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MARTIN FORD

ROBOS - A AMEAÇA DE UM
FUTURO SEMEMPREGO

Josn vare n rflf)tfr^i'ourNÂ EorçôEs

tr
BERTRAND EDITORA
Lisboa 2016
Título original Pvse of tlte Robots
Autor: Martin Ford
@ 2015 by Martin Ford
Pubücado inicialmente nos EUA por Basic Books, membro do Perseus Book Group

Todos os direitos p^ra publicação desta obra em língua portuguesa,


^
exceto Brasil, resenrados por Bertrand Editora, Lda.
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Esa edição segue t gr:arfra do Novo Acordo


Ortográfico da Língua Porn4guesa.

Duigtt dacapt: Ana Montefuo


Revisão: João Pedro T apada

Pré-impressão: Fotocomp ogrâfica, IÀa.


Execução grãfrca:. Bloco Gráfico, Lda.
Unidade Industrial da Maia

1." edição: fulho de 2016


Depósito legal n." N9 779/16
ISBN : 97 8-97 2-25 -3228 -0
ÍNorcB

nvrnoouçÃo 11

cepÍtur,o L A oNDA D AuTouarrzaçÂo 23

cepÍrur,o z. ssnÁ DIFERENTE DESTÂ vez? 55

cepÍrur-o 3. TEcNoI-oGIÀ oa mronuaçÂo: UMA FoRÇ DE


onnueçÃo sEM PRECEDENTES ...... 93

cepÍrur.o 4. EMPREGoS DE coLARINHo BRÂNCo EM Rlsco 115

capÍruro s. TRANSFoRMAR o ENSINo SUPERIoR 169

cepÍtur.o 6. o DESAFIo Dos cuIDADos DE sAUDE ... 189

capÍrur,o ?. Âs TECNoLocIAS E INDUSTRIAS Do FUTURo 225

CepÍfUf-O 8. CONSUMIDORES, LIMITES AO CRESCIMENTO... E CRISE? .. 245

clpÍruro 9. suPERJNtsLtcÊNcIA E SINGULARIDÂDE 289

capÍtur.o 10. RUMo A uM Novo PARADIGMA ... 317

coNcr.usÃo 349

AGRADECIMENTOS 353

NOTÂS. 355

ÍNorcB REMIssrvo 389

9
INTRODUçÃO

Em tempos, durante os anos 60, Milton Friedman, econo-


mista laureado com o Prémio Nobel , etl consultor do govefno
de um país asiático em vias de desenvolvimento. Friedman foi
levado a obsenrar um proieto de obras públicas de grande esca-
la, onde foi surpreendido com um grande número de trabalha-
dores a maneiar pás, mas pouqússimos buldózefes, tratofes ou
qualquer outro tipo de maquinaria pesada Púz. remoção de ter-
ras. Quando exPôs a sua sutPresa, o funcionário govefnamental
responsimel explicou que o proieto efa eÍ]tendido como um
(grograma de emPfego». A cáustica fesPosta de Friedman ficou
então famosa: snás, Porque não dão aos trabalhadores co-
-
lheres em vez de pás?
A obsewação de Friedman contém o ceticismo e muitas
-
exPressado por economistas ao
vezes o escárnio imediato
-
confrontarem receios sobre a PersPetiva de as máquinas destnrí-
fem postos de Uabalho e criarem desemprego de longa duração.
Historicamente, este ceticismo aPaÍentl estaf bem fi:ndamenado.
Nos Estados Unidos, sobrenrdo durante o século xx, o Pfogfes-
so tecnológico conduziu-nos firmemente fllmo a trrna sociedade
mais próspera.
É ..rto que houve alguns uopeções e de ficto disrup-
-
pelo caminho . L mecanaaçio da agriculnrra
ções importantes
-
vaporizou milhões de Postos de trabalho e emPurrou multi-
dões de trabalhadotes agrícolas desempregados PLte. as cidades
em busca de trabalho nas fábricas. Mais tarde, a automaúzação e
a globali zaçáo os uabalhadores do setor industrid
^ttàrlcartam
tt
e empuffaram-nos pata novos empfegos no setof dos serviços.
O desemprego de curto prrrzo foi frequentemente trm problema
durante estas uansiçôes, mas nunca se tornou sistémico ou per-
manente. Cnanm-se novos empfegos e os trabalhadores desem-
pregados encontraram novas opornrnidades.
Mais importante ai.d", estes novos empregos eram frequen-
temente melhores do que os anteriores, exigiam o aperfeiçoamen-
to de aptidões e proporcionavam vencimentos mais altos. Isto
nunca foi tão verdadeiro como nas duas décadas e meia que se
seguiram à Segunda Guerra Mundial. Esta «idade de ouro» da
economia americana foi catlctertzada por uma simbiose apau;en-
temente perfeita entre o progresso tecnológico acelerado e a as-
sistência social da força de trabalho americ*". À medida que as
máquinas utiüzadas na produção eterm aperfeiçoadas, aumentava
de igual modo a produtividade dos trabalhadores que com elas
oPetav^m, torÍlando-os mais valiosos e permitindo-lhes exigir
salários mais altos. Ao longo do período pós-guerta, o avanço
da tecnologia depositou dinheiro diretamente nos bolsos dos
trabalhadores médios, ao mesmo tempo que os seus salários su-
biam pú da elevada produtividade. Em contrapartida, esses trra-
^
balhadores saíam e gastavam a sua crescente f,qrrczqaumentando
a pfocufa dos produtos e senriços que estavam a produzir.
Enquanto o retorno deste círculo vicioso impulsio rrava. a,
economia amettc na, a ciência económica gozotrda sua idade de
ouro. Foi durante este mesmo período que figuras notáveis co-
mo Paul Samuelson trabalhanm para transformar a economia
numa ciência com sóüda fundamentação matemâtica. Gradual-
mente, a economia passou a ser quase por inteiro dominada por
sofisticadas técnicas quantitativas e estatísticas e os economistas
começaf am L constfuir complexos modelos matemâticos que
anda constituem a sua base intelectual. Conforme os economis-
tas do pós-guerra faziam o seu trabalho, natural seria que obser-
vassem a próspefâ ecoÍromia à sua volta e presumissem que efa
normal que era assim que uma economia devia funcionar e
sempre funcionaria. -
t2
No seu livro de 2005
ColEso: Ascensão e Queda das Sociedadu
Humanas,Jared Diamond n rrr- a história da agricultura na Aus-
Aáha. No xlx, quando os eufoPeus começ tum a coloni-
século
zaçáo da Austtâlia encontf uma paisagem relativameÍrte
^t^m
vefde e luxuriante. Tal como oS economistas americanos dos
anos 50, os colonos australianos Presumiram que aquilo que
viam efa nofmal e que as condições que então obsefvavam
assim continuariâm sem fim. Invesúam em força no desenvol-
vimento de quintas e de ranchos naquela tett^ aParentemente
fértil.
Contudo, tuna a duas décadas depois, a rcahdade revelou-
-se. Os agricultores descobriram que o clima em geral era de fac-
to múto mais árido do que de início tinham sido levados a cfet.
Tinham simplesmente tido a sorte (ou talvez o de chegar
^z^f)
durante um pefíodo clim favotâvel o momento ideal
^ténco -
quando tudo é ótimo Par:à a agricultura. Hoie, na Austráüa, Po-
dem encontrar-se vestígios daqueles desastrosos investimentos
pfemâturos: casas de quintas abandonadas no meio do que é es-
sencialmente um deserto.
Há fortes fazões P^ta cfef que o período económico f*
vorável da América também chegou âo fim; que a rcLaçáo sim-
biótica entfe o incremento da produtividade e o aumento dos
salários começou a dissolvef-se nos anos 70. Em 2013, um típi-
co uabalhador da produção ou sem funções de supervisão ga-
nhava cetc de 13 Pof cento menos do que em 1973 (depois da
correção da inflação), ainda que a produtividade tenha aumenta-
do 107 por cento e os custos de bens onefosos como habitação,
ensino e cuidados de saúde tenham subido em flechal.
Bm 2 de ianeiro de 2010, o lYasltington Post notciava que a
primeira dêcada do século xxl náo crrara nenhum posto de tra-
balho. Zeroz. Desde a Grande Depressão que tal não suceüa em
qualque r
década; de facto, nunca houve nenhuma década no
pós-guerra que tenha produzido menos de 20 Pof cento de au-
mento no número de Postos de trabalho disponíveis. Mesmo

t3
nos anos 70, décaü associada à est4gflação e a trma crise energé-
trca, houve um incremento de 27 por cento de postos de traba-
lho3. Esta década perdida do novo milénio é especialmente as-
sombrosa quando consideramos que a economia dos EUA
precisa de criar cerca de um milhão de postos de trabalho por
ano apenas parL mantef o volume da força de trabalho. Por ou-
tras palavras, durante aqueles primeiros dez anos, houve cetca,
de 10 milhões de postos de rabalho em fala que deviam ter si-
do cdados mas nunca surgiram.
-
A desigualdade na distribuição da rique z^ assim
^sceÍtdeu
p^ta níveis que não se viam desde 1929, e tomou-se claro que os
anmentos da produtividade que iam pa:.a os bolsos dos uabalha-
dores nos anos 50 estavam agot:. a ser retidos, quase inteiramen-
te, por empresários e investidores.
A quota-parte do rendimento
nacional bruto destinada ào trabalho, por oposição ao capital,
caiu abnrptamente e paÍece estaÍ em contínua queda livre. O nosso
período favotâvel chegou ao fim e a economia american a estâ, a
entÍaf numa nova efa.
Trata-se de uma era que será definida por uma altençáo
fundamental na rrj.ação entre trabalhadores e máquinas. Esta al-
tençáo uâ acabx por desafiar uma das nossas mais básicas coÍr-
vicções sobre a tecnologiai as máquinas sãoferauentas que aumen-
tam produtividade dos trabalhadores. Em vez disso, as próprias
^
máquinas estão a transformar-se em trabalhadores e a linha entre a
capacidade do trabalho e o capial está mais difrrsa do que nunca.
Claro que todo este progresso está a ser impulsionado pela
implacável aceleração na tecnologia computacional. Embora
muitas pessoas esteiam já neste momento famiü atizadas com
aI-ei de Moore perfeiamente entuzada obsenração empíri-
- ^
ca que diz que o poder dos computadores sensivelmente duplica
a cada dezoito a vinte e quatÍo meses nem todas assimilaram
-,
iá completameÍrte as implicaçôes deste extraordinário progresso
potencial.

t4
Imagine que entra no seu carro e começa a conduzir a 8 qui-
lómetos por hora. Conduz drrante um minuto, acelera para o do-
bro da velocidade, T6l<trr/h, conduz mais um minuto, volta a du-
plicar a velocidade, e assim por diante. O aspeto realmente mais
notável rfio é o simples facto da duplicaçáo mas a distância que
se percotre ao fim de algum temPo. No primeiro minuto, teria
percorido cerca de734 metros. No terceiro minuto, a32l<ffr/h,
teria avaaçado 536 metros. No quinto minuto, à velocidade de
128k<n/h, a distància percorrida seria de 1,6 quilómetros. Para
completar o sexto minuto precisaria de trm carro mais rápido
-
bem como de uma pisa.
Agora pense a que velocidade seguiria e qual seda a dis-
tâmaa percorrida nesse minuto final
-
se duplicasse a sua velo-
-
cidade vinte e sete vezes. É ,pro"imadamente o número de
vezes que o poder dos computadores duplicou desde a invenção
do circuito integrado em 1958. Â revoluçíó agora em curso está
à àcoÃtecer não só por Íotça da própria aceleração mas Porque
asa acelwaçãojá existe bá tanto temPo que a medida de progres§o com
que podemos contaÍ neste momento Púa qualquer determinado
ano ê potencialmente desconcertante Pú^ a nossa meÍrte.
A propósito, a resPosta à pergunta sobre a velocidade do
seu carro é 1000 milhões de quilómetÍos por hora. No fim dos
28 minutos teria viafado mais de 17 milhões de quilómetfos.
Mais ou menos cinco minutos a essa velocidade daria Pat^ che-
gx Marte. Em resumo, ê ai que hoje se encontr;a. L tecnologia
^
da informaçáo, relativamente ao tempo em que os primeiros cir-
cuitos integrados começartatrr lentamente L atrLstaÍ-Se, eÍn finais
dos anos 50.
Como alguém que trabalha em desenvolvimento de sofiware
há mais de vinte e cinco anos, assisti de perto à extraordinâúa
acelerarçáo do poder dos compuAdores. Tenho também sido es-
pectador privilegiado do tremendo Progresso coÍlseguido na
conceção de sofiware e nas fertamentas que possibilitam a maior

15
produtividade dos programadores. E, como dono de um peque-
no negócio, vi como a tecnolo$a transformou gradualmente o
modo de o geriÍ so§lstudo como reduziu de modo dtástico
-
a necessidade de conu atat empregados pxv desempenharem as
atefas de rotina que sempre foram essenciais para o funciona-
mento de qualquer negócio.
Em 2008, conforÍne a crise financeira global se ia manifes-
tando, comecei a pensar a sério nas impücações da constante
duplicação do poder dos computadores e, especialmente, na
probabilidade de ela transformar em profundidade o mercado
de trabalho e L economià emgeral nos próximos anos e décadas.
o resultado foi o meu primeiro livro, The Ligltts in tbe Tunnel: Au-
tomation, AaehratingTecltnobg and tlte Econonl of tbe Future, publi-
cado em 2009.
Nesse livro, exatamente quando escrevia sobre a importân-
cia da aceleraçáo da tecnologia, subestimei a rapidez com que as
coisas tráo avançar de facto. Por exemplo, obserrei que os fabri-
cantes de automóveis esavam a trabalhar em sistemas impediti-
vos de colisões pata aiudar â prevenir acidentes e sugeri que
«com o tempo, estes sistemas poderão evoluir paÚja uma tecnolo-
glà capuz de conduzir o automóvel de modo autónomo»». Bem,
sucede que «com o tempo» foi aftnal muito pouco tempo! Um
ano após a publicaçáo do livro, a Google apresentou um auto-
móvel completamente automa(tzrdo capaz de circular no meio
do tráfego. E desde então, três estados Nevada, Califórnia e
Florida -
promulgaram leis a a'utonzar, com limitações, os veí-
-
culos autónomos a partilharem a estrada.
Também falei sobre o progresso que se estava a conseguir
no campo da inteligência arifrcial. Naquela altura, a história do
compuador Deep Blue da IBM e o modo como derotara o cam-
peão de xadrez Garry Kasparov em 1997 era talvez a mús rm.
pressionante demonstração da inteligência artificial em ação. Mais
nma vez, fui apanhado de srupresâ quando a IBM apresentou
ÍYatson, o sucessor de Dte Blue uma máquina que enfrentou
-
16
um desafio muito mais difícil o concutso televisivo Jeoparfu!
O xadrez é vn iogo com regras rígidas perfeitamente definidas;
é o tipo de iogo em que podemos esperar que um computador
seia eficaz. JeopardJ! é inteiramente diferente: um fogo em
"lgo
que é precisa uma massa de conhecimentos ilimitada e exige
nma sofistica da capacidade P^rL analisar ünguagem, incluindo
adivinhas e trocadilhos. O êxito do lYatson em Jeopar@! náo é só
impressioÍlante, ê altamente conveniente e, de facto, a IBM iá
estâ posicionar o Vatson Par:a desempenhar um Papel signifi-
^
cativo em camPos como a medicina e serviços de atendimento a
cüentes.
Há uma boa ptobabilidade de quase todos sermos sur-
preendidos pelo progfesso que vai verificar-se nos próximos
anos e décadas. As sufpresas não estarão confinadas à natuteza.
dos próprios progressos técnicos: o impacte que o Progresso
acelerado tem no mercado de trabalho e fLa. economia global es-
tâ. emposição de desafiar grande pafte das opiniões habituais so-
bre como â tecnologtl e a ecoÍlomia se interügam.
Uma convicção generalizada que decerto será contestada é
a suposição de que a automati zaçáo é em primeiro lugar uma
affre ça Púa. os trabalhadores com Pouca formação académica e
com níveis mais baixos de exigência. Esta convicção resulta de
estes trabalhos serem tendencialmente rotineiros e repetitivos.
Connrdo, antes de se senú demasiado à vontade com esta ideia,
pense quão rapidamente a fronteifa se está a movef. Num deter-
minado momento, uma tarcfa de «rotin»> tetia Provâvelmente
implicado trabalhaf ntrma linha de montAgem.A realidade é hoie
bem diferente. Embora as ocuPações que exigem baixos níveis
de aptidão continuem sem dúvida a sef afetadas, um grande nú-
mefo de Uabalhadores de colarinho branco, corn Íormaçáo uni-
versitári a, irã descobrir que taÍnbém os seus postos de trabalho
estão sob ataque conform e o sofuiarc de automalzaçáo e os algo-
ritmos preditivos avançam rapidamente em capacidade.

l7
o facto é que ««rotinar» pode não ser a melhor palawa p^ta"
descrever os postos de trabalho que mais provavelmente esarão
sob ameaça da tecnologia. Um terÍno mais adequado podeda ser
çrevisíveb». Será uma outra pessoa capaiz de aprender a fazer o
nosso uabalho estudando um registo detalhado de tudo o que
fizemos no passado? ou poderá atguém tornar-se proficiente re-
petindo as tarefas que nós já completámos, da mesma maneta"
que um esttrdante rcaliza testes pú,. se prepafaf pâdjaum exame?
se assim for, então hâ uma forte probabilidade de, um dia, um
algoritmo ser c paz de aprend er a fazer grande parte ou a totali-
dade do nosso trabalho. Tal é especialmente mais provável
conforme o fenómeno big data (megadados) continua a evoluir
as orgarrizações registam inconcebíveis quantidades de informa-

ção sobre praticamente todos os aspetos das suas operações e é


provável que um grande número de tarefas e funções sefa capsu-
lado nesses dados a agaarür o dia em que súa o algoritmo
-
de aprendizagem de uma máquina inteügente que comece L a:u-
toinstnrfu-se pesquisando o registo deixado pelos seus anteces-
sores humanos.
o resultado de tudo isto é que a aquisição de mais instru-
ção e competências nio itâ necessariamente oferecer proteção
efetiva contrâ a autom do trabalho no futuro. Como
^t:rzarçáo
exemplo, consideremos os radiologistas, médicos especialistas
na interprctaçáo de imagiologia médica. os radiologistas preci-
sam de uma formação longa e apreciável, effi gerú um mínimo
de aeze anos após o ensino secundádo. Porém, os compuado-
res estão rapidamente a torn^t-se mais eftcazes na anâltse de
imagens. É muit o fâ,crl imaginar que um dia, num futuro não
muito distante, a radiologit setâ quase exclusivamente assegura-
da por máquinas.
Em geral, os computadores estão a ftcx cadavez mais pro-
ficientes na aquisição de competências, especialmente quando
dispõem de grandes quantidades de informação assimilável.

18
E provável que especialmente os primeiros emPregos seiam for-
temente afetados ehâ indícios de que isso possa estar iâ a acon-
tecer. Os vencimentos dos recém-licenciados têm vindo a dimi-
nuir durante a última década, ao mesmo tempo que 50 por
cento dos novos ücenciados se veem forçados a aceitat traba'
lhos que não exigem formação universitária. Na verdade, como
irei demonstrar neste livro, o emprego púL mútos profissionais
quatificados incluindo advogados, jomalistas, cientistas e far-
macêuticos
- está iâ a sofrer uma erosão significativa pelo
-
avanço da tecnologia da informaçáo. Não estão sós: muitos dos
trabalhos são, de algum modo, de rotina e previsíveis, com rela-
tivamente poucâs pessoas a serem Pagas Pate. se emPenharem
prioritadamente em trabalho realmente criativo ou em Pensa-
mento aberto.
Conforme as máquinas fotem assumindo este trabalho ro-
tineiro e previsível, os trabalhadores irão confrontar-se com um
desafio sem precedentes, enquanto Procutarn adaptat-se. No
passado, a tecnologia de automadzação tendia a sef relativamen-
te especializada e a perhúbar um setor de emprego de cada vez,
desviando-se os trabalhadores depois paÍa um novo setor emeÍ-
gente da indústria. Hoje a situação ê bastante diferente, â tecno-
log, da informação é verdadeiramente urna tecnologia ParL to-
dos os fins e o seu impacte tâ venfrcar-se em todos os setores.
Quase todas as indústrias existentes Passafão provavelmente a
e"igiÍ menos mão de obra intensiva à medida que a tecnologia
for assimilada pelos modelos de negócio e essa transição po-
-
derâ ocoffer muito rapidamente. Em simultâneo, as novas in-
dústrias emergentes irão quase semPre incoqporar, desde a sua
génese, trma poderosa tecnologia de poupanç de trabalho. Em-
presas como Google e Faceboo§ por exemplo, foram bem-su-
cedidas ao tfansformarem-se ern nomes familiafes e consegui-
rem maciças avaliações de mercado, embota contratando apenas
um número mínimo de Pessoas tendo em contâ a sua dimensão
e influência. Hâ todas as razões Pafa se suPor que um cenário

t9
semelhante se rcpeúrâ com quase todas as novas indústrias cria-
das no futuro.
Tudo isto sugere que nos dirigimos para umâ transição que
irá exetcer enorÍne pressão tanto na economia como na socieda-
de. Gtande parte do aconselhamento convencional oferecido
aos tabalhadores e aos estudantes que se preparum pa:ir. efittarr
no mercado de trabalho não tem, muito provavelmeÍlte, nenhu-
ma efrcâcia. Â triste realidade é que um grande número de pes-
soas tâ" fuer aquilo que deve pelo meÍros no que diz respeito
-
a proctrar obtet formaçáo superior e adquirir competêngi2s
e mesmo assim não conseguirá encontrar uma posição sóüda na
-
nova economia.
Além do impacte potencialmente devastador do desempre-
go de longa duração e do subemprego nas vidas de cada um e
no tecido da sociedade, haverâ também um significativo custo
económico. O retorÍro do círculo vicioso entre produtividade,
alrmeÍrto de vencimentos e incremento dos gastos de consumo
nâ colapsar. O efeito de retorno positivo estâ iâ seriamente di-
minúdo: enfrentamos uma elevada desigualdade, não apenas nâ
nqulezl mas também no consumo. Cinco por cento das famflias
mais abrctadas são pfesentemente respoÍrsáveis por quase 40
por cento dos gastos, e o prosseguimento dessa tendência paÍL a,
concentÍação crescente no topo parece quase inevitável. O em-
prego continua a ser o princlpal mecanismo pelo qual o poder
de compn chega às mãos dos consumidores. Se esse mecanismo
continuar a sofrer erosão, enfrentaremos a perspetiva de termos
muito poucos consumidores viáveis puta continuar a conduzir o
crescimento económico na nossa economia de mercado de massas.
Tal como este üvro de*aú clato, o progresso da tecnolo-
gpa da informação está a empuffar-nos paru um ponto crítico

que está destinado a, no devido momento, tomar toda â ecoÍlo-


mia menos dependente do trabalho intensivo. contudo, esta
transição não itâ necessariamente desenrolar-se de uma forma

20
uniforme e previsível. Dois setores em particular snsino su-
perior e cuidados de saúde
-
têm sido até agora altamente fe-
-
sistentes ao tipo de perturb açáo que está iâ a tonaf-se evidente
na economia geral. A ironia é que o falhanço da tecnologia n
transform açáo destes setores poderá ampliar as suas consequên-
cias negativas em outras âteas, conforme os cuidados de saúde e
o ensino se tornem mais pesados.
Como é evidente, L tecnologia náo irá moldar o funuo iso-
ladamente. Pelo contrário , fuâ interligar-se com outÍos desafios
sociais e ambientais como o envelhecimento da populaçáo, as al-
terações climáticas e esgotamento de recursos. Prevê-se com fre-
quência que se chegarâ à escass ez de trabalhadores, à medida
que a geraçáo babl boom for abandonando a Íorça de trabalho,
contrabalançando efetivamente ou talvez até esmagadora-
mente
-
qualquer impacte da automaização. A rápida inovação
-
é tipicamente formulada como uma Pura força comPensatória
com o potencial de minimizar, ou até inverter, a pressão que
exefcemos sobre o ambiente. Contudo, como veremos, muitas
destas convicções assentam em fundamentos incertos: a história
será seguramente muito mais complicada. De facto, a assustado-
ra realidade é que se não reconhecermos e não nos adaptarmos
às implicações do progresso tecnológico, podefemos ter de en-
frentar a PersPetiva de uma (CemPestade perfeitar» em que os im-
pactes da enorme desigualdade, desemprego tecnológico e altera-
ções climáticas se desenvolvam panlelamente e, de alguma
forma, se ampliem e reforcem mutuamente.
Em Siticon Valley, a exPressão (cecnologia disruptiva» é
proferidà ao acaso e descontraidamente. Ninguém duvida que a
tecnologia tem o poder de devastar indústrias inteiras e afetar
setofes específicos da economia e do mercado de trabalho.
A pergunta que vot fazer neste livro é mais abtangente: pode a
aceleraçáo da tecnologia Perhrrbar todo 0 filssl sistema ao ponto de
se exigir uma reestrutuf açío fundamental se pof\rentura se qui-
ser que a prosperidade continue?

2l
Capítulo 1
A ONDADAÀUTOMATTZAçÂiO

Um trabalhador de armazém aproxima-se de uma pilha de


caixas. As caixas são de diversos amanhos, formas e cofes e es-
tão empilhadas deatoriameÍrte.
Imagine por um momento que pode observat o interior do
cérebro do trabalhador encarregado de movef as caixas e consi-
dere a complexidade do problema que precisa de ser resolüdo.
Muitas das caixas têm a cof castanha usual e estão empilha-
das com cuidado, o que toma difícil tet a perceção das suas ex-
tremidades. Onde acaba precisamente uma catxa e onde começa
a próxima? Noutros casos existem intervdos e desalinhamentos.
Algumas caixas encontÍam-se de tal forma que uma das extremi-
dades está proi etada par;a fon. No toPo da pilha, está uma caixa
pequena tombada entfe duas caixas maiores. Mútas das caixas
são de cattáo bmnco ou castanho, mas algumas têm gravados
logotipos de empfesas, e algumas são basante coloridas Parâ co-
mércio retâlhista, pensad^s Púa, sefem expostas em Pfateleiras
nas loias.
Claro que o cérebro humano é capaz de decifrar toda esta
complexa inform açáo visual quase instantaneamente. O faba-
lhador rapidamente percebe as dimensões e a orientação de cada
caixa e pafece saber instintivamente que tem de começaf Por re-
úar as caixas do topo da pilha e como reúá-las numa sequência
que não desesabiliz-e o resto da pilha.
Este é exatamente o tipo de desafio de perceção visual que o
cérebro humano aprendeu a uhrapassar. Um trabalhador consqguir
mover as caixas seria completamente irrelevante, não fosse o facto

23
de, neste caso, o uabalhador ser trm robô. Parz- ser mais exato,
trâta-se de um braço robótico semelhante a uma selpente em
que a cabeça consiste numa espécie de pinça de sucção motriz.
O robô é mais lento a compreender do que um homem. Es-
quadrinha as caixas. Aiusta ligeiramente o seu foco, pondera
um Pouco mais, e finalmente avilnç e àgafra numâ catxa do to-
po da pilha*. A morosidade, contudo, resulta quase inteiramen-
te da espantosa complexidade da computação exigida parr. o
desempenho desta tarcfa aparentemente simples. se há algo
que a história da tecnologia da informaçáo ensina é que este ro-
bô irá muito em breve receber uma importante otimi zaçáo na
velocidade.
Na verdade, os engenheiros da Industrial Perception, Inc.,
a empresa sturt-up que concebeu e construiu o robô, acreditam
que a máqúna vkâ a ser c pàz de mover uma caixa por segun-
do, rivaüzando com o número máximo de uma cuxa em cada
seis segundos para um trabalhador humanol. Desnecessário será
üzet que o robô pode trabalhar continuamente; nuncâ se cansa-
rá ou terá dores nas costas e decerto ntrnca irá apresenar um
-
pedido de indemnização como trabalhador.
o robô da Industrial Perception é notável porque a sua ca-
pacidade reside no nexo de perceção visual, computação es-
pacial e destreza. Por outras palavras, está a invadir a última
fronteira da automadzação mecânica, onde compeúá pelos trJra.-
tivamente poucos trabalhos manuais de rotina que ainda estão
disponíveis para trabalhadores humanos.
os robôs nas fábricas não são, evidentemente, algo de novo.
Tomaram-se indispensáveis em quase todos os setores de produ-
ção, do automóvel aos semicondutores. Â novâ fâbica de auto-
móveis elétricos Tesla, em Freemont, na Califómia, usa 160 robôs
industriais alamente flexíveis pxlproduzir cetc de 400 unidades

* Um vídeo de um roM da empresa Industrial Perception â mover caixas pode


ser visto
no sítio eletrónico da empresa em http://ururudndustriat-perceptioncom/teúnolqsr.htrnl

24
por semana. Confotme o chassi de um novo carro atinge a posi-
ção seguinte na linha de mont4gem, múltiplos robôs descem so-
bre ele e ttabalham coordenadamente. As máquinas conseguem
de forma autónoma trocar as ferramentas manejadas pelos seus
braços robóticos para executarem uma grande variedade de taÍe-
fas. O mesmo robô, por exemplo, instala os assentos, muda de
ferramentas, e depois aphca cola e coloca as escovas do limpa-
-vidros nos seus lugares2. De acordo com a Internationd Fede-
ration of Robotics, o enüo global de robôs indusuiais atrmentou
mais de 60 por cento entre 2000 e 2072, com vendas totais de
cerca de 28 mil milhões de dólares em 2072. O mercado corn
crescimento mais rápido é clxarrente o da China, onde a insta-
lação de robôs cresceu ao ritmo de cerca de 25 por cento ao
ano, entre 2005 e 20123.
Embora os robôs industriais ofereçam uma incomparâvel
combinação de velocidade, precisáo e extraordinâna força, são,
na sua maior parte, atores cegos coÍn um desempenho estrita-
mente coreografado. Dependem principalmente de cronometra-
gem e posicionamento precisos. Nos câsos minoriários em que
os robôs têm capacidade visual mecânica, só podem ver usual-
mente a duas dimensões e apenas com certas condições de ilu-
minação. Podemr por exemplo, ser capazes de escolher peças
nnma superficie plana, mas a incapacidade de perceber a profun-
didade no seu campo de visão resulta em baixa tolerância no ca-
so de ambientes significativamente imprevisíveis. Daí que certo
número de tarcfas fabris de rotina tenham sido deixadas p^tà as
pessoas. Muito frequentemente são tarefas que envolvem preen-
cher os intenralos entre as máquinas, ou encontram-se nas fases
finais do processo de produção. Como exemplos, teremos a es-
colha de peças que se encontram num contentor e depois caÍre-
gâ-las na próxima máquina, ou carregar e descarrcgx camiões
que fornecem ou recolhem produtos na fábrica.
A tecnologra que alimenta a capacidade de os robôs da In-
dustrial Perception verem a três dimensões oferece um estudo

25
de caso sobre como a ferilizaçáo cntzada pode conduzir a flu-
xos de inovação em âreas inesperadas. Pode aftmar-se que a
origem dos olhos de robô remonta a novembro de 2006, quan-
do a Nintendo apresentou a sua consola de videoiogos lYii.
A máquina da Nintendo inclúa um tipo de comando de io-
go inteiramente novo, sem fiosr eue incoqporava um apetrecho
de baixo preço chamado «acelerómeüro)) que era caperz de dete-
tar movimento a três dimensões e depois produzir uma corrente
de dados que podia ser interprctada pela consola de iogos. Os
videojogos podiam ser coÍnandados com gestos e movi-
^gotl
mentos do corpo. O resultado foi uma experiência de jogo ex-
traordinariamente üferente. A inovação daNintendo esm4gou o
estereótipo do garoto «cromo)» colado a trm monitor e a am joy
stick, e abriu uma Ílova fronteira púa os iogos como exercício
ativo.
Também exigiu uma resposta competitiva dos principais
concorrentes da indústria de videoiogos. A Sony Coqporation,
fabricante da PlEtaafion, optou por essencialmente copiar o mo-
delo da Nintendo e introduziu o seu próprio comando detetor
de movimento. A Microsoft, contudo, proietou um sdto sobre a
Nintendo e apresentou completamente novo. O acessório
"lgo
Kinect putà a coÍlsola de fogos X-Box 360 ehminou completa-
mente a necessidade de um comando.Para o conseguir, a Mi-
crosoft construiu um apetrecho semelhante a uma webcan qae
incorpora capacidade de visão tridimensional mecânica, parcial.
mente baseada na tecnologia de imagem cnada por uma peque-
na empresa israelita chamada PrimeSense. O Kinect vê em tês
dimensões tecorrendo ao que é, essencialmente, um sonar à ve-
locidade dalaz: dispara um raio infravermelho púa. as pessoas e
obietos numa sala e depois calcula a sua distância medindo o
tempo necessário paÍ^ alvz refletida alcançar o seu sensor de in-
fravermelhos. Os jogadores podiam agor,* interagir com a coÍr-
sola de jogos Xbox simplesmente gesticulando e movendo-se à
visa da càman do Knect.

?"6
O que houve de verdadeiramente revolucionfuio no Kinect
foi o seu preço. A tecnologia sofi'sticada de visão mecânic^
que podetia anteriormente custat dezenas ou até centenas de
-
milhares de dólares e exigia equipamento volumoso estava
-
Lgora, disponível num leve e compacto acessório de consumidor
comum, por 150 dólares. Os investigadores que trabalhavam em
robótica perceberam instananeamente o potencial que a tecno-
logia Kinect tinha par:a transformar a sua ârea de trabalho. Poucas
semanas após a apresentação do produto, equipas de universida-
des e inovadores por conta própria tinham dissecado o Kinect e
publicado no YouTube vídeos de robôs que eram então caPazes
de ver a três dimensõesa. De igual modo, a Industrial Perception
decidiu basear o seu sistema de visão na tecnologra que alimenta
o Kinect, e o resultado é uma máquina de preço acessível que esú
rapidamente a aproximar-se de uma aptidão quase humana Par;à
perceber e interagir com o seu ambiente ao mesmo temPo que
se confronta com o mesmo tipo de incerteza que c tàctetlzà o
mundo real.

Una rnasALHADoR RoBorICo vsnsÁrrr

O robô da Industrial Petception é uma máquina alamente


especiaü zada em movimentaf caixas com a máry,tma eficiência.
 Rethink Robotics, de Boston, seguiu um rumo diferente com
Baxter,um robô humanoide pouco pesado que pode facilmente ser
preparado par;r desempenhar vánas tarefas repetitivas. A Rethink
foi fundadapor Rodney Brooks, um dos mundialmente mais fa-
mosos investigadores de tobótica do MIT (1\dassachusetts Insti-
tute of Technology) e cofundador da iRob ot, a emPresa que
produz o aspirador automaazado Roomba, bem como os robôs
militares que são utilizados para desativar bombas no Iraque e
no Afeganistão. O Baxter, que custa significativamente meÍros
do que um ano de vencimentos de um vulgar operário fabnl, é

27
essencialmente um robô industdal menor que foi concebido pa-
tL opetar com segurança tr^ proximidade de seres humanos.
Em contraste com os robôs industriais, que requerem pro-
gramaçío extensa e complexa, o Baxter pode ser prepatado sim-
plesmente movendo os seus braços conforme os movimentos
exigidos. Se uma instalação usar multiplos robôs, um Baxter po-
de ser preparado e depois o seu conhecimento pode ser propa-
gado aos outros simplesmente ügando-os com um dispositivo
USB. O robô pode ser adaptado a uma grande variedade de ta-
refas, inclusivamente montagens simples, transferência de peças
entre cadeias de montagem, embalagem de produtos para reta-
lho ou supervisão de máquinas metalúrgicas. O Baxter é espe-
cialmente apto p^t^ embalar produtos em caixas pLtL envio.
K'NEX, um fabricante de brinquedos p^t^ montar sediado em
Hatfield, na Pensilvânia, descobriu que a capacidade de o Baxter
embalar os seus produtos permiti a claramente que a empresa
usasse 20 a 40 por cento meÍros caixass. O robô da Rethink tam-
bém possui uma capacidade de visão mecânica bidimensional
alimentada por câmaras em ambos os pulsos e pode apanhar pe-
ças e até executar inspeções básicas de fiscalizaçào de qualidade.

A [rnNsNTE ExPLosÃo DA RosóTrca

Embora o Baxter e o robô movimentador de caixas seiam


máquinas profundamente diferentes, são ambas construídas
com base na mesma plataÍorma fundamental de software. O ROS
ou Robot Operating Slstem (sistema operativo de robôs) foi
-originalmente concebido no Labontório de Inteligência Artifi-
-
cial da Universidade de Stanford e depois transformado numa
plataforma completamente consistente pela §Tillow Gatage,Inc.,
uma pequena companhia que concebe e íabica robôs progra-
máveis que são principalmente usados por investigadores nas

28
universidades. O ROS é semelhante a sistemas operativos como
o Microsofi l%irdows, o Macirtoslt OJ ou o Andmid da Google, mas
é especificamente direcionado para tomar mais fâct à Ptogruma,'

ção e o comando de robôs. Porque o ROS é gratuito e de códi-


go aberte o que significa que outros criadores de software
-
podem facilmente modificâ-lo e otimizfr-ls está rapidamente
-,
a transforÍnar-se na plataforma-padráo de sofiware Paltà o desen-
volvimento da robótica.
A históri a da informática mostra muito claramente que
quando um sistema operativo-padrão fica disponível, iuntamen-
te com ferramentas de programaçáo fáceis e baratas, aumentaÍn
as probabilidades de surgir depois uma explosão de software rÉ-
cacional. Foi o que aconteceu com sofiware Paite. computadores
pessoais e, mais recenternente, com as aplicações P^ra, iPbone,
iPad e Android.De facto, estas plataformas estão agora de tal
modo saturadas corn sofiware aplicacional que pode ser verdadei-
ramente difícil concebef uma ideia que aind a náo tenha sido
aplicada.
É ,-a boa aposta que o camPo da robótica estâPronto Pa-
ra seguir um caminho semelhante; com toda a probabiüdade, es-
tamos na vanguarda de uma onda explosiva de inovação que irá,
em última análise, produzir robôs direcionados Para, quase toda
e qualquer concebível tarcfa comercial, industrial e de coÍlsumo.
Esta explosão será alimentada pela üsponibilidade de módulos
acoplávei s de sofiware e bardware padrontzados que irão tornaÍ fe-
lativamente simples conceber novas aplicações sem necessidade
de reinvelt^t a roda. Tal como o Kinect tornot acessível a vi-
são mecànica, outros comPonentes de ltardware como braços
robóticos
-
vefão os seus custos reduzidos conforme os robôs
-
forem escalados Pafa produção de alto volume. Desde 2073
que há iâ mtlharcs de comPonentes de sofiwara disponíveis para
funcionar com o ROS, e as Pl^taformas de desenvolvimento são
iá suficientemente acessíveis para permitirem quâse a qualquef
pessoa começar a desenhar novas apücações robóticas. Por
exemplo, a §Tillow Gxage vende un kit completo de um robô

29
móvel chamado TurtleBot que inclui visão mecânica Kinect por
cetca de 1200 dólares. Considerando a rnflação, é menos do que
aquilo que custavâ trm compuador pessoal e respetivo monitor
no início dos anos 90, quando o Microsoft lYindows se encontra-
va nas primefuas fases de produçáo da sua própria explosão de
sofiware.

Quando visitei a conferência e a exposição da RoboBusi-


ness em Santa Clara, na Califótnia, em outubro de z|l3,tornou-
-se evidente que a indústria robótica estava já engrenada para a
futura explosão. Empresas de todas as dimensôes estavam
preparad^s pate. mostrar robôs concebidos para desempenhar
manufaturas de precisão, transportar medicamentos entre os de-
partamentos de grandes hospiais, ou operarem autonomarrrente
com matenal pesado pura, a agricultura e mineração. Havia um
robô pessoal chamado Budga c paz de carregar até 20 quilos de
c^tga, pela câsa ou na anecadaçáo. Um conjunto variado de
robôs educativos focados nos mais diversos temas, desde incen-
tivar a criatividade técnica a apoix as crianças com autismo ou
insuficiências de aprenüzagem. No pavilhão da Rethink Robo-
tics, o Baxter recebera prcpar.a,çio para a Noite das Bnrxas e pe-
gava em pequenas caixas de guloseimas que depois depositava
em contentores <«doçura ou travesstrâ) com a fotma de abóbo-
ras. Também havia empresas que cometcializuvam componentes
corno motofes, sensofes, sistemas de visão, comandos eletróni-
cos e mfiwarc especializado na constnrção de robôs. A, stattup Gra-
bit Inc., de Silicon Vallen fazia a demonstração de uma inova-
dora pinça de aderência eletrónica que permite aos robôs
Pegarem, cattegatem e colocarem praticâmente qualquer coisa
empregando simplesmente trma cúg electroestÁdcacontrolada.
Para completar a ofetta,, um grande escritório global de advoga-
dos com púttrca robótica especiali zada estava disponív el pa:ra
$udzr os empregadores n veg rem nas complexidades da le-
^
gislação do trabalho, emprego e segurança, sempre que os robôs
são introduzidos p^tà substitúrem ou trabilharem em estreita
proximidade com pessoas.

30
Uma das perspetivas mais notáveis da exposição encontra-
va-se nos coÍfedores que estavâm povoados pof trma mescla
-
de assisteÍrtes humanos e dezenas de tobôs de presença remotâ
fornecidos pela Suitable Technologies, Inc. Estes robôs consis-
tiam Ílum ectã plano e Íruma càmata montados Ínrm pedestal
móvel, e permitiam que muitos interessados em lugates mais
remotos pudessem visitar os pavilhões da exposição, assistir a
demonstrações, fazer Perguntas e, além disso, inter4git normal-
mente com outros participantes. A Suiable Technologies dispo-
ntbilizava a presença remota a troco de um Pagamento mínimo,
tornando assim possível a visita à exposição de muitas pessoâs
residentes a longa distância da zot:,a dabaía de São Francisco
p^t^ evitarem o gasto de milhares de dólares em despesas de
deslocação. Após alguns minutos, os tobôs cada um com um
rosto humano visível no ecrã
-
pfis pateciam nada deslocados
-
enqnanto se esgueiravam por entÍe os lpavilhões e envolviam ou-
tros Paríqpantes em convefsa.

Posros DE TRÂBALHo FÂBRrs E RELocÂuz çÃo DA INDúsrRIA


Num artigo de setembro de 2013, Stephanie Clifford, do
New York Tines, contava a história de Patkdde Mills, runa fâbtt.-
ca têxtil em Gaffney, ÍtL Carolina do Sul. A fábrica da Parkdale
emprega cetc de 140 pessoas. Em 1980, o mesmo nível de pro-
dução tertr. exigido mais de 2000 operários fabris. Em toda a fâ-
brica Parkdale, «só muito raramente urna pessoa interrompe o
processo de automaú açáo,princrp"lmente Porque certas arefas
ainda são mais baratas se executadas manualmente coÍno
-
movimentar com empilhadores as bobinas de fio têxtil semiaca-
bado entre as máquina»6. O fio têxtil acabado é conduzido au-
tomaticamente Parz as máquinas de embalagem e envio ao
longo de apetes suspensos do teto.
Todavia, aqueles 140 postos de trabalho fabris rePresentâm
pelo menos uma revetsão parcial de um declínio que se verifica-
vahâ décadas no empfego fabril. A indúsuia têxtil dos EUA foi

3t
anasada nos anos 90, quando a produção foi deslocalizaü parz
países com custos de mão de obra mais baixos, especialmente
china, Índia e México. Cerca de 1,2 milhôes de postos de traba-
lho mais de três quartos do emprego americano no setor têx-
til
- desapareceram entre 1990 e 2012. Connrdo, nestes últimos
-
aÍros assistiu-se a uma importarrte Íecuperaçáo na produção. En-
tte 2009 e 2012, as exportações de têxteis e vestuário americanos
subiram 37 por cento, púr. um total de cerca de 23 mil milhões
de dólares7. A reversão está, a ser conduzida por uÍna tecnologia
de automuttzaçáo tão eftcaz que inclusivamente compete com os
mais baixos salários dos operários em ofsbore.
No setor industrial nos Esados Unidos e em outros países
desenvolvidos, a introdução destas sofisticadas inovações afo',-
radoras de mão de obra estâ a ter um impacte misto no empre-
go. Embora fátbrrcâs como a Parkdale não criem grande número
de postos de trabalho fabris diretos, geÍam de facto emprego
junto dos fornecedores e em âteas periféricas, como na condu-
ção de camiões que transportam as matérias-primas e os produ-
tos acabados. Embora um robô como o Baxterpossa certamente
eliminar os postos de trabalho de alguns trabalhadores que exe-
cutam tarefas de rotina, tambêm aiuda totnat o fabrico nos
^
EUA mais competitivo face aos países com baixos salários. Na
verdade, está presentemente em crúso uma significativa tendên-
cia de <«elocali-açáo>>, que é conduzidà tanto pela disponibilida-
de de novas tecnologias como pela subida dos custos de mão de
obta ofsltore, especialmente na China, onde os operários fabris
viram o seu salário aumentar cerc de 20 por cento ao afio entre
2005 e 2010. Em abril de 2012, o Boston Consulting Group fez
um levantamento sobre os executivos da indústtta amettca;na, e
concluiu que quase metade das empresas com vendas superiores
a 70 mil milhões de dólares ou estavam a procurar ativamente
relocali-aÍ as suas fâbncas nos EUA ou ponderavam fazê.,Log.
A relocalização da indústria diminui drasticamente os cus-
tos de transporte e também proporciona mútas outras vàflta-
gens. Loc*lizar as fábricas numa estreita proximidade tanto com

32
os mercados consumidores como com os ceÍrtfos de design de
produtos permite às empresas reduzir os ciclos de aproüsiona-
mento e ter maior caprcidade de resposta aos seus consumido-
res. À medida que a ízarçáo se toma caü vez mais fleível
^.utofi:r
e sofisti cada, é provável que os fabricantes tendam a oferecer
produtos mais personali zados ldvs z, Por exemplo, deixar
-
que os clientes criem modelos únicos ou tamanhos esPecíficos
de peças de roupa dificeis de enconüaÍ, com interfaces em linha
fáceis de usar. A produção interna automatrzada poderia entáo
pôr um produto acabado nas mãos do cliente em poucos dias.
Há, contudo, um obsúculo importante à narratrva da relo-
cahzaçío. Mesmo o relativamente reduzido número de novos
postos de trabalho fabris que estão agorz*" a sef criados como re-
sultado da relocali-açáo pode não ter umâ duração de longo Pr^-
zo; conforme os robôs ficam mais caParzes e mais hábeis e se
dissemina o uso de novas tecnologias como a impressão em 3D,
evidencia-se como provável a eventual automaAzaçáo total de
muitas fâbncas. Os postos de trabalho fabris nos Estados Uni-
dos representam neste momento bem menos do que 10 por
ceÍrto do emprego total. Consequentemente, é provável que os
robôs de produção e a relocaltzaçáo tenham um impacte bastan-
te marginal naglobalidade do mercado laboral.
A história serâ bem diferente nos países em desenvolvi-
mento como a China, onde o emprego está muito mais conceÍr-
trado no setof fabril. De facto, o Progresso tecnológico produziu
iâ um forte impacte no emprego em fábricas chinesas; entfe
1,995 e2002, a China perdeu cerca de 15 por cento da sua mão
de obra fabril, ou seja, cerc de 16 milhões de Postos de traba-
lhoe. Há fortes indícios de que esta tendência está prestes a corüe-
ceÍ uma acelençáo. Em 2012, a FoxcoÍur Pti".lPrl fabricante
contraado p^f^ dispositivos da Apple
-
anunciou planos PaÍ^ à
-
evennral introdução de até um milhão de robôs nas stras fábricas.
A Delta Electronics, Inc., trma empresa de Taiuran produtota de

33
adaptadores de corrente elétrica, alterou recentemente a sua es-
üúêg;ta par;^ se concentÍar em robôs de baixo custo par:r. monta-
A Dela perspetiva vir a disponibilizar
gens eletrónicas de precisão.
um braço robótico de montagem por cerca de 10 000 dólares,
menos de metade do custo do Baxter da Reúink. Fabricantes
etrropeus de robôs industriais como o ABB Group e Kuka AG
estão igualmente dispostos a investir em força no mercado chi-
nês e encontram-se neste momento a construir fábricas locais
par:l a produção em massa de milhares de robôs por ano10.
o incremento da automaíaaçáo é ambém provavelmente
conduzido pela circunstáncia de as tãras de iuro pagas pelas gmn-
des empresas na China serem mantidas artificialmente baixas em
resultado da política do governo. Os empréstimos são com fre-
quência renovados continuamente, de modo que o principal nuÍrca
é üquidado. Isto tornâ o investimento de capital extremamente
atrativo, à p^t com baixos custos de mão de obra, e foi uma das
prin tpris razôes WL que o investimento se tradr:za rryr:rtl em cer-
ca de metade do PIB chinêsll. Muitos analisas acrediam que este
custo de capital artificialmente baixo causou bastante investimento
errado em toda a China, de que o exemplo mais famoso tabez seia
a constfução das ««cidades fantasma$) que parecem estar na sua
grande maioria desabiadas. Pelo mesmo motivo, os baixos custos
de capial podem crj.ar um poderoso incentivo púagrandes empre-
sas invesúem em automattzaçáo onerosa, mesmo nos casos em
que al não faça muito sentido do ponto de visa do negócio.
Um dos maiores desafios parauma transição pffir. a monta-
gem robótica na indúsuia eletrónica chinesa setâ a conceção de
robôs suficientemente fleíveis pa:ir. poderem acompanhar os
nípidos ciclos de vida dos produtos. A Foxconn, por exemplo,
mantém enormes instalações nas quais os trabalhadores residem
em dormitórios. Para poderem dar resposta a agressivos calen-
dários de produção, milhares de trabilhadores podem ser acor-
dados a meio da noite par;r- começarem imeüatament e a ttaba-
lhar. Isto resulta numa assombrosa capacidade pffa aceletat a
produção ou aiustâ-la às mudanças na coÍrceção dos produtos,

34
mas também exerce uma pressão extraordinária sobre os üaba-
lhadores como foi evidenciado pelo surto quase epidémico
-
de suicídios que se verificou nas instalações da Foxconn em
2010. Os robôs, claro está, têm a aptidão de trabalhar conti-
nuamente, e à medida que ficam mais fleíveis e mais fáceis de
ptepar:ar par:l outras tarefas, passarão a ser uma alternativa cres-
centemente mais interessante aos uabalhadores humanos, mes-
mo com salários baixos.
A tendência para o aumento da automatizaçáo fabril nos
países em desenvolvimento não está de forma algama limiada à
China. Por exemplo, a produção de vesnrário e calçado continua
a ser um dos setores industriais com mais mão de obra intensi-
và, e as fábricas têm vindo a transitar da China par^ países com
mão de obra ainda mais banta como o Vietname e a Indonésia.
Em junho de 2073, o fabricante de calçado desportivo Nike
anunciou que a subida dos salários na Indonésia provocara um
impacte negativo nos seus resultados trimestrais. De acordo
com o .liretor financeiro da empresà, a. solução de longo pnzo
p^ta o problema râ, ser çôr a mão de obra fora do produto»l2.
O aumento da automatizaçáo também é visto como um meio
par:a evitar as críticas às fábricas de trabalho escravo, cuja exis-
tência é frequente na indústria de vestuário do Terceiro Mundo.

O ssron Dos sERVrÇos: oNDE HÁ r,upnscct

Nos Estados Unidos como em outras economias avaíLçà-


das, a maior disrupção fuâ verificar-se no setor dos serviços
-
que é aftnal onde se emprega hof e a maioria dos trabalhadores.
Esta tendência é iâ evidente em âreas como as das caixas de
Multibanco e das caixas de pagamento automático nos super-
mercados, mas a próxima década irá provavelmente assistir a
uma explosão de novas formas de automaazaçáo no setor dos
serriços, pondo potencialmente em risco milhões de postos de
trabalho com salários relativamente baixos.

35
A Momentum Machines, Inc., uma sturtup de São Francis-
co, enveredou pela completa autom atizaçào da produção de
hambugueres com qualidade goutmet. Enquanto um uabalhador
de um restaurante de pronto-a-comer pode lançat um disco de
carne picada sobre a grelha, a máquina da Momentum Machines
molda os hambúrgueres L p^tmt de carne picada fresca e depois
grelha-os conforme os pedidos incluindo Lté a capacidade de
-
adicionar a quantidade certa de intensidade de calor pata reter os
sucos da carne. A máquina, que pode produzir 360 hambúr-
^té
gueres por hora, também tosta os brioches e depois fatia e
acrescenta ingredientes frescos como tomates, cebolas e picles,
apenas no momento em que é feito o pedido. Os hambúrgueres
chegam preparados e prontos a serrir num tapete rolante. Em-
bora a maior parte das empresas de robótica tenha um grande
cuidado em divulgar uma história positiva quando está em causa
o Potencial impacte no emprego, o cofundador da Momentum
Machines, Alexandros Vardakostas, é muito franco quanto ao
objetivo da empresa: ««O nosso dispositivo não tem como fim
tornar os empregados mais eficientes>», afttma, «mas sim substi-
tuí-los completamente.»l3* A empresa estima que a média dos
restaurantes de pronto-a-comer gasta cetcl de 135 000 dólares
por ano em salários de empregados que produzem hamb*S"-
res e que o custo total de mão de obra par:à a produção de ham-
burgueres na economia americana é de cetca de 9 mil milhões
de dólares por ano14. A Momentum Machines acredita que o
custo do seu dispositivo é amontzâvel em menos de um ano e
têm como alvo não apenas os restaurantes mas também as loias
de conveniêrr.ra, caffos e ilJtocaÍavan s de comida e talvez máqui-
nas de venda automática. A companhia defende que a eliminação
dos custos de mão de obra e a redução da quantidade de espaço
necessária nas cozinhas irão permitir aos resaurantes invesú mais

* A empresa está consciente do potencial impacte que â sua tecnologia terá nos em-
pregos e, de acordo com a sua página eleuónica, planeia apoiar um programa que irá
disponibilizat formação técnica a trabalhadores que seiam despedidos.

36
em ingfedientes de alta qualidade, o que lhes possibiütará ofere-
cerem hamburguetes goumtet a Preços de pronto-a-comer.
Estes hambúrgueres podem Parecer múto convidativos,
mas vão chegar com um custo considerável. Milhões de pessoas
possuem trabalho de baixos salários, Por vezes a temPo parcial,
na indúsuia da festaufação. Só a McDonald's emPrega cerca de
1,8 milhões de trabalhadofes em 34 000 restaurantes de todo o
mundols. Historicamente, salários baixos, Poucos beneficios so-
ciais e uma elevada tàxr. de rotatividade de pesso al aiudaram a
que os empregos em cadeias de pronto-a-comer fossem relativa-
mente fáceis de enconttat, e estes Postos de trabalho, coniunta-
mente com outfos empfegos não especializados no comércio
fetalhista, proporcionaram uma espécie de rede de segurança do
setof privado patl os trabalhadores com rnenos opções: estes
empregos têm oferecido tradicionalmente um rendimento de
último fecufso quando não existem melhofes alternativas. Em
dezembro de 2073, o Bureau of Labor Statistics americano clas-
sificava Íprepafação de comida combinada com atendimento»,
categoria que não inclui os emPfegados e emPregadas de mesa
dos restaurântes de serviço completo, como um dos principais
setofes geradores de emPrego em número de novas ofertas de
trabalho proietadas âo longo da década até 2022 com aproxi-
-
madamente meio milhão de novos emPfegos e outro milhão de
novas ofertas pàte. substituição de trabúhadores que deixarm
^
indústrial6.
Contudo, na esteira da Grande Recessão, as regfâs que cos-
tumavam aplicar-s e emPfego no setor do pronto-a-comer es-
^o
táo a mudar rapidamente. Em 2011, a McDonald's lançou uma
importante iniciativà Para contfatar 50 000 novos uabalhadofes
num só dia e recebeu mais de um milhão de candidaturas râcro
-
que tofnou coÍlse$uf o empfego na McDonald's numa aPosta
mais arriscada do que conseguif sef admitido em Harvard. Em-
bora o empfego em cadeias de pronto-a-comer fosse outrofa
dominado Pof jovens a Procur àfem ttat algum rendimento de

37
um emprego a tempo paÍcial, enquanto prosseguiam os seus es-
tudos, a indústria emp rcgL àgora trabalhadores muito mais
velhos que dependem desse emprego púa, conseguirem o seu
rendimento prin.rpd. Cerca de 90 por cento dos trabalhadores
do setor do pronto-a-comer têm vinte ou mais anos e a idade
média é de vinte e cinco anosl7. Muitos destes trabalhadores
mais velhos têm de sustentar as suas famílias missão quase
-
impossível com um salário médio por hora de 8,69 dólares.
os baixos salários da indústÍtà e a quase completa ausência
de beneficios sociais provoc tàm intensas críticas. Em outubro
de 2013, a McDonald's foi censurada depois de um empregado
ter ügado p^r^ a linha de ajuda financeira da empresa e ter sido
aconselhado a candidatar-se a vales alimentares e à Medicaidls.
De facto, uma análise efetuada pelo Labor Center na Universida-
de da Califomia, €n Berkelen aptúou que mais de meade das fa-
mílias de trabalhadores do pronto-a-comer estão inscrias em al-
gum tipo de progÍama assistencial e que o custo daí resultânte
p^r^ os contribuintes americanos é de quase 7 mil milhões de
dólares por ano1e.
Quando rebentou uma onda de protestos e greves ad ltoc
em restaurantes de pronto-a-comer de Nova forque, que depois
se espalhou a mais de cinquenta cidades americanas no outono
de 2013, o Employment Policies Instinrte, um grupo de reflexão
conservador com ügações estreitas às indústrias hoteleira e de
restauraÇão, fez pubücar um anúncio de página intefua no lyall
Strut Joumal em que avisava que «os robôs em breve poderiam
substituir os trabalhadores do setor do pronto-a-comer que exi-
giam o aumento do salário mínimo»». Embora o anúncio tivesse
indubitavelmente a intenção taaca de causar medo, a rcahdade é
que tal como demonstra o dispositivo da Momentum Machi-
nes
- o aumento da automatizaçáo
na indústria do pronto-
-
-a-comer é quase certamente inevitável. Dado que empresas como
a Foxconn estão a introduzit tobôs para teqlizatem montagens

38
eletrónicas de ala precisão na China, há pouc as razões para crer
que aquelas máquinas não acabem também por servir hambur-
gueres, tacos e cafés com leite em todos os restaurantes de pron-
to-a-comer.
 cadeia japonesa de restaurantes de suslti Kura é uma
bem-sucedida pioneira nâ estratêg1a de avtomaflzaçáo. Nos 262
restanrantes da cadeia, robôs ajudam a prcparar o suslti enquanto
tapetes rolantes substituem os empregados de mesa. Pata asse-
gurar a frescura dos alimentos, o sistem a vigla o tempo que os
pratos individuais de suslti circulam no tapete e remove automa-
ticamente aqueles que atingem o pra,zo de validade. os clientes
fazem os pedidos mediante ecrãs táteis e quando acabam de ian-
tar depositam os pratos vazios numa ranhura próxima da sua
mesa. O sistema calcula automaticamente à coÃt:. e depois limpa
os pratos e transporta-os rapidamente de volta parrà a cozinha.
E;mvez de empregàr gerentes em cada loia, a cadeia Kura usa
instalações centralizadas onde os gerentes podem remotamente
monitorizar cada aspeto das operações do restaurante. O mode-
lo de negócio da Kura com base na automaazaçáo permite-lhe
pratrcat preços de pratos de saslti de apenas 100 ienes (cerca de
um dólar), significativamente abaixo dos seus concorrentes2O.
É brst nte fâcrl perspetivar que mútas das estratégias que
funcionaram com a Kura, especialmente a produção automutza-
da de comida e a gestão à distância, acabem por ser adaptadas
pela indústria de pronto-a-comer. Alguns passos significativos
foram já dados nessa direção; a McDonald's, por exemplo,
anunciou em 2011 que iria instalar sistemas de encomenda por
ecrãs táteis em 7000 restaurantes europeus2l. Quando um dos
operadores mais importantes da indústria começar a rcarat vaÍl-
tagens significativas do aumento da automatização, os outros
operadores terão poucas alternativas a nã,o ser seguir-lhe o
exemplo. A automatzaçáo ambém râ oÍerccer a capacidade de
ser mais competitivo em outras âteas além dos custos laborais.
A produção roboazada pode ser vista como mais higiénica, uÍna

39
vez que menos trabalhadores entfam em contacto com os ali-
mentos. Comodidade, rapidez e rigor dos pedidos irão aumen-
ta4 tal como a possibilidade de os personaliz^t. Logo que as
preferências de um cliente fiquem registadas num restaufânte,
produzir consistentemente os mesmos resultados noutras locali-
zações será um assunto simples com a automalzaçáo.
Perante tudo isto, Penso que é bastante fâctl imaginar que
um típico restaurante de pronto-â-comer venha à ter a possibiü-
dade de reduzir o seu quadro de pessoal em 50 por cento ou
talvez mais. Pelo menos nos Estados Unidos, o mercado do
pronto-a-comer iâ estâ tão saturado que será alamente imptová-
vel que novos restarúantes possam absorver umâ tão imporanrc
redução no número de trabalhadores, exigrda em cada restauran-
te. E isto, eüdentemente, pode significar que o grande número
de novos empregos previstos pelo Bureau of Labor Statistics
nunca chegue a matena)izaÍ-se.
A outra importante concentração de empregos de baixos
salários no setor de serviços dá-se no comércio retalhista geral.
Os economistas do Bureau of Labor Statistics classific^m a.
ocupação específica de «caixeiro(a) retalhistâ), só precedida pela
de çrofissional de enfermagefi»), como a que ttâ getx mais em-
prego na década que termtnarâ em 2020 e preveem L crtução de
mais de 700 000 novos postos de trabalho». Conüudo, mais uma
vez, a tecnologia tem o potencial de fazer com que as proieções
governamentais pareçâm otimistas. Podemos provavelmente aÍr-
tectpar que uês fotças principais irão moldar o emprego no se-
tor do comércio retalhista no futuro.
 primeha serâ, a contínua perturbaçáo da atividade pelos
retâlhistas em linha como Amazon, eBay e Netflix. A vantagem
competitiva que os operadores comerciais em linha têm sobre as
traücionais lojas de argamassa e tiiolo é iâ clanmente evidente
com o fecho das princrpais cadeias de comércio retalhista como
Circuit City, Borders e Blockbuster. Tanto a Amazon como o
eBay encontram-se a experimentar efiüega no mesmo dia em
^
40
numefosas cidades americanâs, com o obietivo de destruif uma
das últimas e maiofes vantagens que as loias retalhistas locais
ainda possuem: a capacidade de proporcionar imediata satisfa-
ção após a compra.
Em teori o dos retalhistas em linha não devia ne-
^, ^vaÍLÇo
cessariamente destruir Postos de trabalho mas' pelo contrârio,
deveria fazê-los transitar dos estabelecimentos tradicionais de
comércio fetalhista para os LÍmuzéns e centfos de distribuição
usados por aqueles fetalhistas. Porém, a realidade é que quando
as tatefas passam Pat:a, um armazém tofnam-se mais fáceis de
automati zat A Amazon adquidu em 2012 l{iva Systems, uma
a
empresa de robóti ca Para armazéns. Os robôs da Kiva, que têm
a aparência de enofÍnes discos de hóquei no gelo fluhrantes, são
concebidos pafa movimentafem materiais no interior de arma-
zéns. Em lugar de haver trabalhadores a caminhaÍem pelos corre-
dores pzr;r. selecionar artigos, um robô Kiaa enfia-se simplesmente
sob a palete ou sob a célula de plataforma, eleva-a, e leva-a de-
pois diretame flte PLÍr- o trabalhador que emb ala a encomenda.
Os robôs navegam autonomamente usando uma grelha definida
por códigos de barras no solo e são usados Pú^ automatizaÍ as
operações de armazêm numa grande variedade dos mais impor-
tantes retalhistas além da Amazon, incluindo Toys <<Rr» Us, Gap,
§Talgreens e Staples23. Um ano após a aquisiçío, a Amazon tinha
cerca de 1400 robôs Kiaa em oPef açáo mas tinha aPenas come-
çado o pfocesso de introdução das máquinas em enofmes ^tma-
zéns. Um analista de §fall Street calcula que os robôs acabaráo
por permitif que a emPfesa reduza os seus custos de atendimen-
to por cento24.
até 40
A Kroger Company, um dos maiores operadofes grossistas
nos Estados Unidos, também introduziu centros de distribuição
altamente aurtofnuflzados. O sistema da Kroger pode receber pa-
letes com grandes quantidades de um só produto dos fornece-
dores e depois retirá-lo dessas paletes e montaf novâs paletes
corn urna variedade de produtos diferentes que ficam Prontas

4l
p^t^ expedição para as lojas. Também pode orgarizat o modo
como os produtos são empilhados nas diferentes paletes pau:a,
otTmtzut o em prateleiras quando aquelas che-
^tmazenamento
gam às lojas. os armazéns automatizados eliminam completa-
mente a necessidade de intervenção humana, exceto fla cutga e
descarga de paletes em camiões2s. o óbvio impacte que estes
sistemas de automaazação têm nos postos de trabalho não pas-
sou despercebido às organizações de trabalhadores e a Team-
sters Union tem repetidamente mantido conflitos com a Kroger,
bem como com outros operadores grossitas, acerca da sua intro-
dução. Tanto os robô s Kiaa como o sistema autom aazado da
Kroger deixam alguns postos de uabalho parr- as pessoas que
são principalmente em âreas como a embalagem de conjuntos -
de produtos diversos p^ta a expedição final paur. os clientes
que requefem reconhecimento visual e destrez a. clxo que estas-
são precisamente as áreas em que as inovações como os robôs
movimentadores de caixas da Industrial Perception estão nprda-
mente a fazet avaÃçLt a fronteira técnica.
A segunda fotça transformadora será provavelmente o
crescimento explosivo do setor dos supermercados, ou âutosser-
viços, completamente automatizados ou, por outras palavras,
-
máquinas e quiosques de venda inteligentes. Um estudo proieta
que o valor de produtos e serviços vendidos neste mercado fuá
crescer de740 mil milhões para mais de 1,1 biliões de dólares
em 201526. Âs máquinas de venda automática progrediram bem
pa.rl^lâ da venda de refrigerantes, sanduíches e péssimo café ins-
tantâneo, e máquinas sofisticadas como as que vendem produ-
tos elettónicos de consumo, como os iPod e ipad da Apple, são
agora comuns nos aeroportos e hotéis de luxo. A ÂVT, Inc., um
dos princrpais fabricantes de máquinas automáticas p^ta comér-
cio retalhista, afrrma que pode desenvolver uma solução de
autossenriço puta praticamente qualquer produto. As máquinas
de venda autom âtica tomam possível reduzir profundamente
três dos custos mais significativos no negócio de comércio tet^-
lhisa: imobiliário, mão de obra e furto por cüentes e empregados.

42
Além de proporcionarem um serviço de 24 horas por dia, mui-
tas das máquinas incorporam ecrãs de vídeo e podem oferecer
pubücidade dirigida ao Ponto de venda com o obietivo de incen-
tívat os clientes a comPrafem produtos relacionados, muito
semelhante ao que podena fazef um vendedor humano, e tam-
bém recolher os endereços de correio eletrónico dos clientes e
enüar-lhes recibos. Essencialmente, as máquinas oferecem mui-
as das vantagens de uma encomendapela Interneg com o bene-
fício inetente da entrega imediata.
Embora seia certo que a proliferação das máquinas e qúos-
ques de venda automâAca eliminarâ Postos de trabalho na ârea
das vendas a tetalho, estas máquinas ambém tráo, evidentemente,
cttart postos de trabalho ern âteas como manutenção, reposição
de existências e tepatuÇões. Contudo, o número destes novos
empfegos pode provavelmeÍrte sef menor do que se poderia es-
penr. As máquinas de ultima geração estão ditetamente ligadas
à Internet e Proporcionarn um fluxo contínuo de informações
sobre vendas e diagnósticos de manutenção; também estão es-
pecificamente concebid^s P^rL minimizaf os custos de mão de
obra associados à sua operação.
Em 2070, David Dunnin g er?- o supervisor regional de
operações resPonsável pela fiscdtzaçáo da manutençío e reposi-
ção de existências de 189 quiosques de aluguer de vídeos
Redbox , na ârea de Chic . A Redbox tem mais de 42 000
^go27
quiosques nos Estados Unidos e no Canadâ, tipicamente situâ-
dos em loias de conveniência e suPerÍnercados, e aluga cerca de
2 milhões de údeos por dia28. Dunning geria os quiosques da
arca de Chicago com um quadro de pessoal de aPenas sete Pes-
soas. A reposção nas máquinas é profimdamente de
^'utornatzada;
faúo,o aspeto de mão de obra mais intensiva do negócio é a subs-
tituição dos anúncios translúcidos dos filmes exPostos nos quios-
ques processo que normalmente leva menos de dois minutos
-
por cada máquina. Dunniqg e o seu pessod dividem o seu tempo
entre o atmazém, aonde chegam os novos filmes, e oS seus auto-
móveis e residências, onde podem aceder às máquinas e geri-las

43
pela Internet. os quiosques são concebidos de ruz pala a manu-
tenção à distância. Por exemplo, se uma máquina encrava, dâ
imediaamente nota do problema e um técnico, do seu computa-
dor portátil, pode ügar-se com ela, agjtar o mecanismo e resolver
o problema sem necessidade de se deslocar ao local. os novos fil-
mes são normalmente distribúdos às terças-feiras, mas as má-
quinas podem ser reabastecidas em qualquer altura anterior
àquele momento; o quiosque disponibihzaúr automaticamente
os filmes para aluguer no momento certo. Isto permite que os
técnicos programem visitas de reposição evitando o aâfego.
Embora os empregos que Dunning e o seu pessoal têm se-
jam sem dúvida interessantes e desejáveis, são numericamente
umâ ftaçào dos que criana uma cadeia tradicional de comércio
retalhista. Â agora desaparecida BlockBuster, por exemplo, teve
outrora dezenas de loias na gtande Chicago, cada uma com o
seu efetivo de vendas2e. No seu auge, a BlockBuster tinha um
total de 9000 loias e 60 000 empregados, o que significava cetcr.
de sete postos de trabalho por loia sensivelmente o mesmo
-
número que a Redbox emprega em toda a rcgião servida pela
equipa de Dunning.
 terceira maior força c p^z de pernrrbar o emprego no se-
tor de comércio retalhista será a introdução crescente de auto-
maazação e robótica em lojas enquanto os retalhistas instalados
em argalmassa e tijolo lutam pof mantet a competitividade. Âs
mesmas inovações que estão a permitir aos robôs de produção
ultrapassarem fronteiras em âreas como as da destreza física e
do reconhecimento üsual acabarão por permiú que a automati-
zação do comércio retalhista comece dos atmazéns
^mover-se
pata ambientes mais desafiantes e variados, como os das pró-
prias prateleiras de existências nas lojas. De facto, pelo menos
desde 2005, a §Talmart tem investigado a possibilidade de usar
robôs que percoffam os corredores durante a noite púa digrt li-
zaÍem automaticamente os códigos de barras e produzir inventá-
rios de produto3o.

44
Ao mesmo tempo, oS coffedores de caixa dos autosservi-
ços e os quiosques interiores de informaçío váo seguramente
tornaf-se mais fáceis de usar, bem como mais comuns. Os dis-
positivos móveis vão tofnaf-se também uma ferramentt cada
vez mais importante no autosserviço. Os futuros compradofes
irão depender pfogressivamente mais dos seus telemóveis como
meio púa fazet comPfas, efetuar pagamentos e conseguir aiuda
e informações sobre produtos em ambientes tradicionais de co-
mércio retalhista. A revolução dos telemóveis no comércio reta-
lhista iâ estâ em marcha. A §[almart, por exemPlo, está a testar
um pfogf Lm experimental que permite aos clientes digltahzar
códigos de barras corn o telemóvel e depois efetuar com eles o
pagamento nas caixas evitando completamente as longas filas
-
de caixa31. Silvercar, uma staú-up de aluguer de automóveis, dis-
ponibiliza a Possibilidade de reservar elevarrtar um automóvel
sem sequer tef de interagir com um emPregado: o cliente sim-
plesmente ügtaliza o código de barras pafa desbloqueut o c tto
e depois segue viagem32. Enquanto a tecnologia de linguagem
natural, como a Siri da Apple ou até sistemas mais poderoso co-
mo o lYatson da IBM, continuar à LYarLçaÍ e se tofnaf mais aces-
sível, é fâcil imaginar que em breve os consurnidores poderão
pedif assistência aos seus dispositivos móveis, da mesma manei-
fa que o fariam a um empregado da loia. Â diferença, claro está,
é que o consumidot nuÍlca terá de espefaf pelo empregado ou
andzr aüâs dele: o assistente ürnral estrlr^ semPfe imediatamen-
te disponível e só múto fafamente, se é que algumà Yez, hâ dar
uma resposta inexata.
Conquanto muitos retalhistas Possam oPtar Pot Üazet à
automatizaçáo para as configurações tradicionais do comércio
retalhista, outfos poderão em vez disso optar Por reconfigurar
completâmente as SuaS lojas Ah1gz, essencialmente, transfor-
-
má-las em máquinas de venda automática de grande escala. Lo-
ias deste tipo poderão consistir num armazém automatizado
com um salão de exposição anexo onde os cüentes poderão exa-
minar amostfas de produtos e efetuar aS suas encomendas. Estas

45
poderão depois ser entregues üretamente aos clientes, ou até
talvez carregadas por robôs nos seus automóveis. Independente-
mente da extta via tecnológica que vier a ser seguida pela ativi-
dade de comércio retalhist4 é dificil imaginar que o resultado não
se traduza em mais robôs e máquinas e significativamente me-
nos empfegos Pafa as Pessoas. -

 Nuvsl{ RoBorrcÂ
umdos mais imporantes propulsores da revolução robóti-
ca poderâ vrr a ser a cloud robotics (nuvem robótica) ou a mi-
gração de grande parre da inteligência que anima os robôs mó- -
veis pffa poderosos centros de computadores centtalizados.
A nuvem robótica tomou-se possível pela extraordinári a acelera-
çío da velocidade na comunicação de dados; é agora possível
descarre gú gra,rtde parte da computação exigida pela robótica
avançaü em enoflnes centros de dados âo mesmo tempo que se
dá aos robôs individuais acesso a recursos com a dimensão de
redes de dados. Claro que isto tornâ possível construir robôs
mais baratos, uma vez que são exigidos menos poder computa-
cional e memótta a bordo, e permite também a atualizaçáo tns-
tartÂnea de aperfeiçoamentos de sofiware em multiplas máquinas.
Se um robô :utilizat inteligência mec ànica centrali zada pau.a
aprender a adapta*se ao seu meio, então esse conhecimento re-
cém-adquirido pode frcx instantaÍleamente disponível pau;a,
quaisquer outras máquinas que acedam ao sistem tornando
^-
mais fâctl reforçar a aprendizagem das máquinas em grande nú-
mero de robôs. Â Google anunciou apoio à rede robótica em
2011 e providencia trma interface que permite aos robôs apro-
veitarem todos os serviços concebidos para dispositivos com
Andmi#.

* O grande interesse da Google na robótica foi


ainda mais demonstrado em 2073,
quando a emPresa adquiriu oito stat-ttps de robótica num período de seis meses. En-
tre as empresas adquiridas encontrava-se a Industrial perception.

46
O impacte da nuvem robótica pode ser extraordina"riamen-
te importuite em âteas como a do reconhecimento visual que
exige acesso a vastas bases de dados bem como umâ poderosa
capacidade computacional. Consideremos, por exemplo, o enor-
me desafio tecnológico que envolve a coostrução de um robô
c p^z de desempenhar grande diversidade de arefas domésticas.
Uma empregada doméstica robótica com a tarcfa de amrmar a
confusão numa sala precisaria de ser capaz de reconhecer um
quase ilimitado número de obietos e depois decidir o que fazer
com eles. Cada um daqueles objetos pode surgir numa eÍrorÍne
variedade de estilos, estar orientado de forma diferente e Lté, tal-
vez, estar de alguma maneta emaranhado com outros objetos.
Compare este desafio com o que enfrentou o robô movimenta-
dor de caixas da Industrial Perception que conhecemos no início
deste capítulo. Embora à capacidade deste robô de conse$ur
distinguir e pegar em cada uma das caixas, mesmo quando estão
empilhadas de forma aleatôria, seja um feito impressionante,
ainda está limiada a... caixas. Há obviamente um longo caminho
a percorret poder reconhecer e manipular praticamente qual-
^té
quer obieto de qualquer forma e em qualquer configuração.
ConseguiÍ moÍrtar uma perceção visual e um reconheci-
mento táo abtangentes num robô economicamente acessível
representa um desafio tremendo. Porém, a nuvem robótica ofe-
rece pelo meÍros um vislumbre do caminho que pode vir a coÍl-
dtzir à solução. A Google apresentou a sua aplicaçáo Gogles,
telemóveis equipados com càmar:a fotográfic^, em2010, e desde
então tem vindo a melhorar significativameÍrte a tecnologia. Es-
ta aphcação permite-lhe captat fotos de aspetos como edificios
de referência, livros, obras de arte e produtos comerciais e de-
pois deixar que o sistema reconheça e encontre automaticamen-
te informaçáo relevante para a foto. Embora a construção da
aptidão de reconhecer quase qualquer objeto num sistema de
bordo de um robô fosse extraordinariamente dificil e dispendio-
sa, é bastante fâctl imaginar os robôs do funrro a reconhecerem

47
os obietos Íro seu meio ambiente graças ao acesso a uma vasta
base de dados de imagens centÍalizada semelhante à que é usada
pelo sistema Gogles. Â biblioteca de imagens baseada na nuvem
podia ser atualizada continuamente e quaisquer robôs com aces-
so ao sistema receberiam LpetfeiçoameÍrtos instantâneos à sua
capacidade visual de reconhecimento.
É certo que a nuvem robótica será um motor significativo
do progresso na construção de robôs mais c pazes, mas
^pte-
senta também apreensões importantes, especialmente na arca da
segurança. Âlém da sua desconfortável semelhança com o S&l-
net, o computador inteligente fora de controlo dos filmes O Ex-
terruinador Inplacáael, com Arnold Schwarzeneger, hâ o muito
mais prático e imediato tema da suscetibilidade à pratana infor-
míaca ou aos ciberataques. Será uma preocupaçáo especialmen-
te significaívà se algum üa a nuvem robótica assumir um papel
importante nâ nossa infraestrutura de transportes. Por exemplo,
se camiões e comboios automatizados efetuarem o transporte de
alimentos ou outros abastecimentos críticos sob um comando
cefitrarhzado, tal sistema pode ctiar vulnerabilidades extremas.
Existe iâ wa grande apreensão quaÍrto à vulnerabilidade da ma-
quinaria indusuial e de infraestruturas viais como a rede elétrica
â um ciberataque. Essa vulnerabiüdade ficou demonstrada pelo
yonz Snrxnet que foi criado pelos governos dos Estados Unidos
e de Israel para atacat as cenüifugadoras usadas no programa
nuclear do Irão. Se, algum dia, os componentes de uma infraes-
trutura importante ficarem dependentes de inteügência mecânica
cenüahzada, aquelas apreensões podem atingir um nível com-
pletamente novo.

Os nonôs NA AGRTcULTURA

De todos os setores geradores de emprego que compõem a


economia a/,rteÍjlcana, a agricultura apresenta-se como aquele que
sofreu jâ as maiores transformações como resultado direto do

48
progresso tecnológico. Muitas destas tecnologias foram, eviden-
temente, de natvteza. mecânica e chegatàm muito antes do
advento da tecnologra da informação avançada. Em finais do sé-
culo xrx, quase metade dos trabalhadores americanos trabalha-
vam em fazendas agrícolas; no ano 2000 essa parcela tinha caído
abaixo dos 2 por cento . Para culnrras como as de dgo, milho e
algodão, que podem ser plantadas, tratadas e colhidas mecanica-
mente, o trabalho humano exigido por busltel (cerca de 35 l) de
produção é agora quase insignificânte em países desenvolüdos.
Muitos aspetos da cnaçáo e gestão pecuária são também meca-
nizados. Por exemplo, sistemas de ordenha robóticos são co-
murrmente usados pelos produtores de leite e nos Esados Unidos
o crescimento dos frangos é feito por tamanhos padronizados
PaÍr. os torÍrar compatíveis com pfocessos de abate e PÍocessa-
mento automatizados.
As restantes áreas da agricultura de mão de obra intensiva
eÍrcoÍrram-se principalmente na apanha de fnrtos e vegetais de-
licados e de alto vdor, bem como de plantas e flores ornamen-
tais. Tal como se passou com outras tarcfas manuais, relativa-
mente rotineiras, estes trabalhos têm sido até agora protegidos
da mecanização pri".lpdmente porque são muito dependentes
da perceção visual e da destreza manual. Os frutos e os vegetais
podem ser facilmente danificados e precisam com frequência de
ser selecionados com base na cor ou na macieza. Par;a :uma mâ'
quina, o teconhecimento visual é um desafio importante: as con-
dições de luz podem ser altamente variáveis e cada um dos fru-
tos pode estar orientado de muitas maneiras diferentes e pode
estâr parcial ou até completamente ocultado pelas folhas.
Âs mesmas inovações que estão a fazer LvernçLt a fronteita
da tobótica em ambientes fabris e de atmazeÍtagem estão final-
mente a fazet com que muitos destes restantes trabalhos 4gríco-
las seiam suscetíveis de automrdzaçáo. A Vision Robotics, uma
empresa sediada em San Diego, na Cahfôfilia,, estâ" a desenvolver
umâ máquina de apanha de laranias semelhante a um polvo.

49
O robô irá usar visão mecânica tddimensional pata delinear um
modelo de computador de toda uma lararrieka e depois memori-
z^r locabzação de cada fruto. Esta informação será depois
^
ttansmitida aos oito braços robóticos da máquinar §lue npida-
mente apanhaúo as lanr\as33. A Harvest Âutomation, uma staú-
-up da zotra de Boston, está paru iâ focada rLr. construção de
robôs p^t^ a automaazação de operações em viveiros e estufas;
a empresa calcula que o trabalho manual absonre mais de 30 por
cento do custo do crescimento das plantas ornamentais. A lon-
go ptazo, a empresa acredita que os seus robôs serão capazes de
executar até 40 por cento do uabalho agrícola manual que agora
é exigido nos Esados Unidos e na Europa3a. Robôs experimen-
tais estão iâ a podar vinhas em França com recurso à tecnologia
de visão mecânica combinada" com algoritmos que decidem
quais os frutos que devem ser cortados3s. No Japão, runa nova
máquina é capaz de escolher morangos maduros com base em
subtis vanações da cor e depois colher trm morango a cada oito
segundos trabalhando continuamente e fazendo a maiot pú-
-
te do trabalho de noite36.
Os robôs agrícolas avânçados são especialmente atrativos
em países que não têm acesso ao trabalho imigrante de baixo
custo. Por exemplo, a ÂustráIia e o Japáo são ambos ilhas e na-
ções com uma mão de obra em rápido envelhecimento. Do
mesmo modo, as considerações sobre segtrança transformam
Israel praticamente numa ilha em matéfla de mobilidade da mão
de obra. Muitos fnrtos e vegeais precisam de ser colhidos ntrma
ianela temporal relativamente diminuta, pelo que a falta de
aabúhadores disponíveis na dtura certa pode facilmente trans-
formar-se num problema catastrôfico. Âlém de reduzir a neces-
sidade de mão de obra, a autom attzaçáo agrícola tem enorme
potencial par;l tomar a agriculrura mais eficiente e muito menos
intensiv^ Íta, exploração dos recursos. Os computadores têm
a capacidade de acompanhar e gerir as colheitas num grau de

50
granularidade que seria inconcebível p^ta trabalhadores huma-
nos. O Australian Centre for Field Robotics (ACFR), na Univer-
sidade de Sydney, está focado na utiüzaçáo da robótica agrícola
avançad^ p^t^ aiudar a posicionar a Austrália como principal
fomecedor de alimentos para a populaçáo rciâaca em expansão
explosivà âpesar da relativa escassez de tetta arâvel e âgaa
-
doce. O ACFR antevê os robôs a obsenrarem continuamente os
campos, a recolherem amosüas de solo em tomo de cada planta
e depois a rnietarem apenas a quantidade certa de água e fertili-
zmte37. A aplicação individualizrda de quantidades precisas de
fetahzrntes e pesticidas a cadaplanta, ou até a determinados
frutos que crescem nas árvores, pode potencialmente reduzir o
uso destes químicos até 80 por cento, fazendo assim decrescer a
quantidade de excedentes tóxicos que acaba por poluir os rios,
lençóis freáticos e outros cursos de água:a*.
A agriculnrta em muitos dos países em desenvolvimento é
notoriamente ineftcaz. As parcelas de terreno exploradas em
contexto famüar são muitas vezes mínimas, o investimento de
capital é pequeno e a tecnolosa moderna náo está disponível.
Ainda assim, as técnicas são de mão de obta intensiva e as ter-
ras têm com frequência de sustentar mais Pessoas do que âque-
las que são de facto necessárias pàrr.as cultivar. À medida que a
população global for aumentando p^t^ 9 milhões ou mais nas
próximas décadas, haverâ uma pressão incessantemente cres-
cente púà a Uansição de toda e qualquer terra cultivável para
explorações maiores e mais eftcazes, cupazes de produzirem
maiores rendimentos 4grícolas. O progresso tecnológico da agn-
cultura terá um papel significativo a desempenhar, especialmen-
te nos países onde a âgaa é escassa e os ecossistemas têm sido
afetados pelo abuso de químicos. Contudo, o aumento da meca-
nização também irá significar que atetr^ passará a proporcionar

* Agricultura de precisão ou a capacidade de traar e çrir as plantas ou fnrtos in-


diüdudmente é parte -do fenómeno big data (megÀados), assunto que examinare-
-
mos com mais pormenor no capítulo 4.

51
sustento L càda vez menos pessoas. A norma histórica tem sido
o excesso de uabalhadores *igr* p^t^ as cidades e centros in-
dustriais em busca de trabalho nas fábricas mas como iá vimos,
-
as fábricas vão elas própdas ser transformadas pela acelerziçáo
da tecnologia de automatizaçã"o. De facto, parece algo difícil
imaginar quantos países em desenvolvimento serão bem-sucedi-
dos nestamatê de revoluções tecnológicas sem cakem em pro-
fundas crises de desemprego.
Nos Estados Unidos, a robótica agrícola tem o potencial
de acabx por deitar por terra muitas das convicções fundamen-
tais que sustentâm a política de imigraçáo ârea que está sujei-
-
ta a políticas intensamente polanzadas. O impacte ê jâ evrdente
em algumas áreas que costumàvam empregar grande número de
trabilhadores agdcolas. Na Califórnià, máquinas movimen-
^s
tam-se no assusador desafio visual de apanharem amêndoa sim-
plesmente pela preensão de toda a ânroter eue depois agitam
violentamente. As amêndoas câem no solo, onde serão apanha-
das por uma máquina diferente. Muitos agricultores da Cútfór-
nia transitanm de colheitas delicadas como a do tomate parr. a
de nozes, mais robustas, porque podem ser colhidas mec arrtca-
meÍrte. O emprego total na 4gricultura, na Califó ttttl, caiu cerca
de 1 1 por cento na prim efua década de século xxr, apesar de o
total da produção de culturas como a da amêndoar eue são com-
patíveis com técnicas agtícolas autom attzadas, ter aumentado
exponencialmente3e.

Conforme a robótica e as técnicas avançadas de autosservi-


ço se desenvolvem de forma crescente em quase todos os seto-
res da economia, itío Lme ç t em primeiro lugar os postos de
uabalho de mão de obra banta que exigem níveis mais modes-
tos de forrnaçáo. Contudo, estes postos de trabalho constituem
a muona dos novos empregos que estão a ser gerados pela eco-
nomia e a economia ameticana precisa de criar algo na or-
-
dem de um milhão de empregos por ano apen^s par:. fazer face
ao crescimento da populaçã,o. Mesmo que ponhamos de lado

52
a possibilidade de uma efetiva redução do número destes em-
Pregos enquanto as novas tecnologias emergem, qualquer declí-
nio no tâcio da sua getaçáo teúr drxas e cumulativas consequências
no emprqgo a loqgo pnzo.
Muitos economistas e políticos podem não querer reco-
nhecer este problema, Afinal, os trabalhos de rotina, de baixos
salários e não especializados tendem a ser vistos como inerente-
mente indeseiáveis e quando os economistas discutem o impacte
da tecnologia neste tipo de tzrefas, é muito provável que se en-
contre a expressáofreed up Qtvre de compromissos), como se os
uabalhadores que perdem os seus empregos não qualificados fi-
cassem livres put^ conseguir mais fotmaçío e melhores oportu-
nidades. Evidentemente, a suposição fundamental é que uma
economia dinâmica como a dos Estados Unidos será sempte c -
paz de getar empregos suficientes de salários mais altos e maior
qualificaçáo para absorver todos os tabalhadores recentemente
«dibertadog) desde que sejam bem-sucedidos na aquisição da
-
necessária formação e preparaçío.

Esta suposição assenta numa base cada vez mats instável.


Nos dois próximos capítulos vamos ver o impacte que a auto-
matização tem já nos emPregos e na geração de riquez^ nos
Estados Unidos e considetut as catactetísticas que situam a tec-
nologia da informaçáo à parte como uma força excecionalmente
disruptiva. Esta discussão itâ providenciar um ponto de partida
púe. Perscrutar trma história que está Prestes a reverter a convic-
ção habitual sobre os tipos de trabdho que mais probabilidades
têm de ser automattzados e sobre a üabiüdade de mais prepara.
ção e formação como solução: as máquinas também vêm ame -
çar os trabalhos de maior qualificaçáo e vencimento.

53
Capítulo 2
SERÁ DIFERENTE DESTA VE;Z?

Naquela manhã de domingo, 31 de março de 1968, o reve-


rendo Martin Luther Kirg Jr. estava de pé junto ao púlpito de
pedra requintadamente lavrada da Catedral Nacional de §7ash-
ington. O edifício trmâ das maiores igrejas do mundo, com
-
mais do dobro das dimensões da Abadia de \üTestminster em
Londres ssf2\ra repleto de milhares de pessoas que se aglo-
-
meravam nâ nave e no transepto, espreit^vam do varandim do
coro e se cornprimiam iunto às entradas. Pelo menos mais mil
pessoâs juntavam-se na escadaria ou na lgeia Episcopal de St.
Alban, situada nas proximidades, pLtL ouvirem o sermão pelos
altifalantes.
Seria o último sermão de domingo de Martin Luther King.
Apenas cinco dias depois, a catedral voltaria a estaf repleta com
uma multidão muito mais sombria incluindo o presidente
-
Lyndon Johnson, funcionários superiores do governo, todos os
iúzes do Supremo Tribund e princrpais membros do Congresso
reunidapara prestar homenagem num serwiço lsligioso em
-memória de Luúer King no dia seguinte ao do seu assassínio
em Memphs, no Tennesseel.
O título do sermão de Luther Kitg P^t^ aquele dia en
««Permanecer acordado durante urna Gtande Revolução». Os di-
reitos humanos e civis eram, como seria de espera\ a comPo-
nente pti".tprl da sua prédica, mas ele tinha ern mente uma mu-
dança revolucionâria numa frente muito mais ampla. Expücou
de modo resumido no seu sermão:

55
Não pode desmentir-se que uma grande revolução esú a ocor-
rer no mundo de hofe. Num certo sentido é uma tripla revolução:
isto é, uma revolução tecnológica, com o impacte da automatrzação
e da cibernética; depois há uma revolução no armameÍtto, com a
emergência de atmas de guerra atómicas e nucleares; depois há uma
revolução dos direitos humanos, com a explosão de überdade que
estâ a acontecer em todo o mundo. Sim, vivemos um período em
que estão a operar-se mudanças. E ainda se ouve a voz a gntar atta-
vés do pulaotama do tempo: <<Eu renovo todas as coisas; as primei-
ras coisas passaram.»f

A expressão «tripla revolução»» referia-se a um relatório da


autoria de um grupo de preeminentes académicos, iornalistas e
tecnólogos que se design^tam Comissão Ad Hoc sobre a Tripla
Revolução. O grupo inclúa Linus Pauling, laureado com o Pré-
mio Nobel da Química, bem como o economista Gunnar My.
dal, a quem seria atribúdo o Prémio Nobel da Economia con-
juntamente com Friedrich Hayek, effi 7974. Duas das forças
revolucionárias identificadas no relatório as arÍnas nucleares
e o movimeÍrto dos direitos civis
-
estão indelevelmente urdi-
-
das na narattva histórica dos anos 60. A terceira revoluçãor eue
constituía o maior volume de texto do documento, foi l*rga-
mente esquecida. O relatório previa que a «cibernétic» (ou au-
tomattzação) em breve resultaria numa ecoÍlomia em que «a
produção potencialmente ilimitada pode ser coÍlseguida por sis-
temas de máquinas que exigirão pouca cooperação com os seres
humanos»»3. As consequências seriam desemprego em massa,
profunda desigualdade e, finalmente, queda na procura de bens
e serviços conforme os consumidores fossem perdendo o poder
de compra Írecessário p^t^ continuar a conduzit o crescimento
económico. Â comissão avançou com a proposta de uma solu-
çáo raüca): a eventual aphcaçío de um rendimento mínimo g -
rantido tornado possível pela <«economia de abundânciar» que tal

56
disseminaçáo da automatzação cflarta,, e que ida «ocupar o lugar
da manta de tetalhos das medidas de segurança sociab» que esta-
vam então em vigor para ü^taÍ da pobteza*.
O relatório da Tripla Revolução foi distribuído aos nedia e
enviado putà o presidenteJohnson, o secretâno de Estado do
Trabalho e os respoosáveis do Congresso em março de 7964.
A cana de apresentação que acompanhava o relatório avisava de
forma preocup LrLte que se ,lgo semelhante às soluções ProPos-
tas pelo relatório não fosse adoado, «o país será lançado numa
desordem económica e social sem Pfecedentes». Um artigo de
primeira pâg:rÍ:r- com extensas citações tetiradas do relatório foi
publicado no Nea York Timu do dia seguinte, e muitos outros
jornais e revistas publicaram notícias e editoriais (a maioria dos
quais críticos), em muitos casos imprimindo até o texto integral
do relatórioa.
A Tripla Revoluçáo marcou o que era talvez a crista de
uma onda de preocupação sobre o impacte da automatizaçáo
que tinha surgido após a Segunda Guerra Mundial. O esPectro
de desemprego em massa conforme as máqúnas dispensassem
os uabalhadores suscitou muitas vezes o medo no Passado
-
mas Ílos
como na altura da revolta dos luddistas em 7872
anos 50 e 60 a apreensão foi especialmente intensa e enunciada
-
por algumas das mais preeminentes e intelectualmente respeita-
das individualidades dos Estados Unidos.
'§7iener,
Em 7949, a pedido do New York Tirua, Norbert ma-
temático intemacionalmente famoso do MIT, escfeveu um artigo
em que descrevia a sua visão PüL o futuro dos computadores e da

* A Comissáo da. Tripla Revolução não advogava a imediata aplicação do tendimento


garantido. Em vez disso, propunha uma lista de nove políticas de transição. Muias
delas eram bastante convencionais'e inclúam coisas como um grande aumento do in-
vestimento na educação, profetos de obras públicas par;t gençío de emprego e a
construção de casas económicas. O telatório também defendia um papel bastante
mais extenso para os sindicatos e suçda que as orgartizações de trabalho bem como
aqueles que tinham emprego deveriam toroâf-se porta-vozes dos desempregados.

57
automatizaçãos. §Tiener fora um menino-pro.lrgro que dera en-
tnda na universidade com onze anos e completou o seu douto-
ramento quando tinha apenas dezassete; dedicou-se ao campo
da cibernêtca e avançou contributos substanciais em matemáti-
cas aplicadas e nos fundamentos da ciência computacional. No
seu artigo ssçri1e apenas três anos depois de o primeiro com-
putador
-
eletrónico
para verdadeiro uso geral ser construído na
Universidade da Pensilvânia* §Tiener defendia que ««rudo o
-
que podemos fazer de forma clara e inteligível podemos Íazer
com uma máquina»» e avisava que isso podia acabar por conduzit
a («rma revolução industrial de crueldade absolutar» rcahzada por
máquinas capuzes de <«eduzir o valor económico do opeúno fa-
bril com tarefas de rotinl a unn ponto tal em que este não tem
nenhum valor, seia qual for o preço>»**.
Três anos mais arde, um futuro distópico muito semelhan-
te ao que §Tiener imaginxa foi trazido àbaz nas páginas do pri-
meiro romance de Kurt Vonnegut, Utopia l4-2, que descrevia
uma economia automaazada na qual máquinas industriais, co-
mandadas por uma elite mecânica mínima, faziam praticamente
todo o trabalho, enquanto a muonr da população eta confron-
tada com uma existência sem significado e um futuro sem espe-
tarlça.. Vonnegutr eue continuou a escrevet até adquidr um esta-
nrto lendário como autor, continuou a acreditaÍ rLL relevância do
seu romance de 1952 ao longo de toda a sua vida, escrevendo
até mais tarde que ele se estava a. tornut «<mais *ual a cada üa
que passav»>6.

* O ENIAC (Electonic Numerical Integrator Computer) foi construído na Universi-


dade da Pensilvânia em 7946. O compuador verdadeiramente programável foi finan-
ciado pelo Exército dos Esados Unidos com a intenção inicial de calcular as tabelas
de fogo usadas para alvos de artilharia.
** Devido a eÍros de comunicaçáo, o artigo de §Tiener nunca foi pubücado em 1949.
Mais arde, um investigador que em 2072 trabalhava com documentos Íros arquivos
da biblioteca do MIT descobriu um rascunho, e foram então publicados excetos
subsanciais em maio de 2013 num artigo do repórter científico John Markoff no Neut
York Times.

58
Quatro meses depois de a administração Johnson receber o
relatório da Tripla RevoluÇão, o presidente assinou um proieto
de lei que criou a Comissão Nacional Ptra a Tecnologia, Auto-
matzaçáo e Progresso Económico7. Nos seus comentários du-
raÍrte a cerimónia de assinatura do projeto de lei, Johnson disse
que «a automatizaçáo pode ser o aliado da nossa prosperidade se
formos c pazes de olhar em frente, se compreendermos o que
está pâra í:r, e se estabelecermos o nosso fltmo sensatamente
depois de planearmos aptopriadamente o futuro». A então re-
cém-formada comissão como é quase geralmente o caso com
tais comissões
-
raprdamente desapareceu na obscuridade, dei-
-
xando aüâs de si pelo menos três relatórios com a extensão de
livros, da sua própria autorias.
A ironia de todas âs preocupações com â automatzaçío no
período pós-guerra foi que a economia nío apresentava muitos
indícios que pudessem sustentar tais PreocuPações. Quando o
relatório da Tripla Revolução foi publicado em 7964, a taxa de
desemprego era de 5 por cento e viria a calr p^r^ 3,5 por cento
em 1969. Mesmo durante as quatÍo recessões que ocoÍreram en-
tre 1948 e 1,969, o desemprego ntrnca alcançou os 7 Por cento e
depois voltou a ca,tr rapidamente quando a retoma estava à vistae.
A introdução de novas tecnologias produziu aumentos substan-
ciais de produtividade, mas a parte de leão desse crescimento foi
absorvida pelos trabalhadores sob a forma de salários mais altos.
No início dos anos 70, o foco voltara-s e pàÍa o embatgo
petrolífero da OPEP e depois p^ta, os aÍros subsequentes de es-
tagÍlqáo. O potencial de as máquinas e computadores poderem
causar desempÍego foi progressivamente desviado do pensa-
mento predominante. Em especial entre os economistas profis-
sionais, aideia tomou-se praticamente intocável. Aqueles que se
atreviam a alimentar tais pensamentos arriscavam-se a sef fotu-
lados como ««reoluddistas».

59
Uma vez que as temíveis situações previstas pelo relatório
da Tripla Revoluçáo nío se concretzaram, podemo s fazer a per-
gunta óbvia: onde, exatalmente, se engaflúarm os autores do rrJra-
tório? Ou será que tal como muitos outros antes deles
-
simplesmente frzeram soar o alarme cedo de mais?
-
Norbert'Wiener, como um dos primeiros pioneiros na tec-
nologia da informtçã,o, percebeu o computador digital como
fundamentalmente diferente das tecnologias mecânicas que o
precederam.F;ta um fator de mudança: um novo género de má-
quina com o potencial de nos conduzir a uma nova etl e, aft-
-
nal, talve z de t^sg t o próprio tecido social. Todavia, as perspe-
tivas de §Tiener foram expressadas num momeÍrto em que os
computadores eram monstflrosidades do tamanho de uma sala,
cujos cálculos eram alimentados por dezenas de milhares de es-
caldantes válvulas eletrónicas de úüo que se podia contar que
falhassem quase todos os dias10. Passaritm décadas antes de o
exponencial arco do progresso conduzir a tecnologia digital a
um plano em que tais perspetivas fá podiatrt razoavelmente justi-
ficar-se.
Aquelas décadas estão agote. bem atrâs de nós, e estamos
agoÍ2 no temPo certo pata uma rcavahação quanto ao impacte
da tecnologia na economia. Os dados mostram que mesmo
quando as apreensões acetc do impacte da tecnologia economi-
zadora de mão de obra retÍocederam pau;a as margens do pensa-
mento económico, algo que fora fundamental na era de prospe-
ridade do pós-guerra começff? a mudar na economia amettcafla.
A quase perfeita corelação histórica entÍeo aumento da produ-
tividade e a subida dos salários quebrou-se: os salários p^ta mui-
tos dos americanos estagnurum e, paÍr. muitos trabalhadores, até
baixaram; a desigualdade do rendimento subiu p^r^ níveis que
não se viam desde o crasb bolsista de 7929; e uma nova expres-
são (cetoma com desemprego» encontrou lugar de desta-
- -
que no nosso discurso. No total, podemos eÍrumerar pelo menos

60
sete tendências económicas que, no seu conjunto, sugerem um
papel ttansformador púL o avanço da tecnologa da informaçáo.

Snrs TBNoÊNCIAS MonrÍrsnas

Estagnação sakial

O ano de 7973 foi rico em acoÍltecimentos na história dos


Estados Unidos. A administfação Nixon viu-se envolvida no es-
cândalo \üTatergate e, em outubro, a OPEP iniciou um embxgo
à produção de petróleo que em breve viria a resultar em longas
filas de espera de automobilistas desesperados em postos d. gr-
solina por todo o país. Contudo, mesmo quando mergulhou na
sua espiral mortííeta,havia uma outfa história que se revelava.
Começou com um acontecimento que os media não noticiansr e
no eÍrtanto marcou o começo de uma tendência c:uia importân-
cia indubitavelmente se sobrepôs a §Tatergate e à crise do petró-
leo. Foi neste ano que o salário do americano comum atingiu o
seu pico. Meüdo em dólares de 2013, um trabalhador normal
is16 é, de um universo de trabalhadores da produção sem
-funções de supervisão do setof privado que rePfesenta bastante
mais de metade da mão de obra amencana grrhr\ra cetca de
-
767 dôlares pof semaÍra em 7973. No ano seguinte, os salários
reais médios conhecefâÍn uma queda ptecipitada da quâl ÍruÍrca
voltariam a recuperar completamente. Quatto décadas mais tar-
de, um trabalhador semelh^ite garrha apenâs 664 dôlarcs, uma
queda de quase 13 por centol1.
A história éhgetamente melhor se olharmos pâfâ os rendi-
mentos da famflia méüa. Entre 7949 e 7973, o rendimento da
famíba média ameicana sensivelmente duplicou, de cerca de
25 000 par;e. 50 000 dólares anuais. O crescimento nos salários mé-
dios durante este período andou perfeitamente
^ Px com o PIB.
6t
Três décadas mais tarde, o rendimento médio da famíli^ àmert-
c rra aumentâfl patl cetc de 61 000 dólafes, uÍn aumento de
quase 22 por cento. Contudo, o crescimento foi conduzido em
grande medida pela entrada das mulheres no mundo do traba-
lho. Se os rendimentos tivessem acompanhado o crescimento
económico como sucedia anteriormente a 1973 o rendi-
-
meÍrto da famflta média amettcafla excederia hoje claramente os
-
90 000 dólares, mais 50 por cento do que os 61 000 que rcal-
mente ganhar2.
O grâfico 2.7. mostra a rrlação entre a produtividade* (qo"
mede o valor dos bens e serviços produzidos por hora de traba-
lho) e a remunenção (qo. inclui salários e outros beneficios) pa-
ga aos trabalhadores comuÍls do setor privado desde 1948 até
aos nossos dias. O primeiro segmenro do grâfico (de 1948 a
1973) mostra como os economisas esperam que as coisas funcio-
nem. O crescimento da produtividade acompanha perfeitamente
a remunençáo. A prosperidade sobe e é largamente partilhada
por todos aqueles que contribuem par:l a economia. Desde mea-
dos dos anos 70, o cÍescente intervalo entre as duas linhas é uma
ilustração clara de como os fnrtos da inovação em toda a econo-
mia estão Lgotà a acumular-se quase inteiramente do lado dos
empresários e investidores e jânão dos trabalhadores.
Apesar da clareza deste grâfico, muitos economistas ainda
não reconheceram completamente a üvergência entre cresci-
mento dos salários e da produtividade. O grâfrco 2.2. confronta

* A produtividade mede o valor da produção (anto de bens como de sewiços) dos


trabalhadores por hora. É om indicadot de importância fundamental da efrcâcia geral
da economia; de fotma significativa, detemrina a liqueza de um país. Os países indus-
ttializados e desenvolvidos apresentam elevada produtiüdade porque os seus trabalha-
dores têm acesso a melhor tecnologia, usufruem de melhor alimenação bem como de
ambieotes mais seguros e saudáveis, e têm çralmente melhor formação e prepamção.
Os países pobres caÍecem destes aspetos e, poranto, são menos produtivos; os seus
cidadãos têm de trabalhar mais duramente e durante mais tempo para conseguirem os
mesmos níveis de produtividade.

62
Gráfico 2.1. Crescimento da remunençáo horária rcal para
uabalhadofes da produção sem funções de supervisão rrersus
produtividade (1948-2011)

§
o\
roo

Produtividade * ?54,3 o/o


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(.)
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o
q
o
.(!
(.),

o
rI]

FoNru: Lawtence Mishel, Economic Policy Instituter com base em


análise de dados da economia total não pubücados do Bureau of Labor
Statistics, do ptograma Labot Productivity and Costs e dos telatórios
públicos das National Income and Ptoduct Accounts do Bureau of
Econornic Analysisl3.

as tâxâs de crescimento da produtividade e da remuneração em


cada década desde 1980.A diferença ê especialmente aceffirada
de 2000 a 2009; embora o crescimento da produtividade quase
iguale o do período de 7947-1973 aidade de ouro da prospe-
ridade do pós-gueÍta,
-
a remuneração fica bastante trás.
- Par:.a
É aificit olhar paraeste gráfico e náo frcar com a impressão de
que o crescimento da produtividade está muito claramente a ul-
üaPassaÍ os aumentos que os trabalhadores estão a receber.
Os autores de grande P^fte dos manuais universiúrios so-
bre economia fotam especialmente lentos a compreender este
quadro. Consideremos, por exemplo, Prino?ht of Econonics, am

63
Gráfico 2.2. Ctescimento da produtividade yersus
crescimento da remuneração

Evolução
da percent4çm
média anual
I Ptodutividade §Remunera$o horátia real
3
\8
4s
2,5

4t
2

tl 1,s

1,1 1,1
1 0B

1947-1973 t973-1979 1979-1990 1990-2000 20[[.-2íüu9..

FoNrn: Bureau of Labor Statistics, EUA14.

manual de introdução da autoria de John B. Taylor e Akila §7ee-


t^panerrs, a obra exigida p^r^ â popular classe de introdução à
economia do doutor Taylot o Universidade de Stanford. Inclui
um gráfico de barras muito semelhante ao do gráfico 2.2., mas
continua a sustentur ulrirà estreita rrJraçáo entre salários e produ-
tividade. Então o que üzer do facto de, desde os anos 80, a pro-
dutividade se afastar dos salários? Taylor e §Teerapana obsenram
O que parece ser uma espécie de
que «a rrJraçáo não é perfeitar».
eufemismo. A edição de 2007 de um outro manual, ambém in-
titulado Pinciples of Econoruicl6 e com coautoria do professor de
Princeton e presidente da Reserva Federal Ben Bernanke, sugere
que o lento crescimento dos salários desde 2000 pode ter resul-
ado do «fraco mercado de trabalho que se seguiu à recessão de
2001;> e que os salários deverão «<alcançx o crescimento da pro-
dutividade conforme o mercado de trabalho regressar à normali-
dade» perspetiva que parece ignorar que a estreita correlação
-
64
entfe o crescimento dos salários e da produtividade começou a
deteriorar-se muito anos antes de os nossos atuais estudantes
universitários terem nascido*.

[Jm ruercado ern baixa para a quota-parte do traballto e uru mercado

fulgurante para as empresas

Bem no início do século xx, o economista e estatístico bri-


tânico Arthur Bowley pesquisou décadas de dados sobre o Pfo-
duto nacional no Reino Unido e mostrou que a fuaçáo do pro-
duto nacional que ia respetivamente Pàre. o trabalho e Pàt^ o
capltal perÍnanecefl relativamente constante, pelo menos duran-
te longos períodos. Esta relação aParentemente ftxa acabou pof
ser aceite como o pfindPlo económico conhecido como ««Lei de
Bowlep». John Maynard Keynes, talvez o mais famoso econo-
mista de sempre, diria mais tarde que a Lei de Bowley efa «um
dos factos mais surpreendentes, embora mais bem estabelecidos,
em toda L gum de estatísticas económicas>»l7.

* Há também uma questão técnica que se apresena quando se discute o intervalo en-
tre crescimento de produtividade e crescimento de salátios. Tanto os números relati-
vos a salários (ou, mais abrangentemente, à remuneração) como à ptodutividade de-
vem ser aiustados pela inflação. O método-padrão p^ra o fazermos e que é o usado
pelo Bureau of Labor Statistics dos EUA é usarem-se duas diferentes meüdas da in-
?lação. Os salários são ajusados com recurso ao Índice de Preços no Consumidor
(IPC) porque reflete os preços dos produtos e serviços em que os trabalhadores de
facto gastam o seu diúeiro. Os números da produtividade são afustados usando o
deflator do PIB (ou deflator de preços implícitQ, que é uma medida mais abrangente
da inflação em toda a economia. Por outras palavras, o deflator do PIB incorpora
preços de um coniunto de coisas que os consumidores na verdade não compram.
Uma diferença especialmente imporante é que os compuadores e a tecnologia da in-
formação que assistfuam â umâ subsancial deflação dos seus Preços deüdo à ki
de Moore - são múto mais imporantes no deflator do PIB do que no IPC (os
compuadores - não constituem uma parte significativa nos orçâmentos da maior parte
das famílias, mâs são maciçamente comprados pelas empresas). Algu.ns economistas
especialmente os mais conservadores defendem que o deflator do PIB devia
-
-ser simritaneamente usado para salfuios e produtividade. Quando este método é usado,
o intervalo entre o crescimento dos salários e o crescimento da produtividade estreita-
-se significativamente. Contudo, esta abordagem quase de cefteza que atenua o nível
de inflação que tem impacte iunto dos que recebem salários.

65
Gráfico 2.3. Quota-parte do rabalho no PIB (1947-2014)

65

58o/o

tt
1960 rttl
1980 1990
I
19í) t970 2000 2010

FoNrn: Bureau of Labor Statistics e Banco da Reserva Federal de St.


Louis (FRED)l8.

Tal como mostra o gráfico 2.3., durante o período do pós-


-gueffa, a quota-parte do produto interno americano desti nada
ao trabalho evoluiu dentro de uma gaml relativamente apenada,
tal como previa ar.rci de Bowlep Porém, desde meados dos anos
70, a Lei de Bowley começou a desmoronar-se à medida que a
quota-parte do trabalho começou por, primeiro, entrar numa
queda gradual, p^ta depois se precipitâr numa aparente queda li-
vre, após a viragem do século. A queda é tanto mais notável
quando consideramos que a quota-parte do trabalho inclui qual-
quef pessoa que levanta o valor de um cheque. Por outras pala-
vras, os enorÍnes salários dos presidentes das comissões executi-
vas, dos executivos de §7a11 Street, dos superatletas e estrelas de
cinema são considerados trabalho, e estes, claro está, não têm
descido nadaz dispararam que nem foguetões. um gráfico que
mostrasse a quota-parte do produto nacional que coube aos tra-
balhadores comuns ou, mais abrangentemente, à base de 99
-
Pof cento da distribuição do produto mostraria certamente
um decréscimo ainda mais evidente. -
66
Enquanto a comparticipação do trabalho no rendimento
caiu a pique, patl os lucros das grandes empresas a históna foi
muito diferente. Em abril de 2072, o lYall StreetJournal publicou
um artigo intitulado ««For Big Companies, Life is Good»» «.4 lri-
da éboa par:. as grandes comPanhias») que documentav^ L Ls-
sombrosa velocidade com que as grandes emPresas fecupefàtafn
das mais sevefas crises económicas desde a Grande Depressão.
Enquanto milhões de trabalhadofes perÍnanecefam desemprega-
dos ou aceitatam emPregos mal remunerados ou com poucâs
horas de trabalho, o setof emPresarial emergiu da recessão ««mais
produtivo, mais renúvel, rico em dinheiro e com menor peso de
dívid»»le. Ao longo da Grande Recessão, as grandes empresas
haviam mostrado a tendência de produzir mais com menos tra-
balhadores. Em 201,7, as grandes emPresas geraram trma média
de 420 000 dólares de rcceita por cada empregado, aumento su-
perior a 71 por cento relativamente t 2007, com um valor de
378 000 dó1ares20. Ao investirem em novas fábricas e equipa-
mento, incluindo tecnologias de informaçáo, pelo índice S&P

Gráfico 2.4. Luctos das emPÍesas em percentagem do PIB


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1 U
§ o,o3
1950 1955 1985
E
As áreas sombreadas ÍePÍesentam recessões nos EUA

FoNrs: Banco da Reserya Federal de St. Louis (FRED)21.

67
500 as empresas duplic Lraim os seus ganhos relativamente ao
ano anterior, voltando a posicio tralt o investimento de capital co-
mo trma pefcentagem das receitas nos níveis anteriores à crise.
Os lucros das empresas em percent4gem da economia total
eIB) também dispararam após a Grande Recessão (ver grâfrco
2.4). Repare-se que apesar da abnrpta queda nos lucros durante
a crise económica de 2008-2009, a velocidade a que esses lucros
recuperattm náo tem nenhum precedente quando companda
com recessões anteriores.
 diminuição da comparticipação do trabalho no PIB não
está de forma alguma limitada aos Estados Unidos.
Num estudo
de iunho de 207322, os economistas Loukas Kanbarbounis e
Brente Neiman, ambos da Booú School of Business da Univer-
sidade de Chicago, analisaram os dados de cinqu entà e seis paí-
ses diferentes e verific atam quetrinta e oito apresent avum uma
queda significativa na comparticipação do trabalho. De facto, a
pesquisa dos autores mostrava que Japão, Canadá,, França, Itâ)ia,
Âlemanha e China tinham quedas mais acentuadas do que os
Estados Unidos num período de dez anos. A queda da quota-
-parte ptr^ o trabalho na China o país que muitos de nós pre-
-
sumimos estar a absorver todo o uabalho foi especialmente
-
abrupta, tendo caído o equivalente a três vezes L tax dos Esta-
dos Unidos.
Karabarbounis e Neiman concluíram que estas quedas glo-
bais na quota-parte do trabalho resultavam de «ganhos de eftcâ-
cia em setores geradores de capital, frequentemente atribúdos
âos progressos na tecnologra da informaçáo e à en dos compu-
tadores»»23. os autores também observaram que uma quota-parte
estável do trabalho na ttqueza. nacional continuava a ser («rmâ
catactetistica fundamental dos modelos macroeconómicos»»2a.
Por outras palavras, apesar de os economistas aparentarem não
ter assimilado compleamente as impücações da diverçncia en-
tre crescimento de produtividade e de salários de cerca de 1973,

68
continuam apaÍentemente de bom grado a integrar al*ide Bowley
nas equações que utilizamparra modelar a economia.

gnrdn daparticipação naforça de trabalbo

Uma tendência à pane foi a queda da participaçío na força'


de uabalho. No rescaldo da crise económica de 2008-2009, foi
muitas vezes frequente a tax^ de desemprego catt, não por estar
a ser criado um grande número de novos emPregos, mas Porque
os trabalhadores desanimados abandonavam o mercado de tra-
balho. Ao contrário da taxa de desemprego, que considera ape-
nas as Pessoas que se eÍlcontram ativamente à proctúa de em-
prego, a particrp açío na Íorça de trabalho oferece uma imagem
clara dos trabalhadores que desisúam.
Como o grâfrco 2.5. mostÍà, taxa de participaçáo na forçt
^
de trabalho subiu drasticamente entfe 7970 e 1990 à medida que
as mulheres inundaram esse mercado. A tendência geral disfarça
o facto firndamenAl de que a Pefcentagem de homens no mercado

Gráfico 2.S.Taxa de particrpaçáo na fotça de trabalho

68

67

(fi

65

é(Á
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6l

60

59

rsso rsss 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 m5
58
m70

FoNrB: Bureau of Labor Statistics e Banco da Reserva Fedetal de St.


Louis (FRED)25.

69
de trabalho tem estado em queda coÍrstaÍrte desde 1950, caindo
de um pico de 86 por cento púr. 70 por cento até 2073. A tara de
panicipaçào para as mulheres ati4giu um pico de 60 por cento no
ano 2000; a taxa de participaçáo geral no mercado de trabalho atin-
giu cerca de 67 por cento naquele mesmo atto26.
A particrpaçáo na força de uabalho tem vindo a cak desde
então e embora isto se deva em parte à reforma da genção ba@
boon, e noutra parte to facto de os ttabalhadores mais jovens
Procurarem ter mais formaçáo, estas tendências demográficas
não expüc m completamente a queda. A taxa de participaçáo na
força de trabalho para os adultos com idades entre os vinte e
cinco e os cinquenta e quatro ânos os que têm idade suficien-
-
te pura, ter completado o ensino médio ou universitário, mas que
são demasiado jovens patr. se reformarem caiu de quase 84,5
-
por cento em 2000 p^ta 81 por cento em 201,3n . Por ourras pala-
vras, tânto taxe- geral de participação na Íorça de trabalho como
^
L tax^ de panicipação parz. adultos em idade atva cakam cerca de
três pontos percentuais desde 2000 e cetc de metade desta
-
queda deu-se aÍrtes do início da crise financeira de 2008.
A queda de participação na íorça de trabalho foi acompa-
nhada por uma explosão nas inscrições no programà de inca-
pacidade da Segurança Social, cuio objetivo era providenciar
uma rede de seguranç parr. trabalhadores que tivessem sofrido
lesões incapacitantes. Entre 2000 e 2071, o número de inscri-
çôes mais que duplicou, de cerca de 1,2 milhões para quase 3
milhões por ano28. Como nào hâ indícios de qualquer epidemia
de lesões de trabalho que tivesse começado sensivelmente na
pass4gem do século, muitos analistas suspeitam que o programa
de incapacidade estâ a ser erradamente usado como uma espécie
de programa de seguro de último rectrrso contra o desemprego,
mas no entânto perÍnanente. Perante este panorama, parece claro
que algo mais além da simples demografia ou dos fatores econó-
micos cíclicos estâ a afastar as pessoas da força de trabalho.

70
DininuQão da geração de errprego, prolongaruento das recuperações o?,ít

deumprego e subida do dlunrprego d.e longa duração

Ao longo do último meio século, a economia americana


tomou-se progressivamente meno s eftcaz rL^ geração de novos
empregos. Só nos anos 90 foi possível muito dificilmente
- -
manter o crescimento do emprego da década anterior, e tal foi
largamente devido à explosão tecnológ1ca que ocorreu na segun-
da meade da década. A recessão que começou em dezembro de
2007 e a crise financeira subsequente fotam um desastre com-
pleto a gençáo de emprego na primeira década do anral sé-
parz.
culo, a qual viria a terminar com o mesmo número de empregos
que existiam em dezembro de 1999. Contudo, mesmo antes do
impacte da Grande Recessáo, a primeira década do século iá es-
tàvr. destinada, a ptodt:r:ir, de longe, a pior Percenagem de cres-
cimento do emprego desde a Segunda Guerra Mundial.

Gráfico 2.6. Getação de emprego nos EUA por década

o/o
30

o/o
20

70%

(rer")

Ânos 1960 Ânos 1970 Anos 1980 Ânos 1990 Ânos 200G Anos 2000
-Nt

FoNrs: Bureau of Labor Statistics e Banco da Reserva Federal de St.


Louis (FRED)2e.

7t
Como mostra o gráfico 2.6., o número de postos de traba-
lho na economia atrrnentata àperLas cerca de 5,8 por cento atê fr-
nais de 2007 . A divisão daquele número por toda a dêcada suge-
re que, se a crise económica náo tivesse ocorrido, os anos 2000
teriam provavelmente terminado com uma taxa de geração de
emprego de sensivelmente 8 por cento menos de metade da
percentagem
-
de aumento verificada nos anos 80 e 90.
Este péssimo desempenho na gençáo de emprego é espe-
cialmente preocupante à bz do facto de a economia precisar de
getar grande número de novos empregos eÍrtre 75 000 e
150 000 por ano, conforme os pressupostos
- apen^s pffa.
-
acompanhar o crescimento da populaçáo30. Mesmo quando se
usa a estimativa mais baixa, a primein década do nosso século
continua a dat como resulado um défice de cerca de 9 milhões
de empregos ao longo do período.
A clara evidência dos factos mostra também que quando
uma recessão produz o seu impacte na economia, a fecupeoçáo
do mercado de trabalho demora cada vez mais tempo . I-Jttrt
temporários deram lqg a recuperaçôes de desemprego. Um es-
tudo de 2010 da Reserva Federal de Cleveland apurou que as re-
cessões mais recentes assistiram a uma importante reduçáo na
taxa de trabalhadores desempregados que conseguem encoflüat
novos empregos. Por outras palavras, o problema nào é a des-
truição de mais postos de trabalho em períodos de recessão, mas
sim, durante as recuperações, estarem à getut-se menos empre-
gos. Depois do início da Grande Recessão em dezembro de
2007 , a taxa de desemprego continuou a aumentar durante qua-
se dois aÍros, acabando por subir cinco pontos percentuais e
atingu um pico de 10,1 por cento. A análise da Reserva Federal
de Cleveland apurou que a dificuldade acrescida com que foram
confrontados os trabalhadores à procura de novos empregos
justificava mais de 95 por cento na subida de 5 por cento da taxa
de desemprego3l. Em contrapartida, isto produziu um enorme

72
salto na taxa de desemprego de longa duração, que atingiu o seu
pico em 2010, quando de 45 Pof cento dos trabalhadores
cer:ca.

desempregados estavam sern trabalho há mais de seis meses32.


O grâfrco 2.7. mostra o número de meses que foram necessários
pal;a o metcado de trabalho fecuPefaf das recessões mais fecen-
tes. A Grande Recessão resultou ntrma monstfuosâ retoma com
desemprego; foi preciso esPefaf até maro de 2074 5si5 anos e
-
o emPfego voltar aos ní-
meio após o início da recessão
veis anteriores à crise.
- Par:a

O desempfego prolongado é um problema debilitante.


Com o tempo as aPtidões de trabalho diminuem; aumenta o tisco
de os trabalhadores se sentirem desencoraiados e muias entida-
des patronais patecem discriminar ativamente os desempregados
de longa duração e chegam até frequentemente a nío considerar
os seus currículos. Na verdade, uma experiência de campo reali-
zada por Rand Ghayad, doutorando em economia da Univer-
sidade Northeastefn, revelou que um desempregado de curto

Gtáfico 2.7. Recessões nos EUl|; númeto de meses Pafa a


fecupefação do empfego (medidos do início da recessão)

80

60

20

197+ 1981- 1990-


Nl Nt-
-1975 -1982 -1991 -20n9

FoNre: Buteau of Labor Statistics e Banco da Resera Fedetal de St.


Louis (FRED)33.

73
ptaizo, candidato sem experiência na indúsuia, tinha mais proba-
bilidades de ser chamado parr umâ entrevista de emprego do
que alguém com experiência direta comprovada que estivesse há
mais de seis meses no desemprego3a. Um outro relatório do Ur-
ban Institute apurou que os desempregados de longa duração
não são significativamente diferentes dos outros trabalhadores e
sugefe que passar a fazer parte dos desempregados de longa du-
tação e sofrer o estigma dessa categoia- pode ser em grafl-
-
de meüda uma questão de azafs. se porventura perder o seu
emprego numa ocasião especialmente desfavorável e depois não
conseguir encontrar um novo posto de trabalho ântes da temível
marc^ dos seis meses (possibilidade bem real quando a ecoÍro-
mia se encontra em queda livre), doravante as suas perspetivas
diminuem de forma drástica independentemente das suas
qualifi caçôes pro fi s sionais. -

Duigualdade crescente

A divisão entre os ricos e todos os outros tem vindo a crescer


sem intemrpção desde os anos 70. Entre 7993 e 2010,mais de me-
tade do aumento do PIB americano foi pala famflias que represen-
am 1 por cento da concentração da iquezú6. Desde então, as coi-
sas só pioraram. Numa arráüse publicada em setembro de 2013, o
economista Emmanuel Saez da Universidade da Catrfórnia, em
Berkelen descobriu que uns assombrosos 95 por cento do toal de
ganhos internos durante os aÍros 2009 a 2012 foram absorvidos
por 1 poÍ cento dos mais ricos37. Mesmo depois de o movimento
occupy §r/a[ Street ter desparecido de cena, os factos mostram
bastante claramente que a desigualdade de dqueza, flos Estados
Unidos não é apenas ala pode perfeiamente estaÍ a aceletar.
-
Embora a desigualdade tenha vindo a aumentar em quase
todos os países industriali-ados, os Estados Unidos continu am à
ser um caso extremo. De acordo com a anáüse da CIÂ, a desi-
gualdade de rj.qaeza na Améúca estâ sensivelmente p^t com
^
74
a das Filipinas e excede significativamente as do Egito, Iémen e
Tunísia38. Outros estudos apurâram também que a mobüdade
económica, um índice da probabilidade de os filhos dos pobres
conseguitem subir na escala da riqreza, é significativamente
mais baixa nos Estados Unidos do que em praticamente todos
os países europeus. Por outras palavras, uma das ideias funda-
mentais mais infiltrad à nta. éaca americafla a convicção de
-
qualquer um pode triunfar pelo uabalho árduo e pela perseve-
ta,;lç realmente pouca expressão na realidade estatística.
-,têÍr
Numa perspetiva meÍamente individuâI, a desigualdade pode
ser muito dificil de entender. Muias Pessoas tendem a frv,x a sua
atençáo localmente. Preocupam-se se estão t tet mais sucesso do
que o vizinho do lado do que em compançáo com o gestor de
fundos de risco 9ue, mais do que ptovavelmente, nunca irão co-
nhecer. Os esnrdos revelam que muitos amedcanos subestimam a
verdadeira extensão da desigualdade e quando lhes pedem Para es-
colher um sistema nacional de distribuição de riqueza" fazem uma
escolha gu€, no mundo real, só existe nas social-democracias es-
candinavas3h.
Todavia, a desigualdade tem implicações reais que vão muito
além da simples frustração da nossa incapacidade de nos maÍrtef-
mos à pN com os Ílossos vizinhos. Ântes de mais esta a circr.rns-
tÀflita de o tremendo sucesso daqueles que estão no toPo ü prà-
mide estaÍ aparentemente telacionado com a diminuição de
petspetivas Para quase todos os outros. O antigo adágio de que ««a
mar;é alta faz subir todos os barcos» esgota-se quando não se co-
nhece uma subida significativa desde a administração Nixon.
Há também o risco óbvio da manipulação política Pela eüte
financeira. Nos Estados Unidos, em maior grau do que em qual-
quef outra democracit avançada, a politca é quase intefuamente

* Trata-se de uma verdade independente dos partidos políticos. Num estudo conduzi-
do por Dan Add da Universidade de Duke, mais de 90 pot cento dos tepubücanos
e 93 por cento dos democaas preferem uma distribuição de iqueza semelhante à da
Suécia do que a dos Esados Unidos.

75
conduzida pelo dinheiro. Os indivíduos abastados e as otgafl:r;à-
ções por eles dominadas podem moldar a política governameÍr-
tal por meio de donativos políticos e de lóbis, produzindo com
frequência desfechos que estão claramente em desacordo com o
que a população de facto quer. À medida que aqueles que estão
no topo da distribuição da riqueza se tornarem progressivamen-
te desvinculados vivendo numa espécie de bolha que os isola
-
quase por completo das realidades que o comum dos ametica-
nos enfrenta existe um risco real de não quererem investir
-,
em bens e infraestruturas públicas de que todos os outros de-
pendem.
As fornrnas crescentes dos que ocupam o ponto mais alto
da pirâmide acabaráo por representar uma arrreaç ptra a gover-
nação democráttca. Contudo, o problema mais imediato p^t^
muitas das pessoas da classe média e trabalhadon é as oportuni-
dades de trabalho estaÍem globalmente a deteriorar-se.

Rcndiruentos en queda e suberrprego para os recém-licenciados

um curso universitário de quatro anos passou a sef quase


geralmente encarado como a credencial essencial patr. eflüat tL
classe média. De 2012 em diante, média dos sdários horários
^
dos ücenciados universitários passou â ser 80 por cento superior
à daqueles que completam apenas o ensino secundário40. A vân-
tagem salarial dos licenciados é um reflexo daquilo a que os
economistas chamam <<s ki ll bi ased te clt no logi cal clt ango» (SBTC),| .

* A SBTC (mudança tecnológica que favorece a competência) e a oferta de vantaçns


salariais ofetecem uma explicaçáo paraal para o aumento da desigualdade dos rendi-
mentos. Contudo, uma vez que qtuse um terço dos adultos da populaçío ameicana
tem um curso universi!ário, se isto fosse o único fatot t considerat, implicaria uma
fonna de desigualdade muito mais insignificante do que a que na realidade existe.
O vetdadeiro motivo esú no topo e quanto mais alto se chega, mais as coisas se
-
nücahzarn As incomensuráveis fornrnas dos mais ricos que constituem 1 por cento
da população não podem ser seÍrsatamente auibúdas à melhor formação académica
ou ptofissional.

76
 ideia geral por tÍás da SBTC é que a tecnologia da informação
aatomaízou ou reduziu as competências necessáriàs Para muitas
das tarefas desempenhadas por *abalhadores menos qualifica-
dos, âo mesmo tempo que aumentou o valor relativo das tarefas
cognitivamente mais complexas, claramente desempenhadas por
ücenciado s univetsitários.
Os cursos universitários e profissionais proporcionam ren-
dimentos ainda mais elevados e, de facto, desde a Passagem do
século, as coisas PaÍecem bastante menos auspiciosas Para os io-
veÍrs licenciados que não possuem um grau mais avançado. De
acordo com uma análise, os rendimentos p^t^ os iovens traba-
lhadotes sem formação universitária cakam mais de 15 por cen-
to entre 2000 e 2070, e essa queda começou muito antes do iní-
cio da crise financeira de 2008.
Os recém-licenciados também estão desempregados. Em
ceftos casos, metade dos licenciados não consegue eÍrcontfaf
empregos adequados à sua formaçio e que ofereçam acesso ao
primeiro degrau fundamental na escada da canetra. Muitos des-
tes desafornrnados licenciados aca;barío Pof ter muita üficulda-
de em conseguir ascender a Aaietírias sólidas da classe média.
É certo que os licenciados, em média, têm mantido as stras
vantagens salariais relativamente aos trabalhadores que Possuem
apenas o ensino secundário, mas isto explica-se em grande me-
dida pof as perspetivas Para estes trabalhadofes com menos for-
maçáo terem passado a sef francamente sombrias. Em iulho de
2073, menos de metade dos trabalhadofes americânos com ida-
des entre os vinte e os vinte e quatfo anos e não matriculados
em escolas tinham trabalhos a temPo inteiro. Entre os estudan-
tes com idades entre os dezasseis e os dezanove aÍros, apenas 15
por cento ttabalhava a tempo inteiroal. O retorno sobre o inves-
timento par:à trm cufso universitário pode estaf à caÍr, mas ainda
consegue bater a altemaíva.

77
Polariryção e enpregos a tenrpo parcial

Um outro problema é os empregos que são gerados duran-


te as recuperações económicas serem geralmente piores do que
os destruídos pela recessão. Num estudo de 2012, os ecoÍlomis-
as Nir Jaimovich e Henry E. Siu analisaram dados sobre as re-
centes recessões americanas e descobritam que os empregos
com mais probabilidades de desaparecerem permanentemente
são os bons empregos da classe média, enquanto os empregos
que tendem a ser criados durante as recuperações estão latga-
mente concenürados nos setores de baixos salários, como o co-
mércio retalhista, indústria hospitalar, prcparz,ção de comida e, a
um nível mais restrito, nas profissões altamente qualificadas que
exigem extensa preparação42. No decurso da retoma que come-
çou em 2009, esta situaçáo foi especialmente observávela3.
Muitos destes trabalhos de baixa remunençáo são ambém
de tempo parcial. Entre o início da Grande Recessão em dezem-
bro de 2007 e agosto de 2073, cetcr. de 5 milhões de empregos
a tempo inteiro vaporizaram-se, mas o número de empregos â
tempo parcial aumentou de facto aproximadamente em 3 mi-
lhões#. Este aumento dos empregos a tempo parciaTocorreu in-
teiramente entre os trabalhadores que vimm cortadas as suas ho-
ras de trabalho ou que gostariam de ter um emprego a tempo
intefuo mas não conseguiam encontrá-lo.
À propensão pxaa economia destnrir empregos sólidos de
qualificação intermédia e de classe média e depois substituí-los
por uma combinação de arefas de serviços de baixa remuneração
com empregos altamente qualificados, que não estão geralmente
ao alcance da maior parte da mão de obra, tem-se chamado (go-
larizaçáo do mercado de trabalho». A polanzação ocupacional
resultou num mercado de trabalho com a fotma de uma ampu-
lheta em que os rabalhadores que não conseguem ser admitidos
nnm dos empregos desejáveis no topo acaba;ortna base.

78
Este fenómeno da polanzação tem sido estudado em pro-
fundidade por David Autor, economista no MIT. Num estudo
publicado em 2010, Autor identifica quatro categorias ocupacio-
nais específicas de gama média que foram especialmente atingidas
conforme a polaiaação se desenvolveu: vendas, escritórios/admi-
nistrativos, produção, ofici os f rcpanções e telefonistas/constru-
ção/operários. Nos trina anos entre 1,979 e 2009, a percentagem
da mão de obra americana empre gada Írestas quatro áreas co-
nheceu uma diminuição de 57,3 p^t^ 45,7 por cento e houve
umâ acelençáo sensível t:ra taxà de destnrição de empregos entre
2007 e 20094s. O estudo de Autot também evidencia que a pola-
nzaçáo não está limitada aos Estados Unidos, mas tem sido do-
cumentada em mútas das economias industrializadas e Lvuttçà-
das; especidmente, 16 países da União Europeia assistiram a um
significativo declínio nâ percentagem de mão de obra envolvida
em trabalhos de gama média nos treze anos decorridos entre
1993 e 20066.
Autor concluiu que as principais forças motrizes por trás
da polairzação do mercado de trabdho são ««a L'otomaazação do
trabalho de rotina e, nruna escala inferior, a tÍfiegração interraà-
cional dos mercados de trabalho por via do comércio e, mais re-
centemente, da deslocali zação>>47. No seu mais recente estudo
pubücado que mostra as relações entre a polanzaçáo e âs recu-
perações após períodos de desemprego, Jaimovich e Siu salien-
tam que 92 por cento dos empregos destnrídos em atividades de
guma média ocoÍreram no espaço de um ano de uma recessãoa8.
Por outras palavtàs, polariztção não é necessariamente algo
a.

que aconteça de acordo com um grande plano, nem tão-pouco é


uma evolução gradual e contínua. Pelo contrário, é um processo
orgânico que está profundamente intedigado com o ciclo de ne-
gócio; os trabalhos de rotina são eliminados por nzões econó-
micas durante uma recessão, mas depois as orgafinações desco-
brem que a tecnologia da informação em constante progresso

79
lhes permite operar com sucesso sem voltarem a conttltar os
trabalhadotes quando retom^ se inicia. Chrystia Freeland, da
^
Reuters, define-o de um modo especialmente adequado quando
diz que <ra, rí da classe média não esú a ser gradualmente fervida;
estâ a ser periodicamente grelhada e a muito alta temp eraix»>4e.

Uua NARRÂTrvA DA TECNoLocTA

É b"rt nte fâctlconstnrir uma rraÍrat:rvahipotética que sinra


a tecnologi^- e a resultante automatizaçío do trabalho de roti-
Írà no centro da explicação destas sete tendências económi-
-
cas mortíferas. A idade de ouro de 1947 a 1973 caracterizou-se
por um significativo progresso tecnológico e por um forte cres-
cimento da produtividade. Isto sucedeu antes da era da tecnolo-
g^ ü informação; as inovações durante este período ocorreram
primeiramente em âteas como a mecânic , a qúmica e a enge-
nhatia aeroespacial. Pensemos, por exemplo, como os aviões
evoluíram desde a utihzação de motores de combustão interna
que propulsavam os hélices para os motores a iato, múto mais
fiáveis e com melhores desempenhos. Este pedodo exemplifi-
cou o que se escreveu em todos os manuais de economia: inova-
ção e produtividade crescente tornaram os trabalhadores mais
valiosos e permitiu-lhes e*igir salários mais altos.
-
Nos anos 70, a economia recebeu um choque importante
corn a crise do petróleo e entrou num período sem precedentes
de desemprego elevado combinado com inflação alta. Aprodu-
tividade caiu drasticamente. A taxa de inovação também estabili-
zou enquanto o contínuo progresso tecnológico em muitas áreas
se tomava mais difícil. Os aviôes a jato mudaram pouco. Tanto
a Apple como a Mcrosoft foram fundadas neste período, mas o
total impacte da tecnologra da informação ainda estava bem lon-
ge no futuro.

80
Os anos 80 assistiram a um âumento da inovaçáo, mas
mais focada no setor da tecnologia da informação. Este tipo de
inovação teve um imp Lcte diferente nos trabalhadores; Pàt^
aqueles com o coniunto aProPriado de competências, os com-
putadores aumentaÍàm o seu valor, tal como as inovações tr et^
pós-guerca frzeram com praticamente toda a gente. Contudo,
puta muitos outros fabalhadoÍes os comPutadores tiveram um
efeito muito menos positivo. Âlguns tipos de trabalho ou come-
çàt;um a sef inteiramente destnrídos ou a exigir menos qualifica-
ções, desvalorizando os trabalhadores pelo menos até estes
-
tefem sido càparzes de se reciclar par:l funções que aproveitaYatrr
a tecnologia de computadofes. À medida que a tecnologia da in-
formaçáo ganhava importância, a comParticipação do trabalho
na riquezà começou gradualmente a decair. Os aviões aiato
continuaf^m à não aptesentaf grandes moüÍicações desde os
anos 70, mas usavam cadavez mais os computadores na sua ins-
trumentação e comandos de bordo.
Os anos 90 viram a inovaçío da tecnologia da informação
aceletztl. ainda mais, e a Internet levantou voo na segund^ meta-
de da década. As tendências iniciadas Íros anos 80 prosseguiram,
mas a década também assistiu à bolha da tecnologia e à cnaçáo
de milhões de novos emPregos, especialmente no setof da tecno-
logia da informação. Eram os bons emPregos que com frequência
envolviam a gestão de computadores e redes que rapidamente se
estavam totrlart indispensáveis P^tà os negócios de todas as
^
dimensões. Como resultado, os salários tiveram melhor enqua-
dramento Íreste período, mas ainda caitm bem abaixo do cresci-
mento da produtividade. Â inovação concentou-se ainda mais na
tecnologia da informação. A recessão de 1990-1991 foi seguida
pof uma fetoma com desemprego, conforme os ttabalhadores,
muitos dos quais tinham perdido emPfegos de gama mêdia,luta-
vam pof conseguir novas posições. O metcado de trabalho come-
çou pouco â pouco a frcar mais polanzado. Os aüões a iato ainda
eram essencialmente idênticos aos modelos dos anos 70; conArdo,
àgotr. tinham sistemas íb U wire, nos quais os computadores

81
movimentavam as superfícies de comando de voo em resposta
aos comandos do piloto, bem como cada vez mais a:utomaaz}-
ção de voo.
Nos anos que se seguiram a 2000, a tecnologia da informa-
ção continuou a sua aceleração e a produtividade cresceu con-
forme os negócios melhoravam com o total aproveitamento de
todas as modernas inovações. Muitos dos bons empregos cria-
dos nos anos 90 come çatam a desaparecer quando as grandes
empresas automuüzartatrt ou deslocahzatam ceftos trabalhos, ou
começafam a extefnthzat o§ seus departamentos de tecnologia
da informação p^t^ serviços de computação centraltzados na
nuvem. Em toda a economia, os computadores e máquinas estâ-
vam cada vez mais a substituir uabalhadores em vez de os tor-
nar mais valiosos, e os aumentos de salários ftcatam abaixo do
crescimento da produtividade. Tânto a comparticipação do pro-
duto interno destinada Lo trabalho como taxr. de participaçáo
^
no mercado de trabalho caftam de forma acenttada.
o mercado de trabalho continuou a polarj,zar-se e a retoma
com desemprego tornou-se a norma. os aviões a iato ainda usa-
vam os mesmos modelos básicos e sistemas de propulsão dos
anos 70, mas a simulação e o desenho assistido por computador
(CAD) tinham resultado em muitos aperfeiçoâmentos em âreas
como a eficiência combustível. Â tecnologia da inform ação in-
corporada nos aviões tornou-se ainda mais sofisticada e foi
inclúda como rotina na automanzaçáo do voo completo, que
permitia que os aviôes pudessem descolar, voaÍ pal:. um destino
e depois Ltetrart tudo sem intervenção humana.
-
or4- pode com toda anzão contestâÍ-se esta história como
demasiado simpüstl- ou talvez até compleamente errada. Afi-
nal, não foi na realidade a globalizaçáo, ou talvez a Re4ganomics,
que nos conduziu a todos os nossos problemas? Com o iá, refen,
esta narr.aü,va era hipotética: uma história simples para aiadar a
clanficar o debate sobre a importância da tecnologia nestas sete
tendências económicas documenadas. Cada uma desas tendên-
cias foi estudada por equipas de economistas e outros técnicos

82
que procuraram descobrir as suâs causas subjacentes, e a tecnolo-
gla tem sido frequentemente implicada como um fator contributi-
vo, quândo não decisivo. Contudo, é quando as sete tendências
são consideradas Íro seu conjunto que o aÍgumento Pxa o avanço
da tecnologia da informação como força económica disnrptiva é
mais irresistível.
Além do avanço da tecnologia da informaÇío, há três ou-
tras possibilidades primárias que podem possivelmente ter con-
uibuído púa todas, ou pelo rnenos P^ta muitas, das nossas sete
tendências económicas: globahzaçáo, crescimento do setor fi-
nanceiro e política (na qual incluo fatorcs como a desregultçáo e
o declínio do sindicalismo).

Globaliqação

E inegável que imp^cte dtamâtrco


a globalizaçáo teve um
em certas indústrias e regiões basta olhar Para o cinturão da
-
femrgem da América. Mas a globdização e especialmente o co-
mércio com a China, só por si, não podiam ter causado a estag-
naçío dos salários de muitos dos uabalhadores americanos du-
rante quatro décadas.
Em primeiro lugar, o comércio global tem impacte direto
nos trabalhadores empfegados no setof dos bens tfaÍrsacionâ-
ysis por outras palavras, nas indústrias que produzem bens
-
ou serviços que podem ser trânsportados para outros locais.
A maioria dos trabalhadofes americanos trabalha agota em áreas
de bens não transacionáveis, como govemo, educação, cuidados
de saúde, serviços de alimentação e comércio fetalhista. Na sua
maior pàtte, estas pessoas não estão a competir diretamente
com trabalhadores no estrangefuo, por isso não é a globahzaçáo
que está aÍazet descer os seus salários.
Em segundo lqgar, embora Possâ Parecer que quase tudo o
que se vende no §7alm^rt ê fabricado na China, múto do gasto
de consumo fica nos Estados Unidos. Numa análise de 20ll

83
efetuada por Galina Hale e Bart Hobijn, dois economistas da
Reserva Federal de São Francisco, descobriu-se que 82 por cen-
to dos bens e serviços que os americanos compram são inteira-
mente produzidos nos Estados Unidos; isto deve-se largamente
a gastarmos grande parte do nosso dinheiro em serviços não
transacionáveis. O valor total das importações da China totahza
menos de 3 por cento do total dos gastos de consumo nos
EUAsO.
É om, verdade inquestionável gue, como mostra o gráfico
2.8., a ftaçáo de trabalhadores americanos empregados na indús-
tria transformadora catu profundamente desde o início dos anos
50. Esta tendência começou a verificar-se décadas antes da pro-
mulgação do NAFTA, o Norú American Free Trade Agreement
(fraado Norte-Americano de Comércio Lirr.), nos anos 90, e da
ascensão da China no início deste milénio. De facto, o declínio

Gráfico 2.8. Percentagem de trabalhadores americanos


no setoÍ industrial

0,35

o
§l
o
o 0,30
o
o
À
c)
E
o o,25
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0,ls
n.ât)
(.,
u
GI
.c
0,10
e
0,05
1950 1955 1960 1965 1970 t975 1980 1985 1990 1995 2oOO N5 mt}

Foxrn: Buteau of Labor Statistics e Banco da Reserva Federal de St.


Louis (FRED)51.

84
parece ter parado no final da Grande Recessão, uma vez que o
emprego na indúsuia ultrapassou o mercado de trabalho como
um todo.
Uma força poderosa tem vindo persistentemente a eliminar
empregos no setor industrial e essa fotça é o progresso tecnoló-
gco. Ao mesmo tempo que o número de empregos na indústria
tem vindo a cair de forma sistemática como percentagem do
emprego total, o valor dos bens produzidos nos Estados Ufli-
dos, ajustado com a tnflaçáo, aumentou muito. Estamos a pro-
dazit mais coisas mas estamos a fazê-lo com cada vez menos
trabalhadores.

Financialiryção

Em 1950, o setor financeiro nos EUA representlva cetca"


de 2,8 por cento da economia total. Em 2077, a atividade relacio-
nada com o mundo financeiro mais do que triplicou, até atingir
cetca, de 8,7 por cento do PIB. A remunençáo pàga aos traba-
lhadores do setor financeiro também conheceu uma explosão ao
longo das últimas três décadas e é agora, cetca" de 70 por cento
superior à média das outras atividades económicass2. Os ativos
detidos pelos bancos inchatam de 55 por cento do PIB em 1980
p^ra 95 por cento em 2000, enquanto os lucros gerados no setor
financefuo mais do que duplicaram, de uma média de cerca de 13
por cento dos lucros de todas as grandes empresas no período
de 1978-7997 par:a 30 por ceÍ]to no período entre 1998 e 2007s3.
Independentemente de como se decide avaltat a questão, o setor
financeiro cresceu de forma acennrada como quoa-parte da ativi-
dade económica nos Estados Unidos e, num grau um hrdo-nada
menos espeAcular, ef, quase todos os países industdalizados.
A primeita queixa levantada contra a ftnancialtzação da
economia é que muita desta atividade está direcionada para a
busca de renda. Pot outras palavras, o setor financeiro não está

85
a crtaÍ valor real ou a contribuir para o bem-estar geral da socie-
dade; está simplesmente a descobrk formas cada vez mais criati-
vas de sryar lucros e riqueza de todos os setores da economia.
Talvez o enunciado mais colorido desta acusação tenha sido o
de Matt Taibbi da Rolling Stone no seu feroz ataque de julho de
2009 à Goldman Sachs, €fi que ficou famoso o rótulo que colou
à empresa de §fall Street, «rma grande lula-vampiro enrolada
em tomo do rosto da humanidade, que suga implacavelmente
com o seu funil de sangue tudo o que cheira a dinheiro»»sa.
Os economistas que estudatàm a financialização descobri-
ram uma forte correlação entre o crescimento do setor financei-
ro e a desigualdade e também a queda da quota-pârte do traba-
lho na flqurezà nacionalss. Uma vez que o setor financeiro está,
de facto, a impor uma espécie de imposto sobre a restante eco-
nomia e depois a realocar as receitas para o topo da distribuição
da dqueza, é nzoâvel concluit-se que tem vindo a desempenhar
um papel em diversas das tendências que analisámos. Ainda, às-
sim, parece difícil defender que a frnanciahzaçã,o seia a causa
principal da, digamos, polanzação e eüminação dos empregos
rotineiros.
Também é importante verificarÍnos que o crescimento do
setor financeiro dependeu muito do progresso da tecnologpa dt
informação. Praticamente todas as inovações financeiras surgi-
das nas décadas mais recentes incluindo, por exemplo, as
-
CDO, nlkteriryd debt obligaüons (obrigações de dívida colateniza-
das) e ouros exóticos derivados financeiros não teriam sido
-
possíveis sem o acesso a poderosos compuadores. De igud mo-
do, os algoritrnos de transação automática são agora responsáveis
por aproximadamente dois terços das transações no mercado
bolsista e as empresas de §7all Street montaram enormes centros
informáticos fisicamente próximos das bolsas parz. conseguirem
vântagens negociais medidas em ínfimas frações de segundo.

86
Entre 2005 e 2072, o tempo médio p^r^ executar trma transação
caiu de cetc de 10 segundos para 0,0008 segundos56, e as traÍr-
sações robóticas de alta velocidade estiveram muito implicadas
ro flasb crasb de maio de 2010 no qual o índice de Dow Jones
mergulhou quase mil pontos e depois recuperov pat^ ganhos lí-
quidos, nrdo no espaço de alguns minutos.
Vista desta perspetiva, a frnancidização iá, não é tanto uma
expücaçáo a competit para as Ílossas sete tendências económi-
cas; é, pelo contrário pelo menos até certo ponto uma
- -,
das ramificações da aceleraçáo da tecnologia da informação. Em
tudo isto há uma pertinente nota de aviso quando olhamos par;a
o futuro: conforme a tecnologia da informaçáo prossegue o seu
implacável progresso, podemos ter certez^ de que os inovado-
^
res financeiros, na ausência de regulação que os constrinia, táo
encontrar formas de aproveitar todas estas novas capacidades e,
se a história pode servir como guia, estas não serão necessurtà-
mente benéficas para o conjunto da sociedade.

Política

Nos ânos 50, mais de um terço da mão de obra do setor


privado nos EUA era sindicaliz.ada. Em 2010, esse número tinha
caído púe. cetca, de 7 por centosT. No auge do seu poder, o sin-
dicalismo eta um poderoso defensor do conjunto da classe mé-
dia. Que os trabalhadores fossem cupuzes de ficar com Púte
^
de leão do crescimento da produtiüdade nos anos 50 e 60 pode
provavelmente e pelo menos em parte ser atribúdo ao poder
negocial dos sindicâtos durante este período. Hoje a situação é
muito üferente: os sindicatos lutam simplesmente
^gora P^t^
manterem os seus atuais membros.
O rápido declínio no poder do sindicalismo é um dos mais
visíveis desenvolvimentos associados à deriva puta. a diteita que
c racteÍtzott política económicl amettc tta durante as últimas
^
três décadas. No seu livro de 2010 lYinner Take All Politics, os

87
cientistas políticos Jacob S. Hacker e Paul Pierson defendem de
modo inquestionável que a política é o primeiro motor da desi-
gualdade nos Estados Unidos. Hacker e Pierson apontam 1978
como o ano de viragem em que a paisagem política amencana
começou a mudar sob o assalto otgantzado e contínuo dos inte-
resses consenradores do mundo dos negócios. Nas décadas se-
guintes, as indústrias foram desreguladas, as taxas marginais má-
ximas sobre o rendimento dos ricos e as grandes empresas
foram cortadas puta, valores historicamente baixos e os locais de
trabalho foram-se cada vez mais tornando inospitaleiros para as
orgarttzaições sindicais. Grande parte deste cenário não foi deter-
minada por políticas eleitorais mas, pelo contráÍio, pela contínua
açáo dos grupos de pressão dos interesses de negócios. À medi-
da que o poder sindical enfraquecia e o número dos grupos de
pressão em §Tashington explodia, a guerilha política üâna na
capital tornou-se progressivamente assim émca.
Enquanto a situaçio política nos Estados Unidos parece
exclusivamente prejuücial para a classe média, podem encon-
trar-se indícios do impacte do progresso tecnológrco ntrma vasta
gama de países desenvolvidos e em desenvolvimento. A desi-
gualdade está a aumentar em praticamente todos os países in-
dustrializados, ao mesmo tempo que a comparticrpação no pro-
duto nacional reclamada pelo trabalho está geralmente em
queda. A polarizrçáo do mercado de rabalho tem vindo a ser
obsernada na maioria dos países eruopeus. E no Canadâ on-
-
de o sindicalismo continua a ser urna poderosa fotça n2sienal
a desigualdade estâ t aumentar, os rendimentos -
das famflias mé-
dias têmvindo acat em terÍnos reais desde 1980 e o número de
sindicali-ados no setor privado tem decaído conforme o empre-
go na indústria tem desaparecidoss.
Âté certo ponto, a questão aqui é de c tegotrzaçáoz se um
país não consegue aplicar políticas concebidas para mitigar o
impacte das mudanças estruturais produzidas pelo progresso

88
tecnológico, deveremos classificar isso como um problemà cutt-
sado pela tecnologia ou pela política? Seia como for, não há dú-
vida de que os Estados Unidos estão sós quanto às decisões
políticas tomadas; mais do que simplesmente não conseguir Pro-
mulgar políticas que podiam ter travado as forças que condu-
ziam o país pàtà níveis mais altos de desigualdade, a Aménca
muito frequentemente fez escolhas que na verdade ftzetam o
vento soPrâr a favot daquelas forças.

OrHan PARA o FUTURo

O debate sobre as principais causas da crescente desigual-


dade e a estagnaçío de décadas Íros salários que se desenvolve-
fam nos Esados Unidos muito provavelmente náo rrâ diminuir,
e Porque tocâ em assuntos intensamente polattzados sindica-
-
lismo, impostos sobre os ricos, comércio livre, o adequado pa-
pel do governo certamente que o diálogo irá ser colorido pe-
-
la ideologa. A meu vet, à evidência dos factos que apresentei
demonstra que a tecnologia da informação desempenhou um
papel importante embora talvez não dominaÍrte nas últi-
- -
mas décadas. Além disso, coÍrtento-me em deixar que os histo-
riadores de economia pesquisem a infotmaçáo e talvez algum
dia seia mais evidente quais as exatas forças que nos conduziram
a este Ponto. Â verdadeira questáo e o assunto primeiro des-
te livro
-
é: «o que será mais importante no futuro?». Muitas
-
das forças que tiveram forte impacte na economia e no ambien-
te político do último meio século iâlaryameote se esgotafam. Os
sindicatos fora do setor público foram üzimados. As mulheres
que quefem tet carretas entraÍam no mefcado de Uabalho e ma-
tricularam-se em r,rniversidades e escolas profissionais. Há indícios
de que o impulso pâfa a desloc ahzaçào de fábricas desacelerou
significativamente, e em alguns casos, a produção fabril estâ à
regressar aos Estados Unidos.

89
Enue as forças disposas a moldar o futtrro, a tecnologia da
infotmação está bem posicionada para o seu progresso expo-
nencial. Mesmo em países cujos ambientes políticos são muito
mais recetivos ao bem-estar dos ttabalhadores médios, as mu-
danças forjadas pela tecnologia estão a tornar-se progressiva-
mente evidentes. À medida que a fronteira tecnológi ca, averflça,,
muitos empregos que hoje consideramos não rotineiros, e por-
tanto protegidos da automatzação, acabatão por ser arrastados
pzlrà a ptevisível categona da rotina. O buraco na parte intermé-
dia do iâpolarrzado mercado de trabalho vâ provavelmente ex-
pandir-se conforme os robôs e as tecÍrologias de autossenriço
absorverem os empregos de baixos salários, ao mesmo tempo
que algoritmos cfescentemente inteligentes amea çatáo as ocupa-
ções com maiores qualificações. Na verdade, um esnrdo de 2013
de Cad Benedikt Frey e Mchael A. osborne da Universidade de
oxford concluiu que as ocupações que significam quâse metade
do emprego total nos Estados Unidos podem ser vulneráveis à
automatizaçáo sensivelmente denúo das próximas duas déca-
das5e.

Embora seja quase certo que a acelençáo da tecnologia da


informaçáo teúr um impacte extraordinário na futura economia
e Íro futuro mercado de trabalho, permanecetâ" profundamente
intedigada com outras forças poderosas. Â linha entre a tecnologia
e a glob alizaçils irá esbater-se conforme os empregos altamente
qualificados ficarem mais vulneráveis à desloçalizaçãrç eletrónica.
Se, como parece provável, o progresso tecnológico continuar a
conduzir os Estados Unidos e outros países industrializados pa-
ra graus mais altos de desigualdade, então a influência política
exercida pela elite financefua só pode aumentar. Isto pode tomar
ainda mais difícil promulgar políticas que possam servir para
contrariar os desvios estruturais que ocoÍrerem na economia e
melhorar as expectativas daqueles que se encontrarem no meio e
no fundo da pirâmide de distribuição da iqueza.

90
No meu livro de 2009 Tlte Ligltts in tbe Tunnel, escrevi que
«<embora os tecnólogos esteiam ativamente a Pensar em máqui-
nas inteügentes e a escrever üvros sobre elas, a ideia de que a
tecnologia algama vez substituirá verdadeiramente uma grande
parte da mão de obra humana e conduztâ a um desemPrego es-
trutural e perÍnanente é, para a maioda dos economistas, quâse
impensáveb>. Para seu crédito, alguns economistas começLtàm
desde eotão alevar mais a sério o Potencial da automatizaçáo
üsseminada. No seu üvro elerónico de 2017 Race Against tlte
Macbine, Erik Bryniolfsson e Andrew McAfee do MIT aiudaram
aüazer esüs ideias Par;a o Pensamento económico predominante.
Economistas preeminentes, incluindo Paul Krugman e Jeffrey
Sachs, escreveram igualmente sobre o possível impacte da inteli-
gência mecânica60. Apesar de tudo, a ideia de que a tecnolosa
pode ,lgu- dia transformar verdadeiramente o mercado de ua-
balho e arcabar por determinar mudanças fundamentais tanto no
nosso sistema económico como Í1o conttuto social pefmanece
completamente despercebida ou ümitada às mafgens do discur-
so político.
Na verdade, entte os profissionais de economia e finanças
há frequentemente uma tendência quase reflexiva PLt^ rcieitar
quem quer que defenda que desta vez va ser diferente. Este é
muito provavelmente o instinto coffeto quando se discutem os
aspetos da economia que são principalmente conduzidos pelo
comportamento humano e pela psicologia do mercado. Os su-
portes psicológicos da fecente bolha e ruína imobiliária foram
certamente pouco diferentes daqueles que caÍalcteflzertum as cri-
ses financeiras ao longo da história. Muitas das maquinações po-
líticas da antiga república r:omàÍta podiam Provavelmente sef no-
ticia de primeir^ p^glna do atual Politico. Estas coisas realmente
fllnca mudam.
Contudo, seria um eÍro aphcx o mesmo raciocínio ao im-
pacte do progresso tecnológico. Âté ao momento em que o Pri-
meiro avtáo conseguiu elevar-se e voaf com propulsão a motor

9t
em Kitty Hawk, na Carolina do Norte, eta um facto incontrover-
so suportado por informações que remontavam ao princípio
-
dos tempos que o ser humano, suspenso numa geringonça
-
mais pesada do que o a\ não pode anar. Tal como essa realidade
mudou num instante, uo fenómeno semelhante desenvolve-se
continuameÍlte em quase todas as esferas da tecnologia. Desta
vez e sempre que a tecnologia estiver envolvida, setá, diferente:
afinal a inovaçio é isso. Finalmetrte, a questão sobre se as má-
quinas inteligentes irão algum dia eclip sat a capacidade do ser
humano médio de desempenhar grande parre do trabalho exigi-
do pela economia serâ respondida pela i tLttez^ da tecnologia
que che gar futuro não por lições compiladas na história
da economia.
^o -
No próximo capítulo, iremos examinat L natltteza da tec-
nologia de informtção e a sua implacável acelençáo, as caÍ^cte-
rísticas que a sinram à parte e as formas como estâ iâ a transfor-
mar importantes esferas da economia.

92
Capítulo 3
TECNOLOGTA DA INFOnMAÇÃO:
UMA FORçA DE DISRUPçÃO SEM PRECEDENTES

Imagine que deposita um cêntimo numa, coÍrta"bancârta.


Âgora, duplique o saldo bancâno todos os dias. No terceiro dia
passaria de 2 p^f^ 4 cêntimos. No quinto dia passaria o seu sal-
do de 8 pala 16 cêntimos. Em menos de um mês, possuiria mais
de um milhão de dólates. Se tivéssemos depositado aquele cênti-
mo inicial em 1949, exatamente quando Norbert lü(/ienef escfe-
via o seu ensaio sobre o futuro dos compuadores, e depois dei-
xássemos a ki de Moore aphcar os seus efeitos dupücando o
montante sensivelmente a cada dois anos
-
em 2075, a nossa
-
coÍrta tecnológica aPfesentaia um saldo de quase 86 milhões de
dólares. E conforÍne as coisas avaÍrçassem, partir deste ponto,
^
o saldo continuafl^ multiplicar-se por dois. As futuras inova-
^
ções poderão aproveitar aquele enofme saldo acumulado e con-
sequentemente L tÀxl de progresso nos anos e décadas vindou-
ros irá muito provavelmente exceder em muito aquilo a que
esávamos acostumados no passado.
A Lei de Moore é o mais conhecido meio de medir o au-
mento do poder dos comPutadores, mas a tecnologia da infor-
maçáo est4 de facto , a aceletat em muiAs e diversas frentes. Por
exemplo, a capacidade de memória de um compuAdor e a quanti-
dade de informaçáo digital que pode ser transmitida por cabos de
fibra óaca conheceram atrmentos exponenciais constaÍrtes. Mas a
npidez não esú confinada ao bardaare de compuador; a efrcâcra
de alguns algoritmo s de sofiware aumentou num tâcto que excede
largamente o que aprôpnalri de Moore tena previsto.

93
Embora a aceleração exponencial ofereça um valioso co-
nhecimento sobre o progresso da tecnologia da informação du-
rante períodos relativamente longos, a realidade a curto pnzo é
mais complexa. O progresso não é geralmente suave e constan-
te; pelo contrâtio, frequentemente avanç L aos ziguezagues e
depois Íaz uma pausa enquanto as novas capacidades são assimi-
ladas pelas orgarúzaÇões e se estabelecem as bases para" o pró-
ximo período de progresso acelerado. Hâ também complexas
interdependências e ciclos de retorno entre os diferentes reinos
da tecnologa. O progresso numa determinada âreapode condu-
zt a umâ súbita explosão de inovação numa outra. Conforme a
tecnologia da informação avarrÇa, os seus tentáculos mergulham
mais fundo nas organizações e fl^ economia em geral, mudando
frequentemeÍrte a maneka como as pes soas trabalh Lm paÍà desen-
volver ainda mais o seu próprio avanço. Consideremos, por
exemplo, como o crescimento da Internet e do sofisticado sofiware
em colaboração permitiu a desloc ahzaçáo do desenvolvimento
de software, isto veio disponibilizar uma vasta população de quali-
ficados programadores e todo esse novo tdento está. a aiudar a
produzir ainda mais progresso.

AcurnaçÃo vaasus EsracNaçÃo


Enquanto as tecnologias da informação e da comunicação
tam na sua longa marcha exponencial ao longo de déca-
^vaflç
das, a inovação em outras áreas teve um crescimento em grande
medida gradual. os exemplos incluem o duign básico de auto-
móveis, casas, aviões, eletrodomésticos e as nossas infraestrutu-
ras gerais de transportes e enet*a, nenhuma das quais, na sua
maior parte, mudou significativamente desde meados do século ror.
O famoso comentâno de Peter Thiel, cofundador do Pay-Pal,
<«Prometeram-nos caÍros voadores e, em vez disso, o que tive-
mos foram 740 cxtcteres»», reflete o sentimento de uma gençáo
que estava à espera que o seu futuro fosse muito mais interes-
sante do que se verifica.

94
Esta falta de progresso alargado contrasta fortemente com
as experiências por que terá passado uma pessoa que viveu ao
longo das últimas décadas do século xD( e a pnmelr:a metade do
século xx. Agua canalizada em câsa, automóveis, aeronaves, ele-
tricidade, eletrodomésticos, saJreamento básico e serviços públi-
cos, todos eles viram o seu uso disseminar-se durante este perío-
do. Pelo menos nos países industializados, as pessoas em todos
os níveis da sociedade beneficiaÍam de uma su{preendente Íne-
lhoria na qualidade das suas vidas, ao mesmo tempo que a d-
qvez^ geral da sociedade en proietada p^r^ novas e vertiginosas
alturas.
Alguns ecoÍlomistas registaram esta penosa taxa de pro-
gresso em muitas esferas da tecnologa ehganm-na às tendên-
cias económicas de que falámos no capítulo anterior, e em parti-
cular à estagnaçáo dos rendimentos patl muitos americanos
comuns. Um dos princípios basilates da economia moderna é
que tal mudança tecnológica é essencialpara o crescimento eco-
nómico a longo ptàzo. Robert Solour, o economista que formali-
zou esta ideia, recebeu o Prémio Nobel pelo seu trabalho em
1987. Se a inovação é o pdncipal motor da prosperidade, então
talvez a esagnaçío dos salários implique que o problema estâ na
taxa com a qual as novas invenções e ideias estão a ser geradas,
emlrez do impacte da tecnologia nas classes média e trabalhado-
ra. Talvez os computadores não seiam assim tão importantes, e
a lenta tax^ de progresso numa frente mais ampla seia o que
mais importa.
Vários economistas estudertam este assunto. Tyler Cowen,
economista na Universidade George Mason, defendeu no seu ü-
vro de 2077 Tbe Great Stagnation quie a economia amencana tt-
nha entrado nnm p^tamat temporário depois de consumir todos
os fnrtos fáceis de apanhar da inovação disponível, a. tertl grátis
e o talento humano subutilizado. Robert J. Gordon, da Universi-
dade Northurestern, é oinda mais pessimista, defendendo ntrm es-
tndo de 201,2 que o crescimento económico nos Esados Unidos,

95
dificultado por um dtmo lento de inovação e uma série de ««ren-
tos contrários)) em que se incluem a dívida excessiva, o en-
-
velhecimento da populaçáo e as carências Íro nosso sistema de
ensino terâ essencialmente acabadol.
-,
Pata conseguirmos ,lgo* conhecimento sobre os fatores
que influenciam o ritmo da inovaÇío, pode ser útil pensarmos
no rumo histórico que praticamente todas as tecÍrologias se-
grem. Os aviões são um bom exemplo. O pti-eiro voo a motor
comandado ocorreu em dezembro de 1903 e durou cetca de do-
ze segundos. O progresso acelerou desde esse início tímido, mas
o nível primitivo de tecnologia significou que teriam de decorrer
anos até apatecer um avião de uso prático. Em 1905, §Tilbur
§Tright conseguiu manter-se no ar durante quase quarenta minu-
tos e percorret cetca, de 38 quilómetros. Contudo, êffi poucos
aÍros, as coisas começaram realmente a mudar; a tecnologia aero-
náutica progrediu ao longo da sua curva exponencial e a taxa de
progresso absoluto subiu drasticameÍlte. No tempo da Primeira
Guerra Mundial, os aviões estavam envolvidos em combates aé-
reos de grande velocidade. O progresso prosseguiu a sua acele-
raçío dutante as duas décadas seguintes e permitiu a produção
de caças de elevado desempenho como o Spitfire, o Zero e o
P-51. No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial a taxa de
progresso abrandou significativamente. Os aviões de héüces
propulsados por motores de combustão interna estavam então
muito ptóximos do seu máximo potencial técnico e os melhora-
mentos no design além deste ponto seriam residuais.
Este percurso em forma de S, no qual o progresso acelera-
do ou exponencial acàba por amadurecer Írum put:ima\
- -
ilustra a história de praticamente todas as tecnologias específi-
cas. Como é evidente, sabemos que quando a Segunda Guerra
Mundial chegou ao fim apareceu em cena toda uma nova tecno-
logu aeroúutica. A aeronave a iato em breve ofereceria um nível
de desempenho muito além do que era possívelpara qualquer

96
Gtáfico 3.1. Cura em S da tecnologia aeronántica

Desempenho
Nova tecnologial"
aeroúutica 7'
,
Aviões
*?a--.-"?
aj*o

Âviões
a hélice

Tempo

foram uma tecnologia disruptiva: tiveram


a hélice. Os iatos
^.rtáo
a sua própria curva em S, que visualmente pode ser algo como o
que se vê no grâfico 3.7.
Se quisermos aceletar drasticamente o ritmo da inovação
no proieto de aeronaves, precisamos de encoÍrttut atnda outra
crr\ra em s, e essa ctr\ra tem de fepresentaf uma tecnologia que
não seja apenas superior em matéria de desempenho mas tàm-
bém de viabilidade económica*. Claramente, o problema é que
até agota não se conseguiu descobrir a flova curva. Partindo do
princípio de que não conseguimos descobrir esta nova tecnolo-
gra disruptiva só por saltar a vedaçáo da Átrea 51, vai ser preciso
um passo de glg*t Púa chegar até essa nova curva em S n^
presunção, como é óbvio, de que essa crúva existe.
-
Aqoi, o ponto crítico é que embora muitos fatores co-
-
mo o nível de pesquisa e o desenvolvimento de esforços e inves-
timento, ou a presença de um ambiente reguladç1 favslfivel
-
* O avião supetsónico Concorde, por exemplo, teve uma oova curva em S quanto a de-
sempenho absoluto, mas não provou ser uma tecnologia economicamente sustenável
e nunca conseguiu captâr mais do que uma ínÍima fuaçáo do mercado dos passaçitos
de aviação. O Corcorde esteve ao serviço desde 1976 até 2003.

97
possam certamente ter um impacte na posição relativa das cur-
vas em S da tecnologia, o fator mais importante é, de longe, o
coniunto de leis da física que regem a esfen da tecnologia em
questão. Ainda não temos uma nova tecnologia aeronáutica dis-
ruptiva e isso deve-se em primeiro lugar às leis da fisica e às li-
mitações que estas implicam relativamente ao Írosso atual co-
nhecimento científico e tecnológico. Se queremos vu a teÍ um
outro período de rápida inovação numa vasta gama de áreas tec-
nológicas talvez dgo comparável ao que sucedeu aproxima-
-
damente entÍe 1870 e 1960 precisaremos de descobrir novas
-,
cufiras em S em todas estas diferentes áreas. ÓUoi" e muito pro-
vavelmente, isso represen tatá" am enorme desafio.
Contudo, há uma tazáo importante patz estarmos otimis-
tas, que se prende com o impacte positivo que a aceletação da
tecnologia de informaçáo tetâ na pesquisa e no desenvolvimento
de outros campos. Os computadores já produziram enormes
transformações em muitas áreas. A sequenaaçío do genoma hu-
mano não teria cettamente sido possível sem um avaÍlçado
poder computacional. Â simulaçáo e a conceção baseadas em com-
putadores têm expandido muito o potencial de experim entaçào
com novas ideias nuÍna multiplicidarle de áreas de investigação.
Um caso de sucesso da tecnologia de informação que teve
um impacte enorme e pessoal em todos nós foi o papel do avan-
çado poder computacional na explonçáo de petróleo e gás natu-
ral. Conforme as reservas globais dos campos de petróleo e gás
natural facilmente acessíveis foram diminuindo, novas técnicas
como o registo de imagens tridimensionais do subsolo toma-
ram-se ferramentas indispensáveis p^t^ locahzat novas reservas.
A Âramco, a petrolífera nacional saudit^, pot exemplo, mantém
um enorÍne centro de informâdca onde poderosos supercompu-
tadores são decisivos Íra manutenção do fluxo de cnrde. Muitas
pessoas podem surpreender-se ao saberem que uma das mais
importantes ramificações da Lei de Moore foi que, pelo menos
até agon, as reser\ras de energia mundiais têm respondido às on-
das de pÍocura.

98
O advento do microprocessador Provocou um impressio-
nante aumento da nossa capacidade global PLt^ efetuar câculos
e manipular informação. Quando outrora os computadores
eram enorÍnes, lentos, caros e em reduzido número, hoje são ba-
ratos, poderosos e omnipresentes. Se quiséssemos multiplicar o
aumento da capacidade comPutacional ntrrn só computador des-
de 1960 pelo número de microprocessadores que aPareceram
desde então, o resultado estariapnttcmente além da possível
enumeração. Parece impossível imaginar que um tal aumento
imensurâvel na nossa capacidade global de cálculo não acabe
por ter consequências profundas numa grande variedade de
campos científicos e técnicos. Apesar disso, a pdmeira determiÍtâÍt-
te das posições das curvas em S da tecnologia que precisaremos de
alcançar par;à assim conseguirmos inovação verdadeiramente dis-
ruptiva ainda ê a aphcaçáo das leis da naixeza. A capacidade dos
computadores não pode mudar essa realidade, mas pode muito
bem aiudar os investigadores a constnrir Pontes enüe algumas das
lacr:nas.
Os economistas que acreditam que atingimos trm Patamar
tecnológico demonstfam tipicamente umâ profunda fé na rela-
ção entre o ritrno da inovação e a concretzaçáo de uma ProsPe-
ridade de base ampla; a implic açáo é que se pudermos simples-
mente dar nova energia âo Progresso tecnológico de modo mais
amplo, os rendimentos médios itáo mars uma vez começat
^ ^a-
mentar em termos reais. Penso que há boas tazões Pâra nos
preocuparmos que pode muito bem não vir a ser este o caso.
Pala compreender porquê, vamos olhar Púa o que toma ínica a
tecnologia de informação e PLnL as formas como ela se intediga
com inovações em outras âteas.

Ponqun É orrr,nsNrp A TECNoIocIA DA INFoRMAÇÂo

A impla câvel aceleração do ltardware de computador ao


longo de décadas sugere que de alguma forma conseguimos

99
PerÍnanecet 1^ parte mais íngreme da cunra em s durante muito
mais tempo do que tem sido possível noutras esferas da tecnolo-
gia. Porém, realidade é que aLei de Moore envolveu conse-
a,

guir-se subir uma escada de curvas em S em casc tL, cada uma


represeÍrtando uma tecnologia de fabdco específica de semicon-
dutores. Por exemplo, o processo litográfico usado patr. aplicar
os nossos circuitos integrados foi inicialmente baseado em técni-
cas de captaçáo óaca de imagens. Quando as dimensões do dis-
positivo individual diminuíram ao ponto em que o comprimento
de onda dah:a visível era demasiado longo p^ta. permiú progre-
dir mais, a indústria de semicondutores avançou p^ra ahtografia
de raios )P. O grãfrco 3.2. ilusua grosseiramente que aspeto po-
de ter uma série ascendente de curvas em S.
Uma das características da tecnologia da informação tem
sido a rrJ.at,va acessibilidade a subsequentes cunras em S. A cha-
ye pàfa, a aceletaÇão sustentada não tem sido tanto o fnrto estaf
acessível a pouca altuta mas, pelo contrário, o poder subir-se à
ârrorc. Subir àquela âwore tem sido um processo complexo
conduzido por intensa competição e exigiu enorme investimen-
to. Também houve cooperação e planeamento subsanciais. Para
ajudar a coordenar todos estes esforços, a indústria publica um
extenso documento designado <«Intemational Technology Road-
map of semiconductofs)), que oferece essencialmente uma deta-
lhada previsão de quinze anos de como se prevê que a Lei de
Moore funcione.
Tal como as coisas hoje se encoÍrtram, o ltardware de com-
putadores pode em breve ter de enfrentar o mesmo tipo de de-
safios que caractetiza as outras áreas da tecnologia. Por outras
palavras , alcançat a próximà cufrÍà em S pode vtt a e*igir um sal-
to gigante e talvez inatingível. o rumo histórico seguido pela Lei
de Moore tem sido continuar a diminuir o tâmanho dos transís-
tores p^ta que mais circuitos possam ser integrados num chipe.
Perto do ano 2020, a dimensão dos componentes individuais

100
Figura 3.2 AI-ei de Moore como uma escada de cunras S

Desempenho

Tempo

dos chipes de computadofes será reduzida atê cetc de cinco na-


nómetros (milimícrones) , e é muito Provável que isso esteia
muito próximo do ümite fundamental Para lá do qual não será
possível mais miniaturizaçáo. Todavia, há algumas estratégias al-
ternativas que podem permitir que o Progresso continue imbatí-
vel, incluindo modelos de chipe tridimensionais e materiais exó-
ticos com base de carbono3*.
Mesmo que o Progresso da capacidade de bardaare dos
computadores estabilize num Patàmàq ainda havetá, toda uma
g^m^de caminhos ao longo dos quais o Pfogresso poderá conti-
Íruaf. A tecnologia da informaçáo existe na interseção de duas
realidades diferentes. A Lei de Moore tem dominado o mundo

* A ideia por trás dos chipes 3D é começar a empilhar-se os circuitos verticalmente


em multiplas camadas. A Samsung Electronics começou a Íabricza chipes de memória
Jtastr 3D em agosto de 2013. Se esta técnica se
afirmar economicamente viável Para os
basante mais soÍisticados chipes processadores concebidos Por companhias como In-
tel e AMD, pode representaÍ o futuro da ki de Moote. Ouua possibilidade são os
materiais exóticos com base de carbono em altemativa ao silício. Os nanotubos de
grafeno e de carbono, ambos resultantes da recente pesquisa em nanotecnologia, po-
derão vir a oferecer um novo meio para computação de elevado desempenho. Inves-
tigadores da Universidade de Stanford criaram iá compuador rudimenar com na-
"-
notubos de carbono, embora o seu desempenho fique aquém dos processadores
comerciais com base de silício.

101
dos átomos, onde a inovaçáo é aluta pela construção de disposi-
tivos mais rápidos e por minimizar ou encoÍrtrar um meio de
dissipar o calor que geram. Em contraste, o domínio dos bits é
um lqgar abstrato, livre de atrito, onde os algoritmos, arquitetura
(desenho conceptual dos sistemas de cálculo) e matemâticas
aphcadas comandam a taxa de progresso. Em algumas áreas, os
algoritmos já a.',^nç Íam parz. uma t^xa bastante mais rápida do
que o ltardware. Numa anáüse recente, Martin Grcitschel, do Ins-
tituto Zluse, em Berüm, descobriu gue, usando os compuadores
e o sofiware existente em 1982, seriam necessários oitenta e dois
anos completos para solucionar um problema especialmente
complexo de planeamento da produção. Em 2003, o mesmo
problema podia ser resolvido em cercl de um minuto uma
melhoria com um fator na ordem dos 43 milhões. O ltardware - de
computador tornou-se 1000 vezes mais rápido durante o mesmo
período, o que significa que os aperfeiçoamentos nos algoritrnos
usados fepresentam um aumento de aproximadamente 43 000
vezes no desempenhoa.
Nem todo o software progrediu tão rapidamente. T^l é espe-
cialmente verdade em âreas onde o software tem de interagir dire-
tamente com pessoas. Numa entrevista em âgosto de 2013 com
James Fallows, da Atlantic, Charles Simonyi, o cientista de com-
puação que supervisionou o desenvolvimento do Mitosofi lYord
e Excel, expressou a sua visão de que o software falhou profunda-
mente no aproveitamento dos avanços que ocofrefam no domí-
nio do ltardware. Quando foi questionado sobre onde residia o
maior potencial pan futuros progÍessos, Simonyi respondeu:
<Easicamente, a resposta é que ninguém voltatâ a fazet coisas
repetitivas e de rotina.»>s
Há também tremendo espaço par.^ progresso funrro por via
da descoberta de formas aperfeiçoadas de intedigar maciçamen-
te vastos números de processadores baratos em sistemas para-
lelos. Refazer a anlorl tecnologia dos dispositivo s de ltardware em

t02
modelos teóricos inteiramente novos poderá igualmente Pro-
duzir saltos gigantescos no poder dos computadores. Indícios
claros de que um sofisticado desenho arquitetural baseado em
interconexões profundamente complexas pode produzif uma
assombrosa capacidade comPutacional são dados Pof aquela que
é, de longe, a mais poderosa máquina comPutacional geral de
sempre: o cérebro humano. Ao cflaf o cétebro, a evolução não
teve os luxos da Lei de Moore. O do cérebro humano
<útardwarcr>

não é mais rápido do que o do rato e é milhares de milhões de


vezes mais lento que um modemo circuito integrado; a diferen-
ça reside inteiramente na sofisticaçáo do modelo6. Na verdade,
o
fundamental em capacidade comPutacional e talvez em inte-
-
ligência mecânicz.- poderá ser alcançado se algum dia os inves-
tigadores forem càPazes de casar a velocidade do bardware de
computadores, mesmo os de hoie, com que se aproxime do
"lgo
nível de complexidade do modelo que se pode encontfaf no cé-
rebro. Já estão a sef dados Passos de bebé nessâ direção: a IBM
lançou em 2011 um chipe de computação cognitiva inspirado
-
no cérebro humano e aproPriadamente etiquetado como «Sy-
NAPSE» e desde então tem vindo a cflàr uma nova lingua-
-
gem de programaçáo PLtà acomPanhar o ltardwar{.
Além da implacável acelençáo no bardware, e em muitos ca-
Sos no software, existem, penso eu, duas outfas c factetísticas
fundamentais da tecnologia da informaçáo. A primeira é que es-
ta evoluiu Palauma tecnologia verdadeiramente global. Há mui-
to poucos aspetos das nossas vidas diárias, e especialmente da
operação de negócios e organizações de todas as dimensões, que
não estefam significativamente influenciadas ou até altamente
dependentes da tecnologia da informação. Computadores, redes
e Internet estão àsotlirremediavelmente integrados nos nossos
sistemas económicos, sociais e financeiros. A tecnologia da infor-
maçío esú em toda aparte, e é até dificil imagnx a vida sem ela.
Muitos observadofes comPârafam a tecnologia da informa-
ção à eletricidade, a outfa tecnologia global transformadon
cuio

103
uso se disseminou nâ primeira metade do século xx. Nicholas
Cart aPresenta um argumento especialmente irresistível para se
enc t^t a tecnologia da informação como uma utilidade idêntica
à eletricidade, no seu livro de 2008 Tbe Big Suitctt. Embora mui-
tas desas comparações sejam apropriad^s, averdade é que a ele-
tricidade é difícil de acompanhat  eletrificaçáo transformou os
negócios, a economia em geral, as instituiçôes sociais e a vida
das pessoas num glau assombroso e fê-lo de maneiras que
foram esmagadoramente positivas. Seria- ta)vez muito dificil en-
contÍar urna só pessoa ntrm país desenvolvido como os Esados
Unidos que não tenha acabado por receber uma importante me-
lhoria no seu padrão de vida após o advento da energia elétrica.
o impacte transformador da tecnologia da inform ação terá" pro-
vavelmente mais matizes e, patl muitas pessoas, será globalmen-
te menos positivo. A nzào tem que ver com outÍa característica
marcante da tecnolog^ da informaçãoz a capacidade cognitiva.
 tecnologia da informaçào, Ílum grau sem precedentes
na história do progresso tecnológico, encapsula a inteügência.
os computadores tomam decisões e resolvem problemas. Num
sentido muito limitado e especiahzado, os computadores são
máquinas que podem.. . pensar. Ninguém hoje discuúia que os
computadores atuais se aproximam de como a inteügência
"lgo
de nível humano. Mas isso muito frequentemente faz esquecer a
questão essencial. Os computadores estão a ftcat decisivamente
melhores Íro desempenho de tarefas especializadas, de rotina e
previsíveis, e parece muito provável que em breve estejam pron-
tos para ultrapassar muitas das pessoas cujo emprego é agon
desempenhar essas tarcfas.
o progresso na economia humana resultou em grande me-
dida da especiahzação ocupacional, ou, como diria Adam Smith,
da «divisão do trabalho». Um dos paradoxos do progresso na era
dos computadores é que conforme o trabalho se torna cada vez
mais especializado pode, em muito casos, tornar-se também
mais suscetível de automatizaçío. Muitos especialistas diriam

104
9ue, em matéfia de inteligência geral, a melhor tecnologia de hoie
dificilmente suPen a de um inseto. E no entanto, os insetos não
têm o hábito de fazet aviões a iato, aceitat feserras Paf^
^tetraÍ
iantx ou transacionar em §7all Street. Os computadores fazem
hoie todas estas coisas e em breve começarão a invadir agressi-
vamente um grande número de outras ateas.

VAN:rACEM COMPARÂTTVA E MÁQUINAS INTELIGENTES

Os economistas que reieitam a ideia de que as máquinas


poderão um dia tornar uma grande fuaçáo da nossa força de tra-
balho essencialmente não empregavel baseiam com ftequência a
sua argumenação numa das maiores ideias da economia: a teof,a"
da vantagem computaiü,vtq. Para vef como funciorL^ vantagem
^
comparativa, vamos considerar duas Pessoas. Jane é verdadeita-
mente excecional. Depois de muitos ânos de intensa preparação
e um registo de sucesso quase incompatâvel, é considerada um
dos mais influentes neufocirurgiões do mundo. Nos anos de
interyalo entre o ensino secundári o e a faculdade de medicina,
Jane inscreveu-se num dos melhores institutos culinários
de
França e é agota" utrra cozinheita gourttet de raro talento. Tom é
mais um indivíduo mediaÍro. Contudo, é muito bom cozinheiro
e foi muitas vezes elogiado pelas suas comPetências. Todavia,
não pode equiparar-se ao que Jane faz na cozirrha. E isto sem di-
zef que Tom não seria autoraado a chegar sequef Perto de uma
sala de operações.
Uma vez que Tom não pode comPeú com J*. como co-
zinheiro, e certamente tão-pouco como cirurgião,havetâ alguma
maneira de os dois estabelecefem um acofdo que seia melhor
p^t^ os dois? A vantagem comPaf ttiva aflr:ma que sim e diz-
-nos que Jane pode contÍataÍ Tom como cozinheiro. Porque fa-
ria isso quando ela mesma pode obter melhores resultados en-
carregando-se pessoalmente de cozinhâf os pratos? A resposta é
que isso libertaria mais temPo e energia de Jane Pat^ uma coisa

105
em que ela é verdadeiramente excecional e que lhe proporciona
a maior parte do seu rendimento: a cinrrgia cerebral.
A principal ideia por trás da vantagem competitiva é que
devemos sempre ser cupa,zes de enco nüLt um emprego, desde
que nos especializemos na, matéria em que somos menos maus
relativamente a outrâs pessoas. Ao íazê-lo, oferecemos aos outros
a possibilidade de ambém se especializarem e assim obterem um
rendimento maior. No caso de Tom, menos mau significava co-
zinhat Jane tem mais sorre (e é múto mais rica) porque a sua
atiüdade menos mâ é em que ela é realmente competente e
"lgo
esse talento concreto tem um elevado valor de mercado. Ao lon-
go da história económica, a, vantagem comparativa tem sido o
princtpal motor de cada vez mais especiali zação e comércio en-
tre indivíduos e países.
Agora, vamos mudar a história. Imaginemos que Jane tem
a capacidade de facilmente e sem despesas produzir clones seus.
Se gosta de filmes de ficção científica, pense em Matrix Rcloaded,
em que Neo luta com dezenas de cópias do agente Smith. Nessa
luta particular, Neo acaba" por prevalecer, mas acho que pode
ver que Tom não tetâ taflta sorte quando se tfatar de manter o
seu emprego com J*.. A vantqgem comparativa funciona devi-
do aos custos de oportunidade: se urna pessoa escolhe fazet
uma coisa, tem necessariamente de desistir da oportunidade de
fazer qualquer outra. o tempo e o espaço são limiados; não se
pode estaÍ em dois lqgares e a fazet duas coisas ao mesmo tempo.
Âs máquinas, e especialmente as apücações de sofiware, po-
dem ser facilmente replicadas. Em muitos casos, podem ser clo-
nadas com um custo que é pequeno se comp ando com a contra-
tação de uma pessoa. Quando a inteügência pode ser repli cada,
aParcce o conceito de custo de oportunidade.
Jane pode
^gora
simultaneâJÍrente prat.car cirurgia cerebral e cozinh at Bntão pa-
ra que precisa afinal de Tom? Certamente que muito em breve
os clones deJane também irão começar alançx no desemprego

106
neurocirurgiões menos talentosos. A vantâgem compatativa na
era das máquinas inteügentes pode vir a er,igif que fepensemos
as coisas.
Imaginemos o impacte de ser Possível a uma grande em-
pfesa prepartuf um único emPregado e depois cloná-lo num
exército de trabalhadores, todos eles instantaneamente possú-
dores do seu conhecimento e experiência mas, doravante, tam-
bém c Pazes de continuat aaprctder e de se adaptarem a novas
situações. Quando a inteligência encapsulada em tecnologia da
informaçáo é replicada e lançada nas organizações, tem o poten-
cial de basicamente redefinir a rrJraçáo entre Pessoas e máquinas.
Na perspetiva de grande número de trabalhadofes, os comPuta-
dores deixarão de ser utensflios que melhoram a sua produtiü-
dade e, em vez disso, tomaf-se-ão seus substitutos viáveis. Este
desfecho irã, clanmente, aumentar a produtividade de muitos
negócios e atividades, mas também farâ com que emPreguem
muito menos mão de obra intensiva.

 unaNrA DA cAUDA LoNGA

A influênciadesta inteligência mecânica üstribúda é mais


evidente na própria indústria da tecnologia da informação. A In-
ternet gerou grandes empresas muitíssimo lucrativas e influentes
com quadros de pessoal surpreendentemente diminutos. Em
2012,a Googler por exemplor gefou um lucro de cerca de 14 mil
milhões de dólares, dando emPrego a menos de 38 000 pessoase.
Vamos compafaf com a indústria automóvel. No pico do em-
pfego, em 1979, só a General Motors tinha quase 840 000 em-
pregados, rnas ganhou apenas 11 mil milhões de dólares
-
menos 20 por cento do que a Google conseguiu. E, sim, após a
correção da inflaçáolo. Ford, Chrysler e Âmerican Motofs em-
pfegavam centenas de milhares de pessoas mais. Além deste
núcleo de mão de obra, a indús tria também criou milhões de
postos de trabalho periféricos de classe méüa em âreas como
condução, tepatações, segtúos e aluguer de viaturas.

107
claro que o setor da Intemet também oferece opornrnida-
des periféricas. A nova economia da informação é frequente-
mente elogiada como o grande equalizador. Âfinal, qualquer
pessoa pode escrever um blogue e nele passar publicidade, pu-
bücar um üvro eletrónico, vender coisas no eBay ou desenvolver
aplicações para o iPltone. Embora estas opornrnidades existam de
Íacto, são profundamente diferentes de todos aqueles sóüdos
postos de trabalho de classe média criados pela indústria auto-
móvel. É muito evidente que o rendimento gerado pelas ativida-
des em ünha tende quase sempre a seguir uma distribuição do
tipo «o vencedor ganha tudo». Embora em teoria a rnternet pos-
sa equalizar opornrnidades e demrb at às barreiras de entrada, os
verdadeiros desfechos que produz sáo quase sempre invariável e
profundamente desiguais.
se fizermos trm grâfico do tráfego que chega aos sítio s web,
receitas geradas de publicidade em linha, descarregamentos de
música da Âppstore da Apple ou da Google Play, ou qualquer
outro tema disponível em linha, iremos acabar por chegar a algo
muito próximo do que se pode ver no grâfico 3.3. Esta omni-
presente distribuição de cauda longa Qongtail) é essencial para os
modelos de negócio das empresas que dominam o setor da In-
ternet. Empresas como Google, eBay e Amazon são capazes de
geràt receitas a patr de todos os pontos na distribuição. Se uma

Gráfico 3.3. Modelo de üstribuição de cauda longa (l"nst"iD) /


/ O vencedor ganha tudo

108
empresa dominar um grande mercado, então a agreg ção dos
montantes ínfimos ao longo de toda a, cxtfrÍ?. tem como resulta-
do receitas totais que podem facilmente alcançar os milhares de
milhões.
Os mercados dos bens e. serviços que são suscetíveis de
àvàttçLt pàtr- a digitalizaçáo evoluem inevitavelmente Para este
modelo de distribuição «o vencedor ganha hrdo»». As vendas de
livros e música, anúncios classificados e aluguer de fi"Imes, por
exemplo, são cfescentemente dominadas Pof um minúsculo nú-
mefo de centros de distribuição em linha, e o fesultado óbvio
tem sido a eliminação de um grande número de Postos de traba-
lho para profissões como as de jornalista e emPregado de loias
de comércio retalhista.
A cauda longa é ótima quando é nossa. Contudo, quando
ocupâmos âpenas um único ponto na linha de distribuição; a
história é bastante diferente. Na cauda longâ, as receitas de gran-
de parte das atividades em linha rapidamente caem P^fa o nível
de uocos. Isto pode resultar se tivermos uma fonte alternativa
de renümento, ou Se Por acaso vivermos em casa dos nossos
pais. O ptoblema é que a tecnologia digital continua a transfor-
m^t as indústrias e um cada vez maior número dos postos de
trabalho que providenciam essa fonte pnmâria de rendimento
irá provavelmente desaparecer.
Conforme as pessoas perdem o fluxo de rendimento sep-
fo que as mantém na classe média, muito provavelmente tende-
ráo cadavez mais a voltar-se pafa estas opornrnidades de cauda
longa na economia digital. Alguns mais afortunados irão pro-
porcionaf os episódios e histórias de sucesso de que iremos
ouvir falag mas a esmagadora maioria teú, de lutar muito por
mantef tudo o que se aproxima do estilo de vida da classe mé-
dia. Como salientou o üsionário tecnológico Jaron Lanier, um
grande número de pessoas será provavelmente impelido pàta o
tipo de economia informal que podemos encontraf em países do
Terceiro Mundoll. Os iovens adultos que descobrirem a amaçáo

109
pela überdade da economia informal rapidamente irão descobrir
os seus reveses quando começarem a pensaf em mantef um lar,
educar filhos ou planeat vml reforma. É evidente que sempre
houve pessoas a viver à margem nos Estados unidos e em ou-
tras economias desenvolvidas, mas até certo ponto elas vivem à
custa da riqueza. genda pela massa ctítca das famílias da classe
média. A presença dessa sólida classe média é um dos princrpais
fatores que diferenciam um país desenvolvido de um país pobre
e a sua erosão está a tofnaf-se progressivamente mais eviden-
-te, sobretudo nos Estados Unidos.
Muitos dos tecno-otimistas provavelmente contestariam
est^ c tacteização, pois tendem à ver a tecnologa da informa-
ção como geralmente emancrpadora.Talvez não seia coincidên-
cia que eles também tenham sido muito bem-sucedidos na nova
economia. Os mais preeminentes otimistas digitais vivem tipica-
mente na extremidade esquerda da cauda longa ou, melhor
-
ainda, provavelmente fundaram uma empresa que detém toda a
distribuição. Num programa especial do canal de teleüsão pBS
emitido em 2072, questionou-se o inventor e futurista Ray
Kurzweil sobre a possibilidade de uma «divisão digitab» o que
- poderá
significa que só uma pequena percentagem da população
PfospefaÍ na nova economia da informação. Kurzweil fecusou a
ideia de tal divisão e pelo contrário âpontou p^r^ as tecnologias
emancrpadoras como os telefones móveis. Qualquer pessoa com
um smartpltone, disse, «transporta uma capacidade próxima de
milhares de milhões de dólares relativamente a tnnta ou quaren-
ta anos antes»»l2. o que ficou por dizer foi como o cidadão
médio pode aproveitâr essâ tecnologia. puta ter trm rendimento
tazoâvel.
É verdade que os telemóveis comprovadamente melhoram
os padrões de vida, mas isto foi documentado sobretudo Ílos
países em desenvolvimento que não possuem outra infraestruttr-
ra de comunicaçío. De longe a mais famosa história de sucesso

110
envolve os pescadores de sardinhas em Kerala., ttrrt^ rcg1áo ao
longo da costa sudoeste da Índia. Numa investigação pubücada
em 2007, o ecoÍlomista Robert Jensen descreveu como os tele-
móveis permitiram que os pescadores apurassem quais as al-
deias que ofereciam melhor pÍeço pelo seu pescadol3. Ântes do
advento da tecnologia sem fios, apofltart Par:à uma determinada
aldeia era um palpite que frequentemente resultava num desa-
certo entfe a ofena e a Procura. Contudo, com os seus Írovos
telemóveis, os pescadores pass Ltàm a saber exatamente onde
estavam os compradores e isto resultou no melhor funciorta.'
meoto do mercado, com preços mais estáveis e muito meÍros
despetdício.
Os pescadores de sardinha de Kerala tornaram-se trma es-
pécie de suporte-padrão par:a tecno-otimistas no que diz respei-
to aos países em desenvolvimento e a suâ história foi contada
em flrmerosos livros e artigos de revistasla. Embora os telemó-
veis sejam de inquestionável valor Par;a os pescadores do Tercei-
ro Mundo,há, poucos indícios a sugerit que os cidadãos méüos
nos países desenvolüdos ou, verdade seja dita, até nos países
pobres
-
possam tef sucesso a teítat algum rendimento dos
-
seus srua@bone; Mesmo os mais experimentados Programadores
acham extremamente difícil geta;t teceitas significativas com
aplicações para telemóveis e, desnecessário será üzet, a razáo
pti".rp"l para isso ê o tal omnipreseÍrte modelo de distribuição
de cauda longa. Se visitar qualquer um ou quase todos os fónrns
em linha povoados com progrâmadores Par:à Andruid ou iPltone,
muito provavelmente ká descobrir tópicos lamentando L taatlu'
teza. «o vencedor ganha ttrdo»»do ecossistema móvel e a dificul-
dade de fazer ünheiro com as apücações. Na prátic , Pata a
maioria das pessoas que perdem os seus empregos de classe mé-
dia, o acesso a trm sna@ltofie Pouco mais poderá oferecer além
da capacidade de pagarcm o jogo AugrJ Birds enquaÍrto esPeram
na frla do centro de emprego.

ttt
Uua quEsrÃo MoRAL

Se retomarmos o pensamento de duplicar um cêntimo co-


mo intermediário p^t^ o progresso exponencial da tecnologla di-
gltal, torna-se claro que o enorÍne saldo tecnológico resulta dos
esforços de incontáveis indivíduos e otg rttzàÇões ao longo de
décadas. Na verdade, a cur\ra do progresso pode ser traçada des-
de pelo menos a máquina diferencial de Chades Babb4ge do iní-
cio do século xvrr.
As inovações que se traduztam em fantâstica Ítqveze. e in-
fluência na afrial economia da informaÇão, embora certameÍrte
importaÍrtes, não têm comparrçáo efetiva com o trabalho de
desbravamento de pioneiros como Alan Turing ou John voÍl
Neumann. Â diferença é que até os progressos incrementados
podem agora aproveitar o extraordinário saldo acumulado. Num
certo sentido, os atuais inovadores de sucesso são um pouco co-
mo o corredor daMantona de Boston que em 1980 ficou famo-
so por se infiltrar furtivamente na corridl a" Lpenas um quilóme-
tro da linha da meta.
E claro que todos os inovadores estão sobre os ombros da-
queles que os antecederam. Isto era certamente verdade quando
Henry Fotd introduziu o Modelo T. Connrdo, como vimos, a tec-
nologia da informaçáo é substancialmente diferente. A capacida-
de única da tecnologia da informaçã,o de espalhar inteügência
mecânica pelas otgàntzações puta substituir trabalhadores, e a
sua propensão p^t^ criar por toda a púte cenários do tipo «o
vencedor ganha tudo» iráo ter graves impücações tanto na eco-
nomia como na sociedade.
Em algum momeÍlto, poderemos precisar de defrontar
uma questão moral fundamental: deverá a população em geral
ter alguma espécie de direito sobre o saldo acumulado da tecno-
logia? O público de facto beneficia bastante da tecnologia digital
acelerada em m^tét:a de custos mais baixos, comodidade e üvre
acesso à informaçáo e entretenimento. Mas isso leva-nos de
^o
1ti2
voltâ ao problema com o argumeÍrto de Kurzweil acetc dos te-
lemóveis: essas coisas não p4gam a rcnda de casa.
Também devemos manter ern mente que muita da pesqui-
sa fundamental que permitiu progredir no setof da tecnologia de
informação foi financiada pelos contribuintes americanos.
A Defense Âdvanced Research Projects Agency (DARPA) criou
e financiou a rede informática que acabou por se transfomat Ítà
Internet.'k A Lei de Moore surgiu, em parte, devido à investiga-
ção conduzida pela instituição universitária e financiada pela
National Science Foundation. A Semiconductor Industry Asso-
ciation, o comité de ação política da indústria, exerce ativamente
pressão para o aumento das vetbas federais Púa a investigação.
A atual tecnologia informâaca existe em alguma medida porque
milhões de contribuintes da classe média deram suporte ao fi-
nanciameÍrto federal da pesqúsa fundamental nas décadas que
sucederam à Segunda Guerra Mundial. Podemos razoavelmente
acreditaf que aqueles contribuintes ofeteceram o seu apoio na
expectativa de que os frutos daquela pesquisa viriam criar um
futuro mais próspero P^ta os seus filhos e netos. Porém, as ten-
dências que analisámos no último caPítulo sugerem que nos diri-
gimos par:e.um desfecho muito diferente.
Par:alâ da questão moral sobre se trmâ elite mínima deveria
poder, com efeito, deter a propriedade do capital tecnológico
acumulado pela sociedade,hâ também questôes práticas quanto
à saúde geral de uma economi^ em que a desigualdade dos ren-
dimentos se torna excessivamente extfema. A continuidade do
progresso depende de um mercado vibrante Par:" as inovações
futuras e isso, em contÍaparAda, exige uma distribúçáo razoáxel
do poder de compra.
Nos últimos capítulos iremos ver com mais detalhe algu-
mas das implicações gerais tanto sociais como económicas da

* A DARPA também assegurou o supofte financeiro inicid do Siri (agott a tecnologia


de assistência viraral da Apple) e subscreveu o desenvolvimento dos novos chipes de
computação cognitiva SyNAPSE da IBM.

tL3
implacável acelençáo da tecnologia digrtal. Mas primeiro, vamos
ver como estas inovações estão cada vez mais affrcaçar os em-
^
pregos mais qualificados, de trabalhadores com formação uni-
versitária ou técnico-profi ssional.

tt4
Capítulo 4
EMPREGOS DE COI-ARINHO BRANCO EM RISCO

Em 11 de ouflrbro de 2009, os Los Ângeles Angels vence-


ram os Boston Red Socks nosplayofs da American Irague e coÍl-
quisUram o direito de defrontar os Neur York Yankees pelo título
de campeáo da liga e enüada nas §7odd Sedes. Foi uma vitória
especidmente emotiva púL os Angels Porque aPenas seis meses
aÍrtes um dos seus mais promissores iogadores, o lançador Nick
Aderüart, fora vítima motal de um acidente rodoüário com um
camionisa embriagado. Um iomalisa desportivo iniciou um a:ti-
go sobre o âssunto, descrevendo o iogo deste modo:

As coisas estavam sombús PaÍa os Â4gels a perder por dois runs


no nono tempo, mas graças a uÍna batida simples de Vladimir Guerre-
ro os Angels fecupefaÍam pare. aÍTuÍtcaÍ uma vitória de7-6 frente aos
Boston Red Sox em Fenway Parh no domingo.
Guerrero bateu pâÍa os dois rans dos Angels. Conseguiu 2-4 no
ltone run.
<<Quando o que estava em causa era honrar Nick Adenharq e o
que aconteceu em abril em Ânaheim, sim, foi provavelmente a maior
batida [da minha carreita]», disse Guerrero, «Porque a estou a dedicar a
um antigo companheiro de equipa um colçga que se foi.»
Guerrero tem sido bom na base durante toda a época, especial-
mente em fogos diurnos. Durante os dias de iogos, Guerrero tem
um OPS de .794 (on base plus shgir§M. Bateu cinco bome ruu e Pro-
duziu 13 runs em26 iogos diurnosl.

M OPS: medida da capacidade de o batedor prodtzb runs.

115
O autor deste texto provâvelmente não corre perigo ime-
diato de receber qualquer prémio pela sua escrita. Apesar disso,
a narr:atrva é um feito considerável: não por ser legível, gramati-
calmente correta e umâ descrição precisa do iogo de basebol,
mas porque o autor foi um programa de computador.
O em questão, chamado StatsMonkry, foi criado por
sofiware
esttrdantes e investigadores no Intelligent Information Laboratory
da Universidade Norúwestern. StatsMonkry foi concebido p^ta
automatizar datos desportivos pela transformação de dados
objetivos sobre um determinado iogo numa nàrtait,va aliciante.
o sistemavu além da simples listagem dos factos; emvez disso,
escfeve uma história que incofpora os mesmos atributos essen-
ciais que um jornalista desportivo quereria incluir no seu texto.
Efetua uma análise estatística para discernir os factos notáveis
ocorridos durante um jogo; depois, gera um texto em linguagem
natural que sumartza a dinâmica genl do jogo ao mesmo tempo
que foca as iogadas mais importantes e os jogadores-chave que
contribuíram para a história.
Em 2010, os investigadores da Universidade Norúwestern
que supervisionaram a eqúpa de estudaÍrtes de ciência computâ-
cional e de jornalismo que trabalharam no StatsMonka tetrfltrum
capltal de risco e fundaram uma nova empresa, Narrative Scien-
ce, Inc., pat^ comerciahzx a tecnologla. A empresa contratou
uma equipa de cientistas de computação e engenheiros de topo;
depois descartou o código original do StatsMonkeJ e coÍtstruiu
uma máquina de inteligência artrficial muito mais poderosa e
abrangente, a puill.
A tecnologra da Narrative science é usada por meios desta-
cados, incluind o a Forbes, p^ta produzir artigos automati zados
numa variedade de âreas, incluindo desporto, negócios e políti-
ca. o uma nova história aproxim ada-
software da empresa gera
mente a cada trinta segundos, e muitas delas são pubücadas em
sítios web latgamente conhecidos que preferem não reconhecer o

tt6
uso deste senriço. Numa conferência industrid de 2017, o autor
da lWired, Steven L.ry, incitou Kristian Hammond, cofundador
da Narrative Science, a^y^nçaÍ trma previsão da percentagem de
novos artigos que seriam escritos por algoritmos nos próximos
quinze aÍros. A sua resposta: mais de 90 por cento2.
A Narative Science tem os olhos postos em muito mais
do que o negócio das notícias . A Quill foi concebida para ser
uma máquina analítrca e criadora de narrativas para uso geral,
cupuz de prodazir drtórios de alta qualidade tânto put^ con-
snmo interno como extemo de uma vasta gàma de atividades.
Começa por recolher informações de vârias fontes, incluindo
bases de dados transacionais, sistemas de relatórios financeiros e
comerciais, sítios web e até da imprensa social. Empreende então
uma análise concebid^ p^ra extrâir os factos e perspetivas mais
importantes e interessantes. Finalmente, combina toda esta in-
fotmação numa nuffàtiva coefente que a empresa afirma ser
comparável à dos melhores analistas humanos. Uma vez confi-
gurado, o sistema Quill pode geruÍ informações sobre negócios
quase instantaneamente e eotregá-las continuamente tude
-
sem intervenção humana3. Um dos primeiros financiadores da
Narrative Science foi a In-Q-Tel, o braço de capital de risco da
CIA, e as feramentas da empresa irão provavelmente ser usadas
p^r^ transformar automaticamente as torrentes de dados em
bruto çeligidos pela comunidade dos serriços secretos amenca-
nos num formato narrativo facilmente compreensível.
A tecnologia Quill mostra até que ponto tarefas que eram
outrora teffeno de profissionais com elevada formação universi-
tana são vulneráveis à automanzaçáo. Evidentemente que o tra-
balho baseado no conhecimento manifestamente exige trmâ âm-
pla gama de qualificações. Entre outras coisas, um analista pode
precisar de saber como pesquisar informação a partir de uma va-
riedade de sistemas, desenvolver modelos estatísticos ou finan-
ceiros, e depois escrever relatórios e apresentações inteügíveis.

tt1
A escrita gu€, afinal, tem no mínimo tanto de arte como de
ciência
- poderia parccer uma das mais improváveis tarefas a
-
attomatzar. No entanto, iâ o foi e os algoritmos estão a ser ra-
pidamente aperfeiçoados. De facto, porque os trabalhos basea-
dos no conhecimento só podem ser automatizados com o uso
de software, est^s funções podem, em muitos casos, revelar-se
mais vulneráveis do que as que exigem meÍros qualificações e
envolvem manipulação fisica.
Sucede também que a escrita é uma ârea em que os patrões
coÍrstântemeÍrte se queixam de que os licenciados universitários
não são eficientes. Um estudo recente de empregadores apurou
que cerca de metade dos universitários recentemente contrata-
dos com dois anos de curso, e mais de um quarto dos que pos-
suem cursos de quatro anos, apresentam aptidões muito pobres
em escrita, e, em alguns casos, até em leituraa. Se, como afttma a
Narrative Science, o sofíware inteligente pode começar a nva)izar
com os analistas humanos mais qualificados, o crescimento funrro
do emprego baseado no conhecimento está em causa púz. os li-
cenciados universitários, especialmente os menos preparados.

Mncaoaoos E ApRENDTzÂcEM uscÂNrca

A máquina de escrita tt tr^tr,:r:a Pnill é apenas uma das mui-


tas novas aplicações de sofiware que estão a ser desenvolvidas pa-
ra aproveitamento das enormes quantidades de informação que
agorz se encoÍrtram coligidas e atmazenadas por empresas, orgâ-
nizações e govemos na economia global. Segundo uma estimati-
tra, à quantidade total de dados globalmente armrazertados éryo-
ra medida em milhões de exabytes (um exabyte equivale a mil
milhões de gigabytes), e este número está suieito à sua própria
Iri de Moore tal como a aceleraçáo, a duplicar sensivelmente
-
em cada três anoss. Quase todos estes dados estão agola Ltmaze-
nados em formato digital e estão portânto diretamente acessíveis

118
a computadores. Só os servidores da Google manipulam cetca,
de 24 petabytes (um milhão de gigabytes) principalmente
-
de infotmaçáo que os seus milhões de utilizadores pesquisam
diariamente6.
Todos estes dados chegam de uma multiplicidade de fontes
diferentes. Só na Intemet,hâúsias a sítios web,peüdos de pes-
quisa, correio eletrónico, interações de nedia sociais e cliques de
publicidade,pata citar apenas alguns exemplos. No mundo em-
presarial há transações, coÍrtactos de clientes, comunicações
internas e informações recolhidas em sistemas financeiros,
contabilísticos e de ruarketing. Lâ fon, no mundo real, seÍlsores
captam continuamente dados operacionais em tempo real nas
fábricas, hospitais, automóveis, âeronaves e em inumeráveis ou-
tros dispositivos do consumidor e máquinas indusriais.
Um cientista de computação classificaria a esmagadora
maioria desta informação como <<desestruturada»>. Por outras
palavras, é captada numa variedade de formatos que frequente-
mente são dificeis de combinar ou compaÍaÍ.Isto é muito dife-
rente dos tradicionais sistemas de bases de dados relacionais em
que a informaçío estâ cuidadosâmente organizada em filas e co-
lunas coerentes que tornam mais útpida, fiável e precisa a sua
pesquisa e recupetaçáo. A natureza desestnrturada dos megada-
dos tem de conduztt ao desenvolvimento de novas feramentas
especificamente preparadus par^ dar sentido à informaçáo coligi-
da nas diversas fontes. O rápido aperfeiçoamento verificado
nesta âtea é apenas mais um exemplo de como, pelo meÍros
nnm sentido limiado, os computadores estão a começat a tnvl-
dit competências que outrora etam exclusivas dos seres huma-
nos. A capacidade de processar coÍrtinuadamente um fluxo de
informação desestnrttrrad^ pattlrr de fontes espalhadas à nossa
^
vola é, afrnal, trma das coisas para as quais o homem está exce-
cionalmente adaptado. Claro que a diferença é que no domínio
dos megadados os computadores podem desempenhar aquela
função numa escala gue, pata, uma pessoa, seria impossível.

119
Os megadados estão tet um impacte revolucionário ntrma am-
^
pla gama de áreas de atividade, incluindo negócios, política, ffie-
dicina e praticamente todos os campos das ciências naturais e
sociais.
As grandes cadeias de comércio retalhista confiam Íros me-
gadados púa obter um nível de conhecimento sem precedentes
sobre as preferências de compra de cada cliente, permitindo-lhes
montar ofertas didgidas com a muot precisão que aumentem as
suas receitas e âo mesmo tempo ajudem a construir a frdelizaçáo
dos cüentes. Os comandos de polícia de todo o globo estão a
voltar-se par^ a anáüse algorítmicl p^ra preverem os locais e os
momentos em que haverâ maor probabilidade de ocorrência de
crimes e depois deslocarem âs suas forças em conformidade.
O portal de dados da cidade de Chicago permite aos residentes a
consulta de tendências histódcas e de dados do tempo real nu-
ma variedade de áreas que captam o fluxo e o refluxo da vida
numa cidade importante inclúndo o consumo de energia,
-
crime, medições de desempenho nos tÍansportes, escolas e cui-
dados de saúde, e até o número de buracos no pavimento rcpa-
rados nnm determinado período. As ferramentas que proporcio-
nam novas formas de visualizaÍ os dados recolhidos a partir das
interações regisadas nas redes sociais, bem como seÍrsores mon-
ados em portas, tomiquetes e escadas oferecem aos planificado-
res urbanísticos e aos dirigentes municipais representações gráfi-
cas do modo como as pessoas se movimentâm e inter4gem com
os ambientes urbanos, desenvolvimento que pode conduzt dt-
retaJÍrente a cidades mais eficientes e mais habitáveis.
Connrdo, há um potencial lado negro. A Tatget, Inc., ofe-
Íece um exemplo muito mais coÍltroverso de como podem ser
aproveitadas as vastas quantidades de informação extraordina=
riamente pormenonzada sobre clientes. Um cientista de dados
que trabalhava pat^ a empresa descobriu um complexo conjunto
de correlações que envolviam a compra de cerca de vinte e cinco

tm
produtos diferentes de saúde e cosméaca, que era um poderoso
instrumento de previsão precoce de gravidezes. Â análise da em-
presa podia até calcular a data exuta, do parto das mulheres, com
um elevado grau de exatidão. A Target começou a bombardear
as mulheres com ofertas de produtos relacionados com a gravt-
dez numa fase tão precoce que, em alguns casos, algumas dessas
mulheres não tinham sequer partilhado a novidade com os seus
famüarcs mais próximos. Num artigo publicado no início de
2012, o Nea York Timu noticiou um caso em que o pai de uma
adolescente apresentou uma reclamação funto da gerência da 1o-
ia acerca de uma promoção enviada por correio p^t^ a casa da
sua famfli^, p^t^ depois descobrir que aTarget, de facto, sabia
mais do que ele7. Âlguns críticos temem que esta bastante assus-
tadora história seja apenas o começo e que os megadados irão
progressivamente passar a ser utilizados para getut previsões que
potencialmente violam a privacidade e talvez até a liberdade.
Os conhecimentos recolhidos dos megadados surgem in-
teiramente da correlaçío e nada dizem sobre as causas do fenó-
meno que está a sef estudado. um dgoritrno pode descobrir que
se A é verdade, B provavelmente também será. Mas não pode
üzet se A causa B ou vice-versa ou se possivelmente tanto
-
A como B são causados por um fator externo. Contudo, em
muitos casos e especialmente no domínio dos negócios em que
a principal medida do sucesso é o lucro e L efrcâ,cia mais do
que a profunda compfeensão, a correlação por si só pode ter um
valor extraordinário. Os megadados podem oferecer um nível
sem precedentes de conhecimento sobre uma vasta gama de
setores: tudo, desde opetação de uma simples máquina ao de-
^
sempenho global de uma empresa multinacional, pode ser anah-
sado com um grau de pormenor que anteriotmente teria sido
impossível.
A montanha perÍnâneÍrtemente crescente de dados é cada
vez mais vista como um recurso que pode ser explorado pma,
obter valor tanto hoie como no futuro. Exatamente como as
-
tizl
indústdas extrativas, como as de óleo e gás, beneficiam conti-
nuamente dos progressos técnicos, é tazoâvel pensar que a c pa-
cidade acelenda dos compuadores e o aperfeiçoamento de mfiwarv
e das técnicas de anáüs e rráo permitir às grandes empresas des-
cobrir novos conhecimentos que condazitáo diretamente ao
aumento do lucro. Na verdade, essa expectativa por parte de
investidores é provavelmente o que confere a empresas de da-
dos intensivos como o Facebook avaliações tão importantes.
A aprenüzagem automátic técnica que permite a um
-
computador perscÍutar os dados e, com efeito, escrever o seu
próprio programa com base nas relações estatísticas que desco-
brir é um dos meios mais efrcazes de aproveitar todo aquele
-
valor. A aprenüzagem automática envolve geralmente duas fa-
ses: nm algoritmo começa por ser prepando sobre informação
conhecida e é depois libertado paru resolver problemas seme-
lhantes com novas informações. Uma aahzaçáo omnipresente
da aprenüzagem automática encontra-se nos fi"ltros de span de
correio eletrónico. O algoritrno pode seÍ prepando p^t^ proces-
sar milhões de mensagens de correio eletrónico que foram pre-
viamente classificadas ou não como sPam.Ninguém se senta e
programa diretamente o sistema para reconhecer toda e qual-
quer possível transfomaçáo tipográfica da palavn «Viagro». Pe-
lo contrário, o software esclarece isso por si mesmo. O resultado
é uma aplicação que pode automaticamente identifrcar a muona
das mens4gens de correio sem interesse, e pode também, com o
tempo, aperfeiçoar- se e adaptat- se continuadamente conforme
mais exemplos ficam disponíveis. Os algoritmos de aprenüza-
gem automática baseados nos mesmos princípios esseÍrciais re-
comendam üvros na Amazon.com, filmes no Netflix e poten-
ciais encontros em Match.com.
Uma das mais extraordinárias demonstrações da capacidade
de aptendizagem automática surgiu quando a Google apresentou
a sua púpna ferramenta de tradução em ünha. Os seus algorit-
mos usavam aquilo a que poderíamos chamar uma abordagem

1?2
ao problema do tipo çedra de Rosetar», analisando e comparuÍt-
do milhões de páginas de texto que fota iâ tradvzido para múlti-
plos idiomas. A equipa de desenvolvimento da Google começou
por concentrar-se em documentos oficiais prepma'dos pelas
Nações Unidas e depois estendeu o seu esforço à web, onde o
motof de pesquisa da empresa conseguiu locahzar uma multipli-
cidade de exemplos que se mansforÍnaram no alimento dos seus
voÍazes algoritmos de autoaprenüzagem. O impressionante nú-
mero de documentos usados pata, ptepairat o sistema punha a
um canto ttrdo o que atê entào àpartecetu. Ftanz Och, o cientisa
de computação que conduziu o esforço, verificou que a equipa
construíra «Modelos muito, muito amplos de ünguagem, muito
maiores do que alguém alguma vez constnfua na história da hu-
manidade»8.
Em 2005, a Goo gle fez enüat o seu sistema no concurso
anual de tradução mecànrca otgarttz do pela Agência Nacional
de Padrões e Tecnologia, que integta o Departamento de Co-
mércio dos Estados Unidos e que publica padrões de medida.
Os algoritmos de aprendizagem automática da Google consegui-
ram vencer facilmente a competição que de um modo geral
-
englobava especialistas idiomáticos e linguistas que procuravam
ativamente programar os seus sistemas de traduçào para atraves-
sarem uma miríade de regras gramaticais inconsistentes e confli-
tuais que caÍacterizam os idiomas. A lição essencial a reítat é
guê, quando os coniuntos de dados são suficientemente grandes,
o conhecimento encapsulado em toda essa informação frequen-
temente leva a melhor sobre os esforços dos melhores progra-
madores. O sistema da Google ainda rÃo é competitivo com os
esforços de tradutores humanos qualificados, mas oferece tradu-
ção bidirecional entre mais de quinhentos pares de idiomas. Isto
representa um progresso verdadeiramente pernrrbador ta c Pa-
cidade de comunicação: pela primeira vez rLà história do ho-
mem, quase qualquer pessoa pode üvre e instantaneamente ob-
tef uma tradução grosseira de quase qualquer documento em
qualquer língua.

123
Embora haia uma série de abordagens diferentes à aprendi-
z^gem automática, runa das mais poderosas e fascinantes técni-
cas envolve o uso de redes neurais artificiais ou sistemas que
-
são concebidos usando os mesmos princípios operativos do cé-
rebro humano. O cérebro é composto por algo como 100 mi-
lhares de milhões de células neurais e por muitos biüões de
ligações entre sl2s
-
mas é possível construir poderosos siste-
-
mas de aptendizagem usando configurações bastante mais rudi-
mentafes de neurónios simulados.
Um único neurónio funciona um pouco como os brinque-
dos de plástico que saltam de uma caixa e que são muito popula-
res iunto das crianças mais pequenas. Quando a cianç carrreg
no botão, uma figura colorida salta 12h1sz :uml personagem
-
de animaçío ou um animal. Se pressionar o botão suavemente
não acontece nada. Pressione com um pouco mais de força e
continua a náo acontecet nada. Mas se exceder um certo grau de
força, a figorz salta. Um neurónio funciona essencialmente da
mesma maneir4 exceto que o botão de ativação pode ser pres-
sionado por trma combinação de múltiplos inputs.
Para visualizar uma rede neural, imagine uma máquina de
Rube Goldberg na qual vários destes brinquedos saltitantes es-
tão dispostos no chão em Íilas. Três dedos mecânicos estão
prontos sobte cada, botão de ativação paru cada brinquedo. Em
vez de ter trma figura a saltag os brinquedos estão configurados
de modo que quando um deles é ativado, Íaz alguns dos dedos
mecânicos na fila seguinte de brinquedos pressionarem os seus
próprios botões. A chave para que a rede neural tenha a capaci-
dade de aprender é que a força com que cada dedo pressiona o
seu botão respetivo possa ser ajustada.
Para exercitar a rede neural, tem de alimentar a primein frla
de neurónios com informação conhecida. Por exemplo, imagine
que está a alimentar imagens de letras manuscritas. Os dados de
ifiPrlt fazem com que alguns dos dedos mecânicos exerçam pres-
são com fotça vanâvel conforme a sua calibragem. Isso, por sua

tat
vez, Íaz com que alguns dos neurónios se ativem e pressionem
os botões da fila seguinte. O output ou a resposta é reuni-
- -
do na ultima fila de neurónios. Neste caso, o oatput será um có-
digo binário que identifrca a letra do alfabeto que coffesponde à
imagem de input.Inicialmente, a resposta setâ ettada, mas a Íros-
sa máquina também compreende um mecanismo de compara-
ção e de retorno. O output é comparado com a respost^ cottet^
conhecida e isto resulta automaticamente em ajustamentos aos
dedos mecânicos em cada fila, o 9ue, por sua vez, alteta a se-
quência de ativação dos neurónios. À medida que a rede é pre-
panda com milhares de imagens conhecidas e depois a força
com que os dedos pressionam é continuamente recalibrada, à te-
de melh ora cada vez mais na produção da resPosta correta.
Quando as coisas alcançam o ponto em que as respostas já não
têm melhoramento possível, a rede está efetivamente prepanda.
Isto é, em traços gerais, a fotma como as redes neurais po-
dem ser usadas para reconhecer imagens ou palavras faladas, tn-
dr:r:t idiomas, ou desempenhar uma variedade de outras arefas.
O resultado é um prograrma essencialmente uma lista de to-
-
das as calibrações finais p^ra os dedos mecânicos pousarem so-
bre os botões de ativação dos nerónios que pode ser usado
-
pala configurar Írovas tedes neurais, c p^zes de gerarem auto-
maticamente fespostâs a partir de novos dados.
As redes neurais amficiais foram primeiramente concebi-
das e experimentadas durante os finais dos anos 40 e têm vindo
desde há muito a ser usadas p^t^ o reconhecimento de padrões.
Contudo, os ultimos anos têm assistido a vários e importantes
avanços que result^tatrt em progressos significativos no desem-
penho, especialmente quando são utilizrdas multiplas camadas
de neurónios 1sçnsleg^ que acabou por se chamar «aPren-
- ^
üzagem profunda^»». Os sistemas de aprenüzagem profunda ah-
mentam iâ a capacidade de reconhecimento da fala do Siri da
Âpple e estão preparados para acelerat o Progresso num^ vust^
game. de apücações que utilizam padrões de análise e reconheci-
meÍr.to. Por exemplo, uma rede neural de aprendizagem profunda

t\s
desenhada em 2071 por cientistas da Universidade de Lugano,
na Súça, conseguiu identificâr corretamente mais de 99 por cen-
to das imagens numa grande base de dados de sinais de trânsito
grau de precisão que excedeu o de especialistas humanos que
-compeúam contra o sistema. Investigadores do Facebook con-
seguiram igualmente desenvolver um sistema experimental, com
nove níveis de neuónios artificiais, que pode determinar corre-
tamente 97,25 por cento das vezes se duas fotografias são da
mesma pessoa, mesmo se as condições de iluminação e oriena-
ção dos rostos variarem, o que contrasta com 97,53 por cento
de precisáo para os observadores humanose.
Geoffrey Hinton, da Universidade de Toronto, um dos mais
imporantes investigadores neste campo, saliena que a tecnologia
de aprenüztgem profunda «cresce de forma maravilhosa. Basi-
camente, só é preciso continuar a tomâ-la maior e mais râpida, e
ela melh otatâ»>r0. Por outras palavras, mesmo sem contar com
prováveis otimizações futuras no seu modelo, os sistemas de
aprendizagem mecânicos alimentados por redes de aprenüza-
gem profunda quâse certamente irão assistir a um exuaordinário
progresso, simplesmente como resultado da I-ei de Moore.
Os megadados e os algoritrnos inteligentes que os acompa-
nham estão ter impacte imediato nos locais de uabalho e nas
^
carreiras conforme os patrões, especialmente as grandes em-
presas, procuram mais e mais uma miríade de medições e esta-
tísticas relativamente ao trabalho e interações sociais dos seus
empregados. As empresas confiam caida vez mus na chamada
çeople analytics» (anáüse dos comportamentos pessoais no local
de trabalho) como forma de contratar, despedir, avahar e promo-
ver trabalhadores. A quantidade de informação que está a ser
recolhida sobre as pessoas e o trabalho em que se ocupam é espan-
tosa. Algumas empresas regisam cada batida no teclado efetuada
por cada empregado. Correio eletrónico, registos telefónicos, pes-
quisas na web, consultas a bases de dados e acessos a ficheiros,
eflttad^ e saída das instalações, e incalculáveis números de ou-
tros tipos de informação podem também ser recolhidos com
-
126
ou sem conhecimento dos trabalhadoresll. Emborà o propósito
inicial da recolha e anâhse de toda esta informação seja promo-
ver uma gestão mais eftcaz e avaliar o desempenho dos empre-
gados, poderá acabat por ser usada pate. outros fins incluindo
-
o desenvolvimento de sofiware pat^ Lrttomuttzar muito do uaba-
lho que estÁ a ser desempenhado.
É provável que a revolução dos megadados venha a ter
duas impücações especialmente importantes para as ocupações
com base no conhecimento. Primeira, os dados captados po-
dem, em muitos casos, conduzir à automaazaçáo direta de tare-
fas e trabalhos específicos. Tal como uma pessoa pode estrdar o
registo histótico e depois execuar tarcÍts complementâres espe-
cíficas parz- aprender nm novo uabalho, os algoritmos inteügen-
tes irão frequentemente ser bem-sucedidos usando no fundo a
mesma abordagem. Considere-se, pot exemplo, eue em novem-
bro de 2073 a Google registou uma patente sobre um sistema
concebido púL gerar automatica^rnente coreio eletrónico Perso-
nalizado e respost^s parl redes sociaisl2. O sistema funciona co-
meçando por analisar os antigos enails de uma pessoâ e as suas
interações Íras redes sociais. Com base no que aprende, começa
então a escrever automaticamente respostas para futuros ernails,
tweets ou publicações em blogues, e fâ-lo utilizando o estilo e o
tom usual da pessoa.f, farctl tmarglflLt um sistema assim a acabat
por ser usado para automatiz^r gràírde parte das comunicações
de rotina.
Os carros automatizados da Google, apresentados pela pri-
meira vez em 2071, providenciarão igualmente um importante
conhecimento para" o flrmo que a automatizaçáo orientada P^ra
a informaçáo irá seguir. A Google náo avmÇou Para replicar a
maneira como uma pessoa conduz de facto, isso estaria além
-
das capacidades atuais da inteligência artificial. Em vez disso,
simplificou o desafio concebendo um poderoso sistema de pro-
cessamento de dados e depois pôJo sobre rodas. Os caros da
Google navegam com base na consciência da localizaçío precisa
via GPS coniuntamente com enormes quantidades de dados

127
geográficos muitíssimo pormenorizados. Como é evidente, os
carros ambém têm radares, detetotes lasere outros sistemas que
proporcionam um fluxo contínuo de informaçào em tempo real
que permitem que o carro se adapte às novas situações, como
um peão que sai de repente do passeio. A condução pode não
ser uma profissão de colarinho branco, mas a estratêgpa gerz/-
usada pela Google pode ser alargada a muitas outras áreas: em
primeiro lugar, o emprego em massa de grandes quantidades de
dados históricos para cítaÍ um «mapo» geral que irá permitir aos
algoritrnos a definição do seu caminho através de tarefas de roti-
na. A seguir, incoqporação de sistemas de autoaprcndizagem que
se podem aüptar às variações ou a situações imprevisíveis. Muito
provavelmente, o resultado serâ sofiware inteügente que pode de-
sempenhar muitas tarefas baseadas no conhecimento com um
elevado grau de confiança.
Em segundo lug^t, e provavelmente mais significativo, o
impacte nos trabalhos de conhecimento ttâ oconer como conse-
quência da maneira como os megadados transformam as organi-
zações e os métodos com que são geridas. Os megadados e os
algoritmos de previsão têm o potencial de transformar a. flàt1t-
reza e o número de trabalhos com base no conhecimento de or-
ganizações e indústrias em geral. As previsões que se podem
exttair da informaçã,o irã,o progressivamente ser usadas puta.
substituir qualidades humanas como a experiência e o discerni-
mento. Conforme os gestores de topo forem progressivamente
usando a tomada de decisões determinada por dados e dirigida por
ferramenas automátic s, a infraestnrnrra humana de análise e ges-
tão ttáo deiy,aú de diminuir. Onde hoje há uma equipa de trabalha-
dores do corüecimento que coliçm informação e apresentam aflâ-
üses a múltiplos níveis de gestão, acabaú" por existir um único
gestor e um poderoso algoritmo. Âs otgaÃlaarções irão provavel-
mente nivelar-se. As camadas de çstão intermédi a iúo evaporaÍ-se

128
e muitos dos trabalhos desempenhados, tanto pof empre-
^got^
gados administrativos como por experientes analistas , ir:ío desa-
parecef.
A §TorkFusion, uma empresa sturt-up sediada na cidade de
Nova Iorque, proporciona trm exemplo especialmente vívido do
impacte extraordinário que a automaúzrçào de colarinho branco
provavelmente terá nas otgaÍttza,ções. A empresa dispontbihza
pala grandes empresas uma plataforma de software inteligente
que comatü quase completamente a execução de projetos que
anteriores eram de trabalho intensivo, Íruma combinação de
cmad murcinge autom aízação.
O software da §TorkFusion começa por anaüsar o proieto
pata determinar que tarefas podem ser automatizadas direta-
mente, as que podem ser distribuídas em croud sourcing e as que
devem ser desempenhadas por profissionais da empresa. Pode
depois pubücar automaticamente listas de tarcfas em siaos web
como Elance ou Craiglist e gerir o recnrtamento e seleção de
trabalhadores quúficados por conta própria. Assim que os tra-
balhadores são escolhidos, o sofiware distribui tarefas e avdia os
desempenhos. Fá-lo, em pârte, pedindo aos trabalhadores pot
conta própria para responderem a Pergunbs Pâra as quais iâ sa-
be a resposta, como um teste continuado ao rigor dos trabalha-
dores. Mantém registo de medições como a npidez dactilográfi-
ca e combina automaticamente tatefas com as competências de
cada um dos indivíduos. Se determinada pess oa náo for capaz
de completar umâ tarefa, o sistema imediatamente atribui essa
atividade a alguém com as necessárias aptidões.
Embora o software automatize pràt:,camente toda a gestão
do proieto e reduza em grande medida â necessidade de empre-
gados da empresa, este tipo de abordagem cria, de facto, oportu-
nidades purà trabalhadores por conta própria. Mas a história não
acaba aqú. Conforme os trabalhadores completam as tarefas
que thes são auibuídas, os algoritmos de aprenüzagem mecâni-
ca da §TorkFusion prosseguem continuamente a procrúâr opor-
tunidades para automatizat ainda mais o processo. Por outras

t29
palavras, mesmo enquanto os tabalhadores por conta própria
trabalham sob a direção do sistema, eles estão simultaneamente
a getat dados de formaçã,o que pouco a pouco levatã,o à sua
substitnição pela completa automatrzaçío.
Um dos primeiros projetos da empresa envolveu a recolha
de informaçáo necessáriàpat^ attaahzx um conjtrnto de 40 000
registos. Ântes, o cliente em causa executava este processo
anualmente com recurso ao quadro de pessoal da empresa com
um custo de cerca de quatro dólares por registo. Depois de pas-
sar a utiltzar a plataforma §TorkFusion, o cliente conseguiu pas-
sar a adrdizat os registos mensalmente com um custo de apenas
20 cêntimos por registo. A §TorkFusion descobriu que, à medi-
da que os algoritÍnos de aprendizagem mecânica do sistema pro-
gressivamente automatizam o pfocesso, os custos caem em re-
gra 50 por cento ao fim de um ano e ainda outros 25 por cento
após um segundo ano de operaçáol3.

ConapuraçÃo cocNrrrvA p, <> l7arsoN DA IBM


No outono de 2004, o executivo da IBM Chades Lickel
jantou com uma pequena equipa de investigadores numa steak-
ltouse perto de Poughkeepsie, em Nova Iorque. Os membros do
grupo frcatam desconcertados quando, precisamente às dezano-
ve horas, as pessoas começàtàm subitamente a levantar-se das
suas mesas para se juntarem à volta de uma televisão na âtea do
bar. Isso porque Ken Jennings, que iâ nnha conseguido vencer
mais de cinquenta sessões consecutivas do concurso televisivo
Jeopar$t!, ia mais uma vez tefltaÍ aumentar a sua já histórica série
de vitórias. Lickel reparou que os clientes do restauÍante esta-
vam tão interessados no concrrso que abandonaram o ianta4
regressando às mesus par:a tcabarcm de comer os seus bifes
^pe-
nas depois do concurso terminarla.
Este incidente, pelo menos de acordo com muitos relatos,
marcou a génese da ideia de construir um computador capaz de

ilt0
iogar e vencer os melhores campeões humanos do Jeopardl!*
A IBM tinha um longo registo de investimento em projetos am-
biciosos chamados «grandes desafios» que sucessivamente foram
a montra da tecnologia da empresa, embora distribúndo uma
espécie de ruído orgânico de rnarketing de que ela nã,o pode ser
comprada a qualquer preço. Num grande desafio anterior, mais
de sete anos antes, o computador Dee? Blse da IBM vencera o
campeão mundial de xadrez Gaty Kasparov num encontro de
seis partidas acontecimento que ligou pâra sempre m^tca
-
IBM ao momento histórico em que pela primeira vez uma mâ-
^

quina conseguiu o domínio num iogo de xadrez. Os executivos


da IBM queriam um novo grande desafio que cativasse o inte-
resse do público e posicionasse a empresa corno um claro líder
tecnológico e, em especial, combatesse qualquer perceção de
-
que a banrta da inovaçáo na tecnologia da informaçáo tinha pas-
sado do BigBlue p^t^ a Google ou parz empresas start-up qae
emergiam em Siücon Valley.
À medida que a ideia de um grande desafio basado no Jeo-
pn dJ!- que culminaria rum eÍrcontro televisivo entre os melho-
res concoffentes humanos e um computador da IBM começou
-
L c ptaÍ o interesse dos gestores de topo da empresa, os cientisas
de computação que teriam de facto de constnrir um al sistema co-
meçaram por recusá-lo frontalmente. Um compuadot para, o Jeo-
Pn ú! exigiria capacidades muito p^ta lá de tudo o que anterior-
mente tinha sido demonstrado. Muitos investigadores temiam que
â empresa pudesse estaÍ a ariscar o fracasso ou, pior aioda, o em-
baraço na televisão nacional.
De facto , havia poucas razões p^r^ acreditar que a vitória
do Deep Blue no xadrez pudesse ser extensível ao Jeopardl! O xa-
drez é um iogo com regras muito precisas que funcionam num
domínio estritamente limitado, quase idealmente adaptrdo a

* () livro de 2011 de Stephen Baker Final teopardl: Man w. Macbire and tlte Qrut to
Knou Eaerytbing oferece um relato pormenorizado da fascinante história que acabou
por conduzit ro lYatsor da IBM.

t3t
uma abordagem computacional. Até um certo mas significativo
ponto, a IBM fora bem-sucedida simplesmente por abordar o
problema concebendo bardware poderoso e adaptado ao proble-
ma. O Deep Blue era um sistema do tamanho de um frigorífico
equipado com processadores que tinham sido concebidos espe-
cificamente para iogar xadrez. Algoritmos de «força brutar> apro-
veitavam todo o poder de cálculo considerando todo e qualquer
movimento concebível perante o estado do iogo em cada mo-
mento. Depois e por cada uma dessas possibilidades, o sofiware
proietava muitos lances mais adiante, pesando as potenciais
ações de ambos os jogadores e revendo inúmeras perÍnutações
run laborioso processo que acabana por quase sempre pro-
-dazk a melhor ünha de ação. O Deep Blue en fundamentalmente
um puro exercício de cálculo matemático; toda a informação de
que o computador precisava par^ iogx era proporcionada num
formato amigo da máquina que esta podia processar diretameÍl-
te. Não havia nenhuma exigência de a máquin^ tet de se envol-
ver com o seu ambiente como um iogador humano de xadtez.
J *?orú ! representava um cenário completamente üferente.
Ao contúrio do xadrez, esseÍlcialmente não tinha nenhumas
restrições. Praticamente qualquer assunto acessível a uma pessoâ
culta ciência, história, cinema, üteruftttl, geografia e cultura
-
popular, p^ta referir apenas algnns cabia dentro do Um
iogo.
-
compuador tarrrbém telir^ de enfrentar toda uma vasta game. de in-
timidantes desafios técnicos. O primeiro de entre eles era a necessi-
dade de compreender a linguagem nahrra} o computador teria de
receber informações e dar as suas respostas no mesmo formato
que os concorrentes humanos. O obstáculo ao sucesso no |rEorút
é especialmente elevado porque o espeúculo não só tem de ser um
concurso iusto como ambém tem de ser umâ forma cativante de
entretenimento pàt^ milhões de telespectadores. Os autores do
programa muitas vezes combinam humor, ironia e subtis iogos de

132
palavras nas pistas por outras palavras, incluem o tipo de in-
-
formações que parecem quase proposiadamente concebidas pa-
ra provocâr respostas ridículas por pârte de um computador.
Salienta um documento da IBM, ao descrever a tecnologa
do lYatson: <<We have noses that run, and feet úat smell. How
cafl a slim chance and a fat chance be the same, but a wise man
and a wise guy are opposites? How cafl a house burn up as it
burns down? How do we fill in a form by filling it out?»lsNr.
Um computador para o Jeopar@!terta de conseguir coÍrer rotinas
de ambiguidades linguísticas deste tipo e ao mesmo tempo deter
um nível de compreensão genl muito além daquilo que tipica-
mente se encoÍrtrâ em algoritmos de computador concebidos
puta pesquisarem montanhas de textos e recolherem respostas
relevantes. Como exemplo, consideremos a ideia ««Sink it & you've
scratcheô («Ens^c -a, e perdes»). Esta ideia foi apresentada nu-
ma emissão de i"lho de 2000 e LpaÍeceu na primeira fila do ta-
buleiro de iogo o que signifrctva que era considerada muito
-
fâctl. Procure fazer uma pesquisa no Google com esta fras e e uâ
receber pâfua após párgira^ de endereços de pqginas web sobre a
remoção de riscos (scratclt 0 d. cubas de lava-loiças de inox.
(Partindo do princÍpio de que salta a combinação exata com en-
dereços de sítios aeb sobre emissões passadas de Jeopar$!) Â res-
posta corretâ «§lfhat is úe cue ball? (Q""1 é abola de tacada
no bilhar?) - ilude completamente o algoritmo de pesquisa
-
com palavras-chave do Google*.
Todos estes desafios foram bem compreendidos por David
Femrcci, o especialista em inteligência artifrcial que acabxra por

M O texto origind deste documeoto expressa a dificuldade de inteqprear ambiguida-


des linguísticas características do idioma inglês, pelo que se optou pela ttanscriçáo sic.
Uma adapação possível paf,a expressar idênticas dificuldades com ambiguidades da
língua portuguesa podeda ser: <ilemos narizes que correm e pés que chefuam. Como
pode um ltomem bom ou um bom ltonen significat a mesma coisa mas urt ltomem rico e
wn rieo bomem ter significados diferentes? Quando é que deixar arder é o mesmo que
deixar qrcimn e quando significa deixar andaà>
* No
le@ar@! as pistas são considemdas como Íespostas; a resposta do concorente
deve set formulada como uma peÍguntâ adequada à resposa proposta.

133
assumiÍ a chefra da equipa que desenvolveu o ÍYatson. Fernrcci
tinha previamente dirigido um pequeno grupo de investigadores
da IBM dedicado à criaçào de um sistema que pudesse respon-
der a Perguntâs apresentadas em formato de linguagem natural.
A equipa inscreveu o seu sistetrta, L que chamartum «Piquanb»,
ilrm concurso org lntzado pela Agência Naciond de Padrões e
Tecnologl^ a mesma agência governamental que patÍocinou
-
o coÍlcurso de linguagem mecânica vencido pela Google. No
concurso, os sistemas concorrentes tinham de esquadrinhar um
conjunto definido de cetca de um milhão de documentos e
apresentar respostas a perguntas, sem qualquer limite de tempo.
Em alguns casos, os algoritmos enttavam em <ceflexão profun-
da» durante diversos minutos antes de darem uma respostal6.
Era um desafio extemamente mais fâcrl do que iogx Jeopardl!,
em que as pistas podiam recorrer a trm aparentemente ilimitado
campo de conhecimento e em que a máquina tert^ de gerar res-
postas constantemente corretas em poucos segundos para poder
coÍlcorreÍ com os iogadores humanos.
O Piquant (bem como os seus concorrentes) náo eta ape-
nas lento; eta inexato. O sistema só conseguiu responder corre-
tamente às perguntas 35 por cento das vezes taxa de sucesso
-
não muito melhor do que ao drgitx-se simplesmente a pergunta
Íro motor de busca Googlel7. Quando a equipa de Fernrcci ten-
tou coÍlstnrir um protótipo do sistema de iogo Jnparfu!baseado
no projeto Piquant, os resultados foram uniformemente desola-
dores. A ideia de que o Piquant podia algum dia vencer um coÍr-
coffente vencedor do Jeopar@!como Ken Jennings patecia hila-
riante. Femrcci reconheceu que tinha de recomeç t do zeto e
que esse projeto seria um grande empteendimento com a ampli-
-
tude de pelo menos meia década. Recebeu luz verde da adminis-
traçáo da IBM em 2007 e lançou-se na construção, segundo as
suas próprias palavras, da <<mais sofisticada arquitetura inteligente
que o mr.rndo jâvtt»>t8.Pata o Íazet,lançou mão a recursos de to-
da a companhia e formou uma equipa composta por especialisas

L34
em inteligência artificial da IBM bem como das melhores uni-
versidades, incluindo MIT e Camegie Mellonle.
A equipa de Femrcci, que cresceu até incluir cerca, de 20 in-
vestigadores, começou por construit uma coleção maciça de in-
formação de referência que constituin^ base púa as respostas
^
do lYatsoz. Isto traduziu-se em cetcà de 200 milhões de páginas
de informaçáo, incluindo dicionários e obras de referência, lite-
t^frrta, arquivos de imptensa, páginas web e praticamente todo o
conteúdo da lVikipédia. Seguidamente recolheram dados históri-
cos do coÍrcrúso de cultura geralJeopardllMais de 180 000 pistas
de sessões anteriomente transmitidas transforÍnaram-se em ali-
mento pma os logaritmos de aprenüzagem mecânica do lYatson,
ao mesmo tempo que as avalnções do desempenho dos melho-
res concorrentes foram usadas par^ aperfeiçour estratégia de
^
apostas do computadofo. O desenvolvimento do lYatsoa exigiu
milhares de algoritmos separados, cada dirigldo a uma tarefa
"m
específicà como pesquisar em textos, compatat datas, tem-
-
pos e locais, analisaÍ a gnmâaca nas pistas e traduzir informação
em bnrto par;^ respostas candidatas devidamente formatadas.
O lYatson começa por isolar a pista, analisar as palavras e
Procuraf comPfeender o que deve exatamente Proc]ditat. Este
passo aparentemente simples pode, em si mesmo, ser um tre-
mendo desafio ptrL um computador. Consideremos, por exem-
plo, uma pista que apareceu numa càtegoria intitulada <üincoln
Blogs» e que foi usada no treino do lYatson: ««O secretâno Chase
acabou de me apresentar isto pela terceira vez; adivinha, amigo.
Desta vez vou aceitat.>> Pata poder ter alguma hipótese de res-
ponder corretamente, a máquina precisaria primeiro de com-
preender que a palavta <<isto» àfr)a, como representante da res-
posta que deve procurafl.
Quando tiver uma compreensão básica da pista, IYatson
lança simultaneameote centenas de algoritmos, cada um dos

135
quais assume uma abordagem diferente eÍrquanto procura ex-
trutt uma possível resposta do vasto corpo de material de refe-
rência armuzerLado na memória do computador: No exemplo
acima,lYatson saberia pela categofl^ que «üincolo» era importan-
te, mas a palavra «ôlogs» seria provavelmente uma distração: ao
contÍário do ser humano, a máquina náo compreenderia que os
autores do programa estavam a imaginar Âbraham Lincoln co-
mo um bloguista.
Conforme os algoritmos de pesquisa concorrentes esquâ-
drinham centenas de possíveis respostas,'WatsoÍl começà cà-
^
tegonzâ-las e a comparâ-las. Uma técrica usada pela máquina é
lig* a potencial resposta à pista original p^t^ formar trma afir-
mação e depois voltar ao material de referência em busca de tex-
to que a corrobore. Assim, se um dos algoritmos de pesquisa
PfoPusef a fesposta ««demissão»», o lWatson pode então pesquisar
o seu coniunto de dados uma afirmação semelhante a «O secre-
tâno Chase acabou de apresenar a demissáo a Lincoln pela ter-
ceita vez>» Encontraria numerosas combinações próximas e a
confiança do computador nessa resposta aumentafia. Ao catego-
rtzzrt as suas respostas candidatâs, o lYatson também dispõe de
resmâs de informação histótica; sabe precisamente quais os
algoritmos que têm os melhotes registos de pesquisa para os
vários tipos de perguntas e presta muito mais atenção aos me-
lhores concorreÍrtes. A capacidade do lYatson de categonzut cor-
retamente as respostas formuladas em linguagem natural e de-
pois determinar se tem ou não a confiança suficiente para
pressionar o botão Jeopar@!é uma das características definitivas
do sistema e uma qualidade que o pôe na fronteira da inteligên-
cia artificial. A máquina da IBM ««sabe o que sabe» ,lgo que é
-
fâdjdpatr^ os humanos mas que ilude quase todos os computado-
res quando têm de mergulhar em massas de informaçáo estruhr-
tada, com significado para as pessoas e não p^ta as máquinas.
O lYatsol, venceu os campeões do Jeopardll Ken Jennings e
Brad Rutter em dois encontros transmitidos em fevereiro de 2011,

136
e pfopofcionou à IBM a enorÍne onda publicitáriâ que esta esPe-
ra'va". Muito antes de o frenesi mediático que rodeou esta notável

rcalizaçío começar a desvanecef-se, teve início uma história


muito mais importante: a IBM lançou a sua camPanha para o
aproveitamento das capacidades do lYatsot lrro mundo real. Uma
das âreas mais promissoras é a medicina. Reposicionado como
instrumento de diagnóstico, o Vatson oferece a capacidade de
extfâif fespostas precisas de um esPantoso volume de informa-
ção médicâ que pode inctuir manuais, publicações científicas, es-
tudos clínicos e até apontamentos de médicos e enfermeiras so-
bre determinados pacientes. Nenhum médico, Por si só, tena a
capacidade de abordar vastas coletâneas de informação e desco-
brir relaçôes que poderão não ser as óbvias especialmente se
-
a informaçio for reúada de fontes que ultrapassam as fronteiras
entre as especialidades médicas*. Em 2073, o lYatson estava iâ a
aiadzr no diagnóstico de problemas e a àPeffeiçoar planos de
tfatamento de pacientes nas instalações médicas mais importan-
tes, incluindo a Cleveland Cünic e o Centto Oncológico da Uni-
versidade do Texas.
Como pârte do seu esforço P^ta tomar o lYatson num ins-
trumento prático, os investigadores da IBM confrontafam um
dos princrpais dogmas da revolução dos megadados: a ideia de
que a previsão baseada em coffelações é suficiente, e que um
profundo entendimento da causalidade é por nofma tão inalcan-
çável como desnecessário. Uma nova cxactetística a que chama-
ram «IüTatsonPaús» vu parz lá de simplesmente Propofcionar
uma fesposta e permite que os investigadores veiam as fontes

* De acordo com o livro de Stephen Baker de 2011 Ffual Jeopardl, o diretor do proie-
to §7atson, David Femrcci, lutou com intensas dores de dentes durante meses. Após
multiplas visias ao dentisa e uma desvitalização que acabou Por se ProvaÍ seÍ com-
pleamente desnecessária, Fernrcci foi por fim em grande medida Por âcaso en-
- -
caminhado paÍa um médico de uma especialidade que nada tinha que ver com odon-
tologia e o problema foi resolvido. O problema especíÍico foi também descrito num
artigo de um fomal médico relativamente pouco conhecido. Femrcci não ignorou que
uma máquina como o lÍ/atson poderia ter produzido o diagnóstico correto quase ins-
tentâneâmeote.

137
específicas que o lYatson consultou,lógica utsltzada rrà sua ava-
a
üação e as inferências que produziu no seu percurso p^t^ gelz.t
uma resposta. Por outras palavras, o lVatson estâ gradualmente a
progredit p^r^ poder oferecer mais conhecimento sobre os por-
quês de uma realidade. os §TatsonPaús ambém estão a ser usa-
dos como ferramenta para preparar estudantes de medicina em
técnicas de diagnóstico. Menos de três aÍros depois de uma equi-
pa humanà tet sido bem-sucedida na construção e preparaçáo
do l%atson, Ls coisas estão a mudar pelo menos até certo pon-
to -
e as pessoas estão agorz a aprender com amaneta como o
-
sistema raciocina quando confrontado com um problema com-
plexo22.
outras aplicações óbvias para o sistema §Tatson são em
âteas como as de atendimento ao cliente e apoio técnico. Em
2073, a IBM anunciou que iria trabalhar com a Fluid, Inc., um
importante fornecedor de senriços de compra e consultadoia
em ünha. o projeto tem como Íim permitir aos sítios de com-
pras em ünha replicarem o tipo de assistência com linguagem
nanrral personalizada que se obteria de um experiente assistente
de vendas num ponto de venda de comércio retalhista. Se vai
acampaÍ e precisa de uma tenda, poderá perfeitamente üzer al-
go como «Vou levar a minha famflta a Lcr,rmpalt Íro norte da cida-
de em outubro e preciso de uma tenda. o que me aconselha?».
obteria então recomendações específicas patr. uma tenda, bem
como chamadas de atençáo paru outros produtos de que poderia
tef-se esquecido23. Tal como sugeri no capítulo 1, é só uma
questão de tempo até que uma capacidade deste tipo possa ficar
disponível vta srua@ltnfies e os consumidores possam ter âcesso a
assistência conversacional em ünguagem natural quando estive-
rem em grandes armtzéns de material desportivo e de lazet
A MD Buyline, Inc., uma empresa especiaüzada em for-
necer informação e pesquisa aos hospitais sobre a mais recen-
te tecnologia em cuidados de saúde, planeia igualmente usar o
lYatson pafi, responder a questões bastante mais técnicas que

138
surgem quando os hospitais precisam de compfar novos equipa-
mentos. O sistema pesquisafia as esPecificações do produto,
preços, estudos clínicos e pesquislPaÍa fazer fecomendações es-
pecíficas e imediatas aos médicos e aos gestores de aprovisiona-
mentos24. O lYatson também procura um Papel na atividade
financeira, em que o sistema poderá ser usad o P^t^ fornecer
aconselhamento fi nanceiro Perso nahzado, pesquisando abun-
dante informação sobre clientes específicos bem como sobre o
mercado em geral e condições económicas. Â aplicação do lYat'
suf, em centfos de atendimento telefónico de apoio ao cliente é
talvez a âtea com o potencial mais perturbador a curto Pt^zo, e
não foi segurâmeÍrte por coincidência gue, no Pfàzo de um ano
após o triunfo do lYatsot flo Jwpardl!, a IBM começou a trtba-
lhar com o Citigroup para explorar aplicações pafa o sistem^ na
operação bancâna maciça de retalho do grupo financeiro2s.
A nova tecnologia da IBM ainda esú na sua infância. lWat-
snlt bem como os sistemas concoffentes que certamente aca-
-
batáo pot tem o potencial de revolucionar o modo
^p^tecer -
como se ftzem Perguntas e se obtêm resPostas, bem como a
forma como a anáüse de informaçáo é abordadà,t^ÍLto no Plano
interno das organi zações como no envolvimento com clientes.
Contudo, não há como escaPar à realidade de que um grande
volume da anáüse desempenhada por sistemas deste tipo seria
de outro modo assegufâdo por trabalhadores humanos do co-
nhecimento.

CoNsrnuIR MóDULos NA NUVEM

Em novembro de 2013, a IBM anunciou que o seu sistema


§Tatson iria passar dos computadores especializados, que alber-
gmam o sistemà Púa as combinações Jeopar@!, para â nuvem.
Por outras palavras, o lYatson residiria doravante em enofmes
coniuntos de servidores ügados à Intemet. Os técnicos informá-
ticos poderiam ligar-se diretamente ao sistema e incoqpotàt te-
^
volucion âla tecnologia cognitiva comPutacional da IBM nas

139
suas apücações de softwarepróprio e apücações de telemóveis.
Esta última versão do lYatson também era mais do que dupla-
mente mais úpida do que a sua ântecessora que jogou o Jeopar$t
A IBM prevê a úryida emergência de todo um ecossistema de
aplicações inteligentes de linguagem natural 16d2s elas trans-
-
portando a etiqueta «alimentada pelo'W'atsor»»26.
A migração da capacidade de inteügên cia amfrcial de van-
guarda par^ a nuvem será quase certamente um poderoso veícu-
lo da automatizaçáo de colarinho branco. Â nuvem informâaca
tornou-se o foco da intensa concorrência entre as maiores em-
presâs de tecnologra da informaçío, incluindo Amazon, Google
e Mcrosoft. A Google, por exemplo, oferece aos técnicos infor-
máticos uma aphcação de aprenüzagem mecânica basead a n^
nuvem bem como uma máquina informática de gtande escala
que lhes permite resolver problemas informaticamente enorÍnes
e intensos, correndo programas em redes maciças de serrridores
em tudo semelhantes a supercomputadores. A Ama zon está" na
linha da frente da atividade no fornecimento de senriços infor-
máticos na nuvem. A cycle Computing, runa pequena empresa
especializada em computação de grande escala, conseguiu resol-
ver um complexo problema em 18 horas, eue teria levado 260
anos num único computador, utiüzando dezenas de milhares de
computadores que alimentam o serriço na nuvem da Amazon.
 empresa estima que ântes do advento da nuvem informática,
teria sido preciso investidgo como 68 milhões de dólares na
construção de trm supercomputadot c^paz de resolver o proble-
ma. Em contraste, é possível alugar 10 000 servidores na nuvem
da Arnazon por cetca de 90 dólares porhor*1.
Exatamente quando o campo da robótica está destinado a
um crescimento explosivo e os componentes de ltardware e soft-
uare usados na criaçáo das máquinas se tornam mais baratos e
mais eficazes, desenvolve-se um fenómeno semelhante palz
tecnologia que alimenta a automatzaçáo do uabalho do conhe-^
cimento. Quando tecnologlas como a do lYatson, redes neurais

140
de aprenüzagem profunda ou motores de escritl rrartuava são
hospedados na nuvem, tomâm-se efetivamente módulos pafa
montar que podem ser aproveitados de inúmeras novas manei-
ras. Tal como os ltackers perceberam rapidamente que o Knect da
Microsoft podia ser usado sem custos p^ra dar aos robôs visão
mecânica tridimensional, os técnicos informáticos itáo igual-
mente encontrâr inesperadas e talvez revolucionánas âpli-
-
cações pat^ módulos de sofiware baseados na nuvem. Cada um
-
destes módulos é com efeito uma <<catxa negro) o que quer
-
üzer que o componente pode ser utiüzado pot programadores
que não têm perceção detalhada de como ele funciona. O resul-
tado final itá, cetamente ser que as inovadoras tecnologias da
(inteligência amfrcial) criadas poÍ equipas de especialistas passa-
rão rapidamente a ser omnipresentes e estar acessíveis até a pro-
gramadores amadores.
Bmbora as inovações na robótica produzam máquinas tan-
gíveis que são frequente e facilmente associadas a determinadas
tarcfas (o* robô p^ta fa,zer hambúrgueres ou um robô pú^
monagens de precisãor por exemplo), o progresso no software de
Ltrtomat;rzação irá provavelmente ser menos visível pura, o púbü-
co; irâ ocorrer com frequência dentro das paredes de grandes
empresas e terá impâctes mais holísticos Íras orgaítzlÇões e nas
pessoâs que empregam. A automanzaçío do colarinho branco
râ tadvzt-se em grande medida em histórias de consultores de
tecnologia da informaçáo a caírem sobre grandes orgarttzlções e
a constrúrem sistemas completamente personalizados com o
potencial de revolucionar a maneira como funciona o negócio,
enquanto ao mesmo tempo eliminam a Írecessidade de centenas
ou até milhares de trabalhadores de elevada capacidade. Na ver-
dade, uma das motivações mais afirmadas da IBM Púà a crraçío
da tecnologia'Watson foi oferecer à sua divisão de consultoria
gue, coniuntamente com as vendas de softwara, significa ago-
-ta a maioria das receitas da empresa uma vantagem com-
-
petitiva. Ao mesmo tempo, os empresários estão já a descobrir
formas de usar os mesmos módulos baseados na Íruvem Parà

t4t
criarem produtos de automatizaçáo dirigidos aos negócios de
pequena e média dimensão.
A nuvem informática tem já um impacte significativo nos
empregos da tecnologia da informaçío. Durante o boom tecnológi-
co dos aÍros 90, assistiu-se à criação de um impressionante núme-
ro de trabalhos bem pagos à medida que as empresas e organiza-
ções de todas as dimensôes precisavam de profissionais de
tecnologia da informação para instalarem e administrarem com-
putadores pessoais, redes e sofiwarc. Conttrdo, ao chegar a primeira
dêcada do século )oil, a tendência começou a mudar conforme as
emPresas extemalizavatrt muias das funções da tecnologia da in-
formação par:à enorÍnes centros de compuaçáo cenadizados.
As enormes instalações que aloiam serviços informáticos
na nuvem beneficiam de importantes economias de escala, e as
funções administrativas que anteriormente mantinham ocupa-
dos exércitos de trabalhadores de tecnologra da informação são
agot^ altamente automatizadas. O Facebook, por exemplo, em-
pregâ uma aphcrçío de software inteligente chamada Clbo€ que
continuamente monitoriza dezenas de milhares de servidores,
deteta problemas e, em muitos casos, pode procedet L tepàtl-
ções de modo completamente autónomo. Um executivo do Fa-
cebook observava em novembro de 2073 que o C1bory resolvia
de forma rotineira milhares de problemas que, de outro modo,
teriam de ser tratados manualmente, e que a tecnolog^ permite
que um simples técnico comande 20 000 computadores2s.
^té
Os centros informáticos da nuvem são com frequência
constnrídos em âteas relativamente rurais, onde o teffeno e, es-
pecialmente, a energia elétrica abundam e são baratos. Os esta-
dos e governos locais competem intensivamente par:a obter as
instalações, oferecendo a empresas como Google, Facebook e
Apple generosos beneficios fiscais e ouüros incentivos financei-
ros. O seu principal objetivo, evidentemente, é cnat numerosos
empregos paÍa os habitantes locais mas essas esperaÍrças taÍL-
mente se concreazam. Em 2011, Michael - Rosenwald, do ÍYasb-
ington Post, revelava que um colossal centro de dados, Íro valor

142
de mil milhões de dólares, construído pela Apple, Inc., Íro cen-
tro de Maiden, na Carolina do Norte, ctiata apenas cinquenta
postos de trabalho a tempo inteiro. Os desapontados residentes
não conseguiam ((compreender como instalações tão câras, que
se estendiam por centenas de hecares, podiam cflat tão poucos
empregosfe. A explicação, evidentemente, é que os algoritmos
como o C-ybory estão a fazer a maior parte do trabalho.
O impacte no emprego val-pan lá dos próprios centros in-
formáticos, chegando às empresas que aproveitam os serviços
informáticos da nuvem. Em 2072, Roan Stanek, presidente da
comissão executiva da Good Data, trma empresa de São Fran-
cisco que usa os senriços nuvem da Amazonpata efetuar análise
de dados para cetca de 6000 clientes, observou que <«anterior-
mente, cada empresa sua cliente precisava de pelo menos cinco
pessoas p^t^ fazer este trabalho. Isto é, 30 000 pessoas. Eu faço-
-o com 180. Não sei o que irão fazer todas aquelas pessoas ago-
ra, mas este já não étrabalho que possamrca)tzx.É,trma conso-
lidação do tipo "o vencedor ganha tudo"Éo.
A evaponçáo de milhares de empregos especializados na
arca da tecnologia ü informaçáo é provavelmente precrúsota de
um muito mais amplo impacte no emprego com base no conhe-
cimento. Tal como a famosa frase do cofundador da Netscape e
investidor de capital de risco Matc Andreessen expressava, «o
software está, a comer o mundo»». Cada vez com mais frequência,
esse sofiware será aloiado na nuvem. Desse vanaioso ponto, Lc -
baút por estar pronto pma, invadir quase todos os postos de
trabalho e engolir praticamente todo e qualquer emprego de co-
larinho branco que signifique estar sentado frente a um compu-
tador e manipular informação.

Arconrrrrros NÂ FRoNTETRÂ

Se há um mito quanto à tecnologia compuacional que tem


de ser varrido par^ o cesto da reciclaçm, é a diftmdida convicção

143
de que os computadores só podem fazer aquilo par:^ que foram es-
pecificamente programados. Como já vimos, os algoritmos de
aprcndizagem mecânica incoqporam rotinas de pesquisa de dados,
revelando relações estatísticas e, essencialmente, escrevendo os
seus próprios programas com base naquilo que descobrem. Connr-
do, em alguns casos, os computadores estão L avaflçat ainda mais e
a começaÍ a introduzir-se em arcas que quase toda a gente conside-
ra terreno exclusivo do cérebro humano: as máquinas iá começa-
ram a demonstrar curiosidade e criatividade.
Em 2009, Hod Lipson, diretor do Creative Machines Lab,
na Universidade Comell, e o doutorando Michael Schmidt con-
ceberam um sistema que demonstrou ser capaz de descobrir
com total independência as leis fundamentais da natureza.Iip-
son e Schmidt começaram por prcparart um duplo pêndulo
um engenho que consiste num pêndulo preso e suspenso sob
-
outro. Quando ambos os pêndulos estão a baloiçar, o movimen-
to é extremamente complexo e parece algo caótico. Seguida-
mente, usaram sensores e càmar:as para c ptaÍ o movimento do
pêndulo e produzir um fluxo de informaçáo. Finalmente, deram
ao seu software a capacidade de comandar a posição de partida do
pênduloi por outras palavras , ciaram um cientista artificial com
a capacidade de conduzir as suâs próprias experiências.
Deixaram que o software übertasse repetidamente o pêndu-
lo e depois examinasse a informaçáo resultante do movimento
e procurasse discernir as equações matemáticas que descrevem
o comportamento do pêndulo. O tinha poder total
"lgoritmo
sobre a experiência; par^ cada repetição, decidia como posicio-
nar o pêndulo p^t^ o übertar, e não o fazia de modo aleatôrio
sfsluavl urma. análise e depois escolhia o ponto preciso de
-panida que provavelmente proporcionaria maior compreensão das
leis subiacentes ao movimento do pêndulo. üpson observa que o
sistema <«rão é um algoritmo passivo que se reclina, a olhar. Faq
peryuntas.Isso é cutiosidade»»3l. O programa, a que mais tarde cha-
maÍaÍTt Eureqa, precisou apenas de atgumas horas púa apresentaÍ

tu
diversas leis da fisica que descreviam o movimento do pêndulo in-
cluindo a Segunda Iri de Neurton e foi capaz de o fazer sem
-
que previamente lhe fosse dada qualquer informação ou Programa-

ção sobre fisica ou as leis do movimento.


O Eureqa usa programaçáo genética, uma técnica inspirada
pela evolução biológica. O algoritmo começa Por combinar alet-
toriamente vários módulos matemâticos em equações e depois
tesú-los par;aver como a equação aiusta os dados*. As equações
que falhâm o teste são descartadas, enquanto aquelas que aPre-
sentam os resultados esperados são retidas e fecornbinadas de
novas formas pata que finalmente o sistema convirf a ntrm mo-
delo matematicamente exato3z. O Processo de encofittàt umâ
equação que descfeva o comPortamento de um sistema natural
náo é de modo algum um exercício trivial. Como refere Lipson,
<«,Anteriormente, conseguit um modelo de previsão podia durar
toda a careera (de um cientista)>»33. Schmidt acrescenta que «físi-
cos como Newton e Kepler podiam ter usado um computador
patl executar este algoritmo PLIL determinaf as leis que expli-
cam a queda de uma maçã ou o movimento dos planetas com
apenas algumas horas de compuação»»1.
Quando Schmidt e Lipson publicaram um estudo a descre-
ver o seu algoritmo, foram inundados com pedidos de acesso ao
sofiware Por Parte de outros cientistas, e decidiram tornaf o Eure'
qa üsponível na Intemet em finais de 2009. Desde então o Pro-
gfum produziu numefosos e úteis resultados numa série de
campos científicos, incluindo uma equação simplific ada parz
descrever a bioquímica de uma bacténa que os cientistas ainda

* Isto é significativamente mais avançado do que a técnica esatística muias vezes


usada e conhecida como <«regressão». Com a regressão (tanto ünear como não ünear),
a forma da equação é estabelecida à partida e os seus parâmetros são aiusados para
se obter uma variável de resposa. O programa E*nqa, em contraste, consegue deter-
minar independentemente equações de qualquer forma usando uma variedade de
componentes matemáticas, incluindo operadores aritrréticos, trigonométricos e fun-
çôes logadtmicas, constaÍrtes, etc.

145
lutam por compreendefs. Em 2071, Schmidt fundou a Nuto-
nian, Inc., uma empresa sfurt-up na âtea de Boston focada na co-
merciahzação do Eureqa como instrumento de anáüse de mega-
dados tanto par:. aplicações empresariais como académicas. Um
resultado foi que o Elreqa tal como o lYatson da IBM está
-
alojado na nuvem e disponível como módulo adaptavel a-
^got^
outras aplicações para outros técnicos de software.
Naturalmente, mútos de nós tendemos a associar o con-
ceito de criatividade exclusivamente com o cérebro humano,
mas vale pen^ lembrar que o próprio cérebro de longe a
^ -
invenção mais sofisticada da existênci^- é o produto da evolu-
ção. Por isso, talvez não seja surpresa que as tentativas de cons-
truir máquinas criativas muito frequentemente incoqporam téc-
nicas de programação genética. A programaçáo genética permite
essencialmente aos algoritmos de computador redesenharem-se
a si mesmos mediante um processo de seleção naarral darrndnia-
na. O código de computador é inicialmente gerado aleatoria-
mente e depois repetidamente baralhado usando técnicas que si-
mulam a reprodução sexual. Pontualmente, uma mutação
fortuita é lançad^ pate. aiudar a conduzt o processo p^ta dire-
ções inteiramente novas. À medida que os novos algoritmos
evoluem, são submetidos a um teste de aptidão que ora conduz
à sua sobreüvência ou muito mais frequentemente ao seu
- -
fim. JohnKoza, cientista de computação e professor associado
de Stanford, é um dos principais investigadores neste campo e
realizou um extenso trabalho usando algoritrnos genéticos como
<<rnáquinas automáticas de invenção»É.
Koza isolou pelo menos se-
tenta e seis casos em que algoritmos genéticos produziram mo-
delos que concoÍrem com o trabalho de engenheiros e cientisas

* Além do seu uabalho em programação


çnética, Kolza é o ioventor do iogo conhe-
cido como «raspadinho» e o criador da ideia de <<contomo constitucionab» para eleger
os presidentes norte-americanos por voto popular pelo acordo de os estados atribú-
rem os seus votos de colégio eleitoral com base no rcsultado çral do voto popular
no país.

t6
humanos numa série de campos, incluindo o desenho de circui-
tos elétricos, sistemas mecânicos, ótica, tepat^ção de software e
engenharia civil. Em muitos destes casos, os algoritmos repüca-
ram modelos iá existentes, mas houve pelo meÍros duas instân-
cias em que os programas genéticos criaram novas invenções
patenteáveis36. Koza defende que os algoritmos genéticos Po-
dem ter uma vantagem importante sobre os técnicos humanos
porque não estão constrangidos por Preconceitosi por outras
palavras, é mais provável que resultem numa abordagem ««fora
da caixar» ao problemú7.
A sugestão de Lipson de que o Eureqa mostra curiosidade e
a aftmação de Koza sobre os comPutadores agirem sem Pre-
conceitos sugeÍem que a criatividade pode ser algo que estará ao
alcance das capacidades de um compuador. O teste decisivo de
tal ideia poderia tradazir-se em ver se um computador poderia
crtut dgo que os humanos aceitassem como obra de arte. A au-
têntica criatividade artística talvez mais do que qualquer ou-
uo esforço intelectual
-
é algo que associamos exclusivamente
-
com a mente humana. Como refere Lev Grossmat da Time,
«Criar uma obra de arte é uma daquelas atividades que reserva-
mos p^r^ o ser humano e só púa o ser humano. É o- ato de
autoexPressão; não som os c Puzes de fazê-lo se não tivermos
um ego»»38. Aceiar a possibilidade de que trm comPutador Possa
ser um artista legítimo exigiria uma rcava)iação fundamental das
nossas premissas sobre a natureza das máquinas.
No filme de 2004 Eu, Robot, o protagonista, desempenhado
por §7ill Smith, pergunta a um robô: «Um robô pode escrever
uma sinfonia? Um robô pode transformat uma tela numa bela
obra-prima)»
A resposta do robô <<Tu podes?» sugerir
gu€, bem, a maioria das Pessoas
- - Pretende
também não consegue fazet
aquelas coisas. Contudo, no mundo real de 2015, a Pergunta de
Smith iria suscitar uma resposta muito mais vigorosa: <«Sim.»

r47
Em iulho de 2012, a London Symphony Orchestra execu-
tou nma composição intitulada Transits Into an Ah1ss. Um crí-
-
tico chamou-lhe <«artístic a e eÃcuntadorar»3e. o acontecimento
marcou a primeit^ vez que uma orquestra de elite interpretou
música inteiramente composta por uma máquina. Â composição
foi gerada por laruus, um grupo de computadores que executam
um algoritrno de inteligência artificial com inclinações musicais.
O laruus, que foi baazado com o Ílome de uma personagem da
mitologi^ greg que compreendia a linguagem das aves, foi pro-
jetado por investigadores da Universidade de Málaga, en Espa-
nha. O sistema começa com informação mínima, como o tipo
de instrumentos que itáo interpretut L música, e depois, sem
qualquer intervenção humana t gefi, em poucos minutos uma
composição profundamente complexa, que pode muitas vezes
evocar uma respostâ emocional na audiência,. O lanus iá produ-
ziu milhões de composições únicas no estilo clássico de pendor
contemporâneo e no futuro será provavelmente adaptado a ou-
tros géneros musicais. Tal como o Eureqa, o lamus resultou nu-
ma emprcsa sturt-ap ptr^ comercializar tecnologia. AMelomics
^
Media, Inc., foi criad? pàra vender a música ntrma loja em linha
do tipo da iTunes. Â diferença ê que as composições criadas pe-
lo lamus são oferecidas sem direitos permitindo aos comprado-
res usarem a música como deseiarem.
A música náo é a única forma de arte a ser cnada por com-
putadores. Simon Colton, professor de computaçáo cflat,va" ÍM
Universidade de Londresr gerou um programa de inteligên cia ar
tificial chamado Tbe PaintingFool que espera ver um dia ser leva-
do a sério como pintor (ver imagem 4.L). ,,O objetivo do proje-
to não é produzir software que possa fazer com que fotos se
Possam parecer com pinturas; o Pbotosltop hâ anos qae faz isso»»,
diz Colton. «o objetivo é ver se o software pode ser aceite como
criativo por seu direito próprio.»»o
colton construiu um coniunto de capacidades a que chama
«comportamentos apfeciativos e imaginativos»» no sistema.

148
Imagem 4.1. fJma obra de arte original criada pot softwate

O PaintingFool pode identificar emoções em fotografias de pes-


soas e depois pintar um quadro abstrato que procura reproduzir
o estâdo emocional dessas pessoas. Também pode getaÍ obietos
imagpnâtrios com recurso a técntcas baseadas em programaçáo
genética. O software de Colton tem inclusivamente cap^cidade
^
de ser autocrítico. FáJo incoqporando outra aplicação de sofiwarc
chamada Darci que foi desenvolvida por investigadores da Uni-
versidade Brigham Young. Os programadores de Darci começa-
ram com uma base de dados de pinturas que tinham sido classi-
ficadas por seres humanos com adjetivos como «escrro), ««triste»>
ou «<inspiradoro). Prepararam depois uma rede neural pur^ fazer
as associações e lançaram-na pata, classificâr outras pinturas.
O PairtittgFool ê capaz de usar o retorno fomecido por Darci pa-
ra decidir se está ou não a conseguir os seus obietivos enquanto
pirrt"o'.
Aqoi, a minha questão nío é sugerir que grande número de
artistas ou compositores musicais itâ. em breve ftcx sem traba-
lho. Pelo contrádo, é antes que as técnicas usadas par;^ constnrir
sofiwme criativo muias das quais, como vimos, dependem de
-
programação çnética podem ser realocadas de muias e novas
-
149
muneitus. Se os computadores podem cf,at composições musi-
cais ou conceber componentes eletrónicos, então pafece ptovâ-
vel que em breve poderão formular uma nova estratégia legal ou
talvez surgu com alguma nova forma de ttatat um problema de
gestão. De momento, os empregos de colarinho branco em mais
alto risco continuarão a ser os mais rotineiros ou mais facilmen-
te replicáveis mas a fronteta rapidamente.
- ^vut:lç
Em lugat algum o ritmo rápido do progtesso é mais evi-
dente do que em §íall Sueet. Onde antes as ftansações financei-
ras estavam profundamente dependentes de comunicaçôes dire-
tas entre pessoas, tanto por ruidosas ordens de transação no
local, semelhantes a leilões, como via telefone, domina agor^ em
grande medida a comunicaçáo das máquinas por cabos de fibra
ôtrca. Segundo algumas estimativas, os algoritmos de transação
automática são responsáveis por pelo meÍlos metade, e
^got^
talvez até 70 por cento, das transações das operações em bolsa.
Estes sofisticados robôs negociadores muitos dos quais são
-
alimentados por técnicas na frontein da pesquisa da inteligência
artificial vão muito paru,lâ da simples execução de rotinas de
-
transação. Procuram obter lucros detetando e depois compran-
do rapidamente ações antes das enormes trânsações iniciadas
por fundos mútuos e gestores de pensões. Procuram engalnait
outÍos algoritmos inundando o sistema com ofertas de chamattz
que são depois retiradas em ínfimas frações de segundos. Tanto
a Bloomberg como o Dow News Service oferecem produtos es-
peciais legíveis por máquinas concebidos para, alimentar os ape-
tites vorazes dos algoritmos por notícias financeiras que eles po-
dem 12[vs z em milissegundos transformar em lucrativas
- -
transações. Os serviços noticiosos também providenciam pa-
drões de avahação em tempo real que deixam as máqúnas veÍ
quais os produtos que estão maior atençáo4z. O Twitter,
^ ^ftatr
o Facebook e a blogosfeta constituem também alimento p^t^
estes algoritrnos concoffentes. Num estudo publicado em 2073

150
na tevista científica Nature, um grupo de fisicos eshrdou os mer-
cados financeiros globais e identificou («rma ecologia emergente
de máquinas competitivas que apresentam «<multidões»» de
"lgo-
ritmos predadores» e sugeria que as transações robóticas esta-
vam iâ para lâ da fiscahzaçáo e mesmo da compreensão
- ^té
dos homens que tinham desenvolvido o sistemaa3.
- No domínio habitado por estes algoritrnos de batalha con-
tínua, a açáo desenrola-se a um riuno que seria incompreensível
para o corretor humano mais rapido. De facto, a velocidade
em alguns casos medida em milionésimos ou até bilionésimos
-
de segundo é tào fundamentalpara o sucesso das transações
-
algorítrnicas que as empresas de §fall Street investiram no total
milhares de milhões de dólares Íla coÍlstrução de instalações
informáticas e de vias de comunicaçáo, concebidos pâra produ-
zirem minúsculas vantagens de velocidade. Em 2009, por
exemplo, uma empresa chamada Spread Networks investiu a
apreciâvel soma de 200 milhôes de dólares para instalar uma
nova hgação por cabo de fibra ôaca que se estende ao longo de
1300 km em linha ret^, de Chicago a Nova Iorque. A empresa
atrJava em modo furtivo púL náo alettar a concorrência, mesmo
enquânto abria o seu caminho pelas montanhas Âllegheny.
Quando a nova via de fibra ôaca ficou operacional, proporcio-
nou uma vant4gem de talvez três ou quatro milésimos de segun-
do compatattvamente às vias de comunicação existentes. Isso
era suficiente p^r^ permiú que qualquer sistema algorítmico de
transação utiüzasse a nova vtl pata efetivamente dominar a con-
corrência. As empresas de §7all Street, confronadas com a dissi-
pação de algoritmos, agruparam-se para alugar banda larga
alegadamente a um custo dez vezes superior ao de cabo original
-
mais lento. Um cabo semelhante está a ser lançado ao lon-
^gotl
go do Atlântico, entre Londres e Nova Iorque, e espera-se que
venha a rcdtzir em cinco milésimos de segundo os tempos de
execução«.

t5t
O impacte de toda esta automaazaçáo é claro: mesmo en-
quaÍrto o mercado bolsista continuava a sua lo:aietóna ascenden-
te em 201,2 e 2013, os grandes bancos de §7all Street anunciaram
loyfr em massa, que resultaram muitas vezes na eliminação de
dezenas de milhares de empregos. Na passagem Wà o século roc,
as empresas de §fall Street empregavam cerca de 150 000 traba-
lhadores especialistas na ârea financeira na cidade de Nova Ior-
que; em 2013, o númerc iâ quase não ultrapâssava os 100 000
mesmo quando tanto o volume de transações como os lu-
-cros do negócio aum entavanrr4s. Pata combater este cenário de
colapso geral no emprego, §fafl Street criou pelo menos urn em-
prego de muito elevado perfit em finais de 2012, David Femrcci, o
cientisa de compuação que encabeçava o esforço W^ a constnr-
ção do lYatson, deixou a IBM púa, abraçx um novo emprego
num fundo de cobernrta de §7all Street, onde iria aplicar os últi-
mos progressos em inteligência arctftcial pan modelar a econo-
rnia e, presumivelmente, procurar ganhaÍ uma vantagem compe-
titiva par:e. os algoritmos de transações da sua nova empresa6.

DesrocauzrçÃo E EMpREGos ÂLTAMENTE eullrFrcÂDos

Embora a tendênciaparauma avtomatrzação crescente nos


empregos de colarinho branco seja clara, o ataque mais profun-
do especialmente parz profissões altamente qualificadas
-
ainda está no futuro. O mesmo não pode dizer-se necessaria-
-
mente quanto àprâtrca de deslocahzação, em que os empregos
do conhecimento estão a ser deslocados eletronicamente para
países com salários mais baixos. Profissionais qualificados com
Íormação superior, como advogados, radiologistas e especial-
meÍrte programadores informáticos e especialistas em tecnologia
da informrção, sentiram já um impacte significativo. Na Índia,
por exemplo,há" exércitos de trabalhadores em centros de aten-
dimento telefónico e profissionais de tecnologra de informaçáo,

152
bem como consultores fiscais especiahzados no sistema fiscal
americano e advogados especificamente formados não no siste-
ma legal do seu país mas em legislaçío americana, Prontos Para
efetuafem pesquisas de legislação p^t^ emPresas americanas en-
volvidas em processos litigiosos internos. Embora o fenómeno
da deslocdizaçáo possa apafentemente não ter nenhuma rrJlaçáo
com a perda de empregos genda Por computadores e algorit-
mos, o exatamente oPosto é verdadefuo: a deslocali*açào é com
muita frequência um Prectúsor da automaazaçáo e os emPregos
que cria em países de salários baixos podem revelar-se de vida
curta conforme a tecnologia fot avançando. Mais ainda, os Pro-
gressos na inteligência artificial podem vrt L torÍrar mais fâc:d
^té
a completa automattzaçío dos empregos deslocali-ados.
Muitos economistas enc atàm a prâttca da deslo cahzaçío
apenas como outfo exemplo de comércio global e defendem
9ue, invariavelmente, ela se revela positiva P^ta, ambas as Partes
envolvidas na transação. O professor de Harvard N. Gregory
Mankiur, por exemplo, enquanto foi presidente do Conselho de
Consultores Económicos da Casa Btanca durânte o mandato de
George §7. Bush, disse em 2004 que a deslocalizaçio er^ <<a. mais
recente manifes taçáo dos ganhos que se obtinham com o co-
mércio de que os ecoÍtomistas falavam pelo menos desde Adam
Smitb)47. Os indícios abundantes pfovam o contfáÍio. O comér-
cio de produtos tangíveis cria grande número de emprego peri-
férico em âteas como navegação, distribuição e comércio reta-
lhista. Há ambém forças naturais que tendem até certo Ponto a
mitigar o impacte da globaliz açáo; por exemplo, umâ emPresa
que opta por deslocali z^t vma" fâbnca Púa a China incorre si-
multaneamente em custos de trânspofte marítimo e numa de-
mora significativa antes de os produtos acabados chegarem aos
mercados consumidores. Pelo contrário, a deslo cahzaçío eletró-
nica é quase completamente pacifica e não esú suieita a nenhum
destes fatores penohzantes. Os empfegos são deslocalizados ins-
tantaneamente Púalocais de baixo salfuio com custos mínimos. Se

153
é criado emprego periférico, é muito mais provável que ocorra
nos países onde residem os trabalhadores.
Eu diria que «comércio üvre>» é a lente erada púL olhar-
mos a deslocalizaçiç. Pelo contráÍio, é muito mais semelhante à
imigração virnral. Suponhamos, por exemplor euê um vasto cen-
tro de atendimento telefónico a clientes vai ser consruído a sul
de San Diego, junto à fronteira com o México. Mlhares de tra-
balhadores de baixos salários receberiam passes de ««trabalhado-
res ao e seriam transportados todas as manhãs em autocar-
dia»»
ros do México pute. o outro lado da fronteka para trabalharcm
no centro de atendimento telefónico. No final do dia de traba-
lho, os autocarros fariam a viagem no sentido inverso. Qual a
diferença entre esta situação (qo. certamente seria encarada co-
mo um assunto de imigração) e deslocalizx os trabalhos eletro-
nicamente p^rà aÍnüa ou as Filipinas? Em ambos os casos, os
tabalhadores estão de facto a «entraD) nos Estados Unidos para
desempenharem serviços que são claramente dirigidos à eco-
nomia doméstica americana,. A maior diferença é que o plano
de um trabalhador mexicano ao dia seria provável e signifi-
cativamente melhot pura a economia da Califórnia. Podedaha-
ver trabalho patl motoristas, e havetta cettamente postos de tra-
balho p^r^ a manutenção das enormes instalações locahzadas no
lado americano da fronteira. Alguns trabalhadores poderiam
compfaf os seus almoços ou até tomaf um café enquanto esti-
vessem no trabalho, injetando assim procura de consumo na
economia local. A empresa que detivesse as instalações na Cali-
fírnra pagaria imposto sobre a propriedade. Quando os empre-
gos são deslocalizados e os trabalhadores entram virtualmente
nos Estados Unidos, a ecoÍlomia doméstica náo recebe nenhum
destes benefícios. Âcho de alguma forma irónico que muitos
conserradores nos Estados Unidos sejam intransigentes sobre o
reforço das fronteiras contra os imigrantes que estão dispostos a
aceitat empregos que poucos americanos querem, embora ex-
Pfes§em ao mesmo tempo pouca pfeocupação quanto ao facto

154
de a fronteira virnnl
estar completamente abeta a trabalhadores
altamente qualificados que ficam com emPregos que os america-
nos querem em absoluto.
O argumento avançado por economistas como Mankiw,
evidentemente, mede o ganho agregado e pretende atenuaÍ o alta'
mente desproporcional impacte que a deslocalizaçio tem em gru-
pos de pessoas que sofrem ou beneficiam dessa prâaca. Por um
lado, um relativamente pequeno mas ainda assim significativo nú-
mero de pessoâs potencialmente medido em milhões pode
- -
set suieito a urna substancial redução dos seus rendimentos, quâ-
lidade de vida e perspetivas de futuro. Muitas desas Pessoas po-
dem ter feito investimentos substanciais em formação e prePara-
çáo. Alguns trabalhadores podem perder a totalidade do seu
rendimento. Muito provavelmente, Manki§/ diria que o benefício
4gregado púa os consumidores comPensaria estas perdas. Infeliz-
mente, embora os consumidores Possam beneficiar de Preços
mais baixos como resultado da deslocahzaçáo, estas PouPanças
podem disseminar-se por uma população de dezenas ou até cen-
tenas de milhões de pessoas, resulando talvez ntrma redução de
custo de uns meros cêntimos, e tem um efeito insignificante no
bem-estar individual. E, desnecessário serâ üzer, nem todos os
ganhos reverterão puta os consumidores; uma parte significativa
acrbarâ nos bolsos de alguns iâ abastados executivos, investidores
e empresários. Este impacte assimétrico Porventura não sur-
preende e é intuitivamente assimilado pof muitos Uabalhadores
mas parece passar despercebido a muitos economistas.
Um dos poucos economistas a reconhecer o potencial Per-
nrrbador da deslo cahzaçáo é o antigo vice-presidente do Colégio
de Governadores da reserva federal Âlan Blinder, que em 2007
escreveu um editorial de primeira págna no lf,/asltin§on Post inti-
tulado ««Free Trade's Great, but Offshoring Rattles Me#8. Blin-
der conduziu numerosos estudos cujo objetivo era avahar o fu-
turo impacte da deslo cahzaçáo e estimou que 30 milhões a 40
milhões de empregos nos Estados Unidos postos de trabalho
-
que empregavam cerca de um quarto da populaçío a,jva- seriam

155
potencialmente deslocalizâveis. Como refere, ««,Até ainda
^gora
quase não vimos a ponta do icebergue da deslo cahzaçáo, cujas
dimensões finais podem ser estarrecedoras»»o.
Quase qualquer ocupação que envolva no fundo a manipu-
laçã,o de informação e não esteja de alguma forma ancorada
localmente por exemplo, com uma exigência de interação
-
presencial com cüentes está potencialmente em risco de des-
-
localização num futuro mais ou menos próímo e depois da au-
tomatizaçã"o total um pouco mais adiante. A autom atizaçã,o
completa é simplesmente o próximo passo lógico. Conforme a
tecnologia avattç , podemos coÍttar que um númeto cada vez
maior de tarcfas de rotin^ desempenhadas por trabalhado-
^gota
res em instalações deslocaltzadas acabarâ por ser desempenhado
na totalidade por máquinas. Isto iá, oconeu de cerra forma relati-
vamente a alguns trabalhadores de centros de atendimento tele-
fónico que foram substituídos por tecnologia de voz Ltttomât.ca.
À medida que os sistemas realmente poderosos de linguagem
natural como o lYatson da IBM entrarem na dos serriços
^refl
de cüentes, muitos postos de trabalho em centros de atendimen-
to telefonico deslocalizados serão vaporizados.
Enquanto este processo se vai desenvolvendo, parece pro-
vável que as empresas e países que invesúam fortemente
- -
na desloçaliz.açào como uma tiapar:a a rentabilidade e a prospe-
ridade terão pouca escolha senão subfu na cadeia de valor. Con-
forme cada vez mas trabalhos de rotina forem automatizados,
os trabalhos mais qualificados ficarão progressivamente nos ho-
rizontes dos interessados na deslocahzaçáo. Um fator gue, creio,
tem sido subvalorizado é até que ponto os progressos na inteli-
gência amficial bem como a revolução dos megadados podem
LtLtàt como uma espécie de catalisador, tornando potencialmen-
te deslo caltzâvel uma g mL mais vasta de empregos altamente
qualificados. Como iá vimos, uÍn dos dogmas da abordagem dos
megadados à çstão é que os conhecimentos recolhidos da anáüse
algorítmica podem progressivamente substituir o discernimento

756
e a experiência humanos. Mesmo antes de o avanço das aplica-
ções de inteligência artificiâl atingir o estádio em que a automati-
zaçío completa sefa possível, elas serão já poderosos instnrmen-
tos que encapsulam cada vez mais inteligência a;nalítica e
conhecimento institucional que oferecerão a um negócio a sua
vantagem competitiva. Um iovem e inteligente trabalhador de
uma atividade desloc ahzada que saib a maneiar aqueles instru-
mentos pode em breve competir com profissionais muito mais
qualificados em países desenvolvidos que exigem salários muito
elevados.
Quando a desloceliz.açáo é vista em combinaçáo com a ür-
tomafização, o potencial impacte agregado no emPrego é assom-
broso. Em 2073, investigadores da Martin School da Universi-
dade de Oxford rcahzart^m um estudo pormetonzado de mais
de setecentos tipos de emprego nos EUA e concluíram que cer-
ca de 50 por cento acabanam por ser suscetíveis de total auto-
maizaçáoso. Alan Blinder e Âlan Krueget, da Universidade de
Princeton, efetuatam umâ análise semelhante relativamente à
deslocalizaçáo e apuÍaram que cerca de 25 por cento dos empre-
gos americanos arriscam ser deslo cahzados Para países de mão
de obra baratasr. Esperemos que haia uma significativa sobrepo-
sição entre estas duas estimativas! Na verdade, com toda a Pro-
babilidade haverá bastante sobteposição quando as estimativas
forem vistas quanto a descrição do cargo ou das funções. Con-
tudo, a história ê difefente ao longo da dimensão temporal.
A desloc *hzaçáo chegaú" frequentemeÍlte primeiro1' irâ acelent
de forma significattva o impacte da automatizaçáo, mesmo en-
qnanto Àtrast,. empregos mais qualificados PâÍa L zorta de ameaça.
À medida que as ferramentas com base em inteligência ant'
ficial tornarem mais fâct aos trabalhadores estrangeiros de ativi-
dades deslocalizadts a competição com os seus homólogos mais
bem pagos nos países desenvolvidos, também é provável que o
progresso tecnológico subverta muitas das nossas mais básicas

157
suposições sobre que tipos de empregos são potencialmente
mais deslocalizâveis. Por exemplo, quase toda a gente acredita
que os empregos que exigem manipulação fisica do ambiente es-
tatào sempre seguros. No entanto, os pilotos militares no oeste
dos Estados Unidos operam rotineiramente drones no Afeganis-
táo. Da, mesma maneira, é fâctl prever maquinaria de comando
rernoto a ser operada por trabalhadores de plataformas desloca-
lizadas que proporcionem a perceção visual e a destre za qae, de
momento, continv^ escapar aos robôs autónomos. A necessi-
^
dade de interação presencial é outro fator assumid o parr. aÍLcotarr
um trabalho localmente. Contudo, os robôs de telepÍesença es-
táo a ülatar a fronteira nesta ârea e foram já usados para deslo-
caltzat o ensino da língua inglesa das escolas coreanas p^ta as
Fiüpinas. Num futuro não muito distante, os ambientes de reali-
dade virmal avançadairão do mesmo modo tornar mais fâctpa-
ra os ttabalhadores atravessarem coÍrstantemente as fronteiras
nacionais e envolverem-se de forma direta com os compradores
ou clientes.
Conforme a deslo cahzaçào aceleta, os ücenciados universi-
tários nos Estados Unidos e outros países desenvolvidos podem
vt a" encatat a temível concorrência com base não só nos salá-
rios mas também na capacidade cognitiva. A populaçáo combi-
nadada Índia e da China totdizagrosseiramente 2,6 milmilhões
de pessoas oito vezes a populaçáo dos Estados Unidos. Os 5
-
por cento superiores em matéria de capacidade cognitiva totali-
zam cetcl de 130 milhões de pessoas ou seja, mais de 40 por
-
cento da população total dos EUA. Por outras palavras, a inilu-
dível realidade da distribuição da função de Gauss (curva de si-
no) de que há muito mais pessoas muito inteligentes na Índia e
China do que nos Estados Unidos. Tal não será necessariamente
motivo paÍz apreensão, evidentemente, eÍrquanto as economias
internas naqueles países forem cupalzes de gerar oportunidades
p^r^ todo s aquele s trabalhadore s e specialmente inteligente s.
Contudo, por enquanto, os indícios sugerem o contrário. A Ín-
dia montou uma indústria estatégica principal especificamente

158
ürigida p^t^ a captação de rabalhos eletrónicos americanos e
erúopeus. E a China, mesmo enquanto a sua taxa de crescimen-
to continaa. fazet ainveia do mundo, luta ano apôs ano Por
^
criat empÍegos de colarinho branco suficientes para a sua cres-
cente população de novos licenciados universitários. A meio
de2073, as autoridades chinesas reconheceram que apenas cerca
de metade dos ücenciados nesse âno conseguiria encontrar em-
prego, âo mesmo tempo que 20 por cento dos licenciados do
ano anterior permaneceriam desempregados e estes números
-
são inflacionados, já que o trabalho tempoúno e por conta pró-
pria bem como a maüícula nas faculdades e os estágios profis-
sionais são encarados como emprego teals2.
Atê agora, uma falta de proficiência em inglês e outras lín-
guas europeias tem em grande medida impedido os trabalhado-
res chineses mais qualificados de competirem agressivamente na
indústria deslocalizada. Mais uma vez, porém, parece que a tec-
nologia provavelmente acabarâ por demolir esta barteta. Tec-
nologias como as das redes neurais de aprenüzagem profunda
estão prontas para transportx a taduÇão mecânica instantànea
de voz do domínio da ficção científicapart^ o mundo real e
isto poderâ acontecer nos próximos aÍlos. Em junho de 2073,
-
Hugo Bar:ra, o executivo de topo da Andmid da Google, indicou
Prever que um <«ftadutor universú» verosímil, que tanto possa
ser usado pessoalmente como ao telefone, esteia disponível den-
tro de alguns anos. Bana também comentou que a Google tem
iâ tadução vocal «quase perfeit»> em tempo real entre inglês e
portusêss3. À medida que um maior número de trabalhos roti-
neiros de colarinho branco for automtazado em todo o mundo,
parece inevitável que a concorrência se intensifique pata con-
quisar uma das posições, cada vez em menor número, que ain-
da permanecem pma,lá do alcance das máquinas. As pessoas
muito inteligentes irão ter uma v^nta;gem signifi cativa e não
hesitarão em procttrut além das fronteitas nacionais. Na ausên-
cia de barreiras à imigração virtual, as perspetivas de emprego
nas economias desenvolvidas pata trabalhadores formados em

159
faculdades que não pertençam à elite podem tornar-se bastante
assustadoras.

Fonuaçao E coLABoRÂÇÃo coM as rr,rÁeurNÂs

Enquanto a tecnologia e mais trabalhos se tornam


^vanç
suscetíveis de ser âutomattzados, a solução convencional tem
sempre sido oferecer mais formaçào e prepançáo aos trabalha-
dores p^t^ que possam enveredar pelo desempenho de papéis
de maior qualificaçío. Como vimos no capítulo 1, milhões de
trabalhos pouco qualificados em âteas como pronto-a-comer e
comércio retalhista estão em risco conforme os robôs e as tec-
nologias de autosserviço começâm a invadL agressivamente es-
tas atividades. Podemos ter cetteza de que mais formação e
^
preparação serão a primeira soluçáo a propor p^ta estes uaba-
lhadores. Mas a mensagem deste capítulo tem sido que a atual
corrida entre tecnologia e formaçáo pode perfeitamente estar a
aproximar-se da meta finaL as máquinas vêm ai, tasrbém à pro-
ctrrâ dos trabalhos mais qualificados.
Entre os economisas que estão sintonizados com esta ten-
dência, começa a surgir um novo tipo de opinião generahzada:
os empregos do futuro envolverão a colabonçio com as máqui-
nas. Erik Brynjolfsson e Ândrew McÂfee do MIT foram propo-
nentes especialmente insistentes desta ideia, aconselhando os
trabalhadores a aprenderem a «coÍrer com as máquina$), em vez
de contra elas.
Embora possa ser um conselho sensato, não é especial-
rnente novo. Aprendet a trabalhar com a tecnologla predomi-
nante foi sempre uma boa estratég1a de carreira. Costumávamos
chamar-lhe «aprender competências informáticas»». No entanto,
devemos ser muito céticos quanto ao facto de esta última itera-
ção ser a solução adequadâ enquanto a tecnologra da informaçío
prossegue o seu implacável rumo exponencial.

160
O exemplo máximo da ideia da simbiose máquina-homem
veio a ser o relativamente confuso iogo de xadrezfreaflk Mais
de uma década depois de o Dte Blae da IBM ter vencido o cam-
peão mundial de xadrez Gary Kasparov, é genlmente aceite
guê, em desafios de um para um, entre computadores e seres
humanos, as máquinas hoie dominam em absoluto. Contudo, o
xadtez freesflle é um desporto de equipa. Grupos de pessoas, que
não serão necessariamente jogadores de xadrez de classe mun-
diâI, competem enre si e podem livremente consultar progra-
mas informáticos de xadrez enquanto avaliam cada jogada. No
estado de desenvolvimento atuâl, as eqúpas humanas com aces-
so a múltiplos algoritmos de xadrez sáo capazes de vencer qual-
quer computador «jogador de xrdrez>>.
lJâvános problemas óbvios com a ideia de que acolabora-
ção entre homem e máquina, em vez da automati zaçáo total,
chegaút a dominar os locais de trabalho do funrro. O primeiro é
que o domínio continuado das equipas homem-máquina em xa-
&ezfreuryle não está de forma alguma assegurado. Para mim, o
processo que estas equipas usam ay2l1a1e comparar os resul-
-
tados de diferentes algoritrnos de xadtez antes de decidir o me-
lhor lance parece desconfortavelmente próximo do que faz o
-
lYatson da IBM quando dispara ceÍltenas de algoritmos de pes-
quisa de informação e depois consegue estabelecer os resultados
por categorias. Não creio que seia um exagero sugerir que um
metacomputador jogador de xadrez com acesso a múltiplos al-
goritmos pode acabar Por vencer as equipas humanas espe-
cialmente se a velocidade for um fator importante.
-
O segundo, mesmo que a abordagem homem-máquina
ofereça doravante uma vantagem acrescida, há uma questão im-
portante quanto a os patrões estarem dispostos a fazet o investi-
mento necessário par;L aproveiar essa vaÍrtagem. Apesar dos lemas
e das pdawas de ordem que as grandes empresas diriçm aos seus
empregados, a realidade é que muitos negócios não estão prepa-
rados p^ra, p^g^t um prémio significativo pelo desempenho de

t6t
<<classemundió» quando se trata do volume do trabalho de roti-
na exigido pelas suas operações. Se tem quaisquer dúvidas
^cer-
ca disto, suglro que experimente hgu PúL o seu operador de te-
levisão por cabo. As empresas faráo os investimentos em áreas
que são críticas para a sua competência central com outras
-
palavras » para as atividades que dão ao negócio uma vantagem
competitiva. Mais uma yez, este cenário nada tem de novo.
E, mais importante, não envolve realmente quaisquer novas Pes-
soas. Os indivíduos que as empresas provavelmente coniüLtaÍáo
e depois combinarão com a melhor tecnologia disponível são as
mesmas pessoas que são iâ hoie fortemente imunes ao desem-
prego. É o-" pequena população de trabalhadores de elite. O li-
vro de 2013 do economista Tyler Cowen Aaerage is Oaer cita um
iniciado de xadrezfreugh que diz que os melhores iogadores são
os ((cromos genéticos>»S4. Isto dificilmente íaz com que a ideia da
colaboração com a máquina pareça solução sistémi cL p^ta" as
grandes massas de pessoas tfastadas dos trabalhos de rotina.
E, como acabâmos de ver, há também o problema da deslocali-
zaçáo. Uma grande p^fie daqueles 2,6 Ítil milhões de pessoas na
Índia e Íra China vai estar bastante disposta agatraÍ um desses
^
empregos de elite.
Também há boas razões pata supor que muitos trabalhos
de colab oraçáo com as máquinas terão uma vida relativamente
curta. Recordemos o exemplo da §TorkFusion e de como os al-
goritmos de aprenüzagem mecânica da empresa estão Progres-
sivamente a automaizar o trabalho desempenhado por trabalha-
dores por conta própria. O resultado final é que se der por si a
trabalhar com, ou sob a direção de, um sistema de sofiware inteli-
gente, é quase certo que quer se âPerceba quer 1[e estatâ
-
também a üeinar o software que acab ará, por substinrí-lo.
-
Uma outra observaçío é gue, em muitos casos, os trabalha-
dores que procuram um ttabalho de colaboração com máquinas
podem estar sob a afiie ç de sofrer uma epifania do género <«te-
nha cuidado com o que deseiar». Como exemplo, consideremos a
tendência at:uol no acesso aos meios de prova. Quando as grandes

162
empresas se envolvem em ütígios, toma-se necessário examinar
um eÍrorme número de documentos internos e decidir quais de-
les serão potencialmente relevantes para o caso em questão.
A legislação ameflcafla prevê que estes tenham de ser fornecidos
à parte contrária, e pode haver consequências penais substan-
ciais por não se produzir algo que possa ser pertinente. Um dos
paradoxos do escritório sem papéis é que o enorÍne número de
tais documentos, especialmente sob a forma de correio eletróni-
co, cresceu exponencialmente desde o tempo das máquinas de
escrever e do papel Parz üdar com este esmagador volume de in-
formação, os escritórios de advogados estão a experimentar téc-
nicas novas.
A primefua abordagem envolve a completa automattzarçào.
O software chamado e-Discoaery tem como base poderosos algorit-
mos que podem analisar milhôes de documentos eletrónicos e
extrair automaticamente os que são relevantes. Estes algoritrnos
vão muito além da simples pesquisa por palawa-chave e incor-
poram frequentemente técnicas de apren dizagem automática
que podem isolar conceitos relevantes, mesmo quando frases es-
pecíficas não estão presentesss. Um resultado direto desta auto-
mat:rzzrção foi L ev^pot^ção de grande número de empregos para
advogados e funcionários que outrora pesquisavam laboriosa-
mente numefosas caixas de cartão repletas de documentos.
Hâ também umâ segunda abordagem de uso comum:
os escritórios de advogados podem externalizar este trabalho
de pesquisa PaÍa emPresas especializadas que contratafii legiões de
recém-ücenciados. Estes licenciados são tipicamente vítimas da
transbordante bolha de matrículas nàs faculdades de direito.
sem conseguirem encontrar emprego como profissionais da
advocaci a, acabam em vez disso a trabalhar como revisores de
documentos. cada advogado senta-se frente a,m monitor onde
é exibido um fluxo contínuo de documentos. Em simultâneo
com o documento existem dois botões: «<Relevanto) e ««I.{ão rele-
vanto). os licenciados em direito rastreiam o documento e clicam

163
no botão adequado. Aparece então um novo documentos6. Po-
dem categori zx até oitenta documentos por horasT . Pata estes
iovens advogados não há salas de audiência, náo hâ oportunida-
de de aprenderem ou de crescerem nâ sua profissão, nem de
progredirem. Pelo contrário,hâ inapelavelmente [e12 após
hora os botões «<Relevante»» e «ôJão relevantoÊ.
-
-Uma questão óbvia quanto a estas duas abordageÍrs con-
correntes é se o modelo de colaboraçío é sustentável. Mesmo
com os relativamente baixos salários (para advogados) pagos a
estes trabalhadores, a abordagem autornânca parece ser mais efi-
caz quraÍtto a custos. Quanto à baixa qualidade destes trabalhos,
poderemos presumir que me limitei a escolher um exemplo bas-
tante distópico. Afinal, os muitos uabalhos que envolvem a co-
laboração com máquinas irão ou não ser comandados pelas pes-
soas, de modo que os trabalhadores superrisionem as máquinas
e se envolvam em trabalho gratificante, em vez de simplesmente
âtuarem como engrenagens e mecanismos de um Processo me-
carttzado?
O problema desta suposição bastante utópica é que a rnfor-
mação náo a sustenta. No seu livro de 2007 SuperAnaliúas, Yan
Ayres, professor da Universidade de Yale, cita estudo após estu-
do para eüdenciâr que as abordagens algorítrnicâs repetidamen-
te supefam os especialistas humanos. Quando é dado às pessoas,
em vez de aos computâdores, o comando total do processo, oS
resultados são invariavelmente penalizados. Mesmo quando

* Se achar apelativo este tipo de rabalho mas não tem a necessária preparação legal,
pfocure o ,à*iç,, «Mechanical Turlo» da Amazon, que oferece muitas opornrnidades
semelhantes. Por exemplo, <<BinCam»» instala câmaras no seu contentof do
üxo, veriÍi-
ca tudo o que deia fora, e depois publica automaticamente o registo nas redes sociais.

A ideia é, aparentemente, em-ergo-nhar âs Pessoas Para estas não desperdiçarem ali-


mentos e não se esquecefem de proceder à reciclagem. Como iá vimos, o recooheci-
para
mento üsual (dos tipos de lixo, neste caso) continua a ser um tremendo desafio
tarefa'
os computad*.r, pà, isso dá-se emPrego a Pessoas para desempenharem esta
o simpies facto dã este serviço ser economicamente viál'el devia dar-nos uma ideia
do nível de salários praticados Para este tipo de trabalho'

164
antecipadameÍr.te se dá aos especialistas humanos acesso aos re-
sultados algorítmicos, eles continoum a produzir resultados que
são inferiores aos das máquinas que atuâm autonomamente. No
sentido em que as pessoâs acrescentâm valor ao processo, é me-
lhor tê-las a providenciar inputs específicos ao sistema do que
dar-lhes o poder total. Diz Ayres: <<,As provas acumulam-se a fa-
vor de um mecanismo desumani zado4 diferente e muito mais
humilhante, na. combinação de especialista e de eficácia (algorít-
mica).»58
A minha questão neste aspeto é que embora os trabalhos
de colabonçío homem-máqúna certamente existarm, p^tecem
ser relativamente poucos* e frequentemente de vida curta. Na
grande ma.ona dos casos, eles podem ainda não ser compensa-
dores e ser até desumanizadores. Assim, parece dificil justificar a
sugestão de que devíamos desenvolver um esforço significativo
pz;ta pteparutmos especificamente as pessoas pat^ as aiudar a
acabat em qualquer um destes empregos mesmo que seja
possível determinaÍ exàt^mente
-
o que tal prcpanção pode
^caÍ-
retaÍ. Em grande medida, este argumento parece-me uma forma
de recauchutar umâ ideia muito convencional (dar aos trabalha-
dores ainda mais formação vocaciond) . manter tudo assim du-
rante mais algum tempo. Estamos definitivamente a caminho de
trma disrupção que exigirá uma resposta política muito mais im-
Porante.

* Bm Tyler Coven estima que talvez 10-15 por ceÍrto da mão de obra
Aaerage is Ouer,
com máquinas. Penso que a
zrmericzrnr será preparada par:t ttabalhos colaborativos
longo pnzo, esa estimativa até pode ser otimisa, especialmente se considerarmos o
impacte da deslocalizaçío. Quantos postos de trabalho de colaboração com máquinas
serão fixados localmente? (Uma exceção ao meu ceticismo sobre postos de trabalho
de colabomção com máquinas pode estar nos cúdados de saúde. Como veremos no
capítulo 6, penso que poderá vir a ser possível criar um novo tipo de profissional mé-
dico com múto menos formação do que um médico, que podeút trabalhx com um
sistema baseado em inteligência artiÍicial para diagnóstico e tratamento. Contudo, os
cúdados de saúde constituem um caso especial, porque os médicos exiçm um ex-
uaordinário esforço de formação e tteino e muito provavelmente haverá num futuro
próximo falta significativa de médicos)

t6s
Alguns dos primeiros empregos a cait com a âutomattza-
ção de colarinho branco serão certamente os de nível inicial de-
sempenhados por recém-licenciados. Como vimos no capítulo 2,
há indícios a sugerir que este processo iá começou. Entre 2003 e
201.2, o rendimento médio dos universitários americanos com
graus de licenciatura caiu de quase 52 000 p^rà pouco mais de
46 000 dólares, medidos no seu valot de 2012. Durante o mesmo
período, a dívida total dos empréstimos a estudantes triplicou de
cetcàde 300 mil milhões para 900 mil milhões de dólaresse.
O subemPrego entre os licenciados recentes cresce vertigi-
nosameÍrte, e quase todos os estudantes universitários conhecem
algum colega cuia licenciatura conduzia a uma carceira de em-
pregado de cafetana. Em março de 2013, os economistas caflL-
dianos Paul Beaudry, David A. Green e Beniamin M. Sand pu-
blicaram um trabalho académico intitulado <<The Great Reversal
in the Demand for Skill and Cognitive Tasks»60. O título diz es-
sencialmente tudo. Os economistas descobriram que por volta
do ano 2000, a procura total de mão de obra qualificada nos Es-
tados Unidos atingiu um pico e depois entrou em queda
^ceÍ-
tuada. O resultado é que os novos ücenciados têm progressiva-
mente sido obrigados a aceitar trabalhos relativamente pouco
qualificados com frequência afastando não licenciados do
pfocesso.
-
Mesmo estes universiúrios com ücenciaturas em âteas téc-
nicas e científicas têm sofrido um impacte significativo. Como
vimos, o mercado de trabalho na tecnologia da informação, em
especial, tem sido transformado pelo aumento da automaazaçào
associado à tendência p^ta a nuvem informática bem como à
deslocalizaçáo. A convicção ptofundamente emaizada de que
uma licenciatura em engenharia ou em ciência computacional é
uma garaflttl de emprego é em grande parte um mito. Uma anâ-
lise de abril de 2073 efetuada pelo Economy Policy Institute
apurou gu€, nas universidades dos Estados Unidos, o número
de novos licenciados em engenharia e ciência computacional é
50 por cento superior ao número dos que conseguirão encontrar

166
trabalho nestas âreas. O estudo conclui que «a ofetta de ücencia-
dos é subsancialmente maior do que a proctúa existente na ativi-
dado»61.Toma-se progressivamente evidente que muitâs pessoas
irão dar os passos certos quanto a perseguirem uma fotmarçáo
avançada, mas apesar disso não conseguirão enttada na econo-
mia do futuro.
Embora alguns dos economistas que concentram os seus
esforços no exame de resmas de dados históricos estejam final-
mente a discernir o impacte que o progresso tecnológico está" a
produzir nos postos de trabalho mais quaüficados, são tipica-
mente bastante cautelosos quanto à tentàttv^ de proieção dessa
tendência no futuro. Os investigadores que trabalham no campo
da inteügência artificial são frequentemente bastante menos reti-
centes. Noriko Ârai, matemática do Instituto Nacional de Infor-
mâtrca do Japão, conduz um projeto p^r^ o desenvolvimento de
um sistema, c^paz de passar no exame de admissão à Universida-
de de Tóquio. Arai acreüta que se um computador puder dar
prova da combinação de aptidão em linguagem natural e compe-
tência aniliaca necessári^ patl conseguir entrar na universidade
mais qualificada do Japáo, então muito provavelmente também
acabarâ por ser c p^z de desempenhar muitos dos ttabalhos que
hoje em dia são ocupados por licenciados. Ela prevê a possibili-
dade de dispensas em massa nos ptóximos dez a vinte anos.
Uma das principais motivações para o seu proieto é procurar
quantificar o potencial impacte da inteligência artificial no mer-
cado de trabalho. Arai manifest^ à preocupação de que os 10 a
20 por cento de trabalhadores qualificados substituídos por au-
tomatzação serão uma «catástrofe» e diz que ((nem consigo ima-
ginar o que significaria 50 por cento)). Depois acrescenta que tal
estaria ««muito além de uma catástrofe e que esses números não
podem ser ignorados se a inteligência artificial registar um bom
desempenho no fuhrro>»62.
A própria atividade do ensino superior tem sido historica-
mente um dos prirrctpais setores de emprego pura, trabalhadores

167
altamente qualificados. Especialmente pú^ aqueles qua aspitam
ao doutoramento, o trajeto de catretra típico tem sido chegar ao
carpus como caloiro universitâno e depois nuÍrca de lá sair. No
próximo capítulo iremos ver como esta atividade e um grande
número de canetras podem também estar à beira de uma maciça
disrupção tecnológica.

168
Capítulo 5
TRÂNSFORIVÍAR O ENSINO SUPERIOR

Em março de 2013, um pequeÍlo gÍuPo de professores,


constituído princlpalmente pot professofes de inglês e instruto-
res de escrita, lançou uma petição em linha em resposta a notí-
cias de que as provas de exames regulares iriam ser classificadas
por máquinas. A petição, intinrlada <<Profissionais contra a Clas-
sificação por Máqúnas das Provas dos Estudantes em Avalia-
ções Importantes>>1, reflete a argumentação do gupo sobre a
classificação algorítmica de provas escritas sef, entre outras coi-
discriminatónt,Púà não men-
sas, simplista, inexata, arbittâna e
cionar que seria executada por «um dispositivo gue, de facto,
não sabe leo». Em menos de dois meses, a petição iâ ntha sido
assinada por cerca de 4000 profissionais do ensino, bem como
por intelectuais do domínio púbüco, incluindo Noam Choms§.
Usar computadores PLnL classificar testes náo é novo, evi-
denteme nte; hâ anos que eles desempenham a tatefa trivial de
classificar os testes de escolha multipla. Neste contexto são vis-
tos como dispositivos que PouPam trabalho. Contudo, quando
os algoritmos começam a Penetfar numa âtea tida como alta-
mente dependente da comPetência e do iaizo humano, muitos
professofes veem a tecnologa como uma aÍne ç . A classifica-
ção de pfovas por máquinas fecoÍfe a técnicas avançadas de in-
teligência artifici al; a estratégi a bâsica usada P^t^ avahar as Pro-
vas dos estudantes é bastante semelhante à metodologia do
tradutof automático em linha da Google. Os algoritmos de
aprenüzagem da máquina são primeiramente preparados com

169

a
fecufso a um grande número de amostras escritas que jâ fotam
classificadas por instrutores humanos. os algoritmos são então
libertados para classificar novas provas de estudantes e podem
fazê-lo quase instantaneamente.
A petição ««ProÍissionais contra a Classifi cação por Máqui-
nas» é certamente correta na sua afrtmaçáo de que as máquinas
que Íazem t avahação <<não sabem leo>. Contudo, tal como vi-
mos em outras aplicações de megadados e aprcnüzagem mecâ-
nica, isso não é importante. As técnicas baseadas na anâhse de
correlações estatísticas frequentemente igualam ou inclusiva-
mente superam os melhores esforços dos especialistas humanos.
De facto, uma análise de 2012 efetuada por investigadores do
College of Education da Universidade de Âkron compatava L
classificação por máquinas com as avahaÇões atribuídas por pro-
fessores e revelava que a tecnologia «atingi^ ptulocàmente níveis
idênticos de rigor, em alguns casos com o software a revelar-se
mais fiáveb». O estudo envolveu nove empresas que ofereciam
soluções de avaliação automatizada e mais de 16 000 provas de
estudantes pré-universitários do ensino público de mais de seis
estados americanos2.
Les Perelman, antigo diretor do progtuma de escrita do
MIT, é um dos mais eloquentes críticos à avahação autom atza-
da, e um dos primeiros apoiantes da petição de 201,3 que se opu-
nha a esta prática. Perelman foi capaz, Í\tÍnr. série de casos, de
construir provas sem qualquer sentido que enganarum os algo-
ritmos, levando-os a atribuir classificações elevadas. Contudo,
Pafece-me que se a capacidade de desenvolver disparates conce-
bidos pa,r,a, iludir o sofiware dificilmente é comparãvel com a ca-
pacidade necessária paÍa escrever uma prova coerente, então is-
to tende a subverter o argumento de Perelman de que o sistema
pode facilmente ser manipulado. A verdadeira questão é se um
estudante a quem falta a efettva capacidade de escrever correta-
mente pode conseguir iludir o sofuiare de avaJiação, e o estudo da

170
Universidade de Akoo parece sugerir o contrário. Perelman le-
vafltr. de facto e pelo menos uma Preocupaçáo váüda: a perspeti-
va de que os esürdantes passaráo a ser ensinados â escrever es-
pecificamente púL agrudx a algoritrnos que, sugere, ««darão aos
estudantes um crédito desproporcionado por redações longas e
eloquentes»3.
A avahação algoritrrrca, apesar da controvérsia que lhe é
inerenter iluâse ceftamente virá totnuf-se mais prevalecente
^
conforme as escolas continuarem a Pfoctraf formas de coftar oS
custos. Em situações em que um grande número de Provas Pre-
cisar de ser avaliado, a abordagem tem vantagens óbvias. Âlém
da rapidez e do custo inferior, uma abordagem algorítrnica ofe-
fece objetividade e consistência em casos nos quais seriam de
outra forma exigidos múltiplos examinadores. A tecnologa tam-
bém dá aos estudantes retorno instantâneo e é bastante aPro-
priada p^ta trabalhos que de outto modo poderiam não receber
escrutínio detalhado por parte de um examinador. Por exemplo,
muitos cursos de comunicação exiçm ou incentivam os estu-
dantes a mânter fornais diários; um algoritmo pode avahar cada
entrada e talvez até sugerir melhoramentos, com o simples cli-
que de um botão. Parece razoâvel presumir que a classificaçáo
automáticaitâ, pelo menos no futuro mais previsível, ser relega-
da par:a os ctrsos introdutórios no ensino das competências bá-
sicas de comunicação. Os professofes de inglês têm poucas fa-
zões pàta" tece r que os algoritmos esteiam Prestes a invadir as
aulas de escrita criativa de nível superior. Connrdo, o seu desen-
volvimento em cufsos introdutórios poderâ acabar por dispen-
sâf oS professores assistentes que agora desempenham essas tâ-
rifas rotineiras de classificação.
O alvoroço em torno da classificaçáo robótica de provas
fepfesenta apenas um Pequeno exemplo da fePercussão que cet-
tamente irá dar-se à medida que a força total da tecnologia da
informa çáo aceleruda acabar por cair sobre o setof do ensino.
Até agoru, as faculdades e universidades têm sido profundamente

t7l
imunes aos substanciais aumentos na produtividade que trans-
formaram as outras atividades. os benefícios da tecnologia da
informação ainda não escalaram pelo setor do ensino superior, o
9ue, pelo menos em parte, explica o extraordinário aumento dos
seus custos nas décadas mais recentes.
Há fortes indícios de que as coisas estão prestes a mudar.
Um dos impactes mais perturbadores vai seguramente provir
dos cursos em linha oferecidos por instituições de elite. Em
muitos casos, estes ctrsos atraem grande número de inscrições e
itáo, poranto, ser um imporainte motor de abordagens automa-
lzadas tânto do ensino como da sua avahaçáo. o edX, um con-
sórcio de universidades de elite fundado p^t^ oferecer crúsos em
linha granritos, anunciou no início de 2073 que irá disponibüzar
gratuitamente o seu software de avaliação de provas parr. todas as
instituições de ensino que estejam interessadas em usá-loa. Por
outras palavras, os sistemas algorítrnicos de avaliação tornartam-
-se mais um exemplo de sofiwme modular que irá ai:udar a acele-
tàt o inevitável rumo pLtL o aumento da automatizaçáo do tra-
balho humano qualificado.

A ascsNsÃo E o rRopEçÂo Dos MOOC


- -
cursos gratuitos na Internet como os que são oferecidos
pelo edX são parte da tendência pau;r. os crúsos abertos em mas-
sa online ou MOOC (massiue open online courses) de que o pú-
- -
büco tomou consciência no final do verão de 2011, quando dois
cientistas informáticos da Universidade de Stanford, Sebastian
Thrun e Peter Norvig, anunciaram que a sua cadeira de introdu-
ção à inteügência amfrcirl ficana disponível pala toda a gente,
sem custos, na Internet. Âmbos os professores do curso efam
celebridades no seu campo, com fortes laços à Google; Thrun
conduzira os esforços patl desenvolver os automóveis de con-
dução automática da empresa, enquaÍrto Nonrig fora diretor de
pesquisa e coautor do principd manual de inteligência artificial.

172
Dias depois do anúncio, havia mais de 10 000 pessoas inscritas.
QuandoJoh. Markoff do NewYorkTinu escreveu um artigo de
primeita págrrru do curso naquele mês de agosto, as ins-
^cetcl
crições disparar^m pute. mais de 160 000 pessoas em mais de
190 países. Só o número de estudantes em linha da Linrânia ex-
ceüa o número de estudantes pré-universitários e universitários
matriculados em Stanford. Estudantes com idades entÍe os sete
e os setenta anos inscreveram-se para aprenderem os conheci-
mentos básicos de inteligência anrficial diretamente com dois
dos mais eminentes investigadores da matén^ uma opornrni-
-
dade extraordinâna anteriormente só disponível Para, cerca de
200 alunos de Sanfotd6.
O curso de dez semanas foi dividido em pequenos seg-
mentos de apenas alguns minutos com base no modelo dos ví-
deos de enorme sucesso par:l estudantes do ensino secundário e
médio, criados pela Khan Academy. Eu próprio completei
vários módulos da discipüna e achei que o formato era um po-
deroso e aliciante motor de aprenüzagem. A produção não re-
correu a truques visuais; pelo contrário, os vídeos consistiam
pdncipalmente na apresentação de tópicos Por ThruÍr ou Norvig,
enquanto escreviam num bloco de notas . Cada segmento era se-
guido de um teste de pergunta/resposta interativo técnica
-
que praticamente gàtànte que os conceitos-chave são assimila-
dos conforme se avanç L no curso. Cerca de 23 000 pessoas
completaram a disciplina, ftzetam o exâme final e receberaÍn um
certificado de aproveitamento de Stanford.
Em poucos meses, toda uma nova indústria se materiahzort
em torno do fenómeno dos MOOC. Sebastian Thrun reuniu ca-
pital de risco e abriu uma empresa chamada Udacity Paru, ofere-
cer aulas gratuitas ou de baixo custo em linha. Por todo o país e
em todo o globo, as universidades de elite precipitaram-se para
entrar no jogo. Outros dois professores de Sanford, Andrew Ng
e Daphne Koller, fundarum L Coursera com um investimento
inicial de22 milhões de dólares e constitufuam uma pàtcerta com
as universidades de Stanford, Michigan, Pensilvânia e Princeton.

173
Harvard e MIT rapidamente investiram 60 milhões de dólares
na cúação do edX. A Coursera respondeu congregando mais
uma díaia de universidades, incluindo aJohns Hopkins e o Cali-
fornia Institute of Technology, e no pnzo de dezoito meses en-
contrava-se a trabalhar com mais de uma centena de instituições
em todo o mundo.
No início de 2013, o frenesi que envolvia os MOOC explo-
üa táo rapidamente como as inscrições nos cursos. As aulas em
linha eram claramente assumidas como preparadas pata condu-
zk a trma nova eta,, rra qual a fotmação de elite estaria acessível a
todos sem qualquer custo ou com um custo mínimo. Os pobres
de toda Af.ic^ e Ásia em breve estariam a frequentar universi-
^
dades da Ivy League wa tabhts e sna@ltones. O colunista Thomas
Friedman do NewYorkTimes chamou aos MOOC «<uma revolução
florescente na educação superior global em linha» e sugeriu que es-
tes cursos tinham o potencial de «dibertar mais mil milhões de cére-
bros púe. resolver os maiores problemas do mr:ndo»í.»
A realidade chegou como um choque sob a forma, de dois
estudos pubücados pela Universidade da Pensilvânia nos últi-
mos meses de 2073. Um dos estudos analisou o milhão de pes-
soâs que se tinham inscrito nas aulas oferecidas pela Coursera e
descobriu que os MooC «tinham relativamente poucos atiüza-
dores ativos, que o empenhamento do utilizador caia dtasaca-
mente especialmente após as primeiras, uÍna a duas, semanas
-
do curso e que poucos ut'lizadores persistiam até ao fim do
-
curso»»8. Só cerca de metade das pessoas inscritas nas aulas che-
gavàm a assisú a uma única üção. Âs taxas de conclusão do cur-
so variavam entÍe 2 a 74 por cento, com uma média de cerca de
os Mooc também não conseguiam atrak os estu-
4 por ceÍrto.
dantes pobres e com Íormação deficiente ou inferior, que se
pensava virem a ser os maiores beneficiários; cetcl de 80 por
cento das pessoas que se inscreveram nos cursos já tinham al-
gum grau académico.

174
Vários meses antes, urna importânte parceria entre a Uda-
city e a Universidade Estatal de San Jose tinha igualmente fra-
cassado em responder às expectativas. O progràma,, pensado
parl oferecer aos estudantes desfavorecidos aulas em linha gra-
tuitas compensatórias de matemâtca, âlgebn e introdução à es-
tatística, foi anunciado numa conferência de imprensa por
Sebastian Thrun e pelo governador da CalifórniaJerry Brown
em janeiro de 2013 e publicitado corno uma possível solução pa-
ra nivelar os custos de ensino e a supedotação das universida-
des. Quando os primeiros grupos de esrudâÍrtes completaram os
cursos, que custavam apenas 150 dólates e ofereciam mentores
em linha pú^ prestarem assistência individual, os resultados fo-
ram desanimadores. Três quartos dos estudantes que seguiam as
aulas de álgebr^- e quase 90 por cento provinham diretamente
do ensino secundário não concluíram o curso. De um modo
-
geral, os estudantes dos MOOC registarâm um aproveitamento
bastante pior do que o dos estudantes inscritos em aulas tradi-
cionais na Universidade de San Jose. Desde então a universidade
decidiu suspender o programa, pelo menos temporariamentee.
Agora, a Udacity desviou o seu esforço do ensino de base
alatgada pff^ se concentrar preferencialmente em aulas mais vo-
cacionais concebidas para dar a trabalhadores competências téc-
nicas específicas. Empresas como a Google e Salesforce.com,
por exemplo, estão a subscrever cursos que ensinam os analis-
tas-programadores a trabalhar com os seus produtos. A Udacity
também estabeleceu uma parceria com o Georgia Institute of
Technology par:a oferecer o primeiro mesuado em ciência infor-
mâaca com base nos MOOC. A mauícul^ pàta o programa cus-
taú 6600 dólares cerc de 80 por cento menos do que ntrma
-
universidade radicional.
Os custos de prep araçáo e arraÍrque estão a ser financiados
pela AT&T, que planeia pôr muitos dos seus empregados a fa-
zer os cursos. Inicialmente, o Georgia Technology trá, mamcular
apenas 375 estudantes, mas o objetivo é expandir o prograrma
pú^ poder servir milhares de alunos.

175
Enquanto os MOOC continuam a evoluir e a ser aperfei-
çoados, a esperança de que impulsionem uma revolução global
que proporcione ensino de alta qualidade a centenas de milhões
dos pobres do mundo pode acabar por se tomar tealidade. Con-
tudo, a curto Ptàzo, Parece eüdente que estes cursos em linha
aúaem mais os estudantes que já estão altamente motivados pa-
ra procurar mais fotmaçáo académica. Por outras palavras, os
MOOC estão preparados para competir pelas mesmas pessoas
que de outro modo se matriculariam em aulas mais tradicionais.
Presumindo que os potenciais empregadores veem os MOOC
como nma ofefia váüda e credenciada, isto podeú, acabar por
desencadear uma revolução importante em todo o setor do ensi-
no superior.

CnBorro uNrvERSrrÁRJo E DTpLoMAS coM BASE Na couperÊNcn

Quando Thrun e Nonrig avoharam os resultados da sua au-


la de inteligência anfrcial de 2071, descobriram qae 248 partici-
pantes tinham conseguido a pontuação máxima no curso; estes
estudantes nunca responderam incorretamente a qualquer per-
gunta de exame. Também descobrfuam que nem um só estudan-
te de Stanford se enconftLva eÍrtÍe aquele grupo de elite. De fac-
to, o estudante com maior pontuaçào nt universidade foi
superado pelo menos por 400 participantes em linha. Porém,
nenhum dos estudantes com este excelente desempenho rece-
beu qualquer crédito formd de Stanford, nem mesmo um certi-
ficado tradicional de conclusão do seu trabalho.
Meses antes, quando os administradores de Stanford toma-
ram pela pdmeira vez conhecimento do elevado número de ins-
crições no curso, convocattam repetidamente os professores pa-
ra reuniões de negociação sobre a natureza de qualquer diploma
que pudesse ser atribúdo aos participantes em linha. A preocu-
paçío náo era apenas o cachê de Stanford potencialmente se di-
luir por dezenas de milhares de pessoas nsnhuma das quais
-
176
estava a ser confiontada com o custo de matrícula anual de cer-
ca de 40 000 dólares, normalmente pago pelos estudantes da
universidade mas ambém a identidade dos esnrdantes em lo-
-
cahzações remotas não poder ser verificada. Os administtadores
acabatast por concordar que uma simples ««declaração de rcahza-
ção» podia ser oferecida aos estudantes que completassem o
curso pela Internet. Os diretores de Stanford estavam tão preo-
cupados com a precisão desta terminologia que quando um ior-
nalista usou o termo ««certificado» numa coluna sobre o curso,
imediatamente exigiram a correção.
Os diretores de Stanford têm preocupações quanto à veri-
frcaçáo da identidade dos estudantes em linha. De facto, assegu-
rar que o crédito é conferido à própria pessoa que na realidade
complea o crúso e faz o exame é um dos desafios mais signifi-
cativos associados à oferta de créütos académicos ou diplomas
oficiais pü^ os MOOC. Sem um robusto Processo de identifrca'
ção, em breve surgiria uma indústda vibrante em tomo da coÍl-
clusão fraudulenta de ctrrsos e exames. Na verdade, numerosos
sítios web pxecem iâ estar a oferecer a frequência de cursos em
linha por outras pessoas a troco de um P4gamento. Em finais de
z|lz,jomdistas do sítio eletrónico Insifu HigherEd apresentaram-se
como esnrdantes e pediram informações a alguns daqueles sítios
Lcetcà da rcahzaçáo de um ctúso em linha de inuodução à eco-
nomia disponibthzado pela Universidade de Penn State. Foram-
-lhes apresenados custos eotre 775 e 900 dólares com a"garafllta
de obtençáo da classificação mínima de B no curso. E isto era
pma aulas na Penn State tradicional, no ramo em linha com ga-
rantra de grau, em que verificar as identidades dos estudantes
deve ser um desafio muito menor do que seria numa classe
abetta com enorme número de participanteslo. As marículas to-
tais no programa completo são de apenas cerca de 6000 estu-
dantes uma minúscula fuaçáo do número de pessoâs que Pro-
-
vavelmente se inscreveriam parz. um simples e PoPular MOOC.
A fraude também tem sido um problema importante com
as aulas online em massa. Em 2012, foram apfesentadas dezenas

177
de queixas sobre plágro em cursos de humanidades disponibiü-
zados pela Coursera. Estes cuÍsos dependiam da avahaçáo por
pares, em vez de por algoritmos, para examinar o desempenho
do aluno, por isso os administradores de curso que respondiam
às queixas tiveram de lidar com a possibiüdade de plágio desca-
rado e também com a probabilidade de algumas das acusações
serrem erróneas. Numa aula de ficção científica e escrita fantás-
flca, reclamações de que os testes dos estudantes estavam a seÍ
copiados da ÍYikipédia ou de outÍas fontes previamente publica-
das levaram Eric Rabkin, o professor de inglês do curso na Uni-
versidade do Michigan, a enviar trma caÍte- a todos os 39 000 es-
tudantes notificando-os contra à do trabalho de
^ptopriaçáo
outrem, mas também salientando que «rma acusação de plágio é
um âto profundamente sério e só deve ser feia quando há pro-
vas concretas que a sustentem>»ll. O aspeto saliente sobre estes
incidentes é que a nenhuma destas disciplinâs está â ser atribú-
do qualquer crédito académico. Aparentemente, muitas pessoas
cometem fraudes «apenas porque o podem fazeo> ou talvez por-
que não compreendem as fegrâs. Em qualquer caso, não pode
haver grandes dúvidas de que a associação de créditos académi-
cos formais com tais cursos iria fazet aumentar drasticamente o
incentivo a condutas incorretas.
Há um conjunto de soluções técnicas possíveis para os
problemas de identificaçáo e fraude. Um método simples é fa-
zer perguntas de segurança exigindo os dados pessoais no início
de cada sessão. Se alguém estiver a pensar contr^tàt ouüa pes-
soa para frequentat as aulas em seu nome, pode ter de pensar
duas vezes antes de lhe dar o número da segurança social. Con-
tudo, este tipo de estratégia seria dificil de apücar globalmente.
Uma solução de vigilância remota extge uma càmata ativa no
computador para que os administradores possam monitorizar o
estudante. Em 2073, o edX o consórcio dos MOOC funda-
-
do pela Universidade de Harvard e pelo MIT começou a
-
oferecer certificados de identidade aos estudantes que pagas-
sem um custo adicional e aceitassem participar nas aulas sob o

178
olhar vigilante de uma webcam. Tais certificados podem ser aPre-
sentados a potenciais empregadores mas geralmente não podem
ser usados como crédito académico. A monitorizaçáo por vigi-
lância é dispendiosa e obviamente não extensível a dezenas de
milhares de pessoas que estejam a frequenar um ctrso gratuito,
mas parece provável que algoritmos de reconhecimento facial
do tipo dos usados presentemente pàt^ identificar fotos no Fa-
cebook possam eventuâlmente exercer aquele papel. Outros al-
goritmos poderão em breve ser cupelzes de identificar estudantes
pela cadência da sua digitação no teclado, ou remover completa-
mente plágios pela comparação automâtrca das provas escritas
de avahaÇão com vastos coniuntos de dados sobre uabalhos já
existentesl2.
Um caminho especialmente promete dor para agregar um
crédito académrco aos MOOC pode ser oferecer diplomas com
base na competência. Com esta abordagem, os estudantes ga-
nham o crédito não por assistir a uma alula mas Por Passarem
testes de avaliação separados demonstrativos da sua competên-
cia em âreas específicas. A formação com base na comPetência
(CBE, co mp eten ry - bas e d e du catio n) foi inicialmente experim entada
na §7est Governor's University CüíGU), uma instituição em li-
nha proposta pela primeira vez numa conferência de 1995 em
que participaram os governadores de dezanove estados àmeflca-
nos. A §fGU começou à opetàr em 7997 e em 2013 tinha mais
de 40 000 estudantes, muitos dos quais eram adultos em busca
de programas pàrà completarem a sua formaçáo iniciada anos
antes ou para transitarem PaÍl. novas carreiras. A abordagem
CBE recebeu um impulso importante em setembro de 2073,
quando a Universidade do §Tisconsin anunciou que iria introdu-
zh um programa baseado na competência P^t^ obtenção de
graus académicos.
Os MOOC e a CBE podem demonstrar vir a ser uÍna com-
binação naural porque esta basicaÍnente desassocia os cursos dos
diplomas. Questões como a identificaçáo dos alunos ou a fraude

179
seriam abordadas apenâs Ílos testes de avaliação. Pode inclusiva-
mente haver opornrnidade púL trma empresa financiada pot c -
pit l de risco poder assumir a reahzação de testes de avaliação e
emissão de diplomas, sem minimamente participar no dispen-
dioso e complexo negócio de ministrar aulas. Os estudantes au-
tomotivados seriam üvres de usar quaisquer recursos üsponíveis
incluindo MOOC, autoestudo, ou aulas mais tradicionais
-p^r^ adquirirem competência e pâssarem depois um teste -de
avahaçáo adminisrado por aquela empresa putr. obterem os seus
créditos académrcos. Tais testes poderiam ser bastante rigoro-
sos, criando com efeito um filtro grosseiramente comparável aos

Processos de admissão das universidades mais seletivas. Se uma


tal empresa start-tQ fosse c paz de construir umâ reputação sóli-
da pala atribuição de diplomas apenas a gttdaados altamente
competentes, e se talvez mais difícil pudesse construir
- -
fortes relações com empregadores de elevado perfil que assegu-
rassem a procura dos seus graduados, teria um claro potencial
pura dinamizar o setor do ensino superior.
Um estudo anual de quadros de topo em cerca de 3000 ins-
titutos e universidades americanos revelou que as expectativas
quanto às promessas futuras dos MOOC diminúram signifi-
cativamente durante 2013. Quase 40 por cento dos inquiridos
respondeu que cursos online em mass a não eram um método de
instrução sustentâvel; no estudo do ano anterior, apenas um
quarto dos administradores universitários expressara essa pers-
petiva. Também o Cbmnicle of Higber Educaüon noticiou um pro-
gresso relativamente sombrio, observando que «no ano passado,
os MOOC não tiveram incursões significativas no atual sistema
de credenciação de ensino superior, levantando a questão se se-
río tÃo perturbadores pata o statu qrlo como alguns observadores
inicialmente pensaram>»l 3.

Um dos paradoxos associados aos MOOC é gue, com to-


dos os seus problemas como mecanismo de ensino em mâssa,

180
podem ser um método de aprendizagem extremamente eftcaz
p^t^ os alunos com autodisciplina e motivaçã.o suficientes.
Quando Thrun e Norvig começarum oferecer aulas em ünha
^
de inteügência artificial, sutpreenderam-se ao verificar que a fre-
quência das suas aulas em Stanford começou a co,tt rapidamente,
de tal modo que por fim só cerca, de 30 dos 200 estudantes do
canpus compareciam regularmente às aulas. Os seus alunos, Lpa,-
rentemente, preferiam as aulas em linha. Também descobriram
que o novo formato dos MOOC teve como resultado um im-
pulso significativo no desempenho médio nos exames dos seus
alunos no cattpus, comparativamente com os alunos que tinham
frequentado as mesmas aulas em anos anteriores.
Penso que seria múto prematuro declarar o fenómeno dos
MOOC condenado. Podernos, pelo contrário, estar simples-
mente a assistir aos tropeções iniciais que são característicos das
novas tecnologias. Vale pefla lembrar, por exemplor eu€ o
^
Microsoft ÍYindoas náo amadureceu como trma força dominante
da indústÍt^ àté a Mcrosoft lançar a sua versão 3.0 pelo me-
-
nos cinco anos após a introdução original do produto. Na ver-
dade, o pessimismo quanto à futura sustentabilidade dos
MOOC entre os adminisuadores universitários está muito pos-
sivelmente ügado em grande medida aos seus receios sobre o
impacte económico que estes cursos potencialmente poderão ter
nas suas instituições e em todo o setor do ensino superior.

À snrRA DA DTsRUPÇÂo

Se a disrupção provo cada pelos MOOC ainda está por se


manifesta4irâ seguramente explodir numa atividade que gerz
trma receita anual de cerca de meio bilião de dólares e emprega
mais de três milhões e meio de pessoasl4. Nos anos que media-
ram 1985 e 2013, os custos universitários subiram 538 por cen-
to, enquanto o índice geral dos preços Ílo consumidor aumen-
tou apenas 1,27 por cento. Mesmo os custos médicos ftcatam

181
substancialmente attâs dos do ensino superior, com um aumen-
to de cerc de 286 por cento Íro mesmo período15. Grande parte
daquele custo est^ L ser supotada por empréstimos de estudan-
te, que presentemente atingem pelo menos 1,2 biliões de dólares
nos Estados Unidos. Cerca de 70 por cento dos estudantes uni-
versitários americanos contraem empréstimos e a dívida média
em final de curso está pouco abaixo de 30 000 dólares16. Recor-
demos que apenas cerca de 60 por cento dos esnrdantes univer-
sitários em programas de licenciatuta concluiu os seus cursos
em seis anos, deixando os restantes a Lmottrzut qualquer üvida
acumulada sem o benefício de um grau rcadémico|7.
Curiosamente, o custo da instrução efetiva em instinrtos e
universidades teve um contributo relativamente menor pàta o
aumento em flecha destes custos. No seu livro de 2073 College
Unbound,Jefftey J. Selingo cita dados reunidos pelo Delta Cost
Proiecq uma pequena otgantzação de pesquisa que produz anáth-
ses com elevada procura sobre a aavtdade do ensino superior.
Entre 2000 e 2010, as grandes universidades públicas de investi-
gpÇáo aumentaram os gastos nos serviços p^t^ esnrdantes em 19
por cento, administração em 15 por cento e operações e manu-
tenção em 20 por cento. Bem mais attâs estavam os gastos Ílo
ensino, que subiram apenas 10 por centol8. No sistema da Uni-
versidade da Califórnia, o emprego de professores cúu 2,3 por
cento entre 2009 e 2011, mesmo com as matrículas de estudan-
tes a aumentarem 3,6 por centore. Pata ttavut os custos de for-
maçã,o, as universidades estão cada vez mais dependentes de
professores a tempo parcial ou convidados, que são pagos por
curso em alguns casos com tão pouco como 2500 dólares
-
por uma caideta com a drxaçáo de um semestre e não rece-
-
bem nenhuns outros beneficios de emprego. Especialmente no
domínio das artes überais, estes empregos de convidados toma-
ram-se autênticos becos sem saídà púa um enorme número de
doutorados que outrora esperavam ter carreitas académicas com
vínculo efetivo.

182
Embota os custos de instnrção esteiam largamente contro-
lados, o montante gasto em administração e instalações dispa-
rou. Em muias universidades de grande dimensão, o número de
adminisuadores e üretores excede o de professores. Du-
^gota
raÍrte o mesmo período em que o emprego de professores caiu
mais de 2 por cento na Universidade da Califórnia, os empregos
para diretores atrmenaram 4,2pot cento. Os gastos com profis-
sionais que oferecem orientações e aconselhamento aos estu-
dantes também dispararam e empregos deste tipo constituem
Lgora quase um terço das profissões contfatadas nas maiores
universidades americanas20. O setor do ensino superior torÍlou-
-se aPafentemente uma máquina de emprego pelpétuo pafa os
profissionais mais credenciados L não ser, claro, que se queira
-
de facto um emprego p^t^ ensinar. O outro pri"crpd sorvedou-
ro de dinheiro tem sido o extraordinariamente entusiástico in-
vestimento em luxuosos aloiamentos, instalações desportivas e
de recreio p^ta estudantes. Selingo salienta que ((o mais absurdo
do supérfluo é o Lazy River, essencialmente um parque aquático
temático onde os estudantes flutuam em iangadas»»2l. Todos os
administradores das universidades de Boston, Akron, Alabama e
Missouri consideram o parque como parte indispensável da ex-
periência universitária.
Claro que o fator mais imporante tem sido simplesmente a
boa vontade dos estudantes e das suas famílias parz pug rem
preços cada vez mats altos para, o indispensável bilhete parz a
classe média. Por isso, não suqpreende que muitos observadores
tenham expressado a opinião de que o ensino se tornou uma
«ôolhar», ou pelo menos um volumoso castelo de cartas que está
pronto puta o mesmo tipo de dizimação digital que iá transfor-
mou a indústria de jornais e das revistas. Os MOOC oferecidos
por instinrições de elite são vistos coÍno o mecanismo que mui-
to provavelmente irá impor o cenário de ((o vencedor ganha flr-
do» que invariavelmente se instala quando uma indústria se abre
ao digital.

183
Nos Esados Unidos existem mais de 2000 institutos e uni-
versidades com cursos de quatro anos. Se incluirmos as insti-
tuições que asseguram ctúsos de dois anos, o número cresce pa-
ra 4000. Deste total, talvez 200 ou 300 se possam classificar
como seletivas. O número de instituições de ensino com repua-
ção nacional, ou que possam ser consideradas de verdadeira eü-
te, é evidentemente muito menor. Imaginemos um futuro em
que os estudantes universitários podem assistir a cuÍsos em linha
gratuitos ministrados por professores de Harvard ou de Stan-
ford e subsequentemente receber um diploma reconhecido por
empregadores ou por universidades com cursos de pós-gradua-
ção. Quem, então, estaria disposto a endividar-se par;^ conseguir
pugtr a matrícula numa instituição de terceiro ou quarto nível?
Clayton Christensen, professor Íra Hanrard Business School e
especialistâ em inovação disruptiva nas indústrias, previu que a
resposta a esta pergunta resulará num futuro sombrio paÍ2 mi-
lhares de instituições. Numa entrevista de 2013, Christensen
disse que <<dentro de quinze aÍr.os, metade das universidades
ameticanas podem estar na banc anot»?2. Mesmo que muitas
instituições se mantenham solventes, é fâctl imaginar a profunda
queda de matrículas e receitas, a par com despedimentos maci-
ços tanto de administradores como de professores.
Muitas pessoas presumem que a disrupção começatâ, pelo
topo, conforme os estudantes se concentÍarem em cufsos ofere-
cidos por instituições da Ivy League. Todavia, isto pressupõe
que o ««ensino»» é o primeiro produto a ser cligltaltzado. Que es-
colas como Harvard e Stanford estejam disposas a oferecer for-
mação granrita prova que estâs instituiçôes estão prirrcrpalmente
no negócio de concessão de diplomas e não do conhecimento.
Os diplomas de elite não estão na mesma escala de, digamos,
um ficheiro digital de música; são mais como emissões limiadas de
gra\nras artísticas ou do papel-moeda criado por um banco emis-
sor. Se forem produzidos em excesso, o seu valor cai. Por este
motivo, suspeito que as universidades de nível verdadeiramente

184
elevado pefÍnanecerão bastante prudentes quanto à emissão de
diplomas com rcalvaha.
A disrupção pode mais provavelmente vir do nível seguin-
te, especialmente das maiores universidades públicas com forte
reputação académica e enorme número de aluÍros- bem como
mafcas ligadas a pfogfamas de futebol e basquetebol de elevado
perfil que procrúam progressiva e desesperadamente receitas,
-
Por Parte do Es-
em coÍlsequência dos cortes de financiamento
tado. A parceria da Georgia Tech com a Udacity Para, oferecer
um cufso de ciências baseado nos MOOC, e a exPeriência da
Universidade do §Tisconsin com diplomas com base nas compe-
tências podem oferecer um Prognóstico do que em breve itát
chegar em escala muito mais maciça. Como sugeri previamente,
também poderá haver opornrnidades Pàt^ uma ou mais emPfe-
sas privadas reclamatefn uma maior íatta do mercado pela ofeta
de diplomas orientados vocacionalmente, exclusivamente basea-
dos em testes de avdiação.
Mesmo que os MOOC não evoluam rapidamente na dire-
ção exata de um diploma académico ou outfa credencial com
valor de marcado, poderão ainda assim coÍÍoer os modelos de
negócio de muitas universidades. Longas palestras introdutórias
em cursos como economia e psicotos, são galinhas de ovos de
oufo vitais para as universidades, pois exigem relativamente
poucos fecrúsos PatL ensinar centenas de alunos muitos dos
-
quais estão a Pagat a totalidade. Se em algum momento os alu-
nos pudeÍem optar Por um MOOC granrito ou de baixo custo,
ministrado por um professof célebre de uma instinrição de eüte,
esse simples facto pode sef um rude golpe Pàte. a estabiüdade fi-
nanceira de mútas escolas de nível mais baixo.
Conforme os MOOC continuarem a evoluir, o eÍIofÍne nú-
mefo de matrículas que feceberem será um impoftante motof
patr. a inovação. Um vasto volume de informação estâ, a ser coli-
grdo sobre os esmdantes que participam e sobre as formas como

185
são bem-sucedidos ou como falham enquanto avançamnos seus
crúsos. Como já vimos, técnicas de megadados resultam segua-
mente em importantes conhecimentos que conduzttáo a desfe-
chos melhorados, com o tempo. Novas tecnologias de ensino
estão também a emergir e serão progressivamente incoqporadas
nos MOOC. Sistemas de ensino adaptáxeis, por exemplor pro-
porcionam o que é importarfie p^ra, um tutor robótico. Estes
sistemas seguem de muito perto o progresso de cadaum dos es-
tndantes e oferecem instrução e assistência personalizada. Tam-
bém podem ajustar o rirmo da aprendizagem às capacidades
reais do aluno. Estes sistemas estão a.ptovarr o seu sucesso. LJm
estudo oJeatôno analisou cursos de introdução à estatística em
seis universidades públicas. os estudantes de um grupo frzenm
o cufso no seu formato tradicional, enquanto os do outro grupo
receberam principalmente instrução robótica, combinada com
tempo limitado em salas de aulas. o estudo apurou que ambos
os grupos de estudântes tinham desempenhos ao mesmo nível
«em maténa de percentagens de aprovações, pontuações de exâ-
mes finais e desempenho num teste padronrzado de üteracia es-
tatísticar»23.
se o setor do ensino superior acabar por suctrmbir à chaci-
na digital, a transformação muito provavelmente será uma espa-
da de dois gumes. um diploma universitâno pode frcar muito
menos dispendioso e mais acessível a muitos estudantes, mas, ao
mesmo tempo, a tecnologia pode devastar uma atividade que é,
ela própria, um importante foco de emprego par;r. uabalhadores
altamente qualificados. E como iá vimos, êfr toda uma outÍa ga-
ma de indústrias, o progresso do sofiware de automattzaçáo conti-
a prodvzir impacte em muitos empregos qualificados que
m;rrrá"
os novos licenciados muito provavelmente irão procrúar. Mes-
mo quândo os algoritmos de avaltaçáo de provas e os tutores ro-
bóticos ajudarem os alunos a escrever, algoritmos semelhantes
desenvolüdo pela Narrative Science poderão iâ ter à:utomuttzà-
do muitos dos textos introdutórios de rotina em muitas áreas.

186
Também pode vir a manifestar-se como natural a sinergia
entre a ascensão dos MOOC e a ptâtrca da deslocalizaçáo de
empregos com base no conhecimento. Se a massificação dos
cursos em linha acabar por conduzir à atribuição de graus acadé-
micos, parece inevitável que muitas das pessoâs e uma eleva-
-
da percentagem de candidatos com o melhor desempenho L
-
quem serão atribúdos estes novos diplomas esteiam localizadas
no mundo em desenvolümento. À medida que os empregado-
res se acostumafem L conüLtar trabalhadores formados por via
deste novo paradigma, também podem ftcar incünados a assu-
mir uma abordagem pfogressivamente mais global relativamente
ao fecflrtamento.
O ensino superior é um dos dois maiores setofes de ativi-
dade nos EUÂ, eue tem estâdo até agota relativamente imune
ao impacte da acelençío da tecnologia digttal. No entanto, ino-
vações como os MOOC, os algoritmos de avahaçáo automática
e os sistemas de aprenüzagem adaptile| oferecem um caminho
relativamente promiss ot Para uma eventual üsrupção. Como
vefemos de seguida, o outro resistente maior os cuidados de
saúde
-
representa um desafio ainda maior Púa. os robôs.
-

787
Capítulo 6
O DESAFIO DOS CUIDADOS DE SAÚDE

Em maio de 2012, um homem de cinquenta e cinco anos


deu entrada numa clinrca na Universidade de Marbufg na Ale-
manha. O paciente âpfesentava febre, esóf4go inflamado, baixos
níveis de hormonas na tiroide e perda pxcial de visão. Disse que
consultara diversos médicos e todos eles tinham ficado confusos
com a suâ condição. Quando chegou à clínica de Marburg, esta-
va quase cego e à beira de uma Púagelr;r catdíaca. Meses aÍrtes e
num continente distante, um mistério médico muito semelhante
culminara com trma mulher de cinquenta e nove anos a receber
um transplante de coração no Centro Médico da Universidade
do Colorado, em Denver.
A histórilParf^ambos os mistérios veio atevelar-se a mes-
ma: envenenamento pof cobaltol. Ambos os pacientes tinham
previamente recebido ancâs arttficiais feitas de metal. Com o
tempo, os implantes de metal tinham-se desgastado, libertando
partículas de cobalto e expondo os pacientes a toxicidade cróni-
ca.Numa coincidência noúvel, estudos que descreviam os dois
casos foram pubücados independentemente em duas das mais
importantes revistas méücas, quase no mesmo dia, em fevereiro
de 2074. O relatório publicado pelos médicos alemães tinha uma
variante fascinante: enquanto a equip a, aÍneÍtcaÍL?. tecotüefa à ci-
nrfglu,a equipa alemã conseguira resolver o mistério não devido
à sua prepafação, mas Porque um dos médicos tinha visto em
fevereiro de 2017 um episódio da série televisiva Dr. House.
Nesse episódio, o protagonista da série, Dr. Gregory House, é

189
confrofltado com o mesmo problema e apresenta um engenho-
so diagnóstico: envenenamento por cobalto de prótese metálica
p^ta substituição darrnc .
o facto de duas equipas de médicos poderem luar por ela-
borar o mesmo diagnóstico e de o poderem fazer mesmo
-
quando a resposta ao mistério foi transmitida par;a milhões de es-
pectadores de televisão em horário nobre é uma prova de até
-
que ponto o conhecimento médico e a càpàcidade de diagnósti-
co estão compartimentadas Ílos cérebros de todos e cada um
dos médicos, mesmo numl eta em que a Internet veio permitir
um grau sem precedentes de colab orziçío e acesso à inform açáo.
Consequentemente, o processo fundamental que os médicos
usam púa diagnostic t e üatut doenças perÍnâneceu, de maneira
importante, relativamente inalterado. A inversão dessa aborda-
gem tradicional à resolução de problemas, e o desencadear de
toda a informaçào registada nas mentes de cada um ou publica-
da em vagas revistas médicas, representa provavelmente um dos
potenciais beneficios mais importantes da inteligên cia atafrcial e
dos megadados aplicados à meücina.
Geralmente, os progressos Íla tecnologia da informação
que estão a perturbar outras âteas da economia tiveram Lté ago-
ra relativamente poucas incursôes no setor dos cuidados de saú-
de. Especialmente difícil de encontat é qualquer prova de que a
tecnologia estâ a tadazir-se em melhoramentos significativos na
eficiência global. Em 1960, os cuidados de saúde representavam
menos de 6 por cento da economia norte-american*.E;m2013,
aquela representatividade quase tinha triplicado, com um cresci-
mento de quase 18 por cento, e os gastos em cuidados de saúde
per c@ita nos Estados Unidos tinham atrmentado par.:a, um nível
que era sensivelmente o dobro do de muitos dos países indus-
mahzados. Um dos maiores riscos que se apresenta é a tecnolo-
gia continuar a provocar impactes assimetricamente, fazendo
baixx salários e gerando desemprego em grande parte da eco-
nomia, mesmo enquanto o custo dos cuidados de saúde conti-
rtv L subir. O perigo, efi certo sentido, náo é existirem robôs
190
â mais púa a saúde, mas sim a rnenos. Se a tecnologia não con-
seguir estar à ahxa do desafio dos cuidados de saúde, o resulta-
do será muito provavelmente um fardo pesado, e provavelmeÍrte
insustentável, tânto Pàrà as famílias como p^t^ a economia no
seu todo.

A Nrsr.rcÊNcn ARTIFICIÀL NÂ MEDICINA

A quantidade total de informação que podia ser Potencial-


mente útil para um médico que procura diagnosticar uma deter-
minada condição de um paciente ou definir a melhof estratégiâ
de tratamento é assombfosâ. Os médicos são confrontados com
uma torrente contínua de novas descobertas, tratameÍltos inovado-
res e avaliações de estudos clínicos dirrulgados em publicações mé-
dicas e científicas de todo o mundo. Por exemplo, a MEDLINE,
urna base de dados em linha mantida pela US National übraty
of Medicine, indexa mais de 5600 publicações diferentes cada
-
uma das quais pode publicar todos os anos dezenas ou centenas
de difetentes relatórios sobre investigaçáo médica e científica.
Adicionalmente, há milhões de registos médicos, históricos de
pacientes e estudos de caso que podem oferecer Pistas impor-
tantes. De acordo com uma estimativa, o volume total de toda
esta info tmaçáo duplica sensivelmente a cada cinco anos3. Seria
impossível pal;a qualquer ser humano assimilar mais do que urna
minúscula ftaçáo da informação relevante, mesmo em âreas alta-
mente específicas da pránca médica.
Como vimos no capítulo 4, a medicina é ama das princi-
pas fueas em que a IBM aotevê o impacte transformador da sua
tecnologia §7atson. O sistema da IBM ê capaz de pesquisaf em
de vastos coniuntos de importantes informações nos formatos
mais díspares e depois quase instântaneamente constfuir infe-
rências que poderiam passar despercebidas rnesmo ao investiga-
dor humano mais atento . É, Ad imaginar um futuro próximo

191
em que tal ferramenta de diagnóstico seja considerada indispen-
sável, pelo menos puta médicos confrontados com câsos espe-
cialmente complexos.
O MD Anderson Cancer Center na Universidade do Texas
atende anualmente mais de 100 000 pacientes no seu hospital de
Houston e é geralmente considerado como a melhor instalação
Pàtà üatâmento de doenças cancerígeÍras nos Estados Unidos.
F;m2011, a equipa do sistema lüTatson começou a trabalhar com
médicos do MD Ândersolpare. construir uma versão apropria-
da do sistema dfuecionadapara oncologisas que trabalham com
casos de leucemia. O obietivo é crjrar um conselheiro interativo,
c pàz de recomendar as melhores opções de tratamento com
base em provas reais, pela associação de doentes a testes clínicos
de medicamentos e salientando os possíveis perigos ou efeitos
secundários que poderão arle ç r pacientes específicos. O pro-
gresso inicial no proieto demostrou ser algo mais lento do que a
equipa esperava ,latgamente devido aos desafios associados ao
desenvolvimento de algoritmos c^pazes de üdar com as comple-
xidades do diagnóstico e üaamento do cancro. De facto, o can-
cto é mais dificil do que o JeopardllDe qudquer forma, em janei-
to de 2074, o V/all StreetJournalnoticiava que o sistema que tinha
como base o lYatson púe- a leucemia no MD Ânderson esava de
novo no bom caminho par:l se tornar operacionala. Os investi-
gadores contam vir a expandfu o sistemà puta üdar com outros
tipos de cancro no espaço de sensivelmente dois anos. É muito
provável que as lições que a IBM tetfir. deste programa-piloto
permitam à empresa definir linhas par;à futuras aplicações da tec-
nologia §flatson.
Quando o sistema estiver a opetat sem problernas, os res-
ponsáveis do MD Anderson planeiam rorná-lo disponível via
rnternet parz que se transforme num poderoso recurs o purà
médicos em todo o mundo. De acordo com a Dt., Courtney
DiNardo, especialista em leucemia, a tecnologia §Tatson tem o
«potencial de democratizar os cuidados de cancro» permitindo a

192
qualquer médico ««aceder ao conhecimento científico mais recen-
te e à competência especiali zadado MD Ândersor». ««Para médi-
cos que não são especialistas em leucemio», acrescenta, «o siste-
ma pode funcionar como uma segunda opinião especializada,
permitindo-lhes aceder ao mesmo conhecimento e informaçío>>,
com a confiança do mais avançado centro de tratamento de can-
cro do país. DiNardo acredita também que, além de oferecer
aconselhamento púz. pacientes específicos, o sistema çroviden-
ciarâ, uma plataforma de pesquisa sem paralelor §lue pode ser
usada pata getzr perguntas, explorar hipóteses e dar respostas a
questões críticas de investigação»s
O lVatson é ataalmente a mais ambiciosa e Preeminente
aphcaçáo da inteligência anfrcial à medicina, mas há mais histó-
rias de sucesso igualmente importantes. Em 2009, investigadores
da Mayo Clinic em Rochester, no Minnesota, construíram trma
rede neural artificial concebida paar. diagnosticar casos de endo-
cardite, uma infeção da membtana mais interna do coração.
A endocardite exige normalmente a inserção de uma sonda no
esófago do paciente para determinar se é de origem infeciosa e
potencialmente mortal, procedimento que é desconfortável, dis-
pendioso e que comportâ riscos Púa o paciente. Em vez disso,
os médicos da Mayo prcpar:ararín a rede neural Par:à fazer o diag-
nóstico com base em testes de rotina e ern sintomas obsenráveis
isoladamente, sem necessidade da técnica invasiva. Um estudo
que envolveu 189 pacientes apurou que o sistema foi exato em
mais de 99 por cento das vezes e PouPou a metade dos pacien-
tes o invasivo pÍocesso de diagnóstico6.
Um dos mais importantes benefícios da inteligência artifi-
cial ra medicina será provavelmente evitar potenciais erros faais
tanto no diagnóstico como flo trutàmento. Em novembro de
'1,994, Betsy Irhman, mãe de 39 aÍros com dois filhos e cohxrista

com vasto número de leitores que escrevia sobre asstrntos hgu


dos à saúde p^r^ o Boston Globe, tinha agendado o início da sua

193
terceiÍa sessão de quimioterapia enquanto üavàvl a sua batalha
contra um cancro na mama. Lehman foi admitida no Dana-Far-
ber Cancer Institute em Boston, o qual, tal como o MD Ânder-
soÍI, é considerado um dos mais importantes centros oncológi-
cos do país. O plano de tratamento exigia que fosse ministrada a
Lehman uma poderosa dose de ciclofosfamida, droga altamente
tóxica que devia eliminar as suas células cancerígenas. O investi-
gador respons íwel que escreveu a teceita" médica cometeu um
simples erro numérico, o que significou que a dosagem total que
Lehmân recebeu foi cerca de quatro vezes superior ao que o pla-
no de tÍatamento efetivamente requeria. Lehman morreu de so-
bredos4gem em 3 de dezembro de 79947.
I-ehman foi apenas mais um entre os 98 000 pacientes que
morrem anualmente nos Estados Unidos em consequência dire-
ta de effos médicos preveníveis8. Um relatório de 2006 do US
Institute of Medicine estimava que pelo menos um milháo e
meio de americaÍros são afetados por effos de medicaçào e que
tais erros resultam em mais de 3,5 mil milhões de dólares de
custos anuais em tratamentos adicionaise. Um sistema de inteli-
gência amficial com acesso a histórias detalhadas de pacientes,
bem como a informaçáo sobre medicamentos, incluindo a suâ
toxicidade associada e efeitos secundários, poderia potencial-
mente ser capaz de prevenir erros, mesmo nas situações mais
complexas que envolvam tlntetação com múltiplas drogas. Tal
^
sistema poderia como um conselheiro interativo parr mé-
^r'tàt
dicos e enfermeiros, oferecendo a verificação instantânea da se-
gurança e da conformidade antes de o medicamento ser admi-
nistrado, e especialmente em situações em que o pessoal do
-
hospital se encontra sob cansaço ou sujeito a distração muito
-
provavelmente salvaria vidas e pouparia desconforto e despesas.
Âssim que as aplicações médicas de inteligên cia artrficial
evoluírem ao ponto de os sistemas poderem àt:uat como verda-
deiros conselheiros capazes de consistentemeÍrte com
^vançat
segundas opiniões de elevada qualidade, a tecnologia também

194
poderá aiadar a refrear os altos custos associados à responsabili-
dade civil por negligência médica. Muitos médicos sentem a ne-
cessidade de pnncat a chamada «<medicina defensivar» e receitar
todos os exames concebíveis numa tentativa de se protegerem
contra potenciais processos judiciais. Uma segunda opinião do-
cumentada de um sistema de inteligência artrftcial conhecedor
dos procedimentos-padrão das melhores práticas poderá ofere-
cer aos médicos um porto seguro contra tais reclamações. O re-
sultado poderá ser menores gastos em exames químicos e ima-
giológicos desnecessários bem como em prémios de seguro
contra más práticas*.
Olhando ainda mais à frente, podemos facilmente imaginat
a inteligência artificid tet um impacte verdadeiramente trans-
^
formadot na. fotma como os serviços médicos são prestados.
Quando as máquinas demonstrarem que podem oferecer di"g-
nósticos exatos e tÍatumento efrcaz, talvez deixe de ser necessá-
rio o médico supenrisionar diretamente todas as consultas com
todos os pacientes.
Num editorial que escrevi púa. o lYasltington Post, pouco de-
pois da vitória do lYatson quando jogou o Jeopardl!, sugeri que
poderia eventualmente havet uma oportunidade puta criar um
novo tipo de profissional da medicina: com formaçáo talvez ao
nível de um mestrado de quatro anos e que fosse prirrctp"ln ente
treinado p^ra, examinar e interagir com os pacientes e depois
transmitir a informação recolhida par:a um sistema pa&onizado de
diagnóstico e trâtâmentol0. Estes novos clínicos de custo reduzido

* Isto levanta a questão sobre se a responsabilidade deveú simplesmente transitar paÍ o


fabricante do sistema de inteligencia ârtificial. Umtvez que estes sistemas podem ser usa-
dos para diagnosticar dezenas ou até centenas de milhares de pacientes, a potencial res-
ponsabilidade poÍ erros pode ser desencorajadora. Contudo, o Supremo Tribunal ameri-
cano fixou jurisprudência em 2008, com o caso Riegel a. Medtnnic, In, qtre esabelece que
os fabricantes de dispositivos médicos estão protçgidos de certos processos judiciais se os
seus produtos tivetem sido aprovados pela Federal Drug Administration. Talvez uÍn ra-
ciocínio semelhante possa ser alatgado aos sistemas de diagnóstico. Um outro assunto é
que âs anteriores tenativas de criar trm porto seguro legislativo paÍa os médicos foram
ügorosamente contesadas pelos advogados, que detêm grande influência política.

19s
poderiam erLcatteg r-se dos muitos casos de rotina e aiadar a
conter o número extraordinariamente crescente de pacientes
com perturbaçôes crónicas como a obesidade e a diabetes.
Como é evidente, as organizrções de médicos provavel-
mente poderiam opor-se ao influxo destes concoÍrentes meÍros
formados e preparados*. Contudo, a rcahdade é que a maioria
dos médicos formados pelas faculdades de medicina não esú es-
pecialmente entusiasmada em enveredar pela caneita, de medici-
na familiar e está ainda menos interessada no serviço em áreas
rurais do país. Vários estudos preveem uma escassez de até
200 000 médicos dentro dos próximos quinze anos, à medida que
os médicos mais velhos se forem aposentando, e o Affordable
Cate Âct trouxer par^ o sistema nacional de saúde nada menos
do que 32 milhões de novos pacientes, tuna população em enve-
lhecimento e que necessita de mais cuidadosll. A escassez será
mais acentuada entre os médicos de cuidados primários, pois os
médicos recém-formados, por norma sobrecanegados com ní-
veis onerosos de empréstimos p^ra estudantes, optam esmaga-
dotamente por especialidades mais lucrativas.
Estes novos clínicos, preparados para uttlizat um sistema-
-padrão de inteligência artificial que arÍnazette muito do conhe-
cimento que os médicos adquirem no decurso de quase uma dé-
cada de intensa preparação, podem üdar com casos de rotina, ao
mesmo tempo que encaminham aqueles que exigem cuidados
mais especializados pàt^ os médicos. Os estudantes candidatos à
universidade beneficiariam significativamente de um novo e ali-
ciante flrmo de carreira, especialmente conforme o software inteli-
gente for eliminando opofiinidades nos outros setores do mer-
cado de trabalho.

* Os profissionais de enfermagem com formação superior foram c ptzes de ultrapas-


sar td oposição política em dezassete estados americanos e poderão vir a ser uma
componente importante dos cúdados primários no futuro.

196
Em algumas âreas da medicina, especialmente aquelas que
não exigem a intençío direta com os pacientes, os progressos
na inteligência afirfrcial estão aptos a promover aumentos im-
portantes de produtividade e talvez eventualmente a total auto-
manzação. Os radiologistas, por exemplo, são preparados Para
inteqpretar as imagens resultantes dos diversos exames imagioló-
gicos. O processameÍrto de imagens e a tecnologia de reconheci-
mento estão à avainç r rapidamente e podem em breve usurpar
o papel tradicional do tadiologista. H software que pode iâ reco-
nhecer pessoas em imagens publicadas no Facebook e até aiudar
a identificar potenciais terroristas nos aeroportos. Em setembro
de 2012, a Federal Drug Administration aProvou um sistema au-
tomático de uluassons par:a rastreio de cancro da mama nas mu-
lheres. O dispositivo, concebido pelos U-Systems, Inc., foi de-
senvolvido para aiudx a identifi càr Presença de câncro em
^
cerc de 40 por cento das mulheres com tecido mamâno denso
que pode tornâr inefrcaz â mamografii. Os radiologistas ainda
precisam de inteqpretat as imagens, mas fazê-lo leva agott cetca
de apenas três minutos, por contraste com vinte a trtnta minutos
parr- as imagens produzidas com recurso à habitual tecnologia
portátil de ultrassonsl2.
Os sistemas autornáticos também podem providenciar uma
segunda opinião viável. Uma muito efrcaz mas dispendiosa
-
forma de aumentar as taxas de deteção de cancro é Íazet com
-que dois radiologistas analisem cad^ m^mogrufia separadamente
e depois procurem chegar a um coÍrsenso sobre quaisquer ano-
malias identificadas por qualquer deles. Esta estratégia de dupla
leitura resulta numa deteção de cancro significativamente otimi-
zada e também reduz muito o número de pacientes que teriam
de voltar a ser chamados pafa mais exames. Um estudo de 2008
pubücado Íro New England Joumal of Medicina apurou que uma
máquina pode desempenhat o pàPel do segundo médico. Quan-
do um radiologista é combinado com um sistema de deteção

197
computonzado, os resultados são tão bons como os de dois mé-
dicos a inteqpretarem separadamente as imagensl3.
A patolo gr^ é outra ârea em que a inteligência aruficia| iát
estâ penetrar. Anualmente, mais de cem milhões de mulheres
^
em todo o mundo fazem o exame de Papanicolau pàtà rastreio
de cancro no útero. O exame exige que as células recolhidas por
citologia cervical seiam depositadas em lamelas de microscópio
par;l depois serem examinadas por um técnico ou por um médi-
co patr. identificaçáo de sinais de malignidade. É o- processo
de trabalho intensivo que pode custar até 100 dólares por exa-
me. Contudo, muitos laboratórios de diagnóstico estão àgorz,
^
voltar-se para um poderoso sistema imagiológlco automati zado
fabricado pela BD, uma empresa produtora de equipamento
médico sediada em Nova Jérsia. Numa série de artigos de 2011
sobre automatização de trabalho para" a Slate, o colunista de tec-
nologia Farhad Manioo classificou o FocalPoint GS Imaging
System da BD como «rma maravilha da engenharia biomédicar»
cujo <<software de pesquisa de imagem rapidamente rastreia lame-
las em busca de mais de 1000 sinais visuais de células anormais»».
Seguidamente, o sistema ««classifica as lamelas de acordo com a
probabilidade de contetem a, doençar» e finalmente «identifica 1,0
âreas em cada lamela par:a escrutínio humano»»14. A máquina faz
um trabalho significativamente melhor a encontrar a ocorrência
de cancro do que os analistas humanos, ao mesmo tempo que
sensivelmente duplica a velocidade a que os testes podem ser
processados.

Ronónca No HosprrAr, E NA panir,tÁcn

A farmâcia do Centro Médico da Universidade da Cahfor


nia em São Francisco ptepaÍe. diariamente cerca de 10 000 doses
individuais de medicamentos, e no entanto o farmacêutico não
toca sequer numa pílula ou num frasco de medicamento. Um

198
sistema maciçamente automati zado gere milhares de meüca-
meÍrtos e ttata de tudo, desde àtma,zenar e encontraÍ forne-
cimentos farmacêuticos a granel a dispensar e embalar doses
individuais de medicamentos. Um braço robótico recolhe conti-
nuamente pflulas de um painel de caixas e deposita-as em peque-
nas bolsas de plástico. Cada dose vu par;a uma bolsa separada e
é rotulada com um código de barras que identifica a medictçáo
e o paciente que a deve tomar. A máquina organiza depois os
medicamentos diários de cada paciente pela ordem em que Pre-
cisam de ser tomados e fecha a embalagem. Mais tarde, a enfer-
meira que administra os medicamento s faz a leitura do código
de barras tanto na bolsa com a dosagem como na pulseira do
paciente. Se não combinarem, ou se a medicaçáo estiver a ser
ministrada à hora enada, soa um alarme. Outros três robôs es-
peciahzados automailzam L PrcPair^ção de medicamentos tnietâ-
veis; um destes robôs lida exclusivamente com drogas de qui-
mioterapia altamente tóxicas. O sistema eümina pntcamente a
possibiüdade de erro humano ao exclúr quase inteiramente do
processo a interrenção humana.
O sistema automaazado de 7 milhões de euros da Univer-
sidade da Cahfót:tta é apenas um dos mais espetaculares exem-
plos da transformação robótica que se estâ a operar na atividade
fatmacêutica. Robôs muito mais baratos, não maiores do que
uma ,.olg"t máquina de venda automática, estão a invadir as íaç
mácias locahzadas em grandes centros cometciais. Nos Estados
Unidos, exige-se aos farmacêuticos uma fotmaçã,o intensiva
(grr* de doutoramento de quatro anos), além de um dificil exa-
me de ücenciamento. Também são bem P4gos, com uma média
anual de 117 000 dólares em 2012. Porém, especialmente em
ambiente de comércio tetalhista,, maior parte do seu trabalho é
^
sobretudo repetitivo e de rotina, e a Preocupação dominante é
evitar eÍros potencialmente fatais. Por outras palavras, muito do
qure fazem os farmacêuticos é quase idealmente adequado à au-
tomaazaçáo.

199
Quando a medicação de um doente está pronta púL deixar
a farmâcia de um hospital, é cada vez mais provável que venha
a fazê-lo mediante um robô de distribuição. Tais máquinas iá
cflizalm os átrios de enormes complexos médicos distribuindo
medicamentos, amostras de laboratório, refeiçôes púa os doen-
tes ou roupa de cama lavada. Os robôs podem contornar obstá-
culos e usar elevadores. Em 2070, o Hospital El Camino em
Mountain View, na Cahfômia, adquiriu em sistema de lea;ing de-
zanove robôs de distribuição à Aethjon, fnc., com um custo
anual de cerca de 350 000 dólares. De acordo com um adminis-
trador do hospit l,pryu a pessoas para fazercm o mesmo traba-
lho custaria mais de um milhão de dólares por ano15. No início
de 2073, a Generd Electric anunciou planos p^t^ o desenvolvi-
mento de robôs móveis capazes de localizar, ümpar, esterilizar e
üstribuir os milhares de instrumentos cirurgicos utilizados nas
salas de operações. Os insrumeÍrtos incorporaráo circuitos de
locahzação com radiofrequência par;a identificaçáo S.FID), que
facilitam a sua locdizarçío pela máquina16.
Além das âreas específicas da logística e da distribuição
hospitalar e fatmacêutica, os robôs autónomos até Lgotr. frzetalort
poucas incursões. Os robôs cirurgicos são iâ laryamente utüza-
dos, mas estão concebidos p^t^ ampliar as capacidades dos ci-
rurgiões , e à cirurgia robótica na verdade tem mais custos do
que os métodos tradicionais. Há algum rabalho preliminar a ser
feito p^r^ a construção de robôs cirurgicos mais ambiciosos; por
exemplo, o proieto I-Sur é um consórcio de investigadores eu-
ropeus apoiado pelos EUA que procuram automatizar proceü-
mentos básicos como punções, incisões e suturasrT. Mas, num
futuo previsível, parece improvável vir a ser permitido que qud-
quer paciente seja submetido a procedimentos invasivos, sem
que um médico esteja presente e pronto parr. intenrir, por isso,
mesmo que a tecnologia se matena)ize, na melhor das hipóteses
qualquer poupança de custos será provavelmente marginal.

200
Rosôs DE curDADos csRlÁTRrcos

As populações de todos os países desenvolvidos, bem co-


mo em mútos dos países em vias de desenvolvimento, estão a
envelhecer rapidamente. Proiea-se que os Estados Unidos teráo
em 2030 mais de 70 milhões de cidadãos idosos, ou seia, 19 por
cento da população, comparativamente com apenas t2T por cento
em 200018. No Japáo, a longevidade combinada com uma baixa
taxa de natalidade torna o problema ainda mais gr ve; em 2025,
um tefço do total da populaçáo terâ mais de sessenta e cinco
anos. Âlém disso, os japoneses têm umâ aversão quase xenófo-
ba ao aumeÍrto da imigração que poderia aiudar a mitigar o Pro-
blema. Como resultado, o Japáo tem iâ, no mínimo, menos 700
000 prestadores de cuidados geriátricos do que aqueles de que
precisa e espera-se que esta escassez seia ainda mais severa
-
nas próximas décadasle.
Este desequilíbrio demo grâfrco global crescente está" a crtarr
uma das maiores opornrnidades no camPo da robótica; o desen-
volvimento de máquinas economicamente acessíveis que Pos-
sam pfestar assistência nos cuidados aos mais idosos. O filme de
2072 Robô dy Frank, uma coméüa que conta a história de um
idoso e do robô que dele cuida, oferece trrna visão otimista so-
bre o tipo de progfesso a que pfovâvelmente iremos assistir.
O filme começa por anunciar âo esPectador que a ação se de-
senrola num ««futuro próximo». O robô começa então a exibir
uma extraordinána destreza, L tet convefsas inteligentes e de um
modo geral a LtLtLt exatamente como uma Pessoa. Num deter-
minado momento, um coPo tomba de uma mesa e o robô
^P^-
nha-o Íro àt. Neste caso concfetor peoso não estarmos ntrm ce-
nâno de «futuro próximo».
Na verdade, o princrpal problema com os robôs para cui-
dados geiâtricos tal como eles hoie existem é que não fazem
realmente muita coisa. Muito do progresso inicial ocoffeu com

?m
robôs domésticos como Paro, uma foca bebé robótica de com-
panhia (com um custo superiot 5000 dólares). Oumos robôs
^
conseguem efguer e movimentar pessoas idosas, poupando des-
gaste e esforços a prestadores de cuidados. Contudo, tais máqui-
nas são caÍLs e pesadas podem pesar dez vezes mais do que a
-
pessoa que têm de levantat e serão provavelmente utilizadas
-
em primeiro lugar em hospitais e lares de terceira idade. Cons-
truir um robô de baixo custo com destreza suficiente paÍa pres-
tar assistência na higiene pessoal ou na utihzação de instalações
sarutârias continvl a, ser um desafio extraordinârio. Máquinas
experimentais c pazes de tarcfas específicas iâ fu,eram a sua apa,-
rição. Por exemplo, investigadores da Georgia Tech construíram
um robô de tato suave que pode proporcionar um suave banho
i^ cLmL aos pacientes, mas a produção de um robô economica-
mente acessível, capaz de desempenhar multiplas tarefas e que
consiga cuidar autonomamente de pessoas que dependam quase
totalmente de outros continua provavelmente a estar ntrm futu-
ro distante.
Uma das ramificações desa intimidante barr,eka tecnológica
é que, apesar da teoricamente enorÍne oportunidade de merca-
do, há relativamente poucas empresas sturt-up dedicadas à conce-
ção de robôs para cuidados geriátricos e pouco capital de risco a
fluir p^ta este campo. Quase seguramente que a maior esperança
provém do Japãor eu€ está à beira de uma crise nacional e que,
ao contrário dos Esados Unidos, tem pouca aversão à colabora-
ção dfueta entre indústria e governo. Em 2073, o governo japo-
nês deu início a um programr. no qual irá suportar dois terços
dos custos associados com o desenvolvimento de dispositivos
robóticos baratos par.a desempenho de uma s6 tarcfa, que pode-
rão assisú os mais idosos ou os seus prestadores de cuidados2o.
Talvez a mais notável inovação nos cuidados de idosos de-
senvolvida até agora, no Japio, seia o Hybrid Âssistive Limb
GIÂL) urn fato exosqueleto motortzado que parece saído da
-
ficção científica. Desenvolvido pelo professor Yoshiyuki Sankai
da Universidade de Tsukuba, o HAL é o resultado de vinte anos

m2
de pesquisa e desenvolvimento. Os sensores Presentes no fato
podem detetar e interpretar sinais cerebrais. Quando a pessoâ
que tiver vestido o fato alimentado com bateria elétrica Pensar
levantar-Se ou andat, poderosos motores eÍrtram instantanea-
mente em açáo, providenciando assistência mecânica. Está tam-
bém üsponível uma versão pàrl P^fre superior do corpo que
^
pode aiadar os prestadores de cuidados a erguerem os idosos.
Idosos pfesos a cadefuas de rodas foram caPazes de se levantar e
caminhar com a aitda do HAL. A empresa de Sankâi, Cyberdyne,
também concebeu uma versão mais robusta do exosqueleto Par:^
ser usado por trabalhadores que estão a Proceder à limpeza da
central nuclear de Daiichi, após o acidente de 2017. Â empresa
diz que o fato compensa quase completamente o Peso dos perto
de sessenta quilos das proteçôes de tungsténio contÍa a raidiaçáo
usadas pelos trabalhadores*. HÂL é o primeiro dipositivo robó-
tico para cuidados geriátricos a ser certificado pelo Ministério da
Economia, Comércio e Indústria do Japão. Os fatos podem ser
alugados por 2000 dólares por ano e estão iâ em uso em mais de
üezefltos hospitais e lares de idosos no Japáo2r.
Outros desenvolvimentos de curto Ptazo itã,o provavel-
mente incluir andadlhos robóticos pafa apoio à mobilidade e ro-
bôs baratos caPazes de üàzef medicameÍltos, providenciar um
copo com âgn, ou encofitfàt objetos comtrmmente esquecidos
ou deixados fora do seu lugat, como óculos (sto poderá Prova-
velmente vit a ser feito com a inclusão de circuitos de RFID nos
obietos). Também começam à aP^tecer robôs que podem aiudar
alocahzar e monitoflzaÍ pessoas com demência. Robôs de tele-
presença que permitem aos médicos e prestadores de cuidados a
interação femota com os pacientes sáo iâ utilizados em alguns

* Os nomes escolhidos por Sankai parecem algo suqpreendentes Para uma empresa
principalmente concentrada em cuidados çriáuicos. HAL erq evidentemente, o com-
putador hostil que se recusou abrir as comportas do filme 2001: Odisseia ro EEaç0,
Cyberdyne en a gtatde empresa ficcional que construíra o Skynet nos filmes O Exter-
minador Inplacáael. Talvez a emPresa tenha em mira outros mercados.

203
hospitais e instalações de cuidados. Os dispositivos deste tipo
são relativamente fáceis de desenvolver porque se situam em
tomo do desafio da destreza. Â história robótica de cuidados de
enfermagem a curto prazo vai desenvolver-se em primeiro lugar
com máquinas que assistem, monitoÍtz^m ou permitem a, comu-
nicação. Os robôs economicamente acessíveis que possam de-
sempenhar de forma independente tareÍas de facto úteis levarão
mais tempo a chegat
Uma vez que num funrro próximo é pouco provável o apa-
recimento de robôs de cuidados geriátricos, verdadeiramente ca-
pLzes e autónomos, parece tazoâvel esperaf-se que a iminente
escassez de prestadores de cuidados no domicílio e auxiliares de
cuidados de saúde compense de forma significativa a perda de pos-
tos de trabalho determinada pela tecnologia em outros setores
da economia. Talvez simplesmente o emprego -iS. par:a, o se-
tor dos cuidados de saúde e de idosos. O organismo estatístico
sobre o trabalho nos EUA, o Bureau of Labor Statistics, prevê
que em 2022 haverâ 580 000 novos empÍegos para auxiliares de
cuidados pessoais e 527 000 para enfermeiras diplomadas (as
duas profissões cuia procura conhece o mais nâpido crescimento
nos EUÂ), bem como 424 000 auxiüares de saúde domiciliários
e 312 000 auxiliares de enfermagernz2. Tudo isto totaliza 7,8 mi-
lhões de postos de trabalho.
Parece um número muito grande. Mas consideremos que o
Economic Policy Instinrte estima 9ue, desde ianeiro de 2014, os
Estados unidos têm em falta 7,9 milhôes de empÍegos como re-
sultado da Grande Recessão. Isto inclui 1,3 milhões de postos
de trabalho que se perderam durante a crise e que ainda não fo-
ram recuperados, bem corno mais 6,6 milhões de empregos que
nuÍlca fotam criados23. Por outras palavras, se aquele 118 mi-
lhões de empregos aparecesse hoje, preencheria apenas um
quarto do buraco.
claro que outro fator é esses trabalhos serem mal pagos e
não propriamente apropriados para trma grande ftarrria da popu-
laçáo. De acordo com o Bureau of Labor Statistics, a assistência

204
de cuidados domiciliários de saúde e de cuidados pessoais Pro-
potcionaram ambas um rendimento médio em 2012 abaixo de
21 000 dólares e exigem uma formaçáo <<inferior ao ensino se-
cundário completo». Â grande número de trabalhadores faltarír
provavelmente o temperamento necessário patl poderem Pros-
perar nestes trabalhos. Uma coisa é um trabalhador odiar o seu
trabalho de carimbat bagatelas, outra coisa e muito mais grave
é ele desprezar o trabalho de cuidar de uma pessoa mais velha e
dependente.
Partindo do princípio que as projeções do Bureau of Labor
Satistics estão cofretas e que aqueles empfegos se vão materiali-
zar em grande número, há também a questão de quem tâ rcal-
mente pryú por aqueles trabalhadores. Décadas de salários estag-
nados, coniuntamente com a transição de pensões de reforma
com beneficios definidos para planos de reforma 401k frequente-
mente subfinanciados, irão deixar uma grande Íraçáo de america-
nos em situações relativamente inseguras de reforma. Quando a
muona das pessoas mais idosas atiagir o Ponto em que precisa de
assistência pessoal üárrtà- relativamente Poucas irão provavelmen-
te ter os meios necessários para contratâÍ assistentes de cuidados
de saúde domiciliários mesmo que os salários Par;à estes trabalhos
continuem a ser muito baixos. Consequentemente, estes emPre-
gos serão qtrase exclusivamente públicos, financiados Por progra-
mas como o Medic re ou Medicaid e serão Portanto encarados
mais como um problema do que como uma solução.

DnsrNcaoEAR o PoDER DA INFoRMAÇÃo

Como vimos no capítulo 4, a revolução dos megadados


abre a perspetiva de novos critérios de gestão e de uma eftcâcia
significativamente melhorada. De facto, a crescente importância
de toda esta infotmaçáo pode ser trm poderoso argumento P^t^
a consolidação no setof dos seguros de saúde, ou alternativa-
mente p^r^ a cnaçáo de algum mecanismo pate- a partilha de da-
dos entre âs companhias de seguros, hospitais e outros senriços.

205
O acesso a mais dados pode bem significar mais inovação. Tal
como aTatget, IÍlc., en c pàz de prever a gravidez com base
nos padrões de compras efetuadas pelas consumidoras, os hos-
pitais e companhias de seguros com acesso a grandes bancos de
dados irá potencialmente revelar correlações entre fatores especí-
ficos que podem ser controlados e a probabilidade de um desfe-
cho positivo para o paciente. Â AT&T ficou famosa por patroci-
naf os Bell Labs, onde ocofferam muitos dos mais importantes
progressos em tecnologia da informação no século xx. Talvez
uma ou mais companhias de seguros de saúde com dimensão
suficiente possam desempenhar gm papel semelhante exceto
que as inovações
-
não irão surgir de «engenhocas»» em laboratório
mas sim da análise contínua de grandes volumes de dados por-
menorizados sobre os pacientes e opet^ção hospitalat
^
Sensores médicos implantados ou aplicados aos pacientes
serão outra importante fonte de dados. Estes dipositivos produ-
zirão um fluxo contínuo de informação biom élr:ica que poderá
ser usadl tanto púa diagnóstico como par;e. a ügilância de doen-
ças crónicas. Uma das mais promissoras âreas de pesquisa é a
conceção de sensores c pàzes de monitonzarem a glucose eÍn
pessoas com diabetes. Os sensores poderão comunicar com trm
srua@ltofie ov outro dispositivo externo, alertando instantane -
mente os pacientes se o seu valor de glucose ultrapassar os ní-
veis de segurança, evitando a necessidade de incómodas anáüses
sanguíneas. Yânas empresas fabricam iá monitores de glucose
que podem ser introduzidos sob a pele do paciente. Em ianeiro
de 2074, a Google anunciou que estava a trabalhar em lentes de
conacto que contêm um minúsculo circuito sem fios detetor de
glucose. Âs lentes monitorizaÁo em perÍnanência os níveis de glu-
cose mediante análise lacrimal; se o açúcar no sangue do porta-
dor estiver muito alto ou muito baixo, uma minúscul a laz de
LED iluminar-se-á, proporcionando um alera imediato.

206
Dispositivos parâ o consumidor como o Apple lYatclt, for-
malmente anunciado em setembro de 2074, irão também resul-
tar num fluxo de dados relacionados com a saúde.

Os cusros Dos curDADos DE sAúDE E uM MERCADo


DISFUNCIONÂL

A edição de 4 de março de 2073 da revista Time apresenta-


va uma história de Steven Brill com chamada de capa intitulada
«Eitter Pilb». O artigo denunciava forças por trás da contínua
^s
escalada dos custos dos cuidados de saúde nos Estados Unidos
e salient^va, càso a caso, aquilo que só pode ser coÍrsiderado co-
mo indiscutível extorsão incluindo, por exemplo, uma màt-
-
gem de 10 000 por cento nos comprimidos de patacetamol de
venda üvre, que se compram na farmâcia local ou no §7almart.
Anáüses sanguíneas de rotina pelas quais o Medicate pagarta, cet-
ca de 74 dôlares eram marcadas até 200 dôlar:es ou mais. Os pre-
ços definidos pelo Medicare púa, as TAC etam de cerca de 800
dólares, mas estavam inflacionados até mais de 6500 dólares.
O receio de um ataque carüaco que afinal não passava de uma
pirose resultou Ínrma contâ de 77 000 dólares, sem inclufu os ho-
norários do médico24.
Alguns meses mais tarde, Elisabeth Rosenthal do Nev York
Tines escreveu uma série de artigos a coÍltar essencialmente a
mesma história: uma laceração que exigia uma simples sutura de
uês pontos custou bem mais de 2000 dólares. Uma sutura cutâ-
nea adesiva natesta de uma cttaflç custou mais de 1600 dólares.
Um paciente teve de pagar quase 80 dólares por um pequeno
frasco de anestésico local que podia ser comprado por 5 dólares
na Internet. Rosenúal obsenrou que o hospital, ![ue compra es-
tes produtos â granel, pagana ainda muito menos25.
Ambos os repórteres descobriram que estes preços infla-
cionados têm origem numa maciça e obscura frequentemente
-
207
secretistà lista de preços conhecida como <<cbargeruaste»». Os
-
pÍeços constantes da cltargenaster náo têm aparentemente expü-
caçáo óbvia nem qualquer relaçáo significativa com os custos
reais. A única coisa que podemos üzer com vm ÍLzoâxel grau
de certeza Lcercl desta üsa é que os seus preços são muito, ffid-
to altos. Tanto Brill como Rosenúal descobriram que os casos
mais flagrantes do abuso da cltargemaster ocorriam com pacientes
não abrangidos por nenhum sistema de saúde. Os hospitais tipi-
camente esperavam que estas pessoas pagassem integralmente
os preços mencionados na üsta e muitas vezes rapidamente con-
üat^vam empresas de cobtunça, ou até levavam a tribunal os ca-
sos dos pacientes que não podiam ou não querierm pugaÍ. Mas as
maiores companhias de seguros de saúde são cada vez mas fa-
turadas com cotações baseadas num desconto sobre os preços
da cbargenaster. Por outras palavras, primeiro os custos são infla-
cionados em muitos casos com um fator dez ou até cem e
-
depois é aplicado um desconto de talvez 30 por cento ou até 50
-
por cento, conforme a eftcâcia de negocia çío da seguradora.
É como se comprássemos um litro de leite por 5 dólares depois
de negociarÍnos um desconto de 50 por cento sobre os 10 dóla-
fes constantes na lista de preços. Deste modo, não suqpreende
que os encargos hospitalares sejam o mais impotante indutor
individual da constante subida dos custos de saúde nos Estados
Unidos.
Uma das mais importantes lições da Históna é que há uma
poderosa simbiose entre o progresso tecnológico e uma econo-
mia de mercado perfeitamente funcional. Os mercados saudá-
veis criam os incentivos que conduzem à inovação signiftcatva e
à permanentemente crescente produtividade, e esta tem sido a
força conduton da nossa prosperidade*. A maioria das pessoas

* Consideremos, por exemplo, a União Soviética, que inquestionavelmente teve al-


guns dos melhores cientisas e engenheiros do mundo. Os soviéticos obtiveram resul-
ados sólidos na tecnologia militar e espacial, mas nunca conseguiram propagar os be-
neficios da inovação à economia civil. A ozão tem certamente muito que ver com a
ausência de mercados funcionais.

208
inteligentes entende isto (e é muito provável que aludum à Steve
Jobs e ao iPbone quando se fala no assunto). O problema é que
os cuidados de saúde são um mercado desequilibrado e náo hâ
tecnologia, por muita que seiar eue possa fazet baixar os custos,
a náo ser que os problemas estruturâis da atividade seiam resol-
vidos.
Penso também que existe muita confusão àcetcl da nature-
za do mercado dos cuidados de saúde e sobre onde exatamente
deveria entrar em funcionamento um.mecanismo de atribuição
de preços de mercado. Muitas pessoas gostariam de acreditar
que os cuidados de saúde são um mercado de consumo normd:
se âo menos conseguíssemos afastat do caminho as companhias
de seguros, e especialmente o governo, e deslocut as decisões e
os custos Para o consumidor (ou paciente), então obteríamos
inovações e desfechos semelhantes aos que vimos em outras in-
dústrias (SteveJobs poderia de novo ser aqui mencionado).
Contudo , a rcahdade ê que os cuidados de saúde não são
simplesmente comparáveis a outros mercados de produtos e
serviços de consumo, e isto foi bem comPreenüdo há mais de
meio século. Em 1963, o economista Kenneú Atrow, laureado
com o Prémio Nobel, escreveu um estudo em que especificava
detalhadamente Por que motivo os cuidados de saúde se mantêm
Entre outras coisas, o estudo de
à parte de outros bens e serviços.
Arrow sublinhava a circunstÂncia de os custos médicos serem ex-
tremamente imprevisíveis e com frequência muito altos, e em
consequência os consumidores não poderem suPortar o seu custo
com o rendimento disponível nem sequer planeáJo antecipada-
mente como podem fazet Para outras aquisições importantes.
Os cuidados médicos não podem ser experimentados antes de
os comprarÍnos; náo ê como ir a uma loia de telecomunicações e
experimentar todos os sna@ltones. Em situações de emergência,
evidentemente, o doente pode estar inconsciente ou Prestes a
morrer. E, em qualquer caso, toda a questão é táo complexa e

2W
exige tanto conhecimento especializado que não se pode tazoa-
velmente esperar que uma pessoa normal possa tomar tais deci-
sões. Os prestadores de cuidados de saúde e os pacientes não se
sentam simplesmente à mesa como iguais, e, como apontava
Arrow, <<ambas as partes estão conscientes desta desigualdade
informacional, e a sua rrJração é influenciada por esta consciên-
ci*$» O resultado é que o custo elevado, a imprevisibilidade e a
complexidade dos principais senriços médicos e de hospitaliza-
ção constituem um tipo de modelo de seguro, essencial parz
^
atividade dos cuidados de saúde.
Também é fundamental compreender-se que o gasto com
os cuidados de saúde está altamente concentrado entre um mi-
núsculo número de pessoas muito doentes. Um relatório de 2Ol2
do National Instinrte for Health Care Man4gement mostrava que
apenas 1 por cento da populaçáo as pessoas mais gravemente
doentes
-
significava mais de 20 por cento dos gastos totais na-
-
cionais com cuidados de saúde. Quase metade do gasto total,
cercà de 623 mil milhões de dólares em 2009, ia para os 5 por
cento da popüaçáo que se encontravam mais gravemente doen-
tes27. De facto, os gastos com cuidados de saúde estão sujeitos
ao mesmo tipo de desigualdade que a nqvezà nos Estados Uni-
dos. Se fizermos um grâfico, va frcar muito semelhante ao do
<«vencedor ganha tudo»/distribuição de cauda longa descrito no
capítulo 3.
A importància desta intensa coÍlcentraçáo dos gastos não
deve ser exagenda. Â pequena parcela de população de pessoas
gfavemente doentes com quem estamos a gastat todo este di-
nheiro não está obviamente em posição de negociar preços com
os fomecedores; nem nós quereríamos depositar uma tão assom-
brosa responsabilidade fiscal nas mãos destas pessoas. O <<mer-
cado» que precisamos de pôr a funcionat esta entre os fomecedo-
res e as companhias de seguros não entre os fornecedores e
-
os pacientes. A lição essencial dos artigos escritos por Brill e por
Rosenthal é que o mercado é disfuncional devido a um poder

210
assimétrico fundamental entre seguradorâs e fornecedores. Em-
bora os consumidores individuais possam perceber corretamen-
te as companhias de seguros de saúde como poderosas e domi-
nantes, a rcahdade é que 1sl2ti\ramente a fornecedores como
a hospitais, médicos
-
e indústria farmacêutica slss são, na
-
maior parte dos casos,fracos dcruais. Â assimetrtà estâ a ser coÍrs-
tantemente agravada pela atual onda de consolidações entre os
fomecedores. O ârtigo de Brill observa que à medida que os hos-
pitais anebatam ««consultórios médicos e hospitais concorrentes,
o seu poder sobre as companhias de seguros está a. à.umefltarlÊ&.
Imaginemos um futuro próximo em que uma médica ma-
nipula um poderoso tablet que lhe permite prescrever uma série
de imagiologlas pressionando apenas algumas zot:ras no ecrã. As-
sim que um teste estiver completo, os resultados são automati-
câmente encaminhados para o seu dispositivo. Se um paciente
precisar de uma TÂC, ou talvez de uma ressonância magnétca,
os resultados são acotnpanhados por trma anáüse detalhada exe-
cutada por uma aplicaçío de inteligência artificial. O sofiware assi-
no)a quaisquer anomalias no exame e faz recomendações par:-
mais cuidados depois de aceder à :uma vasta base de dados com
 médi-
registos de pacientes e de identificaÍ casos semelhantes.
ca pode ver exatarrrente como doentes comparáveis foram ü^ta-
dos, as questões que se levantarum e o desfecho do processo,
Tudo isto seria, evidentemente, eficiente e conveniente e deveria
conduzir a um melhor resultado púr. o paciente. É o tipo de ce-
nâno que deixa os tecno-otimistas tão entusiasmados com a re-
volução que em breve se desenrrJlaú, na, Ltetra dos cuidados de
saúde.
Agora, vamos presumit que a médica tem interesses finan-
cefuos na empresa de diagnósticos que executa os exames. Ou,
por outro lado, talvez o hospital tenha adquirido o consultório
médico e também seja o dono da empresa de exames. Os preços

ztt
Pata os exames podem tef pouca telaçáo com os custos reais
destes serviços afina| eles estão na cltargeruaster- e são alta-
-
mente luctativos. De cada vez que a nossa médica pressiona o
ecrá táil, esá essencialmente a fazer dinhefuo.
Embora este exemplo seja, neste momento, imaginâno,hâ
indícios que demonstram que as Írovas tecnologias de cúdados
de saúde conduzem muito frequentemente a mais gastos e não à
melhoria de produtividade. A prirrctpal nzáo par^ tal é a inexis-
tência de um efetivo mecanismo de fixação de preços do merca-
do que induza ao aumento da efrcâcia. Na ausência de pressão
Ílo mercado, os fornecedores frequentemente investem em tec-
nologias concebid^s pàta aumentar as receitas em vez de aumeÍr-
tat eftcâcia, ou, onde conseguem ganhos de produtividade, Ii-
^
mitam-se simplesmente L teter os lucros em vez de baixarem os
pfeços.
O exemplo emblemático do investimento em tecnologia
como promotor da inflação dos cuidados de saúde pode muito
bem ser as instalações para «terâpiâ de protõe» que estão a ser
constnrídas Para o tratamento do cancro na próstata. Um artigo
de 2013 de Jenny Gold da Kaiser Healtlt Neys observava que
(€pesaÍ dos esforços pat^ conter os gastos com cuidados de saú-
de, os hospitais continuam na corrida pela construção de nova e
dispendiosâ tecnologia mesmo quando os dispositivos não
funcionam
-
necessariamente melhor do que os de tipo mais bara-
to*e. O artigo descreve as instalações p^t^ terapia com feixe de
protões como («rm edificio gigantesco encapsulado em betão do
tamanho de um campo de futebol e com um custo superiot L
200 milhões de dólares». A ideia por trás desa dispendiosa tecno-
log, é que liberta menos rzrüaçáo par:^ o paciente, e no eÍltanto,
os esnrdos efetuados não encontraÍam provas de que a tecnologia
de feixe de protões proporcione melhores resultados para o pa-
ciente do que outras abordagens muito meÍros dispendiosas3o.
O especialista em cuidados de saúde Dr. Ezekiel Emanuel afrrma:

2ti2
temos provas de que haia necessidade destas instalações
<<Não
em matéria de cuidados médicos. São simplesmente feitas p^t^
gelilar lucros.»»3l

Para mim parece evidente que o povo americano podia em


princípio beneficiar muito mais de uma revolução tecnolôg;tca
maciça nos cuidados de saúde do que, digamos, na indústria do
pronto-a-comer. Afinal, preços mais baixos e aumento da pro-
dutividade em cuidados de saúde conduzirão muito provavel-
mente a vidas melhores e mais longas. Com a comida útpida
mais banta pode muito bem passar-se o contrário. Mas a indús-
tria do pronto-a-comer tem mercados perfeitamente funcionais
e o setor dos cuidados de saúde não tem. Enquanto se permitir
que esta situação se mantenha, há poucas tazões para acteütat
que o progresso tecnológico por si só consiga úavat o aumento
dos custos de cuidados de saúde. Perante esta realidade, gostaria
de me dewiar um pouco da nossa fi^ttarvl sobre tecnologi^p^-
ra poder sugerir duas estÍatégias alternativas que podem aiudar a
corrigir o desequilíbrio de poder entre seguradoras e fornecedo-
res de cuidados de saúde e, oxalâ, permiú o tipo de sinergia eÍr-
tre mercados e tecnologia que possa üàzer-Ítos a transformação
Pof que esPefamos.

CoNsouDAR A INDÚSTRIÂ E TRÂTAR O SEGURo DE SAÚDE COMO


sERVrÇO pÚsuco

Uma das principais mensagens que ressalta de uma anáüse


dos preços cobrados por fornecedores é que o Medicare o
programa de iniciativa governamental Par:a Pessoas com idade
-
superior a 64 anos é de longe a parcela mais eftcaz do nosso
-
sistema de saúde. Como escreve Brill, «cA não ser que esteia Pro-
tegido pelo Medicare, o mercado dos cuidados de saúde náo ê
definitivamente um mercado. É o- iogo de azar.l>. A aplic açío
do Affordable Carc Act (Obanaca§ irá" cetamente melhorat a

213
situação pelo menos no que respeita a quem anteriormente não
tinha seguro de saúde, mas faz de facto muito pouco p^rà conter
ativamente os custos hospitalares; pelo contrário, os custos in-
flacionados serão desviados para as seguradoras e por fim para
os contribuintes sob a forma de subsídios que foram lançados
p^ta tornar o seguro de saúde acessível a pessoas com parcos
rendimentos.
O Medicare ser relativamente eftcaz na contenção da maior
parte dos custos relacionados com o paciente, visto que gasta
muito menos do que as seguradoras privadas em gastos adminis-
trativos e indiretos, sustenta o argumento p^t^ simplesmente se
expandir o programl paru, inclúr todos e, com efeito, criar um
sistema de financiador único. Este tem sido o caminho seguido
por muitos outÍos países que gastam muito menos em cuida-
-
dos de saúde do que os Esados Unidos e registam regulamente
melhores resultados de acordo com padrões de avaliação como
a expectativa de vida e a mortalidade infantil. Embora um siste-
ma de financiador único, gerido pelo governo, seia suportado
tanto por questões lógicas como pelas evidências, não há manei-
ra de fugir à realidade de que nos Estados Unidos toda a ideia é
ideologicamente tóxica par;a mais de metade da população. Im-
plantx um tal sistema presumivelmente resultaria também no
desaparecimento de quase todo o setor privado de seguros de
saúde, o que nio parece provável dada a enorme influência polí-
tica exercida pela industria seguradora.
Um sistema de financiador único é, na prâaca, sempre as-
sumido p^t^ ser gerido pelo govemo, mas em teoria nío tem de
ser esse o caso. Uma outra abordagem poderia ser a fusão de to-
das as companhias de seguros privadas ntrma única corporação
nacionalr eue seria depois fortemente regulada. O modelo seria
o da ÂT&T antes de ser destruído nos anos 80. A ideia central
aqui é que os sistemas de cuidados de saúde e de telecomunica-
ções são, de muitas maneitas, semelhantes: essencialmente, são

214
ambos serviços públicos. Tal como os sistemas de fornecimento
de âgoa, de saneamento ou a infraestrutura elétrica do país, o
sistema de saúde não esú isolado faz parte de uma indústria
-
sistémica cuia eftcâcia operativa é central parz a economtr. e à
sociedade. Em muitos casos, a prestação de um serriço público
conduz a cenârtos de monopóüos naturâis. Por outras palavras,
é mais eftcaz se houver apenas uma única empresa a" attJat flo
mercado.
Uma vanaçáo ainda mais eftcaz sobre este tema podia ser
alutottzaÍ um pequeno número de grandes companhias de sep-
ros concorrentes com efeito, um oügopóüo aprovado. Isto
-
inietana no sistema um elemento de concorrência. As compa-
nhias continuariàm a ser suficientemente grandes pâra deterem
um significativo poder de mercado ao negociar com fomecedo-
res, e não lhes restaria outra altemativa senão compeúem pro-
porcionando cuidados de alta qualidade, uma vez que a sua re-
putação seria determinante par:a o seu sucesso. Uma regulação
apenada da indústria limitaria as subidas de preços e impediria
as companhias de se envolverem em práticas indesejáveis como,
por exemplo, desenvolver planos de seguros especificamente
concebidos para apanhar a <<cercia do bolo», ou seja, os clientes
mais iovens e mais saudáveis, ou oferecer planos com proteção
abaixo do padrão. Pelo contrário, teriam de se focar em verda-
defua inovação e eficiência.
Consoüdat às companhias de seguros existentes em um ou
mais <«senriços púbücos de saúde» regulado pode providenciar
muitas das vantagens de um sistema de financiador único e Lo
mesmo tempo presefirar a indústria. Em vez de simplesmente
serem eliminados, os acionistas das companhias de seguros pri-
vadas poderiam possivelmente ver os ganhos como resultado de
uma fusão com a dimensão de toda a indústria. O mecanismo
com o qual trma tal consolidação poderia ser obtida náo é, evi-
dentemente, nada óbvio. Talvez o governo pudesse emitir um
pequeno número de ücenças de openção, ou até otganizat uma

2ts
ücitação, como faz com a concessão de licenças de explonçáo
do espectro eletromagnético de comunicações*.

EstasF'.r ECER UMA TABELA GERAL DE pREÇos

Uma estratégia alternativa e talvez mais viável é armplarta-


ção de um sistema de pâgamento geral (oll-PnltÔ. Neste cenário,
o governo esseÍrcialmente estabelece trma tabela geral dos pre-
ços que podem set praticados pelos fornecedores de cuidados
de saúde.Tal como o Medicate üta os Preços que o utilizador
tem de pagut, um sistema de tabelamento geral faria o mesmo
par:e. todos os pacientes que recebessem cuidados iunto de qual-

quer fornecedor dos mesmos. A abordagem de abelamento ge-


nl é utitaada na presação de cuidados de saúde em nurnerosos
países, incluindo Ftança, Alemanha e Suíça. Nos Estados Uni-
dos, o Maryland aphca este sistema nos hospitais e o estâdo tem
apresentado um atrmento lento nos custos hospitalares32. Os sis-
temas de tabelamento getal vanam conforme os âspetos especí-
ficos da sua aphcaçáo; os preços podem ser estabelecidos me-
diante negociação coletiva eÍrte fornecedores e pagadores, ou
então podem ser fixados por uma comissão reguladora após
anáüse dos custos reais em determinados hospitais.
Uma vez que um sistema de abelamento geral fotça os mes-
mos preços par:l todos os pacientes, tem importantes impücações

* Nos Esados Unidos, a autoridade constitucional para criar um sistema de financia-


dot único independentemente de ser çrido pelo govemo ou por empresas priva-
das
- provavelmente da capacidade
detiva de o govemo impot um imposto generdi-
zado- par;a p^gaÍ o sistema. Assim, toda ou parte dos prémios de seguo seria paga
pelo govemo. É o qoe iá acontece com os subsídios de seguros associados ao Affor-
dable Care Act (ei do acesso a cuidados de saúde). Por outras palawas, o govemo fe-
detal pode obrigar toda a população a p^gx poÍ um sistema de financiador único por
via de impostos, mas não pode proibir um sistema paralelo privado. Poranto, ainda
haveria provavelmente senriços adicionais disponíveis pafa os que estivessem dispos-
tos e pudessem pâgar do seu póprio bolso, tal como sucede com os esabelecimentos
de ensino privados. Este cenário é diferente do caoadiâno, em que gtande parte dos
serviços pdvados de cuidados de saúde são proibidos, levando alguos canadianos a
proctúar os serviços de cuidados de saúde nos Estados Unidos.

216
na distribuição de custos que existe entre os utilizadores priva-
dos e os cobertos pelo sistema público nos Estados Unidos
(I\{edicaid para pessoas de baixos recursos e Medicate púà pes-
soas com mais de 64 anos). Quando vigora uma tabela indivi-
dual, os preços públicos têm de aumelatat consideravelmente,
agravando L c tga sobre os contribuintes. Os utiüzadores com
seguros de saúde privados, e especialmente aqueles que não pos-
suem seguros, irão tipicamente beneficiar dos preços mais bai-
xos, uma vez que não estão iâ a subsidiar programas públicos.
Foi o caso do programa do Maryland*.
Parece-me que uma abordagem muito mais simples que
poderia proporcionar poupânças imediatas seria estabelecer um
teto de tabelamento gerz,I em vez de um preço específico. Por
exemplo, suponhamos que efam estabelecidos tetos com base
ta tanfa do Medicare mais 50 por cento. Num exemplo do artigo
de Brill, uma análise sanguínea que a Medicare diz valer 14 dôla-
res podett^ entáo ter um preço 21 dólares mas nunca po-
^té -
deria atingir nada semelhante a 200 dólares. As companhias de
seguros com suficiente poder de mercado continuariam a estar
livres p^t^ negociat um preço abaixo do teto estabelecido. Esta
estratégia it:ra imediatamente eliminar os excessos mais gritantes,
e desde que o teto fixado fosse suficientemente alto, continuaria
a proporcionar receitas suficientes para os fomecedores. Uma fi-
cha técnica publicada em 2070 pela Âmedcan Hospital Associa-
tion aflr:ma que o Medicare pagou «90 cêntimos de cada dólar
gâsto pelos hospitais ü^t^tem pacientes Medic^te em 2009»33.
^
Se a própria associação represenativâ da indúsma üz que o Me-
dicare cobre 90 por cento dos custos hospitalares, então um teto
algo superior do que os preços do Medicare deveria ser suficiente

* O Maryland tem uma renúncia especial que esteve em ügor durante mais de trina
anos e que lhe permitiu p4gaÍ preços do Medicare mais altos. Desde 2074, o Maryland
passou para um novo sistema expedmenal que é permitido ao abtigo do Affordable
Care Act Além de esabelecer abelas universais, o novo programa irá impor restriçôes
específicas sobre os gâstos hospialares Per caprtu. O esado prevê poupâr 330 milhões de
dólates em custos com o Medicare durante um pedodo de cinco anos.

217
par:^ permitir trma disribuição de custos que compensasse os 10
por cento em falta*. Um teto de tabela geral seria tarnbém muito
fâci de aplicar trma vez que seria diretamente baseado nas tabe-
las iâ pubücadas do Medicate.
Uma das mais prometedoras abordagens à contenção dos
custos de saúde, eue estâ, a ganhar alguma força no ambiente
afr;ral, é a transição do modelo de preço-por-serviço pú^ um sis-
tema de «cuidado responsável»» no qual os médicos e hospitais
são pagos por um preço fixo p^r^ gerirem a saúde geral dos pa-
cientes. Uma das principais vantagens desta abordagem é que
reorienaria os incentivos na perspetiva da inovação. Em vez de
simplesmente oferecerem um novo meio púL absorver honorá-
rios ainda mais altos de acordo com uma determinada taiÍa, as
tecnologias emergentes seriam encaradas do ponto de vista do
seu potencial para reduzir custos e tornar os cúdados mais efi-
cientes. Contudo t pata que isto aconteça, é preciso afastar mais
das seguradoras (ou do govemo) os riscos financeiros associa-
dos aos cuidados com pacientes, distribuindo-os poÍ hospitais,
médicos e outros fomecedores. Desnecessário seú. üzer que os
últimos muito provavelmente não estarão dispostos a aceitar de
boa vontade esse risco acrescido. Por outras palavras t pàta pro-
mover com sucesso trrna transição p^ta o cuidado responsável,
ainda precisamos de trartàr da diferença de poder de mercado
que frequentemente existe entre seguradoras e fornecedores de
cuidados.
Pala se conseguit conter o implacável aumento dos custos
dos cuidados de saúde nos Estados Unidos, penso que setá pro-
vavelmente necessário seguit uma das duas estratégias gerais que
deüneei. Teremos de avaltç t p^ra um sistema de financiador
único no qual taÍrto o govemo como uma ou mais empresas pdva-
das exerçam maior poder de negociação no mercado dos seguros

* A mesma ficha técnica informa que o Medicaid (o program^ p^r^ os pobres) pagou
89 por cento dos custos reais do hospial.

218
de saúde, ou altemativamente precisaremos de ter reguladores a
exercerem o poder direto sobre os preços pagos a fornecedores
de cuidados. Em qualquer cenário, enveredarmos decididamente
pú^ um modelo de cuidado responsável pode ser trma parteful-
cral da solução. Âmbas as abordagens referidas, êffi vânas com-
binações, estão a ser usadas com sucesso em outros países de-
senvolvidos. Certo é'que uma abordagem de puro <<mercado
livre»» na qual eliminamos o governo do circuito e esperamos
que os pacientes se comportem como consumidores que com-
pram mercearias ou sma@ltorres n.:uflca fuâ funcionar. Tal como
Kenneú Arrow salientava há mais de cinquenta anos, os cuida-
dos de saúde são simplesmente uma coisa diferente.
Não quero dizer com isto que nã"o haia perigos signifi-
cativos associados a cada uma das abordagens. Ambas as estra-
tégias dependem de reguladores para controlo dos prémios de
seguro ou para estabelecerem os preços pagos aos fornecedores.
Há um risco óbvio de captun rcgalatória; empresas ou indús-
trias poderosas podem exercer influência que faça a política go-
vernamental tender a seu favor. Tentativas de influência seme-
lhante foram iâ dirigidas com sucesso ao Medi cate, que está
especificamente proibido de usar o seu poder de mercado para
negociar preços de medicamentos. Os Estados Unidos são pos-
sivelmente o único país no mundo em que este é o caso: todos
os outros governos nacionais negoceiam preços com as empre-
sas farmacêuticas. O resultado é que, com efeito, os americanos
estão a subsidiar os preços de medicamentos mais baixos no res-
to do mundo. Nos três anos que decotreram entre 2006 e 2009,
houve um aumento de 68 por cento na t^xa de «abandono da
medicação»» nos Estados Unidos3a. Isto acontece quando os pa-
cientes pedem o aviamento de uma receita médica, mas desistem
dela quando descobrem o seu custo. É p^t^mim ,1go misterioso
por que nzão este facto não perturba mais os americaÍlos, espe-
cialmente os conserradores. Afinal, o Tea Party teve início após
uma famosa intervenção de Rick Santelli, personalidade da

219
CNBC, que condenava o facto de as pessoas com créditos à ha-
bitação que não podiam suportar poderem ser subsidiadas pelos
contribuintes. Porque não estão os americanos médios mais in-
comodados por estarem a pag t as remessas farmacêuticas ao
resto do mundo, incluindo numerosos países que têm rendimen-
tos per capita significativamente mais altos do que os Estados
Unidos?
Apesar deste problema, o Medicarc fornece consistente-
mente cuidados de alta qualidade a um custo muitíssimo mais
baixo do que no setor altamente fragmentado dos seguros priva-
dos. Por outras palavras, não devemos fazer do perfeito inimigo
do bom. Apesat de tudo, a proibição de o Medicare negociar
com a indústria fatmacêutica merece ser sujeita a muito maior
escrutínio público. A indústria defende que os preços inflaciona-
dos dos medicamentos nos Estados Unidos são necessários para
ftnanciar mais investigação. Contudo, há provavelmente manei-
ras mais eftcazes e decerto mais equitativas de assegurar que a
investigaçáo farmacológica seia financiadús*. O potencial de re-
formar ou simplificar os procedimentos da Federal Drug Admi-
nistration no teste e aprovação de novos medicamentos cetta-
mente também existe.
Uma outra questão com o Medicare, que se prende direta-
mente com o âssunto deste livro, é que o desperdício pode Íactl-
meÍrte ser impulsionado pela pubücidade direta de produtos pa-
ra idosos a quem é dito expressamente pata pressionarem os
seus médicos no sentido de lhos prescreverem, pois o Medicare

* Uma questão relacionada com este assunto tem que ver com as patentes concedidas
aos fabricantes de medicamentos e que impedem a introdução de medicamentos ge-
nédcos, mais baratos, durante longos períodos. Mútos economistas acreditam que o
sistema de patentes farmacêuticas é muito ineficiente. Outros países podem também
potencialmente revogâr pâtentes farmacêuticas como mecanismo de negociação de
preço sobrecarregando ainda mais a América. O Center for Economic and Poücy
- publicou um relatório sumário em 2004 que esboça estes assuntos e apre-
Research
sena mais algumas eficientes altemativas púa o financiamento da investigação íarma-
cêutica. Por favor, vejr a nota final correspondente paÍa mais pormenores.

220
assumirá praticamente a totalidade do seu custo. Uma auditoria
governamental aprrou que 80 poÍ cento das scooters de mobiüda-
de pagas pelo Medicare não erarn realmente uma necessidade
para, os pacientes idosos que as recebiam e podiam até ser noci-
vâs para a sua saúde. Os dois maiotes fabricantes de scooters de
mobilidade gastaram mais de 180 milhões de dólares em anún-
cios dirigidos aos beneficiários do Medicare em 2911t0*. Este é
outro assunto a mefecer um minucioso escrutínio porque, como
vimos, é muito provável que em brevehaia uma profusão de
equipameÍrto robótico destinado a fornecer assistência domici-
hâna a idosos. Estes progressos têm um grande potencial de me-
lhorar a qualidade de vida dos idosos âo mesmo tempo que re-
duzem o custo dos seus cuidados mas não se tivermos de
-
pryar a tecnologia em casos em que nào é necessária e pode até
ser preiudicial. O espectro de milhões de idosos confortavel-
rneÍlte sentados a verem anúncios que lhes dizem que o Medica-
rc râ alegremente pag t-lhes um robô c p^z de lhes encontrar o
comando remoto da televisão deve fazeçnos pensar.
Embora as aplicações recentes de inteügência artificial e ro-
bótica ao câmpo dos cuidados de saúde sejam impressionantes e
esteiam a LvafiçaÍ rapidamente, na sua maior parte apenas come-
ç r^m a mordiscàt Ls bordas do problema dos custos hospitalares.
Com a exceçáo dos farmacêuticos e possivelmente médicos ou
técnicos que se especializaÍam na anáüse de imagens ou aÍrlostras
laboratoriais, a automaazaçáo de uma parte significativa dos tra-
balhos desempenhados pelos mais qualificados profissionais dos
cúdados de saúde continua a seÍ um desafio intimidante. Pata
quem pfocura uma catretra que seja relativamente imune à auto-
manzaçáo, uma profissão qualificada em cuidados de saúde que
exija interação com pacientes continua a ser uma excelente aPosta.

* A ideia por trás do pedido de prescrição é que os pacientes não são caplzes (ou não
oferecem a suficiente conÍiança) de tomar esas decisôes xrntr pnprio. Potquê, então,
permitirmos que a indústria farmacêutica ou os fabricantes de equipamento médico
íaçam publicidade diteta pâra os pacientes?

221
Este cálculo poderá, evidentemente, alterar-se no futuro mais
distante. Penso que é impossível üzer com ,lgo* grau de con-
frar,ça o que poderá ser tecnologicamente possível dentro de
vinte ou trinta anos.
Claro que a tecnologia não é a inica consideração. Os cui-
dados de saúde, mais do que qualquer outro setor da economia,
estão suieitos a uma complexa rede de regras e regulamentações
impostas por govemos, organismos como a Federal Dnrg Âdmi-
nisuation e autoridades licenciadoras. Cada açào e cada decisão
são também influenciadas pela iminente ameaç de litígio se ocor-
rer um eÍro ou talvez apenâs um resulado infeliz. Mesmo no
-
plano das farmâcias, o impacte específico da automatizaçào no
emprego náo é facilmente discernível, talvez devido à regulação.
Farhad Manfoo entrevistou um farmacêutico que disse: «Muitos
farmacêuticos têm emprego apenas porque a lei diz que tem de
exisú uma farmâcia par:^ dispensar medicamentos.»»37 No imedia-
to, talvez isto seja provavelmente um ex4gero. As perspetivas de
trabalho p^t^ os novos fatmacêuticos têm-se agravado signifi-
cativamente ao longo da ultima década e as coisas ainda podem
frcar pior. Uma anáüse de 2072 identific^uma. ««crise iminente de
falta de emprego para os novos licenciados em farmâci»> e suge-
re que a t^xà de desemprego da profissão pode atingir 20 por
cento38. Contudo, isto é em grande parte devido a umr- explosão
no número de novos licenciados a errüàt no mercado de aaba-
lho à medida que as faculdades de farmâcia aumentaram o nú-
mero de matrículas*. Relativamente a muitas outras ocupações,

* Poder-se-á ambém especular que a tecnologia estâ a contribuir inüretanerte p^r^


diminuição de perspetivas para os licenciados em íarmâcia por impeür mais pessoas^
p^t^ profissão. Na pdmeira década do novo milénio, quase mais 50 novas faculda-
^
des de farmâcia abúam portas (um aumento de 60 por cento), e os cursos existentes
aumentaram extraordinariamente as inscriçôes. O número de recém-licenciados em
fatmâaa pode atingir 15 000 por ano em 2016; ou seia, o dobro do número de ücen-
ciaturas concretizadas no ano 2000. Âlgo muito semelhante (e talvez até mais extre-
mo) sucedeu com as faculdades de diteito e a bolha das matrículas em direito está
agor^ a explodir. Os cursos de direito foram sempre um caminho basante trilhado

222
náo hâ dúvida que os profissionais de cuidados de saúde gozam
de um extraordinâno graru de segurança de emprego como resul-
tado de fatores sem qualquer rclaçáo com os desafios técnicos
associados à automatrzação das suas tarefas.
Estas podem ser boas notícias para os trabalhadores de
cuidados de saúde, mas se a tecnologra tem apenas um impacte
silencioso nos custos dos cuidados de saúde ao mesmo tempo
que perturba outros setores, os riscos económicos que enfrenta-
mos serão ampüados. Naquele cenário, o fardo da subida dos
custos dos cuidados de saúde vai-se tornaÍ atnda mais insusten-
tâvel conforme o progresso tecnológico continuar a ptodtzit
desemprego e desigualdade crescente, bem como estagnação e
por vezes queda dos vencimentos púe. os trabalhadores das ou-
tras atividades. Esa perspetiva toma ainda mais importante L trr-
trodução de reformas significativas que irão corrigir o desequilí-
brio do poder de mercado entre seguradorâs e fornecedores de
cuidados, pelo que o progresso tecnológico pode ser completa-
mente aproveitado como mecanismo pute. eficiência acrescida
em todo o setor dos cuidados de saúde. Sem isso, corremos o
risco de a nossa economia de mercado acab$ pot ser dominada
por um setor que é ineftcaz e, de facto, um mercado especial-
mente disfuncional.
Conter o fardo dos custos dos cuidados de saúde é espe-
cialmente importante porque, como veremos no capítulo 8, a úl-
tima coisa de que as famfltas americanas precisam é de um inces-
santemente crescente sonredorüo do seu rendimento excedente.

para tendibilizar trm diploma de artes überais. Afxmâcia oferece um potencial seme-
lhante para estudantes univemitários de biologia. Esa elevada procura de profissionais
licenciados pode muito bem resultar, pelo menos em parte, da evaporação de outras
boas opornrnidades para os licenciados universitários. Com relativamente poucas al-
temativas atrativas, os licenciados exigiram entraÍ nas faculdades de farmácia ou de
direito e estas tesponderam ampliando as inscrições nos seus ctúsos e consequeote-
mente produzindo múto mais licenciados do que o mercado pode absorver. Que tan-
to a farmâila como a advocacia estejam a sofrer o impacte ü uttomaazaçáo dtteta
toma as coisas ainda mais insustentáveis. A minha previsão paÍz. à próxima bolha do
ensino: graus de MBÂ.

223
Até agora temo-nos concentrado principalmente sobre as
formas corno a tecnologia irá provavelmeÍrte üansformaÍ os se-
toÍes atuais da economia. No próximo capínrlo, iremos dar um
salto em frente de uma década ou mais e imaginar como podem
ser as coisas numa economia fut:ur:a povoada com tecnologias e
indústdas inteiramente novas.

224
Capítulo 7
AS TECNOLOGIAS E INDÚSTRIAS DO FUTURO

O YouTube foi fundado em 2005 por três pessoas. Menos


de dois anos depois, a empresa foi compradr pela Google por
cerca de 1,6 mil milhões de dólares. No momento da sua aqui-
sição, o YouTube empregava umâs meras sessenta e cinco pes-
soas, matotta das quais eram eqgenheiros alamente qualificados.
^
Isto resula Íruma avahaçáo de mais de 25 milhões de dólares por
empregado. Em abril de 2072, o Facebook adquidu a staú-np de
partilha de fotos Instagram por mil milhões de dólares. A em-
presa empregava üeze pessoas, o que se traduz sensivelmente em
77 milhões por aabalhador. Avancemos rapidamente mais dois
anos até fevereiro de 2014 e o Facebooh mais uma vez, deu no-
vo passo em frente, desta vez comprando a empresa de mensa-
gens de telemóveis §ThatsApp por 19 mil milhões de dólares.
A §ThatsApp tinha um quadro de pessoal de cinquenta e cinco
pessoas, o que lhe garantia uma avahaçáo de uns assombrosos
345 milhões de dólares por empregado.
As elevadas avaliações por empregado são uma prova üva
de como a aceleraçáo da informação e a tecnologa da comuni-
caçáo podem aproveitâr os esforços de um quadro de pessoal
mínimo pat^ enormes valores de investimeÍrto e de receitas.
Mais importante ainda, oferecem uma prova indesmentível de
como a rrJraçáo entre tecnologia e emprego tem mudado. Há
uma forte conücção genenhzada, baseada na prova histórica
que remonta pelo meÍros
-
à revolução industriú de que
^té -
embora a tecnologa possa certamente destnrir postos de traba-
lho, negócios, e até porventura indústrias inteiras, também irá

225
ctiat ocupações completamente novas, e o ataal processo de
«destruiçío criadora»» resultará na emergência de novas indús-
trias e setores de emprego, frequentemente em áreas que ainda
nem sequer conseguimos im4ginar. Um exemplo clássico ê a as-
censão da indústria automóvel no início do século xx, e a cor-
respondente destruição dos negócios envolvidos no fabrico de
caffwugens de traçáo animal.
Contudo, como vimos no capítulo 3, a tecnologia da informa-
ção atingiu agota um ponto em que pode ser considerada um veÍ-
dadeiro serviço público, muito como a eleuicidade. Parece quase
inconcebível que as Írovas atividades de sucesso que fufle strrgir não
aproveitem todas as vaÍrtagens deste novo e poderoso serviço pú-
blico, bem como da disseminada inteligência mecânica que o acom-
panha. Como resultado, as indústrias emergentes raras vezes ou
ntrnca serão de trabalho intensivo. A ameaça ao emprego em geral
é que à medida que a destnrição criadora se desenvolve, a <«destnri-
ção» rccatrâ primeiramente sobre as atividades de trabalho intensi-
vo em areas tradicionais como o comércio retalhisa e a prepançáo
de comida, enquaÍrto a «cnação» trâ gxar novos negócios e indús-
trias que simplesmente não contraam mais pessoas. Por outras pa-
lavras, a economia est^ provavelmente em crúso para um ponto
crítico em que a gençáo de emprego ttá, começat a rtão dar respos-
ta consistente à necessidade de toal emprego da populaçáo aiva.
YouTube, Instagtum e \üíhatsApp são, evidentemente,
exemplos, todos eles extraídos diretamente do setor da tecnolo-
g1a da informaÇáo, onde a expectatrva é de diminutos quadros

de pessoal e enormes avaltações e receitas. Par:a ilustrar como


um fenómeno semelhante se poderá vir a revelar numa frente
muito mais vasta, detenhamo-nos um pouco mais atentamente
sobre duas tecnologias específicas com enorÍne potencial no fu-
turo: impressão 3D e automóveis autónomos. Ambos irão cau-
sar um impacte significativo dentro de uma ou duas décadas e
poderão vir a provocar uma transformaçío extraordinâtia no
mercado de uabalho e na globalidade da economia.

226
IirapnessÂo 3D
A impressão tridimensional, também conhecida como ««fa-
bricação aditiva»», uttltza uma cabeça de impressão comandada
por computador que fabrica obietos sólidos depositando repeti-
da e sucessivamente finas camadas de material. Este método de
construçáo camada por camada permite que as impressoras 3D
possam crtàr com facilidade obietos com cufiras e concavidades
que poderiam ser üficeis, senão impossíveis, de produzir com
técnicas de fabricaçáo tradicionais. O plástico é o material de
construção mais comum, mas algumas máquinas podem tam-
bém imprimir metal, bem como ceÍrteÍlas de outros materiais,
incluindo compósitos de elevada resistência, substâncias flexí-
veis como abot:racha e até madeka. Âs impressoras mais sofisti-
cadas têm a capacidade de construir produtos que incorporam
até doze materrars diferentes. Talvez atnda mais notável, as mâ-
quinas podem imprimir modelos complexos que contêm peças
móveis ou interügadas como uma só unidade, eliminando com-
pleamente qualquer necessidade de montagem.
Uma impressota 3D deposita camadas de material, tanto
com base num projeto de design como simplesmente copiando
um objeto existente com am scaflner laser 3D ou com ferramen-
tas sofisticadas como a tomografta computotizada (scanners de
tomografia compttor\zada). O conhecido animador de televisão
Jay Leno, run grande entusiasta de automóveis, usa esta técnica
puta" produzir peçâs sobresselentes.
A impressão tridimensional é ideal pffa fabncar produtos
altamente personalizados de fabrico individuahzado. A tecnolo-
gtl i^ estâ a ser usada paÍa construir coroas dentanas, implantes
ósseos e próteses de membros. Protótipos de duign e mode-
^tê
los arquitetónicos são outras aplicações populares.
Há uma enorme pubücidade em tomo da impressão 3D e,
especialmente, do seu potencial de dernrbar o aaücional mode-
lo de produção baseado em fábricas. Muita desta especulação

227
está concentrâda no aparecimento de impressoras de secretâna
bantas. Âlguns entusiastas preveem um futuro de fabrico distri-
búdo, em que praticamente qualquer pessoa possua uma im-
pressorâ 3D e a use p^r^ produzir aquilo de que precisar. Outros
anteveem a asceÍrsão de uma nova economia de base artesanal
onde as pequenas empresas substiarem a produção industrial ma-
ciça pot produtos mais personalizados produzidos localmente.
Penso que há boas razões para estar cético quanto a estas
previsões. Arzrzáo mais importante é que a facilidade de Perso-
nalização oferecidapelaimpressão 3D se faz a custo das econo-
mias de escala. Se precisar de imprimir algumas cópias de um
documento, pode fazê-lo em casa com a sua impressora pessoal.
Contudo, se precisar de 100 000 cópias, será muito mais efrcaz
em matéria de custo recorrer à impressão comercial. A impres-
são 3D uer§us fabrico tradicional envolve essencialmente o mes-
mo dilema. Embotl as próprias impressotas esteiam rapidamen-
te a baixar de preço, o mesmo não se pode üzer dos materiais
usados no processo, prin.ipd-ente se for necessário algo além
do plástico. As máquinas também são lentas; construir um obje-
to substancialmente sólido nurna impressota 3D caseira pode le-
var vârias horas. Muitos dos produtos que usamos não benefi-
ciam necessariamente da persomlTzaçáo extensiva; na verdade, a
padrontzaçáo tem frequentemente vantagens importantes. A im-
pressão tridimensional pode ser uma ótima rnaneira de criar um
estojo personalizado p^ta o seu iPltone, mas parece pouco prová-
vel que alguma vez venha a imprimir o próprio telefone*.

* As impressoras 3D podem imprimir circuitos eleuónicos básicos, mas parece ala-



meÍrte improvável que alguma vez tenham capacidade para impdmit a última palavn
em processadores e placas de memória usados nos sna@ltones. O fabrico destas placas
dá-se à escala industrial e exige uma precisão que vai muito alêm ü capacidade de
qualquer impressota. Uma óbüa tendência futura é que cada vez mais e mais obietos
de uso quotidiano possâm provavelmente incolpotar processadores avançados e soft-
uan iatehgente. Quanto a mim, isto sugere que a imptessão 3D pessoal não consegui-
rá ptovavelmente acompanhar o passo com os produtos que os consumidotes rcal-
mente querem. Claro que, como passatempo, um entusiasta poderá impdmit grande
parte de um produto e depois montar os componentes necessários, mas duvido que
isso seia aliciante para L maioria das pessoas.

228
Se as impressoras de secreária de facto se tomarem omni-
presentes, isso itá provavelmente destruir o mercado de produ-
tos acabados criados com ais máquinas e qualquer valor passará
a residir inteiramente no ficheiro com o duign digital do produ-
to. Âlguns empresários teriam êxito com a venda de tais designs,
mas o mercado quase certamente evoluitia pata o mesmo cenâ-
rio de ((o vencedor ganha tudo»» que caractettza. outros produtos
e serviços digrtais. Também haveria uma multiplicidade de duigns
em fonte abena ou üvre provavelmente par:l quase todos os
produtos concebíveis
-disponíveis p^r^ download. O resultado
-
é que a impressão 3D pessoal se tornaria muito parecida com a
Internet: umâ imensidão de coisas grátis ou muito baratas para
os consumidores mas muito menos oportunidades par:a, a maio-
ria das pessoas de gerarem um rendimento significativo.
Não quero com isto dizer que a tecnologla de impressão
3D não seja transformadora. A verdadeha açáo irá provavel-
mente ocorrer à escala industrial. Em vez de substituir a fabn-
caçío tradicional, a impressão 3D será integrada com ela. De
facto, isso está iâ, a acoatecer. A tecnologa fez incursões signifi-
cativas na indúsüta aerospacial, onde é frequentemente uttlizada
p^ta criar componentes ultraleves. A divisão aetonâutica da
General Electric planeia usar impressão 3D p^r^ produzir pelo
menos 100 000 componentes 2020, o que se traduz ntrm^
^té
potencial redução de peso de mais de 450 quilos por motor de
aeronavet.Para terÍnos a noção do impacte no consumo de com-
bustível que cada meia tonelada a menos em cada motor de aero-
nave pode significar, basta considerar 9uê, em 2013, a American
Airünes fez substituir todos os manuais de voo em papel por
versões rligitais carcegadas em iPads. Só isso poupou cerca de 16
quilos por avião e 12 milhões de dólares por aÍro em custos de
combustivel2. Cottat, em média, o peso de cada aviío ceÍca
de 1400 quilos pouparia mil milhões de dólares por ano ou mais.
Um dos componentes que a General Electric planeia imprimir,
uma boquilha de combustível, exige normalmente a montagem
de vinte peças separadas. Uma impressora 3D permitirá que

229
o componente seja impresso na íntegra numa só unidade com-
pletamente montada3.
Como vimos no capítulo 1, o processo fabril irá provavel-
mente tomar-se múto mais flexível e, em mútos casos, as fátbn-
cas irão frcar locahzadas mais perto dos mercados consumido-
res. A impressão tridimensional terá um papel a desempenhar
nesta transição. A tecnologra será usada onde se revelar mais efi-
caz fLL gestão de custos; Pof exemplo, 1^ cflação de componen-
tes que precisem de ser indiüduahzados ou personahzados, ou
talvez na impressão de componentes complexos que de outra
forma exigiriam complexas operações de montagem. Onde a
impressão 3D puder ser usadàperr^ fabncar diretamente compo-
nentes de volume,itá, com frequência encontÍar um papel natâ-
pida criaçáo dos moldes e ferramentas exigidos pelas técnicas
tradicionais de fabrico. Por ouffas palavras, a impressão 3D aca-
baú provavelmente por ser outra forma de automattzaçío fabril.
Fabricar robôs e imptessorâs industriais irá funcionar em unísso-
no e, progressivamente, sem o envolvimento de trabalhadores.
As impressoras 3D podem ser utihzadas praticamente com
qualquer tipo de material e a tecnologia estâ à descobrir muitas
utilizações importantes fora do âmbito fabril . Talvez a mais exó-
tica aplicaçáo seia a impressão de órgãos humanos. A Organovo
de San Diego, uma empresa especiaüzada em bioimpressão, já
produziu fígado humano experimental e tecido ósseo com mate-
rial de impressão em 3D que continha células humanas. A em-
presa conta muito em breve produzir por impressão um fígado
completo. Estes esforços iniciais destinam-se â produzir órgãos
par;r- pesquisa ou teste de medicâmentos. Órgaos adequados pa-

ra transplante ainda estarão provavelmente pelo menos a uma


década de distância, mas se a tecnologia chegar, as implicações
serão espantosus parà as quase 120 000 pessoas que aguardam
uansplantes de órgãos, só nos Esados Unidosa. Além de respon-
der à escassez, a impressão 3D de órgãos permitiria também que

230
órgãos fossem fabricados a partir das próprias células estaminais
dos pacientes, eüminando basicamente o perigo de rejeição após
um transplante.
A impressão de comida ê outra apbcaçáo muito popular.
Hod Lipson sugere no seu livro de 2073 Fabricated: Tlte New
Íf,/orld of 3D Printing que a cozinha digital pode vir a revelar-se
como a killer o?? da impressão 3D; por outras palavras, a apüca-
ção que motiva enoÍme número de pessoas a ir comprar uma
impressora de secretárias. As impressoras de comida são usual-
mente utihzadas para produzir modelos de bolos, pastelaria e
chocolates, mas podem também ter o potencial de combinar in-
gredientes em fórmulas únicas, sintetizando sabores e texturas
sem precedentes. Talvez algum dia as impressoras 3D de comi-
da venhum ser omnipreseÍltes em casa e nas cozinhas dos res-
^
taurantes, e os chefes de cozinha seiam sujeitos ao mesmo tipo
de mercado ««o vencedor ganha tudo» com que os músicos pro-
fissionais hoje em dia se confrontam.
A maior disnrpção de todas poderá ocorrer quando as im-
pressoras 3D âumentarem a sua escala par;^ a dimensão da cons-
trução civil. Behrokh Khoshnevis, um professor de engenharia
na Universidade Souúern Califomia, está, a construir uma enor-
me impressora 3D capaz de fabncar uma c s em apenas vinte e
quatÍo horas. A máquina desloca-se temporariamente em carris
ao longo do local de construção e tem uma enorme cabeça
de impressão que deposita camadas de betão sob o comando de
nm computador. O processo é todo automatizado e as paredes
que dele resultam são substancialmente mais fortes do que as
que são constrúdas com técnicas tradicionais6. A impressora
poderá ser usadapart^ constnrir casas p^tahabitaçáo, eüfícios de
escritórios ou até tones de vários pisos. Atualmente, a máquina
constrói apenas as paredes de betão estruturais, deixando p^t^
os trabalhadores a montagem de portas, janelas e ouüos acaba-
mentos. Connrdo, é fâciimaginar futuras impressoras de constru-
çáo a serem aperfeiçoadas púa lidarem com múltiplos materiais.

231
O impacte da impressão 3D na produção fabril pode ser
relativamente silencioso porque as fábricas estão já muito auto-
maazadas. A história pode ser bastante diferente na indústria da
construção. Construir casas com armações (gaiolas) de madeira
é uma das âteas com mais trabalho intensivo da economia e ofe-
rece uma das poucas opornrnidades ocupacionais que ainda res-
t^m pouco qualificados. Só nos
paÍe. trabalhadores relativamente
Estados Unidos, cetca de 6 milhões de pessoas trabalham no se-
tor da construçío, ao mesmo tempo que a Otgantzação Interna-
cional do Trabalho estima que o emprego global na construção
abnnia praticamente 110 milhões de pessoasT. Âs impressoras
3D de construção poderão um dia consegr,ur erguer casas me-
lhores e mais baratas, bem como outras possibiüdades arquitetó-
nicas radicalmente novas mas a tecnolosa também poderá
-
eliminar incalculáveis milhões de postos de uabalho.

Aurouovr,rs AUTóNoMos
O automóvel autónomo sem condutor entrou ta reta final
da estrada que o levana do mundo da ficção científica à realidade
quotidiana em 13 de março de 2004. Esa data maÍcou o primeiro
Grand Challenge da DARPA uma corrida que a instituição
-
pensava que viesse ajudar tto aÍttnque de progressos no desen-
volvimento de veículos militares autónomos. Quinze veículos
robóticos partiram pú^ uma corrida que começou perto da ci-
dade de Barstow, na Caüfórnia, e se{penteou ao longo de 240
quilómetros no deserto de Moiave. Em iogo estava um prémio
de um milhão de dólares para o primeiro concorrente a cntzur a
linha da meta. Os resultados foram dececionantes. Nenhum dos
veículos conseguiu completar sequer 10 por cento do percurso.
O melhor esfotço proveio do Huntaee modificado da Universida-
de de Carnegie Mellon, que saiu da estradl ao fim de apenas 72
quilómetros e mergulhou numa represa. A DÂRPA declarou a
corrida um eÍro e ficou com o dinheiro.

232
No entanto, a agencia achou o asstrnto promissor; 4gendou
uma repetição da corrida e aumentou o prémio P^t^ dois mi-
lhões de dólares. A segunda corrida ocoÍÍeu a I de outubro de
2005 e exigia que os veículos robóticos desctevessem mais de
cem cur\ras apenadas, passassem por três úneis e Percorressem
uma passagem de montanha com precipícios a Plque de ambos
os lados da vereda serPenteante e poeirenta. O progresso foi
suqpreendente. Depois de apenas dezoito rneses de contínuo de-
senvolvimento, cinco destes veículos literalmente saltanm da
trincheità pàra a linha da meta. O vencedor, um Volksn)agefi
Touareg desenvolvido por uma equipa dirigida por Sebastian
Thrun da Universidade de Stanford, completou a cordda em
menos de sete horas. O refinado Hunaee de Carnegie Mellon
cruzou L meta cefca de dez minutos depois. Seguiram-se outfos
dois veículos nos trinta minutos seguintes.
A DÂRPA otgaÍttzou ainda outro desafio em novembro de
2007 . Desta vez a. agência criou um ambiente urbano no qual
veículos robóticos partilharam a estrada com trma frota de tdnta
Ford Taurus conduzidos Pof condutores profissionais. Os carros
autónomos tinham de obedecef às regras de trânsito, misturar-se
com os outfos caffos, estacionat e ttansPof cflizàmentos com
muito trânsito. Seis dos trinta e cinco automóveis robóticos
conseguiram completat o Percufso. O carro de Stanford foi
mais uma yez o primeiro L cf,tzat a meta", mas viu-se mais tarde
despromovido púa a segunda posição depois de os iuízes terem
analisado os dados e subtraído pontos Por infrações às leis de
condução da Califórnia8.
O projeto de catro autónomo da Google teve o seu início
em 2008. Sebastian Thrunr eue tinha vindo par:^ a emPresa um
ano ântes para trabalhaf no proieto Sreet View, foi posto à
frente do desafi o e Google começou rapidamente a rondar os
^
melhores engenheiros que tinham trabalhado com os veículos
participantes nas corridas da DARPA. Ao longo de dois anos, a
equipa desenvolveu um To-yota Prius transformado e munido de

233
equipameÍrto sofisticado, incluindo câmaras, quatro sistemas se-
parados de radar e um telémetro kserde 80 000 dólare s capaz de
cttart um modelo completo tridimensional do meio envolvente
do veículo. os carros podem detetar veículos, objetos e peões;
ler sinais de trânsito e lidar com quase qualquer cenário de con-
dução. Desde 2072, a frota autónoma da Google iá, percorreu
mais de 480 000 km sem qualquer acidente de viaçáo em vias
que vão desde autoestradas congestionadas com tânsito de para-
-afranc à famosa e sinuosa Iombard Street de São Francisco. Em
ounrbro de 2013, a empresa publicou informação a mostraÍ que os
seus caÍfos supefaÍam unra e outra vez o típico condutor humano
em matéria de suavidade de aceleraçáo e travagem, bem como em
práticas çrais de condução defensivae.
O projeto da Google teve um efeito galvanizafite na indús-
tria automóvel. Quase todos os principais constnrtores anuncia-
ram desde então planos pmlimplanm pelo menos um sistema de
condução semiautónoma dentro de mais ou menos uma década.
A diantefua pertence atualmente à Mercedes-Benz. o modelo da
Classe-S de 2014 é iâ capaz de conduzir autonomameÍrte em trân-
sito urbano de púa-úra,ic ou em autoestrada até 190 km/h.
o sisteml toma como deümiações as marcações rodoviárias ou
o carro da frente e comanda o volante, a, acelençio e attava-
gem. Contudo, desde o início que a Mercedes optou por adotar
uma estfatégia cautelosâ, e exige-se ao condutof que mantenha
sempre as mãos no volante.
Na verdade, os sistemas em desenvolvimento pela indústria
automóvel são quase universalmente direcionados para a auto-
mattzação parcial com a ideia de que o condutor humano
mantenha o comando- derradeiro. A responsabilidade em caso
de acidente pode ser um dos assuntos mais espinhosos em torno
dos automóveis completamente automati zados; alguns analistas
sugeriram que pode haver alguma ambiguidade quanto a quem
pode ser responsável. Chris Urmson, um dos engenhefuos que
dirige o proieto do veículo da Google, disse numa conferência de

234
imprensa em 2013 que tais apreensões são despropositadas e
que as atuais leis americanas deixam claro que na eventualidade
de um acidente a responsabilidade caberâ ao fabricante do auto-
móvel. E difícil imaginar algo que a indústria automóvel tema
mais. Fabricantes economicamente poderosos seriam um alvo
furesistível purà os advogados apresentârem queixas sobte a res-
ponsabilidade objetiva do produto. Contudo, I-Irmson conti-
Íruou a defender que por os automóveis autónomos recolherem
e atmilze,nârem continuamente informação operacional que Po-
detâ oferecer um quadro completo do eÍrtorno do carro até ao
momento do acidente , setâ quase impossível que trm Processo
fudicial leviano possa ser bem-sucedidolo. Porém, nenhuma tec.-
nologia é cem por cento fiável, e é portanto inevitâvel que um
sistema autónomo venha a causar um acideÍrte que confronte o
seu fabricante com um intimidante iulgamento Por responsabili-
dade civil. Uma solução possível seria as leis imporem limites ra-
zoâveis neste tipo de processos iudiciais.
Também a abordagem semiautónoma cria problemas Pró-
prios. Nenhum dos sistemâs está par;à iâ apto a hdar com qual-
quer situação. O blogue corporativo da Google observava em
2072 gu€, embora o progresso dos automóveis autónomos seia
enconiador, <«ainda temos um longo caminho pela frente» e es-
tes caffos çrecisam de ter o domínio sobre estradas coberas de
neve, interpretar sinais temporários de obras e üdar com qual-
quer situação ardilosa com que muitos condutores se confron-
tamr».ll A fuea nebulosa em que trm carro pode precisar de dete-
tar que estâ a confrontar-se com uma situação incontrolável Pú^
então devolver cofretamente o comando ao condutor repfesenta
o maior ponto fraco da tecnologra. Os engenhefuos que têm ta-
balhado no sistema descobriram que são necessários cerca de
dez segundos para alenat o condutor e assegufâf que ele recupe-
ra o comando do veículo. Ou seia, o sistema tem de antecipat
um potencial problema muito antes de o automóvel estar rcal-
mente numa situação de perigo; conseguir fazê-lo com um grau

235
de fiabilidade é um desafio técnico substancial. Isto tornar-se-ia
ainda pior se não fosse exigido aos condutores que mantivessem
as mãos no volante com o carro em modo de condução automá-
tica. Um alto funcionário da Âuü informou que quando o siste-
ma que está. a ser desenvolvido pela mutca está em funciona-
mento, o condutor ««não pode dormir, ler um jornal ou usâr um
computadoo>.l2 Não é claro como maÍca planeia obrigar o coÍr-
^
dutor a respeitar estas proibições ou se usar urr smarípbone,vet
-
um filme ou envolver-se em quaisquer outÍas distrações lhe será
permitido.
Quando estas barreiras forem ultrapassadas, os automóveis
autónomos oferecerão um enorme potencial, especialmente
quanto à melhona da segurança. Em 2009, houve cetcr. de 11
milhões de acidentes de viação nos Estados Unidos e cerca de
34 000 pessoas perderam a vida em colisões. Globalmente, mais
de um milhão de pessoas morre todos os anos nas estradasl3.
O National Transportation Safety Board estima que 90 por cen-
to dos acidentes ocorrem sobretudo por erro humano, isto é,
numerosíssimas vidas poderiam ser salvas por tecnologia de
condução automática fiâveL os dados preliminares sugerem que
os sistemas anticolisáo agon disponíveis em alguns caÍros estão
jâ a ter um impacte positivo. Um estudo sobre dados de recla-
mações de seguros efetuado pelo Highway Loss Data Institute
apurou que alguns modelos Volvo equipados com tais sistemas
apresentum cetc de 15 por cento menos acidentes do que auto-
móveis comparáveis sem esta tecnolograla.
Além da prevenção de acidentes, os proponentes de auto-
móveis autónomos salientam mútas outras potenciais mais-va-
üas. os automóveis autónomos terão a capacidade de comunicar
e colaborat eflüe eles. Podem viaix em filas, rodando no rasto
uns dos outros para pouparem combustível. A coordenação de
alta velocidade em autoestradas rcduzina, ou elimin arj,a, os en-
gattaÍamentos de trânsito. Neste caso, penso que o ruído publi-
citârio vai muito à frente de qualquer realidade a curto pnzo.

236
Beneficios deste tipo dependem fortemente de um efeito de re-
de: uma parte substancial dos automóveis que circulam na estra-
da teriam de ser autónomos. A realidade óbvia é que grande
número de condutores vai mostrar-se, na melhor das hipóteses,
ambivalente àcerc da tecnologa de condução automâdca. Mui-
tas pessoas pura e simplesmente gostam de conduzit automó-
veis. Revistas da especialidade como Motor Trend e Car and Driaer
têm milhões de assinantes. E aftnal, qual ê vantagem de ter «a
máquina de condução perfeita»» se não vamos poder conduzi-la?
Mesmo entre os condutofes que acolhefem bem a tecnologla", a
adoção irá ser bastante gradual. Uma consequência da elevada
desigualdade de rendimentos e de décadas de salários estagnados
é os carros novos estarern a. totn t-se progressivamente inacessí-
veis para urna larga camada da populaçío. De facto, dados re-
centes sqgerem que os consumidores americanos não têm pressa
de trocar os veículos que possuem. Em 2072, a média de idade
dos carros em citculação nos Estados Unidos era de quase otaze
anos um recorde absoluto.
-Em alguns casos, umâ mescla de condutores robóticos e hu-
Ínanos podia na verdade provocaÍ mais problemas. Pense no últi-
mo condutor 4gressivo que encontrou L Pessoa que atfavessou
-
o caÍro à sua frente ou que zagoezagoeov temerariamente entre as
faixas de rodagem da autoestrada. Agora, imagine essa Pessoa a
partilhar a estrada com automóveis autónomos que sabe de ante-
máo estaÍem programados pâra ser impecavelmente defensivos em
todas as sinrações. Estes cenários de «dobo entre ovelhas» poderiam
convidar a comporamentos mais ariscados.
Os entusiastas mais otimistas da tecnologia de condução
automática preveem um impacte importante dentro de cinco a
dez anos. Suspeito que desafios técnicos, aceitaçáo social e obs-
táculos ligados à responsabiüdade e à legislação poderáo fazer
estas proieções pârecer demasiado otimistas. Âpesar de tudo,
penso que poucas dúvidas havetâ de que os veículos verdadeira-
mente autónomos ou, Por outras palavras, sem condutof
- -
237
acabaráo por chegar. Quando tal suceder, lr:ão ter o potencial de
revolucionar não apetas a indústria automóvel mas setores inteiros
da nossa economia e do nosso mercado de trabalho, bem como as
relações fundamenais entre âs pessoas e os automóveis.
Para compreender um futr:ro em que o automóvel será com-
pletamente autónomo, o mais importante será presumir que ele
não será provavelmente 0 seu autonóuel. Múas pessoas que têm re-
fletido seriamente acerc do papel desejável dos automóveis autó-
nomos paÍecem concordar gue, pelo menos em áreas densamente
populosas, eles serão provavelmente trm recrrso patilhável. Desde
o início foi essa a intenção da Google. Tal como Serçy Brin, o co-
fundador da Google, salientou a Burkhard Bilger da Ney Yorker,
«Olhe lâ para Íora e caminhe pelos parques de esacionamento e
passe pelas estradas com multiplas faixas de rodaçm: ainfuaestnr-
nrra dos transportes domina. É orn fardo enorme sobre a terra»ls.
 Google espera romper com o modelo predominante de
proprietário-operadot p^r^ o automóvel. No futuro, iremos sim-
plesmente pegar no nosso sma@ltone ou qualquer outro disposi-
tivo em rede e pedir um automóvel autónomo quando precisar-
mos deles. Em vez de passarem 90 por cento ou mais do seu
tempo estacionados, os automóveis irão ser alvo de taxas de uti-
lizaçáo muito mais elevadas. Esta simples modificaçáo tâ desen-
cadear uma revolução imobiliâna nas cidades. Vastas extensões
de espaço Lgota, resenradus patl parqueamento ftcaráo disponí-
veis para outros usos. Certamente que os automóveis autóno-
mos continuarão a precisar de ficar estacionados em algum lugar
quando não estiverem a ser utiüzados, mas não haverã necessi-
dade de saídas aleatórias; os carros estarão estacionados conti-
nuamente. Se pedir um caÍro e não houver iá atgum em circula-
ção perto da sua locahzação, o primeiro veículo na ftla ser-lhe-á
destinado.
Há, evidentemente, algumas tazões para duvidar que os au-
tomóveis urbanos acabarão por se transfotmat em recursos pú-
blicos. Por um lado, isso estaria diretamente em conflito com os

238
obietivos da indústria automóvelr eue gostaria que cada famflra
possússe pelo menos um veículo. Por outro lado, para que este
modelo funcionasse, os passageiros teriam de partilhar os carros
em horas de ponta; caso contráÍio seriam tão insuficientes e c -
ros durante os períodos de maior procura que muitas pessoas
não poderiam suportar o custo de uma viagem. Um problema
relacionado é o da segurança num catto partilhado. Mesmo que
o software do veículo tenha a capacidade de resolver as questões
de logística e proporcionar serviço eficiente a tempo, uÍn peque-
no carro é, afina| lrm espaço muito mais íntimo p^ta partilhar
com desconhecidos do que um autocaffo ou trm comboio. Con-
tudo, é fâciimaginar soluções p^t^ este problema. Por exemplo,
automóveis concebidos par:l- serem partilhados exclusivamente
por viajantes sozinhos podiam simplesmente ser divididos em
compartimentos. Um passageiro não precisaria de ver ou sequer
tet noção da presença de outros passageiros que partilhassem
^
o carro. Pata evitar a sensação de estar enclausurado, poderiam
monar-se ianelas virtuais nas paredes de separação; ecrãs de alta
resolução poderiam exibir imagens captadas pelas câmaras mon-
tadas no exterior do veículo. Quando os automóveis autónomos
estiverem em operação de rotina, o ltardware parl conseguir nrdo
isto será substancialmente banto. O veículo imobihzar-se-ia,
uma luz verde piscaria numa das portas e o passagefuo entraria
pata vuriar até ao seu destino, como se estivesse a vtaiat sozinho;
estaria a partilhar um veículo, mas a vraiar na sua cápsula de pas-
sageiro individual. Outros veículos poderiam estar preparados
para transportar grupos (ou viajantes individuais mais sociáveis),
ou talvez as pàredes separadoras pudessem ser rebatíveis por
múnro consentimento*.

* Um problema com os automóveis autónomos partilhados, especialmente se tiverem


compartimentos privados, setia provavelmente a manutençío dalimpeza dos veículos.
É om problema habitual nos âutocaÍros e nas caflragens de metro, e na ausência de
um condutor (ou de outros passageitos), âlgumas pessoas poderiam não demonstrar o
melhor dos comporamentos.

239
Por outro lado, a cápsula de passageiro pode não precisar
de ser «<virtual». Em maio de 2014, a Google anunciou que a
próxima fase da sua pesquisa sobre automóveis de condução
automática se concentràfla rto desenvolvimento de veículos elé-
tricos de dois passageiros com uma velocidade máxima de
40 km/h e especificamente vocacionado p^ta ambientes urba-
Íros. Os passageiros requisitarão o carro e estabelecerão o seu
destino mediante uma aphcação de sna@bone. Os engenheiros
da Google chegaram à conclusão de que devolver o comando
do veículo ao condutor em caso de emergência é impraticável e
que os veículos serão completamente automatizados sem vo-
-
lante nem pedal de travão. Numa entrevista com John Markoff
do New York Times, Sergey Brin destacou o notável arranque da
suâ empresa L purttr dos modelos mais «incrementais>» que os
prin.rp"is fabricantes automóveis procrram desenvolver, dizen-
do que ««esta panfetnâlia náo tem nada que ver com a Írossa
missão de sermos transformadores»»l6.
O mercado podeú tasrbêm vir a vol-
ct:rat outras soluções
tadas púa, a partilha de veículos automatizados. Kevin Drum da
Motlter Jofies pefls que <<verdadeiros veículos autónomos estarão
disponíveis dentro de uma década e que serão eles os grandes
transformadoreo»l7 e sugeriu que poderia vir a ser possível com-
prat uma partilha de senriço automóvel, com disponibilidade ga-
rantida, por uma ftaçáo do que custaria a compra de um veículo.
Por outras palavras, poder-se-ia partilhar um automóvel apenas
com colegas subscritores do senriço, em vez de com o público
em geral*.

* Se o modelo partilhado não for aplicado, então os automóveis autónomos poderão


de facto ter um impacte negativo em áreas congestionadas. Se possuir um automóvel
autónomo e precisar de visitar wa âtea, onde o parqueamento for escasso e caro, po-
de opar por manter o caÍro a circular e depois apanhá-lo quando tiver ttaado dos
seus assuntos. Ou talvez possa mandá-lo ficar à sua espera num bairro residencial em
vez de pag;it o estacionamento. Ou talvez até possa ter descarregado uma aplicação
de sofiware ilícita que lhe permita estacionar o seu câÍÍo ilegalmente e depois, num ápi-
ce, fazê-lo artunc r se detetat a aproximação de um veículo oficial de fiscalização.

240
Se o modelo partilhado prevalecer, o maior grau de utiüza-
ção de cada veículo significaria, evidentemente, menos veículos
relativamente à população. Os ambientalistas e urbanistas fica-
riam provavelmente mais do que encantados; os fabricantes de
automóveis nem tanto. Âlém da perspetiva de menos veículos
per capita, poderia também haver uma significativa ameaça às
marcas de automóveis de luxo. Se não formos donos de um car-
ro e o usaÍmos apenas patà uma viagem simples, temos poucas
tazões pat^ nos preocuparÍnos com o seu modelo. Os automó-
veis podem deixar de ser símbolos de estatuto e o mercado au-
tomóvel poderá tornar-se bastante generalista. Por estas tazões,
penso que é uma boa aposta os fibncantes automóveis agàrr.a-
rem-se fortemente à ideia de manter alguém no banco do con-
dutor mesmo que tatumefite venha a tocàt nos dispositivos
-
de comando da condução. Os fabncantes de automóveis pode-
rão estar prestes a enfrenar o tipo de dilema com que as empre-
sas poderosas frequentemente se debatem quando as tecnologias
disruptivas aparecem. A empresa é obrigada a escolher eÍrtre
proteger o negócio que hoie e num fuarro próximo continuará a
proporcionar receitas ou aiadat a incentivar uma tecnologia
-
emergente que poderâ acrbar por desvalorizat ov até destruit o
legado do negócio. A História mostrâ que as empresas quase
sempre optam por proteger os seus fluxos de receitas estabele-
cidos*. Se o tipo de revolução que Brin antevê está para
^con-
tecer, poderá ter de surgir Íora da indústria automóvel. E, claro
está, Brin pode estar exatamente no lugar certo p^ra a fazet
acontecer.
Se o modelo de propriedade individual pú^ os automóveis
catt, o impacte em largos setores da economia e do mercado de
trabalho será extraordinário. Pensemos em todos os concessio-
nários automóveis, oficinas de reparação independentes e postos

* () apego da Mcrosoft ao seu maciço fluxo de receias com hase no lYfudopts e a petda
da oportunidade de ganhar posição no mercado dos snadpbones e dos tabbts é um exem-
plo clássico.

?/ll
de abastecimento num raio de poucos quilómetros das nossas ca-
sas. A sua existência está diretamente ügrd^ ao facto de a proprie-
dade do automóvel estar largamente üsseminada. No mundo
que a Google antecipa, os carros robóticos estarão concentrados
em frotas. Manutenção, tepataçío, seguro e abastecimento de
combustível estarão muito provavelmente centtaltzados. Um
número incalculável de pequenos negócios e de postos de traba-
lho a eles associados irão desaputeceLPara terÍnos uma ideia de
quantos postos de rabalho poderão estar em risco, considere-
mos 9u€, só em Los Angeles, há 10 000 pessoas a trabalhar em
úneis de lav4gem de automóveis18.
O impacte mais imediato no emprego seria evidentemente
junto daqueles que vivem da condução. Os empregos de moto-
ristas de táxis desapareceriam. A condução de autocarros pode-
ria ser automatizada e substituída por uma forma mais persona-
hzada de transporte público de mais qualidade. Os empregos
ügados à distribuição também se evaporattam. A Amazon, por
exemplo, encoÍrtra-se iâ a experimeÍltar entregas no dia em de-
pósitos ou compartimentos com locilizações fixas. Porque não
pôr os compartimentos sobre rodas? Uma carrinha de enrega
automática poderia envtat uma SMS p^r^ o cliente uns minutos
antes da sua chegada e depois simplesmente esperar que o cüen-
te digiasse um código e recolhesse a encomenda*.
De factor penso que será nas frotas comerciais que come-
çafemos por ver largamente adotados veículos automatizados.
As empresas que detêm e operam estas frotas enfrentam iâ uma
enorÍne responsabilidade. Um simples effo por parte de um único

* Esa solução parece-me muito mais üável do que a ideia de disribúção com dtones
que a Amazon divulgou num episódio de 60 Minúos da CBS. Nenhuma tecnologia
pode ser cem por cento fiável. O negócio da Amazon é tão vasto que, para um im-
pacte significativo, teria de haver um enorÍne número de enuegas por drones. Mesmo
um pequeno eÍro multipücado pelo imenso númeto de voos resultaria provavelmente
num fluxo contínuo de lamentáveis incidentes. Um incidente que envolva trma cargâ
de dois quilos suspensa io aÍ a centenas de metros do solo não é seguramente um in-
cidente que estefamos dispostos a sofrer.

atz
condutor pode ser o suficiente p^r^ causar um dia muito mau.
Uma vez que a tecnologiâ tem um sólido registo de desempenho
e os dados demonstÍam uma clata segurança elraÍLtaigem de con-
ftança,haverâ um poderoso incentivo púa. â autommzaçáo des-
tes veículos. Ou seja, a primeira âtea em que os veículos autóno-
mos faráo sérias incursões pode ser exatamente naquela com
impacte diteto em maiot número de postos de trabalho.
J^ - diversas sugestões de que pesados camiões de longo
curso poderão também ser completamente automattzados num
funrro relativamente próximo. Neste caso, mais trma vez, penso
que o progress o irâ ser provavelmeÍrte bastante mais ponderado.
Embora os camiões possam sem dúvida e em breve tet à capaci-
dade de se conduzirem autonomamente, o assombroso poten-
cial destnrtivo destes veículos rrâ, talvez significar que alguém râ
permanecer no banco do condutor no futuro mais previsível.
Experiências com comboios automanzados, effi que trm camião
está programado put^ seguit o veículo que o antecede, fonm iâ
bem-sucedidas e podem ter um papel importante no plano mili-
tar ou em áreas pouco povoadas. Numa entrevista de 2013 com
David Von Drehle da revista Time, tun executivo de uma empre-
sa de camionqgem salientou o aspeto importante de que a dete-
rionda infraestrutxa vtâna amertcun^ teptesenta um obstáculo
importante à viabrhzaçáo da total automatizaçáo dos tanspor-
tesle. Os camionistas têm de lidar a toda ahora com a realidade
de que as nossas estradas e pontes estão basicamente em ruínas
e que estão constantemente a sef remendadas. Tal como sugeri
no capítulo 1, o desaparecimento total de camionistas poderia
também tornar as distribuições de alimentos e outros abasteci-
mentos importantes suscetíveis de pirataria ou ciberataques.
Excetuando talvez a eletricidade, náo}rrâ mais nenhuma ou-
tra inovação que tenha sido mais importante paÍ^ o desenvolvi-
mento da classe média americana e p^ta o estabelecimento
-
do tecido social em quase todos os países desenvolvidos do
-
243
que o automóvel. O verdadeiro veículo sem coÍldutor tem o po-
tencial de inverter completamente a maneka como pensamos e
interagimos com os caÍros. Também pode vaponzut milhões de
sólidos empregos da classe méüa e destruir milhares de nego-
cios. Uma pequena previsão dos conflitos e nrmultos sociais que
segrúamente irão acompanhat o despertar dos automóveis autó-
nomos pode observar-se nas perturbações que rodeiam a Uber,
a empresa start-up que possibilita o pedido por sna@bone de ulr";r
tâxtpara trma viagem. A empresa tem estado envolta em contro-
vérsia e litígios em quase todos os mercados onde entrou. Em
fevereiro de 2074, os operadores de táxis de Chicago àvaflç r^m
com um processo iudicial contra a cidade, €ffi que reclamam que
a Uber está a desvaloriz^r quase 7000 ücenças de operaçio
^s
emitidas pelas autoridades municipais com um valor total de
mercado superior a 2,3 mil milhões de dólares2o. I-"grne-se o
escândalo quando os caÍros da Uber começassem a chegar sem
condutores.
Conforme os empregos se evapofam e os vencimentos es-
taglzrm ou até talvez diminuam corremos o risco de uma
- -,
grande e crescente fuaçáo da nossa população deixar de ter ren-
dimento constante suficiente para continuar a assegurar a vi-
brante procura de bens e serviços que a economi a ptodaz. No
próximo capítulo iremos examinar este perigo e ver como ele
pode acabat por amelçLt o crescimento económico e atê talvez
precipitar uma nova crise.

2M
Capítulo 8
CoNSUMIDORES, LIMITES AO CRESCIMENTO...
E CRISE?

Há uma história que frequentemente se conta sobre Henry


Ford II e §Talter Reuúer, o lendário dirigente do sindicato Uni-
ted Auto §7orkers, quando juntos visiavam uma Íátbnca de au-
tomóveis recentemente Lrttomatrzada. O presidente da comissão
executiva da Ford Motor Company provoca Reuther perguntan-
do-lhe: «§7alter, como vai conseguir que estes robôs paguem as
quotâs do sindicatoà» Ao que Reuúer responde com outra per-
gunta par;L Ford: <Glenry, como vai conseguir que eles lhe com-
prem os carrosà»
Embora provavelmente esta conversa nunca tenha existi-
do, o episódio reflete de qualquer forma uma apreensão-chave
do derradeiro impacte da disseminaçáo da aixtomatTzação:
^cetca
os trabalhadores também são consumidores e dependem dos
seus salários para comprâr os produtos e serviços produzidos
pela economia.Talvez mais do que qualquer outro setor econó-
mico, a indústria automóvel tem demonstrado a importància
desta dualidade. Quando o primeiro Henry Ford aumentou a
produção do Modelo T em 7914, ficou famoso o facto de ele ter
dobrado o valor dos salários em 5 dólares por dia e, Íazê-
- ^o
-lo, assegurar que os seus uabalhadores teriam a capacidade de
comPfaÍ os caffos que estavam a constnrir. A partir desta géne-
se, a ascensão da indústria automóvel prosseguitia parz ftcat
inextricavelmente ligada à criaçã,o de uma forte classe média
americana. Como vimos no capínrlo 2, há, evidências que suge-
rem que esta poderosa simbiose entre rendimentos crescentes e

245
uma pÍocrúa de consumo robusta e alaryada estâ neste momeo-
to em processo de desenvolvimento.

UnaA BxPERIÊNCIA MENTAL

Para visualizar as impücações mais extremas possíveis do


aviso de Reuúer, consideremos uma experiência mental. I-qS-
nemos que a Teta é subitamente invadida por espécies estra-
nhas de extraterrestres. Conforme milhares de seres fluem das
suas enorÍnes naves espaciais, a humanidade comPreende que os
visitantes não vieram PúL nos conquistar, ou para extrair os
nossos recursos, ou até púa, conhecer o nosso dfuigente. Afinal,
os alienígenas vieram par;^ trabalhar.
A espécie evolúr^ longo de um percurso substancial-
^o
mente diferente do dos seres humanos. Â sociedade ahenígena ê
grosseiramente comparável à dos insetos sociais e os seÍes a
bordo das naves espaciais provêm inteiramente da casta traba-
lhadora. Cada um dos indivíduos é altamente inteligeflte, c P^z
de aprender uma hpr, resolver problemas e até de demonstrar
alguma criatividade. Contudo, os alienígenas são conduzidos por
um único e fortíssimo imperativo biológico: a realizaçáo
- -
advém-lhes exclusivamente do desempenho do trabalho útil.
Os alienígenas não têm interesse em lazet, entretenimento,
ou aspirações intelectuais em geral. Não têm o conceito de lar
ou de espaço pessoal, propriedade privada, dinheiro ou Ítqveza.
Se precisam de dormir Íazem-no Ílos seus postos de trabalho.
Até a comida de que se alimentam lhes é indiferente, pois não
têm o sentido do paladar. Os aüenígenas reproduzem-se asse-
xuadamente e atingem a maturidade em poucos meses. Não seÍr-
tem a necessidade de aüau parceiros nem deseio de se saliena-
rem como indivíduos. Os alienígenâs servem a colónia. São
movidos pelo trabalho.
Gradualmente, os alienígenas integram-se na nossa socieda-
de e na nossa economia. São ávidos por trabdhx e não exigem

246
salários. O trabalho, put^ os alienígeÍras, é a sua única recom-
pensa; na verdade, é a írnica recompensa que podem conceber.
O único custo associado ao seu emprego é o abastecimento de
algum tipo de alimento e âgn e assim, começam a reprodu-
-
zr-se rapidamente. As empresas de todas as dimensões nprda-
mente começam a úLizat os extraterrestres numa variedade de
papéis. Começam pelas tarefas mais rotineiras, pouco quaüfi-
cadas, mas rapidamente demonstrum capucidade púr. desempe-
nhar trabalhos mais complexos. Gradualmente, os alienígenas
vão substituindo os trabalhadores humanos. Mesmo os donos
de empresas que inicialmente resistkam à substituição de pes-
soâs por alienígenas acabam por não ter outra opção senão fazer
a transição quando os seus concorrentes também a fazem.
Entre os humanos, o desemprego começa a atrmentar im-
piedosamente enquanto os rendimentos daqueles que ainda têm
trabalho estagnam e começam aité a diminuir conforme a coÍr-
corrência pelos postos de trabalho aumenta. Passam-se meses e
depois anos, e os subsídios de desemprego esgotam-se. Os âpe-
los para a intervenção do governo só têm como resultado um
impasse. Nos Estados Unidos, os democratâs pedem restrições
ao emprego de alienígenas; os republicanos, fortemente pressiona-
dos pelas grandes empresas, bloqueiam as iniciativas e salientam
que os extraterrestres se espalharam por todo o mundo. Qualquer
limiação à capacidade de as empresas americmas contratâÍem os
dieníçnas deixará o país Íruma devasadora desvarrtagem compe-
titiva.
 população começa progressivamente a temer o futuro.
Os mercados de consumo tornam-se profundamente polanza-
dos. Um pequeno númeto de pessoas as que detêm negócios
-
de sucesso, possuem grandes investimentos ou exercem traba-
lhos seguros de nível execptivo vivem extremamente bem
-
pois a rendibilidade dos negócios aumentou. Âs vendas de pro-
dutos e serviços de luxo sobem em flecha. Quanto ao resto, é a

u7
economia de nrdo a um dólar. À medida que mais pessoas ficam
desempregadas ou receosas de virem a perder os seus empregos,
a fiugalidade tornâ-se a regr^ da sobrevivência.
Contudo, êffi breve, torna-se evidente que os impressio-
nantes aumentos nos lucros das empresas são insustentáveis. Os
lucros resultaram quase exclusivamente da tedução dos custos
do uabalho. As receitas estabilizam e em breve começam a di-
minuiÍ. Os alienígenas, evidentemente, não compram nada. Os
coÍlsumidores humanos rejeitam progressivamente qualquer
compra que não seia essencial. Muitos negócios que produzem
bens e serviços não essenciais começatrr a fechar. As poupanças
e as linhas de crédito estão esgotadas. Quem comprou casa tor-
na-se tflc p^z de suportar o crédito hipotecário; os arrendaúrios
não conseguem pagaÍ os dugueres. As taxas por incumprimento
no crédito à habitaçào, os empréstimos às empresas, o crédito
ao consumo e os empréstimos a estudantes disparam. As recei-
tas fiscais colaps àm ao mesmo tempo que a procura dos servi-
ços sociais aumenta de forma drástica, Lmeaç ndo a solvência
dos govemos. De facto, conforme a nova crise frnanceka se faz
sentir, até a próspera elite cottl no consumo: emvez de caríssi-
mas malas de mão ou carros de luxo, em breve se interessam
mais pela compra de ouro. Âfinal, parece que a invasão alieníge-
na não se revelou assim tão benéfica.

As uÁqurNAS NÃo coNSoMEM

A paábola da invasão alienígena ê de facto extrema. Talvez


funcionasse como argumento par^ um filme de ficção científica
de orçamento realmente reduzido. Ainda assim , c ptl o ponto
final de uma implacável progtessão flrmo à automatizaçáo
-
pelo menos na ausência de políticas concebidas para fazer face à
situação (mais desenvolvimentos no capítulo 10).
 ptirr.tpal mens4gem que este livro até agora passou é que
a aceletaçáo da tecnologia pode ameaça;t progressivamente o

a$
emprego em todas as atividades e ntrma vasta guma de níveis de
competência. Se tal tendência se desenvolver, terá importântes
implicações na economia em geral. Conforme os emPregos e os
rendimentos são implacavelmente varridos pela automatizaçío,
a massa dos consumidores pode começar a senú a falta do ren-
dimento e do poder de compÍa necessários Pafi" gerar a Proctúa
que é fundamental para um crescimento económico sustentável.
Cada produto ou senriço produzido pela economia é com-
prado (e consumido) por alguém. Economicâmenter {iprocura»»
significa um desejo ou uma necessidade de alguma coisa, susten-
tado pela capacidade e disposição de pagar por ele. Só há duas
entidades que podem getú a Procura final de produtos e serviços:
os indiúduos e os governos. O gasto individual no consumo é
normalmente de pelo menos dois terços do PIB nos Estados
Unidos e cerca de 60 por cento ou mais em muitos dos países
desenvolvidos. Claro que a maioria dos consumidores indivi-
duais depende do empr ego pàte. obter a quase totaüdade dos
seus rendimentos. Os empregos são o PrinclPal mecanismo pelo
quâl o poder de compra é disribuído.
Certamente que as emPresas também comPram produtos,
mas isso não corresponde à procura final. As empresas com-
pram insumos que são usados p^ta produzir alguma coisa mais.
Também podem efetuar comprâs como investimento PúL asse-
gurar a produção futura. Contudo, se não houver Procura do
que a empresa está, a produzir, ela encerrarâ e deixatâ de com-
prat insumos. Uma empresa pode vender a outra emPresa; mas
algures no final da cadeia estarâ uma Pessoa (ou governo) a
compramlgo, apenas porque precisa ou deseia.
O ponto essencial é que um trabalhador é também um
consumidor (e pode sustentar ouüos consumidores). Estas Pes-
soas geram a procura final. Quando um uabalhador é substituí-
do por uma máquina, essa máquina não vai à rua Par:. consumir.

249
A máquina pode precisar de energia, peças sobresselentes e exi-
gir manutenção, mas mais uma vez, isso são insumos do negó-
cio, não procura final. Se não houver ninguém parl comprar o
que a máquina está, a produzir, ela acabarâ por ser desligada. Um
robô industrial numa Íâbica de automóveis não continuarâ
a funcionar se ninguém comprar os automóveis que ele estâ
^
montad.
Por isso, se a automatizaçáo eümina uma parte substancial
dos postos de trabalho de que os consumidores dependem, ou
se os salários baixarem tanto que muito poucas pessoas tenham
suficiente rendimento disponível, então é dificil ver como uma
ecoÍromia moderna de mercado massificado pode contin:uut a
prosperar. Quase todas as grandes indústrias que constituem
a coluna vertebral da nossa economia (automóveis, senriços fi-
nanceiros, eletrónica de constrmo, senriços de telecomunicações,
cuidados de saúde, etc.) dirigem-se a mercados compostos por
mútos milhões de potenciais consumidores. Os mercados não
são movidos apenas pela soma dos dólares mas também pela
Procura antttâna. Uma só pessoa muito rica pode comprar trÍn
belíssimo automóvel, ou talvez trma dúzia desse tipo de au-
^té
tomóveis, mas não vai comprar milhares de automóveis. O mes-
mo se aphca aos telemóveis, computadores portáteis, refeições
em restaurantes, subscrições de televisão por cabo, créditos à
habitação, dentífricos, exames de higiene dental, ou qualquer ou-
tro produto ou senriço par:a o coÍlsumidor que possa imaginar.
Numa economia de mercado massificado, a distribuição do poder
de compra entre os consumidores é extremamente importante.

* Eüdentemente que nem todos os robôs são usados em produção. Também há ro-
bôs para o consumidor. Suponha que um dia é dono de um robô pessoal, capaz de
traar de diferentes tarefas em casa. Pode «consumior eletdcidade e exigir reparações e
manutenção. Contudo, economicamente, o consumidor é o seu den6 não o robô.
Sem os seus rendimentos do uabalho não será caprrz de pagar os custos - de opeação
do seu robô. Os robôs não geram consumo final, as pessoas sim. @resumindo, claro,
que os robôs não são verdadefuamente inteügentes, vivos e senhores da liberdade eco-
nómica que seda necessária par:a ag$em como consumidores. Consideraremos esta
possibilidade especulativa no próximo capítulo)

250
 concentração extrema de ttqrrczl numa Íadra mínima de poten-
ciais consumidorcs acabarâ por ameaiçLr à viabilidade dos merca-
dos que sustentâm estas indústrias.

DnsrcuaLDADE E GASTos Do coNSUMIDoR: os SINAIS ATE HoJE

Em 1992, 5 por cento das famílias americanas com maiores


rendimentos foram responsáveis por cetca de 27 por cento dos
gastos totais de consumo. Em 2072, esta Percentagem subiu pa-
ra 38 por cento. Ao longo destas duas mesmas décadas, a paÍce-
la de gastos atribúda aos 80 por cento de americanos na base da
pirâmide dos rendimentos caiu de 47 para 39 por centol. Em
2005, a tendênciapata o aumento da concentraçáo taÍrto da ri-
qaez^ como dos gastos era tão óbvia e implacável que uma equi-
pa de analistas do mercado bolsista do Citigroup escreveu uma
famosa série de memorandos destinados apenas aos seus cüen-
tes mais ricos. Os analistas afirm^v^m que os Estados Unidos
caminhavam par:l uma «plutonomiar» trm sistema económico
-
desequilibrado em que o crescimento é gerado maioritariamente
por uma elite mínima e próspera que consome urna parte cada
vez muor de tudo o que a economia produz. Enue outras coi-
sas, os memorandos aconselhavàtrr os abastados investidores a
ráo fazerem negócios com ações de empresas fornecedoras da
classe méüa americana em vias de desaparecimento e, pelo con-
üârro, concenüarem-se nos fornecedores de produtos e serviços
de luxo dirigidos aos consumidores mais ricos2.
Os dados que demonstram, desde há décadas, que a econo-
mia ameÍtcafl caminha p^t^ a coÍrcentaçáo de riqueza sáo tne-
qúvocos, mas incorporam um paradoxo fundamental. Há muito
que os economistas compreenderam que os ricos gastam uma
parcela mais pequena dos seus rendimentos do que a classe mé-
dia e, especialmente, a classe mais pobre. As famílias com rendi-
mentos mais baixos não têm outrâ escolha senão gastar quâse
tudo o que conseguem ganhar, enquanto Pàt^ os verdadeira-
mente mais ricos seria impossível terem umâ t^xà de consumo

251
equivalente, mesmo que o tentassem. A consequência clata é
9u€, à medida que a riqaezâ se concentra no número reduzido
dos ricos, devemos contar com um consumo total menos robus-
to. A minúscula faaa da populaçáo que vai absonrendo uma par-
te cada vez muor do rendimento total do país não vai set capaz
de gastat tudo e isso devia ser óbvio nos dados económicos.
Contudo, a realidade histórica é basante diferente. Durante
as ultimas três décadas e meiq entre 7972 e 2007 , o gasto médio
como percentagem do rendimento disponível aumentou de cerca
de 85 por cento par:l mais de 93 por cento3. Durante a muor pâÍte
deste período, o gasto no consumo não só foi de longe a maor
componente do PIB americaÍro, como foi também a que registou
mais rápido crescimento. Por outras palawas, mesmo enquânto se
aptofundavt a desigualdade de riquez^ e sua concentração, os
^
consumidores conseguiram de algum modo aumenar o seu gasto
total, e a sua prodigalidade foi o fator mais importante no motor
do crescimento da economia anrrcrjrcana.
Em ianeiro de 2014, os ecoÍtomistas Buty Cynamon e Ste-
venFazzari, respetivamente da Resenra Federal de St. Louis e da
Universidade de §Tashington em St. Louis, pubücaraÍn um estu-
do que analisava o paradoxo da crescente desigualdade de rique-
za combinada com o âumento dos gastos de consumo. Â sua
principal conclusão era que a tendência ascendente verificada
desde há décadas nos gastos de consumo era" largamente impul-
sionada pelo aumento da dívidâ assumida pelos 95 por cento
dos consumidores americanos mais pobres. Entre 1989 e 2007,
pat^ esta maioria, a rrJiaçáo da dívida com o rendimento quase
duplicou de 80 por cento p^r^ um pico de quase 160 por cento.
Entre os 5 por cento mais ricos, a mesma rrJraçáo permaneceu
relativamente constante em torno dos 60 por centoa. O mais
acentuado aumento nos níveis de dívida acompanhou de perto a
bolha imobiliária e o acesso Íâci ao crédito à habitação nos anos
que condvztam à crise financeira.

252
O persistente recurso ao empréstimo pof parte da quase
totaüdade da população ameri cafla acabou, naturalmente, por
ser insustentável. Cynamon eFazzart afrrmam que <a fuagphdade
financeira cnada por um recurso ao crédito sem precedentes de-
sencadeou a Grande Recessão quando a incapacidade de con-
ttait mais empréstimos provocou uma queda no consumo»»S.
À medida que a crise se foi revelando, as despesas totais dos
consumidores caitam 3,4 por cento, uma queda Íro coÍlsumo
sem paralelo em qualquer recessão e desde a Segunda Guerra
Mundial. A queda, tta despesa foi também especialmente dura-
doura; decorreram quase três anos até o consumo total regressar
ao seu nível anterior à crise6.
Cynamon eFazzan descobdram trmâ acennrada diferença en-
tre os dois grupos de rendimentos, ta:nto durante como depois da
Grande Recessão. Os 5 por cento mais ricos puderam moderar os
seus gastos recorrendo a outros recursos durante a recessão. Os
outros 95 por cento foram simplesmente submetidos e não tive-
ram outra escolha que não fosse cortaÍ drasticamente os gastos. Os
economisas também descobriram que a subsequente recuperação
nos gastos do consumidor foi totalmente impulsionada pelo topo
da distribuição de riqueza. Em 201,2, os 5 por cento mais ricos ti-
nham aumentado os seus gastos em cerca de 17 por cento, depois
de corrigida a rnflação. Os outros 95 por cento não tinham visto
recuperação atguma; o consumo perÍnanecia estagnado nos níveis
de 2008. Cynamon e Fazzari veem poucas perspetivas para uma
recuperação significaíva entre a maioria dos consumidores e «e-
ceiam que a desaceleraçáo da procura resukante da crescente desi-
gualdade que desd e hâ décadas tem vindo a ser protelada pelos
empréstimos dos 95 por cento da população estâ agora a fazer ü-
minuir o crescimento do consumo e assim continuará a fazê-lo nos
anos mais próximos»í.
Na Âmérica das grandes coiporaçôes tomou-se progressiva-
mente mais evidente 9ue, quando se trata de consumo interno, a
ação concentra-se no topo. Em quase todos os setores indus-
triais que abastecem diretamente os consumidores americanos,

253
desde eletrodomésticos, restarúantes, hotéis e comércio retalhis-
ta., a. gàma média luta com vendas estagnadas ou em queda,
enquanto as empresas que têm como alvo os consumidores de
topo continuam a prosperar. Âlguns diriçntes de negócio co-
meçam a reconhecer a óbvia àme ç aos produtos e serviços do
mercado massificado. Em agosto de 20'l,3,John Skipper, o pre-
sidente da ESPN, a rede desportiva de cabo e satélite com a
matca mais valiosa do mundo, disse que a estagnação dos rendi-
mentos representalra simplesmente a maot ame ça ao futuro da
sua companhia. O custo do senriço de cabo nos Estados Unidos
aumentou cerca de 300 por cento ào longo dos últimos quinze
anos, mesmo com os rendimentos a manterem-se inalteráveis.
Skipper salientou que a «ESPN náo é um produto de massas» e,
no entanto, o serviço pode acabat por ficar fota do alcance de
uma grande parcela da sua audiência8.
Também a muor rede de comércio retalhista da Amênca, a
§7almart, que se tornou um modelo pata os consumidores da
classe média e da classe trabalhadora, que se amontoam nas suas
lojas em busca de preços baixos, sentiu estes efeitos. Em feve-
reito de 2014, a empresa publicou a sua preüsão anual de ven-
das, que desapontou os investidores e levou à queda acentuada
das suas ações. As vendas nas lojas estabiüzadas (aquelas que es-
táo abenrs há pelo menos um ano) tinham caído pelo quarto tri-
mestre consecutivo. A grande companhia avisou que os cortes
no prograrma de vales p^t^ alimentos (oÍicialmente conhecido
como Programa Suplementar de Assistência Nutricional), bem
como os aumentos de impostos na folha de vencimentos, iriam
atingXr fortemente os compradores de baixos recursos. Cerca de
um quinto dos cüentes da §Talmart depende dos selos parz ah-
mentos e os indícios sugerem que muitas destas pessoas iâ che-
gatum ao ponto em que praticamente não têm rendimento dis-
ponível.
No rescaldo da Grande Recessão, as lojas da §Talmalt come-

çaÍam a assisú a uma explosão de atividade logo após a meia-noite

254
no início de cada mês o dia em que os caÍtões EBT (electronic be-
-
nfit transfer, ou traÍrsferência eletrónica
de subsídio) são recarrega-
dos pelo govemo. Perto do final do mês, os clientes de baixos re-
ctrrsos da §Talmart estão iâ htenlmente privados de alimentos e
outros bens essenciais, por isso pegam nos seus carrinhos de com-
pras e fazem fila arrtecipando o crédito do programa de vales parà
alimentos que, generosamente, chega pouco depois da meia-noitee.
A §Tatmart ambém tem sofrido com a concorrência das lojas de
<<nrdo a trm dólao»; em muitos casos, os seus clientes estão a volar-
-se paÍa estes pontos de venda não necessadamente Porque os Pre-

ços em geral sejam mais baixos, Íras aÍrtes porque estas loirt dispo-
nibilizam quantidades mais reduzidas que lhes permitem fazer
render os dólares que lhes resam enquanto lutam por conseguir
chegar aos últimos dias do mês.
Na verdade, em todo o setor privado, a tetoml tem-se lar-
gamente catactetizado pelo aumento dos ganhos das grandes
empresas em conjugação com receitas muitas vezes esmagado-
ras. Âs grandes empresas conseguirum atordoantes níveis de
rendibilidade, mas coÍrseguiram-no principalmente com o corte
dos custos do uabalho nfie por venderem mais os produtos
-
ou serriços que produziam. Isto não deve ser trma su{presai por
nm momento recordemos os gráficos 2.3. e 2.4. do capítulo 2.
Os lucros das grandes empresas como uma quota-Parte do PIB
atingiram níveis sem precedentes, mesmo quando a quota-parte
do trabalho no PIB registou uma queda recorde. Quanto a mim,
isto sugere que uma grande parte dos consumidores americanos
se esforça Por poder compfar os produtos e serviços que as em-
presas estão a produzir. O gráfico 8.1., que mostra como em geral
os ganhos das grandes empresas americanas recuperaram rapida-
mente e se têm estado a destacar das vendas a retalho no decurso
da retoml, totfla, a história aanda mais clara*. Recordemos gu€,

* É imporante observar que as vendas a realho são apenas uma pequena parcela do
consumo total, ou daquilo que é designado como despesa de consumo privado (PCE,
personal mrsrtnption experütun), que usualmente se cifra em 70 por cento do PIB

255
Gráfico 8.1. Lucros das grandes empresas americanas yefsus
vendas a retalho durante a retoma da Grande Recessão

150

Lucros das grandes

130 --* ***---

rU
U tm
!q Vendas a retalho, excluindo
110

100

90

80
2009Q1 2010Q1 201lQl 2012Q1 2013Q1 2014Q1

FoNte: Reserva Federal de St. Louis (FRED)1o.

como já vimos, a rectrpet^ção gradual dos gastos foi toalmente ge-


raÀ^ pelos 5 por cento da população com maiores rendimentos.

 saneooRrA Dos ECoNoMrsrAS

Apesar de os indícios sugerirem que umâ enorme percena-


gem dos consumidores americanos simplesmente não têm rendi-
mentos suficientes paÍa geraÍ a adequada procura pelos produtos e
serviços produzidos pela economia, nío existe acordo geral entre
os ecoÍlomistas quanto à circunstància de a desigualdade de ren-
dimentos estar a desaceletat substancialmente o crescimento
da economia. Mesmo entre os ecoÍlomistas mais progressistas da
Âmérica maioú dos quais provavelmente concordaria que a
- ^
escassez da procura é um problema primário que a economia en-
fuenta-, não há consenso sobre o impacte direto da desigualdade.

americano e inclui todos os produtos e serviços que as famflias consomem, bem co-
mo os custos de habitação seia por arendamento ou por propriedade da casa.
-
256
O laureado com o Prémio Nobel da Economia Joseph Stig-
ha foi talvez o mais eloquente proponente da ideia de que a de-
sigualdade corrói o crescimento económico, ao escrever num
editorial de primehapâg;tna do NeaYorkTimes de janeiro de
2073 que «â desigualdade está a comprimir a nossa retomo) Por-
que «a Ílossa classe média é demasiado ftaca Pat^ sustentar os
gastos de consumo que historicamente têm gerado o nosso cres-
cimento económico»>1l. Robert Solow _ que foi galardoado
com o Prémio Nobel em 1987 pelo seu trabalho sobre a impor-
tància da inovação tecnológica no crescimento a longo prazo da
economia parece estar em grande parte de acordo, Lo afrtmar
-
numa entrevista de ianeiro de 2074 que «a crescente desigualda-
de tende a esvaziar a distribuição da riqueza, e perdemos os sóü-
dos empregos da classe média e os seus rendimentos estáveis
que proporcionam um fluxo regular na procura do coÍtsumo
que mantém a indústria a funcionar e a inovao>72. Paul Ktog-
maÍr, mais um laureado com o Prémio Nobel e o mais nota-
vel colunista e bloguista do NewYorkTirnes
- contudo, discor-
-,
da, ao escrever no seu blogue que deseiava «poder subscrever
esta ideiâ), mas que os indícios náo a sustentaml3*.

* A primeira obieção de Krugman é os consumidores em vários pontos da disuibú-


ção da iqueza não estarem necessariamente nesse nível em permanência. Âlgumas
pessoas podem estar a viver um ano especialmente bom ou mau, e os seus gastos se-
rão mais em função das suas expecativas de longo pr zo do que da sua situação no
momento. (Isto, como iremos ver daqui â pouco, relaciona-se com aquilo a que se
chama <<hipótese do rendimento perÍnanente»».) Consequentemente, Krugman diz que
olhar para os dados num qualquer momento «<não nos üz naida sobre o que itâ acot-
tecen). Saliena que «r economia náo é uma peça de teato com moralidade»r, e vai ao
ponto de suçrir que podemos ter çleno emprego com base oas compras de iates,
artigos de luxo e serviços de personal trairers e chefes de cozinha célebres». Quanto a
isto sou cético (mas veja-se a secção sobre «tecnofeudalismo» mais adiante neste capí-
tulo). Como realcei previamenter euâse todas as gtandes indústrias que constituem a
moderna economia produzem produtos e serviços ptto mercado massificado. Os ia-
tes e os Ferais não têm importância suficiente para contabalatçat sustentadamente
uma ampla redução na procuÍa de todas as coisas que 99 por cento dos consumidores
compram. Em qualquer caso, a produção de iates e de Feraris será progressivamente
automatizada. E quantos penorul trainers e chefes de cozinha célebres são tealmente
precisos para I por cento da população?

257
Entre os economisas mais coÍrser\radores, a ideia de que a
desigualdade é um travão significativo pxa o crescimento é ptovâ-
vel e inteiramente qeiaü. De faúo, muitos economistas de direi-
a têm relutância sequer em aceitar o aÍgumento de que a fala de
procura tem sido o princlpal probleml encutado pela economia.
Pelo contráÍio, ao longo de todo o período da retoma, eles apona-
taÍnpaÍL a incerteza, qve rodeia questões como os níveis de dívida
pública, potenciais aumentos de impostos, aumento da regulação,
ou a aplicação do Affordable Care Act. Cortar os gastos do gover-
no e reduzir os impostos e a rcgalação, dizem, irá incentivar os in-
vestidores e a confiança Íros negócios, conduzindo ao aumento do
investimento, crescimeÍrto económico e emprego. Esta ideia
que me paÍece assombrosaíÍrente divorciada da realidade óbvia
-
tem sido repetidamente desdenhada por Krugman como uma -
crença na <,Íada da confiança»y'4.
A minha questão é que os economistas profission2is
que têm, todos eles, acesso aos mesmos dados
-
são completa-
-
mente incapazes de concordar sobre aquilo que eu cutactettzarflL
como uma questão económica fundamentaL estatâ a escassez dt
procura a ü^v^t o crescimento económico, e se assim fot, setâ a
desigualdade dos rendimentos um contributo importante púa o
problema? Suspeito que a falta de consenso nesta matéttr. nos dá
um excelente prognóstico daquilo que podemos esperar da pro-
fissão de economista à medida que a disrupção tecnológica que
tenho vindo a descrever Írestas páginas se for desenvolvendo.
Embora seja certamente possível que dois «cientistas)) possam
olhar par:l os mesmos dados e inteqpretá-los de maneira diferen-
te, no campo da economia com demasiada frequência as opi-
niões claramente cedem a linhas políticas previamente definidas,
e conhecet a. predisposição ideológica de um determinado eco-
nomista é frequentemente um melhor prognóstico sobre o que
esseindiúduo tá, dizer do que o conteúdo dos dados que estive-
rem a ser examinados. Por outras palavras, se esú à espera que os
economistas pronunciem alguma espécie de veredicto definitivo

2s8
sobre o impacte que o progresso tecnológico está a tet na econo-
mia, é melhot esperaÍ senado.
Além da divisão ideológica em economia,h^ atflda um outro
potencial problema que é a quantifrcaçío extrema do campo. Nas
décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, a economia
tornou-se extraordinariamente matemática e baseada em dados.
Embora isto decerto tenha muitos aspetos positivos, é imporante
tef em mente que não há obviamente um fluxo de dados econó-
micos vindo do futuro. Qualquer arrálise quantiativa de dados de-
pende necessária e completamente de informação recolhida no
passado e, em a§uns casos, essa informação pode até ter sido re-
colhida hâ décadas. Os economistas usaÍâm toda essa informação
do passado paÍ^ constnrir elaborados modelos matemáticos, mas
a origem da maioria deles remonta à economia do século m. As
limitações dos modelos dos economistas tomaram-se evidentes
com o quase total fracasso da profissão em aÍrtecipar a crise
financeira global de 2008. Num artigo de 2009 intitulado <GIow
Did Economists Get It So Iü7rongà>, Paul I(nrgman escreve que
«este fracasso de previsão foi o menor dos problemas de campo.
Mais importante foi a cegueira da profissão perante aprcprtapos-
sibilidade de ocorrência de fracassos caastróficos Íruma economia
de mercado»»ls.
Penso que há boas tazões pàtr. nos sentirmos apreensivos
quaÍrto a um fracasso semelhante dos modelos matemáticos dos
economistas à medida que o progresso exponencial da tecnolo-
g1a da informaçáo for progressivamente perhrrbando a economia.
Para agra:iaÍ o problema, muitos destes modelos utilizam pressu-
postos simplisas e em algtms casos apaÍentemente absurdos
- -
sobre a Íonna como os consumidores, trabalhadores e empresas se
comportam e interaçm.Johr Maynard Kelmes tê-lo-á dito da me-
lhor maneta, ao escrever há quase oitenta anos en Teoria Geral do
o liwo que indiscutivelmente fi:ndou a
Emprego, do Jan e da Moeda,
economia como um campo modemo de estudo: «IJma demasiado

259
excessiva proporção das recentes economias "matemáticas" não
passa de invenções, tão imprecisas como os modelos iniciais em
que se baseiam, os quais permitem que o autor percâ a noção
das complexidades e interdependências do mundo real num \a-
birinto de símbolos pretensiosos e inúteis.»16

CouprExroaoE, EFEIToS DE REToRNo, coMpoRTAMENTo Do


coNSUMTDoR E <<ONoE ESTÁ ESSÂ ELEVADA pnoournnoaoeà»

A economta é um sistema extrlordinariamente complexo,


temperado com uma miríade de interdependências e ciclos de
retorno. Mude-se trma variâvel e uma multiplicidade de fatores
pode pÍovocar um efeito em cascata ao longo do sistema, pàtte
dos quais podem contribuir parz. -itigrr a mudança inicial.
De facto, esta propensáo para a economia se automoderar
por meio dos efeitos de retomo é provavelmente uma tazão tm-
portante PaÍ2 que continue sujeito a debate o papel que o pfo-
gresso tecnológico tem representado na gerzrção de desigualda-
de. Os economistas céticos acerca do impacte da tecnologa e da
automatizaçio salientam frequentemente que a ascensão dos ro-
bôs não é óbvia nos dados sobre produtividade, especialmente
no curto pràzo. Por exemplo, no último trimestre de 2013, a
produtividade nos Estados Unidos caiu p^tà uma estimativa
anaahzada de 1,8 por cento, comparativamente com uns muito
mais impressionantes 3,5 por cento no terceiro trimestrelT. Re-
cordemos que a produtividade é medida dividindo o produto da
ecoÍlomia pelo número de horas trabalhadas. Portanto, se as
máquinas e o software estivessem na verdade a substituir a mão
de obra humana de um golpe, esperar-se-ia que o número de
horas de trabalho tivesse caído acentuadamente e, em contra-
pafrda, que a produtividade tivesse subido.
-
O problema com este pressuposto é que na ecoÍlomia rcal
as coisas não são tão simples. A produtividade não mede quanto
uma atividad e poderia produzir por hora; mede o que de facto

260
uma atividade produz. Por outras palavras, a produtividade é di-
retamente influenciada pela proctrra. A produçáo, afinal, é o nu-
merador da fórmula da produtividade. Isto é especialmente im-
portante quando consideramos que a maior Parte da economia
nos países desenvolvidos é agora maioritariamente constitúda
por serviços. Enquanto uma empresa fabril, confrontada com
pouca procura, podia possivelmente oPtar por continuar t fabn-
car produtos e empilhá-los no inventário ou nos canais de distri-
buição, umâ empresa de serviços não pode fazet isto. No setor
dos serviços, a produção resPonde imediatamente à procura e
qualquer atividade que apresente fraco crescimento da Procura
muito provavelmente itâ também apresentar uma forte queda
no crescimento de produtividad e, a não ser que imediatamente
rcd'aza suficientemente os seus quadros de pessoal ou o número
de horas de trabalho para manter os números em sentido.
Imagine que é proprietário de um PequeÍlo negócio que
fornece tipo de senriço analítico a grandes emPresas. Tem
"lS-
dez empregados que estão completamente ocuPados. Subita-
mente, trma nova e poderosa aplicação de software aParece e Per-
mite que apenas oito trabalhadores Possam fazer o uabalho que
anteriormente era executado por dez. Decide comPrar o novo
software e elimina dois postos de trabalho. Â revolução robótica
ai estâr! A produtividade está em condições de aumentâr. Mas,
espere. Agora o seu cliente mais importante pfevê uma queda
na Procura do seu próprio produto ou senriço. O contrato que
previsivelmente iria assinaf esta semana nunca se concf ettza.
O futuro a curto Praz;o Parece sombrio. Acabou de despedir co-
laboradores, portanto não quer desmo tahzat o seu quadro de
pessoal cortando imediatamente ainda mais Postos de trabalho.
Antes que dê por isso, os festantes trabalhadores estarão gastzÍ
^
uma grande parte do seu temPo a üsualizar vídeos do YouTube
à sua custa. A produtividade cu a pique!
De facto, foi isto que normalmente aconteceu durante a
maior parte das passadas crises económicas nos Estados Unidos.

261
Âs recessões foram normalmeÍrte acompanhadas por quedas na
produtividade, porque a produção caiu mais do que as horas tra-
balhadas. Contudo, durante a Grande Recessão de 2007-2009,
sucedeu o oposto: na rcahdade a produtividade cresceu. Â pro-
dução caiu substancialmente, mas as horas trabalhadas caíram
ainda mais à medida que as empresas reduziam de forma bastan-
te agressiva o seu pessoal, aumentando a c^rg sobre os tra-
balhadores que restavam. Os ttabalhadores que mantiveram os
seus emPregos (que ceftamente feceavam ainda, mais cortes no
fut"ro) provavelmente ttabilhanm mais aftncadamente e redu-
ztan toda e qualquer parcela de tempo gasta em atividades não
ligadas ao seu uabalho; o resultado foi um aumento da produti-
vidade.
Na economia real, evidentemente, cenários como este veri-
ficam-se em numerosas otganizações de todas as dimensões. Al-
gures, uma empresa pode estar a incorp otut nova tecnologia e
aumenta a produtividade. Noutro local, outra empresa pode es-
taÍ a, reduzir a produção em resposta à queda na procura. Ao so-
marmos a produtividade das duas, obtemos como resultado ape-
Íras um valor médio da produção total. A questáo ê que os
números económicos de ctrto ptazo como a produtividade po-
dem ser variáveis e algo caóticos. Contudo, a longo ptazo, a ten-
dência irá ser muito mais clata. Na verdade, vimos indícios desta
questão no capítulo 2; recordemos que a produtividade ultrapas-
sou significativamente os salários desde o início dos anos 70.
O impacte de uma débil procura de consumo na produtivi-
dade é apenas outro exemplo do tipo de efeito de retorno que
ocoffe na economia. Há muitos outfos e podem funcionar em
ambas as direções. Por exemplo, runa procura de consumo me-
nos do que robusta pode também rctardx o desenvolvimento e
a adoçáo de nova tecnologia. Quando os empresários tomam
decisões de investimento, avaham os fatores tanto no ambiente
económico corrente como Ílum futuro antecipado. Quando a
produção é fnca ou os lucros caem, é provável que o investi-
meÍrto em pesquisa e desenvolvimento ou em novâs despesas de

262
capital também cúa. A consequência é que o Progresso tecnoló-
gico nos anos subsequentes pode ser mais lento do que se previa.
Outro exemplo envolve a rrJraçáo entre as tecnologias redu-
toras de mão de obra e os salários de trabalhadores relativamen-
te pouco qualificados. Se o progresso da tecnologia (ou qualquer
outro fator) provocar a estagnaçío ou até a queda dos salários,
então numa perspetiva de gestão a mão de obra tornar-se-á mais
do que as máquinas pelo menos durante algum tem-
^üattvà -
po. Consideremos a indústria do pronto-a-comer. No capítulo 1,
especulei que este setor poderia em breve sofrer disnrpções con-
forme a tecnologa robótica fosse introduzida. Mas isto sugere
uma questão básica: Por que razáo a indústria nío incolporou iá
mais à.utomaazaçáo? Afinal, preParar hamburgueres e tacos difi-
cilmente parece estar nâ vanguatda da manufatuta de precisão.
A resposta, pelo menos parcialmente, é que a tecnologia iâ pro'
vocou de facto um impacte extraotdinário. Embora as máquinas
não tenh am iâ substituído completamente os trabalhadores do
pfonto-a-comer em latga escala, a tecnolosa desqualificou os
postos de trabalho e tofnou os Aabalhadores largamente inter-
mutáveis. Os Uabalhadofes do pronto-a-comer estão integrados
num processo de linha de montagem mecatizada para o qual
pouca prepançáo é precisa*. É pot isso que a indústria tem a caP^-
cidade de tolera^r elevadas tâ<as de roatividade de pessoal e taba-
lhadores com o nível mínimo de qualificaçáo. O efeito foi manter

* Este «efeito de pronto-a-comeD) pode surgir em força para trabalhadores qualifica-


dos em muitos outros setores. Muito antes de os rcbôs estârem aptos Para substituit
compleamente estes uabalhadores, a tecnologia pode desqualificar os Postos de ua-
balho e ftzer descer os salários. Um exemplo clássico de desqualificação envolve os
motoristas de táxis de Londres. Prra exercer esa ptofissão eta necessário memorizar
uma extraordinána quantidade de informação sobre o plano de ruas de I-ondtes, que
era conhecida como «Tbe Kto»,hdga» (o conhecimentQ e era exigida aos condutoÍes de
ráxis desde 1865. A neurocientista Bleanor Maguite, da University Colleç de Lon-
dres, descobriu que toda essa memorização resulava em dteaçôes no cérebro dos
condutores: os ta:risas de Londres, em média, desenvolüam um centro de memória
maior (hipocampo) do que as pessoas com outras ocupaçôes. O advento da navega-
ção com GPS baseada em satélites veio evidentemente reduzir o valor de todo este

263
estes trabalhos firmemente ancorados na categoria dos salários
mínimos. E nos Estados Unidos, depois de o ajustar com a in-
flaçáo, o salário mínimo caiu na realidade mais de 12 por cento
desde finais dos anos 6018.
No seu livro de 2001 O Inpério do Fast Food, Eric Schlosser
refere como já nos anos 90 o McDonald's experimentava tecno-
logra avançtda redutora de mão de obra. Nas instalações de tes-
tes em Colorado Springs, ««máquinas robóticas de bebidas sele-
cionavam copos de papel, enchiam-Íros com gelo e depois com
gasosD), enquanto a fnaxa de batatas estava completamente au-
tomaaztda e um (€vançado software de computador basicamente
comandà:rla L cozinha»»le. Estas inovações não terem acabado
por ser implantadas em todos os restaurantes McDonald's, por
toda pafre, pode muito bem ter que ver com os salários se te-
^
rem mantido muito baixos. Contudo, náo se pode esperar que
esta situaçáo persista parl sempre. Possivelmente, a tecnologta
irá" avançú ao ponto em que os baixos salário s iâ náo com-
^té
pensarão os beneficios de mais automatizaçáo.Introduzir mais
máquinas pode também ü^zet benefícios importântes além da
redução dos custos de mão de obra, como a melho na da quati-
dade ou consistência, ou a perceção do consumidor de que a
preparação automâaca é mais higiénica. De igual modo, pode
haver sinergias entre a produção robótica e outras tecnologias
emergentes. Por exemplo, hoje é fâctlim4ginar uma aplicação de
telemóvel que permia aos clientes definir umâ refeição complea-
mente personalizada, paga-la antecipadamente e depois espeÍar

conhecimento. Os motoristas que possuem o Ktowledge e que conduzem os famo-


-
sos !áxis Pretos Qâ não pretos, mas agora cobertos de publicidade colorida) ainda
predominam em Londres, mas fundamentalmente devido à regulamentação. -Os con-
dutores sem o krowbdge têm de ser pré-reservados; não estão autorizados paÍaÍ n
rua quando um passageiro os chama. Claro que novos senriços como os da ^Uber, que
permitem reseÍvar um táxi com o poderão em breve tomaÍ obsoleto o ges-
to de mandx púaÍ um táxi. ()s motorisas de táxis poderão actbar por ser complea-
mente substituídos por câffos automatizados, mas, muito antes de isso suceder, a tec-
nologia poderá desqualificar os seus empregos e fazet baixar os salários. Tilvez a,
regulamentação salve os taxistas de Londres deste destino, mas os uabalhadores de
outfos setofes não irâo tef anta sorte.

2il
que esteia ptonta Par:a ser recolhida no momento exato: isto se-
ria uma fantasia nos anos 90. Como consequência de tudo isto é
pouco provável que a tecnologia redutora de mão de obra ntrma
indústria como a do Pronto-a-comer avance de forma coerente e
previsível. Em vez disso, pode PefÍnanecer relativamente estável
durante longos períodos e depois saltar rapidameÍrte em frente
quando se alcançar um ponto que leve à reavaliação do dilema
trabalhador-máquina.
Uma outra consideração, ainda, envolve o comPortamento
dos consumidores quando são confrontados com o desemprego
ou rendimentos reduzidos. Uma altenção no rendimento que os
consumidores espefem ser de longo Ptazo ou PerÍnanente terá
um impucte muito maior no seu comportâmento de consumo
do que uma altetaçáo de curto Pt^zo. Os economistas têm uma
designação admirâ,"vel pute. esta ideia «a hipótese do rendi-
mento permanente»
-
e foi formulada pelo laureado com o
-
Prémio Nobel Milton Friedman. Contudo, na sua maiot Patte,
resume-se a simples bom senso. Se ganhar 1000 dólares na loa-
ria, podeú, gastat uma Parte e PouPar o resto, mas não é ptovâ-
vel que altere substancialmente o seu comportamento de consu-
mo. Afinal, é apenas trma receita extra que ocorre uma vez. Por
outro lado, se tiver um aumento de 1000 dólares por mês,iárPo-
deúr comprar um caÍro Ílovo, iantx fota mais vezes, ou até mu-
dar-se ptr^ uma casa mais c ra.
Historicamente, o desemprego tem sido visto como um fe-
nómeno de curto prarzo. Se perder o seu emprego mas se senú
confiante pat^ encontrar uma novâ posição com um vencimen-
to comparâvel dentro de pouco tempo, poderá oPtaÍ Por recor-
rer às suas poupanças ou usar o c^ttáo de crédito púa manter os
gastos ao mesmo nível. Durante o período pós-guetta, era co-
mum as empresas despedirem trabalhadores por algumas sema-
nas ou meses e depois voltarem a conúatÁ-los assim que a pro-
dução melhorasse. A situação é agora obviamente bastante

265
diferente. No rescaldo da crise financeira de 2008, taxa de de-
^
semprego de longa duração subiu púe- níveis sem precedentes e
relativamente aos padrões históricos continua a estar muito alta.
Mesmo os trabalhadores experientes que conseguem encontraf
um novo emprego têm frequentemente de aceitx uma posição
mais mal paga, Estas realidades não se esgotam nos consumido-
res. Por conseguinte, parece tazoâvel especular que a perceção
do que significa estar desempregado possa estar gradualmente a
mudar. Conforme mais pessoas começam a encàràt o desempre-
go mais como uma situação de longo ptarzo ou em alguns ca-
sos até perÍnanente
-
tal parece ampliar o impacte da perda de
-,
um empfego nos seus comportamentos de gasto. Por outras pa-
lavras, o registo histórico náo é necessariâmente um bom Íatot
de previsão do futuro: à medidâ que as impücações do progres-
so tecnológrco se tomam evidentes para os consumidores, estes
podem optar por cortar os gastos de forma mais agressiva do
que tem acontecido no passado.
A complexidade que se verifica no mundo da economia
tea) é, de muitas formas, algo analoga à do sistema climatérico,
que é também caracterizado por uma rede quase impenetrâvel
de interdependências e efeitos de retorno. Os cientistas do clima
üzem-nos que, enquanto o volume de dióxido de carboÍlo au-
mentar na atmosfera, não devemos esperar um aumento consis-
tente e estável nas tempefaturas. Pelo contrário, as tempefatufas
médias fuáo aa,nçar caoticamente numa tendência ascendente
pontuada por p^tamúes e, muito possivelmente, anos ou perío-
dos ainda maiores que serão relativamente frios. Também pode-
mos contar com um atlmento no número de tempestades e ou-
tros fenómenos climatéricos extremos. Um fenómeno algo
similar pode desenvolver-se na economia conforme os rendi-
mentos e a dqueza se forem concentrando ainda mais e uma
maior parcela dos consumidores se confrontar com a escassez do
poder de compra. Parâmeuos como as tâcas de produtividade ou
de desemprego rráo iÃo paulatinamente e a probabiüdade
^:r'arrçaÍ
266
de crises financeiras poderá também aumentar. Os climatologis-
tas também estão preocuPados quanto aos Pontos críticos. Por
exemplo, uÍrr dos riscos é o sobreaquecimento atmosférico po-
der derreter a tundra âttica,libertando enormes massas de car-
bono fixado e provocando a aceletação do aquecimento global.
De modo algo semelhante, é possível que em momento
"lgu-
no futuro as rápidas inovações tecnológicas Possam inverter as
expectativas dos consumidores sobre a probabüdade e a dura-
ção do desemprego, levando -^s cortar drasticamente os seus
^
gastos. Se tal ocorrer, é íâc1l ver como isso poderá precipitar
uma espiral descendente na economia que iria ter impacte até
nos trabalhadores cujos empregos não esteia diretamente suiei-
tos à disrupção tecnológica.

O cnBscrMENTo ECoNóMtco ssnÁ susrENTÁvEL ENQUANTo


A DESIGUÂLDADE SE ACENTUAR?

Tal como vimos, o gasto total de consumo nos Estados


Unidos até agota tem continuado a crescer mesmo apesar de es-
tat cada vez mais concentrado, com os 5 por cento de famflias
mais ricas responsáveis por quase 40 por cento do consumo to-
tal. A verdadeira questão é se esta tendência setá, sustentável nos
próximos anos e décadas, enquanto a tecnologia da informaçáo
mantiver a sua implacável aceleraçáo.
Embora os 5 por cento mais ricos tenham rendimentos re-
lativamente altos, a ma.orJra destas pessoas está muito dependen-
te dos seus empregos. Mesmo entre estas famílias de alto nível,
o rendimento está concentrado num grau absolutamente avassa-
lador; o número de famflias de facto abastadas as que podem
-
sobreviver e continuut a gastat inteiramente com base da sua ri-
qvez^ acumulada é bastante mais reduzido. Durante o pri-
-
mefuo ano de fetoma após a Grande Recessão, 95 por cento do au-
mento do rendimento foi tão-só pzr:z- 1 por cento dos mais ricos2o.

267
Os 5 por cento do topo da pirâmide são em grande parte
constituídos por profissionais e trabalhadores do conhecimento
com pelo menos um curso universitário. Contudo, como vimos
no capítulo 4, muitos destes empregos qualificados estão franca-
mente namita conforme a tecnologia . O sofiware de auto-
^vaflç
marazaçáo pode eliminar completamente alguns postos de traba-
lho. Noutros casos, os postos de trabalho podem acabar por ser
desqualificados, pelo que os salários serão forçosamente reduzi-
dos. A deslocahzação e a transição para abordagens de gestão
com base em megadados, que frequentemente exigem menos
analistas e quadros médios, surgem como outras potenciais
ameaças par;^ muitos destes trabalhadores. Além de um impacte
direto nas famflias que iâ estáo no nível mais alto, estas mesmas
tendências também tornarão mais difícil aos uabalhadores mais
jovens a progressão p^t^ posições com rendimentos e níveis de
gastos comparáveis.
O resultado é que os tais 5 por cento estão destinados a pa-
recer-se cada vez mais com um microcosmo de todo o mercado
de trabalho: estão em risco de se esvaziat Enquanto a tecnolo-
gll àvurrÇL, o número de famílias americanas com rendimeÍrtos
disponíveis suficientes poderá continuar em contração. O risco
aumenta ainda mais com o facto de mútas destas famflias de al-
to nível serem provavelmente mais frágeis financeiramente do
que os seus rendimentos poderiam sugerir. Estes consumidores
tendem a concentrar-se em âteas urbanas de alto custo e, em
muitos casos, não se sentem provâvelmente muito abastadas.
Grande número delas ascendeu aos 5 por cento por intermédio
de acasalamento seletivo, juntando-se com um outro(a) ücencia-
do(a) de elevados rendimentos. Contudo, os custos com habita-
ção e educação são frequentemente tão altos P^tL estas famílias
que a perda de ambos os empregos põe o agregado em risco
substancial. Por outras palavras, Ílum lar cuio rendimento de-
pende de dois vencimentos, a probabilidade de o desemprego

268
súbito conduzir a cortes substanciais nos gastos é efetivamente a
dobrar.
À medida que o nível superior começar a sofrer a pressão
crescente por parte da tecnologia,há" poucas razões p^t^ prever
que as perspetivas para os 95 Por cento de famílias na base da
pirâmide melhorem significativamente. A tecnologia robótica e
de autossenriço continuará a Íazet incursões no setor dos servi-
ços, mantendo os salários baixos e deixando os trabalhadores
pouco qualificados com menos opções. Os veículos autónomos
ou as impressoras 3D de constnrção à escala real podetío acabar
por destnrir milhões de postos de tabalho. Muitos destes aaba-
lhadores poderão ser forçados à mobilidade descendente; alguns
provavelmente optarão por deixar definitivamente a força de
trabalho. H^ um risco de, com o tempo, mais famílias rcabarem
por viver de rendimentos muito próximos do nível da subsistên-
cia. Poderemos passar ver ainda mais compradores nas filas da
^
meia-noite para o carregâmento dos seus cartões EBT pata Po-
derem depois alimentar a famfrta.
Na ausência de aumento de rendimentos, o único mecanis-
mo que permiúá aos 95 por cento da base gastar mais será con-
uaírem mais üvida. Tal como Cynamon e Fazzm descobrit^m,
foi o recurso ao crédito que permitiu que os consumidores ame-
ricanos continuassem getàr o crescimento económico ao longo
^
das décadas que conduziram à crise financeira de 2008. No en-
tanto, no rescaldo desta crise, as folhas de balanço das famflias
sáo ftacas e os critérios paru a concessão de crédito tomaram-se
substancialmente mais apertados, pelo que grande número de
americanos já não pode financiar os gastos de consumo. Mesmo
que o crédito volte a fluir púa, estâs famflias, isso será necessa-
riamente uma solução temporária. O aumento da dÍvida é insus-
tentável sem atrmento do rendimento, e haveria o perigo óbüo
de os créditos mal pandos precipitarem uma nova crise. Na úni-
ca âtea em que os americanos de recursos mais reduzidos ainda

269
têm acesso ao crédito _ empféstimos a estudantes _, o peso
da dívida já assumiu proporções extraordinânas e os consequen-
tes pagamentos irão absorver os rendimentos disponíveis dos li-
cenciados universitários (sem falat dos que não conseguem aca-
bar os seus cursos) durante décadas.
Embora a argumentaçào que aqui apresento seja teórica,hâ
indícios estatísticos que sustentam a afrrmação de que a desi-
gualdade pode ser nocivà paru o crescimento económico. Num
relatório de abril de 2011, os economistas Andrew G. Berg e
Jonaúan D. Ostry do FMI estudaram várias economias desen-
volvidas e emergentes e concluíram que a desigualdade dos reÍr-
dimentos é um fator vital a afetx a sustentabilidade do cresci-
mento económico2r. Berg e Ostry salientam que as economias
fafamente assistem a cfescimento económico estável e continua-
do ao longo de décadas. Em vez disso, Çeríodos de crescimen-
to rápido são pontuados por colapsos e por vezes por estagna-
ção os montes, vales e planaltos do crescimento». Aquilo que
-
distingue as economias de sucesso é a duraçáo dos ciclos de
crescimento. Os economistas descobriram que quanto múot é a
desigualdade, mais curtos são os períodos de crescimento eco-
nómico. De facto, uma diminúção de 10 pontos percentuais na
desigualdade esteve associada com ciclos de crescimento que ti-
veram uma duração 50 por cento mais longa. Ao escreverem no
blogue do FMI, os economistas avisaram que a extrema desi-
gualdade de rendimentos nos Estados Unidos tem claras irrrpü-
cações nas perspetivas de crescimento do país: <«,Alguns ignoram
a desigualdade e coocentram-se pelo contrário no crescimento
total defendendo, justamente, que uma maté enchent e faz
-
subir todos os barcos.» Porém, «quando alguns iates se transfor-
mam em transatlânticos enquanto os restantes perÍnanecem mo-
desas canoas, está gravemente erudo>>zz.
"lgo

270
Rtscos DE LoNGo pRAzo: coNSUMTDoRES coMpRrMrDos,
oerraçÃo, cRISES BcoNól,ucAS, E... rurvzz l.rÉ.
TECNOFEUDALISMO

Depois de pubücat o meu primeiro livro sobre o tema da


automatizaçáo em 2009, vários leitores escreveram-me obser-
vando que eu tinha negligenciado um aspeto importante: os ro-
bôs podem de facto fazer baixar os salários ou provocar desem-
prego, mâs uma produção mais eficiente também tornarâ tudo
muito mais batato, Por isso, mesmo que o nosso rendimento
baixe, ainda assim continuaremos a consumir, uma vez que os
preços das coisas que queremos comprar serão mais baixos. Isto
parece fazet sentido, mas há algumas advertências importantes.
O aspeto mais óbvio é que muitas pessoas podem frcar
completamente desempregadas e ter efetivamente rendimento
zeto. Nessa situação, os preços baixos não resolvem os seus
problemas. Adicionalmente, alguns dos mais importantes com-
ponentes do orçamento do agregado farnrliar médio são relativa-
mente imunes ao impacte da tecnologia, pelo menos a curto
e médio ptazo. Os custos de terreno, habitaçã,o, seguro, por
exemplo, estão ligados a valores de ativos gerais, que por sua
vez dependem do nível de vida getal. É por esta razão que paí-
ses em desenvolvimento como a Tailândia náo permitem que es-
trangeiros comprem terenos; permiti-lo poderia resultar nnma
licitação em alta de preços a um ponto em que a habitação se
totíLàfla economicamente inacessível pata os cidadãos do país.
Como vimos no capítulo 6, os custos dos cuidados de saúde
também representam provavelmente um desafio p^t^ os robôs
nos tempos mais próximos. É provável que a autom atizaçáo
tenha o maior impacte imediato nos custos de produção e em
alguns senriços disponíveis, especialmente informaçáo e entrete-
nimento. Todavia, estas coisas constituem uma parcela relativa-
mente pequena na maioria dos orçamentos familiares. Para os
itens importantes habitaçio, alimentaçáo, energia, cuidados
-
271
de saúde, transportes, seguros a possibilidade de assisú a râ-
pidas reduções
-
de custo a curto muito menos provável.
Ptarzo é
Há um perigo real de as famflias acabarem por ser comprimidas
entre os rendimentos estagnados (ou em queda) e as despesas
prirrctpais cuios custos continuam a subir.
Mesmo que a tecnologia venha a rcdvzir preços em toda a
linha, há um problema crítico neste cenário. A rota histórica pa-
tL L ptosperidade tem sido geralmente os salários aumentarem
mais rapidamente do que os preços. Se alguém do ano 1900 pu-
desse viaiar no tempo e visitar um superÍnercado contemporâ-
neo, ftcana certamente chocado com os preços altos. No entan-
to, hoje em dia gastamos uma porção significativamente mais
pequena dos nossos rendimentos em alimentação do que em
1900. A alimentação ficou mais banta em termos reais mesmo
tendo os preços nominais subido acentuadamente. Isto aconte-
ceu porque os rendimeÍrtos subiram de forma ainda mais ex-
lr;aordinâna.
Agora imaginemos a situaçào oposta: os rendimentos estão
a cait, mas os preços estão a cak mais rapidamente. Em teoria,
isto também quereria dizer que o nosso poder de compra estava
a aumentar; poderíamos Lgot^ comprar mais coisas. Porém, na
realidade a deflação é um cenário económico múto feio. O pti-
meiro problema é que um ciclo deflacionista é bastante dificil de
interromper. Se souber que os preços vão estar mais baratos no
futuro, porquê comprar agota? Os consumidores retraem-se, es-
perando por preços ainda mais baixos, e em contrapartida isso
leva ainda a mais cortes nos preços bem como à redução na pro-
dução de bens e senriços. Um outro problema é que, na ptânca,
é frequentemente difícil púa os patrões baixarem de Íacto os sa-
lários dos empregados. Em vez disso, é mais provável que cor-
tem o número de empregados, por isso a deflaçáo está tipica-
mente associada com o desemprego em alta e, mais uma yez,
isso conduzirá a muitos consumidores sem qualquer rendimento.

272
O terceito maior problema é que a deílaçáo toma impossí-
vel a gestão da dívida. Numa economia deflacionârta, o seu ren-
dimento pode estar a calrr (partindo do princípio de que é sufi-
cientemente afortunado para ter rendimento), o valor da sua
clsr- estatâ provavelmente a cait e o mercado bolsista estatâ
também em queda. O seu crédito hipotecâno, o automóvel e o
empréstimo de estudante, contudo, não vão baixar. As dívidas
são fixadas em terrnos nominais, por isso, conforme o rendi-
mento cai, os titulares de empréstimos vão sendo comprimidos
e passam à tet ainda menos rendimento disponível Par^ gastar.
Os governos também sentem problemâs porque a receita fiscal
cu a pique. Se a situação se prolof,ga, os créditos mal parados
irão provavelmente disp e pode surgir uma crise bancâria.
^tut
A deflaçáo ê realmente algo que não devemos deseiar. A história
sqgere que o ideal é um taieto mediamente inflacionista em que
os rendimentos sobem mais rapidamente do que os Preços no
coÍrsumidor, tornando as coisas que queremos comprar mais
acessíveis ao longo do tempo.
Qualquer um destes dois cenários famflias comprimidas
-
entre a estagnaçáo de rendimeÍrtos e a subida de custos, ou in-
discutível deflação tem o potencial de desencadear uma grave
-
recessão enquanto os consumidores vão cortando nos seus gas-
tos. Como previamente sugeri, há também o risco de a disrup-
ção tecnológica ern curso poder mudar fundamentalmente o
comportamento do consumidor à medida que mais e mais Pes-
soas começarem muito racionalmente a, tece t a PersPetiva de
desemprego de longa duração ou até de uma reforma antecipa-
da. Num a tal circunst ància, as políticas fiscais de curto Pta;zo
que os governos normalmente adotam puta, combater uma crise
económica, tais como o aumento da despesa do Estado ou aba-
timentos de impostos para os conuibuintes, podem não ser es-
pecialmente eficazes. Estas políticas têm como intenção inietar
pfocufa imediata na economnpara assim encotqat o crescimento
e na esperança de iniciar uma retoma que condvza ao aumento

2t3
do emprego. No entanto, se as novas tecnologias de automati-
zaçío permitirem que as empresas respondam a este aumento
de procura sem contratarem muitos trabalhadores, então o im-
pacte no desemprego pode muito bem ser dececionante.
A açáo monetária por parte dos bancos centrais sofreria de um
problema semelhante: seria preciso imprimir mais dinheiro,
mas na ausência de contratação de pessod não haveria nenhum
mecanismo para conseguir maior poder de comptapura os con-
sumidores*. Em suma, as políticas económicas convencionais
poderiam ter muito pouco efeito direto sobre os receios dos
consumidores sobre a continuidade ou não dos seus rendimen-
tos a longo pt^zo.
Há também o risco de uma nova crise financeira ebancâna
à medida que as famílias deixarem progressivamente de ser
capuzes de üquid^r suas dÍvidas. Mesmo uma percentagem re-
^s
lativamente pequena de créditos mal parudos poderia exercer

* Quando um banco central como a Reserva Federal ««imprime dinheiro», normalmen-


te comPra títulos do govemo. Quando fecha a transação, deposia dinheiro na conta
baacâtra de quem vendeu os títulos. Isto é uma emissão de dinheiro novo: simples-
mente apaÍece vindo de lado nenhum. Quando este dinheiro entra no sistema bancá-
rio, a ideia é que os bancos podem então empresúJo. Bste processo é conhecido co-
mo «reserva fracionú». Os bancos têm de manter umâ pequena percentâgem do novo
dinheiro disponível, mas estão autorizados a empresar a sua maior parte. Suposa-
mente, isto fará com que os bancos emprestem o novo dinheiro a empresas que po-
dem depois expandir-se e contratar mais emprego. Ou os bancos podem emprestar
aos consumidoÍes que depois gastam o dinheiro, çrando assim nova procura. Em
ambos os casos, deverão ser gerados postos de trabalho e o dinheiro (poder de com-
pra) fluirá Para os consumidores. Finalmente, o dinheito pode mais uma vez vir a ser
deposiado num banco e depois a sua maior parte ser de novo emprestada, e assim
sucessivamente. Deste modo, o dinheiro recém-criado propaga-se através da econo-
miq com um efeito muhiplicador e geralmente frutuoso. Contudo, se a tecnologia de
automatização acabr por permitir às empresas expandirem-se ou responderem à no-
va Procnra sem contraaçâo significativa de mão de obra, ou se a procura fot tão Íta-
ca que âs empresas não tenham interesse em recorrer ao crédito, então, do dinheiro
recentemente emitido, será muito pouco aquele que chega ao bolso dos consumidores
e assim não será gasto e não se multipücará conforme se pretendia. Ficarâ simples-
mente a patinhar no sistema bancário. Isto é mais ou menos o que sucedeu durante a
crise de 2008 não devido à automaúação do trabalho, mas porque os bancos não
-
conseguiam enconúâr clientes solventes, e/ou ninguém queria iâ recoter ao crédito.
Todos quedam apenas manter o seu dinheiro. Os economisas chamam a esta situa-
ção uma <<armadilha de liquidez»

274
enorme pressão sobre o sistemabancâno. Â crise financeira de
2008 precipitou-se quando os devedores que tinham recorrido a
empréstimos sabprine começaram a incumprir em massa em
2007. Embora o número de empréstimos subprine tivesse au-
mentado durante o período de 2000 a2007, no seu ponto mais
alto constituíam apenas cetcà de 13,5 por cento dos novos cré-
ditos hipotecários emitidos nos Estados Unidos23. O impacte
destes incumprimentos foi, evidentemente, muito aumentado
pelo rectrso dos bancos â complexos derivados financeiros. Es-
te risco ainda não foi eliminado. Um relatório de 2014 de uma
coligação de reguladores bancários dos Estados Unidos e de no-
ve outros países desenvolvidos avisava que «cinco anos depois
da crise as grandes empresas tinham feito apenâs alguns pro-
gresso$) na abordagem aos riscos associados com os derivados e
que «o progresso foi irregular e perÍnânece, no seu todo, insatis-
fatôio>?4. Ou seja, o perigo de um aumento , ainda que localiza-
do, do incumprimento poder desencadear outra crise global
continua a ser muito teal.
O mais assustador de todos os cenários de longo prazo po-
de ser o sistema económico global conseguit adaptarse à nova
realidade. Num processo perverso de destruição criativa, as in-
dústrias dos mercados massificados que agora impulsionam a
economia seriam substitúdas por novas indústrias produtoras
de produtos e serviços de elevado valor dfuigidos exclusivamente
para umâ eüte muitíssimo abastada. A maioria da humanidade
ver-se-ia de facto privada de direitos. A mobilidade económica
desapareceria. A plutocncia refugiar-se-ia em comunidades fe-
chadas ou em cidades de elite, talvez guardadas por robôs miüta-
res e drones autónomos. Por outras palavras, assistiríamos a um
Íegresso a úgo semelhante ao sistema feudal predominante na
Idade Média. Porém, haveria uma diferença muito importante:
os servos medievais erâm essenciais para o sistem^ vmà vez que
providenciavam o trabalho agrícola. Num mundo futurista go-
vernado pelo feudaüsmo automattzado, os camponeses seriam
na sua maioria supérfluos.

275
O filme de 2073 E$siun, no qual os plutocratas migram
p^ta um mundo artificial semelhante ao Éden na órbita daTer-
ra, Íaz um excelente trabalho ao proporcionar esta üsão distópi-
ca do fururo par:l a vtda. Até mesmo alguns economistas come-
ç^re;m iâ a preocupar-se com este cenário. Noah Smith, um
popular bloguista de economia, avisou numa publicação de 2014
sobre um possível futuro em que («uma abundante e andrajosa
camada social miserável e sem consciência política se encontrava
à beira da fome» do lado de fora dos portões que protegem a eü-
te, e que ((ao contrário das úanias de EstaliÍre e de Mao, a ttrania
com a força de robôs será resistente às mudanças da opinião po-
pular. A ralé pode pensar o que quiser, mas os Lordes Robôs te-
rão as armas. Pata sempre»fs. Mesmo vindo de um praticante da
ciência lúgubre, é bastânte sombrio*.

TpcNorocrA E MÃo DE oBRA GRTsALHA

Todos os países industrializados têm uma população pro-


gressivamente envelhecida, o que conduziu a muitas previsões
de uma iminente escassez de trabalhadores à medida que os bafut
boomers atingissem a idade da reforma e saíssem do mercado de
trabalho. Um relatório de 2010 da autoria de Barry Blustone e
Mark Melnik da Universidade Northeastem prevê gu€, em 2018,
poderá haver nos Estados Unidos algo como 5 milhões de em-
pregos por preencher em resultado direto da mão de obra gnsa-
lha e que ó0 a 40 por cento de todos os postos de trabalho adi-
cionais projetados no setor social»» que os autores definem
-
como incluindo âreas dos cuidados de saúde, ensino, serviços
comunitários, e administração pública podem «ficar por
^rte -
* Em Elsfum, r ralé acaba por se infiltrar na fo*aleza orbitd da elite ao pitatear o
acesso aos seus sistemas. E pelo menos uma nota de esperança quanto a este cenário:
a elite precisa de ter muito cuidado em quem confia paÍa conceber e çrir a sua tec-
nologia. A pirataria e os ciberataques serão provavelmente os maiores perigos ao seu
domínio continuado.

276
preencher à Ítáo ser que os trabalhadores mais velhos aceitem
desempenhá-losefaçamdelesamefic0redassuascarreiras>>26.>>
Esta é obviamente uma previsão que conüafi^ a argumentação
que tenho desenvolvido nestas páginas. Por isso qual é a visão
de futuro que está correta? Rumamos para o desemprego tecno-
lógico disseminado e par:^ mais desigualdade, ou irão por fim os
salários começar a subir de novo à medidâ que os empresários
lutam por conseguir encontrar pessoas em idade ativa paÍL
preencher os postos de trabalho disponíveis?
O impacte dos trabalhadores que se reformam nos Estados
Unidos é bastante brando comparativamente com as verdadeiras
crises demográficas que outros países desenvolvidos enfrentam,
especialmente o Japáo. Se os Estados Unidos e outros países de-
senvolvidos rumam de facto p^t^ uma escassez de mão de obra,
podemos supor que o problema se manifeste em pdmeiro lugar
no Japão.
No entanto, até a economia japonesa dá, muito pou-
^got^,
cas mostras de falta getenhzada de mão de obra. Há certamen-
te escassez em âreas específicas, de forma mais evidente na
prestação de cuidados a idosos, com trabalhadores mal pagos, e
o governo expfessou também preocupaçáo Lcetc de uma pos-
sível falta de trabalhadores qualificados Íra construção civil,
conforme o país inicia L prepatação das Olimpíadas de 2020 em
Tóquio. Contudo, se houvesse falta de trabalhadores em geral,
o resultado deveria ser uma subida generalizada de salários, e
nào hâ qualquet inücio desse fenómeno. Uma vez que o imo-
biliário e a bolsa sofreram um craslt em 1990, o Japáo sofreu
duas décadas de estagnaçáo e até de indiscutível deflação. Em
vez de gerz;t empregos que ficam por preencher, a economia
produziu uma geraçáo inteira e perdida de jovens senhssl-
dos como <freeter»>
-
que não conseguiram encontrar rumos de
-
catteita estáveis e que continuam a viver com os pais além dos
seus trinta e por vezes quarenta anos. Em fevereiro de 2074, o
governo iaponês anunciou que o salário-base de 2073, após

2t7
aiuste da inflação, tinha de facto caído cerca de 1 por cento,
igualando trma baixa com dezasseis anos que ocoÍreu durante a
crise financeira de 200827 .
Faltas genenhzadas de mão de obra são ainda mais dificeis
de encontrar noutros países. A partir de janeiro de 2074, as taxâs
do desemprego iovem em dois dos países da Europa onde o en-
velhecimento da população se âcentua mais rapidamente, Ttá)ra e
Espanha, atrngyam níveis catastróficosz 42 por cento em Ítáüa
e uÍrs assombrosos 58 por cento em Espanhazs. Embora estes
números extraordinários seiam, evidentemente, o resultado da
crise financefua, não podemos deixar de imaginar quanto tempo
será preciso esperar até que as prometidas faltas de mão de obta
comecem a produzir efeito no desemprego entre os jovens tra-
balhadores.
Penso que uma das liçôes mais importantes que devemos
trtair do Japão faz eco do aspeto que tenho vindo a salientar ao
longo deste capítulo: os traballtadores são tambám consuruidores.
À medida que os inüúduos envelhecem acabam por abandonat
o mercado de trabalho, mas também tendem a consumir menos,
e os seus gastos desúam-se progressivamente pata os cuidados
de saúde. Por isso, embora o número de trabalhadores disponí-
veis possa diminuir, a procurâ de produtos e serviços também
cai, e isso significa menos emprego. Por outras palavras, o im-
pacte dos trabalhadores reformados pode vtÍ a" revelar-se nulo e
conforme os mais velhos reduzem os seus gastos em ünha com
a redução dos seus rendimentos, isso pode também vir a ser
uma tazáo importante par.l questionar se o crescimento econó-
mico será sustentável. Na verdade, em países como o Japío, a
Polónia e a Rússia, em que a população esá de facto em queda,
parece provável que a estagnaçáo económica de longa duração
ou até L corttrlção seiam difíceis de evitar, trma vez que a popu-
lação é uma determinante crÍu,ca parz a dimensão da economia.
Mesmo nos Estados Unidos, onde a população continua a
crescer, há fortes razôes de apreensão por demografia poder
^
abrandar os gastos do consumidor. Â transição das pensões

278
tradicionns paru os planos de contribuição definida (401k) dei-
xou trm grande número de famíüas americanas em circunstân-
cias muito fuâgeis enquanto se aproximam da reforma. Numa
anáüse publicada em feverefuo de 2014, o ecoÍromista do MIT
James Poterba descobriu que trns apreciâveis 50 por cento dos
agregados familiares americâÍros entre os 65 e os 69 anos têm
saldos de poup ança-rcfotma de 5000 dólares ou meÍlos2e. De
acordo com o estudo de Poterba, mesmo um agregado fam/rtat
com 100 000 dólares em poupurrçà efetiva púe. reforma recebe-
n^ g tantidamente uma pensão anual de apenas 5400 dólares
(ou 450 dólares por mês) sem aiustamentos derivados do au-
mento do custo de vida, se a totalidade do saldo fosse usada pa-
ra comptat vma. anuidade completú0. Por outras palavras, um
grande número de americanos vu rcabar provavelmente por de-
pender quase por inteiro da segurança social. Em 2073, a pensão
média mensal pagà pela segurança social foi de 1300 dólares,
com alguns reformados a receberem apenas 804 dólares. Não
são rendimentos que possam sustentaf um consumo robusto,
especialmente tendo em conta que os prémios do Medicare que
ascendem presentemente a 150 dólares por mês (e com probabi-
Iidades de subirem) são deduzidos.
Tal como no Japáo, certâmente haverâ escassez de mão de
obra em áreas específicas, especialmente nas direamente ügadas
à tendência de envelhecimento. Recordemos do capítulo 6 que o
Bureau of Labor Statistics prevê cetca, de 1,8 milhões de novos
trabalhos para 2022 nas áreas relacionadas com os cuidados com
idosos, como enfermagem e apoio a cuidados pessoais. No en-
tanto, se confrontarmos este número com a pesquisa de 2073
efetuada por Cad Benedikt Frey e Mchael A. Osborne da Uni-
versidade de Oxford, que sugere que 47 por cento do número
total de empregos nos Estados Unidos aproximadamente 64
milhões de postos de trabalho
-
têm o poten cial para serem
-
automatizados «<dentro de uma década ou duas»»3l, parece dificil
sustentaÍ que estâmos a caminhar púa. trma significativa escassez

279
geral de trabalhadores. De facto, €fr vez de neutralizar o impac-
te da tecnologia, a tendência de envelhecimento combinada com
a desigualdade crescente poderá muito bem estar prestes a minar
os gastos dos consumidores. A ftacr
Procura poderia então de-
sencadear uma onda secundária de perda de empregos que afe-
tAÍta até as ocupações não suscetíveis de automaazação*.

Pnocuna Do coNSUMIDoR NÂ CHrNÂ E ourRAS ECoNoMIAS


EMERGENTES

À medida que desigualdade e a dem ografia se combinam


reprimir a despesa dos consumidores nos Estados Unidos,
par;r.
Europa e outros países desenvolvidos, parece tazoâvel PÍever
que os consumidores nos países em desenvolvimento com útpt-
do crescimento sejam um fator de compensação. Estas esperan-
ças são dirigidas especialmente à China, onde trm assombroso
crescimeÍrto conduziu a mútas previsões de que a economia
chinesa iria tornar-se a maior do mundo, talvez dentro de sensi-
velmente trma década.
Penso que há vârias razões pàtr. se estar cético quanto à
ideia de que a China e o resto do mundo emergente se íráo
transformaÍ em breve nos motores principais da procura global
do consumo. O primeiro problema é que a China eÍtcara um
choque demográfico maciço. A política nacional de filho único
teve sucesso pàta limitar o crescimento da população, mas tam-
bém resultou rapidamente no envelhecimento da sociedade.
Perto de 2030 , haverâ mais de 200 milhões de cidadãos idosos
M Chinab aproximadamente o dobro de 2010. Mais de um quarto

* Por exemplo, atender às mesas Íurm restâurante com serviço completo exigfuia um
robô muito avançado algo que é imptovável verÍnos nos tempos mais próximos.
-
Porém, quando os consumidores lutam com dificuldades, as refeições em Íestarúantes
são uma das primeiras coisas a sofrer cortes, pot isso os empregados de mesa esta-
riam em dsco.

280
da populaçío do país terá uma idade superior a 65 aoos e
mais de 90 milhões terã,o no mínimo Íloventa -
em 205032.
O despertar do capitalismo na China resultou no - desapareci-
meÍrto da «tigela de ferro com atroz>>, sob a qual as indústrias es-
tatais providenciaram pensões. Os reformados têm aigote. de se
bastar a si próprios ou recorrer aos filhos, mas o colapso na taxa
de fertiüdade conduziu ao famigerado problemt <<1-2-4>>, no qual
um único adulto em idade de uabalho acabarâ por ter de susten-
tar dois pais e quatro avós.
A falta de uma rede de segurançe. p^t^ os cidadãos mais
idosos é provavelmente o motor mais importante da elevada ta-
xa de poupança da China, que se estima ser da ordem de 40 por
cento. O elevado custo do imobiüário relativamente ao renü-
mento é outro Írtor importante. Mútos trabalhadores poupam
regularmente mais de metade dos seus ganhos, na esperança de
um dia terem o suficientepxa comprar uma casú3.
Os agregados familiares que estão a acumular uma tão
grande parcela dos seus rendimentos não estão obviamente a
efetuar muitas despesas, e n verdade, o coÍlsumo pessoal tra-
duz-se apenas em cerca de 35 por cento da economia chinesa
aproximadamente metade do nível dos Estados Unidos. Pelo
-
contrário, o crescimento económico chinês tem sido impulsio-
nado prirr.tpdmente pelas exportações de produtos manufanrra-
dos, conjuntamente com um assombroso nível de investimento.
Em 2013, a faura do PIB chinês atribúdo ao investimento em Íâ-
bricas, equipamento, habitação e outras infraestruhras físicas as-
cendeu a 54 por cento, effi contraste com cetc de 48 por cento
um aÍlo antes34. O consenso é quase geral quânto a isso ser ab-
solutamente insustentável. Afinal, os investimentos têm de ter o
seu retorno e isso sucede como um resultado do consumo: as
fábricas têm de produzir bens que sejam vendidos com lucro,
as novas habitações têm de ser alugadas, e assim sucessivamen-
te. A necessidade de a China reestruturut stli^ economia a favor
^
da despesa interna foi reconhecida pelo governo e latgamente

281
discutida durante anos, e no entanto ainda não se registou ne-
nhum progresso tangível. Se fizermos uma pesquisa no Google
com a frase «China rebalancing» (reaiustamento na China), obte-
remos mais de 3 milhões de páginas, e quâse todas, suspeito, ü-
zem basicamente a mesma coisa: os consumidores chineses Pre-
cisam de se envolver e começar a comPrar Produtos.
O problema é que fazet com que isso aconteça exige um
aumento importante dos rendimentos famiüares, bem como eÍr-
ftentar as questões que levaram à acentuada subida da taxa de
poupança. Iniciativas como a melhoria das pensões e dos siste-
mas de saúde podem de algum modo afidt, ao rcdvzir os riscos
financeiros com que as famílias se confrontam. O banco central
chinês também anunciou recentemente planos pàte. alÍvio da re-
gulamentaçáo que trava a tÀxl de juros nas contas de poupanç .
Esta medida pode transformar-se numa espada de dois gumes,
por um lado aumentando os rendimentos das famílias, mas por
outto lado atrmentândo ainda mais o incentivo à poupança. Per-
mitir o aumento das taxas de juro também poderá Lmeàç t a
solvência de muitos bancos chinesesr euê Lgota lucram com as
taxas de furo artificialmente baixas35. Alguns fatores por uás da
propensão chinesapaÍe- a poupança podem ser muito difíceis de
tÍ^tAt. Os economistas Súng-iin §íei e Xiaobo Zharg sugeriram
que a elevada taxl de poup àrtç possa ser atribuível à assimetda
entre os sexos, consequência da política de filho único. Porque
as mulheres são poucas, o mercado do casafirento é muito com-
petitivo, e os homens têm frequentemente de acumular substan-
cial riquez^ oa possuir casa pLrL conseguirem atrair as potenciais
esposas36. Também é bastante possível que um forte desejo de
poupar seja simplesmente um aspeto característico da cultuta
chinesa.
É muias vezes observado que a China enfrenta o perigo de
envelhecer antes de enriquecer, mas o que penso ser geralmente
menos reconhecido é a China estar numa corrida não apenas
pela demografia mas também pela tecnologia. Como vimos no

282
capítulo 1., as fâbncas chinesas jâ estáo a movimentar-se agressi-
vamente para" a inmodução de robôs e de a:utomatrzação. Âlgu-
mas fábricas estão a implantar-se em países desenvolvidos ou a
deslocalizar-se parll países com mão de obra mais barata, como
o Vietname. Se olharmos de novo par:^ o gráfico 2.8., no capítu-
lo 2, vemos claramente que o pfogresso da tecnologia resultou
num implacável colapso de dezasseis aÍros no emprego fabril
norte-americano. É inevitável que a China tenha de seguir essen-
cialmente o mesmo caminho e é muito possível que a queda de
emprego fabril possa ser ainda mais úpida do que nos Estados
Unidos. Enquanto nos Esados Unidos o avanço da avtotnàttzà-
ção se deu à mesma velocidade que àvafiçàva a tecnologia, o se-
tor fabril na China pode, em muitos casos, simplesmente impor-
tar tecnologia de ponta do estrangeiro.
Pala negociar esta transição sem uma onda de desemprego,
a China teút de empregar uma fuaçáo crescente da sua população
ativa no setoÍ dos senriços. Contudo, o caminho usual seguido
pelos países desenvolvidos tem sido enriquecer primeiro com
base num forte setor industrial e depois fazet a transiçáo para
uma economia de serviços. Conforme os rendimentos sobem,
os agregados familiares normalmente gastam uma grande pârce-
la dos mesmos em senriços, ajudando assim L cttaÍ empregos fo-
ra do setor industrial. Os Estados Unidos tiveram o luxo de
construir uma forte classe méüa durante a sua idade de ouro
após a Segunda Guerta Mundial, quando a tecnologia progredia
rapidamente mas ainda estava longe de substituir completamen-
te os trabalhadores. A China enfrena a possibilidade de desem-
penhar uma proezl semelhante na era robótica quando as
-
máquinas e o software atmeaç tem progressivamente os empregos,
não só na indústria mas também no próprio setor dos serviços.
Mesmo que a China seja bem-sucedida no reajustamento
da sua economil p^ra o coÍrsumo interno, pâÍece otimista espe-
râr que os mercados de consumo do país fiquem completamente
abertos às empresâs estrangeiras. Nos Estados Unidos, a elite

283
empresarial e ftnanceira retirou um enorÍne proveito da globali-
zaçáo: o setor da sociedade politicamente mais influente contou
com um poderoso incentivo PatL manter o fluxo das imp oÍta-
ções. Na China, a situaçáo é bastante diferente. As elites do país
estão profundamente ligadas ao governo e sua princiPal Preo-
^
cupação é manter o regime no poder. O espectro do desempre-
go em massa e da agjtaçáo social constitui talvez o seu maior re-
ceio. Poucas dúvidas restâm de que optariam por aplicar
políticas abertamente protecionistas se fossem confrontadas
com aquela perspetiva.
Os desafios que a Chtna enfrenta são ainda mais assustado-
res para os países mais pobres, que se encontrârn muito mais aüà-
sados na corrida contra à tecnologia. Mesmo à medida que as
arcas de produção com mais mão de obra intensiva começarem a
incoqporar mais aatomaazaçáo, o caminho histórico para a pros-
peridade pode estaÍ destinado à evaporar-se púa. estes países. De
acordo com um estudo, cercâ de 22 milhões de postos de traba-
lho na indústria desapareceram em todo o mundo entre 7995 e
2002. No mesmo período de sete aÍr.os, a produção industrial au-
mentou 30 por cento37. Não ê nada claro como os países mais
pobres da Afrcae da Ásia conseguitão melhorar drasticameÍrte as
suas perspetivas num mundo que já não precisa de um número
incalculável de milhões de operários de baixo salário.
Enquanto o pfogfesso tecnológico continuar a Pfomovef a
desigualdade, tânto nos rendimentos como no consumo, está
destinado a acabar por minar a procura vibrante e ampla no
mercador eue é essencial para uma prosperidade continuada. Os
metcados de consumidores desempenham um papel fundamen-
tal não apenas na sustentaçáo da atual atividade económica mas
também no avanço do processo gerr.l da inovação. Embora as
novas ideias sejam geradas por indivíduos ou equipas, são afinal
os mercados de consumidores que geÍam o incentivo à inova-
ção. Os consumidores tâmbém determinam quais as novas ideias
que vencem e quais estão destinadas ao fracasso. Esta <<sabe-
-
doria das multidões» funciona essencialmente num processo

284
darwiniano pelo qual as melhores inovações se erguem acima de
todas as outras e acabam por se espalhar por toda a economia e
por toda a sociedade.
Embora haia trma profunda convicção genemlizada de que
o investimento empresarial se concentrâ num futuro a longo
ptlzo e é largamente independente do consumo aíral, os dados
históricos mostram que isto é um mito. Em quase todas as reces-
sões americanas desde os anos 40, o investimeo.to caiu abrupta-
mente38. As decisões de investimento que os empresários fazem
são muitíssimo influenciadas tanto pelo ambiente económico do
momento como pelo panorama de ctrto prazo.Isto é, uma pro-
cura de consumo moma hoje pode estâr a roubar a nossa prospe-
ridade funrra.
Num ambiente em que os consumidores continuam alutat
com dificuldades, muitas empresas estarão incünadas para se
concentrafem em cottat os custos em vez de expandirem mefca-
dos. uma das relativamente poucâs espefanças par?. potencial in-
vestimento é talvez a tecnologia redutora de mão de obra. O capi-
tal de risco e o investimento em pesquisa e desenvolvimento
poderão então fluir de modo desproporcionado paru inovações
especificamente dirigidas parà a eliminaçáo de trabalhadores ou
parz" a desqualificação das funçôes. Em algum momento do per-
curso, poderemos acabar com muitos robôs à procura de trabalho
mas com menos inovação de base amplâ que melhore a quali-
-dade geraldas nossas vidas.
Todas as tendências que temos vindo a examinar neste capí-
tulo se baseiam naquilo que poderíamos catàctertzaÍ como uma
perspetiva muito realista e até conservadon da forma como L tec-
nologia irá provavelmente progredir. Poucas dúvidas poderá ha-
ver de que as ocupações que envolvem prirr.rprlente a execução
de tarcfas previsíveis e de rotina irão ser muito suscetíveis de pro-
gressiva automatizaçáo ao longo das próximas décadas. Confor-
me estas tecnologias forem sendo aperfeiçoadas com o tempo,
maior número de empregos sofrerá o seu impacte.

285
No entanto,hâ uma possibiüdade ainda mais radical. Gran-
de número de tecnologistas alguns dos quais são considera-
-
dos de vanguarda nas suas âreas de atividade têm uma visão
-
muito mais agressiva do que vrâ a ser possível. No próximo ca-
pítulo, debruçar-Íros-emos atentamente sobre algumas destas
tecnologias, verdadeiramente avançadas e bastante especulativas.
Pode até suceder que algumas destas descobertas perÍnaneçam
na ficção científica num futuro previsível, mâs se acabarem por
virá ampüar fortemente o risco do rápido âu-
se concretizat, isso
mento do desemprego e da desigualdade dos rendimentos, e tal-
vez coÍrdr:za a cenâios ainda mais perigosos do que os dos ris-
cos económicos em que nos temos concentrado até agon.

286
Capítulo 9
SUPERINTELICÊNCTE E SINGUI-ARIDADE

Em maio de 2014, Stephen Hawking, fisico da Universida-


de de Cambridge, escreveu trm artigo que fez soar o alarme so-
bre os perigos do rápido progresso da inteligência artificial.
O artigo de Hawkiigpait^ o iornal britânico The Indepszlssf
escrito em coautoria com Max Tegmark e o laureado com o Pré-
-
mio Nobel Frank §7ilczek, ambos físicos do MIT, bem como
com o cientista de computação Stuart Russell da Universidade
da Califorrria, em Berkeley alenava que a cnaçáo de uma ver-
dadeira máquina pensante
-««seria o maior acontecimento
na his-
tôna da humanidade». Um computador que superasse o nível de
inteügência humano poderia ser capaz de luübdar os mercados
financeiros, superioizat-se à inventiva dos investigadores huma-
nos, sobremanipular os dirigentes humanos e desenvolver armas
que nem sequer poderemos jamais compreendeo». Considerar
tudo isto como ficção científica pode bem vir a revelar-se «po-
tencialmente como o nosso erro mais gra,ve na históriay'.
Toda a tecnologia que descrevi atê agon- robôs que mo-
vimentam caixas ou confecionam hamburgueres, dgoritrnos que
criam música, escrevem relatórios, ou negoceiam em §7all Street
utiliza o que é classificado como inteligência amfrcial especia-
-hzada ou «<estreita»». Mesmo o lYatson da IBM, talvez a mais im-
pressionante demonstraçáo de inteügência mecânic^ atê hoie,
não se aproxima de nada que possa ser tazoavelmente compatâ-
vel com a inteligência humana em geral. Na verdade, fora do
domínio da ficção científica, toda a tecnologia de inteligência a*
tificial funcional é, de facto, inteligência atifrcial esueita.

287
Contudo, ufr dos princrPais argumentos que aqú avancei
foi que a natureza especiali-ada da inteligência artificial do mun-
do teal não representa necessariamente um impedimento à auto-
manzaçáo de grande número de funções. As tarcÍas que ocuPam
a maioria da força de trabalho são, de alguma forma, amplamen-
te rotineiras e previsíveis. Tal como vimos, o rápido Progresso
no desenvolvimento de robôs especializados ou de algoritmos
de aprenüzagem mecânica que revolvem volumes imensos de
informaçáo tâ acabat por amearçú um enorÍne número de ocu-
pações numa vasta gam de níveis de qualificaçáo. Nenhum des-
tes requer máquinas que possam pensar como seres humanos.
Um computador não precisa de replicar o espectro completo da
nossa capacidade intelectual para nos dispensar do nosso traba-
lho; precisa âpenas de fazer as coisas específicas que somos
pagos p^t^ fazer Na verdade, grande parte da pesquisa e desen-
volvimento da inteligência anfrcial e quase todo o capital de ris-
co continuam a estar focados em aplicações especializadas, e hâ
todas as tazões para pensarÍnos que estas tecnologias se tomem
cada vez mais poderosas e flexíveis no decurso dos próximos
anos e décadas.
Inclusivamente enquanto estes projetos especializados con-
tinuam a produzir resultados práticos e a atrair investimentos,
um desafio muito mais temível está à espreita em segundo pla-
no. O empenho na construção de um sistema verdadeiramente
inteligente uma máquina que possa conceber novas ideias,
-
demonstrar uma consciência da sua própria existêtcia e manter
conversas coerentes perÍnanece o santo *^al da inteligência
artificial.
-
O fascínio pela ideia de construir uma verdadeira máquina
pensante tem origens que remontam pelo menos a 1950, quan-
do Alan Turing publicou um estudo que se aventurava no cam-
po da inteligên cia atrfrcial. Nas décadas seguintes, a pesquisa
sobre inteligência anfrcial sofreu um ciclo de altos e baixos du-
rante o qual as expecativas repetidameÍr.te ascenderam par:^ lá de
fundamentos técnicos reaüstas, especialmente tendo em conta

288
a velocidade dos computadores disponíveis na época. Quando
ineútavelmente se seguiu o desapontamento, o investimento e a
atividade de pesquisa entraram em colapso e seguiram-se longos
períodos de estagnação que ficaram conhecidos como <<invernos
de inteligencia artificiab>. No entanto, a primavetl tegressou.
A extraorünâna potência dos computadores âtuais combinada
com progressos em âteas específicas da pesquisa de inteügência
artificial, bem como no conhecimento do cérebro humano, es-
áo a geraÍ enorÍne otimismo.
James Battat, autor de um üvro recente sobre as implica-
ções da inteligência arnifrcial avançada e não da mera inteligência
artificial estreita (ou fraca), conduziu um estudo informal a nível
humano de cerca de duzentos investigadores. No seu âmbito, a
inteligên cia arafrcial avrnçada é consid eradt como Ârtificial
General Intelligence, ou inteligência anfrcial forte.Barcat pediu
aos cientistas de computação pata escolherem de entre quatro
previsões diferentes sobre quando a inteligência artificial forte
seria alcançada. Os resultados: 42 por cento acreütava que uma
máquina pensante chegaúa por volta de 2030; 25 pot cento
optou por 2025; e 20 por cento pensava que só em 2100 tal su-
cederia. Apenas 2 por cento acreditava que tal nunc a viria a
acontecer. Suqpreendentemente, numerosos inquiridos escreve-
ram comentários nos seus questionários sugedndo que Batat
deveria ter incluído uma opção com uma data até antefi61
talvez 20202.
-
Alguns especialistas do meio temem que possa estar a for-
mar-se outra bolha de expectativas. Numa publicação num blo-
gue de outubro de 2073, Yann LeCun, o diretor do então
recém-criado laboratório de pesquisa de inteligência artificial do
Facebook em Nova Iorque, aletava que (€ inteligência artificial
atuwrl talvez umas quÍrtro vezes em cinco décadas devido ao nrído
mediático: as pessoas frzeram bombásticas afirmações (frequen-
temente para impressionar potenciais investidores ou agências
de financiamento) sem respostâ. Seguiu-se um recuo»»5. Do mes-
mo modo, o professor da Universidade de Nova Iorque G^ty
Marcus, especialista em ciência cognitiva e bloguist^ ü New Yorker,

289
defendeu que as recentes descobertas em âteas como as redes
neurais de aprendizagem profirnda, e algumas das capacidades
^té
atribúdas ao lYatson, tinham sido excessivamente publiciadasa.
Mas parece claro que o meio adquiriu agorà um enorme
impulso. Especialmente a ascensão de empresas como Google,
Facebook e Âmazon induziu um grande progresso. Nunca antes
as grandes e poderosas empresas encararam a inteügência artifi-
cial como absolutamente fulcrais púa os seus modelos de negó-
cio e nunca antes a pesquisa em inteligência amfrcial se posi-
-
cionou tão próxima do nexo de concorrência entre entidades tão
poderosas. Uma dinâmica competitiva semelhante est^ ocorrer
^
entre os países. A inteligência artificial estâ a, revelar-se indispen-
sável p^tà os militares, serviços de informações e aparelhos de
vigilância em Estados aatoritârios*. De Íacto, uma implacável
corrida às armas de inteligencia afiiftcial pode estar a assomar
num futuro próximo. Penso que a verdadeira questáo náo é o
meio no seu todo estar de novo a enfrentat o perigo real de um
novo inverno da inteligência artificial, mas antes se o progresso
perÍnanecerí limitado à inteügência artificial fraca ou se rcabatâ,
por se expandir tarnbém par:a a inteligência artificial forte.
Se os investigadores de inteligência amficial acabarem por
conseguir dar o salto par;^ a inteligência amfrcial forte, há poucas
tazões para" crer que o resultado venha a ser uma máquina que
simplesmente rpale os níveis de inteügência humanos. Atingida
a inteligência artificial forte, aI*i de Moore por si só se encaÍre-
g na de provavelmente viabiüzàt em breve a produção de um
computador que excedesse a capacidade intelectual humana.
Uma máquina pensante continuaria, evidentemente, a desfrutar
de todas as vantagens que os computadores hoje em dia têm, in-
cluindo t capacidade de cálculo e de acesso à informaçáo com

* Face aos mais recentes desenvolvimentos, alguns leitores podem agora ser tentados
a interpor atgum comentário algo sarcástico acerca da National Security Açncy. Tal
como sqgere o artigo de Hawking, há perigos reais (e possivelmente existenciais) as-
sociados à inteüçncia artificial. Se a inteügência artiÍicial estiver destinada a instalar-se
em algum lado, r National Security Agency está lonç de ser a opção mais atrativa.

290
velocidades que seriam ininteligíveis para nós. Inevitavelmente,
em breve idamos partilhar o planeta com algo inteiramente inu-
siado: um verdadeiro intelecto de facto alienígena e superior.
E isso poderia ser apenas o começo. É comtrmmente aceite
por investigadores de inteligência anrfrcial que um tal sistema
acabaria por dirigir a sua inteligên cia parz. o seu interior. Con-
centraria os seus esforços no aperfeiçoamento de si mesmo,
reescreveria o seu sofiwme ou talvez começasse a usâr técnicas de
programaçáo evolucionistas pú^ cna4 testar e otimizar melho-
ramentos da sua conceção. Isto conduziria processo itera-
^vm
tivo de <<aperfeiçoamento recursivo». A cada nova revisão, o sis-
tema ftcaria mais inteligente e mais caparz. Conforme o ciclo
acelerasse, o resultado final seria trma «explosão de inteügência»»
culminando muito possivelmente ntrma máquina milhares ou
-até milhões de vezes mais inteligente do que qualquer cérebro
humano. Tal como referem Hawking e os seus colaboradores,
seria <<o maior acontecimento na história da humanidade».
Se uma tal explosão de inteligência chegasse a ocotrer, tetta
certamente implicaçôes importantíssimas para a humanidade.
Na verdade, bem poderia desencadear uma onda de disrupções
transversal a toda a ciiilização, para não mencionar a economia.
Nas palavras do inventor e futurista Ray Kurzweil,iria («omper
o tecido da históriar» e conduzir a um acontecimento s11 gl-
vez Luma er^- que conhecemos como <<Singularidade». -

 STNcULARTDÂDE

A primeiru aphcação do teflno «Singularidade» a um acon-


tecimento provocado pela tecnologia é usualmente atribuída ao
pioneiro de computadores Joho von NeumaÍrÍI, que comprova-
damente afitmou nos anos 50 que «o progresso em constante
aceleração [...] dâ a aparência de estar a aproximar-se de uma
Singularidade essencnlna história da corrida do homem além da
qual os assuotos humanos, d como os conhecemos, não poderão
continuao»s. O tema foi desenvolvido em 1993 pelo matemático

291
Vernor Vinge, da Universidade de San Diego, que escreveu um
ensaio intitulado «The Coming Technological Singularity».
Vinge, que não é dado a eufemismos, começou por escrever no
seu ensaio que ««dentro de trinta anos, teremos os meios tecnoló-
gicos p^ta crtaÍ inteügência sobre-humana. Pouco depois, termi-
naú, L efl humana»6.
Na astrofísica, uma Singularidade refere-se ao Ponto no
buraco negro em que se quebram as normais leis da física. Na
periferia do buraco Íregro, ou no ponto de não retorno, a fotça
gravitaciond é tão intensa que a própria hu náo consegue esca-
px à sua preensão. Vinge viu a Singularidade tecnológica de ma-
neira semelhante: representa uma descontinuidade no progresso
humano que seria fundamentalmente oplc até ocorcer. Procu-
Íar preyer o fututo parl lâ da Singularidade seria como um as-
trónomo a procrúar ver o interior de um buraco negro.
O testemunho passou de seggidapara Ray Kurzweil, que
em 2005 publicou o seu livro Tlte Singulariry Is Near lYben Hu-
mafis Transcend Biolog. Ao contrário de Vine, Kuzweil, que se
tornou no principal evangelista da Singularidade, não tem receio
de espreitar pàra lá do ponto de não retorÍlo e oferece-nos um
relato notavelmente porÍnenonzado sobre como serâ a apatên-
cia do futuro. A primeira máquina verdadeiramente inteligente,
diz-nos, será construída em finais dos ano s 20 deste século.
A Singularidade acontecerá, cerca de 2045.
Kurzweil é em toda a linha um brilhante inventor e enge-
nheiro. Fundou uma série de empresas de sucesso paru, comer-
ciali*at as suas invenções em âteas como o reconhecimento óti-
co de catactetes, discurso gerado por computador e síntese
musical. Foram-lhe atribuídos vinte doutoramentos ltonoris cailsa
bem como a Medalha Nacional da Tecnolog^ , foi entrodzado
no Hall of Fame do US Patent Office. A revista Inc. referiu-se-
-lhe como o «degítimo herdeiro» de Thomas Edison.
No entanto, o seu trabalho sobre a Singularidade é uma es-
ttanha mistura composta por uma flLtÍativa bem sustentada e

292
coerente sobre a aceleraçáo da tecnologia, e por ideias que pare-
cem tão especulativas que roçam o absurdo incluindo, por
-
exemplo, um desejo caloroso de ressuscitar o seu falecido pai re-
colhendo o seu ADN na sepultura e depois regenerândo-lhe o
corpo por meio de nanotecnologia futurista. Uma comunidade
vibrante, povoada de personagens brilhantes e Por vezes extra-
vagantes, coalesceu em torno de Kurzweil e das suas ideias.
Estes «singularianos» foram ao ponto de criar a sua própria ins-
tituição de ensino. A Universidade da Singularidade está locali-
zada em Silicon Valley, disponibrhza programas de ücenciatura
náo acreditados de estudos de tecnologia exponencial e conta
com Google, Genentech, Cisco e AutoDesk entre os seus patro-
cinadores empresariais.
Enue as previsões mais importante de Kurzweil está, a ideia
de que inevitavelmente nos iremos funür com as máquinas do
futuro. Os seres humanos serão arupliado.Í com implantes cere-
brais que aumer,rtaÃo exuaordinariamente a inteligência. De facto,
esta ampltaçáo intelectual é vistâ como essencial se quisermos
compreender e manter o poder sobre a tecnologia para,lâ da
Singularidade.
O aspeto mais controverso e talvez mais dúbio da visão pós-
-singularidade de Kurzweil é r êtfase dos seus seguidores na
perspetiva iminente da imortalidade. Os singularianos, nâ sua
maior parte, não pensam motÍer. Planeiam consegui-lo obtendo
uma espécie de <<velocidade de evasão Pata a longevidade» à
-
ideia de que, se conseguirmos manter-nos consistentemente vivos
o tempo suficiente púa chegarmos à próxima inovação prolonga-
dora de vida, poderemos concebivelmente tornaf-nos imortais.
Isto poderá conseguir-se usando tecnologias avançad^s par^ Pre-
servaf e aumentâf o Ítosso cotpo biológico ou poderá acontecef
-
se carregarÍnos a nossa mente ntrm qualquer futuro computador
ou tobô. Kurzweil quer nanrralmente assegtúâr que ainda andarâ
por ai quando a Singularidade ocoffer e Por isso toma diariamen-
te algo como duzentas pflulas diferentes e suplementos, além de

293
receber outros regularmente por via intravenosa. Embora seja
bastante comtrm os livros sobre saúde e dietas fazercm promes-
sas desmedidas,Kurrreil e o seu médico T".ry Grossman levam
as coisas a um nível inteiramente novo nos livros de que são
coautoresz Fantastic Volage: Uae bog Enougb to Uae Foreaer [««Via-
gem fantástica: viva o tempo suficiente par;l viver etemamente»»]
e Transcend: Nine Sttpt to Uaing lf,/ell Foreaer [<«Transcender: nove
passos p^tà úver bem púa sempre»»].
Não são despiciendas no movimento da Singularidade as
muitas críticas de que todo este disctrso sobre a imortalidade e a
mudança ttansform adon tem matizes profundamente reügiosos.
Na verdade, toda a ideia tem sido ridiculaÍizada como unra quase-
-religião e uma espécie de «êxtase para cromo$) pela elite técnica.
A atenção recente dada à Singularidade pelos principais meios
de comunicação, em que se inclui um artigo de2071 que foi te-
ma de capa da Tiue,levou alguns obsenradores a preocuparem-
-se com a sua eventual interseção com as religiões tradicionais.
Robert Geraci, professor de esnrdos religiosos no Manhattan Col-
lege, escreveu um ensaio intitulado «The Cult of Kurzweib», eD
que afirma que se o movime rato aüair um público mais vasto,
aPresentarâ" <<w sério desafio às comunidades reügiosas tradi-
cionais, cujas promessas de salvação paÍecem ser compar;àttva-
mente . Por seu lado, Kurzweil nega veementemente
ftacas>>7

qualquer conotação lsligiosa e afirma que as suas previsôes são


baseadas numâ sólida anáüse científica de dados históricos.
Todo o conceito poderia ser facilmente menosprezado não
fosse um completo panteão de multimiüonários de Silicon Val-
§ ter demonstrado um interesse múto forte pela Singularidade.
Tanto L^oy Page como Sergey Brin da Google e o cofundador
da PayP"l (. investidor no Facebook) Peter Thiel associaram-se
ao assunto. Também Bill Gates elogiott c pacidade de Kurz-
^
weil prever o futuro da inteligência afitficiil. Em dezembro de
2012, a Google contratou Kurzweil parz. dirigr os seus esforços

294
nnma pesquisa em inteligencia artificial forte, e em 2073 a Google
arriscou numa novâ empresa de biotecnologia chamada Calico.
O obietivo declarado da nova empresa é conduzir pesquisa cen-
ttada nà tÍa,vagem do envelhecimento e no aumento da duração
da vida. A minha perspetiva é que ,lgo como a Singularidade é
certamente possível, mas está longe de ser inevitável. O conceito
parece-me múto útil quando despojado da sua bagagem acessó-
ria (como as suposições sobre a imortalidade) e pelo contrário é
visto simplesmente como um período futuro de extraordinâna
aceleração tecnológica e sua correspondente disrupção. Pode
bem suceder que o catalisador essencial pan a Singularidade
a invençáo da superinteligência
-
1çab,s por se revelar impossível
-
ou só vir a ser possível exclusivamente ntrm futuro muito remo-
to*. Diversos investigadores de grande renome, especializados em
neurociência, expressaram esta perspetiva. Noam Choms§, que
esttrdou ciência cognitiva no MIT durante mais de setenta anos,
diz que estamos a <éons de distâncio> de se poder construit inte-
ügência mecânica de nível humano, e que a Singularidade é «fic-
ção científicar»8. O psicólogo de Haward Steven Pinker concor-
da, üzendo: «Não existe a mínima tazáo PLt^ acreditar numa
Singularidade futura. Podermos visuaüz^t tm futuro Íla nossa
imaginaçáo náo é prova de que ele possa ser provável ou sequer
possível.»»e Gordon Moore, cujo nome Parece destinado a ftcat
patà sempre associado ao progresso exponencial da tecnologta,
mostra-se também cético quanto à possível ocorrência de algo

* Vale a pena notar que, embora a inteligência baseada em máquinas seja o mais fre-
quentemeote ciado caminho paÍa L supetinteliçncia, esta pode ambém vir a ter base
humana. A inteligência humana pode ser aumentada com tecnologia, ou os futuros se-
res humanos poderão sofrer intervenção da engenharia çnética para dispotem de su-
perinteüçncia. Embora muitos países ocidenais possam provavelmente ser bastante
suscetíveis arcetca de tudo o que soe a eugenia, há indícios de que os chineses têm
poucas reticências em relação à ideia. O Instituto de Genómica de Pequim recolheu
milhares de amosuas de ADN de pessoas conhecidas pot possuírem um muito eleva-
do QI e está a trabalhar no isolamento dos genes associados com a inteligência. Os
chineses podem vir a ser c pizes de utilizar esta informrção pata selecionar embriões
para grande inteügência e, com o tempo, fazercm com que a sua população se torne
mais inteügente.

295
semelhante à Singularidadelo. No entanto, o pralzo de Kurzweil
pala a chegadt da inteligência artifrcial de nível humano tem
bastantes defensores. O fisico do MIT Max Tegmark, um dos
coautores do artigo de Hawking, afirmou a James Hamblin da
Atlantic que «isto é coisL p^ta muito curto przrzo. Quem quer
que esteja a pensar sobre o que os seus filhos deverão estudar na
escola secundária ou na universidade, devia começar a preocu-
par-se bastante com isto»11. Outros veem uma máquina pensaJr-
te como basicamente possível, mas muito mais adiante. G^ry
Marcus, por exemplo, pensa que a inteligência artificial forte vai
tatdar pelo menos o dobro do tempo que Kurzweil prevê, mas
que <<e provável que as máquinas seiam mais inteligentes do que
nós antes do fim deste século não só no xadrez ou em ques-
-
tões triüais de conhecimento geral mas em praticamente tudo,
desde a matemâaca à engenhafla" e da ciência à medicin»>r2.
Nos anos mais recentes, as especulações sobre inteügência
atttftcial de nível humano desviaram-se progressivamente da
abordagem de programação top-down par:e. umâ ênfase de enge-
nhana reversa e depois na estimulação do cérebro human o. Hâ
nma grande íalta de consenso quanto à viabilidade desta aborda-
gem e àcetc do nível da compreensão detalhada que seria ne-
cessária antes de poder criar-se uma simulação funcional do
cérebro. Geralmente, os cientistas informáticos são mais otimis-
tas, enquanto os que provêm da ârea das ciências biológicas ou
da psicologia são muitas vezes mais céticos. O biólo go P. Z.
Myers, da Universidade do Minnesota, tem sido especialmente
crítico. Numa mordtz publicação num blogue escria em respos-
a à previsão de Kuraxreil de que a e4genharia reversa conseguirá
determinar todos os princípios e dispositivos de funcionamento
do cérebro antes de 2020, Myers diz que Kurzweil é ««um excên-
trico»» que <anada sabe sobre o funcionamento do cérebro» e tem
propensáo para produzir afirmações ridículas e sem sentido que
não têm rrJlaçáo alguma com a rcahdade»l3.
Isto pode ser irrelevante. Os otimisas da inteüçncia artificiat
defendem que uma simulação não precisa de ser fiel ao cérebro

296
biológico em todos os porÍnenores. Afinal, os aviões não batem
as asas como as aves. Os céticos provavelmente resPonderão
que não estamos nem perto de compreender a aerodinàmica da
inteligência o suficiente p^t^ construir quaisquer asas quer
-
elas batam, §[uer não. Os otimistas poderáo então retorquir que
os irmãos §íright construíram o seu aeroplano confiando nala'
to^na e na experimentação, e certamente náo na base da teoria
aerodinâmica. E assim prosseguirá a discussão.

O raoo NEGRo

Embora os singularianos adotem uma irredutível visão oti-


mista quanto à perspetiva de trma futura explosão de inteügên-
cia, outros há que são bastante mais cautelosos. Para os mútos
especialistas que se debruç tarn profundamente sobre as impli-
cações da inteligência afirfrcial avançada, â Presunção de que
uma inteügência sobre-humana e completamente alienígena po-
deria, naturalmente, ser usadaPar:e. as suas energias ao serviço da
melhoria da humanidade apfesenta-se como irremediavelmente
ingénua. As apreensões entre alguns membros da comunidade
científica são de tal ordem que os levaram a fundar numefosas
pequenas organizações especificamente focadas na análise dos
perigos associados com o avanço da inteügência mecânica ou na
condução de pesquisa sobre como conseguir introduzir um ca'
râcter amigável nos funrros sistemas de inteügência artificial.
No seu livro de 2073 Our Final Inaention: Artificial Intelligence
and tlte End of tbe Huruan Era,James Banat descreve aquilo a que
chama ««cenário da criança ocupada»l4. Num qualquer local se-
creto talvs z vm laboratório de investigação governamental,
-
urna empresa de §7all Street ou uma grande corPoração da in-
dústria de inteligência artificial uÍn gruPo de cientistas infor-
-
máticos mantém-se em observação enquanto uma emefgente
máquina inteligente se aproxima e depois superl a càP^cidade

297
do cérebro humano. Os cientisas fomeceram previamente à crian-
ça-inteligência artiÍicial vastas quantidades de informação, in-
cluindo talvez quase todos os livros já escritos, bem como dados
criteriosamente recolhidos na Internet. À medida que o sistema
se aproxima de um nível de inteügência humano, os investigado-
res desligam do mundo exterior a inteügência artificial em rápido
progresso. Com efeito, fecham-na numa caixr. A questão é se ela
irâlâ frcar Afinal, a inteügência anificial pode queÍer escapar à
i^ú e expandir os seus horizontes. Para o conseguir, poderá usaÍ
a stra superior capacidade par:L enganar os cientistas ou fazer pro-
messas ou ameaças dirigidas ao grupo no seu todo ou a alguns in-
divíduos em especial. Â máquina não só seria mais inteligente
seria capaz de conceber e avaiiar ideias e opções a uma velocidade
-
incompreensível. Seria como iogu xadrez contra Garry Kasparov,
mas com o peso acrescido de regras injustas: enquanto nós temos
quinze segundos para fazer uma iogada, ele teria uma hora. Na
perspetiva destes cientistas que se preocupam com este tipo de
cenário, o risco de que a inteligência araficial possâ de alguma
forma escapar da caixa, aceder à Intemet e talvez copiar porções
de si mesma púe. outros computadores é inaceiavelmente eleva-
do. Se a inteligência artificial conseguisse libertar-se, poderia ob-
viamente àme çat qualquer número de sistemas fundamenais, h-
cluindo o sistema financeiro, as redes de controlo militar e a rede
elétrica e outras infraestruturas de energia.
Evidentemente, o problema é que tudo isto se nos apresen-
ta como extremamente próximo dos cenários esboçados em po-
pulares romances e filmes de ficção científica. Toda a ideia estâr
tão firmemente ancorada na fantasia que qualquer tentativa de
discussão séria se transforÍna num convite ao ridículo. Não é di-
fícil imaginar o escárnio de que seria alvo qualquer político ou
alto funcionário público que levanbsse estas preocupações.
Porém, nos bastidores, nãohaia dúvidas de que o interesse
sobre a inteligência artificial de todos os tipos entre os militares,
agências de segurança e grandes empresas só pode crescer. Uma
das implicações óbvias de uma potencial explosão de inteligência é

298
que haveria uma esmagadorlvuntagem do primeiro a mover-se.
Por outras palavras, quem chegar em primeiro lugar nunca será
efetivamente alcançável. Esa é uma das princrpais razões Para se
tecear a perspetiva da corrida às armas de inteligência artificial.
A magnitude da vantagem do primeiro a moveÍ-se tâmbém toma
muito provável que qualquer inteligência artificial emergente raPr'
damente seja impulsionadl PaÍa o autoaperfeiçoamento senão
-
pelo próprio sistema, pelos seus criadores humanos. Neste senti-
do, a explosão de inteligência pode muito bem ser trma profecia
Deste modo, Penso que PaÍece sensâto aplicar-se
^vtotrea)izâvel.
algo semelhante à famosa ideia de Dick Cheney da «doutrina do 1
por cento» ao espectro da inteligência artificial avançadaz as Pro-
babilidades da sua ocorrência, pelo menos num futuro previsível,
podem ser muito remotas rnas as implicaçôes são tão impor-
-
tantes que devemos pensar seriamente sobre o assunto.
Mesmo que desprezemos os riscos existenciais associados
com a inteligência artificial avançada e partamos do princípio de
que quaisquer máquinas Pensantes do futuro serão amistosas,
continuatâ ahaver um extraordinâno impacte Ílo mercado de
trabalho e na ecoÍromia. Num mundo em que máquinas eco-
nomicamente acessíveis se equiparem, ou inclusivamente se su-
periorizem, à capacidade dos seres humanos mais inteligentes,
torna-se muito dificil imagqnar quem de facto m^rrtetâ o seu em-
prego. Em muitas das âreas, não haveú qunidade suficiente de
formação e prep arzrção mesmo nas universidades mais elitis-
tas
-
que poss a totíL^t competitivo um ser humano perante tais
-
máquinas. Mesmo as ocupações que poderíamos esPerar que es-
tivessem reservadas exclusivamente a Pessoas estafão em risco.
Por exemplo, atores e músicos teriam de competir com simula-
ções rligitais que estariam imbúdas com verdadeira inteligência
bem como com talento superior ao humano. Poderão ser Perso-
nalidades criadas de novo, concebidàs paÍ^ a perfeição física, ou
poderão ser baseadas em Pessoas reais viv2s ou mortas.
-
Essencialmente, o advento de inteligência anfrcial de nível
humano profusamente distribuída resultari^ §a" concretizaçáo da


experiência do pensamento da «<invasão alienígenâ) que descrevi
no capítulo anterior. Em vez de ser sobretudo uma Lme ç L ta-
refas de rotina, repetitivas ou previsíveis, as máquinas seriam en-
tão capazes de fazer praticamente tudo. Isso significaria, como é
evidente, ilue quase ninguém conseguiria exuair rendimento do
trabalho. O rendimento do capital ou, com efeito, da pro-
-
priedade das máquina concentrar-se-ia nas mãos de uma ín-
fima elite. Os consumidores não teriam rendimentos suficientes
p^r^ comprar a produçáo genda por todas as máquinas inteli-
gentes. O resultado seria uma extraordinâna ampliação das ten-
dências que vimos ao longo destas páginas.
No entanto, isso não representaria necessariameote o fim
da história. Mas aqueles que acreditam na promessa da Singulari-
dade e aqueles que se preocupam com os perigos associados
com a inteügência aruftcial avançada veem com frequência a in-
teügência atrfrcial intimamente hgada, ou talvez conducente, a
outra força tecnológica potencialmente disruptiva: o advento da
nânotecnologia av ançada.

NaNorecNoI,ocrA AVANÇADA

É aitr.it definir nanotecnologia. A sua génese enconrra-se


algures na fronteira entre a ciência com base na realidade e aqui-
lo que muitos cttacteizanam como pura fantasia. Tem estado
suieita a um extraordinâno gtau de ruído mediático, controvér-
sia, e até ao medo absoluto, e tem sido foco de batalhas políticas
de multimilhões de dólares, bem como de uma guerra de ideias
entre algumas das figuras notáveis do meio.
A origem das ideias fundamentais que estão por trás da na-
notecnologla remonta pelo menos a dezembro de 7959, quando
o lendário laureado com o Prémio Nobel da Física Richard
Feynman proferiu uma conferência no California Institute of
Technology. A conferência de Feynman intitulava-se «<There's
Plenty of Room at the Bottom»» e nela o fisico expôs «o problema

300
da manipulação e do controlo das coisas em pequena escala»».
E por Ípequen»» queria üzer realruente pequena. Feynman vis-
lumbrou claramente uma espécie de abordagem mecur:rizada à
química, defendendo que quase todas as substâncias podiam ser
sintetizadas simplesmente pondo os ««átomos onde o químico
ü2, e assim se fatâ a substâncio»ls.
No final dos anos 70, K. Eric Drexler, então recém-ücen-
ciado no MITr pegou no testemunho de FeynmaÍl e levou-o
consigo, senão púz. cfiJzat à meta, pelo menos Pat^ descrever a
volta seguinte. Drexler imaginou um mundo em que máqúnas
moleculares de nanoescala conseguiam rapidamente rcananiat
os átomos, transformando quase instantaneamente matérias-pri-
mas baratas e abundantes em quase tudo o que pudéssemos
querer produzir. Inventou o tefmo «nanotecnologiD) e escreveu
dois livros sobre o âssuÍrto. O primeiro, Engines of Creation: Tbe
Coning Era of Nanotecbnologt, publicado em 1986, alcançou bas-
tante sucesso e foi a fotçapnmâna que lançou a nanotecnolog^
na esfera púbüca. O üvro proporcioÍlou numeros^ màtéml rrovà
púe. os autores de ficção científica e, sob mútos aspetos, inspi-
rou uma geração inteira de jovens cientist^s conceÍrtrarem as
^
suas carreiras na Ílânotecnologi a. O segundo livro de Drexler,
N a n o s1 s te m s : M o le cillar M ac lt i n t1 t M an tfa c tu ri ng an d C o np u tati o n,
e

era uma obra muito mais técnica que tinha Por base a sua tese
de doutorameÍrto Íto MIT, onde lhe foi conferido o primeiro
doutoramento de sempre em nanotecnologia.
A simples ideia de máquinas moleculâres pode parecer
completamente grotesca até percebermos que esses üspositivos
existem e, de facto, são inerentes à química da vida. O exemplo
mais fTagrante é o ribossom^ basicamente uma fábrica de
-
moléculas contida nas célulâs que 1ê a informtção codificada no
ADN e depois combina os milhates de proteínas celulares que
formam os blocos estruturais e funcionais que compõem todos
os organismos biológicos. Todavia, Drexler estava a produ-
zk uma afrrmaçáo radical, ao sugerir que tais minúsculas máqui-
nas podiam um dia sair do domínio da biologia em que os
-
301
sintetizadores moleculares operam num meio aÍneno, repleto de
ágaa par:a um mundo ocupado por máquinas de grande esca-
-
la construídas com materiais duros como aço e plástico.
Por muito radicais que fossem as ideias de Drexler, Íra pas-
sagem do milénio a nanotecnologia fazia claramente parte do
pensamento predominante. No ano 2000, o Congresso aprovou
e o presidente Clinton assinou o projeto de lei que crtavà a Na-
tional Nanotechnology Iniciative (I.{ND, unr programa concebi-
do pata coorden^r o investimento neste âmbito. Seguiu-se a
administraçío Bush em 2004 com a 21st Cennrry Nanotechno-
logy Research and Development Act, que autottzou. novo finan-
ciamento de 3,7 mil milhões de dólares. No total, entre 2001 e
2073 o governo federal americano canalizou quase 18 mil mi-
lhões de dólares para a pesquisa em nanotecnologia, por inter-
médio da NNI. A administração Obama solicitou 1,7 mil milhões
adicionais paÍa 2}l4t6.
Embora tudo isto foss em notícias fantásti-
^patentemente
cas para a pesquisa em engenharia molecular, a rcahdade veio
a tevelat-se bastante adversa. Segundo Drexler, pelo contrário,
verificou-se um subterfúgio, maciço e dissimulado, inclusiva-
mente enquanto o Congresso trabalhaya patà tornar disponível
o financiamento púà a investigação em nanotecnologia. No seu
livro de 2013 Radical Abundana: How a Reaolution in Nanotecltnolog
V/ill Cbange Ciuilirytion, Drcxler salienta que quando a NNI foi
inicialmente concebida em 2000, o plano explicitava que a «es-
sência da nanotecnologia é a capacidade de trabalhar no plano
molecular, átomo por átomo, patà cttaÍ grandes estruturas, fun-
damentalmente com uma Ílova otg trtzação moleculao» e que a
pesquisa procuraria assumir o «comando das estruturas e dispo-
sitivos nos planos atómico, molecular e supramolecular, e apren-
der a fabncat e usar eftcazmente estes dispositivos»»l7. Ou seia, o
plano da NNI provinha diretamente da conferência de 1959 de
Feynman e do trabalho posterior de Drexler no MIT.

302
Contudo, quando a NNI foi de íacto implantada, emergiu
uma visão inteiramente diferente. Nas palavras de Drexler, os
recém-empossados dirigentes imeüatamente «expügaram dos
planos da NNI qualquer menção a âtomos e moléculas relacio-
nada com a produçáo e redefiniram nanotecnologia p^t^ incluir
tudo o que fosse suficientemente pequeno. As micropartículas
entravam, saia o átomo»»l8. Pelo menos na perspetiva de Drexler,
foi como se o barco da nanotecnologia tivesse sido assaltado
por piratas que depois lançaram borda fora as máquinas da dinâ-
mica molecular e partiram mat fota com uma car:ga, inteiramente
composta por partículas minúsculas, mas estáticas. No âmbito
da NNI, praticameÍrte todo o financiamento da nanotecnologia
foi paru a pesquisa baseada nas técnicas relativamente tradicio-
nais em química e ciência dos materiats; a ciência da síntese e da
montagem molecular acabou por receber muito pouco ou nada.
Numerosos fatores estiveram por trás do súbito desvio da
montagem molecular. No ano 2000, BillJoR cofundador da Sun
Microsystems, escfeveu um artigo padj^ a revista lYired intitulado
«§flhy úe Future Doesn't Need Us?». Neste artigo, Joy salienta
os possíveis perigos existenciais associados à genética, nanotec-
nologia e inteligência atificial. O próprio Drexler discutiu a pos-
sibiüdade de os sintetizadores moleculares autoffepücantes, fora
de controlo, nos poderem usar e quase tudo o resto como
- -
trma espécie de matérias-primas. Em Engines of Creation, Drexler
chama-lhe o cenário da «dama cinzent»> e observa malevolamente
que «deixa uma coisa perfeitamente clara: não podemos permi-
tir-nos certo tipo de acidentes com sinteúadores autorreplican-
tes>>le. Joy achava que haüa nisto algum eufemismo, ao escrever

que a <dama cinzenta seria seguramente um fim deprimente p^t^


â nossa aventtúa humana reaTetta, muito pior do que o fogo ou
gelo, e que podia advir de um simples acidente de laboratório»»m.
Mas ainda se lançou mais achas p^ta, a fogueira quando em2002
Michael Crichton publicou Presas, o seu romaÍlce mais vendido

303
que rettatava uma epidemia de ondas de nanorrobôs preda-
-tórios e abre com um prólogo que, mais uma vez, cita üechos
do livro de Drexler.
A apreensão pública sobre a lama cinzenta e festins de na-
norrobôs era apenas parte do problema. Ouros cientistas come-
çatam â questionar se a montagem molecular seria de facto
possível. O mais preeminente entre os céticos foi o falecido Ri-
chard Smalley, laureado com o Prémio Nobel da Química pelo
seu trabalho sobre materiais em nanoescala. Smalley chegou à
conclusão de que a síntese e a montagem molecular, exógen^ ao
domínio dos sistemas biológicos, estava em contradição funda-
mental com as realidades da química. Num debate público com
Drexler, conduzido nas páginas de publicações científicas, de-
fendeu que os átomos não podem ser simplesmente despejados
em qualquer lugar por meios mecânicos; pelo contrário, têm de
ser persuadidos a formar laços, e constnrir maquinaria molecular
capaz de o conseguir seria impossível. Drexlet acusou então
Smalley de inteqpretat erroneamente o seu trabalho e obsenrou
que o próprio Smalley dissera em tempos que «quando um cien-
tista diz que algo é possível, provavelmente subestima quanto
tempo isso irá levat. Mas quando diz que é impossível, provavel-
mente está enganado». O debate subiu de tom e tornou-se mais
pessoal, culminando com Smalley a Drexler de ter «assus-
^cttsut
tado os nossos fi.lhos»» e concluindo depois que <<embora o nosso
futuro no mundo real seja estimulante ehair riscos efetivos, não
existirá um monstro como esse nanoÍrobô mecânico autorrepli-
cante dos seus sonhos»»2l.
A natureza e a mqgnitude do impacte futuro da nanotecno-
logra dependerão em larga medida de quem tiver razáo, Drexler
ou Smalley, quanto à viabilidade da montagem molecular. Se
prevalecer o pessimismo de Smalley, a nanotecnologia continua-
tâ a set um campo principalmente focado no desenvolvimento
de novos matedais e substâncias. Nesta ârea verificaram-se iát
progressos importantes, mais manifestamente com a descoberta
e o desenvolvimento de nanotubos de carbono estruturas
-
304
obtidas de folhas de átomos de carbono enroladas em finos tu-
bos com uma extraordinátna diversidade de propriedades. Os
matenus corn base em nanotubo de carbono são potencialmen-
te cem vezes mais fortes que o aço, embora pesem no máximo
um sexto deste mateial». Também são excecionais condutoÍes
de eletricidade e calor. Os nanotubos de carbono oferecem um
potencial eÍrorÍne púa mxeriús estruturais de peso ügeiro pat^
automóveis e aviões e podem também desempenhar um papel
importante no desenvolvimento das tecnologias eletónicas da
próxima getaçáo. Outros progressos importantes estão a verifi-
car-se no desenvolvimento de novos e poderosos sistemas de
filtragem ambiental e em exames de diagnóstico médico e üata-
mento de cancro. Em 2073, investigadores do Instituto Indiano
de Tecnologia-Madras anunciaram uma tecnologia de fi"ltragem
com base em Íranopartículas que pode fomecer á4gm potável pa-
tL r;rma. famflta de cinco pessoas com um custo anual de apenas
16 dó1arcs23. Os nanofiltros podem tarribém acabar por propor-
cionar processos mais eftcazes par:, a dessalinizaçáo da âgaa do
mar. Se a nanotecnologia seguit o seu caminho, continuará a ga-
nhat importância, com enorÍnes beneficios paÍa uma vasta gama
de aplicações, incluindo indústria, medicina, energia solar, cons-
tnrção e ambiente. A fabricaçáo de nanomateriais é, porém, uÍn
processo de capital e tecnologpa altarrreflte intensivos; deste mo-
do,hâ poucas razões pú^ prever que a indústria crie numerosos
Írovos postos de trabalho.
Se, por outro lado, a visão de Drexler vier a demonstraÍ es-
tar no mínimo parcialmente correta, o eventual impacte da na-
notecnologia pode ser amplirdo para um nível quase p^ra,lá do
nosso entendimento. Em Radical Abundance,Drexler descreve a
possível apatência de urna instalação fabril futurística equipada
palz produzir produtos de grande dimensão. Numa sala sensi-
velmente com as dimensões de uma garâgem, máquinas robóticas
de montagem rodeiam uma plaaforma móvel. Â parede do fundo
da sala está coberta por uma série de câmaras, cada uma delas

305
uma reprodução em escala reduzida da sala de fabricaçào. Cada
úma.rla contém, por sua vez, aversão mais pequena dela mesma.
À medida que as càmaras vão reduzindo de tamanho, a maqui-
nartl evolui do tamanho normal patl micro e finalmente pú^
^
nanoescala.- em que os átomos indiüduais são combinados em
moléculas. Quando o processo se inicia, a fabncaÇão começa no
plano molecular e depois rapidamente cresce pú^ a escala se-
guinte, enquanto em cada nível subsequente se montam os com-
ponentes resultantes. Drexler imagina que uma fátbrica como
esta poderia produzir e montar um produto complexo como um
automóvel no espaço de um ou dois minutos. Uma instalação
semelhante poderia com igual facilidade reverter o processo,
desmontando produtos acabados nos seus materiais constiruin-
tes que poderiam ser reciclados24.
Tudo isto claramente se mantém no domínio da ficção
científica num futuro previsível. No entanto, a efetva concreti-
zaçáo da montagem molecular signifi caria o fim da indústria
transfomadota como hoje a conhecemos; também üàfle. consi-
go o encerramento de setores inteiros da economia focados em
âreas como as do comércio retalhista, distribuição e gestão de
desperdícios. O impacte global no emprego seria estarrecedor.
Claro gue, em simultâneo, os produtos fabricados seriam
acentuadamente meÍros dispendiosos. Num certo sentido, a fa-
bricação molecular oferece a perspetiva de trma economia digital
tangível. Diz-se com frequência que «a informação quer ser
livre». A nanotecnologi^ avàrtçàda pode permitir o desenvolvi-
mento de um fenómeno semelhante par:a os bens materiais. Ver-
sões do ambiente de trabalho de computador do produtor de
Drexler poderão um dia oferecer uma capacidade semelhatte à
do <«eplicadoo» usado na série televisiva StafTrek (O Caninbo das
Estrelas). Tal como a ordem tão frequentemente repetida do
comandante Picard de «Chá, Ead GrtJ, quente» Íazia Lparecet
instantaneamente a bebida deseiada, um fabricante molecular
poderá um dia cr:lart quase tudo o que desejarmos.

306
Entre alguns tecno-otimistas, a perspetiva da montâgem
moleculat estâ fortemente associada ao coÍlceito de uma even-
tual economia çós-escassez), na qual quase todos os produtos
materiais são abundantes e praticamente gratuitos. Também se
presume que os senriços serão prestados por inteligência amft-
cial. Nesta utopia tecnológica, os constrangimentos de recursos
e ambientais seriam eliminados pela reciclagem molecular geral e
abundantes enetgias ümpas. A economia de mercado poderia
deixar de exisú e, como em O Caruinlto das Estrelas, não haveria
necessidade de dinheiro. Embora isto possa parecer um cenário
muito convidativo, há muitos pormenores que precisariam de
ser cladficados. A terra, pof exemplo, continuaria a ser escassa,
deixando pouco claro como o espaço pmaviver seria distribúdo
num mundo largamente sem empregos, dinheiro ou opornrnida-
des para a maioria das pessoas poder melhorar economicamente
a sua sinração. Não é iprt-ente claro como seriam mantidos os
incentivos parâ mais pfogresso na ausência da economia de mer-
cado.
O físico (e admirador de O Caminlto Michio
das Estrelas)
Kaku disse pensar que a utopia baseada na nanotecnologia po-
deúr ser uma possibilidade dentro de possivelmente cem anos*.
Entretanto,hâ numerosas questôes mais imediatas e de teor prâ-
tico associadas à montagem molecular. O cenário de <dama cin-
zer;ita»> e outros receios quanto à autorreplicação continuam a ser

apreensões muito reais, td como o potencial uso deüberadamen-


te desrutivo da tecnolosa. Na verdade, a montagem molecrlar,
se viesse a ser «armado> por um regime autoritátio, poderil ofl-
gy:a;Í uma ordem mundial muito diferente da utopia. Drexler
avisa que embora os Estados Unidos se tenham praticamente
afasado de qr:alquer pesquisa organizaü em montagem molecular,
o mesmo não se passa necessariamente com outros países. Os Es-
tados Unidos, Europa e China praticam basicamente o mesmo

* Pode ver Michio Kaku t falar sobre a economia pós-escassez no vídeo <<Can Nano-
technology Cteate Utopiaà», disponível no YouTube.

307
nível de investimento em pesquisa de nanotecnologta, mas o fo-
co da mesma pode ser inteiramente dentro de cada iurisdição2s.
Tal como com a inteügência artificial, existe o potencial de trma
corrida desesperuda Lo atmarnento e a adoção prematura de
uma abord4gem derrotista relativamente à montagem molecular
poder equivaler a um desarmamento unilateral.
Este capítulo constituiu um dewio bastante radical relativa-
mente às questões mais práticas e imediatas de que tenho vindo
a Íalar em todas as outras secções ao longo do üvro. As perspeti-
vas sobre verdadeiras máquinas pensantes, nanotecnologil avun-
çada- e, especialmente, a Singularidade são, no mínimo, d-
-
tamente especulativas. Pode suceder que nenhuma destas coisas
seia possível, ou podem estar todas bem distantes no futuro.
Contudo, se algum destes avanços acabat por se verificar, pou-
cas dúvidas pod erâ haver de que irão acelerar extraordinaia-
mente a tendência par:a a automadzaçáo e a disrupção maciça da
economia de maneiras imprevisíveis.
Há também, até certo ponto, uma espécie de paradoxo as-
sociado à concretrzaçío destas tecnologias futuristas. O desen-
volvimento simultâneo da inteligência artrficial e a moÍrtagem
moleculx iráo exigir um enoÍme investimento em pesquisa e
desenvolvimento. Mas, muito antes de tais verdadeiramente
avançadas tecnologias se torÍrarem práticas, formas mais espe-
ciahzadas de inteligência anftcial e robótica irão provavelmente
ame ç t um vasto número de empregos em diversos graus de
qualificação. Como vimos no capítulo anterior, isso poderá per-
feiamente minar a proctúa de mercado e portanto o incenti-
-
vo para mais investimentos em inovação. Por outras palavtas, a
pesquisa necessárià parl se conseguitem tecnologlas ao nível da
Singularidade pode nunca encontÍar financiamento, e o progres-
so pode, com efeito, tomar-se autolimitado.
Nenhuma das tecnologias sobre as quais nos debruçámos
neste capítulo são necessárias par:^ as principais questões que te-
nho vindo r; pelo conttâtio, podem ser vistas como
^ ^v^rLç
possíveis e importantes ampüadores de uma implacável
- -
308
tendência de impulso tecnológico p^r^ uma maior desigualdade
e desemprego crescente. No próximo capítulo iremos encatx al-
gumas das possíveis medidas políticas que podem ajudàt à con-
ttat:rut e sta tendência.

309
Capítulo 10
RUMO AUM NOVO PARÂDIGMA

Numa entrevista com a CBS News, pefguntatam ao presi-


dente dos Estados Unidos se o grave problema do desemprego
no país poderia melhorar em breve. «<I.{ão há uma solução mâgp-
câ), respondeu <«IVIesmo que seja simplesmente ptrL não o agn-
var, temos de andat depressa.»» Com isto, o presidente queria
dizer que a economia precisa de criat dezenas de milhares de
novos trabalhos todos os meses, apenas para acompanhar o
crescimento da população e impedir que a t^x^ de desemprego
suba ainda mais. Salientou que (cemos uma combinação de tra-
balhadores mais velhos que ficaram sem mabalho devido à tec-
nologia e de trabalhadores mais jovens que estão a chega» com
pouca formaçáo. O presidente propôs um corte nos impostos
PLnL estimular a economia, mas insistiu várias vezes na questão
da formação defendendo especialmente o apoio a programas
-
centrados no <<ensino vocacionú» e na <aeciclagem profissionab».
O problem^, disse, não vai resolver-se por si: <<Estão a chegar ao
mercado de trabalho demasiadas pessoas e hâ demasiadas má-
quinas a despedirem pessoas.»»1
Âs palavras do presidente refletem a habitual e quase
universal
-
senvicção sobre a nanreza do problema do desem-
-
prego: a solução é sempre mais formação ou mais prepanção
vocacional. Com adequada, os trabalhadores irão
^preparação
continuadamente subir os degraus da escada das competências,
mantendo-se de algum modo um pouco à frente das máquinas.
IÃo desenvolver trabalho mais criativo, um tipo de pensamento
mais inovador. AparentemeÍrte não há limite quanto ao que as

311
Pessoas comuns podem aprendef e Prepafaf-se Pat^ f^2s1
e, de igual modo, nãohâ limite par:a- o número de empregos de
-
alto nível que a economia pode cflat púa, absorver estes ttaba-
lhadores recém-formados. Ensino e teciclagem, àpaÍentemente,
são a solução imutável ao longo do tempo.
Para os que partilham desta visão, talvez pouco importe
que o presidente acima citado se chamasseJohn Kennedy e que
a data da entrevista fosse 2 de setembro de 7963. Tal como o
presidente Kennedy obsefirou, a tux^ de desemprego na época
era de cerca de 5r5 por cento, e as máquinas estavam confinadas
quase exclusivamente a «ocupar o lugar do trabalho manuab». Se-
te meses depois desta entrevista, o relatório da Tripla Revolução
chegou à secretária do presidente. Passariam mais quatro anos
até o Dr. Luther King fazer a sua própria teferência à tecnologra
e à autom^tiza.ção na Catedral Nacional de §Tashington. No
quase século e meio desde então decorrido, a convicção de que a
promessa de ensino eta solução geral patl o desemprego pou-
^
co ou naida evoluiu. No entanto, as máqúnas evoluíram muito.

DnurNurÇÂo DE RECETTAS pARÂ o ENSTNo


Se tivéssemos de desenhar um grâfico dos ganhos resultan-
tes do constante e pÍogressivo investimento no ensino, múto
provavelmente acabariamos por chegx L algo semelhante às
cuÍvas em S de que falámos no capítulo 3. O objetivo fácil de
mais formação iâ estâ muito par^ trás. As taxas de conclusão
de estudos no ensino secundário subiram âproximadamente de
75 para 80 por cento. A maioria das classificações nos testes-
-padtão revelou pouca ou nenhuma melhoria nas décadas mais
recentes. Estamos na parte plana da curva, onde o progresso
continuado será, na melhor das hipóteses, residual. H abundan-
tes provas a sugerir que muitos dos estudantes que hoie em dia
frequentam as universidades não estão academicamente ptepurl-
dos ou, em alguns casos, estão deficientemente aptos para os

312
uabalhos de nível universiúrio. Destes, runa grande parcela não
conseguitâ" acabat o curso, mas muito frequentemente não coÍl-
seguirão sair das faculdades sem o tremendo fardo dos emprés-
timos pura estudantes. Dos que se licenciarem, cerca de metade
não conseguirá encontrar trabalho que efetivamente exiia forma-
ção univercitâia, dig" o que disser a descrição de funções do
posto de trabalho. No total, considera-se que cerca de 20 por
cento dos ücenciados universitários têm prepançáo excessiva
pat^ as suas ocupações cotreÍrtes, e os rendimentos médios pata
recém-licenciados têm vindo a calr desde há mais de uma déca-
da. Na Europa, onde muitos países proporcionam aos seus estu-
dantes um ensino universitário gratuito, ou quase gratuito, apro-
ximadamente 30 por cento dos ücenciados têm quaüficação
excessivlparu os trabalhos que desempenham2. No Canadâ,
o número é de cerca de 27 por cento3. Na China, uns notáveis
43 por cento da força de trabalho são sobrequalificadosa.
Nos Estados Unidos, a opinião generahzada tende a culpar
muonttriamente estudantes e educadores. Diz-se que os estu-
dantes universitários passam demasiado tempo em atividades
sociais e muito pouco a estudar. Estão a escolher cursos com
aulas mais fáceis, em vez de optarem por licencianrras em cam-
pos tecnicamente mais rigorosos. Porém, um terço dos estudan-
tes americanos que se formam em engetthana, ciência ou outro
âmbito técnico não conseguem encontrar uma ocupação que
aproveite a sua instnrçãos.
Steven Brint, sociólogo da Universidade da Cahfórnia, em
Riverside, que escreveu extensamente sobre o ensino superior,
defende que as univetsidades americanas formam de facto estu-
dantes com um enquadramento relativamente equiübrado pe-
t^nte as oportunidades de trabalho disponíveis. Brint observa
que <drá poucos empregos que exiiam qualificações especializadas
e que só podem ser adquiridas em programas técnicos, mas a
maioria dos empregos são de relativa rotino>. ««Seguir as diretivas

313
dos supenrisores é essenciú» e ««a confiaflç e o esforço perÍna-
nente são altamente vúorizados»». Conclui que «a dedicação ao
trabalho náo ê exigida nas universidades porque não será exigida
no mundo do mabalho. Em muitos empregos, aparecer e fazet o
trabalho é mais importante do que conseguir destacados níveis
de desempenho»»6. Se tivéssemos o propósito de descrever as ca-
racterísticas de um trabalho vulnerável à automalzaçío, seria di-
ficil conseguir uma melhor descrição.
A realidade é que atribuir mais graus universitários não
aumenta a ftaçáo da forçt de trabalho envolvida nas funções
profissionais, técnicas e de gestão que a ma.ona dos licenciados
gostaria de exercer. Pelo contrário, o resultado é muito frequen-
temente a inflaçáo de credenciais; muitas ocupações que an-
teriormente exigiam apenas um diploma do ensino secundário
estão agotl abertas apenas a universiúrios com um grau acadé-
mico de quatro anos, o mesttado tomou-se a nova ücencianrra e
os cursos de escolas que não seiam de eüte são desvalorizados.
Estamos a coÍrer contÍa um limite fundamental, tanto quanto às
competências das pessoas que estão a encher as universidades
como quanto ao número de empregos de elevada qualificação
que estão disponíveis para elas, se conseguirem concluir o curso.
O problema é que a escada das competências rão é escada algu-
maz é trma pirâmide e só no seu topo há alguns lugares.
Historicamente, o mercado de tabalho sempre se pareceu
com uma pirâmide quanto às capacidades e competências do
trabalhador. No topo, uffi número relativamente pequeno de
profissionais e empreendedores altamente qualificados tem sido
responsável por grande parte da cúatividade e da inovação.
 maioria da força de trabalho esteve sempre envolvida em tate-
fas que, até certo ponto, são telativamente rotineiras e repetiti-
vas. Conforme vários setores da economia foram mecanizados
ou automattzados, os trabalhadores mansitatum dos trabalhos
de rotina de um setot pata trabalhos de rotina noutro setor.

314
 pessoa que trabalhava ntrma exploraçáo agrícola em 1900, ou
Írnma fátbnca em 1959, está hoje 2 digitalizar côügos de barras
ou a ?trumut prateleirâs no \üíalmart. Em muitos casos, esta
transição exigiu preparação adicional e competências acrescidas,
mas apesar disso a tatefa manteve-se essencialmente rotineira na
sua natureza. Assim, historicamente, tem havido uma combina-
çào razoável enue os tipos de trabalho exigidos pela economia e
as capacidades da Íorça de trabalho disponível.
No entanto, começa totn t-se progressivamente mais
^
claro que robôs, algoritmos de aprendizagem mecânica e ou-
tras formas de automatizaçío vão pouco a pouco consumir
grande p^tte da base da pirâmide das competências profissio-
nais. E porque as apücações de inteügência artificial estão aptas
par;^ invadir pouco a pouco as ocupâções mais qualificad^s,
^té ^
ârea segura no topo da pirâmide se irá provavelmente contrair
com o tempo. O senso comum é que, ao investir-se ainda mais
na fotmação e na preparaçáo, vamos de algum modo àtrumat
toda a gente nL zona em contração do topo*. Penso que presu-
mirmos que isto é possível equivale a acreütar guê, no rescaldo
da mecanizaçáo da agricultura, a maioria dos trabalhadores
"grr-
colas dispensados seriam capàzes de enconttat trabalho a con-
duzir tratores. Os números simplesmente não funcionam.
O ensino primário e secundário americanos enfrentam tam-
bém, evidentemente, problemas importantes. As escolas secundá-
rias dos centros das cidades regisam assombrosas tâ€s de aban-
dono escolar, e as cdanças nas zonas mais atingidas pebpobrezaiâr
estão em significativa desvantagem mesmo antes de entrarem no
sistema educativo. Mesmo que tivéssemos trma varinha mâgpca e
déssemos a todas as crianças americanas trma educação de pri-
meira classe, isso só significaria mais eshrdantes a concluírem o
ensino secundário e à entÍar nas universidades, e a competir pe-
lo número limitado de empregos no topo da pirâmide. Claro que

* Recordemos que muitos dos empregos qudificados podem também ser ameaçados
pela deslocalização.

315
isto não quer üzer que não devamos apontar a varinha mágica:
devemos mas não esperar que isso nos resolva todos os pro-
-
blemas. Desnecessário serâ dizer que a varinha mâgpca não exis-
te, e embora haia um coÍrsenso geral de que temos de melhotaÍ
as nossas escolas, ele só existe ao nível mais superficial. Se co-
meçaünos a falar de mais dinheiro put^ escolas e escolas sub-
vencionadas, par:. despedir maus professores e P^g t melhor aos
bons, horários e crúsos mais ptolongados, ou vales pura, escolas
privadas, a sinração rapidamente deriva p^ta a tnttàtabilidade po-
lítica.

A psnspnrrv DA ANTIAUTouarrzaç«>

Outra solução muitas vezes avançada é simplesmente pro-


curar üavat este rumo implacâvelpata a cadavez mator automa-
nzação. Na sua interpretação mais radical, isto poderia adquirir a
forma de um sindicato que resistisse à instalação de nova maqui-
flaÍta" em fábricas, arÍnazéns ou superÍnercados. Há também uma
posição intelectual mais moderada que diz que demasiada auto-
manzaçáo é simplesmente nociva par^ nós e muito possivel-
mente perigosa.
-
Nicholas Carr ê talvez o mais conhecido defensor desta
perspetiva. No seu livro de 2010 Os Superficiais,Carr defende que
a Internet pode estar L tet um impacte negativo na nossa capaci-
dade de pensar. Num artigo de 2073 para a Atlantic, intitulado
«All Can Be Lost: The Risk of Putting Out Knowledge in the
Hands of Machines)», avanç um argumento semelhante acetc^
do impacte da automatizaçáo. Carr queixa-se do «despertar da
"automattzaçáo centrada na tecnologia" como a conceção filo-
sófica dominante dos engenheiros e programadores informáti-
cos» e acredita que estâ «filosofia abre um precedente quanto às
capacidades da tecnologia sobre os interesses das pessoasȒ.
O artigo de Carr na Atlantic inclaiu vários episódios que
mostram como a automattzaçào pode corroer as competências
humanas, em alguns casos com consequências desastrosas.

316
Âlguns são um pouco obscuros: por exemplo, os caçadores inuí-
tes do norte do Canadâ estão a perder trma aptidão com mais de
quatro mil anos de navegar em ambientes géüdos enquanto pro-
crúam L c ça., porque confiam àgota no GPS. Contudo, os me-
lhores exemplos de Cau são retirados da avração. O paradoxo
do aumento da automatizaçáo na cabina de pilotagem é que,
embora a tecnologa reduza o fardo cognitivo para os pilotos e
certamente conuiblua p^t^ a segurança global a bordo, também
significa que os pilotos passam ativamente menos tempo a fazer
voat o aparelho. Por outras palavras, praticam meÍros e, com o
tempo, a.s reações quase instintivas que os pilotos profissionais
desenvolvem ao longo de incontáveis hotas de preparação po-
dem começar a degradar-se. Cart manifesta apreensão quanto a
um efeito semelhante poder vtr à ptopugaÍ-se em cascatz nos es-
critórios, fâbrrcas e outros locais de trabalho conforme â auto-
manzaçáo àve.rtça.
A ideia de que este «<conceito filosófico>» da engenharia
constitui o problema tamb ém iâ foi parcialmente acolhida por
economistas. Erik Brynfolfsson do MIT, poÍ exemplo, apelou
p^ta, um «ÀIovo e Grande Desafio p^t^ Empreendedotes, Enge-
nheiros e Economistas>> no sentido da «invenção de comple-
meÍrtos e não substitutos para a mão de obrar> e <<substituiçáo da
mentalidade de automatizaçáo e redução de mão de obra por
uma mentalidade de produtor e criadoo»8.
Suponhamos que uma empresa staú-rp queria responder ao
desafio de Brynjolfsson e constnrir um sistema especificamente
concebido paru mânter as pessoas envolvidas. Um concorrente
responderia com a conceção de um sistema completamente au-
tomattzado ou, pelo meÍros, que exigisse um mínimo de inter-
venção humana.Patr o sistema mais orientado par:a- o homem
ser economicamente competitivo, uÍna de duas coisas terá de ser
verdadeira: ou é significativamente meÍros dispenüoso, pata
compensar o aumento dos custos de trabalho, ou tem de produ-
zir resultados de tal forma superiores que signifiquem um valor

317
substancialmente mais alto pata os consumidores e, no fim de
contas, getut uma receita adicional suficiente que faça com que
esses custos extras se aPresentem como um investimento tacio-
laal. IJâ, boas razões pata duvidar que qualquer um dos casos
possa ser verdadeiro na maioria das circunstâncias. No caso da
automatizaçáo de colarinho branco, ambos os sistemas seriam
pti".rprLente compostos por sofiwme, portanto haveria poucas
razões pau;a, uma diferença de custos subsanciú. Epossível 9ue,
em algumas poucas áreas cruciais puta o foco principal de um
negócio, o sistema orientado paÍ^ o homem pudesse contar com
nma vântagem significativa (a capacidade de gerar mais receitas a
longo prazo), mas para a maioria das atividades operacionais de
maior rotina, em que o simples facto de aparecer é mais impor-
tante do que apresentar um desempenho excecional, mais uma
vez isto parece improvável.
Além do mais, esta simples compâração de custos muito
provanelmente minimiza a tendência para a automattzaçáo. Crda
novo ttabalhador contratado por uma empresa vem iuntar-se a
trma inteira fornada de custos periféricos. Quantos mais traba-
lhadores tivermos, de mais pessoal de gestão e de recursos hu-
manos iremos precisar. De igual modo, os uabalhadores preci-
sam de escritórios, equipamento e lugares de estacionamento.
Os tabalhadores também introduzem a lncetteza: adoecem, re-
gistam fraco desempenho, úam férias, têm problemas com o
catro, simplesmente despedem-se e geralmente entram em cho-
que com uma miríade de outras potenciais questões.
Cada novo ttabalhador contratado tt^z consigo uma dose
de potencial responsabilidade. Um empregado pode lesionar-se
no trabalho ou pode pofirentura lesionar alguém. Há também
-
o risco de afetx a reputação do negócio. Se quiser ver algumas
das princrpais marcas sofrer um choque, experimente pesquisar
no Google a frase «delivery driver úrows package» (««motorista
de distribuição lança pacoto).
O resultado é gue, apesar de toda a tetôrtca sobre «criado-
res de emprego», os racionais empresários não qaererr conttatàt

318
mais trabalhadores: contratam pessoas apenas porque têm de fa-
zê-lo.A progressão pata a crescente automattzação não é trm ar-
tefacto do ««conceito filosófico» ou trma preferência pessoal por
engenheiros: é fundamentalmente conduzida pelo capitalismo.
 <<ascensão da automatizaçáo centrada na tecnologi» com que
Cart se preocupa ganhou o seu lugar pelo menos hâ duzentos
anos, e os luddistas não gostaram disso. Presentemente, a inica
diferença é que o progresso exponencial está agota, a empurrar-
-nos pma o fim do jogo. Paru qualquer negócio racional, a ado-
ção de tecnologia redutora de mão de obta vai inevitavelmente
mostrar-se irresistível. Para mudar isso seria preciso mais do que
um apelo para os engenheiros e designers: exigiria a modificaçío
dos incentivos básicos existentes na economia de mercado.
Âlgumas das apreensões levantadas por Cm são reais, mâs
a boa notícia é que nas áreas mais importantes temos iá vigilân-
cia montada. Os exemplos mais impressionantes dos riscos üga-
dos à automatização são os que ameaçam vidas ou conduzem a
potenciais catástrofes. Mais uma vez suÍge-nos a avtaçáo. Connr-
do, estas áreas estão sujeitas a uma regulamefltação extensiva.
Há anos que a indústria aeronáutica conhece a intenção entre a
automatizaçáo das cabinas de pilotagem e as competências dos
pilotos e, provavelmente, incorporou esse conhecimento Íros
seus procedimentos de treino. Não há nenhuma dúvida de que o
registo de segurança dos modemos sistemas de aüação é assom-
broso. Alguns tecnólogos anteveem a automatizaçáo da aetona-
ve levada Lo extremo. Por exemplo, Sebastian Thrun disse re-
centemente ao New York Tirzes que «piloto de linha ârea>> serâ
uma profissão do passado num futuro não muito distantee. Na
realidade não penso que, a breve trecho, possamos ver trezentas
pessoas a encherem um aviã'o sem pilotos a bordo. A combi-
naçáo de regulamentação, potencial responsabilidade civil e a
simples aceitaçáo por parte da sociedade certamente criarâ po-
derosos ventos contrârios em questões diretamente ligadas à
segurança pública. Será nas dezenas de milhões de outms traballtos

319
os mabalhadores do pronto-a-comer, os drones de escritório
-e tudo o mais que o impacte da automatização no emprego
-
será provavelmente mais importante. Nestas áreas, uma poten-
cial falha técnica ou urna erosão de competência terâ consequên-
cias muito menos espetaculares e hâ relativamente poucas baç
reiras p^ta a progressão implacável da automatizaçáo 16121
conduzida, evidentemente, por incentivos de mercado.
-
Em toda a nossa economia em toda a sociedade, as máqui-
nas estão gradualmente a passar por uma transição fundamental:
estão a evoluir pú^ lá do seu papel histórico como ferramentas
e, em muitos casos, a uansformar-se em trabalhadores autóno-
mos. Carc vê isto como perigoso e de alguma maneira gostaria
previsivelmente de lhe pôr um üavio. No enanto, realidade é
^
que a suqpreendente f,qvezl e o conforto que alcançâmos na ci-
iilizaçío modema são resulado direto do progresso da tecnolo-
glà e a incansável força impulsionadora para formas cada vez
-
mais eftcazes de economizat em trabalho humano tem sido pos-
sivelmente o fator isolado mais importante a propulsar esse pro-
gresso. É, çarl afirmar-se que se está contra a ideia de demasiada
automatizaçio, embora sem ser antitecnologia em sentido lato.
Connrdo, na prâttca, âs duas tendências estão inextricavelmente
ügadas e tudo o que for menos do que uma intrusão em massa
e certamente pouco aconselhável por parte do governo
-no setor privado parece destinada Lo fracasso
- em qualquer ten-
tàrvà de travar a inevitável ascensão, determinada pelo mercado,
da tecnologia autónoma no local de trabalho.

A causa poR ur\Í RENDIMENTo tr,rÍNtuo cARÂNTrDo

Se aceitarmos a ideia de que não é provável que mais inves-


timento no ensino e em formação resolva os nossos problemas,
muito embora os apelos púa que de atgum modo se trave a ascen-
são da automatizaçào do trabalho sejam irrealistas, acabaremos

320
então por ser forçados a olhar par;a lá das receias políticas coÍl-
vencionais. Na minha perspetiva, a solução mais efrcaz será pro-
vavelmente alguma forma de rendimento mínimo garantido.
Um rendimento básico ou mínimo incondicional está longe
No contexto do cenário político
de ser trma ideia nova.
^meflca.
no contemporâneo, um rendimeÍfio g^tuntido será provavel-
mente denegrido como «socialismo» e como uma expansão ma-
ciça do estado social. Contudo, as origens históricas da ideia
sugerem absolutamente diferente. Embora um rendimento
"lgo
básico tenha sido bem acolhido por economistas e intelectuais
de ambos os lados do espectro político, a ideia foi mais vigoro-
samente defendida por conservadores e libertários. Friedrich
Hayek, que se tornou uma figura icónica entre os conservadores
de hoje, foi um veemente proponente da ideia. Na sua obra em
três volumes l-aw, I-egislation and Ube@, pubücada entre 7973 e
7979, Hayek sugeria que um rendimeflto g$antido seria uma
política govemamental legítima, concebida púa providenciar se-
gurança contra a adversidade, e que a necessidade deste tipo de
rede de segurança é o resultado direto da transiçáo para uma so-
ciedade mais móvel e abetta na qual muitos indivíduos deixaram
de poder contar com os tradicionais sistemas de apoio:

Há, contudo, outra classe de riscos comuÍrs relativamente aos


quais a necessidade da ação do governo não foi até agorugeralmente
admitida t...] O problema é principalmente o destino daqueles que
por vadadas razões não conseguem viver no mercad" [..J ou seja,
todas as pessoas que sofrem de condições adversas que podem afe-
tar qualquer uÍr e contra as quais muitos indivíduos não podem por
si conseguir a proteção adequada, mas nas quais uma sociedade que
alcançou trm certo nível de riqueza pode permitir-se oferecer essa
proteção a todos.
A garantia de rendimento mínimo garantido para todos, ou
uma espécie de plta;mar abaixo do qual ninguém precisa de cair
mesmo quando não consegue bastar-se a si próprio, pârece ser não
só uma proteção completamente legítima contra o risco comum a

321
todos, mas uma parte necessátia da Grande Sociedade na qual o in-
divíduo jâ náo tem reclamações específicas sobre os membros do
pequeno grupo no qual nasceulo.

Estas palavras podem sur# como uma espécie de su4rresa


púa os coÍrservadores que confiam cegamente na caÍtcattrra tà-
dical da direita, hoje em üa na moda, de Hayek. Certamente,
quando Hayek usa a expressão «Grande Sociedade» pretende ex-
primimlgo bastante diferente do que Lyndon Johnson tinha em
mente quando usou as mesmas palavtas. Em vez de um estado
social em perÍnanente expansão, Hayek via uma sociedade ba-
seada na liberdade individual, princÍpios de mercado, estado de
direito e ação limitada do governo. Mas a sua referência à
<<Grande Sociedade»» bem como o seu reconhecimento de que
<üma sociedade que alcançou um certo nível de riqueza pode
permiú-se oferecer essa proteção a todos»» parece estar em forte
contraste com as persPetivas conservadoras mais radicais dos
nossos dias e que parecem mais propensas a acolhet a aftmaçáo
de Margaret Thatcher de que «a sociedade não existe».
Na verdade, uma proposta p^r^ um rendimento garantido
seria hoje certamente atacada como um mecanismo liberal pura
se tentâÍ conseguir <aesulados iguais». Connrdo, o próprio Hayek
reieitou-o expliciamente ao escrever que «é lamenúvel que a teÍtta-
tiva de assegurar um mínimo uniforme per:l todos os que não con-
seguem prover o seu sustento tenha passado a estaÍ ligrd, às inten-
ções completamente diferentes de âssegurat vml "justa"
distdbuição dos rendimentos»»l1. Para Hayek, um rendimento ga-
rantido tada tinha que ver com igualdade ou <<distribuição iusta»
tinha sim que ver com segurançâ contra a adversidade bem como
-
com a efrcâaa da função social e económica.
Penso que uma das principais conclusões tetTÍat da visão
^
de Hayek é que ele era fundamentdmente um realisa e não um
ideólogo. Compreendeu que a flLfrrreza da sociedade estava a
mudar; as pessoas tinham trocado os campos, onde. eram em
grande medida autossuficientes, pelas cidades, onde dependiam

322,
de empregos, e a extensão das esüuturas familiares estava a pro-
vocar ruturas deixando cada um assumir riscos mais eleva-
-
dos. Ele não tinha problema nenhum que o governo ajudasse a
providenciar seguranç contra aqueles riscos. A ideia de que o
papel do governo pode evoluir com o tempo é, evidentemente,
muito aplicável aos desafios que hofe enfrentamos*.
 argumentação consenradora por um rendimento básico
centra-se no facto de que este providencia uma rede de seguran-
ça combinada com a überdade individual de escolha. Em vez de
o governo se intrometer Íras decisões da economia pessoal, ou
assumir diretamente o fornecimento de produtos e serviços, a
ideia é dx a todos os meios par^ poderem particrpar Íro merca-
do. É fundamentalmente abordagem de mercado purr.providen-
ciar uma rede de seguruflç mínima, e a sua aplicação faurta com
que outros mecanismos meÍros eficientes o salário mínimo,
-
selos p^t^ alimentos, segurança social e assistência para habita-
ção se torÍrassem desnecessários.
-Se adotarmos o pragmatismo de Hayek e o aplicarmos à si-
tuação que provavelmente se irá desenvolver nos próximos anos
e décadas, parece bastante provável que o govemo só será cha-
mado p^t^ desenvolver algum tipo de ação perante o aumento
de riscos à segurança económica individual, provocados pelo pro-
gresso da tecnologia. Se reieitarÍnos a solução mercadológica de
Hayek, então acabatemos inevitavelmente com uma expansão
do tradicional estado social, bem como com todos os problemas

* Â ideia de que tanto o governo como a sociedade têm de evoluir com os tempos
mereceu eco por parte de outro ícone conservador. Eis uma citação de Thomas Jef-
ferson, que se encontrâ gravadt no painel n." 4 do Memorial de Jefferson: <<I.{ão ad-
vogo mudanças frequentes nas leis e Constituições, mas as leis e as instituições devem
arndar de mãos dadas com o progresso da mente humana. À medida que esta se de-
senvolve, ganha conhecimento, à medida que novas descobertas são feias, novâs ver-
dades são descobertas e os comporamentos e as opiniões se alteram com a mudança
das citcunstâncias, as instituições ambém têm de r para acompanharem o pas-
^vafiç
so dos tempos. Poderíamos exigir ambém a um homem que continuasse a usar o ca-
saco que lhe senria quando eÍ r p^z tal como à sociedade civilizada para perÍnanecer
para sempre sob o regime dos seus bárbaros antepassados.»»

323
que o acompanham. É taclimaginar o eventaal aparecimento
de novas e vastas burocracias orientadas para alimentar e dar ha-
bitação a massas de pessoas sem poder económico talvez em
-
ambientes institucionahzados distópicos. Na verdade, este é pro-
vavelmente o caminho que oferece menos resistêncil- e será o
padrão se simplesmeÍrte nio frzermos nada.Um rendimento bá-
sico seria eficiente e teria custos administrativos relativamente
baixos. Uma expansão burocrâtrca do estado social seria muito
mais onerosa numa base per capita, e múto mais desigual no seu
impacte. Quase de certeza tna aiadar menos pessoas, mas criaria
ntrmerosos empregos tradicionais, alguns dos quais seriam mú-
to lucrativos. Também haveria abundantes oportunidades pLtL
as empresas do setor privado aproveiarem o filão. Estes benefi-
ciários de eüte os administradores de alto nível, os executivos
-
das empresas privadas itão com cetteza exercer substancial
-
pressão política para que as coisas evoluam por este câminho.
Hâ i^, evidentemente, bastantes exemplos deste tipo. Os
progÍamas de armas maciças que o Pentágono não quer estão
protegidos pelo Congresso porque podem cflàt um pequeno nú-
mero de postos de trabalho (relativamente aos seus enormes
custos) e constituir uma almofada,para os lucros de grandes ern-
presas. Os Estados Unidos têm o impressionante número de 2,4
milhões de pessoas detidas em cadeias e penitenciárias uma
-
t^x^ de reclusos per capita que é ttês vezes maior do que a de
qualquer outro país e dez vezes superior à de outros países de-
senvolvidos como Dinam^tc , Finlândia eJapáo. Em 2008, cer-
ca de 60 por cento destas pessoâs tinham cometido crimes não
violentos e o custo anual per capita da sua detenção era de cetcl
de 26 000 dólaresl2. As eütes poderosâs incluindo, por exem-
-
plo, os sindicatos de guardas prisionais e os executivos das em-
presas privadas que operam em muitas prisões têm fortes in-
-
centivos puta assegurarem que os Estados Unidos continuam a
apresentar um valor radicalmente discrepante nesta âtea.

324
Para os progressistas, um rendimento garantido pode ser
mais fâctl de vender no âtuâl ambiente político. Apesar da argu-
mentação de Hayek em sentido contrârio, muitos liberais esta-
riam provavelmente dispostos a acolher esta ideia como método
parz. se alcançar mais justiça social e económica. Um rendimento
básico podia efetivamente tornar-se um algoritmo poderoso
concebido para aliviar a pobreza e mitigar a desigualdade dos
rendimentos. Com trma simples assinanrra presidencial, a pobre-
zà exüerrra. e L íalta de habitação podiam efetivamente ser effa-
dicadas.

Os rNcsNTTVos sÃo TMPoRTANTES

O fator mais importante na conceção de um esquema de


rendimerLto g^tlntido ptaticâvel é ter os incentivos certos.
O objetivo devia ser proüdenciar uma rede de segurançà geral
bem como um suplemento pat^ os rendimentos baixos mas
-
sem desincentivar o ttabalho e a vontade de ser tão produtivo
quanto possível. O rendimento disponibilizado deveria ser rela-
tivamente mínimo: o suficiente pma" sobreviver, mas nío ao
ponto de se tomar especialmente confortável. Há também um
forte argumento para se estabelecer inicialmente um nível de
rendimento mais baixo do que este e depois, gradualmente, au-
mentá-lo ao longo do tempo, depois de estudar o impacte do
programe. tra força de trabalho.
Existem duas abordagens gerais para a aphcação de um
rendimento garantido. Um rendimento básico incondicional é
pago a todos os cidadãos adultos, independentemente de outras
fontes de rendimento. Os rendimentos mínimos garantidos (e
outras variações, como um imposto negativo sobre os rendi-
mentos) são pagos apenas aos indivíduos na base da distribuição
dos rendimentos e são gradualmente cortados conforme as ou-
tras fontes de rendimento atrmentam. Embora a segunda altet-
nativa seja obviamente menos onerosa, traÍrsPorta consigo o

325
perigo de incentivos penrersameÍrte desastrosos. Se o rendimen-
to garuntido é sujeito à ptov^ de recursos em níveis de rendi-
mentos relativamente baixos, os recipientes irão ver que uma
percentagem de imposto sobre quaisquer outros rendimentos
pode alcançx níveis de confisco. Por outras palavras, poderão
cair numr <<Ltmadilha de pobrez^>> em que pouco ou nenhum
benefício existe por se trabalhar mais arduamente. Talvez o pior
exemplo possível disto ocorra com o programa de incapacidade
da Segurança Socialr eu€ muitas pessoas provavelmente tentam
utrlizx como trma espécie de rendimento garantido depois de se
esgotarem todas as opçôes. Quando alguém recebe aprovação
p^ta receber os pagamentos por incapacidade, qualquer tentativa
de encontrar trabalho e mais rendimento comporta o perigo de
perder simultaneamente o rendimento por incapacidade e os
correspondentes benefícios dos cúdados de saúde. Em conse-
quência, praticamente ninguém que entra no programavolta a7-
guma Yez trabalhar.
^
Clatamente, se um rendimento garantido for sujeito a pro-
va de recursos, então isto devetá. acontecer a um nível relativa-
mente elevado, preferencialmente no território da classe média.
Uma pessoa que decida renunciut a o!üas oportunidades remu-
fietaitórta;s enfrenta então uma longa queda. Outra boa ideia seria
discriminar rendimento ativo e passivo. Um rendimento garanti-
do poderá ser agressivamente suieito a ptove- de recursos contra
rendimentos passivos como uma pensão, rendimentos de inves-
timento ou da Segurança Social. Rendimentos ativos como salâ-
rios de uma atividade, rendimentos de autoemprego, ou receitas
de um pequeno negócio, ou não exigiriam qualquer prova de re-
cursos ou só ocorreriam a um nível muito superior. Isto deveria
assegurar um incentivo consistente pma.todos trabalharem tão
arduamente quanto possível, dadas as oportunidades dispo-
níveis.
Um esquema de rendimento garantido também poderia
criat numerosos incentivos mais subtis tanto pma cada pessoa

326
como putz. as famíüas. O cientista social coÍrservador Chades
Murray, no seu livro de 2006 In Our Hands: A Plan to Repkce tlte
lYefare State, defende que um rendimento garantido poderia tor-
nâr os homens sem fotmaçáo universitfuia em Parceiros mais
atrativos p^ra o casamento. Este gruPo tem sido o mais dura-
mente atingido pelo impacte simultâneo da tecnologia e dt des-
locahzação no mercado de uabalho. Um rendimento garantido
podia aiudar a aumentat Ls taxas de casamento entre os gnrPos
de rendimentos mais baixos, ao mesmo temPo que aiudava a rn'
verter a tendên cia parz mais filhos serem criados em famflias
monoparentais. Claro que também tortraflL mais possível Pata
um dos pais oPtar por ficar em casa com os filhos. Todas estas
são questões a que as pessoas de todo o esPectro político Po-
dem ser sensíveis.
Além disto, penso que há fortes nzões Para ir mais longe e
cÍtut alguns incentivos explícitos num Programa de rendimento
básico. O mais importante seria dirigido p^ta o ensino, especial-
mente ao nível secundário. Dados recentes demonstram que
continua a havet um forte incentivo económico para, Procurar
um grau académico universitário. Contudo, a lamentáxel realida-
de é que tal não acontece devido às oporttrnidades Pàt^ os gra-
duados universitários estarem a expandir-se mas sim porque as
perspetivas Para os que têm apenas um diploma do ensino se-
cundário estão em colapso. Para um número significativo de
pessoas que não estão vocacionadas P^fa um gfau universitário,
penso que isto apresenta um perigo teal de diminuir o incentivo
púa" completar o ensino secundário. Se um estudante aplicado
do ensino secundário souber que fuá receber um rendimento ga-
rantido independentemente de terminar ou não os seus estudos,
isso cria obviamente urn incentivo pervefso muito poderoso.
Portanto, teremos de pagar mais aos que conseguem o seu
"lgo
diploma do secundário (ou o equivalente por meio de testes).

327
A ideia geral é que devíamos valorizar o ensino como trm
bem público. Todos beneficiamos quando as pessoas à nossa
volta têm mais instrução; isto resulta geralmente numa socie-
dade mais cívica bem como ntrma economia mais produtiva. Se
estamos destinados a transitar pura uma era em que o trabalho
uadicional começa a escassear, então uma população com ins-
trução estaú. nnma posição mais favorâvel parz encontrar utiü-
zações construtivas do seu tempo de lazer. A tecnologia está"
^
ct:raÍ muitas opornrnidades púz. que se possa passar o tempo de
formas produtivas. A lYikipédia tem vindo a ser construída gr;a'-
ças a incontáveis horas de trabalho por parte de contribuidores
não remunerados. o movimento pelo software de código aberto
oferece-nos outro exemplo. Muitas pessoas iniciam pequenos
negócios em linha como suplemento do seu rendimento princi-
pal. Porém, p^r^ conseguir particrpar em tais atividades é preciso
alcançar um patamat mínimo de instrução. Por exemplo, um
rendimento mais alto poderia ser pago aos que se oferecessem
como voluntários para atividades de senriço comunitário ou paÍ-
ticipassem em proietos ambienais. Quando sugeri a inclusão de
incentivos explícitos deste tipo no esqu ema, de rendimento ga-
rantido, no meu anterior üvro Tbe Ugltts in tlte Tunnel, recebi uma
razoâvel dose de resistência por parte dos meus leitores mais li-
bertários que fortemente se opunham à ideia de um Estado pa-
ternaüsta intrusivo. No eÍltanto, penso que há incentivos mais
básicos so§lsnrdo a formaçáo sobre os quais quase toda a
- -
gente concordarâ. Aideia essencial é replicar (ainda que artifi-
cialmente) alguns dos incentivos associados aos empregos uadi-
cionais. Numa era em que mais formação pode Írem sempre
conduzir a run melhor rumo de carreita, é importante assegurar
que toda a gente tem uma tazão determinante parz- pelo menos
completar o ensino secuÍrdâno. Quanto a mim, as vantagens daí
resultantes para a sociedade são óbvias. Mesmo Ay. Rand, se
fosse nzoâvel, presumivelmente perceberia um beneficio pessoal

328
por estar rodeada de pessoas com um nível mais elevado de ins-
trução e com mais opiniões puta o uso construtivo dos seus
tempos livres.

O usncaoo coMo uM RECURSo RENovÁwr


Âlém da necessidade de providenciar uma rede básica de
segurança, penso que há um forte argtrmento económico PLr^ o
rendimento garantido. Como vimos no capínrlo 8, o aumento da
desigualdade provocada pela tecnolo gia irâ provavelmente
o consumo. À medida que o mercado de trabalho coÍr-
^meuçàt
tinuar a desgastar-se e os salários estagnarem ou caírem, o meca-
nismo que põe o poder de compra nas mãos dos consumidores
começâ a fraqueiar, com efeitos nocivos na procuÍa de bens e
serviços.
Para visualizarmos o problema, acho que será útil pensar-
mos nos mercados como recursos renováveis. Imaginemos urn
mercado consumidor como um lago cheio de peixe. Quando
uma empresa vende produtos ou serviços no mercado, apanha
peixe. Quando p^g salários aos seus trabalhadores, lança peixe
de volta par:a o lago. Conforme a automattzaçáo progride e os
empregos desaparecem, menos peixe é devolvido ao lago. Mais
uma vez, recordemos que quâse todas as grandes indústrias de-
pendem da apanha de grande número de peixes de dimensões
moderadas. O aumento da desigualdade resultaria numa Peque-
na quantidade de peixes muito grandes, mas do ponto de vista
da maioria das indústrias do mercado massificado, estes náo va-
leriam muito mais do que os peixes de dimensões normais (um
multimilionário não vai compraf ml, snartpltnfles, cttyos ou refei-
çôes em restaurantes).
Este problema é conhecido como a clássica «tragedia dos
comuns». A maioria dos economistas provavelmente concorda-
ria que uma situação como esta exige algum tipo de intervenção
do governo. À fatta dela, náo hâ incentivo individual que possa

329
Íazer mais do que apanhx tanto peixe quanto possível. Os
"lgo
verdadeitos pescadores podem compreender perfeitamente que
os seus lagog ou os seus mares sofrem os efeitos da pescâ exces-
siva e que o seu sustento em breve estatâ ameaçado, mas conti-
nuarão apesar disso a fazet-se ao mar todos os dias e a maximi-
z^r a pescaria porque sabem que os concoffentes itão fazer o
mesmo. A única solução viável é haver uma espécie de autorida-
de reguladorl L impor limites.
No caso do nosso mercado de consumo, não queremos li-
mitar a quantidade de peixe potencial que as empresas podem
pescar. Pelo contráÍio, queremos assegurar o reabastecimento de
peixe. O rendimento garantido é uma forma eftcaz de o faze*
mos. O rendimento põe poder de compra diretamente nas mãos
dos consumidores das classes média e baixa.
Se olharmos mais paaà o futuro e partirmos do princípio de
que as máquinas acabatáo por substinrir substancialmente a mão
de obra humana, então penso que alguma forma de redistdbuição
direta do poder de compra irá ser essencial se o crescimento eco-
nómico continuar. Num estudo publicado em maio de 2014 so-
bre o fururo do crescimento económico americano, os economis-
as John G. Fernald e Charles I. Jones especulavam que os robôs
podiam «progressivamente substituir a mão de obra na função
da produção de bens»». Sugerem depois que («no limite, se o capi-
tal puder substituir inteiramente a mão de obra, as taxas de cres-
cimento poderão explodir, com os rendimentos à toti^tem-se
infinitos num tempo finito»»l3. Pata mim este resultado surpreen-
de-me pelo seu absurdo; é o tipo de resultado que se obtém ao
fotçx membros ntrma equação sem pensar verdadeiramente nas
suas impücações. Se as máqúnas substituírem inteiramente os
trabalhadores, então ninguém terá emprego ou rendimento pro-
veniente de qualquer tipo de trabalho. A maiona dos consumi-
dores deixa de ter poder de compra. Como pode então a econo-
mia continuar a crescer? Talve z a miníscula percentagem de
pessoas significativamente detentot^ de capital pudesse efetuar
todo o consumo, mas precisariam de comprar continuamente

330
bens e serviços de um valor assombtoso Parz assim consegú-
rem manter a economia a cfescer*. E este, evidentemente, é o
cenâno de tecnofeudalismo de que falámos no capítulo 8 re-
sultado não especialmente deseiável.
-
No entanto,hâ uma visão mais otimista. Talvez se Possa
dizer que o modelo matemâtico que Fernald e Jones usaram
írssrlt e um mecanismo que não o rendimento proveniente do
trabalho
-
púa a distribuição do poder de compra. Se algo se-
-
melhante a um rendimernto guràntido fosse implantado e se o
rendimento fosse aumentado ao longo do tempo ParÍa sustentar
o contínuo crescimento económico, então aiden de que o cres-
cimento poderia explodir e os rendimentos poderiam subir tal-
vez possa fazet sentido. Tal não acontecerá automaticamente; o
mercado não vai resolver as coisas por si só. É it dispensável
uma reestruturação fundamental das nossas regras económicas.
Penso que olharmos os mercados ou toda a economia
-
como um Íecurso também funciona bem de uma outra pers-
-petiva. Recordemos que no capítulo 3 defendi que as tecnolo-
gias destinadas a transform^t o mercado de trabalho resultam do
esforço acumulado de gerações e envolveu inumeráveis indiví-
duos e foram muitas vezes financiadas pelos contribuintes. Até
certo Ponto, é tazoâvel dizer-se que estes Progressos acumula-
dos bem como as instituições políticas e económicas que tor-
-
nam possível uma economia de mercado vibrante são n^ tea-
lidade um recurso que pertence a todos os cidadãos. Um terÍno
-

* Aquilo a que chamamos <<a economia»» é na realidade o valor total de todos os bens
e serviços produzidos e vendidos a alguém. A economia tanto pode produzir enorÍnes
quantidades de bens e serviços de valor baixo e moderado como pode produzir uma
quantidade muito menor de bens e serviços de elevado valor. O primeiro cenário exi-
ge uma disuibuição ilxgadt do poder de compra; isto é atualmente possível graças ao
emprego. No segundo cenário não é evidente quais seriam os produtos e serviços que
a economia poderia produzir e que fossem tão alamente valorizados pela eüte abasta-
da. Fossem quais fossem estes produtos, precisariam de ser consumidos vorazmente
pelos poucos privilegiados caso contrário, não haveria crescimento da economia
mas sim a sua contração. -

331
frequentemente utiüzado em vez de «rendimento garantido» é
«dividendo do cidadão», o que, penso, reflete efetivamente a no-
ção de que todos deveriam ter pelo menos um crédito mínimo
na prosperidade económica totd de um país.

O r,rprro oe PETTZMAN E A ASSUNÇÃo DE Rrsc(> scoNóMrco

Em 7975, Sam Pehtzman, economista da Universidade de


Chicago, publicou um estudo em que demonstrava que a legisla-
ção concebida pat^ aumentar a segurança automóvel não produ-
zira, os efeitos desejados na redução significativa da mortalidade
nas autoestradas. Anzáo, üzia, prendia-se com o facto de os
condutofes responderem à perceção do aumento da segurança
com uma condução mais atnscadara.
Este efeito de Peltzman tem desde então sido demonstrado
numa grande variedade de âreas. Os recintos de recreio para,
crianças, por exemplo, tornaram-se mais seguros. Os escorregas
múto inclinados foram substituídos e instalaram-se superfícies
amortecedoras. No entanto, teahzaram-se estudos que mostra-
ram que não houve redução significattva nas emergências hos-
pitalares ou nas fraturas ósseas resultantes de atividades em
recintos de recreiols. Outros observadores notaram o mesmo fe-
nómeno relativamente ao parâquedismo: o equipamento melho-
rou extraordinariamente em segrúança, mas a tax?- de mortalida-
de contin:uà a ser mais ou menos a mesma, pois perante mais
segurança os paraquedistas respondem com comportamentos
mais arriscados.
O efeito de Peltzman é tipicamente invocado pelos eco-
nomistas conservadores como argumento contra o atrmento da
regulamentação governamental. Porém, penso que há todas as
ttzões par;l acreditar que esta compensação com comporãmen-
tos arriscados se estende à atena económica. Âs pessoas com
uma rede de segura;ÃçL estarão dispostas a correr mais riscos
económicos. Se tiver uma boa ideia pma um novo negócio, pro-
vavelmente estaria mais disposto a deixar um emprego seguro e

332
dar o salto p^ta o empreendedorismo se soubesse que tetta aces-
so a um rendimento garantido. De igual modo, poderia decidit
deixar um emprego seguro com poucas oportunidades Para o
seu crescimento pessoal, par^ assumir uma posição mais com-
pensadora mas meÍros segura numa Pequena emPresa sfurt-up.
Um rendimento garantido ofereceria uma almofada económica
púa todos os tipos de atividade empreendedora, desde a pessoa
que começa um pequeno negócio em linha à pequena loia ou
restaurante <<de famflt»> ou ao agricultor confrontado com uma
seca. Em muitos casos, poderia ser suficiente partl manter pe-
quenos negócios durante períodos dificeis 9u€, de outra forma,
conhecett^m a falência. O resultado é que, em yez de gerar um
país de preguiçosos um rendimento garantido bem estnrtura-
-
do tem o potencial de tornar a ecoÍromia mais dinâmica e em-
preendedora.

DBsaTToS, DESVANTAGENS E INCERTEZAS

Um rendimento garantido não está isento de desvantâgens


e de riscos. A apreensão mais importante a curto Ptazo é se cria
ou não um forte desincentivo ao uabalho. Embot^ as máquinas
pareçam claramente destinadas a assumit cada vez mais trabalho
com o tempo, nã,o há dúvida de que a economia continuarâ"
muito dependente da mão de obra humana no futtrro previsível.
Presentemente náo hâ exemplos de uma tal política im-
plantada no plano nacional. O estado do Âlasca pag um mo-
desto dividendo anual financiado pelas receitas petrolíferas des-
de 1976; nos âÍlos mais recentes, os Pagamentos têm sido
usualmente entre 1000 e 2000 dólares por pessoa. Tanto os
adultos como as crianças o podem receber, portanto o valor po-
de ser significativo p^t^ as famílias. Em outubro de 2073, os
proponentes de um rendimento garantido na Súça conseguiram
recolher assinaturas suficientes para apresentarem a referendo

333
nacional uma assinalavelmente generosa e incondicional remu-
neração mensal de 2500 francos súços (cerca de 2800 dólares),
embora ainda não tenha sido estabelecida data p^ra a votaçáo.
Experiências de pequena escala nos Estados Unidos e Canadâr
mostraram uma redução de aproximadamente 5 por cento no
número de horas que os beneficiários optam por trab alharl' con-
tudo, foram Progfamas temporários e portanto menos propen-
sos a influenciar o comportamento do que um programa petma-
nentel6.
Uma das maiores bareiras políticas e psicológicas à im-
plantaçío do rendimento garantido seria a simples aceitação de
que alguma fuaçáo dos beneficiários iria inevitavelmente rece-
ber o dinheiro e sair do mercado de trabalho. Âlgumas pessoas
optariam por estar todo o dia envolvidas com videojogos
ou, pior, gastar o dinheiro em álcool ou drogas. Alguns benefi-
-
ciários poderiam optar por agrupar os seus rendimentos, com-
primindo-se em habitações ou talvez formando «comunas
^té
de preguiçosos». Desde que o rendimento seia razoavelmente
mínimo e os incentivos esteiam corretamente concebidos e es-
truturados, a percentâgem de pessoas a optart por tais a)tetnatt-
vas será provavelmente muito baixa. No entanto, em números
absolutos, podem ser bastante significativos e bastante visí-
-
veis. Claro que tudo isto seria muito dificil de conciliar com a
naltattva genl da ética de uabalho da religião protestante. Os
oponentes da ideia de um rendimetto g ràntido iriam muito
provavelmente encontrar com facilidade episódios lamentáveis
que senririam para sabotar o apoio público a esta política.
De um modo geral, penso que o facto de algumas pessoas
poderem optar por trab alhar menos ou talvez até por náo
ttabalhat
-
deve ser visto de uma forma geral de maneira nega-
-
tiva. É importante retermos que os indivíduos que opram por
sair do mercado de trabalho se estão a autoexcluir. Por outras
palavras, estarão geralmente entre os membros menos ambiciosos

3U
e industriosos da populaçáo*. Num mundo em que todos são
obrigados a competir por um cada vez meÍlor número de em-
pregos, nío há. razão para se acreditar que as pessoas mais pro-
dutivas serão sempre aquelas que conseguirão esses empregos.
Se algumas pessoas trabalham menos ou deixam completamente
de trabalh àt, elatão os salários daquelas que querem trabalhar
deviam conhecer alguma subida. O facto de os rendimentos es-
tarem estagnados há décadas é, afrnal, um dos prirrctpais proble-
mas que estamos a procur^t tt^tat Não vejo nada de especial-
mente distópico em oferecer a algumas pessoas relativamente
improdutivas um rendimento mínimo como incentivo pLrL
abandonarem o mercado de trabalho, desde que o resultado se
tradaza em mais oportunidades e rendimentos mais altos p^ra
aqueles que estão dispostos a trabalhat arduamente e querem
melhorar a sua sinração.
Embora o nosso sistema de valores esteja dirigido p^t^ o
elogro da produção, ê importante ter em mente que o constrmo
é também umâ função económica essencial. A pessoa que rece-
be o rendimento e abandona o mundo do trabalho passará a ser
um cüente pagante p^ta o diligente empreendedor que abrir um
pequeoo negócio no mesmo bairro. E esse pequeno empresário
irá, evidentemente, receber ambém o mesmo tendimento básico.
Uma última questão é que muitos dos erros políticos nâ
aphcação de um rendimento garantido terão de ser suscetíveis
de autocorreção. Se o rendimento se vier a revelar inicialmente
demasiado generoso e portanto resultar num forte desincentivo
ao ttabalho, então devetâ acontecer uma de duas coisas: ou a
tecnologia de automatizaçào é suficientemeÍrte avançada para de-
tetar o desleixo na produção (caso em que não haverá qualquer

* Obviamente, estou a deixar de lado todas as pessoas que poderiam optar por deixar
o mercado de trabalho (pelo menos temporariamentQ por rrzões que considetaría-
mos mais legítimas, como cuidar de filhos ou de outros membros da famflia. Por
exemplo, para algumas famflias um rendimento básico pode revelar-se uma solução
parcid p^t^ o crescente problema do cuidado com os idosos.

335
problema), ou haverâ, falta de mão de obra e um srrto de infla-
ção. Um âumento geral dos preços poderia desvalortzaÍ o rendi-
mento básico e recriar o incentivo p^t^ o compensar pelo aaba-
lho. Â não ser que os políticos fizessem verdadeiramente
^lgo
errado como, por exemplo, incluir no esquema de rendimen-
-
to um aumento automático em função do custo de vida qual-
-
quer inflação tef,a um ciclo de vida curto e a economia encon-
üaf,^ de novo o seu equilíbrio.
Além dos desafios políticos e riscos associados com um
desincentivo geral ao rabalho,há, também a questão do impacte
que um rendimento básico poderi^tet nos custos com habitação
em zoflas de rendas altas. Imaginemos que se dava a todos os
residentes de uma cidade como Nova Iorque, São Francisco ou
Londres 1000 dólares extras por mês. }{á, certamente boas ra-
zões p^r^ pensar que uma grande ftação deste aumento tal-
vez quase todo
-
açs'le no bolso dos senhorios conforme os
-
residentes disputam as escassas habitações. Não há soluções
fáceis par:l este problema. A contenção das rendas é uma possi-
bilidade, mas faz-se acompanhar de muitas desvantâgens iâ do-
cumentadas. Muitos ecoÍlomistas reclamaram o alívio das restri-
ções na delimitaçío de zonas p^r^ permitir maior densidade
habitacional, mas a oposição dos atuais habitantes é cera.
No entanto, há uma força neutralizante. Um rendimento
garantido, contrârio de um emprego, será móvel. Algumas
^o
pessoas muito provavelmente prefeririam receber o seu rendi-
mento e mudar-se das zonas mais caras p^ta outras onde o cus-
to de vida fosse inferior. Poderia haver um influxo de novos Íe-
sidentes para, cidades decadentes como Detroit. Outras optariam
por simplesmente deixar as cidades. Um programa de rendimen-
to básico poüa aiudx a revitalizar mritas das pequenas cidades
e âreas rurais que estão a perder popuhção porque nío hâ taba-
lho. Na verdade, penso que o potencial impacte económico po-
sitivo n s zoÍras rurais poderia ser um fatot par:a ai:udar L tornaÍ

336
atraente par;l os conservadores dos Estados Unidos uma política
de rendimento garantido.
A política de imigração é outra ârea que precisaria obvia-
mente de ser aiusada na eventualidade da aplicação do rendimen-
to galantido. É provável que a imigração bem como qualquer
passo subsequente par;l a cidadania e o acesso ao rendimento ti-
vessem de ser restringidos, ou talvez tivesse de impor-se um pe-
ríodo significativo de espera par:^ novos cidadãos. Evidentemen-
te que tudo isto viria acrescentar ainda mais complexidade e
tflcettezà a um assunto político que iá está muito polanzado.

Pacan PoR uM RENDTMENTo BÁsrco

Se nos Estados Unidos fosse aribúdo a todos os adultos,


com idades entre os ünte e um e os sesseÍrta e cinco anos que
não recebem qualquer subsídio ou pensão da Segurança Social,
um rendimento anual incondicional de 10 000 dólares, o custo
total frcaria em torno de 2 biliões de dólares17. Este montante
seria de alguma forma reduzido limitando de alguma forma o
acesso ao rendimento básico par;l os cidadãos, talvez pela com-
panção com rendimentos além de um certo monante (como iá
antes sqgeri, seria muito imporante excluir gradualmente o ren-
dimento garantido nos níveis razoavelmente mais altos para se
evitar o cenário da armadilha de pobreza). O custo total seria
então compensado pela redução ou eliminaçáo dos numerosos
progrâmas federais e estatais antipobreza, incluindo os selos pa-
ra alimentos, assistência social, apoio pffa a habitaçáo e Earned
Income Tax Credit. (O EITC será discutido com mais porÍne-
nor mais adiante). Estes programas têm um custo de 1 bilião de
dólares por ano.
Ou seia, uffi rendimento básico anual de 10 000 dólares
exigiria provavelmente ,1go em torno de 1 bilião de dólares co-
mo receita fiscal adicional, ou talvez significativamente menos se

337
pelo contrário optássemos por algum tipo de rendimento míni-
mo garantido. Todavia, aquele número seria ainda mais reduzido
pelo aumento das receitas fiscais resultantes do plano. O pró-
prio rendimento básico seria suieito a imposto e provavelmente
retiraria muitas famílias dos infarnes <<47 pot cento» de Mitt
Romney (a fuaçào da população que atualmente náo paga impos-
tos federais). Muitas das famflias de baixos rendimentos iriam
gastar a maiot parte do seu rendimento básico e isso resultuttl
diretamente em mais atividade económica coletável. Uma vez
que o progresso da tecnologia Íros conduzfuá provavelmente pa-
ra níveis de desigualdade mais acennrados ao mesmo tempo que
corrói o grande consumo, tun rendimeito gatantido pode per-
feitamente resultar numa taxa significativamente mais alta de
crescimento económico a longo ptlzo e isso, é evidente, sig-
-
nificaria uma receita fiscal muito mais alta. E uma vez que o ren-
dimento básico manteria um fluxo consistente de poder de com-
pm" pala os consumidores, àfr)^rtl corno um forte estabilizador
económico, permitindo à economi^ evttat alguns dos custos as-
sociados às profundas recessões. Claro que todos estes efeitos
são dificeis de quantificar, mas penso que é sólida a argumenta-
ção de que um rendimento básico certamente se pagarâ a si
mesmo. Além disso, os ganhos económicos decoffentes da sua
implanaçào trão alrmentâÍ com o tempo à medida que a tecnolo-
g1a avarrçar e a economia, fot cada vez mais de capital intensivo.

É evidente que conseguit as receitas suficientes será um


eÍrorme desafio com o ambiente político atual, já que pratica-
mente todos os políticos arnericanos têm horrot L sequer pro-
nunciar a palavta <<impostos»», a náo ser que precedida pela ex-
pressão ««cortes nos». A abordagem mais viável pode ser usâr
nma série de diferentes impostos para conseguit a Ílecessâna rc-
ceita. Um candidato óbvio seria o imposto sobre emissão de
partículas de monóxido de carbono, que poderia gerar algo co-
mo 100 mil milhões de dólares por ano, ao mesmo tempo que

338
contribú^p^ta a redução das emissões de gases com efeito de
estufa. Já houve diversas propostas para trma taxa sobre a emis-
são de partículas com um desconto pata, todos os agregados
familiares, e isto pode servir como ponto de partidàputà o ren-
dimento básico. Outra opção é o imposto sobre o coÍrsumo. Os
Estados Unidos são o único país desenvolvido que não conta
com tal imposto basicamente, um imposto sobre o consumo
que é cobrado a
-
cada passo do processo de produção e distribui-
ção do produto. Uma taxa deste tipo é repassada aos consumi-
dores como parte do preço final do produto ou serviço e é
geralmente considerada como uma forma múto eítcaz de au-
mentar a receita fiscal. Há numerosas outras possibilidades, in-
cluindo impostos mais elevados sobre as grandes ernpresas (ou a
eüminação dos esquemas de isenção de impostos), tipo
"lgo-
de imposto nacional sobre bens imóveis, taxas mais dtas sobre
capitais e impostos sobre transações financehas.
Parece inevitável que os impostos pessoais sofram ambém
um aumento e uma das melhores maneiras de o fazet é tornan-
do o sistema mais progressivo. Uma das implicaçôes de aumen-
tàr L desigualdade ê que cada vez mais rendimento coleúvel está
a aproximar-se do topo. O nosso sistema fiscal devia ser reestru-
turado pàt^ espelhar a distribuição do rendimento. Em vez de
simplesmente aumentar taxas púa, todos ou no escalão mais alto
que existir, uma estratégia melhor seria introduzir diversos no-
vos escalões para cobrar mais rcceita a patflt desses contribuin-
tes com rendimentos muito elevados alvsz vm milhão de
dólares por ano ou mais.
-

Tooos sÃo cAPrrAusrAS


Embora eu acredite que alguma forma de rendimento ga-
rantido seia provavelmeite à melhor solução global par^ as-
^
censão da tecnologia de autom*tzação,hâ certamente outras
ideias viáveis. Uma das propostas mais comuns é conceflttat
o foco na saúde, €ffi vez de no rendimento. Num mundo futuro

339
em que praticamente todo o rendimento for captado pelo capi-
tal e a máo de obra humana tiver um valor muito baixo, porque
não assegurar simplesmente que todos deterão caprtal suficiente
par^ serem economicamente seguros?
Muitas destas propostas envolvem estratégias como au-
mentar o número de ações pat^ os empregados da empresa ou
simplesmente oferecer a todos um saldo substancial num fundo
mútuo. Num artigo p^ta a Atlantic, o economista Noah Smiú
sugere que o governo poderia conceder a todos «uma dotação
de capitú>, comprando um (gortefólio de ações diversificado»»
p$a, todos os cidadãos quando atingissem os dezoito anos. Uma
decisão ptecipitada de «<vende e vai p^ta, a festar» seria çrevenida
com uma ligeira mas justa dose de paternalismo, como uma
cláusula de bloqueio temporâno de venda^»»l8.
O problema é que a «digefua dose de paternalismo>» poderia
não ser suficiente. Imagine um futuro no qual a sua capacidade
puta sobreviver economicamente é determinada quase em exclu-
sivo por aquilo que possui; o seu trabdho vale muito pouco ou
quase nada. Nesse mundo, não haveria mais histórias sobre a
pessoa que perdeu tudo e que depois teve de trabalhar ardaa-
mente p2rjl recuperaf o que antes tinha. se fizer um mau investi-
mento ou for ludibriado por alguém do género Bernie Madoff,
então o eÍro pode perfeitamente ser irremediável. Se acabar por
se dar a todos os indivíduos poder sobre o seu càpttal, então é
inevitável que este cenário se apresente a algumas pessoas azaÍL-
das. Que faúamos às pessoas e famfrtas que caíssem neste tipo
de situação? Seriam «grandes de mais pàta falio>? Se sim, haveria
um claro problema de risco moral: as pessoas poderiam ver
poucas desvantagens por corÍerem riscos excessivos. Se não, te-
ríamos as pessoas em situações realmente desesperadas com
pouca ou nenhuma esperança de fuga.
 maioria das pessoas agyia, naturalmente, de forma res-
ponsável perante este tipo de risco. Mas isso podefla àcafretar os

3N
seus próprios problemas. Se a perda do seu capital significasse a
indigênci^pàt^ si e os seus filhos, esaria disposto a investit uma
parte dele num pequeno novo negócio? A experiência com os
planos de reforma 407k mostrou que muitas pessoas optam por
invesú muito pouco na bolsa e demasiado em investimentos de
baixo rendimento que percebem como seguros. Num mundo
em que o capital é tudo, essa preferência poderia perfeitamente
ser ampliada. Poderia haver uma enorÍne procura por ativos se-
guros e consequentemente o retorno sobre esses ativos seria
muito baixo. Por outras palavras, runâ solução baseada em dar
nqurez^ às pessoas poderia resultar em algo bastante diferente do
efeito de Peltzman a que, conforme sugeri, poderíamos assisú
com um rendimento garantido. A aversão ao risco excessivo po-
deria conduzir a menos empreendedorismo, rendimentos mais
baixos e â uma procrrra de mercado menos viva*.
Um outro problema ainda seria p^g r aquelas doações de
capital. A minha convic ção é que a redistribuição de vastos
montantes de capital se revelaria politicamente mais tóxica do
que o rendimento garantido. Um mecanismo possível púL des-
lrraÍ f,qurez^ dos seus atuais detentores foi proposta por Thomas
^
Piketty no seu livro O Capital no Século )oí: trm imposto global so-
bre a t:iqveza. Tal imposto exigiria a cooperação entre países pa-
t^ evrtaÍ a faga maciça de capitais para iurisdições com impostos
mais baixos. Quase todos concordam (incluindo Piketry) que is-
to será impraticável num futuro previsível.
O livro de Piketty, que recebeu um dilúvio de atenções em
2014, defende que âs futuras décadas podem frcat rnarcadas por

* Alguns economistas, mais notavelmente o ântigo secreúrio do Tesouro americano


I-arry Summers, suçritam que a economia esú atualmente presa de uma «estagnação
seculao» situação em que as axas de iuo estão perto do zero, a economia funcio-
na abaixo- do seu potencial e o investimento é muito reduzido em mais oportunidades
produtivas. Penso que um futuro em que todos dependam quase inteiramente do sal-
do do seu fundo mútuo para sobreviverem economicamente pode resultar num desfe-
cho semelhante.

341
uma inevitável progressão para uma desiguddade mais acentua-
da tanto no rendimento como na riqueza. Piketty aborda o as-
suÍrto da desigualdade illma mera perspetiva da anáüse histórica
de dados económicos. A sua tese pti".lpd é que o retorno sobre
o capital é normalmente maior do que ttx^ do crescimento
^
económico, pelo que quem detém o capital se torna inevitavel-
mente, com o tempo, runa faaa maior datane económica. Sur-
preendentemente, Piketty revela muito pouco interesse pelas
tendênciâs em que temos vindo a coÍrcenúaÍ L nossa atençáo; na
verdade, a pa)wn <<robô» apenas uma vez nas quase se-
^paÍece
tecentas páginas do seu üvro. Se a teoria de Piketty estiver coÍÍe-
la e tem sido sujeita a amplo debate sn1[e penso que o
- -
progresso da tecnologia pode provavelmente ampliar muitíssimo
as suas conclusões, muito possivelmente produzindo níveis ain-
da mais altos de futura desigualdade do que o seu modelo prevê.
A.
E possível que à medida que o assunto da desigualdade e
especialmente o seu impacte no processo político nos Estados
Unidos ganhe ainda mais visibilidade iunto do público, o tipo de
imposto sobre a riqueza que Piketty advoga possa um dia tor-
nar-se viável. Se assim for, eu diria que em vez de repartirmos o
capital redistribuído pelos indivíduos, seria melhor estabelecer
um fundo de f,quezà soberana gerido celüahzadamente (seme-
lhante ao fundo do Âlasca) e depois usar os retornos obtidos pa-
n aiudx a ftnanciar o rendimento básico.

Poúucas DE cuRTo PRAZo

Embora o estabelecimento de um rendimento garantido se


mantenha provavelmente inviável num futuro previsível, há nu-
mefosas outfas coisas que poderiam ser úteis a curto Ptàzo.
Muitas destas ideias são realmente políticas gerais económicas
par^ permitir uma retoma mais robusa após a Grande Recessão.

342
Por outras palavras, são coisas que devíamos estar a fazet em
qualquer caso, independentemente de qualquer preocupaçío
acetc do impacte dos robôs ou da avtomutrzaçáo no emprego.
Pata começar, entre estas políticas está, a, necessidade ur-
gente de os Esados Unidos investirem em infraestnrturas públi-
cas. Hâ uma enorÍne exigência reüaidà p^ta L rcpar^ção e refor-
ma de estradas, pontes, escolas e aeroportos. Esta manutenção
acabará, por ter de ser levada a cabo; náohâ volta a dx e quânto
mais tempo esperarÍnos, maiores serão os seus custos. O gover-
no federal pode hofe em dia recoÍrer ao crédito com taxas de iu-
ro manifestamente próximas do zeto, enquânto o desemprego
no setor da construção civil perÍnaneça com taxas de dois dígi-
tos. Se não aproveitarmos esta oportunidade pat^ fazet os Íle-
cessários investimentos enquanto o custo do dinheiro é baixo,
um dia isso será provavelmente julgado como negligência eco-
nómica grave.
Embora eu duvide que políticas voltadas p^t^ mais forma-
ção e preparação vocacional possam oferecer uma solução dura-
doura e sistémica par;a o problema do desemprego tecnológico,
hâ cenamente muitas coisas que podemos e devemos fazet pura
melhorar as perspetivas imediatas de estudantes e uabalhadores.
Provavelmente não podemos mudar a rcaltdade de vit a" haver
um número limitado de empregos disponíveis no topo da pirâ-
mide das competências. Connrdo, podemos certamente ttatat da
questão dos trabalhadores que não têm as aptidões Írecessárias
para as opornrnidades que de facto existem. Existe especialmen-
te uma óbvia necessidade de investimento nas universidades pú-
blicas. Algumas profissões com baixas ta)es de desemprego, es-
pecialmente nos setofes relacionados com os cuidados de saúde,
como a enfermagem, estão atualmente sujeitas a significativos
afunilamentos formativos; existe uma procura esmagadora por
formação, mas os estudantes não têm acesso aos cursos porque
as aulas estão sobrelotadas. Em geral, as universidades púbücas

343
representam um dos nossos principais recursos parâ os uabalha-
dores poderem movimentâÍ-se num mercado de trabalho cada
vez mais dinâmico. Uma vez que os empregos podem estar des-
tinados a desaparecer em ritrno acelerado, devíam os fazet todos
os possíveis para disponibihzar oportunidades de reciclagem.
Expandir o acesso às universidades, relativamente pouco dis-
pendiosas, ao mesmo tempo qae fazer mais pela contenção das
escolas privadas predatórias que foram estabelecidas em primei-
ro lugar par;^ colher a $lodr financeira em dólares, resularia em
melhores perspetivas par;^ grande número de pessoas. Como vi-
mos no capíarlo 5, os MOOC e ouuas inovações no ensino em
linha podem também vir a ter um impacte significativo nas
opornrnidades de form rção vocacional.
Outra proposta importante centra-se na expansão do E;ar-
ned Income Tax Credit, um subsíüo pago a trabalhadores de
baixos rendimentos nos Estados Unidos. O EITC está presente-
mente sujeito a duas limitações principais. Primera, os desem-
pregados não são abrangidos; par^ assegurar um incentivo ao
trabalho, o benefício só é pago a pessoas que obtiveram rendi-
mento. Segunda, o program é em primeiro lugar configurado
como uma forma de apoio aos filhos. Um progenitor solteiro
com três ou mais filhos poderá receber um máximo anual de
6000 dólares em 2013, enquaÍrto um uabalhador sem filhos re-
ceberá apenas 487 dólares ou cerca de 40 dólares por mês.
-
A administração Obama ptopôs já que fossem abrangidos os
uabalhadores sem filhos, embora o benefício máximo passâsse a
ser apenas de 1000 dólares por ano. Transformar o EITC numa
solução viável e duradoura exigiria que o subsídio fosse alaryado
aos que não conseguem araniar trabalho o gu€, evidente-
-
mente, significatia t conversão do programa num rendimento
garantido. As perspetivas de cufto pta;zo p^f^ a expansão do
EITC em qualquer direção parecem sombrias, tuna vez que os
repubücanos no Congresso expressaram o desejo de na realida-
de acabx com o programa.

3U
Se aceitarmos o ârgumento de que a nossa ecoÍromia fuâ
provavelmente com o tempo càÍactertzar-se por cada vez menos
trabalho intensivo, então logicamente o passo seguinte é termos
de desviar o nosso esquema fiscal do trabalho e focâ-lo no capi-
tal. Atualmente, os principais programas de apoio a idososr por
exemplo, são em grande parte financiados por impostos profis-
sionais que incidem ao mesmo tempo sobre os trabalhadores e
os patrões. Coletar desta forma o trabalho permite, num certo
sentido, às empresas que são de capltal ou tecnologa intensivos
<<waiat sem pagao) coltrendo os beneffcios dos Írossos merca-
-
dos e instituições ao mesmo tempo que fogem à sua obrigação
de contribuir par:à a sustentaçáo de programas que são funda-
mentais pàtr. toda a sociedade. À medida que o fardo dos im-
postos for caindo desproporcionalmente sobre as indústrias ou
empresas de mão de obra intensiva, mais irá aumentar o incenti-
vo para as empresas preteritem a mío de obra humana e opta-
rem pela sempre que possível. Em vez disso, d.-
^utomattzaçáo
víamos transitar para um modelo de fiscalidade que exigisse
mais das empresas que se baseiam muito na tecnologa e empre-
gam relativamente poucos trabalhadores. Acabaúamos por ter
de nos afastar da ideia de que os trabalhadores sustentam os re-
formados e pagam os programas sociais, e em vez disso adotat a
premissa de que seria a nossa economia global a efetuar esse
apoio. Afinal, o crescimento económico tem ultrapassado clan-
mente as taxas de geração de novos empfegos e de aumento dos
salários.
Se estas propostas o surpreendem como ambiciosas de-
mais, então resta pelo menos trma prescrição política que tem de
ser direta.Face às tendências que revimos nestas páginas, parece
evidente que não devíamos desmantelar argota a rede de segu-
tuttçà social que existe. Se de facto existe algum bom momento
p^ta reduzir drasticamente os programas de que os segmeÍrtos
mais rrulneráveis da nossa população dependem sem ao mes-
-
mo tempo pôr em andamento uma solução alternativa viável
então, com toda a cetteza, não é este o ruomento.
-
345
O ambiente político nos Estados Unidos tornou-s e tÃo tó-
xico e dividido que atê o acordo nas políticas económicas mais
convencionais parece praticamente impossível. Assim, é fâcil
considerar de todo inútil qualquer discurso sobre intenrenções
mais radicais, como o rendimento garantido. Hâ uma tentação
compreensível de nos focarmos apenas nas políticas mais pe-
queÍras, possivelmente mais viáveis, que poderío mordiscLt
^s
margens dos nossos problemas, ao mesmo tempo que deixamos
qualquer discussão sobre os maiores desafios para um ponto in-
determinado no funrro.
Isto é perigoso porque ago:ra já estamos múto adiantados
no arco do progresso da tecnologia da informaçáo. Estamos a
chegar à zona íngreme da cunra exponencial. Âs coisas vão pas-
sar-se mais depressa e o futuro pode chegar muito antes de es-
tarmos Pfontos.
 luta de décad^s pur^ a adoção da cobernrra universal de
saúde nos Estados Unidos oferece provavelmente uma boa
perspetiva do avassalador desafio que iremos enfreitaÍ para im-
plantar qualquer tipo de reforma económica de grande escala.
Passaram quase oitenta anos desde que Franklin Roosevelt pro-
pôs pela primeira vez um sistema nacional de cuidados de saúde
Lté à promulgação do Affordable Care Act. Claro que no caso
dos cuidados de saúde, a América tinha como exemplos para
ttabalhar os sistemas de todos os outros países desenvolvidos
do mundo. Mas náo hâ exemplos de um rendimento garantido
sobre o qual trabalhar ou, por outro lado, qualquer outÍa po-
-
Iítica concebid^ p^r^ adaptação às implicações da tecnologia fu-
fira, Teremos de o ir construindo conforme avançLrÍnos. Por-
tanto, náo é seguramente cedo de mais p^Ía começarmos uma
discussão produtiva.
Esta discussão terâ de mergulhar nas Írossas convicções
profundas sobre o papel do trabalho na Ílossa economi^ e n
forma como as pessoas respondem a incentivos. Todos coÍlcor-
dam que os incentivos são importantes, mas há boas tazões puta

u6
crer que os Írossos incentivos económicos podetáo de alguma
forma ser seguramente moderados. Isto aplica-se a ambos os ex-
tremos do espectro dos rendimentos. A premissa de que até as
modestamente mais altas taxas marginais de impostos sobre os
rendimentos máximos irão de alguma forma destruir o ímpeto
pelo empreendedorismo e o investimeoto é simplesmente insus-
tentável. Qo. tanto a Microsoft como a Apple tenham sido fun-
dadas em meados dos anos 70 _ período em que o escalão má_
ximo de imposto se situava nos 70 por cento é uma boa
-
prova de que os empreendedores não passam muito tempo
preocupados com os impostos máximos. De igual modo, naba-
se, a motivaçáo pata trabalhar certâmente que é importante, mas
ntrm país tão rico como os Esados Unidos, talvez esse incenti-
vo não precise de ser tão extremo ao ponto de evocar os espec-
tros dos sem-abrigo e da indigência. O nosso receio de que aca-
baremos com demasiados passageiros a bordo do vagão da
economia, e muito poucos par.^ o pnxar, devia ser reüsto à me-
dida que as máquinas se mostrarem capazes de o puxarem.
Em maio de 201,4, o número total de empregados regres-
sou findmente ao seu nível de pré-recessão, pondo fim à épica
recuperação do emprego que durou mais de seis anos. Contudo,
mesmo enquanto o emprego total recuperava,hav'ta um consen-
so generalizado de que a qualidade destes empregos tinha dimi-
nuído significativamente. A crise frzera desaparecer milhões de
empregos de classe média, enquaÍrto as posições criadas no de-
curso da retoma se encontravam desproporcionalmente no setor
dos senriços de baixos salários. Grande parte deles na indústria
do pronto-a-comer e no comércio retalhista ilsas 9ue, como
-
vimos, parecem muito propensas ao impacte dos progressos nâ
robótica e na automatizaçáo do autossenriço. O desemprego de
longa duração e o número de pessoas incapazes de encontrar
trabalho a tempo inteiro perÍnanecem nos seus mais elevados ní-
veis de sempre.

347
Escondido atrás do chamativo número do emprego estava
um outro qve üàzia consigo um aviso ameaçador quanto ao fu-
turo. Desde o início da crise financeir^, população ativa nos
^
Estados Unidos aumentou em cetc de 15 milhões de pessoasle.
Para todos estes milhões de recém-chegados ao mercado de tra-
balho, a economia não criou nenhumâs Ílovas oportunidades.
Como üziaJoht Kennedn ((mesmo que seja simplesmente pat^
não o temos de andar depressar». Isso era possível em
^gtrvut,
7963. Hoje, pode acabar por se mostrar inalcaoçâvel.

348
CONCLUSÃO

No mesmo mês em que o número total do emprego nos


Estados Unidos regressou finalmente aos níveis de pté-crise, o
governo americano pubücou dois relatórios que davam alguma
perspetiva sobre a magnitude e complexidade dos desafios que
provavelmente iremos enfrentar nas próximas décadas. O pri-
meiro, que passou quase completamente despercebido, era uma
breve análise publicada pelo Bureau of Labor Statistics que ana-
lisava como a totalidade do trabalho desempenhado no setor
privado nos EUÂ tinha mudado ao longo dos últimos quinze
anos. Mais do que simplesmente contar o número de empregos,
o Bureau explorou o número real de horas trabdhadas.
Em 1998, os trabalhadores do setor privado norte-america-
no contribúram com um total de 194 mil milhões de horas de
trabalho. Uma década e meia depois, em 2073, o valor dos bens
e serviços produzidos pelas empresas americanas crescera cetc
de 3,5 biliões, após correção da inflaçáo um aumento na pro-
-
dução de 42 por cento. O total de trabalho humano exigido p^ta,
o conseguir foi de... 194 mil milhões de horas. Shawn Sprague, o
economista do Bureau que preparou o relatório, observava que
«isto significa que na realidade não ltouue crescinento algun no nú-
mero de horas trabalhadas ao longo deste período de quinze
anos, apesâr de a população dos EUA ter aumentado em mais
de 40 milhões de pessoas e de se terem criado milhares de novas
empresas durante o mesmo período»1.
Na primera pâgqna do New York Tirues surgiram as notícias
sobre o segundo relatório, que foi publicado em 6 de maio de

349
2014. O imporante proieto interagências Avaliaçáo Nacional do
Clima supervisionado por um painel de dezasseis membros da
indústria petrolífera declarava que <<as alterações climáticas, ou-
trora consideradas assunto púà um futuro distante, tinham ago-
ra ganho ntzes no presentef. O relatório obsefrr»và que «os ve-
rões são mais longos e mais quentes, e os períodos prolongados
de calor forz do comum tinham uma duração superior à que
qualquer americano vivo conhecia.»». Os Estados Unidos iá assis-
úam a um aumento extraordinâno na frequência de chuvas tor-
renciais, que frequentemente conduzitam a inundações e estra-
gos genetahzados. O relatório previa um aumento do nível das
âgaas do mar entre 30 cm e 120 cm 2100 e observava que os
^té
<«esidentes de algumas cidades costeiras veem as suas ruas inun-
dadas com mais regularidade durante as tempestades e as marés
altas». A economia de mercado começou a ajustar-se à realidade
das alterações cümáticas; nas âreas mais vulneráveis, os seguros
contra inundações aumeratataÍra de custo ou ficaram até comple-
tamente indisponíveis.
Entre os tecno-otimistas, há uma tendênci^ p^r^ rrljrljrrjtzat
as apreensões quanto às alterações climáticas e ao impacte am-
biental. A tecnologa é vista numa só dimensão: é uma força uni-
versalmente positiva cujo progresso exponencial fuá com certeze.
salvar-nos de quaisquer perigos que nos aguardem. A energia
limpa em abundância fuâ ahmentàt a nossa economia muito an-
tes de o esperarÍnos, e inovações em âtets como a dessaliniza-
çáo da árW do mar e reciclagem mais eficiente chegarão a tem-
po de evitar quaisquer consequências drasticamente negativas.
Justifica-se decerto algum otimismo. Especialmente a energia
solar foihâ pouco sujeita a :uma tendência do tipo Lei de Moore
que está rapidamente a fazer baixar os preços. A capacidade fo-
tovoltaica globalmente instalada tem vindo a duplic at a cada
dois anos e meio3. Os otimistas mais radicais acreditam que po-
demos obter toda a energpa de que necessitamos a partir do sol
nos inícios da próxima década de 304. Mas persistem desafios

350
significativos; um problema é que, embora os custos dos pró-
prios painéis solares tenham vindo a cair rapidamente, outros
custos importantes como os de equipamento periférico e ins-
talaçáo
-
nfie foram, até agota, suieitos à mesma taxà de pro-
gresso.
-
Uma visão mais realista sugere que precisaremos de confiar
numa combinação de inovação e regulamentação se quisermos
ter sucesso na mitigação e adaptaçào às mudanças climáticas.
A história do futuro não vai ser sobre um simples concurso en-
üe a tecnologia e o impacte ambientd. Será muito mais compü-
cada do que isso. Tal como vimos, o progresso da tecnologia da
informação tem o seu próprio lado negro, e se resultar no de-
semprego generaüzado ou ameaçat a segurânça económica de
uma grande parte da nossa população, os perigos apresentados
pelas alterações climáticas passarão a ser politicamente ainda
tratat
mais dificeis de
Um estudo de 2013 rcahzado por investigadores das uni-
versidades de Yale e George Mason apurou que cerca de 63 por
cento dos americanos acteüta que a altetação do clima está" a
ocorrer, e que apenas metade destes estão no mínimo algo preo-
cupados com as suas implicações futurass. Contudo, run estudo
mais recente da Gallup apresenta provavelmente as coisas numa
perspetiva melhof. Numa lista das quinze prlurrcipais preocuPa-
ções, as alteraÇões climáticas surgem em décimo quarto lugar.
A pdmein da lista é a economil, e paÍà a maioria dos inquiridos
médios «a economia"»> tem realmente que ver com emPfegos e
com os salários que daí provêm.
A história mostra claramente que quando há escassez de
empregos, o receio de ainda mais desemprego torna-se uma
ferramenta poderosa nâs mãos dos políticos e dos interesses es-
peciais que se opõem à açáo sobre o ambiente. Este foi, por
exemplo, o caso dos estados em que a extração de carvão foi
historicamente uma importante fonte de postos de trabalho,
apesar de esse emprego na indústria mineira ter sido devastado

351
não pela regulamentação ambiental, mas sim pela mecaÍttzaçío.
As grandes empresas com número arrda mais reduzido de em-
pregos pata oferecer põem usualmente cidades e estados uns
contra os outros, perseguindo impostos mais baixos, subsídios
governamentais e überdade de replamentação.
Âlém dos Estados Unidos e de outros países desenvolvi-
dos, a situação pode de longe ser muito mais perigosa. Como vi-
mos, os empregos na indústria transformadota estão a desapare-
cer em todo o globo à velocidade de um estalar de dedos.
 manuÍatura de tabalho intensivo como caminho pàta a pros-
peridade pode começar evapotar-se para muitos países desen-
^
volvidos ao mesmo tempo que as técnicas de cultivo mais efi-
cientes iú,o afastando as pessoas dos estilos de vida rurais.
Muitos destes países irão sofrer impactes muito mais severos das
alterações climáticas e estão sujeitos a uma significativa degrada-
ção ambiental. No pior cenâno, umâ combinação de inseguran-
ça económica genenhzada, seca e aumento dos preços dos ali-
mentos pode acabar por condazir à instabilidade política e
social.
O maior risco é virmos a enfrentar uma (cempestade per-
feitar» uma situação em que o desemprego tecnológico e o
-
impacte ambiental se desenvolvam aproximadamente em parale-
lo, reforçando-s e e Lté talvez ampliando-se mutuamente. Se,
connrdo, pudermos aproveitar por completo o progresso tecno-
lógico como trma solução sm§era reconhecendo e adaptan-
-
do-nos às suas implicações no emprego e nà distribuição do ren-
dimento sn1[6 o desfecho pode ser de longe mais otimista.
-
Negociar um caminho por entre estas forças enredadas e cons-
tnrir um futuro que ofereça segurança e prosperidade geralmen-
te sustentadas pode vtÍ a ser o maior desafio do nosso tempo.

352
AGRÂDECIMENTOS

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a toda a equipa da


Basic Books e especialmente ao meu extraordinário editor T.
- por terem trabalhado comigo P^ta tornaÍ este li-
J. Kalleher
-
vro uma realidade. O meu agente Don Fehr, da Trident Media,
foi da maior importância ao ajudar este proieto a encontrar a sua
casâ na Basic Books.
Estou também extremamente gruto aos muitos leitores do
meu anterior livro, Tlte Ligltts in tbe Tunnel, que me escreveram
com sugestões e críticas, bem como com exemplos demonstrati-
vos de como a tendência implacável nrmo à automadzaçío está
a desenvolver-se no mundo real. Muitas destas ideias e opiniões
aiudxam-me a aperfeiçoar o meu Pensamento enquanto taba-
thava neste livro. Agradeço especialmente a Abhas Gupta da
Mohr Davidow Ventures, que me indicou alguns dos exemplos
específicos ciados nestas práginas e também me ofereceu muitas
e valiosas sqgestões depois de ler uma primeira versão do üvro.
Muitos dos gráficos neste livro foram obtidos com recurso
a dados do excelente sistema Federal Resenre Economic Data
€RED) fornecido pelo Federal Reserve Bank of St. Louis. As
séries de dados específicas que usei encontram-se referidas nas
notas. Incentivo todos os leitores interessados a visiarem o web-
sitedo FRED e experimentarem este recurso notável. Agradeço
também a Lawrence Mishel, do Economic Poücy Institute, por
me ter permitido reproduzir a sua anáJise que mosüa a profunda
divergência no crescimento da produtividade e da remuneraçáo

353
nos Estados Unidos, e a Simon Colton por me ter facultado
trma ilusuação criada pela aphcação artística de inteligência atti.
ficial Tlte Painting Fool.
Por fim, agradeço à minha famflta, e especialmente à minha
querida mulher, Xiaoxiao Zhao, pelo seu apoio e paciência du-
rante o longo processo (e muitas longas noites) que acab àrarm
por conduzir a este livro.

354
NOTAS

INrnoouçÃo

1. Salários médios para uabalhadores de produção ou sem funçôes de super-


visão: Tlte Economic Report of tlte Presideü, 201 3, Table B-47 , http: / /
www.whitehou s e. gov/ site s / def ault / frle s / do c s / erp20 7 3 / full-20 1 3-

economic-repot-of-úe4residenepdf. A abela mostta um pico nos salários

semanais de cerca de 341 dólares em 7973 e de 295 dólares em dezembro


de 2012, medidos em dólares de 1984. Produtividade: Fonte: FRED, Fe-
deral Reserve Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis: Non-
farm Business Sector: Real Output Per Hour of All Persons, Index
2009=100, Seasonally Adiusted [OPHNFB]; US Department of Labor:
Bureau of Labor Statistics; https: / / rcsearch.stlouisfed.org / fted2 / seies /
OPHNFB/; consultado em 29 de abril de 2014.
2. Neil Irwin, <rAughts Were a Lost Decade for U.S. Economy,'§7'orkers»»,
lYasltington Post, 2 de abdl de 201 0, http:/ /www.washiogtonpost.com/
wp-dyn/ content/ article / 201 0 / 01 / 0l / AR20 1 00 1 01 01 1 96.hünl.
3. Ibid.

CepÍruro 1

1. John Markoff, «Skilled Worlq §íiúout the §Torkeo»,NewYorkTimes,lS de


agosto de 207 2, http: / /www.nytimes.c om / 2012 / 08 / 19 / busines s /new-
wave-o f-adept-robots-is-changing-global-industry.html.
2. Damon Lavrinc, «Peek Inside Tesla's Robotic Factorp», lVired,com,16 de
ulho de 207 3, http: / /www.wired.com / autopia / 201 3 / 07 / tesla-plant-
f

-video/.
3. International Federation of Robotics, Industrial Robot Statistics 2073,
http:/ /www .ift .ory/ ndustrial-robots/satistics/.

355
4. Jason Tarrz, «Kinect Hackers Are Changing the Future of Robotics»»,Vircd
M agaT! n e, i ulho de 201 7, http: / / www.wired.com / m agazine / 201 1 / 06 /
mf-kinect/.
5. Esther Shein, <Eusinesses Adopting Robots for New Tasks», Cor@úer-
world, 1 de agosto de 201 3, http:/ /www.computer§/odd.com/ s / ancle /
9247 71 8 /Businesses-adoptingrobots-for-new-asks.
6. Stephanie Cüfford,,ü.S.Textile Plants Return, wiú Floors Large§ E-pty
of People»», New York Tima,72 de setembro de 2073, http://www.nytimes.
com/ 2013 / 09 / 20 / business/us-textile-factories-retum.html.
7. Ibid.
8. Sobre o aumento do salário dos trabalhadores na China e o Boston Con-
sulting Group Survey, ver <<Coming Home»,Tlte Econonist,l9 de janeiro de
2073, http : / /www. economist. com /news / special-report / 21 569 57 0 -
growing-number-american-companies-are-moving- their-manu facturing-
back-united.
9. Caroüne Baum, «So \üü'ho's Stealing China's ManufacturingJobs?»>, Bloom-
berg News, 14 de outubro de 2003, http://www.bloomberg.com/apps
/ news ?pid = newsarchive& sid = aR[4bAft 7Xw4.
10. Paul Mozur e Eva Dou, «Robots May Revolutionize China's Electronics
Mânufactufug, l[/all S nvet J omal, 24 de setembro de 2013, http: / /online.
wsi.com/news/articles/SB 10001424f,,527 023037 5960457 9U)3722607 79561 0.
77. Para mais informação sobre o custo artificialmente baixo do capital na
China, ver Michael Pettis, Auoidirg tbe Fall: Cltina's Economic Restructuring
fWashington, DC: Camegie Endowment for International Peace, 2013).
12. BanevJopson, <<I.iike to Tackle Rising Asian Labour Costs»», Financial Ti-

mes, 27 de junho de 2013, http: / /www.ft.com/inrJ / cms / s / 0 / 277 197 a6-


df6a- 7 7 e2 81 f-00 1 44feab 7de. html.
-8
13. Cofundador da Momentum Machines, Âlexandros Vardakostas, citado em
§7ade Roush, «Hamburgers, Coffee, Guitars, and Cars: A Report from
Lemnos Labs», Xconon1.com,72 de junho de 2072, htç://wvrui.xconomy.
com/ san-francisco/ 2012 / 06 / 12 / hamburgers-coffee-guitars-and-cars-a-
repoft- from-lemnos Jabs /.
1 4. Momentum Machines, webrite, http: / / momentummachines.com; David
Szondy, <úIamburger-Making Machine Churns Out Custom Burgers at In-
dustrial Speeds», Gi1yag.com,25 de novembro de 2012, http://www.
glzmag.com/hamburger-machine / 251 59 / .

1 5. McDonald's, http: / /www.aboutrncdonalds.com / mcd / our_company.html.

356
16. US Department of Labor, Bureau of Labor Statistics, News Release,
19 de dezembro de 2073, USDL-13-2393, Employment Proiections-
207, I 02} Table 8, tç: / /www.bls.gov/news.releas e / pdf / ecopro.pdf.
17. ?úana Semuels, «National Fast-Food §íage Protests Kick Off in New
Yorlo>, I-os Ange les Tima, 29 de agosto de 2073, http: / / ancles.latimes.com/
2073 / aag/ 29/business/la-fi-mo-fast-food-protests -0130829.
18. Schuyler Velasco, <<McDonald's Helpline to Employee: Go on Food
Stamps>>, Cltristim Science Monitor, 24 de outubro de 2073, htç://www.
csmonitor.com/Business/20 1 3 / 1024 / McDonald-s-helpüne-to-employee-
Go-on-food-samps.
19. Sylvia Allegretto, Marc Doussard, Dave Graham-Squire, Ken Jacobs,
Dan Thompson e Jeremy Thompson, <<Fast Food, Poverty §lages: The
Public Cost of Low-§7age Jobs in the Fast-Food Industr5»r, UC Berkeley
Labor Center, 15 de outubro de 2073,http:/ /laborcenter.berkeley.edu/
pubüccosts/fast-food poverty-wages.pdf.
20. Hiroko Tabuchi, <<For Sushi Chain, Conveyor Belts Carry Profio», /Vez
York Tirues, 30 de dezembro de 201 0, http://wunr.nytimes.c om / 2010 / 12 /
31 /business/global/3 1 sushi.htrnl.
21. Stuart Sumner, <McDonald's to Implement Touch-Screen Ordering, Com-
puting 18 de maio de 2017,http:/ /www.computing.co.uk/ctg/news/
207 2026 / mcdonalds -implement-touch- screen.

22. US Department of Labo4 Bureau of Labor Satistics, Occrpational Outlook


Handbook, 29 de março de 2012, http://www.bls.gov/ooh/About/
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23. Ned Smith, <Oicky Robots Grease the §íheels of e-Commerce», Bouiness
N ews Dai!, 2 de iunho de 2011, http: / /www.businessnewsdaily.com/ 1 038-
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24. GtegBensinger, <<Before Amazon's Drones Come úe Robots»>,lVall Smet
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20 I 0, http: / / blos. redbox. com / 207 0 / 04 / a- dry-in-the-li fe-o f-a- redbox-
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A4s-and No Clerks»>, Daill Breeqe,6 de outubro de 2013, http://www.
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offers-only-audi-a4s -x20 1 4-and-no-clerks.
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2010 / dec/ 1 7/business/la-fi -no-help-wan ted-20701277 .

358
CapÍrur-o 2

1. Sobre o último sermão e serviço religioso de Martin Luther KingJr. em


§íashington na National cathedral, ver Ben A. Franklins, <<Dr. King Hints
He'd Cancel lMarch If Aid Is Offereô,Nen,YorkTima,1 de abril de 1968,
e Nan Robertson, «johnson rrads U.S. in Moumiag 4,000 Attend Service
at Caúedral in §Tashington»», NeaYorkTima,6 de abril de 1968.
2. o texto integral do sermão «<Remaining Awake Through a Grcat Revolu-
tion» está disponível em http: / /mlk-kppO 1 stanford. edu/index.php/
.

kingpaper s / atricle/ rcmaining_awake_through_a_great _revolution/.


3. Para consulta do texto do relatório <<Triple Revolution» e uma üsta de
signatários, ver http://www.educationanddemocracy.org/FSCfiles/
C As imagens digi tali zadas do documento
-CC2aJripleRevolution.htrn.
original e respetiva carta de apresentaçáo pata o presidente Johnson estão
disponíveis em http: / / osulibrary. oregonstate. edu/ specialcollections
/coll/paulirrg/peace/paperc/7964p.7-04.html.
4. John D. Pomfreq «Guaranteed Income Âsked for Âll, Employed or Nob»,
NevYorkTima,22 de março de 1964. Sobre mais cobernrra mediática do
relatório «Ttiple Revolution»», ver Brian Steensland, Tbe Faihd ÍVefan Ran-
lstion: Aneica's Strugle oaer Graranteed Income PoliE (Princêton: Princeton
University Press, 2071), pp. a3 _44.
5. O artigo de Norbert §Tiener sobte attomaízação ê extensivamente discu-
tido e ciado porJohn Markoff em <<In l949,He Imagined an Age of Ro-
bots», NeutYorkTimes,20 de maio de2013.
6. De utraa càtte- para Robert §7eide datada de t2 de janeiro de 1983, citada
por Dan §7akefield, ed.,I(trt Vonnegtt Letters §ew York Delacorte Press,
2012),p.293.
7. Para consula ao texto de Lyndon B. Johnson, <<Remarks Upo. Signing Bill
Creating the National Commission on Technolog5r, Âutomation, and Eco-
nomic Progress», 19 de agosto de 7964, ver Gerhard Peters e John T.
§7oolley, Tbe Americm Pre$denE Proltx, http://wunnr.presidency.ucsb.edu/
ws/?pid=26M9.
8. Os relatórios da National CommissioÍr on Technology, Automation, and
Economic Progress podem ser consultados em linha em htç:/ /catalog.
hathitrust.odRecotd/009143593,httpt//catalog.hathitrust.org/Record/
007 424268 e http : / /www. rand. org/ content/ dam / rzrnd/ pub s /papers /
2013/P3478.pdf.

359
9. Paninformação sobre taxas de desemprego nos anos 50 e 60, ver <cA Brief
History of US Unemploymeno) em lYasbington Post, website, http:/ /
www.washingtonpost.com/wp -sr'r / special/business/us-unemployment-
-rate-history/.
10. Para uma bdlhante desctiçio da conceção e operação dos primeiros com-
putadores digitais e das equipas que os constflríram, ver George Dyson,
Taing's Catltedral: Tlte Origins of tlte Di§tal Uniaerse Otr"* York Vintage,
2012).
71. Par:a uma listagem dos salários médios de uabalhadores de produção ou
sem funções de supervisão ver Table B-47 em Tlte Ecorcmic Repon of úe
P resi de n t, 2 0 í i, http: / /wunn .whitehouse.gov/ sites / default/ files / docs /
ery2013/full-2013-economic-report-of-the-president.pdf.Comoseob-
serva na introdução, a tabela mostra picos de salários semanais de cerca de
347 dôlates em 1973 e de 295 em dezembro de 2012, medidos em dólares
de 1984. Aiustei o valor ao do dólar de 2013 usando o calculador de in-
flaçáo do Bureau of Labor Statistics üsponível em http://urunnr.bls.gov/
data/ infladon-cdculatot.htm.
12. Sobre médias de rendimentos por agregado famiüar oersilsPÍB per c@ita,
ver Tyler Cowen, Tbe Grcat Stagnation: Hont Ameica An All tbe law-Hangiry
Fruit of Modem Hiaory, Got Sick, and Vill (Eaentual§) Feel Better (I.{"o, York:
Dutton, 2011),p. 15, e Lane Kenworthn <«Slow Income Growú for Md-
dle America»», 3 de setembro de 2008, http://lanekenwotthy.net/ 2CflB / 09 /
03/slovr-income-growth-for-middle -ameicaf . Ajustei os números parâ re-
fletirem valores de dólar de 2013.
13. Lawrence Mishel, <<The §Tedges Between Productivity and Median Com-
pensation Growth»», Economic Policy Institute, 26 de abril de 2012,
http : / /www.epr. otg/ pubücation/ib330-productivity-vs-compensation/.
14. <<The Compensation-Productivity Gap», US Bureau of Labor Statistics,
website, 24 de fevereiro de 207 7, httpz / /www.bls.gov / oPtb / ted / 201 I /
ted-20110224.htrn.
15. John B. Taylor e Akila §V'eerapana, Pinciples of Economics (I\dason, OH:
Cengage kaming 2012),p.344. Ver especialmente o gráfico de barras e o
comentário na margem esquerda. Taylor é um economista altamente con-
siderado, especialmente conhecido pela «Taylor Rulo>, uma diretdz de po-
lítica monetâna usada pelos bancos centrâis (incluiodo a Reserva Fedeml)
para fixarem as taxas.
16. Robert H. Frank e Ben S. Bernanke, Pinciples of Econonics,3." ed. (Ne-
York McGraw Hill/hil/in, 2007), pp. 596-597 .

360
17. John Maynard Keynes, citado por David Hackett Fischer em Tbe Great
lYaae: Pria Reaohtions and tlte Rlrytbn of Historl (N"* York: Oxford Univer-
sity Press, 7996), p. 294.
18. GráÍico da quota-parte pú^ o trabalho, fonte: FRED, Federal Resewe
Economic Data., Federal Reserve Bank of St. Louis: Setor indústria e servi-
ços: quota-plrte trabalho, Index 2009=100, ajustado sazonalmente
[PRS850061731; US Department of Labor: Bureau of Labor Statistics;
https : / / research. stlouis fed .otg/ fu ed2/ series / PRS85006 1 7 3 ; consultado
em 29 de abril de 2014. A escala vertical é um índice com 100 apontado
para 2009. As percentagens da quota-pârte púà o trabalho exibidas no
gráfico (65 % e 58 7o) foram acrescentad^s p^t^ mais fácil leitura. Ver am-
bém: MargaretJacobson e Filippo Occhino, <<Behind úe Decline in La-
bor's Share of Income», Federal Reserve Bank of Cleveland, 3 de fevereiro
de 207 2 (http: / /www.cleveland fed.org/ research / ttends / 20 I 2 / 021 2 /
0lgropro.cfm).
19. Scott Thurm, <<For Big Companies, Life Is Gooô», lf,/all SneetJounal,9 de
abril de 207 2, http / / online.ws j com / amcle / SB7 000 1 4240 527 02303 8 1 54
: .

0 457 7 33 7 660 4647 39 01 8.html.


20. Ibid.
21. Gtâfrco dos lucros das empresas/PlB: Fonte: FRED, Federal Reserve
Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis: Lucros das empresas
depois de impostos (sem fVA e CCAdD, milhares de milhões de dólares,
taxa anual ajusada sazonalmente [CP]; Produto Intemo Bruto, milhares de
milhões de dólares, tâxa anual ajustada sazonalmente [GDPI;httpz/ /
research. stlouis fed. ory / fred2 / graph / ?id= CP;aces so em 29 de abril de
2014.
22. ln:o}ors IGrabarbounis e Brent Neiman, «The Global Decline of úe Labor
Share»>, National Bureau of Economic Research, §íorking Paper No. 19136,
publicado em funho de 2073, http://wqrw.nber.oqglpapers/w191 36.pdf; vet
também httpz/ / faculty.chicagobooú.edu/loukas.karabarbounis/research/
labor-share.pdf.
23. Ibid.,p.1.
24. Ibid.
25. Grâfrco da taxa de participação no mercado de trabalho, fonte: FRED,
Federal Reserve Economic Data, Federal Reserve Bank of St. Louis: Taxa
de participação da população ttiva, percentagem, aiustada sazonalmente
[C[VPART] ; http: / / rcsearch. stlouis fed. org / tu edZ / graph / ?id = CIVPART;
acesso em29 de abril de2014.
26. Os gráficos que mostram as taxas de participaçío pa:,a homens e mulheres
podem ser consultadas no website da Federal Reserve Economic Data; ver

361
http: / / rcsearch. stlouisfed.o ry/ fu ed2 / series /LN S11 30000 1 e http: / /
research.stlouisfed.od fued2/ senes/LNS1 1 300002, respetivamente.
27. Um grâfico da participação no mercado de trabalho pàrà adultos entre os
vinte e cinco e os cinquenta e quatro anos de idade pode ser consultado
em httpz / / research. stlouis fed. org / ft ed2/ gaph / ?g= 165.
28. Sobre o substâncialmente crescente número de inscrições em programas
de incapacidade, ver §Tillem Yara Zandveghe, «Interpreting úe Recent
Decline in Labor Force Participation»», Economic Reoieut-First ptaúer 2012,
Federal Reserve Bank of I(ansas Crty, p. 29,http:/ /ttnvsr.kc.frb.odpublicat/
econrev/pd f / 12q1V anzandweghe.pdf.
29. Fonte: FRED, Federal Reserve Economic Data, Federal Reserve Bank of
St. Louis: Total de empregados: Indústria e serviços, milhares de pessoas,
ajustado sazonalmente IPAYEMS]; US Department of Labor: Bureau of
Labor Satistics; https://research.stlouisfed.org / fued2/ series/PAYEMS/;
acesso em 10 de iunho de 2074.
30. Sobre o número de novos empregos necessários para acompanhar o cres-
cimento da população, ver Catherine Rampell, <<How M*yJobs Should
§7e Be Adding Each Month?», Nea York Times (blogue Ecotomix), 6 de
maio de 207 1, http: / / economix.blogs.nytimes.com / 201 1 / 05 / 06 /how-
many- j obs- should-we-be-adding-each-monú/.
31. Murat Tasci, Jobless Recoveries the New Norm?»», Federal Reserve
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Bânk of Cleveland, Research Commentatf,22 de março de 2010, httpt/ /


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32. Foco no orçamento e prioridades políticas, «Chart Book: The Legacy of
the Great Recession»», 6 de setembro de 2073, http:/ /ururur..bpp."tg/cms/
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33. Fonte: FRED, Federal Reserve Economic Data., Federal Reserve Bank of
St. Louis: Total de empregados: Indústria e senriços, milhares de pessoas,
aiustado sazonalmente [PAYEMS]; US Department of Labor: Bureau of
Labor Stati stic s ; http sz / / rcsearch. stlouis fed. org / fueü / series / PAYEUS / ;
âcesso em l0dejunho de2074.
34. A experiência de Ghayad é descrita por Maúew O'Brien em «The Terri-
Enog Reality of Long-Term Unemploymeno>, Tlte Atlantic,13 de abril de
201 3, http : / /www. theatlantic. com / busine s s / archive / 207 3 / 04 / the-
terdfting-reality-ofJong-terÍn-unemplolmr ent/ 27 4957 / .
35. Para consulta do relatório sobre desemprego de longa duração do Urban
Institute, ver Maúew OBrien, «\[fho Are úe Long-Term Unemployedà»,
Tbe Atlartic, 23 de agosto de 2073, http://wurw. theatlantic.com/business/

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de 2013, http://urunn .urban.org/uploadedp df / 412885-who-are-the-long-
term-unemployed.pdf.
36. «The Gap §Tidens Agaio» , Tlte Econoaist, 10 de março de 2012, hrtp, / /
wwsr.ecoÍromist.com/node/ 21549944.
37. Emmanuel Saez,«Striking It Richer: The Evolution of Top Incomes in the
United States»>, Universidade da Caüfórnia, Berkeley, 3 de setembro de
2013, htç: //elsa.berkeley .eduf - saez/saez-UStopincomes-201 2.pdf.
38. CIA §7orld Factbook, <<Country Comparison: Distribution of Family Inco-
me: Gini Index»», https://www.cia.gov/übrary/publications/úe-wodd
-factbook/rankorder / 2t72tankhtrnl; acesso em 29 de abril de 2014.
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40. JonaúanJames, «The College §lage Premium»», Fedetal Resetve Bank of


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clevelandfed.org/research/commen tary / 2012 / 201',-7 0.cfm.
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Poücy InstitutQ, 5 de agosto de 2073, http://unrw.progressivepohcy.otg/
2013 / 08 / no-recovery-for-young-people/.
42. NirJaimovich e Henry E. Siu, <iThe Trend Is úe Cycle: Job Polarization
and Jobless Recoveries>», National Bureau of Economic Research, §[or-
king Paper No. 18334, publicado em agosto de 2012, http://ururur.nber.
otg/ papers / w18334, também disponível em htç: / / facalty.arts.ubc.ca/
hsiu/research / polar2Ol 2033 1 .pdf.
43. Yet, por exemplo, Ben Casselman, <«Low Pay Clouds Job Gtowtl»»,lYall
S treet J o urnal, 3 de abril de 2013, http: / /online.ws j.com/article/ SB 10001 42

41 27 887 3246359 0 457 864365 40306303 7 8.html.


44. F.sta informação provém dos relatórios mensais de emprego do Buteau of
Labor Satistics. O relatório de dezembro de 2007 @ttpt//***.bls.gov/
news.release/archives / empsit-0 1 042008.pdf), Tabela Â- 5, apres enta 7 22
milhões de empregos a tempo inteiro e cerca de24 milhões de empregos a
tempo parcial. O relatório de agosto de 2013 (http://www.bls.gov/
news.release/archives/empsit-09062013.pdf), Tabela Â-8, apres erartz. ll7
milhões de empregos a tempo inteiro e 27 milhões de empregos a tempo
parcial.

363
45. David Autor, «The Polarization ofJob Opportunities in úe U.S. Labot
Markee Implications for Employment and Eaminç», um estudo publica-
do coniuntamente por The Center for American Progress e The Hamilton
Proiecg abril de 2010,pp. 8-9, http:/ /economics.mit.edu/files/5554.
46. Ibid.,p.4.
47. Ibid.,p.2.
48. Jaimovich e Sira <iThe Trend Is úe Cycle: Job Polarizaton andJobless Re-
coveries», p. 2.
49. Chrystia Freeland, <<The Rise of "Lovely'' and "Lousy''Jobs», Reuters, 12
de abril de 2072, http: / /urunnr.reuters.co m / arucle / 2072/ 04 / 72 / cohtmn
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51. Fonte: FRED, Federal Reservi Economic Data, Federal Reserve Bank of
St. Louis: Total de empregados indústria, milhares de pessoas, aiusado sa-
zonalmente [MANEMP] dividido por todos os empregados: Total indús-
mia e serviços, milhares de pessoas, aiustado sazonalmente [PAYEMS]; US
Department of Labor: Bureau of Labor Satistics; https:/ /tesearch.stlouis-
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55. Há numerosos ensaios económicos que demonstram a rclação entre finan-
ciahzaçio e desigualdade. Para um trâtâmento exaustivo, ver James K.
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Great Crisis (1.J"* York Oxford University Press, 2012). Sobre a rrJraçáo
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58. Sobre salários médios no Canadá e sindicaliztção, ver Miles Corak, <iThe

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http:/ /www.nber.orglpapers/w1 8629.pdf .

CepÍrur-o 3

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2. Para uma explicação mais detalhada sobre curvas em S no fabrico de semi-
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3. Ver, por exemplo, Michael Kanellos, «§íith 3D Chips, Samsung Leaves
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forbes.com/ sites/michaelkanell os / 201 3 / 08 / U / wrth-3d-chips-samsung-
leaves-moores-law-behind; John Markoff, <<Researchers Build a §Torking
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http://www.nytimes.c om/ 2013 /09 / 26 / science/researchers-build-a-
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6. A iornalista científicaJoy Casad calcula que a velocidade a que os neuró-


nios transmitem sinais é de cerca de meio milissegundo, substancialmente
mais lenta do que nos circuitos de computadores. Ver Joy Casad, <<How
Fast Is a Thought?>>, Examirer.cnn, 20 de agosto de 2009, http://www.
examiner. com / article/ how- fast-is-a-úought.
7. Comunicado à imprensa da IBM: «IBM Research Creates New Founda-
tion to Program SyNAPSE Chips», 8 de agosto de 2013,http:/ /frlnrance.
yahoo.com/news/ibm-research-creates-foundation-program-O4O 1 00 1 03.
html.
8. Ver, por exemplo, <<Rise of the Machines», Tlte Econonist @logae Frce Ex-
cltange), 20 de outubro de 2010, http://www.economist.com/blogs/
freeexchange / 2010 / l0 / technology.
9. Google Investor Relations, aebsite,http:/ /investor.google.com/frnancial/
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366
10. Dados históricos sobre a General Motors podem ser encontrados em http:
/ / money.cnn.com/magazines / fo*rne/ forarne500-archive/snapshots/
1979/563.htm1. A GM ganhou 3,5 mil milhões de dólares em 7979, o que
é equivalente cetc de 11 mil milhões de dólares em2072.
^
11. Scott Timberg, <jaron Lanier: The Internet Destroyed úe Middle Class»»,
Salon.con,72 de maio de 2073, http://www.salon.com /2013/05/12/
I
aron-lanier-úejntemet-destroyed-the-middle-clas s /.
12. Este vídeo pode ser visto em https: / /www.youtube.com/watch?v=
wb2cr BIUok, ou pesquise no YouTube por <«IV[an vs. Machine: §7ill Hu-
man \üíorkers Become Obsolete?». Âs observações de Kurzweil encon-
tram-se sensivelmente ao minuto 05:40.
13. RobertJensen, <<The Digital Provide: Information (fechnology), Market
Performance and §Telfare in úe South Indian Fisheries Sectoo>, puartedl
J ormal of Ecoromics, 722, no. 3 Q007): 879-924.
14. Algumas das pubücações em que é conada a história do pescador de sar-
dinhas de Kerala são O Otinista Racional de Matt Ridley, Una História do
Munfu en í00 Objetos de Neil MacGregogTbe Mobile Vaae de Mchael Say-

loq Race Against tlte Macltine de Erik Brynjolfsson e Andreur Mcfufee, Con-
teü Nation de John Blossom, Plaret India de Mira Kamdar e «To Do wiú
the Price of Fisl»», Tlte Economist,l0 de maio de2007.Eagota iunta-se à
üsa mais este livro.

CepÍrulo 4
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2. Steven Levy, «Can an Algoriúm §kite a Better News Story Than a Hu-
man RepofterlL lYind, 24 de abdl de 20l2,httP://www.wired.com/ 2012/ 04
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16 de fevereiro de 2072,httpz/ /§rvw.nytimes.com /2012/02/19/
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8. Conforme citado por Steven Levy, In tlte Plex: Hou Google Tltinks, ÍYorks,
and SbEu Our Liya (N.* York Simon and Schustet,20l7), p. 64.
9. Tom Simonite, <<Facebook Creates Sofnvare That Matches Faces Almost
as §üell as You Do»», MIT Tubnolog Reaiea,17 de março de 2014,hrrpr/ /
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that-matches-faces-almost-as-well-as-you-do/.
10. Conforme citado porJohn Markoff, «Scientists See Promise in Deep-
-Learning Programs», Ne» York Timeq 23 de novembro de 2012,http:/ /
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11. Don Peck, <«They're §íatching You at \üü'odo», Tbe Atlantic, dezembro de
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Personalized Reactions in a Social Nerworkr», 19 de novembro de 2013,
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HITOFF&P = 1 &u = 7o 2Fnetahtml%2FW OoÂ2F search-adv.htm&r= 1 &f=
G&l= 50&d= PALL&S 1 =08589407&OS=PN /08589407&RS=PN/
08589407.
13. Esta informação da §TorkFusion baseia-se numa conversa telefonica entÍe
o autor e vice-presidente de Product Marketing & Strategic Partnerships
na rü[orkFusion, em 14 de maio de 2014.
14. Este incidente é relatado por Steven Baker em FinalJeopardl: Man as. Maclti-
w and tbe puat to Knoa Eaerytltirg (I.J.- York Houghton Mifflin Harcourq
2017),p.20. A história do jantar na steakltonse ambém é conada porJohn
E. Kelly lll, Smart Macbinu: IBM'r lWatson and tbe Era of Cognitiae Co@aüng
(N.* York: Columbia University Press, 2073), p.27.Contudo, o livro de
Baker indica que alguns empregados da IBM acreditam que a ideia
de construir um computador paniogar o Jeopar@!é anterior ao iantat.
15. Rob High, «The E;ra of Cognitive Systems: An Inside Look at IBM §7at-
son and How it \üíorks», IBM Redbooks,2072, p.2,http:/ /www.redbooks.
ibm.com/ redpapers/pdfs /redp49 5 5.pdf.
16. Baker, Final Jwpar$: Man as. Macbine and tbe puut to Know Euerytlting p. 30.

368
17. Ibid.,pp.9 826.
18. Ibid.,p.68.
19. IUd.
20. lúd",p.78.
21. David Femrcci, Eric Brown,Jennifer Chu-Carroll,James Fan, David Gon-
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CapÍrur,o 5

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372
5d-b03 I 5fe2e7 2a67 7 &pageTide=Recen {/o20Heaünes&crumbTitle
-41 -1
= Mano/o20aodo/o20o/o20mtchine:o/o20BetteroÂ20writers,o/o20bettero/o20
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73. Para estatísticas sobre acidentes, ver htç://www.census.gov/compendia/
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ver http:/ /www.who .nt/ gho/ rcad-safety / motahty / en/ .

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15. Ciado por Burkhard Bilger em <cAuto Correct Has úe Self-Driving Car at
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16. John Markoff, «Google's Next Phase in Drivedess Cars: No Steering
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-consinequ-1
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30. Ibid., baseado no Quadro 15, p. 39;vet a linha <joint & Survivor, Male 65
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382
com 3 por cento de incremento anual começa em apenas 3700 dólares (ou
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37. Catl Beneükt Frey e Michael Â. Osborne, <<The Future of Employmeot:
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CapÍrur.o 9

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9. Conforme citado em IEEE Spectrum, «Tech Luminaries Address SingulaÍi-
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10. IUd.
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19. K. Eric Drexle4 Engina of Creatiott: Tbe ConingEra of Nanotultnologt(N"*
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25. Ibid.,p.2l0.

385
CapÍrulo 10

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change-not-top-urorry. aspx.

388
ÍNorcp RpMrssrvo

2001: Odisseia no EEaço (filme), 203 Âltetações climáticas, 27, 350-352


21 st Century Nanotechnology Amazon.com, 40, 41, 108, 122
Research and Development Acg inteügencia artificial e, 289
302 modelo de enregas,242
nuvem informática e, 139-742
ABB Group,34 serviço <Mechanical Tudo, 164
Acelerómeto,26 AMD (Advanced Micro Devices), 101
Acesso aos meios de prova, tendências Ametican Âidines, 229, 37 I
no,762 American Hospital Âssociatio ry 212,
ACFR,51 377
aarAustrdian Centre for Field Âmerican Motors, 107
Robotics (ACFR), Ândatilhos robóticos, 203
Adenharq Nich 115 Ândreesen,Mar.c,l43
Aeúeon,Inc.,200 Andmid,29, 46,171,759
Affordable Care Acg 196,213,216, Aperfeiçoamento recursivo,
217,258,346 Inteligência Ârtificial Forte e, 291
Âgência Nacional de Padrões e aplicações, dificuldade de rendibilizar,
Tecnologia, 123,134 711
Agricultura australiana, 13 Apple Vatclt,207
fudcutturâ, 17, 30, 48-52, 375 Apple, 367, 37 4, 384, 386
Alasca, dividendo atllal, 333 Aprcndizaçm mecânica, l4c., 7M,
Âlemanha, 68, 189,216 762,769,170,288,315
Âlgoritmos rer tambám Âprendiz4gem profunda
*celerzrçáo no desenvolvimento de, Âprendizaçm profunda, 725, 126,
702 141,159,290
airne ç
aos empregos, 18, 117, 118 Ârai, Notiko, 167
aptendtzagem mecânic a, 122, 126, Âtamco,98
135, 736, 143-152, 17 0, 17 1 Ârgumentos económicos a favot do
de transação automática, 86, rendimento garantido, 329 -332
149-152 Arieh Dan"75,363
efrcâcia crescente de, 9 4 Ârmadilha da pobrcza, 326, 337
All Can Be l-ost: Tbe Füsk of PútingOu Armadilha de hqwdez, 27 4
Knoahdge in tbe Hands of Macbines Arma,zéns automaúados, operadores
(Carr),316 de realho em linha e,4O-42

389
Ârrorr, Kenneth, 209, 270, 219, 377 Ver tambám Robótica; Robôs
Arte, criação por máquinas, 147,149 Automóveis autónomos, 16, 127,226
Artigos de iomais, automatizados, 116 como recurso partilhável 238-241
AT&T, 175,206,214 Automóveis sem condutor, 232,237,
Audi,236,358 244
Australian Centre for Field Robotics aar Âutomóveis autónomos
(ÂcFR), 51 Âutor, David,79,364
AutoDesk,293 Avaliação Nacional do Clima,350
Âutomatização, Avaliaçôes por empregado, setoÍ da
automóveis e (aar automóveis tecnologia e,225
autónomos) Aterage Is Oaer (Cowen), 762,765,372
colarinho branco, 729, 729, 140., Aviação, 97,317,379
147,166 AVI, Ínc.,42
como ameaça aos trabalhadores Ayres, lan, 764, 165, 37 2
com vadados níveis de formação
e qualificaçáo, 77, 18, 90 Babbage, Chades, 112
deslocalização como precursora da, Baker, Stephen, 731, 137, 368
156-158 Ban*,Hugo, 159
do emprego total amedcmo,279 Barrag James, 289, 297, 386
efeito na industria chines4 25,33, Baxter (robô), 27, 28, 30, 32, 34
34,282,283 BD FocalPoint GS Imagiag System,
efeito nos preços, 27 1, 27 2 198
empregos de baixos salários e, 53 Beaudry, Paal,766,372
empregos em cuidados de saúde e, Bell Labs,206
227-223 Berg, Ândrerr G., 270, 381, 382
paúbola da invasão alienígena, Bemanke, Ben,64,360
246-248,300 Brlger, Burkhard, 238, 379
perspetiva antiautomati zaçáo, BinCam 164
316-320 Bitter Pill @Íilt), 207,377
polarizaçào do mercado de trabalho Blinder, Alan, 155, 757, 37 7
er78r79 Blockbuster, N,44,358
previsôes do efeito da, 56-60 Bloombetg 37 7, 37 4, 37 6-37 9, 382,
relatório da Tripla Revolução, 56, 383
57,59 Bluestone, Bany,382
çlççalizaçào,33 Bolha de cursos de dreito,222
risco da, 319 Borders,40
setor do comércio retalhisa e, Boston Consulting Group, 32,356
q-46 Boston Gbbe (omal), 193
setor dos serviços e,35-46 Boston Red Sox, 115
soluções para a ascensão da, Boston, Universidade, 183
339-345 Bowley, Ârthur, 65, 66, 69
(wr tanbén Rendimento básico Brill, Steven,207,377
incondiciona[) Bdn, Sergey, 238, 240, 294
tecnologia de informaçáo e,52 Bring Steven, 313,386

390
Brooks, Rodnen 27 c14,74,117
Brourn,Jerry, 175 Cérebro humano, engenharia ÍeveÍsa
Brynfolfsson, Erit 91, 760, 377, 367, do,296
386 Cheney, Dick,299
Bureau of Labor Satistics, 37,40, Chic4go, portal de dados da cidade de,
63-66, 69, 7 l, 7 3, 84, 204, 205, 720
279, 349, 355, 357, 360-364, 37 g, China
378,381,387 automatização industrial na, 283
Busca de rend4 frnanadização e, 85 deslocalizaçáo e, 32, 153, 158, 159,
Bush, Georç §7., 153 162,293
Cthco,295 gastos do consumidor americano e,
California Institute of Technology, 84,280
174,300 Sobahztçío e, 83, 753, 284
Camiões, automatizado s, 48, 243 licenciados universitário s

Can Nanotecbrologt Cnate UtEia? sobrequalificados para as suas


(Kaku),307 ocupações ta,313
Cmadâ, 43, 68,88, 313, 317 , 334,365, procura do consumidor n4280
387 quota-parte do produto intemo na,
Capacidade cognitiva, competição 68
global poÍ empregos e, 104, 158 relocalização e,32,33
Crprt l superinteügê rltcia e, 29 5

doações individuais de, 341 axa de poupânça n4281-283


impostos sobre,341 China rebalancing (reaiustamento na
O Capital no Sédo)Õí (Piketty),347 Chrna),282
Capitalismo, tendênci par^ Chipes tridimensionais, 1 01
^ ^
automatizaçào e,319 Choms§, Noam, 769, 295, 384
Captura rcgalatôia,2l9 Christensen, Clayton, 184, 37 4
Car and Diwr (tanistt),237 C ltrudch of Higber E&tcation (omal),
Carr, Nicholas, 10d 376,317,319, 790,373,374
320,396 Chrysler, 107
Causa, megadados e correlação vs., Ciberaaques, Íruvem robótica e,48
727 Cibernétic a, 56, SSCircuit Gty,,+0
CBE, 179 Cisco,293
üer competency-based education Citigroup, 139,257
(cBE) Classe média, efeito da economia
CBS Nevrs,311 digitâle distribúção de cauda
CDOs, 86 longa na, 109
wrobigaçôes de dívida Classificação de provas pot máquinas,
colateizadas (CDOs) 769-171
Cenário <üma cinzentar», 303, 304, 307 Cleveland Clinic, 137
O cenário da criança ocupada (Barrat), Clifford, Stephanie, 31, 356
297 Clinton, Bill,302
Center for Economic and Poücy Ctoud Robotics 46
Reseatch, 220,377,386 aarNuvem robótica

391
Cobertura uoiversd de saúde, 346 Craigsüsg 129
Col@so: Asarsão e pteda das Sociedafus Creative Machines Lab (Jniversidade
Hmanas @iamond), 13 Cornell), 144,370
Colhgt Unbomd (Selingo), 782, 37 3, 37 4 Credenciais, ensino supedor, 314
Colton, Simon, 748, 149, 354 Crescimento económico, 24, 267 -27 0
Comissão Ad Hoc sobre a Tripla Ciação/genção de emprego, 12
Revolução,56 âcompanhar a população, 52, 72,
Comissão Nacional peÍ 377
^Tecnologia,
Âutomatização e Progtesso após a Grande Recessão,347
Económico,59 crescimento, 52, 7 l, 317
Compensação,280,332 diminuição de,71,72
aerSalânos empresas na Intemet uersrls ndúsuia
Competência, aquisição de (por automóvel e,707
computedores), 18,53 pot década, 71
Conpctery-based e&tcaüon (CBE), 179 tecnologia de informação e,225
Compuação cognitiv4 103, 104, 713, Criatiüdade, máquinas que
130,739 demonstram, | 4, 746, 1 47, 246
Compuação cognitiva, chipe de, 103 Crichton, Mchael, 303
Compuador digital, efeito do, 60 Crise financeira, díüda e,252
Compuadores Cruwd soneing 129
aceleração do podeq 15, 16,98 Cuidados de saúde
aquis(ão de aptidôes por, 17,18 consoüdaçáo da indústria, 213-21 5,
âtrmento da capacidade de custos e naítreza de um mercado
memória,93,94 disfuncional,207-224
cufira em S dos, 100 impacte da tecnologia da
inovação e melhoramentos em, informação nos, 1 89-191
99-105 megadados e,205
previsão do impacte dos, 57-60 percentagem na economia dos
aer também Lei de Moore, EUA, 190
Conceção filosófica,316 robôs de cuidados çriátricos,
Conselho de Consultores Económicos 201-204
da Casa Branca, 153 robótica hospitalar e farmacêutica,
Consumidores 198-200
chineses, 280-285 sistema de pagador único, 216-218
hipótese do rendimento arifas <<universais>>, 213, 277
permanente,265 aer tambán Medicina
procura e,248,249 Curiosidade, máquinas que
trabalhadores enquanto, 245, 246, demonsram, lM,747
248,249,278,279 Curvas em S,98-101, 372,366
Controlo da glucose, 206 Custo de opornrnidade, vantâgem
Comeü, Creative Machines Lab da comparativa e, 106
Univetsidad e de, 1 M, 37 0 Custos
Coursera, 173,174,178 cuidados de saúde, 207-224
Cowen, Tyler, 95, 162, 165, 360, 372 ensino superior, 181

392
Custos com habiação, rendimento da tecnologia da informaçio 82
garantido e,268 do desenvolvimento de sofivan,93
Cyberdyne,203 eletrónica,90, 153
Cyborg, 142,743 emprqlos de colarinho branco e,
Cycle Computing 143 752-760
Cynamon, Barry, 252, 253, 269, 380 MOOCs e,187
polaÁzaçío do mercado de trabalho
Dana-Farber Cancer Institute, 194 e,79
Darci (sofiwarc),149 Deslocalização eletrónica, 90, 153
DÂRPA, DiNardo, Courtnen 192, 193, 37 5
rrr Defense Advanced Research Dispositivos móveis, como ferramena
Proiects Agency (DÂRPA) de autosserviço no comércio
Deep Blue, computado4 76, 137, 161 retalhisa,45
Defense Advanced Research Projects Distribuição de cauda longâ, no setor
Âçncy (DARPÂ), 713, 232, 233, da Intemet, 108, 111,210
378 Distribuição <<o vencedor ganha tudo>»,
deflação, 65, 27 | -27 3, 277 distribuição, 108, 117, 112, 743,
Degradação ambiental, insegurança 270
económica e,352 Dívida
Dela Cost ProiecrlS2 cdse financ eht e, 27 4, 27 5
Dela Electronics, Inc., 33 deflação e,273
Democratas, distribuição do desigualdade de rendimentos e
rendimento preferida pelos, 75 gastos do consumido4 270
Derivados financeiros, 86, 27 5 relação com rendimentos, 252,253
Desemprego Dividendo do adadão, 332
comportamento do consumidor e, Divisão digitâI, 110
260,273 Divisão do trabalho, 104
de longa duração, 11,20,71 Dour News Service, 150
efeitos ambienais do receio de,351, Dr. Houc (série de teleüsão), 189
352 Drexler, IC Eric, 301-307, 385
formaçío /reciclagem e, 371, 312 Drum, Kevin, 2Q,379
iovem,278,382 Duoning, David, 43,44
máquinas e,77,72
axas de, 343,360 Eamed Income Ta:r Credit (EITQ,
Desemprego de lo4ga duração, 17,20, 337,344
7 l, 7 2, 266, 27 3, 347, 362 eBay,4O, 108
Desigualdade de rendimentos, 14, 20 Economia
a política como motor da, 88 complexidade da,266
anmento A4 1 4, 7 +7 6, 267 -27 0 definição de,331n
crescimento económico e, 267 -27 0 efeito das alteraçôes climáticas na,
economistas sobre q 256-260 350,351
financialização e,86 pós-escassez,307
gastos do consumidor e,257-255 Economia digrt l, opornrnidades de
Deslocalização cauda longa na, 109

393
Economia informal, 109, 110 nanotecnologia e, 306
Economia pós-escass ez, 307 relação enue tecnologia e, 225,226
Economia, modelos matemático e, 12, ver tambám Desemprego
2s9 Empregos
Economias emergentes, procura do a tempo parcial, TS-80
consumidor nas,280 desaparecimento da classe médi4
Economic Poücy Instinrte, 63,204, 78
353, 360, 37 2, 377, 381, 386 poder de compra e,20,249
Economistas rclocqhzação e indústri a, 31 -35
sobre desigualdade de rendimentos, salários baixos, 53
256,270 aer tambáa Emptego; Empregos
sobre o impacte da automatização, com base no conhecimento;
91 Empregos de colarinho branco
e-D iscoaerl (sofivarc), 1 63 Empregos a tempo parcial,78,363
Edison,lltomas,292 Empregos com base no
edX"772,174,178 conhecimento, 187
Efeitos de retomo, 260, 266 attomaitzação de, 11 6, 717
Fgito,75 colaboração com máquinas e,
EITC,337,344 160-168
aerBaned Income Tax Credit megadados e,726-730
@ITq aertambám Empregos de colarinho
El Camino Hospial (Mounain View, branco
Califómia),200 Empregos da classe média,
F)ance,l29 desaparecimento de, 78, 244, 257
Eletricidade, comparação de Empregos de baixos salários,
tecnologia da informação com, automatizaçáo e, 32, 264, 347
703,104,226 Empregos de colarinho branco
Elite financeira, influência política automatização de, 77, 129, l4f, 147,
exercida pela, 75, 90 152,159,766,319
Elsiun (ftne),276 deslocalização e, 152, 159, 166
Em linha, rcr também empregos com base no
atividades e distribuição de lucros conhecimento
<<o vencedor ganha tudo», 108, EmpÉstimos a estudante s, 166, 248,
117 270,374
cursos, 172, 17 6, 177, 184, 187 Energia solar,305,350
feramena de tradução, 122, 169 Engenharia reversa do cétebto,296
vendas a retalho, 40,41,138 Er§na of Cnaüon @rexler),301,303,
Emanuel, E;zel<tel,212 385
Employment Policies Institute, 38 ENIAC @lectronic Numerical
Emprego Integrator and Computer), 58
automóveis autónomos e, 226 Ensino superiot
deslocalização e, 79, 753, 755, 157, créditos académicos e diplomas
158,762,187 com base em competência,l77,
impressão 3D e,226 180

394
cursos em linha, 172,776,177,184, Esagflação, \4,59
r87 Est4gnação de rendimentos, efeitos
custos do, 175, 777,787-788 económicos da, 61, 83, 89, 94,
diminuição de receias parao,3l2 9 5, 223, 254, 263, 27 3, 27 8

investimento em universidades Estagnação secular, 341


púbücas,343 Eu Robot (filme), 147
possibilidade de disrupção de Eugeniâ,295
tecnologia da informação no, 185 Ewtqa,74+148,370
Ensino/educação Europa, licenciados sobrequalificados
colaboração com máquinas e, para as ocupações n4313
160-168 Extermirrado Inplacáael (filnes), 48, 203
diminuição de receias para, grlslsalizalção
312-316 da tecnologia de informação,82
efeito no rendim ento, 7 6, 77 arefas de pesquisapaÍa, acesso aos
n^íxez^ do problema do meios de prova, 162,763
desemprego e,377,372 aer tam bám Deslocalização
aer tanbém robôs educacionais no
ensino supedor Nev lVorld of 3D Printing
Fabricated: Tbe
Entrega com base em drones,242,357 (Lipson), 231,378
Envenenamento por cobalto, 189, Facebook, 726, 142, 150, 179, 197,
790,374 225, 289, 290, 29 4, 368, 369
Espanha, 148,278 Fallows, Jame s, 102, 366
Especialização ocupacional, 1 04 Fartasüc Vryage (Kurzweil e
ESPN, 254,380 Grossman),294
Esados Unidos Farmacêuticos, 19, 199, 227, 222
cuidados de saúde como F tzzan, Steven, 252, 253, 269, 380

percentagem da economia, 189, Federal Dnrg Administration @DA),


190 lg5, 197, 220, 222, 377, 37 I
cuidados çtiátricos nos, 201 Federal Reserve Bank of Cleveland,
desigualdade dos rendimentos Ílos, 72,361,362,363
74-76 Federal Resewe Bank of San
esagnação económica nos, 95 Francisco, 84,364
financiamento pelos conuibuintes Fernald, John G., 330, 331, 387
da investigação básica em Ferramena de di4gnóstico, redefinir o
tecnologia da informação nos, lYatson como, 137, 738, l9l
112,113 Ferramentas de tradução, 122, 723,
gastos do consumidor nos, 84 159
indústria têxtit 31,32 Femrcci, David, 133-135, 137, 152,
ücenciados sobrequalificados para 369,371
. ocupações nos,313 Feynman, Richard, 300-302, 385
polanzaçio do mercado de trabdho Filipinas, desigualdade de rendimentos
nos,77-80 nasr74
política de imigração e Fkal Jnpar@ (Baker), 137, 137, 368
automatizaçáo da agricultura nos, Financiador único do sistema de
52 saúde, 214,216,218

395
Financializ açío, 85-87, 364 General Motors, 107, 367
Financiamento govemamental da Georgia Institute of Technology
pesquisa em nanotecnologia, 302, (Georgta Tech), MOOC e,l'75,
303,385 185,202
Fluid,Inc., 138,369 Geraci, Robert, 294, 384
F\jfr.,270 Ghayad, Rând,73,362
<<For Big Companies, Life Is Gooôr Globalização, 11, 82, 83, 90, 153, 284
(lYall Snet Jounal), 67,361 Goghs (apücação), 47, 48
Foúes (revisa), 176, 366 Gold,Jennn 212,377
Ford Motor Company, 107,245 Goldman Sachs,86
Ford, Henry,l72 Good Data,143
Ford, Henry,11,245 Google,
Formação com base na competência algodtmo de pesquisâ com base em
aer competerE-based edrcaüon (CBE)
palavra-chave,133
apücação Goghs,47
Fomecedores de cuidados de saúde,
mercado dos cuidados de saúde aqúsição de YouTub e, 225
automóveis autonómos e, 233, 234
e, 21 I -273, 21 5 -218, 223
empresas staú-rp de robóticq
Foxconn, 33-35,38
aquisição de,46,131
França,50,68, 105,216
ferramena de tradução em linh4
<<Free Trade's Great, but Offshoriag
t22
Ratdes Me» (Blinder), 155,371
genção de teceia e, 108
Freeland, Chrystia, 80, 364
inteüçncia artificial e, 289
Frcetets,277
megadados e, 118
Fren Carl Benedikq 90, 279, 365, 371,
monitor de glucose,206
383
Números sobre lucros e emprego,
Friedman, Milton, 11
107
Friedman, Thomas, l7 4, 373
ntrvem informátic u l4O, 142, 166
Futuro distópico, automrtaação e
nuvem robótica e,46-48
previsôes de, 58
programa de correio eletrónico
personalizado e respostâs pâra
Gap, 41,360 redes sociais, 127
Gasto/consumo do consumido 4 253, sistema Andmi429,l59
255 Thrun e Norvig e,772,173,176,
desigualdade de rendimentos e,20, 181
21,257,255 Udacity, 175
procufa e,248 Universidade da Singuladdade e,
rendimento e,333-334 293
Gastos do consumido4 251, 253, 27 I Gordon, Robert J., 95, 365
Gastos pessoais de consumo GPS (Gtobal Positioning System), 127,
aer Persorul 263,377
(PCE) Grabit Inc.,30
Gates, Btll,294 Grande Recessão
Genentech,293 atrmento de emprego a tempo
General Electric, 200, 229 parcial e, 78

396
díüda e,252 DeE Blue,l37,16l
lucros das empresas yerzlvendas a SyNAPSE, 113
retalho durante a retoma ü,256 lYatw, 45, 130-141, 146, 152, 156,
produtividade e, 260, 262 167
retoma do emprego e,71,72,347 Identificação de esnrdantes, cursos em
Green, Daüd A,766,372 linha e, 177-179
Grossman,I.ev, 147,370 Identificação por radiofrequência
Grossman,Tetry,294 (I.FID),200,203
Grôtschel, Martin, 102 Iémen,75
Grupos de pressão dos interesses de Imigração virtual, 154, 759
negócios, política económica e, Imigração, 52, 754, 201, 337
88 Imortalidade, Singularidad e e, 293-295
Guerrero, Madimir, 115 Imposto sobre monóxido de carbono,
338
Hacker,Jacob S.,88 Imposto sobre o consumo,339
HAL Impostos/fiscalidade, 89, 276, 254,
aerHybid Assistive Limb (HÂL) 259, 273, 311, 339, 339, 341, 345,
Hale, Galina, 84,364 347,352,361,390
Hamblin, JaÍnes, 296, 384 Impressão 3D, 33, 226-232, 269, 378
Hammond, Kristian, 117 In OsrHarrds: A Plan to Rephce tbe
Hanrard, Universidade, edX e,174, Vefov S tatc $úxrty), 327
t78 Inc. $adrsa),292
Harvest Automation, 50, 358,373 Incentivos
Hawking, Stepherq 2887, 290, 291, económicos,279
296,3U rendimento básico incondicional e,
Hayelq Frieddch, 56, 321-323, 325, 261,264
386 Índia, 32, 111, 752, 754, 158, 152, 367
Highway Loss Daa Institute,236 Indian Instinrte of Technolog5r, 305
Hinton, Geoffuey,126 Índice de Preços no Consumidor
Hipótese do rendimento pennanente, GPq,65
257,265 Indonésia,35
Hobiin, Plzu;t,84,364 Indústria
Homens e particçação na força de Indústria da constmção, Impressão a
trabalho,69 3D e, 231,232,269
<GIow Did Economists Get It So Indústria de pronto-a-comer, 36-N,
§írongà (Krugman), 259, 381 160, 213, 263, 265, 320, 347
Hybrid Assistive Limb (ÍlAL),202, Indústria têxtil nos EUA, 31,32
203,372,396 Industrial Perception, Inc., 24, 25, 27,
42,46,47
m Inflação de credenciais, 314
aer inteügência artificial Inflação, relação ente salários e
Iamu,l48,370 produtividade e, 62, 64, 65
IBM Infrastnrnrras públicas, investimento
chipe de compuação cognitiva, 103 em,343

397
Iniciativa Naciond para Tecnologia Intemational Technology Roadmap
^
var National Nanotechnology for Semiconductors (ITRS), 100,
Initiative (NND 355
Inovação, 27,26,29,62,80, 81, 92, Intemet
94-99, 102, 731,784, 185,202, começo da,81
206, 208, 215, 218, 243, 257, 284, distribuição <<o vencedor ganha
285,293,308, 314, 351 tudo» e, 107-111
In-Q-Tel, 117 efeito na capacidade de pensar,316
Inside Higber Ed (website), 7'77, 780, 37 3, empresas geradas pela, 107, 108
374 megadados e, 118
lnstagrum,225 opornrnidades de negócios e, 108
Instalações para terrpia de protões, recursos médicos n4192
272 Invemos da inteligênci a artifrcral, 289
Institute of Medicine, 194 Investimento
Instituto de Genómica de Pequim,295 em infraestruturas púbücas, 7 6, 343
Instituto Nacional de Informática, em tecnologia de redução de mão
Japão,767 de obra, 285,286
Intel, 101
recessões e,285
Inteügência
íPad/íPod 42,229
máquina, 72,75,80
IPC
repücação de, 75
aerinüce de Preços no Consumidor
superinteügência,, 236
Inteligência artifi cial,
GPq
iPborc, 29, 708, 1ll, 209, 228
aüsos sobre os perigos da,229
iRobot,27
corrida ao ârÍnamento e,232,
I-Sur (profetQ, 200,376
239-24íJ.
ltiüa,68,278
deslocalização e, 156, 157
ITRS
tuac4 287-290
y er lntemational Technology
na medicin4 191-198
Roadmap for Semiconductors
ver tambám Inteligência artificial
(rTRS)
forte; Automatização; Tecnologia
da informação Jaimovich, Nir, 7 8, 79, 363, 364
Inteligênci t arufrcial forte, 289, 290, Jrpão
295,296 colheita automática no, 50
a Singutaridade e, 291-297 mão de obra grisdha e,279
lado negto da,297 quota-parte do trabalho no PIB do,
Inteliçnci a arr;Lfrcral furc4 290 68
Inteügência mecânic4 46, 48, 91, 103.- robôs de cuidados getiátricos no,
107, 712, 203, 226, 287, 295, 297 201-203
ur artificial
tambám Inteligência Jefferson, Thomas, 323
Intelligent Information Laboratory Jennings, Ken, 130, 734,136
(Jniversidade Norúwestem), Jensen, Robert, lll, 367
116 l ropordJ ! (coocurso de televisão),
Intemational Fedetation of Robotics, lYatsott e, 17, 130-137, 139, 140,
25 192,195,368

398
Jobs, Steve, 209,377 kry, Steven, 117, 367, 368
Johns Hopkins, 174 Ley de Bowlen 65,66,69
Johnson, Lyndon, 55, 322 Lickef Chades, 130
Jones, Chades 1., 330, 387 Lipson, Hod, lU, 231, 370, 378
Jon Bill,303,385 London Symphony Orchestra, 148
Los Ançles Angels, 115
KNEIL 28 Lucros das grandes empresas
IQiser Healtb News, 212, 377 como quota-pârte do PIB, 68,255,
Kaku, Michio,307 256
Kambarbounis, f,oukas, 68, 361 corelação uensils c tts , megadados
Kasparov, Garry, 16, 131, 761, 298 e,727,122,137
Kennedn John F., 312, 348, 386 retoma a partir da Grande Recessão
Kerala, o pescador de sardinhas e os e,66,67,255,256
telemóveis,777,367 setor financeiro, 85
Keynes, John Maynard, 65, 259, 361, Luddistas, 57,319
381
Khan Academy,773 Macintosb o.5,29
Khoshnevis, Behrokh, 231 Madras,305
Kinect, 26, 27, 29, 30, 741, 356 Maguire, Eleanoq263
K.g, Martin Luúer,Jr., 55, 359 Manhattan Colleç,294
Kiva Systems,4l Manjoo, Farhad, 198, 222, 37 6, 37 8
Koller, Daphne, 173 Mankirr, N. Gregory, 153
Koza, John, 746,370 Mão de obra grisdha276
Kroget Compann 41 Máquina de esctia narrativa, 118
Knreger, Alaql57 Máquina para classifrcaçío de provas,
Knrgman, Pad 91, 257-259,365,381, 169
384 Máquina pensante, 287 -290, 296
Kuka AG, 34 aer tambám Inteügência Artificial
Krrq cadeia de restautantes de sdti, Forte
39 Máquinas
Kutzweil, Ran 1 10, 297, 292,385, 388 evolução para lâ de feramenas
para se transformarem em
Laboratódo de Inteügência Artificial trabalhado tes, 319, 320
(Universidade de StanforQ, 28 formação e colaboração com,
Lanier, JaÍon,109,367 160-168
Lary Lcgislaüon and Ubertl (Hayek), fusão de homens com, 160-168,
321 293,294
IrCun, Yann, 289,384 relacionamento com trabalhadores,
khman, Betsn 193 74
Iri deMoore, 14,65,93,98,100, 101, Máquinas automáticas de invenção,
173,778,126,290,350 746
Iris fundamenais da raat:'arcza, sistema Máquinas inteligentes de venda
não dependente descobre, 144 automática, 36, 42, 45, 799
Leno,Jay,227 Marcus, G^ry, 289, 296, 384, 385


Markoff, John, 58, 173, 2N, 355, 359, Mestado em ciência informática, com
366,368,372,373,379 base nos MOOC, 175
Maryland, abordaçm da tabela geral microprocessador, efeito de, 99
de preços e,216,217 Micmsort lYindows, 29, 30, l8l, 247
Massachusetts Institute of Technolog5l Microsoft, 26, 80, 74[., 141, 181, 241,
(MID, edX e,27 347
Match.com, 112 Mobilidade económica, decréscimo na,
Matedais à base de carbono, 101 75,275
Matizes reügiosos da Singularidade, Model T, 712,245
294 Momentum Machines, Inc., 36, 38,
Matrix (filme), 106
Reloaded 356
Mayo Clinic, 193,375 MOOC (cursos abertos onüne em
McAfee, Ândrew, 97, 160, 367 massa), 172-176,344

McDonald's, 37 -39, 264, 356, 357 como disruptores do modelo do


MD Ânderson Cancer Cetter,l92 ensino superior, 1 81-1 87
d65teçaliz2ção e,187
MD Buyline Inc., 138,369
diplomas de créditos académicos
Mechanical Turk, serviço, 164
com base nâ competência e,
Medalha Nacional da Tecnologia, 292
176-t8l
Medicaid, 38, 205, 277, 218
efrcícia dos,173,174
Medicare, 205, 207, 213, 214, 216-221,
fraude, plágio e,177,778
279,377
Moore, Gordon,295
Medicina
Motber J ones (revisa), 240
inteligência artiEcial na, 190, 191,
Mo tor Tnnd (retista), 237
t93
Motoristas de táxis de Londres,263
redefinir o lYatson como ferramena
Mudança/progresso tecnológicos
de diagnóstico, 17, 137,738
assistência social da força de
aertaabám Cuidados de saúde
trabalho ameicana e,72
MEDLINE, 191
crescimento económico e, 95
Megadados, 19,51n, 118, 119
cur\ras em S de, 97-99
aprendtzagem mecânic a e, 1 78, 17 0
desvio de competências, 76
aprendizagem profunda e, 125, 126 produtividade e,60
correlação lers$ causa e,120,127, Mulheres, particrpação na força de
137 trabalho e, 62, 69, 70, 89
cuidados de saúde e,205,206 Murray, Charles,327
empregos com base no Myers, P.2.,296,285
conhecimento,126-130 Myrdal, Gunnar,56
recolha de, 118, 119
Melni§ Mark, 276,382