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FREIXO, Adriano de.

e ADJOVANES, Thadeu Silva de Almeida – UERJ

OS ACORDOS MEC-USAID E A REESTRUTURAÇÃO DO SISTEMA


EDUCACIONAL BRASILEIRO

O movimento militar de 1964 e o regime implantado a partir dele são assuntos


que, ainda hoje, despertam paixões e controvérsias. O pouco tempo, do ponto de
vista histórico, que nos separam destes acontecimentos, muitas vezes interferem
nas análises e estudos feitos sobre eles, devido tanto ao comprometimento
ideológico-emocional dos estudiosos, quanto a inacessibilidade de boa parte das
fontes. De qualquer forma, nos últimos anos, o número de trabalhos acadêmicos
sobre este período de nossa história recente tem aumentado consideravelmente,
embora diversos aspectos do modelo político e econômico dos governos militares,
bem como alguns de seus desdobramentos, ainda continuem sendo assuntos muito
pouco estudados pela historiografia brasileira, constituindo-se, assim, em um campo
fértil para o trabalho do historiador.
Um desses assuntos que fazem por merecer uma atenção maior dos
historiadores, é a reestruturação do Sistema Educacional Brasileiro, notadamente a
do Ensino Superior, empreendida a partir dos acordos MEC-USAID e dos trabalhos
da Comissão Meira Mattos, constituída em dezembro de 1967, durante o governo
Costa e Silva. O estudo deste tema apresenta possibilidades múltiplas para o
pesquisador, pois ele tanto pode ser abordado a partir da perspectiva de seus
impactos sobre a educação brasileira, quanto da perspectiva da política externa
norte-americana em relação à América Latina, a partir dos anos 50, sem esquecer, é
claro, o aspecto através do qual ele tem sido mais estudado: o da resistência do
Movimento Estudantil à implementação desta reestruturação.
Como ponto de partida para uma breve reflexão sobre este tema, é
importante que seja feito um rápido histórico das relações entre os EUA e a América
Latina. Assim, é importante ressaltar que a influência norte-americana sobre o
restante do continente assumiu, como via de regra, desde o século XIX, a forma de
intervenção direta na política interna dos vários Estados latino-americanos, em
especial na região da América Central (continental e peninsular), sendo-nos possível
identificar este fato já na década de 1820, com a Doutrina Monroe e, quase
simultaneamente, com o Destino Manifesto e a Guerra contra o México (1846/48).
Com efeito, a atitude dos EUA para com os demais países ao sul de sua
fronteira oscilou entre a “defesa” de princípios não-intervencionistas (ao menos
enquanto lexis) e a ocupação/agressão militar (como praxis). Assim, por exemplo, ao
longo do século XX, a política norte-americana relativa aos países latino-americanos
significou, cronologicamente, o “big stick” (no início do século), a diplomacia do dólar
(período anterior à Primeira Guerra Mundial), a política da boa vizinhança (governo
Roosevelt), a doutrina da segurança nacional (governo Truman), a Aliança para o
Progresso (gestão Kennedy) e o apoio aos regimes ditatoriais (a partir de meados
dos anos 60).
Os acordos entre o Ministério da Educação e Cultura do Brasil e a USAID
(United States Agency for International Development), agência governamental norte-
americana encarregada da aplicação de projetos de auxílio externo do governo dos
EUA, têm de ser analisados levando em consideração a perspectiva destas
variações da política externa norte-americana, visto que podemos caracterizar estes
acordos como uma clara interferência norte-americana na estruturação de um novo
sistema educacional no Brasil.

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Os acordos MEC-USAID acontecem a partir do momento em que se
implementa uma nova política norte-americana para a América Latina, em
substituição à truculência
das intervenções diretas, dentro do espírito do “Big Stick”, que caracterizou esta
política até o início dos anos 60. Era a nova fase da política da ajuda que teve sua
mais perfeita expressão na “Aliança para o Progresso”.
Não se pode pensar que esta nova política implementada pelos EUA, possa
ser considerada um sinal de boa vontade e filantropia para com “seus irmãos pobres
do sul”, mas sim como uma determinação da ordem internacional de então:
A mudança da política diplomática do big stick para a não intervenção
através da ajuda foi determinada pela nova realidade internacional. No fundo,
foi uma mudança para continuar a relação de hegemonia econômica, uma
vez que houve a impossibilidade da continuidade da política do cassetete
impunemente (...) É sabido por todos que o móvel principal para o
surgimento da Aliança para o Progresso data do advento da tomada do
poder em Cuba por Fidel Castro. Aquele fato veio a mostrar o quanto estava
superada a diplomacia do Big Stick, dado ao grau de hostilidade que ela
acarreta ... 1
Com a guerra fria, a hostilidade de qualquer um dos blocos políticos
acarretaria, quase que automaticamente, a imediata simpatia de sua contra-aliança;
os países liderados pela URSS, assim, apoiariam, na maior parte dos casos,
qualquer Estado Nacional que não gozasse do reconhecimento norte-americano 2.
A partir da Revolução Cubana, e, principalmente, da opção socialista feita
pelo regime de Fidel Castro, além dos incidentes ocorridos quando da visita de
Richard Nixon (então vice-presidente dos EUA) à Bogotá (1959), o governo norte-
americano vê-se impelido a modificar sua política em relação aos países latino-
americanos. Como decorrência, a administração Kennedy instituía a “Aliança para o
Progresso”, que pretendia estabelecer modificações nas estruturas sociais dos
Estados “atrasados” da América, e, deste modo, impedir o aparecimento de novos
movimentos revolucionários no continente.
Ao mesmo tempo, como a outra face da política de Kennedy, a burguesia e o
próprio aparelho estatal dos EUA financiariam candidatos, organizações partidárias e
demais entidades favoráveis aos interesses norte-americanos na região (como, por
exemplo, o governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, durante o início
da década de 60), mantendo a estabilidade política da América Latina, e, nos
principais países, regimes nominalmente democráticos. Porém, por precaução, caso
a política da “Aliança para o Progresso” fracassasse, o governo Kennedy também
elabora a “Doutrina da Contra-Insurgência”:
A doutrina da contra-insurgência fez com que não apenas a política externa
dos Estados Unidos retomasse os princípios intervencionistas como
implicasse ainda numa reciclagem da função das forças armadas latino-
americanos. Os militares não seriam apenas os guardiães das normas
constitucionais mas passariam a exercer eles próprios o poder. ... 3

1
Arapiraca, José Oliveira. A USAID e a educação brasileira: um estudo a partir de uma abordagem
crítica do capital humano. Rio de Janeiro, IESAE/FGV, 1979, p. 142-143.
2
Cf. Eric J. Hobsbawm. A Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo, Companhia
das Letras, 1995, p. 427 e segs.
3
Schilling, Voltaire. Estados Unidos x América Latina: as etapas da dominação. 4a ed., Porto Alegre,
Mercado Aberto, 1991, p. 52.
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Caso a situação interna destes Estados se encontrasse sob o risco iminente
de uma vitória comunista, o aparato estatal norte-americano incentivaria a eclosão
de golpes militares, e a conseqüente eliminação das lideranças marxistas.
A partir do assassinato de Kennedy e da posse de Lyndon Johnson, o
governo norte-americano, paulatinamente, abandona a “Aliança para o Progresso”,
assim como a defesa das democracias locais, priorizando, em contrapartida, a
adoção de regimes ditatoriais, sob a direção de militares, em geral formados pela
Escola das Américas (e, no caso específico do Brasil, pela Escola Superior de
Guerra); semelhantes regimes suprimiriam a “ameaça comunista”, mediante a
utilização de todos os mecanismos disponíveis, especialmente a tortura e a
execução sumária e sistemática das dissidências intestinas:
As Forças Armadas tomaram o poder no Brasil em 1964 contra um inimigo
bastante semelhante [a Perón]: os herdeiros do grande líder populista
brasileiro Getúlio Vargas (1883-1954), que se deslocavam para a esquerda
no início da década de 1960 e ofereciam democratização, reforma agrária e
ceticismo em relação à política americana...4

Em abril de 1964, um golpe de Estado perpetrado pelas Forças Armadas,


após engendrar o apoio tanto das elites brasileiras como do governo norte-
americano, destitui João Goulart da Presidência da República.
O governo de Jango representou um período de recrudescimento da luta de
classes, com os interesses das classes populares e das elites dominantes se
polarizando acentuadamente. O desenvolvimento capitalista continuado
desde o final da Segunda Guerra começava a perder força e os conflitos
entre trabalhadores e burguesia pela apropriação da renda se
acentuaram. ...5

Após alguns dias, os colaboradores diretos deste último, isto é, assessores


e/ou ministros, encontram-se privados dos seus direitos políticos. Da mesma forma,
os militares afastam os governadores e parlamentares (Miguel Arraes, governador
de Pernambuco; Seixas Dória, governador de Sergipe; Leonel Brizola, deputado
federal pela Guanabara, etc...) mais intimamente relacionados com o governo
anterior, agora identificado com o “Populismo” e o “Comunismo”.
Ao mesmo tempo, inúmeros integrantes dos movimentos sociais da época –
União Nacional dos Estudantes, Ligas Camponesas, sindicatos vários – encontram
também os caminhos da prisão, do exílio ou do desaparecimento, procurando-se
eliminar, assim, qualquer possibilidade de resistência efetiva à instalação do novo
governo.
Da mesma forma, o regime estabelecido pelo golpe de abril de 64 procurou
modificar o arcabouço político do país, através da edição de sucessivos Atos
Institucionais, diminuindo-se o espaço de atuação dos opositores. Ao mesmo tempo,
objetivando refletir a mudança na organização institucional da república brasileira, o
regime militar estabeleceu novas Constituições, a primeira em 1967 e a segunda,
muito mais inflexível no trato com a oposição interna, em 1969. Tais cartas magnas
ampliaram consideravelmente as prerrogativas do ocupante da Presidência da
República.
Após a proclamação do AI-5, em fins de 1968, o regime militar procurou
diminuir, ainda mais, o espaço para a elaboração e divulgação das críticas aos atos
governamentais. Autores como Chico Buarque, Geraldo Vandré e Dias Gomes,
dentre outros vários exemplos, tiveram suas obras constantemente mutiladas e/ou
4
Hobsbawm, Eric J. A Era dos Extremos, Op. cit., p. 429.
5
Sader, Emir. O anjo torto: esquerda (e direita) no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1995, p. 98.
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proibidas na íntegra pelos censores oficiais, com seguidas justificativas de
imoralidade e subversão.
O novo regime também empenhou-se em legitimar-se através da produção e
divulgação de inúmeros livros didáticos, além de peças publicitárias de cunho oficial,
difundindo, deste modo, as opiniões e os valores do Alto Comando das Forças
Armadas. Estas obras deveriam ser utilizadas nas disciplinas englobadas sobre o
título genérico de Estudos Sociais, isto é, História, Geografia, Educação Moral &
Cívica, Organização Social e Política Brasileira e Estudos dos Problemas Brasileiros,
em todos os graus de ensino, abrangendo da alfabetização ao nível superior:
Em nenhum momento da História do Brasil os governantes foram tão
explícitos na sua violência contra a intelectualidade como foram os militares
em 1968-1969. A intenção de deformar a história não pararia aí. A criação da
área e de cursos de Estudos Sociais e a valorização do conjunto formado
pela Organização Social e Política do Brasil (OSPB), pela Educação Moral e
Cívica (EMC) e pelo Estudo dos Problemas Brasileiros, entre 1968 e 1971,
fizeram também parte dessa intenção.6

Por outro lado, a publicidade governamental objetivava atingir todas as


parcelas da sociedade, principalmente aqueles indivíduos que se encontravam
alijados do ambiente escolar.
Além disso, o governo brasileiro “incentivou” os autores de livros didáticos –
em qualquer grau de ensino – a adotarem, digamos assim, a versão oficial sobre o
regime militar, satanizando os opositores do regime e idealizando os adeptos deste
último. Nestes livros didáticos – herdeiros de uma longa tradição áulica, iniciada
ainda nos tempos coloniais – encontramos, ainda, a noção de que o Brasil do
período constituía-se em uma democracia, procurando, inclusive, demonstrar este
fato. Existiria, mesmo, uma “Democracia Brasileira”, que possuiria um caráter
superior ao “Comunismo”.
Deste modo, o governo militar – como qualquer regime político – empenhava-
se em divulgar uma imagem extremamente simpática de si mesma. Entretanto, ao
contrário de outros regimes, os militares brasileiros utilizaram-se da censura prévia –
tanto aos meios de comunicação como das formas de expressão artística – de
maneira a impossibilitar a crítica, asfixiando os insatisfeitos com semelhante estado
de coisas.
Assim, jornais e órgãos da imprensa viam-se impelidos a não publicar notícias
e/ou opiniões – o que incluía fotos e textos – negativas a respeito dos sucessivos
governos militares. Jornais, rádios e revistas, como, por exemplo, respectivamente,
Correio da Manhã, Mayrink Veiga e Civilização Brasileira sofreram pressões de tal
ordem que viram-se obrigadas a encerrar suas atividades. Ao contrário, as
Organizações Roberto Marinho, como outro exemplo emblemático, receberam
substanciais favores por parte dos ocupantes das posições de mando do Estado
Nacional brasileiro, veiculando, no cotidiano, mensagens subliminares de apoio à
manutenção do status quo.
Através deste percurso, os dirigentes brasileiros do período militar
engendraram o que Michel de Certeau denomina de Estratégia, isto é, através da
utilização do poder da força, estes indivíduos praticam a ocupação das posições
dominantes em um terreno específico:
(...) Chamo de estratégia o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que
se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma
empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A
6
Silva, José Luiz Werneck da. A deformação da História ou para não esquecer. Rio de Janeiro, Jorge
Zahar ed., 1985, p. 42.
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estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser
a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou
ameaças (os clientes ou concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade,
os objetivos e objetos da pesquisa, etc...).7

Através da observação, domina-se um espaço e delimita-o. O poder institui


uma estratégia; e, com isto, o aparelho estatal procura impor os seus valores, e, de
maneira análoga, as suas versões. Com este objetivo, enseja a reformulação do
ensino brasileiro, procurando estabelecer novas diretrizes, moldando, assim, as
futuras gerações brasileiras para, a longo prazo, simplesmente tornar impensável
qualquer forma de divergência. De modo análogo ao “big brother”, o regime militar
pretendia instituir novas Significações Imaginárias Sociais, reforçando o que
Cornelius Castoriadis denomina heteronomia, em contraposição à autonomia 8.
O conceito de Estratégia, assim, pode ser utilizado para situarmos, em
termos históricos, as diferentes atitudes do regime militar em relação ao Sistema
Educacional Brasileiro: inicialmente, os novos detentores do Poder não adotam
qualquer medida em relação à educação; somente quando decorridos alguns anos,
e após neutralizar as principais forças efetivas de oposição, a ditadura avança sobre
o setor educacional.
Assim, podemos afirmar que tais fatos deveram-se, em grande medida, à
uma estratégia deliberada: após a desqualificação do que veio antes, e sua posterior
eliminação, empreendeu-se a edificação de uma “nova” educação, objetivando
interiorizar nos indivíduos, em todos os níveis, as idéias/ações/afetos mais
condizentes com a nova ordem então implementada.
Em relação ao Ensino Superior, a assinatura dos acordos MEC-USAID reforça
este aspecto, a partir do momento em que estes modificam, integralmente, a
estrutura universitária existente no Brasil. Ao mesmo tempo, o Estado procura alijar
da Universidade, através de demissões e aposentadorias compulsórias, aquela parte
do segmento docente que assumiu uma postura crítica em relação ao novo regime e
as medidas por ele implementadas. Está claro, que semelhantes atitudes possuíam
o objetivo deliberado de prolongar os efeitos da hegemonia deste novo regime sobre
o “corpus” social.
Os acordos MEC-USAID pretendiam, assim, impor um “consenso” ideológico
sobre a sociedade brasileira, extinguindo quaisquer possibilidades de retorno ao
passado mais próximo, isto é, àquele período marcado pela “ameaça comunista” e
pela força eleitoral de partidos como o PTB e pela forte influência do sindicalismo
controlado pelos trabalhistas, esteios principais da política populista:
Com o golpe de 1964, no Brasil, instaurou-se um regime autoritário que se
empenhou em reforçar os mecanismos de controle do ensino, visando
converter a escola em um aparelho ideológico do Estado. Toda uma
legislação - emanada de um Poder Executivo hipertrofiado e de um
Legislativo constantemente esvaziado de atribuições e figuras combativas
que eram cassadas - alterou cargas horárias, disciplinas, programas e até
mesmo a estrutura de primeiro, segundo e terceiro graus. Era fundamental

7
Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano, v. 1: artes de fazer. 2a ed., Petrópolis, Vozes, 1994, p.
99, grifos no original.
8
O conceito de autonomia revela-se-nos central na obra de Castoriadis, e, embora presente em
grande parte de sua obra, pode ser encontrada dispersa, principalmente nos 5 volumes que
compõem As Encruzilhadas do Labirinto; ver, para maiores detalhes, especialmente os artigos “O
imaginário: a criação no domínio social-histórico”, “A polis grega e a criação da democracia” e
“Natureza e valor da igualdade” (todos contidos no v. 2: os domínios do homem).
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para os ‘construtores da nova sociedade’ acabar com o processo de
conscientização, iniciado sobretudo em fins da década de 1950.9

Além disso, a falência do modelo de desenvolvimento nacional-populista, e a


subida ao poder de militares alinhados com as posições norte-americanas, fazem
com que seja implementado no Brasil um novo modelo econômico, voltado para os
interesses do capital internacional. Desta forma, os acordos MEC-USAID objetivam
atender a readequação do sistema educacional brasileiro, no interior das
transformações decorrentes da opção por aquele modelo.
Desta forma, parece-nos possível identificar duas idéias fundamentais que
nortearam a assinatura dos referidos acordos:
1- a necessidade da formação de mão de obra e recursos humanos dos mais
diversos níveis de qualificação, para serem absorvidos pelas grandes corporações
nacionais e transnacionais estabelecidas no país;
2- a busca da adequação ideológica do indivíduo à lógica do capital. Valoriza-se a
competição, em detrimento da solidariedade. A educação passa a ser encarada
como um instrumento de ascensão profissional e social, e não mais como um
elemento fundamental para a formação plena do indivíduo.
Influenciada pela teoria do capital humano, a reforma que seria produzida a
partir da assinatura destes acordos internacionais vincularia a educação à produção,
em seu sentido estrito, isto é, a finalidade única do processo educacional seria a
formação de trabalhadores com melhor qualificação profissional.
A mística do capital humano passa a se constituir no passaporte da
ascensão social possível, já que está ao alcance de todos a oportunidade de
educar-se e daí aumentar o seu poder de barganhar maiores salários. Todos
são iguais perante a lei. Ganha o mais apto. Reifica-se o indivíduo em
detrimento da classe. Minimiza-se a contradição social básica entre capital e
trabalho.10

A utilização da teoria do capital humano pelos militares vinculou o


desenvolvimento econômico à aquisição de conteúdos curriculares mínimos,
reduzindo sobremaneira, assim, a amplitude do fazer educacional; agora, a posse de
um diploma/título transformava seu portador em feliz candidato ao paraíso da ordem
capitalista, possibilitando-lhe penetrar nas camadas médias urbanas, nas profissões
de nível superior ou em algumas de nível técnico (desde que fornecedoras de
prestígio). Esta perspectiva remete-nos ao pensamento de Louis Althusser que
afirmava que “é nas formas e sob as formas da sujeição ideológica que é
assegurada a reprodução da força de trabalho” 11, ou seja, a reprodução da força de
trabalho, feita através da escola e de outras instituições do Estado, deve-se sujeitar
à ideologia dominante. Assim, a instituição escolar não teria somente o papel de
transmitir o conhecimento técnico e científico, mas também o de adequar
ideologicamente o indivíduo.
Não podemos de deixar de destacar, também, o fato de que sistema
educacional implementado a partir dos acordos MEC/USAID terem contribuído para
a manutenção de nossa dependência externa, embora, a partir de então, em níveis
substancialmente distintos:

9
Depoimento de Rubim Santos Leão de Aquino, in Silva, José Luiz Werneck da. A deformação da
História, Op. cit., p. 50.
10
Arapiraca, José Oliveira. A USAID e a educação brasileira: um estudo a partir de uma abordagem
crítica do capital humano, Op. cit., p. 152.
11
Althusser, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa, Editorial Presença, s/d., p.
23.
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Em se tratando de sociedades colonizadas ou recém-saídas do
colonialismo, a ajuda internacional tem sido instrumento eficiente de
fornecimento e preparo de mão de obra ou recursos humanos de vários
níveis de qualificação, culturalmente adaptados aos objetivos da
consolidação da dependência, mesmo após a emergência das sociedades
nacionais.12

É óbvio que a assinatura de acordos deste gênero iria acarretar protestos dos
setores diretamente interessados na questão, notadamente os estudantes. Depois
de esgotadas quaisquer tentativas de diálogo com o governo, restou somente às
lideranças estudantis o caminho da radicalização do movimento, com o início de
uma série de protestos e manifestações de rua, onde a denúncia destes acordos
emergia como um dos seus principais componentes. Como decorrência direta desta
realidade:
(...) o movimento estudantil brasileiro, ante a repressão policial e os acordos
com a USAID, não tinha a mínima razão para acreditar na veracidade e na
força das chamadas “componentes nacionalistas e democráticas” do
governo. Só restava, assim, aos jovens, o desenvolvimento, cada vez mais
profundo, de suas lutas e campanhas de protesto. E foi o que ocorreu ... As
perspectivas só podiam ser de enrijecimento da posição dos jovens, já que
os acordos MEC-USAID não podiam coexistir com o mais elementar diálogo
estudantes/autoridades governamentais.13

É interessante notar que a discussão sobre a Reforma do Ensino,


notadamente a questão da Reforma Universitária, era algo bastante presente nos
meios estudantis antes do Golpe de 1964, como pode ser bem exemplificado pela
realização de dois Seminários Nacionais sobre a Reforma Universitária, em 1961 e
1962, organizados pela UNE. Desta forma, o Movimento Estudantil também possuía
a sua proposta de Reestruturação do Ensino no Brasil, em especial o Ensino
Superior, defendendo a modernização e a democratização das Universidades
Brasileiras através da livre organização dos estudantes e da eleição de diretores de
escolas e reitores de Universidades pelos conselhos formados por professores e
estudantes, com representação paritária, além, é claro, do princípio da Autonomia
Universitária. Assim, conforme afirma o historiador Thomas Skidmore:
Virtualmente todos concordavam [estudantes e governo] com a necessidade
de uma reforma universitária, inclusive uma reformulação do sistema de
admissão. Mas também havia profundas divergências sobre o que
exatamente deveria ser modificado. O governo Castelo Branco propusera
reformas ambiciosas (para todos os níveis de ensino) a serem planejadas e
executadas pelo Ministério da Educação (MEC) em conjunto com a USAID
(daí o rótulo MEC-USAID). O programa foi imediatamente atacado pelos
nacionalistas, especialmente os estudantes, que o denunciaram como
“infiltração imperialista na educação brasileira”. 14

Devido ao fato de outros canais de expressão política da sociedade terem


sido fechados pelo regime militar, as grandes manifestações estudantis, ocorridas no
período, terminaram aglutinando todos os setores insatisfeitos com aquela realidade,
o que elucida, ao menos em parte, o apogeu vivenciado pelo movimento estudantil
durante a década de 60.

12
Romanelli, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1987, p. 200.
13
Poerner, Artur José. O poder jovem. 2a ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979, p. 253.
14
Skidmore, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989, p. 154.
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Por tudo isso, é inegável que os acordos MEC-USAID e seus
desdobramentos constituam-se em um dos aspectos da ditadura militar que
merecem uma maior atenção dos pesquisadores, principalmente nestes tempos
presentes - onde a discussão da Reforma Universitária volta à ordem do dia - em
que a História, mais do que nunca, tem o papel de não nos deixar esquecer.

Referências Bibliográficas
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa, Editorial
Presença, s/d.
ARAPIRACA, José Oliveira. A USAID e a educação brasileira: um estudo a partir de
uma abordagem crítica do capital humano. Rio de Janeiro, IESAE/FGV, 1979,
(mimeo).
CASTORIADIS, Cornelius. As Encruzilhadas do Labirinto, v. 2: os domínios do
homem. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano, v. 1: artes de fazer. 2a ed.,
Petrópolis, Vozes, 1994.
HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São
Paulo, Companhia das Letras, 1995.
POERNER, Artur José. O poder jovem. 2a ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1979.
ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. Petrópolis, Vozes,
1987.
SADER, Emir. O anjo torto: esquerda (e direita) no Brasil. São Paulo, Brasiliense,
1995.
SCHILLING, Voltaire. Estados Unidos x América Latina: as etapas da dominação. 4a
ed., Porto Alegre, Mercado Aberto, 1991.
SILVA, José Luiz Werneck da. A deformação da História ou para não esquecer. Rio
de Janeiro, Jorge Zahar editor, 1985.
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1989.

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