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Poema Lixo Luxo, de Augusto de Campos, 1965

O aspecto gráfico do poema parece se utilizar de uma construção gestáltica, tendo como um
dos princípios básicos da percepção visual a simplicidade (muito utilizado na área do design),
para acentuar a profundidade sugerida pelas palavras "lixo" e "luxo". A palavra em destaque
constituída da repetição de outra de menor estatura, com sons fonéticos semelhantes
(diferenciado apenas pela palatalização da consoante lateral e contraste da vogal alta anterior
para a alta posterior), remete a uma associação de ambas e induz a uma percepção da temática
social, demonstrada principalmente por sua tipografia que possui semelhanças com logotipos
de marcas famosas (até porque costuma ser utilizado deste mesmo princípio para compor
suas logomarcas). A propaganda de um show de música, que ocorreu em 2011, é uma
demonstração de como anúncios podem ter sua forma muito semelhante a de poemas
concretos (e vice versa), também pela forte influência da teoria de Gestalt (é claro, o
concretismo utilizou outros artifícios na produção de suas obras, como será visto
posteriormente). Por outro lado, a propaganda das olimpíadas de matemática utilizam
números e o símbolo PI (específico da área) para construir um rosto, que propõe a imagem de
um estudante (público alvo).

CAMPOS, Augusto de. Pontos-periferia-poesia concreta. Em: CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI,
Décio; CAMPOS, Haroldo de. Teoria da poesia concreta . São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1975, p.
25.
Através da alusão a estas construções no ambiente midiático é possível notar semelhanças
com a construção do poema concreto, o efeito de similaridade permite uma associação entre
ambos e acaba por induzir uma correlação entre os produtos disponíveis no mercado (em
especial os artigos de luxo), os quais, quanto maior o valor monetário, maior o status de
quem os adquire (esta é uma mentalidade; o inverso também pode acontecer, principalmente
entre políticos que, para aumentar sua popularidade entre as camadas mais simples da
sociedade, consomem produtos comuns e de preços acessíveis a fim de mostrar sua
proximidade com o povo, o famoso "é gente como a gente"). O conceito (distorcido) de valor
humano está intimamente ligado ao pecúlio e a ascenção social, podendo haver outra
interpretação, a de que um local/produto financeiramente acessível é visto como
"inadequado" para determinada classe de pessoas. A palavra "lixo" ser inteiramente composta
por "luxo" torna visível a situação em que vê-se propagandas de objetos caros que não
passam de supérfluos e não têm uma real necessidade acrescida neles Embora a visualidade
seja uma característica marcante do concretismo, outras características (igualmente
importantes) também são percebidas e amplamente utilizadas. No artigo
Pontos-Periferia-Poesia, Augusto de Campos faz um apanhado a respeito das singularidades
na estrutura/forma de poemas de diversos autores (Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings) que
se alinharam em direção a um novo conceito, uma nova "teoria da forma", os conceitos
clássicos poéticos foram superados pela nova organização que viria a ser denominada
"POESIA CONCRETA".
"A verdade é que as "subdivisões prismáticas da Ideia" de Mallarmé, o método ideogrâmico de Pound,
a apresentação "verbivocovisual" Joyciana e a mímica verbal de Cummings convergem para um novo
conceito de composição, para uma nova teoria da forma - uma organoforma - onde noções
tradicionais, como princípio-meio-fim, silogismo, verso, tendem a desaparecer e ser superadas por
uma organização poético-gestaltiana, poético-musical, poético-ideogrâmica da estrutura: POESIA
CONCRETA".1

CAMPOS, Augusto de. Pontos-periferia-poesia concreta. Em: CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI,
Décio; CAMPOS, Haroldo de. Teoria da poesia concreta . São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1975, p.
25.