Você está na página 1de 6

Insuficiência Cardíaca no Idoso

CAPÍTULO 9
Insuficiência Cardíaca no Idoso

© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.


55
Capítulo 9

A prevalência de insuficiência cardíaca é rara em adultos jovens, mas


após os 45 anos de idade ela dobra a cada década de vida, chegando a
acometer 10% dos indivíduos com idade acima de 80 anos1. Um estudo
brasileiro multicêntrico, EMI 2, avaliou 2.469 pacientes idosos (idade >65
anos) atendidos em ambulatórios de cardiologia e geriatria de 13 estados.
A IC foi observada em 10% dos casos e foi a causa principal de internação
em 31% dos casos. Os recentes avanços no tratamento das doenças
cardiovasculares e o aumento da parcela de idosos na população a tornará
ainda mais prevalente. A IC é a via final comum das diversas doenças
cardiovasculares (HAS, DAC, doenças orovalvares), e, no idoso, elas se
sobrepõem às alterações estruturais e funcionais do envelhecimento fisio-
lógico do sistema cardiovascular3.

Peculiaridades da Insuficiência Cardíaca no Idoso

1. O aumento da impedância vascular sistêmica, diminuição da com-


placência ventricular, menor sensibilidade ao estímulo betadrenérgico, menor
capacidade de aumentar a produção de adenosina trifosfato (ATP) pelas
mitocôndrias miocárdicas (em face do aumento de demanda) diminuem a
reserva homeostática cardiovascular frente ao exercício e doenças
intercorrentes (IAM, infecções).
2. Até 40% dos idosos com síndrome de IC apresentam a função sistólica
normal4, podendo chegar a mais de 50% dos pacientes com IC acima de
80 anos, e somente 10% naqueles com idade <65 anos3.
3. Logo, o primeiro ponto importante na abordagem da IC no idoso
é, uma vez diagnosticada e confirmada pela ecodopplercardiografia a pre-
sença da síndrome de IC, classificá-la como IC sistólica (fração de ejeção
<40% a 45%) e IC diastólica (FE >45%). As duas formas podem estar
presentes com predomínio de uma sobre a outra 3.
4. A história de infarto do miocárdio prévio, alcoolismo, ictus cordis
desviado para a esquerda e terceira bulha sugerem a presença de IC sistólica,
ao passo que a presença de quarta bulha, ictus cordis sustido, HAS, e a não
ocorrência de infarto prévio sugerem a presença de IC diastólica. Isolada-
mente, nenhum dado de história, exame físico, radiográfico ou eletrocar-
diográfico diferencia a disfunção sistólica da diastólica. Uma avaliação da função
ventricular por imagem (ex.: ecodopplercardiograma) se faz necessária3.

© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.


56
Insuficiência Cardíaca no Idoso

5. Identificar e tratar a causa específica (HAS, DAC, LOV, alcoolismo).


6. A dosagem do peptídeo natriurético cerebral (BNP — brain natriuretic
peptide) sérico, um marcador diagnóstico e prognóstico da IC, será pro-
gressivamente incorporado ao screening da forma assintomática da disfunção
ventricular, tendo em vista os IECA interferirem na progressão da disfunção
ventricular assintomática 5, 6. No idoso, a dosagem do BNP trará importan-
te contribuição na abordagem de pacientes assintomáticos e naqueles
portadores de comorbidades com queixas de cansaço e dispnéia 5.
7. Fatores que dificultam o manuseio da IC no idoso:
a — comorbidades: DPOC (confunde o diagnóstico entre sintomas
decorrentes da pneumopatia e da IC; pacientes graves não podem usar
betabloqueadores), artropatias (uso de antiinflamatórios retém líquido e
pode contribuir para agravamento da IC), dificuldade de deambulação por
seqüela de AVC ou doenças reumatológicas podem prejudicar programas
de reabilitação cardiovascular. A insuficiência renal é um fator de resistên-
cia aos diuréticos e fator de mau prognóstico.
b — dificuldade de aderência: alta prevalência de analfabetismo funci-
onal (sabe assinar o nome, lê mas não compreende) em nosso meio, es-
quemas posológicos complicados, alto custo do tratamento (polifarmácia),
baixas aposentadorias e pensões, distúrbios cognitivos, maior prevalência
de depressão, descondicionamento físico, sedentarismo, necessidade de um
familiar ou cuidador para controlar a medicação e dieta.
c — maior sensibilidade às alterações de volume (uso de diuréticos),
maior risco de intoxicação digitálica (menor depuração de creatinina), maior
risco de insuficiência renal e hipotensão com uso de IECA.
8. Diuréticos. Não aumentam a sobrevida, porém melhoram significa-
tivamente os sintomas congestivos por redução da pressão de enchimento
ventricular mesmo com pequena redução do volume intravascular: impor-
tante na IC diastólica 3, 7.
9. Necessidade de maior tempo para educação médica continuada com
ênfase sobre a aderência à dieta, ao esquema posológico, atividade física,
necessidade de monitorização do peso.
10. Necessidade de maior tempo para abordagem clínica, cognitiva,
social, psicológica e ambiental (ex.: quedas e fraturas podem agravar o
prognóstico destes pacientes).

© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.


57
Capítulo 9

11. Abordagem multidisciplinar. Uma equipe de trabalho interdisciplinar


nas Clínicas de Insuficiência Cardíaca reduz as readmissões hospitalares, melhora
a qualidade de vida e é mais custo-efetiva no tratamento de idosos porta-
dores de insuficiência cardíaca comparada ao tratamento médico conven-
cional8-11.
12. Para muitos idosos, melhorar a qualidade de vida e preservar a
autonomia e independência pode ser mais importante do que aumentar
a longevidade.

Bibliografia

1. Kannel WB. Belanger AJ. Epidemiology of heart failure. Am Heart J


121:951-957, 1991.
2. Taddei CFG, Ramos LR, Moraes JC et al. Estudo multicêntrico de ido-
sos atendidos em ambulatórios de cardiologia e geriatria em institui-
ções brasileiras (estudo EMI). Arq Bras Cardiol 69:327-333, 1997.
3. Rich MW. Heart failure. In: Friesinger GC. Cardiovascular Disease in
the Elderly. Cardiology Clinics 17(1):123-135, 1999.
4. Wong WF, Gold S, Fukuyama O, et al. Diastolic dysfunction in elderly
patients with congestive heart failure. Am J Cardiol 63:1526, 1989.
5. Chen HH, Burnett Jr JC. The natriuretic peptide in heart failure:
Diagnostic and therapeutic potentials. Am J Physicians 111:406-416,
1999.
6. Bettencourt P, Ferreira A, Dias P, et al. Evaluation of brain natriuretic
peptide in the diagnosis of heart failure. Cardiology 93:19-25, 2000.
7. Lakatta EG, Schulman SP, Gerstenblith G. Cardiovascular aging in health
and therapeutic considerations in older patients with cardiovascular
diseases. In: Fuster V, Alexander RW, O’ Rourke RA et al. Hurst’s The
Heart. 10th edition. The McGraw-Hill Company, Inc. International edition
pp. 2329-2355, 2001.
8. Rich MW, Beckham V, Wittenberg C, et al. A Multidisciplinary
intervention to prevent the redmission of elderly patients with
congestive heart failure. N Engl J Med 333:1190-1195, 1995.

© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.


58
Insuficiência Cardíaca no Idoso

9. Fonarow GC, Stevenson LW, Walden JA, et al. Impact of a comprehensive


heart failure management program on readmission and functional
status of patients with advanced heart failure. J Am Coll Cardiol 30:725-
732, 1997.
10. Stewart S, Pearson S, Horowitz JD. Effects of a home-based intervention
among patients with congestive heart failure discharged from acute
hospital care. Arch Intern Med 158:1067, 1998.
11. Rich MW, Beckham V, Wittenberg C, et al. A multidisciplinary
intervention to prevent the readmission of elderly patients with
congestive heart failure. N Engl J Med 333:1190, 1995.

© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.


59
Capítulo 9

© Direitos reservados à EDITORA ATHENEU LTDA.


60