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2019 - 07 - 29 PÁGINA RB-31.

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Governança, Compliance e Cidadania - Ed. 2019
31. COMPLIANCE E CONTRATOS DE SEGURO NO BRASIL

31. Compliance e contratos de seguro no Brasil


ANGÉLICA CARLINI1

1.Introdução

Este trabalho apresenta uma reflexão sobre os aspectos técnicos e jurídicos da atividade de
seguros no Brasil e a importância de bons programas de compliance na atividade de seguros.

Se os seguros são a atividade econômica que por excelência se vale da solidariedade entre as
pessoas para a constituição de um fundo mutual, do qual sairão todos os valores necessários para
o pagamento das indenizações necessárias em razão da materialização dos riscos assumidos no
contrato, é preciso respeitar e proteger a solidariedade que fundamenta a atividade de seguros por
meio de bons programas de compliance que possam, efetivamente, impedir práticas capazes de
degenerar essa modalidade de atividade empresarial.

Corrupção, lavagem de dinheiro e descumprimento de qualquer regra legal ou infralegal é risco


para a empresa que tem, no seguro, sua atividade-fim, mas é, igualmente, enorme risco para as
pessoas físicas e jurídicas que contribuíram para a formação de fundos mutuais, confiando que
eles seriam administrados de forma transparente e correta e que estariam disponíveis sempre que
fosse necessária a reparação de danos. Da mesma forma, para os investidores e acionistas das
sociedades anônimas que consubstanciam atividades de seguro, práticas ilícitas ou antiéticas são
incompatíveis com bons resultados, que devem sempre ser decorrentes de atividades em
conformidade com as melhores práticas legais e éticas.

A atividade de seguros é, por excelência, atividade ética e legal e, nessa medida, os programas
de compliance são muito mais que fruto de regulação. São a única forma saudável e correta de
praticar seguros em qualquer lugar deste planeta.

2.Seguros – conceito e breve histórico

Os contratos de seguro são definidos no Código Civil brasileiro, artigo 757, como aqueles que
garantem o interesse legítimo do segurado, relativo a pessoa ou a coisa, contra riscos
predeterminados e mediante o pagamento de um valor pecuniário denominado prêmio.

São contratos que dão forma jurídica a uma operação econômica muito antiga que envolve
diretamente a relação dos homens com os riscos, permanentemente presentes em todos os
momentos da trajetória da humanidade em suas diferentes quadras históricas.

Os riscos das caravanas que transportavam mercadorias em camelos, os riscos das expedições
marítimas que cruzavam oceanos em busca de mercadorias para o comércio, os riscos das
intempéries da natureza, os riscos de incêndio nas comunidades que se organizaram de forma
urbana e, em especial, os riscos decorrentes do progresso tecnológico incessante que marca a
trajetória da humanidade, foram fatores propulsores do incessante aprimoramento da atividade
econômica que hoje denominamos como operação de seguro.
O mutualismo foi o instrumento de defesa utilizado pelos homens para pulverizarem os
resultados dos riscos materializados que, invariavelmente, traziam prejuízos materiais e,
consequentemente, econômicos. Risco, como nos ensina Peter L. Bernstein2, é uma palavra
oriunda do italiano, risicare, e que significa ousar. Bernstein afirma que “é das ações que ousamos
tomar que depende nosso grau de liberdade”.

Ousar, correr riscos, sempre foi um dos traços da trajetória humana no planeta Terra. Correr
riscos foi, também, a maneira encontrada pelas diferentes culturas para sobreviverem, para
protegerem seus domínios e para aprimorar suas formas de vida.

A ideia de dividir entre muitos os resultados danosos de riscos da natureza ou decorrentes de


atividades humanas se construiu ao longo da história da humanidade e, exatamente por isso, é
difícil precisar seu início, embora se possa afirmar que o instinto de sobrevivência tenha sido o
grande responsável pelo incentivo a previdência, ou seja, a formas práticas de prevenir de
resultados de riscos, visto que nem sempre é possível se prevenir dos próprios riscos.

A operação de seguro se assenta no mutualismo, na construção de um fundo monetário


constituído pela contribuição de diferentes pessoas que será administrado por alguém escolhido
para essa finalidade em razão de sua confiabilidade e competência técnica e, cujos valores serão
utilizados em todas as situações em que algum contribuinte do fundo mutual necessite para
recompor perdas decorrentes de riscos predeterminados.

Mutualismo é expressão de solidariedade entre diferentes pessoas expostas a riscos comuns,


que se tornou, com o tempo, importante ferramenta para alavancar as atividades econômicas
negociais, porque propicia segurança para os empreendedores, que, ao contratarem sua
participação em fundos mutuais, já sabem previamente que estarão cobertos contra algumas
consequências de riscos de atividades empresariais, por exemplo, incêndio, desabamento, roubo,
furto, alagamento entre outros semelhantes.

Pedro Alvim3 ressalta que:

O mutualismo é um instrumento idealizado para amenizar os efeitos econômicos dos riscos e consiste,
exatamente, em dividir esses efeitos entre diversas pessoas de modo que cada uma delas assuma apenas
uma pequena parte, previamente conhecida.

A essência da operação de seguros está estruturada na existência da mutualidade, de riscos


predeterminados, na quantificação econômica igualmente prévia da contribuição devida pelos
participantes da mutualidade e, ainda, dos valores que poderão retirar do fundo mutual.

Os profissionais das áreas de estatística e atuária são responsáveis diretos pela construção do
fundo mutual, pela determinação dos valores necessários para que a mutualidade tenha recursos
ao longo do tempo para disponibilizar a todos os contribuintes que, em razão da ocorrência de um
risco predeterminado e de suas consequências negativas, necessitem de recursos econômicos para
recompor as perdas sofridas.

A contribuição de cada participante do fundo mutual recebe até hoje a denominação de prêmio,
palavra cuja utilização usual é muito diferente da utilização técnica na área de contratos de
seguro, mas que, mesmo assim, é mantida por força da utilização internacional do termo.

Prêmio é o valor em dinheiro pago pela pessoa física ou jurídica para se tornar parte de uma
mutualidade constituída por empresa seguradora, para somar recursos econômicos que serão
utilizados para indenizar os contribuintes que venham a sofrer danos durante o período de
vigência do contrato.

Em outras palavras, prêmio é a contribuição paga pelo segurado, seja ele pessoa física ou
jurídica. O valor que o segurado recebe após a ocorrência de um risco, valor necessário para
recompor os danos ocorridos, é denominado de indenização.

Prêmio é uma expressão técnica utilizada desde os primórdios da atividade de seguros em


vários países do mundo. Essa, aliás, é uma das razões que dificulta a adoção de outro termo para
significar a parte do pagamento do segurado para ingresso na mutualidade. Se isso ocorrer, o
Brasil terá maiores dificuldades para operar seguros em caráter internacional porque a
terminologia técnica mundialmente conhecida deixará de ser utilizada aqui. Essa não é uma
solução para o problema que o termo pode significar para os consumidores ou contratantes de
seguro. A melhor solução é a divulgação constante do significado técnico da palavra prêmio no
âmbito das atividades de seguro.

É obrigação legal e contratual das seguradoras calcularem o valor com o qual cada participante
vai ingressar no fundo mutual e, é igualmente obrigação das seguradoras administrar o fundo
mutual para que ele tenha solvência durante todo o período de contratação dos riscos
predeterminados.

Esse é, sem dúvida, o principal papel do segurador: organizar e administrar o fundo mutual
para que os valores sejam suficientes e estejam à disposição dos segurados no momento em que
for preciso utilizá-los. Seguro não pode ser uma atividade de risco. Ao contrário, o segurado deverá
ter sempre a certeza de que ocorrendo o risco coberto pelo contrato de seguro, os recursos
econômicos estarão disponíveis para serem utilizados na recomposição de suas perdas.

Prêmio e mutualismo são elementos essenciais da operação de seguros e, consequentemente,


dos contratos de seguro que revestem juridicamente a operação econômica. Mas existem outros
fundamentos técnicos e jurídicos relevantes que precisam ser analisados.

3.Fundamentos técnicos e jurídicos da operação de seguros

A operação de seguros se forma a partir de elementos técnicos e jurídicos essenciais, que serão
analisados agora.

3.1.Risco

Risco é a probabilidade de ocorrência de um acontecimento imprevisto, eventual e quase


sempre danoso. Existem riscos seguráveis e riscos que não são seguráveis.

Para que uma modalidade de risco seja segurável é preciso que o risco seja mensurável por
meio de estudos estatísticos e atuariais e, que provoque efeitos econômicos indesejáveis. Os riscos
incluídos como seguráveis são aqueles sobre os quais se tem maior conhecimento, maior
quantidade de estudos estatísticos e, consequentemente, maior previsibilidade de ocorrência e
dimensão das consequências danosas.

Na atualidade, o risco de terremoto e a quantificação de seus danos é mais fácil de ser


mensurado em países como Japão, Chile, Estados Unidos, do que no Brasil. Naqueles países os
terremotos ocorrem com frequência que permite estudos e quantificação de danos, ao passo que
no Brasil isso não acontece.

De outro lado, no Brasil contemporâneo em especial nos grandes centros urbanos, os riscos
decorrentes da utilização de veículos automotores são tão frequentes e corriqueiros que a
quantidade de dados sobre eles permite que sejam totalmente seguráveis, inclusive motos,
caminhões, utilitários de médio porte, ou seja, todas as modalidades comercializadas no País.

Por outro lado, não há como quantificar o valor do prêmio e nem da indenização para o risco
de alguém não obter êxito em um concurso público para a magistratura ou, para ingresso na
polícia federal; nem para o risco de não ser contemplado em loteria ou jogo; ou, ainda, para o risco
de uma atividade empresarial não gerar os lucros esperados por seus empreendedores ou
investidores. Esses são exemplos de riscos não seguráveis.

Na categoria de riscos não seguráveis se encontram, também, os riscos excluídos por força de
lei, ou seja, aqueles decorrentes de atos dolosos. Essa exclusão legal está diretamente relacionada
com a função social dos contratos de seguro que, a rigor, não pode ser utilizado pelos segurados
como um álibi para a prática intencional de atos danosos a terceiros ou a coletividade. Nenhum
contrato pode prever objeto ilícito ou qualquer tipo de prática ilícita; mas, em especial, isso é
vedado aos contratos de seguro, para que não haja prejuízo à sociedade nem à mutualidade.

Risco, na conceituação de Pedro Alvim4 e para o âmbito das atividades de seguro, “(...) é o
acontecimento possível, futuro e incerto, ou de data incerta, que não depende somente da vontade
das partes”.

Para que a operação de seguros seja correta no âmbito jurídico e econômico-atuarial, é preciso
que os riscos seguráveis sejam:

– Possíveis

– Futuros

– Incertos

– Mensuráveis

– Independentes da vontade das partes

– Causadores de danos de natureza econômica

É fundamental, ainda, que o risco esteja bem definido na proposta de seguro de forma que
possa ser analisado objetivamente, para quantificação de prêmio e de limite máximo de
indenização, com base em experiências pregressas estudadas pelos profissionais de estatística e
ciências atuariais. Essa mesma definição correta e objetiva deverá estar presente no contrato de
seguro, para que, no momento da ocorrência do risco, ele possa ser claramente identificável,
mensuradas suas consequências por meio da regulação do sinistro e, ao final, efetuado o
pagamento da indenização cabível.

Os contratos de seguro devem conter sempre uma cláusula específica para riscos excluídos, de
forma a deixar satisfatoriamente claro para os contratantes e para terceiros eventualmente
interessados quais os riscos não cobertos, não contratados naquele instrumento legal. Desse modo,
um contrato de seguro sempre conterá duas cláusulas: riscos cobertos e riscos excluídos, com
objetivo de deixar bem explicitado os danos que poderão ser indenizados e, aqueles que não serão
porque não foram contratados para aquela modalidade de seguro.

A descrição dos riscos seguráveis remete imediatamente a importância da boa-fé e da função


social nos contratos de seguro.

3.2.Boa-fé e função social nos contratos de seguro

Boa-fé é elemento social e jurídico da maior relevância em todas as fases do contrato de seguro.
O Código Civil de 2002 determinou que segurado e seguradora sejam obrigados a guardar na
conclusão e na execução do contrato, a mais estrita boa-fé e veracidade, tanto a respeito do objeto
quanto das circunstâncias e declarações a ele concernentes.

A boa-fé é o único elemento capaz de diminuir a assimetria de informações, um dos problemas


que pode afetar a formação da operação de seguros, ou seja, a fixação dos valores a serem pagos a
título de prêmio e dos valores estipulados para as indenizações dos riscos.

Assimetria de informação é um conceito econômico, que se caracteriza quando agentes


econômicos estabelecem transações, mas entre eles não existe igualdade ou uniformidade de
informações seja em termos qualitativos ou quantitativos.

A assimetria de informações ocorre nos contratos de seguro porque o segurado e a seguradora


não conseguem ter, um sobre o outro, todas as informações que necessitam para a tomada de
decisões. As seguradoras conhecem muito mais sobre a operação de seguros que seus segurados e
estes, por sua vez, conhecem muito mais sobre o interesse legítimo a ser segurado e sobre os riscos
aos quais esse interesse está sujeito, do que a seguradora com a qual pretendem contratar.

A existência de assimetria de informações é compensada com a boa-fé e veracidade que deve


imperar entre os contratantes de seguro, prevista expressamente no artigo 765 do Código Civil e
vigente também no Código Civil de 1916, o que caracteriza a longa tradição da exigência da boa-fé
entre os contratantes de seguro.

A boa-fé nos contratos de seguro é acompanhada do dever de veracidade, o que firma a


conclusão de que se trata de boa-fé objetiva, do dever de agir em estrita consonância com a
verdade e com a honestidade de propósitos. Essa exigência tem início na fase de apresentação e
análise da proposta de seguro, se estende pelo período de execução do contrato e não se extingue
com ele, porque persiste na fase pós-contratual.

A boa-fé nos contratos em geral e, no contrato de seguro em específico, deve ser compreendida
no mundo contemporâneo como o dever de agir com ética em todos os quadrantes da vida social,
inclusive e, principalmente, nos aspectos negociais. Não se trata de visão ingênua a respeito do
universo econômico, mas da constatação de que no mundo contemporâneo marcado pelo
capitalismo como forma hegemônica de relações econômicas, pela globalização e imprescindível
inter-relação com blocos econômicos e por empresas transnacionais, o meio mais eficiente para
dar suporte a transação entre diferentes culturas e interesses econômicos é a ação marcada pela
ética, transparência e confiança.

O contrário disso serão tantos conflitos a serem dirimidos que a troca comercial globalizada
ficará inviável e, certamente, comprometerá severamente o avanço tecnológico e a circulação de
riquezas no mundo.

A prática ética é essencial para a formação e execução dos contratos de seguro e, por essa
razão, é importante reafirmar que a boa-fé é elemento essencial para esses contratos muito mais
do que qualquer outro elemento, o que explica que o Código Civil brasileiro além de determinar a
boa-fé objetiva e a probidade como cláusulas gerais para todos os contratos, artigo 422, reforçou a
importância para os contratos de seguro quando determinou novamente, desta feita no artigo 765,
a exigência de boa-fé e veracidade, de forma estrita, na relação entre segurados e seguradoras.

A esse respeito afirma Fabio Ulhôa Coelho5:

(...), o dever de boa-fé – ao qual a lei vincula também o de veracidade – não equivale ao assentamento
na cláusula geral do direito contratual. Ele comporta um elemento específico, próprio do contrato de
seguro. Quando a lei fala em estrita boa-fé dos contratantes do seguro, está dando ênfase à relevância da
conduta deles para interesses de sujeitos estranhos ao contrato em negociação ou execução. O
descumprimento desse dever pelo proponente não prejudica apenas os interesses da seguradora, mas
pode repercutir negativamente nos demais segurados da mesma carteira. O proponente de má-fé que
mente para a seguradora, impede o cálculo adequado do risco e do prêmio. Com isso, os recursos que
alimentam o fundo de socialização podem, no final, ser insuficientes ao atendimento de todos os
interesses cobertos.

Os contratos de seguro são quase sempre individuais, mas o fundo que os sustenta, o
mutualismo, é coletivo e formado pela contribuição de milhares de pessoas que muitas vezes e, em
sua grande maioria, não receberão nenhuma indenização ao longo do período de vigência porque
não terão nenhum risco previsto materializado e resultando em danos. Essas pessoas
contribuíram para ter a garantia de que existiriam valores suficientes para a indenização, caso
esta fosse necessária. Se um dos componentes da mutualidade agir com má-fé ou, sem veracidade
nas informações, comprometerá a solvência de toda a estrutura econômica e financeira
arquitetada para sustentar a mutualidade.

É exatamente por isso que a cláusula geral de função social, prevista no artigo 421 do Código
Civil, tem contornos específicos quando se trata de sua aplicação aos contratos de seguro. A função
social como razão e limite dos contratos se aplica em respeito a toda a sociedade e, nos contratos
de seguro, em razão da necessária proteção e respeito aos contratantes que contribuíram para a
formação da mutualidade, aplica-se com substancial ênfase e necessidade.
Função social dos contratos é cláusula geral que limita a atividade contratual no sentido de
proteger interesses que são relevantes para toda a sociedade e, por isso, não podem ser agredidos
pelas partes contratantes. Assim, nenhum contrato privado poderá, por exemplo, fixar cláusulas
que firam as disposições de proteção ao meio ambiente ou, que frustrem a proteção do
consumidor.

É nessa dimensão que a função social dos contratos de seguro é duplicada: a uma, porque se
aplica a toda a sociedade na medida em que esses contratos jamais poderão conter cláusulas que
firam o interesse público; e, além disso, porque não poderão ferir especificamente os interesses
metaindividuais da mutualidade, consubstanciada na comunidade que contribuiu para a
formação do fundo mutual. Desse modo, não poderá um seguro de riscos ambientais conter
cláusula que cubra os danos decorrentes de contaminação intencional de rio, ou, um seguro de
responsabilidade civil conter cláusula que dê cobertura para riscos de acidentes a empregados
decorrentes de intencionalidade do empregador ou, de total e absoluta inércia na adoção de
medidas protetivas previstas por lei; ou, ainda, que preveja a reparação de danos decorrentes de
acidente de trânsito causado por condutor segurado que guiava embriagado.

Em todas essas situações não está presente apenas a ofensa à sociedade, mas, também, estará
presente a ofensa à coletividade que contribuiu para a formação do fundo mutual, que tem direito
de não disponibilizar recursos para pagamento de indenizações decorrentes de atos que,
inequivocamente, ferem os interesses dos que dispensaram recursos para a formação da
mutualidade.

3.3.Limite máximo de indenização

O limite máximo de indenização, no passado recente denominado como importância segurada,


é o valor fixado no contrato de seguro que corresponde ao valor máximo que a seguradora se
obriga a indenizar, em cada sinistro ou série de sinistros decorrentes do mesmo fato danoso.

Sinistro é outra expressão técnica utilizada nas operações de seguro que costuma dificultar a
compreensão, embora seja mundialmente utilizada nesse setor de atividade econômica.

Sinistro é o risco materializado. Enquanto estiver previsto no contrato como risco, o


acontecimento não se materializou. Uma vez ocorrido, materializado, recebe o nome de sinistro.
Somente se dá o nome de sinistro ao risco coberto pelo contrato de seguro quando ele se efetiva.
Um risco não coberto pelo contrato de seguro, ou seja, um risco não contratado, quando se
materializa, não é um sinistro porque não há previsão contratual. Pode, no entanto, ser chamado
de sinistro não coberto pelo contrato de seguro.

A regulação de sinistro é uma das fases mais técnicas e complexas da relação contratual de
seguro. Ela ocorre sob comando do segurador, deve ser acompanhada de forma diligente e
colaborativa pelo segurado, a quem compete fornecer dados e documentos necessários para a
compreensão da forma como o risco se materializou e para a aferição dos valores necessários para
a indenização. Nesse momento, a boa-fé entre segurado e segurador é fundamental, em especial do
segurado para com o segurador, porque compete a ele, e a mais ninguém, fornecer todos os dados
necessários para a perfeita compreensão do fato e de suas consequências danosas. Como a
indenização será paga pela mutualidade, o dever de boa-fé se avulta.

O contrato de seguro não pode trazer nenhum benefício para os segurados, nenhum sinistro
pode se constituir em lucro para o segurado. Os valores a serem indenizados deverão ser aqueles
que correspondam rigorosamente a reposição do interesse legítimo atingido pelo risco. Não há
fundamento para que o segurado seja indenizado em valor superior àquele apurado como dano,
porque isso seria uma agressão contra o fundo mutual. A apuração técnica e rigorosa da extensão
dos danos deve ser feita com a contribuição de peritos, em especial nos casos mais complexos,
como nos danos decorrentes de riscos de engenharia, de transporte, incêndio, responsabilidade
civil, por exemplo. Nos seguros de automóvel esses cálculos são menos complexos, embora nem
sempre as partes, segurador e segurado, concordem de imediato sobre os valores apontados como
prejuízo.
A regulação de sinistro deve ocorrer durante o período de tempo necessário para que sejam
apurados corretamente os valores a serem indenizados, porém o segurador tem o dever de manter
o segurado informado sobre as etapas da regulação, em especial porque a necessidade de
reparação dos danos é sempre urgente, quer seja o segurado pessoa física ou jurídica.

O tempo necessário para a regulação técnica e correta deve ser respeitado, porém o segurado
não pode esperar indefinidamente pela conclusão. Nesse sentido, a Superintendência de Seguros
Privados – SUSEP, órgão fiscalizador do setor de seguros e executor das determinações do Conselho
Nacional de Seguros Privados – CNSP, determina que as seguradoras tenham, no máximo, 30 dias
para indenizar os segurados, contado o prazo da data de entrega de todos os documentos
necessários para a regulação.6

Finalizada a regulação de sinistro, o segurador deve efetuar o pagamento do valor da


indenização preferencialmente em dinheiro, embora em casos específicos se aceite que o
segurador providencie a reparação do bem objeto do interesse legítimo, como acontece nos
acidentes de trânsito com veículos segurados em que os proprietários são orientados a levar seus
veículos para oficinas nas quais eles serão reparados e, cujo pagamento será realizado pelo
segurador.

Poderá ocorrer, ainda, embora não seja frequente e nem recomendável do ponto de vista
prático, que o segurador reponha o bem segurado, objeto do interesse legítimo do segurado. Nesses
casos, o segurado deverá concordar com o bem oferecido, avaliar se o bem oferecido é compatível
com aquele que se perdeu e, nessa medida, se ele cumpre com perfeição o dever de reposição.

O valor da indenização a ser paga pelo segurador deve ser exatamente igual à extensão dos
danos comprovadamente sofridos pelo bem segurado, porque nenhuma modalidade de seguro
pode ser fonte de lucro para o segurado ou, para terceiro. Essa regra não se aplica aos seguros de
pessoas, vida ou acidentes pessoais, em que o valor fixado para o limite máximo da apólice não
corresponde ao valor econômico do bem segurado, porque a vida e as consequências dos acidentes
no físico da vítima não podem ser fixadas a partir de valores econômicos como os bens de
produção e consumo, ou, os bens de capital.

A avaliação da extensão dos danos materiais é simples em seguros de danos a máquinas e


equipamentos mais comumente utilizados na produção industrial, automóveis, mercadorias em
estoque e outros assemelhados; mas poderá ser bastante complexa em situações nas quais existam
coberturas para perdas decorrentes de lucros cessantes, transporte marítimo, aéreo e rodoviário,
perda ou redução de capacidade laborativa, danos decorrentes de riscos ambientais, entre outras.
Nesses casos, a fixação do valor indenitário dependerá da atuação técnica e competente de um
perito experiente.

Nas situações mais complexas para avaliação da extensão dos danos é que o contrato de seguro
se caracteriza como contrato que impõe verdadeira colaboração entre as partes contratantes,
porque somente o segurado e/ou seus representantes legais reúnem condições para fornecer os
dados objetivos necessários para o cálculo do valor a ser indenizado. Nenhum perito por mais
experiente e preparado que seja, terá condições de efetuar avaliações e cálculos se não dispuser de
dados, muitos dos quais se encontram facilmente identificáveis em documentos contábeis e
empresariais, enquanto outros dependem, exclusivamente, da informação do segurado e/ou seus
prepostos e representantes legais.

Essa colaboração no momento da regulação do sinistro, para que seja realizado o pagamento da
indenização dos danos comprovados, é parte do dever de conduta de boa-fé e veracidade
determinado pelo Código Civil brasileiro e, por todas as legislações contemporâneas que regulam
as obrigações contratuais. Não é viável regular sinistro e indenizar de forma correta sem que as
partes, segurador e segurado, colaborem mutuamente para que o objetivo seja alcançado.

A cautela empregada pelo segurador na análise das informações recebidas e dos documentos
disponibilizados, só se justifica em razão da prática da boa-fé em relação ao próprio segurado, bem
como em relação ao grupo de segurados que contribuiu para a formação do fundo mutual de onde
serão utilizados valores econômicos para custear a indenização.

A cautela não pode ser excessiva a ponto de criar dificuldades para o pagamento dos valores
indenitários, da mesma forma como não pode ser colocada de lado como se fosse apenas uma
responsabilidade menor do segurador. Ao contrário, é obrigação essencial do segurador verificar
se o sinistro ocorrido tem cobertura no contrato firmado entre as partes, qual a exata extensão dos
danos e quais os valores deverão ser indenizados. Essa obrigação é parte fundamental dos dois
mais relevantes deveres do segurador: organizar e administrar o fundo mutual que fornecerá os
valores necessários para o pagamento das indenizações. Utilizado de forma indevida o fundo
mutual não terá os recursos necessários e, nesse caso, o segurador poderá e deverá ser punido pelo
comprometimento da solvência do fundo mutual.

3.4.Prêmio de seguro

Prêmio é o valor que o segurado paga para a seguradora. Após o pagamento do prêmio o
contrato de seguro tem início de vigência, normalmente, por um ano, embora possam existir
contratos com prazo superior a esse.

O prêmio é calculado em decorrência da avaliação do risco ao qual o segurado está exposto e,


nessa medida, será maior ou menor se o risco for agravado ou não. Riscos mais passíveis de
ocorrer terão valor de prêmio aumentado, enquanto riscos menos suscetíveis de materialização
terão valor de prêmio menor. Uma noção simples que contribui para a correta compreensão da
operação de fixação do valor do prêmio são as faixas etárias nos seguros de pessoas. Muito mais
alto será o prêmio a pagar por uma pessoa de 50 anos na contratação de um seguro de vida do que
um jovem com 20 anos, por exemplo. O risco de óbito é maior para a pessoa mais velha do que a
mais jovem.

O prêmio é calculado a partir de cálculos estatísticos que mapeiam a quantidade de vezes que
um determinado risco já se materializou e, quais os valores de danos que ele gerou. Também é
fundamental a análise do número de participantes necessários para que o fundo mutual tenha
solvência. Após essa análise, é necessário calcular uma margem de segurança que será acrescida
ao valor do prêmio original, também denominado como prêmio puro.

Finalizado o trabalho técnico estatístico e atuarial, é preciso carregar o prêmio com o valor das
despesas administrativas da empresa seguradora e, com as despesas de comercialização do seguro.
Nas primeiras – despesas administrativas –, se incluem também os tributos; e nas segundas, o valor
da comissão de corretagem dos corretores de seguro, quando a distribuição for realizada por eles.

Ao final, teremos o prêmio a ser pago por cada segurado de forma antecipada, antes mesmo da
emissão da apólice de seguro, embora a legislação brasileira não obrigue o pagamento antecipado;
mas, sim tempestivo, o que significa que pode ocorrer até mesmo depois da ocorrência do sinistro
em situações específicas, embora isso não seja a regra.

Do montante de prêmios pagos pelos segurados sairão os recursos para formação do fundo
mutual, necessário para o pagamento de indenizações aos segurados e/ou terceiros quando
ocorrerem os riscos cobertos pelo contrato; e, os recursos necessários para pagamento de despesas
administrativas das seguradoras, comissão de segurados, tributos incidentes sobre todas as
atividades do setor e, a margem de lucro adotada pelo segurador.

Os valores destinados ao fundo mutual para pagamento de compromissos futuros são


denominados de reservas técnicas. Essas reservas são aplicadas pelas seguradoras para que tenha
rentabilidade. É uma operação realizada em conformidade com regras bastante específicas dos
órgãos reguladores, visto que o volume de reservas técnicas das seguradoras brasileiras, em 2017,
alcançou o valor de 900 milhões de reais. Esse dinheiro pertence aos segurados e deve ser aplicado
com total responsabilidade, para que nunca faltem recursos no momento em que for necessário
indenizar segurados, terceiros, permitir o resgate de valores da previdência privada, pagamento
de sorteios de capitalização ou, qualquer outro valor decorrente da contratação de seguros,
previdência suplementar ou títulos de capitalização.
4.Distribuição de seguros – intermediação do corretor de seguros, papel do agente,
representantes e distribuição direta

No mercado de seguros brasileiro a distribuição é feita, tradicionalmente, por corretores de


seguro, tanto nos seguros de massa como nos seguros mais complexos. Embora não seja
obrigatória a distribuição por intermédio de corretor de seguros, ela foi a forma que mais se
popularizou no Brasil, em razão da complexidade desses contratos e da facilidade do segurado e
do segurador contarem com um intermediário, legalmente habilitado e preparado por meio de
curso específico, para elucidar as questões de maior relevância para as partes contratantes.

O corretor de seguros poderá ser uma pessoa física ou jurídica e, em ambas as hipóteses,
deverá estar autorizado a operar nessa área por meio de registro junto ao órgão regulador, a
Superintendência de Seguros Privados – SUSEP, que defere a inscrição mediante comprovação de
aprovação em exame técnico composto por questões de múltipla escolha.

Por força de lei, o corretor de seguros não poderá ser empregado do segurador, devendo
manter total independência em relação a este. A ideia original é de que o corretor de seguros é um
comprador de seguros, ou seja, aquele que procura no mercado o melhor serviço de seguro
disponível para os riscos que seu cliente, o segurado, precisa cobrir por meio de um contrato. O
corretor de seguros é a pessoa que busca a melhor contratação para o segurado e, exatamente por
isso, é livremente escolhido por ele, embora no sistema brasileiro os corretores de seguros devam
ser previamente cadastrados nas seguradoras para que possam operar com serviços que elas
disponibilizam para o mercado.

Durante muito tempo, os corretores de seguros atuaram de forma quase exclusiva no mercado
brasileiro. Na atualidade, a diversidade dos serviços de seguro encontrados e, o avanço tecnológico
provocaram profundas modificações.

Na atualidade, os seguros são distribuídos também e com frequência, por canais como agentes
de seguro, representantes e, ainda, por via direta.

Agentes de seguro são pessoas que trabalham para uma seguradora, mediante vínculo de
exclusividade, quase sempre empregatício e que, portanto, apresentam ao segurado apenas
serviços de seguro de uma determinada seguradora.

Representantes de seguro são as empresas varejistas autorizadas a oferecer em suas lojas


ramos específicos de seguro, como os seguros de garantia estendida, roubo e furto de celulares,
prestamista, acidentes pessoais, por exemplo, para todos os consumidores que estejam adquirindo
produtos disponibilizados na loja (fogões, geladeiras, televisões, entre outros).

Venda direta tem ocorrido, no Brasil, principalmente, por meio da rede mundial de
computadores. Quase sempre se destina a distribuição de seguros massificados, como o seguro de
automóvel, por exemplo. O segurado acessa o portal da seguradora na rede mundial de
computadores, preenche os sucessivos campos com os dados solicitados pelo segurador e, efetua o
pagamento do prêmio por intermédio de cartão de crédito. Realiza toda a operação de contratação
sozinho e com resposta imediata à proposta apresentada, finalizando com o pagamento e o
recebimento de comprovante, bem como de endereço eletrônico para acesso à apólice. Na área dos
seguros massificados, como automóvel, vida e acidentes pessoais, por exemplo, os estudos
econômicos e de comportamento indicam que essa será a forma de distribuição mais praticada,
em rigorosa consonância com o espírito de praticidade que é traço importante do comportamento
das gerações mais jovens da sociedade.

Todas as formas de distribuição de seguros no mercado brasileiro são reguladas pela


Superintendência de Seguros Privados – SUSEP.

5.Prestadores de serviços em seguros

A atividade de seguros é fundamentalmente atividade desenvolvida em rede, com a


colaboração de empresas cuja atividade-fim consiste em prestação de serviços, que são essenciais
para o setor econômico de seguros.

Nenhuma seguradora no Brasil possui oficina reparadora de danos a veículos, nem hospitais
para prestação de serviços de saúde a seus segurados. Também não possuem reparadoras para
aparelhos celulares ou, para máquinas industriais. Elas possuem empresas cadastradas,
previamente selecionadas, para realizarem as tarefas necessárias para atender os ditames do
contrato firmado entre segurador e seguro.

Assim, ocorrido um sinistro com uma máquina industrial de grande porte, o segurado
comunica seu corretor de seguros ou, a seguradora diretamente, para que ela envie ao local um
perito para a avaliação do fato e da extensão dos danos, o que vai gerar um relatório de sinistros
essenciais para que a seguradora decida pelo pagamento ou pela recusa e, sendo decidido pelo
pagamento da indenização dos danos, de que forma isso será feito (com a reposição da máquina
ou, indenização em dinheiro).

Em razão da diversidade de fatos que podem ocorrer, o perito quase sempre é um terceiro
contratado para realizar aquela tarefa em caráter de prestação de serviços, ou seja, não é um
empregado da seguradora porque esta não conseguiria manter em seu quadro de colaboradores a
diversidade necessária de peritos que são habitualmente utilizados nas operações usuais de
seguro. São peritos em mecânica, elétrica, materiais, funcionamento de sistemas específicos (como
caldeiras e vasos sob pressão), física (para estudo dos movimentos de veículos no momento da
colisão), médicos (para exercício da atividade de auditoria), entre outras dezenas de hipóteses de
experts contratados para atuar nos trabalhos de regulação de sinistro.

Em áreas específicas como seguros-saúde, por exemplo, as seguradoras referenciam toda a


prestação de serviços realizada por médicos, hospitais, clínicas, prontos socorros, laboratórios de
análise, centros de fisioterapia, nutrição, entre outros, o que inclui milhares de profissionais e
prestadores de serviços que atuam para segurados de uma determinada seguradora.

Por fim, no exercício de sua atividade-fim, as seguradoras dependem da correta atuação de


diversificados órgãos do sistema público. Quase sempre a necessidade é que o segurado apresente
documentos oficiais, públicos, que comprovem a regularidade de sua atividade, a aquisição de
bens, a ocorrência do sinistro, a extensão dos danos (em caso de acidente de trânsito, o policial que
atende a ocorrência in loco deve especificar no Boletim de Ocorrência se o sinistro teve danos de
pequena, média ou grande monta, o que é um dado fundamental para evitar fraudes), atestado de
regularidade na atuação de hospitais, clínicas e laboratórios, entre outros inúmeros documentos
públicos essenciais para a garantia da relação entre segurados, seguradoras e terceiros vítimas de
danos causados pelos segurados.

Na utilização dessa ampla rede de prestadores de serviços e de serviços públicos, existem


situações de fundamental importância para a atuação da área de compliance, em especial, para
coibir atos de corrupção e de fraude.

6.Regulação em seguros

O setor de seguros é um setor econômico fortemente regulado em razão da utilização de


recursos de terceiros para a formação do fundo mutual.

A regulação é realizada pelo Conselho Nacional de Seguros Privados – CNSP e pela


Superintendência de Seguros Privados – SUSEP, para as áreas de seguros gerais, vida e
capitalização.

Na área de seguros-saúde a regulação está a cargo do Conselho de Saúde Suplementar – CONSU


e da Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária –
ANVISA também atua na regulação do setor de saúde privada.

Além da regulação direta da atividade-fim das seguradoras, também há regulação decorrente


da atividade econômico-financeira e dos aspectos específicos do tipo de sociedade empresarial em
que, obrigatoriamente, as seguradoras se constituem – sociedades anônimas. Assim, a Comissão de
Valores Mobiliários – CVM e o Banco Central – BACEN, também atuam na regulação das atividades
de seguro no Brasil.

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE, também atua na regulação e


fiscalização das atividades praticadas por seguradoras no âmbito da livre concorrência.

Trata-se, portanto, de setor fortemente regulado e com limites muito severos para práticas
econômicas, financeiras e concorrenciais, o que de certa forma tem sido positivo porque existem
poucos registros de liquidação judicial ou extrajudicial de seguradoras nos últimos anos no Brasil.
Isso contribui para a credibilidade da atividade de seguros e, consequentemente, para que os
contratantes de todos os portes tenham confiança de que a atividade sustenta adequadamente os
compromissos que assume.

A confiança dos contratantes tem repercussão econômica e social. No primeiro caso, porque
viabiliza maior quantidade de negócios e, no segundo, porque o setor está identificado como meio
de garantia de pagamento de indenizações em momentos sensíveis da trajetória de vida das
pessoas comuns, como a morte de esposo (a), danos físicos decorrentes de acidentes pessoais,
danos materiais decorrentes de incêndios, furtos, roubos ou outros, indenização de despesas de
funeral, entre outras situações em que o seguro viabiliza resposta positiva para necessidades
essenciais.

7.Programas de compliance em seguros

Programas de compliance em qualquer setor econômico se inserem no bojo das boas práticas de
governança corporativa. No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários e a Bolsa de Valores de São
Paulo7 definem governança corporativa como:

CMV – governança corporativa é o conjunto de práticas que têm por finalidade otimizar o
desempenho de uma companhia ao proteger todas as partes interessadas, tais como investidores,
empregados e credores, facilitando o acesso ao capital. A análise das práticas de governança corporativa
aplicadas ao mercado de capitais envolve, principalmente: transparência, equidade de tratamento dos
acionistas e prestação de contas.

BOVESPA – governança corporativa é o conjunto de mecanismos de incentivo e controle que visam


assegurar que as decisões sejam tomadas em linha com os objetivos de longo prazo das organizações. O
objetivo principal da governança é contribuir substancialmente para o alcance de suas metas estratégicas
e a criação de valor para todos os seus acionistas, respeitando os relacionamentos com as partes
interessadas (stakeholders).

Para a Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE,8

A governança corporativa é o sistema segundo o qual as corporações de negócio são dirigidas e


controladas. A estrutura da governança corporativa especifica a distribuição de direitos e
responsabilidade entre os diferentes participantes da corporação, tais como o conselho de administração,
os diretos executivos, os acionistas e outros interessados, além de definir as regras e procedimentos para
tomada de decisão em relação às questões corporativas. E oferece também bases através das quais os
objetivos da empresa são estabelecidos, definindo os meios para se alcançarem tais objetivos e os
instrumentos para se acompanhar o desempenho (OCDE, 1999).

Nas atividades de seguro, a governança corporativa é fundamental para a segurança dos


acionistas, dos segurados, de todos os colaboradores e terceirizados e, da própria sociedade, que
tem a legítima expectativa de que as indenizações de seguro serão pagas no momento e no valor
correto, de forma que os danos causados por diferentes riscos sejam reparados ou indenizados,
para permitir a continuidade de atividades econômicas e sociais.

Assim, é correto afirmar que a atividade de compliance no âmbito das atividades de seguro é
muito mais relevante do que em outras atividades econômicas. No setor de seguros, o compliance é
responsável por garantir a prevenção contra atos e práticas que possam colocar em risco não
apenas a solvência da companhia; mas, também, a sustentabilidade dos fundos mutuais que
compete às companhias de seguro organizar e administrar.

O mapeamento de riscos nos compliance do setor de seguros vai além da identificação das
possibilidades de fraude, corrupção e lavagem de dinheiro. Passa, necessariamente, pela tarefa de
se certificar de que as regras serão claras a respeito da utilização dos recursos de reservas
técnicas, reservas da própria empresa e recursos a serem pagos aos acionistas a cada exercício.
São múltiplos e diferentes valores financeiros a serem corretamente administrados, para
finalidades específicas e que em nenhuma hipótese, poderão ser confundidos. Nenhuma forma de
desvio de finalidade pode ser admitida na gestão dos recursos, o que, evidentemente, impõe regras
claras e devidamente aprovadas pelo conselho de administração das empresas.

Além disso, na atividade de seguro, as normas éticas são essenciais em todas as etapas do
negócio, mas muito em especial no relacionamento com terceirizados e prestadores de serviços,
em razão do fato de ser uma atividade em rede que depende do trabalho externo para atingir
finalidades previstas nos contratos. É a oficina que repara o veículo e não a seguradora; é o
hospital que atende o usuário e não o plano de saúde. Por essa razão, evitar que recursos sejam
desviados em fraudes, máfias de fornecedores de produtos, serviços, equipamentos e
medicamentos, entre outros, é de extrema relevância para os departamentos de compliance em
seguros.

Mas o regramento ético também é essencial para o relacionamento com os órgãos de regulação
do setor e, como vimos, são muitos e diversificados. É fundamental, ainda, para o relacionamento
entre os colaboradores das próprias empresas e, destas com os canais de distribuição (corretores
de seguro e agentes).

Neste momento, todos os programas de compliance no setor de seguros brasileiros estão


preocupados com os riscos decorrentes de ataques cibernéticos, vazamento de dados e
cumprimento das regras do Regulamento (EU) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho, de
27 de abril de 2016, relativo à proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento
de dados pessoais e à livre circulação desses dados, que entrou em vigor em maio de 2018. O novo
dispositivo legal é minucioso e detalhado e está sendo chamado de Regulamento Geral de Proteção
de Dados da União Europeia (RGPD).

O Regulamento Europeu é bastante claro no que respeita aos danos e a obrigação de indenizá-
los. O artigo 82 – Direito de Indenização e Responsabilidade – estabelece que qualquer pessoa que
tenha sofrido danos materiais ou imateriais, devido a uma violação do regulamento, tem direito a
receber uma indenização do responsável pelo tratamento ou do subcontratante pelos danos
sofridos. E no item 83, o Regulamento determina que a fim de preservar a segurança e evitar
violação, o responsável pelo tratamento ou o subcontratante deverá avaliar os riscos implicados e
adotar medidas que o atenuem. As medidas deverão assegurar adequado nível de segurança, em
especial a confidencialidade, levando em conta as técnicas mais avançadas e os custos de sua
aplicação em função dos riscos e da natureza dos dados pessoais a serem protegidos.

O Regulamento Geral de Proteção de Dados da Europa menciona, objetivamente, a preocupação


com a prevenção e a segurança contra os riscos de destruição, perda e alteração acidentais ou
ilícitas, divulgação ou acesso não autorizados ou, ainda, outros da mesma natureza que possam
ensejar danos materiais ou imateriais. Há, ainda, regras para a perda do controle sobre os dados
pessoais, a limitação de direitos, discriminação, o roubo ou a usurpação da identidade, perdas
financeiras e a perda de confidencialidade ou, qualquer outra desvantagem econômica ou social
significativa às pessoas.

Para as empresas de seguro brasileiras que atendem grupos empresariais nacionais


internacionais e que para seguros como D&O, Responsabilidade Civil, Lucros Cessantes, Garantia
de Crédito, Saúde, entre outros, recebem nas propostas e questionários de avaliação de riscos
enorme quantidade de dados empresariais e pessoais, será fundamental seguir as regras de
proteção de dados brasileira (ainda sem lei ordinária aprovada) e o RPGD europeu e, para isso,
deverão os compliance de seguro adotarem medidas claras contra os riscos decorrentes do
descumprimento do dever de proteção de dados.
O conjunto de necessidades impõe a adoção de regras corporativas, capacitação interna e
externa, programa contínuo de divulgação das melhores práticas, armazenamento de documentos
detalhados de tarefas de avaliação de risco, canais de denúncia eficientes e confiáveis, mas, em
especial, é preciso adotar instrumentos que possam monitorar de forma eficaz o cumprimento dos
objetivos do compliance.

O monitoramento das ações determinadas pelos programas de compliance é o mecanismo mais


dinâmico para identificação de resultados positivos e negativos, bem como para a correção e
controle das práticas adotadas.

8.Conclusão

A atividade de seguros é bastante específica e possui elementos que a tornam única. Isso exige
que as diferentes áreas que atuam nas seguradoras estabeleçam regras e diretrizes seguras de
ação, integradas por ações que devem ser coordenadas pelos programas de compliance.

Da subscrição de riscos dos segurados, a aceitação de riscos empresariais da própria


seguradora, como na escolha de investimentos ou de áreas de atuação, tudo adere aos objetivos
das práticas de compliance, contribuindo para a formação de um grande elenco de possiblidades e
responsabilidades de atuação.

Essa gama de necessidades de atuação dos programas de compliance em seguros motiva


práticas que devem ser marcadas por rigorosa técnica, eficiência e controle sistematizado de
ações. Mas, em que pesem todos os atributos que os programas de compliance em seguros possam
requisitar, é no engajamento dos colaboradores e dos terceirizados e prestadores de serviços que o
êxito das atividades encontrará ou não concretização.

Para esse engajamento é essencial que sejam vencidas as barreiras que, por vezes, identificam
o compliance como mais uma área de restrição à liberdade negocial, em um setor econômico
sobejamente regulado e que até recentemente, em sua história no Brasil, atuou com precificação e
clausulado de apólices predeterminados por órgãos federais. A liberdade de atuação tem um
significado importante para o segmento de seguros e, em decorrência, tudo o quanto possa
significar restrição a ela é recepcionado de maneira negativa.

Cumpre aos gestores de programas de compliance superar essa resistência interna e externa,
por meio de diálogo qualificado a ser construído nos programas de capacitação e no engajamento
das diversas áreas.

Gerenciamento de risco e segurança nas operações são características implícitas às atividades


de seguro em todo o mundo o que, em boa medida, facilita a compreensão de que os programas de
compliance podem se constituir em vetor para consolidar políticas empresariais que viabilizem
resultados positivos com proteção efetiva contra riscos.

9.Referências Bibliográficas

ALVIM, Pedro. O contrato de seguro. Rio de Janeiro: Forense, 1999.

BERNSTEIN, Peter L. Desafio aos Deuses. A fascinante história do risco. Rio de Janeiro: Campus,
1997.

COELHO, Fabio Ulhôa. Curso de direito civil: contratos. São Paulo: Saraiva, 2005.

SILVA, Edson Cordeiro. Governança corporativa nas empresas. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2016.
NOTAS DE RODAPÉ
1

Doutora em Direito Político e Econômico. Doutora em Educação. Mestre em Direito Civil. Mestre em
História Contemporânea. Docente na Universidade Paulista – UNIP e na Universidade Metropolitana de
Santos – UNIMES. Pós-Doutor em Direito Constitucional pela PUC do Rio Grande do Sul.

BERNSTEIN, Peter L. Desafio aos Deuses. A fascinante história do risco. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 8.

ALVIM, Pedro. O contrato de seguro. Rio de Janeiro: Forense, 1999. p. 2.

Obra citada, p. 215.

COELHO, Fabio Ulhôa. Curso de direito civil: contratos. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 342.

A liquidação dos sinistros deverá ser feita num prazo não superior a 30 dias, contados a partir da entrega
de todos os documentos básicos apresentados pelo segurado ou beneficiário(s). A contagem do prazo
poderá ser suspensa quando, no caso de dúvida fundada e justificável, forem solicitados novos
documentos, voltando a correr a partir do dia útil subsequente àquele em que forem completamente
atendidas as exigências pelo segurado ou beneficiário. É essencial que o segurado ou beneficiário solicite à
sociedade seguradora o devido protocolo que identifique a data do recebimento do aviso de sinistro e
respectivos documentos. Disponível em: [www.susep.org.br]. Acesso em: 23.01.2017.

SILVA, Edson Cordeiro. Governança corporativa nas empresas. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2016. p. 33.

SILVA, Edson Cordeiro da. Obra citada, p. 32.

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