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DESPENSEIROS DA MULTIFORME GRAÇA

Texto base: Ora, o fim de todas as coisas está próximo; sede, portanto,
criteriosos e sóbrios a bem das vossas orações. 8Acima de tudo, porém, tende
amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de
pecados. 9Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem murmuração. 10Servi uns aos
outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da
multiforme graça de Deus. 11Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de
Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as
coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória
e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém! 1 Pedro 4.7-11

Versículo Chave: Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como
bons despenseiros da multiforme graça de Deus. 1 Pedro 4:10

A palavra “graça” está relacionada a uma série de coisas e expressões. “Dar graças” é
render louvores ao Senhor. “Cair na graça” é angariar a simpatia de alguém para si.
Antigamente quando se perguntava o nome de alguém se dizia: qual é a sua graça?
Portanto, empregada em muitas situações, a palavra “graça” passou a ser comum em
nosso vocabulário, mas existe um significado muito maior na expressão “multiforme
graça de Deus”.

Sede sóbrios significa serem sensíveis, razoáveis e se manterem em equilíbrio.


Sóbrios significa bem equilibrados, autocontrolados. É interessante que Pedro
relacionou estas qualidades à vida de oração de seus leitores. As épocas

A organização do trabalho nos tempos bíblicos era muito diferente daquilo que temos
hoje. A indústria, o comércio, a agropecuária, as atividades financeiras e outras,
tinham como sede e local de trabalho a própria residência do artesão, comerciante,
banqueiro, agricultor, criador de gado, etc., que ali praticava o seu negócio com a
ajuda de seus familiares, agregados e escravos. Esse local era chamado de “oikos”
(casa) e, por extensão, o grupo de pessoas que ali viviam e trabalhavam também era
chamado de “oikos”, a “casa” de fulano ou beltrano.
Ora, um homem ocupado com seu negócio precisava de alguém que administrasse a
sua residência, que cuidasse das provisões, da alimentação, da limpeza, dos reparos,
etc. E, como essa não era uma atividade para as mulheres, tal missão era confiada a
um dos escravos. Em relação ao dono da casa ele era um escravo, mas em relação
aos seus conservo era um supervisor. É claro que o escolhido para tal cargo era o
escravo que se mostrasse mais bem treinado para tanto, porém, como bem diz a
tradução de Phillips, a primeira condição exigida de tal pessoa era a fidelidade. A
melhor capacitação, infelizmente, não pode substituir a fidelidade.
Jesus usou essa figura do “fiel depositário” em diversas parábolas: a dos Dois
Servos (Mt. 24:45-51), a dos Talentos (Mt. 25:1-12), a do Servo Vigilante (Lc. 12:35-
48), a do Mordomo Infiel (Lc. 16:1-13) e a das Dez Minas (Lc. 19:11-27). Paulo, além
de I Co. 4:1,2, usa o termo também em I Co. 9:17 e Tt. 1:7. Pedro, como já vimos, usa-
o em I Pd. 4:10. Em todas essas passagens a ideia é de uma pessoa a quem um
proprietário nomeia para cuidar de seus bens e supervisionar seus escravos.
Periodicamente, o proprietário se assenta com seu administrador para uma eventual
prestação de contas e, evidentemente, espera encontrar tudo em ordem, porque a
relação é de confiança. Esse ajuste de contas sempre fica bem claro nas parábolas de
Jesus acima citadas. Portanto, a principal característica dessa pessoa é que ela não
precisa de supervisão direta, não só por sua competência, mas, principalmente, por
sua lealdade ao senhor, e sua honestidade e integridade no trato com as coisas
alheias; ou, numa só palavra, por sua fidelidade. É interessante que esta questão da
necessidade de supervisão direta é mencionada por Paulo em Cl. 3:22: “Escravos, em
tudo obedeçam àqueles que são seus donos aqui na terra. Não obedeçam só quando
eles estiverem vendo vocês, procurando com isso conseguir a aprovação deles. Mas
obedeçam com sinceridade, por causa do temor que vocês têm pelo Senhor” (grifo
meu – Versão NTLH).

...Servi uns aos outros...· De modo geral, mas particularmente aqui devemos
entender ·trabalho físico, isto é, a partilha de alimentos, de abrigo e de dinheiro, tal
com o na hospitalidade que acabara de ser recomendada.

...conforme o dom que recebeu... O trecho de Rom. 12:7 focaliza um dom de


·ministério», isto é, boas obras na forma de esmolas, de cuidados pelos enfermos, e
de hospitalidade. Alguns crentes são especialmente dotados pelo Espírito, tomando-se
ricos em atos de caridade, dispostos à realização de serviço bondoso, o que fazem
com maneiras graciosas e corteses. Talvez alguns médicos, enfermeiras e filantropos,
quando são também crentes espirituais, recebem tal dom, além de outros, que têm a
oportunidade especial de ministrar as necessidades físicas dos outros. Algumas vezes
tais pessoas também recebem amplos meios financeiros.

Capacitando-se assim de se mostrarem generosas em alto grau. O judaísmo e o


cristianismo primitivo enfatizavam grandemente a importância das esmolas. (Isso é
comentado nas notas sobre Atos 3:2. Comparar também com Tia. 1:27, onde a
·religião pura· é definida como a visita aos órfãos e às viúvas, em suas aflições, isto é,
e diante a ministração às suas necessidades, além de conservar-se o crente
imaculado do mundo). Tal ministração é a prática da regra áurea de Cristo, um a
duplicação do seu amor. Portanto, esse ministério é apenas a concretização da lei do
amor, mencionada no oitavo versículo deste capítulo.

Este versículo, naturalmente, não só fala do dom especial da ·ministração às


necessidades físicas, mas também impõe a todos os crentes o mesmo costume, ao
ponto em que suas habilidades e circunstâncias lhes permitirem a participação. Cada
homem tem um dom; e, no presente versículo, sem dúvida cada crente deve contribuir
com o seu próprio. Em outras palavras, p eu s abençoa um homem, e então ele tem os
meios para realizar um serviço de caridade para com outros, sem importar se esse
serviço consiste cm hospedar alguém, cm dar esmolas ou em cuidar de enfermos ou
necessitados. E assim aprendemos aquele principio básico, tão comum nas páginas
do N.T., e que determina: ·Recebemos a fim de dar, não a fim de amontoar bens para
nosso próprio conforto. Feliz é o homem que crê nisso e o pratica. Todo crente é um
mordomo, e não um proprietário daquilo que possui. O mordomo deve mostrar-se ativo
no uso de seus bens cm favor de outrem, e não na tentativa de juntar mais ainda para
si mesmo.

...despenseiros... Cada pessoa é ímpar e tem um a missão sem igual, agora e na


eternidade. Ele recebe habilidades necessárias para o exercício apropriado de sua
missão. Também recebe os meios financeiros para poder realizar sua obra.
Sua missão o transforma no tipo de pessoa que pode realizar um serviço específico.
Um crente também pode receber várias missões; e todas elas, coletivamente
consideradas, visam fazer dele um indivíduo sem-par. Uma missão é um meio de
expressar a graça de Deus para com outros, pois nenhuma missão visa apenas o
benefício do próprio indivíduo. Todos os dons de Deus se originam em sua ·graça.
Essa é a fonte de tudo de bom que possuímos. Portanto, quando ministramos a
outros, em qualquer sentido que seja. meramente espalhamos ao redor a graça de
Deus, do modo que nos foi apontado.

A mordomia subentende tanto que nos foi confiada certa missão como também a
existência de uma necessidade autêntica. A graça de Deus se reveste de variedade
infinita, resultando em dádivas abundantes aos homens. Tornamo-nos ministros
mediante quem essa abundância é distribuída. Não ·possuímos aquilo que a graça de
Deus nos dá. pois tudo nos foi dado por empréstimo, temporariamente. Se nos
recusarmos a contribuir, logo deixaremos de receber.

A Parábola dos talentos nos ensina claramente. Porque a qualquer que tiver será
dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado.
Mateus 25:29

Quando o povo de Israel ficou cobiçoso e recolheu mais maná do que era necessário
para o suprimento de um dia, o maná se estragou e soltou mau cheiro, tomando-se
inútil. Assim, o homem que recebe mas não dá logo se tornará inútil como despenseiro
da graça de Deus, e sua alma será estragada, perdendo toda a similaridade com a
natureza espiritual de Cristo. O próprio Cristo veio para servir, e não para ser servido.
(Mat. 20:28)

Na “economia” de Deus, antes da fundação do mundo, ele planejou enviar, na


plenitude dos tempos, o Redentor, Cristo Jesus, no qual faria convergir todas as
coisas, dando-nos assim gratuitamente as riquezas da sua graça e fazendo-nos
conhecer o mistério da sua vontade (veja Ef. 1:3-14. Na versão NTLH a palavra
“oikonomian” é traduzida por “plano”). E, apesar de anjos desejarem muito
desempenhar essa missão (I Pd.1:12), Deus também planejou que os crentes seriam,
à medida que se convertessem, o que poderíamos chamar de “operadores logísticos”
da comunicação do seu mistério (revelação do seu plano redentor) e da distribuição da
sua graça (seu serviço aos homens). Um “operador logístico” (despenseiro) fiel é
aquele que não somente conserva o produto íntegro, como também o distribui com
integridade.

...multiforme graça... No grego, o adjetivo é poikilos, (diversificado), de muitas


espécies. A graça divina se manifesta de muitos modos e se concretiza na vida
humana de muitas maneiras. Cada crente recebeu tal graça, e está na obrigação
moral de concedê-la a outros.

Esta graça deve ser administrada (gr.,diakoneo; cons. "diácono") aos outros, o melhor
método também para continuar sendo desfrutado pelo possuidor original.

·...graça.. O que possuímos que não tenhamos recebido de Deus? Pois quem é que te
faz sobressair? O que tens tu que não tenhas recebido? E se o recebeste, por que te
vanglorias, como se o não tiveras recebido? (I Cor. 4:7). Alguns agem como se o que
têm fora produzido por eles mesmos.

Dom: Consideremos os pontos seguintes a respeito:

1. Envolve qualquer coisa doada gratuitamente.


2. Indica alguma benção dada graciosamente por Deus, de qualquer espécie, aos
pecadores (ver Rom. 5:15.16 e 11:29).
3. Indica a graça da salvação (ver Efé. 2:9), mediante a qual a salvação é
conferida aos homens.
4. Indica um preparo gracioso e divino para o serviço, algum dom espiritual, alguma
operação extraordinária do Espírito Santo (ver I Tim . 4:14) ou mesmo os dons do
Espirito Santo (ver os capítulos doze a catorze da primeira epistola aos Coríntios).
5. Indica a abundância de possessões físicas, usadas para benefício alheio: ou bens
materiais suficientes para que deles possamos contribuir, embora não naquela
profusão que poderíamos chamar de «abundante». Esse é o sentido que está em
foco, talvez com alguma mistura com a quarta posição.
Esta passagem pode ser ilustrada pela parábola dos ·talentos», narrada pelo Senhor
Jesus, em Mat. 25:15. Alguns intérpretes acreditam que Pedro alude aqui a essa
tradição, embora tal narrativa ainda não tivesse tomado forma escrita nos evangelhos
canônicos, porquanto esta primeira epistola de Pedro foi escrita antes dos mesmos,
com a única exceção possível do evangelho de Marcos.

O QUE DEUS QUER DE NÓS

Com que me apresentarei ao Senhor, e me inclinarei diante do Deus altíssimo?


Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com bezerros de um ano?

Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de


azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre
pelo pecado da minha alma?

Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão
que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu
Deus?

Miquéias 6:6-8

Não podemos comprar o favor de Deus, nem podemos ganhar o seu amor através de
bens extravagantes ou materiais. Deus quer que nós nos dedicamos a Ele. As
Escrituras Hebraicas revelam que Deus esperava que Seu povo escolhido
demonstraria Seu caráter, pelas suas palavras e ações para pessoas de todas as
nações. Deus esperava que eles fossem modelos para os outros através da realização
de todos os seus assuntos com a justiça, agindo com bondade para com todos, e
caminhando humildemente; e é isso que Ele exige de nós hoje.

O que será necessário para nos acordar? O que temos que fazer para ser justos
perante o Senhor? Precisamos nos humilhar e ouvir, porque o tempo todo, Deus está
dizendo a mesma coisa dos tempos passados, pratique a justiça, o amor, a bondade e
caminhe humildemente comigo, e o Senhor fará o resto.
Será que vamos ouvir o chamado de Deus para o bem? Será que nós, como crentes,
através do poder do Seu Espírito Santo, agiremos com justiça para com os outros,
mostrando-lhes graça, enquanto nós andamos humildemente com o Deus? Isto é o
que Deus requer de nós, é por isso que Jesus veio à terra para nos redimir. É para isto
que fomos criados e esta é a única coisa que vai nos satisfazer.

Miquéias 6:8 deve ser um lembrete de que a graça é gratuita e que a vida fiel é a
nossa resposta de gratidão. Lembre-se desses atos, a fim de saber que, apesar da
impressionante justiça de Deus, Ele é apaixonadamente dedicado ao Seu povo. Ele
disse: “Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos e
os cumprires, eu vos darei as vossas chuvas a seu tempo, e a terra dará o seu
produto, e as árvores do campo darão os seus frutos.”(Levítico 26:3-4) e
continua em (v12), “Eu também irei caminhar entre vocês e serei vosso Deus e
vós sereis o meu povo.”

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