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DEBATE DEBATE 1277

Trópicos do discurso sobre risco:


risco-aventura como metáfora
na modernidade tardia

Tropics of risk discourse: risk-adventure


as a metaphor in late modernity

Mary Jane P. Spink 1

1 Programa de Estudos Abstract This article discusses new uses of interpretative repertoires of risk, especially those re-
Pós-Graduados em
lated to adventure. The author argues that the language of risk as adventure has multiple uses,
Psicologia Social, Pontifícia
Universidade Católica as both a hedge against de-traditionalizing processes typical of late modernity and a figure of
de São Paulo. speech for new sensitivities stemming from the imperative of coping with the imponderability
Rua Monte Alegre 984,
and volatility of modern risks. The article begins with an overview of the historical meanings of
São Paulo, SP
05014-091, Brasil. risk, seeking to argue that, as language in use, risk is a useful vantage point for understanding
mjspink@pucsp.br the transformations currently under way in the forms of social control, suggesting that we are
experiencing a transition from disciplinary society, typical of classic modernity, to risk society.
The discussion then focuses on recent transformations in images of risk, with special emphasis
on the trend to use risk-adventure as a metaphor for late modernity.
Key words Risk; Risk-Adventure; Reflexive Modernization; Risk Language

Resumo Este artigo tem como objetivo situar as novas modalidades de uso dos repertórios in-
terpretativos sobre risco, especialmente no que se refere à perspectiva da aventura. Propõe que,
como aventura, a linguagem do risco cumpre atualmente funções múltiplas, sendo tanto um an-
teparo aos processos de destradicionalização típicos da modernidade tardia, como uma figura
de linguagem utilizada para falar de novas sensibilidades decorrentes do imperativo de enfren-
tar a imponderabilidade e volatilidade dos riscos modernos. Inicia com uma visão panorâmica
dos sentidos históricos do risco buscando argumentar que a noção, entendida na perspectiva da
linguagem em uso, permite explorar as mudanças que vêm ocorrendo nas formas de controle so-
cial que nos possibilitam falar de uma transição da sociedade disciplinar, formação típica da
modernidade clássica, para a sociedade de risco, formação emergente na modernidade tardia.
Finaliza apontando para as transformações que vêm ocorrendo nas imagens sobre risco, buscan-
do destacar o uso crescente do risco-aventura como metáfora da modernidade tardia..
Palavras-chave Risco; Aventura; Modernidade Reflexiva; Linguagem do Risco

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Este texto tem o duplo objetivo de síntese e de qüências, e em que as incertezas são componen-
reposicionamento frente à questão do risco na tes essenciais e propositais do comportamento”
modernidade tardia. Como síntese, visa siste- (Machlis & Rosa, 1990:162). Acatam, assim, a
matizar as reflexões e resultados das pesquisas impossibilidade de compreender risco apenas
sobre risco por nós desenvolvidas desde 1997 na perspectiva racionalizadora da análise de
(Spink, 1997, 1998, 1999). Como reposiciona- riscos, entendida como a triangulação entre
mento, pretende argumentar a favor da exis- cálculo, percepção e gerenciamento dos riscos.
tência, hoje, de novas modalidades de uso dos Faz-se necessário esclarecer também, que
repertórios interpretativos sobre risco. Propo- as pesquisas que vêm sendo por nós desenvol-
remos, mais especificamente, que o risco, visto vidas focalizam risco na perspectiva da lingua-
na perspectiva da aventura, cumpre atualmen- gem em uso. No referencial que estamos elabo-
te funções múltiplas, sendo tanto um anteparo rando no Núcleo de Pesquisa em Psicologia So-
aos processos de destradicionalização típicos cial e Saúde da Pontifícia Universidade Católi-
da modernidade tardia, como uma figura de ca de São Paulo (Spink & Frezza, 1999; Spink &
linguagem utilizada para falar de novas sensi- Medrado, 1999; Spink & Menegon, 1999), várias
bilidades decorrentes do imperativo de enfren- dimensões de uso da linguagem são enfatiza-
tar a imponderabilidade e volatilidade dos ris- das. Buscamos, de um lado, entender a cons-
cos modernos. trução de conceitos no âmbito de domínios de
Começaremos traçando uma visão panorâ- saber específicos e sua cristalização em discur-
mica dos sentidos históricos de risco. Apoian- sos. Falamos, nesse caso, de discursos ou do
do-nos nas teorizações de Hayden White (1994), uso institucionalizado de repertórios interpre-
buscaremos mais especificamente traçar o en- tativos. Mas buscamos também entender a lin-
redo arquetípico dos trópicos do discurso so- guagem na perspectiva dinâmica de uso no
bre risco. Pretendemos, por meio dessa pano- contexto das práticas discursivas. Focalizamos,
râmica, argumentar que a noção de risco, en- nessa perspectiva, os processos de interanima-
tendida na perspectiva da linguagem em uso, ção dialógica que pontuam as trocas lingüísti-
permite explorar as mudanças que vêm ocor- cas e a dinâmica de posicionamentos que daí
rendo nas formas de controle social que nos emergem.
possibilitam falar de uma transição da socie- Entretanto, seja no enfoque dos discursos
dade disciplinar, formação típica da moderni- cristalizados, seja no das práticas discursivas, é
dade clássica, para a sociedade de risco, forma- a noção de repertório interpretativo (Potter &
ção emergente na modernidade tardia. Wetherell, 1987) que ocupa o papel teórico cen-
Com essa contextualização como base, o tral. Chamamos de repertório interpretativo o
cerne do nosso argumento propõe que esta- conjunto de termos, conceitos, lugares-comuns
mos vivendo formas variadas de destradiciona- e figuras de linguagem utilizados para falar de
lização do risco que se fazem visíveis não ape- um fenômeno específico. Sendo produções cul-
nas na multiplicidade de novas modalidades turais e estando inscritos nos textos, imagens e
de aventura, mas também no uso metafórico lugares de memória que constituem o imagi-
do risco-aventura para referir-se sobretudo à nário social, os repertórios são melhor com-
imponderabilidade e volatilidade dos riscos preendidos quando abordados no tempo longo
manufaturados. da história. A familiarização com essas produ-
Antes, porém, são necessários alguns escla- ções implica, portanto, a realização de uma ar-
recimentos conceituais. Ao utilizar o termo ris- queologia dos usos dos repertórios em diferen-
co-aventura estamos nos referindo, apenas par- tes épocas históricas. Constituem, nessa pers-
cialmente, às novas modalidades de aventura e pectiva arqueológica, um reservatório de senti-
aos novos usos de antigas modalidades de jo- dos passíveis de serem reativados nos proces-
gos de vertigem. Optamos pelo termo compos- sos de compreensão do mundo, que chama-
to risco-aventura, para enfatizar um desloca- mos de produção de sentidos.
mento importante dos sentidos modernos do Com o objetivo de entender os repertórios
risco que recuperam a aventura como dimen- sobre risco do ponto de vista arqueológico dos
são positivada da gestão dos riscos. contextos históricos de uso, foi feita uma ex-
Os teóricos do risco, como Gary Machlis & tensa pesquisa bibliográfica sobre a emergên-
Eugene Rosa (1990), buscam incorporar essa cia, circulação e uso da linguagem do risco em
dimensão em seus esquemas tipificadores sob diferentes domínios do saber. Tratava-se de um
a denominação de “risco desejado”. O risco de- projeto ambicioso que abarcou a etimologia da
sejado, segundo a definição dada por esses au- palavra risco e seu emprego no contexto dos
tores, refere-se às “atividades ou eventos que jogos, da economia, da saúde, da tecnologia e
têm incertezas quanto aos resultados ou conse- da biotecnologia, buscando entender as múlti-

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plas dimensões do debate sobre risco presen- dade e cálculo que, por sua vez, “... exige uma
tes em inúmeros textos publicados em livros e disposição determinada em relação ao tempo e,
artigos. É com base nessa vasta revisão da lite- mais precisamente, em relação ao futuro, sendo
ratura que forneceremos uma visão panorâmi- que a ‘racionalização’ da conduta econômica
ca dos sentidos históricos de risco. supõe que toda existência se organiza em rela-
ção a um ponto de fuga ausente e imaginário”
(Bourdieu, 1979:18-19).
Uma visão panorâmica dos sentidos É esse tipo de relação com o futuro que ge-
históricos de risco: o enredo ra o clima propício à incorporação plena da
arquetípico dos discursos sobre o risco perspectiva do “risco”. Não que haja uma au-
sência de qualquer disposição ante o futuro
Mesclam-se nesta panorâmica três dimensões: numa economia pré-capitalista. Trata-se, en-
uma forma de se relacionar com o futuro, uma tretanto, de um futuro pautado na “previdên-
forma de conceituar risco e uma forma de gerir cia” – a habilidade de “ver de antemão” a partir
os riscos. Considerando, inicialmente, o risco da inscrição na própria situação, a partir da
como uma forma específica de se relacionar identidade entre tempo de trabalho e tempo de
com o futuro, nunca é demais reiterar que a pa- produção. Como afirma Bourdieu (1979:22),
lavra risco emerge na pré-modernidade, ou se- “longe de serem ditados pelo desejo prospectivo
ja, na transição entre a sociedade feudal e as de um futuro projetado, as condutas de previ-
novas formas de territorialidade que dariam dência obedecem ao cuidado de se conforma-
origem aos Estados-nação. Obviamente, a hu- rem aos modelos herdados”. Já o capitalismo
manidade sempre enfrentou perigos diversos, impõe que se rompa essa unidade. Opõe, assim,
sejam os riscos involuntários decorrentes de ao “futuro prático”, lugar de potencialidades ob-
catástrofes naturais – terremotos, erupções jetivas, a noção de futuro como lugar dos pos-
vulcânicas, furacões – sejam aqueles associa- síveis abstratos de um sujeito intercambiável.
dos às guerras, às vicissitudes da vida cotidiana Mais uma vez é preciso deixar claro que
ou ainda os voluntários, decorrentes do que não se trata da ausência da possibilidade de
chamaríamos hoje de “estilo de vida”. Entretan- cálculo. O que Bourdieu parece afirmar é que,
to, esses eventos não eram denominados ris- nas economias pré-capitalistas, o cálculo está
cos. Eram referidos como perigos, fatalidades, a serviço da eqüidade, pautada num espírito de
hazards ou dificuldades, mesmo porque a pa- solidariedade, mas “opõe-se em absoluto ao es-
lavra risco não estava disponível nos léxicos pírito do cálculo que, fundamentando-se na
das línguas indo-européias. avaliação quantitativa do lucro, anula as apro-
Assim, a própria emergência da palavra ris- ximações arriscadas e desinteressadas (pelo me-
co no catalão no século XIV, nas línguas latinas nos nas aparências) de uma moral de generosi-
no século XVI e nas anglo-saxônicas no século dade e honra” (Bourdieu, 1979:35).
XVII já constitui um rico campo de investiga- A transição de um futuro pautado em soli-
ção. Embora tenhamos engrossado as fileiras dariedade para outro marcado pelo cálculo dos
dos etimólogos diletantes, não se trata aqui de riscos, pode ser traçada a partir dos repertórios
explicitar as hipóteses prováveis desse surgi- lingüísticos disponíveis para significar o futu-
mento tardio do vocábulo. Basta ressaltar o con- ro. Há, conforme discutimos em textos anterio-
senso de que a palavra emerge para falar da pos- res (Spink, 2001), uma incorporação gradativa
sibilidade de ocorrência de eventos vindouros, de termos, passando de fatalidade à fortuna
em um momento histórico onde o futuro pas- (Giddens, 1991), e incorporando paulatina-
sava a ser pensado como passível de controle. mente os vocábulos hazard (século XII), perigo
Vale fazer aqui uma breve digressão sobre (século XIII), sorte e chance (século XV ) e, no
as diversas possibilidades de pensar o futuro. século XVI, risco.
Pierre Bourdieu, em texto publicado original- Após emergir como vocábulo na pré-mo-
mente em 1963, defende a tese de que as dis- dernidade, risco haveria de tornar-se um con-
posições sobre o futuro estão associadas às ceito fundamental na modernidade clássica.
condições materiais de existência, que permi- Entretanto, a possibilidade de efetivamente
tem ou não defini-lo como “...uma estrutura utilizar o conceito de risco como estratégia de
particular de probabilidades objetivas – um fu- governo, envolve um longo processo de forma-
turo objetivo” (Bourdieu, 1979:8). Apoiando-se lização que pode ser melhor entendido como o
em pesquisas etnográficas e estatísticas, reali- enredo arquetípico do desenvolvimento da
zadas na Argélia entre 1958 e 1961, considera compreensão, segundo as teorizações de White
que a adaptação à economia capitalista impli- (1994) sobre os trópicos do discurso. De acordo
ca a incorporação da disposição à previsibili- com esse autor, o enredo arquetípico das for-

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mações discursivas parece exigir que o discur- eles: Hood et al., 1992; Renn, 1998), na década
so se mova de uma caracterização metafórica de 50, no contexto dos riscos associados à ener-
original de um domínio de experiência, pas- gia nuclear. Esse campo desde cedo englobou
sando pela desconstrução metonímica de seus três áreas de especialidade: o cálculo dos riscos
elementos, pelas representações sinedóquicas (risk assessment), a percepção dos riscos pelo
das relações entre seus atributos e sua suposta público e a gestão dos riscos. Mais recentemen-
essência, chegando então à elaboração dos con- te, a gestão dos riscos passou a englobar tam-
trastes e oposições que possam ser discernidos bém a comunicação sobre riscos ao público.
nas representações sinedóquicas, fase que de- O cálculo dos riscos consiste na identifica-
nomina ironia. ção dos efeitos adversos potenciais do fenôme-
No caso do conceito de risco, esse longo no em análise, a estimativa de sua probabilida-
processo envolveu, de um lado, o lento desen- de e da magnitude de seus efeitos. Depende
volvimento da teoria da probabilidade, cuja portanto, de quantificação, expressa na abor-
história, que tem início no século XVII, é pon- dagem hegemônica do Quantitative Risk As-
tuada de heróis da matemática, incluindo aí sessment (Hood et al., 1992). A percepção dos
Pascal, Fermat, Leibniz e De Moivre. Essa his- riscos volta-se à relação entre o público e os ris-
tória é contada de forma coloquial por Peter cos tecnológicos, estando associada portanto,
Bernstein (1997), no livro O Desafio aos Deuses, e ao estudo da aceitação de determinadas tecno-
na linguagem social da Filosofia por Ian Hacking logias, como vem acontecendo com as diversas
(1975), no livro The Emergence of Probability. aplicações modernas da engenharia genética.
De outro lado, o conceito de risco envolve a Volta-se também à perspectiva do controle
sofisticação da estatística e seu uso como ciên- preventivo dos riscos, buscando, por meio da
cia do estado. Nunca é demais apontar que a educação, influir nos comportamentos deleté-
raiz de estatística é status, que em latim quer rios para a saúde do corpo e do meio ambien-
dizer estado ou condição. Em seu sentido ini- te. A gestão dos riscos compreende quatro es-
cial, a estatística era o ramo da ciência política tratégias integradas: os seguros, as leis de res-
que dizia respeito à coleção e classificação de ponsabilização por danos, a intervenção gover-
fatos relevantes para a tarefa administrativa, e namental direta e a auto-regulação. Progressi-
é nesse sentido que ela encontra uma primeira vamente, passou a incorporar também a comu-
função no governo das populações na Ciência nicação sobre riscos, na medida em que a parti-
da Polícia dos estados alemães dos séculos cipação pública, quer na aceitação quer no au-
XVIII e XIX (Pasquino, 1991). tocontrole, passou a ser elemento imprescindí-
Mas seria necessário o avanço do cálculo vel do controle social dos riscos.
das probabilidades para que a mera coleção de Todas essas arenas iniciaram-se num clima
dados se tornasse um instrumento fundamen- de franco otimismo, mas progressivamente, de-
tal de governo. É nesse contexto, então, que en- pararam-se com críticas, sobretudo por parte de
contramos o primeiro deslocamento no enredo antropólogos vinculados à Mary Douglas e Aa-
arquetípico do discurso sobre risco. Passamos ron Wildavsky (Douglas, 1992; Douglas & Wil-
da metáfora à metonímia e entramos na pri- davsky, 1983). A eles juntaram-se, mais tarde,
meira fase da gestão dos riscos, que tem sua ida- sociólogos, ecologistas e pensadores oriundos
de de ouro no século XIX, na ciência sanitária de outros campos disciplinares, incluindo aí a
que será o berço do Estado do Bem-Estar Social. Psicologia Social (por exemplo: Kadvany, 1997;
Entretanto, será apenas em meados do sé- Johnson & Covello, 1987). O debate atual é rico e
culo XX que passaremos à fase da sinédoque, complexo demais para ser abordado neste texto,
com a progressiva formalização do conceito e sendo importante apenas, para a argumentação
aperfeiçoamento das técnicas de cálculo dos aqui desenvolvida, apontar que duas dimensões
riscos. Essa passagem, no domínio da epide- estão aí imbricadas. Uma refere-se ao não-reco-
miologia, foi brilhantemente detalhada por Jo- nhecimento, nas abordagens iniciais, da ques-
sé Ricardo Ayres (1997) em seu livro Sobre o tão dos valores que permeia não apenas a per-
Risco, e é ela que leva também, na segunda me- cepção do público, mas a própria definição do
tade do século XX, à formatação de um campo que vem a ser risco. A outra dimensão refere-se
de saber muito específico denominado gestão à transformação que vem ocorrendo na nature-
de riscos: um campo que resulta do casamento za dos riscos, progressivamente mais sistêmicos
entre o cálculo de probabilidades e a herança e globalizados. Nessa dimensão, o debate é téc-
da função política da estatística, e que irá gerar nico e questiona a própria possibilidade de cál-
os sofisticados modelos de análise de riscos. culo de riscos cada vez mais imponderáveis.
O campo interdisciplinar da análise dos ris- Chegamos assim à quarta etapa do enredo
cos se inaugura, segundo alguns autores (entre arquetípico do discurso sobre o risco: a ironia.

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A gestão dos riscos é um fenômeno da moder- mento e uso da informação. É importante, nes-
nidade tardia e, sendo uma forma de governar sa perspectiva, entender os riscos e seus corre-
populações, devemos entender esse enredo na latos. É importante também que se desenvol-
perspectiva das mudanças que vêm ocorrendo vam instituições especializadas na análise des-
na esfera da governamentalidade e que levam sas séries quantitativas. É obviamente nessa
muitos autores (entre eles Castel, 1991) a afir- vertente que se ancoram as modernas estraté-
marem que estamos vivenciando o fim da so- gias de gestão dos riscos.
ciedade disciplinar (ou modernidade clássica) Entretanto, Foucault pensa a modernidade
e o início da sociedade de risco (ou moderni- clássica. Seu projeto, segundo explicitação no
dade tardia). Isso implica entender como pas- texto Politics and the Study of Discourse, de
samos do foco na gestão da vida para o foco na 1968, buscava determinar, em suas diversas di-
gestão do risco. mensões, como deve ter sido o modo de exis-
tência dos discursos e particularmente dos dis-
cursos científicos (suas regras de formação, com
Da sociedade disciplinar à sociedade suas condições, dependências e transforma-
de risco: a gestão dos riscos ções) na Europa, desde o século XVII, de ma-
na modernidade tardia neira que o conhecimento que é nosso hoje, pu-
desse ter vindo a existir, mais particularmente,
Para Foucault (1977), o que estava em pauta na aquele que tomou como seu domínio o curioso
sociedade disciplinar era a gestão da vida que, objeto chamado homem (Foucault, 1991).
segundo as reflexões delineadas no livro A Von- No entanto, para entender os deslocamen-
tade de Saber, englobou duas estratégias. Uma, tos ocorridos mais recentemente, a referência
desenvolvida a partir do século XVII, centrou- fundamental é Ulrich Beck (1993). Para Beck, o
se no corpo-máquina constituindo os disposi- projeto da modernidade tardia implica a ges-
tivos disciplinares. A outra, um pouco mais tar- tão dos riscos (e não mais a gestão da vida).
dia, desenvolvendo-se por volta de meados do Beck introduz o conceito de sociedade de risco
século XVIII, centrou-se no corpo-espécie e para referir-se a esses deslocamentos, que in-
englobou as técnicas de governo das popula- cluem três características: a globalização, a in-
ções. É no âmbito dessas últimas que se consti- dividualização e a reflexividade.
tuirão os biopoderes essenciais para a moderna A globalização, na visão de Beck, se refere à
gestão dos riscos. interseção de ausência e presença ou ao entre-
O poder disciplinar, fundamental para o laçamento de relações e eventos sociais que es-
desenvolvimento do capitalismo industrial, ti- tão distantes dos contextos locais. Trata-se do
nha por objetivo o controle dos corpos, tornan- processo de separação das relações entre tem-
do-os dóceis e fortalecidos para o trabalho pro- po e espaço que tem como conseqüências a
dutivo. Ancorava-se duplamente na organiza- desterritorialização. Essa articulação de rela-
ção da massa indiferenciada mediante siste- ções sociais que atravessam vastas fronteiras
mas classificatórios e nas estratégias de vigilân- de tempo e espaço torna-se possível porque o
cia continuada. O principal mecanismo classi- movimento – de pessoas, de produtos e de in-
ficatório nesse tipo de gestão era a norma, e formação – passou a ser facilitado pelos avan-
mais precisamente a definida a partir das dis- ços nos meios de transporte. Entretanto, não é
tribuições de freqüência. Dessa forma, essa or- essa a marca registrada da globalização; sua
ganização era perpassada pela noção do “ho- condição sine qua non são os desenvolvimen-
mem médio”, introduzida por Lambert Adol- tos na mídia eletrônica.
phe Jacques Quetelet e aperfeiçoada por Fran- Quanto à individualização, não se trata
cis Galton (Bernstein, 1997). mais da identificação do singular na massa, fa-
Também a vigilância dependia de dois me- to que decorre dos processos classificatórios
canismos. De um lado, apoiava-se nas “disci- da sociedade disciplinar, mas da singulariza-
plinas”, saberes específicos constituídos e cons- ção por meio da destradicionalização. Beck se
tituidores das instituições de vigilância: a esco- refere, com esse termo, às transformações que
la, a prisão, por exemplo. De outro lado, para vêm ocorrendo nas instituições tradicionais –
que essas ordenações fossem internalizadas, a família, trabalho e educação – que fazem com
vigilância dependia de um regime disciplinar que as biografias tornem-se projetos reflexivos
exercido no espaço privado dos lares e das sub- e, como tal, processos centrais na constituição
jetividades: a higiene. da subjetividade contemporânea.
Já os biopoderes voltam-se ao governo do Por sua vez, a reflexividade refere-se à sus-
corpo-espécie e têm por objetivo a segurança, cetibilidade à revisão crônica da maior parte
estratégia de governo que implica o aperfeiçoa- dos aspectos da atividade social e das relações

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com a natureza, à luz de novas informações, mecanismos de circulação da informação. As-


processo esse que perpassa nossa vida cotidia- sim, a informação na sociedade globalizada
na, pensada como esfera privada, o projeto da prescinde das instituições educativas (ou as
ciência e a própria atividade de governo. Trata- transforma); passa a ser um processo contínuo
se, assim, de mais um indicador da presença da que se dá dentro e fora dos espaços institucio-
ironia em nossas formações discursivas, enten- nais da educação. Sendo caracteristicamente
dendo-a (como sugere White) como capacida- capilar, se difunde por meio das várias tecno-
de não só de dizer coisas sobre o mundo de logias de informação (e não mais apenas por
maneira particular, mas também de dizê-las de meio de livros). Tornando-se uma exigência
maneira alternativa. para a produção de sentidos no cotidiano, im-
Não que as estratégias de governo anterio- plica novas formas de vigilância, agora subsu-
res – a soberania e a disciplina – não continuem midas pelo autocontrole do estilo de vida e pe-
a vingar. Foucault bem nos adverte. Mas há des- la monitoração constante de indicadores de
locamentos importantes que fazem com que as qualidade, como no caso prototípico dos diag-
novas modalidades de biopoderes se tornem as nósticos preventivos em saúde.
principais estratégias de gestão. O que muda? O cruzamento do imperativo da informa-
Diríamos que muda a natureza dos riscos, os ção com os processos de destradicionalização
mecanismos de gestão das populações e as es- tem implicações importantes. Há, antes de tu-
tratégias de gestão no nível das pessoas. do, uma tendência à desnormalização, sendo a
Quanto à natureza dos riscos, Beck e outros norma substituída pelo imperativo da opção.
sociólogos (entre eles Giddens, 1998) falam de Mas há também, a emergência de anteparos
sociedade de risco para pontuar a complexida- variados à destradicionalização, entre eles a
de dos riscos modernos, complexidade essa busca do sentido da vida na emoção e adrena-
que se refere à natureza dos riscos – enfatizan- lina. Isso nos leva ao último tópico da contex-
do a presença crescente dos riscos manufatu- tualização imprescindível para o argumento
rados, produtos dos desenvolvimentos da ciên- aqui desenvolvido: a função do risco-aventura
cia e tecnologia – e à progressiva tendência à nesse cenário de gestão dos riscos.
desterritorialização e globalização desses ris-
cos. Emerge daí uma nova sensibilidade: a per-
cepção crescente de que os riscos são sistêmi- A destradicionalização do risco:
cos, acompanhada da consciência da impon- o risco-aventura como metáfora
derabilidade dos riscos e da necessidade de da modernidade tardia
mecanismos igualmente complexos de gestão
do imponderável. Temos defendido em outros textos sobre risco
Essas novas formas de gestão no nível das (Spink, 2001) a existência de uma dimensão
populações trazem em seu bojo quatro aspec- positiva no enfrentamento dos riscos. Há uma
tos interessantes. Inicialmente, a emergência velha conexão entre risco e aventura, valoriza-
de sistemas de gestão que são transdisciplina- da pela ousadia passível de levar a descobertas.
res, transdepartamentais e transnacionais. Em Por exemplo, a companhia de seguros Winter-
segundo lugar, a necessidade de mecanismos thur International, membro do Credit Suisse
sofisticados de gestão de informação que atra- Group – que se auto-definem como “the experts
vessem domínios de saber: redes interligadas in total risk management” –, produziu uma be-
de informação, conforme descrito por Richard la série de anúncios enfatizando a ousadia do
Ericson & Kevin Haggerty no livro Policing the risco. Trata-se de fotos dramáticas em branco e
Risk Society (1997). Impõem também, a neces- preto, com fundo preto, de autoria de Richard
sidade de ressignificação da ética, que passa a Avedon, com celebridades do calibre de Mauri-
ser não mais uma ética prescritiva, mas dialó- ce Béjart (coreógrafo), Giovanni Agnelli (em-
gica com o imperativo da consulta a represen- presário) e Lord Attenborough (cineasta), que
tantes da sociedade civil (Spink, 2000a). Final- falam de seus mundos na linguagem do risco.
mente, implica a emergência de novas modali- Por exemplo, no anúncio publicado na revista
dades de movimentos de resistência que utili- The Economist em 1998 ( Winthertur Interna-
zam as facilidades de acesso à Internet, tradu- tional, 1998:56-57) Maurice Béjart afirma: “Dan-
zindo-se em movimentos sociais globalizados. çar à beira de um vulcão é a mais bela metáfora
Já a gestão no nível da pessoa, concerne so- que conheço para risco. E ter a coragem de correr
bretudo ao imperativo de gestão da informa- riscos é a maior motivação para toda a dança”.
ção numa sociedade cada vez mais destradi- Há também uma velha conexão entre risco
cionalizada e à luz de mudanças substantivas e formação de caráter, expressa no valor educa-
na natureza da informação, e até mesmo nos tivo da aventura. Um dos mais antigos empre-

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1283

endimentos comerciais de educação através da Figura 1


aventura é o Outward Bound, com início em
1941, no País de Gales, Grã-Bretanha, resultado O risco como motor da economia.
de uma parceria entre Kurt Hahn, educador, e
Lawrence Holt, sócio de uma empresa de trans-
porte marítimo. O objetivo original era treinar
por meio do corpo, em oposição a treinar o cor-
po (Martin, 1994). Esse projeto teve imenso su-
cesso no pós-guerra, estando hoje firmemente
implantado em diversos países. Sua página na
Internet <http://www.outwardbound.org> des-
creve os cinco valores que norteiam esse tipo
de educação: (a) aventura e desafio, (b) com-
paixão e serviço, (c) aprendizagem por inter-
médio da experiência, (d) desenvolvimento
pessoal, (e) responsabilidade social e ambien-
tal. Seu projeto educativo é descrito da seguin-
te maneira: “Até mesmo num ambiente tão
pouco domesticado como a natureza (wilder-
ness) há método em nossa loucura. Todos os
componentes de um curso outward bound o
ajudam primeiramente a conhecer-se melhor,
depois o ensinam a abrir-se (reach out) e ajudar
aos outros em sua equipe. É essa combinação
que o ajuda a ver as coisas com novos olhos e faz
do outward bound uma experiência incrível”.
Há, finalmente, uma velha conexão entre
risco e aposta, em sua essência de potenciali-
dade de ganhos e perdas, que deixou marcas
profundas no domínio da economia. A revista durante quatro séculos. Introduzido por Fibo-
Exame, de 13 de agosto de 1997, trazia como nacci no século XIII, foi finalmente resolvido
tema de capa a reportagem intitulada Os Ho- por Pascal e Fermat no século XVII, por meio
mens do Risco, com a seguinte chamada: “Bem- do cálculo da probabilidade da seqüência de
vindo ao mundo de intensa adrenalina da Li- ganhos e perdas no desenrolar do jogo.
near. Emoção é o que não falta a quem se aven- Essa modalidade de enfrentamento de ris-
tura por seus fundos de alto risco – que podem cos é fortemente marcada pela aventura, defi-
fazer a felicidade (ou a depressão) do investi- nida aqui apenas como a disposição de correr
dor” (Figura 1). A reportagem argumentava a riscos. Trata-se de um componente importante
favor da tese de que sem perigo não se avança da modernidade, expressa, por exemplo, na
no projeto da modernidade. Parafraseando disposição de investir, motor principal da eco-
Bernstein (1997), o autor da matéria afirma: nomia liberal. Há, aliás, um fértil campo de
“Sem o domínio da teoria das probabilidades e pesquisa voltado ao estudo do comportamento
de outros instrumentos de administração de ris- do homo economicus, que busca entender a to-
co, os engenheiros jamais teriam projetado as mada de decisão em situações de risco. Basta
grandes pontes, os lares ainda seriam aquecidos citar como exemplo duas vertentes de pesqui-
por lareiras e as viagens espaciais ainda seriam sa hoje clássicas: a teoria de jogos de John Von
um sonho. (...) A capacidade de administrar o Neumann & Oscar Morgenstern (1947) e a teo-
risco e a vontade de correr riscos e de fazer op- ria de decisão dos psicólogos cognitivos asso-
ções ousadas são elementos-chave da energia ciada ao trabalho de Amos Tversky e Daniel
que impulsiona o sistema econômico” (Fucs, Kahneman (Kahneman & Tversky, 1984; Tversky
1997:99). & Kahneman, 1981).
É oportuno lembrar que, em seus primór- Entretanto, deparamos hoje com novas mo-
dios, o desenvolvimento da teoria da probabi- dalidades de aventura, seja na vertente dos es-
lidade apoiou-se duplamente no cenário dos portes radicais, seja na busca da emoção exa-
jogos de aposta e na astronomia. Por exemplo, cerbada pelas drogas lícitas e ilícitas. Alguns
há um famoso problema matemático concer- autores (entre eles Giddens, 1991; Le Breton,
nente à distribuição do valor das apostas em 1996) vêm procurando entendê-las à luz das
um jogo interrompido, que circulou na Europa características da sociedade de risco, situando-

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as como formas de anteparo aos processos de los off-the-road, sendo as mais conhecidas o
destradicionalização que acompanham a glo- Rali Paris-Dakar, iniciado em 1979, e o Camel
balização. Temos assumido a posição de que, Trophy, realizado em lugares inóspitos em di-
para entendê-las, é preciso antes de tudo situá- ferentes países a partir de 1980.
las no contexto dos jogos. Optamos, para isso, O final dos anos 80 vê emergir novas moda-
pelas teorizações hoje clássicas de Roger Cail- lidades de risco-aventura: os ralis humanos. A
lois (1958). primeira competição nessa nova modalidade
Caillois baseia seu modelo de jogos (Tabela teria sido o Raid Gauloise, concebido por um
1) na interseção de duas dimensões: as diferen- jornalista francês, Gérard Fusil e realizado pela
tes modalidades de jogos e o grau de discipli- primeira vez na Nova Zelândia em 1989. Já o
narização dos jogos. Propõe, dessa forma, qua- Eco-Challenge Lifestyles Inc., fundado por Mark
tro modalidades básicas de jogos: agôn, jogos Burnett em 1992, como sugere o nome, inova
de competição; alea, jogos de chance; mimicry, por associar aventura com ecologia. Trata-se,
jogos de simulacro e ilinx, jogos de vertigem. como seu antecessor, de uma competição de
As quatro modalidades aparecem em duas for- resistência que envolve múltiplas modalidades
mas: uma mais espontânea (ou primitiva) – a de esporte: montaria a cavalo, canoagem, esca-
paidia e a outra mais regrada – o ludus. Pode- lada, rapel, mountain bike e longas caminha-
mos pensá-las na perspectiva da sociogênese, das. Tem como ingredientes principais o traba-
ou seja, a paidia como uma forma menos so- lho em equipe, a resistência, o espírito de aven-
cializada dos jogos, típica, por exemplo, da in- tura e a compaixão, mesclados com a cons-
fância e o ludus como a forma disciplinada, so- ciência ecológica manifesta não só no respeito
cializada e presa a regras de comportamento. absoluto à natureza (“pack it in, pack it out, no
Um dos fenômenos mais surpreendentes camp fires, camp and travel only where permit-
da época atual é o crescimento vertiginoso, qua- ted” é o lema dos aventureiros ecologistas), co-
se desenfreado, dos jogos de vertigem (ilinx) e mo também na ação ambiental efetiva apoian-
é nesse contexto que situamos o risco-aventu- do iniciativas locais. Também nós, no Brasil,
ra. Faz parte desse movimento de expansão, a aderimos aos ralis humanos, inicialmente com
emergência das diversas novas formas de es- a Expedição Mata Atlântica, organizada pela
portes de aventura, tendo como precursora a Sociedade Brasileira Multisport Adventure Ra-
Whitbread Ocean Race, com início em 1973. cing a partir de 1998, e mais recentemente com
Herdeira das disputas informais entre os tea os programas populares de sobrevivência, co-
clippers que faziam a rota entre Europa e Ásia mo o recente No Limite.
no século passado, a Whitbread mobiliza hoje Entretanto, o ilinx não se manifesta apenas
alta tecnologia e recursos sofisticados, sem nessas formas disciplinadas de jogos de verti-
deixar de apelar para a emoção dos riscos ine- gem características do ludus. Para entender a
rentes ao enfrentamento dos oceanos. multiplicidade de modalidades de risco-aven-
A década de setenta introduz modalidades tura é conveniente recorrer mais uma vez a
de risco-aventura que utilizam veículos moto- Caillois e a sua proposta de que o ludus pode
rizados, especialmente as disputas de veícu- ter formas culturais e institucionais, assim co-

Tabela 1

A classificação dos jogos segundo Roger Caillois.

Agôn (competição) Alea (chance) Mimicry (simulacro) Ilinx (vertigem)

Paidia (algazarra, Corridas Tesoura, pedra, papel Jogos de ilusão Carrossel


alarido, tumulto, Lutas Cara ou coroa Máscaras Dança
agitação, riso solto) Fantasias

Ludus (esportes Boxe Apostas Teatro Esqui


com regras, técnicas Esgrima Roleta Circo Alpinismo
e equipamentos) Futebol Loterias Bungee jump
Bilhar
Damas
Xadrez

Fonte: Roger Caillois (1958).

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1285

mo formas corrompidas. As formas culturais Figura 2


englobam todas as modalidades de esportes
que exaltam a velocidade, a adrenalina, a obli- Crianças radicais – o risco como fortalecimento
teração da razão pela concentração total na do caráter.
ação. Por exemplo, o esqui, o alpinismo, o surfe
e as diversas modalidades de esportes que en-
volvem desafio, sobrevivência e vertigem.
As formas institucionais se fazem presentes
sobretudo nas profissões que exigem o domí-
nio da vertigem. Inserem-se aqui as tradicio-
nais profissões de risco, como os guias de mon-
tanha, os bombeiros, os detetives. Mas inse-
rem-se também as novas profissões que emer-
gem em conseqüência dos riscos manufatura-
dos. Ericson & Haggerty (1997:102) definem as
novas profissões do risco como “um grupo ocu-
pacional que reivindica para si um conheci-
mento abstrato e exclusivo sobre como lidar
com riscos específicos, assim como a habilidade
de prover serviços especializados para gerenciar
esses riscos”. Incluem-se aqui os gerentes de ris-
co em bancos de investimento, os responsáveis
pela segurança de tecnologias capazes de in-
duzir a desastres em larga escala, como a ener-
gia nuclear e os responsáveis pela segurança
das novas tecnologias associadas à engenharia
genética.
Caillois propõe ainda que há formas cor-
rompidas dos jogos de vertigem em que a razão
é obliterada, por exemplo, pelo uso de drogas vimento gerencial, como o Quest, desenhados
psicotrópicas, sejam elas lícitas ou ilícitas. Essa para dar à gerência corporativa um recurso de
é a forma de risco que David Le Breton (1996) treinamento alternativo que combina a emo-
chama de blancheur. Trata-se do inverso da ção da aventura outdoor com o treinamento
vertigem e do desafio – em que o risco é ativa- corporativo tradicional. Segundo descrição for-
mente buscado – com a atração direcionada necida no site, “o conceito é aprender fazendo –
para o menos e não para o mais: longe de pro- fazendo algo fora do escritório que apresenta
vocar a morte, há um doce abandono a ela por desafios que podem então ser transferidos pa-
meio do álcool, da droga, da fuga ou da vaga- ra o mundo real do trabalho” (Quest: <http://
bundagem. www.lagunaphuket.com/quest/corporate_
São essas dimensões do risco que vêm sen- training.htm>).
do foco de reflexão de tantos autores. Alguns c) Ou ainda, a busca de novos espaços para
buscam entender a onipresença das formas o fortalecimento dos laços familiares, como
culturais do risco-aventura, subsumidas pelos apregoa a reportagem de capa da Veja São Pau-
esportes-radicais, como forma de expansão dos lo, de junho de 1999 (França, 1999), intitulada
processos de disciplinarização para além de Laços de Adrenalina: Pais e Filhos Descobrem
suas formas institucionais. A aventura, nessa na Natureza, em Surpreendentes Aventuras de
interpretação, passa a ser incorporada ao coti- Fim de Semana, a Chave para uma Convivên-
diano como estratégia de edificação. Encontra- cia mais Estreita.
mos na mídia exemplos variados dessa função Outros autores focalizam as formas corrom-
edificadora do risco-aventura, entre eles: pidas e buscam entendê-las na perspectiva dos
a) O fortalecimento do caráter, como na re- processos de destradicionalização, próprios da
portagem de capa da Veja São Paulo, de março sociedade globalizada e do capitalismo infor-
de 1998 (França, 1998), intitulada Uma Turma macional. Insere-se nessa vertente a instigante
Movida a Adrenalina: Os Riscos, os Benefícios, reflexão de David Le Breton (1996), que analisa
as Emoções e os Desafios dos Esportes Radicais tanto as formas culturais quanto as formas cor-
Praticados por Aventureiros Infantis (Figura 2). rompidas dos ilinx modernos na perspectiva
b) A aprendizagem de flexibilidade e deci- do ordálio, ou seja: a busca de significado para a
são nos programas de treinamento e desenvol- vida no enfrentamento da morte, dando chan-

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ces iguais de dela escapar. Em suma, “quando perdas. Como uma das maiores seguradoras do
o sentido da vida escapa, quando tudo é indife- mundo, temos a solidez financeira e a capaci-
rente, o ordálio é uma solução. É a única estru- dade técnica que fazem da Allianz uma parcei-
tura antropológica que pode dar uma segunda ra em que você pode confiar quando e onde pre-
chance. Ela metaforiza a morte por meio de cisar” (Allianz Group, 2000:100-101). O anúncio
uma troca simbólica em que o ator aceita que, fala tanto da necessidade como da positivida-
para poder tudo ganhar, arrisca tudo perder” de do risco, mas a partir da segurança decor-
(Le Breton, 1996:58). rente da escolha de bons gerentes de risco. Em-
São caminhos possíveis, mas que não esgo- bora se apóie na metáfora para a comunicação
tam as explicações sobre a onipresença do ris- da mensagem, a associação entre a necessida-
co-aventura na sociedade contemporânea. O de de correr riscos e os resultados potencial-
que estamos propondo, entretanto, é que bus- mente positivos da empreitada é feita no con-
quemos fugir da sedução dos esportes-aventu- texto do gerenciamento racional dos riscos (Fi-
ra ou do questionamento das formas corrom- gura 3).
pidas de ilinx, focalizando o risco-aventura a Já a segunda imagem nem mesmo fala em
partir de um novo olhar, buscando entender os riscos, embora eles estejam presentes quer na
usos metafóricos a que se prestam para falar foto quer na idéia de volatilidade dos fundos.
não mais de riscos mas de imponderabilidade. Trata-se de um de três textos publicados na re-
vista inglesa The Week, de 29 de abril de 2000,
na seção intitulada Making Money: What the
O uso metafórico do risco-aventura Experts Think. O texto em questão, intitulado
Thrill Seekers or Sound Sleepers (os que bus-
Desde que nos embrenhamos na pesquisa so- cam emoções ou os que preferem um sono
bre risco, temos colecionado matérias sobre o tranqüilo), discutia a opção por fundos volá-
assunto em jornais e revistas, nacionais e es- teis. Iniciava afirmando que “a maioria dos in-
trangeiras, incluindo anúncios e propagandas vestidores evita a volatilidade excessiva, mas
que utilizam a linguagem do risco. Analisando para o jogador hiperativo que gosta de entrar e
as matérias que traziam a palavra risco no seu sair de uma ação em poucas horas, as altas e
título, publicadas na Folha de São Paulo no pe- baixas oferecem possibilidades maiores de lucro
ríodo de 1921 a 1998 (Spink, 2000b), verifica- a curto-prazo” ( Week, 2000:35). Concluía, as-
mos um uso crescente em todas as áreas de re- sim, que as ações menos voláteis são mais ade-
portagem, incluindo esporte, economia, saúde quadas para investidores que preferem “dormir
e política. Muitas dessas matérias focalizavam à noite”.
o “risco em si”, seja como metonímia, seja co- O texto vem acompanhado da Figura 4,
mo sinédoque. Mas outras faziam um uso me- também apresentada na forma de croqui, que
tafórico do termo, que era utilizado para falar
de algo que, embora relacionado, já não era
mais risco.
Esse deslocamento fica mais claro quando Figura 3
analisamos as imagens; em suma, muito recen-
temente começamos a encontrar imagens rela- O risco com segurança.
cionadas a risco-aventura que já não remetem
mais à palavra risco. É possível ilustrar esse
deslocamento contrastando dois usos de risco
em imagens. O primeiro é um anúncio de uma
empresa de seguros, a Allianz Group, que se
descreve como “líder em seguros e serviços fi-
nanceiros na Europa”, publicado na Veja, em
maio de 2000. A belíssima imagem, aqui apre-
sentada na forma de croquis dada a recusa de
autorização para sua reprodução, mostra um
operário sentado em uma viga de prédio em
construção, “no topo do mundo” com a cidade
aos seus pés.
A mensagem é clara: onde quer que você
esteja, a Allianz dará cobertura: “para nós, ad-
ministração de riscos significa pensar o impen-
sável para evitar que riscos se transformem em

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1287

tem por subtítulo Volatilidade: Apenas para os Figura 4


que Buscam Emoções. O salto no espaço, prova-
velmente na modalidade de bungee jump, fala Risco, volatilidade e imponderabilidade.
metaforicamente de risco como aventura, sen-
do esta uma atividade própria de quem busca
emoções e, como na reportagem sobre os ho-
mens do risco apresentada anteriormente, tem
“coração forte”.

Considerações finais

Concluindo, é esse deslocamento, do risco me-


tonímico para o metaforizado, que deveria ser
o foco de nossas análises, por ser indicativo da
emergência de novos discursos sobre risco.
Nestes, não é mais o risco, mas a imprevisibili-
dade, a imponderabilidade e a complexidade
que marcam nossas experiências cotidianas;
são indicativos, portanto, do deslocamento da
sociedade disciplinar para a de risco a que nos
referimos anteriormente.
Buscando fazer uma síntese das muitas tra-
mas abordadas neste texto, concluiríamos rei-
terando quatro aspectos. Em primeiro lugar,
risco emerge como conceito quando se torna
possível pensar o futuro como passível de con-
trole. Esse é um processo que envolve tanto o
desenvolvimento do instrumental necessário e não são de ninguém. Amplia-se assim, a ex-
(como a teoria da probabilidade) quanto a periência intersubjetiva do imperativo da op-
emergência de um novo objeto de governo (a ção, gerando novos mecanismos de exclusão
população). social.
Em segundo lugar, da pré-modernidade à Finalmente, é possível que ainda não te-
modernidade clássica, a gestão dos riscos se nhamos os conceitos necessários para expres-
formata em duas vertentes distintas: a preven- sar essas novas sensibilidades, gerando assim
ção e a aposta. Ambas são frutos da crença na um solo fértil para a emergência de novos ter-
racionalidade, mas geram mecanismos de con- mos, utilizados ainda em sentido figurativo.
trole distintos. Na vertente da prevenção, o Retomando a teoria tropológica de White
principal mecanismo de controle é a norma, (1994), é possível propor que o tempo longo da
definida por meio da média estatística. Já na gestão dos riscos nos leva do uso metafórico,
vertente da aposta, elemento essencial do com- como aposta no cenário dos jogos, para o me-
portamento em uma economia liberal, o prin- tonímico, em que impera a norma associada à
cipal mecanismo de gestão é a tomada de deci- média estatística, à fase da sinédoque, na qual
são informada que privilegia o processamento se formaliza o conceito probabilístico de risco,
da informação numa perspectiva cognitiva in- até a fase da ironia, entendida como o questio-
tra-individual. namento a partir da contraposição de explica-
Em terceiro lugar, na transição para a socie- ções alternativas. Se a interpretação dessa tra-
dade de risco ocorrem várias transformações: a jetória do conceito de risco fizer sentido, então
crença na possibilidade de controlar o futuro a o estudo minucioso das novas formas de falar
partir da agregação e análise de séries de infor- sobre ele e as funções que essas práticas dis-
mações, passa a ser questionada frente à natu- cursivas têm na vida social, podem nos dar pis-
reza sistêmica dos riscos manufaturados; a tas sobre a emergência de novas formas de ges-
norma cede lugar à probabilidade como meca- tão na modernidade tardia e das possibilidades
nismo de gestão e a gestão dos riscos no espa- de produção de sentido a elas associadas.
ço privado se desprende dos mecanismos tra-
dicionais de vigilância, pautados nas institui-
ções disciplinares, e passa a depender do ge-
renciamento de informações que são de todos

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1288 SPINK, M. J. P.

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1289

Debate sobre o artigo de Mary Jane P. Spink mutações na produção discursiva de sentidos?)
como conceitual (qual o papel arquetípico das
Debate on the paper by Mary Jane P. Spink formações discursivas relativas a determinados
termos, como o de risco, para entender as trans-
formações culturais e sociais em curso?) Essas
questões são em si mesmo inovadoras, e cha-
mam a atenção para a interação entre a produ-
ção de sentidos, o imaginário social e as práti-
Madel Teresinha Luz Risco, perigo e aventura na sociedade da (in) cas sociais nas diferentes culturas.
segurança: breve comentário Mary Jane Spink trabalha com o que pode-
Instituto de Medicina Social, mos designar, parafraseando Isabelle Steng-
Universidade do Estado
O artigo de Spink sobre risco coloca em jogo hers, como um operador conceitual, mais que
do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, Brasil. questões atuais de natureza teórico-metodoló- um simples conceito, que é o de repertório in-
madelluz@uol.com.br gica e substantiva para as ciências sociais, que terpretativo, que evidencia o papel estratégico
valem a pena mencionar, e na medida do pos- da linguagem na sua abordagem, bem como
sível, aprofundar, ainda que em “breve comen- com a análise de uma categoria que escolheu
tário”, pretensão dessas notas. como “metáfora da modernidade tardia” – risco
A propósito da categoria de risco e seus usos – significativa do momento de passagem de
diversos na contemporaneidade, que a autora uma sociedade disciplinar para uma sociedade
designa como modernidade tardia, Spink de- de risco.
senvolve uma reflexão bastante densa sobre as A linguagem relativa ao risco é situada nu-
relações entre linguagem, estrutura discursiva, ma panorâmica sócio histórica dessas varia-
produção de sentidos, suas funções e variações ções, vistas sob uma tripla dimensão do risco,
na cultura através da noção de repertório inter- entendido e analisado como forma de se rela-
pretativo. Variações que são de natureza histó- cionar com o futuro, como conceituação e co-
rica, é claro, mas também simbólica, expressas mo gestão. O termo é focalizado desde sua
por meio de linguagem, ancoradas em discur- emersão na cultura em termos de palavra (a
sos mais ou menos estruturados, relativos a questão da linguagem é, mais uma vez, a base
grupos sociais, a saberes ou mesmo a formas do esclarecimento dos sentidos historicamente
de agir, a práticas. A complexa abordagem im- produzidos) no século XIV, em catalão, daí se
plicada na análise da autora supõe uma inter- espraiando para as línguas latinas e anglo sa-
disciplinaridade em que antropologia, psicolo- xônicas (século XVII), apontando para a idéia
gia social, sociologia, história, genealogia e lin- de eventos imprevisíveis no futuro, o qual pas-
güística têm que andar de mãos dadas. A pro- sa a ser representado no imaginário social co-
dução social de sentidos através da história, mo controlável. A repertorização dos sentidos
expressa em metáforas, palavras, conceitos, na história do termo risco é feita em perspecti-
pode ser uma janela aberta para a compreen- va genealógica (no sentido foucaultiano), re-
são das mudanças da sociedade, de seus mo- traçando a evolução de sentidos de “fatalidade
mentos de rupturas, de continuidades, bem co- à fortuna”, de hazard (perigo) – em francês aca-
mo da apreensão da direção dessas mudanças. so – à sorte e chance, no intuito de demonstrar
Através da análise da transformação dos ter- a construção metafórica progressiva, dos sécu-
mos, dos conceitos, dos lugares comuns, das fi- los XII ao XVII, da categoria de risco, que se tor-
guras de linguagem, enfim do que Spink desig- na um dos conceitos básicos da modernidade
na como repertório interpretativo, é possível clássica referidos ao futuro.
abordar, “a partir de um fenômeno específico”, Por outro lado, o futuro concebido como
as profundas transformações em curso na cul- um conjunto de eventos controláveis é próprio
tura, atingindo talvez o mesmo tipo de percep- da lógica do capitalismo moderno, como nos
ção que Foucault (1966) evidenciou em sua ensinou Max Weber (1987) na Ética Protestante
obra As Palavras e as Coisas como a passagem e o Espírito do Capitalismo. A objetivação do
de uma cultura da similitude a uma cultura da futuro como uma série de eventos ou opera-
representação (modernidade clássica), quando ções controláveis é a ambição máxima da mo-
pôs em foco o conceito de episteme, estabele- dernidade, tanto em termos de conhecimento
cendo uma reflexão ainda hoje atual sobre a (“ciência moderna”) como em termos de ação
gênese das ciências humanas. Deste ponto de social (“ética do trabalho”). Spink nos refere
vista, o artigo de Mary Jane interroga essas como essa reflexão aparece em Bourdieu, que
ciências tanto do ponto de vista metodológico nos mostra como a incorporação da categoria
(como trabalhar em perspectiva interdiscipli- de risco supõe uma “racionalização” da condu-
nar para desvendar surgimentos, evoluções e ta e da vida em relação a um futuro abstratiza-

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1290 SPINK, M. J. P.

do, cuja imprevisibilidade é mensurada (ou pe- disciplinar. No segundo caso, temos um pro-
lo menos “calculada”), evitando-se assim as cesso de deslocamento da gestão da vida para
“aproximações arriscadas e desinteressadas (...) a gestão dos riscos, em que “globalização”, “in-
de uma moral de generosidade”, típicas de so- dividualização e “reflexividade” como caracte-
ciedades pré-capitalistas, segundo o sociólogo rísticas básicas da modernidade tardia, impli-
francês. cam com a transnacionalização do capitalis-
A passagem de termo a conceito envolveu a mo, em processos de “destradicionalização”, de
constituição de saberes estruturados na mo- “singularização”, sobretudo do que Spink de-
dernidade, como a matemática e a estatística signa como “ironia” nas estruturas discursivas,
(com o desenvolvimento da teoria da probabi- que mudam a natureza dos riscos, as estraté-
lidade), sua adoção como ciência de estado (sé- gias de gestão dos riscos pelos indivíduos, e
culos XVIII e XIX) até que o discurso estrutura- mesmo os mecanismos de gestão das popula-
do na ciência sanitária como “gestão dos ris- ções, embora os relativos ao momento anterior
cos” produziu no século XIX, segundo a autora, da modernidade não estejam descartados. O
“o primeiro deslocamento no enredo arquetípi- mais importante a assinalar aqui talvez seja a
co do discurso sobre o risco”, passando, em ter- mudança do próprio sentido de risco na cultu-
mos de lingüística, da “metáfora à metonímia”. ra em função dos processos em atuação.
Entretanto, apenas no século XX, segundo a au- Do meu ponto de vista, a mutação discursi-
tora, já em sua segunda metade, o risco, atra- va mais significativa em relação a risco aponta-
vés da ciência epidemiológica, estruturou-se da no artigo, talvez seja a da conexão de risco e
como um saber de gestão de riscos, gerando so- aventura em diversos setores das atividades so-
fisticados modelos de análise, visando a calcu- ciais e dos valores culturais da atualidade: na
lar, controlar e/ou prevenir riscos. economia, na educação, nas atividades empre-
Esse modelo, que representa, segundo Spink, sariais, no esporte, nos jogos. O cultivo do ris-
a passagem da metonímia à sinédoque da ca- co como questionamento passa a ser associa-
tegoria de risco na sociedade contemporânea, do à coragem, à bravura, à têmpera, à resistên-
gera um campo interdisciplinar de análise, pre- cia, à disciplina, e mesmo ao espírito de equi-
venção e intervenção extensivo a áreas cres- pe, à solidariedade focal. Spink associa essa co-
centes de conhecimento e atividade social, vi- nexão ao processo de globalização e aos efeitos
sando à percepção e gestão de riscos nessas destradicionalizantes e desterritorializantes do
áreas, e envolvem a economia, a saúde, a tec- capitalismo transnacional, com a impondera-
nologia e seus efeitos, a educação, as políticas bilidade sistêmica dos riscos tornando-se um
públicas e, mais recentemente, a comunicação impedimento ao seu controle e gestão, geran-
(uma vez que, segundo a autora “a participa- do novos sentidos metafóricos e novas práticas
ção pública (...) passou a ser elemento impres- discursivas sobre o risco.
cindível no controle social dos riscos”). Entre- Estamos vivendo em uma sociedade onde
tanto, o modelo “global” de cálculo, prevenção emergem sentidos do risco como prática contí-
e controle de riscos enfrenta duas questões até nua de busca de rompimento dos limites hu-
o momento insolúveis: a questão dos valores manos, inclusive da vida humana, isto é, como
implícitos nos riscos (sua percepção, sua defi- um arriscar-se, ou então como tentativa de
nição) e a questão da transformação da nature- controle do imponderável através do exercício
za dos riscos, progressivamente mais sistêmi- obsessivo do cálculo de probabilidades em
cos e globalizados. O que cria para tal modelo busca de “segurança” nos mais diversos cam-
uma situação de “não controle” ou de passa- pos da atividade social, sobretudo no econô-
gem para um novo modelo, o da “gestão de ris- mico (é só refletir sobre a imponderabilidade e
cos”, que assinala, segundo Mary Jane Spink, a a vulnerabilidade crescentes das “apostas” da
mudança de uma “sociedade moderna, discipli- bolsa de valores). Talvez as novas práticas so-
nar”, em perspectiva foucaultiana, para uma ciais e discursivas do risco estejam sinalizando
sociedade de “modernidade tardia, de riscos”. para alguns sentidos implícitos a serem desve-
No primeiro caso, da sociedade industrial lados, como o de mimetismo da insegurança
capitalista, tratava-se de gerir e controlar a vi- do sistema globalizado. Talvez estejam cha-
da, basicamente das populações, o que trouxe mando a atenção, de forma paradoxal, para a
à tona o conceito foucaultiano de biopoder, incapacidade da sociedade atual de lidar com
conjunto de estratégias disciplinares da docili- seus “riscos” mais evidentes: a dissolução de
zação dos corpos para o trabalho, o que levou relações e instituições sociais tidas historica-
Foucault a elaborar por coerência o conceito mente como permanentes, a enorme concen-
de governamentalidade como mecanismo bá- tração de riqueza, a exclusão social crescente
sico de gestão objetiva/subjetiva da sociedade como bola de neve, a fragilidade de uma eco-

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1291

nomia mundial interdependente que se asse- Nas sociedades contemporâneas os jovens


melha a um grande jogo de azar. A busca de se- têm sido as principais vítimas da violência,
gurança em meio à prática do risco (como ilus- apresentando elevadas taxas de morbimortali-
tra a imagem citada do operário sentado em dade devido às suas mais diversas formas – ho-
uma viga no alto da construção, “dominando o micídios, suicídios, agressões não fatais, maus
mundo” de suas alturas) talvez sinalize, como tratos, negligência, dentre outras. Essa vitimi-
um sentido “sintoma”, que a segurança supõe, zação de jovens, tem se apresentado de modo
paradoxalmente, uma constante exposição ao globalizado, tal qual alguns dos fenômenos dis-
risco, como exposição ao perigo de vida. A lei- cutidos no artigo, mesmo que em sua dinâmi-
tura do artigo de Mary Jane Spink, apesar de ca atuem fatores regionais ou locais específi-
instigante, não nos deixa em posição confortá- cos, como lembra Michel Wieviorka (1997) em
vel quanto ao futuro da cultura atual, quanto seu texto O Novo Paradigma da Violência, no
aos sentidos que está gerando, ao menos no qual o autor busca explicá-la no mundo mo-
que concerne à noção de risco e futuro. derno. O caso do narcotráfico exemplifica bem
as idéias desse autor. Dentre os fenômenos in-
FOUCAULT, M., 1966. Les Mots et les Choses – Une fra-políticos identificados por ele, o narcotráfi-
Archeologie de las Sciences Humaines. Paris: Galli-
co constitui uma atividade ilegal e criminosa
mard.
WEBER, M., 1987. A Ética Protestante e o Espírito do
global, mas que tem particularidades no seu
Capitalismo. 5a Ed. São Paulo: Pioneira. processo de produção, distribuição e comer-
cialização inter e intra países. E esse fenômeno
tem envolvido principalmente uma parcela da
população jovem.
No caso da violência contra os jovens, os
estudos têm consolidado resultados que indi-
cam que as principais vítimas são os mais po-
bres, com baixa ou nenhuma escolaridade e
qualificação profissional, provenientes de fa-
Edinilsa Ramos Quando viver é o grande risco-aventura mílias constituídas por mulheres chefes de fa-
de Souza mília, com baixa renda e residentes nas perife-
Antes de tecer qualquer consideração, quero di- rias das grandes áreas urbanas. É também nes-
Centro Latino Americano de zer do meu contentamento em debater o pre- ses mesmos espaços sociais de onde costumam
Estudos de Violência e Saúde sente artigo, que traz importante contribuição à ser recrutados para o exercício de atividades
Jorge Careli, Departamento
de Epidemiologia e Métodos reflexão filosófico-científica no tema abordado. ilegais e criminosas, engrossando as crescentes
Quantitativos em Saúde, O artigo é profícuo e dá margem a uma sé- estatísticas de infrações por eles promovidas e
Escola Nacional de Saúde
rie de questões, mas gostaria de me ater, ini- tornando frágil e volátil a linha divisória entre
Pública, Fundação Oswaldo
Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. cialmente, a uma delas. Mais precisamente, a legalidade e a ilegalidade.
edinilsa@claves.fiocruz.br quero questionar sobre um ponto que me cha- Trata-se, portanto, de um grupo que para
mou a atenção no título, que foi o uso da partí- conseguir usufruir, minimamente, dos benefí-
cula na modernidade tardia, dando a entender cios das sociedades de consumo precisa assu-
que haveria outras metáforas possíveis no pe- mir riscos. E esses riscos são assumidos por ele,
ríodo referido, ao invés da conotação de que o seja pela mera aventura da busca de sentido e
risco-aventura seria, por excelência, a metáfo- prazer na vida, seja porque é a única forma
ra da modernidade tardia, o que parece ser a possível de sobreviver e ter algum direito, so-
tônica do artigo. Gostaria, portanto, que a au- bretudo ao reconhecimento, ao respeito no in-
tora explicitasse suas idéias em relação à essa terior de seu grupo e ao consumo, mesmo que
questão. conseguido de modo ilegal e violento. Nesse
Esperei ao longo de toda a leitura, que a caso, percebe-se que o risco assume o significa-
abordagem do risco no campo da saúde pública do de atributo individual, comumente adotado
fosse aprofundada. Sendo essa minha área de pela epidemiologia (enquanto probabilidade
atuação e a da revista na qual o artigo está sen- de sujeitos sofrerem danos ou agravos à sua
do publicado, confesso que me senti um pouco saúde devido ao comportamento de se expor a
frustrada no desejo de ver o conceito em ques- determinado fator). Por outro lado, também não
tão mais discutido nessa área do conhecimento. se pode negar a existência de fatores que trans-
A partir da leitura, fiquei tentada a fazer um cendem à vontade desses sujeitos e que trans-
exercício reflexivo, aplicando algumas das te- formam o risco em algo para além dos compor-
ses defendidas no artigo, ao tema específico da tamentos e desejos individuais. Esse risco é en-
violência em um grupo particularmente vitimi- tão abordado como uma vulnerabilidade pró-
zado por esses eventos – os jovens. pria de certos grupos ou espaços sociais espe-

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1292 SPINK, M. J. P.

cíficos, como querem os cientistas sociais e os CHESNAIS, J. C., 1981. Histoire de la Violence. Paris:
estudos epidemiológicos de âmbito ecológico. Robert Laffont.
Trata-se de um risco que significa uma exposi- VETHENCOURT, J. L., 1990. Psicología de la violen-
ção a determinado(s) fator(es), independente cia. Gaceta de la Asociación de Profesores de la
da vontade de se expor individualmente a Universidad de Venezuela, 62:5-10.
WIEVIORKA, M., 1997. O novo paradigma da violên-
ele(s). Em outras palavras, encontram-se sob
cia. Tempo Social, Revista de Sociologia da USP,
risco devido a circunstâncias particulares de 9:5-41.
vida – como pertencer a determinado grupo
social ou residir em determinada comunidade
– mesmo que não tenham a intenção, sequer
inconsciente, de se expor. Como afirma J. L. Ve-
thencourt (1990) em trabalho intitulado Psico-
logía de la Violencia, muitos desses jovens, cer-
tamente, jamais “optariam” (grifo meu) por se
arriscar em situações violentas se tivessem ou-
tras possibilidades e condições de vida. Luís David Ariadne, Dédalo e os bondes do tigrão
Transpondo o pensamento da autora para Castiel
esta reflexão, tendo a concordar que a violên- Nesta tentativa de contribuição ao debate, es-
cia que hoje vitimiza os jovens, é também ex- Departamento pero fazer jus ao nível de qualidade e de perti-
de Epidemiologia
pressão da destradicionalização de instituições nência alcançados pela Professora Mary Jane
e Métodos Quantitativos
como a escola, a família e a religião. Tratar-se- em Saúde, Escola Spink ao apresentar e desenvolver idéias e con-
ia de um processo inverso àquele identificado Nacional de Saúde teúdos muito bem articulados em seu belo ar-
Pública, Fundação
por Chesnais (1981) em seu livro Histoire de la tigo. Em função de maior convívio com uma
Oswaldo Cruz,
Violence, no qual a constituição de instituições Rio de Janeiro, Brasil. disciplina riscológica por excelência, inicio o
como a escola e a polícia, em determinada castiel@ensp.fiocruz.br comentário com o foco sobre a epidemiologia.
época histórica, foi paulatinamente garantindo Mais, especificamente pretendo ressaltar o
os direitos de cidadania e o controle da crimi- próprio aspecto discursivo – metafórico, en-
nalidade em países da Europa. A meu ver, a des- contrado no conceito de risco. Considere-se,
tradicionalização de certas instituições, sobre- por exemplo, o fato de não ser costumeiro o
tudo em sociedades capitalistas tardias, como emprego das designações “grande/pequeno”,
é o caso do Brasil, está se dando sem que direi- “forte/fraco” ou mesmo, “muito/pouco” para
tos básicos tenham sido sequer conquistados. indicar as características do risco, conforme
Em outras palavras, já se destradicionaliza o sua quantificação.
que sequer chegou a se consolidar plenamente Na verdade, os adjetivos utilizados nestas
nas democracias mais recentes. circunstâncias estão vinculados à idéia de ver-
Hoje, pensar a situação do jovem nas socie- ticalidade: “alto/baixo risco”. Estes se baseiam
dades contemporâneas, significa buscar com- no conceito metafórico (comum a outros con-
preender as situações de exposição a riscos ceitos científicos): “mais é em cima; menos é
e/ou vulnerabilidade, como queiram os espe- embaixo”, baseado na representação visual dos
cialistas de diferentes áreas do conhecimento, aspectos quantitativos em questão, sob o pon-
e se indignar com o fato de que cerca de sete to de vista de um “empilhamento” (como se
em cada dez jovens estão morrendo por uma aparece em determinados gráficos).
causa violenta, como acontece nas grandes Este conceito metafórico orientacional foi
metrópoles brasileiras. delineado por Lakoff & Johnson (1980). Os au-
É preciso admitir que existe uma parcela de tores esclarecem que sua formulação, tal como
jovens que não “escolhe” o risco-aventura dos apresentada, é limitada, pois não assinala a in-
esportes radicais. Para eles, viver é o grande risco- separabilidade das metáforas de suas respecti-
aventura. Em meio às mais inóspitas condições, vas bases experienciais. Estas, por sua vez, po-
esse risco-aventura é cotidiano e até por isso dem variar, mesmo em outras metáforas relati-
mesmo banalizado, seja no uso da arma de fogo vas à verticalidade. No caso de, por exemplo,
real como brinquedo, seja na quase indiferença “saúde e vida é acima, doença e morte é abai-
diante da morte freqüente de amigos e parentes. xo”, a base experiencial parece ser a posição cor-
Portanto, é para este grupo que se precisa poral que acompanha estes estados/condições.
aprofundar o conhecimento, visando a políticas Mais relevante ainda é a constituição do
alternativas e integradoras, sobretudo de inser- conceito de risco como uma peculiar metáfora
ção de camadas cada vez mais significativas de ontológica, ou seja, enquanto entidade vir-
jovens. O artigo em debate, certamente, tem uma tualmente detentora de substância. Ao trazer-
contribuição a dar nessa reflexão. se substância ao risco, este pode ser objetiva-

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1293

do, e assim, delimitado em termos de possíveis gências – neuro-cirurgiões, bombeiros (solda-


causas que, por sua vez, podem ser decompos- dos do fogo). O texto encerra sugerindo que
tas em partições. Esta operação estatística per- “sem alguma expressão de risco as pessoas po-
mitiria respectivas quantificações e eventual dem nunca conhecerem seus limites e portanto
estabelecimento de nexos – associações, cor- quem são como indivíduos”.
relações. Há na matéria tentativas de explicar o fenô-
O indivíduo, ao se expor a supostos “fatores meno. Entre elas, referências ao best seller de
de risco”, faz com que o risco, entidade incor- Peter Bernstein sobre risco. Deste, um comen-
pórea, passe a ter a propriedade de se materia- tário é destacado: para todas estas “coisas”
lizar sob sua forma nociva – que pode ser de- acontecerem é preciso um particular tipo de
nominada agravo (entre várias outras designa- ambiente. Tal ambiente enfatiza a presença da
ções), numa operação semântica equivalente a grande prosperidade norte-americana e a au-
que demarca doença em sua acepção metafó- sência de guerra envolvendo a participação di-
rica ontológica. Só que, neste caso, os riscos reta dos Estados Unidos por mais de uma dé-
“existiriam”, por um lado, como potenciais in- cada. Difícil avaliar o grau de pertinência des-
vasores de corpos. Mas, por outro, a ambiência tas afirmações. A reportagem inclui um inevi-
metafórica deste mundo virtual e fantasmático tável teste avaliativo – quiz – da capacidade de
dos riscos poderia adquirir visibilidade (e, por- se expor a riscos, elaborado pelo psicólogo –
tanto, concretude) nos resultados de exames entrevistado no texto – Frank Farley da Temple
imagéticos/testes laboratoriais indicativos dos University. Este, por sua vez, postula que correr
efeitos da exposição a fatores de risco. Por riscos conscientes envolve superar instintos e
exemplo, presença/ausência de displasia ma- sugere a existência de uma personalidade tipo
mária ou taxas elevadas do colesterol (espe- T – risk takers (com subtipos: T físico – atletas
cialmente LDL – o ruim...) ou ainda, mais mo- extremos, T intelectual – grandes cientistas...).
dernamente, nas testagens gênicas para câncer E conclui (suponho que com regozijo) com uma
de mama. extrapolação ao afirmar que os Estados Unidos
Mas não é necessária a corroboração médi- são uma nação tipo T. O espaço disponível e o
co-laboratorial para instituir a “visibilidade/ propósito deste comentário obrigam que evi-
presença do risco”. Basta ser obeso ou apresen- temos entrar no mérito dessas proposições...
tar trejeitos supostamente relacionados ao No Brasil, a editora L&PM lançará no verão
comportamento homossexual, para ser virtual- de 2001 uma sintomática coletânea chamada
mente incluído em determinadas condições en- Prazeres e Riscos (Machado, no prelo) – livro ir-
caradas como mais vulneráveis (Castiel, 1996). regular, mais estilo “leitura de bordo”, que mes-
Agora, antes de prosseguir, é preciso deixar cla pequenos textos de autores clássicos e con-
explicitado meu intento (talvez despudora- temporâneos de níveis bastante desiguais so-
do...) de imitar o bem sucedido expediente em- bre aspectos diversos que envolvem tal temáti-
pregado por Spink. Ou seja: também utilizar ca. Cícero (velhice), Baudelaire (vinho), Balzac
exemplos oriundos da imprensa leiga (e tam- (mulher de 30 anos), Dostoievsky (jogo) são
bém da literatura). Na edição latino-americana agrupados com Millor Fernandes (cidadania)
do conhecido semanário Time de 6 de setem- mas também com um cirurgião cardíaco, jor-
bro de 1999, a reportagem de capa mostrou um nalistas de Fórmula 1 e de culinária, um espe-
montanhista pendurado em uma rocha com cialista profissional em incursões por regiões
uma paradoxal fisionomia, aparentando um inóspitas (prazeres e riscos da aventura), entre
misto de deleite e esforço físico. A chamada outros.
enunciava: “Why we take risks. From extreme Revista Veja – edição de 25 de abril de 2001.
sports to unprotected sex, thrill is becoming mo- Matéria sobre tigres como animais de estima-
re popular (...)”. Localizado na seção apropria- ção nos Estados Unidos e uma menção a um
damente chamada “Aventura” – junto ao título empresário alemão naturalizado brasileiro que
do texto, Life on the Edge, segue o subtítulo per- cria um tigre de Bengala de quatro anos na sua
guntando se a vida cotidiana está ficando mui- fazenda em Santa Catarina. Diz ele: “É um de-
to enfadonha (dull) e porque, então, america- safio, e sem desafios a vida não tem graça” (Ve-
nos buscam (seek) o risco como nunca antes ja, 2001:76). O tigre habita uma área de três hec-
(Greenfeld, 1999). Há, em síntese, uma deta- tares, com cachoeira artificial (costuma banhar-
lhada descrição de muitas modalidades de es- se com freqüência) e come cinco quilos de car-
portes ditos extremos (ou radicais) incluindo ne por dia, podendo chegar a sete, quando fi-
corridas de Fórmula 1, de atividades ligadas a car adulto.
investimentos financeiros de risco em bolsas e Estas vinhetas servem, de certa forma, para
mercados, de profissões que lidam com emer- se juntar aos exemplos apresentados pela au-

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1294 SPINK, M. J. P.

tora. No entanto, elas pretendem ir além e en- Beck, assinalado no texto como referência
fatizar a impressão, salvo equívoco, de todas fundamental, postula a complexidade e a na-
referirem-se, na maior parte das vezes, a um tureza sistêmica (meu sublinhado) dos riscos
ponto de vista específico que se reitera ao lon- modernos – “riscos manufaturados, produtos
go dos exemplos, acentuadamente marcado dos desenvolvimentos da ciência e da tecnolo-
pelos signos do acesso aos mercados e da parti- gia” (Beck, 1993, apud Spink). No entanto, co-
cipação nos processos consumidores. Da mes- mo salienta Lupton (1999), as representações
ma forma, muitos dos autores que sustentam de Beck (e, de certa forma, também de Gid-
teoricamente as postulações de Spink, pare- dens) podem ser consideradas excessivamente
cem pertencer e analisar contextos equivalen- especulativas, tratando mais de processos es-
tes a partir de seus lugares de scholars, em ge- truturais e organizacionais, sem incluí-los de
ral, no lado de cima do Equador. Então, creio modo suficiente especificamente nos proces-
caber uma pergunta: “quanto” de suas proposi- sos reais e experiências da vida cotidiana e ins-
ções permanecem sustentáveis e válidas para o titucional. Pode-se, ainda, argumentar que Beck
lado de baixo dessa imaginária linha? Total- e Giddens em sua ênfase na individualização
mente? Parcialmente? Alguns determinados não dedicam um reconhecimento suficiente
aplicáveis a contingências específicas? Quais? quanto a aspectos simbólicos compartilhados
Para seguir adiante, em uma inflexão meta- do risco, sejam comunais, sejam estéticos.
fórica, vamos “amplificar” o felino menciona- A reflexividade não está apenas baseada em
do anteriormente e fazer referência ao dito avaliações de caráter cognitivo, mas também
movimento funk originário das favelas do Rio depende de interpretações, vinculadas a dimen-
de Janeiro. Houve grande visibilidade (e audi- sões sócio-culturais ainda localizadas, mesmo
bilidade) nacional nesse primeiro verão do no- em meio a processo desterritorializantes. As
vo século, com músicas de batida eletrônica re- respostas ao risco são também desenvolvidas
petitiva e letras de duplo sentido (às vezes nem mediante a pertença das pessoas a grupos e re-
tão duplo assim...) com fortes conotações se- des sociais, o acesso a recursos materiais e a in-
xuais. A música emblema (“vou passar cerol na clusão/exclusão nas relações de poder.
mão, assim, assim” etc...) foi confeccionada pe- A exemplo da figura mitológica, mescla de
lo conjunto autodenominado Bonde do Tigrão, humana e deusa, Ariadne – Beck e Giddens pro-
ou seja: um grupo de jovens do sexo masculino curam nos orientar no interior do labirinto (in-
dispostos em ritmo de aventura, de preferência clusive dos riscos) da modernidade tardia (Cas-
sexual. tiel, 1999). Mas, neste caso, creio que o próprio
Uma das celeumas ligadas a tal movimento Dédalo (que instruiu Ariadne a usar o fio con-
foi trazida pela divulgação da ocorrência de re- dutor para permitir Teseu encontrar a saída do
lações sexuais desprotegidas (eventualmente labirinto após matar o Minotauro) tem dificul-
múltiplas) no salão, no decorrer dos bailes. As dades para compreender as cambiantes dimen-
moças já viriam “preparadas” para essa possi- sões e formas desse labirinto tardo-moderno
bilidade, ou seja, desprovidas de vestes íntimas que se reconfigura autonomamente sem ces-
para uma suposta “facilidade de acesso”. Essas sar. Poderia Ariadne nos ajudar a escapar dos
circunstâncias seriam responsáveis por engra- alto-falantes do grande labirinto midiático on-
vidar e possivelmente contaminar com doen- de tonitroa o onipresente Tigrão que não parou
ças venéreas de distintos tipos e gravidade di- de nos acossar nos últimos tempos? Em outros
ferenciada. Algo talvez não diferente de muitos termos, como lidar com a pletora de novos e
bailes de carnaval, quando ocorrem situações excessivos signos que decerto continuarão a
onde vigoram estados euforizantes, propícios a ser gerados e, feito almas penadas, sairão à ca-
excessos/transbordamentos de várias ordens. ta de significados para depois desaparecerem
Ainda assim, não parece tão simples com- rapidamente, como ocorre nestes tempos si-
preendermos o repertório de significados en- multaneamente proliferativos e evanescentes?
volvidos nessa e em outra formas de exposição Latour (1999) refere-se ao mito de Dédalo
a riscos. Em particular, seriam aspectos do ris- para estudar o “coletivo de humanos e não-hu-
co-aventura no mesmo registro que as “formas manos” (forma com que o autor evita se referir
corrompidas dos ilinx modernos na perspectiva à “sociedade” e a “sujeitos” e “objetos”, por es-
do ordálio” a partir de Le Breton, referido por ses termos manterem vínculos com proposi-
Spink? E/ou, em termos mais gerais, como as- ções modernistas) constituído cada vez mais
pectos ligados à globalização, à individualiza- por artefactos técnicos e por suas intercone-
ção e à reflexividade da sociedade de risco na xões labirínticas com os humanos. Dédalo re-
modernidade tardia, tais como sugeridos por presenta bem a sinuosa configuração do saber-
Ulrich Beck? fazer técnico para além do caminho retilíneo

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1295

da razão e do conhecimento científico. Dédalo da vez mais inebriante experiência. Nem todos
também é outra forma de designar o “labirin- podem passar nessa prova. Aqueles que não po-
to” com suas curvas inesperadas, obrigando- dem são a ‘sujeira’ da pureza pós-moderna. (...)
nos a dar guinadas ao percorrer seus desvios. (O)s deixados de fora como um problema são
De modo bastante abreviado, nossos tem- consumidores falhos – pessoas incapazes de res-
pos labirínticos se caracterizam pela produção ponder aos atrativos do mercado consumidor
incessante e engenhosa de novas tecnologias e porque lhes faltam os recursos requeridos, pes-
correspondentes repercussões na ampliação e soas incapazes de ser ‘indivíduos livres’(...)”
na velocidade de circulação das trocas econô- (Bauman, 1998:23-24).
micas, na proliferação de estratégias de media- E eu acrescentaria: impossibilitados de es-
ção comunicacional, na multiplicação e dilui- colher e bancar sua inclusão nos afluentes e
ção das matrizes identitárias, no clima generali- múltiplos jogos de risco–aventura possíveis,
zado de ambiguidade quanto às perspectivas de proporcionados pela modernidade – ainda que
orientação em curto prazo e na crise de sentido. tardia. Algo situado para além do ruído causa-
A respeito desse último aspecto, uma aguda do pelos bondes dos tigrões ou de outras ativi-
observação de Georges Balandier (1999) mere- dades de risco impuras – como o surfe ferroviá-
ce ser mencionada para ilustrar a problemática rio ou pior ainda, a participação nos escalões
de estudar-se temas fugidios que dão margem inferiores do narcotráfico.
a polêmicas e permitem distintas abordagens,
eventualmente antagônicas. O etnólogo fran- BALANDIER, G., 1999. O Dédalo. Para Finalizar o
Século XX. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil.
cês enfatiza a grande fragilidade das palavras
BAUMAN, Z., 1998. O Mal-Estar da Pós-Modernidade.
quando se tenta explicar esses tempos vertigi- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores.
nosos. O vocabulário disponível consegue apre- CASTIEL, L. D., 1996. Moléculas, Moléstias, Metáforas.
ender precariamente tão-somente partes limi- O Senso dos Humores. São Paulo: I-Editora <http:
tadas do que acontece ao nosso redor. Mas lo- //www.ieditora.com.br>.
go, de modo difuso, um aspecto fragmentário, CASTIEL, L. D., 1999. A Medida do Possível. Saúde,
metonímico é confundido com o todo, tornan- Risco e Tecnobiociências. Rio de Janeiro. Editora
Contracapa/Editora Fiocruz.
do-se referência até ser substituído rapida-
CASTIEL, L. D., 2000. Dédalo dentro do dédalo? Iden-
mente por outro. tidade cultural, risco e promoção de saúde. In: VI
O grande problema, deste modo, é que es- Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – O Su-
sas construções não podem ser consideradas jeito na Saúde Coletiva, Anais, CD-ROM, Sal-
como sendo verdadeiras ou falsas. Pois, de al- vador: ABRASCO.
guma forma, referem-se a porções “reais” do GREENFELD, K. T., 1999. Life on the edge. Time,
153:16-20.
que existe. Mas, ao mesmo tempo, seu recorte
LAKOFF, G. & JOHNSON, M., 1980. Metáforas de la Vi-
é, muitas vezes, tomado não só como represen-
da Cotidiana. Madrid: Cátedra.
tante fidedigno do todo, mas como sendo o LATOUR, B., 1999. Pandora’s Hope. Essays on the Re-
próprio “todo”. Enfim, temos de admitir, a prio- ality of Science Studies. Cambridge: Harvard Uni-
ri, que operamos cada vez mais com conceitos versity Press.
e idéias precárias e sujeitas a controvérsias e LUPTON, D., 1999. Risk. Key Ideas. London: Routledge.
imprecisões (Castiel, 2000). MACHADO, I. P. (ed.), no prelo. Prazeres e Riscos. Por-
to Alegre: L&PM.
Sem dúvidas, o estimulante texto de Spink
VEJA, 2001. Bando de tigrões. Veja, 1697:76.
propicia, com extremo vigor, tanto reflexões
como indagações a respeito dos estranhos e
ambivalentes tempos em que vivemos. Estra-
nheza e ambivalência abordada por vários
pensadores – Ariadne, onde se destaca espe-
cialmente Zygmunt Bauman.
Acredito valer a pena citá-lo mais detida-
mente: “(n)o mundo pós-moderno de estilos e
padrões de vida livremente concorrentes, há
ainda um severo teste de pureza que se requer
seja transposto por todo aquele que solicite ser
ali admitido: tem de mostrar-se capaz de ser se-
duzido pela infinita possibilidade e constante
renovação promovida pelo mercado consumi-
dor, de se regozijar com a sorte de vestir e despir
identidades, de passar a vida na caça intermi-
nável de cada vez mais intensas sensações e ca-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 17(6):1277-1311, nov-dez, 2001


1296 SPINK, M. J. P.

formações de algum modo decisivas e de que


nossa vertiginosa história tecnológica do pre-
Maria Helena O risco-aventura e os limites de sente modula novas formar de sentir, essa his-
Cabral de Almeida uma teoria da história tória, por outro lado, remete-se para a produ-
Cardoso ção de novos sentidos que nos permitem ou-
O risco-aventura como metáfora na (da) mo- tras e mudadas interpelações com o mundo e
Instituto Fernandes Figueira, dernidade tardia, desde o início da leitura do seu conteúdo. Assim, é necessário abrir-se pa-
Fundação Oswaldo Cruz, Rio exercício de translocação conceitual empreen- ra as surpresas, para a heterogeneidade, para
de Janeiro, Brasil.
oscarmc@unisys.com.br dido por Mary Jane Spink, remeteu-me à noção múltiplas semioses e se isso pode ser qualifica-
de uma sociedade que, muito mais do que a do como aventura, então, bem vinda ela seja.
nomeada por Beck (1992), para além do poder Uma teoria da história que considere e se
disciplinar, advoga a si a delimitação da traje- preocupe em oferecer instrumental para uma
tória do homem, modulando seu tempo e sua prática crítica capaz de reconhecer as próprias
vivência pessoal. É como se a sempre presente “tecnologias semióticas” (Haraway, 1999) do
pergunta de Gauguin: “de onde viemos, quem homem para a fabricação de sentidos, talvez
somos, para onde vamos?” – fundamento de mais que constatar uma sociedade de risco a
nossa historicidade – estivesse respondida, não Beck, enseje refletir sobre o núcleo dela, ou se-
mais através de respostas múltiplas, diferentes ja, a questão da vigência atual de sociedades de
em substância e estrutura, mas num sentido controle, conforme o delineado por Deleuze
quase linear e especificado: viemos de uma he- (1992) e dentro delas pensar a ética da ação hu-
rança genética codificada, que conjugada com mana, sobretudo, na transformação do cami-
os fatores de risco nela compreendidos e aque- nho ditado pela metáfora do risco-aventura. É
les adquiridos, nos molda, e encaminhamos voltar-se para o “quem sou?” Pensar o ser ho-
para uma morte passível de ser probabilistica- dierno relacionado a um corpo que é ao mes-
mente datada se tais riscos forem considerados mo tempo propriedade e produto (Vaz, 1996).
e administrados. Fica implícita que a fase in- Propriedade porque é resultado de uma identi-
termediária – “o quem somos” – permanece li- dade construída pelo consumo e pela realida-
gada, talvez como jamais o fora, à idéia de li- de de que cada um de seus órgãos são matéria-
berdade, só que esta liberdade, agora, não está prima/produtos colocados à disposição de no-
mais numa condição de “essência”, como pen- vas tecnologias.
savam os iluministas, mas qualificada pela mar- Entretanto, pensar a ética da ação humana,
ca da opção e da escolha embutidas na “aven- dentro dessa nova realidade do corpo é tam-
tura” de viver. O que se pauta não é o reforço bém, no meu entender, não abdicar de um pro-
do conceito de livre arbítrio, pois nele se ins- jeto de (re)atualizar a vontade de utopia inter-
creve uma percepção teológica de mundo, mas ligada ao desejo e à necessidade, porque sem
a de liberdade/aventura perante a vida e a mor- ele não há como (re)equacionar o viver socie-
te. Não é mais Deus quem fez os homens e es- tário e, principalmente, as dimensões assusta-
ses, porque dotados de livre arbítrio, seguem doras assumidas pela fome e pela miséria em
ou não Seus desígnios. A escolha que atualmen- escala mundial. A democracia social deve per-
te se patenteia é de outra ordem. Não somos manecer no horizonte assim como a luta con-
dotados de livre arbítrio porque não há quem tra o esvaziamento do processo político. Tanto
sobre nós tudo sabe; somos, isso sim, dotados a transmutação para a política do corpo, quan-
de liberdade de opção e escolha de conduzir a to a assunção do risco-aventura como metáfo-
“aventura” de nossas vidas, mediante a gestão ra na (da) modernidade, parece-me, funciona-
das informações sobre todos e quaisquer riscos rem mais como símbolos do que signos/sinais
estudados, medidos e nomeados. Essa ilusão da realidade que se deseja/precisa mudar. Se
nos é vendida dentro das fronteiras de um mer- enquanto símbolos escapam, em parte, a um
cado alicerçado numa ordem social que, na fal- projeto de racionalismo totalizador, por outro
ta de uma reflexão mais profunda, eu chamaria lado não podem se limitar à mera constatação
de ordem social da imagem mediática. de um determinado modo de se apropriar do
E o que tal ordem parece pretender? Para mundo. Nesse sentido, faz-se necessário em-
mim é claro e, a própria argumentação levada preender uma ética de valorização da ação hu-
a cabo no texto de Mary Jane Spink, referenda- mana que precisa da materialidade histórica
a. Trata-se, como diz um dos personagens da de uma razão afetiva.
série Arquivo X, de “inventar” o futuro para me- A aventura não seria, então, aquela embuti-
lhor controlá-lo. Mas, se somos assolados, na da nos repertórios interpretativos do risco, mas
atualidade, por uma certeza de que algo mu- uma semelhante ao do camponês de uma “es-
dou, de que há muito viemos sofrendo trans- tória” sempre contada por Cornelius Casto-

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1297

riades em suas conferências (Heller, 1993). A identificar as novas formas de sensibilidade so-
“aventura” deste camponês era a do viver plan- cial da chamada modernidade tardia, trazendo
tando oliveiras para seus netos, pensando no para o exame público, de forma mais positiva e
quanto eles iriam usufruir do horto, o que fa- livre, o modo como estamos, ou podemos es-
zia, segundo ele, não por desprendimento, mas tar, construindo nossa sociabilidade. Aponta,
sim por prazer, porque via os arbustos cresce- nesse sentido, para uma mudança importante,
rem. Do risco-aventura, enquanto plot de uma que seria o abandono de uma normatividade
meta-narrativa sobre a tardo-modernidade, se de caráter disciplinar, fixadora de regras, para
pensássemos como o camponês de Castoria- outra, de caráter apenas regulador, criadora e
des, passaríamos à aventura ética de plantar, disseminadora de subsídios para a tomada de
mesmo sem a certeza de que alguém irá fazer decisões. Acrescenta a essa formulação a idéia
uso daquilo que plantamos, todavia podendo de que, em oposição à primeira, de tendência
desejar que alguém o faça. No caso não seria mais organizativa-conservadora, este horizon-
considerar o risco como ator histórico e, sim, te normativo recente seria mais vinculado à
considerar e aceitar a história como risco. ação, à aposta, ao enfrentamento do imponde-
rável, o “risco-aventura”.
BECK, U., 1992. Risk Society: Towards a New Moderni- Estou de acordo com a posição, solidamen-
ty. London: Sage Publications.
te sustentada pela autora, de que as sociedades
DELEUZE, G., 1992. Conversações. Rio de Janeiro:
Editora 34.
modernas transitaram de formas de sociabili-
HARAWAY, D., 1999. Situated knowledges. In: The Sci- dade mais fortemente apoiadas numa contra-
ence Studies Reader (M. Biagioli, ed.), pp. 172-188, tualidade explícita, disciplinar, para outras, on-
New York: Routlegde. de os modos de pactuar e exercer a coerção so-
HELLER, A., 1993. Uma Teoria da História. Rio de cial estão distribuídos de forma pulverizada e
Janeiro: Civilização Brasileira. internalizada nos indivíduos. Também concor-
VAZ, P., 1996. O Corpo-Propriedade. Rio de Janeiro:
do que o risco é, efetivamente, um elemento
Programa de Pós-Graduação em Saúde da Cri-
ança e da Mulher, Instituto Fernandes Figueira. fundamental para essa passagem. Resta então,
(mimeo.) o desafio, proposto pela autora, de avaliar criti-
camente o significado desse “risco-aventura”
nas sociedades ditas “pós-modernas”.
Pensada em relação ao móvel ético de uma
sociedade solidária, livre e criadora, o que sig-
nifica a penetrante idéia de gestão de riscos?
De que “aventura” estamos falando quando si-
nalizamos positivamente o “expor-se a danos”
por ousar, por fazer acontecer, desqualificando
José Ricardo de Risco e imponderabilidade: superação como “sonolenta” a opção por não correr ris-
Carvalho Mesquita ou radicalização da sociedade disciplinar? cos? Os exemplos trazidos pela autora me pa-
Ayres recem muito fecundos em mostrar alguns ele-
É sempre um grande prazer e, na mesma medi- mentos discursivos comuns e bastante pode-
Departamento de Medicina da, um desafio debater as contribuições con- rosos. Fala-se do indivíduo quando se fala em
Preventiva, Faculdade de
ceituais que a Professora Mary Jane Spink tem gestão de risco, não de grupos, muito menos de
Medicina, Universidade de
São Paulo, São Paulo, Brasil. trazido para o campo da saúde e das ciências comunidades – e a imagem (não autorizada)
jrcayres@usp.br sociais. No presente artigo, Spink nos deixa, do operário solitário em plena megalópole é
uma vez mais, diante de uma série bastante ri- aqui emblemática. Mais, esse indivíduo é con-
ca e complexa de questões. Entre os diversos cebido sempre contra o pano-de-fundo de um
aspectos levantados, será necessário, claro, fa- meio hostil, desconhecido, no mínimo desa-
zer um recorte que torne possível o diálogo no fiante, no qual ele tem de vencer, vencer por
limitado espaço destinado a esses comentá- sua ousadia, por sua coragem, por sua capaci-
rios. Nesse sentido, procurarei deter-me, fun- dade de ação. Para completar a “sagrada” trin-
damentalmente, na tese da transformação, na dade, a figura redentora de uma mercadoria –
idéia de que, por trás das mudanças que a pa- sempre uma tecnologia, um saber fazer – que
lavra risco foi experimentando ao longo de sua garante que, afinal, esse indivíduo prevaleça,
vida discursiva, existe uma ruptura significati- seja preservado, tenha... segurança(!).
va de condições/exigências de validade no ho- Não sei se exagero no pessimismo, mas
rizonte normativo da modernidade. atentando bem para esse discurso, não me pa-
A proposta de reflexão do artigo parte de rece difícil reconhecer o “velho e bom” darwi-
um claro móvel prático: o desafio, ao mesmo nismo social. Meio eclipsada a certa altura do
tempo técnico, teórico-filosófico e ético, de século XX, pela maré vermelha das revoluções

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1298 SPINK, M. J. P.

socialistas, ou pelo brilho caro do Estado do


bem-estar social, a perspectiva ideológica da
existência como atualidade da saga particular Simone Monteiro, Naturalização do risco:
dos indivíduos (tecnologicamente) mais com- Elizabeth do molde à modulação?
petentes parece cruzar toda a Modernidade, Moreira dos Santos
desde o período clássico – com as promessas A estrutura híbrida do campo da saúde pública
onipotentes das Luzes – até o nascente século Instituto Oswaldo Cruz, (saberes e práticas), as características de sua
XXI – com sua extraordinária capacidade de Fundação Oswaldo Cruz, produção teórica e a importância da categoria
Rio de Janeiro, Brasil.
processar probabilidades. Mesmo quando no msimone@ioc.fiocruz.br risco na informação de sua vertente interven-
matricial pensamento bio-evolucionista, a idéia cionista, fazem deste debate um exercício de
Departamento de
de competição indivíduo-meio-indivíduo já encantamento e razão. O jogo de desconstru-
Endemias Samuel
está largamente superada, prestando-se mais e Pessoa, Escola Nacional ção da argumentação para atá-la em novos ní-
mais atenção para a interdependência e a coo- de Saúde Pública, veis de abstração, recuperando fios e diferen-
Fundação Oswaldo Cruz,
peração na transformação das formas de vida ciando dimensões e significados, dão o sentido
Rio de Janeiro, Brasil.
como ideologia social, o darwinismo parece bmoreira@ensp.fiocruz.br de pertinência de nossa prática ao mundo con-
ainda muito vivo e eficaz. É como porta-voz temporâneo. É daí que estamos falando, da prá-
dessa ideologia que a onipresença e a onipo- tica intelectual, de um campo sem limites seto-
tência mercadológica do discurso do risco me riais e da possibilidade de teorização sobre os
parece mais compreensível. Nem liberdade, usos de linguagem de uma noção que opera-
nem criatividade: faça-se, sem pensar; faça vo- cionaliza em instâncias coletivas (como no ca-
cê e consuma o “como fazer” (tecnó-logos) pa- so da gestão ambiental) e individual (como no
ra ser vitorioso. Portanto, disciplina ainda, a caso da incorporação de comportamentos sau-
pior delas, aquela cuja finalidade conhecemos dáveis). Nesse sentido, podemos dizer que o
cada vez menos e contra a qual se torna mais e texto de Mary Jane Spink, Trópicos dos Discur-
mais difícil se rebelar, à medida que ela vai se sos sobre Risco: Risco-Aventura como Metáfora
tornando menos e menos visível e, portanto, na Modernidade Tardia é, sem dúvida, um en-
menos acessível ao pensamento, conforme o saio instigante.
diagnóstico “melancólico” dos Frankfurtianos. Tendo por base a descrição dos sentidos
Mas não se preocupe a autora, que o efeito históricos do conceito de risco, a autora procu-
da reflexão que tão agudamente nos traz com ra demonstrar que “a noção de risco, entendida
seu artigo, não me leva a um diagnóstico fa- na perspectiva da linguagem em uso, permite
talista e paralisante. Ainda com a Escola de explorar as mudanças que vêm ocorrendo nas
Frankfurt, vejo no pessimismo filosófico ape- formas de controle social”, interpretadas como
nas a outra face de um otimismo prático incor- a transição da sociedade disciplinar (caracte-
rigível (espero). É que, até onde consigo pensar rística da modernidade clássica) para a socie-
a questão, se não estivermos atentos para o dade de risco (identificada na modernidade
“risco-espetáculo” – tão bem representado por tardia). Fundamentada nesse ponto de vista, a
No Limite, recente sucesso de Ibope – atrás, autora tece considerações sobre as atuais for-
através e para além do risco-aventura, vamos mas de destradicionalização do risco e define o
apenas continuar perdendo vidas jovens nos seu termo argumento, o risco aventura, para
esportes radicais (esses sim, sem qualquer pos- “enfatizar um deslocamento importante dos
sibilidade de cálculo e gestão de danos) e po- sentidos modernos do risco que recuperam a
demos perder chances preciosas de pensar o aventura como dimensão positivada da gestão
indivíduo como o inseparável par “eu-outro”, de riscos”. Teoricamente é a noção de repertó-
de conceber a felicidade não “contra o mundo”, rio interpretativo (Potter & Wetherell, 1987) que
mas “no mundo e pelo mundo” e de construir fundamenta a análise das figuras de lingua-
o conhecimento não como simples mercadoria gem, que no texto explicitam os movimentos
para consumo de êxitos técnicos mas, funda- (síntese e reposicionamento) das mudanças de
mentalmente, como poética social de sucessos sentido observadas no uso de risco na lingua-
práticos. gem, seja através de sua dimensão institucio-
nalizada como discursos cristalizados, seja na
perspectiva dinâmica do uso no contexto das
práticas discursivas. Trata-se de uma forma es-
pecífica de análise narrativa.
Uma transposição lógica do texto nos pare-
ce problemática. A imbricação nos usos de lin-
guagem do risco (tomando por base de pesqui-
sa os textos referidos pelo autora) com a análi-

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1299

se. A historicidade do controle da incerteza em Ressaltamos, por fim, que as reflexões de


nível dos saberes, seja na forma da magia, reli- Spink sobre as “novas modalidades de uso dos
gião ou ciência, aqui entendida em todo o seu repertórios interpretativos sobre o risco” contri-
conjunto de disciplinas, implica numa media- buem para o campo da saúde pública, na me-
ção entre a história de sua produção e o modo dida em que lançam luzes sobre as interven-
de produção em que eles se inscrevem. É ne- ções do controle de riscos, sejam eles como fa-
cessário frisar que essa relativização metodo- tores de ordem individual ou coletiva, orienta-
lógica não tem a ver com análises reducionis- das por escolhas racionais cuja lógica está in-
tas, mas procura problematizar pelo menos formada pela economia material ou simbólica,
duas questões de fundo: a metamorfose das re- centrada nas óticas do custo eficiência, ganho
lações sociais e a mudança da base produtiva e perda etc. Cabe registrar que investigações no
industrial para a sociedade do conhecimento. campo da saúde têm demonstrado que a per-
Como pontuado pela autora e discutido por cepção do risco de uma doença e a adoção de
Foucault (1977), o poder sobre a vida nas socie- medidas preventivas não estão limitadas ao
dades modernas se constitui em dois pólos in- acesso a informações e à decisão individual; as
terligados entre si por múltiplas redes de rela- mesmas decorrem de um processo dinâmico,
ções. O primeiro pólo se refere ao desvenda- construído a partir da experiência social e da
mento e produção de discursos e práticas so- visão de mundo dos sujeitos. Nessa perspecti-
bre o corpo humano, abordando-o enquanto va, estão conjugadas as representações das for-
máquina a ser otimizada, disciplinada em sua mas de vulnerabilidade à doença, assim como
docilidade e produtividade. Esse pólo se orga- a percepção pessoal do risco e dos meios de
niza num conjunto de dispositivos disciplina- controle do mesmo. As conexões entre a expe-
res, que Foucault denomina anátomo-política riência social e as representações e práticas de
do corpo. O segundo pólo, centrado em pro- risco (ou de proteção) devem ser entendidas à
cessos biológicos e sociais tais como reprodu- luz das mudanças nos sentidos de confiança e
ção, nascimento e morte, emerge de processos risco, promovidas pelas condições da moder-
de controle aos quais Foucault denomina bio- nidade (Giddens, 1991).
política das populações. É importante recupe- Pondera-se todavia, que algumas aproxi-
rar essas dimensões, uma vez que através delas mações propostas no texto, por exemplo a
o autor constrói a categoria dispositivo e o qua- transposição dos repertórios interpretativos
lifica como disciplinar. Conforme discutido por acerca do risco, originários dos discursos sobre
Deleuze (1992), Foucault situou as sociedades os indivíduos, para discursos referentes ao ris-
disciplinares, contrapondo-as às sociedades de co no plano coletivo são problemáticas. A utili-
soberania, e sistematicamente sinalizou a bre- zação da análise narrativa é um instrumental
vidade daquele modelo. pertinente à análise de discursos, entretanto, o
Para Deleuze, as sociedades da modernida- texto em foco, no qual não são explicitados os
de tardia têm se transformado de sociedades exames parciais das fontes utilizadas, dificulta
disciplinares em sociedades de controle, em a lógica da argumentação. Nos parece assim,
que o molde (veiculado pela fábrica, pela esco- que a reflexão proposta necessita ampliar arti-
la, pelo hospital) é substituído pela modulação. culações entre categorias dos diferentes cam-
Em suas palavras: “uma moldagem auto defor- pos e saberes referidos, para que melhor subsi-
mante que mudasse a cada instante” (Deleuze, die a compreensão de representações e práti-
1992:221) em que, por exemplo, a empresa cas em saúde coletiva.
(sem forma fixa, gás) substitui a fábrica (mol-
de, corpo). O princípio modulador, diz o autor, DELEUZE, G., 1992. Conversações. Rio de Janeiro:
Editora 34.
se objetifica em controlatos (por exemplo o sa-
FOUCAULT, M., 1977. A Vontade do Saber. Rio de
lário por mérito, a formação permanente) que, Janeiro: Graal.
de forma complexa, se imbricam em geometria GIDDENS, A., 1991. As Conseqüências da Moder-
variável. Geometria esta imagética e virtual, nidade. São Paulo: Editora Unesp.
como discutida por Virilio (1993). A vinculação VIRILIO, P., 1993. O Espaço Crítico. Rio de Janeiro:
discursiva risco e controle é inerente, mas se Editora 34.
inscreve em esferas de análise diferentes, que
só podem ser clarificadas tomando-se como ba-
se a sociedade do conhecimento, em que a in-
formação é o produto principal de acumulação,
modulador fundante dos processos de gestão
da produção, hoje acontecimento sistêmico e
simultâneo.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 17(6):1277-1311, nov-dez, 2001


1300 SPINK, M. J. P.

preservativo (Diario Clarín, Avisos Clasificados,


Rubro 59, Argentina). Detengámonos en este
Silvana Inés Weller Mientras seguimos padeciendo los efectos ava- espacio microsocial: hay dos personas unidas
salladores del “riesgo control”, mientras segui- por una relación asimétrica (cliente, “presta-
Departamento de Medicina mos buscando evidencias para poner de mani- dor”), hay dos condiciones materiales de exis-
Preventiva e Social, fiesto el modo en el que se juegan los deseos en tencia (alguien quiere comprar, alguien necesi-
Faculdade de Ciências
Médicas, Universidade las conductas llamadas “riesgosas”, Spink tiene ta vender) y, por lo tanto, dos relaciones con el
Estadual de Campinas, la generosidad de alertarnos sobre los nuevos futuro. El cliente que paga tal vez podría ser
Campinas, Brasil.
ropajes que adopta el riesgo en la modernidad ubicado como alguien en busca de aventura,
Silvana.Weller@connmed.
com.ar tardía. Así, la primera sensación que nos inva- aumento de adrenalina, sexo con riesgo para
de luego de la lectura del excelente trabajo es aumentar la excitación. Entiendo que el artícu-
la de que hemos sido burlados en “nuestras lo de Spink nos brinda categorías para analizar
mejores intenciones”; el efecto de la ironía. Sin la situación de la otra persona de nuestra esce-
embargo, es difícil dejar de reconocer la vigen- na, la persona (varón o mujer) que está cobran-
cia de los conceptos desarrollados en el artícu- do más dinero por una relación donde se “ar-
lo en las noticias cotidianas, en los debates riesga” (o enfrenta el peligro!) a infectarse por
académicos sobre algunos tópicos, en las prác- el virus de la inmunodeficiencia humana (VIH)
ticas y representaciones de los usuarios y pro- a cambio de más dinero. ¿Son equiparables
fesionales de los servicios de salud. Un primer ambas situaciones? El nuevo discurso del ries-
punto para el debate es la propuesta de consi- go es una nueva modalidad de encubrimiento
derar – de hecho está colocado en el texto – la de las inequidades sociales, ya que, al equipa-
posibilidad de pensar este momento como una rar lo inequiparable, encubre las variaciones de
transición donde es posible encontrar los efec- opción de los diferentes grupos humanos.
tos de las dos modalidades; riesgo control y El viaje del millonario Tito al espacio bien
riesgo aventura. El fenómeno del autocuidado podría ser un ejemplo más de la fase de ironía
en salud puede ser pensado como una superfi- del riesgo, con la consecuente idea de arriesgar
cie que permite cristalizar situaciones que ha- la vida para que ésta tenga un sentido. Sin em-
cen de borde (y zona de pasaje) de los dos mo- bargo, hay millones de personas que, lejos de
delos (riesgo control, riesgo aventura). subir a una nave espacial para experimentar el
Para el caso del sida, y utilizando el recono- riesgo-aventura, están subiendo a un barco o a
cimiento del otro como deseante (y no como una balsa huyendo del peligro, de la muerte se-
sujeto de la norma) a modo de hilo conductor, gura (por violencia política, por hambrunas,
podemos describir – simplificadamente – el si- por falta de trabajo). Dependiendo de la inser-
guiente movimiento ocurrido en los últimos ción social de las personas, de su contexto his-
catorce años: las primeras recomendaciones tórico social, un grupo de gente sobre una bal-
para evitar la transmisión del VIH iban en una sa puede estar practicando turismo aventura y
dirección que parecía casi negar rasgos de hu- en ese sentido expresar el trópico de la ironía.
manidad a las personas afectadas, llegándose a Por el contrario, si ese grupo de gente (que tal
proponer que un modo de evitar la transmisión vez esté en otra balsa, en el mismo mar) se en-
era que las personas infectadas tuvieran rela- cuentra huyendo de un país en guerra, la liga-
ciones entre ellas. Con el paso del tiempo, los zón al riesgo aventura traería un quinto trópi-
aportes de las ciencias sociales y las ciencias de co del discurso, el oximorón, esto es la relación
la subjetividad lograron modificar el escenario sintáctica de dos antónimos. A modo de ejem-
al poner de manifiesto que las dificultades de plos: “esta oscura claridad, que cae de las estrel-
grandes grupos de poblaciones para lidiar con las”; “la música callada, la soledad sonora”
el preservativo estaban vinculadas a fenóme- (Ducrot & Todorov, 1979:319).
nos culturales y subjetivos que hacían de obs- Retomando entonces la visión panorámica
táculo a los mandamientos normativos pre- de los sentidos históricos del riesgo, Spink
ventivos (v.g.: pérdida de la erección, deseos de marca que el paso del peligro, fatalidad al con-
fusión con el otro, existencia de relaciones de cepto de riesgo “emerge para falar da possibili-
poder asimétricas en gran parte de las relacio- dade de ocorrência de eventos futuros em um
nes sexuales, etc.). Las personas no se “arriesga- momento histórico em que o futuro passava a
ban” a infectarse con el VIH, les pasaban otras ser pensado como passível de controle” y que
cosas. Sin embargo, y entrando en la fase de la “as disposições sobre o futuro estão associadas
ironía, encontramos hoy una proliferación de às condições materiais de existência”. Conside-
avisos clasificados en periódicos de gran tirada rando las inequidades sociales a las que nos he-
que promocionan de modo explícito oferta de mos referido, es preciso preguntarnos por las
servicios sexuales a mayor precio, sin uso del futuras derivaciones del interjuego del “riesgo-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 17(6):1277-1311, nov-dez, 2001


TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1301

aventura” y la realidad material de millones de vência e a busca para a prosperidade em um


personas que hoy parecen vivir simplemente mundo dominado por aparente caos e incerte-
en peligro. zas, permitindo substituí-lo por outro, domi-
nado pela ordem e a previsibilidade (Freitas,
DUCROT, O. & TODOROV, T., 1979. Diccionario Enci- 1997).
clopédico de las Ciencias del Lenguaje. México,
A concepção elitista de democracia se en-
DF: Siglo Veintiuno Editores.
contra na base do que Giddens (1990) denomi-
na de sistemas abstratos de confiança, que en-
volvem as instituições da modernidade que or-
ganizam os principais aspectos de nossa vida
cotidiana e que se encontram vinculadas às
questões decisivas relativas à segurança, risco
e perigo no mundo moderno. Para a concepção
elitista de democracia, a preocupação maior é
manter a estabilidade de um sistema social ba-
Carlos Machado Diferentes atitudes frente ao risco e diferentes seado no utilitarismo. A limitação da participa-
de Freitas projetos de modernidade ção dos cidadãos nos processos decisórios não
é apenas aceita, mas também justificada como
Centro de Estudos em Saúde O debate sobre o termo risco e seus discursos sinal de fé e lealdade para com o sistema e suas
do Trabalhador e Ecologia na modernidade são um tema atual e de gran- elites técnicas e políticas, essas sim, capazes de
Humana, Escola Nacional
de Saúde Pública, Fundação de importância para o campo da Saúde Públi- realizar os melhores julgamentos para a maxi-
Oswaldo Cruz, Rio de ca, pois sempre nos remete à possibilidade de mização de ganhos para todos (Freitas, 1997).
Janeiro, Brasil.
debatermos diferentes projetos de sociedade e Na modernidade tardia, assistimos ao triun-
cmfreitas@ensp.fiocruz.br
de modernidade. fo do projeto de uma sociedade industrial e ca-
O termo risco surge com o próprio processo pitalista, em que as preferências individuais e
de constituição das sociedades contemporâ- escolhas sociais reproduzem, em maior ou me-
neas a partir do final do Renascimento, quan- nor grau, uma ordem instrumentalmente ra-
do ocorreram intensas transformações sociais cional que tem como referência o mercado. En-
e culturais associadas ao forte impulso nas tretanto, falhou a perspectiva de que a expan-
ciências e nas técnicas, às grandes navegações são e intensificação da intenção de controle de
e à ampliação e fortalecimento do poder políti- riscos modernidade, como modo de regular,
co e econômico de uma nascente burguesia normatizar e submeter o futuro ao nosso do-
(Freitas, 1997). Constitui-se em uma das for- mínio, representaria para muitos a liberdade, a
mas de expressão de um projeto de organiza- felicidade ou a satisfação de suas necessidades.
ção social, política, econômica e cultural que, Hoje, somos todos forçados a reconhecer a im-
tendo suas origens na nascente burguesia da previsibilidade das ameaças provocadas pelo
Europa Ocidental, foi cada vez mais se esten- desenvolvimento técnico-industrial e a procu-
dendo sobre todo o planeta e se intensificando rar modos diferentes de relação com a incerte-
nas sociedades que atingiu. Neste projeto, o za, tornando-se obscurecido o horizonte de
homem, através de ações racionais que objeti- um mundo e um futuro controlados pela razão
vam ordenar o mundo em que vive, deve deter- instrumental (Beck, 1997; Giddens, 2000).
minar seu próprio futuro, transformando-o em Neste contexto atual, conforme observa
um território a ser conquistado ou colonizado Beck (1997), alguém que considere o mundo
e que lhe possibilitará alcançar a liberdade, a como um risco irá se tornar incapaz de agir, de
felicidade ou a satisfação das suas necessida- modo que vem se produzindo o oposto, sendo
des (Giddens, 2000; Toraine, 1994). o risco-aventura apenas uma das diversas ati-
Neste processo histórico dois fundamentos tudes constituídas para enfrentar a imprevisi-
moldaram o termo risco e suas aplicações na bilidade dos riscos modernos. Thompson &
modernidade, sendo estes: a perspectiva utili- Wildavsky (1983), por exemplo, na perspectiva
tarista e a concepção elitista de democracia. de uma teoria cultural dos riscos, identificam
Para a perspectiva utilitarista, as ações ra- cinco atitudes, tais como: indivíduos atomiza-
cionais dos indivíduos deveriam ser orientadas dos (a vida é uma loteria, os riscos estão fora de
para determinados fins com o objetivo de al- controle e a segurança é uma questão de sor-
cançar os melhores resultados; felicidade, utili- te), burocratas (riscos são aceitáveis enquanto
dade, satisfação, entre outros, sendo o merca- as instituições têm rotinas para controlá-los),
do o protótipo do processo que liga as prefe- eremitas (riscos são aceitáveis enquanto não
rências individuais às escolhas sociais e sua le- envolvem a coerção de outros), igualitários (ris-
gitimação. Orienta a luta pela própria sobrevi- cos deveriam ser evitados a menos que sejam

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1302 SPINK, M. J. P.

tive (H. C. Kunreuther & E. V. Ley, ed.), pp. 145-


inevitáveis para proteger o bem público) e em- 161, Berlin: Springer-Verlag.
preendedores (riscos oferecem oportunidades e TOURAINE, A., 1994. Crítica da Modernidade. Rio de
devem ser aceitos em troca de benefícios). Es- Janeiro: Editora Vozes.
tas diferentes atitudes, como observam os au-
tores, manifestam que as escolhas dos riscos e
de como viver, são tomadas conjuntamente, já
que a seleção das formas de organização social
predispõe as pessoas a selecionarem determi-
nados riscos em detrimento de outros e de ou-
tras formas de organização social. Também ma-
nifestam as contradições de um projeto de mo-
dernidade para o qual as ações racionais que Rita Barradas O artigo em questão apresenta uma diversida-
buscam ordenar o mundo, deveriam ter como Barata de muito grande de planos de análise tornando
fundamentos somente a perspectiva utilitaris- relativamente temerária a tarefa de debatê-lo.
ta e uma concepção elitista de democracia. Santa Casa de Para não incorrer então nas inúmeras “armadi-
Misericórida,
O que se encontra por trás das atitudes e lhas” apresentadas pela autora, optei por colo-
São Paulo, Brasil.
discursos sobre o risco e dos debates que lhe ch.medsoc@santacasasp. car-me estritamente da perspectiva de um pra-
acompanham na modernidade são diferentes org.br ticante da Epidemiologia, campo no qual o con-
projetos de sociedade. Dentre esses projetos ceito de risco desempenha papel nuclear.
podemos considerar que o risco-aventura sim- O conceito de risco, estrito senso, em qual-
boliza aquilo que Giddens (1990) denomina de quer campo de saber científico ou tecnológico
radicalização do projeto da modernidade. Na em que venha a ser utilizado, tem um único e
sua forma mais ambiciosa, aprofunda o indivi- preciso significado: probabilidade de ocorrên-
dualismo e afirma que o homem é o que ele faz, cia de um evento de interesse. Entretanto, quan-
reduzindo a sociedade e nossas vidas a uma do se trata de olhar, como faz a autora, para a
empresa lutando para sobreviver num merca- linguagem em uso ou para os usos da lingua-
do internacional. Os poderes ocultados pas- gem em diferentes domínios do saber, aí in-
sam cada vez mais a ser definidos em termos cluído o plano do cotidiano, ocorre uma verda-
de gestão e de estratégia, que individualizadas deira “explosão polissêmica” que esvazia o con-
e restritos ao espaço privado, deixam, como teúdo estritamente conceitual da palavra risco,
observa Torraine (1994), apenas um abismo dando lugar a uma noção multifacetada, carre-
sem fundo lá onde havia o espaço público, so- gada de valor.
cial e político. Trazer para o debate outras ati- Mantendo-se fiel ao conceito de risco, não
tudes e discursos sobre os riscos na moderni- haveria como atribuir-lhe conotações negati-
dade, que envolvem outros projetos de socie- vas ou positivas, visto que o cálculo da proba-
dade, como os que orientam as críticas dos jo- bilidade de ocorrência de um evento é em si
vens, partidos de esquerda e organizações não- mesmo, um procedimento neutro. Todavia, as
governamentais ao processo de globalização atribuições de sentido operadas no interior das
em curso e seus riscos para a saúde e o meio práxis discursivas conferem à noção de risco
ambiente é, então, de vital importância. Spink ora sentidos positivos, como alguns daqueles
perde essa oportunidade, ao limitar sua abor- pontuados pela autora ao apresentar a idéia de
dagem a apenas uma perspectiva do risco. risco-aventura, ora sentidos negativos, como
ocorre mais freqüentemente no interior do dis-
BECK, U., 1997. A reinvenção da política: Ruma a curso epidemiológico e na prática em Saúde
uma teoria da modernização reflexiva. In: Mod-
Pública.
ernização Reflexiva – Política, Tradição e Estética
na Ordem Social Moderna (U. Beck, A. Giddens &
Os variados usos que a palavra risco tem,
E. Lash, org.), pp. 11-71, São Paulo: Editora Unesp. principalmente no cotidiano, correspondem
FREITAS, C. M. & GOMEZ, C. M., 1997. Análise de freqüentemente a um processo de reificação
riscos tecnológicos na perspectiva das Ciências do conceito levando à confusão entre a possi-
Sociais. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, bilidade de ocorrência de um evento e as cir-
3:485-504. cunstâncias ou elementos “responsáveis” por
GIDDENS, A., 1990. As Conseqüências da Moder-
essa ocorrência. Este efeito pode ser verificado
nidade. São Paulo: Editora Unesp.
GIDDENS, A., 2000. Mundo em Descontrole – O Que a no próprio texto aqui analisado quando a au-
Globalização está Fazendo de Nós? Rio de Janeiro: tora se refere ao fato de que na etapa pré-capi-
Editora Record. talistas “esses eventos (terremotos, furacões e
THOMPSON, M. & WILDAVSKY, A., 1983. A proposal outras desgraças) não eram denominados ris-
to create a cultural theory of risk. In: The Risk cos. Eram referidos como perigos, fatalidades,
Analysis Controversy – An Institutional Perspec-
hazards...”. Aqui, a primeira armadilha nesse

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1303

terreno pantanoso da discussão do risco. A con- ta, para demarcar as diferenças entre os sécu-
fusão muito comum entre o processo – possibi- los XVIII e XIX, entendendo a contemporanei-
lidade de ocorrência – e suas possíveis “causas”. dade como um aprofundamento das caracte-
Ao se passar do campo conceitual para os rísticas da modernidade?
usos de linguagem, ocorrem inúmeros desliza- Ao determinismo mecânico do século XVII,
mentos e, talvez, a mudança mais expressiva se o período das Luzes veio acrescentar a fé cega
faça justamente na incorporação de um valor na razão. A incerteza é vista aí apenas como
negativo à idéia de risco. Na Saúde Pública e na um sinal da precariedade dos conhecimentos
Epidemiologia, as medidas de risco remetem a já alcançados pelas ciências naturais. A crença
probabilidades absolutas ou relativas de ocor- na Razão pressupõem que, mais dia menos dia,
rência de doença, morte ou outras situações as leis de funcionamento da natureza e da so-
deletérias para a saúde, sendo portanto, quase ciedade serão conhecidas e portanto, poderão
que automática a vinculação entre a noção de ser aplicadas para “domesticar” o futuro. O mo-
risco e a idéia de agravos negativos. Esta, uma dernismo no entanto porá por terra essa cren-
segunda armadilha armada entre a formulação ça. A velocidade e a instabilidade serão suas
e a utilização do conceito, cujas implicações e marcas. “Tudo o que é sólido desmancha no ar”
efeitos nem sempre estão claramente eviden- como muito bem enfatizou Marx, no Manifes-
ciados. to Comunista.
As três áreas identificadas pela autora no O conceito de risco, assim como o grande
campo da análise de riscos têm seus equivalen- desenvolvimento da estatística, principalmen-
tes na Epidemiologia e na Saúde Coletiva. O te da teoria das probabilidades, provavelmente
cálculo dos riscos, a percepção do risco pelo aparecem como formas de lidar com a indefi-
público e a gestão deles podem ser vistos como nição nas quais a imprevisibilidade é substituí-
etapas da produção, divulgação e aplicação de da pelo cálculo de graus de incerteza.
conhecimentos epidemiológicos no que tange A equação em jogo não parece ser funda-
ao processo saúde-doença em coletividades. mentalmente a de oposição entre solidarieda-
Assim, é parte das tarefas da epidemiologia en- de e eqüidade versus iniqüidade e egoísmo,
quanto disciplina científica, efetuar o cálculo mas antes, a oposição entre previsível e impre-
de risco para a ocorrência de doenças e agra- visível.
vos à saúde de populações ou de suas frações Outra aspecto que poderia ser considerado
em determinadas situações ou contextos. Uma na análise da posição proeminente da noção
vez produzidos, esses conhecimentos destinam- de risco na modernidade, diz respeito à opera-
se, em parte, a provocar mudanças de compor- ção de redução de todas as qualidades dos ob-
tamento entre as pessoas e para isso devem ser jetos a apenas uma: a quantidade. O fetiche do
divulgados ao público em geral e incorporados número, que em parte, decorre de seu caráter
a suas práticas cotidianas, do mesmo modo objetivo, neutro, não controverso, marca de
que, destinam-se a informar a prática dos pro- maneira importante a modernidade e, sem dú-
fissionais de saúde. Finalmente, as propostas vida, contribui para a relevância conferida à
de políticas e programas voltados para a prote- noção de risco.
ção e recuperação da saúde podem ser vistas A passagem da sociedade disciplinar para a
como ações no âmbito da gestão de riscos. sociedade de riscos merece um olhar mais de-
Assim sendo, a análise de riscos deveria ser tido. Os dois pólos podem estar nitidamente
avaliada, mais propriamente, como um instru- delineados, entretanto, a transformação ou
mento ou uma tecnologia (no sentido amplo ruptura de um momento a outro não está sufi-
do termo tecnologia) potencialmente aplicável cientemente elucidada. Como, quando e por-
a distintos âmbitos da vida, não se constituindo que a disciplina deixa de ser a forma efetiva de
em um campo interdisciplinar mas podendo administração do futuro, cedendo espaço à
ser aplicada a diferentes ordens de problemas. gestão de riscos?
Talvez as perguntas centrais sejam porque Embora o projeto da autora fosse analisar o
e como a noção de risco chegou a ser domi- emprego da noção de risco no contexto da teo-
nante na modernidade tardia? Que necessida- ria dos jogos, da economia, da saúde e da bio-
des concretas estão sendo atendidas através da tecnologia o que se viu no presente texto foi a
análise de riscos? Que características tem essa análise do uso cotidiano da noção de risco tal
episteme na qual a noção de risco adquire ta- qual ela aparece na mídia impressa aplicando-
manha importância? se ora a um, ora a outro desses conteúdos.
Não seria preferível adotar a designação de A rigor a autora não faz a análise do uso da
Foucault, diferenciando um período “clássico” noção de risco em diferentes domínios do sa-
antecedendo a modernidade propriamente di- ber. A análise volta-se exclusivamente para o

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1304 SPINK, M. J. P.

uso cotidiano, ou seja, tenta flagrar a prática


discursiva em ação para fora do universo de
elaboração e validação interna dos distintos Maria Lúcia Uma das grandes perplexidades vividas na
campos de saber onde a noção pudesse vir a da Silveira atualidade pelos trabalhadores de saúde é o
ter utilidade. Este é um ângulo de análise pro- paradoxo proporcionado pela situação na qual,
fundamente interessante na medida em que Departamento de por um lado, constata-se que inúmeras fontes
todos os saberes humanos almejam, imediata Saúde Comunitária, alimentam um caudal de informações e orien-
Universidade Federal do
ou mediatamente, pelo retorno à imediatez, ou Paraná, Curitiba, Brasil. tações para a vida mais saudável e incitam o
seja, pela incorporação no fazer e pensar da marial@onda.com.br exercício da autonomia e da responsabilidade
cotidianeidade, critério último de validação ex- pessoal sobre a saúde e, por outro, que há uma
terna de sua pertinência. distância aparentemente intransponível entre
Outro mérito da análise é chamar a atenção o saber e o fazer, de tal forma que aquele que
para as possíveis conotações positivas da no- sabe (ou que conhece o risco) nem sempre faz
ção de risco, pelo menos em uma das suas inú- o certo (evitar) para si e para os outros; ao con-
meras formas, aqui denominada de risco- trário, deliberadamente se expõe, expondo ou-
aventura. Sem pretender azedar ou entornar o tros ainda, a comportamentos malsãos.
caldo, poderíamos lembrar que mesmo algu- Ao enfrentar este limite das ações educati-
mas dessas conotações poderiam ser contami- vas e para não cair no niilismo paralisante, cum-
nadas, irremediavelmente, pelos valores nega- pre enfrentar o desafio de compreender o que
tivos que a noção carrega habitualmente. Um o provoca. Situa-se justamente aqui, a grande
dos exemplos utilizados pela autora, as formas contribuição de Spink. Se ainda não nos traz
de edificação, uma das formas culturais do ris- uma proposta de ação, ela permite avançar na
co-aventura, admitem quase que imediata- compreensão dos motivos que determinam
mente, para os olhos viciados de um sanitaris- tais comportamentos.
ta, enxergar os inúmeros riscos ou probabilida- Indicando explicitamente no próprio título,
des de ocorrência, de efeitos danosos à saúde ter assumido a dimensão histórico-social (que
tais como acidentes mais ou menos graves e evidentemente inclui a psicológica e cultural
exposição a inúmeros agentes de doenças. Ape- como componentes do processo saúde e doen-
nas para ficar em um exemplo atual, a epide- ça), ela caracteriza o risco como “aventura”, lo-
mia de febre amarela, vivenciada recentemen- calizando esse tipo particular no contexto só-
te, esteve bastante relacionada com a expansão cio-histórico da modernidade tardia, remeten-
do chamado turismo ecológico. do-nos, por essa via, a assunção de desejos e
A complexidade e os aspectos contraditó- prazeres como mediadores necessariamente
rios inerentes à delimitação e cálculo dos ris- presentes. Aqui, no meu entender, se encontra
cos, repercutem fortemente nas formas de per- a sua maior contribuição, que refere-se direta-
cepção deles pela população e também nas pos- mente ao campo da subjetividade, amplamen-
síveis propostas de gestão dos riscos, seja pela te escamoteado das práticas sanitárias até ho-
comunidade de especialistas ou pelos próprios je, em que pesem os inúmeros discursos con-
indivíduos. Talvez esse seja um dos principais trários.
motivos do mal estar de nossa civilização. Assim, ao invés de isolar essa característica
contida no conceito de risco, ela prefere liga-lo
aos outros elementos contemporâneos que de-
finem o contexto particular, no qual ele pode
ser entrevisto e ao qual se aplica de forma pe-
culiar. Transcende, portanto, o espaço psicoló-
gico ao qual, no primeiro momento, pareceria
restrita, e localiza-o em pleno campo social,
numa abordagem que parece muito adequada
para se entender o que se passa hoje com o di-
to “comportamento de risco”.
A autora trabalha o risco na perspectiva da
linguagem e eu passo da linguagem ao cotidia-
no, pois como ela própria deixa claro, a lingua-
gem nada mais é do que a sua expressão.
Agir de forma arriscada, pela “adrenalina”
simplesmente, parece de fato, ser a tônica atual.
É o que acontece entre os jovens, que no seu
dia-a-dia expõe-se constantemente e em ações

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1305

aparentemente incompreensíveis. Isto é evi- me acidentar ou ter prejuízos materiais) e mais:


dente em qualquer situação e não apenas na- a ânsia de garantir o prazer pessoal omite a
quelas que dizem respeito diretamente à saú- probabilidade do risco do outro ou atrai o ou-
de. Certos reclamos de professores parecem tro para as situações-limite do arriscar-se na
trazer implícito o conceito defendido por Spink, aventura, por exemplo, de um “racha” urbano
assim como a mesma perplexidade da qual eu ou de uma roda de tóxicos, entre tantas outras
falava no início: “Eu sei que é gostoso ficar num possibilidades.
papinho com os colegas, azarar as gatinhas co- Mas não é só isso, outras ponderações mui-
mo eles dizem, mas o que não consigo entender to interessantes são trazidas por Spink, tal co-
é que ficam na rua, no meio do maior movi- mo a possibilidade associada. Coerente com a
mento de carros... Parece que eles gostam de fi- autora, o dito popular: “quem não se arrisca,
car ali se arriscando, parece que se divertem não petisca”, afirma que há no arriscar-se, a
com o perigo!”. possibilidade associada (ainda que a probabili-
“Os alunos adoram ir à livraria X. O gerente dade possa ser desfavorável) de ganho, a pro-
volta e meia vem reclamar que eles entram lá messa de recompensa final, e a aventura faz
para roubar. Eu sei que eles não precisam fazer uma referência explícita a ela, o que, justamen-
isso, pois de maneira geral, todos têm o que pre- te, lhe confere um gosto irresistível. Isto permi-
cisam e a gente dá um jeito de arranjar o neces- te compreender tanto o jogador contumaz, o
sário para os que não podem comprar. Não sei o rapazinho ou o adulto bem informado que se
que faz com que eles tenham prazer em prati- lança numa aventura sexual, o investidor na
car pequenos furtos: uma borracha, um blo- bolsa... E muitos outros aventureiros do risco.
quinho, um lápis... A turma fica na rua espe- Sem dúvida, o conceito que nos apresenta é
rando, enquanto um entra lá, dá uma disfarça- passível de generalização na aplicação, o que
da, surrupia qualquer coisa e sai, sendo recebi- constitui outro mérito da autora, permitindo
do em triunfo, parece mesmo que para eles é que possamos fazer um juízo mais abrangente
um grande desafio, pois disputam a vez de ir dos comportamentos assumidos pelas pessoas
até livraria e voltar mostrando o seu troféu pa- nessa modernidade tardia e venturosamente
ra a galera...! Não sabemos mais o que fazer!” perigosa!
(orientadora educacional em reunião de pais Se no Histórico ela aponta que a noção de
de alunos de uma escola pública da região cen- risco implica em se ter uma noção de futuro, o
tral de Curitiba). que fazer hoje diante daqueles aos quais “o fu-
O comentário de uma médica-educadora a turo a Deus pertence?” Como enfrentar o risco
propósito de outro tema, contribui, à sua ma- se seus valores positivos são confrontados com
neira, para reforçar essa impressão: “O proble- esse contexto? Se só se pode saber do presente,
ma da educação sexual é que fica tudo muito se o futuro, além de imprevisível, não é de nos-
bem explicadinho, mas ninguém diz o que fazer so domínio, que táticas poderão funcionar pre-
com o tesão, e para dar conta do tesão é preciso ventivamente?
se arriscar de alguma forma”. A idéia do risco-aventura nos permite tam-
Assim, a Epidemiologia confronta-se com a bém compreender aqueles que nada têm a per-
necessidade de pensar em quantas situações o der, ou têm tão pouco que o sabor de um ou
sabor, o prazer de se arriscar, a aventura enfim, outro risco compensa mais do que a monoto-
predomina, e o quanto esse predomínio escon- nia da carência cotidiana: presidiários, mendi-
de o risco, reduz a sua importância, a sua prio- gos, milhões de pobres... Para quem simples-
ridade, fazendo com que pessoas se exponham mente sobreviver já é uma dolorosa aventura,
para não comprometer a aventura do prazer. já é a prova de vencer o desafio de manter o so-
Tal acontece, por exemplo, no ato arriscado de pro vital em meio à carência quase absoluta, o
transar sem proteção. Aqui a incerteza, embora que prevenir? O que deixar de fruir num uni-
conhecida, não é obscurecida, é simplesmente verso tão pouco prazeroso, onde alimentar-se,
olvidada em favor do ato prazeroso que poderia dormir, comer, transar, tudo é risco, mas tudo é
se perder ante a ameaça de uma camisinha, aventura de manter a vida mesmo que por bre-
por exemplo. ves instantes? Mesmo que pelo breve tempo,
O mesmo se aplicaria à necessidade não suficiente apenas para acalentar um sonho ir-
atendida de diminuir a velocidade do carro ou realizável talvez e encontrar algo que o mante-
de outro gesto qualquer de prevenção, nas mais nha por mais um pouco, e assim sucessiva-
variadas situações que impliquem em algum mente, vivendo aos empurrões, sobrevivendo
tipo de ameaça. Nesse caso, o certo, que é o pra- de migalhas de prazer?
zer, não é trocado pelo incerto (o risco, a pro- Seguindo por aqui e considerando o para-
babilidade: posso ou não pegar uma doença, lelo entre capitalismo e cálculo do risco, apon-

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1306 SPINK, M. J. P.

tado por Bordieu (Bourdieu, 1979), esta não se- BOURDIEU, P., 1979. O Desencantamento do Mundo.
ria uma via para explicar a crescente pauperi- São Paulo: Perspectiva.
zação da epidemia de AIDS (e de outras tan- FOUCAULT, M., 1977. A Vontade de Saber. Rio de
tas)? Pois aqueles situados à margem dos ga- Janeiro: Graal.
nhos e das benesses do capital não se prende-
riam a outra lógica, na qual o futuro objetivo,
quantificável em termos daquilo que vai se
conseguir ganhar, previsível portanto, não es-
taria excluído para eles? Sobrando apenas essa
rude aventura, quase inexoravelmente mortal
ou quem sabe mais precocemente mortal pa-
ra eles?
E ainda, “gestão positivada da gestão de ris- Sandra Caponi La aceptabilidad del riesgo
cos” não é exatamente isso? A metamorfose da
ameaça para a aventura e seu gozo, mesmo que Departamento de Saúde El trabajo de Mary Jane Spink presenta una
fugaz e seguido talvez de tragédia (é o que o Pública, Centro de propuesta de análisis del concepto de riesgo
Ciências da Saúde,
profissional de saúde antevê) ou de da glória Universidade Federal instigante y novedosa. Nos detendremos aquí
de sair ileso (antevista e desejada por aquele de Santa Catarina, en la transición, analizada por la autora, de
Florianópolis, Brasil.
que se arrisca, se aventura). Não será apenas una sociedad disciplinar para una “sociedad
caponi@cfh.ufsc.br
este anseio, este sonho – ainda que não explici- del riesgo”: mientras que la primera sería la
tado – que move o sujeito e que anularia as fre- forma característica de la modernidad clásica,
qüentemente enfadonhas ações educativas em la segunda indicaría una forma emergente de
saúde? A proposição da autora é um desafio à la modernidad tardía. Las preocupaciones típi-
reflexão e à mudança das mesmas. cas de la sociedad disciplinar con la preven-
Outro ponto por ela levantado com o ris- ción y la norma como mecanismo de control
co–aventura: a da sua utilidade nestes tempos; del riesgo parecen desplazarse a favor de una
enfrentaríamos o cotidiano perigoso da socie- sociedad donde el riesgo ya no es vivido como
dade capitalista urbana se não vivêssemos com una amenaza a ser controlada, cuantificada y
a tranqüilidade possibilitada pelo risco aven- sometida a estrategias de prevención, sino que
tura na sua função edificadora? Mesmo no en- es pensado en términos de aventura, de mar-
frentamento das suas formas corrompidas? gen de novedad, en fin, de imponderabilidad.
Como fica a atuação em saúde se as formas Nos habla así del riego-aventura que se tradu-
corrompidas de risco-aventura se desenvolve- ce en deportes, en maniobras económicas que
rem justamente para, de certa forma, proteger suponen “ganarlo o perderlo todo”, o en los lla-
os excluídos sociais? Pois se a exclusão social mados modos ilegales de riesgo.
(vida de rua, tráfico, etc.) pressupõe sujeitos Proponemos leer este texto como punto de
que aceitam ou aos quais é imposta pelo sis- partida para volver a examinar, una vez más, el
tema social, o risco aventura em suas formas modo como la salud pública ha pensado ese
mais corrompidas e estas, por sua vez, impõem concepto. Podemos decir que, desde los estudios
riscos a outros membros da sociedade que, es- de Villermé sobre las condiciones de vida de los
tariam adaptados por já terem assimilado ou- obreros de algodón, hasta el último estudio epi-
tras formas de risco e sua função edificadora? demiológico sobre violencia en el tránsito, una
Cabe aqui lembrar que o próprio texto mos- misma estrategia se mantiene: presentar, con el
tra que a passagem da sociedade disciplinar auxilio de modelos estadísticos cada vez más so-
para a de risco, significou assumir a transgres- fisticados, los riesgos detectados y el modo de
são na sua dimensão prazerosa, naquela que prevenirlos y gestionarlos. Pero, hay algo que,
significa libertação, ignorando ou enfrentando desde 1846 hasta nuestros días, parece quedar
o que esse processo tem de ameaçador. E, nes- necesariamente excluido de esos estudios. Ese
se cenário, confrontar o risco-aventura e seus espacio de riesgo que no lleva necesariamente la
propósitos dionisíacos, com os de polícia que marca de lo indeseado, aquello que parece ser
os serviços de saúde mantêm: assegurar a or- casi deliberadamente procurado, como si se
dem, canalizar o crescimento da riqueza e man- imaginara que allí donde las estadísticas mues-
ter as condições de saúde (Foucault, 1997). tran lo negativo a ser controlado se ocultara
Finalmente, outro aspecto a destacar é o re- cierta positividad, menos evidente. Así, en 1846,
conhecimento do caráter sistêmico do risco e a Villermé argumentaba contra los riegos de pau-
conseqüente necessidade de romper as barrei- perización, inmoralidad y pereza que represen-
ras disciplinares, departamentais e até mesmo taba el consumo de alcohol para los trabajado-
nacionais para o seu enfrentamento. res del algodón. Sin embargo, los operarios a

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1307

quienes se refería ese estudio podían encontrar deró y continúa considerando como no acep-
allí un espacio de fuga, de auto-reconocimiento, tables. Es verdad que esos modos de acción hi-
de camaradería, en fin, de placer. Ese mismo ra- per-valorizados por nuestra sociedad parecen
zonamiento puede ser repetido en relación a di- traducir cierta necesidad de asumir que el ries-
ferentes estudios que se detienen en el cálculo y go hace parte de nuestras vidas, pero existen
en la gestión de riesgos, esto es, en la identifica- riesgos moral y socialmente tolerados y otros a
ción de los efectos adversos potenciales del fenó- los cuales la autora (aún considerándolos den-
meno en análisis, y en los modos de evitarlos. El tro del mismo espacio de riesgo-aventura) les
texto de Mary Spink nos permite imaginar reserva el nombre (propuesto por Caillois) de
aquello que estos estudios pueden haber dejado “formas corrompidas de juego”. Esta falta de di-
entre paréntesis: la dimensión de aventura que ferenciación entre dos niveles de riesgo, los
puede estar asociada al riesgo. médicamente correctos (que pueden aparecer
Nos preguntamos de que manera podría- como tapa de revista) y los médicamente no to-
mos utilizar la idea de riesgo-aventura para lerables, no puede ser considerada secundaria.
pensar el concepto de salud, excluyendo los te- Si es verdad que existe una omnipresencia
mores y los fantasmas que clásicamente han del riesgo-aventura en la sociedad contempo-
estado asociados a los conceptos de “grupo de ránea, entonces es necesario explorar la distin-
riego” o de “comportamiento de riesgo”. Cree- ción, que la autora simplemente enuncia, en-
mos que el concepto de salud esbozado, en año tre aquellos autores que consideran que las for-
1946, por Georges Canguilhem nos permite mas socialmente aceptadas de riesgo-aventura
una aproximación privilegiada para el análisis (deportes de riesgo) no son más que una exten-
del riesgo como positividad. La salud era com- sión de la sociedad disciplinar y aquellos auto-
prendida, entonces, en términos de “apertura res que se detienen a analizar el papel social que
al riesgo”. “Al contrario de ciertos médicos siem- ocupan las, así llamadas, formas corrompidas
pre dispuestos a considerar a las enfermedades de riesgo. Es que el riesgo como estrategia dis-
como crímenes, porque los interesados son de ciplinar de producción de una humanidad físi-
cierta forma responsables, por exceso o por omi- camente y económicamente maximizada (aun-
sión, creemos que el poder y la tentación de tor- que políticamente minimizada) suele definirse
narse enfermo es una característica esencial de por su oposición a formas consideradas ilícitas
la fisiología humana. Transponiendo una frase y médicamente peligrosas de riesgo, aquellas rá-
de Valery se puede decir que la posibilidad de pidamente asociadas a la producción de una hu-
abusar de la salud forma parte de la salud” manidad económica y físicamente “minimiza-
(Canguilhem, 1998:133). No existe aquí espacio da”. Es entonces que la hipótesis de la transición
para las llamadas “conductas de riesgo”, ni para entre dos modos de sociedad (de la norma y del
los así llamados “grupos de riesgo”, ambos aso- riesgo) parece perder su fuerza, y la seducción
ciados con ideas de abuso y exceso, o simple- del riesgo como aventura y positividad parece
mente con irresponsabilidad y descuido. limitarse a los riesgos médicamente correctos.
Salud es entonces poseer una capacidad de Aún así, es necesario reconocer que la omni-
tolerancia o de seguridad que es más que adap- presencia del riesgo y sus metáforas en la mo-
tativa. Es la capacidad de asumir riesgos y de po- dernidad tardía parece posibilitarnos un nuevo
der superarlos. Si consideramos la aceptabilidad modo de enfrentar los desafíos de la salud pú-
que los medios de comunicación parecen ha- blica, como lo demuestran las estrategias de
ber acordado a ciertos tipos de riesgos conside- prevención del Sida. Tal parece que es allí, más
rados “legítimos” y, más aún, dignos de encomio, que en las ideas de riesgo aventura vehiculiza-
como los deportes de riesgo, o las conductas em- das por la práctica de ciertos deportes, donde un
presariales marcadas por la adrenalina y la emo- nuevo modo de tematizar el riesgo parece poder
ción, parece que la modernidad tardía vendría descubrirse. Ya no se puede hablar de conductas
a confirmar esa idea de definir la salud por la o grupos de riesgo, y las prácticas preventivas es-
posibilidad de superar las capacidades iniciales. timuladas, tales como el uso de preservativo o
Pero es aquí que aparecen las dificultades y los programas de reducción de daños para
las diferencias en relación al texto de Mary usuarios de drogas inyectables, parecen hablar
Spink. Si su mérito está en saber señalar y de- de una nueva aceptabilidad del riesgo. Allí, la
nunciar la existencia de una percepción positi- distinción entre riesgos médicamente acepta-
va del riesgo, creemos que su dificultad está en bles y formas corrompidas de riesgo parece, po-
la falta de diferenciación entre riesgos legíti- co a poco, comenzar a desaparecer.
mos o socialmente deseables (deportes, desa-
fíos económicos, etc) y esos otros tipos de ries- CANGUILHEM, G., 1998. Le Normal et le Patholo-
gique. Paris: P.U.F.
go que históricamente la salud pública consi-

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1308 SPINK, M. J. P.

Spink sobre a emergência do risco-aventura


como metáfora da modernidade tardia, com o
Dora Lucia O artigo de Spink enfoca um tema praticamen- qual concordo. E há muitos outros sentidos
de Oliveira te impensável no campo da saúde pública – o modernos de risco a descobrir e explorar. É o
de um certo sentido positivo para risco. Inter- caso de risco como metáfora de autonomia,
Departamento de pretado desde um ponto de vista preventivista uma maneira de apresentar o self como em
Enfermagem Materno- e individualista, “risco” é predominantemente controle de si numa sociedade na qual o risco é
Infantil, Escola de
Enfermagem, Universidade visto pela saúde pública como resultado de es- onipresente, e o “cuidado de si” não significa
Federal do Rio Grande do Sul, colhas equivocadas de estilos de vida, salvo mais optar por escolhas seguras, mas escolher
Porto Alegre, Brasil.
quando o risco em questão tem relação com fe- que riscos correr. Esta concepção de risco co-
dora@enf.ufrgs.br
nômenos naturais. Tendo incorporado signifi- mo auto-governo ficou claramente evidencia-
cados eminentemente negativos (mesmo quan- da nas falas das adolescentes que entrevistei
do usado no sentido de aventura), “risco à saú- em uma pesquisa sobre “formas de ver” os ris-
de” tem a ver com culpa, irresponsabilidade, cos do sexo, recentemente concluída (Oliveira,
incompetência e ignorância. Um exemplo clás- 2001). O problema é que teses sobre a diversi-
sico é a abordagem sanitarista do “problema” dade semântica, sobre lógicas e racionalidades
da adolescência. Teses sobre o comportamento do risco, como a minha própria, a defendida
de risco dos adolescentes, têm sido embasadas no artigo de Spink, a de Giddens (1996), de
numa perspectiva essencialista, que propõe Beck (1992) ou mais especificamente, na área
como “natural” o espírito aventureiro de “to- da saúde, a de Petersen & Lupton (1996), ainda
dos” os adolescentes. Considerado como nega- são estranhas aos paradigmas da saúde públi-
tivo, porque põe em risco a integridade física ca. No campo da saúde “risco” tem um signifi-
do indivíduo, esse ímpeto dos adolescentes pe- cado monolítico, podendo variar limitadamen-
la aventura é entendido como associado a ou- te conforme os experts que o define. Definições
tras características “naturais” da adolescência, epidemiológicas de risco têm produzido dis-
tais como imaturidade e senso de invulnerabi- cursos do tipo “risco é…”, deixando pouco es-
lidade. Isso tem rendido aos adolescentes um paço para concepções de risco que utilizem
lugar de destaque nos discursos e ações pre- outros parâmetros. Nessa perspectiva o con-
ventivas da nova saúde pública. A solução teúdo cultural das concepções de risco dos in-
apontada para o problema tem sido promover divíduos é desvalorizado e tido como algo que
a “correção” (via informação) das percepções e influencia interpretações subjetivas (e por isso
atitudes “equivocadas” dos adolescentes frente potencialmente equivocadas) sobre o que a
a situações de risco, com o intuito imediato de ciência define como verdade sobre risco. Como
modificar seus comportamentos e de torná-los no uso de risco no sentido de aventura, o en-
competentes no “cuidado de si”. Dado que com- tendimento de risco como auto-governo é evi-
portamentos e percepções de risco são “so- dência de que na modernidade tardia há novos
ciais” e “culturais”, além de individuais, muitas sentidos para ele, produzidos em resposta ao
dessas ações acabam frustradas, como é o caso que Spink chama de “imponderabilidade e vo-
das ações de prevenção da AIDS. É interessan- latilidade dos riscos manufaturados”. O reco-
te essa ênfase da saúde pública na negativida- nhecimento da existência de diferentes senti-
de do risco, apesar de clara a sua base ideológi- dos para risco seria um bom começo para a ne-
ca neo-liberal, a qual em outros campos admi- cessária revisão da concepção sanitarista de
te a positividade do risco. Em Free to Choose, risco, a qual, com raras exceções, tem sido ar-
Friedman & Friedman (1980) argumentam que rogantemente proposta como verdade.
correr risco é bom e que a tendência de tomar
decisões arriscadas é uma característica positi- FRIEDMAN, M. & FRIEDMAN, R., 1980. Free to Choose.
London: Secker & Warburg.
va de sujeitos empreendedores. Nessa perspec-
BECK, U., 1992. Risk Society: Towards a New Moderni-
tiva, aqueles que estão dispostos a correr riscos ty. London: Sage Publications.
adquirem o direito de recolher os benefícios GIDDENS, A., 1996. Modernity and Self-Identity.
que possam advir de decisões arriscadas, tais Cambridge: Polity Press.
como aumento de renda e melhor nível de saú- PETERSEN, A. & LUPTON, D., 1996. The New Public
de e educação. Este parece ser um forte argu- Health: Health and Self in the Age of Risk. Lon-
mento na modernidade tardia, na medida em don: Sage Publications.
PHILIPS, A., 1999. Which Equalities Matter? Cam-
que mesmo os teóricos da igualdade social, co-
bridge: Polity Press.
mo Philips (1999), para os quais privilégios re- OLIVEIRA, D., 2001. Adolescent Woman Talk of HIV/AIDS
sultantes de desigualdades herdadas são imo- Risk: Reconceptualizing Risky Sex – What Implica-
rais, tendem a aceitar privilégios que resultem tions for Health Promotion? Ph.D. Thesis, London:
de escolhas arriscadas. Volto ao argumento de Institute of Education, University of London.

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1309

O autor responde reflexão sobre os processos de sociabilidade na


The author replies contemporaneidade, sendo risco tomado como
um foco conveniente para pensar as transfor-
mações que vêm ocorrendo nas formas de go-
vernamentalidade. É pertinente, assim, o pedi-
do de esclarecimento de Edinilsa Ramos da Sil-
va sobre o uso da partícula na como elo de li-
gação, no título, entre risco como metáfora e
modernidade. Pertinente até porque alguns
debatedores entenderam que eu estava pro-
Mary Jane P. Spink Inicio esta réplica, pontuando a importância pondo risco como metáfora da modernidade.
da seção Debate dos Cadernos de Saúde Públi- Usei a partícula na por entender que outras
ca pela oportunidade de troca de idéias entre metáforas podem expressar aspectos distintos
especialistas e por propiciar o contexto neces- da contemporaneidade – isso que Luis David
sário para que os leitores possam exercer ple- Castiel denominou de “nossos tempos labirín-
namente sua criatividade reflexiva, pondo a ticos”, caracterizado pela produção de novas e
dialogar perspectivas e interpretações diversas engenhosas tecnologias e correspondente ace-
sobre um mesmo fenômeno. Sigo, agradecen- leração das trocas econômicas, das estratégias
do com muita sinceridade aos doze debatedo- de comunicação, da diluição de matrizes iden-
res. Sei que a tarefa de discutir um texto que titárias e pelo clima generalizado de ambigüi-
aborda tão diversas questões não é fácil e pode dade quanto às perspectivas de sentido. Não se
até ter sido concomitantemente instigante e ir- trata, portanto, de pensar risco-aventura como
ritante. Entendo também, que a inversão lin- plot de uma meta-narrativa sobre a tardo-mo-
güística proposta – onde linguagem é ação, é dernidade, como interpretou Maria Helena Car-
prática social e não apenas elo condutor ou doso. As meta-narrativas são pouco adequadas
mediação de sentidos – pode ter causado estra- a esses tempos labirínticos.
nheza para alguns. Ao mesmo tempo em que Sendo o foco da reflexão as transformações
agradeço o empenho de todos, declaro minha nos processos de governamentalidade, a tese
dificuldade de fazer jus a tão instigante coleção sustentada implica tanto na narrativa histórica
de comentários. Foram tantas as questões le- (para falar da passagem da sociedade discipli-
vantadas que múltiplos são os caminhos para nar para a de risco e o papel da noção risco nes-
o debate: a tarefa de responder ou comentar se processo) como na busca de compreensão
torna-se assim problemática tendo em vista o das possibilidades de produção de sentido so-
espaço destinado à réplica. bre os riscos na vida cotidiana. Essa proposta,
Difícil também a tarefa pelas novas conota- nomeada por José Ricardo Ayres, de “tese da
ções que assume o texto que norteia o debate transformação”, traz em seu bojo, como aponta
nesses tempos atuais. É quase inoportuno falar o autor, tanto a ruptura das “condições de vali-
de risco-aventura diante do espetáculo recente dade no horizonte normativo da modernida-
de insegurança frente ao terror organizado. Co- de”, como novas formas de sensibilidades so-
mo concluiu Madel Luz em sua cuidadosa revi- ciais diante do que Ayres denominou de “meio-
são das questões centrais à linha de argumento hostil” (a imponderabilidade dos riscos manu-
do artigo, as novas práticas sociais e discursi- faturados). Pergunta ele se não se trataria de
vas sobre o risco talvez estejam sinalizando pa- novas formas adaptativas no enquadre do “bom
ra a incapacidade da sociedade atual de lidar e velho darwinismo social”. É possível que as-
com seus riscos mais evidentes: a dissolução sim o seja para alguns neodarwinistas (Archer,
das instituições sociais, a enorme concentração 2001), mas não creio que o determinismo im-
de riqueza nas mãos de poucos, a crescente ex- plicado nessa proposta seja adequado às vicis-
clusão social (no interior das nações, entre na- situdes dos processos de produção de sentidos
ções, entre blocos de nações) enfim, a fragilida- em que se enquadra esta reflexão sobre o risco.
de da economia mundial. É significativo, nessa Concordo, entretanto, com o autor – até por ser
perspectiva, que a temática da exclusão social, ela intrínseca aos processos exacerbados de in-
associada aos processos de transformação da dividualização nessa modernidade tardia – que
sociedade disciplinar em sociedade de risco, te- se trata sim de disciplina, embora de outro ti-
nha sido um elo comum a tantos comentários. po. Concordo, ainda, que sendo menos visível
Buscando atentar para a diversidade de as- (até porque vivida de forma mais solitária),
pectos abordados pelos debatedores, retomo mais difícil fica rebelar-se contra ela.
os objetivos e a linha de argumento do texto Nessa mesma direção procedem as obser-
em discussão. Tratava-se, antes de tudo, de uma vações feitas por Simone Monteiro & Elizabeth

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1310 SPINK, M. J. P.

Moreira, a partir da leitura de Deleuze (1992), de Thompson, Wildavsky e da própria Mary


sobre a transformação da sociedade disciplinar Douglas, também as atitudes frente ao risco
em sociedade de controle, onde o molde é subs- decorrentes de diferentes projetos de moderni-
tituído pela modulação, sendo a informação o dade – a oportunidade por mim perdida, se-
modulador fundante dos processos de gestão. gundo Carlos Machado – não constituíam foco
É rica a observação e, se nesse enquadre, a in- da discussão travada no texto em debate. Diga-
formação é o modulador essencial dos proces- se de passagem, que a abordagem em questão,
sos de gestão, então o acesso à informação pas- por seu teor estruturalista, dificilmente pode-
sa a ser aspecto central para entender não ape- ria ser compatibilizada com a perspectiva dis-
nas os discursos contemporâneos sobre risco, cursiva que busca na linguagem dos riscos as
mas também os novos processos de exclusão. possibilidades de produção de sentidos, sem-
Ainda nessa direção, até porque pertinente pre fluídas e situadas nos micro-espaços de in-
à metáfora orientacional discutida por Luis teranimação dialógica, e as posições de sujeito
David Castiel, vale a indagação da sustentabili- disponíveis na ótica dos processos de governa-
dade da reflexão sobre risco-aventura no “lado mentalidade.
debaixo” do Equador, preocupação verbalizada Embora a Saúde Pública – e mais especifi-
também por Edinilsa Ramos da Silva. Trata-se camente os programas de prevenção à AIDS –
de questão que pede um debate mais aprofun- constituíram o ponto de partida para as pes-
dado, impossível de ser feito no espaço desti- quisas que venho desenvolvendo desde 1997
nado a esta réplica. Mas, muito sucintamente, sobre a temática risco e modernidade tardia, as
sendo a circulação de repertórios interpretati- possibilidades de ressignificação do risco nos
vos cada vez mais alicerçada na “ordem social trabalhos de educação em saúde não consti-
da imagem mediática”, tomando de emprésti- tuiram foco específico de reflexão do artigo em
mo a expressão utilizada por Maria Helena Car- pauta. Para além das “cobranças” ou frustra-
doso, seu potencial de sentido extrapola o es- ções pela ausência de reflexão específica sobre
paço geograficamente pensado. Entretanto não essa temática, vários debatedores preenche-
deixa de ser, como propõe Castiel, “um ponto ram ou deram pistas de possíveis caminhos pa-
de vista acentuadamente marcado pelos signos ra aprofundamento da questão. A eles sou agra-
do acesso aos mercados e da participação nos decida. Assim, Rita Barata, posicionando-se es-
processos consumidores”. tritamente como uma “praticante da Epide-
Retoma-se, dessa maneira, a temática da ex- miologia”, problematiza o texto a partir da con-
clusão apontada por tantos dos comentaristas. traposição da assepsia conceitual do risco epi-
Com certeza, concordando com Silvana Weller, demiológico com a “explosão polissêmica” do
os novos discursos do risco podem constituir “deslizamento” da reflexão para a linguagem
uma nova modalidade de encobrimento das em uso no cotidiano. Sem disputar que os gê-
iniqüidades sociais já que, ao “equiparar lo ine- neros de fala de diferentes campos são distin-
quiparable”, encobre variações de opção dos tos, pontuo apenas, que os valores adentram a
diferentes grupos humanos. Nessa perspectiva, linguagem pelo uso que se faz dela. Assim, a
vale a pergunta colocada pela autora sobre as própria autora acaba por afirmar – em sua con-
“futuras derivações do interjogo do risco-aven- clusão – que “a complexidade e os aspectos con-
tura e a realidade material de milhões de pes- traditórios inerentes à delimitação e cálculo dos
soas que hoje parecem simplesmente viver ‘em riscos repercutem fortemente nas formas de per-
perigo’ ”. cepção dos riscos pela população, e também nas
Ainda com relação ao acesso às mensagens possíveis propostas de gestão dos riscos seja pela
mediáticas, vários debatedores apontam como comunidade de especialistas seja pelos próprios
problema que os sentidos do risco são sempre indivíduos”.
socialmente situados. Na perspectiva discursi- Outras comentaristas buscaram levar suas
va, os sentidos são certamente produzidos em reações ao texto para arenas diversas de atua-
contextos históricos e culturais por meio de ção em Saúde Pública. Por exemplo, Maria Lu-
processos de interanimação dialógica os quais cia da Silveira considerou que o texto permite
fazem circular, no aqui-e-agora, repertórios de avançar na compreensão dos motivos que de-
tempos históricos diversos, matizados pelas terminam o paradoxo da “distância intranspo-
experiências do tempo vivido (Spink e Medra- nível entre o saber e o fazer”. Levando-o a pas-
do, 1999). Essa relação entre posições de sujeito sear pelas experiências do cotidiano, propõe
e sentidos do risco é objeto de pesquisa ora em uma profusão de perguntas dirigidas ao campo
andamento (Spink, 1999). Não era, porém, o fo- da Saúde Pública (ou assim o interpretei) mais
co da reflexão proposta no texto em debate. As- do que especificamente a mim. Edinilsa Ramos
sim, embora familiarizada com as teorizações de Souza faz um exercício reflexivo sobre risco

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TRÓPICOS DO DISCURSO SOBRE RISCO 1311

e jovens vítimas de violência, refletindo sobre ainda são estranhas aos paradigmas da saúde
as diferenças entre assumir riscos como “atri- pública”. Anuncia possibilidades de incorpora-
buto individual” e estar em risco como fruto da ção desta linha de reflexão citando autores e
vulnerabilidade. Sandra Caponi, apoiada em pesquisas recentes – inclusive sua recente tese
Canguilhem, reflete sobre a dimensão da aven- de doutorado.
tura na definição de saúde. Contrapondo ris- Mesclam-se assim, interpretações diversas
cos medicamente aceitáveis e formas corrom- do texto em debate e seleção de diferentes as-
pidas de risco, coloca a instigante questão da pectos, com reações mais pessimistas (quanto
possível diluição de fronteiras entre riscos so- ao futuro, à exacerbação dos processos de exclu-
cialmente desejáveis e os que a Saúde Pública são, à forma que tomam os processos discipli-
historicamente considera como “não aceitá- nares na sociedade contemporânea) ou mais
veis”, a partir do trabalho de redução de danos propositivas (como trabalhar com a positividade
na AIDS. do risco na Saúde Pública) dependendo da ótica
Já Dora Lúcia de Oliveira, familiarizada com priorizada na discussão. Termino estas poucas
a literatura sobre risco e modernidade, identi- considerações reafirmando a riqueza do exer-
fica-se com a posição por mim assumida e cício do debate para que, a despeito de quais-
alerta que as “teses sobre a diversidade semân- quer divergências teóricas, possamos “manter
tica, sobre lógicas e racionalidades do risco (...) a conversação fluindo” (Rorty, 1979:370).

Referências

ARCHER, J., 2001. Evolution and behaviour. Psycholo-


gist, 14:414-419.
DELEUZE, G., 1992. Conversações. Rio de Janeiro:
Editora 34.
RORTY, R., 1994. A Filosofia e o Espelho da Natureza.
Rio de Janeiro: Relume-Dumará.
SPINK, M. J. P., 1999. Risco e Incerteza na Sociedade
Contemporânea: Vivendo na Sociedade de Risco.
Projeto Integrado. São Paulo: Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
(mimeo.)
SPINK, M. J. P. & MEDRADO, B., 1999. Produção de
sentido no cotidiano: Uma abordagem teórico-
metodológica para análise das práticas discursi-
vas. In: Práticas Discursivas e Produção de Senti-
dos no Cotidiano: Aproximações Teóricas e Meto-
dológicas (M. J. P. Spink, org.), pp. 41-61, São
Paulo: Cortez Editora.

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