esse, trata o conhecimento como
ela está muito mais estreitamente ligada do que outras formas de um elemento do processo histórico e social conduzindo ao domínio
31
30 Extensão e Significado da Categoria de Práxís Extensão e Significado da Categoria de Práxis
ficial deve ser substituído por um saber fazendo aparecer as
da natureza e à criação pelo homem de um «meio humano»
propriedades e as ligações importantes e essenciais. Não se pode
próprio e ao aperfeiçoamento do desenvolvimento das relações
entre os homens. Várias consequências essenciais decorrem daí. reinar sobre a natureza senão quando lhe conhecemos os segre-
dos mais bem escondidos.
A primeira é que não é a natureza «pura», nunca tocada
pelo homem, mas sobretudo a natureza transformada pelaacti- A última consequência é que o conhecimento tem um carácter
vidade humana, pela «produção», que é o objecto do conheci- socio-histórico. Ele não se limita à actividade de conhecimento
mento. Feuerbach fala do conhecimento sobretudo do ponto de dos indivíduos, mas alarga-se aos esforços colectivos de toda a
vista das ciências da natureza, evoca segredos que se revelam humanidade. Feuerbach «não vê - escreve Marx - que o mundo
apenas para o físico ou para o químico. E contudo, sem a indús- sensível que o rodeia não é um objecto dado directamente desde
tria e o comércio, as ciências da natureza não poderiam existir. sempre e sempre idêntico a si próprio, mas o produto da indús-
Mas «mesmo esta ciência da natureza dita «pura» - replica triae do estado da sociedade, e isso no sentido em que é um
Marx - não será ela apenas o comércio, a indústria e a activi- produto histórico, o resultado da actividade de toda uma série
dade material dos homens os quais lhe atribuem um fim e lhe de gerações, em que cada uma se erguia aos ombros do pro-
fornecem os seus materiais? E essa actividade, esse trabalho, cedente, aperfeiçoava a sua indústria e o seu comércio e modifi-
essa criação material incessante dos homens, numa palavra, essa cava o seu regime social em função da transformação das
produção está na base de todo o mundo sensível tal como ele necessidades» (47). Daí, o facto de que o saber «é o livro vivo
existe nos nossos dias, e de tal forma que se o interrompermos, da actividade social humana» e o grau da sua adequação com
ainda que por uns anos, não só Feuerbach encontraria uma grande a vercadeira natureza do mundo aumentar com o progresso da
mudança no mundo natural mas lamentaria também muito rapi- prática objectiva.
damente a perda de todo o mundo humano e da sua própria
faculdade de contemplação, e até a da sua própria existência.
É certo que o primado da natureza exterior nem por isso deixa NOTAS
de subsistir, e tudo isso não pode sem dúvida aplicar-se aos pri- (1) «No processo de trabalho - escreve Marx - a actividade do
meiros homens produzidos por generatio aequivoca; mas esta homem efectua mediante meios de trabalho uma modificação dellberada
distinção só tem sentido na medida em que se considera o do seu objecto'. O processo extrngue-se no produto, isto é. num valor de
uso, numa matéría natural assimllada às necessidades humanas por uma.
homem como diferente da natureza. Além disso, esta natureza mudança de forma. O trabalho combinando-se com o seu objecto materla-
que antecede a história dos homens não é de forma alguma a tízou-se e a matéria é trabalhada. O que no trabalhador era movimento
natureza em que Feuerbach viveu; essa natureza nos nossos dias aparece agora no produto como uma propriedade em repouso» (K. Marx,
Le Capital, Editlons socíeres, Paris, t. t, p. 183). «O meio de trabalho. escreve
não existe em lado nenhum excepto talvez em alguns aiolls aus- Marx, é uma coisa ou um conjunto de coisas que o homem interpõe entre
tralianos de formação recente» (45). ele e o objecto do seu trabalho como condutores da sua acção» (K. Marx,
Le Capital, ed. cit.. t. I, p. 181). Os meios e o objecto são designados por
A segunda consequência é que esta maneira de conhecer é Marx como «os momentos simples do processo de trabalho» - dando-lhes
por excelência dinâmica e activa. Não é a natureza que imprime a. seguinte definição: «são actividades orientadas, quer dizer, o próprio'
em nós os seus traços, mas é o homem que imprime o selo do trabalho, o seu objecto e os seus ensaios» (K. Marx. Le Capital, ed. cit.. t.
l). Não deve todavia deprender-se que esses elementos compõem, só por si,
seu reino na natureza de uma forma consciente e orientada a
a. estrutura do trabalho.
fim de se aproveitar das suas forças e propriedades, adquirindo
(2) Marx escreve que o fim do trabalho é para aquele crue o executa
o conhecimento das propriedades da sua estrutura e das leis que uma lei que define a sua forma de agir e à qual a sua vontade se deve
a regem. A habilidade dos nossos sentidos, o intelecto humano, submeter. Isso não deve ser separado do seu trabalho. O esforço do orga-
a língua, as categorias do conhecimento e Os exemplos de racio- nismo no trabalho é acompanhado ao longo da. sua duração por uma
vontade orientada, isto é, pela atenção ( ... ) (K. MarX, Le Capital, ed. cit.,
cínio enriquecem-se com o trabalho criador destinado a adaptar
a natureza às nossas necessidades (46). É no decurso do processo t, r, p. 181).
P) K. Marx, Manuscrita de 4A, Edltlons SOciales, Paris 1968. n. 64.
de conhecimento da natureza que o nosso saber parcial, super-
33
Extensão e Significado da Categoria de Pràxís Extensão e Significado da Categoria de Práxis
32
(') T. Tomaazevskt, Wstep do psycholoYui (<<Introdução à psícolo-
(21) K. Kosik, ibid .• p. 157.
gía»); Warszawa, 1965. p. 238. (25) No meu ensaio DsobolOOSC i wspolnota «(Personalidade 6 comu-
nídade»}. Warszo.wa, 1970. estudo as relações entre o. filosofia. marxista
(5) P. Kopnine. Aná1ise da Linguagem, in Studia I<'ilozo/iczne, n. O 2, de pratica por um lado. e a concepção hegeliana do trabalho e a sua
1970. Of. N. Lubníckí, Action et pensée, ibid., n.o 2. 1957.
teoria da «consciência do senhor e do escravo» por outro.
(6) Idem.
(26) K. Kosik. obra citada. p. 134.
(7) Lénine, Materialisme et empiJ"iocriticisme, in CEuvres, t. XIV.
(27) Cf. Praxis, n.e 3. 1967.
Paris-Moscou. p. 146.
(28) K. Kosik. «Dialéctica do concreto». op. cit., p. 137.
(8) Lénine, A nouveau les eunaicate, ín CEuvres, t. XXXII. IJ. 94.
(29) J. szewczsx «O marxismo face a investigação». in Czlowiek
(9) K. Marx. 2. thése SUl' Feuerbach. in Marx-Engels, Etudes Philoso·
ptüques, Editions Sociales, Paris. 1968, p. 61. Swiatopoglad, n. O 10. 1970 (em potcco) .
(10) K. Marx. Le Capital; éd. cit.• t, l. p. 180. (30) Idem.
(11) Of F. Engels, L'Oriçine de la iarniüe, de la inouriete privée et (31) Idem.
de l'Etat.
(32) Idem. Szewczyk escreve mais adiante: ((Quaiquer manuo.l sobre
(12) Esta concepção da prática esta expressa também no meu ensaio fisiologia do trabaiho mostra que o repouso não é de facto mais do que
Wyzwolenie i' rozuioi osobowosci ludzkieiw [iloeofii Karola Marxa (<<Liberta- a passagem de um organismo em trabalho dispendendo intensamente a
cão e desenvolvimento da personalidade do homem na filosofia de Karl sua energia para o exterior, a uma fase de distensão e de regeneração das
Marx»), na recolha Antynomie wolnosci (,'Antinomia da Iíberdade»}, suas perdas». «For outro lado, todas as estatistico.s anuats dão conta das
Warszawa. 1965, pp. 340-359) e no meu artigo Marksistowska tcateçoric somas consideráveis e por conseguinte das massas de energia humana que
«praktykü) oraz 1e1 rola w filozo/ii diaLekt1Jcznego matertatemai (<<Noção são absorvidas pela preparação do repouso. do divertimento, da distensão
marxista de «prática» e seu papel na filosofia do materialismo dtatéctíco») de esp ír íto após o trabalho e antes de ser retomado. Se é pois inexacto
in Studia Filozo/ic"ne ("Estudos Filosóficos»). n.o 2, 1969. dizer-se que o trabalho constitui -por si só - a existência humana. não
se segue dai que seja menos verdade que tudo o que é fundamentalmente
(13) K. Marx, Travail salarie et capita1, Editions Sociales, p. 29. humano dele decorre necessariamente ou lhe é útiÍl> (idem).
(H) K. Marx, F. Engels. t/taeotosie aUemanCle, Editions Sociales, p. 32.
(33) Cf: as minhas obras sobre estes assuntos: ALienacja? (<<Aliena-
(15) Ibid, p. 33. cão?»). Warszawa, 1965. e Osobowosc (<<Personalidade e coiectividade»),
Warszawa. 1970. Cr. igualmente as obras de J. Danecki. Czas wolnJ) (<<Os
(16) A. G. Spirkine, Zarys tuoeoti: marksistcnoskiei «(Esboço da filo- tempos uvres»). Mity i potrzeb1J (<<Mitos e necessido.des»). Warszawa, 1967,
sofia marxísta»}. Warszawa 1968, p. 243. A interpretação da prática limitada J. Kuczynski. rnoson« zycia (<<Filosofia do. vida)}), Warszawa, 1965; J.
à produção material é apresentada, entre outros. no trabalho de K. Axelos, Waclawek. Teoria poetziaLu pract: i «utopia» «(Teoria da dtvísão do trabalho
Marx, penseur de la tectvnuiue, Paris, 1961. e «utopta») , K. Marx. KuLtura i spoLeczenstlOo (<<Cultura e sociedade»).
(17) A. G. Spirkine, ibid., p. 24. No presente ensaio ponho de lado o n,» 4, 1962; G. Toti, II tempo libero; Roma 1959. Limitações analogas da
problema da compreensão axiológica da práxís, Que abordarei num próximo concepção marxista da existência humana, provocaram na altura, a
ensaio. oposição de F. Engels (cr. Une iettre à C. Schmidt du 5-8-1890 em K.
Marx. F. Engels, Etudes philosopJ1,iQues, Ed. soc., p. 153).
( 18) «Dicionário Filosófico», Moscovo 1963, (em russo).
(31) J. J. Szewcyk. Rola pracy w pozhaniu. rzeczywistosci «(,Papel do
(19) M. Cornforth, Marxism and tne Linçuistic Philosophy, London,
trabalho no conhecimento da realidade I) ), in studia ruoeoncene (<<Estudos
1965, pp. 162·163.
Filosóficos)}). Cracóvia, 1971.
(20) K. Martel, Podstawowe zalladnien1a -markeistoxslciei teoru
(35) J. Szewczyk. RoLa pracy w procesie poznawania rzeczywistoci
poznania (<<Problemas fundamentais da teoria marxista do conhecímento»),
(<<Papel do trabalho no processo de conhecimento da realidade»). éd, cito
Warszawa 1963, p. 192.
(21) Ibid., p. 193. (36) J. Ladosz. Uwagi o projeciu praktyk1 w tuozotu marksis-
towskiej (<<Nota<; sobre a prática na filosofia marxísta») . ín Acta Universit'ltis
(22) K. Kosik; Dialektika konkrettiüu», stiuue o prootematice cloveka
VratisLaviensis, n. O 78. 1968.
a sveta (<<Dialéctica do concreto. Estudo da problematica do homem e do
mundo»), Praha 1963, p. 156. (37) A caracteristica da actividade humano.. a anó.lise dos conceitos:
,(Bcto simples» e (,acto complexo» tal como a classificação das diferentes
(23) K. Kosik. ibid., p. 150-154.
3
jl!ii&&i&2y,-",,-, .c; p$ w:::::;::;::;;; ..'" '--"-'" 9 -le:' &&
35'
31 Extensão e Significado da Categoria de Práxís Extensão e Significado da Categoria de Práxl.s
dos fins, 2. designação das condições reais, 3. designação dos meios adapta-
formas da actividade são dadas sob o ângulo praxeológ lco por T. Kotar-
dos aos fins e às condições reais ... », Os fins. ns condições e os meios' são
oínskí no 'I'ralct ar o dobrei robocie (<<Tratado do bom trabalho») , Wroclaw
os três elementos da actividade prática ( ... ) Aperçu sur les positions des
1955, pp. 25-52, 71-115, 273-300. CL também: N. Lubníckí. Dzialanie,
probLemes de !'action, in Revue Philosopnique, 1932 n.' 113. G. Hosteletl
musienie (<<Acção e pensamento») , ed. cít.. tal como H. Lenkíewtcz, O
não fala do «(reconhecimento da necessidade de agtr», nem «da tomada. de
poieciu: dzialania (<<Da noção de acção»), in Zeszyty Ntiulccnoe u nnoersuteta
declsãQ) nem «da execução das acções de acordo com esta» porque considera
Lodzldego (<<Cadernos Científicos da Universidade de Lodz») série r,
caderno 68, 1970. sobretudo os aspectos praxeológlcos da acção acentuando as suas condições.
(38) «Acção, actividade - escreve Jozef Pieter - é uma sequência V. Lénine, CEuvres, éd. crt., t, XXXII, p; 91.
mais ou menos complexa de actos «adaptativos» influenciando o meio
ambiente e cujo motor não é mais do que a apresentação de um fim, de (") Não posso pois estar de acordo com Louis Althusser. por
um Ideal, de um 'estilo de vida'», etc. Ele sublinha tambêm qus em todas exemplo. quando, partindo da sua definição da prática com' o «processo
as formas de actividades podemos notar acções psíqutcas tais como a transformação de uma matéria-prima num produtó definido, por melo
percepção, o pensamento, a tomada de decisão, etc. «O trabalho, a educa- de um trabalho definido e meios definidos)) (Sur ta dialectique matérialiste,
ção, a distracção, a criação são as formas principais da accão: (J. Pieter, ín La Pensée n.o 110, 1966) ele escreve que um teórico' produz também
Slownik psychologíczny (<<Dicionário pstcologtco») , Wroclaw 1963, D. 61). as suas teorias (a sua produção faz-se sob a forma das «teorias)), (<obras
Cf. também H. Arvon, La philosophie du traoau, Paris, 1961; T. Kotarbinski, cientificas)), etc.• servindo-se «dos meios de produção» e que ele transforma
Tralctat o dobrei robocie (<<Tratado do bom trabalho») , ed. cit.; O. Lange,
«uma matéria-prima» que são «representações. noções. faCtoS))),' para
Elconomia poutucena-eaçaanienia oçoine (<<Economia política - problemas concluir que a teoria é uma forma especifica da prática Que se exerce
gérais»), Warszawa, 1939, pp. 11-16, 132-145; B. Biegellsen-Zelazowskl. sobre um objecto dado e que chega ao seu produto próprio»)' o «connecí-
PsVchologia pracy i iej obecny roziooi «(Psicologia do trabalho e o seu mente»: é pois uma forma de prática objectiva no «sent.ído marxlstUl)
desenvolvimento actual») , in Psychologia i nitnena pracy (<<Psicologia e
(Sur le travail théorique, tn La Pensée. n.: 132, 1967). M. Verret tira as
Higiene do trabalho»), n.o 1, 1918; T. Tomaszewski, strutctura ceirnriosci mesmas conclusões na sua obra Th.éorie et politiàue. Paris, 1967, pp. 130-134.
tusielcich. (<<Estruturas das acções hurnanas») , ín Wybrane zagadnienia
e na literatura polaca R. Lozinski no seu artigo Spor o" póimowanie
prtücseoloçicene (<<Questões escolhidas de prnxeolog ia) , Warszawa, 1962,
pra"tY7d (<<Debate em torno da concepção de prática») in Czlowie" i
assim como Wstep do psych010gii (<<Introdução à psicologia»), ed. cit.,
swiatopog!ad (<<O Homem e o Mundo))), n,« 10. 1969. em rigor,
pp. 99-229, 236-213; A. Zaporojets, Desenvolvimento dos Movimentos Volun-
estar de acordo com Althusser se a criação. teórica pudesse ser também
tários, Moscovo, 1960, (em russo); H. Wallon, De l'acte à la pensée, Paris;
compreendida como uma acção orientada cuja finalidade' fosse produzir
R. Twardowski, Oczunnosciach i uiuticoract: (<<Das acções e dos produtos»),
ín Rozprawy i artylculy iuozoticene (<<Tratados e artigos filosóficos))), um objecto definido, ainda que ideal. Não J)odemo s, - contudO, astar de
LWow, 1927; Questões de Psicologia do Trabalho, Moscovo, 1958 (em russo); acordo com a concepção segundo a qual o trabalho teórico faz de certo'
A. N. Leontiev, Problemas do Desenvolvimento do Psiquismo, Moscovo, modo «parte do trabalho produtivo» que é pois prática objectiva no
1963, (em russo); K. Lewin, A Dimamicat 'rtieoru oi Personaiitu, New York, marxista pois esse trabalho não transforma directamente nem a realidade
1933; P. J. Galperine, Investigações sobre a Formação dos Processos Inte- material nem as estruturas sociais. Z. Cackowski adopta a mesma' atitude
lectuais, ín «A Ciência Psicológica na URSS», t. I. Moscovo, 1959, (em russo); que eu quando escreve que «o fim da actividade prática é 'transformar
S. L. Rubtriez tej n, Posstawy psycholo9ii oçotnei (<<Bases da psicologia geral») , materialmente o melo ambiente para satisfazer as necessidades materiais
Warszawa 1962, pp. 716-817; W. Witwicki, Sprezyny dzialania ludzldego do sujeito ... )) «Enquanto que o fim da actividade teórica é mudar 'e
(<<Surto do comportamento humano»), Warszawa, 1918; I. M. Faverge, A. mundo psíquico, a esfera do saber do sujeito para satisfazer as
Ombredone, L'tmatuse ciu. travai!, Paris 1955; J. Zieleniewski, Organizacia e as do novo saber» (Z. Cackowskl, Dzialanie, prakty"a, poznanie.
c
i dzialanie na tle niektoructi poiec ogolnych «(Organização e acção relativas «(Acção, prática, conhecimento))), ln Studia Filozoficzne (<<Estudos FlÍo
a algumas noções gerats»), in Wybrane zaçtuinienia z prakseotoçii «(Questões sóficOS»), n.o 1, 1972). Se houvesse que aplicar a concepção de Í\lthusser
escolhidas de praxeologta») , ed. cito às observações de Marx contidas nas Teses sobre Feuerbach e em A Ideo-
(39) Segundo uma opímão correntemente espalhada, escreve T. logia Alemã elas ficariam sem sentido. Com efeito. elas precisam que
Kotarbinski, só age voluntariamente Quem causou uma transformação o problema da objectividade do nosso saber não é um problema teórico
deliberada no meio ambiente. É contudo fácil de infirmar esta ideia se mas prático, que é pela prática e não pela teoria que podemos verificar
recorrermos ao exemplo da retenção voluntária ou da protecção [ ... ]. a verdade objectiva do .nosso saber, que é a prática que constitui os-
A ama vigiando a criança e pronta a repelir qualquer agressão não agirá? critêrios da veracidade da nossa teoria. Há naturalmente, o problema dó
E sobretudo não agirá voluntariamente? O homem Que, no decurso de um Intermediário entre a prática objectiva e a teoria científica.' É neste
interrogatório se recusa a falar, realiza também um acto de vontade, ainda sentido que falamos de. diferentes formas de prática cientifica ou peda:-
que Isso não seja mais do que esforço interior (Abecadlo praktycznosci gógica. Estas formas desempenham o papel de primeira verificação da
((Alfabeto da prática»), Warszawa, 1972, pp. 1-3). teoria, antes que ela seja confrontada com a vida, mas a palavra «práticn.l)
é utHlzada então num outro sentido. que ,Q .conceito filosónco marxista de
«O) G. Hostelet define da seguinte forma a estrutura da actividade
orientada «A acção que temos a executar tem três capítu:los: 1. designação «prática objectiva)).
37
36 Extensão e Significado da Ca.tegoria de Práxís Extensão e Significado da Categoria de Práxis
«(6) «É somente graças à riqueza realizada objectivamente, escreve
(<>1) O problema discutido na llteratura marxista é de saber que
lugar atribuir ii actividade pedagógica. Poderemos considerar que ela Marx, pela essência humana, que a riqueza da faculdade subjectiva de
faz parte da prática no sentido marxista? (quando falo de pedagogia, falo sentir do homem é desenvolvida, ou produzida, que um ouvido se torna
da. educação escolar e extra-escolar, da propaganda dos mass média, da musical, que um olho percebe a beleza da forma, Que. numa palavra,
vulgarização científica, etc.) . Estou de acordo a este respeito com J. os sentidos se tornam capazes de gozo humano. Que se tornam sentidos
Ladosz Quando ele escreve Que a actividade espiritual de consciência que se afirmam como forças essenciais do homem. Porque não só os cinco
- teórica. e de propaganda. - não é a prática ainda que possa ter por fim, sentidos, mas também os sentidos ditos espirituais, os sentidos práticos
e assim é com frequência, transformar materialmente o mundo. De qualquer (vontade, amor, .. ), numa palavra o sentido humano. a humanidade dos
forma ela. continua. a ser importante para a prática. A propaganda em si sentidos. não se formam senão graças a existência do seu objecto. iJ.
mesma. não provoca transformações materiais, mas quando muito incita. natureza humanizada. A formação dos cinco sentidos é o trabalho de toda.
a história passada» (K. Marx. Manuscrits de 44. Ed. Soc .. Paris. 1968, p. 93).
directamente grupos de homens a empreender uma ou outra actividade
material. Estou ainda de acordo com ele Quando propõe que {mas teorias ('7) K. Marx. Fr. Engels. L'Idcol091e aLLe71lande, p. 55.
pedagógicas se chama habitualmente prática ao conjunto da actividade
educativa (incluindo os resultados) que engloba também a aprendizagem
pelos alunos de acções intelectuais definidas. de uma ideologia. etc.
Passa-se o mesmo com a actividade teórica no domínio da lógica matemática.
Ohama-se muitas vezes prática a actividade teórica da matemática ap1!cada.
às disciplinas particulares, assim como à actividade teórica dos físicos
quando se apoiam nas directivas metodológicas formuladas e codificadas
pela lógica e quando está de acordo com elas. Em ambos os casos e noutros
semelhantes o termo de «prática» tem uma significação diferente da que
lhe dá Marx quando se refere a «prática objectiva». Nos limites desta
Ilignificação introduziu-se em geral conscientemente uma parte da activi-
dade intelectual teórica. Por prática entende-se aqui toda a actividade
material e psíquica oposta ii reflexão sobre esta actividade. Se estivermos
conscientes desta conotação diferente do conceito de prática e do facto qus
ela não pertence à flloso!!a marxista é inútil lutar contra a utüízação deste
termo. Todas as propostas reformadoras respeitantes à terminologia condu-
ziriam então a perder a analogia profunda que existe entre a actividade
teórica em 51 mesma e a actividade prática relativa a ela. tal como entre
a actividade teórica em geral e a prática material no sentido especifica-
mente marxista. 05 resultados «práticos» da actividade teórica são eles
próprios verificados finalmente «na vida», isto é. na actividade material
dos discentes ou na transrormaeão da natureza, no escalão social mediante
a técnica que se apoia nas díscípltnas particulares das matemáticas ou da.
flsica. Além disso, a aquisição de mecanismos intelectuais de!!nidos não
se faz somente pela comunicação verbal do conteúdo intelectual das
operações lógicas. Oom efeito, a actividade teórica no dominio pedagógico'
ou matemático tem a sua origem na prática. no sentido proposto por nós
e apoia-se nela. O que as separa são os esquemas respectivos da actividade
teórica e íntetectuat». (J. Ladocz, Uwagi o pjeciu praktyki w ji/azojii
marksistowskie (<<Notas sobre o conceito de prática na f!losofia marxísta»):
ed. cít.
<'l) Um tipo particular de acções humanas - escreve justamente
Tadeusz Tomaszewski - é a produção de objectos «ideais» (revistas', Iívros,
ensaios, mas também invenções, concepções, teorias. etc.) materializados.
Não são, todavia. as suas formas materiais mas as suas sígntrícações que Tadeusz M. Jaroszewski, Définition et signification âu concept
são essenciais (T. Tomaszewski. Wstep do pSllchoLigii (<<Introdução à psíco- de «Pratique» dans la philosophie de Karl Marx, in Recherches
logia»), ed. cít., p, 115).
internationales, n." 75, Paris, 1973, pp. 3-29.
(") K. Marx. F. Engels, L'/ciéologle aLLemancie. Editious Sociales, Paris.
1968, p. 56,
Tradução do francês de Jorge Correia Jesuino.
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A FILOSOFIA DA PRÁXIS
UNIDADE DA TEORIA E DA PRÁTICA
Adolfo Sánchez Vásquez
Como demonstram Marx, Engels e Lénine, com a sua própria
actividade teórica, esta só pode ser fecunda se não perde os seus
nexos com a realidade que deve ser objecto de interpretação e
transformação, e com a própria actividade prática que é a sua
fonte inegostável.
A PRÁTICA COMO FIM DA TEORIA
A teoria, porém, não responde apenas às exigências e neces-
sidades de uma prática já existente. Se assim fosse, não poderia
ultrapassá-la e, em consequência, influir - por vezes decisiva-
mente - no seu desenvolvimento. Isto obriga-nos a considerar
as relações entre teoria e prática num novo plano: como relação
entre uma teoria já elaborada e uma prática que ainda não
existe. Detenhamo-nos, ainda que brevemente, neste ponto.
Trata-se, como dissemos, de uma teoria que responde não
apenas a uma actividade prática já efectivamente existente, e que
com as suas exigências impulsiona o seu desenvolvimento, como
também de uma prática que não existe ainda, ou que apenas
existe de forma embrionária. Com efeito, o homem pode sentir
a necessidade de novas actividades práticas transformadoras para
as quais carece do necessário instrumento teórico. A teoria é
determinada, neste caso, por uma prática em que entretanto se
não pode inspirar. Pois bem, que significa esta determinação por
uma coisa que ainda não existe, ou que apenas existe de uma
forma ideal? É a determinação pelo que atrás chamámos fim,
antecipação ideal do que, não existindo ainda, queremos que
exista. A prática é aqui o fim que determina a teoria. E como
40 A Filosofia da Práxís Unidade da Teoria e da Prática A Filosofia da Práxís Unidade da Teoria e da Prática 41
qualquer fim, esta prática - ou mais exactamente, este seu Assim, ao falarmos da prática como fundamento e fim da
projecto ou antecipação ideal- apenas será efectiva com o teoria deve entender-se: a) que não se trata de uma relação directa
contributo da teoria. A prática como fim da teoria exige uma e imediata, já que uma teoria pode surgir - e isso é bastante
relação consciente com ela, ou uma consciência da necessidade frequente na história da ciência - para satisfazer directa e ime-
prática que deve ser realizada com a ajuda da teoria. Por outro diatamente exigências teóricas, ou seja, para resolver as dificul-
lado, a transformação desta em instrumento teórico da práxis dades ou contradições de outra teoria; b) que, em consequência,
exige uma elevada consciência dos laços que vinculam mutua- apenas em última instância, e como parte de um processo his-
mente a teoria e a prática, sem o que não poderia compreender-se tórico-social - não através de segmentos isolados, e rigidamente
o significado prático da primeira. Neste sentido, desenvolvem-se paralelos a outros segmentos da prática -, a teoria responde a
hoje novos ramos científicos tendo por objecto uma prática ainda necessidades práticas, e tem a sua fonte na prática.
não existente ou que se encontra apenas nos seus .jnícios (a práxis A dependência da teoria em relação à prática, e a sua exis-
cósmica). tência como fundamento e fim últimos da teoria, mostra com
O facto de a prática determinar a teoria não apenas como clareza que a prática - concebida como uma práxis humana
sua fonte - prática que amplia com as suas exigências o hori- total- tem a primazia sobre a teoria; mas o seu primado, longe
zonte de problemas e soluções da teoria -, mas também como de implicar uma contraposição absoluta à teoria, pressupõe uma
fim - como antecipação ideal de uma prática que ainda não íntima vinculação com ela.
existe -, demonstra, por sua vez, que as relações entre teoria
e prática não podem considerar-se de uma forma simplista ou
PRÁXIS E COMPREENSÃO DA PRÁXIS
mecânica, a saber: como se qualquer teoria se baseasse de um
modo directo e imediato na prática. É evidente que existem teo- Interpreta-se erroneamente esta unidade da teoria e da prática
rias específicas que não têm a mesma relação com a actividade quando se nega a autonomia relativa da primeira. Assim sucede
prática. Mas, não esqueçamos que estamos a falar neste momento quando se pensa que a prática se torna por si própria teórica,
das relações entre teoria e práxis no transcurso de um processo partindo da hipótese de que a prática deixa transparecer por si
histórico-social que tem o seu lado teórico e o seu lado prático. só a sua racionalidade ou a sua verdade. Em primeiro lugar, há
Na verdade, a história da teoria (do saber humano no seu con- que esclarecer que o problema da unidade da teoria e da prá-
junto) e da práxis (das actividades práticas do homem) são abstra- tica só pode colocar-se justamente quando temos presente a prá-
ções de uma única e verdadeira história: a história humana. tica como actividade objectiva e transformadora da realidade
É uma prova de mecanicismo dividir abstractamente essa história natural e social, e não qualquer actividade subjectiva, ainda que
em duas, e depois tratar de encontrar uma relação directa e ime- se encobra com o seu nome, como faz o pragmatismo. As expe-
diata entre um segmento teórico e um segmento prático. Esta riências da alquimia, pelo seu carácter místico e fantástico, rea-
relação não é directa e imediata, estabelecendo-se através de um lizadas durante quinze séculos, não podiam deixar transparecer
processo complexo em que umas vezes se transita da prática para
nenhuma verdade, nem ser fonte de nenhuma teoria.
a teoria, e outras desta para a prática. A actividade prática que
é hoje fonte da teoria exige, por sua vez, uma prática que ainda Referimo-nos, pois, à actividade prática social, transforma-
não existe, e, desta maneira, a teoria (projecto de uma prática dora, que responde a necessidades práticas e implica certo grau
inexistente) determina a prática real e efectiva. Por outro lado, de conhecimento da realidade que transforma e das necessidades
a teoria que não está ainda em relação com a prática, porque de que satisfaz. Mas ainda assim, a prática não fala por si mesma,
certo modo a ela se adianta, pode ter posteriormente essa vin- isto é, não é directamente teórica. Como Marx adverte na sua
, culação. É o que demonstram, como assinalámos anteriormente, Tese (VIII) sobre Feuerbach, existe a prática e a compreensão
'I"i" as teorias ou conceitos matemáticos que outrora não tinham desta prática. Sem a sua compreensão, a prática tem a sua racio-
campo de aplicação e que o têm hoje em actividades práticas nalidade, mas ela permanece oculta. Quer isto dizer, que a sua
específicas. racionalidade não transparece directamente, mas apenas a quem
42 A Fllosofia da Práxís Unidade da Teoria e ela Prática A Filosofia ela Práxís Unidade da Teoria e da Prática 43
tem olhos para a ver. Assim, por exemplo, a prática experimental prático que o teórico se dissolveria ao reduzir-se ao prático. Numa
científica só é reveladora para o homem de ciência que pode palavra, a práxis seria teórica por si mesma. [ ... ].
lê-Ia pelo conhecimento da linguagem conceptual correspondente.
A ciência proporciona a chave para entender e interpretar a sua Ora bem, por claras e transparentes que sejam as relações
própria prática experimental. É ao físico ou ao químico que sociais e por elevado que seja o grau de consciência e criatividade
compete interpretar e avaliar as experiências de laboratório. da actividade prática dos homens, esta actividade, longe de excluir
A prática económica - a produção - é um facto quotidiano; a necessidade da teoria e a sua autonomia relativa, supõem-na
mas a sua verdade, a sua racionalidade, apenas se manifesta a necessariamente. Teoria e prática estão unidas, e nesta união
quem pode lê-la com o auxílio das categorias económicas corres- os limites são relativos, embora não desapareçam por completo.
pondentes. As mercadorias não se apresentam imediatamente Do papel determinante da prática - como fundamento, fim
como encarnação de uma relação social, como produto de um e critério do conhecimento verdadeiro - não se pode tirar a
trabalho social, mas como «feitiços», segundo a justa expressão conclusão de que teoria e prática se identifiquem, ou de que a
de Marx em O Capital (I). As lutas do proletariado não permitem actividade teórica se transforma automaticamente em prática.
por si só atingir a compreensão da necessidade histórico-social Impede tal conclusão o facto de que prática não fala por si
da revolução proletária e da missão histórico-universal da classe mesma e exige, por sua vez, uma relação teórica com ela: a
operária. Unicamente a transformação do socialismo de utopia compreensão da práxís.
em ciência e a utilização do instrumento teórico correspondente,
permitiram ao proletariado e, particularmente, à sua vanguarda A PRÁXIS OOMO CRITÉRIO DA VERDADE
mais consciente, atingir a compreensão da sua própria práxís
revolucionária. Devemos, porém, salvaguardarmo-nos de cair, na sequência
destas conclusões, noutra tese igualmente falsa, e que sempre
Pode pensar-se, não obstante, que a prática se clarifica por caracterizou a teoria ,idealista do conhecimento. Referimo-nos à
si mesma, tornando desnecessária a teoria, quando as relações negação da prática como critério de verdade, negação que a
entre os homens perdem o seu carácter mistificado, de relações nosso ver é incompatível com uma concepção marxista da práxis
entre coisas, para se tornarem claras e transparentes, e que a e em geral com o marxismo. Já dissemos anteriormente que a
prática então tornaria supérflua a sua teoria. Tal situação deve- prática não fala por si mesmo, e que a sua condição de funda-
ria verificar-se com a desaparição do modo de produção capi- mento da teoria ou de critério da sua verdade não se verifica
talista, e a criação de uma nova sociedade, particularmente, na de um modo directo e imediato. Devemos afastar esta concepção
sua fase superior: o comunismo. Libertas de toda a mistificação, empirista da prática, já que ela não pode ser utilizada como cri-
as relações sociais perderiam a sua opacidade.
tério de verdade sem uma relação teórica com a própria activi-
Desta maneira se interpreta por vezes o pensamento de dade prática [ ... ]. Renunciar a uma concepção empirista da
Marx (2). De acordo com esta interpretação, a realização da prática como critério de verdade, é inteiramente justo; porém
filosofia significaria a sua supressão ou transformação numa renunciar por isso à prática como critério de validação para pro-
ciência positiva que, por sua vez, se reduziria a uma técnica curá-lo exclusivamente na actividade teórica, ainda que a esta
teórica. A ciência não seria mais do que um reflexo da prática, se chame prática teórica ou científica, é abandonar uma tese
e esta servir-lhe-ia de fundamento sem que a ciência fundamen- fundamental do marxismo para a substituir pela velha tese idea-
tasse, por sua vez, a própria prática. Práxis humana e com- lista com que Marx - desde as suas Teses sobre Feuerbach-
preensão da práxis coincidiriam. Não faria sentido, portanto, falar viria a romper radicalmente.
de filosofia no comunismo, ou de produção espiritual, já que
teriam desaparecido as diferenças entre a produção espiritual e AUTONOMIA RELATIVA DA TEORIA
material. Em síntese, numa sociedade como a que Marx previra A prática mantém o seu primado em relação à teoria, sem
como sociedade comunista, haver.i.a um primado tão absoluto do que este primado dissolva ê. teoria na prática nem a prática na
45
A F1!osofia da Práxis Unidade da Teoria e da Prática
44 A Flloeofia da Práxis Unidade da Teoria e da Prática
Com o que ficou exposto, julgamos ter precisado o verdadeiro
teoria. POT manterem uma e outra relações de unid'ade e não de
alcance da unidade entre a teoria e a prática, como unidade que
identidade, teoria pode dispor de certa autonomia em relação
implica a um tempo uma oposição e uma autonomia relativas.
às necessidades práticas, mas uma autonomia relativa pois que,
O lugar desta unidade é a própria prática. Uma teoria que não
como temos vindo a insistir, o papel deterrniante é desempe- aspira realizar-se, ou que não pode concretizar-se tem uma exis-
nhado pela prática, como fundamento, critério de verdade e tência meramente teórica, e, por isso, desligada ou divorciada da
fim da teoria. prática. Tal é o caso das doutrinas socialistas utópicas. Com a
Esta autonomia, por sua vez, é condição indispensável para sua irrealização acentuam a sua autonomia, tanto maior - neste
que a teoria sirva à prática, já que implica a exigência de que caso - quanto mais separada da prática. Mas aqui a autonomia
a teoria não se limite a segui-Ia, mas antes que, em maior ou _ que antes se nos apresentou como a própria condição de pos-
menor grau, se antecipe à própria prática. Certamente que, com sibilidade da sua influência prática - apenas testemunha a sua
base no conhecimento do objecto ou do fenómeno em questão. esterilidade prática. Existe, pois, do ponto de vista da práxis,
se pode modelá-lo idealmente, e arrancá-lo do seu presente para autonomia d'e sinal positivo e negativo.
o colocar numa possível situação futura. O conhecimento de Se a teoria pode apresentar - independentemente das suas
certa legalidade do objecto permite, com efeito, prever deterrni- consequências práticas - uma autonomia relativa em relação à
nadas tendências do seu desenvolvimento, e, deste modo, ante- prática, da não existe sem um mínimo de ingredientes teóricos,
cipar com um modelo ideal uma fase do seu desenvolvimento a saber: a) um conhecimento da realidade que é objecto da trans-
ainda não atingida. Ao produzir esse modelo ideal, a teoria formação; b) um conhecimento dos meios, e da sua utilização
evid'encia a sua autonomia relativa, já que sem esperar que se _ da técnica exigida por cada prática - , com que se leva a cabo
opere um desenvolvimento real, efectivo, pode propiciar uma a referida transformação; c) um conhecimento da prática acumu-
prática inexistente ao antecipar-se-lhe idealmente. Sem este desen- lada, sob a forma de teoria que sintetiza ou generaliza a activi-
volvimentoautónomo do seu próprio conteúdo, a teoria seria, dade prática na esfera em questão, já que o homem apenas pode
no melhor dos casos, mera expressão de uma prática existente, transformar o mundo a partir de um determinado nível teórico,
e não poderia cumprir, ela própria, como instrumento, teórico, isto é, inserindo a sua práxis actual na história teórico-prática
uma função prática. Fizemos antes referência à autonomia de correspondente; e d) uma actividade finalista, ou antecipação dos
algumas doutrinas matemáticas; poderíamos assinalar agora os resultados objectivos que se pretendem atingir sob a forma de
casos das geometrias não euclidianas - como a de Loba- fins ou resultados prévios, ideais, com a particularidade de que
chevski (3) - ou a relação teórica da relação entre massa e ener- estes fins para que possam cumprir a sua função prática terão
gia por Einstein que só posteriormente, e exactamente por se ter de responder a necessidades e condições reais, terão de ser assimi-
antecipado à prática, encontrou aplicação. lados pela consciência dos homens, e contar com OS meios ade-
quados para a sua realização.
Em todos estes casos, a teoria mostra a sua autonomia em
relação à prática, antecipa-se-lhe, e acaba por influir na prática,
e é precisamente a sua capacidade de modelar idealmente um A PRATICA COMO AGrrVIDADE SUBJECTIVA E OBJECfrVA
processo futuro, o que lhe permite ser um instrumento - por
vezes decisivo - na práxis produtiva ou social. Claro está que,
como já anteriormente assinalámos, esta influência implica uma A análise anterior permitiu-nos ver as relações entre teoria
disponibilidade da teoria, isto é, a sua abertura ao mundo da e prática consideradas como duas formas de comportamento
do homem em face da realidade, que Se desenvolvem, em estreita
prática, pois como sublinhamos mais de uma vez, a teoria por
unidade, no decurso da história humana. Mas esta análise ainda
si - como produção de fins ou de conhecimentos - não trans-
exige ser complementada com o exame deste duplo e indissolúvel
forma nada real; ou seja, não é práxis.
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A Fllosofia da Práxis Unidade da Teoria e da Prática 47
46 A Fllosofia da Práxís Unidade da Teoria e da Prática
comportamento na actividade prática determinada de um indiví- subjectividade, porém não se limita a ela; é prático na medida
duo, grupo ou classe social, numa espécie de corte transversal. em que se objectiva, e os seus produtos são a prova objectiva
da sua própria objectivação.
Sabemos já que a práxis é, na verdade, actividade teórico-prá- Ora bem, a relação entre o fim como produto da consciência,
tica; ou seja, tem um lado ideal, teórico, e um lado material, e o produto em que ele se concretiza ou materializa como resul-
propriamente prático, com a particularidade de que só artificial- tado real de uma actividade a um tempo subjectiva e objectiva,
mente, por um processo de abstracção, podemos separar um do não deve ser concebida - à maneira platónica - como uma
outro. Daí que seja tão unilateral reduzir a práxis ao elemento relação entre o original (o subjectivo) e a cópia (o objectivo),
teórico, e falar inclusive de uma práxis teórica, como reduzi-la de tal maneira que o realizado seja uma mera duplicação de um
ao seu lado material, vendo nela uma actividade exclusivamente modelo que preexistira ideal e subjectivamente à sua realização.
material. Pois bem, da mesma maneira que a actividade teórica, O objectivo (o produto) é o resultado real de um processo
subjectiva, por si só, não é práxis, tão pouco o é uma actividade que tem o seu ponto de partida no resultado ideal (fim). E ainda
material do indivíduo, ainda que possa desembocar na produção que este último superentenda o próprio processo e seja os seus
de um objecto - como é o caso do ninho construído pelo pás- diferentes momentos, produz-se sempre certa inadequação entre
saro - quando lhe falta o momento subjectivo, teórico, repre- (, modelo ideal e a sua realização, inadequação tanto mais pro-
sentado pelo lado consciente dessa actividade.
funda quanto mais resistência opõe a matéria à forma exigida
A actividade prática humana é-o propriamente quando trans- pelo fim que se pretende realizar. O fim comanda - como disse
cende esse lado subjectivo, ideal, ou, mais exactamente, quando Marx - as «modalidades da actuação», mas na medida em que
o sujeito prático transforma algo material, exterior a ele, e o entram em jogo elementos não propriamente ideais - e não
subjectivo se integra assim num processo objectivo. É preciso, podem deixar de entrar se o fim se for realizar - está-se já
por isso, uma matéria ou objecto da acção que exista indepen- numa esfera imprevisível na qual o seu próprio domínio também
dentemente da consciência do sujeito. Para poder exercer a sua se encontra constantemente em jogo. Mas o fim não pode deixar
actividade, o sujeito prático necessita de uma esfera que não seja de dominar - ou seja, a consciência não pode alhear-se do pro-
mera projecção da sua subjectividade. Por sua vez, o resultado cesso prático - , e daí que se tenha de estar atento às exigências
da sua actividade tem uma objectividade que podemos chamar objectivas do processo objectivo de realização. Quer isto dizer
humana, mas que como tal é independente das vivências, fins que a consciência não se pode limitar a traçar um fim ou modelo
ou projectos aos quais esteve ligado geneticamente. A actividade ideal imutável. O dinamismo e a impresivisibilidade do processo
do sujeito prático apresenta-se-nos nesta r'upla vertente: por um exigem também um dinamismo da conscência. A partida - salvo
lado, é subjectiva enquanto actividade da sua consciência, mas, nos casos de uma práxis inferior de que nos ocuparemos mais
num sentido mais restrito, é um processo objectivo na medida adiante - nunca está antecipadamente ganha. O resultado real
em que os actos ou operações que executa sobre uma matéria só se atinge no termo de um processo prático, objectivo, que
determinada existente independentemente da sua consciência, dos ultrapassa em cada momento o resultado ideal. Por conseguinte,
seus actos psíquicos, podem ser comprovados inclusive objectiva- a consciência tem de permanecer activa durante todo este pro-
mente por outros sujeitos. Por esta razão, na medida em que: cesso, não apenas tratando de impôr o fim originário, mas. tam-
a) Se exerce sobre uma realidade independente da consciência bém modificando-o com vista à sua realização.
individual; b) mediante um processo, meios e instrumentos objec- A actividade prática implica não apenas a sujeição do seu
tivos; e c) dando lugar a um produto ou resultado objectivo, - lado material ao seu lado ideal, como também a modificação do
pode dizer-se que a actividade prática do homem é objectiva. ideal perante as exigências do próprio real (matéria-prima, actos
A actividade prática desenvolvida por um indivíduo, é, por objectivos, instrumentos ou meios, e produto). A prática exige
isso, a um tempo subjectiva e objectiva, dependente e indepen- um constante vaivém de um plano a outro, que só pode assegu-
dente da sua consciência, ideal e material, e tudo isto em uni- rar-se se a consciência se mostra activa no decurso de todo o
dade indissolúvel. O sujeito, por um lado, não prescinde da sua processo prático. Resulta assim, que se é certo que a actividade
48 A Fllosofla da Práxis Unidade da Teoria e da Prática
prática, sobretudo como práxis individual, é inseparável dos fins ACTIVIDADE E CONSCIÊNCIA
que a consciência traça, estes fins, não se apresentam como pro-
dutos acabados, mas num processo que só atinge o seu termo
quando o fim ou resultado ideal, depois de sofrer as modificações A. N. Leontiev
exigidas pelo processo prático, é já um produto real. Deste modo,
ajustando-se mutuamente uma a outra, e avançando por caminhos
distintos até ao final do processo de hipótese em hipótese - a
actividade teórica - , e de experiência em experiência - a acti-
vidade prática - , ambas convergem num produto objectivo ou
resultado real.
As modificações impostas aos fins de que se tinham partido
para conseguir uma passagem mais rigorosa do subjectivo ao
objectivo, do ideal ao real, só testemunham, ainda mais vigoro-
samente, a unidade do teórico e do prático na actividade prática. Ao examinar este problema o primeiro ponto que temos de
Esta, como actividade a um tempo subjectiva e objectiva, como considerar é a questão do significado da categoria de actividade
unidade do teórico e do prático na própria acção, é transforma- em qualquer interpretação de como a consciência humana é
ção objectiva, real, da matéria mediante a qual se objectiva ou determinada.
realiza um fim; é, portanto, realização guiada por uma cons-
ciência que, ao mesmo tempo apenas guia ou orienta - e isto Há duas perspectivas para esta questão primordial. Uma delas
seria a expressão mais rigorosa da unidade da teoria e da prá- postula a dependência directa dos fenómenos da consciência
tica - na medida em que ela própria se guia ou orienta pela das várias influências exercidas sobre os sistemas receptores do
própria realização dos seus fins. homem. Esta perspectiva foi expressa com clareza clássica na
psicofísica e na fisiologia dos órgãos sensoriais no século XIX.
NOTAS O principal objectivo de investigação nesses dias era estabelecer
a dependência quantitativa das sensações consideradas como ele-
(1) Cf. toda a secção do tomo I, que tem por tItulo «O feiticismo mentos de consciência, dos parâmetros físicos dos estímulos. afec-
da mercadoria e o seu segredo».
(2) Tal é a interpretação de Kostas Axelos do pensamento de Marx tando os órgãos dos sentidos. Estas investigações eram pois basea-
sobre este ponto, na sua obra Marx, penseur de la teclvnicnie (Paris, 1961), das no padrão «estímulo-resposta».
embora o autor de O Capital seja. desde as suas Teses sobre Feuerbach,
bastante explícito. A confusão só pode surgir se se manejam os seus As limitações desta perspectiva residem no facto de se pres-
textos de juventude fora do contexto histórico-ideológico em que surgiram,
e não se toma em conta a diferença radical entre uma f1'losofia meramente supor, por um lado, coisas e objectos e, por outro lado, um
especulativa e uma teoria cientifica que se integra conscientemente na sujeito passivo influenciado por eles. Por outras palavras, esta
transformação prática do mundo real.
(3) A possibilidade de criar uma teoria nova, como a geometria não perspectiva ignora o elemento significativo das relações afectivas
euclidiana. pela negação concreta de uma teoria já existente - a geometria do sujeito com o mundo objectivo; ignora a sua actividade. Tal
euclidiana - , demonstra certa autonomia da teoria em relação à prática na
sua aparição e desenvolvimento. Não obstante, esta nova geometria nascida abstracção é, decerto, admissível, mas só dentro dos limites de
de uma relação negativa num plano puramente teórico encontrou posterior- uma experimentação visando descobrir certas propriedades das
mente aplicações práticas diversas na mecânica e na física. Deste modo,
a .teorta encontra de novo o seu nexo com a prática. estruturas e funções elementares contribuindo para a realização
de certos processos mentais. Todavia, no momento em que se
Adolfo Sánchez Vásquez, Filosoiia de la praxis, México, 1967, vai além destes estreitos limites, verifica-se como esta perspectiva
pp. 191-200. é inadequada e que foi isso que levou Os primeiros psicólogos a
Tradução do espanhol de António Melo, ligeiramente encur- explicar os factos psicológicos à base de forças especiais, tais
tada. como a apercepção activa, a intenção interior ou vontade, etc.,
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50 Actividade e Consciência Actividade e Consciência
quer dizer, a fazer apelo à natureza activa do sujeito, mas ape- que inclua um terceiro elo de ligação - a actividade do sujeito
nas numa forma mistificada, interpretada idealisticamente, (e, correspondentemente, os seus meios e modos de manifesta-
ção), um elo que faça a mediação das suas interconexões, quer
Tem havido muitas tentativas para superar as dificuldades dizer, partir do padrão «sujeito-actividade-objecto».
teóricas criadas pelo postulado da imediatidade subjacente à pers-
pectiva que acabamos de mencionar. Por exemplo, sublinha-se Na sua forma mais geral esta alternativa pode ser apresen-
que os efeitos das influências externas são determinadas não tada como se segue. Ou se adopta a posição de que a consciência
imediatamente pelas próprias influências, mas dependem da sua é directamente determinada pelos fenómenos e coisas circundan-
refracção pelo sujeito. Por outras palavras, concentra-se a aten- tes, ou postulamos que a consciência é determinada pelo ser,
ção no facto de causas externas actuarem através do meio das que, segundo Marx, não é mais do que os processos da vida real
condições internas. Mas esta noção pode ser interpretada de das pessoas.
várias maneiras, dependendo do que se entende por condições
internas. Se são consideradas como significando uma mudança Mas o que é a vida real das pessoas?
nos estados internos do sujeito, a noção nada nos oferece de O ser, a vida de cada indivíduo é feito da soma total ou,
essencialmente novo. Qualquer objecto pode mudar OS seus esta- para ser mais exacto, um sistema, uma hierarquia de actividades
dos e por isso manifestar-se de diferentes modos nas interacções sucessivas. É na actividade que a transição ou «translação» do
com outros objectos. As pegadas são visíveis em areia mole mas objecto reflectido na imagem subjectiva, no ideal, tem lugar; ao
não em terra dura; um animal esfomeado reage à comida de um mesmo tempo é também na actividade que a transição do ideãl
modo diferente de um outro que esteja bem alimentado; a reacção para os resultados objectivos da actividade, para os seus produ-
de uma pessoa letrada a uma letra é diferente da de uma iletrada. tos, para o material, é alcançada. Olhada deste ângulo a activi-
É outra coisa se por «condições internas» significarmos as carac- dade é um processo de trânsito entre pólos opostos, sujeito e
terísticas especiais dos processos que são activos no sujeito. Mas
então a questão principal é saber que processos são esses que objecto.
mediam a influência do mundo objectivo reflectido no cérebro A actividade é uma unidade não aditiva de vida material,
humano. corpórea, do sujeito material. No sentido estrito, isto é, no plano
psicológico, é uma unidade de vida, mediatizada pela reflexão
A resposta básica a esta questão reside em reconhecer que
mental, por uma imagem cuja função real é reorientar o sujeito
estes processos são os que uma pessoa realiza na sua vida no
mundo objectivo que a rodeia, o seu ser social em toda a riqueza no mundo objectivo.
e variedade das suas formas. Por outras palavras, estes processos Contudo, independentemente das condições e formas em que
são a sua actividade. a actividade do homem tem lugar, independentemente da estru-
tura que ela adquire, ela não pode ser considerada como algo
Esta asserção requere uma definição ulterior: por actividade
extraído das relações sociais, da vida da sociedade.
não significamos a dinâmica dos processos fisiológicos e nervosos
que realizam esta actividade. Haverá que distinguir entre a dinâ- Apesar de toda a sua diversidade, de todas as suas caracte-
mica e a estrutura dos processos mentais e a linguagem que os rísticas especiais, a actividade do indivíduo humano é um sistema
descreve, por um lado, e por outro lado entre a dinâmica e que obedece ao sistema de relações da sociedade. Fora destas
estrutura da actividade do sujeito e a linguagem que a descreve. relações a actividade humana não existe. Como ela existe é deter-
Assim ao abordarmos o problema de como a consciência é minado pelas formas e meios da comunicação material e espiri-
determinada vemo-nos confrontados com a seguinte alternativa, tual gerados pelo desenvolvimento da produção e isso não pode
ou aceitar o ponto de vista implícito no «axioma da irnediatidade» ser realizado excepto na actividade de indivíduos específicos.
isto é, partir do padrão «objecto-sujeito» (ou do padrão «estí- É evidente que a actividade de qualquer indivíduo depende do
mulo-resposta», que éa mesma coisa), ou partir de um padrão seu lugar na sociedade, das suas condições de vida.
I i
53
52 Actividade e Consciência Actividade e Consciência
Isto tinha que ser mencionado por causa dos esforços persis- a sua imagem como produto subjectivo da actividade, que regista,
tentes dos positivistas para opor o indivíduo à sociedade. O seu estabiliza e transporta em si mesma o conteúdo objectivo da
ponto de vista é que a socied'ade fornece apenas um meio externo actividade.
a que o homem se tem de adaptar a fim de sobreviver, tal como A forma fundamental e geneticamente inicial da actividade
o animal se tem de adaptar ao seu ambiente natura1. A activi- humana é a actividade externa, a actividade prática. Esta pro-
dade do homem é moldada pelo sucesso ou insucesso da sua posição tem implicações importantes, particularmente porque a
adaptação ainda que isto possa ser indirecto (por exemplo, atra- psicologia tem sempre, tradicionalmente, estudado a actividade
vés da atitude tomada pelo grupo de referência). Mas o ponto do pensamento e a imaginação, os actos de memória, etc., visto
principal é ignorado, que na sociedade o homem encontra não que só tal actividade interna era considerada psicológica.
só as suas condições externas às quais ele deve adaptar a sua
actividade, mas também que essas mesmas condições sociais com- A psicologia ignorava portanto. o estudo da actividade sensi-
portam em si próprias os motivos e objectos da sua actividade, tiva prática. E mesmo que a actividade externa figurasse até
os modos e os meios da sua realização; numa palavra, que a certo ponto na psicologia tradicional, era apenas como expressão
sociedade produz a actividade humana. Isto não quer dizer, sem da actividade interna, a actividade da consciência.
dúvida, que a actividade do indivíduo se limite a copiar e perso- O que é que nós temos exactamente na mente quando fala-
nificar as relações da sociedade com a sua cultura. Há ligações mos de actividade? Consid'eremos os processos mais simples, o
cruzadas muito complexas que excluem qualquer redução estrita processo de perceber a resistência de um objecto. Trata-se de um
de uma à outra. processo aferente ou motor-externo, que pode ter lugar ao exe-
A característica básica, constitutiva da actividade, é que ela cutar uma tarefa prática, por exemplo, a deformação do objecto.
tem um objecto. De facto, o próprio conceito de actividade A imagem que surge no decurso deste processo é certamente,
(doing, Tiitigkeit) 'implica o conceito do objecto de actividade. uma imagem mental e é portanto indubitavelmente susceptível
de estudo psicológico. Mas a fim de compreender a natureza
A expressão «actividade sem objecto» não tem qualquer signi- desta imagem eu devo estudar o processo que a gera, e neste
ficado. A actividade pode parecer sem objecto, mas a investiga- caso o processo é externo e prático. Quer eu queira quer não,
ção científica da actividade necessariamente exige a descoberta sou obrigado a incluir este processo como parte do objecto da
do seu objecto. Mais, o objecto da actividade aparece segundo minha investigação psicológica.
duas formas: primeiro, na sua existência independente, coman-
dando a actividade do sujeito, e segundo, como a imagem men- Sem dúvida que o simples estabelecimento da necessidade de
tal do objecto, como o produto da «detecção» pelo sujeito das uma investigação psicológica generalizada à esfera da actividade
suas propriedades, o que é efectuado pela actividade do sujeito objectiva externa não resolve o problema pois pode pôr-se a
e não pode ser efectuado doutro modo. hipótese de que, embora a actividade objectiva externa esteja
dentro do âmbito da investigação psicológica, tal actividade
A natureza circular dos processos efectuando a interacção do desempenha um papel secundário, visto ser dirigida por processos
organismo com o meio tem sido em geral reconhecida. Mas o psicológicos internos que estão para além dela, e que por essa
ponto principal não é a estrutura circular enquanto tal, mas o razão a investigação psicológica de facto não se aplica à investi-
facto de a reflexão mental do mundo objectivo não ser directa-
mente gerada pelas próprias influências externas, mas pelos pro- gação dessa actividade.
cessos através dos quais o sujeito chega ao contacto prático com Este é um ponto a ser reconhecid'o, mas só se partirmos do
o mundo objectivo e que portanto obedece necessariamente às princípio que a actividade externa é parcialmente dependente
suas propriedades, ligações e relações independentes. Isto signi- da imagem que controla, e que pode ou não ser reforçada pelo
fica que o agente aferente, que controla os processos de activi- resultado desta actividade. Mas as coisas não se passam deste
dade, é primariamente o próprio objecto e só secundariamente modo. A actividade é obrigada a encontrar objectos que resis-
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I
54 Actividade e Consciência Actividade e Consciência 55
tem ao homem, que o desviam, o mudam e o enriquecem. Por siderar actividades específicas, concretas, cada uma das quais
outras palavras, é a actividade externa que desbloqueia o círculo satisfaz uma necessidade definida do sujeito, está orientada para
dos processos mentais internos, que o abre para o mundo objec- o objecto dessa necessidade, desaparece como resultado da sua
tivo. satisfação e é reproduzida talvez em diferentes condições e em
relação a um objecto diferente.
Será facilmente reconhecido que a realidade com a qual o
psicólogo se interessa é essencialmente mais rica e complexa do A principal coisa que distingue uma actividade de outra reside
que o simples contorno do modo como a imagem surge do con- na diferença entre os seus objectos. É o objecto da actividade
tacto com o objecto que acabamos de traçar. Mas por muito que lhe confere uma certa orientação.
afastada que a realidade psicológica se encontre deste modelo,
Na terminologia que tenho estado a utilizar o objecto da
por muito profundas que sejam as metamorfoses da actividade,
actividade é o seu motivo. Naturalmente que ele tanto pode ser
esta continuará a ser, em todas as circunstâncias, o agente de
material como ideal; pode ser dado na percepção ou existir ape-
materialização da vida de qualquer indivíduo. nas na imaginação, na mente.
A velha psicologia preocupa-se apenas com processos inter- Assim, as diferentes actividades distinguem-se pelos seus moti-
nos, com a actividade da consciência. Mais, durante muito tempo vos. O conceito de actividade está necessariamente ligado ao
ignorou a questão da origem destas actividades, isto é, a sua conceito de motivo: uma actividade (mão motivada» não é uma
verdadeira natureza. Hoje em dia a asserção de que os processos actividade sem motivo mas actividade com um motivo subjectiva
internos do pensamento são produzidos do exterior tornou-se
e objectivamente escondido.
quase geralmente reconhecida. De início, por exemplo, os pro-
cessos mentais internos tomam a forma de processos externos Os «componentes» básicos das actividades humanas separadas
envolvendo objectos externos e, à medida que se tornam pro- são as acções que os realizam. Consideramos a acção como o
cessos internos, estes processos externos não mudam simples- processo que corresponde à noção de resultado que deve ser
mente de forma mas sofrem uma certa transformação, tornan- alcançado, isto é, o processo que obedece a um fim consciente.
do-se mais gerais, contraídos, etc. Tudo isto é sem dúvida ver- Tal como o conceito de motivo é correlativo ao conceito de acti-
dadeiro mas deve acentuar-se que a actividade interna é uma vidade, assim o conceito de fim é correlativo ao de acção.
actividade genuína, que retém a estrutura geral da actividade Historicamente, o aparecimento na actividade de processos de
humana, independentemente da forma de que se revista. Uma acção orientados para um fim foi o resultado da emergência
vez que reconheçamos a estrutura comum da actividade prática, de uma sociedade baseada no trabalho. A actividade das pessoas
externa e da actividade mental, interna, podemos compreender trabalhando em conjunto é estimulada pelo seu produto, que
a troca de elementos que tem constantemente lugar entre elas, inicialmente corresponde directamente às necessidades de todos
podemos compreender que certas acções mentais possam tornar-se os participantes. Mas a mais simples divisão técnica do trabalho
parte da estrutura da actividade material, prática directa, e, que surge neste processo leva necessariamente à emergência de
reciprocamente, que as operações motrizes-externas possam ser- resultados intermédios, parciais, que são alcançados pela partici-
vir a actuação da acção mental na estrutura da actividade pura- pação individual na actividade laboral colectiva, mas que em si
mente cognitiva. Nos tempos presentes, quando a integração e mesmos não podem satisfazer a necessidade de cada participante.
interpenetração destas formas de actividade humana está tendo Esta necessidade é satisfeita não pelos resultados «intermédios»,
lugar diante dos nossos olhos, quando a oposição histórica entre mas pela partilha do produto da actividade total que cada um
elas está sendo constante e progressivamente apagada, o signifi- recebe graças às relações entre os participantes resultantes do
cado desta asserção torna-se evidente. processo de trabalho, isto é, as relações sociais.
Até agora falámos sobre a actividade no sentido geral e Será facilmente compreendido que este resultado «intermédio»
colectivo deste conceito. Na realidade, contudo, temos que con- que forma o padrão dos processos laboriais do homem deva ser
56 Actividade e Consciência Actividade e Consciência 57
igualmente identificado subjectivamente por ele, sob a forma de obedecem a fins conscientes, e finalmente, as operações que
uma ideia. É com efeito este estabelecimento de um fim que dependem imediatamente das condições para alcançar um fim
determina o método e carácter da actividade do indivíduo. específico.
A identificação destes fins e a formação de actividades desig- Estas «Unidades» da actividade humana formam a sua macro-
nadas para os alcançar levam a uma espécie de divisão de fun- -estrutura. A análise pela qual elas são identificadas não é um
ções previamente unidas no seu motivo. Suponhamos que a acti- processo de desmembramento de actividades vivas em elementos
vidade de uma pessoa é estimulada pela comida, sendo esta o seu separados, mas de revelação das relações que caracterizam essa
motivo. Contudo, a fim de satisfazer a necessidade de comida actividade. Tais análises sistémicas excluem simultaneamente
ela deve executar acções que não estão directamente centradas qualquer possibilidade de uma bifurcação da realidade que está a
na obtenção de comida. Por exemplo, um dos seus objectivos ser estudada, visto que centrada não em processos diferentes mas
pode ser construir uma ratoeira. Querele próprio a utilize, quer antes em diferentes planos de abstracção. Daí que possa ser
a passe a outros participantes na caça e receba parte da captura impossível à primeira vista, por exemplo, ajuizar se estamos a
comum, em qualquer dos casos o seu motivo e fim não coinci- tratar, num dado caso, da acção ou da operação. Por outro lado,
dem directamente, excepto em situações particulares. a actividade é um sistema altamente dinâmico, caracterizado por
transformações ocorrendo constantemente. A actividade pode
A separação de acções orientadas para fins como compo-
perder o motivo que a provocou, e nesse caso transforma-se numa
nentes da actividade humana coloca a questão das suas relações
acção que realiza uma relação com o mundo provavelmente muito
internas. Como já dissemos, a actividade não é um processo
diferente; reciprocamente, a acção pode adquirir uma força moti-
aditivo. Daí que as acções não sejam coisas separadas incluídas
vante independente e tornar-se uma variedade especial de activi-
na actividade. A actividade humana existe como' acção ou como
dade; e finalmente a acção pode ser transformada num meio de
cadeia de acções. Se tivéssemos de subtrair mentalmente da acti-
alcançar um fim capaz de realizar diferentes acções.
vidade as acções que a realizam, não restaria nada para a activi-
dade. Isto pode ser dito de outra maneira. Quando consideramos O que permanece indiscutível é que a actividade humana é
o desenrolar de um processo específico - externo ou interno- regulada por imagens mentais da realidade. O que quer que no
do ângulo do motivo, ele surge como actividade humana, mas mundo objectivo se apresente ao homem como motivo objectivo
quando o consideramos como processo orientado para um fim, e condição da sua actividade deve de qualquer modo ser percep-
ele surge como uma acção ou sistema, uma cadeia de acções. cionado, compreendido, retido e reproduzido pela sua memória;
isto também se aplica aos processos da sua actividade, a si pró-
A actividade e a acção são, ao mesmo tempo, ambas genuínas prio, aos seus estados e às suas características individuais.
e, mais, realidades não coincidentes, porque uma mesma acção
pode realizar várias actividades, pode passar de uma actividade a Daí que se siga que a consciência do homem na sua imedia-
outra, revelando assim a sua independência relativa. Isto é devido tidade seja o quadro do mundo que se desenrola diante dele, um
ao facto de que uma dada acção pode ter motivos absolutamente quadro em que ele próprio, as suas acções e os seus estados estão
diferentes, isto é, pode realizar actividades completamente dife- incluídos.
rentes. E um mesmo motivo pode dar lugar a vários fins e daí Para a pessoa não iniciada, a existência deste quadro sub-
a várias acções. jectivo não levanta, de resto, nenhum problema teórico; ela
acha-se confrontada com o mundo, não com o mundo e com
Assim, no fluxo geral da actividade que constitui a vida
uma representação do mundo. Este realismo espontâneo contém
humana nas suas mais altas manifestações (as que são mediadas
um elemento real, talvez ingénuo, de verdade. O caso muda
pela reflexão mental), a análise identifica em primeiro lugar acti- quando confrontamos o reflexo mental com a consciência; isso
vidades separadas, de acordo com o critério da diferença dos não é mais do que uma ilusão da nossa introspecção. Esta ilusão
motivos. Em seguida identificam-se os processos de acção que deriva do aparentemente ilimitado alcance da consciência. Quando
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58 Actl Vidade e Consciência Actividade e Consciência 59
perguntamos a nós próprios se temos consciência deste ou daquele o processo como eles surgem. O ponto é que em termos do padrão
fenómeno, estabelecemos para nós próprios a tarefa de nos tor- diádico «sujeito-objecto» a existência de consciência no sujeito
narmos conscientes dele e, decerto, na prática realizamos instan- é aceite sem quaisquer explicações, a menos que consideremos
taneamente esta tarefa. Foi necessário conceber uma técnica as interpretações que postulam a existência nas nossas cabeças
especial de utilização do taquitoscópio a fim de separar experi- de alguma espécie de observador contemplando as representações
mentalmente o campo da percepção do campo da consciência. tecidas pelos processos cerebrais.
Por outro lado, certos factos bem conhecidos, que podem
O método de análise científica da geração e funcionamento
facilmente ser reproduzidos em condições laboratoriais, dizem-nos
da consciência humana - social e individual - foi descoberto
que o homem é capaz de processos de adaptação complexos em
por Marx. O resultado foi que o estudo da consciência mudou o
relação aos objectos do seu meio sem estar de todo consciente
seu alvo da subjectividade do indivíduo para os sistemas sociais
das suas imagens; negoceia obstáculos e até manipula coisas sem
as «ver» de todo. de actividade.
É diferente fazer ou modificar uma coisa de acordo com um É evidente por si que a explicação da natureza da consciência
modelo ou representar um conteúdo objectivo. Quando eu cons- reside nas características peculiares da actividade humana que
truo, digamos, um pentágono com arame, ou o desenho, devo criaram a necessidade dela - no objectivo da actividade, no seu
necessariamente, comparar a noção que tenho dele com as con- carácter produtivo. A actividade do trabalho é impressa, perpe-
dições objectivas, com os estádios da sua realização no produto; tuada no seu produto. Verifica-se então, como disse Marx, uma
devo comparar internamente as medidas de um e outro. Tais transformação da actividade numa propriedade estática. Esta
medidas ou comparações requerem que a minha noção me deva transformação é o processo da encarnação material do conteúdo
surgir como se estivesse no mesmo plano que o mundo objectivo objectivo da actividade, que agora se apresenta ela própria ao
sem todavia provir dele. Isto é particularmente evidente em casos sujeito, quer dizer, surge perante ele sob a forma duma imagem
em que estamos a tratar de problemas que têm de ser resolvidos do objecto percebido.
por uma execução preliminar «nas nossas cabeças» do desloca- Por outras palavras, uma aproximação da génese da cons-
mento espacial mútuo das imagens dos objectos a correlacionar. ciência pode ser resumida nos seguintes termos: a representação
Por exemplo, o tipo de problemas que exige a rotação mental controlando a actividade, quando encarnada num objecto, adquire
de uma figura inscrita noutra. a sua existência secundária, «objectivada», que pode ser senso-
Historicamente, a necessidade de uma tal «apresentação» da rialmente percepcionada; como resultado o sujeito vê a sua pró-
imagem mental do sujeito só surge na transição da actividade pria representação no mundo externo. Quando assim duplicada,
adaptativa dos animais para a produtiva, para a actividade do tra- ela é conscientemente compreendida. Este modelo não é, contudo,
balho que é peculiar ao homem. O produto a que a actividade válido. Remete-nos de novo para o ponto de vista empírico-sub-
é agora dirigida não existe ainda de facto. Por isso ele só pode jectivo, essencialmente idealista, que sublinha antes de mais o
regular a actividade se estiver presente ao sujeito de tal forma facto de esta transição particular ser predicada na consciência,
que lhe permita compará-lo com o material original (objecto de de o sujeito ter certas representações, intenções, planos mentais,
trabalho) e com as suas transformações intermediárias. Mais, a padrões ou «modelos», quer dizer, fenómenos mentais objecti-
imagem mental do produto como fim deve existir para o sujeito vados na actividade e seus produtos. Quanto à actividade do
ele tal forma que ele possa actuar com essa imagem - modifi- sujeito em si próprio, ela é controlada pela consciência e realiza
cá-la de acordo com as condições ao seu dispor. Tais imagens são em relação aos seus conteúdos apenas uma função de transfe-
imagens conscientes, noções conscientes ou, por outras palavras, rência e a função do seu «reforço ou não-reforço».
os fenómenos de consciência.
Mas a questão principal não está em indicar o papel activo
Em si própria, a necessidade para os fenómenos de cons- e controlador da consciência. O problema principal reside em
ciência ele surgirem na cabeça de um homem nada nos diz sobre compreender a consciência como um produto subjectivo, como
61
Actividade e Consciência
60 Actividade e Consciência
dizer, secundário, de projecção da imagem mental no mundo
uma manifestação numa forma diferente das relações essencial- externo. A fraqueza teórica de uma tal hipótese é óbvia. Além
mente sociais que são materializadas pela actividad'e do homem disso, está claramente em contradição com os factos, que atestam
no mundo objectivo. A actividade não é de forma alguma a que a imagem mental está desde o primeiro momento «relacio-
simples expressão e o veículo da imagem mental objectivada no nada» com uma realidade que é externa ao cérebro do sujeito,
seu produto. O produto regista, perpetua não a imagem mas a e que não é projectada no mundo externo mas antes extraída,
actividade, o conteúdo objectivo que objectivamente transporta escavada dele. Certo, quando falo de «escavan),isso não é mais
dentro de si. do que uma metáfora. Exprime, contudo, um processo real que
As transições sujeito-actividade-objecto formam uma espécie pode ser cientificamente investigado, o processo da assimilação
de movimento circular, em que pode parecer pouco importante pelo sujeito do mundo objectivo na sua forma ideal, a forma do
qual dos seus elementos ou momentos é tomado como inicial. seu reflexo consciente.
O círculo abre-se, e abre-se especificamente na própria actividade Este processo ocorre originalmente no sistema das relações
prática sensível. Entrando em contacto directo com a realidade objectivas da transição do conteúdo objectivo da actividade para
objectiva e submetendo-se a ela, a actividade é modificada e o seu produto. Mas para que este processo seja realizado não
enriquecida; e é esta forma enriquecida que é cristalizada no basta que o produto da actividade, tendo absorvido esta activi-
produto. A actividade materializada é mais rica, mais verdadeira dade, esteja ele próprio presente ao sujeito como as suas proprie-
do que a consciência que a antecipa. Mais, para a consciência dades materiais; deve ter lugar uma transformação que permita
do sujeito as contribuições feitas pela sua actividade permanecem que ela emirja como algo de que o sujeito está consciente, quer
escondidas. Daí que possa parecer que a consciência seja a base dizer, numa forma ideal. Esta transformação é efectuada por
da actividade. meio da linguagem, que é o produto e meio de comunicação das
pessoas que tomam parte na produção. A linguagem encaminha
Vejamos a questão de uma forma diferente. O reflexo dos
nos seus significados (conceitos) um certo conteúdo objectivo,
produtos da actividade objectiva que materializa as ligações e as
mas um conteúdo completamente liberto da sua materialidade.
relações entre indivíduos sociais parecem-lhes ser fenómenos da
sua consciência. Mas na realidade existem para além destes fenó- Assim, a consciência individual como forma especificamente
menos as ligações e relações objectivas acima mencionadas, não humana de reflexo subjectivo da realidade objectiva só pode ser
numa forma óbvia e clara mas numa forma ignorada pelo sujeito. compreendida como o produto das relações e mediações que
Ao mesmo tempo os fenómenos de consciência constituem um surgem durante o estabelecimento e desenvolvimento da socie-
elemento real no movimento da actividade, É o que os torna dad'e. Fora do sistema dessas relações (e fora da consciência
essenciais, quer dizer, a imagem consciente desempenha a função social) a existência de uma mentalidade individual, a psique, na
de medida ideal, que é materializada na actividade. forma de consciência é impossível, especialmente porque o estudo
dos fenómenos de consciência em termos de actividade humana
Esta abordagem da consciência faz uma diferença radical do nos permite compreendê-los apenas na condição da própria acti-
modo como o problema da correlação da imagem subjectiva e vidade do homem ser considerada como um produto incluído
do objecto externo é posto. Liberta-se da mistificação deste pro- no sistema de relações, um processo que realiza o seu ser social,
blema, criado pelo postulado da imediatidade. Se partirmos da que é também 'O meio da sua existência como uma criatura cor-
hipótese que as influências externas evocam directamente, ime-
pórea, natural.
diatamente, em nós, uma imagem subjectiva, vemo-nos desde logo
confrontados com a questão de como é possível que essa imagem É certo que estas condições e relações acima mencionadas
pareça existir fora de nós, fora da nossa subjectividade, nas que geram a consciência humana só se verificam nos estádios
coordenadas do mundo externo. iniciais. Subsequentemente, à medida que a produção e comuni-
cação material se desenvolvem, a consciência das pessoas é liber-
Em termos do postulado da imediatidade esta questão só pode tada da conexão directa com a sua actividade laboral prática
ser respondida partindo da hipótese de um processo, por assim
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Actividade e Consciência Actividade e Consciência 63
imediata pelo isolamento e posterior separação da produção inte- individual só podem ser entendidas através das suas ligações com
lectual e instrumentalização da linguagem. O âmbito daquilo as relações sociais em que o indivíduo se encontra envolvido.
que é criado alarga-se constantemente, de tal forma que a cons- Nos fenómenos da consciência descobrimos, acima de tudo,
ciência do homem se torna a forma universal, embora não o seu tecido sensorial. É este tecido que forma a composição
exclusiva, de reflexo mental. Durante este processo sofre certas sensorial cl'a imagem específica da realidade - efectivamente per-
mudanças radicais. cepcionada ou surgida na memória, referida ao futuro ou talvez
De início, a consciência só existe na forma de uma imagem apenas imaginada. Estas imagens podem ser distinguidas pela sua
mental revelando 'o mundo circundante ao sujeito. A actividade, modalidade, pelo seu tom sensorial, pelo grau de clareza, pela
por outro lado, continua a ser prática, externa. Numa fase pos- maior ou menor persistência, etc.
terior a actividade torna-se também um objecto de consciência; A função especial das imagens sensíveis da consciência é acres-
o homem torna-se consciente das acções dos outros homens e, centarem realidade às representações conscientes do mundo reve-
através deles, das suas próprias acções. Elas são agora comuni- ladas ao sujeito. Por outras palavras, é graças ao conteúdo
cáveis por gestos ou discurso oral. Esta é a pré-condição para sensível da consciência que o mundo é visto pelo sujeito como
a geração de acções e operações internas que têm lugar na mente, existindo não na sua consciência mas fora da sua consciência,
no «plano da consciência», A consciência-imagens transfor- como o «campo» objectivo e objecto da sua actividade. Esta
ma-se também em consciência-actividade. É nesta plenitude asserção pode parecer paradoxal porque o estudo dos fenómenos
que a consciência começa a parecer emancipada da actividade sensíveis desde tempos imemoriais tem adoptado posições que
sensorial prática, externa e, o que é mais, parece controlá-la. levam, pelo contrário, à ideia da sua «subjectividade pura», à
Outra mudança fundamental que a consciência sofre no sua «natureza hieroglífica». Sendo assim, o conteúdo sensorial
decurso do desenvolvimento histórico consiste na destruição da das imagens não era considerado como algo efectuando «a cone--
coesão original da consciência do colectivo laboral e da dos seus xão imediata entre a consciência e o mundo externo» mas antes
membros individuais. Isto sucede porque o âmbito da consciência como uma barreira entre eles.
se alarga, abrangendo fenómenos que pertencem a uma esfera No período pós-Helmholtz o estudo experimental dos processos
de relações individuais constituindo algo de especial na vida de de percepção alcançou êxitos marcantes. A psicologia da per-
cada um deles. Mais, a divisão da sociedade em classes coloca cepção foi cumulada com factos e hipóteses individuais. Mas o
as pessoas em relações opostas e desiguais relativamente aos facto surpreendente é que, apesar destes êxitos, a posição teórica
meios de produção e ao produto social: daí que a sua consciência de Helmholtz continuou inalterável. Em muitos estudos psicoló-
experimente a influência desta desigualdade e desta oposição. Ao gicos ela está presente de uma forma invisível, nos bastidores,
mesmo tempo as noções ideológicas evoluem e entram no pro- por assim dizer. Poucos psicólogos a discutem de uma forma
cesso pelo qual os indivíduos específicos se tornam conscientes aberta e profunda, tal como Richard C. Gregory, por exemplo,
das suas relações reais com a vida. o autor do mais absorvente dos livros modernos sobre percepção
visual (1).
Surge assim um quadro complexo das conexões internas, com
interligações geradas pelo desenvolvimento das contradições inter- A força da posição de Helmholtz reside no facto de, ao estu-
nas que na sua forma abstracta se tornam evidentes à análise das dar a fisiologia da visão, ele compreender a impossibilidade de
relações mais simples caracterizando o sistema da actividade inferir as imagens dos objectos directamente das sensações, de as
humana. À primeira vista, a imersão da investigação neste qua- identificar com os modelos desenhados pelos raios luminosos na
dro intrincado pode parecer afastá-la do objectivo do estudo retina do olho. Em termos da estrutura conceptual da ciência
psicológico específico da consciência, e levar à substituição da natural desse tempo a solução para o problema proposta por
sociologia pela psicologia. Mas não é este, de forma alguma, o Helmholtz, de que o trabalho dos órgãos dos sentidos é neces-
caso. Pelo contrário, as características psicológicas da consciência sariamente suplementado pelo trabalho do cérebro, que constrói
65
64 Actividade e Consciência Acti vidade e Consciência
as suas hipóteses (cinferências») sobre a realidade objectiva, a ciente, por outras palavras, que não poderiam percepcionar o
partir dos dados sensoriais, era a única possível. mundo objectivo se o não conhecessemos. Mas como poderíamos
nós conceber este mundo se ele próprio se não tivesse inicialmente
A questão é que as imagens objectivas da consciência eram revelado a nós numa objectividade sensorialmente dada?
pensadas como fenómenos mentais dependendo de outros fenó-
As imagens sensíveis são uma forma universal de reflexo
menos como sua causa externa. Por outras palavras, a análise
mental geradas pela actividade objectiva do sujeito. Mas no
procedia no plano da abstracção dual, que era expressa, por um
homem as imagens sensíveis adquirem uma nova qualidade,
lado, pela exclusão dos processos sensoriais do sistema da acti-
nomeadamente, o seu significado ou valor. Os valores são assim
vidade do sujeito e, por outro lado, pela exclusão das imagens
os mais importantes «elementos formativos» da consciência
sensoriais do sistema da consciência humana. A ideia do objecto
de cognição científica como um sistema não estava propriamente humana.
elaborada. Como sabemos, um desastre que afecte mesmo os principais
sistemas sensoriais - a vista e o ouvido - não destrói a cons-
Em constraste com esta abordagem, que considera os fenó- ciência. Mesmo as crianças surdas, mudas e cegas que conse-
menos isolados uns dos outros, a análise sistémica da consciên- guiram dominar as operações especificamente humanas da acti-
cia exige que os «elementos formativos» da consciência sejam vidade objectiva e da linguagem (o que só se consegue, é certo,
estudados nas suas relações internas geradas pelo desenvolvi- com treino especial) adquirem uma consciência normal diferindo
mento das formas de ligação que o sujeito tem com a realidade' e, da consciência das pessoas que podem ver e ouvir apenas na sua
daí, a importância atribuída ao ponto de vista da função que cada textura sensível, que é extremamente pobre. É diferente quando
um deles desempenha nos processos de representação do mundo por alguma razão esta «horninizaçãr» ou actividade e intercâmbio
ao sujeito. Os dados dos sentidos ·incorporados nos sistemas da não têm lugar. Neste caso, a despeito de a esfera sensorimotor
consciência não revelam a sua função de uma forma directa; poder estar inteiramente intacta, a consciência não surge.
subjectivamente esta função só indirectamente é expressa, num
«sentido de realidade» não diferenciado. Contudo, revela-se ime- Assim, os significados refractam o mundo na consciência do
diatamente a si própria logo que há qualquer interferência ou homem. O veículo de significação é a linguagem, mas a lingua-
distorção na recepção das influências externas. gem não é o derniurgo da significação. Escondidos atrás dos
significados linguísticos (valores) estão os modos de acção social-
A natureza profunda das imagens sensíveis mentais. reside na mente desenvolvidos (operações), no processo dos quais as pessoas
sua objectividade, no facto de serem geradas em processos de mudam e conhecem a realidade objectiva. Por outras palavras,
actividade formando a conexão prática entre o sujeito e o mundo os significados ou formas ideais materializadas e transmutadas
objectivo externo. As imagens. sensíveis, independentemente da linguisticamente, do mundo objectivo, das suas propriedades,
complexidade que as relações e formas de actividade possam conexões e relações reveladas pela prática social conjunta. Daí
implicar, retêm a sua referência objectiva inicial. que os significados em si próprios, quer dizer, abstraídos do seu
funcionamento nas consciências individuais, são tão «psicológicos»
Sem dúvida que, quando comparadas com a imensa riqueza como a realidade socialmente conhecida que está para além deles.
dos resultados cognitivos da actividade humana desenvolvida as
contribuições dadas para ela pelas nossas percepções sensíveis, Os significados são estudados na linguística, semiótica e lógica.
pela nossa sensibilidade, a primeira coisa que chama a atenção Ao mesmo tempo. enquanto um dos «elementos formativos»
é quão limitadas elas são, quão quase desprezíveis. Mais, des- da consciência individual, entram no âmbito dos problemas da
cobrimos que as percepções sensíveis contradizem constantemente filosofia. A principal dificuldade do problema filosófico do signi-
a nossa visão mental. Isto dá origem à ideia de que as percep- ficado reside no facto de ele reproduzir todas as contradições
ções sensíveis não dão o impulso que põe as nossas capacidades envolvidas no problema mais vasto da correlação entre o lógico
cognitivas em movimento, e que as imagens de objectos são gera- e o psicológico no pensamento, entre a lógica e a psicologia
das por operações internas do pensamento, inconsciente ou cons- dos conceitos.
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66 Actividade e Consciência Actividade e Consciência 67
Uma solução para este problema oferecida pela psicologia ções internas do sistema de actividade e da consciência, não
subjectivo-empírica é que os conceitos (ou significados verbais) fazem parte do objecto da psicologia, Só o são quando conside-
são um produto psicológico, o produto da associação e genera- rados dentro dessas relações, na dinâmica do seu sistema.
lização de impressões na consciência do sujeito individual, cujos
resultados se ligam a palavras. Este ponto de vista, como se Isto deriva da própria natureza dos fenómenos mentais. Como
sabe, encontrou expressão não só em psicologia, mas também dissemos, o reflexo mental ocorre devido à bifurcação dos pro-
em concepções que reduzem a lógica à psicologia. cessos vitais do sujeito nos processos realizados directamente
pelas suas relações bióticas, e pelos processos de «sinalização»
Outra alternativa é reconhecer que os conceitos e operações que os mediatizam. O desenvolvimento das relações internas gera-
com conceitos são controlados por leis lógicas objectivas, que das por esta divisão é expresso no desenvolvimento da estrutura
a psicologia se ocupa apenas com os desvios relativamente a essas de actividade e, nesta base, também no desenvolvimento das
leis observáveis no pensamento primitivo, em condições patoló- formas de reflexo mental. Subsequentemente, ao nível humano,
gicas ou de grande choque emocional, e que é tarefa da psico- estas formas estão de tal modo alteradas que, à medida que se
logia estudar o desenvolvimento ontogenético dos conceitos e do estabelecem na linguagem (ou linguagens), elas adquirem uma
pensamento. É certo que o estudo destes processos predomina existência quase independente enquanto fenómeno ideal objectivo.
na psicologia do pensamento. Basta mencionar as obras de Piaget, Mais. elas são constantemente reproduzidas pelos processos que
Vygotsky e os numerosos estudos sobre a psicologia do ensino. ocorrem nas mentes de indivíduos específicos e é isto que cons-
titui o «mecanismo» interno da sua transmissão de geração para
O estudo de como as crianças formam conceitos. e operações
geração e a condição do seu enriquecimento mediante contribui-
lógicas (mentais) deu uma grande contribuição neste domínio.
Concluiu-se que a formação de conceitos no cérebro da criança ções individuais.
não segue o padrão de formação das imagens sensíveis genéticas. Neste ponto chegamos ao problema que sempre constitui o
Tais conceitos são o resultado de um processo de assimilação nó górdio da análise da consciência. Trata-se do problema da
de significados com uma evolução histórica, «prontos-a-usar», natureza específica do funcionamento do conhecimento, dos con-
c este processo ocorre na actividade da criança por ocasião da ceitos, dos modelos conceptuais, etc. no sistema das relações
sua interacção com as pessoas que a rodeiam. Ao aprender a sociais, na consciência social, por um lado, e, por outro, na ache.
executar certas acções a criança domina as operações corres- vidade individual que realiza as suas relações sociais na cons-
pondentes, que estão de facto representadas na significação, de ciência individual.
uma forma comprimida, idealizada. Este problema surge inevitavelmente a qualquer análise que
É evidente que inicialmente o processo de assimilação de sig- reconheça as limitações da ideia de que os significados na cons-
nificados ocorre na actividade externa da criança com Os objectos ciência individual são apenas projecções mais ou menos completas
materiais e no intercâmbio prático que envolve. Nos estádios dos significados «supra-individuais» existentes numa dada socie-
iniciais a criança assimila certos significados objectivos específicos dade. O problema não é de forma alguma ultrapassado por refe-
e directamente indentif'icáveis. À medida que são interiorizados, rências ao facto de que Os significados são refractados pelas
formam significados abstractos ou conceitos, e o seu movimento características específicas dos indivíduos, pela sua experiência
constitui a actividade mental interna, a actividade «no plano da prévia, pela natureza única dos seus princípios pessoais, tempe-
consciência». ramento, etc.
A consciência como uma forma de reflexo mental não pode Este problema deriva da dualidade real da existência de signí-
contudo ser reduzida ao funcionamento de significados assimilados ficados para o sujeito. Esta dualidade reside no facto de os
externamente, que depois se desdobram e controlam a actividade significados surgirem eles próprios ao sujeito na sua existência
interna e externa do sujeito. Os significados e operações neles independente - como objectos da sua consciência e ao mesmo
envolvidos, em si próprios, isto é, enquanto abstraídos das rela- tempo como o meio e «mecanismo» de compreensão, isto é,
68
Actividade e Consciência
Actividade ê Oorisciericia 69
ql19.nOC f:2ncion2m em processos que apresentam realidade objec-
tiva para o sujeito. Nesta função, os significados entram neces- ta; pode ser realizada através de todas as espécies de cadeias
sariamente nas relações internas, ligando-as com outros «elemen- intrincadas das operações mentais, incluída nelas, particularmente
tos formativos» da consciência individual; é só nestas relações quando esses significados reflectem uma realidade que só aparece
sistémicas internas que adquirem características psicológicas. nas suas formas remotas, oblíquas. Mas em casos normais esta
referência existe sempre, e desaparece somente nos produtos do
Formulemos a questão de um modo diferente. Quando os seu movimento, nas suas exteriorizações.
produtos da prática socio-histórica, idealizada em significados, se
tornam parte do reflexo mental do mundo pelo sujeito individual, O outro lado do movimento de significados no sistema da
adquirem novas qualidades sistémicas. A principal dificuldade consciência individual reside na sua subjectividade especial, que
é que os significados têm uma dupla vida. São produzidos pela é expressa na parcialidade, no viés que adquirem. Este lado só é
sociedade e têm a sua história no desenvolvimento da linguagem, revelado, contudo, por análise das relações internas que ligam
na história do desenvolvimento das formas de consciência social; os significados com outro «elemento formativo» da consciência
expressam o movimento da ciência e os seus meios de conheci- - a significação pessoal.
mento, e também as noções ideológicas da sociedade - religiosas, Vamos considerar esta questão mais detalhadamente. A psico-
filosóficas e políticas. Nesta existência objectiva dos seus signifi- logia empírica tem, desde sempre, descrito a subjectividade, a
cados, obedecem às leis socio-históricas e ao mesmo tempo à parcialidade da consciência humana. Tem observado isso na aten-
lógica interna do seu desenvolvimento. ção selectiva, no colorido emocional das ideias, na dependência
Todavia, apesar de toda a riqueza inexaurível, de toda a diver- dos processos cognitivos das necessidades e inclinações. Foi Leib-
sidade desta vida dos significados (isto é, aquilo que ocupa as niz quem, no seu tempo, exprimiu esta dependência no aforismo
ciências), permanecem escondidas dentro dela outra vida e outra bem conhecido que «se a geometria se opusesse tanto às nossas
espécie de movimento - o seu funcionamento nos processos da paixões e interesses como a moralidade, deveríamos contestar os
actividade e consciência de indivíduos específicos, mesmo que só seus argumentos e violar os seus princípios a despeito de todas
as provas de Euclides e Arquimedes»,
possam existir por meio destes processos. Nesta sua segunda vida,
os significados são individualizados e «subjectivizados» apenas no A dificuldade reside na explanação psicológica da parciali-
sentido em que o seu movimento no sistema de relações sociais dade da cognição. O fenómeno de consciência parece ter uma
não está directamente contido neles; eles entram num outro sis- determinação dual - externa e interna. Foram, por isso mesmo,
tema de relações, num outro movimento. Mas. a coisa notável é interpretados como pertencendo a duas esferas mentais diferen-
que, ao fazer isso, não perdem a sua natureza sacio-histórica, tes, a esfera dos processos cognitivos e a esfera das necessidades,
a sua objectividade. da afeição. O problema de correlacionar estas duas esferas, quer
tenha sido resolvido no espírito das concepções racionalistas ou
Um aspecto do movimento de significados na consciência dos no dos processos psicológicos profundos, foi invariavelmente
indivíduos específicos reside no seu «regresso» à objectividade interpretado do ponto de vista antropológico, um ponto de vista
sensível do mundo que foi mencionada acima. Enquanto que na que postula a interacção de factores ou forças essencialmente
sua abstracção, na sua «supra-individualidade», os significados heterogéneos.
são indiferentes às formas de sensorialidade em que o mundo é
Contudo, a verdadeira natureza da dualidade aparente dos
revelado ao indivíduo específico (deve dizer-se que em si mesmos
fenómenos da consciência individual reside não na sua obediência
os significados não têm sensorialidade), o seu funcionamento na
a estes factores independen tes, mas nas características específicas
realização do sujeito das relações efectivas em vida necessaria-
da estrutura interna da própria actividade humana.
mente pressupõe a sua referência às influências sensíveis. Sem
dúvida que a referência objectivo-sensível que os significados têm Como já dissemos, a consciência deve a sua origem à identi-
na consciência do sujeito não tem necessariamente que ser dírec- ficação no decurso' do trabalho de acções cujos resultados cogni-
tivos são abstraídos do todo vivo da actividade humana [da práxis
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70 Actividade e Consciência Actividade e Consciência 71
socialJe idealizados na forma de significados linguísticos. À me- bem conhecido criticando Adolf Wagner, Marx observa que os
dida que são comunicados, tornam-se parte da consciência dos objectos do mundo externo conhecidos pelo homem foram origi-
indivíduos. Isto não os priva das suas qualidades abstractas por- nalmente designados como os meios de satisfazer as suas neces-
que continuam a implicar os meios, as condições objectivas e sidades, quer dizer, eram para ele «bens». «... Eles conferem a
os resultados de acções independentemente da motivação subjec- um objecto um carácter de utilidade, como se a utilidade fosse
tiva da actividade das pessoas em que são formadas. intrínseca ao próprio objecto», escreve Marx (3). Este pensamento
Nos estádios iniciais, quando as pessoas participando num tra- põe em relevo um aspecto muito importante da consciência nas
balho colectivo têm ainda em comum motivos, significações como fases iniciais de desenvolvimento, designadamente o facto de os
objectos serem reflectidos em linguagem e consciência como
fenómenos de consciência social e como fenómenos de consciên-
parte de um único todo juntamente com as necessidades huma-
cia individual correspondem directamente um a outro. Mas esta
nas que concretizam ou «reificam». Esta unidade é, contudo"
relação não se mantém no desenvolvimento posterior. Desinte-
subsequentemente destruída. A inevitabilidade desta destruição
gra-se conjuntamente com a desintegração das relações originais
está implícita nas contradições objectivas da produção de bens
entre os indivíduos e as condições e meios materiais de produ-
de consumo, que gera uma contradição entre trabalho abstracto
ção, bem como com a emergência da divisão social do trabalho
e concreto e leva à alienação da actividade humana.
e da propriedade privada e). o resultado é que os significados
desenvolvidos socialmente começam a viver uma espécie de dupla Não vamos entrar nos pormenores que distinguem as várias
vida na consciência dos dndivíduos. E assim outra relação, outro formações soeio-económicas. Para a teoria geral da consciência
movimento de significados no sistema da consciência individual individual a coisa principal é que a actividade dos indivíduos
começa a ter vida. específicos está sempre «confinada» (inséré) (4) nas formas cor-
rentes de manifestação destes opostos objectivos (por exemplo,
Estas relações in ternas específicas manifestam-se elas próprias
trabalho concreto e abstracto) que encontram a sua expressão
nos factos psicológicos mais simples. Por exemplo, todas as crian-
indirecta, fenomenal na consciência individual no seu movimento
ças mais velhas que andam na escola sabem o significado de uma
interno específico.
nota de classificação e as consequências dela. Apesar disso, uma
nota pode surgir na consciência de cada aluno individual de Historicamente, a actividade do homem não muda a sua
modos essencialmente diferentes; pode aparecer, por exemplo, estrutura geral, a sua «macro-estrutura», Em cada estádio do
como um passo em frente (ou obstáculo) para a profissão desenvolvimento histórico é realizada por acções conscientes em
escolhida, ou como um meio de afirmação pessoal aos olhos dos que os fins se tornam produtos objectivos, e obedecem aos moti-
outros, ou talvez doutra maneira. É isto que incita a psicologia vos pelos quais foram estimulados. O que muda radicalmente é
a distinguir entre o significado objectivo consciente e o signifi- G carácter das relações que ligam os fins e os motivos da activi-
cado para o sujeito, ou aquilo a que eu prefiro chamar «signi- dade. O ponto é que para o próprio sujeito a compreensão e
ficado pessoal». Por outras palavras, uma nota de exame pode realização de objectivos concretos, o seu domínio de certos modos
adquirir diferentes significados pessoais nas consciências de dife- e operações de acção é uma forma de afirmação, de plenitude
rentes alunos. de vida, de satisfação e desenvolvimento das suas necessidades
materiais e espirituais, que estão reificadas e transformadas nos
Embora esta interpretação da relação entre os conceitos de motivos da sua actividade. Não faz diferença que o sujeito esteja
significado e Os significados pessoais tenha sido explicada muitas consciente ou inconsciente dos seus motivos, que ele declare a
vezes, é ainda muito frequentemente mal compreendida. Parece- sua existência sob a forma de interesse, desejo ou paixão. A sua
ria, pois, necessário voltar mais uma vez à análise do conceito função, encarada do ponto de vista da consciência, é «avaliar»
de significado pessoal. Antes de mais, algumas palavras sobre as o significado vital para o sujeito das circunstâncias objectivas e
condições objectivas que levam à diferenciação de significad'os das suas acções nessas circunstâncias, por outras palavras, con-
e significados pessoais na consciência individual. No seu artigo ferir-lhes um significadopessoal, que não coincida directamente
Actividade e Consciência Actividade e Consciência 73
72
com o significado objectivo compreendido. Sob certas condições, e externamente complexas; só a sua separação uma da outra é
a discrepância entre os significados pessoais e os significados que continua impossível. Tal separação só se dá ao nível humano,
objectivos na consciência individual podem levar à alienação ou quando os significados verbais introduzem uma cunha entre as
mesmo a posições diametralmente opostas. conexões internas dos dois tipos de sensibilidade.
Numa sociedade baseada na produção de bens de consumo, Usei a expressão introduzir uma cunha (embora talvez fosse
esta alienação terá de surgir; mais, ela surge nas pessoas situadas preferível dizer «intervir» apenas para acentuar o problema. Na
nos dois extremos da escala social. O trabalhador contratado realidade, na sua existência objectiva, isto é, como fenómeno de
está, sem dúvida, consciente do produto que produz; por outras consciência social, os significados reflectem objectos para os indi-
palavras, ele está consciente do seu significado objectivo (Bedeu- víduos independentemente das suas relações com a sua vida, com
tung) pelo menos na medida em que dele se espera que seja capaz as suas necessidades e motivos. A tábua a que o homem a afo-
de executar as suas funções laborais de uma forma racional. Mas gar-se se agarra continua a ser para a sua consciência uma tábua,
não é este o caso no que se refere ao significado pessoal (Sinn) independentemente do facto de que essa tábua, embora mera
do seu trabalho, que reside no salário pelo qual ele trabalha. «As ilusão, adquira para ele nesse momento o significado pessoal de
doze horas de trabalho, por outro lado, não têm significado um meio de salvação.
para ele enquanto tecelagem mas enquanto ganho que lhe per- Nos estádios iniciais da formação da consciência os signifi-
mite comprar produtos alimentares, ou ir ao restaurante ou com- cados objectivos emergem com o significado pessoal, mas há já
prar agasalhos» (5). Esta alienação também se manifesta no pólo
uma discrepância implícita nesta unidade que inevitavelmente
sooial oposto. Para o comerciante em minério, observa Marx, assume a sua forma explícita. É isto que torna necessário distin-
o minério não tem o significado pessoal de minério.
guir o significado pessoal na nossa análise como um outro «ele-
A abolição das relações de propriedade privada acaba com mento formativo» do sistema da consciência individual. São estes
esta oposição entre significado e significado pessoal na consciên- significados pessoais que criam aquilo que C. Vygotsky chamou
cia dos indivíduos; mas a discrepância entre eles mantém-se. o plano (escondido» da consciência, que é tão frequentemente
A necessidade desta discrepância está implícita na pré-história interpretado na psicologia não como um elemento formativo na
da consciência humana, na existência entre os animais de dois actividade do sujeito, no desenvolvimento da sua motivação, mas
tipos de sensibilidade' que mediatizam o seu comportamento no como algo que é supostamente uma expressão directa das forças
meio objectivo. Como se sabe, a percepção do animal está limi- essenciais, intrínsecas, originalmente implantadas na própria natu-
tada às influências que têm uma conexão baseada em sinais como reza humana.
a satisfação dessas necessidades, mesmo que essa satisfação seja Na consciência individual Os significados assimilados separam
apenas eventual ou possível (6). Mas as necessidades só podem e ao mesmo tempo unem os dois tipos de sensibilidade: as impres-
desempenhar a função de regulação mental quando actuam como sões sensíveis da realidade externa de que a actividade do sujeito
objectos motivantes (incluindo os meios de adquirir tais objectos procede, e as formas da experiência sensível dos seus motivos,
ou de se defender deles). Por outras palavras, na sensorialidade a satisfação ou não das exigências que lhe estão subjacentes.
dos animais as propriedades externas dos objectos e a sua capa-
cidade para satisfazer certas necessidades não estão separadas Em contraste com os significados objectivos, Os significados
uma da outra. Como sabemos a partir da famosa experiência de pessoais, tal como o tecido sensível da consciência, não têm exis-
Pavlov, um cão responde à influência do estímulo alimentar con- tência não-psicológica, (supra-individuab), Enquanto que a sensi-
dicionante tentando alcançá-lo e lambê-lo O, Mas o facto de o bilidade externa associa os significados objectivos com a realidade
animal ser incapaz de separar a percepção da aparência externa do mundo objectivo na consciência do sujeito, Os significados
do objecto das necessidades que experimenta de forma alguma pessoais associam-nos com a realidade da sua própria vida neste
implica a sua coincidência completa. Pelo contrário, no curso mundo, com as suas motivações. É o significado pessoal que dá
da evolução as suas conexões tomam-se progressivamente móveis à consciência humana a sua parcialidade.
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74 Actividade e Consciência Actividade e Consciência 75
Mencionámos já o facto de os significados serem «psícologi- adquirem a capacidade de qualquer estereótipo para resistir, de
zados» na consciência individual quando regressam à realidade forma que só as grandes confrontações com a vida os podem
do mundo dada pela sensibilidade. Outro e talvez mais decisivo destruir. Mas mesmo quando são destruídos, a desíntegridade da
factor que faz dos significados objectivos categorias psicológicas consciência, a sua inadequação, não é modificada; em si própria,
é o facto de que por funcionarem no sistema da consciência a destruição de estereótipos causa só uma devastação que pode
individual não se realizam a eles próprios mas o movimento de levar a um desastre psicológico. Deve verificar-se também uma
significado pessoal que encarna ele próprio neles, o significado transformação dos significados pessoais subjectivos na consciên-
pessoal que é o ser-para-si do sujeito concreto. cia do indivíduo noutros significados objectivos que os expres-
Psicologicamente, quer dizer, no sistema da consciência do sem adequadamente.
sujeito, e não como seu produto ou tema, os significados em Uma análise mais aprofundada desta transformação de signi-
geral não existem excepto na medida em que realizam certos ficados pessoais em significados objectivos adequados (ou mais
significados pessoais, tal como as acções e operações dos sujeitos adequados) mostra que isto ocorre no contexto da luta pela cons-
não existem excepto na medida em que realizam alguma activi- ciência das pessoas que é travada na sociedade. Com isto quero
dade do sujeito evocada por um motivo, por uma necessidade. significar que o indivíduo não se limita a «permanecer» face a
O outro lado da questão reside no facto de o significado pessoal um conjunto de significados entre os quais apenas terá que esco-
ser sempre o significado de alguma coisa, não tendo sentido um lher, que esses significados - noções, conceitos, ideias - não
significado «puro», sem objecto, tal como não tem sentido uma aguardam passivamente a sua escolha mas irrompem agressiva-
existência sem objecto. mente nas suas relações com as pessoas que formam o círculo
A encarnação do significado pessoal nos significados objecti- das suas trocas actuais. Se o indivíduo é forçado a escolher em
vos é um processo profundamente íntimo, psicologicamente signi- certas circunstâncias, a escolha não é entre significados, mas
ficativo e de forma alguma automático ou instantâneo. O pro- entre as posições sociais em conflito, expressas e compreendidas
cesso é visto em toda a sua plenitude nas obras de literatura e através desses significados.
na prática da educação moral e política. Na esfera das noções ideológicas este processo s6 é inevitável
Ele é muito claramente demonstrado nas condições da socie- e universal numa sociedade de classes. Mas de certo modo con-
dade de classe, no contexto da luta ideológica. Neste contexto tinua a ser activo em qualquer sistema social por virtude de as
os significados pessoais reflectindo os motivos engendrados pelas características específicas da vida individual, das relações pes-
relações de vida actuais podem não encontrar significados objec- soais, as interacções e situações também sobreviverem, porque
tivos que plenamente Os expressem, e podem pois começar a viver estas características especiais, tal como um ser corpóreo e certas
com roupagens emprestadas. Imagine-se a contradição fundamen- condições externas específicas, que não podem ser idênticas para
tal que esta situação traz. Em contraste com a sociedade, o indi- todos, continuam a ser únicas.
víduo não tem uma linguagem especial, sua, com significados Não desaparecem (nem tal deveria suceder) as discrepâncias
que ele próprio tenha criado. A sua compreensão da realidade que constantemente proliferam entre os significados pessoais
só pode ter lugar por meio de significados «já feitos» que ele dotados de intencionalidade, a parcialidade da consciência do
assimila de fora - o conhecimento, conceitos e pontos de vista sujeito, e os significados objectivos, que, embora «indiferentes»
que ele recebe através do intercâmbio, nas várias formas de para eles, são os únicos meios pelos quais os significados pessoais
comunicação individual e de massa. É isto que lhe possibilita podem ser expressos. É por isso que o movimento interno do
introduzir na sua consciência ou mesmo impor-lhe essa consciên- sistema desenvolvido da consciência individual está cheio de
cia distorcida ou noções e ideias fantasiosas, incluindo as que momentos dramáticos. Estes momentos são criados por significa-
não têm base na sua experiência de vida real, prática. Como não dos pessoais que não podem «exprimir-se eles próprios» em signi-
têm nenhuma base própria revelam a sua fraqueza na sua cons- ficados objectivos adequados, significados que ficaram privados
ciência, mas ao mesmo tempo, tendo-se tornado estereótipos, das suas bases na vida e portanto, por vezes agonizantes, se desa-
Actividade e Consciência
77
76 Actividade e Consciência
NOTAS
creditam a si próprios na consciência do sujeito; tais momentos (1) R. C. Gregory. The Ln.t ell iç ent: EV e, Lorido n , 1970.
são também criados pela existência de motivos ou finalidades (2) Ver Karl Marx. A Contribution to ttie Critique ot PoLiticai
conflituantes. Economs), Moscow 1970. pp. 188-217.
(3) Marx-Engels, Werke. Bd. 19. D, 363.
Não é necessário repetir que este movimento interno da cons- (4) Em francês no original.
ciência individual é engendrado pelo movimento da actividade (5) Karl Marx and Frederick Engels, Selected Worlcs, em três volumes.
objectiva de uma pessoa, que por detrás dos momentos dramá- Vol. r, p. 153.
ticos da consciência estão os momentos dramáticos da sua vida (6) Este facto tem servido de base a certos escritores alemães para
fazerem uma distinção entre meio ambiente (U1Hwe!t), como aquilo que é
real, e que por essa razão urna psicologia científica da cons- percepcionado pelos animais. e o mundo (Welt) que é percepcionado apenas
ciência é impossível sem investigar a actividade do sujeito, as pela consciência humana.
formas da sua existência imediata. (7) Ver L P. Pavlov. Obras completas, Vo\. 3, Livro r. Moscovo-
-Leninegrado, 1951. p. 151 (em russo).
Em conclusão, sinto que devo fazer urna referência ao pro-
blema por vezes designado por «psicologia da vida», a psicologia
da experiência, que está uma vez mais a ser discutido na litera-
tura. Do que se disse neste artigo segue-se que embora uma psi-
cologia científica não deva nunca perder de vista o mundo interior
do homem, o estudo deste mundo interior não pode ser divor-
ciado de um estudo da sua actividade e não constitui nenhuma
tendência especial da investigação psicológica científica. Aquilo
a que chamamos experiências são os fenómenos que surgem à
superfície do sistema de consciência e constituem a forma em
que a consciência é imediatamente aparente ao sujeito. Por esta
razão, as experiências do interesse e do aborrecimento, atracção
ou problemas de consciência não revelam a sua própria natureza
ao sujeito. Embora pareçam ser forças internas estimulando a
sua actividade, a sua real função é apenas guiar o sujeito para
a sua verdadeira origem, indicar o significado pessoal dos acon-
tecimentos que têm lugar na sua vida, impelindo-o a parar por
um momento, tal como está, o fluxo da sua actividade e exami-
nar os valores essenciais que se formaram na sua mente, a fim
de ele próprio neles se encontrar, ou talvez de os rever.
Para resumir, a consciência do homem, tal como a sua activi-
dade, não é aditiva. Não é uma superfície plana, nem mesmo
uma capacidade que possa ser preenchida com imagens e pro-
cessos. Nem tão-pouco as conexões dos seus elementos separados.
É o movimento interno dos seus «elementos formativos» ligados
ao movimento geral da actividade que efectua a vida real do
indivíduo na sociedade. A actividade do homem é a substância A. N. Leontyev, Activity and Consciousness, in phltosoph»
da sua consciência. in the USSR. Problems of Dialectical Maierialism, Progress
Publishers, Moscow 1977, pp. 180-202.
Tradução do inglês por Jorge Correia Jesuino.
SOBRE A RELAÇÃO ENTRE CONHECIMENTO
E PRÁXIS SOCIAL
Manfred Buhr e Jõrg Schreiber
A concepção dialéctico-materialista da relação entre histórico
e lógico, entre conhecimento e acção ou - de um modo mais
geral - entre conhecimento e práxis baseia-se numa longa e rica
história do pensamento humano. Os defensores destas ideias con-
fessaram-se, sempre e sem restrições, adeptos desta história.
Tanto mais espantosa é a leviandade com que ideólogos burgue-
ses que julgam conhecer bem essa doutrina, não só puseram em
dúvida - o que por vezes, como é sabido, pode ser absoluta-
mente proveitoso - mas puseram simplesmente de lado, como
de nenhuma importância, este aspecto do problema (e, com ele,
conhecimentos em tempos conquistados e solidamente enraizados
na tradição filosófica, da concepção científica do mundo das
novas forças sociais». É que as doutrinas de Marx e Engels
- e isto é preciso mantê-lo e reconhecê-lo em todo o seu signifi-
cado -ligam pela primeira vez o que, em toda a precedente his--
tória do pensamento humano, aparece separado: materialismo e
dialéctica.
Onde o materialismo aparece antes de Marx e de Engels, ele
permanecia, em última instância, metafísico, não-dialéctico, pelo
menos no que dizia respeito ao processo histórico. A dialéctica
continuava a estar largamente submetida ao idealismo. No entan-
to, Marx e Engels, ao ligarem materialismo e dialéctica, trans-
formaram ao mesmo tempo o seu conteúdo. Os dois conceitos
receberam na sua concepção doutrinal um novo significado.
A dialéctica abrange mais do que o processo evolutivo categorial
do logos em conceitos puros. E o materialismo alcança, nesta
sua nova forma, o processo histórico, tornando-se materialismo
«consequente».
80 Sobre a Relação entre Conhecimento e Práxis Social Sobre a Relação entre oonnectmento e Práxis Social 81
É por isso que, na dialéctica materialista, o antagonismo abso- II
luto de matéria e consciência é substituído pelo conhecimento
da relação efectiva: a consciência, como mais elevada fase evolu- A concepção de Marx e de Engels explica o movimento e o
tiva da matéria, fica ligada a esta; a matéria é a base e o pres- desenvolvimento do pensar - também e justamente o pensar
suposto de toda e qualquer actividade da consciência. sobre a história - antes de mais como reflexo sócio-historica-
mente determinado do movimento e do desenvolvimento objec-
Com isso criaram-se as condições para superar do ponto de
vista materialista a relação entre pensar e ser, invertida na dia- tivo-reais da realidade objectiva. Conceber o pensar desta maneira
léctica idealista, e explicar a lógica da história a partir dela pró- exige apreender o condicionamento material do conhecimento e,
pria, em vez de, inversamente, conceber a história como uma na verdade, de todo o conhecimento, incluindo o histórico. A teo-
sequência de encarnações das ideias que se iam desenvolvendo. ria filosófica do conhecimento evita assim o risco de ceder o lugar
Foi a partir desse momento que se pôde dispensar todo o recurso a uma mera psicologia ou de cair no psicologismo.
ao pensamento de identidade. Se Hegel, na Introdução às Lições Ao contrário de Hegel, para Marx não se tratava de tornar
de História da Filosofia (Vorlesungen über die Geschichte der lógica a história, mas sim de mostrar a lógica da história, isto é,
Philosophie), ainda partiu da ideia de «que a sequência dos siste- as suas leis de desenvolvimento material, e explicar o carácter
mas da filosofia na história é a mesma que a sequência na dedu- histórico do conhecimento humano a partir ela dimensão histó-
ção lógica das definições da ideia» (1), Marx e Engels propuse- rica da transformação da realidade objectiva. Na medida em que
ram-se a tarefa de explicar porque é que as categorias represen- isto foi realizado, não só a teoria filosófica do conhecimento
tam pontos nodais da evolução do pensamento e reflectem, como escapou à redução, à psicologia, mas simultaneamente a teoria
tais, em forma condensada, a história factual da humanidade. histórica escapou à queda num mero subjectivismo e à recaída
Hegel era de opinião: «[ ... ] se dos conceitos fundamentais dos no relativismo.
sistemas surgidos na história da filosofia se abstrair totalmente
aquilo que diz respeito à sua configuração exterior, à sua aplica- Com a dialéctica materialista que abrange a natureza, a socie-
ção ao particular [ ... J: então obtem-se as diversas fases da defi- dade e o pensamento, toda teoria do conhecimento autónoma
nição da própria ideia no seu conceito lógico. Inversamente, que tenta encontrar o seu objecto fora do processo histórico e
tomando por si a progressão lógica, tem-se nela, segundo os seus dos seus agentes fica ademais ultrapassada e quiçá torna-se tam-
momentos principais, a progressão dos fenómenos históricos bém dispensável. A relação dialéctica entre conhecimento e acção
- mas, claro está, é preciso que se saiba reconhecer estes con- histórica, a sua revelação e constante actualização são a chave
ceitos puros naquilo que a forma histórica contém» (2). de uma verdadeira teoria elo conhecimento. A negação desta
relação tem sido proposta ao marxismo repetidas vezes pelos filó-
Portanto: na medida em que, em Hegel, o Espírito se torna sofos burgueses. Mas era precisamente graças ao aprofundamento
absoluto, retoma ou recolha em si, como logos, a história. A dia- do carácter dialéctico das relações entre conhecimento e acção
léctica do pensar e do ser acaba, para não dizer morre. Outra histórica que foi possível a V. r. Lénine refutar criticamente as
coisa completamente diferente acontece com Marx e Engels. Para teorias positivistas e neo-kantianas que infiltravam o P. S. O. da
eles, a evolução histórica efectiva, o processo de vida material R. Lénine afirmou: «Acresce que é preciso unir, ligar, relacionar
dos homens, é a base e o meio de existência das categorias. o princípio universal do desenvolvimento com o princípio uni-
A dialéctica da acção histórica e acto de pensar lógico não visa, versal da unidade do mundo, da natureza, do movimento, da
deste modo, nenhum fim. Com o auto-reconhecimento do sujeito matéria, etc.» (3).
histórico não surge nenhuma paragem do processo histórico,
De facto, é só por esta via que são superáveis dialecticamente
antes pelo contrário, é a partir daí que a história começa verda-
os antagonismos de matéria e consciência, de variabilidade de
deiramente. sensações, apercepções, representações e experiências, por um
lado, e de constância dos conceitos e das categorias, por outro.
G
_____ ..
82 Sobre a Relação entre Conhecimento e Práxis Social Sobre a Relação entre Conhecimento e Práxts Social 83
É por isso que a ligação de unidade material do mundo e da certas características, «de uma das facetas, dos limites do conhe-
dialéctica é a chave para a solução dos grandes problemas meta- cimento, a um absoluto divinizado, separado da matéria, da natu-
físicos das teorias do conhecimento da filosofia burguesa clássica. reza», como afirmou Lénine (5).
A visão dialéctico-materialista do problema do conhecimento Do ponto de vista de uma cosmovisão filosófica, é por isso
ultrapassa, além disto, o quadro do sujeito individual do conhe- indiferente se se absolutiza, por um lado, a história pura e sim-
cimento. No marxismo, o conhecimento já não é o conhecimento ples, por exemplo, como práxis socio-histórica ou, por outro lado,
de um indivíduo abstracto e isolado que apenas se sente per- o facto de o processo do conhecimento estar sujeito a leis próprias.
tencente ao «género» por urna generalidade interior, muda e Se não se tomar em conta a realidade objectiva, mesmo a análise
que ligue os muitos indivíduos apenas de um modo natural mais súbtil da práxis não conseguirá contribuir para o desenvol-
(6. n tese sobre Feuerbach), mas sim o processo de conhecimento vimento ulterior de uma teoria do conhecimento que vise uma
da humanidade, isto é, o processo do reflexo social-total da reali- modificação real da práxis social. O interesse gnoseológico dos
dade objectiva. Tão-pouco o processo histórico pode ser admitido verdadeiros agentes sociais da nossa época histórica exige que
como base única do conhecimento do mundo sem se cair no a questão da realidade e do poder do conhecimento corresponda
idealismo, tão-pouco o conhecimento social pode ser concebido aos factos. Nem a praxeologia, por um lado, nem o ponto de
puramente, isto é, separado do agir histórico dos homens sem se partida cientista da teoria do conhecimento positivista, por outro,
correr o risco de transformar a consciência socio-histórica da conseguem corresponder aos interesses da concepção do mundo
humanidade num sujeito autónomo. Para a história, para o pro- e da ideologia da classe ascendente.
cesso sacio-histórico, é ponto assente: ela não é uma instância Neste contexto é lógica e absolutamente coerente que à
que queira algo e que crie algo. Ela é o resultado do agir social negação do conceito de matéria se siga o ataque à categoria de
dos homens, a resultante do paralelograma das forças de classes «reflexo da realidade objectiva». Mas a dificuldade, se não mesmo
desde o declínio da comunidade primitiva até o momento pre- o abandono, não começa só pelo discrédíto votado à teoria do
sente. «A história não é senão a sequência das várias gerações, reflexo, mas pela negação da posição básica materialista. A filo-
cada uma das quais aproveita os materiais, capitais, forças pro- sofia materialista necessita da constante ligação com a realidade
dutivas que lhe foram legados por todas as anteriores, conti- objectiva. E por isso não é sem razão que a gnoseologia dia-
nuando portanto, por um lado, a actividade legada em circuns- léctica-materialista insiste na base material do processo do conhe-
tâncias completamente diferentes e modificando, por outro, cimento, mas porque sabe por experiência que, não sendo assim,
as antigas circunstâncias com uma actividade completamente as suas categorias começariam a volatilizar-se em essências intem-
alterada [ ... ]» (4) porais.
Nisto, a modificação actua nos dois sentidos: não só a reali- III
dade objectiva é posta ao serviço de fins humanos e, portanto,
transformada, mas também o sujeito social desenvolve-se nesta Toda forma de movimento da matéria imprime o seu cunho
e através desta actividade. A história que não seja concebida ao processo de conhecimento pelo menos nos seus resultados,
como resultante da actividade dos homens e que, em vez disso, também e precisamente à forma do movimento social. Se, porém,
é concebida como actuante por si, já não dá informação sobre o condicionamento social do conhecimento for sobrestimado e
o verdadeiro processo da vida, sobre situações e acções de classes o aspecto material-objectivo for desprezado ou até mesmo negado
e homens. Tal conceito de história que, em geral, envolve um a favor da determinação formal do conhecimento, a gnoseologia
telos secreto, verificou-se desde sempre como sendo impróprio perde a sua base materialista e torna-se utilizável para concep-
para a solução do problema do conhecimento. Do mesmo modo, ções do mundo de diferentes forças sociais.
a absolutização, a autonomização do conhecimento, a sua sepa- O fundamento da concepção do mundo das possibilidades e
ração do processo de vida material da humanidade, levam a um capacidades gnoseológicas da nova classe social, assim como a
desenvolvimento unilateral, exagerado, «excessivo» (Dietzgen) de fundamentação das tarefas gnoseológicas que se lhe apresentam
84 Sobre a Relação entre Conhecimento e Práxis Social
Sobre a Relação entre ocnhecímento e Práxís Social 85
quanto à realização da sua missão histórica, não podem ser cia do conhecimento com o seu objecto e, assim, à relação conhe-
realizadas com um «materialismo» desligado da realidade objec- cimento-realidade objectiva. O centro de gravidade do conceito
tiva, isto é, com qualquer tipo de idealismo. Um tal propósito de objectividade também não pode ser deslocado de tal modo que
requer a interpenetração da conexão que se desenvolve entre o se passe da práxis (análise das relações dos conhecimentos com
conhecimento social, a realidade objectiva e o processo total da as condições materiais reflectidas) para a constatação da «vali-
transformação da realidade objectiva pelos homens que actuam dade social» das categorias, sem fazer surgir as mesmas dificul-
em sociedade. Mesmo as categorias referentes à sociedade não dades.
alcançam a sua objectividade simplesmente pelo facto de a sua
forma de desenvolvimento corresponder às relações de produção O reflexo invertido da realidade na economia política bur-
de cada momento e de se impor assim a sua validade social. guesa clássica correspondia, de facto objectivamente, às relações
É óbvio que «as categorias da economia burguesa são [ ... ] materiais invertidas, mas todo o misticismo do mundo capitalista
formas objectivas de pensamento para as relações de pro- de mercadorias que impele a teoria para a formação de hípós-
dução social e histor-icamente determinadas [ ... J », como tases, «todo o feiticismo e fantasmagoria que envolve em nevoeiro
sublinha Marx (6). Mas o facto de categorias representarem produtos de trabalho com base na produção de mercadorias, desa-
formas objectivas de pensamento para determinadas relações parece por isso imediatamente», conforme Marx sublinhou em
de produção ainda não significa que estas categorias reflectem O Capital, «logo que passarmos a outras formas de produção» (8).
correctamente o seu objecto, conforme o mostra o exemplo da Se as relações de produção já não impelem mais a um reflexo
economia política burguesa clássica. Apesar de todo o apreço invertido dos processos de movimento e desenvolvimento objec-
de Marx por Ricardo, o facto é que ainda estava por descobrir tivo-reais, os resultados do processo gnoseológico, objectivamente
a anatomia da sociedade burguesa que correspondesse ao objecto correspondentes às relações de produção, ou seja, as formas
do conhecimento e, nesse sentido, fosse objectiva. Como as rela- objectivas de pensamento podem ter validade objectiva também
ções materiais de produção não tinham sido apreendidas adequa- para estas relações de produção na medida em que concordem
damente. como a feiticização dos factos na produção capitalista com os seus objectos gnoseológicos, na medida em que os reflec-
de mercadorias levou a uma teoria errada que, como tal, exprimia tem com exactidão.
de facto o misticismo do mundo capitalista de mercadorias, mas IV
que ainda carece de objectividade quanto à realidade social, a
relação entre economia burguesa e relações de produção capita- No conhecimento, a realidade objectiva como domínio mate-
listas é um exemplo modelar do efeito gnoseológico deformante rial-objectivo situa-se sempre anterior à práxis social. Do ponto
desta relação, e isso também e justamente onde o nível de desen- de vista histórico, a humanidade e a consciência humana são
volvimento da teoria corresponde objectivamente ao nível de momentos do processo de desenvolvimento da matéria. E quanto
desenvolvimento das relações «invertidas» na produção e onde, ao problema gnoseológico admite-se como certo que a práxis
nesse aspecto, pode ser admitida uma certa validade social. não é meramente um processo social, mas sim um processo social
da transformação material da realidade objectiva. O conheci-
Mas se, conforme o vemos fazer há anos, se sugere ao mar- mento está, portanto, incluído num processo material-objectivo.
xismo que por objectividade das suas categorias deva entender Este representa o fundamento de toda actividade ideei dos
apenas a correspondência objectiva com aquelas relações (7) sob homens. Só no confronto com a realidade objectiva, as qualidades
as quais elas foram obtidas, exige-se com isso implicitamente que e relações do mundo material se podem tornar acessíveis aos
se aceite a «validade social: como medida da concordância com homens. Só na acção material-objectiva sobre o mundo objectivo,
as relações e como critério da verdade. Se, por outro lado, se os homens começam a apropriar-se dele e assim a modificá-lo.
renunciar ao conceito marxista da objectividade, abrem-se todas Originalmente, o processo de trabalho não era mais do que a
as portas ao subjectivismo e privam-se de fundamento científico reacção dos homens às condições objectivas nas quais eram obriga-
a concepção do mundo e a ideologia das novas forças sociais. dos a viver. Esta reacção correspondia às primeiras necessidades
Pois o conceito marxista da objectividade refere-se à concordân- do género humano e começou com a produção dos meios de vida
86 Sobre a Relação entre Conhecimento e Práxis Social
e a reprodução dos próprios homens. A produção não era, por- LIBERDADE E PRÁXIS SOCIAL
tanto, desde o princípio apenas de natureza social, mas também
produção material realizada socialmente. Não foi porque os
homens actuavam socialmente que obtiveram a capacidade para Richard Kossolapov
reflectirem mentalmente a realidade objectiva, mas somente por-
que esta interacção social dos homens estava orientada para a
transformação da realidade objectiva.
Só quando este facto for tomado como ponto de partida para
todas as discussões sobre a práxis social, se poderá falar de que
a práxis é a base, a força motriz, a meta e o critério da verdade
do conhecimento. A exigência de Lénine de incluir a práxis social
também no conhecimento, tem apenas o sentido de aclarar his-
tórica e dialecticamente o processo do reflexo da realidade objec- BASES GNOSEOLÓGICAS DA CONCEPÇÃO MATERIALISTA
tiva. DA LIBERDADE
NOTAS A liberdade é um bem. É preciso conquistá-la e defendê-la.
(1) G. W. F. Hegel. Stimtlictie Werke, hrsg. von H. Glockner, O século xx em que vivemos, marcou o início da libertação
Stuttgart 1949 Bd. 17, p. 59. social e nacional do indivíduo.
(2) Idem.
(3) W. I. Lenín, Werlce. Bd. '38, Berlln 1964, p. 242. De acordo com o senso comum, a liberdade é a possibilidade
(4) Marx-Engels Werke, Bd. 3, Berlln 1959, p , 45.
P) W. r. Leriín, Werlce, Bd. 38, p. 344. real de agir em conformidade com os nossos desejos. Sinto-me
(6) Marx-Engels Werlce, Bd. 23, Berlln 1962, P. 90. livre quando actuo conforme a minha própria vontade, quando
(7) Alfred Schrntd t, Geschichte urui struktur, München 1971, p. <15.
Schmldt cita aqui as afirmações de Marx sobre as categorias da economia não existem nem forças nem circunstâncias que me possam
burguesa clássica e dá a Impressão de que Marx teria falado sobre as cate- impedir de actuar como entendo, quando não sou limitado nem
gorias em geral.
(8) Marx Engels Werke, Bd. 23, p. 90.
constrangido. Assim pensam as pessoas que não conhecem a defi-
nição científica da liberdade.
Poder-se-á objectar a este modo de entender a liberdade?
Claro que não, se se tratar do emprego habitual desta palavra.
Na vida quotidiana, esta maneira de ver pode justificar-se. No
entanto, não nos limitemos unicamente às noções correntes, por-
que logo que se ultrapassa um certo limite, e embora nos situe-
mos apenas no início de uma certa intelecção teórica do problema
da liberdade, descobrimos que tal concepção é incorrecta e pode
ser até bastante prejudicial.
É apoiando-se nesta concepção que, normalmente as pessoas
põem aquela questão que julgam incómoda: «Dizeis que o socia-
lismo garante a verdadeira liberdade. Mas, que valor tem essa
liberdade se se impede o indivíduo de viver como quer, Se é
Manfred Buhr e Jõrg Schreiber, Zum Verhiiltnis von Erkenn- forçado a trabalhar, a submeter-se a uma disciplina e à opinião
tnis und gesellschaitlicher Praxis. da colectividade? «Se partirmos da concepção habitual da liber-
Tradução do alemão de Hermann Pf1i.iger. dade, será difícil lutar contra estas ideias parasitárias pequeno-
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-burguesas, Contra a ideologia da propriedade privada, contra os esta satisfação ou estar na impossibilidade de realizá-la, é a
vestígios do capitalismo na consciência dos homens, é necessário escravidão; satisfazer desejos imoderados, é a escravidão, limi-
estar precavido com conceitos científicos rigorosos, comprovados tá-los razoavelmente, é a liberdade. Esta é a dialéctica que todos
na prática revolucionária, na controvérsia entre a nova concepção conhecem na prática e que põe nitidamente a claro os pontos
saciar do mundo e a caduca concepção burguesa. fracos da noção habitual da liberdade.
Podemos perguntar: porque é inutilizável a interpretação da A questão põe-se nestes termos: se a liberdade se transforma
liberdade como possibilidade de actuar conforme os desejos pes- no seu inverso, quando os homens não limitam os seus desejos,
soais? Em primeiro lugar, porque os desejos podem ser diversos qual deve ser então essa restrição? Teremos que nos apoiar
e, supondo-os até realizados, nem por isso tornam o indivíduo em quê, e guiarmo-nos porquê, quand'o organizamos os nossos
mais livre.
desejos, quando concentramos a nossa vontad'e para sermos livres?
Poderíamos pensar que o homem é mais livre quanto mais Spinoza pôs a pergunta (sob outra forma, é verdade), e foi o
abastado é, e quanto mais possibilidades tem para satisfazer os primeiro a tentar encontrar uma solução para este problema.
seus desejos. Não será bem assim. Para muitos indivíduos vivendo O grande pensador utilizou o conceito de necessidade. Se o
sob um regime explorador, o desejo da abastança transforma-se homem é movido pelas paixões, é preciso saber quais são elas.
numa sede insaciável de enriquecimento. Com o tempo, nada
lhes interessa, excepto o ouro, essa encarnação da riqueza. Segundo ele, as paixões podem ser divididas aproximadamente
em duas espécies: as primeiras, são os sentimentos provocando
[ ... ] O desejo de obter qualquer objecto a todo custo, pode desejos razoáveis, sem os quais a vida é impcssível (necessidade
incitar o homem fraco a cometer um roubo, pode transformá-lo de alimentação, de bebida, de sono, de actividade, de amor,
num criminoso e opô-lo à sociedade. O gosto pelo bom vinho, etc.), quer dizer as «afecções» inerentes à natureza humana;
quando transformado em paixão pelo álcool, pode tornar o indi- as segundas são as paixões impostas pelo erro, os caprichos, os
víduo um bêbad'o, um ser moralmente degradado, pode impedir excessos determinados pelo «relaxamento dos costumes», a má
a realização de todos os outros desejos. A ambição desenfreada educação, a influência nefasta elo meio ... Conhecer uma e outras,
ou a sede do poder, a cobiça ou a paixão do jogo, a intromissão saber distingui-Ias, e seguir as primeiras, é ser livre.
na vida alheia ou o aguilhão da calúnia podem apoderar-se do
homem. Os desejos razoáveis e habituais d'o homem ultrapassam Segundo Spinoza, o homem {( [ ... ] segue a ordem comum
então qualquer moderação e tornam-se um entrave. Spinoza da natureza e obedece-lhe [ ... ] e finalmente adapta-se conforme
dizia: «Chamo servidão a impotência humana em moderar ou a natureza d'as coisas o exige» (2). Aprendendo a conhecer com
refrear as afecções. De facto, o homem sujeito às afecções, não a ajuda da razão, a natureza exterior e a própria natureza, os
é senhor de si próprio, é dependente do acaso. Encontra-se de homens organizam as suas actividades em conformidade com os
tal modo em seu poder, que muitas vezes é obrigado a tomar o conhecimentos adquiridos, com a necessidade. « [ ... ] A razão não
mau partido, sabendo, no entanto, o que lhe seria mais van- pede nada que seja contra a natureza [ ... [» (3). «o desejo nascido
tajoso» (1). da razão não pode levar a excessos» (4). «Disse que era livre,
aquele que era tão-só conduzido pela razão [ ... [» (5), diz Spinoza.
A conclusão que podemos tirar éa seguinte: se não se limitar Queria assim demonstrar que a liberdade nasce unicamente do
a satisfação dos desejos, considerada como o indício mais impor- conhecimento racional da natureza. Donde a célebre asserção:
tante da liberdade, pode-se chegar ao resultado oposto e a liber- A liberdade é a necessidade tornada consciente.
dade tornar-se não-liberdade.
Assim, para Spinoza, o problema da liberdade é um problema
Pelo contrário, uma certa limitação das necessidades e das moral. Os homens vêem a liberdade no cumprimento dos seus
aspirações, a sua organização que pode parecer um atentado à desejos, na possibilidade de se conduzirem livremente. Mas, quais
liberdad'e, torna-se realmente a sua premissa mais importante. são as consequências que daí decorrem? Como estes actos não
Satisfazer os desejos, é a liberdade; constatar a interdição a levam a resultados indesejáveis, o indivíduo pensa-se livre. No
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entanto, O prosseguimento desta mesma maneira de actuar pode não como um pensamento humano, mas sobre-humano. A tese
trazer consequências negativas: o que era liberdade pode tornar-se da liberdade como necessidade compreendida é repetida numa
não-liberdade. nova base. Hegel dá um passo em frente, reconhecendo que a
Spinoza procura um meio de precaver os homens contra esse liberdade é susceptível de desenvolvimento. O grau de intelecção
aspecto inconveniente, e encontra-o no conhecimento e na obser- do próprio ego, ergue-se, inteiramente determinado pela ideia
vação das leis da natureza. Uma vez que a questão se põe como absoluta. «A história universal é um progresso que tem de ser
problema do conhecimento, descobre-se igualmente o seu aspecto compreendido na sua necessidade» (7). Marx aprecia o método
gnoseológico. histórico desta definição, rejeitando, no entanto a base idealista
do raciocínio de Hegel, substituindo o conhecimento tomado
Falámos acima dos méritos desta maneira de encarar o pro- como absoluto pela noção de prática social histórica, fonte real
blema, no entanto, ela tem também defeitos graves. O filósofo e base de todo conhecímento. As concepções de Spinoza e de
estuda o domínio da consciência, a luta da razão e das paixões, Hegel foram tomadas em consideração, assimiladas, revistas, rec-
reportando-se só, em última análise, às leis da natureza. E também tificadas do ponto de vista materialista e superadas pelo comu-
aqui, o conhecimento da necessidade revela-se como o problema nismo científico. Esta é a teoria contemporânea das premissas,
essencial, quer dizer, uma vez mais, depara-se-nos o problema das condições e dos métodos práticos da libertação social da
da actividade intelectual. Ora, nem estão definidas as condições humanidade, verificada pela experiência de centenas de milhões
em que se explora a necessidade compreendida, nem as condições de homens.
de submissão às leis da natureza, como ainda menos o estão
subentendidas. Isto, porque se considera, como ponto de partida, Não é possível encontrar o fundamento racional para resolver
a actividade cognitiva subjectiva do homem; o próprio conhe- o problema da liberdade, antes de ter clarificado o que é a liber-
cimento não é encarado sob o ponto de vista social, mas sob dade, tomada como liberdade primeira, essencial, fundamental.
o individual; enfim, o problema da liberdade é analisado fora do É precisamente sobre a propaganda da noção deturpada desta
processo de desenvolvimento histórico. Donde se infere que as liberdade fundamental, que se baseiam as numerosas especula-
únicas coisas que entravam a liberdade do homem, são um modo ções da ideologia do imperialismo contemporâneo.
de pensar insensato, a ignorância, um mau qaráoter. Basta «Liberdade (Freiheit): Possibilidade de actuar à nossa von-
livrar-se destes defeitos para que o homem se torne livre. tade, lê-se num Dicionário Filosófico, publicado na Alemanha
Mas o problema será tão simples? Não será o homem que federal» (6). Na sociedade burguesa, trata-se de uma possibilidade
conheceu as leis da natureza impedindo de actuar racional e abstracta, porque a posse de um capital, única garantia material,
livremente por qualquer coisa que existe na realidade, e que não que permite sob o capitalismo, a realização de quaisquer dese-
depende nem da moral, nem da actividade cognitiva? Spinoza jos, apenas é acessível a uma minoria.
não levantou estas questões, porque a sua concepção do mundo Além disso, e já o dissemos, todo o acto realizado em con-
era demasiadamente estreita sob o ponto de vista histórico. Hegel, formidade com os nossos desejos, não é livre por muito que o
o genial filósofo alemão, dedicou-se à continuação dessa análise. pareça: existem desejos que podem chegar à pior das não-liber-
Hegel tem em elevada consideração o modo como Spinoza dades. Portanto, não se trata da possibilidade abstracta, mas,
tratou o problema da liberdade e da necessidade. Para ele, a pelo contrário, da possibilidade real de conformar-se a desejos
liberdade consiste em compreender que o desenvolvimento conscientes, razoáveis, e não a todos Os desejos.
universal - tanto como a nossa própria existência - obe- Os autores do citado Dicionário Filosófico afirmam, em con-
dece a leis, e em vera nossa própria actividade apenas tradição flagrante com a sua própria definição da liberdade, que
no quadro dessas leis, interpretadas do ponto de vista do «a liberdade é a liberdade de querer. Pela sua essência, a von-
idealismo objectivo. «A suprema independência do indivíduo, tade é sempre uma vontade livre» (9). E a «possibilidade de actuar
consiste em geral em saber-se inteiramente determinado pela ideia ao nosso gosto»? Porque a liberdade de querer, ainda não é a
absoluta» (6), quer dizer pela natureza divinizada, representada liberdade de actuar, a liberdade do acto; além disso, se pela sua
92 Liberdade e Práxis Social 93
e Práxís Social
essência, a vontade é sempre livre, toda a controvérsia sobre a bém aqui, não nos podemos descartar completamente de con-
liberdade perde o sentido, e a liberdade, neste caso, é dada de clusões de ordem psicológica. Em que é que se fundamenta a
antemão, como um atributo eterno da vontade. Segundo esta certeza? No conhecimento. No conhecimento das condições, das
lógica, todo o indivíduo (tendo cada um, uma vontade fraca ou circunstâncias em que tais procedimentos podem ser postos em
forte), é livre, independentemente das condições em que se prática, no conhecimento das leis que podemos utilizar e sobre
encontra. A luta pela liberdade, não é senão um dispêndio inútil as quais nos podemos apoiar.
de esforços, porque é orientada para a conquista do que o homem Pode ser qualificada como livre uma acção realizada em
possui, sem que o saiba, desde os primeiros dias da sua vida cons- conformidade com os desejos, COnstantemente rectificada pelo
ciente. Encerrando assim a liberdade na esfera do espírito, e iso- conhecimento do objecto para o qual essa acção está orientada
lando-a da vida real dos homens que pensam e que «querem», pelas condições em que se desenvolve e pela natureza das neces-
mas mais ainda dos homens que agem, a filosofia burguesa res- sidades que esses desejos provocam.
ponde à sua maneira à «encomenda» social da classe no poder.
Apresentar a liberdade como uma propriedade do espírito e nada As consequências deste tipo de acção, não podem ser incspe-
mais, dissimula comodamente, a não-liberdade material dos tra- radas, porque eram mais ou menos previstas na primeira inten-
balhadores. ção, cuja realização é a acção cumprida. Voltamos assim ao
célebre enunciado: a liberdade é a necessidade (a lei) compreen-
Na realidade, a liberdade é uma propriedade inerente à acti- dida pelo indivíduo como lei da sua actividade consciente.
vidade vital do ser social, cujo elemento determinante é o tra-
balho, a participação na produção dos bens materiais e espiri- Na vida quotidiana, observam-se pelo menos quatro situações:
tuais. E, só na medida em que a liberdade é inerente à activi- a) O mdividuo não conhece a necessidade, quer dizer as parti-
dade dos homens é que pertence à consciência, um dos aspectos cularidades, as leis do meio no qual deve actuar; também não
desta actividade. tem meios reais para realizar as suas intenções; b) O indivíduo
compreendeu a necessidade, mas não pode submetê-la a si pró-
O materialismo contemporâneo reconhece que a liberdade de prio, porque lhe faltam as condições materiais para isso; c) O
querer está indissociavelmente ligada à liberdade de acção. A limi- indivíduo ignora certas leis, podendo no entanto subordiná-las
tação desta última restringe, de uma maneira ou de outra, a a si; d) E, finalmente, a consciência e as possibilidades materiais
liberdade de querer. E, inversamente, a falta de vontade, a timi- correspondentes podem ser-lhe dadas.
dez e a indecisão, mesmo quando existem as condições favoráveis
para realizar o que nos propomos, podem limitar a liberdade Entre estes quatro casos, qual é aquele onde se pode falar
de acção, fazer abortar a realização de um plano, impedir que de liberdade? Não é de certeza no primeiro. Também não é no
se atinja o fim buscado. A vontade não pode intervir como von- terceiro, porque aonde é que se pode chegar se não conhecemos
tade pura, apenas existe unida à acção, a qual, como seu ele- as possibilidades de que dispomos, se não sabemos concentrar
mento integrante, lhe dá um ou outro rasgo, contribuindo para os nossos esforços e recursos. no lugar e no momento oportuno?
° êxito ou para o insucesso de uma obra. Porventura no segundo caso? Mas de que pode servir o conhe-
cimento, se não sabemos explorá-lo na prática?
Qual é a base de uma vontade suficientemente firme e sem
a qual é impossível um acto livre? Deixando de lado todas as Pode-se elaborar uma teoria, dar recomendações práticas
considerações de ordem psicológica sobre as particularidades do (como fez o cientista russo Konstantín Tsiolkovski (1857-1935),
carácter deste ou daquele indivíduo que, seguramente, exercem o qual ultrapassou muito a sua época, adiantando a ideia de que
influência sobre a sua actividade, tendo, no entanto, um papel o homem podia realizar voos cósmicos e demonstrando-a), mas
secundário, descobrimos um elemento que orienta a acção do não as podendo pôr em prática, em primeiro lugar por causa
indivíduo no caminho escolhido. Chama-se a isto a certeza. do desenvolvimento insuficiente da produção no seu tempo. Dado
Mesmo um homem de fraco carácter, por certo que esteja de ter que só o carácter de uma acção pode ser o critério da liberdade
razão, é susceptível de um acto livre, ousado. No entanto, tam- humana, o conhecimento por si só não é senão a premissa neces-
94 Liberdade e Práxís Social Liberdade e Práxís Bocial 95
sária mas insuficiente da liberdade. A ciência apenas entreabre a dependência dos homens em relação às leis cegas que agiam
a porta que conduz ao interior do edifício da liberdade, apenas até aí como se fossem forças fatídicas inelutáveis.
permite que se lhe deite uma simples vista de olhos, mas só o No plano gnoseológico, a doutrina materialista da liberdade
trabalho torna possível a entrada. Assim, a liberdade só é pos- apoia-se sobre a resposta materialista à questão fundamental da
sível no quarto caso, quando as realizações da ciência na des- filosofia. Analisando a famosa argumentação de Friedrich Engels
coberta dos segredos da natureza são acompanhadas pelas possi-
sobre a liberdade e a necessidade, na sua obra Anti-Diihring,
bilidades materiais correspondentes. Entre o conhecimento da
V. 1. Lénine formula no Materialismo e Empiriocriticismo, OS
necessidade, premissa da liberdade e a conquista da liberdade
quatro princípios gnoseológicos da concepção científica da liber-
real, pode haver um intervalo bastante longo, durante o qual
amadurecem as premissas materiais. Apoiados sobre estas últi- dade:
mas, os homens incluem esta necessidade compreendida no sis- L Necessidade de reconhecer as leis da natureza exterior.
tema da prática social como um dos seus elos. A necessidade Negar as leis do mundo real ou procurar representá-las como
compreendida torna-se liberdade tão-só quando as condições exis- ligações puramente lógicas inteiramente dependentes do modo
tentes permitem torná-la a base da actividade frutuosa dos de pensar de cada indivíduo, leva forçosamente a exagerar o
homens. papel da consciência, do espírito, e mostra a dependência da vida
da humanidade do arbitrário fortuito, incontrolável pelos indi-
O materialismo científico não sobreestima o conhecimento
víduos. Se não existe necessidade - quer dizer: uma ligação
das leis da natureza, da sociedade e do pensamento, sobreestima-
entre os fenómenos que se verifique sempre, independentemente
ção observada nas obras de Hegel, que não via na história da de qualquer vontade - tão-pouco existe liberdade. Que valor
sociedade senão um simples processo da intelecção da liberdade.
tem esta liberdade, se não se é capaz, mesmo nas suas grandes
Em Hegel, o Espírito universal, Deus, encarnando no homem,
linhas, dei prever o que vai acontecer dentro de um minuto. uma
aprende a conhecer-se a si próprio. O homem adquire a indepen-
hora, um dia, etc.? Poder-se-á agir com firme certeza, quando
dência suprema após ter compreendido que é inteiramente deter-
se ignora até se é possível estar-se seguro de qualquer coisa?
minado por essa força divina. Como aqui se trata de um conhe-
cimento de si adquirido por uma razão que se situa acima e para II. As leis necessárias da natureza são o elemento primordial,
além do homem, de uma razão sobre-humana - através da razão a vontade e a consciência humana são o elemento secundário,
humana, criação dessa mesma razão superior - não se encontra derivado. «Estas últimas têm necessariamente e inelutavelmente
assim saída para a vida prática real. Apesar de serem geniais de se ad'aptarem às primeiras» (lO). Esta tese deve ser evidente
as hipóteses sobre o papel do trabalho, da actividade prática dos e tornar-se o princípio de toda a actividade humana. A coorde-
homens no decurso da história, a liberdade está limitada à esfera nação pelo homem do seu pensamento e das suas acções com
do conhecimento, é interpretada como o conhecimento puro da as leis necessárias da natureza, decorre da compreensão da natu-
necessidade. reza dos fenómenos circundantes e da sua própria natureza.
Recusando, no entanto, este modo idealista de interpretar o Graças à actividade desenvolvida, o homem opôs-se à natureza,
problema, reconhecemos mesmo assim o papel meritório que jus- aprendeu a transformá-la, mas como na natureza subsistem resí-
tamente cabe ao conhecimento na conquista da liberdade. Em duos não dominados, o homem não deixou de continuar a obe-
primeiro lugar, o conhecimento oferece à humanidade: novas pers- decer às leis naturais. O espírito humano é uma flor nascida sobre
pectivas, permite fixar as vias e Os meios para que as leis objec- um chão material. Tem as suas particularidades bem específicas
tivas sejam dominadas. Em segundo lugar, dado o potencial econó- que o distinguem nitidamente de todos os outros fenómenos da
mico determinado e as condições sociais e políticas favoráveis. natureza, mas não ao ponto de se desprender totalmente do sis-
o progresso do conhecimento conduz directamente a uma maior tema universal da natureza e de se transformar em algo de sobre-
liberdade. Em todos os casos, pela sua função social, o conheci- natural, de divino, de transcendente. Um espírito verdadeira-
mento intervem como uma força libertadora, que faz diminuir mente livre não se envergonha da sua origem terrestre, e da sua
96 Liberdade e Prá?:ls
Liberó8.ce ;:; Práxís Socir.d 9'7
dependência relativamente à matéria. Pelo contrário, a profunda
consciência do carácter natural e indissolúvel desta ligação, gra- a liberdade pode crescer até o infinito, que o desenvolvimento
ças à qual é precisamente possível a sua independência, a sua ascendente dessa liberdade não parará nunca.
iniciativa, e é condição da sua liberdade real. A «não-indepen- A possibilidade de conhecer é ilimitada, mas em cada período
dência» do espírito quanto à sua origem - o facto de ser um histórico o saber é limitado. Os factores que limitam o conheci-
elemento secundário, derivado - , é a base da independência mento possível limitam igualmente o grau da liberdade. Com isso
suprema da actividade humana, a qual cria os múltiplos fenórne- se relacionam, em primeiro lugar, o nível pouco elevado da pro-
nos da realidade social, baseando-se- no conhecimento, na repre- dução social, a relativa pobreza da prática humana e a incapa-
sentação fiel, correspondente ao seu objecto, das leis da natureza. cidade provisória da sociedade em assimilar esta ou aquela lei
estribando-se na previsão científica. natural; em segundo lugar, as relações sociais de exploração,
III. Além da necessidade de que o homem tomou conscien- causa de servilismo e de escravidão das massas populares, que
da, existe igualmente a necessidade que o homem não conhece travam o desenvolvimento da economia, da ciência e da cultura,
ainda, No plano gnoseológico, portanto, não se pode falar de e intervem como a causa determinante da estreiteza de classe
liberdade cada vez que o homem está cercado de fenómenos que no estudo das leis naturais e sociais; por último (se considerar-
ignora, que não foram ainda objecto de uma investigação cien- mos lapsos de tempo limitados), as capacidades, a experiência
tífica minuciosa. Postos de' parte quaisquer outros factores ou e os conhecimentos restritos dos indivíduos isolados, de colecti-
supondo-os já dados, é preciso deduzir que o progresso da liber- vidades, de grupos sociais, de gerações e até de sociedades histó-
dade depende directamente do progresso do conhecimento. Nesse ricas concretas...
sentido, o grau de liberdade depende da relação entre as leis Como superar, porém, estes factores?
conhecidas e não conhecidas da natureza, da sociedade e do pen-
samento. O primeiro factor está eliminado, mas tende a reproduzir-se
numa base mais elevada graças ao incremento e à evolução das
O estudo das faculdades do homem e dos limites do conheci- forças produtivas do potencial científico e técnico da humani-
mento humano relaciona-se directamente com este problema. dade. Este processo é permanente e progressivo.
O materialismo contemporâneo reconhece que o conhecimento
humano é, em princípio, infinito e universal, na medida em que Devido aos surtos revolucionários, novas relações sociais subs-
o progresso científico é acompanhado pelo progresso da sua base tituem relações sociais caducas, e, finalmente, a humanidade
material de produção. Existem fenómenos ainda desconhecidos, chega a uma forma de relações entre os indivíduos que pela sua
mas não existem fenómenos incognoscíveis; é preciso não con- natureza, não pode travar o progresso de todos os ramos ela acti-
fundir a questão do conhecimento possível e incondicional de vidade humana. Estamo-nos a referir às relações sociais das socie-
todas as leis que regem a realidade circundante, com a questão dades que superaram os antagonismos e até as contradições de
das possibilidades historicamente limitadas desse conhecimento. classe, sociedades geradas literalmente pelo sofrimento da huma-
Quanto a isto, é necessário partir da posição materialista, do nidade ao longo dos séculos, e que oferecem possibilidades d'e
«reconhecimento da realidade objectiva do mundo exterior e das actividade optimais cimentadas na base do conhecimento da
leis da natureza, sendo este mundo e estas leis perfeitamente necessidade e de um grau mais elevado de liberdade. Por outro
acessíveis ao conhecimento humano, ainda que nunca possam ser lado, o estabelecimento de relações sociais das sociedades sem
definitivamente conhecidas. Não conhecemos, de momento, as leis classes é a base da libertação social do indivíduo.
necessárias da natureza quanto aos fenómenos meteorológicos,· e
A limitação natural do indivíduo é superada por um desen-
é por isso, que somos constantemente escravos do tempo. Embora
volvimento tão harmonioso quanto possível da sua personalidade
não conheçamos essa necessidade, sabemos que ela existe» ('1).
O grau de liberdade depende neste caso, do progresso da ciência. e pela diversidade da colectividade em que trabalha. A estreiteza
A aptidão ilimitada da humanidade para um conhecimento cada da colectividade é rectificada por uma diversidade muito maior
vez mais aperfeiçoado dos segredos da natureza demonstra que da sociedade e, finalmente, pela experiência histórico-social da
humanidade.
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98 Li berclade e Praxis Social Li berdade e Práxis Social 99
Se considerarmos o problema no plano estritamente gnoseo- actividade guiada pela verdade, só é verdadeiro o princípio que
lógico vislumbra-se uma certa concordância entre a soma das pode tornar-se um guia para uma actividade livre. Estes são os
verdades acumuladas pelos homens e o conjunto de liberdades princípios gnoseológicos fundamentais da concepção materialista
por eles conquistadas. A Verdade é a Liberdade! Não se trata da liberdade.
simplesmente de um conjunto bonito de pelav-as. A sua junção
põe um problema filosófico profundo. A aquisição pela huma- Encaramos a liberdade como um dos estados da actividade
nidade de múltiplas verdades adicionadas numa só Verdade (com humana vital, como uma propriedade inerente unicamente às
maiúscula), é um processo. Mas este processo não evolui para- acções dos seres dotados de razão. Atribuir esta propriedade: que
lelamente ao processo mais complexo do progresso da liberdade, é a liberdade aos objectos inanimados, às plantas e até aos ani-
entremeia-se nele. Pôr a claro a ligação que Os une, o carácter mais, equivale a não compreender o carácter específico da con-
complexo da sua interdependência e da sua influência recíproca duta humana que depende do grau de domínio sobre as condições
é o objecto de um estudo filosófico específico. E não basta dizer do meio.
que a acumulação das verdades contribui na sua totalidade para Nenhum ser vivo, excepto o homem, submete as leis da
o desenvolvimento da liberdade, haverá ainda que examinar essa natureza, é capaz de as utilizar na prática com fins determinados,
correlação frequetemente contraditória e confusa nas suas várias para o seu interesse próprio. «O animal, escrevia Marx, identi-
condições históricas concretas. fica-se directamente com a sua actividade vital. Não consegue
IV. V. 1. Lénine vê «um salto da teoria à prática» (12), na distinguir-se dela. É essa própria actividade. O homem faz da
maneira como Engels interpreta o problema da relação entre a sua actividade vital o objecto da sua vontade e da sua cons-
liberdade e a necessidade. Rejeitamos por isso a concepção insu- ciência. Possui uma actividade vital consciente. Não é uma deter-
ficiente da asserção «A liberdade é a necessidade compreendida», minação com a qual se confunda directamente. A actividade
segundo a qual o progresso no conhecimento é justamente o pro- vital consciente distingue directamente o homem da actividade
gresso da liberdade. Na realidade, o desenvolvimento da ciência vital do animal. É precisamente por isso, e só por isso, que é
é unicamente a condição que contribui para a libertação da um ser genérico. Melhor, é simplesmente um ser consciente, dito
humanidade, a premissa necessária, mas longe de ser suficiente de outro modo, a sua própria vida é para ele um objecto, preci-
para que se estabeleça a liberdade social. O que importa não é samente porque é um ser genérico. É somente por isso, que a
unicamente conhecer a lei, mas reorganizar ainda a actividade sua actividade é uma actividade livre» (14).
prática dos homens de maneira a que se possam apoiar nessa Quais são então as propriedades da vida real que geram
lei, a fim de obter um resultado praticamente necessário, mate- a liberdade?
rial, e por essa razão, incontestável.
Em primeiro lugar, a liberdade é uma manifestação fortuita
Como observa Lénine, «em Engels, toda a prática real do da necessidade. A acção concreta de um indivíduo concreto dado,
homem irrompe na própria teoria do conhecimento, fornecendo é uma eventualidade em relação ao processso do desenvolvimento
um critério objectivo da verdade: enquanto ignorada uma lei da histórico regido pelas suas próprias leis. No entanto, esta acção
natureza, esta lei existindo e agindo incógnita, fora do nosso permanece «pura» eventualidade, enquanto for inconsciente, quer
conhecimento, fora de nós, faz de nós escravos da «necessidade dizer, enquanto não se apoiar sobre as leis de que o indivíduo
cega». Uma vez conhecida, esta lei actuando vezes sem fim, tomou consciência e que regulam o movimento de todas as coisas
(como indicou Marx) independentemente da nossa vontade e cons- reais. A acção do indivíduo movido pela necessidade de que
ciência torna-nos senhores da natureza. A domina cão da tomou consciência tem certas particularidades capitais, sendo,
natureza realizada na prática humana, na práxis, resulta de uma mesmo assim uma forma casual da sua realização. A necessidade
representação objectivamente fiel no espírito humano, dos fenó- manifesta-se nesta acção, de maneira mais imediata, do que
menos e processos naturais. Ela constitui a melhor prova de numa acção inconsciente espontânea, cujos motivos não são cla-
que esta representação (nos limites que nos consigna a prática) ros para o próprio executor. Assim, esta acção possui o atributo
é uma verdade eterna, objectiva e absoluta» (13). Só é livre a da liberdade. A passagem da manifestação imediata, dissimulada,
Li berdade e Pràxis Social 101
100 Liberdade e Práxís Social
Efectivamente, será que só a intelecção, a compreensão da
incornpreendida e às vezes inesperada, das leis necessárias nos necessidade assegurará a transformação desta em liberdade? e
acontecimentos históricos a uma realização sempre mais ime- coincidirá sempre a ignorância das leis com uma acção Ieita no
diata e consciente destas leis na actividade vital dos homens, é desprezo por estas últimas? e poderão os homens agir desprezando
igualmente uma das leis do desenvolvimento social, um teste- as leis, mesmo conhecendo-as? ou será então que, desconhe-
munho do crescimento ininterrupto da liberdade. cendo-as, poderão agir em conformidade com elas?
Em segundo lugar, para ser livre, é preciso ser activo. Águas O que é, pois, a liberdade>: será o conhecimento das leis e
paradas não movem moinhos. Este provérbio é aplicável tanto no
a possibilidade de as submeter ao seu querer? ou será então o
sentido figurado como no sentido próprio. Uma pedra, por exem-
conhecimento das leis, mas também além disso o império real
plo, é inteiramente determinada pelas condições e depende delas. sobre elas? Se a segunda definição é a correcta, qual é então
Uma independência relativa e a actividade, são indícios próprios
a condição deste império real?
dos organismos vivos que realizam um intercâmbio físico-químico
com a natureza e são capazes de se deslocarem espontaneamente A conformidade da actividade dos homens às leis objectivas
numa ou noutra direcção. Neste sentido, por exemplo, o caracol de que tomaram consciência na formação económico-social do
é «mais livre» do que a pedra sobre a qual se arrasta porque socialismo será a única a tornar possível uma subordinação sem-
tem possibilidades incomparavelmente maiores de «escolher» as pre maior destas leis à sociedade?
condições da sua existência. Estas interrogações embaraçosas e muitas outras ainda,
Em terceiro lugar, uma das premissas da liberdade e, conse- põem-se com frequência. O que é natural, visto que não nos
quentemente, de uma existência consciente, é a propriedade desen- podemos limitar a estudar a liberdade unicamente do ponto de
volvida de reflectir (15), que atinge um alto grau de perfeição vista do processo do conhecimento, ignorando e esquivando a
nos animais superiores. questão da prática. Não podemos fazê-lo, porque o problema da
liberdade, tendo embora um aspecto gnoseológico, é sobretudo
E finlamente, em quarto lugar, estando dadas todas estas pre- um problema prático, social, que não se resolve somente na
missas, é necessário que apareça uma forma de actividade, própria esfera teórica científica, mas também na esfera prática, econó-
do organismo vivo que lhe> permita opôr-se à natureza enquanto mica, política e moral da vida dos homens.
factor que a transforma, libertar-se da natureza e adquirir uma
independência relativa graças a uma certa capacidade nova que
V. 1. Lénine encara este problema na sua obra Materialismo
e Empiriccriticismo, principalmente do ponto ele vista gnoseoló-
nenhum animal antes possuía. Esta forma de actividade, esta
gico, lutando contra a concepção idealista das leis da natureza;
capacidade cuja evolução significa que o homem está em devir,
e com este fim utiliza o que tinha dito Engels acerca da liberdade
este novo factor que permite aos homens dominar sempre melhor
e da necessidade, e que se alicerçava no' sólido fundamento da
as condições da sua actividade vital, é o trabalho. É ele que interpretação materialista dos fenómenos naturais e sociais. Os
detem o papel principal no desenvolvimento progressivo da liber- adeptos de Mach, diz Lénine, «não notaram» o alcance gnoseo-
dade.
lógico da argumentação de Engels» (17), e estuda em seguida
«A liberdade é a necessidade tornada consciente», esta excelente «sobre que princípios gnoseológicos se funda este raciocínio» (lS).
máxima de Spínoza e de Hegel, desenvolvida por Marx, Engels Ora isto não exclui, antes pelo contrário, deixa supor a existência
e Lénine é frequentemente citada. No entanto, a sua interpre- de outros aspectos do problema, talvez não menos importantes.
tação nem sempre traduz o elemento capital que o materialismo Assim, depois de ter analisado o alcance das asserções de Engels
pôs a claro. Assim, citando as palavras bem conhecidas de Engels respeitante à solução científica da questão fundamental de toda
sobre as condições requeridas para atingir a liberdade, apresen- a filosofia, Lénine nota: em Engels, toda a prática do homem
tam-na como se Engels tivesse somente em vista as leis da natu- faz irrupção na própria temática da teoria do conhecimento ('9).
reza; ora, o facto é que as suas palavras se referem «tanto às Citemos o célebre raciocínio de Engels: «Hegel foi o primeiro
leis da natureza exterior como às que regem a existência física a representar exactamente a relação da liberdade e da necessí-
e psíquica do próprio homem» (16).
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102 Liberdade e Práxis Social Li berdade e Práxis Social 103
dade. Para ele, a liberdade é a compreensão da necessidade». cípio segundo o qual a necessidade é um primeiro dado, pode-se
A necessidade só é cega na medida em que não for compreendida. chegar a uma conclusão incorrecta, especialmente se se inter-
A liberdade não está numa hipotética independência relativamente pretar a liberdade como um dado segundo e, em virtude de uma
às leis da natureza, mas no conhecimento destas leis e na possi- certa inércia do pensamento de que não se toma totalmente
bilidade assim obtida de as pôr em prática metodicamente para consciência, unicamente como um fenómeno psíquico. O que
fins determinados. Isto é tanto verdade para as leis da natureza equivale a considerar a liberdade unicamente como uma necessi-
exterior como para as que regem a existência física e psíquica dade de que se tomou consciência, o que equivale na verdade a
do próprio homem - duas espécies de leis que são apenas sepa- ceder perante o idealismo. Na realidade, o problema é mais
ráveis na representação, mas não na realidade. A liberdade da complexo. Na categoria da liberdade, não é só a cognição, a
vontade não significa então nada mais do que a faculdade de consciência que se opõe à necessidade, mas actividade prática
decidir com conhecimento de causa. Portanto, quanto mais o dos homens (a actividade, no essencial produtiva), a qual nunca
juízo de um homem fôr livre sobre uma questão determinada, foi um fenómeno puramente psíquico. Portanto a liberdade é
tanto maior é a necessidade que determina o teor deste juízo. um dado secundário em relação à necessidade, mas de modo
Enquanto que a incerteza que nasce da ignorância escolhe apa- diferente àquele em que a consciência é um dado secundário
rentemente e de modo arbitrário entre múltiplas possibilidades em relação ao ser. A liberdade é um dado secundário do mesmo
de decisão, diversas e contraditórias, apenas manifesta, precisa- modo como o é também, em relação à natureza, a actividade
mente por isso, a sua não-liberdade, a sua submissão ao objecto útil do homem, o qual ele próprio se opõe à natureza como um
que deveria justamente submeter a si. Por consequência, a liber- factor da natureza. Por isso mesmo, não devemos julgar o grau
dade consiste no império sobre nós mesmos e sobre a natureza de liberdade apenas pelo progresso do conhecimento, mas ter
exterior, fundada no conhecimento das necessidades naturais; também em conta o potencial de produção de que' dispõe a
assim é necessariamente um produto do desenvolvimento histó- sociedade numa dada etapa do seu desenvolvimento. A liberdade
ricoi (20). comporta por conseguinte duas espécies de factores: um factor
Disto resulta que Engels, dando uma nova interpretação, mate- teórico, científico (a compreensão da necessidade como tal), que
rialista, da máxima de Hegel, não acentuando tanto o conheci- se refere ao domínio da consciência social, e um factor prático,
mento das leis como o domínio das condições exteriores e inte- económico, social, determinado pelas condições do ser social, pela
riores da actividade vital humana. Dominação essa, baseada no capacidade que possui a sociedade de utilizar em seu proveito
conhecimento destas leis. Por isso, o aspecto gnoseológico do próprio as realizações da ciência, a lei que nos foi dada a
problema apenas interessa Engels na medida em que ele pode conhecer.
ter uma influência sobre a realização prática da liberdade humana: Tal como a história da evolução da liberdade nos mostra,
império dos homens sobre as leis naturais e sociais somente muitas vezes, estes dois factores, não coincidem no tempo. Por
possível se eles transformarem as leis de que tomaram consciência causa da independência relativa da consciência social, acanhe--
como base para as suas acções. Nunca se deve perder de vista cimento científico não acompanha sempre a actividade produtiva.
este ponto específico. A compreensão da necessidade é a premissa E se bem que problemas científicos resultem frequentemente de
do domínio sobre a natureza e sobre as condições sociais; de necessidades práticas, nem todos os problemas já resolvidos
outro modo, a liberdade é impossível; contudo, a última palavra (aspectos da necessidade conhecida) podem imediatamente encon-
cabe à prática que na realidade assegura este ou aquele grau de trar aplicação na prática; grande número deles esperam longos
liberdade. anos as condições que lhes permitirão a sua realização. Alimen-
Tenta-se, por vezes, tratar o problema ela relação da liberdade tada pela prática social, pela produção, a ciência é capaz, não
e da necessidade como uma das expressões concretas da relação só de generalizar os factores do desenvolvimento social passado.
do espírito e da matéria, a necessidade, a lei, sendo um primeiro de descobrir as leis do presente, mas também de prever o futuro.
dado, e a liberdade, um dado segundo. De um modo geral isto Entre o conhecimento da necessidade e a sua utilização na prá-
é admissível, mas há no entanto um perigo. Se se parte do prin- tica humana, longos intervalos de tempo podem passar. [ ... ]
104 Liberdade e Práxis Social Liberdade e Práxís Social 105
Ao conhecimento e à explicação da tendência histórica, era A dominação sobre um aspecto, uma parcela da necessidade
necessário juntar a actividade prática transformadora. natural e social não é suficiente por si própria para libertar
socialmente o homem.
( ... ] Podemos concluir do que precede que a distância que
separa o conhecimento da lei e a sua integração na actividade b) O segundo sentido da palavra «liberdade» supõe o império
humana não autoriza uma atitude precipitada perante a máxima do homem sobre as condições naturais e sociais da sua actividade
segundo a qual «a liberdade é a necessidade tornada consciente». vital, nos domínios essenciais onde ela se manifesta. Neste sen-
A liberdade, ensina-nos o materialismo prático contemporâneo, tido, a liberdade tem um carácter social e significa, ao contrário
é a necessidade tornada consciente e tornada efectiva na prática. do primeiro sentido da noção «liberdade», uma transformação
qualitativa na existência da humanidade. O início da passagem
* à liberdade universal marca o fim da pré-história da sociedade
* * humana, e o princípio da sua história autêntica.
Os saltos ocorridos no processo de passagem da necessidade
A palavra «liberdade» é empregada habitualmente com dois à liberdade, no primeiro sentido da palavra, acontecem perma-
sentidos: num sentido restrito e num sentido lato.
nentemente e são próprios da actividade humana em geral [ ... ]
a) No primeiro sentido, falamos de uma acção livre quando É à evolução desta liberdade que se aplica o enunciado de Engels
temos em vista o homem que aprendeu a conhecer uma parcela com vista ao salto da humanidade do reino da necessidade ao
da natureza, algumas das suas conexões e das suas leis. Acede reino da liberdade. O primeiro sentido da noção de liberdade
à liberdade aquele que, por exemplo, depois de ter assimilado tem um carácter privado (ou particular) em relação à vida
um processo da produção, utiliza com maior segurança os conhe- humana, o segundo sentido tem um carácter universal.
cimentos adquiridos para aumentar a eficácia deste processo, A liberdade é um fenómeno relativo. Na história da sociedade,
para implantar uma técnica aperfeiçoada, etc. observou-se muitas vezes uma emancipação parcial dos homens
Quando se fala da utilização livre deste ou daquele mineral acompanhada da inexistência da liberdade social para a esmaga-
ou do domínio livre de uma língua estrangeira, da livre utilização dora maioria. Por isso é necessário esclarecer uma questão con-
de um instrumento ou da perspectiva da livre utilização da energia creta: de que liberdade se trata, da liberdade em relação a quê?
atómica com o fim de aumentar o bem-estar dos homens, temos O materialismo prático contemporâneo parte do facto de que
em vista o império do homem sobre uma parte da natureza, da na vida social a noção de «liberdade» significa liberdade do
natureza exterior ou da sua própria natureza, parte maior ou homem ou de um grupo de homens. Esta liberdade reside na
menor mas de uma importância relativa e limitada. É a liberdade dominação das leis da natureza e da sociedade, leis que os homens
de um acto, a liberdade de nos dedicarmos a um ou vários aprenderam a conhecer e a pôr em prática; reside também na
géneros de actividade, mas não de uma liberdade completa, total, independência relativa da actividade humana em relação às con-
universal. dições materiais da sua realização, independência que, no entanto,
Sendo uma propriedade do processo vital dos homens de qual- se adquire tendo rigorosamente em conta essas condições e um
quer formação social, não traduz o teor social da sua actividade nível elevado das forças produtivas.
vital que é função do estado da sociedade na sua totalidade. A liberdade não é tão somente a «liberdade de viver». A exis-
A propriedade privada que é tomada às vezes como a base real da tência física não constitui ainda o indício do homem livre. Em
liberdade, não é senão uma «liberdade» muito relativa que não si, o facto de viver é apenas a premissa natural que permite pôr
liberta da submissão à necessidade cega. Pode-se falar correcta- o problema da liberdade mas não de resolvê-lo (o escravo obtinha
mente uma língua estrangeira, pode-se saber utilizar um pincel também a «liberdade de viver» quando, em vez de ser morto,
ou um martelo, dominar completamente o seu trabalho, possuir era transformado em animal de trabalho). A solução do problema
a sua pequena loja, mas estar-se sob o jugo da dependência social. não supõe unicamente a existência física do indivíduo, mas tarn-
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106 Liberdade e Práxís Social Li berdade e Práxís Social 107
bém um certo conteúdo da sua actividade vital. A liberdade de que dominou a sociedade e se apropriou do fruto do trabalho
actividade é para o indivíduo a base de toda a liberdade. da maioria. Ao mesmo tempo, este progresso mantinha a não-
-liberdade para a grande massa dos produtores de bens materiais
É de notar que as mais diversas interpretações são possíveis,
que foram explorados por aqueles que dispunham dos meios reais
porque as manifestações da actividade vital, essenciais e secun-
dárias, são muito variadas. Há quem, ultrapassando certos limites, que asseguravam a liberdade: os meios de produção e os meios de
se oponha até à realização da liberdade. De toda esta diversidade existência.
o materialismo extrai uma espécie essencial de actividades, aquela A emancipação sempre crescente da sociedade em relação à
que em particular presidiu ao nascimento da sociedade humana: natureza nas condições de uma sociedade de classes antagónicas
a participação na produção dos bens materiais e espirituais, o não implica forçosamente a emancipação dos trabalhadores.
trabalho, cuja emancipação forma a substância da emacipação O primeiro processo desenvolve-se de modo quase ininterrupto
do homem. O grau de liberdade do trabalho é o critério essencial sob a forma de evolução ou de revolução. O segundo, efectua-se
da liberdade. Portanto, como o trabalho é a ocupação da maior por saltos sob a forma de revoluções sociais. A solução do pri-
parte dos homens, o grau da liberdade de que goza a maioria da meiro problema está no desenvolvimento do potencial científico
população num determinado país é o critério essencial da liber- e técnico, o segundo só pode encontrar uma solução radical na
dade em geral. revolução socialista.
A literautra filosófica distingue nitidamente três aspectos E, finalmente, o terceiro aspecto encontra-se em ligação
importantes deste problema. Por um lado, o aumento sempre directa com o que o precede, é a liberdade do homem relativa-
crescente das forças produtivas da sociedade assegura uma liber- mente a ele próprio e aos preconceitos que o embaraçam, o
dade cada vez maior a toda humanidade em relação à natureza. controlo racional das suas próprias acções, que, uma vez reunidas
À dependência do selvagem cm relação ao frio, à fome, às às outras condições, é o indício da liberdade moral que vem
doenças que eram apenas ligeiramente aliviadas pela procura de coroar a liberdade material do indivíduo.
recursos para viver, sucede gradualmente o império do homem
sobre a natureza, à medida que se desenvolvem as forças produ- A liberdade no sentido restrito do termo, desenvolve-se ao
tivas. longo de toda a história e traduz-se por uma liberdade sempre
maior da sociedade na sua totalidade, em relação à natureza.
Os homens começaram a sair desta dependência na fase supe- A liberdade no sentido universal do termo, que tem de ser obri-
rior do regime da comunidade primitiva, quando o acréscimo dos gatoriamente a liberdade sob todos os aspectos, nasce assim que as
seus meios de produção permitiu produzir um certo excedente relações de produção antagónicas e a exploração do homem pelo
em relação ao mínimo necessário à conservação da sua existência. homem são suprimidas. Superar as consequências do antagonismo
Foi um salto para um novo estádio de desenvolvimento. Este de classe, ultrapassar a herança deixada por uma sociedade
excedente de produtos simbolizava, de certo modo, uma liber- baseada na propriedade privada no domínio da moral, renovar
tação relativa quanto ao poder da natureza, formava a base moralmente o homem, é essa uma fase necessária neste processo:
material de uma maior liberdade humana. «Uma transformação maciça dos homens revela-se necessária pela
Mas a dialéctica da história é tal que- este mesmo excedente criação geral desta nova consciência social, como também para
tornou-se a base de uma nova forma de dependência e de não- levar as coisas a bom termo. Ora, uma tal transformação só
-liberdade, que adquiriu um carácter social ou, mais precisamente, pod'e ser levada a cabo por um movimento prático, por uma
um carácter intra-social. Trata-se aqui de um outro aspecto do revolução; essa revolução não é simplesmente necessária por ser
problema. Quando houve um «excedente» de produtos, pôs-se o único meio de derrubar a classe dominante, é-o também, por-
a questão: como reparti-lo para o consumir? Em que consistia que só uma revolução permitirá à classe que derruba a outra, de
então o progresso da liberdade? Uma minoria tinha-se- libertado varrer toda a podridão que o velho sistema deixa atrás de si,
de um trabalho arrasador, apareceu assim uma classe de homens e tornar-se apta a fundar a sociedade sobre novas bases» (21).
108 Liberdade e Práxis Social lOS
Li oerdade e Práxís Social
A luz do que acabamos de expor, concretiza-se igualmente a da natureza e de as ter posto ao serviço do homem não nos
noção de necessidade histórica. Geralmente, esta noção designa permite ainda qualificar urna dada sociedade como livre. À pri-
a lei objectiva que age de maneira inevitável nos fenómenos de meira vista poderíamos crer, que, dadas certas premissas cientí-
uma só e única ordem; designa uma conexão ao mesmo tempo ficas, o grau de liberdade é directamente proporcional ao grau
universal e constante. Na nossa opinião, é incorrecto interpretar da produtividade do trabalho ou que, inversamente, dado um
de maneira absolutamente idêntica a noção de «necessidade» nos certo nível da produtividade do trabalho, o grau de liberdade
pares de categorias tais como «contingência e necessidade» e depende de um conhecimento e de uma aplicação mais aprofun-
«liberdade e necessidade». Estas categorias são correlativas, e este dada das leis da natureza. Seria impossível contradizer esta asser-
facto só por si determina o conteúdo que se entende num ou ção se não existissem outros factores sociais. Por isso, numa
noutro caso. sociedade baseada na exploração, os progressos da produtividade
Quando se trata da necessidade em relação à manifestação do trabalho não conduzem à redução, mas, pelo contrário, à
contingente, temos em vista toda a necessidade em geral, indi- ampliação da esfera de opressão para as grandes massas de
ferentemente do que a actividade humana pode ter de especí- homens. Frequentemente, os benefícios dos progressos da téc-
fico, porque as ligações contingentes e necessárias tanto caracte- nica, da ciência e da cultura não trazem proveito à humanidade,
rizam a natureza animada como a natureza inanimada, tanto antes pelo contrário. [ ... ] Decerto, a liberdade depende do
a sociedade como o pensamento. É diferente quando analisamos conhecimento da necessidade, da sua efectivação. Mas, apesar de
a necessidade em relação com a liberdade. E como por liberdade, tudo, sendo, por natureza, forças libertadoras, a ciência e o alto
entendemos a liberdade do homem, a liberdade da actividade potencial de produção podem em certas condições, nas mãos de
humana, «humaniza-se» involuntariamente a própria necessi- um certo número de homens, tornarem-se uma força de escra-
dade, quer dizer, que a estudamos do ponto de vista do seu vização das massas. [ ... ] A necessidade cega distingue-se da
papel na prática social, e que ela adquire um matiz histórico, necessidade tornada consciente, principalmente pelo facto do
social. Não basta constatar que a necessidade é uma lei objec- homem ignorar como explorá-la, ignorar as condições que per-
tiva, há ainda que perguntar se é compreendida ou não, se é mitam conjurá-las, o que explica a sua total su bmissão à neces-
posta em prática ou não pelo homem. sidade cega, a sua incapacidade a opor-se a ela activamente.
Habitualmente chamamos «cega» à necessidade de que não A necessidade tornada consciente, ainda que não seja a liber-
se tomou consciência, quer dizer, aquela que age inesperada e dade, permite aos homens organizarem metodicamente as suas
inelutavelmente, inevitável no seu suceder. A necessidade tor- acções, conjurarem consequências nefastas e obterem resultados
nada consciente é o princípio da passagem da necessidade à liber- positivos.
dade, sendo esta necessidade a premissa ideal. E, finalmente, a Para se transformar em liberdade, a necessidade tornada cons-
terceira espécie de necessidade é aquela de que o homem tomou ciente deve ser tomada em consideração na actividade humana,
consciência e que põe em execução na prática, a necessidade deve tornar-se uma lei, o que implica premissas materiais que
que se transforma ou foi transformada em liberdade, quer dizer, o conhecimento não dá, mas que nascem na prática, na luta
a necessidade de lei, imposta ao homem do exterior, tornou-se a que aproxima passo a passo a humanidade do reino tão desejado
lei da sua própria actividade. Praticamente é esta última a mais da liberdade universal [ ... ].
importante.
A não-liberdade, a sujeição do homem, manifesta-se sob o
NOTAS
reino da necessidade cega e pode manter-se um certo tempo,
sendo, no entanto, já conhecida a necessidade apesar de não (1) spínoza, Etliicnte, Paris, 1908, p, 215.
(2) Spinoza. Btliicnie, p. 215,
estarem ainda criadas as forças produtivas, as condições materiais (3) Ibid., p.
necessárias para poder incluí-la na esfera da actividade prática (4) tbiâ., p, 277.
(5) Ibid., p. 283.
dos homens. Contudo, o facto de ter tão-só dominado as forças (O) Hegel, Obras, t, 1, Moscovo. 1929, p, 261, eu. 1"USS[1,.
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110 Liberdade e Práxís Social
Hegel, Obras, t, 8, Moscovo, 1935, p. 19.
(7)
(8) H. Schmldt Philosophisches W6sterbuch, Stuttgart 1957, p. 176. A CATEGORIA DA PRÁXIS
(9)
(la)
Ibid.
V. 1. Lénine, Oe1wres, t. 14, Paris-Moscou, p. 195
E A «MARXOLOGIA»
(11) V. 1. Lénine, Oeuvres, t. 14, Paris-Moscou, p. 196.
(12) V. 1. Lénine, oeuures, t. 14, Paris-Moscou, p. 196.
(13) V. r. Lénine, Oeuvres, t. 14, Paris-Moscou, pp. 196-197
(14) Karl Marx, Mamrscrits de 1844. Economie politique et pILilo- Ígor S. N arski
soptiie, trad., Editions Sociales, Paris, 1962, p. 63.
(15) Alusão a um aspecto ela teoria gnoseológica materialista elo
reflexo (Nota do editoT).
(16) F. Engels, Anti-DüILring, trad., Editions Sociales, Paris,
1956, p. 146.
(17) V. 1. Lénine, Oeuvres, t. 14, Paris Moscou, p. 194.
(18) Ibid. Ver também o que escrevemos acima (R. Kossolapov)
Cr. V. Lénine, Oeuvres, t. '101. Paris-Moscou. p. 196.
(20) F. Engels, Ariti-Díihrvnç, ed. cit., pp. 146-147.
(21) Karl Marx, Friedrich Engels, L' Idéologie allemande, trael. cit..
Editions Sociales, Paris, 1968, p. 68.
Para os pensadores burgueses do períod'o pré-marxista, com
excepção de Kant, Fichte, Hegel e Feuerbach, a «prática» como
categoria filosófica não existia pura e simplesmente. De um modo
geral a actividade prática do homem e a relação prática do
homem e da sociedade com a história e a natureza achavam-se
excluídas das considerações filosóficas.
E se por vezes tal relação era reconhecida, não se conside-
rava a sua especificidade social ou o seu papel decisivo na for-
mação e desenvolvimento da sociedade. A filosofia clássica alemã
das primeiras quatro décadas do século XIX, ao pôr o pro-
blema da prática, fê-lo quer em termos de conhecimento (Hegel),
de consciência moral (Kant), da acção do espírito em geral
(Fichte), ou enfim, do conceito de funcionamento biológico do
organismo e sua relação natural com o meio ambiente (Feuer-
bach). Não viram que as relações práticas são a base de toda
a história humana não podendo ser reduzidas a qualquer destes
fenómenos e relações.
Na filosofia burguesa do período pré-imperialista, o «filósofo
da vida» H. Bergson, e o pragmatista W. James, começaram a
falar de prática. Os pragmatistas consideraram-na como a sua
esfera única e exclusiva de reflexão filosófica. Descreveram-na
como o meio da vida activa do homem, mas subjectivaram-na,
tratando-a como a «aventurai da consciência na esfera da expe-
Do capítulo de um livro de Richard Kossolapov sobre a liber- riência individual.
dade. Tal como os filósofos burgueses do fim do século XIX
Tradução do francês por Cnisténa Grácio e Bcigitte Paulino- relativamente ao problema da prática, também os «marxólogosi
-Neto, lige'rarnente encurtada, e revisionistas dos anos 60 perfilham a interpretação idealista
112 A Categoria da Práxis e a «Marxotogia» 113
A Categoria da Práxís e a «Marxclog ía»
da prática, mas absolutizando ainda mais o seu papel. No exa- nição do homem, mesmo voluntarista, é satisfatória: a prática,
gero da prática ultrapassam Bergson e Dewey, e alguns deles dizem, é enganosa.
convertem directamente a «práxis» em categoria central e apa- A tudo isto acrescentam ainda os teóricos que estamos a exa-
rentemente única. Mais ainda, Os «marxólogos» de pendor revi- minar que é insuficiente caracterizar a «práxis» pelo seu carácter
sionista afirmam que mesmo no marxismo a prática tem sido consciente, intencional-activo e externamente objectivável, dado
até agora interpretada de forma inadequada pelo que se torna que a prática se situa, num plano «mais elevado», quer relativa-
necessário levar a efeito uma reflexão «filosófica» que lhe resti- mente à consciência e ao inconsciente, quer à subjectividade e
tua o valor que ela encerra. objectividade: isso significa a «criação de um mundo socioló-
Os revisionistas dos anos 60 opõem «práxis» a todas as outras gico: (6), no qual se elimina a antítese da matéria e consciência.
categorias da filosofia marxista e acima de tudo à categoria de Quanto ao «trabalho», isolam-no da prática, e não o consí-
«matéria»: qual o ponto de partida do marxismo, a matéria ou deram como uma categoria, como se não tivesse qualquer rela-
a prática? Será o pensamento de Marx uma filosofia ou uma ção com a filosofia. A verdadeira relação entre o trabalho e a
teoria crítica da sociedade? - pergunta demagogicamente prática acha-se excluída da consideração filosófica. O interesse
Kosik (1). Os revisíonistas mais recentes sustentam que a «práxis» de K. Kosik por este problema, por exemplo, reduz-se a declarar
deve substituir a «matéria» dado que os ensinamentos de Marx o «trabalho» como «vulgar» na medida em que não passa de
sobre a prática rompem com a tradição materialista. As refe- uma categoria económica estreita. A isto acrescenta D. Grlich
rências à substituição do «monismo da matéria» pelo «monismo que a prática é um processo excepcionalmente individual e
da prática», segundo a visão «filosófica» destes últimos, veio em íntimo que se opõe à actividade laboral colectiva das massas. Em
auxílio da obscura tese de que o «humanismo prático» deve subs- artigos recentes de G. Petrovic e M. Markovic, a oposição mar-
tituir-se ao «ontologismo» e «a crítica» tomar o lugar do «conhe- cada entre práxís e trabalho exprime-se pela mútua oposição da
cimento». liberdade e da necessidade: a prática é supostamente a «liberdade
pura», espontaneidade, criatividade, sem pressupostos e o traba-
Os revisionistas da doutrina «humanista-abstracta» excluem lho é necessidade, dependência, alienação e rotina padronizada.
as funções gnoseológicas da prática. K. Kosik, por exemplo, Uma vez mais o desmembramento metafísico do par categorial
censurou a conversão da prática num «correlato do conheci- «liberdade e necessidade» em conceitos mutuamente exclusivos
mento» (2). Acabam por estabelecer uma oposição directa entre é posto ao serviço do revisionismo. O filósofo de Frankfurt,
prática e conhecimento e insistem em que a categoria de J. Habermas, argumenta analogamente ao defender que a comu-
«reflexo», que rejeitam, será eliminada pela «práxis», nicação entre as pessoas (c interacção» é algo completamente
Os «humanistas abstractos» definem, de um modo geral, prá- dependente em relação à actividade produtiva das pessoas: «Uma
tica como a «actividade em todas as esferas da existência huma- redução da interacção ao trabalho ou uma derivação do trabalho
na» (3). Segundo este ponto de vista, se a prática inclui o tra- da interacção não é possível» (7). E censura Marx na medida em
que ele, Marx, reduziu a interacção ao trabalho, unindo-o ambos
balho, será enquanto momento secundário e subordinado. Este
sob a designação geral de «prática» (6).
aspecto é desdenhosamente classificado pelos autores desta orien-
tação como «função técnica», sem qualquer significado filosó-
fico. Em correspondência com esta orientação rejeita-se a defi- I. EtA TORNO DO «PROBLEMA DE GRAMSCI))
nição do homem como essência social, como produtor de
instrumentos de trabalho. Mais, os «humanistas abstractos» M. Markovic designa a sua interpretação voluntarista do con-
caracterizam o trabalho apenas como uma «essência criativa ceito de prática por «humanismo histórico (dialéctico)», ou «filo-
polivalente» (4), dependente da vontade livre e não condicionado sofia da prática», distinta do marxismo de Engels (9). Segundo
pelas possibilidades. A práxis é a «própria liberdade» (5). F8zem o seu ponto de vista António Gramsci foi ° fundador da «filo-
sofia da prática». Os pontos de vista de Grarnsci - igualmente
contudo a ressalva de que, em termos estritos, nenhuma defi-
3
L L•• 0>, _ _, u _ _.'-_.. ...,.::;:; 144444 :::e.. -_ .
114 A Categoria da Práxís e a «Marxología: A Categoria da Práxís e a «Marxologta» 115
ao nível da compreensão da prática - são opostos ao Leninismo cialmente oposta aos motivos revisionistas e a tendência dos revi-
por C. Kolalcowsky (lO). Ele converte Gramsci num moralista sionistas para se apoiar na sua autoridade não tem fundamento.
voluntarista, considerando-o como o único que compreendeu ver-
Além do que foi dito deve acrescentar-se que Gramsci subli-
dadeiramente o jovem Marx.
nhou a estreita ligação entre a filosofia e a política, entendendo
Serão justificadas as referências a Gramsci sobre o problema por «política» a luta activa pelos interesses da classe trabalha-
da prática por parte destes recentes «marxólogos» burgueses e dora e a sua conquista do poder do estado. Assim, Gramsci
revisionistas? Têm eles argumentos válidos a favor da inclusão escreveu sobre «política» em dois sentidos distintos mas interli-
deste proeminente comunista no seu campo? gados, isto é, como prática e como uma actividade política par-
ticular dos comunistas (!'). Tudo, isto permite-nos explicar oserr-
O legado histórico de A. Gramsci como filósofo não é fácil
tido genuíno da expressão de Gramsci, de que a prática «con-
de dominar. Ajuizar os seus pontos de vista filosóficos de acordo
tém» uma visão do mundo ou que a filosofia real «só pode ser
com os seus escritos publicados no Ordine Nuove é um problema
política». Gramsci opunha-se ao voluntarismo e ao indetermi-
difícil, e todos os esboços contidos nos Cadernos da Prisão fica-
nismo; rejeitava a hostilidade romântica à ciência e, note-se, cri:'
ram inacabados e não foram preparados pelo autor para publi-
ticava o jovem Lukács por este negar a dialéctica da natureza.
cação, pelo que a atenção se tem de centrar em manuscritos,
«É possível», escreveu ele, «que Lukács tenha caído ... numa certa
«que têm de certo modo a marca de artigos incompletos» (11). forma de idealismo» (15).
A tendência geral dos pensamentos filosóficos de Grarnsci está
apesar de tudo delineada com determinação suficiente embora Mas, nas notas e apontamentos Gramsci fez por vezes for-
subsista a necessidade de certas clarificações, revelada pelas ten- mulações pouco claras, a que os revisionistas se tentam agarrar.
tativas levadas a efeito para uma exposição autêntica (a ausência Gramsci não raciocina muito claramente sobre o facto de as
de tais clarificações origina com frequência interpretações inde- pessoas conhecerem a realidade «só em relação ao homem»
sejáveis dos pontos de vista de Gramsci). Estas clarificações deve- (esolo in rapporto all'uomo») (16). Os revisionístas rapidamente
rão ser efectuadas com urgência e em moldes de comentário relacionaram isto com as observações do jovem Marx: «A Natu-
científico. reza, tomada abstractamente, isolada, fixada separadamente do
homem, não é nada para o homem» (17). Como se Marx pensasse
Gramsci entendia por prática antes de mais a actividade polí- que a natureza fora do homem geralmente não existe!
tico-social, mas sem negar a existência e importância de outros
pontos de vista sobre a prática. Se tivermos isto em conta torna-se Já quando critica Hegel e os jovens hegelianos, A. Ruge e
então claro por que motivo Gramsci usou com frequência os M. Hess, acentuava o jovem Marx tanto a existência de uma
termos «prática» e «política» como sinónimos. Na realidade _o natureza material independente do homem e em geral de um
próprio Gramsci muitas vezes designou o marxismo como filo- sujeito, e em certa medida não envolvido na órbita da prática,
sofia da prática, mas ao fazê-lo tinha sempre em mente que os como a possibilidade e a necessidade de princípio do seu conhe-
ensinamentos de Marx constituem a teoria da actividade prático- cimento como tal na sua objectividade. Através do conhecimento
-revolucionária das massas trabalhadoras, dos liders dos Partidos da realidade objectiva na sua relação com o homem no quadro
Comunistas. Gramsci nunca pretendeu criar na «filosofia da prá- da actividade prática das pessoas, procuramos obter sobre essa
tica» algo de distinto do marxismo e daí que, ao designá-la como realidade objectiva, o conhecimento mais objectivo - e neste
«filosofia da prática» (12), ele tivesse em mente precisamente o sentido não relacionado com o homem, mas obtê-lo precisamente
marxismo e o mundo marxista na sua inteireza e nada mais. no interesse do homem, ou seja, neste . sentido, «relacionado»
Resolutamente objectou tanto a interpretação materialista-vulgar com ele. Tal é a dialéctica do conhecimento e a relação das
como a interpretação idealista da prática (13), criticando Croce, pessoas com o seu conhecimento do mundo.
Gentile, Sorel, Bergson, e os pragmatistas, Assim, a semântica Certas formulações de Gramsci por ele opostas, por exemplo,
da terminologia de Gramsci e as suas concepções acha-se essen- nas Notas Críticas sobre a Teoria do Materialismo Histórico de
116 A Categoria da Práxís e a «Marxologfn » A Ca:t.ego2.'ia da Práxis e a «Marxologla » 117
Bukhárine, ao materialismo rnecanista-vulgar, são tais que não mudança do carácter da prática social coincide com a mudança
o demarcam claramente do «princípio da coordenação» de Ave- «de um tipo de consciência social» (23).
narius entre o sujeito e o objecto e da ideia do imanentismo (1S).
Ele propõe-se tratar do problema «não em si mesmo, mas O que é esta «segunda natureza)? Ê certo que ela existe e
enquanto social e historicamente organizado pelos fins da pro- que consiste no resultado crescente da produção social. «Graças
dução» (19). Tais formulações transferidas para a caracterização a esta produção a natureza transforma-se no seu produto [do
da prática ofuscam a fonte do único aspecto objectivo da activi- homem] ... O homem desdobra-se a si próprio não só intelectual-
dade prática das pessoas e dão origem a resoluções pouco claras mente, na medida em que tal tem lugar na consciência, mas
do problema de como se acham «Unidas», na prática, a matéria realmente, de facto, contemplando-se a si próprio no mundo
e a consciência. Mas a falta de clareza das formulações indivi- criado por ele» (24). O papel da «natureza produzida) na vida
duais de Gramsci não pode servir de base para a distorção dos da sociedade cresce na proporção do grau (nota Lénine) de cres-
revisíonistas da orientação materialista geral - oposta ao idea- cimento do significado do factor subjectivo da história em geral.
lismo de Hegel e B. Croce - das Notas da Prisão, onde o autor Esta «segunda natureza» alarga-se constantemente em si própria
refere directamente a tese de Engels sobre a unidade material através dos objectos com os quais o sujeito(s) interage 110 processo
do mundo (20). Chega-se a lamentar que certos filósofos marxis- da prática - não como objecto absoluto mas sobretudo como o
tas não notem as diferenças significativas entre Gramsci e os mediador entre as pessoas e a natureza primária, «primeira».
proponentes da chamada nova «filosofia da prática» e, pelo con- O mediador activo «absorve» em si a «natureza primeira» -
trário, procurem combinar os seus pontos de vista de todos os mas sem esta não poderia existir. A «segunda natureza» é secun-
modõs possíveis. dária não só em relação à prática das pessoas, mas por meio de
uma prática, é também secundária em relação à natureza em
Os que distorcem o conteúdo da categoria «prática» apelam geral. Desta expressão tirada do jovem Marx, bem como da
com frequência para o trabalho do jovem Lukács - História e observação bem conhecida de Lénine nos Cadernos Filosóficos,
Consciência de Classe (1923). Consideram em geral o jovem de que o homem não só reflecte mas também «cria» realidade,
Lukács e Gramsci como advogados de uma corrente única da de forma alguma se segue a feiticização da prática como fonte
compreensão «criativa» da prática no marxismo, opondo-se a independente ou mesmo primária. Tanto o trabalho elo homem
outros marxistas. Na obra referida de Lukács o processo da inte- sem o objecto de trabalho, como em geral a prática sem objectos
racção prática do sujeito (homem) e do objecto (natureza) foi em que o sujeito transforme os seus poderes criadores (actuando
absorvido pela categoria Hegeliana de «totalidade. que, na inter- em correspondência com as leis da realidade objectiva e não a
pretação que dela dá Lukács, «reservaria» a actividade social despeito delas ou independentemente' delas), se transformariam
do homem «para si próprio», isolando-o da natureza. ambos em nada (e não no «nada» relativo como é o caso da
Esta última teria sido substituída por Lukács pela chamada natureza para nós para além dos limites da prática, isto é, quando
«segunda natureza», isto é, a totalidade dos resultados objectivos ela não «funciona» precisamente para nós, mas no nada no sen-
da prática humana, pelo que o mundo objectivo do homem viria tido pleno ela palavra).
a ser apenas a totalidade das suas acções objectivas (21). Nas partes incompletas mas publicadas separadamente da obra
Procedendo deste modo, o jovem Lukács interpretou a prática póstuma de Lukács, A Ontologia do Ser Social, o autor introdu-
numa sociedade de classes antagónicas como a «objectificação» ziu na sua concepção uma série de importantes correcções, tais
alienada da consciência. Entendeu a prática de proletariado revo- como o reconhecimento parcial da «primeira» natureza como a
lucionário com um espír-ito Fichteano, como a realização da con- base da actividade prática das pessoas e do trabalho como o
dição da «identidade do sujeito-objecto, o sujeito do acto-acti- aspecto principal da prática. Mas nesta obra, lado a lado com
vidade (Tat-Handlungy» (22). Assim, no fundo, a teoria coincide a «Ontologia da matéria» está a «prática ontológica» com uma
com a prática, e o esquema idealista geral da determinação da independência relativa (25).
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118 A Categoria da Práxís e a «Marxologíu» A Categoria. da. Práxls e a «Marxologla» 119
Nesta obra Lukács exagera com frequência o aspecto teleo- A elaboração da compreensão científica da categoria de «prá-
lógico do trabalho já notado por Aristóteles, e também a relativa tica» e a descoberta do seu significado fundamental para uma
independência do «mundo» 00 valor e da «segunda natureza», visão do mundo constituiu um dos factores mais importantes da
de onde resulta que a objectividade das conexões e relações grande transformação revolucionária em filosofia levada a efeito
sociais fiquem relegadas para segundo plano (26). Contudo, a con- por Marx e Engels. O grande camarada-de-armas de Marx carac-
cepção de prática foi adoptada pelos revisionistas dos anos 60 terizou as suas Teses sobre Eeuerbach, onde o significado da prá-
não só a partir 00 jovem Lukács mas também a partir de J. P. tica revolucionária e sacio-histórica foi sublinhada com a maior
Sartre e M. Horkheimer. Deve sublinhar-se que estes pontos de força, como «a semente de um novo mundo lançada à terra por
vista inexactos do jovem Lukács sobre a prática, expressão um génio» (30). As tentantvas dos revisionistas para detectar uma
de uma das faces imaturas do complexo itinerário que o condu- contradição entre os pontos de vista filosóficos de Engels e as
ziria ao marxismo, são frequentemente usados pelos revisíonis- Teses sobre Feuerbach de Marx não são todavia, note-se, desti-
tas, embora Lukács viesse posteriormente a rejeitar tais pontos tuídas de fundamento. .
de vista. Nesta perspectiva não é pois correcto considerar o pró-
prio Lukács como um revisionista do marxismo. A prática não é a totalidade de toda e qualquer acção, mas
das acções humanas materiais-objectivas, dirigidas para a criação
Viremos agora a nossa atenção para as posições de um dos dos meios de existência necessários da sociedade e das suas suces-
promotores da escola de Frankfurt, T. Adorno. Para ele a prá- sivas mudanças de acordo com os interesses do povo; mais, a
tica não é a encarnação da criação livre - mas tal como para prática é activa e social, pelo que numa sociedade de classes
o jovem Lukács, é a condição substancial, alienada, da cons- reflecte um carácter de classe. As acções práticas produzem
ciência que, como tal, se converte num objecto. Por meio da a transformação de corpos materiais naturais mas também econó-
manipulação fenomenológica ele dissolve a matéria num produto micos, políticos e, em geral, de objectos e instituições sociais.
espiritual e designa por prática a «estrutura ontológica do ser». Mediante a prática o homem «cria por si só novas condições
Como resultado Adorno vem a adoptar uma variante fichteana de existência» (3'). Mas, também se cria asipróprio: a prática
da identificação do sujeito objecto, bem como da prática e teoria. é o modo de existência e desenvolvimento do homem precisa-
Mas, a fusão e identificação do objecto com o sujeito leva mente enquanto essência social, automotivada ê criadora. Quanto
à transformação da prática numa «substância» independente, o à actividade produtiva (trabalho) das pessoas e quanto ao aspecto
que serviu para G. Petrovic e outros como um outro argumento fundamental da prática ela funda-se na prática de outros aspectos
a favor da ideia que «a prática em si própria é o ser universal, das inter-relações objectivas no interior das classes' e entre elas
livre, criador e autocriado» (27), e permitiu que o advogado da - e, acima de tudo, das relações políticas (de cooperação, de luta,
segunda geração da escola de Frankfurt, A. Schmidt, sustentasse de acção revolucionária).
que é a prática e não a matéria que constitui o objecto autên- Na prática tais propriedades contraditórias estão unidas
tico e genuíno ela teoria amadurecida do marxismo, e não as enquanto materialidade e finalidade consciente, e neste sentido
meditações do jovem Marx (28). Perante nós depara-se-nos uma - enquanto objectividade e subjectividade, Esta é a fonte de
«teoria materialista» ... sem matéria. É a isto que conduz a iden- importantes características filosóficas da dialéctica do sujeito
tidade mística da prática e da teoria (29). Perante nós, igualmente e objecto, mas também das raízes gnoseológicas da oposição .da
uma teoria da prática ... sem a categoria da verdadeira prática. prática à matéria através da explicação distorcida da prática
como um processo «neutral» (no sentido, ontológico), se não no
II. ACTIVIDADE, PRÁTICA, TRABALHO sentido da identidade do sujeito e objecto, pelo menos no sentido
do seu «igual valor» (32).
Qual é o conteúdo real da categoria de «prática»? Quais as É natural que o materialismo histórico veja na prática uma
relações entre os conceitos de prática, de actividade e de tra- categoria de importância muito lata, sem a qual não se pode
balho? perceber o que o homem é? nem tão-pouco o crescimento e o
120 A Categoria de Práxís e a «Marxologla» A Categoria da Práxis e a «Marxolog ía» 121
desenvolvimento da sociedade humana. A prática afecta de um e nós próprios são dependentes e derivadas e em relação à qual
modo ou de outro todos os aspectos da actividade humana pene- a nossa consciência é secundária e reflexa. (34)
trando profundamente neles.
É incorrecto converter o problema da prática no problema
Mas, o homem cria-se a si próprio bem como cria as con- básico, e a categoria da prática na categoria inicial da filosofia
dições' da sua existência, não imanentemente, como se pretende marxista-leninista, O facto é que, como notou Marx, os resul-
na célebre «interacção» de Habermas, na qual a atenção é essen- tados da investigação devem ser distinguidos do seu processo,
cialmente focada apenas para as relações na esfera da psicologia e o modo de exposição não pode ser confundido com o modo
social, mas através da interacção com a natureza. A prática é da investigação. A investigação da natureza e' da sociedade come-
em princípio o modo singular desta interacção global pela qual çou através da prática e só através dela; assim a mesma prática
emerge dialéctica e simultaneamente a unidade das pessoas com veio a ser o objecto da investigação científica na filosofia da
o mundo natural objectivo e ao mesmo tempo a separação das vida social, não imediatamente, mas apenas quando Marx e
pessoas da natureza na sua oposição activa a ela. É precisamente Engels descobriram o materialismo histórico. Contudo, a cate-
na acção prática dos sujeitos e objectos, uns sobre os outros, goria inicial na exposição sistemática do materialismo histórico
que Os sujeitos criam a sua oposição ao mundo material, a sua transformou-se na «produção social» por ser o aspecto principal
ligação, dependências, possibilidades e saídas relativamente a mas não o único da prática social: na exposição da economia
esse mundo. A tese de que a «existência determina a consciência» política é o «trabalho», e no sistema elaborado elo materialismo
está organicamente ligada no marxismo à tese de que «a exis- dialéctico como um todo é a «matéria». A oposição ela «prática»
tência social que desperta no curso da actividade prática das e da «matéria» e a tentativa para transferir para a prática as
pessoas determina a consciência social». Assim, o problema do suas prerrogativas filosóficas conduz em última análise à opo-
carácter geral e da estrutura da prática está interligado com é) sição do materialismo histórico ao materialismo dialéctico, o que
problema básico da filosofia como um aspecto seu e o problema equivale a destruir o materialismo histórico, a teoria da dialéctica
da resolução prática do homem com o mundo ambiente trans- e o materialismo em geral, daelo que abre as portas ao positivismo.
forma-se num desses aspectos. Assim, a «prática» é uma cate- A compreensão científica de categorias com a «actividade»,
goria do materialismo dialéctico. a «prática», o «trabalho», e a «produção» foi trabalhada no
marxismo em termos de um intercondicionamento muito estreito
A prática, tal como sublinhou Lénine, é o ponto de partida
(a história da emergência desta compreensão será objecto de um
da relação das pessoas entre si com o mundo ambiente, a base
estudo futuro). «As abstracções mais gerais só ocorrem, em
e o objectivo da nossa actividade consciente, o critério da vera-
geral, em função dos desenvolvimentos mais ricos e concre-
cidade do nosso conhecimento, e a determinante daquilo, nesse
tos» (35), e a categoria de «prática» social podia teoricamente
conhecimento', é necessário para nós (33). Por outro lado, o desen-
ser formada apenas a partir ela actividade revolucionária, caso
volvimento da prática é impossível sem o conhecimento já adqui-
o proletariado se encontrasse em condições de produção alta-
rido. mente desenvolvidas. Mas, isto não significa que até à emergência
Há um condicionamento mútuo imediato mas não uma da consciência revolucionária da classe trabalhadora, a prática
identidade entre as estruturas da prática e o conhecimento. social anterior fosse passivo-contemplativa e não verdadeira prá-
A identificação da prática e do conhecimento é profundamente tica (Lukács na História e Consciência de Classe incluía na cate-
enganadora. Significa tanto o retorno ao pragmatismo como a goria da prática «inautêntica» a experimentação c até a produção
restauração da velha concepção do mundo - nuns casos con- como um todo).
templativa, noutros do tipo voluntarista-Fichteano. Mas é incor- A prática, tal como já foi observada, não é uma actividade
recto opor a prática ao conhecimento. Através da prática e com qualquer, mas uma forma especial de actividade, que ultrapassa
base nela a sensibilidade e o pensamento das pessoas atingem a unilateralidade da teoria, isto é, da actividade teorética. Se a
a realidade objectiva, isto é, a matéria, de que a nossa prática prática se identificasse com qualquer espécie de actividade das
M_·'·C.: . .':" ... __,... __'.__ h" _" ,, .-C"" .$".
122 A Categoria da Práxís e a «Marxología» A Categoria da Práxís e a «Marxología» 123
pessoas e se todos os seus aspectos fossem «igualmente autên- comunistas entre as pessoas permite o desenvolvimento integral
ticos», então uma das muitas consequências de uma tal situação das potencialidades humanas (S8). O trabalho torna possível a exis-
seria a destruição da estrutura ou dos aspectos da actividade e tência de todas as diferentes formas da actividade humana
o desaparecimento da dependência dos vários aspectos da alie- peculiar, e condiciona o seu desenvolvimento; se não houvesse
nação (básica para todos eles), na alienação do trabalho que na prática de trabalho, a prática não podia de forma alguma existir
verdade tem aí um lugar, e esta última dissolver-se-ia na «alie- em geral.
nação em geral», tal como sucede actualmente nas concepções Excluir da prática o trabalho e a produção material, isto, é,
dos «humanistas abstractos». Contudo, não estamos livres de o processo de trabalho social das pessoas que criam a riqueza
apagar a distinção entre prática e teoria tal como sucede com material da sociedade como um todo, equivale a converter a
L. Althusser, opositor dos humanistas abstractos, que considera prática social e a actividade do homem numa sombra abstracta.
a prática como sinónimo de uma actividade qualquer. (S6) A distorção da essência e função do trabalho, e do seu papel no
Notámos, anteriormente, que a prática é um processo mate- quadro da prática, a incompreensão do facto de que ele numa
rial objectivo. Mas, é importante acentuar que na sua base a prá- parte fundamental desta última, leva (como no caso de E. Bloch)
tica é precisamente material todavia não simplesmente um pro- à mistificação da relação entre o indivíduo e a sociedade. A iden-
cesso objectivo (e menos ainda objectivante), e tais propriedades tificação do trabalho com toda a prática social na sua máxima
«miraculosas», como a capacidade não só para transformar as pos- extensão leva ao conceito vulgarizado' do homem-trabalhador
sibilidades do homem numa realidade material, mas também para (homo faber) como algo impessoal, pequena «engrenagem» do
originar novas possibilidades de prática futura, são produtos das mecanismo produtivo, e também aos vários tipos de ideias nive-
propriedades e potencialidades desta mesma realidade. E embora ladoras características dos ideais sociais do nosso tempo.
a consciência do homem se situe ao nível da prática e não ante-
T. M. Jaroszewski chama justamente a atenção para isso no
riormente a ela, e embora a prática transforme tanto a cons-
seu artigo O Conceito de Prática em Karl Marx na Actuali-
ciência como a natureza material, a matéria como um resultado
dade (39). Os aspectos acima mencionados das inter-relações da
desta não deixa de ser primária em relação à consciência, bem
matéria, consciência e trabalho que são rejeitados ou simples-
como em relação à prática.
mente distorcidos pelos revisionistas contemporâneos uma vez mais
O «trabalho» e a «produção material» não são apenas termos confirmam que estes se situam fora do que os marxistas entendem
económico-políticos e sociológico-concretos, mas também cate- por prática. Declaram ter «reabilitado) ° tratamento marxista
gorias filosóficas (materialista-históricas). O trabalho é o aspecto da prática, mas, na verdade, afastam-se dela, substituindo-a por
básico da prática. É o processo pelo qual o homem «forma, uma acepção idealista. Ao forçarem a prática (falsificando a
regula e controla a troca de substâncias entre ele próprio e a segunda das Teses sobre Feuerbach. de Marx) a «competir» arti-
natureza» (S7). Esta mediação tem lugar através dos vários meios ficialmente com o conhecimento, e ao afirmarem assim que
de trabalho e dos instrumentos de produção, e o próprio trabalho se a consciência conhece alguma coisa ela é prática e não mundo
também mediatiza a relação de todos os aspectos da prática, material, revelam-se agnósticos e idealistas subjectivos.
sendo ele próprio o núcleo de outros aspectos «não práticos» da
actividade humana. A partir das ideias de Max em O Capital, é Nos seus argumentos a prática converte-se frequentemente
possível isolar os seis seguintes aspectos e funções sociais do num verbalismo vazio, na «prática» efémera das críticas filosó-
ficas (40).
trabalho: (1) é o modo de satisfazer as necessidades humanas e,
por conseguinte, a actividade da criação do valor de uso; (2) a Quais as aplicações desta verbalização' da prática na prática?
criação de riqueza social; (3) o criador da sociedade e um factor Aplicações extremamente reais. Os extremistas de «esquerda» que
de progresso social; (4) a fonte da formação e desenvolvimento opõem prática a trabalho atacam a notável «sociedade industrial
do homem; (5) um modo de existência específico do homem; única), têm em mente não só e não tanto a crítica do capitalismo
(6) e através da consciência das relações produtivas socialistas e mas o ataque ao socialismo como ele existe na realidade. A con-
A Categoria da Práxis e a «Marxclogín» 125
124 A Categoria da Práxis e a «Marxología»
(7) J. Habermas, Arbeit unã. tnteraktion, Bemerkunçen. Z1L Regeis
f'erência de Herbert Marcuse, em Praga, Para um Conceito de Jenenser «Philosophie des Geistes», Prarik urt-arn-Mai n 1967, p. 33. Tradução
í
Negação da Dialéctica (1966), foi feita com a ideia de que os feita a partir do ensaio de Jurgen Ha.berrnna, Labor anel t nt eraction :
Reniarlcs on Heçel'e Jena «Philosophy o/ Mindl), in Theory anel Practice,
trabalhadores enquanto participantes no processo de produção não 1971. 'I'rad , segundo John Vier tel, 4 til abr. ed. «(Beacon paper back»,
são capazes de lutar contra a propriedade privada (nas condições Boston, Mass.; Beacon Press, 1974), p. 159.
(8) J. Haberrnas, Technik wissensctuitt ais Iâcoloçie, Fmnkfurt-
do capitalismo), ou de aperfeiçoar as relações sociais (num regime -arn-Maí n 1969. p. 45.
socialista), e por isso toda a esperança do progresso social reside (9) Ver M. Markovic, Grasn.sci on thc Unity oj Philosophy and routics,
in Praxis, ed , intern .. n.o 3, 1967, p. 334.
e deve ser. confiada aos marginais (41). Os oportunistas de direita (10) Ver L. Kolakowskt, Le M arxisnie de Marx, le nuirxunne d'Engels.
e os reformistas utilizam quase essa mesma concepção da «socie- Si9nijication contemporaine de la cotitrooerse, no livro La rn.uoeoptue
dade industrial única» ao oporem, pelo contrário, o trabalho à contenvporaine. Ciirotiunu:s, IV, Firenze, 1971, pp. 420-421.
(ll) P. Togttat.tí. Ao Leitor, in Antonio Gramsci, Obras Oonipletas,
prática com o fim de fazer a apologia do trabalho «criado» no 3 vois.. I, Moscovo, 1957, p. 8, (em russo).
sentido de uma convergência de dois sistemas sociais distintos. (12) Veja-se A. Gramsci, Opere, II, 'I'orino, 1952, I). 131.
(1:1) Ver A. Gramsci, Obms escolhidas, III .Moscovo, 1959. pp. 79,
Assim, a verbalização idealista da prática, proveniente da ultra 20-23, 40-41, 81, 153-154. (em russo).
«esquerda» é convertida numa instigação a actos anarquistas (11) Ver J. Lipiec. Fil.ozo/ia pofityki AntoJliogo Gramscicgo, ln Stmlia
jilozojiczne, n.o 6, 1972, n. 79.
desorientadores, e, os oportunistas de direita, por seu turno, con- (\C,) A. Gramsci, Opero, II, p. 145.
vertem-na numa ociosa pseudocrítica que, todavia, desorienta (lG) iova.,
p. 143.
e ê perigosa, pois que é dirigida inteiramente para a paralisia (17) K. Marx e F. Engels. Dos PTimeiros Escritos. Moscovo, 1956,
p. 640, (em russo).
das forças revolucionárias. (18) Ver A. Gramsci, Opere, II, p. 146.
(19) Ibid., p. 160.
Substituir, assim, a tripla identificação da prática com o conhe- (20) Iout., p. 142.
cimento, o conhecimento moral e o comportamento biológico, (21) Dentro elo espírito desta trnnsmutacão ele conceitos tomaram.
posição K. Korsch e, nos anos 60, lVI. Kangrga que concluiu «nada mais ser
que foi característico da antiga filosofia burguesa, conduz os a realidade do que a actividade humana». M. Kangrga, Eticki llTobLem 1L
revisionistas mais recentes ·e os «rnarxólogos» ao esquema da âietu. Karla Mtirlcsa, Zagreb 1963, p. 18.
tripla oposição da prática com o conhecimento, a matéria e o (22) G.Lukács. Gcschichte iuic: Klassenbewusstsotn, Berlin 1923,
p, 164; cr. K. Kosik, Die Irialelct ilc des Konlcreien, Frankfurt-am-Main
trabalho. A identificação da prática com o comportamento e a 1967. p. 79.
negação da prática como trabalho andam frequentemente' de (23) Notar que o conceito de Lukács «tipo de consciência social»
mãos dadas, mas, a transição da identificação da prática com o nunca foi claramente formulado. Ele nem sempre distinguiu os conceitos
da ideologia de urna classe, a consciência real de classe, psicologia social a
conhecimento para a separação nítida entre elas é sintomática. consciência de vanguarda de uma classe dada, e a reaüzação teórica dos
Esta transição exprime ° processo do crescimento dos motivos seus interesses' de classe. Ver Lukàcs, oti. cit., p. 82; cf. I. S. Na.rsky,
O tuosotictcvcn. nazorecti Georgy Lukacse ... , ín Filozojic7cy Cusopis, Praha,
irracionalistas, e apeia para o fortalecimento dos motivos do 1973, ri.o 2. (A este propósito, chamamos a atenção para as opiniões cor-
voluntarismo idealista. As conclusões sociais reaccionárias dos rectas de S. Kozyr-Kowalsk í; ver a sua Fi!ozo/la tieieiou: mloelego L1lkácsa,
in studia ruoeoiiczne, n ,o 6, Warszawa 1973, p , 108.
pontos de vista revisionistas sobre a prática são, então, sujeitos (2-1) K. Marx e F. Engels. Dos Primeiros Escritos, Moscovo, 1956,
à crítica decisivae à sua completa superação por parte do mar- p. 566. (em russo).
xismo. (25) Neste trabalho, Lukács faz frequentes rererénctas às «trocas.
naturats» existentes entre a sociedade e a natureza, mas não pôde apro-
fundar mais o problema. Simultane!1mcntc, o autor críttca pertinentemente
Hegel, pelo facto de ter originado uma dicotomia entre «ontologia do abso-
NOTAS luto» e uma outra ontologia ou seja «ontologia do clesenvolvimento socíal»
tomada como práxis. Ver G. Lukács, Zv.r Ontoloaie des geseHschajtLic/Len
(I) Kosik, Praxis, ed. intern., n.o 3, Zagreb 1967, p. 328. Seine. Heçels [tusclie urui reclite ontototne, Neuwied und Berlin (West)
(2) Ver Kosik, Die Dialelctilc des Konkreten, Frankfurt-am-Main 1969, pp. 28, 3'1:, 45.
1967. p, 214. (26) Ver a publicação do fragmento de Lukàcs sobre o problema
(3) P. Vranickl, Einige Geâankeri über Humanitiit in der Theorie tmd do trabalho na 2." parte da 1.- secção da sua «Ontologia», publicada.
der çesctvictitlictieti Praxis, in Praxis, ed. íntern.. n.o 4. 1966. p. 479. separadamente com o titulo ontotoçie-Aroeit, Neuweid 1973. Este fragmento
(I) .Ibid., p. 48l. foi publicado no jornal Neues Eorurn, n." 207, Wien 1971; cf. G. Lukács,
(5) M. Kangrga, Praxis und Kritilc, no livro Reuotutionãre Praais, Die ontoioçisctien. Grundprinzipien von Marx, Neuweld 1972, pp. 20, 46-47 e
Jugoslavischer Marxismus àer Geçerunart; F'retb'urg 1969. p. 100. outras.
. (6) K. Kosik, Gramsci et la philosophie àe la Praxis, ln Praxis, ed. (271 G. Petrovic, 1"'IOZOJW a 1lwTlcsizam, Zagreb 1965, p. 224.
lIltern.. n" 3, 1967, p. 322.
126 A Categoria da Práxís e a «Marxologia»
(28) Ver A. Schmidt, Der Beçriff der Nat-ur in der Lenre von Marx,
Frankfurt-am-Main 1962, p. 30.
(29) Ver: K. Marx e F. Engels, Obras, '101. II p. 211 (em russo) ,
(30) K. Marx e F. Engels, Obras, '101. 21, p. 371 (em russo).
(31) K. Marx e F. Engels, Obras, '101. 20, p. 546 (em russo).
(32) Ao considerarem a pràxis como «indiferente» os «fllósofos da
práxís», invoiuntariamente, retomam as Ilusões machistas e aproximam-se
dos positivistas lógicos. De ai, a sua conciliação, presente desde 1953, cujo
fundamento teórico se encontra no livro de O. Negt sobre a sociologia de
Índice do volume II
Comte e de Hegel.
(33)Ver V. r. Lénine, Obras Completas, '101. 42, p. 290, (em russo).
(3.qSobre a correlação da prática e do reflexo ver M. N. Rutkevich, Ao Leitor
Problemas da Teoria Leninista do neilexo, Sverdlovsk, 1970, pp. 95-102,
o o o .. o o •••• o o o •• o o 5
(em r ussso ) .
(35) Marx e Engels, Obras, '101. 46, parte 1, p. 41 (em russo).
(36) cr. L. Althusser, Sur le travail tnécn etuiue. Dijjicultés et res- Tadeusz Mo JAROSZEWSKI
sources, in La Pensée, n .o 132, Paris, 1967.
(37) Marx e Engels, Obras, '101. 23, p. 188, (em russo). Extensão e Significado da Categoria de Práxis 9
(38) Ibid., p. 195 e outras. Cf. r. 1. Changli, Trabalho, Moscovo, 1973,
pp. 49, 516, e outras, (em russo).
(39) Ver Voprossi Filosoiii (Questõeó' de Filosofia), n.' 5, 1973, Adolfo SANCHEZ V ASQUEZ
pp. 21-22.
(40) W. R. Beyer a este propósito escreveu justamente Die Sunden der A FÍi1osofia da Práxis Unidade da Teoria e da Práeica .. 39
Franlcturter Sch.ule. Ein Beitraç Z1lr Kritik: der Icritischen Theorie, Berlin
1971, p. 20 e segs.
(43) Ver H. Marcuse, Ideen zu einer Icritisch.en: Theorie der Gesell- A. N. LEONTIEV
sch.af t, Frankfurt-am-Main 1969,1, pp. 189, 190.
Actividade e Consciência 49
Manfred BUHR e Jôrg ISCHREIBER
Sobre a Relação entre Conhecimento e Práxis SociaI . o o ••• o o o o. o •••• o' • o. 79
Richard KOSSOLAPOV
Liberdade ,e Práxís Social . o o •••••• o o • o" o " ••• o •• o o • o • o o o o o o o •••• o. o •• o o ••• , o. o • o 87
Igor S. NARSKI
A Categoria da PráX!Í$ e a «Marxologia: 111
Este artigo aparecido pela primeira vez na revista Pilosoiskie
Naúki (Ciências Filosóficas), n.v 1, 1975, pp. 57-66, foi-nos gen-
tilmente cedido, em manuscrito inglês, pelo seu autor.
Tradução do inglês por Jorge Correia Jesuino.
Índice geral
Volume I

Ao Leitor . 7
M. M. ROZENTAL e P. F. IUDINE
Teoria e Prática " . 11
Manfred BUHR e Alfred KOSING
Práxis (Prática) " . 15
Dieter WITTICH
Práxis (Prática) . " .. 19
Dieter WITTICH
Práxis, A Categoriai Gnosco'óglca e Sociológica de Prática 25
Auguste CORNU
A Ideia de Práxis e a Elaboração da Concepção Materialista do Mundo 4J
Heinrich OPITZ
A Práxis como Categoria Central da Teoria Materiallista da Sociedade
- Sobre a génese do conceito de Práxis de Marx . . 85

Volume II
Ao Lestor ' . 5
Tadeusz M. JAROSZEWSKI
Extensão e Significado da Categoria de Práxis .... " 9
Adolfo SANtHEZ VÁSQUEZ
A Filosofia da Práxis Unidade da Teoria c da Prática 39
A. N. LEONTIEV
Actividade c Consciência . 49
Manfred BUHR c Jôrg SCHREIBER
Sobre a Rcüação entre Conhecimento e Práxis Social . 79
Richard KOSSOLAPOV
Liberdade e Práxís Social 87
igor S. NARSKI
A Categoria da Práxís e ii «Marxologia: Jl!

Este livro foi composto e Impresso na Emp. do Jornal do Comércio, S.A.R.L.


para Livros Horizonte e acabou de se imprimir em Maio de 1980

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