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O que é uma sociedade justa

Olinto A. Pegoraro

A ética refere-se sempre à estrutura radical do ser-humano, ao núcleo subjetivo único e


intransferível: a consciência e a liberdade. Neste reduto de acesso exclusivamente pessoal
cada um decide, assume suas ações e por elas responde.
Porém, este santuário da interioridade não é uma realidade fechada, sem janelas e sem
relações com a exterioridade. Pelo contrário a outra face da individualidade é a comunidade: a
vida ética, ou o agir humano, situa-se na dialética entre estas duas faces da nossa existência.
Ninguém é ético para si mesmo, mas em relação aos outros e ao mundo exterior. Portanto, a
ética nunca é exclusivamente subjetiva; refere-se sempre pelo menos a uma outra pessoa, seja
ela humana ou divina: somos seres éticos em relação a alguém. Esta é a ética das relações
interpessoais, chamada também microética.
A micro abre-se à macroética ou à ética das ações coletivas, onde o sujeito não é mais
um indivíduo mas o grupo, a associação e a comunidade política. Na macroética inscrevem-se
as ações coletivas da ordem econômica, tecnológica, industrial, científica, política e todas as
decisões tomadas em grupos e entidades. Aqui muitos sujeitos concorrem para a realização de
uma ação conjunta de responsabilidade coletiva. Por exemplo, o único ato da eleição do
presidente da república é feito por milhões de atos individuais. Cada indivíduo concorre com
uma parcela de responsabilidade pessoal para realizar o ato maior e de responsabilidade
coletiva: a nação, como um sujeito coletivo, escolhe bem ou mal seu representante máximo.
Até pouco tempo os tratados de ética limitavam-se à microética, aos comportamentos
interpessoais, analisando a estrutura interior dos atos humanos que, para serem imputados,
deviam realizar-se com plena consciência, conhecimento e liberdade. A macroética avalia com
igual ênfase e importância a dimensão pública e comunitária da ação. É certo que a educação,
a saúde, a distribuição dos bens, a propriedade, a economia, a promoção da família e a ordem
social da comunidade dependem cada vez mais de decisões coletivas do que das orientações
e ações individuais. A macroética decorre da atual organização do mundo em macroestruturas
que, em muitos setores, alcançam dimensões planetárias.
Entre a micro e a macroética não há conflitos irredutíveis. Tanto a filosofia contemporânea
como a clássica englobam em suas premissas fundamentais os dois aspectos da ética. Com
efeito, em nosso século a fenomenologia não trata o ser humano como indivíduo auto-
suficiente mas como ser-no-mundo; como estrutura ontológica aberta que se realiza com os
semelhantes e com a natureza. Exige-se equilíbrio e respeito entre todos estes elementos,
para a plena explicitação do ser-humano e do cosmos. Nesta perspectiva a exploração
irresponsável da natureza, longe de melhorar nossa existência, coloca-a no extremo perigo da
autodestruição.
Por outro caminho, a filosofia clássica, chegou à mesma conclusão. Aqui a ética
concentra-se na prática das virtudes morais que aperfeiçoam a subjetividade humana. Pelo
esforço e pelo constante exercício, o homem se torna forte, temperante, altivo, veraz e
acolhedor. Mas estas virtudes da subjetividade encontram seu pleno desdobramento e
significado na virtude da coletividade que é a justiça. A virtude moral justiça confere a todas as
outras um significado social e público. Ninguém é virtuoso para si mas em relação aos outros.
Somente na convivência social justa o homem chega à perfeição de si mesmo.
Portanto, para a filosofia contemporânea e clássica a ética consiste na convivência social
justa de seres humanos, formados para o respeito dos semelhantes e das coisas que lhes
pertencem.
Voltemos agora à pergunta inicial: Que é uma sociedade justa? Quais são os pilares
filosóficos e éticos do edifício de uma sociedade, onde as pessoas se respeitam mutuamente?
Onde os bens sejam repartidos eqüitativamente? Onde as desigualdades não firam os
princípios de justiça? Onde não haja miseráveis de um lado e uns poucos senhores do outro?
Onde saúde, educação, habitação e participação sejam acessíveis a todos?
Neste milênio estas perguntas elementares permanecem sem resposta. Pior ainda, elas
continuam a ser mal equacionadas e pessimamente respondidas.

A ORDEM SOCIAL JUSTA


Pelo acima exposto, o maior desafio contemporâneo é a construção de uma ordem social
justa no plano das nações e do mundo. Isto significa que é imperioso criar estruturas novas e
abrangentes, de tal modo que as necessidades básicas dos seres humanos sejam
satisfatoriamente preenchidas. Numa palavra, é preciso que as estruturas sirvam ao bem
humano.
Que é, pois, uma ordem social justa? Desde os gregos até hoje foram elaboradas muitas
teorias para responder esta pergunta crucial. Filósofos, sociólogos, políticos e religiosos
sempre tentaram equacionar a convivência humana de modo digno e ético. Nos parágrafos que
seguem vamos alinhar dois princípios fundamentais de qualquer ordenamento social justo. A
justiça se refere tanto às disposições subjetivas do homem como ao ordenamento objetivo da
sociedade. Além de virtude moral, a justiça é o princípio da ordem pública. Sendo assim,
podemos desdobrá-las em duas vertentes: a vida segundo a justiça e a vida social justa.

1 - Princípio da vida segundo a justiça.

Não defendemos aqui o jusnaturalismo que se cristalizou em dogmas irrecorríveis. Trata-


se apenas de eleger uma instância de decisões éticas imediatamente aceita, e sem margem de
dúvida, por todos os atores sociais. Esta instância é o princípio da vida justa que pode ser
assim enunciado: devemos respeitar os direitos básicos da vida.
Este princípio exige uma atitude fundamental: reconhecer que todos os seres humanos
nascem metafisicamente iguais. A natureza nos deu direito igual à vida, à educação da vida, à
vida saudável, à participação na vida política, à distribuição dos bens materiais e culturais que
alimentam a vida.
Estes direitos não se conquistam; são dados pelo nascimento.
Esta é a idéia central de todos os códigos que proclamam os direitos humanos. Por
exemplo, o código de direitos humanos da ONU é, de certo modo, um tratado de ética e de
justiça, assinado por quase todas as nações. Resultado de tratativas políticas e debates
culturais, refere-se sempre a uma instância irrecorrível criada pela natureza: a vida igual em
todos os seres humanos independentemente de filosofias, de religiões, de regimes políticos ou
de localizações geográficas.
A atitude ética correta consiste em reconhecer, proteger, garantir e respeitar os direitos
decorrentes do nascimento humano. Ora o reconhecimento e o respeito são atitudes subjetivas
e morais de cada pessoa. Exercer o respeito à vida e aos direitos decorrentes é praticar a
virtude moral da justiça. É a atitude justa perante a vida de outros seres humanos. Respeitar a
vida dos outros e as coisas que lhes pertencem é o conteúdo básico da justiça, como virtude
moral que orna a interioridade da pessoa.
O respeito aos outros é a exigência incondicional da ética e a pedra angular do novo
edifício social, onde tudo - mercado, tecnologia e progresso - esteja em função do ser
humano.
Esta exigência absoluta foi solenemente aceita pelo mundo inteiro. O que falta é alinhar
as estruturas das sociedades políticas em função desta ética universal. Aqui a educação das
pessoas, dos grupos e dos partidos políticos exerce um papel insubstituível, visto que o ser
humano e as sociedades podem assumir ou rejeitar estes pilares.

2 - Princípio da vida social justa

O segundo princípio pode ser formulado assim: devemos criar uma ordem social onde a
cidadania seja plena e universal.
De início, este princípio exige que as estruturas sociais justas se estendam a todos os
cidadãos, não admitindo excluídos e segregados da ordem social.
Ademais, a cidadania não é dada pelo nascimento e por registros formais. A cidadania,
como conquista dos atores sociais, é o resultado da consciência política e da participação
efetiva na luta para a construção de estruturas sociais justas. Este esforço coletivo concretiza-
se na constituição que é, de certo modo, um tratado de ética e justiça que os cidadãos
escrevem, assinam e cumprem no seio de uma comunidade política.
Se estes conceitos são aceitáveis, então a maior parte de nosso povo não é cidadão. Em
nosso país (como em todo mundo) há milhões de pessoas que ainda não ascenderam à
cidadania ou pior ainda, dela são excluídas pelas estruturas sócio-políticas discriminatórias. De
fato, enquanto existirem miséria, fome, endemias generalizadas, analfabetos, sem-teto e sem-
terra, nossa sociedade, em sua estruturação, será injusta, porque excluirá dos benefícios
humanos básicos a maioria da população. A carta constitucional pode ser excelente, mas
permanece letra morta até que sua regulamentação não crie estruturas que atendam às
demandas básicas da comunidade.
Portanto, o princípio da justiça social dá corpo, concretiza e completa o primeiro. Ele rege
a criação de estruturas tais que garantam a todos os cidadãos as condições de realizar sua
vida como prescreve o primeiro princípio.
Ademais, o princípio da justiça social administra as desigualdades. Estas são absurdas na
ordem natural regida pelo primeiro princípio. Mas na ordem histórica elas sempre existiram. De
fato nascemos em tradições históricas desiguais, em famílias desiguais em cultura, condições
sociais e materiais. Nascemos em países com trajetória histórica diferente. Portanto, as
desigualdades são uma realidade irrecusável.
Cabe ao princípio de justiça social administrar as desigualdades históricas. Mas, in limine,
a justiça não admite que as desigualdades sejam injustas.
Podem as desigualdades deixar de ser injustas? Não, respondem categoricamente as
teorias igualitaristas.
Por sua vez, o princípio da justiça social não exige a igualitação das condições históricas
das pessoas, grupos e nações. É claro, porém, que o segundo princípio denuncia as estruturas
históricas injustas que geram milhões de excluídos da cidadania.
O que exige, então, o segundo princípio? A justiça social prescreve que a organização da
sociedade crie estruturas que garantam a todos os cidadãos a oportunidade de desenvolver
suas capacidades e de evoluir em suas condições históricas. Dito negativamente, a injustiça
social consiste: a) em negar a alguém a oportunidade de progredir em sua vida; b) em criar
estruturas de exclusão; c) em evitar a criação de estruturas de promoção das pessoas. Numa
palavra, é suma injustiça reprimir os talentos das pessoas.
O princípio da justiça social proclama que a primeira riqueza de uma nação é a saúde de
seu povo, o alirnento, a educação, a moradia digna, participação na vida pública e na
repartição dos bens materiais e culturais. Em função desta meta gira a organização econômica
e tecnológica.
Portanto, para ser realizado e socialmente feliz o cidadão precisa de estruturas que
garantam as condições sociais de crescer conforme seus talentos e elevar ao mais alto grau
possível sua realidade histórica. Esta realização é diferente em cada um: não é preciso nivelar
todos os cidadãos no mesmo patamar; é preciso sim, que as condições de realização se
estendam a todos incondicionalmente.
Para cumprir esta função positiva, o segundo princípio impõe que a sociedade se liberte e
rompa com séculos de injustiça que criaram estruturas de sobrevivência marginal e excluída.
As estruturas injustas são responsáveis pelos milhões de pessoas ditas “menos favorecidas”
ou de “baixa renda”. Estas expressões dizem implicitamente que do outro lado estão uns
poucos “mais favorecidos” e de “alta renda”.
Esta relação perversa só será rompida pela educação à cidadania que leva as pessoas e
comunidades à participação política.Esta conscientização garante também o acesso a uma
justa repartição dos bens materiais.
Enfim, conquista-se a cidadania na ordem social justa, segundo os dois princípios aqui
expostos.

In: PEGORARO, Olinto A. Ética é justiça. (2a.ed.)Petrópolis, Vozes, 1995. pg.101-108.